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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA

EXCELENTÍSSIMA SENHORA JUÍZA DE DIREITO DA COMARCA DE


MODELO

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA


CATARINA, por seu Promotor de Justiça ao final assinado, com
fundamento nos arts. 127 e 129, III, da Constituição da República,
bem como no art. 82, I, do Código de Defesa do Consumidor, no art.
5º da Lei nº 7.347/85 e no art. 3º e 14, §1º, da Lei nº 6.938/81,
propõe AÇÃO CIVIL PÚBLICA, em defesa do direito ao meio
ambiente ecologicamente equilibrado, em face de:

COOPERATIVA CENTRAL OESTE CATARINENSE


LTDA., pessoa jurídica de direito privado, inscrita no CNPJ sob o nº
83.310.441/0025-94, domiciliada na rua João Martins, 219-D, bairro
São Cristóvão, Chapecó, Santa Catarina;

COOPERATIVA REGIONAL ITAIPU LTDA., pessoa


jurídica de direito privado, inscrita no CNPJ sob o nº
83.220.723/0001-23, domiciliada na avenida Brasília, 3300,
Pinhalzinho, Santa Catarina;

JOSÉ NELSON SCHMITZ, brasileiro, agricultor, nascido


em 19 de março de 1952, em Lageado/RS, inscrito no CPF sob o nº
251.453.129-20, filho de Edgar João Schmitz e de Anna Persch

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Schmitz, residente na Linha Grando, interior do Município de Serra


Alta, Comarca de Modelo, Santa Catarina.

1. Objetivo da ação

Esta ação civil pública tem por objetivo obter provimento


jurisdicional que determine à Cooperativa Regional Itaipu Ltda. e à
Cooperativa Central Oeste Catarinense Ltda. a adoção de
providências para pôr fim à degradação ambiental que vêm
incentivando e da qual vêm se beneficiando no Município de Serra
Alta, mais precisamente na propriedade do requerido José Nelson
Schmitz, na Linha Grando.

Tem por objetivo também obter provimento que


determine a completa recuperação da área degrada, também por
parte das Cooperativas requeridas, bem como a indenização do dano
ambiental até o momento causado, mediante compensação
financeira destinada ao Fundo de Recuperação de Bens Lesados do
Estado de Santa Catarina.

2. Legitimidade passiva

Como é notório e está comprovado pelos documentos que


seguem, a Cooperativa Central Oeste Catarinense Ltda., também
conhecida como Cooperativa Aurora e doravante assim denominada,
é cooperativa de segundo grau, uma vez que tem por finalidade a
industrialização da produção de outras cooperativas filiadas,
chamadas então cooperativas de primeiro grau.

Dentre as cooperativas de primeiro grau integradas à


Cooperativa Aurora se encontra a requerida Cooperativa Regional
Itaipu Ltda., que integra a Cooperativa Aurora desde a sua fundação.

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Por sua vez, o produtor rural José Nelson Schmitz, como


se verá adiante, é integrado formal da Cooperativa Regional Itaipu
Ltda., motivo pelo qual entende o Ministério Público que o dano
causado pelo produtor, porque no caso específico dos autos
incentivado, admitido e explorado pelas Cooperativas, deve ser
imputado objetivamente a elas, residindo aqui a legitimidade
passiva para a causa.

3. Fatos

3.1. Conduta de José Nelson Schmitz

Em fevereiro de 2007 a Polícia Militar de Proteção


Ambiental vistoriou a propriedade rural de José Nelson Schmitz,
situada na Linha Grando, em Serra Alta, nesta Comarca de Modelo.

Constatou-se, na ocasião, que “na propriedade havia


acontecido despejo de dejetos de suínos através de uma mangueira
a uma distância de seis metros do recurso hídrico” e que, “em face
da declividade do terreno, os dejetos escorreram sobre o solo e
adentraram ao rio”.

Em outras palavras: José Nelson Schmitz, que cria suínos


com exclusividade para a Cooperativa Itaipu e recebe visitas
quinzenais de seus técnicos ambientais (vide questionário anexo),
ao invés de dar a destinação correta aos dejetos suínos que produz
em sua propriedade, preferiu simplesmente instalar tubulação para
que os dejetos escorressem para o curso d´água conhecido como
Lajeado Jupir. A destinação correta, como se sabe, seria a cessão
dos dejetos para uso como agrofertilizante.

