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Teletrabalho: ócio criativo ou escravização digitalizada?


Ailana Santos Ribeiro

RIBEIRO, Ailana Santos. Teletrabalho: ócio criativo ou escravização digitalizada?. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XIX, n. 150, jul
2016. Disponível em: <http://www.ambito-juridico.com.br/site/index.php?
n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=17474&revista_caderno=25>. Acesso em maio 2017.

Resumo: O presente artigo tem como objetivo analisar as duas faces, positiva e negativa, do teletrabalho na
sociedade contemporânea, por meio de uma contraposição de expressões terminológicas utilizadas por
sociólogos que apresentam visões distintas acerca do instituto. A discussão que se promove busca,
essencialmente, despertar para necessidade de se promover uma visão crítica do teletrabalho, cujas
repercussões e contornos práticos no Brasil ainda não estão muito bem definidos, tendo em vista tratar-se de
instituto extremamente recente. Toda essa análise perpassará pelos aspectos históricos, sociais e jurídicos do
teletrabalho e terá como foco a pessoa do trabalhador, haja vista ser este o grande alvo da proteção jurídico-
trabalhista. Desse modo, por meio do método de pesquisa bibliográfico e jurisprudencial, buscar-se-á
demonstrar que o teletrabalho pode, em termos práticos, significar tanto modernização quanto precarização
das relações laborais, podendo tanto beneficiar quanto tornar vítima o trabalhador que opta por esta
modalidade de trabalho.

Palavras-chave: Teletrabalho. Ócio criativo. Escravização digitalizada.

Resumen: Este artículo tiene como objetivo analizar los dos lados, positivo y negativo, del teletrabajo en la
sociedad contemporánea, a través de un contraste de expresiones terminológicas utilizadas por los sociólogos
que tienen diferentes puntos de vista sobre el instituto. La discusión que promueve busca esencialmente
despertar a la necesidad de promover una visión crítica del teletrabajo, cuyas repercusiones y contornos
prácticos en Brasil no están todavía bien definido, ya que esto es muy nuevo instituto. Todo este análisis hilo a
través de los aspectos históricos, sociales y legales del teletrabajo y se centrará en el trabajador personalmente,
dado que este es el principal objetivo de la protección legal y laboral. Por lo tanto, por el método de la
investigación bibliográfica y jurisprudencial, será buscada muestran que el teletrabajo puede, en términos
prácticos, significa tanto la modernización como relaciones de empleo precario y puede tanto beneficio como
hacer víctima a un empleado que opta por esta modalidad trabajo.PALABRAS CLAVE: Teletrabajo. Ócio
creativo. Digitale esclavización.Sumário: Introdução. 1. Compreendendo o teletrabalho. 1.1.Breve traçado
histórico do trabalho. 1.2. Origem e evolução do teletrabalho. 1.3.T erminologias, conceituação e pressupostos
fático-jurídicos. 2. A regulamentação jurídica do instituto. 2.1.O complexo normativo brasileiro. 2.2. Uma
visão do direto comparado. 3. As duas faces do teletrabalho. 3.1. Possíveis aspectos positivos e negativos. 3.2.
Ócio criativo ou escravização digitalizada? Conclusão. Referências.

Introdução

O presente artigo trata essencialmente do teletrabalho e das dimensões por ele assumidas na sociedade
contemporânea, abordando para tanto, a sua origem, evolução histórica, configuração, respaldo normativo e,
precipuamente, os efeitos práticos dele advindos.

Enfatizando-se a ambivalência do instituto, busca-se demonstrar que o seu caráter modernizador, tendo em
vista as grandes facilidades e vantagens que, conforme o discurso prevalente, ele proporciona ao trabalhador,
podem, na realidade, converterem-se em sinais ocultos de precarização das relações de trabalho.

Assim, utilizando-se das expressões “ócio criativo”, introduzida pelo sociólogo italiano Domenico De Mais, e
“escravização digitalizada”, utilizada pelo sociólogo brasileiro Ricardo Antunes, pretende-se confrontar a face
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positiva e a face negativa (ainda oculta) do teletrabalho, demonstrando-se o quão importante se faz a
promoção de uma análise social e juridicamente crítica em busca dos reais objetivos e efeitos adversos
relacionados à prática do teletraballho.

