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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA

EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ DE DIREITO DA COMARCA DE


SEARA

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA


CATARINA, pelo Promotor de Justiça em exercício na Promotoria de
Justiça de Itá, com fundamento nos arts. 127 e 129, III da Constituição
da República, bem como no art. 17 da Lei n. 8.429/92, no art. 73, VI,
“b”, da Lei nº 9.504/97, e no art. 5º da Lei nº 7.347/85, propõe AÇÃO
DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA em face de:

RG ASSESSORIA EM GESTÃO PÚBLICA LTDA., pessoa


jurídica de direito privado, CNPJ nº 7.392.648/0001-08, com sede na Rua
29 de Julho, 699, apto 103, centro, no Município de Lindóia do Sul,
Comarca de Ipumirim, representado pelo Sócio-Gerente Guilherme
Vivian, residente no mesmo endereço;

GUILHERME VIVIAN, brasileiro, solteiro, nascido em 20 de


julho de 1985, filho de Antônio Vivian e de Idene Luzzi Vivian, portador
da CI nº 4.319.040, SSP, SC, CPF nº 053.234.139-21, sócio-gerente da
empresa RG Assessoria Em Gestão Pública Sociedade Simples Ltda,

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residente e domiciliado na Rua 29 de Julho, 699, apto 103, centro, no


Município de Lindóia do Sul, Comarca de Ipumirim;

ANTONIO VIVIAN, brasileiro, casado, filho de Albini e de


Sabina Vivian, nascido em 22 de dezembro de 1958, CPF nº
346.434.279-49, RG nº 1.231.696, residente e domiciliado na Rua 29 de
Julho, 699, apto 103, centro, no Município de Lindóia do Sul, Comarca de
Ipumirim, sócio da empresa Rg Assessoria Em Gestão Pública Sociedade
Simples Ltda;

MUNICÍPIO DE XAVANTINA, pessoa jurídica de direito


público, representada por seu Prefeito Osmar Dervanoski, com endereço
na rua Pref. Otávio Urbano Simon, 163, em Xavantina/SC

MUNICÍPIO DE ARVOREDO, pessoa jurídica de direito


público, representado pela Prefeita Janete Bianchin, com endereço na
Rua do Comércio, 183, em Arvoredo/SC.

1. Objetivo da ação

Esta ação de improbidade administrativa tem por objetivo


obter provimento que declare a nulidade dos Concursos Públicos nº
1/2007 e nº 1/2008, do Município de Arvoredo, e dos Concursos Públicos
nº 1/2007 e 2/2007, de Xavantina.

Tem também por objetivo obter provimento que constitua a


empresa RG Assessoria e Consultoria Ltda. e seus sócios,
solidariamente, na obrigação de restituir aos cofres públicos os valores
gastos com os concursos, além de aplicar à empresa e a seus sócios as
penalidades previstas na Lei de Improbidade Administrativa.

Para tanto, objetiva-se obter liminarmente o bloqueio de


bens da empresa requerida e de seus sócios para impedir que ocultem,
dilapidem ou alienem bens como modo de se furtarem à aplicação da
Lei nº 8.429/92 do §4º e §5º do art. 37 da Constituição da República.

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Diante da infame série de improbidades praticadas pela


empresa requerida e seus sócios, requer-se, igualmente em sede de
liminar, sejam proibidos de contratar com entidades públicas (União,
Estados e Municípios), de modo a evitar maior dano do que o já
causado.

2. Síntese fática

A Promotoria de Justiça de Seara recebeu informações da


Promotoria de Justiça de Clevelândia, no Paraná, de que a empresa RG
Assessoria e Consultoria Ltda. estaria promovendo diversos concursos
na região. Todos os concursos e testes seletivos conteriam, como
ocorrido no Paraná, diversas questões (a maioria) plagiadas de outros
concursos, em evidente afronta à moralidade e à legalidade na
condução de assunto tão sério quanto a vida funcional de um município.

E, de fato, cotejando as provas aplicadas nos concursos de


Xavantina e Arvoredo observou-se que a grande maioria das questões é
simples cópia de questões utilizadas em outros concursos, inclusive
em outros concursos da própria requerida.

A título de um pequeno exemplo, a tabela abaixo demonstra


as hipóteses de plágio detectadas em exame preliminar por
amostragem em todas as provas aplicadas:
Município Prova Questão Concurso Questão
plagiado plagiada
Arvoredo Auxiliar Questão 2 Escrivão de Questão 4
Administrativo polícia 2006
Arvoredo Auxiliar Questão 4 Site Só Índices,
Administrativo Matemática ensino
médio
Arvoredo Auxiliar Questão 5 Concurso Questão
Administrativo Anac 2007 27
Arvoredo Auxiliar Questão 8 Concurso Questão 8
Administrativo Faxinal dos
Guedes
Arvoredo Auxiliar Questão 11 Instituto Questão
Administrativo Ludus 38 e

