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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA

EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ DE DIREITO DA COMARCA DE


SEARA

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA


CATARINA, por ser Promotor de Justiça, no uso de suas atribuições
institucionais, com base no artigo 127 e 129, inciso III, da Constituição
Federal, no artigo 25, inciso IV, letra “a” da Lei 8.625/93 (Lei Orgânica
Nacional do Ministério Público), no artigo 82, inciso I, da Lei 8.078/90
(Código de Defesa do Consumidor) e artigo 5º, da Lei 7.347/85 (Lei da
Ação Civil Pública) e Procedimento Preparatório nº 107/2008, propõe a
presente AÇÃO CIVIL PÚBLICA (com pedido de liminar), contra a
empresa

FUJI YAMA DO BRASIL INDÚSTRIA DE APARELHOS


FISIOTERÁPICOS LTDA., pessoa jurídica de direito privado, inscrita no
CNPJ sob o nº 80.217.532/0001-14, Rua Antônio Capello, nº 937, Jardim
Maria Lúcia, Londrina, Paraná;

MAGNETIC DO BRASIL COLCHÕES LTDA., pessoa jurídica


de direito privado, inscrita no CNPJ sob o nº 06.085.144/0001-74, com
endereço na Rua Manoel Miguel Bittencourt, 877, Sala A, Bairro São João,
Tubarão, Santa Catarina;

JEFERSON E ROGÉRIO COMÉRCIO DE ALMOFADAS E


COLCHÕES LTDA. ME (Kayoama Jr), pessoa jurídica de direito privado,

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inscrita no CNPJ sob o nº 08.388.391/0001-75, com endereço na Rua São


Vicente, 726, Sala 1, Bairro Boa Vista, Joinville, Santa Catarina;

BANCO BMG S.A, pessoa jurídica de direito privado,


inscrita no CNPJ sob nº 61.186.680/0001-74, na pessoa de seu presidente
Márcio Alaor de Araújo, situado na Avenida Álvares Cabral, 1707, Bairro
Santo Agostinho, Belo Horizonte, Minas Gerais.

1. Objetivo da ação

Esta ação civil pública tem por objetivo anular contratos de


financiamento e de venda de colchões e almofadas pretensamente
fisioterápicos celebrados mediante induzimento de idosos a erro nos
municípios componentes da Comarca de Seara.

Tem também por objetivo obter, inclusive em provimento


liminar, ordem para que o INSS suspenda todos os descontos consignados
em proventos previdenciários das consignações referentes a esta espécie
de contrato, diante de sua nulidade, mediante simples requerimento do
Procon de Seara.

2. Legitimidade passiva das demandadas

A primeira demanda, Fuji Yama do Brasil Ltda. é fabricante


de produtos denominados “fisioterápicos”, considerados “correlatos aos
produtos de proteção à saúde”, conforme a legislação sanitária vigente.

O Banco BMG S.A. figura como financiador dos empréstimos


consignados firmados para pagamento dos produtos vendidos pelas
empresas e seus representantes a consumidores desta Comarca,
contratos estes que deverão ser anulados ante a irregularidade da venda
e do produto oferecido ao mercado.

Das provas coletadas e acostadas ao Procedimento


Preparatório infere-se que a empresa fabricante fornecia aos vendedores
todo o equipamento necessário para a comercialização de seus produtos.
Fácil concluir, portanto, que também é considerada fornecedora para a
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caracterização da relação de consumo respondendo pelos atos praticados


por seus representantes comerciais.

Do Código de Defesa do Consumidor extrai-se o seguinte:


Art. 3º Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou
privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes
despersonalizados, que desenvolvem atividades de produção,
montagem, criação, construção, transformação, importação,
exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou
prestação de serviços.
Dos documentos que instruem a presente ação tem-se que a
comercialização dos produtos, de maneira lesiva aos consumidores da
região de Blumenau, na sua grande maioria pessoas de poucos recursos
financeiros e idosos, era realizada por representação comercial de
empresas sediadas nesta cidade. Tal situação não exime a fornecedora da
sua responsabilidade na cadeia de consumo a teor do art. 34 do Código de
Defesa do Consumidor:

Art. 34 O fornecedor do produto ou serviço é solidariamente


responsável pelos atos de seus prepostos ou representantes
autônomos.

