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A construção social dos

regimes autoritários

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Denise Rollemberg e
Samantha Viz Quadrat [orgs.]

A construção social dos


regimes autoritários
Legitimidade, consenso e
consentimento no século XX
Brasil e América Latina

Rio de Janeiro
2011

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Copyright ©2010 by Denise Rollemberg e Samantha Viz Quadrat

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

C775 A construção social dos regimes autoritários: Brasil e América Latina,


v.2 volume II / Denise Rollemberg e Samantha Quadrat (organizadoras);
[tradução Maria Alzira Brum Lemos, Sílvia de Souza Costa].
– Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
3v.

Inclui bibliografia
ISBN 978-85-200-1015-0

1. Autoritarismo – América Latina. 2. Autoritarismo – Brasil. 3. América Latina


– Politica e governo. 4. Brasil – Política e governo. 5. Sociologia política.
I. Rollemberg, Denise, 1963-. II. Quadrat, Samantha.

CDD: 321.98
10-5055 CDU: 321.64(8)

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Impresso no Brasil
2011

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A habitual antítese “Estado” versus “sociedade” é talvez
inadequada quando se deseja estudar as relações entre
ambas as coisas. Caso se aceite a hipótese de os Estados,
mesmo arbitrários, serem parte de um todo mais amplo e
que o fato de permanecerem arbitrários produzirá resulta-
dos catastróficos, é preciso elaborar um conceito de Estado
que dê margem ao estabelecimento de conexões entre a área
política e as demais áreas da vida social.
MOSHE LEWIN, O fenômeno Gorbachev.
Uma interpretação histórica

Um vibrato do inacabado que anima repentinamente todo


um passado, um presente pouco a pouco aliviado de seu
autismo, uma inteligibilidade perseguida fora de alamedas
percorridas: é um pouco isto a história do presente.
JEAN-PIERRE RIOUX,
“Pode-se fazer uma história do presente?”

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Sumário

APRESENTAÇÃO 11

PARTE 1
Brasil 33

CAPÍTULO 1
Estado Novo: ambiguidades e heranças do autoritarismo no Brasil 35
Angela de Castro Gomes

CAPÍTULO 2
Celebrando a “Revolução”: as Marchas da Família com Deus pela
Liberdade e o Golpe de 1964 71
Aline Presot

CAPÍTULO 3
As trincheiras da memória. A Associação Brasileira de Imprensa e a
ditadura (1964-1974) 97
Denise Rollemberg

CAPÍTULO 4
“Vencer Satã só com orações”: políticas culturais e cultura de oposição
no Brasil dos anos 1970 145
Marcos Napolitano

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CAPÍTULO 5
Simonal, ditadura e memória: do cara que todo mundo queria ser
a bode expiatório 175
Gustavo Alonso

CAPÍTULO 6
As atividades político-partidárias e a produção de consentimento
durante o regime militar brasileiro 219
Alessandra Carvalho

CAPÍTULO 7
“Saudações arenistas”: a correspondência entre partidários da Aliança
Renovadora Nacional (Arena), 1966-1979 251
Lucia Grinberg

CAPÍTULO 8
Desbundar na TV: militantes da VPR e seus arrependimentos
públicos 279
Beatriz Kushnir

PARTE 2
América Latina 305

CAPÍTULO 1
O peronismo e a classe trabalhadora, 1943-1955 307
Daniel James

CAPÍTULO 2
A revolução e o socialismo em Cuba: ditadura revolucionária e
construção do consenso 363
Daniel Aarão Reis

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CAPÍTULO 3
“Data feliz” no Paraguai. Festejos de 3 de novembro, aniversário
de Alfredo Stroessner 393
Myrian González Vera

CAPÍTULO 4
Stroessner e “Eu”: a cumplicidade social com a
ditadura (1954-1989) 437
Miguel H. López

CAPÍTULO 5
O lado escuro da lua. O momento conservador em 1968 471
Ariel Rodríguez Kuri

CAPÍTULO 6
A oposição juvenil à Unidade Popular 521
Samantha Viz Quadrat

CAPÍTULO 7
“Uma parte do povo uruguaio feliz, contente, alegre”: os caminhos
culturais do consenso autoritário durante a ditadura 563
Aldo Marchesi

CAPÍTULO 8
Testemunhas e vizinhos: a ditadura na Grande Rosário (Argentina) 597
Gabriela Águila

CAPÍTULO 9
Entendendo as adesões cidadãs ao governo de Alberto Fujimori 615
Romeo Grompone

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Apresentação

Memória, história e autoritarismos

Tem sido frequente em sociedades que passaram por regimes autoritários


ou ditaduras, sucedidos por regimes democráticos, a construção de uma
memória segundo a qual o autoritarismo só foi possível em função de ins-
tituições e práticas coercitivas e manipulatórias. Por muito tempo, a ênfase
das abordagens das experiências esteve no poder das forças coercitivas; o
ângulo de observação do historiador, o Estado; o objeto a ser buscado e
valorizado, a resistência. O principal problema que as interpretações colo-
caram, provavelmente, é não ter compreendido os regimes autoritários e
as ditaduras como produto social. As explicações que partem das oposi-
ções vítima e algoz, opressor e oprimido, buscando respostas na repressão,
na manipulação, no desconhecimento (nós não sabíamos), embora sedutoras
— explicam tudo sem muito esforço e sem colocar o dedo na ferida —,
levaram a distorções consideráveis. Apegadas às necessidades do presente,
essas construções acabam por encobrir o passado, o presente, os valores e
as referências das sociedades que sobrevivem às rupturas, pontes de conti-
nuidade, a sinalizar possibilidades de futuro.
Nas últimas décadas, entretanto, houve uma renovação das abordagens
das relações entre sociedades e regimes autoritários e ditatoriais. Os estu-
dos dos anos 1970 e 1980 sobre os fascismos — em particular o nazismo e
a França sob a Ocupação e o Regime de Vichy — tiveram um destacado
papel nessa revisão.
Num movimento que esteve aquém e além dos muros da academia, so-
ciedades que viveram a experiência — ou herdaram a sua memória — par-
ticiparam, e ainda participam, do desconfortável processo de refletir sobre

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si mesmas em face do autoritarismo. Diante do espelho, não raro, descobrem-


se mesmo como parte de sua engrenagem, a gestá-lo, a alimentá-lo. Em todo
caso, as respostas variaram nesse percurso, que esteve longe de ser retilíneo,
estendendo-se ao longo das décadas. Não é o caso de desenvolvermos aqui o
debate. Apenas lembrar como as dicotomias estritas, frequentes a princípio,
como colaboracionismo ou resistência, deram lugar a um quadro mais com-
plexo e fino das muitas relações possíveis das sociedades com os regimes au-
toritários e ditatoriais. Nele aparecem as ambivalências,1 estranhas aos
maniqueísmos estranhos aos humanos, ambivalências que revelam, ao con-
trário, as duplicidades formatadas nos moldes dos homens e mulheres.
No Brasil, um tema central da história contemporânea também foi re-
visto, recentemente. Nos anos 1980, Angela de Castro Gomes rompeu com
uma análise consagrada na historiografia, segundo a qual o populismo inau-
gurado nos anos 1930 sustentava-se fundamentalmente a partir da repres-
são e da manipulação das massas pelo ditador.2 Angela Gomes compreendeu
o trabalhismo de Getúlio Vargas, ao contrário, a partir das relações de iden-
tidade, compromissos, interesses estabelecidos entre o regime e os traba-
lhadores. Desde então, inúmeras pesquisas temáticas tomaram a tese como
referencial teórico, levando à revisão do período, da cultura política da nossa
história contemporânea.
Pensando ainda o Brasil, mas o da última ditadura (1964-85), embora já
exista uma vasta bibliografia sobre o período, pouco se pesquisou e escre-
veu no sentido de compreender as relações da sociedade com o regime inau-
gurado em 31 de março. Os estudos se concentram no sistema e nos
instrumentos repressivos e nas resistências. Como ironizou Daniel Aarão
Reis, de acordo com a memória construída desde o fim da década de 1970,
todos se tornaram resistentes e democratas, restando a pergunta: como a
ditadura se manteve por 21 anos?3 Enigma indecifrável. A academia, já tendo
produzido tanto sobre a ditadura, mas tão pouco sob esse ângulo, contri-
bui, de certa forma, contraditoriamente, para esse desconhecimento.
Quanto às ditaduras latino-americanas da segunda metade do século XX,
em especial as da década de 1970, apenas recentemente, e ainda de manei-
ra tímida, os historiadores têm se interessado em atravessar as fronteiras
que os levam além das histórias das resistências e da violência do Estado.

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APRESENTAÇÃO

Com isso, arriscando-se em temas que colocarão a sociedade diante do es-


pelho, que indicarão pontes que uniram continentes onde se viam univer-
sos isolados.
Devemos observar que mesmo os estudos sobre a repressão política
poderiam ter rompido com o binômio anteriormente identificado. No en-
tanto, permaneceram em grande parte voltados para a denúncia (instru-
mento mais do que necessário no início da redemocratização), a descrição
das torturas e dos centros de detenção. Só há pouco tempo os pesquisado-
res buscaram entender a formação daqueles que atuavam na repressão: quem
eram, suas ideias e visões de mundo forjadas nos treinamentos nacionais e
internacionais. Ver o homem, e não o “monstro do torturador”, tem sido
uma preocupação desses trabalhos. O homem com a cara-de-qualquer-um,
saído da sociedade, nada estranho a ela, portanto. Não sendo suportável
acreditar que a barbárie foi aceitável, criou-se a figura do torturador não à
imagem e semelhança de homens e mulheres, mas de seres loucos, mons-
tros, anormais, como se o Mal não fizesse parte da humanidade. Em senti-
do inverso, mas seguindo a mesma lógica, a rejeição ao Hitler doce e sensível
do filme A queda.4 Enquanto estivermos procurando torturadores sem ros-
tos humanos, longe estaremos de compreender a barbárie como criação de
homens e mulheres, gestada em nosso meio.
Da mesma maneira, ainda pensando a historiografia latino-americana,
ampliou-se o debate sobre o quão clandestina poderia ter sido a violência
política, na medida em que os principais centros de repressão estavam no
perímetro urbano, ao lado de escolas, residências etc., e não nos chamados
porões. Discutir a indiferença e/ou o silêncio frente à violência nos perío-
dos ditatoriais é também compreender como essas sociedades se relacio-
nam hoje, em tempos democráticos, com os arbítrios praticados pelas forças
de segurança do Estado, mais notoriamente as policiais.
Os movimentos de resistência a regimes autoritários e ditaduras têm sido,
em geral, supervalorizados em experiências do século XX, seja quanto às suas
dimensões quantitativas seja quanto às qualitativas. Sem desconsiderá-los, in-
clusive como objetos de pesquisa, não raramente essa ênfase está ligada à luta
política, que acaba por encobrir o papel que tiveram num contexto marcado
pelo consenso e pelo consentimento em torno de um regime autoritário.

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Falar das resistências é também — para além das reconstruções a posteriori


anteriormente referidas — uma maneira de afirmar a sobrevivência do li-
vre-arbítrio, mesmo em situações as mais adversas. Passado o confronto —
da afirmação, da luta contra a negação, mesmo que as tiranias jamais te-
nham desaparecido — é preciso superá-lo, ir adiante. O trabalho militante
diferencia-se, pois, do trabalho do historiador.
Em determinados meios — mesmo acadêmicos — ainda sobrevive a cren-
ça segundo a qual afirmar a legitimidade de um regime autoritário ou dita-
torial, o apoio de significativas parcelas da sociedade, sobretudo quando se
trata de camadas populares, é o mesmo que defendê-los. Como se a luta
política contra o autoritarismo e a ditadura justificasse a deformação da
análise, da interpretação, da informação. Não compartilhamos dessas po-
sições. Afirmar que um tirano foi amado por seu povo não significa con-
cordar com a tirania, apoiar suas ideias e práticas. Tampouco o falseamento
das relações da sociedade com o autoritarismo deve ser um instrumento
válido e útil para combatê-lo. Ao contrário. Conhecê-las é o primeiro pas-
so para transformá-las. São os valores e as referências, as culturas políticas
que marcam as escolhas, sinalizando relações de identidade e consentimento,
criando consensos, ainda que com o autoritarismo. Aliás, a deturpação da
informação, do conhecimento, não seria também um ato autoritário?
Motivadas por essas tendências historiográficas e pretendendo contri-
buir nessa direção, propusemos, na linha de pesquisa memória e história,
do Núcleo de Estudos Contemporâneos da Universidade Federal Flumi-
nense, uma coletânea (embora não seja necessariamente de memória) ca-
paz de reunir textos sobre diversos regimes autoritários e ditatoriais do
século XX, em diferentes momentos e continentes — América Latina, Eu-
ropa, África e Ásia —, basicamente a partir de duas questões-eixo:

— como um regime autoritário/uma ditadura obteve apoio e legitimida-


de na sociedade;
— como os valores desse regime autoritário/ditatorial estavam presen-
tes na sociedade e, assim, tal regime foi antes resultado da própria constru-
ção social.

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APRESENTAÇÃO

São artigos que tratam de situações concretas, países de culturas, tradi-


ções e passados os mais variados, nos quais a construção do consenso e a
busca do consentimento estiveram centradas nas características que os de-
finiam: países ricos, pobres, capitalistas, socialistas, de passado colonial, de
passado colonialista, saídos de guerras, rumando em sua direção; países nos
quais a religião fundira-se com o Estado, nos quais o Estado laico era a re-
ligião; países em que os aspectos religiosos pouco importaram; países nos
quais supostamente havia uma democracia consolidada, nos quais a demo-
cracia talvez fosse apenas uma palavra; países onde se pode trabalhar à von-
tade com os conceitos de sociedade e Estado; países onde isso não é evidente,
ao contrário, outros conceitos expressam melhor uma formação histórica
muito diferente da ocidental. Assim, como veremos, os conceitos Estado,
democracia e sociedade ganham significados próprios em tempos e lugares
tão diversos.
Enfim, as diferenças são muitas, o que enriquece a reflexão, mas também
aponta limites. Enriquece porque mostra como em situações muito diferen-
tes entre si a possibilidade do consenso e do consentimento em torno de re-
gimes autoritários e ditatoriais foi uma realidade no século XX. Dificulta na
medida em que o estado da historiografia quanto à proposta sugerida é desi-
gual. Como já dissemos, enquanto para determinados regimes já existe uma
produção significativa nessa linha, para outros essa abordagem não é visível,
o que colaborou na seleção dos países aqui tratados. Mesmo que haja pesqui-
sadores desenvolvendo esse ponto de vista, a bibliografia está longe de ser
abundante. Dificuldades também surgem quando pensamos conceitos tais
como Estado, ditadura, democracia, sociedade em países com formações
próprias, distantes do suposto universalismo ocidental.
Quanto ao Brasil, nos concentramos no período da ditadura civil-mili-
tar, pois, sem dúvida, para o Estado Novo a questão das relações entre re-
gime autoritário e sociedade está bem mais desenvolvida. Conseguimos,
então, reunir autores da nossa última ditadura, que vêm desenvolvendo suas
pesquisas nessa direção, nada comum até recentemente.
No caso da América Latina, alguns autores já trabalhavam seus temas
segundo a abordagem que nos interessava; para outros, foi um desafio.
Separamos o Brasil, pois sobre ele concentramos um número maior de ar-
tigos em relação aos demais países latino-americanos.