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E MPRJ Questão
33
Arvoredo Operador de Questão 3 TJ-CE Questão 9
Máquinas
Arvoredo Operador de Questão 5 Prefeitura de Questão
Máquinas Pelotas 10
Arvoredo Operador de Questão 5 Prefeitura de Questão
Trator Pelotas 10
Arvoredo Operador de Questão 2 TJ CE Questão 4
Trator
Arvoredo Operador de Questão 5 Prefeitura de Questão
Trator Buíque/PE 30
Xavantina Administrador Questão 1 IRB - Questão
educacional Advogado 12
Xavantina Administrador Questão 2 ACD Faxinal Questão 2
educacional dos Guedes
Xavantina Administrador Questão 5 Site Só Índices,
educacional Matemática ensino
médio
Xavantina Administrador Questão 6 Fuvest 2007 Questão
educacional 13
Xavantina Administrador Questão 7 Fuvest 2007, Questão 1
educacional Professor
Alexandre
Xavantina Administrador Questão 16 Enade 2006 Questão
educacional 33
Xavantina Atividades Questão 2 Esaf 2002, Questão 2
gerais TJ-CE
Xavantina Atividades Questão 4 Prefeitura de Questão
gerais Pelotas 10
Xavantina Assistente Questão 1 IRB– Questão
social Advogado 10
Xavantina Assistente Questão 2 Faxinal dos Questão 2
social Guedes
Xavantina Assistente Questão 6 Fuvest 2007 Questão
social 13
Xavantina Assistente Questão 7 Fuvest 2007, Questão 1
social Professor
Alexandre
Xavantina Assistente Questão 12 Prefeitura Questão
social Cambé 28
Xavantina Atendente Questão 6 Acafe Questão
administrativo vestibular de 48
verão 2006
Xavantina Serviços Questão 6 Acafe Questão

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gerais vestibular de 48
verão 2006
Xavantina Contador Questão 1 IRB- Questão
Advogado 12
Xavantina Contador Questão 2 Faxinal dos Questão 2
Guedes
Xavantina Contador Questão 6 Fuvest 2007 Questão
13
Xavantina Contador Questão 7 Fuvest 2007, Questão 1
Professor
Alexandre
Xavantina Engenheiro Questão 2 Faxinal dos Questão 2
Civil Guedes
Xavantina Engenheiro Questão 6 Fuvest 2007 Questão
Civil 13
Xavantina Engenheiro Questão 7 Fuvest 2007, Questão 1
Civil Professor
Alexandre

Ocorre que a empresa requerida foi contratada para


elaborar a prova. Tal dinheiro saiu dos cofres públicos, dos
contribuintes. O fato de simplesmente “plagiar” a maior parte das
questões aplicada foge totalmente do razoável, pois igual serviço pode
ser feito por qualquer servidor, mesmo que inexperiente. O fato se
agrava porque a empresa, em negociações com outros Municípios, vem
repetindo inúmeras vezes essas mesmas perguntas.

Tal verdade, além de representar uma violação ao princípio


da moralidade e descumprimento contratual por parte da empresa
contratada, importam inevitável nulidade absoluta do concurso
público por ferir o ineditismo das provas.

Isto beneficia as pessoas que prestaram concursos em


outras cidades da região em detrimento de outras (incluindo habitantes
desta Comarca) que se dedicaram exclusivamente a este certame,
ferindo ainda os princípios constitucionais da isonomia, impessoalidade,
eficiência, etc.

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3. Direito

Como apontado anteriormente e devidamente demonstrado


pela documentação encartada, o plágio de provas aplicadas, além de
IMORAL e uma descarada violação contratual por parte da empresa,
fere os princípios da razoabilidade, impessoalidade, legalidade,
eficiência etc. Todos são princípios constitucionais (expressos ou
implícitos) e o seu desrespeito importa em nulidade absoluta. Vejamos:
Art. 37. A administração pública direta e indireta de
qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito
Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de
legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e
eficiência e, também, ao seguinte: (Redação dada pela
Emenda Constitucional nº 19, de 1998)

II - a investidura em cargo ou emprego público depende de


aprovação prévia em concurso público de provas ou de
provas e títulos, de acordo com a natureza e a
complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em
lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão
declarado em lei de livre nomeação e exoneração; (Redação
dada pela Emenda Constitucional nº 19, de 1998)”.

Sobre a violação desses princípios, nunca é demais lembrar


a célebre lição de Celso Antonio Bandeira de Mello:
Violar um princípio é muito mais grave que transgredir uma
norma qualquer. A desatenção ao princípio implica ofensa
não apenas a um específico mandamento obrigatório mas a
todo sistema de comandos. É a mais grave forma de
ilegalidade ou inconstitucionalidade, conforme o escalão do
princípio atingido, porque representa insurgência contra
todo o sistema, subversão de seus valores fundamentais,
contumélia irremissível a seu arcabouço lógico e corrosão de
sua estrutura mestra.
Isto porque, com ofendê-lo, abatem-se as vigas que o
sustêm e alui-se toda a estrutura nelas esforçada." (Curso
de Direito Administrativo, 12a edição, Malheiros, 2000, p.
748).