A Fatma, atendendo a requisição do Ministério Público


sobre o caso do senhor José Nelson Schmitz, informou que “não há

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forma adequada para ‘escoar’ dejetos. Muito menos escoar ou


canalizar para o rio ou córrego”. O que é possível, segundo o órgão
ambiental, é o aproveitamento dos dejetos como fertilizante
agrícola, o que não ocorreu na espécie, de modo que a Fatma,
diante da gravidade da situação, suspendeu a licença ambiental até
adequação da atividade às normas ambientais e apresentação de
projeto de recuperação da área degradada.

Assim, com as ilegalidades descritas acima, José Nelson


Schmitz a um só tempo praticou crime ambiental (art. 60 da Lei nº
9.605/98) e grave infração administrativa.

3.2. Conduta das Cooperativas

Evidentemente, por um princípio básico de Economia,


ninguém exerce atividade produtiva se não visar à obtenção de
alguma vantagem pessoal, que na maior parte das vezes é
financeira.

É o caso do produtor rural José Nelson Schmitz. Como se


apurou nesta Promotoria de Justiça, o produtor tem toda a sua
produção de suínos adquirida normalmente pela Cooperativa Itaipu
(contrato de integração anexo), que por sua vez a repassa à
Cooperativa Aurora para industrialização. Embora enviem técnicos
ambientais quinzenalmente à propriedade de José Nelson Schmitz,
nem uma nem outra exigiu até o momento do produtor o manejo
adequado dos dejetos de sua propriedade.

A Cooperativa Aurora, por sua vez, como cooperativa de


segundo grau e centralizadora da industrialização dos suínos, recebe
os porcos adquiridos pela Cooperativa Itaipu sem indagá-la da

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origem dos animais e sem exigir a adequação permanente às


normas de proteção ambiental.

Assim, na verdade, tanto a Cooperativa Itaipu quanto a


Cooperativa Aurora exploram juntamente com o produtor rural a
produção de suínos para abate, atividade que, no caso dos autos,
vem causando poluição ambiental intolerável, já que o produtor
despeja os dejetos no rio que margeia sua propriedade, tudo sob a
supervisão das Cooperativas.

4. Direito

A água, este bem escasso de que depende a


humanidade, vem sofrendo constantes degradações desde o
processo de industrialização por que passou o mundo nos últimos
séculos. Afora o desperdício e a contaminação por agrotóxicos,
apontam os estudos mais modernos a indústria como o principal
agressor ambiental em se tratando de recursos hídricos. No caso do
Oeste de Santa Catarina, a agroindústria vem corretamente sendo
responsabilizada pela intensa contaminação dos lençóis freáticos e
dos cursos d´água existentes.

Por isso é que não param os filósofos e os demais


estudiosos do mundo de ressaltar a necessidade de premente
mudança de práticas e de hábitos humanos em relação ao seu
próprio ambiente. Leonardo Boff, um dos expoentes do pensamento
filosófico brasileiro, cunhou o termo Dignitas Terrae para designar o
que entende seja o desafio do homem dos tempos globalizados:
alcançar a ética fundada na natureza, em que “o desenvolvimento
do ser humano não se faça contra a natureza, mas em sinergia com

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ela; e que se mantenha de forma dinâmica e coesa a integridade


sagrada de todo o criado [de todo o universo]”1.

4.1. Código de Pesca

Pautado por este princípio filosófico, nas últimas décadas


o direito brasileiro avançou na proteção ambiental. Em primeiro
lugar pode-se ressaltar a instituição do Código de Pesca (Decreto-Lei
nº 221/67), que em seu art. 37 proíbe o lançamento de efluentes de
indústrias que tornarem poluídas as águas.

Também aqui, em franca desobediência à proibição legal,


o produtor, sob a supervisão e incentivo das Cooperativas, lança no
leito do Lajeado Jupir (fezes e urina) dejetos de aproximadamente
270 porcos2, através de um cano ligando as esterqueiras ao rio,
como se observa pelas fotografias dos autos.

A criação de peixes nas proximidades do local, como se


poderia pensar equivocadamente, não é favorecida pelo lançamento
dos dejetos; ao contrário, dada a imensa quantidade de matéria
orgânica, a proliferação de microorganismos que dela se alimentam
torna insuficiente o oxigênio disponível na água e leva à mortandade
de espécies menos resistentes. O desequilíbrio ao ecossistema é
inevitável.