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Enfim, o debate já presente na historiografia nos estimulava a pensá-lo


para além das fronteiras geográficas, culturais e temporais nas quais se ins-
crevia; aguçava a curiosidade de historiador de imaginá-lo onde permane-
cia ausente, mesmo em países e continentes povoados por ditaduras.
Aqui encontramos algumas das experiências de regimes autoritários no
século passado. O leitor lembrará de outras. Afinal, quantos volumes seriam
necessários para reunir todas? O Vietnã de Ho Chi Minh, o Egito de Nasser,
a Romênia de Ceausescu, a Turquia de Atatürk, a Iugoslávia de Tito, a
Uganda de Idi Amin...
Nem sempre houve entre nós — autores e organizadoras — uma posi-
ção comum quanto ao entendimento se determinado regime era — é —
autoritário e mesmo uma ditadura. Cuba de Fidel e Argentina de Perón são
casos, entre outros, polêmicos. Angola e Moçambique pós-libertação nacio-
nal. O México do Partido Revolucionário Institucional (PRI), em 1968, con-
siderado por uns autoritário, por outros, como o escritor Mario Vargas Llosa,
a ditadura perfeita. Assim, os recortes de tempo e lugar de cada artigo não
comprometem as posições do conjunto dos autores. Esclarecemos ainda que
consideramos a historiografia — sua existência e seu mérito — que não
concebe determinados governos ou regimes aqui trabalhados como autoritários
ou ditatoriais. Que a coletânea, então, possa enriquecer o debate, dialo-
gando com seus autores.
A intenção, ao reunir pesquisadores de universidades e centros de estu-
do que trabalham com essa abordagem e lançar o desafio a outros colegas,
foi refletir sobre as relações complexas entre autoritarismo e democracia
no século XX. A luta política contra o autoritarismo talvez tenha levado a
uma superestimação das aspirações democráticas dos povos, segundo a fór-
mula o mundo marcha para a democracia. Na verdade, a história do século
mostra como, não raro, o autoritarismo é que foi a reivindicação. Não
afirmamos que sempre ou na maior parte das vezes foi assim. Estamos di-
zendo que muitas vezes ocorreu dessa forma, em momentos diferentes do
século, em países com características muito distintas. Aí está o nosso objeto
de estudo. É preciso, pois, perceber a dimensão que a democracia — ou o
desejo de democracia — teve no século XX, não em função do quanto gos-
taríamos que tivesse sido, mas confrontada com as bases sociais das expe-
riências autoritárias.

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Muito menos a intenção foi fazer uma caça às bruxas. A governos, regi-
mes, sociedades e personagens. Como já aprendemos, nesse movimento, a
bruxa torna-se o próprio caçador e das cinzas da fogueira não saem respos-
tas às questões do historiador, nem mesmo algo de que possa se orgulhar.
O que se quer é compreender como, ao longo do século XX, o consen-
so, frequentemente, se formou em padrões não democráticos, sem que essa
ausência tenha sido percebida pela sociedade contemporânea como um
problema. Portanto, interessa verificar concretamente como os consensos
foram criados; como as acomodações de interesses fizeram-se em regimes
autoritários através de mecanismos traduzidos em ganhos materiais e/ou
simbólicos para as sociedades.
Se a resistência e a memória da resistência sempre identificaram as dita-
duras à tirania, veremos como, não raramente, estas foram reivindicadas
até mesmo como salvadoras da própria democracia, dos valores nacionais
e sociais, como o único caminho, o fio condutor da transformação radical
da sociedade. Em diferentes circunstâncias, a democracia é que foi rejeitada.
A intenção, então, é entender como os ditadores foram amados — quan-
do se trata de ditaduras pessoais — não porque temidos, mas, provavel-
mente, porque expressavam valores e interesses da sociedade que, em dado
momento, eram outros que não os democráticos. Em questão, portanto,
um senso comum e uma historiografia que veem o desejo de democracia
com mais frequência do que se pode constatar historicamente.
Que esta coletânea de textos sobre experiências autoritárias e ditato-
riais no século XX, legitimadas pelo apoio de significativas parcelas da so-
ciedade, sobretudo pelas camadas populares, sirva não para justificá-las, mas
para compreendê-las. Que contribua para a percepção do autoritarismo
como traço de união do passado e do presente, das presenças que sobrevi-
vem às rupturas, que acompanham as mudanças. Que se some a uma
historiografia que rompeu com as noções de opressão/oprimidos, coerção-
todo-poderosa, propaganda-manipuladora-sedutora, Estado versus socie-
dade. Que se distancie de uma história do Bem contra o Mal, a aliviar a
humanidade das suas supostas desumanidades, mas que a condena ao des-
conhecimento de si mesma.

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TEORIAS, DEFINIÇÕES, REFLEXÕES

Democracia e ditadura são dois termos oriundos da Antiguidade. A demo-


cracia foi criada em Atenas, Grécia, e apontava para uma maior participa-
ção dos cidadãos nas decisões políticas, ainda que excluísse mulheres,
estrangeiros e escravos. Já o termo ditadura apareceu pela primeira vez no
período da República romana. Com sentido positivo, era uma instituição
convocada diante de uma situação de emergência, prevista pela Constitui-
ção e “com poderes extraordinários, mas legítimos e limitados no tempo”.5
Ao longo da história, as concepções de democracia e ditadura foram (são)
permanentemente reconstruídas por diferentes sociedades. Atualmente, se
a democracia no mundo ocidental é consagrada pela máxima um governo
do povo, para o povo e pelo povo, a ditadura acabou tornando-se sinônimo
de tirania em oposição direta à democracia. No senso comum, um governo
não democrático é imediatamente rotulado de ditatorial.
No entanto, se o conceito de democracia é aparentemente de mais fácil
compreensão — um sistema de governo para ser democrático deve apre-
sentar eleições regulares, sem fraudes e realmente competitivas, liberdade
de imprensa e de organização, alternância no poder, independência dos três
poderes e o direito de qualquer cidadão votar e ser votado6 —, a questão
da definição de ditadura nos remete a um dilema. É possível classificar to-
dos os governos não identificados com esses padrões sob um mesmo con-
ceito? Nesta coletânea, por exemplo, temos governos considerados ditaduras
pessoais, militares, civis-militares, de esquerda, de direita. Como falamos
anteriormente, no caso de algumas experiências históricas aqui trabalhadas,
não há consenso sobre a sua definição. Nesse sentido, não são percebidas
como ditaduras, mas regimes autoritários. E outras, ainda mais singulares,
nem ditaduras nem regimes autoritários, mas exemplos de democracia.
A ausência de uma boa definição de ditadura é considerada um proble-
ma por vários autores de períodos e posições políticas e acadêmicas dife-
rentes que se dedicaram ao tema no século XX. É o caso do jurista alemão
Carl Schmitt, no livro A ditadura,7 e de Franz Neumann, no artigo “Notas
sobre a teoria da ditadura”.8

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APRESENTAÇÃO

O livro de Carl Schmitt foi publicado pela primeira vez em 1921, portan-
to antes da constituição dos governos fascistas do século XX.9 No prólogo
da primeira edição, Schmitt afirmava que, até então, o termo político ditadu-
ra permanecera confuso, o que explicava, ao mesmo tempo, a sua enorme
popularidade, bem como a aversão dos eruditos do direito a admiti-lo.10
Para Schmitt, de uma maneira geral, podemos chamar de ditadura

a toda excepción de una situación considerada como justa, por lo que esta
palabra [ditadura] designa ya una excepción de la democracia, ya una excepción
de los derechos de libertad garantizado por la Constitución, ya una excepción
de la separación de los poderes o bien (como el la filosofía de la historia del
siglo XIX) una excepción del desarrollo orgánico de las cosas.11

Já Franz Neumann afirma que

por mais estranho que pareça, não temos um estudo sistemático sobre dita-
dura. A informação histórica é abundante e há muitas análises sobre diver-
sos ditadores em muitos países. Mas não existe uma análise que procure
generalizar não somente com base na experiência política do século XX,
mas nos sistemas políticos do passado mais distante.12

Embora reconhecesse o livro de Carl Schmitt como a “exceção mais sig-


nificativa”, Neumann não considerou sua análise “aceitável”, reservando-
lhe apenas uma nota no fim do artigo.
Na busca por uma definição, Neumann estabelece ditadura como “o
governo de uma pessoa ou de um grupo de pessoas que se arrogam o poder
e o monopolizam, exercendo-o sem restrições”.13
Existiriam, então, três tipos de ditadura, a saber: a simples, na qual o
governo — quer seja militar, monárquico etc. — detém o controle dos ins-
trumentos clássicos de domínio: o exército, a polícia, a burocracia e o ju-
diciário; a cesarista, cujas características são a necessidade do apoio popular
e a personalização do governo em torno de um líder; e a totalitária, que
apresenta características cesaristas, por meio da forte presença de um líder
e das massas populares. No entanto, esses pontos podem não ser fortes o
suficiente para a garantia do poder e acabam por obrigar o Estado a lançar

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mão de outras estratégias, tais como o controle da educação, dos meios de


comunicação e das instituições econômicas.
Além de criar tal tipologia, Neumann defende a tese de que, se analisar-
mos mais atentamente alguns casos ao longo da história, seríamos forçados
a concluir que a visão democracia liberal (bem) versus ditadura (mal) não
se sustentaria: “Uma moralização sobre os sistemas políticos torna difícil a
compreensão de suas funções.”14 Nesse sentido, as ditaduras podem ser uma
implementação da democracia, uma preparação para a democracia, na qual
teríamos uma ditadura educativa; por outro lado, podem ser a negação da
democracia e, portanto, um sistema totalmente regressivo.15
Contemporâneo dos fascismos, assim como Schmitt, Neumann levan-
ta uma questão essencial relacionada particularmente à temática desta co-
letânea: a busca de apoio na sociedade. A ditadura simples ocorreria em
países onde

as massas não são politizadas, onde a política está nas mãos de pequenos
grupos que competem por favores e que esperam ganhar prestígio e fortuna
com uma associação com o ditador. A massa paga apenas os impostos e tal-
vez seja obrigada a servir no exército, mas não toma mais parte alguma da
vida política.16

Assim, “dispensaria” a busca de apoio na sociedade. Já na ditadura do


tipo cesarista ocorreria a necessidade do apoio popular, um novo elemento
que a diferenciaria do primeiro modelo. Por fim, ao analisar a ditadura
totalitária, Neumann concluiu que, em função da maioria dos casos mo-
dernos aí classificados terem surgido na democracia e contra ela, era-lhes
necessário “cultivar os rituais democráticos, embora despidos de toda a sua
verdadeira substância”.17 O controle da sociedade tornava-se um de seus
elementos característicos a ser exercido desde a liderança, sincronizando
todas as organizações sociais, criando elites graduadas, atomizando e iso-
lando o indivíduo, transformando a cultura em propaganda e usando o ter-
ror como ameaça permanente ao indivíduo.18
Neumann viu no medo um elemento fundamental dos processos psico-
lógicos da ditadura, seja como aviso, proteção ou destruição.19 Do medo,

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APRESENTAÇÃO

que ativou a ansiedade, resultaria a ligação entre as massas e o líder, espe-


cialmente no tipo totalitário.
Outros dois autores a serem destacados no debate sobre a definição de
ditadura são Carl Friedrich20 e Giovane Sartori, ainda que este se preocupe
antes em definir o que não é democracia.21 Em ambos, o termo autocracia
seria um conceito melhor do que ditadura para designar os regimes não
democráticos. Sartori reconhece que “a vantagem do conceito de autocra-
cia sobre aqueles examinados até agora [como totalitarismo e ditadura] é
que ele aponta diretamente para um ‘princípio’ constitutivo do poder com
respeito à base de legitimidade do poder”.22 No entanto, apesar da defesa
desses e de outros autores do uso de autocracia em oposição à democracia,
o termo não encontrou ressonância.
Friedrich também avaliou a ditadura totalitária e sua relação com a socie-
dade. Como outros autores,23 chegou à conclusão de que ela só foi possível
graças à passividade das massas, manipuladas e enganadas.
Recorrendo ao verbete “Ditadura” do Dicionário de política organiza-
do por Bobbio, Matteucci e Pasquino,24 nos deparamos mais uma vez com
a constatação de que “até hoje não se encontrou um termo mais adequado
do que ditadura para designar, em seu conjunto, os regimes não democrá-
ticos modernos”.25
Para o autor do verbete, Mario Stoppino, as principais características das
ditaduras modernas são: “A concentração e o caráter ilimitado do poder; as
condições políticas ambientais, constituídas pela entrada de largos estratos
da população na política e pelo princípio da soberania popular; a precarie-
dade das regras de sucessão no poder.”26 Em especial, nos interessa o tercei-
ro aspecto porque diz respeito à legitimidade das ditaduras. Nesse sentido,
Stoppino destaca que, apesar de as ditaduras alcançarem a legitimidade por
diferentes caminhos, como plebiscitos, festas etc., não será uma legitimidade
democrática, já que as ditaduras “não podem eliminar o fato crucial de que a
autoridade política é transmitida do alto para baixo, e não vice-versa”.27
Dialogando com Neumann e outros autores, Stoppino demarca ainda o fim,
o destino essencial das ditaduras, visto que elas podem ser revolucionárias, aque-
las que “visam a abater ou minar, de forma radical, a velha ordem político-
social e introduzir uma ordem nova ou renovada”;28 conservadoras, “que têm

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

como finalidade defender o status quo dos perigos de mudança”29 e, algumas


vezes, reacionárias, “que dirigem seus objetivos para dar novamente vida a va-
lores e formações sociais do passado, que se encontram em via de extinção”.30
Até aqui foi possível observar como autores clássicos que formularam
teorias acerca das ditaduras, mesmo discordando entre si, reconhecem as
dificuldades de tratar o conceito. Neumann e Friedrich dão atenção especial
aos casos totalitários. Neumann os explicaria pelo medo; Friedrich, pela
passividade das massas.
Compreender o que é uma ditadura, como a sociedade se comporta frente
à sua instauração e permanência, legitimando-a ou não — ou como ela
participa da sua instauração e permanência —, seu comportamento, sua
opinião, as relações que estabelece com o Estado, representava um desafio
para os pesquisadores das ciências humanas.
Com a Segunda Guerra Mundial e no pós-1945, as experiências ditas
totalitárias tornaram-se a referência incontornável no debate.
A constante revisão do conceito de ditadura nos permite observar o
quanto foi — e permanece sendo — difícil definir tipologias para as expe-
riências autoritárias do século XX. O diálogo com o conceito de totalitarismo
ampliou perspectivas de análises, num movimento revelador, igualmente,
das dificuldades e dos limites do próprio conceito. Embora o seu uso nas
ciências humanas tenha sofrido críticas desde o início dos anos 1960,31 sua
grande repercussão foi inegável no pós-guerra, marcando uma tendência
historiográfica produzida na ambiência da guerra fria. As imagens do ini-
migo da véspera se sobrepunham às do inimigo do dia. Mesmo consideran-
do que “a emergência e o uso de todo conceito se inscrevem e flutuam na
História”, Denis Peschanski vê aí, entretanto, um “conceito-símbolo”, “emi-
nentemente sujeito aos imprevistos da conjuntura”.32
Antes do fim do século, e sem que houvesse a reedição da intervenção
externa para fraturar o monolito, ruía com o Muro, o leste europeu e a
URSS um dos pilares do conceito: a onipotência do Estado capaz de engessar
a sociedade, criando uma estrutura inalterável. E, nesse sentido, o estudo
da sociedade e das suas relações com o Estado não se justificou. Em linhas
muito gerais, essa foi a crítica de Moshe Lewin ao uso do totalitarismo para