Ora, não é moralmente tolerável que uma empresa que foi


paga para realizar um concurso (e isso pressupõe a edição das

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questões), simplesmente copie e cole as questões de outros certames,


evitando dispêndio de trabalho e gastos (com uma equipe técnica que
deveria elaborar as provas inéditas).

Isto tudo sem contar o inegável enriquecimento às


custas dos Municípios. Lógico que nessas condições ela pode
apresentar preço inferior ao de empresas honestas, que realmente
contam com um corpo de profissionais qualificados para a elaboração
de questionamentos pertinentes e inéditos justamente para a seleção
dos candidatos mais preparados (em detrimento do princípio
administrativo da eficiência).

Por outro lado, não se pode vir alegar que as provas


copiadas encontram-se na internet à disposição de todos, de maneira
que não prejudicaria o certame plagiado. Isto contraria a própria
essência do concurso, que é a seleção dos melhores, a fim de se
garantir a eficiência dos serviços públicos (e a eficiência é também
um princípio expresso no art.37 da CF/88).

É exatamente por isso que se exige alto grau de


ineditismo da prova, ou seja, para selecionar os mais capacitados, os
que realmente sabem as matérias, os que estudaram e que prestarão
eficientemente os serviços públicos. Estes não podem ser preteridos em
prol dos “espertos”, que serão justamente os que não exercerão suas
funções com o mesmo brilho daqueles.

Sobre a necessidade dos concursos públicos para a seleção


dos melhores em respeito ao princípio da eficiência, anote-se:
O concurso público é o instrumento que melhor representa o
sistema de mérito, porque traduz um certame de que todos
podem participar nas mesmas condições, permitindo que
sejam escolhidos os melhores candidatos" (CARVALHO
FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Administrativo.
16ª ed. Rio de Janeiro: 2006).

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A respeito desse tema, o Prof. Hely Lopes Meirelles


arremata:

"[...] é o meio técnico posto à disposição da administração


pública para obter-se moralidade, eficiência e
aperfeiçoamento do serviço público e, ao mesmo tempo,
propiciar igual oportunidade a todos os interessados que
atendam aos requisitos da lei, consoante determina o art.
37, II, da CF. Pelo concurso, afastam-se, pois, os ineptos e os
apanigüados, que costumam abarrotar as repartições, num
espetáculo degradante de protecionismo e falta de
escrúpulos de políticos que se alçam e se mantém no poder
leiloando empregos públicos" (MEIRELLES, Hely Lopes.
Direito Administrativo Brasileiro. 30ª ed., Atualizado por
Eurico de Andrade Azevedo, Délcio Balestro Aleixo e José
Emmanuel Burle Filho. São Paulo: Malheiros, 2005).

Comentando a Lei de Improbidade Administrativa,


especificamente quanto a ilegalidades envolvendo concursos públicos, o
professor Wallace Paiva Júnior também esclarece:
Segundo o art. 11, V, atenta contra os princípios contra os
princípios da Administração a frustração da licititude do
concurso público, pois esta é a forma moral e eficiente
de investidura em cargos, empregos e funções
públicas, alijando as vicissitudes do provimento na
Administração Pública direta e indireta, inclusive as
empresas clandestinas ou estatais (nepotismo, compadrio,
filhotismo, testamentos políticos, etc), exigida pela
Constituição Federal (artigo 37, II), inclusive nas
contratações excepcionais e temporárias (artigo 37, IX) por
processo seletivo simplificado (Lei Federal n. 7.845/93 - art.
3o), sendo intolerável a infringência das normas legais no
provimento dos cargos públicos. A proteção da regra do
concurso público e da sua finalidade (admissão de
pessoal com melhores condições para o desempenho
de funções públicas) é decorrência inata do princípio
da igualdade” (JÚNIOR, Wallace Paiva Martins. Probidade
Administrativa. Editora Saraiva, 2a edição, p. 273/274.
Grifos nossos)

Ainda, em relação à matéria em enfoque, como ao poderia


ser diferente, têm decidido os tribunais pátrios:

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O objetivo aliado ao concurso é a seleção dos melhores


profissionais para a administração pública, com vistas e em
homenagem às peculiaridades do regime jurídico
administrativo e o caráter eminentemente público do
serviço prestado.
A realização de concurso público para o ingresso na
administração pública nada mais é que a pura realização do
princípio da isonomia e da impessoalidade, entendidos como
pilares da igualdade constitucional propugnada no art. 5º,
caput, da Carta Magna.
A doutrina de Adilson de Abreu Dallari, com muita
propriedade consigna:
Em resumo, o concurso público é um instrumento de
realização concreta dos princípios constitucionais da
isonomia e da impessoalidade (in Regime Constitucional dos
Servidores Públicos, pág. 37)”1.

Portanto, o concurso público envolve uma regra


moralizadora e assecuratória da isonomia e da impessoalidade no
recrutamento dos candidatos aos cargos da Administração Pública. Sua
idéia é garantir que integrará os quadros da Administração Pública,
aquele indivíduo que estiver melhor preparado2. Logo, é impossível não
reconhecer a violação dos ditos princípios na realização de um concurso
público na forma verificada nesta Comarca, que em nada beneficia o
candidato que estudou, mas sim aqueles que tiveram a sorte de
participar do concurso anterior ou que foram orientados a olharem
determinada prova na internet antes de o concurso ser realizado.

