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24/05/2018 Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais, Tradição, Tradition

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Instituto René Guénon de Estudos Tradicionais

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Luiz
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"O Preconceito Clássico"


Capítulo III de "Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus"
René Guénon

Temos já indicado o que entendemos por "preconceito clássico" : é propriamente a


parcialidade em atribuir aos Gregos e aos Romanos a origem de toda civilização. Não se pode,
no fundo, encontrar nisso outra razão além desta: os Ocidentais, visto que sua própria
civilização não remonta, de fato, muito além da época greco-romana, e deriva desta quase que
inteiramente, são levados a imaginar que deve ter sido assim em todo lugar, e mal concebem a
existência de civilizações muito diferentes e de origem bem mais antiga; poder-se-ia dizer que
eles são, intelectualmente, incapazes de transpor o Mediterrâneo. Além disso, o hábito de falar
de "a civilização" de uma maneira absoluta, contribui ainda em larga medida para sustentar
esse preconceito: "a civilização", assim entendida e suposta única, é algo que nunca existiu; na
realidade, sempre existiram e ainda existem "civilizações". A civilização ocidental, com suas
características especiais, é simplesmente uma civilização entre outras, e aquilo que se chama
pomposamente "a evolução da civilização" não é nada mais que o desenvolvimento desta
civilização particular desde suas origens relativamente recentes, desenvolvimento este que
está, aliás, bem longe de ter sido sempre "progressivo" de modo regular e em todos os pontos:
o que dissemos anteriormente sobre a pretensa Renascença e suas conseqüências poderia
servir aqui como exemplo muito nítido de uma regressão intelectual que não tem feito mais do
que se agravar até nossos dias.

Para quem quer examinar as coisas com imparcialidade, fica evidente que os Gregos,
pelo menos do ponto de vista intelectual, tomaram verdadeiramente emprestado quase tudo
dos Orientais, conforme eles mesmos o confessam freqüentemente; por mais mentirosos que
pudessem ser, eles não mentiriam sobre este ponto e, aliás, não teriam nenhum interesse nisso,
muito pelo contrário. Sua única originalidade, dizíamos antes, reside na maneira pela qual eles
expuseram as coisas, segundo uma faculdade de adaptação que não se pode contestar, mas que
se acha necessariamente limitada à medida de sua compreensão; eis aí, em suma, uma
originalidade de ordem puramente dialética. Com efeito, os modos de raciocínio, que derivam
dos modos gerais do pensamento e servem para formulá-los, são, entre os Gregos, diferentes
do que entre os Orientais; é preciso estar sempre atento quando se assinala certas analogias,
aliás reais, como aquela do silogismo grego, por exemplo, com o que se chamou, mais ou
menos exatamente, o silogismo hindu. Não se pode mesmo dizer que o raciocínio grego se
distingue por um rigor particular; ele só parece mais rigoroso que os outros para aqueles que
dele têm o hábito exclusivo, e esta aparência provém unicamente do fato que ele se encerra
sempre dentro de um domínio mais restrito, mais limitado, e melhor definido por isso mesmo.
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Aquilo que é efetivamente próprio dos Gregos, em contrapartida, mas com pouca vantagem
para eles, é uma certa sutileza dialética da qual os diálogos de Platão oferecem numerosos
exemplos, e onde se vê a necessidade de examinar indefinidamente uma mesma questão sob
todos os seus ângulos, tomando-a nos mínimos aspectos, e para desembocar numa conclusão
mais ou menos insignificante; é preciso crer que, no Ocidente, os modernos não são os
primeiros a serem afligidos de "miopia intelectual".