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APRESENTAÇÃO

entender a URSS, afirmando, em meio à Era Gorbachev, a história social


como viés para a compreensão do país. Em 1987, afirmava:

A habitual antítese Estado versus sociedade é talvez inadequada quando se


deseja estudar as relações entre ambas as coisas. Caso se aceite a hipótese de
os Estados, mesmo arbitrários, serem parte de um todo mais amplo e que o
fato de permanecerem arbitrários produzirá resultados catastróficos, é pre-
ciso elaborar um conceito de Estado que dê margem ao estabelecimento de
conexões entre a área política e as demais áreas da vida social.33

Quanto ao estudo da Alemanha nazista — e aqui só para citar os dois


casos consagrados —, Pierre Ayçoberry avaliou, no fim da década de 1970,
que o uso do conceito deixara um saldo de dez anos perdidos para a com-
preensão da questão nazista.34
Entretanto, ele não se restringiu às disputas ideológicas da guerra fria.
Ganhou autonomia em relação a interesses e simplificações inerentes a de-
terminadas interpretações. Em muitos autores, diz respeito, sobretudo, à
ambição do Estado de assumir todas as esferas da vida da nação, mas não,
absolutamente, à sua realização. O totalitarismo representaria, então, “um
limite jamais atingido”, como defende Claude Lefort.35 Esses autores conti-
nuaram a trabalhar com o conceito para demarcar a especificidade de de-
terminadas ditaduras do século XX: o caráter ideológico. A pretensão de
controlar o passado, o presente, o futuro, fazendo da História, mitologia
(Max Horkheimer); a pretensão de criar o homem novo, realizar a utopia
do mundo perfeito aqui e agora são características ausentes, por exemplo,
nas ditaduras militares (ou civis-militares) da América Latina dos anos 1950,
1960 e 1970. Isso explicaria — e justificaria — a permanência do conceito
de totalitarismo nos casos das ditaduras fascistas e socialistas.
Não é nossa pretensão aqui, evidentemente, estender essa discussão. Es-
pecialistas já o fizeram.36 Apenas sublinhar como a reflexão sobre o conceito
de totalitarismo acabou por motivar “numerosos trabalhos históricos, com
efeito, estudando as configurações sucessivas e respectivas dessa geometria
política fundamental que associa Estado, sociedade, partido(s), elites”.37

23

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

A derrota dos países do Eixo e o fim da Segunda Guerra Mundial não


significaram o desaparecimento de todas as ditaduras na Europa. Salazar,
em Portugal, e Franco, na Espanha, seguiram com seus governos. Ainda
assim, a democracia estava na ordem do dia, em oposição ao totalitarismo
soviético. Seria a melhor forma de combatê-lo.
Para a América Latina, por exemplo, o período do fim do conflito mun-
dial ao início da guerra fria foi marcado pela queda de várias ditaduras ou,
como no caso paraguaio, por medidas de abertura política.38 No entanto, a
guerra fria viria a transformar esse cenário, e o prestígio internacional da
URSS, devido ao destacado papel desempenhado na vitória contra o nazis-
mo, foi considerável nessa mudança.
Ainda pensando a América Latina, a democracia, que sempre enfren-
tou — enfrenta — dificuldades na região, paulatinamente deixou de ser
vista por setores importantes da sociedade como a melhor maneira de
combater o comunismo. Um governo forte, capaz de conter o avanço do
perigo vermelho, sobretudo após a vitória da Revolução Cubana (1959),
tornou-se a melhor ou a única saída possível. Os Estados Unidos, porta-
vozes dos valores democráticos como meio de combate ao comunismo,
aparecem no cenário como um dos principais incentivadores dos golpes
e das ditaduras que se sucediam. Durante muito tempo, e ainda hoje —
na historiografia, no meio político, no senso comum —, aos Estados
Unidos foi atribuída a conta pelas ditaduras, especialmente nos casos
brasileiro e chileno. Não negamos a influência estadunidense, seja por
meio de suporte militar e/ou financeiro. Contudo, não lhe podemos atri-
buir toda a responsabilidade sobre o que aconteceu. A América Latina
tem sido compreendida como sem opção, explorada, à mercê dos inte-
resses internacionais, ou seja, uma vítima através dos tempos. À região é
atribuída uma história linear, sem cortes, desde a chegada dos europeus
até o imperialismo americano. Suas sociedades seriam sempre manipu-
ladas por governantes pouco preocupados com seus países. Não com-
partilhamos de maneira alguma dessas visões. Como veremos nos artigos
aqui reunidos, o autoritarismo foi desejado e alguns ditadores foram (são)
queridos e percebidos como salvadores da pátria por pessoas e/ou seg-
mentos da sociedade de todas as idades e origens sociais. O autoritarismo

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APRESENTAÇÃO

constituía elemento da cultura política de muitas sociedades. Antes da


“influência estadunidense”, as ditaduras latino-americanas dos anos 1960
e 1970 tinham, desde as articulações do golpe e durante o regime, como
discurso principal “salvar os valores ocidentais e cristãos do perigo do
comunismo”. Buscaram e receberam o apoio de setores da sociedade para
o golpe. Sucessivamente, Brasil (1964), Uruguai (1973), Chile (1973) e
Argentina (1976) passaram a ter governos ditatoriais. Os governos legí-
timos e legais foram depostos e acusados de incapacidade e irresponsa-
bilidade. 39 Os novos governos, representados por militares, mas não
exclusivamente formados por eles, seriam a representação da salvação,
enquanto o que havia antes nos países seria o caos. A esquerda queria
entregar o país a Moscou. Até mesmo Stroessner, no poder desde 1954,
adotou o discurso do anticomunismo e da salvação da nação.
O cenário mundial, tanto na América Latina quanto na Europa, passou
a contar com “novas” ditaduras que não se adequavam mais às tipologias
existentes. Não se tratava de governos totalitários no sentido inicial da con-
cepção e demandavam novas análises para os novos fenômenos políticos.
Em 1964, Juan J. Linz escreveu o artigo “An Authoritarian Regime:
Spain”,40 no qual apontava a existência de uma terceira dimensão, locali-
zada entre os dois polos democrático e totalitário, que seria o regime auto-
ritário. Era um dos primeiros autores a pensar para além do binômio
consagrado até então. Os regimes autoritários seriam:

Sistemas políticos com um pluralismo limitado e não responsável; sem uma


ideologia complexa que os norteasse, mas com mentalidades bem caracte-
rísticas; sem mobilização política, quer extensiva ou intensiva, exceto em
alguns momentos do seu desenvolvimento, nos quais um líder ou, às vezes,
um pequeno grupo exerce o poder dentro de limites formalmente mal defi-
nidos, que, no entanto, são bastante previsíveis.41

No projeto Transições do regime autoritário: perspectivas da democracia


na América Latina e no sul da Europa, desenvolvido entre 1979 e 1981,
sob a coordenação de Guillermo O’Donnell e Philippe C. Schmitter, no
âmbito do Programa Latino-Americano do Woodrow Wilson International

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Center for Scholars (Washington, EUA), os dois coordenadores chamaram


a atenção para o que consideravam as diferenças entre os dirigentes autori-
tários dos períodos entreguerras e os dirigentes autoritários do pós-1945.
Segundo os autores, os primeiros obtiveram

condições de aspirar e legitimar seu governo através de alguma combinação


do imaginário mobilizador do Fascismo e de referências a formas mais tra-
dicionais de corporativismo. Esses regimes podiam promover a si mesmos
(e efetivamente o fizeram) como solução a longo prazo para os problemas
da ordem política e como a melhor forma possível de governo para suas
respectivas sociedades.42

Já os dirigentes autoritários do pós-1945 “não puderam contar com essa


possibilidade [...] trata-se de regimes que recorrem a práticas ditatoriais e
repressivas no presente, ao mesmo tempo que prometem liberdade e demo-
cracia no futuro”.43
Em 1996, mais uma vez, o mesmo Juan J. Linz, ao lado de Alfred Stepan,
defendeu no livro A transição e consolidação da democracia uma tipologia
revisada, pois na visão dos dois autores

as tipologias ascendem e caem de acordo com sua utilidade analítica para os


pesquisadores. A nosso ver, o regime de classificação tripartida atualmente
existente não apenas se tornou menos útil do que era antes para os teóricos e
os praticantes da democracia como também transformou-se num obstáculo.44

No quadro proposto por Linz e Stepan, teríamos os regimes democráti-


cos, autoritários, totalitários, pós-totalitários e sultanísticos.45
A explicação da alteração pode residir, em parte, no fato de a pesquisa
inicial dos autores, da mesma maneira que a de O’Donnell e Schmitter, dizer
respeito ao sul da Europa e à América Latina. As novas experiências do mun-
do oriental, africano e dos países do Leste da Europa e mesmo da América
Latina (pensando em Fujimori) não estavam incluídas no conceito original.
Enfim, a própria diversidade das experiências do século XX, certamen-
te, obrigou o pesquisador a avançar em relação às tipologias conhecidas,46

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APRESENTAÇÃO

até porque esses regimes não ocorreram num mesmo período ou espaço,
superando-as em muitos sentidos, voltando a elas, enriquecendo-as. Após
os fascismos, outras e diferentes experiências autoritárias surgiram e conti-
nuam a surgir. Inclusive antigos governos, ainda no poder, são reconstruídos
para dar conta das demandas do mundo e da própria sociedade que se re-
novam, se atualizam.
Na discussão sobre as novas tipologias e as análises das ditaduras e dos
regimes autoritários, da mesma maneira que ocorre com a América Latina,
o continente africano tem sido visto como vítima da História, da ambição
dos homens através dos tempos. O desconhecimento da África, não rara-
mente, leva o Ocidente a uma percepção simplificada e monolítica, marcada
por estereótipos: um só povo, devastado pelo colonialismo e pelo imperia-
lismo, minado na escravidão47 e na exploração, com uma enorme dívida a
resgatar. As ditaduras que se seguiram, especialmente após os processos de
independência, têm sido explicadas e/ou justificadas pelas guerras civis,
confrontos entre etnias, pelo baixo desenvolvimento da educação e pelo
apoio das nações mais ricas. Os africanos, manipulados por seus líderes —
em alguns casos heróis do confronto de libertação nacional — ou pela au-
sência de uma sociedade civil, após o fim do antigo sistema, teriam sido
facilmente dominados por ditadores.
A Ásia, outro continente povoado por fascínios e medos, nascidos do
desconhecimento do Ocidente, da incompreensão de suas culturas, de um
tempo — um passado, um futuro — do qual há muito nos distanciamos,
traz para o pesquisador de regimes autoritários uma série de elementos. Nos
países asiáticos — igualmente múltiplos, plenos de diferenças evidentes e
também nuances — esses elementos, como veremos, coesionam grupos
e sociedades em torno de ditaduras. Nem sempre o olhar ocidental é capaz
de percebê-los.
Os trabalhos aqui reunidos contribuem para esse debate. Os regimes
autoritários e as ditaduras não são mais compreendidos a partir da mani-
pulação, da infantilização e da vitimização das massas, incapazes de fazer
escolhas; nem exclusivamente em função da repressão, do medo, da ausên-
cia de ação ou pressão popular; tampouco como regimes fechados. Ao con-
trário, buscaram entender como se constroem consensos e consentimentos,

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

como se estabelecem relações entre Estado e sociedade. Nessa perspectiva,


acredita-se que, uma vez gestadas no interior das sociedades, as ditaduras
não lhes são estranhas. Alguns autores, por exemplo, trabalham com o con-
ceito de cultura política como uma “chave”, como compreendeu Serge
Berstein, introduzindo “diversidade, dimensão social, ritos, símbolos, ali
onde reina, supõe-se, o partido, a instituição, a imobilidade”.48
Não temos a intenção — nem a pretensão — de escrever uma nova de-
finição de ditadura e regimes autoritários. Entretanto, ao propor as duas
questões identificadas no início da apresentação, refletimos também sobre
esses conceitos. Os artigos aqui apresentados são, em seu conjunto, contri-
buições nesse sentido. As abordagens elaboram as definições. As próprias
fontes com as quais os autores trabalham — e como trabalham — afasta-
vam hipóteses e teses consagradas. Assim, essa historiografia tem avançado
na percepção do que são as ditaduras e os autoritarismos.
Não negamos as resistências, nem muito menos estamos dizendo que a
história está fadada às ditaduras. Estamos simplesmente lidando com uma
constatação: um século marcado por muitas ditaduras, em diferentes paí-
ses e continentes, com culturas, tradições e passados diversos, que tiveram
apoio da sociedade. Esse é nosso recorte. Descartadas as respostas que su-
bestimam os povos, buscamos nos reunir a essa historiografia que já tem
muito a dizer sobre o século XX e o legado que dele recebemos.

***

Ao chegarmos ao fim de uma etapa de trabalho, é uma satisfação constatar


o quanto temos a agradecer.
O fato de estarmos na UFF, no Departamento de História, no Núcleo
de Estudos Contemporâneos (NEC), no Programa de Pós-Graduação de
História, foi essencial.
A participação em convênios internacionais — Capes-Cofecub/França e
Capes-Secyt/Argentina — igualmente contribuiu para a ampliação dos de-
bates e das perspectivas.
Somos gratas a Thaddeus Blanchette, Angelo Segrillo, Fábio Merçon,
Daniela de Carvalho Sophia, Alain François, Marco Mazzillo, Roberto

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APRESENTAÇÃO

Mauro Facce, Lívia Magalhães e Renata Chiossi, que nos socorreram em


várias traduções. E ainda a Giordano Bruno Reis dos Santos e a Caio Paz,
que verificaram as referências, notas e bibliografias.
Gostaríamos também de agradecer aos amigos e colegas o diálogo que
muito contribuiu para a realização do trabalho. A Daniel Aarão Reis, cujas
ideias inspiram a coletânea, agradecemos o incentivo e o apoio. A Norberto
Ferreras e Marcelo Bittencourt, colegas do NEC. A Elizabeth Jelin, Mariana
Candido, Alexandre Vieira Ribeiro, Federico Guillermo Lorenz, Jorge
Ferreira, Marco A. Pamplona, as discussões, as sugestões e as críticas sem-
pre muito pertinentes e bem-vindas. A Didier Musiedlak, que nos apresen-
tou a Pierre Laborie. Aos autores que contribuíram com seus textos, com
suas ideias, muitos, inclusive, nos indicando nomes e colegas. A eles, a to-
dos, nosso reconhecimento.
Denise Rollemberg e Samantha Viz Quadrat
Núcleo de Estudos Contemporâneos
Universidade Federal Fluminense

Notas

1. LABORIE, Pierre. L’opinion française sous Vichy. Les Français et la crise d’identité
nationale. 1936-1944. Paris, Seuil, 2001 (ed. orig. 1990) e Les Français des années
troubles. De la guerre d’Espagne à la Liberation, Paris, Desclée de Brouwer, 2003.
2. GOMES, Angela de Castro. A invenção do trabalhismo. 3ª ed. Rio de Janeiro:
FGV, 2005 (1ª ed., São Paulo, Vértice, 1988); Tese de Doutorado defendida em
ciência política no Iuperj, Rio de Janeiro, 1987.
3. AARÃO REIS, Daniel. Ditadura militar, esquerdas e sociedade. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 2000.
4. A queda, as últimas horas de Hitler (Der Untergang), de Oliver Hirschbiegel
(Alemanha/Áustria/Itália, 2004).
5. BOBBIO, Norberto. “Democracia/Ditadura”. Enciclopédia Einaudi: Estado —
Guerra. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1989, p. 209.
6. Reconhecemos aqui o privilégio das questões políticas, o que não quer dizer de
maneira alguma que não compartilhamos da ideia de que a democracia deve vir
acompanhada de melhorias nas condições sociais e econômicas para toda a sociedade.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

