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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA

EXCELENTÍSSIMA SENHORA JUÍZA DE DIREITO DA COMARCA DE


POMERODE

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA


CATARINA, por seu Promotor de Justiça ao final assinado, com
fundamento nos arts. 127 e 129, III, da Constituição da República,
bem como no art. 82, I, do Código de Defesa do Consumidor, no art.
5º da Lei nº 7.347/85 e no art. 3º e 14, §1º, da Lei nº 6.938/81,
propõe AÇÃO CIVIL PÚBLICA, em defesa do direito ao meio
ambiente ecologicamente equilibrado, em face de:

FRIGORÍFICO RAHN LTDA., pessoa jurídica de direito


privado, inscrita no CNPJ sob o nº 80.693.112/0001-04, IE
nº 251.569.411, domiciliada na rua Dr. Wunderwald, 2085, bairro
Ribeirão Wunderwald, em Pomerode.

1. Objeto da ação

Esta ação civil pública tem por objetivo obter provimento


jurisdicional que determine à requerida a adoção de providências
para pôr fim à degradação ambiental que vem promovendo com a
operação de uma granja de suínos em área de preservação
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permanente, mais precisamente nas proximidades da nascente do


ribeirão Wunderwald, em Pomerode.

Tem por objetivo também obter provimento que


determine a adoção de medidas para o isolamento de um tanque de
decantação de dejetos suínos e bovinos na fábrica de frios, evitando
assim a contaminação do lençol freático e a proliferação de doenças
e de insetos.

Por fim, objetiva esta ação a recomposição da área lesada


e a indenização do dano ambiental até o momento causado,
mediante compensação financeira destinada ao Fundo de
Recuperação de Bens Lesados do Estado de Santa Catarina.

2. Fatos

2.1. Curral de suínos – poluição no ribeirão Wunderwald

No dia 17 de novembro de 2005 compareceu à


Promotoria de Justiça da Comarca de Pomerode cidadão relatando
com indignação a ocorrência de agressão ambiental gerada pelo
funcionamento de um curral de porcos de propriedade do Frigorífico
Rahn Ltda., o que era demonstrado pelas fotografias que trouxe (fls.
5-10 do PAP).

Após constatar-se que o dano ambiental vinha sendo


causado por empresa cujos sócios já haviam se comprometido no
Juizado Especial Criminal da Comarca a adotar medidas para
adequação das instalações, e que, embora houvessem
transacionado, ainda não haviam adotado as providências
determinadas, decidiu-se por realizar vistoria no local.

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Assim, no dia seguinte, dia 18 de novembro de 2005, este


Promotor de Justiça requisitou o auxílio do Serviço Especial do Meio
Ambiente – SEMA – do Município de Pomerode para a realização de
vistoria conjunta, diligência que se efetivou durante a manhã.

Conforme demonstra o relatório elaborado pelo SEMA em


decorrência da vistoria (fls. 61-71 do PAP), o curral de suínos de
propriedade da requerida trata-se de “atividade de suinocultura de
ciclo completo”, ou seja, onde os porcos são criados desde seu
nascimento até o momento do abate, que é realizado em outro local.

Tal curral, ainda conforme o relatório, está situado no


“perímetro urbano do Município de Pomerode”, e no local “existe
uma lagoa, formada em função do represamento das águas de um
ribeirão, demonstrando que quase todo o empreendimento está
localizado em área de preservação permanente, ora por conta da
lagoa que circunda as construções, ora por conta do ribeirão, que
margeia a propriedade”.

A bem da verdade, como se pode observar pela planta do


local (fl. 95 do PAP), a requerida instalou o curral em cima do
ribeirão Wunderwald. Com a contenção das águas do ribeirão,
construiu uma lagoa, e às margens da lagoa, edificou as baias
(estábulos), onde ficam confinados os porcos. O ribeirão nasce
pouco acima do local e, depois de transitar pela lagoa, passa por um
sistema de tubulação, e segue normalmente seu rumo até encontrar
com o rio do Testo, o principal rio de Pomerode. As primeira
fotografia abaixo indica o local onde deságua a lagoa e a segunda o
sistema de tubulação (note-se a quantidade de fezes que se

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deposita no sistema).

Ainda conforme vistoria no local, as baias – todas


construídas às margens da lagoa – têm o piso rebaixado na parte
que mais se aproxima da lagoa, fazendo com que a água do ribeirão
Wunderwald entre livremente na parte mais baixa de cada uma
delas. As fotografias abaixo demonstram bem a situação.

Nesta parte rebaixada, os porcos se banham, lançam


suas fezes e urina, e dessa mesma água bebem, numa situação

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nauseante se considerado que posteriormente estes mesmos


animais servirão como alimento humano.

Os dejetos que não ficam na parte rebaixada são


posteriormente empurrados para ela pelo empregado que trabalha
no local, conforme suas declarações na Delegacia de Polícia no dia
da vistoria (fl. 22). Desse modo, todos os dejetos são lançados
diretamente na lagoa e posteriormente seguem ribeirão abaixo.