Igual conclusão chega-se em relação aos contratos de


financiamento firmados com as instituições financeiras, porquanto o
representante comercial que viabiliza a realização de contratos nos
termos que se narrará a seguir nada mais é do que um representante do
banco demandado, já que colhia as assinaturas dos aposentados nos
contratos bancários, providenciava as cópias dos documentos exigidos
pelo banco e encaminhava ao mesmo para análise, preenchimento e
aprovação.

A partir do momento em que a instituição financeira abre


mão de suas agências e de pessoal regularmente contratado para o
atendimento de consumidores, colhendo frutos da atividade altamente
lesiva e lucrativa da venda das “almofadas” e “colchões” em domicílio,

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deve arcar, também, com as conseqüências jurídicas advindas de ilícitos


perpetrados pelos “vendedores”.

A teor do Código de Defesa do Consumidor caberia às


empresas e instituições financeiras a escolha correta e idônea de seus
representantes devendo sofrer as conseqüências legais dos seus atos
lesivos e não, apenas, o bônus decorrente das vendas.

3. Fatos

3.1. Ardil na contratação – negativa de direito de arrependimento

O Procon de Seara remeteu à Promotoria de Justiça e à


Delegacia de Polícia dois expedientes dando conta de práticas abusivas no
oferecimento e venda de colchões e almofadas com características
supostamente fisioterápicas.

O expediente fraudulento já é conhecido do Ministério


Público catarinense, o que inclusive ensejou a propositura de ações
judiciais em Criciúma, São Miguel do Oeste, Blumenau e no Rio Grande do
Sul, cujas liminares, todas deferidas, constam anexas.

Segundo os relatos das vítimas destas diversas cidades, os


vendedores das empresas requeridas dirigem-se às casas de idosos,
normalmente na zona rural dos municípios, vestidos de branco,
“parecendo médico” ou fingindo ser funcionários do INSS, e passam a
convencê-lo dos benefícios à saúde gerados pelos produtos.

No caso desta Comarca, as duas vítimas identificadas até o


momento declinaram idêntico modus operandi. Santo Ernesto Lecardelli,
conforme se observa do termo de declarações que conta no
procedimento, foi vítima do mesmo golpe, conforme narrou à Delegada de
Polícia:

[...] tinha a filha com problemas de coluna e após umas duas


horas de conversa, os três ‘milharam no papo’ (convenceram) o
declarante, pois eles diziam que não precisava mais de
médico, já que o aparelho tirava todas as dores; que
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gastava bastante dinheiro com o problema da filha, então achou
que poderia compensar o preço do produto, economizando nos
remédios; que eles deram garantia que se o aparelho não
funcionasse era para telefonar para eles que viriam resolver o
problema [...] tentou devolver o produto mas não conseguiu mais
contato com os vendedores [...]

Ângelo Lampugnani, outro dos consumidores lesados,


informou que “recebeu a visita de um vendedor de colchões, o qual após
umas três horas de conversa, acabou por convencê-lo, fazendo com
que o reclamante o acompanhasse até o município de Xaxim, assinando
os documentos referentes a um financiamento via INSS”.

Para finalizar a venda, o modus operandi consistia em o


vendedor apresentar diversos documentos, dentre eles um contrato de
empréstimo bancário. O comprador não tinha conhecimento prévio de que
estava assinando um contrato de empréstimo com instituição bancária,
tendo como certo que somente estava autorizando o INSS a descontar de
seus proventos os valores das parcelas constantes do pedido.