7. SCHMITT, C. La dictadura. Madri: Alianza Editorial, 1999. Crítico da República


de Weimar, Schmitt é centro de polêmica sobre o seu envolvimento com o III
Reich, tendo mesmo se filiado ao Partido Nazista. Com a derrota alemã, ficou
preso por dois anos e foi interrogado no Tribunal de Nuremberg. No entanto,
suas ideias, como o próprio debate sobre ditadura e a política como o confronto
de amigos e inimigos, continuaram a ser discutidas, inclusive por setores das
esquerdas, e estudadas até os dias atuais, constituindo-se numa importante
referência para a ciência política. Para os objetivos do breve debate que se segue,
nos limitamos a autores do século XX.
8. NEUMANN, Franz. Estado democrático e Estado autoritário. Rio de Janeiro: Zahar
Editores, 1969. Neumann, jurista e cientista político, foi preso em 1933 pelos
nazistas na Alemanha. Integrante da chamada Escola de Frankfurt, foi também um
dos grandes críticos do nazismo. Exilou-se nos Estados Unidos. O autor não chegou
a concluir a versão final do texto porque faleceu em 1954.
9. O autor continuou a publicar trabalhos, em que refletiu sobre as experiências
autoritárias do século XX, até a sua morte em 1985.
10. SCHMITT, C., op. cit., p. 19.
11. Idem, pp. 194-195.
12. NEUMANN, Franz, op. cit., p. 257.
13. Idem, p. 259.
14. Idem, p. 273.
15. Idem.
16. Idem, p. 260.
17. Idem, p. 269.
18. Idem, pp. 269-270.
19. Idem, p. 278.
20. FRIEDRICH, Carl. “Dictadura”. Política 2. Madri: Rioduero, 1975, pp. 102-118.
21. SARTORI, G. A teoria da democracia revisitada — 1: O debate contemporâneo.
São Paulo: Ática, 1994.
22. Idem, p. 277.
23. É o caso de Hannah Arendt. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das
Letras, 1989.
24. STOPPONO, Mario. “Ditadura”. BOBBIO, Noberto et al. Dicionário de política.
Brasília: UnB, 1997, pp. 368-378.
25. Idem, p. 373.
26. Idem.
27. Idem, p. 374.
28. Idem, p. 275.

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APRESENTAÇÃO

29. Idem, ibidem.


30. Idem, ibidem.
31. Essa crítica ao conceito se deu tanto em termos teóricos como submetendo-o a
estudos históricos, cf. PESCHANSKI, Denis. “Le concept du totalitarisme”, in:
PESCHANSKI, Denis, POLLAK, Michaele; ROUSSO, Henry (orgs.). Histoire
Politique et Sciences Sociales. Questions au XXè siècle. Paris/Bruxelas: IHTP/
Editions Complexes, 1991.
32. Idem, pp. 191 e 195.
33. LEWIN, Moshe. O fenômeno Gorbachev. Uma interpretação histórica. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1988, p. 24. Também nessa perspectiva, Denis Peschanski
cita, além de Moshe Lewin (1985), Karel Bartosek, que em edição especial da
revista Communiste, nº 8, 1985, entre outros historiadores da URSS e da Europa
comunista, resgatava a história social da URSS, evidenciando a existência de uma
sociedade que se acreditava destruída. PESCHANSKI, Denis, op. cit., pp. 204-205.
34. AYÇOBERRY, Pierre. La question nazie. Les interprétations du national-socialisme.
1922-1975. Paris: Seuil, 1979, p. 13. Cf. também SILVA, Francisco Carlos Teixeira
da. “Os fascismos”. AARÃO REIS, Daniel; FERREIRA, Jorge; ZENHA, Celeste
(orgs.). O século XX. O tempo das crises. Revoluções, fascismos e guerras. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, vol. 2.
35. Cf. PESCHANSKI, Denis, op. cit., p. 193.
36. Cf. HERMET, Guy; HASSNER, Pierre e RUPNIK, Jacques (orgs.). Totalitarismes.
Paris: Economica, 1999 (1ª ed. 1984). Cf. TRAVERSO, Enzo. Le totalitarisme.
Le XXè siècle em débat. Paris: Éditions du Seuil, 2001 (Coll. Essais).
37. PESCHANSKI, Denis, op. cit., p. 204.
38. ROXBOROUGH, I. e BETHELL, L. A América Latina entre a Segunda Guerra
Mundial e a guerra fria. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
39. Devemos observar a especificidade uruguaia no Cone Sul da América Latina, em
função de o presidente Juan María Bordaberry, eleito em 1971, ter dado início à
ditadura com apoio das Forças Armadas em 1973.
40. LINZ, Juan e STEPAN, Alfred. A transição e consolidação da democracia. São
Paulo: Paz e Terra, 1999.
41. Idem, p. 57.
42. O’DONNELL, Guillermo e SCHMITTER, Philippe C. Transições do regime
autoritário. Primeiras conclusões. São Paulo: Vértice, 1988, p. 35.
43. Idem, p. 35.
44. LINZ e STEPAN, op. cit., p. 58.
45. Idem, p. 59.
46. Agradecemos a Alessandra Carvalho, que nos chamou a atenção para esse aspecto.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

47. Cf. a historiografia que tem se destacado na revisão da escravidão na época moderna,
embora ainda persista o debate sobre o peso do tráfico internacional nas
modificações das estruturas sociais na África: ELTIS, David. Economic growth and
ending of the transatlantic slave trade. Nova York: Oxford Academic Press, 1987;
LOVEJOY, Paul E. A escravidão na África: uma história de suas transformações. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002; MILLER, Joseph. Way of death: merchant
capitalism and de Angolan slave trade, 1730-1830. Madison: Wisconsin University
Press, 1987; e THORNTON, John. A África e os africanos na formação do mundo
atlântico, 1400-1800. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003.
48. BERSTEIN, Serge. “L’historien et la culture politique”. Vingtième siècle. Revue
d’histoire, nº 35, 1992, p. 67.

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PARTE 1 Brasil

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Y920-01(Civilização).p65 34 28/4/2011, 18:28
CAPÍTULO 1 Estado Novo: ambiguidades e heranças
do autoritarismo no Brasil
Angela de Castro Gomes*

*Pesquisadora e professora do Centro de Pesquisa e Documentação Contemporânea/Funda-


ção Getulio Vargas (CPDoc/FGV); pesquisadora do CNPq; professora titular de História do
Brasil da UFF. Autora de A invenção do Trabalhismo, 3ª ed., Rio de Janeiro: FGV, 2005, e
Cidadania e direitos do trabalho. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

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O ESTADO NOVO: POLÍTICA, HISTÓRIA E OS USOS DO PASSADO

Poucos períodos na História do Brasil produziram desdobramentos tão


duradouros, importantes e ambivalentes como o dos oito anos que cobrem
o período conhecido como Estado Novo (1937-1945). Ao menos, esse é o
diagnóstico que vem sendo consolidado pelos numerosos e recentes estu-
dos que se dedicam às múltiplas faces e questões que dominam esse curto
tempo do primeiro governo Vargas ou, simplesmente, a Era Vargas.* Tra-
balhar com esses anos é, portanto, partir do reconhecimento de sua impor-
tância política, socioeconômica e cultural. É também estar disposto a
abandonar explicações simplistas e maniqueístas, uma vez que o desafio é
compreender um conjunto diversificado de políticas, muitas vezes contra-
ditórias e ambíguas, que convivem e disputam espaço em um contexto na-
cional e internacional extremamente tenso, até porque assinalado pela
eclosão da Segunda Guerra Mundial.
Neste texto e assumindo a estratégia de uma reflexão historiográfica,
não se tem a pretensão de cobrir os múltiplos e complexos temas e debates
que recobriram o período. Isso seria certamente impossível e traria resul-
tados muito superficiais. O que se deseja é tão somente discutir algumas
questões que, até hoje, vêm marcando a produção acadêmica sobre o Esta-
do Novo, sendo sua relevância observada no fato de serem, com alguma
frequência, incorporadas a uma compartilhada cultura política, tributária
de ideias e experiências autoritárias no Brasil.

*Este texto foi escrito no primeiro semestre de 2007, portanto, antes dos 70 anos do Estado
Novo, mas nesse contexto.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

O Estado Novo — uma designação de políticos e intelectuais nele enga-


jados, com nítida intenção de acentuar sua força transformadora — tem
início com o golpe de 10 de novembro de 1937 e se encerra em 29 de ou-
tubro de 1945, com a deposição de Getúlio Vargas. O golpe instala uma
ditadura com chefe civil, amplamente sustentada pelas forças militares, em
especial o Exército. Nascido de articulações de civis e militares, planejado
cuidadosamente e desfechado de forma “tranquila”, os passos do evento
de novembro de 1937 já foram destrinchados e caracterizados como os de
um “golpe silencioso”.1 Um “silêncio” — de protestos e reações de qual-
quer tipo e origem — que evidencia não apenas o poder político dos que
então ascendiam à direção do Estado, mas também a existência de uma
proposta de construção de imagem: para o presente que se inaugurava e,
em decorrência, para seu “passado e futuro”.
Exatamente por atentarmos para a existência desse ambicioso projeto
político-cultural, mesmo reconhecendo que ele guarda tensões, é que que-
remos começar este texto assinalando uma primeira questão, ainda polêmica
quando se trabalha com o Estado Novo. Ela diz respeito ao compartilha-
mento de uma percepção que atribui a esses oito anos uma grande unidade
e estabilidade política. Além disso, o Estado Novo é visto como um evento
que se articula diretamente com a Revolução de outubro de 1930, que, por
sua vez, implicaria um corte radical com o “passado” do país. Em outros
termos, queremos chamar a atenção para os vínculos existentes entre uma
proposta de interpretação do Estado Novo e o estabelecimento das bases
de uma periodização da própria história republicana do Brasil, na qual esse
regime tem posição estratégica e nada ingênua. Uma operação intelectual
que merece reflexão, até porque teve, entre seus primeiros e mais competen-
tes arquitetos, como não poderia deixar de ser, os próprios ideólogos do
Estado Novo. Nesse sentido, ainda se pode dizer que persiste na História
do Brasil (embora com menos ênfase) um certo tipo de periodização que
toma como um bloco coeso o tempo que vai de 1930 a 1945 e nele situa o
Estado Novo como a “consagração dos ideais da Revolução de 1930”, que,
por sua vez, sepultara um simulacro de República, ensaiada e fracassada
praticamente desde seu começo, em 1889.

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ESTADO NOVO: AMBIGUIDADES E HERANÇAS DO AUTORITARISMO NO BRASIL

Segundo tal interpretação, a Revolução de 1930 assinalaria um novo e


grande ponto de partida em nossa história, rompendo definitivamente
como o “passado”; com os “erros” da Primeira República, liberal, oligár-
quica, fraca, inepta etc., enfim, uma “República Velha”, da qual o pós-1930
queria distância. Uma terminologia que se estabelece, como não é difícil
supor, apenas no pós-1930, e que se espraiaria na literatura acadêmica,
sendo usada de forma equivalente, até como sinônimo, de Primeira Re-
pública. Nessa nova história, as elites vitoriosas em 1930 inauguravam
um projeto político que teria como outro momento de inflexão exata-
mente o golpe de novembro de 1937. Assim, se nessa leitura o golpe é
tomado como um novo ponto de referência cronológico/político, seu sen-
tido principal é a consecução inevitável dos projetos de 1930. O Estado
Novo é situado, dessa forma, como “a” conclusão lógica do movimento
revolucionário de 1930 e não só enterra definitivamente a República
“Velha” como faz com que os anos que o precederam transformem-se na
antecâmara de sua presença inevitável.
Se 1937 é o coroamento previsto e desejado dos projetos de 1930, o
ciclo só se fecha em outubro de 1945, que sela a sorte do Estado Novo,
embora não a de Vargas. Nesse sentido, não apenas o período de 1930 a
1945 torna-se um bloco, sem maiores diferenciações internas, como os anos
que decorrem de 1930 a 1937 são analisados como uma espécie de pre-
núncio do que se seguiria. Essa periodização, ao esquecer as marchas e
contramarchas do período, apaga da história a marca da incerteza política
que o domina, minimizando parte do sentido de fatos cruciais, como a Revo-
lução Constitucionalista de 1932, a experiência da Constituinte de 1934, a
movimentação política da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e da Ação
Integralista Brasileira (AIB), por exemplo. Dizemos parte do sentido porque
tais eventos não são apartados da vida política do país, mas são incorpora-
dos segundo uma perspectiva que os recupera na qualidade de justificação
a posteriori dos fatos que acabaram por acontecer. Dessa forma, por exem-
plo, a guerra civil de 1932 é entendida como uma revolta separatista (mais
uma), cujo mérito teria sido acelerar o ritmo das iniciativas que o próprio
Governo Provisório vinha conduzindo, tendo em vista a constitucionalização
do país.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Não se trata, evidentemente, de discutir neste texto o caráter reformador


e/ou conservador da Revolução Constitucionalista, mas simplesmente assi-
nalar que tal interpretação minimiza os esforços de mobilização ocorridos
em São Paulo, bem como a radicalidade dos conflitos políticos então
vivenciados. O diagnóstico da Constituição de 1934 é ainda mais pedagó-
gico, pois, para os vitoriosos de 1937, ela, por sua “inadequação”, seria
uma das principais razões do golpe. Ao elaborar uma constituição vazada
de liberalismo — uma nota destoante em face do clima político da época
— a Assembleia Nacional Constituinte teria obstaculizado as diretrizes
lançadas em 1930, alimentando a “reação revolucionária de 1937”, esti-
mulada ainda mais pelas desordens promovidas por comunistas e integra-
listas. O Estado Novo, portanto, viera dar um paradeiro quer às pretensões
extremistas da esquerda e da direita, quer às resistências das velhas oligar-
quias estaduais, que se negavam a sair da cena política. Em síntese, o Esta-
do Novo viera impor a ordem e trazer o progresso.
Criticar esse tipo de periodização/interpretação pressupõe, de um lado,
compreender a lógica de sua própria construção e propagação desde os anos
1930/1940, especialmente durante o Estado Novo; e, de outro, demons-
trar a existência de linhas de continuidade e descontinuidade durante todo
o período, sem perder a dimensão da violência dos conflitos, mas também
das possibilidades de arranjos políticos diversos. Com tal entendimento, a
tônica fundamental dos anos que decorrem de 1930 a 1945 torna-se a da
disputa política, sobretudo a disputa intraelites. Isso se manifesta de forma
mais explícita e violenta, ou mais sutil e negociada, mas ambas contendo
doses de incerteza nada desprezíveis, particularmente quando se assume a
ótica dos atores envolvidos nos acontecimentos.
Um outro ponto a destacar, fortalecendo as ideias de imprevisibilidade
e também de continuidade/descontinuidade que assinalam o período, é o
da intensidade e riqueza do debate político ocorrido entre 1920 e 1940,
atravessando, portanto, o evento da Revolução de 1930. Nesse caso, vale
lembrar a experiência de reforma constitucional de 1926 e de outras im-
portantes reformas (na saúde, na educação, na regulamentação do mer-
cado de trabalho), ocorridas na “velha” e carcomida Primeira República.
Ou seja, durante essas duas décadas, um verdadeiro leque de propostas