1.Compreendendo o Teletrabalho

1.1 Breve traçado histórico do trabalho

Antes de se adentrar especificamente no teletrabalho, é inevitável a promoção de uma análise acerca da


evolução histórica do próprio trabalho, já que, conforme se demonstrará, o teletrabalho é um dos mais recentes
produtos dessa evolução.

Nas civilizações antigas greco-romanas, onde reinavam a idéia de determinismo social e a supervalorização do
intelecto, o trabalho não passava de um instrumento de viabilização da produção e acumulação de riqueza –
material e intelectual - pelos indivíduos detentores do poder de comando. Nesse sentido, acreditava Aristóteles
que para conseguir cultura era necessário ser rico e ocioso – o que não seria possível sem a escravidão de
alguns em benefício de outros.

Em meados do século XVIII, com a eclosão das Revoluções Industriais – que atingiram o Brasil mais
significativamente apenas em fins do século XIX e início do século XX – assistiu-se à transição de uma
sociedade produtiva predominantemente artesanal para uma sociedade essencialmente industrial.

Realça-se, que no contexto do modo de produção artesanal, até então predominante, vida pessoal e trabalho
coincidiam. Não se distinguia o ambiente laboral do familiar e as figuras do chefe de família e do chefe das
oficinas de trabalho consubstanciavam-se, geralmente, num mesmo indivíduo.

Como reflexo da Revolução industrial, os membros das oficinas e da agropecuária, forçosamente absorvidos
pelas fábricas, trocaram o trabalho em casa e em família pelo trabalho em galpões insalubres e perigosos,
pertencentes a empresários com quem mantinham vínculo estritamente profissional. Importante consignar que
em uma estrutura de produção altamente verticalizada a hipótese de se trabalhar fora das dependências das
fábricas era algo incogitável pelas empresas, cujo modelo de gestão adotado aportava-se na hierarquização e
rigidez do controle.

Com o fenômeno da globalização e o advento da internet, presenciou-se a eclosão da terceira evolução


tecnológica, implicando a substituição do modelo de produção taylorista-fordista pela fluidez e enxugamento
do modelo produtivo toyotista.

Assim, conforme leciona Teodoro (2015, p.314), “A configuração do trabalho tomou novas formas como
conseqüência da derrocada do socialismo real e do desenvolvimento do regime de acumulação do capital, que
surge a partir desta terceira revolução tecnológica”.

É justamente neste contexto histórico pós-moderno, marcado por uma sociedade em redes e permanentemente
conectada, bem como por uma organização empresarial ditada pela liquidez, flexibilização e horizontalização
que se passa a falar em teletrabalho.

1.2Origem e evolução do teletrabalho


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Conforme relatos estudados e compilados por Estrada (2014), os primeiros sinais do instituto, que pressupõe o
exercício da atividade laboral à distância, fora do estabelecimento da empresa, são encontrados antes mesmo
da terceira revolução tecnológica, quando, em 1857, Edgard Thompson, proprietário de estradas de ferro nos
EUA, descobriu que poderia usar sistemas de telégrafos para gerir equipes que se encontravam distantes.

A primeira aparição do termo “trabalho à distância” foi verificada em 1950, na obra de Norbert Wiener,
“Cybernetic and Society”, na qual o autor formulou uma situação hipotética em que um arquiteto europeu,
mediante o uso de fac-símile, supervisionava a construção de um imóvel nos EUA. (ESTRADA, 2014)

Já o termo teletrabalho, propriamente, apareceu pela primeira vez apenas no início da década de 70, nos EUA,
quando em virtude da crise do petróleo, passou-se a pensar em reduzir o deslocamento de pessoas até o seu
centro de trabalho. (ESTRADA, 2014)

Nesse momento de crise, nos termos do que leciona Estrada (2014, p.18), Jack Nilles, um investigador
aeroespacial da Califórnia, foi alvo do seguinte questionamento: “Se vocês conseguem pôr o homem na lua,
por que é que não conseguem resolver esse maldito problema de trânsito? Por que não arranjam uma maneira
de o pessoal ficar em casa e trabalhar em vez de se meterem nesses engarrafamentos para chegar ao
emprego?”

