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O desafio de delegar

Por Clarissa Martins

De um modo geral, os brasileiros são excelentes profissionais. Muito criativos,


conhecem bem a lição de como otimizar os custos, resolvem conflitos
inesperados, são comprometidos, inovadores, possuem um vasto networking, mas
vacilam no quesito delegar tarefas. Por insegurança ou perfeccionismo, agregam
para si milhões de atividades e deixam de lado outras tantas importantes para sua
qualidade de vida e crescimento profissional. Quando vêem, estão atolados de
trabalho, sem tempo e cercados por uma equipe imatura e pouco profissional.
Delegar não é uma atitude egoísta que ajuda só a você, mas é uma excelente
oportunidade de desenvolver as pessoas que te cercam.

Talvez uma das mais difíceis atitudes administrativas seja delegar tarefas, as
quais você acredita ser a única pessoa capaz de realizá-las. Achar a dose certa de
informação, motivação e supervisão que cada funcionário e cada tarefa
necessitam é uma das grandes dificuldades em passar a bola adiante segundo
Gisela Kassoy,consultora organizacional, especialista em Criatividade e
Administração de Mudanças. "Dar tudo mastigadinho, se intrometendo na
execução, irrita o subordinado, além de tolher sua criatividade e auto-estima. E
passar a tarefa sem dar subsídios suficientes pode ser um grande risco", alerta.
Para ela, em primeiro lugar, é preciso entender que delegar faz parte das
atribuições gerenciais. Muitas vezes, fazer é mais fácil do que ensinar,
supervisionar ou corrigir, mas quem quer subir em sua carreira precisa atuar muito
mais como líder do que como executante. Porém é sempre uma tarefa difícil, que
requer atenção em alguns detalhes, para que o tiro não saia pela culatra. "Um dos
aspectos mais importantes da delegação é o feedback. Quem transmitiu precisa
dizer com clareza e objetividade o que achou da tarefa executada, senão o
executante fica frustrado e sem condições de melhorar seu desempenho. É
importante também o chefe ter muita clareza ao explicar o que espera como
resultado do serviço e até que ponto o subordinado pode tomar decisões sozinho",
explica Gisela.

Como muitas coisas da vida, transmitir tarefas é algo que só se aprende fazendo.
O importante é insistir, porque com a prática delegar se torna tão comum quanto
realizar. "Confesso que eu não sabia, mas acabei aprendendo. Acredito que a
maior dificuldade é você não acreditar que a pessoa fará um trabalho tão bom
quanto o seu", confessa a gerente de informações Mônica Santos, que teve
muitos problemas até se convencer de que é necessário passar adiante seus
conhecimentos ao invés de centralizá-los. "Não conseguia tirar férias e em certa
ocasião tive que telefonar, de um parque da Disney, só para esclarecer uma
dúvida do pessoal daqui. Outra vez, quando solicitei minha transferência para
outro setor, fiquei mais de um mês dando suporte ao meu departamento antigo na
hora do almoço ou por telefone à noite. E perdi muito tempo revisando o trabalho
dos outros para garantir a qualidade das informações. Enfim, acabei me
sobrecarregando por causa disso", relata. Hoje, Mônica já percebeu que não vale
a pena centralizar e confia mais nas pessoas e nas suas capacidades, apesar de
ainda tomar sustos. Mas tem certeza de que elas aprendem mais com seus
próprios erros do que com as suas revisões.

Delegar é muito mais complexo do que simplesmente passar problemas adiante.


Requer, necessariamente de quem delega, supervisão ou orientação. "Meu ex-
chefe, quando fazia isso, era sem qualquer tipo de direção. Não deixava claro
suas expectativas em relação ao trabalho e como seria a melhor forma de agir.
Era simplesmente passar o problema para frente, com aquela famosa frase: 'Se
vira!'", comenta a gerente de projetos Larissa Prado, que confessa ser
extremamente chata no que diz respeito à qualidade e prazos, e por isso tem
muita dificuldade em incumbir. Ela bateu muito a cabeça até aceitar que as
pessoas são distintas, têm ritmos diferentes e que nem tudo sai exatamente à sua
maneira. "O que faço para o resultado ser próximo ao que espero é explicar bem
os objetivos e as estratégias de atuação. Assim, consigo obter o comprometimento
da pessoa, que passa a ter a mesma preocupação que eu", ensina.

O poder geralmente amplia os limites das pessoas, que acabam se achando


insubstituíveis e, em conseqüência, centralizadoras, correndo o risco de também
virarem workaholics. Segundo a consultora Maria Aparecida Schirato, o
profissional só vai delegar se estiver se sentindo confortável com o que faz e bem
psicologicamente. "Caso contrário, sua insegurança vai manter uma relação
neurótica e instável com os subordinados, deixando-os infantilizados e sem
responsabilidades", orienta. Para ela, que é autora do livro "O Feitiço das
Organizações – Sistemas Imaginários", você tem que ter uma relação de prazer
com o que faz e por isso não pode se sobrecarregar de serviços delegáveis. "Ao
delegar, as pessoas têm mais tempo de buscar um aumento de competências e
especializações, que só trazem resultados positivos profissionalmente. Mas
precisa fazer bem feito. Eu odeio essa frase:"se vira". Ninguém tem que se virar,
mas sim fazer confortavelmente o que lhe foi pedido", sugere. Maria explica que o
modelo atual de administração estimula a autogestão. Cada um gerencia suas
tarefas e carreiras, ligados aos mesmos macroobjetivos da empresa. A chefia fica
com o papel de coordenar os trabalhos individuais, energizar, motivar e integrar.

Ser claro e objetivo, orientar no processo e dar um bom feedback são atitudes
essenciais, mas não é tudo. É fundamental conhecer muito bem o delegatário. "É
preciso certificar-se de que a pessoa que irá assumir a função tem plenas
condições de exercê-la e, para tanto, além de conhecer as suas qualificações é
importante checar se ela captou e compreendeu bem o que você espera dela.
Sem essa preocupação, você corre o risco de ampliar a sua frente de trabalho, ao
invés de reduzi-la", comenta o hoteleiro Leonardo Tristão, que garante a
ampliação do poder ao infinito quando se delega bem. Além de, segundo ele,
poder criar oportunidade para avaliar quem recebe a missão, treinar alguém ou
algum grupo numa determinada função e forçar você a rever as suas próprias
prioridades e, principalmente, permitir que você se dedique com mais
profundidade e por mais tempo àquelas atividades onde é realmente necessário.

Saber delegar é um aprendizado e requer treinamento. "Uma vez incorporado à


sua rotina, verá que os outros aprenderam com você e estão desempenhando,
muito bem, as tarefas que determinou. Nesse momento, você passa a administrar
melhor sua equipe de trabalho, deixando de ser um centralizador e sente-se rico,
pois está administrando seu tempo com excelência e bem-estar", finaliza Dr. Artur
Zular, especialista em doenças psicossomáticas e autor do livro "Sucesso sem
Estresse".