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ESTADO NOVO: AMBIGUIDADES E HERANÇAS DO AUTORITARISMO NO BRASIL

inovadoras tomou conta do campo político e intelectual, podendo-se iden-


tificar diagnósticos e soluções, fundados em diferentes alternativas ideo-
lógicas, e tendo em vista a montagem de variados modelos de arranjos
institucionais. Apesar disso, e convivendo com toda essa multiplicidade,
o que também se pode observar nesse rico embate de ideias é um fortale-
cimento de matrizes antiliberais que, desde o fim da Primeira Guerra, ga-
nhavam força internacionalmente.
Situando o exemplo do Brasil, pode-se afirmar que, grosso modo, entre
uma grande maioria de intelectuais e políticos (ou as duas coisas ao mes-
mo tempo) a questão não era mais apontar a existência de condições ad-
versas à vigência do modelo de Estado liberal no Brasil. Tratava-se de
reconhecer sua impossibilidade e indesejabilidade de “adaptação”, em
função de razões profundas que tinham a ver com o próprio processo de
formação histórica do país. O paradigma liberal, dominante desde o sé-
culo XVIII, sofria severas críticas, advindas de novas orientações científi-
cas. Elas se traduziam tanto pelos postulados de uma teoria elitista de fundo
autoritário, que apontava as “ficções” desse modelo político, como pelos
enunciados keynesianos que, ainda no terreno liberal, defendiam um
intervencionismo econômico e social do Estado, até então inusitado. Nesse
sentido, se o ideal de autoridade racional-legal e a construção de uma eco-
nomia urbano-industrial continuavam sendo postulados como signos de
uma sociedade moderna a ser alcançada, os instrumentos operacionais,
vale dizer, as instituições políticas para materializar tal sociedade, sofriam
mudanças substanciais, afastando-se da arquitetura liberal de forma mais
ou menos radical, conforme os exemplos europeu e americano, sobretu-
do após a crise de 1929, demonstravam.
O que tais formulações acentuavam, de forma crescente a partir dos anos
1920, era a necessidade de criação e/ou fortalecimento de novas instituições
e práticas políticas estatais (órgãos e políticas públicas), como mecanismo de
start para o estabelecimento de uma nova modernidade. Assim, se havia, in-
ternacionalmente, um enorme descompromisso com procedimentos e valo-
res políticos liberais, era porque também havia um enorme esforço para
formulação de uma outra arquitetura institucional de Estado, cujo sentido
transformador era muito amplo, abarcando esferas da sociedade até então

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

intocadas pela presença pública. As interpretações da sociedade e da política


brasileira, construídas a partir dos anos 1920 e em experimentação durante
os anos 1930, têm esse contexto político e intelectual como cenário.
Apenas para que se tenha uma dimensão do compartilhamento que tais
diretrizes antiliberais alcançam, vale assinalar que, segundo Hobsbawm,
entre o fim da Primeira Grande Guerra e o início da Segunda, o número de
governos constitucionais sofreu um drástico recuo em todo o mundo: nos
anos 1920, eram 35; em 1938, passaram a ser 17; e, em 1944, restringiam-
se a 12.2 Na verdade, na Europa, pode-se dizer que apenas a Inglaterra não
conviveu com um avanço significativo de forças políticas antiliberais e a
América foi um continente onde houve poucos exemplos de resistência: os
EUA, o Canadá e o Uruguai estão entre eles. Além desse indicador quanti-
tativo, convém igualmente destacar, numa dimensão qualitativa, que as
correntes antiliberais que ganhavam força vinham da direita do espectro
político e tinham características muito distintas da direita “conservadora”
até então conhecida. Como a literatura que trata do tema das organizações
políticas e das ideologias tem assinalado, a “nova direita” que emerge nos
anos 1920/1930 se propõe a usar recursos organizacionais e a mobilizar
valores e crenças de forma muito inovadora, aproximando-se mais do ins-
trumental revolucionário utilizado pelo que então era identificado como
“esquerda” (a despeito de sua diversidade) do que pelo que vinha sendo
tradicionalmente usado pela “direita”, razão pela qual os confrontos podiam
ocorrer nessas duas direções.
O Brasil, por conseguinte, é apenas um dos países que alimentarão a mon-
tante internacional de antiliberalismo, inserindo-se em um grande conjun-
to de experiências que marcou o entreguerras. Nossos intelectuais e políticos,
durante a Primeira República, já vinham elaborando críticas e propondo al-
ternativas de arranjos institucionais para o que se entendia como o fracasso
ou o desarranjo do regime republicano inaugurado com a Constituição de
1891. O ponto de chegada, mais ou menos consensual, que perpassava todas
essas críticas, das mais radicais às mais brandas, era o da necessidade do
fortalecimento do poder intervencionista do Estado. Contudo, o que se pode
identificar como um crescente “estatismo” não deve ser assimilado a um
automático “autoritarismo”. A defesa do poder de intervenção do Estado e

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ESTADO NOVO: AMBIGUIDADES E HERANÇAS DO AUTORITARISMO NO BRASIL

do avanço de sua governabilidade sobre a sociedade — uma regularidade


em sociedades de “modernização retardatária” — não deve ser identificada
como um mero sinônimo de defesa de Estado autoritário, forte e concen-
trado no Executivo, como muito frequentemente ocorre. Esforços empre-
endidos ainda no terreno do ideário liberal, existentes na década de 1930
(como os trabalhos da Constituinte ilustram), evidenciam as possibilidades
de disjunção entre nacionalismo e intervencionismo do Estado, de um lado,
e centralização e autoritarismo do regime político, de outro. Dessa forma,
se os embates políticos travados, especialmente entre 1930 e 1937, condu-
ziram a uma fórmula autoritária, materializada pelo Estado Novo, esse “re-
sultado” não pode ser entendido como um destino manifesto, inscrito nos
equívocos de uma República “Velha”, nos projetos “originais” dos revolu-
cionários de 1930 e, por fim, nos “descaminhos” das experiências vividas
até o momento do golpe de 1937.
A competência dos ideólogos do Estado Novo, sem dúvida os propo-
sitores dessa periodização tão duradoura e plena de significados, pode ser
reconhecida, mas não precisa ser seguida. E o que o crescimento da litera-
tura sobre a Era Vargas, mais particularmente sobre o Estado Novo, vem
evidenciando são muitos progressos nesse sentido. Correndo muitos ris-
cos, talvez já seja possível afirmar que as descontinuidades, os conflitos e as
crises que assinalam o tempo que vai de 1930 a 1945, incluindo o Estado
Novo, como se verá com mais vagar, passaram a ser algo bem mais aceito
pela produção acadêmica das duas últimas décadas. Uma produção que se
dedicou ao estudo da história e da memória da Era Vargas, destacando, cada
vez mais, a centralidade dos anos do Estado Novo. Uma produção que tam-
bém tem sua história e, como ensina a historiografia, uma história pautada
pelas inquietações do presente do historiador.

ESTADO NOVO: HISTORIOGRAFIA, POLÍTICA E ACADEMIA

Para os historiadores, comemorar — lembrar junto, com objetivos críticos


e orientados pelas questões do presente — é sempre uma rica oportunidade
de fazer história e historiografia, pois as comemorações são ocasiões espe-
ciais para se empreenderem balanços do que se produziu e não se produziu,

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

a respeito de personagens, acontecimentos e períodos. Exatamente por isso,


retomar marcos — como o das comemorações ocorridas em 1987 e 1997 —,
embora de forma muito breve, é uma estratégia interessante para situar al-
gumas características e preocupações da produção acadêmica das últimas
décadas. Isto é, para se pensar quando, mais especificamente, e movida por
que interesses conjunturais, algumas questões e temas foram sendo defini-
dos e passaram a orientar as pesquisas sobre o Estado Novo, produzindo
impactos sobre interpretações compartilhadas, que vão sendo discutidas e
revisitadas.3 Em ambos os casos, tomando a cidade do Rio de Janeiro como
palco, foram realizados importantes seminários que resultaram na publica-
ção de coletâneas, roteiros adequados para um contato, ainda que parcial,
com o chamado estado da arte sobre o período.
Em novembro de 1987, sob o governo do presidente civil José Sarney,
o país se preparava para assistir aos trabalhos da Assembleia Nacional
Constituinte, que encerraria os mais de 20 anos vividos à margem de um
Estado de Direito. Nesse contexto, “lembrar 1937” — ou não esquecer a
ditadura de Vargas — tinha enorme e clara carga política. Evidenciava uma
postura de engajamento na luta contra o regime militar e de preocupação
com a construção da democracia no Brasil. Em 1987, “lembrar” o Estado
Novo era uma rica oportunidade para se pensar a questão do autoritarismo
no país, ou seja, para se trabalhar com a história imediata do Brasil, e não
só a história do tempo presente, aliás uma terminologia que tinha pouco
curso à época.
O seminário foi realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro,
tendo como seu principal organizador o professor José Luiz Werneck da
Silva, e se desdobrou no livro O feixe: o autoritarismo como questão teóri-
ca e historiográfica, publicado em 1991.4 O que logo salta aos olhos é ques-
tão central proposta no volume: o autoritarismo e seu debate no campo
historiográfico. Por isso, ele está organizado em três partes. Na primeira,
discute-se, de forma comparada, o fenômeno político do fascismo, com tex-
tos sobre as experiências da Itália e de Portugal; na segunda, Mito Político,
é a figura de Vargas que está no centro e no título dos três artigos que a
compõem; na terceira, dois textos buscam realizar balanços historiográficos.

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ESTADO NOVO: AMBIGUIDADES E HERANÇAS DO AUTORITARISMO NO BRASIL

Considerando os objetivos aqui propostos — pensar o Estado Novo


historicizando a própria produção sobre o período —, um dos artigos cha-
ma a atenção por vários motivos. Trata-se de “Estado Novo: um inventário
historiográfico”, de René Gertz.5 O primeiro deles remete à sua conclusão
de que ainda não eram muito numerosos os estudos que se dedicavam es-
pecificamente ao Estado Novo (exceção feita às memórias e biografias). Além
disso, o autor assinala que, nessa produção, a participação dos historiado-
res era menos significativa do que a dos cientistas sociais, em particular dos
cientistas políticos. Uma observação que nos permite constatar uma espé-
cie de divisão informal de trabalho no campo intelectual e também a exis-
tência de uma “desconfiança” ainda muito forte dos historiadores em relação
ao que se convencionaria chamar de história do tempo presente. Nesse sen-
tido, o que Gertz aponta e estamos reforçando é que, até praticamente os
anos 1980, os historiadores brasileiros, de uma forma geral, ainda não se
voltavam para a pesquisa sistemática e consistente de temas e questões que
ultrapassassem o emblemático episódio da Revolução de 1930. A História
do Brasil “começava” em 1500 e “acabava” em 1930, e o historiador “mes-
mo” precisava de distanciamento no tempo, devendo trabalhar com o perío-
do colonial e imperial ou, no máximo, com a Primeira República. Mas
importa também destacar que Gertz avalia que esse panorama vinha se al-
terando, apontando os trabalhos produzidos pelo Centro de Pesquisa e
Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDoc) como um
bom indicador da tendência.6
Um segundo bom motivo para o exame do artigo de Gertz, passados 30
anos, são as razões que, para ele, explicariam tal situação. Algumas delas
podem ser entendidas como “dificuldades” que os historiadores teriam com
o estudo do período, o que nos remete a duas de suas questões-chaves: a
das ambiguidades de suas políticas, já brevemente mencionadas, e a do deba-
te sobre o caráter fascista do regime. Citando:

Mesmo autores que procuram ser neutros ou críticos não conseguem esca-
par da ambivalência. O Estado Novo foi uma ditadura, teve traços fascistas,
mas muitos autores não conseguem negar avanços na economia, na cons-
trução do Estado, na questão social.7

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Ou seja, pondera-se que os historiadores “resistiam” ao estudo do Estado


Novo por reconhecer que se tratava de uma “ditadura com traços fascis-
tas” que, inegavelmente, apresentava avanços nas políticas públicas econô-
micas e sociais. Levando muito a sério tal reflexão, o que se está querendo
apontar é que as ambiguidades do período do Estado Novo, já reconheci-
das pela historiografia, constituíam-se, de fato, em um complicador de aná-
lise, naquele momento. Isso porque, politicamente, nos anos 1970 e 1980,
era fundamental atacar o regime militar através da ditadura de Vargas. E
como fazê-lo se era difícil ignorar os “progressos” então alcançados, espe-
cialmente no campo das políticas sociais? Como criticar o autoritarismo e,
digamos, avalizar a leitura de que ele podia e até havia sido “progressista”
em certas dimensões, nos anos 1930?
Trocando em miúdos e a despeito da simplificação, a questão acadêmica
se via engolfada pela conjuntura política, que tornava difícil ou quase impos-
sível reconhecer que regimes ditatoriais podiam produzir modernização eco-
nômica e social, sem que isso soasse como “justificativa” para o autoritarismo.
Uma dificuldade que não se referia ao Estado Novo, pois era o que ocorrera
também nos anos 1970 e 1980, durante o regime militar, como diversos cien-
tistas sociais comprovavam. Assim, a combinação de autoritarismo com
modernização era muito mais um desafio político do que teórico. A extrema
preocupação quanto às possibilidades de uma pesquisa reconhecer a convi-
vência de avanços e recuos; de reconhecer a ambivalência como dimensão
constitutiva das diretrizes políticas de um regime era, basicamente, uma cau-
tela que tinha a ver com a luta pela democratização dos anos 1980.
Por isso, a questão do caráter fascista do Estado Novo, designação ain-
da corrente naquele momento, mas que começava a ser muito questionada,
ganhava enorme interesse. Os comentários de Gertz a esse respeito, bem
como a primeira parte do livro, apontam para a problematização do uso da
categoria “fascista”, e não apenas para a designação do Estado Novo. A
experiência portuguesa igualmente não cabia bem nesse rótulo, que, de tão
amplo e impreciso, acabava por abarcar realidades históricas muito dife-
renciadas, ignorando suas especificidades. A tendência da literatura inter-
nacional e nacional era atentar para os significados das categorias de