Foi diante desses questionamentos que Jack Nilles apropriou-se da missão de descobrir uma maneira de
“trazer o trabalho para junto de si” e iniciou a redação da seguinte proposta: “The Telecommunications
Transportation Tradeoff: Options for Tomorrow “[1]. (ESTRADA, 2014, p.18)

Percebe-se, portanto, que o surgimento do teletrabalho esteve diretamente ligado a políticas urbanísticas,
sendo a grande esperança dos planejadores urbanos em relação aos megacongestionamentos. Hoje, contudo, o
instituto alcança uma dimensão consideravelmente mais ampla, constituindo-se na principal forma de trabalho
em diversos países desenvolvidos e já atingindo, com bastante força, países emergentes, como é o caso do
Brasil.

1.3 Terminologias, conceituação e pressupostos fático-jurídicos

Etimologicamente, o termo teletrabalho, adotado pela doutrina brasileira predominante, vem da junção prefixo
“tele” - que estabelece a noção de longe -, e trabalho, resultando na ideia básica de trabalhar de longe, à
distância.

Nos termos do que preconiza a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o teletrabalho deve ser
compreendido como:

“Trabalho realizado por uma pessoa, na sua residência ou em outro local que não seja o local de trabalho do
empregador [...], independentemente de quem provê o equipamento, materiais ou outros insumos, a não ser
que esta pessoa tenha o grau de autonomia e independência econômica para ser considerado trabalhador
independente segundo as leis nacionais.”[2]

Consoante Jack Nilles, fundador do instituto, o teletrabalho corresponde a “Qualquer forma de substituição de
deslocamentos relacionados com a atividade econômica por tecnologias da informação, ou a possibilidade de
enviar o trabalho ao trabalhador, no lugar de enviar o trabalhador ao trabalho”. (ESTRADA, 2014, p.20)
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Assim, conforme entende Estrada (2015), três pressupostos básicos devem ser atendidos a fim de se ter
configurado o teletrabalho: estar o espaço físico de trabalho localizado fora da empresa; a utilização de novas
tecnologias de informática e/ou telecomunicação, que correspondem aos meios telemáticos; e, por fim, uma
alteração substancial na organização do trabalho.

Em relação a este último pressuposto, conforme adverte Estrada (2014), deve-se ter em mente que o trabalho à
distância em caráter ocasional consiste apenas em um uso impróprio da tecnologia - o que do ponto de vista
jurídico poderia configurar sobreaviso, tempo à disposição ou tempo efetivamente trabalhado -, mas não em
teletrabalho, propriamente, já que em virtude da eventualidade não se verifica uma alteração substancial da
organização da atividade profissional.

Outro ponto que demanda esclarecimentos, tendo em vista as corriqueiras confusões terminológicas
promovidas pela mídia, doutrina e até mesmo pela jurisprudência, é que teletrabalho (ou telework) não é
sinônimo de trabalho em domicílio ou homeoffice. Em simples palavras, o teletrabalho é gênero do qual
o homeoffice é espécie, já que, além do âmbito residencial do próprio trabalhador, é perfeitamente possível
teletrabalhar em telecentros, escritórios satélites, ou qualquer outro local que não seja o estabelecimento
empresarial, desde que de modo não ocasional.

Feitos os esclarecimentos de ordem conceitual e terminológica acerca do instituto, passa-se, então, a uma
investigação jurídica do teletrabalho, propondo-se, para tanto, uma análise do complexo normativo regulatório
do qual dispõem o Brasil e alguns outros países selecionados.

2.A regulamentação jurídica do instituto

2.1O complexo normativo brasileiro

No direito brasileiro, escassa e bastante incipiente é a regulamentação legal do teletrabalho, o que, de certa
forma, é compreensível, haja vista tratar-se de um instituto pós-moderno que vem, aos poucos, acomodando-
se e definindo os seus contornos no mercado laboral.