Após a compra, realizada fora de estabelecimento


comercial, os vendedores simplesmente desapareciam. Os idosos
vitimados, mesmo quando auxiliados pelo Procon de Seara, não
conseguiam contato com os vendedores ou representantes legais das
empresas e acabavam experimentando prejuízo bastante considerável.
Enfim, não puderam os idosos, diante do procedimento das requeridas,
exercer o direito de desistência do art. 49 do Código de Defesa do
Consumidor.

Não há dúvida de que a manobra artificiosa dos


demandados e seus representantes expôs a risco a gama de
consumidores desta comarca, atingindo diretamente idosos e pessoas de
origem humilde, que foram simplesmente logrados no interior de seus
domicílios (constitucionalmente protegidos) por abordagens

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absolutamente contrárias à moral e às diretrizes firmadas pelo Código de


Defesa do Consumidor.

A situação das vendas noticiadas mostrou-se tão


preocupante que, o INSS editou a Instrução Normativa INSS/Pres nº 28 que
“Estabelece critérios e procedimentos operacionais relativos à
consignação de descontos para pagamento de empréstimos e cartão de
crédito, contraídos nos benefícios da Previdência Social”1.

Referida Instrução Normativa não permite mais que os


contratos sejam firmados fora das agências bancárias e que as contas
favorecidas não sejam aquelas de titularidade do contratante, o que
diminuirá, com certeza, o número de “golpes” até então facilitados.

O que se observa, portanto, é que até mesmo o INSS


reconheceu a fragilidade dos contratos celebrados fora do
estabelecimento comercial, na residência dos idosos, o que demonstra
que de fato são inúmeros e incontáveis os casos de idosos submetidos à
prática comercial desleal e abusiva.

4. Da irregularidade do produto comercializado

Somando-se às práticas abusivas levadas a efeito para


venda dos “produtos fisioterápicos”, que por si só já indica a fraude, resta
ainda apontar que os produtos vendidos, conforme declaração da Agência
Nacional de Vigilância Sanitária, não estão registrados nem têm
autorização para fabricação, exposição à venda ou venda.

Em outras palavras, os produtos colocados no mercado,


oferecidos e vendidos aos consumidores da Comarca não foram avaliados
pelos órgãos competentes, tornando-se completamente impróprios ao
consumo, conforme legislação vigente. Conseqüentemente, não
poderiam, em hipótese alguma, ser comercializados, muito menos ter a si

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De 16 de maio de 2008 – Publicado no DOU em 19 de maio de 2008.
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atribuídos benefícios que nem mesmo foram comprovados pelos órgãos


sanitários competentes.

O Decreto nº 79.094/1977 submete a sistema de vigilância


sanitária os medicamentos, insumos farmacêuticos, drogas e correlatos2.
O próprio Decreto informa (art. 3º, IV) que são considerados “correlatos”
quaisquer produtos “cujo uso ou aplicação esteja ligado à defesa e
proteção da saúde individual ou coletiva”.

Para estes produtos, “as empresas dependerão de


autorização específica do Ministério da Saúde e de licenciamento dos
estabelecimentos pelo órgão competente da Secretária da Saúde dos
Estados, do Distrito Federal e dos Territórios” (art. 2º).

No entanto, conforme notícia veiculada em seu site


(www.anvisa.gov.br/divulga/noticias/2008/180308_2.htm) a Agência
Nacional de Vigilância Sanitária suspendeu em 17 de março de 2008 a
fabricação, distribuição, comércio e uso de produtos fabricados por oito
empresas de todo o país, por não possuírem registro.

Dentre estas empresas, conforme documento que está


acostado aos autos, não possuem registro os produtos fabricados pela
empresa Fuji Yama do Brasil Indústria de Aparelhos Fisioterápicos Ltda.,
justamente a do caso dos autos.