Daí a incidência da proibição do art. 37 do Decreto-Lei nº


221/67: “Os efluentes das redes de esgotos e os resíduos líquidos ou
sólidos das indústrias somente poderão ser lançados às águas,
quando não as tornarem poluídas”. E, na conformidade com o §1º do
1
BOFF, Leonardo. Ethos Mundial: um consenso mínimo entre os humanos. Rio de Janeiro :
Sextante, 2003. p. 59.
2
Segundo cartilha da Associação Catarinense de Criadores de Suínos, um porco polui o
equivalente a quatro pessoas e, segundo dados do Ministério Público do Estado de Santa
Catarina, um porco produz no mínimo sete litros de dejetos por dia (documentos
anexos).

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art. 37, “considera-se poluição qualquer alteração das propriedades


físicas, químicas ou biológicas das águas, que possa constituir
prejuízo, direta ou indiretamente, à fauna e à flora aquática”.

Note-se que, conforme parecer técnico da Fatma, não há


limites toleráveis para lançamento de dejetos suínos em cursos d
´água, uma vez que “não há forma adequada de escoar dejetos,
muito menos escoar ou canalizar para cursos d´água, que constitui
crime ambiental. O que há na atividade suinícola é um manejo
denominado ‘aplicação de dejetos’ no solo com o intuito de adubá-lo
para as futuras culturas de interesse agrícola” (parecer anexo).

Assim, facilmente se conclui que a atividade dos


requeridos desafia a legalidade ao confrontar com o Código de
Pesca.

4.2. Lei da Política Nacional do Meio Ambiente – Lei nº 6.938/81

Que a legislação ambiental brasileira coíbe com vigor a


ocorrência de danos aos recursos hídricos sob vários aspectos, como
forma de atender àquela diretriz mundial de proteção ao meio
ambiente, não há dúvidas.

No caso dos autos, despontam agressões à natureza de


altíssima gravidade, em que a atividade do produtor rural,
incentivada, supervisionada e explorada pelas Cooperativas,
prejudica diretamente a saúde e o bem-estar da população, por criar
condições adversas às atividades sociais e afetar desfavoravelmente
a biota.

Além disso, a poluição hídrica comprovada nos autos


afeta as condições sanitárias do meio ambiente e lança matéria em
desacordo com os padrões ambientais estabelecidos.
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Há, portanto, poluição, pois o fato descrito se amolda


perfeitamente ao conceito legal: “Para os fins previstos nesta Lei,
considera-se poluição a “degradação da qualidade ambiental
resultante de atividades que direta ou indiretamente: a)
prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população; b)
criem condições adversas às atividades sociais e econômicas; c)
afetem desfavoravelmente a biota; d) afetem as condições estéticas
ou sanitárias do meio ambiente; e) lancem matérias ou energia em
desacordo com os padrões ambientais estabelecidos”3.

O padrão ambiental estabelecido para a atividade do


senhor José Nelson Schmitz, como se observa da licença ambiental
que foi suspensa pela Fatma, é zero. Em outras palavras, nenhum
lançamento de matéria no curso d´água, por menor que seja, é
admitido pelo padrão fixado pelo órgão ambiental, de modo que
qualquer lançamento, por menor que seja, já configura o dano
ambiental.

5. Responsabilidade civil objetiva pelo dano ambiental

Diante da situação constatada, faz-se mais do que


necessária, faz-se verdadeiramente imperiosa a responsabilização
civil dos poluidores pelos danos ambientais e pelo ilícito que vêm
praticando.

Não apenas pela obrigatoriedade de reparação do dano e


retorno ao status quo ante, mas também de modo exemplar, de
forma a amoldar a conduta futura da agroindústria e buscar
convencê-la (ainda que pela forma mais drástica) do necessário
respeito ao Meio Ambiente.

3
Lei nº 6.938/91, art. 9º, III.

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Despontam, portanto, as funções sancionatória e


dissuasora da responsabilidade civil por dano ambiental,
necessidade imposta pela sociedade pós-industrial, marcada pelo
crescimento de riscos nos processos produtivos.

Em apoio ao entendimento aqui trazido, Annelise


Monteiro Steigleder, Promotora de Justiça de Porto Alegre, lembra
que “a responsabilidade civil típica da ‘era tecnológica’ desempenha
funções que se desenvolvem em dois âmbitos: como instrumento de
regulação social e como mecanismo para a indenização da vítima”.