Com a grande quantidade de porcos (sessenta


aproximadamente), a lagoa formada pelo represamento do ribeirão
Wunderwald não tem vida alguma. As fezes dos porcos chegam a se
movimentar na própria lagoa, acumulando-se nas laterais e no ponto
em que a água do ribeirão tem vazão para seu leito normal. Na
vistoria percebeu-se – e as fotografias abaixo comprovam – que a
matéria orgânica lançada em desacordo com o razoável é tamanha
que o aspecto da água é completamente deteriorado: é de cor verde
escura, com inúmeros pedaços de fezes suínas em suspensão.

O dano ambiental decorrente da prática da empresa


requerida é assombroso. Em primeiro lugar há que se observar que a
construção desvia o leito natural de um ribeirão na cidade de
Pomerode. Como se não bastasse, a construção destruiu toda a área

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de preservação permanente naquele ponto. O despejo de dejetos


suínos diretamente no curso d´água, como comprova o laudo
técnico do Samae de Pomerode, aumenta em dez vezes o número
de coliformes fecais por amostra de 100 ml de água bruta, passando
de 3.000/ 100ml para 30.000/100ml. Essa quantidade de coliformes
fecais se mantém constante até o encontro do ribeirão Wunderwald
com o Rio do Testo, a alguns quilômetros dali, que permanece em
30.000/100ml.

2.2. Fábrica de frios – tanque de decantação de dejetos suínos e bovinos

Como a empresa requerida mantém afastada de sua


unidade fabril o curral de porcos – distam aproximadamente
quinhentos metros uma da outra – com o início das investigações
suspeitou-se que algum dano ambiental pudesse estar ocorrendo
também na fábrica, onde é feita a industrialização dos suínos e
bovinos.

Assim, determinou-se à Polícia Ambiental que realizasse


vistoria no local, conferindo minuciosamente o cumprimento das
condições impostas na Licença Ambiental concedida pela Fatma em
10 de dezembro de 2004.

Constatou-se que, embora tenha a empresa requerida


cumprido todas as exigências da Fatma, “as três lagoas de
decantação, que recebem o material poluente líquido, não estão
providas de nenhum tipo de isolamento, sendo que todo o efluente
fica em contato direto com o solo existindo uma grande
probabilidade de contaminação do solo e do lençol freático”,
conforme aponta o Policial Ambiental Ebas Jacinto (fl. 96).

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E, do mesmo modo que em relação ao curral de porcos,


na fábrica constatou a Polícia Ambiental que, quando essas lagoas
de decantação excedem seus próprios limites físicos, o líquido
composto por água, restos de animais, sangue e outros dejetos que
nelas é depositado é lançado “em um pequeno corpo hídrico, classe
‘um’, que acaba por desaguar no ribeirão Wunderwald” (fl. 103).

Assim, em síntese: a) a requerida destruiu área de


preservação permanente com a construção de curral de porcos; b) a
requerida despeja diretamente e sem nenhum tratamento no
ribeirão Wunderwald dejetos suínos provenientes de seu curral de
porcos; c) o lançamento da matéria no ribeirão decuplica o valor de
coliformes fecais em suas águas.

Diante desses fatos, entende o Ministério Público do


Estado de Santa Catarina fazer-se necessária a propositura da
presente ação civil pública para a consecução dos objetivos
descritos no início, notadamente a paralisação imediata da atividade
poluidora, a adequação do tanque de decantação de dejetos da
fábrica de frios, a indenização do dano causado ao meio ambiente e
a recomposição da área degradada.

3. Direito

A água, este bem escasso de que depende a


humanidade, vem sofrendo constantes degradações desde o
processo de industrialização por que passou o mundo nos últimos
séculos. Afora o desperdício e a contaminação por agrotóxicos,
apontam os estudos mais modernos a indústria como o principal
agressor ambiental em se tratando de recursos hídricos.

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Por isso é que não param os filósofos e os demais


estudiosos do mundo de ressaltar a necessidade de premente
mudança de práticas e de hábitos humanos em relação ao seu
próprio ambiente. Leonardo Boff, um dos expoentes do pensamento
filosófico brasileiro, cunhou o termo Dignitas Terrae para designar o
que entende seja o desafio do homem dos tempos globalizados:
alcançar a ética fundada na natureza, em que “o desenvolvimento
do ser humano não se faça contra a natureza, mas em sinergia com
ela; e que se mantenha de forma dinâmica e coesa a integridade
sagrada de todo o criado [de todo o universo]”1.

3.1. Código Florestal

Pautado por este princípio filosófico, nas últimas décadas


o direito brasileiro avançou na proteção ambiental. Em primeiro
lugar pode-se ressaltar a instituição do Código Florestal,
instituído pela Lei nº 4.771/65, que protege os recursos hídricos
de forma reflexa, ao proteger a vegetação situada ao longo de rios,
nascentes, lagos, lagoas e demais cursos d´água.

Para o Código Florestal, salvo em raras exceções, é


proibida a supressão de vegetação ao longo das margens dos
rios. No entanto, como constatado na instrução do Procedimento
Administrativo Preliminar nº 14/2005, instaurado na Promotoria de
Justiça de Pomerode, a empresa requerida, ao construir a granja de
suínos em cima do leito do ribeirão Wunderwald, desobedeceu à
proibição constante do Código Florestal, pois a construção
desrespeita o limite de trinta metros estipulado “para os cursos d

1
BOFF, Leonardo. Ethos Mundial: um consenso mínimo entre os humanos. Rio de Janeiro :
Sextante, 2003. p. 59.

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´água de menos de 10 (dez) metros de largura” (art. 2º, “a”, 1, da


Lei nº 4.771/65).