4. Do direito

O Código de Defesa do Consumidor reconhece a


vulnerabilidade do consumidor nas relações de “massas” prevendo o
seguinte:
Art. 4º - A Política Nacional das relações de Consumo tem por
objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores, o
respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus
interesses econômicos, a melhoria de sua qualidade de vida, bem
como a transparência e harmonia das relações de consumo,
atendidos os seguintes princípios:

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Íntegra do Decreto consta em http://www.anvisa.gov.br/legis/decretos/79094_77.htm.
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I – O reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no
mercado de consumo;
VI – coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados
no mercado de consumo, inclusive a concorrência desleal e
utilização indevida de inventos e criações industriais das marcas e
nomes comerciais e signos distintivos, que possam causar
prejuízo aos consumidores;

O mesmo código prevê, em seu art. 6º que:

Art. 6º. São direitos básicos do consumidor:


I – a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos
provocados por práticas no fornecimento de produtos e serviços
considerados perigosos ou nocivos [...]
III - a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e
serviços, com especificação correta de quantidade,
características, composição, qualidade e preço, bem como sobre
os riscos que se apresentem;
IV – a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva,
métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra
práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de
produtos e serviços;(grifo nosso)
VI – a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e
morais, individuais, coletivos de difusos;(grifo nosso)
VIII – a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a
inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando
a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele
hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências;

Ao fornecedor é determinado que cumpra as normas


vigentes para a colocação de seu produto no mercado. No caso de
produtos fisioterápicos, estes deverão, para produção, distribuição e
comercialização, passar pos análises e aprovação prévia dos órgãos
competentes, já que são correlatos a produtos para a saúde e com
tamanha responsabilidade devem ser tratados.

O art. 39 dispõe que “é vedado ao fornecedor de produtos


ou de serviços, dentre outras práticas abusivas: IV – Prevalecer-se da
fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em vista sua idade, saúde,
conhecimento ou condição social, para impingir-lhe seus produtos ou
serviços”;

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Da mesma forma, é vedado ao fornecedor colocar, no


mercado de consumo, qualquer produto ou serviço em desacordo com as
normas expedidas pelos órgãos oficiais competentes ou, se normas
específicas não existirem, pela Associação Brasileira de Normas Técnicas
ou outra entidade credenciada pelo Conselho Nacional de Metrologia,
Normalização e Qualidade Industrial – CONMETRO (art. 39, VIII, do CDC).

Sobre o inciso IV do art. 39 do CDC,, disserta Antonio


Herman de Vasconsellos e Benjamin:
“O consumidor é, reconhecidamente, um ser vulnerável no
mercado de consumo (art. 4º, I). Só que, entre todos os que são
vulneráveis, há outros cuja vulnerabilidade é superior à média.
São os consumidores ignorantes e de pouco conhecimento, de
idade pequena ou avançada, de saúde frágil, bem como aqueles
cuja posição social não lhes permite avaliar com adequação o
produto ou serviço que estão adquirindo. Em resumo: são os
consumidores hipossuficientes. Protege-se, com este
dispositivo, por meio de tratamento mais rígido que o
padrão, o consentimento pleno e adequado do consumidor
hipossuficiente”.3

Quanto à obrigação do fabricante – fornecedor, de colocar


no mercado produto de acordo com as normas vigentes, comenta Jorge
Alberto Quadros de Carvalho Silva que “a colocação de produtos ou
serviços, no mercado de consumo, desatendendo às normas técnicas
expedidas pelas autoridades competentes, pode sujeitar o infrator às
sanções administrativas estabelecidas no art. 56 do CDC”4.

Finalmente, o art. 18, §6º do CDC, determina que são


impróprios ao uso e consumo: “II – os produtos determinados, alterados,
adulterados, avariados, falsificados, corrompidos, fraudados, nocivos à
vida ou à saúde, perigosos ou, ainda, aqueles em desacordo com as
normas regulamentares de fabricação, distribuição ou apresentação”.

