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Não vou à Igreja porque não gosto das pessoas

É verdade que ir à Igreja pode não ser a mais agradável das experiências algumas vezes. Muitas
coisas podem não nos agradar. Desde as músicas ou certo estilo de celebração para quem está
em um primeiro contato, até certas desconfianças, conhecimento das imperfeições e certas
desavenças experimentadas por quem já está um pouco mais comprometido. Mas quais dessas
razões seriam suficientes para deixar de ir à Igreja?

Em primeiro lugar, se qualquer razão nos leva ao afastamento de Deus, precisamos ligar um
alerta para saber se, na verdade, não estamos nos deixando cair em alguma espécie de tentação.
Afinal, em última instância, o que buscamos na Igreja senão a Deus? E as dificuldades que
possamos experimentar, nunca serão um obstáculo intransponível para alguém que, de
verdade, está em busca de uma vida cristã autêntica. Jó é um exemplo sempre lembrado de que
as dificuldades não nos afastam necessariamente do Senhor. E dificilmente as experiências
negativas que temos na Igreja se assemelham àquelas que encontramos na vida de Jó.

Por outro lado, não se pode negar que as vezes as situações são tão difíceis que para cada um
pode ser difícil suportar ou se comprometer a ponto de mudar. Entenda-se bem o que quero
dizer. Com a Graça de Deus, tudo é possível, todos os obstáculos e dificuldades podem ser
superadas, mas seria muito fácil dizer então que sempre é preciso aguentar aquilo que não está
bem, confiando que o problema será solucionado. A resposta, me parece, é mais complicada
que isso.

Retornamos a uma questão que é, basicamente, moral. Coloquemos um outro exemplo para
tentar clarificar o pensamento. Conhecemos o mandamento de não matar. E não devemos
matar. A não ser que seja em uma situação de legítima defesa, por exemplo. Nesse caso, existe
um dever para com a própria vida que parece ser anterior ao mandamento. Isso simplesmente
ilustra que a vida cristã não é uma simples aplicação de regras frias em todos os indivíduos que
são considerados como igualmente capazes de responder a essas regras. Pelo contrário,
moralmente falando, a vida cristã passa justamente a ser o esforço de cada pessoa, auxiliado
pela graça divina, de se aproximar cada vez mais do modelo de homem pleno que é Jesus.

Parece, mas não nos desviamos do assunto. Retornemos agora ao problema de ir ou não a Igreja
por causa das pessoas que me enfadam por qualquer razão. Uma pessoa pode reagir a isso
dizendo que se experimenta chamada a carregar aquela cruz, a resolver o problema, a se
esforçar por superar aquela situação. Ótimo! Mas isso não quer dizer que todo mundo precise
reagir dessa forma. Outro pode dizer: “Para mim, nesse momento da minha vida, me é
impossível, por tais e tais motivos, superar essa situação”. Se é um discernimento verdadeiro e
não uma fuga dos problemas, isso também é vontade de Deus. E agindo de acordo com isso,
pode buscar um lugar que o ajude a melhor crescer em sua vida cristã e, quem sabe, mais tarde
não volte com renovadas forças para ajudar na primeira situação. A vida cristã exige um
constante discernimento. E muito facilmente caímos em normas frias que decidem a vida por
nós.

Por último, pensemos em Jesus. Ele veio ao mundo porque nos ama. Mas merecemos esse
amor? E se a sua atitude tivesse sido a de “não ir ao mundo porque não gosto das pessoas”?
Meio estranho pensar isso, mas o chamado a amar inclusive e especialmente os inimigos está
aí, feito por Jesus. Por isso, façamos sempre o exercício de olhar para os outros com amor, por
mais difícil que isso possa parecer em um primeiro momento. E esse olhar passa, também, por
amar aquele que não responde da forma como eu gostaria que ele respondesse.