Além disso, nem sequer detinha a requerida autorização


para sua atividade, o que de todo modo seria incabível, pois, ainda
segundo o Código Florestal, “a supressão de vegetação em área de
preservação permanente somente poderá ser autorizada em caso de
utilidade pública ou de interesse social, devidamente caracterizados
e motivados em procedimento administrativo próprio, quando
inexistir alternativa técnica e locacional ao empreendimento
proposto” (art. 4º da Lei nº 4.771/65).

Não há dúvidas, portanto, de que a requerida descumpriu


frontalmente o Código Florestal ao instalar no leito de um curso d
´água sua granja de suinocultura.

3.2. Código de Pesca

De igual modo, busca a proteção ambiental o Código de


Pesca (Decreto-Lei nº 221/67), que em seu art. 37 proíbe o
lançamento de efluentes de indústrias que tornarem poluídas as
águas.

Também aqui, em franca desobediência à proibição legal,


a empresa requerida lança diariamente no leito do ribeirão
Wunderwald fezes, urina e restos de ração de aproximadamente
sessenta porcos2, porque o curral onde estão alojados, como se viu,
está em permanente contato com a lagoa formada pelo
represamento das águas do corpo hídrico.

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Segundo a Apremavi, um porco polui o equivalente a oito pessoas (fl. XXX), podendo-se
concluir que a granja da empresa requerida apresenta potencial poluidor equivalente
a 480 pessoas.

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A criação de peixes nas proximidades do local, ao


contrário do que se poderia pensar, não é favorecida pelo
lançamento dos dejetos; ao contrário, dada a imensa quantidade de
matéria orgânica, a proliferação de microorganismos que dela se
alimentam torna insuficiente o oxigênio disponível na água e leva à
mortandade de espécies menos resistentes, desequilibrando
totalmente o ecossistema.

Daí a incidência da proibição do art. 37 do Decreto-Lei nº


221/67: “Os efluentes das redes de esgotos e os resíduos líquidos ou
sólidos das indústrias somente poderão ser lançados às águas,
quando não as tornarem poluídas”. E, na conformidade com o §1º do
art. 37, “considera-se poluição qualquer alteração das
propriedades físicas, químicas ou biológicas das águas, que
possa constituir prejuízo, direta ou indiretamente, à fauna e
à flora aquática”.

De igual modo, portanto, conclui-se que a atividade da


requerida desafia a legalidade ao confrontar, não só com o Código
Florestal, como também com o Código de Pesca.

3.3. Lei da Política Nacional de Recursos Hídricos

Mais recentemente, já sob a vigência da Constituição da


República de 1988, a Lei nº 9.433/97 instituiu a Política Nacional de
Recursos Hídricos. Para tanto, “baseia-se nos seguintes
fundamentos: I – a água é bem de domínio público; II – a água é um
recurso natural limitado, dotado de valor econômico; [...]” (art. 1º). E,
por outro lado, entre outros, tem a Lei nº 9.433/97 os seguintes
objetivos: “assegurar à atual e às futuras gerações a necessária

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disponibilidade de água, em padrões de qualidade adequados aos


respectivos usos” (art. 2º).

Uma das formas de alcançar os objetivos e pautar a


conduta da população por seus fundamentos, é a instituição do
regime de “outorga” do direito de uso de recursos hídricos, previsto
no art. 11 e seguintes da Lei nº 9.433/97.

Assim, “estão sujeitos a outorga pelo Poder Público os


direitos dos seguintes usos de recursos hídricos: I – derivação ou
captação de parcela da água existente em um corpo de água
para consumo final, inclusive abastecimento público, ou insumo
em processo produtivo; [...] III – lançamento em corpo de água
de esgotos e demais resíduos líquidos ou gasosos, tratados ou
não, com o fim de sua diluição, transporte ou disposição final”.

Tal lei tipifica ainda infrações administrativas às normas


de utilização dos recursos hídricos e, em especial para o caso dos
autos, comina sanção à conduta de “utilizar recursos hídricos para
qualquer finalidade, sem a respectiva outorga do direito de uso”
(art. 49, I).

No caso dos autos, como já é evidente a essa altura da


argumentação, a requerida além de não dispor de licença ambiental
de operação, não dispõe de outorga do direito de exploração
do recurso hídrico em seu processo produtivo ou tampouco
para que lhe fosse facultado o lançamento de resíduos com o
fim de sua disposição final.

Novamente aqui, portanto, desafia a ordem jurídica,


causando severo dano ambiental em sua conduta antijurídica. No
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plano federal, a título de exemplificação, estaria sujeita a multas que


variam de R$ 1.000,00 a R$ 50.000.000,00 pela causação de
“poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou
possam resultar em danos à saúde humana, ou que provoquem
mortandade de animais ou a destruição significativa da flora” (art.
41 do Decreto Federal nº 3.179/99).

3.4. Lei da Política Nacional do Meio Ambiente – Lei nº 6.938/81

Logo se vê, portanto, que a legislação ambiental


brasileira, com vigor, coíbe a ocorrência de danos aos recursos
hídricos sob vários aspectos, como forma de atender àquela diretriz
mundial de proteção ao meio ambiente.