3
GRINOVER, Ada Pellegrini [et all]. Código brasileiro de defesa do consumidor:
comentado pelos autores do anteprojeto. 8 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
2005. p. 370. grifo nosso.
4
CARVALHO SILVA, Jorge Alberto Quadros de . Código de Defesa do
Consumidor Anotado. 6ª ed. Editora Saraiva, 2008, p.183.
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Quanto à validade dos contratos, socorremo-nos,


novamente, do CDC que, em seu art. 46, prevê: “Os contratos que
regulam as relações de consumo não obrigarão os consumidores, se não
lhes for dada a oportunidade de tomar conhecimento prévio de seu
conteúdo, ou se os respectivos instrumentos forem redigidos de modo a
dificultar a compreensão de seu sentido e alcance”;

5. Conseqüências – nulidade do negócio jurídico e danos morais coletivos

Percebe-se, pelos relatos colhidos no Procedimento


Preparatório instaurado, que os consumidores foram levados a erro pelos
requeridos, tanto por ocasião das vendas dos produtos quanto por ocasião
das assinaturas dos contratos de empréstimos bancários. Não foram
adequadamente informados sobre as características dos produtos e sobre
as conseqüências da contratação.

Vem da doutrina:
Os vícios de consentimento constituem as causas que podem
perturbar a vontade, ou irregularidades no processo de formação
do consentimento, que viciam o negócio jurídico unilateral ou
bilateral, tornando-o suscetível de anulação.
Para a validade do ato jurídico, a vontade há de funcionar
normalmente, sem qualquer constrangimento ou cominação de
objetivos sub-reptícios, pois, do contrário, pode tornar inválida a
sua manifestação.
Os fatores que desvirtuam o propósito íntimo do agente, ou que
lhe dão uma expressão diversa da pretendida, formam os defeitos
dos atos jurídicos, acarretando-lhes a ineficácia, desde que
argüida pelo lesado.
As manifestações defeituosas da vontade vêm previstas nos arts.
138 a 165 do Código Civil (arts. 86 a 113 do Código revogado).
São anuláveis, na previsão do art. 171, inc. II (art. 147, inc. II, do
diploma civil revogado), e apresentam-se na seguinte ordem: erro
(ou ignorância), dolo, coação, estado de perigo, lesão e fraude
contra credores5.

No caso dos autos, é evidente que houve lesão contratual na


medida em que os contratos foram impostos aos consumidores após
induzidos a erro pela ardilosa trama narrada pelos vendedores, que

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RIZZARDO, Arnaldo. Contratos. 3ª ed. Editora Forense, Rio de Janeiro, 2004, p. 234.
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chegavam ao cúmulo de afirmar que os produtos dispensavam a


continuidade do acompanhamento médico.

Neste caso, incide o art. 182 do Código Civil, que tem a


seguinte redação: “Anulado o negócio jurídico, restituir-se-ão as partes ao
estado em que antes dele se achavam, e, não sendo possível restituí-las,
serão indenizadas com o equivalente”.

À vista dos elementos coligidos, não há dúvidas de que os


consumidores foram absolutamente lesados pela prática comercial ilícita,
abusiva perpetrada, devendo ser ressarcidos integralmente de todos os
prejuízos, morais e materiais que experimentaram, nos termos do art. 6º,
VI, do Código de Defesa do Consumidor.

Deste modo, tocante aos prejuízos materiais, deverão ser


integralmente ressarcidos, com juros legais e correção monetária, porque
expostos a uma prática abusiva e lesiva a seus direitos, cabendo às
demandadas o ressarcimento de todos os danos.

Da mesma forma e seguindo a ratio legis do Código de


Defesa do Consumidor a empresa fabricante e sua representante deverão
ressarcir os danos morais dos consumidores desta comarca porquanto
não há qualquer dúvida que o método de venda agressivo e lesivo em
detrimento de analfabetos, pessoas carentes e idosos, além daqueles já
identificados, expôs a ordem do consumo desta comarca a grave risco.

