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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA

EXCELENTÍSSIMA SENHORA DIRETORA DO DEPARTAMENTO


DE PROTEÇÃO E DEFESA ECONÔMICA
DRª. ANA PAULA MARTINEZ

“Permitam ao fornecedor de serviço


essencial (água, energia elétrica,
telefonia) incluir na conta, sem
autorização expressa do consumidor, a
cobrança de outros serviços. Excetuam-
se os casos em que a prestadora do
serviço essencial informe e disponibilize
gratuitamente ao consumidor a opção de
bloqueio prévio da cobrança ou
utilização dos serviços de valor
adicionado” (Cláusula considerada nula de
pleno direito, conforme Portaria nº 3, da
Secretaria de Direito Econômico, de 22 de
março de 1999).

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA


CATARINA, pelo titular da Promotoria de Justiça de Seara, com base nos
documentos que seguem e nos artigos 5º, XXXII; 127, caput, e 129, III
e IX, da Constituição Federal, vem perante Vossa Excelência
REPRESENTAR pela instauração de processo administrativo para
apuração e repressão de infrações da ordem econômica (art. 14, VI, da
Lei nº 8.884/94), em face de:

SEGURADORA ACE S.A., pessoa jurídica de direito privado,


inscrita no CNPJ sob o nº 3.502.099/0001-18, com endereço na Avenida
Paulista, 1294, 17º e 18º andar, São Paulo/SP, Presidente Flávio Bauer,
CPF nº 29.396.018-60;

QBE BRASIL SEGUROS S.A., pessoa jurídica de direito


privado, inscrita no CNPJ sob o nº 96.348.677/0001-94, com endereço na

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Praça General Gentil Falcão, 108, 7º andar, Cidade Monções, São Paulo,
CEP 04.571-150, SP;

BRASIL TELECOM S/A, pessoa jurídica de direito privado,


inscrita no CNPJ sob o nº 76.535.764/0322-66, que deverá ser citada por
intermédio de seu representante legal na Av. Madre Benvenuta, 2080,
Itacorubi, Florianópolis, SC, CEP 88035-090;

1. Fatos

No final de 2008 o Procon de Seara apresentou ao Ministério


Público cópia de vinte e cinco reclamações apresentadas por
consumidores da região durante o ano, dando conta de que a
Seguradora ACE S.A. e a QBE Brasil Seguros S.A., com o apoio da Brasil
Telecom S.A., vêm fraudulentamente incluindo nas faturas dos serviços
de telefonia fixa a cobrança de serviços não contratados.

Apresentou na sequência, também, gravações de cinco


consumidores da cidade, ludibriados pelos vendedores de seguro das
empresas representadas, como se poderá ouvir no anexo.

O mecanismo é simples mas eficaz, e vem enriquecendo


ilicitamente as empresas em detrimento dos consumidores. Roga-se para
que Vossa Excelência ouça o CD anexo e tenha exata dimensão da
gravidade da conduta.

Em síntese, mediante autorização da Brasil Telecom S.A., a


Ace Seguradora S.A. e QBE Brasil Seguros S.A. passam a cobrar de
consumidores locais serviços denominados “super seguro premiado”,
“renda garantida familiar QBE”, “seguro em casa – ACE”, entre outros.

Os seguros geralmente são oferecidos aos consumidores por


telefone (CD anexo), como se fosse um brinde, um benefício a mais
oferecido pela prestadora de serviços telefônicos. Em muitos casos –
conforme gravações anexas – os consumidores não chegam a ser

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efetivamente consultados, mas apenas informados de que o seguro será


incluído na próxima fatura.

Os primeiros meses, mentem os vendedores, serão gratuitos.


Após – outra mentira – caso não se interessem poderão cancelar
facilmente o serviço. Em alguns casos inclusive crianças foram
interpeladas por telefone.

Como é evidente, no entanto, o cancelamento do serviço se


torna um verdadeiro calvário. Os consumidores não conseguem contato
telefônico com a empresa e muitos acabam pagando para não
experimentarem o incômodo. Em diversos casos os consumidores
chegam a claramente negar interesse pelo serviço, mas ainda assim na
fatura do mês seguinte vem registrado o débito.