No caso dos autos, despontam agressões à natureza de


altíssima gravidade, em que a atividade da empresa requerida
diretamente prejudica a saúde e o bem-estar da população, por criar
condições adversas às atividades sociais e afetar desfavoravelmente
a biota. Além disso, a poluição hídrica comprovada nos autos afeta
as condições sanitárias do meio ambiente e lança matéria em
desacordo com os padrões ambientais estabelecidos.

Há, portanto, poluição, pois o fato descrito se amolda


perfeitamente ao conceito do art. 3º, III, da Lei nº 6.938/91: “Para os
fins previstos nesta Lei, considera-se poluição a “degradação da
qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou
indiretamente: a) prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar
da população; b) criem condições adversas às atividades sociais e
econômicas; c) afetem desfavoravelmente a biota; d) afetem as
condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente; e) lancem

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matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais


estabelecidos” (art. 9º, III).

Todos esses efeitos nocivos da atividade da requerida


foram comprovados no Procedimento Administrativo Preliminar nº
14/2005, notadamente pela análise da água realizada pelo Serviço
Autônomo Municipal de Águas e Esgotos – Samae.

Mediante requisição do Ministério Público, o técnico em


saneamento Gilf Stortz coletou três amostras de água do ribeirão
Wunderwald. A primeira delas foi colhida aproximadamente 200m a
montante do curral de porcos. A segunda foi coletada
aproximadamente 300m a jusante do curral. A última das amostras
é do local em que o ribeirão Wunderwald se encontra com o Rio do
Testo, já a grande distância a jusante do estabelecimento da
requerida.

Na primeira amostra índices como a turbidez, cor e


quantidade de coliformes fecais estão dentro dos padrões
encontrados no município. A cor encontra-se em 15 PtCO, a turbidez
em 6,57 NTU e coliformes fecais em 3.000 NMP/100ml.

Na segunda amostra, no entanto, após ultrapassarem as


águas o sistema de criação de porcos da requerida, a cor passa de
15 PtCO para 55 PtCO, diminuindo para 45 PtCO somente no
encontro com o Rio do Testo. Há um aumento de três vezes na
coloração da água.

A turbidez, por outro lado, passa de 6,57 NTU na


primeira amostra para 13,9 NTU na segunda amostra, voltando,
por força de um sistema natural de areação ao longo do ribeirão,
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para 9,21 NTU no encontro com as águas do Rio do Testo. A turbidez


é duplicada ao passarem as águas pelo sistema da requerida.

Por último, o dado mais preocupante. O nível de


coliformes fecais antes do curral de porcos está em 3.000
NMP/100ml. Logo em seguida, trezentos metros a jusante, passa
para 30.000 NMP/100ml e assim permanece em 30.000
NMP/100ml até encontrar o principal rio de Pomerode, mesmo
passando por sistema natural de areação, formado por pedras e
pequenas cachoeiras.

Dito de outro modo: a atividade da requerida


decuplica a incidência de coliformes de origem fecal nas
águas do ribeirão Wunderwald.

Vale notar que a Apremavi – Associação de Preservação


do Meio Ambiente do Alto Vale do Itajaí –, entidade reconhecida
nacionalmente na proteção ambiental3, considera “alta” a
contaminação por coliformes fecais até o limite de 2.600/100ml,
como demonstra seu texto colhido da internet que faz parte do PAP.
E, por sua vez, a Resolução nº 274/2000, do Conselho Nacional do
Meio Ambiente, considera impróprias até mesmo para
balneabilidade (contato primário) águas com índice de coliformes
fecais superior a 2.500/100ml4.

3
Página da Apremavi na Internet: www.apremavi.org.br
4
Art. 2º, §4º, da Resolução 274/2000 do Conama: “As águas serão consideradas
impróprias quando no trecho avaliado, for verificada uma das seguintes ocorrências: a)
não atendimento aos critérios estabelecidos para as águas próprias; b) valor obtido na
última amostragem for superior a 2500 coliformes fecais (termotolerantes) ou 2000
Escherichia coli ou 400 enterococos por 100 mililitros” (fl. 146 do PAP).

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Em outras palavras, a contaminação gerada pela


requerida é doze vezes o valor que o Conama considera
impróprio para balneabilidade.

Esse dado, além da preocupante poluição que por si só já


demonstra, explica a absurda incidência de mosquitos na região de
Pomerode e, por força da proliferação de danos ambientais como o
dos autos, em todo o Vale do Itajaí.

É que o alto nível de coliformes fecais na água doce, além


de potencializar a ocorrência de doenças intestinais, causa a
proliferação dos mosquitos borrachudo5, e do maruim ou mosquito-
pólvora6, conforme relata o texto do Projeto de Recuperação,
Conservação e Manejo dos Recursos Naturais em Microbacias
Hidrográficas, em anexo.

