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24/05/2018 Oriente e Ocidente:

Oriente e Ocidente: Demarcação

Mário B. Sproviero
(Prof. Assoc. DLO-FFLCHUSP)

Introdução
Partindo da bipartição entre Oriente e Ocidente que remonta à Pré-história,
quando da separação dos povos, línguas e religiões - fenômeno unitário - é
necessário demarcá-los para ter clareza quanto a sua abrangência. Não
podemos estudar o Oriente, sem saber o que o distingue do Ocidente e sem
considerar a existência dos vários Orientes.

Será que termos tão genéricos quanto filosofa ocidental e filosofia oriental
tem alguma unidade? Estarão incluídas nessa bipartição todas as culturas
da Terra? Que dizer das culturas africanas, ameríndias, australianas etc? Há
uma unidade cultural no Oriente?

Para responder a esta e tantas outras perguntas congêneres, procedamos


por etapas.

Primeira Etapa: Ocidente e Orientes


Conforme o enigmático autor René Guénon (1886-1951), crítico acérrimo
do Ocidente moderno, pode-se perfeitamente falar de uma mentalidade
oriental oposta em seu conjunto à mentalidade ocidental mas não se pode
falar de uma civilização oriental como se fala de uma civilização ocidenta
e já que há várias civilizações orientais nitidamente distintas (1). Teríamos,
assim, uma civilização ocidental e várias orientais. Por outro lado, a
unidade cultural (2) da civilização ocidental moderna só repousaria num
conjunto de tendências que constituem uma certa conformidade mental,
uma simples unidade de fato, sem princípio, desde que o Ocidente rompeu
com a Cristandade, seu princípio constitutivo até a Idade Média. Enquanto
que as civilizações orientais, por mais diversas que sejam, cada uma
repousando sobre um princípio de unidade diferente, trazem todas certos
traços culturais comuns, principalmente quanto aos modos de pensar, o que
permite dizer que existe, de um modo geral, uma mentalidade
especificamente oriental (3).

Segunda Etapa: Critério Geográfico


O ponto de partida para caracterizar o Oriente e o Ocidente é geográfico,
no entanto tais conceitos geográficos revelam profundo conteúdo cultural.
Nesse sentido, e em primeira instância, podemos dizer que o Ocidente é
fundamentalmente a Europa, o Oriente é fundamentalmente a Ásia. Não é
preciso salientar o imenso conteúdo cultural de tais realidades. A oposição
entre Oriente-Ocidente é a oposição Europa-Ásia. Então, estão excluídas
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da bipartição Oriente-Ocidente todas as civilizações que não pertencem à


Eurásia, como as da África, da América, da Austrália, da Oceânia etc. É
um ponto assentado por historiadores, não sem contestação, que na Ásia
principiaram as primeiras civilizações humanas. Diz-nos o famoso
historiador italiano do século passado, Cesare Cantù (4)(1804-1895), que a
Ásia é o breço do gênero humano e da civilização, sendo não só a parte
mais extensa do mundo como também a mais favorecida pela natureza.
Pelo menos para o início dos povos civilizados a Ásia avantajava-se em
relação à Europa. As primeiras grandes civilizações nasceram no chamado
Crescente Fértil, região que vai desde o Egito até a Mesopotâmia. Nesse
caso o Egito, apesar de ser África, tem sua história muitos mais
entremeada com a dos povos da Ásia do que com os da África, como a
Etiópia, inimigo irredutível da ordem egípcia.

Terceira Etapa: Mitologia


Muitos contestam essa primazia da Ásia. As cidades mais antigas do
mundo estariam na América. Temos aqui uma problemática complexíssima
referente às origens humanas, bem como um intrincado labirinto de
mitologias, que apenas mencionamos porque muitos mitos estão
relacionados à bipartição Oriente-Ocidente. Apesar de muitas tradições,
como a tradição suméria, a persa e a hebraica colocarem o paraíso perdido
na Mesopotâmia, inúmeras outras insistem em colocá-las no extremo
Ocidente. O mito da Atlântida, por exemplo, que cativou profundamente a
Platão (427a.C.-327a.C.) em sua velhice, a ponto de tê-lo levado consigo
ao túmulo (5), revela uma participação primordial do Ocidente na
civilização humana: uma ilha entre a Europa e a América em que seu
principal representante, Atlas, o atlante, está ligado ao Jardim das
Hespérides (Hespérides quer dizer Ocidente!), imagem do Paraíso. Vários
outros mitos orientais, como o do famoso Paraíso de Amida, colocam o
Paraíso no Ocidente (6). A América redescoberta é, no imaginário
europeu, a redescoberta do Paraíso. Este mito é a matriz geradora de todos
os posteriores mitos socialistas ocidentais. Não sendo esse tópico central
para o nosso tema, basta mencioná-lo. Consideramos serem necessárias
muitas outras descobertas e aprofundamentos para que se possa, talvez no
futuro, desemaranhar esse misterioso passado.