Isto se agrava pelo fato de restarem confirmadas as


denúncias trazidas a esta Promotoria de que há tempos a mencionada

1
TJRO, 100.022.2001.002057-0 Apelação Cível; Origem : 02220010020570 São Miguel
do Guaporé/RO (1ª Vara Cível); Apelante: Joaquim Domingos Boaria; Advogado: João
Evangelista Minari (OAB/RO 574-A); Apelado : Ministério Público do Estado de
Rondônia; Relator : Desembargador Rowilson Teixeira; Revisor : Desembargador
Sansão Saldanha.
2
Conforme Rafael Lago Régis, na monografia “O Princípio Constitucional do concurso
público e o papel do Ministério Público do Trabalho no combate aos atos de
improbidade administrativa”. JUSPODIUM. Disponível em:
<http://www.juspodivm.com.br/i/a/%7B00E298F4-3A62-46DE-819C-
47EBFE9C24A3%7D_o_principio_constitucional_do_concurso_publico.pdf>.

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empresa vem lucrando imoralmente com o Poder Público, aplicando


reiteradamente provas não inéditas, cujos conteúdos encontram-se
facilmente acessíveis na internet. As pessoas que já prestaram outros
concursos promovidos pela mencionada empresa facilmente já
perceberam a constante repetição.

De outro vértice, também não se pode ousar alegar que é


“comum” a repetição de questões em concursos públicos e que isso não
viciaria a seleção. Afinal, o aceitável e o que comumente ocorre é a
repetição de uma ou outra questão, e não de todas as questões da
prova de conhecimentos específicos de várias provas. A grande
maioria das provas possuem número irrazoável de questões
copiadas. Muitas delas chegaram a alcançar 90% das questões
copiadas e há de se reconhecer que, em se tratando de 30 testes para
cada cargo, a repetição de poucos já basta para influenciar em seus
resultados.

Tal discurso tolerante apenas fomenta essa imoralidade,


pois é muito fácil para uma empresa contratar com o Poder Público,
assumindo a função de, em seu lugar, elaborar e aplicar as provas de
um concurso público e depois copiar a maior parte dos questionamentos
de outras provas, não necessitando de muitas pessoas para tal fim (na
realidade, apenas uma poderá cumprir com tais tarefas).

Sem um corpo técnico especializado, é também muito


simples apresentar proposta de menor preço (superando as
concorrentes que tenham gastos reais com pessoal). Tal tolerância
jamais se pode aguardar deste Nobre Juízo, conhecedor da seriedade do
tema.

O Poder Judiciário, quando chamado a decidir questões


idênticas à dos autos vem se posicionando firmemente pela anulação
dos concursos, apontando violação dos princípios da impessoalidade,

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moralidade e eficiência. Da Justiça Federal colhe-se o seguinte


precedente:

ADMINISTRATIVO. CONSTITUCIONAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA.


CONCURSO PÚBLICO. DISPENSA DE LICITAÇÃO. OFENSA À
LEI nº 8.666/93. VIOLAÇÃO DOS PRINCÍPIOS
CONSTITUCIONAIS DA LEGALIDADE, MORALIDADE,
IGUALDADE, IMPESSOALIDADE, PUBLICIDADE E EFICIÊNCIA
ADMINISTRATIVAS. PRESENÇA DOS REQUISITOS QUE
AUTORIZAM A CONCESSÃO DA MEDIDA LIMINAR. ART. 12 DA
LEI Nº 7.347/85. SUSPENSÃO DOS ATOS SUBSEQÜENTES À
HOMOLOGAÇÃO DO CERTAME. PROIBIÇÃO DE NOMEAÇÃO,
POSSE E EXERCÍCIO DOS CANDIDATOS HABILITADOS
[...]
15. Quanto às questões de prova retiradas de exames
anteriores, realizados por outras entidades, foram em
número expressivo, capaz de ofender, como se verá, o
princípio da igualdade, quando não aquele da
impessoalidade da Administração Pública.
16. Observa-se das fls. 83 e seguintes que inúmeras
questões do 121º exame da OAB/SP foram aproveitadas na
prova de analista judiciário, sem que o Estado requerido
tenha contestado tais assertivas. Ora, não se exige, com
efeito, salvo previsão do edital, o ineditismo das
questões, sendo tolerável que algumas questões já
tenham "caído" em outros concursos, até porque,
como asseverou a Fundação em nota à imprensa, o
universo do saber é limitado... mas a reprodução de
grande número de questões de concursos anteriores,
e notadamente de um único, compromete sem dúvida
o princípio da igualdade.
17. Compromete o referido princípio da isonomia de
forma objetiva, pois beneficiará aqueles candidatos
que eventualmente tenham participado do certame
do qual as perguntas foram retiradas ou que tenham
tido a sorte de, nos seus estudos preparatórios,
haverem utilizado a prova em questão como forma de
se exercitar.
18. A utilização de questões de outras provas, da
forma como se deu, pode ainda comprometer o
princípio da impessoalidade da Administração, que se
baseia ele próprio, como já dito, no princípio da
isonomia. A razão é a maior probabilidade de fraude,
pois a informação de que a prova se basearia num
determinado certame anterior se revelaria então decisiva