Em síntese, para os estudiosos do tema, “além de


provocar várias doenças intestinais na população rural e
aumentar os custos do tratamento da água para consumo humano,
a poluição gerou mais um grave desequilíbrio ambiental e um sério
problema de saúde pública: a proliferação do mosquito
conhecido como ‘borrachudo’. Os restos de sangue e dejetos de
suínos lançados diretamente nos córregos não só serviam de
5
Assim define o mosquito borrachudo o dicionário Aurélio: “Designação comum aos
insetos dípteros da família dos simulídeos. Nematóceros, de pequeno porte (até 6 mm de
comprimento); os olhos são contíguos no macho, sem ocelos; a nervura costal ou costa
não contorna a asa; o primeiro artículo tarsal é mais longo que os seguintes; as larvas e
pupas são aquáticas, preferindo cachoeiras e corredeiras. Só as fêmeas são hematófagas
e diurnas. Transmitem a oncocercose ao homem”.
6
O maruim é assim definido pelo Aurélio: “Designação vulgar dos insetos dípteros da
família dos ceratopogonídeos. São nematóceros, de pequeno porte, com 1 a 2 mm de
comprimento, antenas com 14 artículos nos dois sexos. As larvas e ninfas vivem na água
doce ou salgada; só as fêmeas são hematófagas. Transmitem a filariose ao homem e aos
animais domésticos por meio de picadas dolorosas. [Var.: meruí, meruim, maringuim,
marigüi, miruim, muruim; sin.: mosquito-do-mangue, mosquito-palha, mosquito-pólvora,
catuqui ou catuquim, bembé.]”

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alimento às larvas do inseto, como também diminuíam a presença


do oxigênio na água e causavam a morte dos peixes, que
originalmente se alimentavam dessas larvas. O incômodo das
picadas dos insetos diminuía o ritmo de trabalho dos
agricultores, a qualidade do ensino nas escolas rurais e até a
produtividade dos animais”7.

Além da inconveniente picada, cujo incômodo perdura por


dias, os mosquitos são vetores de dois tipos de vermes, o
Onchocerca volvulus e o Mansonella ozzardi. O primeiro deles pode
provocar a oncocercose, doença causada pela presença de grandes
tumores subcutâneos e que, em determinadas circunstâncias, pode
causar a cegueira, sendo por este motivo conhecida como “cegueira
dos rios”.

O dano ambiental é tamanho que, dependendo da


estação do ano e de outros fatores climáticos, ocorre em Pomerode
verdadeira infestação de mosquitos, o que vem realmente
deteriorando a qualidade de vida na cidade.

Prova disso é a notícia veiculada no Jornal de Pomerode


de 19 de maio de 2005: “A grande infestação de maruins está
atingindo o município de forma geral. As crianças nas escolas sofrem
com as picadas que após intensa coceira se transformam em feridas
doloridas. As empresas também estão reclamando, pois os
funcionários precisam constantemente parar a função para se
proteger” (fl. 133 do PAP).

7
COSTA, Antônio José Faria da. Projeto de Recuperação, Conservação e Manejo dos
Recursos Naturais em Microbacias Hidrográficas. In Novas experiências de gestão pública
e cidadania. Rio de Janeiro : Editora FGV, 2000, p. 6-7, grifou-se.

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Não bastassem essas duas decorrências, o dano


ambiental gerado por práticas como a da empresa requerida
também causa, segundo registros da Embrapa e da Apremavi,
danos ao turismo da região, que acaba se afastando com a alta
incidência dos mosquitos. Demonstram esse fato os documentos de
fls. 124 e 128.

Evidentemente, o grave dano ambiental causado pela


contaminação do ribeirão Wunderwald, em Pomerode, não é a única
causa de todos os efeitos narrados até agora. O que se pretende
demonstrar é que a prática da empresa requerida é uma das
importantes causas do grave dano ambiental, porque: a) altera de
forma adversa as características do meio ambiente; b) prejudica a
saúde e o bem estar da população; c) cria condições adversas às
atividades sociais e econômicas; d) afeta desfavoravelmente a biota;
e) lança matéria no meio ambiente em desacordo com os padrões
ambientais estabelecidos.

E, como se verá adiante, o “poluidor é obrigado,


independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar
os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua
atividade”.

3.5. Código de Posturas de Pomerode – Lei Complementar nº 31/96

Não bastasse toda a agressão à legislação ambiental


federal, a conduta da requerida infringe o Código de Posturas de
Pomerode, a Lei Complementar nº 31/96.

É que, como se observa no relatório do Serviço Especial


de Meio Ambiente de Pomerode, o curral de porcos da requerida

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encontra-se no perímetro urbano, mais precisamente na rua


Alberto Rahn, no bairro Wunderwald.

No entanto, conforme estipula o art. 46 da LC 31/96, “não


será permitida, na área urbana, a criação de animais que por sua
espécie ou quantidade possam ser causa de insalubridade ou de
interferência à vizinhança”.

E, por outro lado, a Lei Complementar nº 28/96 classifica


a rua Alberto Rahn, onde está localizado o curral de porcos, como
Zona Residencial 1 e Zona Residencial 2, zonas em que a Lei
considera inadequadas indústrias que tenham qualquer interferência
ambiental (fl. 142).

Assim, não há dúvidas também de que a atividade da


empresa requerida, além de agredir o Código Florestal, o
Código de Pesca, a Lei de Recursos Hídricos e a Lei da
Política Nacional de Meio Ambiente, atenta também contra a
legislação municipal: pratica suinocultura em área urbana
que não admite indústrias causadoras de qualquer
interferência ambiental.