Alguns consumidores, certamente uma minoria, comparece


ao Procon de Seara e, após notificação, prontamente as requeridas
Seguradora ACE S.A. e QBE Brasil Seguros S.A. aceitam cancelar o
serviço: um excelente negócio, já que poucas pessoas chegam neste
ponto.

As empresas, no entanto, negam-se a fazer o ressarcimento


das quantias já pagas e negam-se também a ressarcir os consumidores
em dobro, como determina o Código de Defesa do Consumidor.

A título exemplificativo, destacamos as seguintes


reclamações:

Reclamante Serviço não Valor Data Cidade


solicitado R$
Aldemir Albani Seguro Renda 12,90 2/4/2007 Seara
Garantia Familiar
Clodoveu Super Seguro 15,90 6/10/2008 Seara
Bavaresco Premiado – ACE
Sérgio Balzan Super Seguro 15,90 29/4/2008 Seara
Familiar – ACE

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Evandro José Super Seguro 15,90 6/11/2008 Seara
Paludo Premiado – ACE
Nilse Carraro Super Seguro 15,90 23/10/2008 Seara
Premiado – ACE
Aldemir Albani Super Seguro 15,90 30/10/2008 Seara
Premiado – ACE
Celso Vortmann Renda Garantida 12,90 3/11/2008 Seara
Familiar QBE
Elvira Renda Garantida 12,90 4/11/2008 Seara
Terezinha Familiar QBE
Kaiper
Eduardo Renda Garantida 12,90 16/9/2008 Seara
Francisco Familiar QBE
Gabiatti
Noeli Sinhorini Renda Garantida 12,90 3/11/2008 Seara
Carollo Familiar QBE
Romilda Maia Seguro em Casa ACE 4,39 8/4/2008 Seara
Nelson Olkoski Seguro Premiado 10,90 30/1/2008 Seara
Família – ACE
Anselmo Seguro Proteção 15,90 15/5/2008 Seara
Rodrigues Plena – Renda
Muora
Saudina Maria Seguro Renda 7,90 13/6/2008 Xavantina
Perondi Garantia Individual
Grosbeli
Ivonete Denis Seguro não 9/6/2008 Itá
Wollmann identificado

Embora afirme não ter responsabilidade pelo procedimento


das seguradoras, alegando limitar-se a incluir os valores nas faturas, é
evidente que a Brasil Telecom S.A. lucra com as fraudes das seguradoras.

É absolutamente evidente que a gigante da telefonia fixa não


trabalha de graça. Aliás, no mundo corporativo, nenhuma empresa
fornece serviços gratuitamente. Certamente mantém contrato com as
seguradoras para fornecer esta facilidade e cobrar em suas faturas o
valor dos seguros, contrato ao qual não se teve acesso.

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Não pode a Brasil Telecom S.A., portanto, exonerar-se de sua


responsabilidade, já que concorre para o evento danoso ao aceitar a
inclusão das cobranças sem antes certificar-se da idoneidade da empresa
contratante. Aliás, nenhuma empresa que cobre dívidas alheias é
suficientemente tola para aceitar a cobrança de qualquer dívida: ou o
valor que ganha é muito bom para justificar o risco, ou então o serviço
não é contratado. Não se pode ser tolo de imaginar o contrário.

De qualquer forma, não fosse a conivência da Brasil Telecom


S.A., fraudes como estas não estariam recheando os escaninhos do Poder
Judiciário e dos Procons para causar tamanho prejuízo aos consumidores.

A prática, portanto, merece ser coibida, condicionando a


prestação de qualquer serviço adicional pela Brasil Telecom à solicitação
ou autorização expressa do consumidor, que deverá ser registrada e
arquivada para posterior comprovação, conforme, aliás, precedente
jurisprudencial destacado nesta inicial.

3. Direito

3.1. Obrigatoriedade da adequação e eficiência dos serviços públicos

O art. 22 do Código de Defesa do Consumidor determina que


o serviço público deve ser prestado de forma adequada, eficiente, segura
e, quanto aos essenciais, contínua.