No âmbito do diploma celetista, destaca-se o seguinte dispositivo, cuja redação, alterada recentemente pela
Lei 12.551 de 2011, passou a dispor que:

“CLT, Art. 6º. Não se distingue entre o trabalho realizado no estabelecimento do empregador, o executado no
domicílio do empregado e o realizado a distância, desde que estejam caracterizados os pressupostos da relação
de emprego”.

Nota-se que, sem nem mesmo mencionar a expressão teletrabalho, a CLT aborda superficialmente o instituto.
Contudo, alcança o seu nítido propósito de equiparar os trabalhos realizados dentro ou fora estabelecimento
empresarial para fins de configuração do vínculo empregatício.

Isso porque, quando um empregado passa a teletrabalhar, o elemento subordinação é dissimulado pela
distância entre empregado e empregador. Assim, pode-se dizer que, o legislador, por via indireta, considerou
que esse simples distanciamento físico do empregado em relação ao estabelecimento não implica a ausência
de comandos e não inviabiliza, portanto, a subordinação.
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Afinal, conforme muito bem ponderado por Renault (2011, p.36), para fins de configuração de relação
empregatícia, “o que se exige é a subordinação e não a quantidade de subordinação, que possui diversos
matizes, inúmeros graus, vários tons, sobretons e entretons”.

Contudo, a aludida regulamentação legal existente, em virtude de sua tamanha incipiência, quando
confrontada com as diversas configurações e conformações com as quais o teletrabalho se desvela no plano
prático, não se mostra apta a solucionar uma gama de conflitos, contribuindo para que os teletrabalhadores,
não raras vezes, mantenham-se na zona grise entre empregado e trabalhador autônomo.

A Organização Internacional do Trabalho entende que o Brasil classifica-se entre os países nos quais a
legislação trabalhista estende-se ao trabalho realizado à distância, por considerar que esta atividade implica
contrato de trabalho originado de uma relação de emprego. Os tribunais trabalhistas brasileiros também têm
seguido essa linha, tendendo ao reconhecimento do vínculo de emprego a teletrabalhadores quando, apesar de
submetidos a uma subordinação rarefeita, encontram-se presentes os demais requisitos da relação da emprego.
Nesse sentido, a seguinte decisão TRT da 3ª Região em sede do Recurso Ordinário nº
00151201214703005 [3]:

“TRABALHO EM DOMICILIO. RELAÇÃO DE EMPREGO. CONFIGURAÇÃO. Constatando-se que a


trabalhadora por vários anos trabalhava em sua casa sem organizar em torno de si e para si empreendimento
econômico, confeccionando produtos para determinada empresa, da qual recebia a matéria-prima para tanto,
suprindo-lhe necessidades fundamentais do empreendimento econômico, tem-se por configurado o contrato de
trabalho a domicílio”.

Por fim, destacam-se a Regulamentação 184 e da Convenção 177, ambas da OIT, aparatos normativos que
disciplinam o teletrabalho com foco na garantia da saúde e segurança nas relações de trabalho à distância. Tal
Convenção, contudo, embora possa nortear o jurista brasileiro no que se refere a alguns aspectos ainda
obscuros referentes ao instituto, não foi ratificada pelo Brasil até o presente momento.

2.2Uma visão do direito comparado

Os EUA, grande berço do teletrabalho, dispõe da Lei Pública nº 106, que regulamenta o trabalho à distância
na Administração Pública, mais especificamente, nas agências públicas federais, estabelecendo que cada
agência deve fornecer subsídios tecnológicos aos seus empregados a fim de que estes possam executar tarefas
– no todo ou em parte - à distância.

Para efetivar essa proposta, conforme dados coletados por Estrada (2014), foi lançado pelo Governo norte-
americano o Programa de Flexibilidade do Trabalho Telemático, autorizando as agências federais a
despenderem um percentual anual mínimo, que, em 1999, correspondia a cerca de 50 mil dólares, com
investimentos em aquisições tecnológicas para uso dos empregados.

Na França, a Lei Madelin, de 1994, estimula o teletrabalho de caráter autônomo para fins de barateamento da
mão-de-obra e aumento de competitividade. O alcance de tais efeitos torna-se possível em virtude do
teletrabalho permitir à empresa transferir parte dos riscos do empreendimento ao trabalhador, livrando-se de
gastos relativos a seu respectivo posto de trabalho, que é destacado do estabelecimento empresarial.