4. Cessação dos danos presentes e impedimento dos futuros

4.1. Paralisação liminar das atividades de suinocultura

Constatada a ocorrência de infração à legislação federal e


municipal, bem como do dano ambiental daí decorrente, além do
nexo de causalidade entre a conduta da empresa e o dano, cumpre
ao Ministério Público requerer provimento jurisdicional que
determine de imediato a paralisação das atividades nocivas ao meio

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ambiente, ou seja, obrigação de não fazer, como forma de acautelar


o meio ambiente das conseqüências da poluição causada.

Nessa situação, incide o art. 461 do Código de Processo


Civil, que determina que “na ação que tenha por objeto o
cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer, o juiz concederá a
tutela específica da obrigação ou, se procedente o pedido,
determinará providências que assegurem o resultado prático
equivalente ao do adimplemento”.

E, segundo o §3º do art. 461, “sendo relevante o


fundamento da demanda e havendo justificado receio de ineficácia
do provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente
ou mediante justificação prévia, citado o réu”. Complementa a regra
o §4º, autorizando o juiz a “impor multa diária ao réu,
independentemente de pedido do autor, se for suficiente e
compatível com a obrigação, fixando-lhe prazo razoável para
cumprimento do preceito”.

Por fim, autoriza o §5º: “Para efetivação da tutela


específica ou a obtenção de resultado prático equivalente, poderá o
juiz, de ofício ou a requerimento, determinar as medidas
necessárias, tais como a imposição de multa por tempo de atraso,
busca e apreensão, remoção de pessoas e coisas, desfazimento de
obras e impedimento de atividade nociva, se necessário com
requisição de força policial”.

O fundamento da demanda, como se vê, é relevante,


porque pautado pela infringência em uma série de dispositivos
legais em vigor. Não bastasse isso, o dano ambiental está

19
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cabalmente comprovado documentalmente nos autos, como se


ressaltou no arrazoado até o momento.

E, acaso não antecipadas medidas para evitar a


continuação das atividades, fatalmente o provimento final será
ineficaz, pois já se terá consumado ao longo dos anos o dano
ambiental e, como ele, a total impunidade da empresa. Vale notar
que a cada dia que passa o dano ocorre novamente, sendo
imposição dos princípios de direito ambiental (princípio da
precaução) a imediata adoção de providências que impeçam a
continuidade.

De fato, o cuidado recomenda que atividade de tamanho


potencial poluidor cesse imediatamente, sob pena de eventual
acumulação de toxinas nas águas do ribeirão Wunderwald causar
dano ecológico de maior monta, em face da delicadeza do sistema
biológico municipal. Vale lembrar que, em se tratando de meio
ambiente, não há como prever todas as conseqüências de ato
poluente continuado.

Para tanto, entende o Ministério Público do Estado de


Santa Catarina suficiente, por ora, a determinação de retirada de
todos os animais do curral de porcos da rua Alberto Rahn e a
interdição do local, com a cominação de multa diária para
caso de descumprimento no valor de R$ 500,00.

4.2. Tanque de decantação da fábrica - isolamento

Como se relatou no início, a requerida mantém na rua


Alberto Rahn um curral de porcos que são posteriormente mortos e

20
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industrializados na fábrica situada na rua Dr. Wunderwald, 2085, em


Pomerode.

Nesta fábrica, constatou a Polícia Ambiental haver três


tanques de decantação de dejetos suínos e bovinos sem qualquer
sistema de proteção contra contaminação do lençol freático, o que
pode causar a proliferação de doenças e de insetos.

É também medida necessária, portanto, a realização por


parte da requerida de estudo técnico completo e execução de
projeto de isolamento dos tanques, como forma de proteção do meio
ambiente, sob pena de multa diária.

Reconheça-se aqui que embora o relatório da Polícia


Ambiental aponte a poluição apenas como provável, uma vez que
não realizou testes laboratoriais para detecção da contaminação do
lençol freático e do córrego pela fábrica, há que incidir no caso dos
autos o princípio da prevenção, determinando a adoção de medidas
antes da ocorrência de dano ambiental.

É que, como ensina Édis Milaré, a partir dos estudos de


Ramón Martin Mateo, o direito ambiental tem sua atenção “voltada
para o momento anterior ao da consumação do dano – o do mero
risco. Ou seja, diante da pouca valia da simples reparação, sempre
incerta e, quando possível, excessivamente onerosa, a prevenção é
a melhor, quando não a única, solução. De fato, ‘não podem a
humanidade e o próprio Direito contentar-se em reparar e reprimir o
dano ambiental. A degradação ambiental, como regra, é irreparável.
Como reparar o desaparecimento de uma espécie? Como trazer de
volta uma floresta de séculos que sucumbiu sob a violência de corte

21
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raso? Como purificar um lençol freático contaminado por


agrotóxicos?’”8.

Aqui, como se vê pela aplicação do princípio da


prevenção, também o fundamento é relevante e, pelos mesmos
motivos, há justificado receio de ineficácia do provimento final (art.
461, §3º), sendo imprescindível a imposição de multa diária ao réu
(art. 461, §4º), fixando-lhe o prazo de três meses para início das
obras.

Em caso de descumprimento, verifica-se desde já a


possibilidade de “impedimento da atividade nociva”, na
conformidade com o §5º do art. 461 do Código de Processo.