E, ainda segundo a autora, “no âmbito de ser instrumento


de regulação social, a responsabilidade exerce a função de prevenir
comportamentos anti-sociais, dentre os quais aqueles que implicam
geração de riscos; de distribuir a carga dos riscos, pelo que se torna
otimizadora de justiça social; e de garantia dos direitos do cidadão”4.

Por isso é que se buscará nesta ação não apenas a


reparação do dano, mas também a condenação por danos
extrapatrimoniais causados ao meio ambiente, única forma de
sancionar a agroindústria pelos danos ambientais e ao mesmo
tempo dissuadi-la de prosseguir no fomento de atividades lesivas ao
meio ambiente.

5.1. Pressupostos da responsabilidade civil

5.1.1. Fato antijurídico

Para o surgimento da obrigação de indenizar na


responsabilidade civil, segundo Fernando Noronha, são necessários
os seguintes pressupostos: “que haja um fato (uma ação ou omissão

4
Responsabilidade civil ambiental: as dimensões do dano ambiental no direito brasileiro.
Porto Alegre : Livraria do Advogado, 2004. p. 178, grifou-se.

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humana, ou um fato humano, mas independente da vontade, ou


ainda um fato da natureza) que seja antijurídico (isto é, que não seja
permitido pelo direito, em si mesmo ou nas suas conseqüências)”5.

No caso narrado nesta ação, os fatos consistiram na ação


humana do produtor rural em despejar dejetos suínos no Lajeado
Jupir, em Serra Alta, por um lado. Por outro lado, o fato consistiu na
aquisição, pelas cooperativas, dos animais produzidos em
propriedade alheia às normas de direito ambiental, bem como no
incentivo à produção irregular e na omissão em exigir a adequação
da atividade.

No que toca à omissão, vale observar que pelos contratos


mantidos com o produtor rural (anexos), e pela praxe da
Cooperativa Itaipu (vide questionário anexo), seus técnicos
ambientais visitavam quinzenalmente o produtor, situação que
permite concluir ter responsabilidade sobre a conduta, já
que controla em todos os aspectos a produção rural.

Tais fatos são inegavelmente antijurídicos, porque ferem


a um só tempo o Código de Pesca e a Lei nº 6.938/86, como se
observou nos itens anteriores.

5.1.2. Nexo de imputação – responsabilidade objetiva

Para o mesmo professor Fernando Noronha, ainda é


pressuposto necessário à configuração da responsabilidade civil
“que esse fato possa ser imputado a alguém, seja por se dever à
atuação culposa da pessoa, seja por simplesmente ter acontecido no
decurso de uma atividade realizada no interesse dela”6.

5
NORONHA, Fernando. Direito das obrigações. São Paulo : Saraiva, 2003, p. 468.
6
Idem, p. 468.

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E, como se nota claramente pela prova produzida no


curso das investigações civis levadas a efeito pelo Ministério Público,
o fato narrado nesta ação deve ser imputado não apenas ao
produtor rural (que por isso deverá suspender as atividades e
suportar a adequação de sua propriedade), mas também e
prioritariamente à agroindústria, representada aqui pelas
Cooperativas Aurora e Itaipu, já que a conduta ocorreu no decurso
de atividade realizada no interesse delas próprias.

É preciso recordar neste ponto que a responsabilidade


pelos danos ambientais é do tipo objetiva e, por esse motivo, não se
traz aqui qualquer argumentação sobre culpa das cooperativas ou
do produtor rural.

Novamente cita-se o autor catarinense para observar que


“quem exerce profissionalmente uma atividade econômica,
organizada para a produção ou distribuição de bens e serviços, deve
arcar com todos os ônus resultantes de qualquer evento danoso
inerente ao processo produtivo ou distributivo, inclusive os danos
causados por empregados e prepostos”7.

O próprio parágrafo único do art. 927 do Código Civil já


contém regra explícita a respeito: “Haverá obrigação de reparar o
dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei,
ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do
dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem”.

Assim, está presente também no caso dos autos o nexo


de imputação, segundo pressuposto da responsabilização civil.

5.1.3. Dano e nexo de causalidade

7
Idem, p. 486.

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Continua Fernando Noronha informando ser pressuposto


da responsabilização civil “que tenham sido produzidos danos; que
tais danos possam ser juridicamente considerados como causados
pelo ato ou fato praticado, embora em casos excepcionais seja
suficiente que o dano constitua risco próprio da atividade do
responsável, sem propriamente ter sido causado por esta”8.