As estatísticas, todavia, amplamente divulgadas,


demonstram que o maior número de reclamações nos órgãos de defesa
do consumidor estão relacionadas com os serviços telefônicos.

Práticas como a combatida nesta representação são


exemplos do tratamento dado aos consumidores pelas prestadoras dos
serviços telefônicos e seguradoras do País, provocando uma grande
indignação dos usuários, diante da impotência sentida pela cobrança de
um valor inserido na conta telefônica por um serviço que jamais foi
solicitado ou autorizado, com o risco, inclusive, de ter cancelado o direito

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de utilização do serviço telefônico, por falta de pagamento, gerando uma


sensação de impunidade e revolta que exige uma pronta e enérgica
atuação da Justiça.

3.2. Fornecimento de serviço sem solicitação prévia – prática abusiva

Como corolário do princípio da boa-fé objetiva e da liberdade


de escolha, o Código de Defesa do Consumidor proibiu e reconheceu
como prática abusiva o fornecimento de qualquer produto ou serviço sem
solicitação prévia, asseverando:
Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços,
dentre outras práticas abusivas:
[...]
III – enviar ou entregar ao consumidor, sem solicitação
prévia, qualquer produto, ou fornecer qualquer serviço;
[...]

Tão evidente é a abusividade da cobrança que a Secretaria


de Direito Econômico, em 22 de março de 1999, pela Portaria nº 3,
reconheceu como nula a cláusula contratual que permita ao fornecedor
de serviço essencial (água, energia elétrica, telefonia) incluir na conta,
sem autorização expressa do consumidor, a cobrança de outros serviços.

O Secretário de Direito Econômico do Ministério da Justiça, no


uso de suas atribuições legais [...] resolve:
Divulgar, em aditamento ao elenco do art. 51 da Lei nº
8.078/90, e do art. 22 do Decreto nº 2.181/97, as seguintes
cláusulas que, dentre outras, são nulas de pleno direito:
[...]

3. Permitam ao fornecedor de serviço essencial (água,


energia elétrica, telefonia) incluir na conta, sem
autorização expressa do consumidor, a cobrança de
outros serviços. Excetuam-se os casos em que a
prestadora do serviço essencial informe e disponibilize
gratuitamente ao consumidor a opção de bloqueio
prévio da cobrança ou utilização dos serviços de valor
adicionado”.
3.3 Serviço não solicitado e sua gratuidade – devolução em dobro do
requerido
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Os serviços prestados ao consumidor sem solicitação prévia


são considerados gratuitos, sem obrigação de pagamento, conforme
dicção do parágrafo único do art. 39 do CDC, verbis:
Parágrafo único. Os serviços prestados e os produtos
remetidos ou entregues ao consumidor, na hipótese prevista
no inciso III, equiparam-se às amostras grátis, inexistindo
obrigação do pagamento.

Nada mais natural, assim, que as demandadas sejam


obrigadas a prestar os serviços não solicitados gratuitamente, desde que
o consumidor tenha interesse em sua manutenção.

Em qualquer caso, os valores cobrados deverão ser


ressarcidos em dobro, conforme determina o parágrafo único do art. 42
do Código de Defesa do Consumidor.

3.4. Legislação do serviço telefônico

A legislação específica do serviço telefônico também foi


desconsiderada pela representada Brasil Telecom S.A.

A Lei nº 9.472/97, que dispõe sobre o serviço de


telecomunicações, reconhece, no seu artigo 5º, a necessidade de
observação do princípio constitucional da defesa do consumidor:

Art. 5º. Na disciplina das relações econômicas no setor de


telecomunicações observar-se-ão, em especial, os princípios
constitucionais da soberania nacional, função social da
propriedade, liberdade de iniciativa, livre concorrência,
defesa do consumidor, redução das desigualdades regionais
e sociais, repressão ao abuso do poder econômico e
continuidade do serviço prestado no regime público.
(destacamos)