5. Reparação do dano ambiental e indenização dos danos até o momento


causados

5.1. Plano de recuperação da área degradada - PRAD

Evidentemente, a simples paralisação das atividades


equivalerá apenas ao início da reparação do dano causado à área de
preservação permanente. Para que o meio ambiente volte a sua
natural conformação, isto é para que volte à sua integridade, é
necessário também que se determine o desfazimento da
obra (demolição) e a completa execução de PRAD – plano de
recuperação da área degradada.

A reparação encontra abrigo no disposto no §3º do art.


225 da Constituição da República e no §1º do art. 14 da Lei nº
6.938/81. A primeira norma determina que “as condutas e atividades

8
MILARÉ, Édis. Direito do ambiente. 4ª ed. São Paulo : Revista dos Tribunais, 2005. p.
166.

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consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores,


pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas,
independentemente da obrigação de reparar os danos
causados”. A segunda norma é ainda mais explícita: “Sem obstar a
aplicação das penalidades previstas neste artigo, é o poluidor
obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar
ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros
afetados por sua atividade”.

Para Édis Milaré, de fato a recuperação natural do


ambiente degradado é a modalidade mais adequada de reparação
do dano, “e a primeira que deve ser tentada, mesmo que mais
onerosa”. E justifica sua posição afirmando, com Paulo Affonso Leme
Machado, que “não basta indenizar, mas fazer cessar a causa do
mal, pois um carrinho de dinheiro não substitui o sono recuperador,
a saúde dos brônquios ou a boa formação do feto”9.

Para tanto, requer desde já o Ministério Público do Estado


de Santa Catarina que se determine à requerida que contrate
técnico ambiental para elaborar PRAD contendo gradual
retorno do ribeirão Wunderwald a seu curso normal,
revitalização da mata ciliar na área degradada e extinção da
lagoa artificial construída, cominando multa para o caso de
não executar o PRAD no prazo máximo de um ano.

5.2. Indenização pelos danos extrapatrimoniais

Como é óbvio, os danos passados, causados por tantos


anos de poluição de um dos principais cursos d´água de Pomerode,

9
MILARÉ, Édis. Direito do ambiente. 4ª ed. São Paulo : Revista dos Tribunais, 2005. p.
741.

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não pode ser reparado diretamente. É preciso, pois, indenização em


dinheiro, decorrência natural da adoção pelo direito brasileiro do
princípio poluidor-pagador.

Na precisa explicação de Cristiane Derani, “durante o


processo produtivo, além do produto a ser comercializado, são
produzidas ‘externalidades negativas’. São chamadas externalidade
porque, embora resultantes da produção, são recebidas pela
coletividade, ao contrário do lucro, que é percebido pelo produtor
privado. Daí a expressão ‘privatização de lucros e socialização de
perdas’, quando identificadas as externalidades negativas. Com a
aplicação do princípio do poluidor-pagador, procura-se
corrigir este custo adicionado à sociedade, impondo-se sua
internalização. Por isto, este princípio é também conhecido
como o princípio da responsabilidade”10.

Em outras palavras, o poluidor é responsável pela


indenização do custo social de sua atividade poluente, devendo por
ela ser responsabilizado.

Bem por isso – vale lembrar novamente – o §1º do art. 14


da Lei nº 6.938/81 determina que “é o poluidor obrigado,
independentemente da existência de culpa, a indenizar ou
reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros
afetados por sua atividade”.

É necessária, assim, a imposição de condenação por


danos extrapatrimoniais, porque, embora não seja perceptível lesão
patrimonial aos habitantes de Pomerode, a lesão extrapatrimonial é
10
MILARÉ, Édis. Direito do ambiente. 4ª ed. São Paulo : Revista dos Tribunais, 2005. p.
164.

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evidente. Além da indignação causada pela ocorrência de dano


ambiental escancarado por anos a fio, agravada pela sensação de
impunidade decorrente do fato de ser o proprietário da empresa
vereador em Pomerode, está provado que a degradação ambiental
causada afetou inúmeras pessoas de forma difusa.

Quanto à reparação do dano extrapatrimonial, em sede


constitucional se colhe ser “assegurado o direito de resposta,
proporcional ao agravo, além da indenização por dano material,
moral ou à imagem”, texto que a doutrina ensina não se resumir às
condutas lesivas à honra (calúnia, injúria ou difamação), mas que se
estende a toda sorte de ilegalidades.

Limongi França, por exemplo, ensina que o dano moral é


“aquele que, direta ou indiretamente, a pessoa física ou jurídica,
bem assim a coletividade, sofre no aspecto não econômico de seus
bens jurídicos”11.

Convém lembrar, por outro lado, que nada há no


ordenamento jurídico que vede a concessão de indenização por
danos extrapatrimoniais difusos, porque é intuitivo que se várias
pessoas são individualmente lesadas em pequenas parcelas o
conjunto de lesões é mais grave que a mera soma delas.

Exemplo clássico disso é o dado em sede de direito


coletivo de consumo: a diminuição de um grama em cada saco de
arroz não gera grande lesão ao consumidor, mas causa dano
coletivo de grande monta, passível inclusive de prisão, por

11
MORAES, Alexandre. Constituição do Brasil interpretada. 5ª. ed. São Paulo : Atlas, 2005.
p. 209.

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configurar crime contra as relações de consumo (art. 7º, II, da Lei nº


8.137/90).