Novamente aqui estão presentes os pressupostos no caso


específico dos autos. Evidentemente foram produzidos danos,
porque o simples despejo de dejetos suínos em curso d´água, dada a
inexistência de limite de tolerabilidade para a atividade (não é
permitido o lançamento de qualquer quantidade) por si só causa
dano ambiental9.

A atividade dos três requeridos, por sua vez, é causa dos


danos, no sentido jurídico do termo. Além do evidente nexo de
causalidade com a conduta do produtor rural, também a conduta
das Cooperativas Aurora e Itaipu causou o dano descrito. Não fosse
o contrato de aquisição dos suínos e a omissão em exigir o
cumprimento das normais ambientais, não haveria sequer
lançamento irregular de dejeto e, via de conseqüência, poluição.

Vale anotar aqui, quanto ao nexo de causalidade, que


para os fins da Lei da Política Nacional do Meio Ambiente considera-
se poluidor “a pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado,
responsável, direta ou indiretamente, por atividade causadora de
degradação ambiental”10.

8
Idem, p. 468-469.
9
Conforme disposições da Instrução Normativa nº 11, da Fatma, somente são admitidas
as seguintes formas de disposição dos dejetos de suínos, sendo vedada a canalização
para qualquer curso d´água: fertirrigação; distribuição de dejetos por caminhão;
distribuição de dejetos em meio líquido. Inteiro teor da IN-11/Fatma em anexo.
10
Art. 3º, IV, da Lei nº 6.938/86.

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A doutrina mais moderna, já calcada nos princípios


ambientais do poluidor-pagador, da prevenção e da precaução,
ensina ser necessário considerar como poluidor aquele que “tem
poder de controle sobre as condições que levam à ocorrência da
poluição, podendo portanto preveni-las ou tomar precauções para
evitar que ocorram”11.

Como é evidente, as Cooperativas Aurora e Itaipu têm


total controle sobre as condições que levam à poluição, pois
controlam todo o ciclo produtivo, fornecendo ração, vacinas,
assessoria técnica ambiental e veterinária.

Aliás, cumpre observar que, embora inegavelmente as


cooperativas tenham função econômica e social de relevo, as
atividades que vêm sendo desenvolvidas na região (da forma que
são desenvolvidas) muito mais se assemelham à exploração pura e
simples da mão de obra dos produtores rurais do que propriamente
à cooperação. A exploração, no entanto, tem a grande vantagem de
fazer transparecer que a responsabilidade é só do produtor rural,
quando deve ser evidentemente compartilhada (assim como o lucro)
com as Cooperativas

Assim, presentes os pressupostos da responsabilização


civil (fato antijurídico, nexo de imputação, dano e nexo de
causalidade), deve ser imposto aos requeridos o dever de recuperar
a área degradada pelo dano ambiental e compensar a Natureza
pelos danos causados.

A compensação é necessária, porque é evidente que a


recuperação adequada levará anos e, por princípio básico de direito,
11
RODRIGUES, Marcelo Abelha. Elementos de Direito Ambiental: parte geral. 2ª ed. São
Paulo : Revista dos Tribunais, 2005, p. 307, citando Maria Alexandra de Sousa Aragão.

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não poderá haver dano sem reparação. Além disso, tem a


compensação a função de sancionar e dissuadir os poluidores em
suas condutas futuras.

6. Paralisação liminar das atividades de suinocultura

Constatada a ocorrência de infração à legislação federal,


bem como do dano ambiental daí decorrente, além do nexo de
causalidade entre a conduta da empresa e o dano, cumpre ao
Ministério Público requerer provimento jurisdicional que determine
de imediato a paralisação das atividades nocivas ao meio ambiente,
ou seja, obrigação de não fazer, como forma de acautelar o meio
ambiente das conseqüências da poluição causada.

Nessa situação, incide o art. 461 do Código de Processo


Civil, que determina que “na ação que tenha por objeto o
cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer, o juiz concederá a
tutela específica da obrigação ou, se procedente o pedido,
determinará providências que assegurem o resultado prático
equivalente ao do adimplemento”.

E, segundo o §3º do art. 461, “sendo relevante o


fundamento da demanda e havendo justificado receio de ineficácia
do provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente
ou mediante justificação prévia, citado o réu”. Complementa a regra
o §4º, autorizando o juiz a “impor multa diária ao réu,
independentemente de pedido do autor, se for suficiente e
compatível com a obrigação, fixando-lhe prazo razoável para
cumprimento do preceito”.