Quarta Etapa: Etimologias


A palavra oriente vem do latim oriens, ‘o sol nascente’, de orior, orire,
‘surgir, tornar-se visível’, palavra da qual nos vem também ‘origem’. A
palavra ocidente nos vem do latim occidens, ‘o sol poente’, de occ-cidere,
de op, ‘embaixo etc’, e cadere, ‘cair’. Seríamos induzidos a seguinte
analogia: da mesma maneira que o sol nasce no Oriente e morre no
Ocidente, assim também a cultura nasce no Oriente e morre no Ocidente.

Os termos Europa e Ásia são mais incertos quanto a suas raízes primitivas.
A palavra europa, conforme o citado dicionário, é provavelmente de
origem semita, do acádico erebu, ‘entrar, por-se’ (dito do sol), ereb
chamshai, ‘por do sol’. Nessa hipótese, Europa que dizer exatamente
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Ocidente. A forma E u r v p h , como no nome E u r -v p h , ‘cara larga’,


seria apenas um tendência de helenizar as palavras estrangeiras. A palavra
ásia, também viria do acádico asu, ‘ir-se, surgir’ (dito do sol), significa,
então, exatamente o mesmo que Oriente. Com isso, Ásia e Europa, Oriente
e Ocidente, são sinônimos.

Não são no entanto seguras essas etimologias de Ásia e Europa. Uma coisa
porém é certa, que o nome Europa está ligado ao mito relacionando gregos
e fenícios (7). Zeus, em forma de touro, rapta uma mulher fenícia, a bela
Europa.Assim, o nome Europa é nome que vem do Oriente, não se sabe,
porém, como.

Quinta Etapa: Grandes Culturas


Quando se procura caracterizar o que seja uma grande cultura, não se
pensa em primeiro lugar num critério valorativo. Uma grande cultura não é
necessariamente uma cultura superior. É, porém, certamente uma cultura
que quer expandir-se, que quer totalizar seu espaço geo-político. Por
exemplo, a cultura que surgiu na confluência do Rio Amarelo e do Rio
Wei, na China, acabou por dominar todo o espaço da China. Ainda hoje
temos remanescentes de numerosas culturas na China que permaneceram
em seu estado tribal. Esta tendência à expansão, que podemos
perfeitamente chamar de imperialista, ou seja, de querer imperar
universalmente, é um traço característico do que se denomina uma grande
cultura.

Ora, na Europa surgiu um grande sistema cultural que culminou no que


chamamos de cultura ocidental. O que caracteria a cultura ocidental é ser
esta a síntese de três culturas: a grega, a romana e a judaica, esta na
componente cristã. A esta cultura assimilaram-se e a dinamizaram os
povos germânicos. Então, nem a cultura grega, nem a romana e nem a
judaica, separadamente, constituem a cultura ocidental. Nesse processo de
integração entre essas três culturas, destaca-se, para complicar as coisas,
um bloco oriental, o greco-bizantino, em que a componente romana teve
um papel secundário, e que assimilou os povos eslavos. O Império
Romano do Oriente e o posterior Império Bizantino são por assim dizer o
Oriente ocidental, o "Oriente Europeu", mas não o que chamamos
propriamente de Oriente. Poderíamos dizer que suas duas capitais
históricas, Roma e Constantinopla, hoje estão representadas por
Washington e Moscou. Tudo isso é, no entanto, Europa, ou melhor,
Ocidente. Deve-se constatar que foi a Rússia que se expandiu para a Ásia.
No entanto, esta tendência poderá inverter-se em favor da China.

Paralelamente, na Ásia, em que encontramos uma incrível pluralidade de


línguas e culturas, surgiram, depois de um longo desenvolvimento
histórico, três grandes sistemas culturais - e não um - que foram
denominados por sua relação de proximidade com a Europa de: 1.
Próximo-Oriente, 2. Oriente-Médio e 3. Extremo-Oriente, e que
constituem o que hoje se denomina especificamente de Oriente.