Cabe bem aqui a transcrição da conhecida lição do


professor André de Carvalho Ramos sobre o dano extrapatrimonial:
“Devemos considerar que tratamento aos chamados interesses
difusos e coletivos origina-se justamente da importância destes
interesses e da necessidade de uma efetiva tutela jurídica. Ora, tal
importância somente reforça a necessidade de aceitação do dano
moral coletivo, já que a dor psíquica que alicerçou a teoria do dano
moral individual acaba cedendo lugar, no caso de dano moral
coletivo, a um sentimento de desapreço e de perda de valores
essenciais que afetam negativamente toda uma coletividade.
Imagine-se o dano moral gerado pela propaganda enganosa ou
abusiva. O consumidor potencial sente-se lesionado e vê aumentar
seu sentimento de desconfiança na proteção legal do consumidor,
bem como seu sentimento de cidadania”12.

O valor da indenização a ser pleiteada, também por esses


motivos, deve levar em conta o desvalor da conduta, a extensão do
dano e o poder aquisitivo da requerida, e não somente o dano difuso
ocorrido.

Não se pode conceber que numa sociedade democrática,


onde se espera e se luta pelo aperfeiçoamento dos mecanismos que
venham garantir o pleno exercício dos atributos da cidadania,
inclusive com a efetiva implementação da legislação ambiental,
onde estão esculpidas garantias básicas como o respeito à vida, ao

12
Revista de Direito do Consumidor nº 25. Editora Revista dos Tribunais, p. 82.

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bem-estar e à dignidade, tenham lugar condutas como a da


requerida.

Por isso a jurisprudência tem reconhecido a possibilidade


de condenação do responsável por danos extrapatrimoniais
coletivos:

DANO MORAL COLETIVO - POSSIBILIDADE - Uma vez


configurado que a ré violou direito transindividual de ordem
coletiva, infringindo normas de ordem pública que regem a
saúde, segurança, higiene e meio ambiente do trabalho e do
trabalhador, é devida a indenização por dano moral coletivo,
pois tal atitude da ré abala o sentimento de dignidade, falta de
apreço e consideração, tendo reflexos na coletividade e
causando grandes prejuízos à sociedade13.

Assim, presente o dano extrapatrimonial, consistente no


incômodo, na perturbação do bem estar, na descrença nas
autoridades, e presente o nexo de causalidade entre o dano e a
conduta da requerida, nasce o dever de repará-lo, cabendo
indenização pelos danos causados, motivo pelo qual entende-se ser
devida indenização.

Tal indenização, como é natural em sede de direitos


difusos, deverá reverter ao fundo de reconstituição de bens lesados
(art. 13 da Lei nº 7.347/85). Em Santa Catarina, o Fundo para
Reconstituição dos Bens Lesados foi criado pelo Decreto nº 1.047, de
10 de dezembro de 1987.

6. Pedidos

Ante o exposto, requer o Ministério Público:

13
TRT 8ª R. - RO 5309/2002 - 1ª T. - Rel. Juiz Luis José de Jesus Ribeiro - j. 17.12.2002.

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a) o recebimento e processamento da presente ação civil


pública;

b) a concessão de liminar, inaudita altera pars, para


determinar que requerida, sob pena de multa diária de R$ 500,00:
b1) cesse em dez dias as atividades da granja situada na rua Alberto
Rahn, retirando no mesmo prazo todos os animais do local; b2)
apresente em juízo no prazo de três meses projeto de isolamento
dos tanques de decantação da fábrica situada na rua Dr.
Wunderwald, 2085; b3) em trinta dias apresente em juízo e à Fatma
Projeto de Recuperação das Áreas Degradadas – PRAD, subscrito por
profissional habilitado e contendo cronograma de execução das
obras;

c) a citação da requerida para, querendo, apresentar a


defesa que entender pertinente;

d) a produção de todos os meios de prova admitidos,


notadamente a prova pericial, documental e testemunhal, se for
necessário;

e) a condenação da requerida a cessar definitivamente as


atividades de suinocultura na granja de suínos situada na rua
Alberto Rahn, em Pomerode;

f) a condenação da requerida a isolar os tanques de


decantação da fábrica situada na rua Dr. Wunderwald, 2085, em
Pomerode;

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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SANTA CATARINA

g) a condenação da requerida a recuperar a área


degradada, conforme projeto aprovado pela Fatma, no prazo
estipulado no projeto;

h) a condenação da requerida ao pagamento de


indenização por danos extrapatrimoniais decorrentes de sua
atividade poluidora, em valor a ser arbitrado na sentença, não
inferior a R$ 20.000,00, em favor do Fundo de Recuperação de Bens
Lesados do Estado de Santa Catarina;

i) a condenação da requerida em custas, despesas


processuais e honorários advocatícios (estes conforme art. 4º do
Decreto Estadual nº 2.666/04, em favor do Fundo de Recuperação
de Bens Lesados do Estado de Santa Catarina).

Dá-se à causa o valor de R$ 40.000,00 (quarenta mil


reais).

Pomerode, 14 de dezembro de 2005

Eduardo Sens dos Santos


Promotor de Justiça Substituto

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