Talvez não haja razão, afinal, para censurar exageradamente os Gregos por terem
estreitado o campo do pensamento humano como o fizeram; por um lado, havia aí uma
conseqüência inevitável de sua constituição mental, da qual eles não poderiam ser tomados
como responsáveis, e, por outro, eles pelo menos colocaram assim ao alcance de uma parte da
humanidade alguns conhecimentos que, de outro modo, correriam sério risco de lhes
permanecer completamente alheios. É fácil se dar conta disso vendo do que são capazes, em
nossos dias, os Ocidentais que se acham diretamente em presença de certas concepções
orientais, e que tentam interpretá-las segundo sua própria mentalidade: tudo o que eles não
conseguem identificar às formas "clássicas" escapa-lhes totalmente, e tudo aquilo que eles o
conseguem bem ou mal é, por isso mesmo, desfigurado a ponto de se tornar irreconhecível.
O chamado "milagre grego” , como o chamam seus entusiastas admiradores, reduz-se em
suma a bem pouca coisa, ou pelo menos, onde implica numa mudança profunda, esta mudança
é uma decadência: é a individualização das concepções, a substituição do intelectual puro pelo
racional, do ponto de vista metafísico pelo ponto de vista científico e filosófico. Pouco
importa, aliás, que os Gregos tenham sabido melhor que outros dar a certos conhecimentos um
caráter prático, ou que tenham tirado disso conseqüências com tal caráter, enquanto que
aqueles que os precederam não o fizeram; pode-se mesmo achar que eles assim deram ao
conhecimento um fim menos puro e menos desinteressado, visto que sua forma mental apenas
difícil e excepcionalmente lhes permitiria permanecer no domínio dos princípios. Esta
tendência "prática", no sentido mais comum do termo, é uma daquelas que deviam ir se
acentuando no desenvolvimento da civilização ocidental, e é visivelmente predominante na
época moderna; só se pode fazer exceção a este respeito em favor da Idade Média, muito mais
voltada para a especulação pura.

De um modo geral, os Ocidentais são, por sua natureza, muito pouco metafísicos; a
comparação de suas línguas com as dos Orientais forneceria por si só uma prova suficiente, se
todavia os filólogos fossem capazes de captar verdadeiramente o espírito das línguas que
estudam. Em contrapartida, os Orientais têm uma tendência muito acentuada para se
desinteressar das aplicações e isto se compreende facilmente, porque qualquer um que se une
essencialmente ao conhecimento dos princípios universais não pode ter mais que um interesse
medíocre pelas ciências especiais, e pode no máximo lhes conceder uma curiosidade
passageira, insuficiente em todo caso para provocar numerosas descobertas nessa ordem de
idéias. Quando se sabe, de algum modo com uma certeza matemática e mesmo mais que
matemática, que as coisas não podem ser outra coisa além daquilo que são, há forçosamente
desprezo pela experiência, porque a constatação de um fato particular, qualquer que seja,
prova nada mais nada menos do que a existência pura e simples desse mesmo fato; no máximo
tal constatação pode servir, às vezes, para ilustrar uma teoria, a título de exemplo, mas de
modo algum para prová-la, e crer no contrário é uma grave ilusão. Nestas condições, não há
evidentemente espaço para estudar as ciências experimentais em si mesmas, e, do ponto de
vista metafísico, elas só têm, como o objeto ao qual elas se aplicam, um valor puramente
acidental e contingente; não se nota com muita freqüência a necessidade de isolar as leis
particulares, que se poderia contudo extrair dos princípios, a título de aplicação especial a tal
ou qual domínio determinado, caso se considerasse que isso vale a pena. Pode-se então
compreender tudo aquilo que separa o "saber" oriental da "pesquisa" ocidental; mas pode-se
ainda admirar que a pesquisa chegue a constituir, para os Ocidentais modernos, um fim em si
mesmo, independentemente de seus resultados possíveis.

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Um outro ponto que importa essencialmente notar aqui, e que se apresenta aliás
como um corolário do que precede, é que ninguém tem estado mais longe do que os Orientais,
sem exceção, para expressar, como a Antigüidade greco-romana, o culto pela natureza, visto
que a natureza não tem sido para eles mais do que o mundo das aparências; sem dúvida, essas
aparências têm também uma realidade, mas não é mais do que uma realidade transitória e não
permanente, contingente e não universal. Logo, o "naturalismo", sob todas as formas das quais
é suscetível, não pode constituir, aos olhos de homens que se poderia chamar metafísicos por
temperamento, mais que um desvio e mesmo uma verdadeira monstruosidade intelectual.