O Regulamento do Serviço Telefônico Fixo Comutado1,


editado pela Anatel por autorização da mencionada Lei nº 9.472/97, no
1
Resolução nº 476/2005, da Anatel, disponível em:
http://www.anatel.gov.br/Portal/verificaDocumentos/documento.asp?
null&filtro=1&documentoPath=biblioteca/resolucao/2005/anexo_res_426_2005.pdf
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seu art. 12 exige o prévio conhecimento do consumidor de qualquer


alteração nas condições de prestação do serviço e proíbe a prestação de
serviço não solicitado, in verbis:

Art. 11. O usuário do STFC tem direito:


VII – ao conhecimento prévio de toda e qualquer alteração
nas condições de prestação do serviço que lhe atinja direta
ou indiretamente;
XVIII – de não ser obrigado ou induzido a consumir serviços
ou a adquirir bens ou equipamentos que não sejam de seu
interesse, bem como a não se compelido a se submeter a
condição para recebimento do serviço, nos termos deste
regulamento.

Fica claro, assim, que a conduta das representadas,


amplamente comprovada pelos documentos que instruem a presente
ação, viola os mais comezinhos princípios do Código de Defesa do
Consumidor e do regulamento de serviço telefônico, justificando todos os
pedidos desta ação coletiva de consumo.

3.5. Precedentes jurisprudenciais

As fraudes promovidas pelas requeridas são conhecidas dos


tribunais brasileiros, mas exigem concomitantemente a firme atuação do
Ministério da Justiça e da Superintendência de Seguros Privados.
Destacamos as seguintes decisões relacionadas a cobranças indevidas
em serviços de telefonia:

CONSUMIDOR. COBRANÇA DE SERVIÇOS NÃO


CONTRATADOS. DESCONTO EM FATURA DE SEGURO NÃO
CONTRATADO PELA CONSUMIDORA. LEGITIMIDADE PASSIVA
DA EMPRESA DE TELEFONIA QUE EFETUOU A COBRANÇA
INDEVIDA. DIREITO À RESTITUIÇÃO EM DOBRO DO VALOR
PAGO. DANOS MORAIS OCORRENTES. QUANTUM
INDENIZATÓRIO REDUZIDO.

1. Não tendo a ré comprovado a contratação do serviço


“Fale.com” e do seguro “Super Seg Premiado Individual –
ACE Seguradora” e sequer demonstrado o efetivo uso de tais
serviços por parte da autora, o que a ela cabia para justificar

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as cobranças realizadas, tem-se estas por ilegais, merecendo


amparo a pretensão da autora de ser ressarcida por tais
valores. Como o referido seguro estava sendo descontado na
fatura da conta telefônica, ou seja, a cobrança era efetuada
pela ré, esta é legitima para figurar no pólo passivo.

2. Constatado que os serviços não foram contratados pela


autora, é indevida a sua cobrança, mostrando-se correta a
condenação na devolução dos valores cobrados, por força do
disposto no art. 42 do CDC.

3. Mesmo diante de diversas reclamações, diversos registros


de protocolos, não se mostrou a ré disposta a resolver a
situação da autora, o que caracteriza o desrespeito
exacerbado que extrapola os comuns da convivência em
sociedade, sendo passível de compensação a título de dano
moral.
4. O quantum indenizatório fixado na sentença (R$ 2.500,o)
não merece modificação, pois adequado aos princípios da
proporcionalidade e da razoabilidade, bem com ao caso
concreto2.

APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL


- LANÇAMENTO DE DÉBITO EM FATURA TELEFÔNICA DE
CLIENTE QUE JAMAIS FOI ASSINANTE DO PERIÓDICO -
EQUÍVOCO CAUSADO POR ERRO DE DIGITAÇÃO - INÉRCIA
DAS EMPRESAS QUANTO À SOLUÇÃO DO PROBLEMA -
SUSPENSÃO TOTAL DOS SERVIÇOS DE TELEFONIA EM
VIRTUDE DO NÃO PAGAMENTO DO VALOR INDEVIDO - CULPA
DEMONSTRADA - PRESTAÇÃO DE SERVIÇO DEFEITUOSA -
DANO MORAL INDENIZÁVEL - PLEITO PELA MINORAÇÃO DO
QUANTUM INDENIZATÓRIO - ACOLHIMENTO - PRINCÍPIOS DA
PROPORCIONALIDADE E DA RAZOABILIDADE - PEDIDO DE
REDUÇÃO DA VERBA HONORÁRIA - PERCENTUAL FIXADO EM
CONSONÂNCIA COM OS PARÂMETROS DO ART. 20, § 3º, DO
CPC - MANUTENÇÃO - INCIDÊNCIA DE CORREÇÃO MONETÁRIA
A PARTIR DESTE PROVIMENTO JURISDICIONAL -
PRECEDENTES DO STJ - INSURGÊNCIAS RECURSAIS
PARCIALMENTE PROVIDAS3.

CIVIL – CONSUMIDOR - SERVIÇO DE TELEFONIA – COBRANÇA


INDEVIDA – DANO MORAL EVIDENCIADO –
2
1ª Turma Recursal Cível, TJRS, AC nº 71001704360, rel. Ricardo Torres Hermann, j.
11.9.2008
3
TJSC. Apelação cível n. 04.004123-3.
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RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DAS PRESTADORAS DE


SERVIÇOS – DEVER DE INDENIZAR. 1- A cobrança indevida de
serviços telefônicos contratados enseja o dever de indenizar,
mormente quando a matéria já tenha sido objeto de ação
indenizatória julgada procedente, em face de outras
cobranças relativas ao mesmo contrato. 2- Responde
solidariamente as prestadoras de serviços quando, mesmo
tendo uma induzido a outra em erro, houver lesão aos
direitos do consumidor, devendo aquelas apurar,
posteriormente, responsabilidades em ação própria. 3-
Enseja dano moral a simples ameaça na negativação do
nome do consumidor, bem como a cobrança indevida de
dívida inexistente. 4- Sentença mantida4.

Ação civil pública - Telefonia celular - Seguro celular -


Comprovação de que as contratações resultaram
invariavelmente de consentimento e solicitação dos usuários
- Inversão do ônus da prova, em favor do autor, substituto
processual - Autor que está atuando com legitimação
extraordinária (substituto processual), no lugar, por
conseguinte, dos usuários do serviço, consumidores,
inegavelmente - Inocorrência de situação em que se exigiria
da prestadora dos serviços de telecomunicações produção de
prova negativa - Inaplicabilidade ao caso do dever de sigilo
das comunicações dos usuários dos serviços de
telecomunicações - Hipossuficiência do autor em relação à
ré, principalmente estimando-se a necessidade de produção
de prova que somente esta última está capacitada para fazê-
lo - Código de Defesa do Consumidor (CDC), art. 6.°, inc. VIII -
Agravo de instrumento desprovido5.

4. Conclusão

Diante de tudo o que foi exposto, dos precedentes


jurisprudenciais e da extensa documentação que segue anexa, o
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA requer:

a) o recebimento e autuação desta representação;

b) a adoção de medidas preventivas que conduzam à


cessação de prática narrada nesta representação, mediante a suspensão

4
TJDF. 2ª Turma Recursal dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais, Processo nº
2004.01.1.000656-3.
5
TJPR. Nº do Acórdão: 16267. Agravo de Instrumento nº 234675-6.
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da cobrança dos seguros nas faturas telefônicas dos consumidores de


Seara, Arvoredo e Xavantina (Comarca de Seara, Santa Catarina),
fixando-se o prazo de 10 dias para seu cumprimento e multa diária no
valor de R$ 10.000,00 por consumidor, no caso de descumprimento (art.
14, XI, da Lei nº 8.884/94);

c) ao final, a aplicação de multa, conforme art. 23 da Lei nº


8.884/94, em valor compatível com o dano e com as condições
econômicas das representadas, até que se obtenha efetiva adequação da
conduta das representadas.

Seara, 3 de agosto de 2009

Eduardo Sens dos Santos


Promotor de Justiça

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