No direito italiano, cujo principal diploma normativo referente ao tema é a Lei 191, de 1998, a grande
tendência é a de enquadrar os teletrabalhadores na categoria dos parassubordinados. Conforme conceitua
Estrada (2014, p.36), “o trabalho parassubordinado é uma categoria intermediária entre o autônomo e o
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subordinado, abrangendo tipos de trabalho que não se enquadram entre uma das duas modalidades
tadicionais”.

Importante consignar que essa espécie sui generis de trabalhador é fonte de acentuadas críticas, inclusive por
grande parte da doutrina e jurisprudência trabalhista brasileiras. Aliás, a própria definição do termo
parassubordinado pela doutrina italiana como “autônomo-dependente”, ao unir expressões naturalmente
antônimas, corrobora tais críticas. Nesse sentido, Renault (2011), defende ser a parassubordinação um
instituto incoerente e pernicioso, que objetiva atenuar o elemento da subordinação a ponto de permitir uma
maior identificação do trabalhador com um autônomo do que com um empregado.

Por fim, o recente Código de Trabalho de Portugal é o que apresenta regulamentação mais completa acerca do
teletrabalho, ocupando-se de traçar diretrizes acerca das questões mais polêmicas que pairam sobre o instituto.

No que se refere à natureza jurídica da relação, o artigo 236 do Código de Trabalho português determina que:
“O teletrabalhador tem os mesmos direitos e está adstrito às mesmas obrigações dos trabalhadores que não
exerçam a sua atividade em regime de teletrabalho [...]”. Percebe-se, portanto, que tanto a jurisprudência
dominante quanto a legislação brasileiras, mesmo que incipientes, já demonstram maior afinidade com as
intenções externadas pelo Código Português, que, ao equiparar o trabalho à distancia ao trabalho realizado nas
dependências da empresa, não distingue o teletrabalhador dos demais empregados.

3.As duas faces do teletrabalho

3.1Possíveis aspectos positivos e negativos

O teletrabalho, em virtude dos efeitos positivos que pode produzir - principalmente sob o ponto de vista
econômico, o que deve despertar certo estado de alerta quanto ao social – tem sido difundido como uma
prática sustentável e pluralmente satisfatória por grandes empresas transnacionais, como a Nike, bem como
pela Administração Pública de diversos países – inclusive do Brasil, tendo em vista que alguns tribunais,
como é o caso do Tribunal Superior do Trabalho, já dispõem de Regulamento destinado a estimular e
disciplinar a prática.

Realça-se que essa visão otimista acerca do teletrabalho, que dá enfoque a possibilidade de se trabalhar no
tempo e modo que melhor se adequem ao perfil de cada trabalhador, induz a uma interpretação – equivocada
ou talvez utópica – de que o instituto favorece tanto o conteúdo ergonômico do trabalho a que se refere
Dejours (1992) quanto a ideia de “ócio criativo”, preconizada pelo sociólogo italiano Domenico De Masi, que
será objeto de análise adiante.

Assim, consoante o que é defendido pelos adeptos do instituto, as suas vantagens extrapolariam a esfera da
relação de trabalho, atingindo a sociedade como um todo. Nesse sentido, Estrada (2014, p.26), elenca as
seguintes possíveis repercussões positivas advindas da prática do teletrabalho:

a)Para o trabalhador: evita o deslocamento urbano; eleva a produtividade, em virtude da redução das
interrupções da atividade; flexibiliza a jornada de trabalho; amplia a convivência familiar; permite a inclusão
no mercado de trabalho do portador de deficiência física, com dificuldades para se locomover.

b)Para a empresa: reduz as despesas com imobiliário, água e energia; conta com empregados mais produtivos;
oportunidade para operar 24 horas diárias, o que já se verifica, principalmente, em empresas de
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telemarketing ; reduz os níveis hierárquicos intermediários; os seus teletrabalhadores dificilmente estarão
“ausentes”.

c) Para a sociedade e governo: geração de empregos – o que é bastante questionável, já que com a
permanência dos trabalhadores em suas residências alguns postos de trabalho podem ser significativamente
reduzidos, como é o caso dos frentistas de postos de gasolina, babás e domésticos em geral; redução dos
congestionamentos; redução da poluição ambiental; maior empregabilidade nas zonas rurais.