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ESTADO NOVO: AMBIGUIDADES E HERANÇAS DO AUTORITARISMO NO BRASIL

totalitarismo e fascismo, aprofundando os estudos das doutrinas e práticas


de diferentes regimes políticos, até então nomeados como tal. Esse exercí-
cio, a que se dedicavam principalmente os historiadores, fazia com que tais
categorias viessem sendo abandonadas em proveito da de Estado autoritá-
rio. No caso da América Latina, por exemplo, era crescente um consenso
sobre a pertinência dessa designação.
Para o Brasil, o artigo de Bolívar Lamounier “Formação de um pensa-
mento político autoritário na Primeira República”, publicado em 1977, na
consagrada coleção História Geral da Civilização Brasileira (v. 9), e o livro
Estado Novo: ideologia e poder, de 1982, de autoria de Lucia Lippi Olivei-
ra, Mônica Pimenta Velloso e Angela de Castro Gomes, eram duas ilustra-
ções do fato assinalado.8 Eles chamavam a atenção para certas dimensões
das políticas do Estado Novo — que pesquisas posteriores aprofundariam
— todas apontando para a inadequação de um conceito fundado na ideia
de unidade e monopólio absoluto do poder do Estado. Além disso, o uso
da designação fascista sempre fora negado pelos próprios ideólogos do re-
gime, que o identificavam como autoritário. Quer dizer, vários intelectuais
do período, com destaque para Azevedo Amaral e Oliveira Vianna, haviam
afirmado, com clareza, que sua proposta não era nem fascista nem liberal,
pois não admitiam nem o predomínio total do Estado nem o do mercado.
Mas, seguindo Gertz, essa era uma afirmação que, quando sancionada pelos
analistas, trazia problemas, pois podia ser entendida como uma minimização
da violência do Estado Novo ou como uma possibilidade de estar “manco-
munado com o poder” (do regime militar), sendo então mais prudente
pesquisar temas menos comprometedores.9 É fácil imaginar como essas ob-
servações, vistas do ano de 2006 a 2007, podem parecer inacreditáveis. Mas
elas não são, sendo importante considerá-las uma forma de iluminar o cli-
ma político que vigia no país e em boa parte da academia, nas décadas de
1970 e 1980.
Finalmente, Gertz levanta uma terceira razão para a existência de tão
poucos estudos sobre o Estado Novo. Essa é bastante consistente e se rela-
ciona à situação do campo historiográfico nacional, que ainda permanecia
marcado por análises que privilegiavam explicações de cunho estrutural,
marxistas em grande parte (isto é, de esquerda), voltadas para questões

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

econômicas e sociais e afastadas da história política, quer dizer, da história


de curta duração, centrada em indivíduos e eventos. Um tipo de história muito
condenada, sobretudo quando voltada para os “vencedores” e autoritários,
como era o caso do Estado Novo. Através dessa observação, é possível per-
ceber que a historiografia brasileira, até esse momento, ainda se pautava
fortemente por paradigmas estruturalistas e raramente avançava para além
do marco de 1930. Tendências que serão revertidas justamente a partir de
então, produzindo mudanças decisivas e definitivas nas pautas de investi-
gação existentes e nos modelos interpretativos compartilhados, o que se
refletirá nos estudos sobre o Estado Novo.
Como se pode imaginar, essa renovação está articulada a toda uma “gran-
de transformação” teórica e metodológica da historiografia em nível inter-
nacional que, brevemente, pode ser identificada como a da chamada
renovação da história política e de sua articulação com uma história cultu-
ral, que floresceram e chegaram ao Brasil, com mais intensidade, justamen-
te nos anos 1970 e 1980. A revitalização da história política, ou o que tem
sido chamado de o “retorno” da história política, guarda relações profun-
das com as mudanças de orientação teórica que atingiram as ciências sociais
de forma geral. Inúmeros autores situam esse fenômeno como o da crise
dos paradigmas estruturalistas então vigentes: o marxista, o funcionalista e
também o de uma vertente da Escola dos Annales. Essa crise, traduzida pela
recusa de explicações deterministas, metodologicamente quantitativistas e
marcadas pela “presença” de atores coletivos abstratos, não localizáveis no
tempo e no espaço, teria impactado o campo das ciências humanas, forçan-
do-as a rever suas ambições totalizadoras e suas explicações racionalistas/
materialistas.10 Entretanto, se essas transformações mais globais que afe-
tam a conformação de um campo disciplinar como o da História e, dentro
dele, o delineamento de espaços mais específicos de trabalho demonstram
a existência de uma historicidade geral que une internacionalmente os pes-
quisadores, pode-se igualmente verificar um outro movimento, mais espe-
cífico em seus ritmos e características, que diz respeito às variações nacionais
que a transformação mais ampla pode sofrer.
Esses ritmos nacionais, que não chegam a alterar a direção global do
processo, têm certamente a ver com eventos próprios às histórias “políti-

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ESTADO NOVO: AMBIGUIDADES E HERANÇAS DO AUTORITARISMO NO BRASIL

cas” de cada país. Nesse sentido, alguns acontecimentos — que não preci-
sam ser políticos tout court — impõem aos intelectuais, e em particular
àqueles cuja tarefa é interpretar a realidade política, a escolha de certos temas
de análise, o que pode se traduzir pela emergência de “novos” objetos e
métodos, ou pelo “retorno” de “velhos” objetos, revigorados por “novas”
abordagens. A dimensão ética e engajada do trabalho intelectual é, nesses
casos, mais visível e compreensível e se manifesta de forma mais transpa-
rente, por razões óbvias, no campo de trabalho daqueles que se dedicam à
história do tempo presente. As reflexões historiográficas há muito ressaltam
esse aspecto, ilustrando-o com os exemplos da guerra da Argélia, para os
intelectuais franceses; das lutas coloniais na África, para os portugueses;
do retorno do peronismo, na Argentina; e, no caso do Brasil, da instaura-
ção do regime militar, em 1964, e do processo de “abertura lenta e gradual”,
que tem início no governo do general Geisel (1974-1979). Assim, é tão
impossível compreender os movimentos da história política no Brasil sem
uma remissão aos debates interdisciplinares travados em nível internacional
como sem o estabelecimento de uma conexão com o impacto dramático tra-
zido pelo restabelecimento do autoritarismo em fins da década de 1960, se-
guido pela luta pela redemocratização, emergente e crescente nos anos 1980.
Toda a literatura produzida a partir dos anos 1970, grosso modo, gira
em torno da compreensão do fenômeno do autoritarismo, sendo movida
pela necessidade de se entenderem as causas do colapso do regime liberal-
democrático e da eclosão do movimento civil e militar de 1964. Por conse-
guinte, ela assume uma perspectiva política nítida que irá cada vez mais
privilegiar o estudo do período do pós-1930. Isso porque era inviável pensar
as características e os rumos do regime militar sem um retorno ao pré-1964,
sendo claro que as bases do autoritarismo brasileiro deitavam raízes pro-
fundas nas formulações e experiências anteriores, com destaque especial
para o Estado Novo.
Dessa forma, entre 1987 e 1997 crescem o interesse e o número de es-
tudos sobre esse período, diversificando-se os temas recortados e transfor-
mando-se as questões e interpretações que movimentam cada vez mais os
historiadores, agora em diálogo estreito com os cientistas sociais e sem te-
mer, como antes, a história do tempo presente. Com tal panorama de fun-

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

do, pode-se examinar a coletânea que reúne os estudos apresentados no


seminário “Estado Novo: 60 anos depois”, realizado em novembro de 1997,
por iniciativa de um conjunto de instituições: o Centro de Pesquisa e Docu-
mentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas
(CPDOC/FGV), em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janei-
ro (UFRJ), a Universidade Federal Fluminense (UFF), a Casa de Oswaldo
Cruz da Fundação Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz) e o Núcleo de Estudos
Estratégicos da Universidade de Campinas (Unicamp).
O livro, organizado por Dulce Pandolfi, intitula-se Repensando o Esta-
do Novo.11 Contendo 18 textos, o volume está dividido em seis partes, que
podem ser entendidas como indicadores do tipo e da distribuição das in-
vestigações que vinham sendo empreendidas. As partes são: legado ins-
titucional; trabalho, previdência e sindicalismo; indústria, bancos e seguros;
intelectuais, cultura e educação; imigração e minorias étnicas; e militares,
política e repressão. Cada uma delas é composta por três ou quatro textos,
sendo que, não casualmente, a parte que mais se aproxima do tema da eco-
nomia possui apenas um artigo.12 Um conjunto que destaca a questão das
transformações e inovações institucionais trazidas pelo Estado Novo e sua
centralidade para a construção do aparelho de Estado no Brasil. O tema
crucial das políticas sociais, na chave da saúde, educação e trabalho, tem
grande espaço no volume, podendo-se assinalar um tratamento que enfrenta
a questão das ambiguidades do regime, evitando esquematismos. O tema
da imigração, sempre clássico, quando associado ao entendimento do pro-
blema do antissemitismo e da “raça”, recebe novos contornos. O mesmo se
pode dizer da presença de atores como os intelectuais e os militares e de
reflexões que passam a destacar o estudo da propaganda e da repressão
políticas no Estado Novo.
Na verdade, um elenco que não se distancia tanto do assinalado no ar-
tigo de 1987, que apontava a existência de estudos e polêmicas sobre os
temas da reforma do Estado, da industrialização, das relações de trabalho e
da ação dos militares e dos intelectuais. Mas, o que esse livro traz, em dis-
tinção às observações anteriores, é uma espécie de “resolução” de proble-
mas que mobilizaram os historiadores nos anos 1970/1980, dentre os quais
o que envolvia a designação do Estado Novo como um Estado fascista. Após

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ESTADO NOVO: AMBIGUIDADES E HERANÇAS DO AUTORITARISMO NO BRASIL

a eleição direta e o impeachment do primeiro presidente que chegou ao


poder pelo voto direto, a questão que mobilizava o campo intelectual era
outra. Ela tinha a ver, como antes, com a conjuntura política e remetia, mais
uma vez, à Era Vargas e ao Estado Novo. Seu formulador, aliás, era o pró-
prio presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, um sociólogo
de formação. Seus termos, instigantes e desafiadores, estavam sintetizados
na afirmação ou na interrogação: vivia-se o fim da Era Vargas? Por isso, a
organizadora do livro e do seminário o situa como uma possibilidade de
melhor “compreensão dos debates sobre as reformas em curso no país”.13
Reformas que, no marco das orientações neoliberais, apontavam a direção
inversa das diretrizes lançadas e implementadas por Vargas, especialmente
durante o Estado Novo: nacionalismo, protecionismo, intervencionismo
etc. Sem perder terreno, a questão do autoritarismo e da repressão dividia
espaço com o tema do tamanho e do papel do Estado na economia e na
sociedade. Certamente porque, em 1997, já era muito claro o esgotamento
do modelo desenvolvimentista, cujos marcos iniciais foram lançados nos
anos 1930. Um tema que permanece desafiando políticos e intelectuais
dez anos depois e que ainda motiva as pesquisas em curso no campo da
história política do tempo presente.
A realização de seminários e a publicação de seus resultados fixam o es-
tado da arte da produção acadêmica sobre um objeto de estudo, permitin-
do uma análise pontual e bastante representativa. Mas um outro indicador
pode ser usado para se dimensionar o andamento dessa produção através
do tempo. Estamos nos referindo à elaboração de dissertações e teses nos
programas de pós-graduação de História do país, que se desenvolveram em
número exatamente a partir de 1980.
No que se refere ao Estado Novo, é o próprio Gertz que, em seu balan-
ço e usando os dados do Catálogo das dissertações e teses dos cursos de pós-
graduação em História, elaborado por Carlos Humberto Correa, para o
período 1973-1985, informa que, das 734 teses e dissertações computa-
das, cinco tratavam do período de 1930 a 1945, 24 do período de 1930 a
1937 e 11 do Estado Novo, o que, no geral, foi considerado pouco.14 Re-
forçando essa conclusão, são valiosas as observações de Maria Helena Rolim
Capelato, no artigo publicado em 1998 intitulado “Estado Novo: novas
histórias”.15 Segundo ela, que utiliza os dados do volume já citado e da Pro-

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

dução histórica do Brasil (1985-1994), publicada em três volumes sob sua


coordenação, entre 1980 e 1995, de 1.688 teses e dissertações produzidas
nos 19 programas de pós-graduação, apenas cem se referiam a temas envol-
vendo o período do Estado Novo. Ainda segundo a professora, se entre
1973 e 1980 os estudos sobre o Estado Novo representavam 2% da produ-
ção discente, entre 1980 e 1994 eles saltaram para apenas 5%, o que con-
tinuava sendo considerado pouco.
Procurando atualizar esses números e recorrendo ao Banco de Teses e
Dissertações da Capes, realizamos um breve levantamento para o período
que vai de 1995 a 2004. Não buscamos saber quantas dissertações e teses
foram produzidas nesse lapso de tempo, mas tão somente computar o núme-
ro de trabalhos diretamente voltados para o estudo do Estado Novo. Feita a
chamada com esse “tema”, encontramos uma lista, mas para afiná-la consul-
tamos os resumos dos trabalhos, chegando então, da melhor maneira possí-
vel, a uma aproximação com as pesquisas que priorizaram, de fato, o período,
independentemente da questão substantiva que examinassem.
Do ponto de vista quantitativo, o total encontrado foi o de 59 trabalhos,
o que pode ser considerado ainda muito pouco, sobretudo tendo-se em vista
o crescimento do número de programas de pós-graduação de História e
também o aumento do número de estudantes ocorridos nesses anos. Do
ponto de vista qualitativo, esse dado ganha novos significados, indicando
de que forma o Estado Novo passou a ser investigado. Nesse sentido, 23
trabalhos podem ser entendidos como de história política, sendo que ape-
nas três dedicam-se à política externa no período. No conjunto maior, é
possível identificar algumas concentrações, basicamente no que se refere à
política de povoamento do regime — colonização, imigração e Marcha para
Oeste; à política de regulamentação do mercado de trabalho; e à questão
da modernização urbana. Um outro grande grupo de pesquisas, alcançan-
do 19 trabalhos, envolve temas afetos à política educacional e cultural do
Estado Novo, com destaque para a campanha de nacionalização. Finalmente,
e em nítida conexão com o conjunto anterior, há 17 trabalhos centrados na
análise das políticas de repressão (polícia política, censura e antissemitismo,
por exemplo) e propaganda do regime (rádio, cinema, cinema educativo,
comemorações cívicas etc.). A concentração de pesquisas no campo da his-

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ESTADO NOVO: AMBIGUIDADES E HERANÇAS DO AUTORITARISMO NO BRASIL

tória política e cultural e a importância que os temas da educação, da legis-


lação social (e trabalhista), da propaganda e da repressão têm nessa amos-
tra evidenciam as transformações mais amplas ocorridas na historiografia
nacional e internacional.