Por fim, autoriza o §5º: “Para efetivação da tutela


específica ou a obtenção de resultado prático equivalente, poderá o

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juiz, de ofício ou a requerimento, determinar as medidas


necessárias, tais como a imposição de multa por tempo de atraso,
busca e apreensão, remoção de pessoas e coisas, desfazimento de
obras e impedimento de atividade nociva, se necessário com
requisição de força policial”.

O fundamento da demanda, como se vê, é relevante,


porque pautado pela infringência em uma série de dispositivos
legais em vigor. Não bastasse isso, o dano ambiental está
cabalmente comprovado documentalmente nos autos e prossegue
ocorrendo diuturnamente.

Acaso não antecipadas medidas para evitar a continuação


das atividades, fatalmente o provimento final será ineficaz, pois já se
terá consumado ao longo dos anos o dano ambiental e, como ele, a
total impunidade das requeridas. Vale notar que a cada dia que
passa o dano ocorre novamente, sendo imposição dos princípios de
direito ambiental (princípio da prevenção) a imediata adoção de
providências que impeçam a continuidade.

De fato, o cuidado recomenda que atividade de tamanho


potencial poluidor seja suspensa por ordem judicial até a completa
adequação, sob pena de eventual acumulação de toxinas nas águas
do Lajeado Jupir causar dano ecológico de maior monta, em face da
delicadeza do sistema hídrico da região. Vale lembrar que, em se
tratando de meio ambiente, não há como prever todas as
conseqüências de ato poluente continuado, o que não impede a
adoção de medidas para sua imediata cessação (princípio da
precaução).

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E a suspensão, diga-se, deve ser ordenada judicialmente


mesmo diante da suspensão administrativamente determinada pela
Fatma. É que, como é sabido, o ato administrativo do órgão
ambiental não têm cogência suficiente em sua ordem para evitar a
perpetuação da atividade, já que no máximo poderá impor multas
administrativas irrelevantes, a serem cobradas pelo famigerado
sistema da inscrição em dívida ativa.

Para tanto, entende o Ministério Público do Estado de


Santa Catarina necessária a imediata suspensão das atividades da
pocilga de propriedade de José Nelson Schmitz, com a retirada de
todos os suínos do local, sob pena de multa diária no valor de R$
500,00.

Ainda como forma de evitar o descumprimento da ordem


(art. 461, §5º), deverá a Cooperativa Itaipu ser intimada a não
fornecer suínos ao produtor enquanto não executado o projeto de
recuperação, sob pena de multa de R$ 1.000,00 por suíno.

Evidentemente, a determinação para retirada dos suínos


deverá ser dirigida à Cooperativa Itaipu, que, para manter o contrato
com o produtor rural (função social do contrato) e evitar
enriquecimento sem causa deverá pagar o preço de mercado pelo
quilo vivo de cada animal.

7. Reparação do dano ambiental

A simples paralisação das atividades significará apenas a


cessação da atividade poluidora. Para que o meio ambiente volte a
sua natural conformação, isto é para que volte à sua integridade, é
necessário também que se determine a completa execução
de PRAD – plano de recuperação da área degradada.

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A reparação encontra abrigo no disposto no §3º do art.


225 da Constituição da República e no §1º do art. 14 da Lei nº
6.938/81. A primeira norma determina que “as condutas e atividades
consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores,
pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas,
independentemente da obrigação de reparar os danos
causados”.

A segunda norma é ainda mais explícita: “Sem obstar a


aplicação das penalidades previstas neste artigo, é o poluidor
obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar
ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros
afetados por sua atividade”.

Para Édis Milaré, de fato a recuperação natural do


ambiente degradado é a modalidade mais adequada de reparação
do dano, “e a primeira que deve ser tentada, mesmo que mais
onerosa”. E justifica sua posição afirmando, com Paulo Affonso Leme
Machado, que “não basta indenizar, mas fazer cessar a causa do
mal, pois um carrinho de dinheiro não substitui o sono recuperador,
a saúde dos brônquios ou a boa formação do feto”12.

Para tanto, requer desde já o Ministério Público do Estado


de Santa Catarina que se determine liminarmente às Cooperativas
Aurora e Itaipu que apresentem PRAD em trinta dias, sob pena de
multa civil.