É preciso dizer no entanto que os Gregos, apesar de sua tendência ao "naturalismo",


nunca concederam à experimentação a importância excessiva que os modernos lhe atribuem;
reconhece-se em toda a Antigüidade, mesmo ocidental, um certo desdém pela experiência, o
qual seria talvez bastante difícil de explicar de modo diferente do que vendo aí um traço da
influência oriental, já que tal desdém perdera, em parte sua razão de ser para os Gregos, cujas
preocupações de ordem estética tomavam com freqüência o lugar das razões mais profundas
que lhes escapavam. São, portanto, estas últimas considerações que se faz intervir mais
comumente na explicação do fato de que se trata; mas nós pensamos que há aí, na origem pelo
menos, algo mais. Em todo caso, isso não impede que se encontre já entre os Gregos, em um
certo sentido, o ponto de partida das ciências experimentais tal como as compreendem os
modernos, ciências nas quais a tendência "prática" se une à tendência "naturalista" , ambas não
podendo alcançar seu pleno desenvolvimento senão em detrimento do pensamento puro e do
conhecimento desinteressado.

Assim, o fato de os Orientais não serem nunca vinculados a certas ciências especiais
não é de maneira alguma um sinal de inferioridade de sua parte, e é mesmo, intelectualmente,
bem o contrário; eis aí, em suma, uma conseqüência normal daquilo que sua atividade sempre
dirigiu para um outro sentido e para um fim totalmente diferente. Esses são precisamente os
diversos aspectos nos quais se pode exercer a atividade mental do homem que imprime a cada
civilização seu caráter próprio, determinando-lhe a direção fundamental de seu
desenvolvimento; eis aí, ao mesmo tempo, o que dá a ilusão do progresso àqueles que, não
conhecendo mais do que uma civilização, vêem exclusivamente a direção na qual ela se
desenvolve, acreditando ser a única possível, e não se dando conta que tal desenvolvimento
em um aspecto pode ser largamente compensado por uma regressão em outros aspectos.

Considerando-se a ordem intelectual, essencial só às civilizações orientais, há pelo


menos duas razões para que os Gregos, sob esta relação, tenham tomado emprestado tudo
delas, entendemos tudo o que há de realmente legítimo dentre suas concepções; uma destas
razões, sobre a qual nós mais insistimos até aqui, é extraída da inaptidão relativa da
mentalidade grega a esse respeito; a outra é que a civilização helênica é de data muito mais
recente que as principais civilizações orientais. Isto é verdade em particular para a Índia, se
bem que, aí onde há certas afinidades entre as duas civilizações, algumas pessoas aumentam o
"preconceito clássico" até afirmar a priori que é a prova de uma influência grega. No entanto,
se uma tal influência interveio realmente na civilização hindu, ela não pôde ser mais do que
muito tardia, e permaneceu necessariamente apenas superficial. Poderíamos admitir que
houve, por exemplo, uma influência de ordem artística, se bem que, mesmo sob este ponto de
vista especial, as concepções dos Hindus têm sempre permanecido, em todas as épocas,
extremamente diferentes das dos Gregos; aliás, só se reencontra traços precisos de uma
influência desse gênero em uma certa parte, muito restrita tanto no espaço como no tempo, da
civilização búdica, que não poderia ser confundida com a civilização hindu propriamente dita.
Mas isto nos obriga a dizer pelo menos algumas palavras sobre aquilo que podiam ser, na
Antigüidade, as relações entre povos diferentes e mais ou menos afastados, depois sobre as
dificuldades que suscitam, de um modo geral, as questões de cronologia, tão importantes aos
olhos dos adeptos mais ou menos exclusivos do muito famoso "método histórico".
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