ESTADO NOVO: AUTORITARISMO, TRABALHISMO, CORPORATIVISMO E


MITO VARGAS

Neste ponto da reflexão algumas ponderações podem ser realizadas. Em-


bora não se possa dizer que os estudos sobre o Estado Novo tenham au-
mentado tanto em número, sem dúvida eles apontam para uma maior
diversidade de abordagens, de recortes e de temas de análise. Paralelamen-
te a esse fato, é possível registrar que os principais impasses que mobiliza-
vam os debates intelectuais dos anos 1970 e 1980 sobre o período do Estado
Novo, se não encontraram uma “solução completa”, pois não é disso que
se trata, encontraram um termo, estabelecendo possibilidades para se tra-
balhar com o período. Ou seja, em alguns casos, interpretações bastante
compartilhadas foram sendo gradativamente abandonadas; em outros, a pro-
dução historiográfica acabou por consagrar novas questões, que passaram
a disputar posições, mas de maneira menos excludente e mais capaz de um
diálogo. De toda forma, o fundamental é que houve renovações importan-
tes, para o que foi decisivo o crescimento das pesquisas advindas dos pro-
gramas de pós-graduação.
Alguns exemplos do que estamos querendo assinalar serão comentados,
não havendo, contudo, qualquer pretensão de esgotá-los. Entre eles estão
os debates em torno de uma periodização para o Estado Novo; de uma forma
de designar seu regime político; de uma forma de interpretar suas políticas
sociais, com destaque para as voltadas para a regulamentação do mercado
de trabalho, ao que se associa a questão da condução do processo de indus-
trialização; e, finalmente, perpassando todos os outros, o que envolve a cons-
trução da liderança de Vargas. Tais temas/questões, contudo, só podem ser
distinguidos entre si do ponto de vista analítico, razão pela qual serão acom-
panhados em conjunto.16

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

No que diz respeito à questão da periodização, já tratada anteriormen-


te, vale a pena abordá-la especificamente no que se refere ao Estado Novo.
Não por preciosismo, mas para dela retirar desdobramentos importantes
na caracterização dos rumos do regime e de suas políticas sociais. Nesse
sentido, do mesmo modo que a literatura que contempla a Era Vargas foi
se afastando de uma visão do período como um bloco coeso, os estudos
sobre o Estado Novo também se afastaram de uma visão que insistia em
sua unidade e estabilidade. Uma visão que postulava a existência de uma
única orientação política durante todo o regime, marcada pelo autoritarismo
de tipo desmobilizador. Esse é um ponto fundamental, pois se vincula ao
debate sobre a melhor denominação para o regime. Debate que se processa
em paralelo às discussões sobre os conteúdos das categorias de totalitaris-
mo e autoritarismo, visando a melhor precisá-las teoricamente e através da
pesquisa histórica sobre experiências na Europa e na América Latina dos
anos 1920-1940.
No caso do Estado Novo, pode-se observar um duplo movimento nesse
debate. O primeiro deles significou abandonar a designação de fascista/to-
talitário e assumir, progressivamente, a conceituação de Estado autoritá-
rio, fazendo-se um investimento mais profundo, não apenas na própria
questão do autoritarismo no Brasil como também numa investigação mais
pormenorizada da experiência do Estado Novo. Alguns trabalhos vindos
das ciências sociais, como os de Bolívar Lamounier e Wanderley Guilherme
dos Santos, foram decisivos para se precisar a trajetória e o sentido da cate-
goria de Estado autoritário, na medida em que apontavam a existência de
uma tradição no pensamento social brasileiro, que excedia e somava às in-
fluências do montante antiliberal do entreguerras.17 No mesmo sentido, pes-
quisas, nacionais e internacionais, que trabalhavam com o conceito de
totalitarismo, visando a precisá-lo, sentiam dificuldade em utilizá-lo para
designar experiências latino-americanas e até europeias, como a de Portu-
gal e a da Espanha. No caso do Estado Novo, desenvolveram-se análises de
suas formulações doutrinárias e de suas políticas públicas, retomando a
participação de atores (coletivos e individuais), como burocracia, os inte-
lectuais, os industriais, os banqueiros, os sindicalistas etc. Tais estudos cada
vez mais concluíam que não ocorrera, no caso brasileiro, um monopólio

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ESTADO NOVO: AMBIGUIDADES E HERANÇAS DO AUTORITARISMO NO BRASIL

absoluto do Estado no plano jurídico-político, continuando a existir mui-


tas tensões e oposições, até no interior do núcleo dirigente estado-novista,
mesmo que limitadas de múltiplas formas. Assim, se era possível identificar
traços totalitários no Estado Novo, não era adequado designá-lo como um
Estado fascista.18
Nesse caso, as constatações de que o Estado Novo não buscara um con-
trole total, por exemplo, dos meios de comunicação de massa e que recor-
rera, durante boa parte de sua existência, a uma estratégia política de
desmobilização da sociedade pesaram muito. Evidentemente, não se que-
ria dizer com isso que, sob o Estado Novo, a repressão física e/ou simbólica
fora pequena ou pouco violenta. O que se buscava ressaltar é que não se
adotara, no Brasil, um modelo de mobilização de tipo fascista, o que forta-
lecia a tese do autoritarismo. É justamente esse último aspecto, que carac-
teriza um segundo movimento do debate sobre o período, que desejamos
enfatizar neste texto. Trata-se de investir em uma interpretação mais fina
sobre a dinâmica interna da política estado-novista, buscando relativizar
(mas não afastar) a tese da orientação desmobilizadora do regime. Para tanto,
o que se propõe é uma periodização em dois tempos.19 Num primeiro tem-
po, que vai até 1942, teria prevalecido esse autoritarismo desmobilizador,
fundado basicamente na coerção via censura e repressão. Mas, a partir daí,
examinando-se um conjunto de políticas públicas, com destaque para a com-
binatória entre políticas sociais e de propaganda, pode-se dizer que o Esta-
do Novo experimenta um segundo tempo. Nele, a atenção da elite se volta
para a busca de legitimidade e de construção de bases políticas, por meio
da articulação de esforços ideológicos e organizacionais, visando à cons-
trução de um pacto político do Estado com a sociedade, encarnado nas fi-
guras do presidente e povo brasileiro. É exatamente para ressaltar a lógica
desse pacto, bem como seus desdobramentos para a história política do país,
que se insiste na questão desses dois tempos, entendidos sob os signos, pri-
meiro, de uma repressão mais aberta e, em seguida, de uma articulação entre
investimentos de mobilização e controle social.
Essa nova proposta interpretativa, valorando a presença e importância
de disputas políticas durante todo o período (1930-1937 e 1937-1945) e
percebendo a dinâmica da política estado-novista como integrada por dois

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

momentos com características distintas, precisa ser acompanhada com mais


vagar. De início, é bom acentuar que se trata de uma leitura alimentada por
vários estudos, a começar pelos que se dedicam ao acontecimento funda-
dor do Estado Novo: o golpe de novembro de 1937. Nesse episódio, inte-
ressa destacar o contexto político, marcado por uma acirrada campanha
presidencial que possuía, como pano de fundo, articulações conspiratórias
envolvendo expressivas figuras políticas e militares. Um golpe que encerrou,
na verdade, um processo complexo e ao mesmo tempo violento de dispu-
tas entre projetos e lideranças bem diferenciados, tendo como uma de suas
decorrências principais um grande investimento na construção da figura
de chefe de Estado, Getúlio Vargas. Um investimento que, para ser bem
dimensionado, deve considerar que, em 1930, Getúlio era apenas um en-
tre os homens que fizeram a Revolução. Essa condição só começa a se alte-
rar com a chefia do Governo Provisório, embora, nas eleições indiretas para
presidente da República, realizadas pela Assembleia Nacional Constituinte
de 1934, seu nome ainda disputasse votos com os de Borges de Medeiros e
Góis Monteiro.20 Aliás, as eleições de 1934 podem ser entendidas como
um episódio politicamente denso e ilustrativo da instabilidade em que o
país vivia, após uma guerra civil (a Revolução Constitucionalista de 1932)
e a convocação de uma Constituinte, antecedida pela elaboração de um novo
Código Eleitoral.21 Mas como presidente eleito, entre 1935 e 1937, Vargas
continuou enfrentando dificuldades para impor sua liderança e o acompa-
nhamento do processo golpista não indica que, como chefe de um novo
Estado de força, ele fosse a única solução possível. Durante algum tempo,
o tipo de regime que poderia ser implantado — uma ditadura civil ou mi-
litar — deixava em aberto qual seria o seu chefe máximo. Problemas inter-
nos ao Exército, aliados à habilidade e confiabilidade de Vargas perante os
militares e boa parte das lideranças civis, além, é claro, de sua já ampla vi-
sibilidade na sociedade, definem o formato e o líder do Estado Novo.22
Foi, portanto, a partir desse momento que Vargas passou a ser reconhe-
cido como a figura maior da arena política nacional, tendo sua imagem
projetada por uma das mais bem-sucedidas campanhas de propaganda de
nosso país. A despeito dessa imensa vantagem, o ano de 1938 é abalado
pela tentativa de golpe dos integralistas, que invadem o Palácio das Laran-

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ESTADO NOVO: AMBIGUIDADES E HERANÇAS DO AUTORITARISMO NO BRASIL

jeiras, ameaçando a vida do presidente e de sua família, em episódio que


tem grande impacto no país. O período de 1939 a 1941 foi de franco en-
durecimento do regime; porém, já em 1942, o projeto político do Estado
Novo começava a sofrer transformações. Nessa perspectiva, pode-se dizer
que, durante os anos que vão de 1937 a 1941, o Estado Novo se configura
com um certo perfil e, a partir de 1942, torna-se um “novo” Estado Novo.
A dinâmica e o sentido dessa transformação são fundamentais, pois suas
ambiguidades marcam não só o período do pós-1942 como toda a vida po-
lítica brasileira do pós-45. Uma herança que, não casualmente, a República
de 1946-1964 quis desconhecer, considerando o Estado Novo uma exceção
a ser lamentada e que podia ser esquecida sem maiores problemas. Uma
estratégia política que, como se viu, deixou marcas no campo intelectual e
na própria historiografia sobre a República.
O contexto maior dessa grande transformação operada no interior do
Estado Novo tem, antes de tudo, vínculos com o panorama internacional,
ou seja, com o curso da Segunda Guerra Mundial. Desde o início da guerra,
em 1939, o governo brasileiro começara a sofrer pressões americanas, mas,
desde fins de 1941, com Pearl Harbor e a entrada dos EUA no conflito, elas
aumentaram muito. A partir daí, a condução de uma política externa
equidistante entre EUA e Alemanha, como o Brasil vinha praticando durante
os anos anteriores, ficou impossível. No início da década de 1940, as cartas
da barganha política são postas na mesa. Elas consistiam, por parte dos
Estados Unidos, no interesse pelo Nordeste brasileiro como local para insta-
lação de bases militares e, por parte do Brasil, na obtenção de recursos
materiais visando à instalação do projeto siderúrgico de Volta Redonda, além
da modernização do equipamento do Exército. Mas foi só em janeiro de
1942, com a realização da Conferência do Rio de Janeiro, que a situação
ficou definida. Não se tratava ainda de uma declaração de guerra ao Eixo,
embora em fevereiro de 1942 o plano de operações preparado pelo Exército
americano prevendo a ocupação do Nordeste estivesse pronto e, em março,
a permissão para o desembarque fosse concedida pelo governo brasileiro.23
Ou seja, com o alinhamento internacional do Brasil com os Estados
Unidos estavam definitivamente seladas as perspectivas de manutenção de
um projeto político autoritário, conforme fora o do Estado Novo até então.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Tal fato, contudo, guarda em si uma grande ambiguidade, porque dizer que
era necessário transformar a face autoritária do Estado não significava di-
zer que era necessário desalojar as elites políticas desse Estado das posições
de liderança por elas ocupadas. Inclusive porque se as elites brasileiras sem-
pre tiveram dificuldades para realizar alianças políticas mais amplas, também
sempre se mostraram competentes para negociar as condições necessárias
para sua manutenção no poder. Portanto, é o que se deseja destacar, a par-
tir de 1942 ficou claro para as lideranças estado-novistas que as caracterís-
ticas do regime implantado em 1937 estavam se tornando insustentáveis.
Um modelo de Estado forte, antiliberal, nacionalista, com poder concen-
trado no Executivo e com uma estratégia política francamente centrada na
desmobilização não seria capaz de sobreviver ao fim da guerra.
Tal modelo, seguindo os parâmetros autoritários consagrados nos anos
1920 e 1930, não encontrava mais respaldo diante da liderança incontestá-
vel dos EUA nas Américas e de sua provável e anunciada vitória, ao lado
dos Aliados, sobre o Eixo. Por conseguinte, o problema que se colocava
para as elites era como transitar do autoritarismo para a liberal-democra-
cia, elaborando uma estratégia que possibilitasse sua permanência no po-
der. Ou seja, uma transição “por dentro”, concebida e implementada pela
elite intelectual e política do próprio Estado Novo. E, em tal processo, se
as balizas internacionais são inquestionáveis, há igualmente uma série de
fatos da política nacional que dimensionam as mudanças que o Estado Novo
vai sofrer. Esse aspecto é fundamental, porque é exatamente nesse novo
contexto, como mencionado, que vai se articular o que estamos conside-
rando um pacto político entre Estado e povo/classe trabalhadora no Brasil.
É sobre a montagem desse pacto, portanto, que este texto vai se concen-
trar a partir daqui, destacando-o como o núcleo de uma reorientação polí-
tica, com desdobramentos que vão além do período do Estado Novo. Assim,
vale ressaltar que ele envolve, de forma estratégica, uma mudança nas rela-
ções entre Estado e sociedade, redefinindo discursos e práticas e abarcan-
do a questão da incorporação da classe trabalhadora ao cenário político do
país. Porém, antes de se acompanharem, mais detidamente, as condições
de sua implementação, importa relembrar, ainda que brevemente, as inter-
pretações mais correntes a respeito do modelo de relações que teria se es-

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ESTADO NOVO: AMBIGUIDADES E HERANÇAS DO AUTORITARISMO NO BRASIL

tabelecido entre governantes e governados, entre elites e “massas”, durante


o Estado Novo, com o qual essa proposta tem que dialogar.
De modo geral, tal modelo assinalava dois aspectos. Em primeiro lugar,
partia da constatação da nítida intervenção do Estado no processo de orga-
nização dos trabalhadores, situando-a como um ponto de ruptura radical
em um processo “natural”, que tinha curso desde a Primeira República. Tal
intervenção, portanto, além de efetuada por um ator “externo”, era a res-
ponsável pela alteração de um “sentido” que se pressupunha, até certo
ponto, ao menos, como conhecido e previsível. Em segundo lugar, as rela-
ções entre Estado e classe trabalhadora eram compreendidas como regidas
por uma lógica instrumental que trocava benefícios materiais por obediên-
cia política. Nesse raciocínio, de um lado o Estado do pós-1930, por meio
de sua política social do trabalho, era caracterizado como um produtor de
bens de valor nitidamente utilitário: as leis sociais do trabalho. Por outro, a
classe trabalhadora, ao se submeter politicamente em troca dessa legislação,
estaria realizando um cálculo político de custos e benefícios, fundamentalmente
racional e instrumental. Isto é, o trabalhador, por almejar os novos direitos
sociais, acabava aderindo politicamente ao regime e sendo “cooptado e/ou
manipulado” pelo Estado. A classe trabalhadora, nesses termos, era ludi-
briada por palavras e por uma legislação enganosa (muito mais uma promessa
do que uma realidade), perdendo sua autonomia política e mergulhando
numa posição de submissão, que combinava ingenuidade e ignorância, em
doses razoavelmente proporcionais.
Sem afastar a presença dessa lógica material na construção de um mo-
delo de relações entre Estado e classe trabalhadora, o que se pretende, ao
propor uma interpretação que enfatiza a construção de um pacto político
desses dois atores, é afastar o modelo explicativo consagrado na literatura
pela categoria populismo. Ele seria excessivamente simplista, estando an-
corado tanto na ideia de um aparelho de Estado maquiavélico e todo-po-
deroso como na de uma classe trabalhadora desprovida de consciência e
impulsão próprias; de um Estado sujeito histórico e de uma classe trabalha-
dora objeto passivo de sua ação.24 É justamente devido ao compartilhamento
desse tipo de concepção sobre as relações de dominação construídas du-
rante o Estado Novo que os debates sobre o uso da designação de Estado