Por outro lado, tanto a empresa quanto o teletrabalhador – este precipuamente - encontram-se também sujeitos
a efeitos negativos, que devem ser vistos com bastante cautela, já que atingem questões fundamentais sob o
ponto de vista jurídico-trabalhista, como saúde, segurança e subjetividade do trabalhador.

O primeiro contraponto a ser destacado é o isolamento social do teletrabalhador, que afastado do ambiente
empresarial, perde a convivência diária com os colegas de trabalho e, por conseguinte, o espírito de
coletividade. Isso acaba por, inevitavelmente, reverberar na esfera sindical, contribuindo para uma gradativa
redução da força das categorias respectivas. Estrada (2014, p. 26) também destaca que, ao ser privado desse
contato físico diário com os demais membros da empresa, surge uma maior possibilidade de que o
teletrabalhador seja demitido, haja vista a “falta de envolvimento emocional com o nível hierárquico”.

Outra questão a ser ponderada refere-se à forte dependência tecnológica desenvolvida pelos teletrabalhadores,
cuja subsistência torna-se vinculada a uma necessidade de conexão permanente, já que toda a atividade
profissional passa a ser desenvolvida por meio de telas (tablets, smartphones, notebooks, etc.). Essa interação
tecnológica intensiva pode abrir portas para o desenvolvimento de uma série de problemas de saúde pelo
teletrabalhador, principalmente no que se refere à contração de doenças ligadas ao computador, como
glaucoma e lesões por esforço repetitivo (LER).

Embora, a princípio, possa parecer crível que o trabalho realizado à distância reduz o controle patronal,
suavizando os traços da subordinação, Estrada (2014, p.26) nos alerta para o fato de que surge, na verdade, um
“controle virtual e invisível do empregador mediante programas de softwares que até registram quantas vezes
o teletrabalhador teclou e os sites que visitou”.

Além disso, ao admitirem o teletrabalho, as empresas passam a medir o desempenho profissional pela
produtividade, elevando em quantidade e intensidade as metas a serem alcançadas. Assim, a jornada de
trabalho - cuja flexibilização deveria consistir em benefício para o teletrabalhador – é, geralmente, elastecida.
Em conseqüência, os níveis de estresse podem elevar-se consideravelmente, aguçando o sofrimento psíquico
que, conforme Dejours (1998), consiste em importante mecanismo de controle patronal.

3.2 Ócio criativo ou escravização digitalizada?

De Masi (2000) aduz que "O homem que trabalha perde tempo precioso". Assim, segundo o sociólogo
italiano, o futuro pertencerá a quem souber libertar-se da tradicional equiparação do trabalho a uma obrigação,
permitindo que ele se confunda com o tempo livre, estudo e jogo. Tal combinação – trabalho, estudo e jogo –
é o que o autor denomina de ócio criativo.

Realça-se que essa distinção entre lazer e trabalho perdeu muito do seu significado quando a indústria separou
o lar do trabalho e fez com que este passasse a dominar a vida humana em todos os seus aspectos. Assim,
tornou-se possível estabelecer a correlação de que o teletrabalho, ao trazer o trabalhador para um ambiente
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familiar e informal, que reflita as suas subjetividades, estaria misturando, novamente, labor e lazer e
estimulando, portanto, o ócio produtivo.

Na concepção de De Masi (2000) a subjetividade é um fenômeno complexo. Significa que o indivíduo possui
uma tal autonomia que lhe permita escolher com base nas suas necessidades e recursos, promovendo, a todo
tempo, combinações e arranjos pessoais – sendo a tecnologia a grande responsável por isso.