De toda a instrução percebe-se que os demandados


possuíam um padrão de conduta visando lesar idosos em situação de
hipossuficiência financeira e cultural, estabelecendo-se na cidade a fim de
praticar estas condutas específicas.

O valor a ser arbitrado, a título de danos morais, deve


situar-se em patamar que represente inibição à pratica de outros atos
antijurídicos e imorais por parte das empresas demandadas e seus
representantes. É imperioso que a justiça desse aos infratores resposta

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eficaz ao ilícito praticado, sob pena de se chancelar e inibir, quando


necessário, o comportamento infringente.

É evidente que a paz social desta região foi efetivamente


colocada a risco com a forma como os produtos (não registradas junto à
ANVISA – impróprios para o consumo e assinatura de contratos de
financiamento) eram expostos, afetando idosos e consumidores desta
comarca quando dentro dos seus domicílios constitucionalmente
protegidos.

Resta, agora, através da imposição da obrigação de


indenizar pelos danos morais, o restabelecimento da paz social sob pena
de, ao se rechaçar apenas contratos individuais, perder-se uma
oportunidade de coibir futuros golpes perpetrados da mesma maneira,
tornando o risco suportado pelas demandadas algo aceitável sob o
aspecto econômico.

A respeito do assunto:
Danos morais coletivos ou difusos. Muito embora o CDC 6º, VI, já
preveja a possibilidade de haver indenização do dano moral
coletivo ou difuso, bem como sua cumulação com o patrimonial
(STJ 37), a LAT 88, modificando o caput da LACP 1º, deixou
expressa essa circunstância quanto aos danos difusos e coletivos,
que são indenizáveis quer sejam patrimoniais, quer sejam morais,
permitida sua cumulação.V.CDC 6ºVI, STJ 376.

É inegável, também, que a imposição de condenação por


danos morais guarda inequívoco caráter pedagógico na medida em que as
demandadas irão empreender maiores esforços no sentido de capacitar e
fiscalizar os seus representantes comerciais, repita-se, não apenas
colhendo as benesses das suas atividades que, no caso desta comarca, se
mostraram extremamente lesivas!!!

Colhe-se da jurisprudência:

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JÚNIOR. Nelson Nery. Código de Processo Civil Comentado e legislação processual civil
extravagante em vigor. São Paulo: Saraiva, 1998, p. 1128
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AÇÃO CIVIL PÚBLICA - MINISTÉRIO PÚBLICO - LEGITIMIDADE -
DIREITO DIFUSO - PROPAGANDA ENGANOSA -VIAGENS PARA
QUALQUER LUGAR DO PAÍS - DANO MORAL COLETIVO. A
propaganda enganosa, consistente na falsa promessa a
consumidores, de que teriam direito de se hospedar em rede de
hotéis durante vários dias por ano, sem nada pagar, mediante a
única aquisição de título da empresa, legitima o Ministério Público
a propor a ação civil pública, na defesa coletiva de direito difuso,
para que a ré seja condenada, em caráter pedagógico, a indenizar
pelo dano moral coletivo, valor a ser recolhido ao Fundo de
Defesa de Direitos Difusos, nos termos do art. 13 da Lei nº
7.347/85”7.

Extrai-se do corpo do acórdão da Apelação Cível Nº


70018714857:

“Dano moral coletivo: Os danos morais


coletivos decorrem do reconhecimento da dimensão
extrapatrimonial dos interesses coletivos, sejam eles
de categoria difusa, coletiva stricto sensu ou
individual homogênea, não se confundindo com o
interesse público (primário) ou com os direitos
individuais. Necessidade de ampla reparação dos
danos ensejados pela ofensa a esses direitos,
inclusive de natureza extrapatrimonial.
Caracterização, no caso concreto, de dano moral
coletivo consistente na ofensa ao sentimento da
coletividade, caracterizado pela espoliação sofrida
pelos consumidores locais, gravemente maculados
em sua vulnerabilidade.” (Apelação Cível Nº
70018714857, Terceira Câmara Cível, Tribunal de Justiça do
RS, Relator: Paulo de Tarso Vieira Sanseverino, Julgado em
12/07/2007)(grifo nosso)