8. Compensação ambiental

Como é óbvio, os danos passados, causados pela poluição


já ocorrida de um dos principais cursos d´água de Serra Alta, não
12
MILARÉ, Édis. Direito do ambiente. 4ª ed. São Paulo : Revista dos Tribunais, 2005. p.
741.

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pode ser reparado diretamente. É preciso, pois, indenização em


dinheiro, decorrência natural da adoção pelo direito brasileiro do
princípio poluidor-pagador.

Cristiane Derani, dissertando sobre o princípio, sintetiza-o


da seguinte forma: “durante o processo produtivo, além do produto
a ser comercializado, são produzidas ‘externalidades negativas’. São
chamadas externalidades porque, embora resultantes da produção,
são recebidas pela coletividade, ao contrário do lucro, que é
percebido pelo produtor privado. Daí a expressão ‘privatização de
lucros e socialização de perdas’, quando identificadas as
externalidades negativas. Com a aplicação do princípio do
poluidor-pagador, procura-se corrigir este custo adicionado à
sociedade, impondo-se sua internalização. Por isto, este
princípio é também conhecido como o princípio da
responsabilidade”13.

Em outras palavras, o poluidor é responsável pela


indenização do custo social de sua atividade poluente, devendo por
ela ser responsabilizado.

Bem por isso – vale lembrar novamente – a Lei da Política


Nacional do Meio Ambiente determina que “é o poluidor obrigado,
independentemente da existência de culpa, a indenizar ou
reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros
afetados por sua atividade”14.

É necessária, assim, a imposição de condenação por


danos extrapatrimoniais, porque, embora não seja perceptível lesão

13
MILARÉ, Édis. Direito do ambiente. 4ª ed. São Paulo : Revista dos Tribunais, 2005. p.
164.
14
Art. 14, §1º, da Lei nº 6.938/81.

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patrimonial aos habitantes da Comarca, a lesão extrapatrimonial é


evidente.

Convém lembrar que nada há no ordenamento jurídico


que vede a concessão de indenização por danos extrapatrimoniais
difusos, porque é intuitivo que se várias pessoas são
individualmente lesadas em pequenas parcelas o conjunto de lesões
é mais grave que a mera soma delas.

Exemplo clássico disso é o dado em sede de direito


coletivo de consumo: a diminuição de um grama em cada saco de
arroz não gera grande lesão ao consumidor, mas causa dano
coletivo de grande monta, passível inclusive de prisão, por
configurar crime contra as relações de consumo15.

Cabe bem aqui a transcrição da conclusão da Dissertação


de Mestrado de Annelise Monteiro Steigleder, em que registra a
existência de duas dimensões para o dano ambiental: uma material
e uma extrapatrimonial.

No que tange à dimensão extrapatrimonial, a jurista


gaúcha o divide em três aspectos, interessando mais de perto ao
caso dos autos o segundo e o terceiro: “1. dano moral ambiental
coletivo, considerado injusta lesão da esfera moral de uma
determinada comunidade e que se exemplifica pela diminuição do
bem-estar, da qualidade de vida da coletividade, decorrente de uma
degradação ambiental, ou pela destruição de bens do patrimônio
histórico-cultural; 2. dano social, admitindo-se a reparabilidade do
período durante o qual a coletividade ficar privada da fruição
coletiva do bem ambiental e das perda públicas impostas com a

15
Art. 7º, II, da Lei nº 8.137/90

19
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degradação; 3. dano ao valor de existência dos elementos naturais,


reconhecendo-se a indenizabilidade do tempo necessário à
regeneração natural do próprio ambiente a partir da percepção de
seu valor intrínseco”16.

O valor da indenização a ser pleiteada, também por esses


motivos, deve levar em conta o tempo em que a coletividade ficou
privada do bem ambiental saudável (tempo de duração do dano),
bem como o tempo necessário à regeneração do meio ambiente,
além, é claro, do poder aquisitivo das requeridas17 e do desvalor da
conduta.

Não se pode conceber tenham lugar condutas como as


das requeridas, ainda mais numa sociedade democrática, em que se
espera e se luta pelo aperfeiçoamento dos mecanismos garantidores
do pleno exercício dos atributos da cidadania, inclusive com a
efetiva implementação da legislação ambiental (respeito à vida, ao
bem bem-estar e à dignidade).