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Sexta Etapa: Os Três Orientes

: Pode-se ver pelo mapa os três Orientes, clara e geometricamente


distintos, e que não haveria a menor possibilidade de confundir o Próximo-
Oriente com o Oriente-Médio.

Vejamos agora esses três Orientes.

O Próximo-Oriente

O Próximo-Oriente é constituído pela cultura árabe. Nem sempre foi


assim. Tivemos, no passado, inúmeras culturas nesse mesmo espaço: a
cultura suméria, a egípcia, a assiro-babilônica, a persa, a judaica, a grego-
romana, a greco-bizantina etc. Hoje temos a volta dos judeus à Palestina,
rompendo a antigo equilíbrio. Temos que assinalar que hoje (vide o mapa
2) confunde-se o Próximo-Oriente com o Oriente-Médio, principalmente
no Brasil. Havendo um conflito na Palestina nossa impressa e mídia
eletrônica fala de um conflito no Oriente-Médio, enquanto que a televisão
alemã, em relação ao mesmo conflito se refere ao Próximo-Oriente
(Konflikt in Nahosten). É como se o Próximo-Oriente não existisse mais!
(8)

O Próximo-Oriente, segundo Guénon, começa nos confins da Europa e


extende-se tanto pela parte da Ásia, mais próxima da Europa, quanto por
toda a África do Norte. As populações bérberes da África do Norte não se
confundem com os árabes, no entanto, na medida em que possuem uma
unidade, esta é não somente muçulmana mas também árabe em sua
essência. O grupo árabe, no mundo muçulmano, é primordial, pois é com
ele que o Islão nasceu e é a língua árabe, a língua tradicional de todos os
povos muçulmanos, qualquer que seja sua origem e raça. Ao lado grupo
árabe, há dois outros grupos principais, o grupo turco-mongólico e o grupo
persa. O primeiro compreende os turcos e os tártaros, que apesar de
racialmente diferirem dos árabes, destes dependem culturalmente. Todos
estes formam um conjunto que se opõe ao grupo persa, formando a
separação mais profunda que existe no mundo muçulmano, separação que
se exprime, ainda que não de todo extamente, dizendo que os primeiros são
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sunitas enquanto que os persas são xiitas. No entanto, grupos muçulmanos


encontram-se também na Índia e na China. A Pérsia, por seu passado, raça,
cultura e religião antiga, e mesmo geograficamente, deveria pertencer
propriamente ao Oriente-Médio, mas hoje é inteiramente muçulmana.

O Oriente-Médio

O Oriente-Médio é constituído pelo universo cultural hindú (9).


Propriamente deveria compreender duas civilizações: a hindú e a dos
antigos persas, mas a segunda como vimos passou para o Próximo-Oriente,
e os remanescentes parsis formam pequenos grupos na Índia e no Cáucaso.
Então, essa civilização indiana, compreende, em sua unidade, povos de
raças bem diversas, bem maiores que as diferenças encontradas em toda a
Europa. No entanto, esses povos são portadores de uma mesma cultura,
uma mesma língua culta: o sânscrito (10). Essa cultura hindú expandiu-se
mais para o leste do que para o oeste, em certas regiões como a Birmânia,
o Cambodja, a Tailândia e algumas ilhas da Oceânia. Sua maior influência
deu-se através do budismo, em grande parte da Ásia central e oriental.

O Extremo-Oriente

O Extremo-Oriente constitui-se pelo universo da cultura chinesa. Extende-


se ao Vietnã, Coréia. O Japão também está incluído, principalmente por ter
adotado o sistema de escrita chinesa. Contudo, possui também uma cultura
própria, com elementos bem característicos e diferenciados. Este mundo
do Extremo-Oriente possui uma unidade racial bem mais acentuada do que
os outros Orientes. O que unifica esta cultura é principalemnte a língua
escrita chinesa comum. Poderíamos salientar que o Tibet, povo de raça
chinesa, cuja língua pertence ao grupo sino-tibetano, voltou-se para a
cultura hindú, tendo empregado inclusive um alfabeto derivado do alfabeto
devanagari (11).