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para o êxito do candidato. O "vazamento", que seria


criminoso, diga-se de passagem, desse tipo de informação,
seria impossibilitado ou dificultado se as questões fossem
inéditas ou mesmo se proviessem, em pequeno número, de
concursos anteriores diversos. Assim, ainda que não tenham
vindo aos autos elementos no sentido de que a referida
conduta delituosa aconteceu, o incremento de sua
possibilidade é, por si só, atentatório do princípio da
impessoalidade que deve reger toda a atuação
administrativa.
19. Quando se contrata entidade para realizar um concurso,
está de fato implícito que ela irá elaborar questões novas,
ainda que inovando apenas a forma de abordar os temas ou,
no mínimo, a ordem das alternativas! A utilização de
questões anteriores, ou o número em que isso seria
permitido, os operadores do direito e notadamente o Juiz
devem analisá-los sob o prisma da razoabilidade, princípio
do Direito Administrativo e do Direito em geral. E foi
suficientemente demonstrado pela parte autora, sem
argüição em sentido contrário no que respeita ao número de
questões, que a Fundação requerida não procedeu de forma
razoável”3.

Não bastasse a clareza do texto acima para ilustrar o nosso


caso, a ASSOCIAÇÃO JUÍZES PARA A DEMOCRACIA apresentou
representação ao CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA pugnando pela
anulação do concurso para juiz substituto no Estado do Tocantins/TO,
tendo como um dos fundamentos, a repetição de várias questões em
concursos anteriores, senão vejamos:
“A repetição de questões afronta o princípio da
isonomia, uma vez que favorece candidatos que
eventualmente tenham participado do outro certame
ou que tenham acesso às perguntas do concurso
anterior, nos dias de hoje plenamente facilitado por
consultas à Internet. A repetição de questões vulnera
a regra do sigilo da prova a todos os candidatos, que
é indispensável para assegurar a impessoalidade no
certame e a igualdade de oportunidade aos
3
PODER JUDICIÁRIO - JUSTIÇA FEDERAL - Seção Judiciária do Estado de Sergipe;
Processo nº 2004.85.00.1754-0 - Classe 02000 - 3ª Vara; Ação: Civil Pública; Partes:
Autor: CONSELHO SECCIONAL DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL – OAB; Réu
:FUNDAÇÃO ESCOLA SUPERIOR DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE ALAGOAS E
ESTADO DE SERGIPE

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participantes. Ademais, faz parte da atribuição da própria


banca Examinadora, a “elaboração, aplicação, correção das
provas”, nos termos do item 3, do referido Edital, não se
podendo conceber como elaboração a montagem da prova
com base em outras já realizadas anteriormente. Por todo o
exposto, para a preservação da legalidade, da moralidade
administrativa e do princípio da isonomia, que deve nortear
a realização dos concursos públicos, notadamente o
ingresso à carreira da Magistratura, é que nos dirigimos a
este órgão colegiado, dando conhecimento das aventadas
irregularidades, para que sejam sanadas, com a
regularização do edital e reinício do certame, com a
reabertura do prazo para novas inscrições. São Paulo, 20 de
Julho de 2005 Marcelo Semer Presidente do Conselho
Executivo da Associação Juízes para a Democracia”.

A propósito deste mesmo tema, o Conselho Nacional de


Justiça já teve a oportunidade de se manifestar. Vejamos a seguinte
notícia divulgada no INFORMATIVO STF, a respeito da anulação pelo
mencionado Órgão constitucional de um concurso para Juiz onde
questões foram copiadas

Magistratura – foi impetrado no Supremo Tribunal Federal


(STF) o Mandado de Segurança 26163/AP, no qual
candidatos inscritos e aprovados no sétimo concurso público
para juiz de Direito substituto do estado do Amapá voltam-
se contra o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que anulou o
certame. Alegam que o CNJ inverteu a ordem da pauta para
julgar antes o feito, não oportunizou a sustentação oral
requerida pelo Tribunal de Justiça do estado do Amapá
(TJAP) e que julgou em 15 minutos um feito de grande
importância para as partes envolvidas e para a sociedade
amapaense. A decisão do CNJ, por seu turno, apontou vícios
nas três primeiras fases do concurso público, tais como
prova que não teria sido divulgada por qualquer meio e nem
distribuída aos candidatos; as questões de Direito
Administrativo copiadas de concurso realizado em
Minas Gerais; questões de Direito Constitucional
abordando assuntos locais e sem importância. Na segunda
fase, “o examinador de direito constitucional teria abordado
excessivamente assuntos locais, incluindo uma questão
tributária inconstitucional”. Já na terceira fase, dos 30
candidatos que fizeram a prova de sentença, somente onze

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foram aprovados, sendo que dez são ou foram assessores e


um deles é filha de desembargador, todos do TJ-AP”.
(Informativo STF, 6.10.6).