Essa análise, transplantada para o campo específico do trabalho, leva o autor a considerar que o teletrabalho
traduz o mais alto grau de subjetividade no trabalho, recuperando e valorizando a parte melhor do artesanato e
a parte melhor da indústria ao permitir o retorno ao trabalho em casa. Assim, conforme a mídia, grandes
empresas e até mesmo a Administração Pública pretendem propagar, o teletrabalho, ao angariar trabalho,
família e bem-estar diário, seria a grande saída para os indivíduos pós-modernos, ávidos por qualidade de
vida.

Contudo, esse cenário no qual teletrabalhadores, laborando pouco e prazerosamente, trocam a produção sob
pressão pelo ócio criativo, pode expressar-se como uma mera “isca” na captura por adeptos, tendo em vista
que os reais objetivos empresariais de majoração da produtividade e lucro apresentam-se, no plano prático,
como grandes entraves à realização desse ideal.

Conforme reportagem veiculada pela Folha de São Paulo[4], “sociólogos e juristas afirmam que essa nova
dimensão do trabalho ainda não foi percebida com clareza pelos profissionais”, que podem ser vítimas de
sérios impactos adversos. Isso porque, conforme defendido por Márcio Pochman, presidente do Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e especialista em políticas de trabalho, o trabalho à distância, pautado
em recursos tecnológicos, não só elastece como torna invisível a jornada extraordinária, que deixa de ser
reconhecida e remunerada.

Parte-se do pressuposto de que o trabalhador está plenamente livre, podendo iniciar e terminar a sua jornada
quando bem entender. Mas a elevada produtividade exigida e as metas a serem atingidas tornam essa liberdade
apenas aparente. Na verdade, essa mescla que o teletrabalho produz entre ambiente familiar e espaço
profissional tem o discreto propósito de ampliar a possibilidade de que a atividade profissional invada, de vez,
a vida privada do teletrabalhador, tornando-o inapto a distinguir o tempo de trabalho do tempo de não
trabalho.

A política empresarial voltada à obtenção de grandes resultados em curtos espaços de tempo faz com que,
mesmo sem o comando direto para que o trabalhador realize horas extras, a jornada extraordinária torne-se
rotina. Afinal, a “comodidade” proporcionada pelos aparelhos tecnológicos é tamanha que o indivíduo,
carregando o laptop para onde quer que esteja, concilia o trabalho com todas as suas outras atividades diárias
– domésticas ou não – carregando consigo apenas a ilusão de que a sua jornada é ele próprio quem determina.

E é tendo em visa essa face tão obscura quanto real do teletrabalho que Antunes (2011, p.14), considera que a
sua prática culmina em uma “escravização digitalizada”. "O processo combina salto tecnológico com
intensificação do trabalho. E com um envolvimento maior do trabalhador. Eles se embaralharam
completamente.” Esclarece, ainda, que

“A partir da era digital, o tempo de trabalho e o tempo de não trabalho não estão mais claramente demarcados.
Significa que, estando na empresa ou fora dela, esse mundo digitalizado nos envolve durante as 24 horas do
dia com o trabalho. O trabalhador perde o sentido da vida fora do trabalho. Aumentam os adoecimentos e o
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estresse. A aparência da liberdade do trabalho em casa é contraditada por um trabalho que se esparrama por
todas as horas do dia e da noite”.

Atribuindo essa mesma ênfase à face oculta do teletrabalho, Estrada (2012, p.10) discorrer sobre o
“teletrabalho escravo”, asseverando que:

“É aquele que, em vez de ser realizado no mundo físico, é realizado na internet através de ferramentas
tecnológicas que permitem o uso da telecomunicação e telemática, privando o teletrabalhador da sua liberdade
por causa do controle virtual (mais ainda no teletrabalho em domicílio) e que se encontra privado de romper o
vínculo em razão de coação moral ou psicológica advinda de dívidas artificiais contraídas com o empregador.
Salienta-se que o teletrabalhador poderá ter escolha de lugar, na casa, no parque, na fazenda etc, porém, este
ficará preso ao computador ou laptop, ou seja, não interessa o ambiente no qual o teletrabalhador estiver, este
terá que se concentrar no trabalho, isolando-se de seu entorno e cumprir as metas exigidas pela empresa”.