Portanto, é razoável que a indenização por danos morais


difusos seja fixada de forma a atingir caráter punitivo, pedagógico e
preventivo, desestimulando as empresas demandadas e outras empresas
do ramo a agir em detrimento da coletividade de consumidores idosos e
em precária situação sócio-econômica.

7
TJMG - Número do processo: 1.0702.02.029297-6/001, Relator: GUILHERME LUCIANO
BAETA NUNES, Data do Julgamento: 23/06/2006
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6. Facilitação da defesa dos direitos dos consumidores

Como há bastante evidências das lesões rotineiramente


perpetradas contra os consumidores da Comarca de Seara, é importante
estabelecer-se nesta ação civil pública um mecanismo para pronta, ágil e
segura defesa dos direitos previstos na Lei nº 8.078/90.

Aliás, o próprio Código de Defesa do Consumidor assegura


ser direito básico do consumidor “a facilitação da defesa de seus direitos,
inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil,
quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele
hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências” (art. 6º,
VIII).

Entende o Ministério Público que somente será possível o


cumprimento deste direito básico dos consumidores se for determinado ao
INSS que, mediante simples requisição do Procon, proceda imediatamente
à suspensão dos descontos relacionados à fraude das almofadas e
colchões.

Justifica-se este mecanismo porque não é possível que o


principal órgão de defesa do consumidor brasileiro não detenha poderes
suficientes para, uma vez constatada a lesão, adotar todas as
providências necessárias para pelo menos cessar o dano, ainda mais num
caso como o dos autos, em que há inúmeros casos semelhantes em todo o
país.

E nada de ilegal há nisso, porque o próprio art. 84 do Código


de Defesa do Consumidor assegura que “na ação que tenha por objeto o
cumprimento da obrigação de fazer ou não fazer, o juiz concederá a tutela
específica da obrigação ou determinará providências que assegurem o
resultado prático equivalente ao do adimplemento”.

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Ora, não há resultado mais aproximado que o


“adimplemento” do que a imediata suspensão dos descontos em casos
irregulares como o dos autos.

Somente dessa forma, aliás, se poderá eficazmente proteger


o direito dos consumidores, porque diversos outros casos
semelhantes ocorrerão, que inclusive envolvam situações diversas da
narrada nestes autos, e exigirão a adoção da providência indicada.

7. Antecipação de tutela

Ante todo o relatado, necessária e urgente é a determinação


da suspensão imediata dos descontos de valores dos benefícios
previdenciários dos consumidores atingidos.

O procedimento preparatório que instrui a presente


demonstra que, além dos idosos ouvidos, muitos outros ainda devem
estar sofrendo descontos mensais em seus benefícios
previdenciários (de natureza alimentar), às custas da prática abusiva e
ilícita empreendida pelos requeridos, sendo plenamente constatada a
plausibilidade e verossimilhança dos fatos e do direito alegado. (art. 273
do Código de Processo Civil).

O perigo decorrente da demora no julgamento do feito é


evidente e presumido em virtude da idade dos consumidores lesados, os
quais vêm sofrendo, mensalmente, os efeitos lesivos decorrentes da
prática abusiva. (art. 273, I, do Código de Processo Civil).

Denota-se que o caso em concreto se coaduna


perfeitamente com a ratio legis do art. 273 do Código de Processo Civil,
art. 12 da lei 7437/85 e art. 84 do Código de Defesa do Consumidor, posto
que os idosos/consumidores relatados neste feito não podem aguardar
toda a instrução processual para que então cessem os danos, em especial,
em razão dos descontos já realizados.