O Mandado de Segurança (26163/AP) ajuizado pelos


aprovados no concurso nulo acima referido foi rejeitado pelo STF,
mantendo-se a anulação promovida pelo Conselho Nacional de Justiça.

Na decisão do Conselho Nacional de Justiça, reconheceu-se


que as provas do concurso para Juiz do Amapá tinham a reprodução
literal de questões aplicadas em concurso para a magistratura do
Tribunal de Justiça de Minas Gerais (feito em 2005) e que houve
questões abordando assuntos locais e sem muita importância. Anote-se
a conclusão do conselheiro Eduardo Lorenzoni:

“A anulação do VII Concurso Público para Provimento de


Cargos de Juiz de Direito Substituto da Justiça Estadual do
Amapá é medida que se impõe, a fim de se resguardar a
credibilidade e seriedade de concursos dessa relevância, ao
mesmo tempo em que visa dar efetividade aos princípios da
impessoalidade, moralidade e publicidade administrativa”.
4. Atos de improbidade administrativa

As condutas da empresa requerida e de seus sócios


configuram atos de improbidade administrativa. O art. 11 da Lei nº
8.429/92, determina que “constitui ato de improbidade administrativa
que atenta contra os princípios da administração pública qualquer ação
ou omissão que viole os deveres de honestidade, imparcialidade,
legalidade, e lealdade às instituições, e notadamente”.

As sanções, por sua vez, estão disciplinadas no art. 12, III,


com o seguinte texto: “Art. 12. Independentemente das sanções penais,
civis e administrativas, previstas na legislação específica, está o
responsável pelo ato de improbidade sujeito às seguintes cominações:
III - na hipótese do art. 11, ressarcimento integral do dano, se
houver, perda da função pública, suspensão dos direitos políticos

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de três a cinco anos, pagamento de multa civil de até cem vezes


o valor da remuneração percebida pelo agente e proibição de
contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos
fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por intermédio
de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, pelo prazo de três
anos”.

No caso específico dos autos, entende o Ministério Público


que a anulação do concurso, aliada à falta de prova de terem os
respectivos prefeitos concorrido para a fraude impõe, em relação aos
Municípios de Xavantina e Arvoredo tão-somente a anulação dos
concursos como sanção.

Com relação à requerida RG Assessoria e Consultoria Ltda. e


seus sócios, no entanto, a sanção deve ser o ressarcimento integral do
dano (devolução do valor recebido), a suspensão dos direitos políticos
por cinco anos, o pagamento de multa de cem vezes o valor da
remuneração (valor pago pelos contratos) e a proibição de contratar
com o Poder Público por três anos.

5. Liminar – proibição de contratar com o Poder Público

Diante de quadro tão preocupante, não se pode esperar


pelo trânsito em julgado da sentença final para que parem as agressões
da empresa requerida e de seus sócios ao patrimônio público. É preciso
a adoção de medidas enérgicas para fazer cessar as fraudes, sob pena
de admitir-se tacitamente que assim continuem impunemente.

Veja-se que a empresa requerida chegou a alterar o nome


social após ser processada também por improbidade administrativa na
Comarca de Canoinhas. À época, chamava-se Lindóia Consultoria e
Assessoria Ltda., mas mudou de nome para justamente fugir das penas
que lá porventura viessem a lhe ser impostas (vide extrato do SAJ
anexo, 015.05.002376-9).

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Na Comarca de Concórdia, foram a empresa e seus sócios


processados por fraudar concurso público realizado em Irani
(019.08.002621-2, extrato anexo). Na liminar que decretou a
indisponibilidade de bens dos requeridos consignou o magistrado que
“poucas, pouquíssimas são as situações nas quais as suspeitas de
fraude na realização de um concurso público encontram-se de tal forma
sustentadas em documentos e circunstâncias, como a presente”.

A mesma empresa realizou concurso no Município de Celso


Ramos, Comarca de Anita Garibaldi, e lá foi instaurado Procedimento
Administrativo Preliminar pela Promotoria de Justiça pa ra apuração
da fraude, ocorrendo inclusive busca e apreensão de provas e gabaritos
(docs. anexos).

Na Comarca de São Domingos, a partir de diversas


reclamações de populares o Promotor de Justiça Samuel Dal-Farra
Naspolini determinou a instauração de Procedimento Preparatório,
conforme cópia do despacho anexo.

No vizinho Estado do Paraná, a empresa requerida realizou


concurso público no município de Mariópolis, Comarca de
Clevelândia, concurso que já foi anulado por sentença judicial,
conforme documentos que instruíram a representação inicialmente
trazida à Promotoria de Justiça de Seara.

Outros concursos foram realizados na Comarca de Itá,


Faxinal dos Guedes, Abelardo Luz, Ponte Serrada, Arabutã,
Agronômica, Galvão, Alto Bela Vista e Piratuba, conforme se
observa do site da empresa, todos sob a análise do Ministério Público.