Trata-se, portanto, de uma modalidade de trabalho claramente ambivalente, que apesar de permitir – no plano
teórico - uma maior adequação da atividade profissional, em tempo e modo, às subjetividades do trabalhador,
pode configurar-se – no plano prático - como uma poderosa técnica empresarial de intensificação da
produtividade e lucro por meio de um controle, simultaneamente, invasivo e invisível sobre o teletrabalhador,
que se torna vítima de uma lamentável “escravização digitalizada”.

Conclusão

Conforme demonstrou-se inicialmente, o instituto do teletrabalho, apesar de sua origem recente, já assume
proporções significativas em alguns países desenvolvidos e, no Brasil, apesar de contar com uma
jurisprudência e um complexo normativo ainda bem incipientes, corresponde a uma modalidade de trabalho
em franca expansão.

O distanciamento físico entre trabalhador e estabelecimento empresarial, característica precípua do


teletrabalho, pode provocar efeitos práticos opostos, haja vista que ao mesmo tempo em que permite atenuar a
subordinação e flexibilizar a jornada, pode contribuir para a intensificação do controle patronal – que se torna
tão invasivo quanto invisível- e para a realização habitual de jornada extraordinária.

Por essa natural ambivalência e polarização de efeitos é que as impressões acerca do teletrabalho oscilam
tanto, tornando-se possível aproximá-lo da idéia de “ócio criativo”, preconizada por De Masi (2000), bem
como interpretá-lo como um mecanismo de “escravização digitalizada”, nos termos do que aduz Antunes
(2011).

Nesse sentido, perpassando-se pelos possíveis efeitos positivos e negativos emanados do instituto, tendo como
grande foco o teletrabalhador, buscou-se demonstrar que apesar das fortes campanhas, públicas e privadas, no
sentido de propagar o teletrabalho como a grande chave para a perfeita compatibilização diária entre vida
social, privada e profissional, os seus efeitos práticos podem, sim, culminar no que Antunes denomina de
“escravização digitalizada”.

Fato é que, por uma simples questão de interesses econômicos, a face positiva do instituto é, até então, a mais
conhecida, razão pela qual dados estatísticos retirados de pesquisa realizada pela Dell[5] em 2014 apontam
que 4 em cada 5 brasileiros almejam teletrabalhar.
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Contudo, por meio de uma análise um pouco mais crítica e aprofundada, torna-se possível perceber que
Antunes (2011), ao falar de “escravização digitalizada”, retrata com maior fidelidade o contexto sócio-jurídico
do teletrabalho, tendo em vista os seus efeitos práticos e os reais interesses empresariais que o circundam:
explorar sem assumir o estigma de explorador, impondo que toda a carga de controle e pressão seja exercida
pelo próprio trabalhador sobre si mesmo.

Referências:
ANTUNES, Ricardo. Liberdade laboral aparente. Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me2208201008.htm>. Acesso em 04/11/2015
ANTUNES, Ricardo.O continente do labor. São Paulo: Boitempo, 2011
BRASIL, Tribunal Regional do Trabalho. 3 Região. Recurso Ordinário 00151201214703005 0000151-
84.2012.5.03.0147. Relator: Convocado Jose Marlon de Freitas, Sexta Turma, Data de Publicação: 04/02/2013
01/02/2013. DEJT. Página 145. Boletim: Sim.
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Notas:
[1] Termo que se traduz para o português em: A troca dos meios de transporte pelas telecomunicações: opções
para o amanhã.
[2] Disponível em: http://www.sobratt.org.br/cbt2006/pdf/jose_carlos_ferreira.pdf Acesso em: 29/09/2015
[3] TRT-3 - RO: 00151201214703005 0000151-84.2012.5.03.0147, Relator: Convocado Jose Marlon de
Freitas, Sexta Turma, Data de Publicação: 04/02/2013 01/02/2013. DEJT. Página 145. Boletim: Sim.
[4]FOLHA DE SÃO PAULO. Tecnologia prolonga jornada de trabalho. Disponível
em : http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me2208201005.htm Acesso em: 20/09/2015
[5] Disponível em: http://www.sobratt.org.br/index.php/30032015-pesquisa-reforca-que-home-office-
melhora-qualidade-de-vida-de-brasileiros/ Acesso em: 11/09/2015

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