Por isso a jurisprudência tem reconhecido a possibilidade


de condenação do responsável por danos extrapatrimoniais
coletivos:
TOMBAMENTO - NEGLIGÊNCIA DOS PROPRIETÁRIOS -
DESTRUIÇÃO PARCIAL DO BEM - DANO MORAL COLETIVO.
Com a evolução do amparo ao meio ambiente no Brasil, a
doutrina pacificou o entendimento acerca da possibilidade de
reconhecimento da indenização por dano moral coletivo,
quando decorrente de agressões ao patrimônio ambiental,
com respaldo, após 1994, no art. 1º da Lei da Ação Civil
Pública. O dano moral coletivo será cabível quando gerar
uma grave comoção em toda a comunidade envolvida, todavia

16
Responsabilidade civil ambiental: as dimensões do dano ambiental no direito brasileiro.
Porto Alegre : Livraria do Advogado, 2004. p. 275.
17
Vide em anexo relação de veículos da Cooperativa Aurora, por exemplo.

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a indenização apenas persistirá quando inviável a reparação


do prédio tombado18.
Assim, presente o dano extrapatrimonial, e presente o
nexo de causalidade entre o dano e a conduta dos requeridos, nasce
o dever de repará-lo, cabendo indenização pelos danos causados –
por todos os danos –, motivo pelo qual entende-se ser devida
indenização.

Tal indenização, como é natural em sede de direitos


difusos, deverá reverter ao fundo de reconstituição de bens lesados
(art. 13 da Lei nº 7.347/85). Em Santa Catarina, o Fundo para
Reconstituição dos Bens Lesados foi criado pelo Decreto nº 1.047, de
10 de dezembro de 1987.

9. Pedidos

Ante o exposto, requer o Ministério Público:

a) o recebimento, registro e autuação da presente ação


civil pública;

b) a concessão de liminar para determinar que em trinta


dias, sob pena de multa diária de R$ 500,00, as requeridas
Cooperativa Central Oeste Catarinense Ltda. e Cooperativa Regional
Itaipu Ltda.:

b1) transfiram os animais da granja de suínos de José


Nelson Schmitz para outro local, indenizando o produtor rural pela
cotação da data de hoje (R$ 1,50 por quilo vivo);

b2) recolham todos os dejetos suínos ainda presentes nas


esterqueiras da granja de suínos de José Nelson Schmitz,
comprovando destinação adequada;

18
Apelação cível 2005.013455-7. Relator: Des. Volnei Carlin. Data da Decisão: 06/10/2005.

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b3) apresentem projeto de recuperação da área


degradada, com cronograma mensal, para a adequação da
capacidade das esterqueiras existentes na propriedade de José
Nelson Schmitz, com revitalização da mata ciliar e da área de
preservação permanente e acompanhamento do plantio e
crescimento das espécies nativas por pelo menos dois anos;

b4) deixem de fornecer suínos a José Nelson Schmitz,


enquanto não executado o PRAD, sob pena de multa de R$ 1.000,00
por suíno fornecido irregularmente;

c) a citação dos requeridos para, querendo, apresentarem


a defesa que entenderem pertinente;

d) a produção de todos os meios de prova admitidos,


notadamente a prova pericial, depoimento pessoal, prova
documental e testemunhal, se for necessário;

e) a condenação do requerido José Nelson Schmitz a


suportar a execução do PRAD pelas cooperativas;

f) a condenação das requeridas Cooperativa Central


Oeste Catarinense Ltda. e Cooperativa Regional Itaipu Ltda a
recuperarem a área degradada, conforme projeto aprovado por este
juízo (b2), com prazo máximo de dois meses para conclusão das
atividades;

g) a condenação das requeridas Cooperativa Central


Oeste Catarinense Ltda. e Cooperativa Regional Itaipu Ltda. ao
pagamento de compensação ambiental decorrente de sua conduta
poluidora, em valor a ser arbitrado na sentença, não inferior a R$
20.000,00, em favor do Fundo de Recuperação de Bens Lesados do
Estado de Santa Catarina;
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h) a condenação dos requeridos em custas, despesas


processuais e honorários advocatícios (estes conforme art. 4º do
Decreto Estadual nº 2.666/04, em favor do Fundo de Recuperação
de Bens Lesados do Estado de Santa Catarina).

Dá-se à causa o valor de R$ 30.000,00 (trinta mil reais).

Modelo, 4 de junho de 2007

Eduardo Sens dos Santos


Promotor de Justiça

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