Sem a proibição liminar de a empresa ou seus sócios


contratarem com o Poder Público, seguirão ocorrendo os graves
atos de improbidade, as graves fraudes em concursos públicos que
tanto favorecem as más administrações e, diga-se, tudo impunemente.

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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA

Note-se que a Lei de Improbidade Administrativa dispõe


expressamente em seu art. 20 que “a perda da função pública e a
suspensão dos direitos políticos só se efetivam com o trânsito em
julgado da sentença condenatória”. Ou seja, pelo que se percebe, o
objetivo do legislador era impedir tão-somente a concessão de liminares
para concederem perda da função pública e suspensão de direitos
políticos.

Logo, a contrario sensu, nada impede que a proibição de


contratar com o Poder Público seja, sim, deferida liminarmente,
pois, se assim não quisesse o legislador, teria inserido no artigo 20 esta
penalidade.

Além disso, estão presentes nos autos os requisitos


indispensáveis para a concessão da tutela pleiteada. E, por sua vez, os
riscos dos danos irreparáveis – se é que existem! – devem ser
suportados pela requerida como forma de acautelar a os interesses
maiores na probidade da administração pública.

Esta ação trata de direito difuso, que para ser preservado


deve se sobrepor ao interesses particulares das requeridas. Ou seja, o
possível dano que poderia ser causado é muito menor do que, caso a
tutela não seja deferida, atinja a todos os cidadãos do Estado de Santa
Catarina que estão à mercê de participar de concursos fraudulentos
realizados pela empresa RG Assessoria em Gestão Pública, que continua
atuando livremente no mercado.

Sobre a irreversibilidade do provimento, vale destacar o


seguinte entendimento:
O art. 273 afirma, no seu § 2°, que “não se concederá a
antecipação da tutela quando houver perigo de
irreversibilidade do provimento antecipado”.
Em virtude dessa regra seria possível pensar que o juiz não
pode conceder tutela antecipatória quando ela puder causar
prejuízo irreversível ao réu. Contudo, se a tutela
antecipatória, no caso do art. 273,I, tem por objetivo

17
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA

evitar um dano irreparável ao direito provável (é


importante lembrar que o requerente da tutela
antecipatória deve demonstrar um direito provável),
não há como não admitir a concessão dessa tutela
sob o simples argumento de que ela pode trazer um
prejuízo irreversível ao réu. Seria como dizer que o
direito provável deve ser sempre sacrificado diante
da possibilidade de prejuízo irreversível ao direito
improvável4.
Como intuito de corroborar o entendimento acima é
interessante colacionar a decisão do Dr. Ronivon de Aragão, Juiz Federal
no Estado de Sergipe, que nos autos n° 2007.85.02.000128-8, ao
receber a inicial, concedeu a liminar para proibição de contratação com
o poder público da empresa Gautama, a qual participou de fraudes em
processo licitatório, conforme largamente exposto na mídia.

É certo que a empresa Gautama, vinha fraudando licitações


milionárias. No entanto, percebe-se que entre ela e os agravados não
existe qualquer diferença, porque fraudes, que ontologicamente são
idênticas entre si, igualmente ocorreram. Vejamos:
Demais disso, no caso em exame, nem há de se falar em
utilização do exclusivo poder geral de cautela. É que o autor
requereu, expressamente, a liminar; essa medida liminar é
adequada e encontra previsão legal; além disso, a Lei de
Improbidade Administrativa traz como um dos
consectários lógicos da procedência, em situações
que tais, a impossibilidade de contratação com o
poder público ou receber benefícios fiscais ou
creditícios, direta ou indiretamente, ainda que por
intermédio de pessoa jurídica da qual seja sócio
majoritário, pelo prazo de 10 (dez) anos, na forma do
art. 12 e seus respectivos incisos, da Lei nº 8.429/92.
Ora, se se trata de uma sanção imposta a quem tenha
cometido ato de improbidade, não se tem como objetar
que seja vedado ao juiz antecipar esses efeitos,
quando houver prova fundada para esse fim. No caso,
como já afirmado acima, os indícios decorrentes das provas
acostadas são veementes, no sentido da prática de ato de

4
Manual do Processo de Conhecimento. Luiz Guilherme Marinoni e Sérgio Cruz
Arenhart. 3ª edição. RT, 2004. Pág. 272.

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improbidade administrativa por parte da Construtora


Gautama Ltda. e do seu sócio, sr. Zuleido Soares de Veras.
[...]
Por fim, nem se pode alegar que a decisão inviabiliza a
sociedade empresária, pois este juízo limita a decisão no
que pertine a licitações e contratos futuros, ressalvando as
contratações já existentes. (grifo nosso)
6. Liminar – indisponibilidade dos bens

Como há fundados indícios de responsabilidade, inclusive


com diversas outras ações de improbidade em andamento ou em fase
de investigação, é de se decretar liminarmente a indisponibilidade dos
bens da empresa requerida e de seus sócios, para que se garanta até
provimento final o pagamento integral das sanções pecuniárias a serem
impostas.