Sétima Etapa: Expansão


Esta divisão é fundamental. Temos claramente três Orientes distintos com
suas línguas, religiões, culturas e histórias diferentes (12). Essas quatro
grandes culturas, o Ocidente e os três Orientes, expandiram-se em várias
partes do mundo. É importante ressaltar que as áreas onde se expandiram
essas culturas, são consideradas como pertencentes à mesma, assim, por
exemplo, o norte da África que já foi de cultura Ocidental-Cristã hoje é de
cultura Oriental-Islâmica. A Australia, no extremo leste, é de cultura
ocidental.

Conclusão
Há certamente uma origem pré-histórica da bipartição Oriente-Ocidente,
difícil de ser penetrada, marcando, para muitos, uma diferença irredutível
(13). Houve vários encontros entre Ocidente e Oriente, desde a mítica
Guerra de Tróia até as guerras em tempos históricos, como as guerras
greco-pérsicas. O escritor latino Firmianus Lactantius
(ca.250d.C.-330d.C.), convertido ao Cristianismo, diante da iminente
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derrocada do Império Romano, disse que, conforme uma antiga tradição


imemorial, o Império Romano seria destruído voltando a ser asiático, e
essa catástrofe precederia o fim dos tempos (14). Parece incrível que
tivesse permanecido na consciência histórica dos romanos uma tradição
que remonta à origem da separação Oriente-Ocidente e que a volta da
Europa à unidade indiferenciada seria a volta ao caos.

Devemos considerar, para finalizar, que os três Orientes estão vivos e


presentes no mundo de hoje, e que depois da ocidentalização global,
através da revolução planetária da tecnologia, emergem os mesmos,
lutando pela supremacia no mesmo campo de batalha econômico-
tecnológico ocidental (15).

Para o mundo globalizado de hoje é preemente um conhecimento recíproco


profundo entre Oriente e Ocidente. O ponto de partida deve ser uma
demarcação clara do que sejam os três Orientes e o Ocidente em suas
unidades e oposições.

1- René Guénon - Introduction Génerále a l’étude des Doctrines hindoues.


Paris, Les Editions Véga, 1964. De interesse para este artigo são os
capítulos primeiro e segundo, pp. 53-65.

2- Usamos os termos civilização e cultura numa relação análoga à de corpo


e alma: substancialmente unidos sem confusão de substâncias. Há, no
entanto, grande variedade de acepções e usos quanto a esses dois termos.

3- op.cit. p.53.

4- cf. Cesare Cantù - História Universal. buenos Aires, Editorial Spena,


1950. Consultar o livro II, capítulos 1-5, sobre Ásia: vol. I, p.103-125.

5- O mito é mencionado no Timeo 24d-25d e depois tratado no Crítias


120e-121c, diálogo inacabado que termina com uma reunião dos deuses
por Zeus em que ele iria dizer o motivo do castigo dos atlantes.

6- Recomendo a sugestiva obra do autor russo Dimitri Merejkowski (1865-


1941): - Atlântida-Europa: O Mistério do Ocidente. Belgrado, 1930.
Dispomos da tradução italiana: L’Atlantide-Hoepli. Milão, 1937.

7- Gerhard Herm - A Civilização do Fenícios. Otto Pine editores, 1979, pp


229-230.

8- Parece que a Índia depois de Jawaharlal Nehru (1889-1964) retirou-se


do cenário internacional. Assim, se explica que a designação Oriente-
Médio confunde-se com a de Próximo-Oriente.

9- Indicamos a obra de de Pierre Gourou - Le terre et l’homme en


Extrême-Orient. Paris, Flamarion, 1972.

10- Isto não impede que todas as etnias possuam suas próprias línguas
dialetais, os vários prakrti.

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11- devanagari quer dizer ‘divina escrita de cidade’, é o nome do alfabeto


sânscrito.

12- Para ulteriores aprofundamentos recomendamos a obra de Pierre


Gourou - L’Asie. Paris, Hachette Université, 1971.

13- Como Rudyard Kipling (1865-1936), escritor e poeta inglês e que de


1882 a 1889 foi jornalista na Índia. Em seu famoso romance Kim (1901),
ambientado na Índia, aprofunda o modo de pensar e agir recíproco dos
inglese e hindús. É dele a supreendente frase: O Oriente é Oriente, o
Ocidente é Ocidente e não se encontrarão nunca.

14- cf. Johannes quasten - Patrologia. Slamanca, B.A.C., 1961, p.665-683.

15- Essa ocidentalização do mundo foi apenas material, não espiritual, um


Ocidente sem sua alma, o cristianismo.

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