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De fato, o único remédio tendente à proteção imediata dos


consumidores lesados e identificados nestes autos (quase todos idosos e
de baixa renda), bem como daqueles porventura não nominados mas
também atingidos pelas práticas relatadas é a medida liminar, com a
determinação ao INSS e aos Bancos requeridos de imediata cessação dos
descontos ainda pendentes e SUSPENSÃO dos efeitos dos contratos de
empréstimo firmados em razão das vendas efetuadas.

8. Conclusão

Em face de todo exposto, o MINISTÉRIO PÚBLICO DO


ESTADO DE SANTA CATARINA, requer:

a) o recebimento e autuação desta petição inicial com o


trâmite preferencial decorrente do artigo 1.211-A do Código de
Processo Civil e do Estatuto do Idoso;

b) seja determinado ao Instituto Nacional do Seguro Social -


INSS que: b1) suspenda imediatamente todos os descontos em folha
referentes a contratos com o Banco BMG S.A., relativamente aos
beneficiários residentes nos municípios de Arvoredo, Xavantina e Seara,
sob pena de multa diária no valor de R$ 10.000,00 (dez mil reais); b2)
apresente em juízo o nome de cada um dos beneficiários atingidos; b3)
passe a suspender os descontos em folha referentes a contratos de
financiamento de produtos fisioterápicos mediante simples requerimento
do Procon de Seara, que deverá fazer referência ao número desta ação
civil pública;

c) seja determinado ao Banco BMG S.A. que suspenda a


cobrança dos empréstimos bancários de todos os contratos que foram
realizados por meio da aquisição de produtos das empresas Fuji Yama do
Brasil, Magnetic do Brasil, e Jeferson e Rogério Comércio de Almofadas e
Colchões Ltda., sob pena de multa no valor de R$ 10.000,00 (dez mil
reais) por evento constatado;

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d) seja determinado ao Banco BMG S.A. que informe, no


prazo de 15 dias, o nome e qualificação dos beneficiários dos valores
financiados a título de empréstimo consignado aquisição de aparelhos
fisioterápicos das empresas Fuji Yama do Brasil, Magnetic do Brasil, e
Jeferson e Rogério Comércio de Almofadas e Colchões Ltda.;

e) a citação dos demandados, por seus representantes


legais para que, querendo, apresentem defesas que entenderem
pertinentes, sob pena de revelia;

f) a inversão do ônus da prova, nos termos do art. 6º, VIII, do


CDC;

g) a produção de todos os meios de prova admitidos em


direito, em especial decorrentes da inversão do ônus da prova;

h) a decretação da nulidade dos contratos de venda dos


produtos fisioterápicos pelas empresas requeridas e dos contratos de
empréstimos bancários relacionados, condenando-se o Banco BMG S.A. à
devolução em dobro (art. 42, parágrafo único) dos valores já descontados
das aposentadorias/benefícios dos consumidores pelo INSS, devidamente
reajustados;

i) a condenação das empresas Fuji Yama do Brasil, Magnetic


do Brasil, Jeferson e Rogério Comércio de Almofadas e Colchões Ltda. e
Banco BMG S.A. ao pagamento de indenização por danos morais no valor
de R$ 50.000,00 cada uma, a ser revertido ao fundo de que trata o art. 13
da Lei n.º 7.347/85, com juros de mora de 1% ao mês, a partir da citação,
bem como correção monetária, a ser calculada no momento da execução;

j) a condenação das requeridas em custas, despesas


processuais e honorários advocatícios (estes conforme art. 4º do Decreto
Estadual nº 2.666/04, em favor do Fundo de Recuperação de Bens Lesados
do Estado de Santa Catarina).

Dá-se à causa o valor de R$ 200.000,00.

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Seara, 16 de dezembro de 2008

Eduardo Sens dos Santos


Promotor de Justiça

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