A possibilidade da providência cautelar está expressamente


contida no texto constitucional, prevendo o art. 37, § 4º, da Carta
Magna, que “os atos de improbidade administrativa importarão a
suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a
indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário, na forma e
gradação previstas em lei [...]”.5

A Lei nº 8.429/92, que dispõe sobre as sanções aplicáveis


aos agentes públicos ímprobos, prevê, em seu art. 7º:

Art. 7º. Quando o ato de improbidade causar lesão ao


patrimônio público ou ensejar enriquecimento ilícito, caberá
à autoridade administrativa responsável pelo inquérito
representar ao Ministério Público, para a indisponibilidade
dos bens do indiciado.
Parágrafo único. A indisponibilidade a que se refere o caput
deste artigo recairá sobre bens que assegurem o integral
ressarcimento do dano, ou sobre o acréscimo patrimonial
resultante do enriquecimento ilícito.
A concessão liminar é indiscutivelmente aceita pelo art. 12,
caput, da Lei da Ação Civil Pública, onde é previsto que “poderá o juiz

5
Grifo nosso.

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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA

conceder mandado liminar, com ou sem justificação prévia, em decisão


sujeita a agravo”. A medida tem por escopo assegurar a suficiência de
bens para fins indenizatórios ou punitivos, como é o caso dos autos.

Os requisitos de plausibilidade do direito e de fundado


receio de dano grave e de difícil reparação estão patentes. O fumus
boni juris decorre do que já foi fartamente explorado no curso deste
arrazoado. O periculum in mora é manifesto na possibilidade de os
demandados, ao virem saber de tão grave imputação, derramarem seu
patrimônio com o fito de escapar à satisfação da multa civil objeto desta
ação.

Há, por isso, óbvia necessidade de resguardar o interesse


público, visando a assegurar a execução da sentença o pagamento da
multa aplicada.

7. Pedidos

Diante da prática de graves atos de improbidade


administrativa, o MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA
CATARINA requer:

a) a autuação da inicial, nos termos do procedimento


previsto na Lei de Improbidade Administrativa, com a notificação dos
demandados para a defesa preliminar, nos termos do artigo 17, § 7º, da
Lei nº 8.429/92;

b) a concessão de liminar para: b1) proibir liminarmente a


requerida RG Assessoria em Gestão Pública Ltda., por si ou por seus
sócios Guilherme Vivian e Antônio Vivian, ou por terceiros, de qualquer
forma, de contratar com o Poder Público Municipal, Estadual ou Federal,
sob pena de multa mensal de R$ 20.000,00 e prisão por crime de
desobediência; b2) tornar indisponíveis os bens de Antônio Vivian (CPF
nº 346.434.279-49), notadamente do veículo de placas MDN-4203; b3)
tornar indisponíveis os bens de Guilherme Vivian (CPF nº 053.234.139-

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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA

21); b4) oficiar ao registro de imóveis de Ipumirim, de Concórdia e de


Coronel Freitas requisitando a averbação da indisponibilidade de bens
dos requeridos Antônio, Guilherme e RG Assessoria nas matrículas dos
imóveis que possuírem; b5) oficiar ao Detran para averbar a
indisponibilidade de bens nos automóveis de propriedade dos
requeridos Antônio, Guilherme e RG Assessoria;

c) a notificação dos Municípios Xavantina e de Arvoredo (art.


2º e do art. 3º da Lei nº 8.429/92) para que informem os valores pagos
à requerida, com cópia da nota de empenho, pelos Concursos Públicos
nº 1/2007 e nº 1/2008, do Município de Arvoredo, bem como dos
Concursos Públicos nº 1/2007 e 2/2007, de Xavantina;

d) o recebimento da inicial e a citação do requeridos para,


querendo, contestarem o feito, observado o procedimento previsto na
Lei nº 8.429/92;

e) a produção de prova testemunhal, pericial e documental


que porventura for necessária;

f) a condenação dos requeridos RG Assessoria em Gestão


Pública, Antônio Vivian e Guilherme Vivian às seguintes sanções: f1)
ressarcimento do valor gasto pelas prefeituras com os concursos; f2) a
suspensão dos direitos políticos por cinco anos; f3) o pagamento de
multa de cem vezes o valor da remuneração (valor pago pelos
contratos); f4) a proibição de contratar com o Poder Público por três
anos;

g) a anulação dos Concursos Públicos nº 1/2007 e nº


1/2008, do Município de Arvoredo, bem como dos Concursos Públicos nº
1/2007 e 2/2007, de Xavantina;

h) a condenação dos requeridos em custas, despesas


processuais e honorários advocatícios (estes conforme art. 4º do

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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA

Decreto Estadual nº 2.666/04, em favor do Fundo de Recuperação de


Bens Lesados do Estado de Santa Catarina).

Dá-se à causa o valor de R$ 100.000,00 (cem mil reais,


estimativa dos gastos e da sanção pecuniária).

Seara, 1º de setembro de 2008

Eduardo Sens dos Santos


Promotor de Justiça

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