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

fascista/totalitário para classificá-lo cruzaram-se — ajudando a alimentar ou


a recusar — com os debates sobre o uso da categoria populista. Além disso,
essa última trazia consigo uma inevitável reflexão sobre a questão da repre-
sentação versus cooptação (de líderes sindicais, de políticos, de intelectuais
etc.), bem como sobre os significados da própria palavra manipulação, que
passou a ganhar contornos mais sofisticados para sustentar a proposta do
populismo.
Ou seja, a ideia da manipulação deixava de ter um sentido tão unidire-
cional (significando o poder absoluto do Estado), sendo postulada como
tendo uma ambiguidade constitutiva, por ser quer uma forma de controle
do Estado sobre as massas trabalhadoras, quer uma forma de real atendi-
mento de suas demandas. Dessa forma, embora seja sempre enfatizada uma
dimensão de mascaramento nesse atendimento — devido à falta de força
dos trabalhadores brasileiros, pouco numerosos e sem tradições de luta,
como os europeus —, a “política populista” efetivada pelo Estado Novo
fora vivenciada pela classe trabalhadora como uma possibilidade de acesso
a direitos, eminentemente sociais. Contraditoriamente, portanto, quando
no Brasil os direitos políticos (e também os civis) encontravam-se legalmente
suspensos — não havendo formas de representação no campo da política
formal —, teria havido a incorporação de um ator coletivo tão central para
o mundo urbano-industrial como era a classe trabalhadora. Assim, o que se
pode chamar de modelo populista de interpretação das relações entre go-
vernantes e governados, mesmo quando reconhecia a ambiguidade da
“manipulação”, entendia que os dominados podem e são, com frequência,
praticamente destituídos de autonomia e consciência, quando submetidos a
estratégias políticas próprias da sociedade de massas. Esse fenômeno políti-
co-cultural incluiria uma certa seleção de variáveis histórico-sociológicas, bem
como um certo perfil de atores, presente no Brasil dos anos 1930 e 1940:
uma classe trabalhadora fraca e sem consciência; uma classe dirigente cindida
e em crise de hegemonia após a Revolução de 1930; e um líder carismático
cujo apelo ideológico se fortaleceu, sobretudo na ditadura do Estado Novo.
Afastar essa abordagem implicava discutir seus postulados e, em particu-
lar, considerar que os trabalhadores também tinham uma posição política ativa,
ainda que sem recusar a força do Estado que sobre eles se abatia. A dificulda-

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ESTADO NOVO: AMBIGUIDADES E HERANÇAS DO AUTORITARISMO NO BRASIL

de, teórica e histórica, de utilização do conceito de populismo residia nessa


perspectiva de construção de relações sociais, pois tudo que era qualificado
como “populista” enfatizava uma dimensão de “manipulação” do Estado sobre
as “massas”, mesmo quando se reconhecia sua ambiguidade. Dessa forma,
considerar os trabalhadores interlocutores do Estado era reconhecer um di-
álogo entre atores com recursos de poder diferenciados, mas igualmente ca-
pazes de se apropriar e reler as propostas políticas um do outro. Tal operação
afastava a dicotomia, muito vigente, entre autonomia e heteronomia da clas-
se trabalhadora, como forma de designar e explicar a ausência de lideranças
“verdadeiras” e de sua “falta de consciência” ou sua “consciência possível”.
Esse aspecto era importante, porque se vinculava à explicação do sucesso das
lideranças políticas populistas, tendo o poder de colocar sob suspeição aque-
les que com eles se relacionavam, no caso, as lideranças sindicais “cooptados”,
isto é, pelegos: ingênuos e/ou traidores. Ser cooptado — por definição “não
representar” — era estar em uma relação em que não se possuía qualquer
poder, em que se estava sendo “manipulado” e transformado em objeto in-
capaz de negociação.
Por essas inúmeras razões, vinculadas ao efeito simplificador que o uso
do conceito populismo gerava, seu amplo uso foi sendo também questio-
nado, e sua constituição como categoria explicativa, mais bem investigada.
Esses esforços resultaram, de forma muito esquemática, ou em seu abando-
no por alguns estudos ou em seu uso com muito mais cuidado. No primei-
ro caso, está nossa própria pesquisa que propõe a designação de pacto
político trabalhista para entender as relações construídas pelo Estado e pela
classe trabalhadora no Brasil, nesse período. Esse pacto precisaria ser en-
tendido a partir de duas dimensões essenciais: uma simbólica e outra orga-
nizacional. A dimensão simbólica se traduziria pela construção de um
cuidadoso discurso de propaganda do regime, que marcaria profundamen-
te a cultura política brasileira, desde então. Tal discurso, por conseguinte,
não está sendo postulado como uma construção de efeitos meramente
conjunturais, embora se possa datá-lo e mapear as condições específicas de
sua produção. Ele deitaria raízes profundas numa tradição do pensamento
social brasileiro, extrapolando em muito a década de 1940 e “inventando”
uma matriz para se pensarem as relações entre governantes e governados

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

no Brasil. A dimensão organizacional é igualmente fundamental e se tradu-


ziria pela criação de um instrumental institucional em que uma das faces é
o modelo de sindicalismo corporativo, e a outra, seu acoplamento a um
sistema político-partidário. Ou seja, a estratégia da transição “por dentro”,
implementada durante o Estado Novo, vislumbra, a curto prazo, os anos
1940 e a saída do autoritarismo e, a longo prazo, os desdobramentos polí-
ticos inevitáveis da instalação da liberal-democracia no país, com o retorno
do voto, dos partidos políticos e do Parlamento.
Retomando, com mais vagar, a dinâmica de construção desse pacto po-
lítico, é interessante examinar, mais detidamente, o discurso de propagan-
da então elaborado e divulgado. Acreditamos que esse é um momento
privilegiado para se observar a qualidade e a eficácia da construção de uma
ideologia política, a que chamamos trabalhismo, que se constituirá em
uma das bases privilegiadas da liderança de Vargas. O chefe do Estado Novo
é provavelmente, até hoje, nosso melhor produto de marketing político. A
campanha que, sobretudo a partir de 1942, se articula em torno de seu nome
é extremamente bem concebida e executada. Ela combina uma cuidadosa
estratégia de mobilização dos trabalhadores com a manutenção de todo um
esforço de controle que se exprime pela diluição e, se necessário, pela re-
pressão às opções de organização e expressão políticas que se mantivessem
insistentes. O centro desse esforço é o Departamento Nacional do Traba-
lho (órgão do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio), logicamente
mantendo contatos e tendo o apoio do Departamento de Imprensa e Pro-
paganda (DIP) e do aparelho policial. Um dos pontos altos dessa orques-
trada propaganda são os discursos que o ministro do Trabalho, Alexandre
Marcondes Filho, faz semanalmente pelo rádio no programa Hora do Brasil.
O título dessas “conversas” era Falando aos trabalhadores do Brasil e elas se
sucederam, praticamente sem interrupções, de meados de 1942 até mea-
dos de 1945. A estrutura dessas falas, sempre coloquiais e didáticas, estava
centrada numa interpelação dirigida à classe trabalhadora, que a colocava
no centro do cenário político nacional.25
Mas o fato fundamental a se ressaltar é que esse discurso se apropriava
de toda uma série de demandas e práticas experimentadas pelos trabalha-
dores ao longo das décadas da Primeira República, dando-lhes novos signi-

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ficados. É, portanto, com tal perspectiva que se deve repensar a ideia de


uma ruptura radical produzida pela intervenção estatal na trajetória do
movimento sindical brasileiro. Ou seja, durante o Estado Novo, o que se
observa é um esmerado esforço na construção de um discurso de propa-
ganda do regime e de Vargas, baseado na política social de regulamentação
do mercado de trabalho, que omite um passado de lutas e reivindicações
dos trabalhadores. Uma operação que retoma a tradição do movimento
operário, em outro contexto, apresentando suas antigas demandas como
“doações” do Estado: como benefícios antecipados, concedidos antes mes-
mo de serem pedidos.
É o que a literatura designou como “ideologia da outorga”, numa chave
que prioriza uma pertinente crítica ao discurso governamental, mas que não
explora suas virtualidades como recurso de poder. Justamente por isso,
tornava-se fundamental ressaltar as continuidades entre o pré e o pós-1930,
apontando que uma das razões do sucesso do discurso do Estado Novo foi
a “leitura” que empreendeu das lutas dos trabalhadores do pré-1930. Isto
é, que foi por meio dessa estratégia — que ao mesmo tempo mobilizava e
obscurecia a memória operária — que a legislação trabalhista, previdenciária
e sindical foi apresentada à população de trabalhadores brasileiros como
uma “dádiva”, uma “ação antecipada” do Estado.
Uma operação nada banal e cheia de significados, pois há muita força
política no ato de doar, como ensina Marcel Mauss. Sem desprezar essa
chave explicativa ou considerá-la indicadora de mera manipulação, a ideia
é tratar esse pacto como uma forma de “comunicação política”, fundada
na apresentação do “direito social como dádiva”, por meio da qual se pro-
duz adesão e legitimidade. Isto é, uma ideia aparentemente paradoxal — a
de “direito como favor” — que envolve um circuito de “dar, receber e retri-
buir”, que se estrutura por meio de uma lógica político-cultural, incom-
preensível dentro dos marcos de um mercado político orientado apenas por
interesses instrumentais. Uma lógica política que combina crenças e inte-
resses, tanto por parte dos dominantes quanto dos dominados, embora com
evidente desequilíbrio de poder entre eles. Nesse contexto, pode-se enten-
der o esforço do Estado Novo na divulgação dos direitos trabalhistas, re-
correndo aos mais modernos meios de comunicação da época, bem como

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

usando recursos humanos altamente qualificados. É certamente muito difícil


dimensionar o tipo de recepção de tais iniciativas. Mas, seguindo orientações
dos estudos de história cultural, sabe-se que toda mensagem é recebida e
apreendida por um público de forma ativa, segundo seus próprios referen-
ciais. Não há público passivo e, portanto, entre a intenção da mensagem e
o entendimento do público há um grande espaço para novas elaborações.
Dessa maneira, pode-se entender que outra razão do sucesso desse dis-
curso foi a leitura que os trabalhadores de imediato fizeram dele, “apro-
priando-se da dádiva” e cobrando sua execução em nome da lei. A “ideologia
da outorga”, trabalhada nessa perspectiva, permite identificar a montagem
desse modelo de relações políticas como um dos elementos fundamentais
do projeto de transição mais amplo que estava sendo conduzido pelas eli-
tes do Estado Novo. Tal modelo estabelecia, basicamente, uma interlocução
entre uma autoridade benevolente — materializada na pessoa de Vargas —
que concedia ao povo/classe trabalhadora um conjunto de direitos sociais,
independentemente de suas lutas e reivindicações. Por meio de uma rela-
ção de troca — de troca de presentes, de bens materiais com valor simbó-
lico — a classe trabalhadora estava sendo incorporada como ator político,
reconhecendo a liderança de Vargas e, ao mesmo tempo, “apropriando-se”
do discurso de propaganda do regime.
Assim, é preciso entender a “obediência” dos trabalhadores, quer como
uma possibilidade de efetivação de controles do Estado sobre suas organi-
zações, quer como um canal de comunicação política que se abria para elas,
estabelecendo um novo lugar de interlocutor político, reconhecido e há
muito perseguido. Ou seja, se há, embasando a lógica de construção desse
pacto, uma dimensão coercitiva por parte do Estado, e uma dimensão uti-
litária por parte das organizações sindicais — pois os trabalhadores “rece-
bem benefícios”, acionados por uma série de políticas públicas — tal lógica
não esgota seu sentido político. A expansão da legislação trabalhista e
previdenciária; a instituição da carteira de trabalho, da estabilidade do em-
prego e do salário mínimo; a criação da Justiça do Trabalho; a inauguração
de restaurantes para trabalhadores; a construção de conjuntos habitacionais
e de colônias de férias são bons exemplos para se referenciar sua dimensão
material. Mas há nesse pacto, igualmente, uma lógica simbólica, e é por

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meio dela que se expressa o reconhecimento, pelo Estado, da identidade


social e política dos trabalhadores brasileiros. É por meio dessa dimensão
que se abre o espaço da política à participação dos trabalhadores, ainda que
com muitos limites. É, portanto, em função dessa dupla lógica — material
e simbólica — que Estado e povo se reconhecem mutuamente, o que per-
mite e explica que os trabalhadores se dirijam ao Estado “reclamando” di-
reitos que são seus e devem ser cumpridos por empresários e por autoridades
governamentais.26 Esse pacto político-trabalhista, pensado ao longo do tem-
po, possui de modo integrado, mas não redutível, tanto a palavra e a ação
do Estado (que sem dúvida teve o poder de desencadeá-lo) como a palavra
e a ação da classe trabalhadora, devendo-se ressaltar que nenhum dos dois
atores era uma totalidade harmônica.
O último ponto a ser tratado é a dimensão organizacional desse pacto
político. Ela é fundamental, porque toda essa construção está alicerçada na
montagem da estrutura do sindicalismo corporativo no Brasil. É lógico que,
antes dos anos 1940, já existiam leis instituindo um modelo de organiza-
ção sindical de tipo corporativo no Brasil e também existiam sindicatos e
federações de “empregados” e “empregadores”, reconhecidos pelo Minis-
tério do Trabalho. A questão é que a maioria absoluta desses sindicatos não
mobilizava nem representava os trabalhadores. Por isso, inclusive, eram cha-
mados de “sindicatos de carimbo”, tanto pelos trabalhadores quanto pela
própria burocracia governamental, inclusive a do Ministério do Trabalho.
Contudo, durante um bom tempo, esse fato não preocupou o ministério
nem Vargas e é preciso entender por que passou a incomodar justamente
a partir de 1942. Ora, a montagem do discurso trabalhista, centrado na
afirmação da cidadania expressa pelos direitos sociais, precisava de amar-
ras sólidas e essas só poderiam ser os sindicatos. Mas sindicatos que
possuíssem graus efetivos de legitimidade, caso contrário seriam inúteis
para a implementação de uma estratégia de saída do autoritarismo. Não é
casual, portanto, que exatamente nesse momento fossem implementadas
iniciativas para estimular a sindicalização e dar vitalidade aos sindicatos e
a suas lideranças. Dentre elas, uma das mais importantes e duradouras foi a
criação do imposto sindical, medida que transformaria os sindicatos em
reais dispensadores dos benefícios que a legislação garantia e o discurso

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

trabalhista propagava.27 Outra é a formação da Comissão de Organização


Sindical, que deveria estimular a filiação de trabalhadores aos sindicatos
e treinar lideranças capazes de atuar conforme os novos direitos traba-
lhistas e previdenciários.
Por fim, é desse momento a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT),
que era chamada por Marcondes Filho de a “bíblia do trabalhador”. Ele
dizia, pelo rádio, que cada trabalhador devia ter um exemplar em sua me-
sinha de cabeceira e devia lê-la um pouco todos os dias, para que se imbuís-
se da posição de cidadão da democracia social brasileira. Essa ativação do
sindicalismo corporativo, municiada, de um lado, pelo imposto sindical
e, de outro, pelo discurso trabalhista, começa a deslanchar a partir de 1942.
É extremamente difícil ter algum tipo de avaliação precisa sobre o sucesso
desse empreendimento, mas é significativo verificar o empenho do apa-
relho estatal e entendê-lo como um sinal do quanto acreditava e apostava
nos resultados de tal política. Isso porque toda essa montagem precisaria
estar azeitada para que a transição do autoritarismo para a liberal-
democracia se fizesse sem maiores problemas. Além disso, o sindicalismo
corporativista deveria articular-se cuidadosamente com o renascimento
de um sistema partidário. É nesse mesmo momento, portanto, que a ques-
tão dos partidos políticos é levantada pela cúpula estado-novista, com a
discussão de quais seriam as relações entre sindicatos e partidos: entre a
cidadania social dos benefícios trabalhistas e dos sindicatos corporativistas
já existente e a cidadania política do direito de voto e dos partidos polí-
ticos que estava por vir.
O primeiro dos partidos que se forma na conjuntura do fim do Estado
Novo é a União Democrática Nacional (UDN), que, como um partido de
oposição, logicamente, não estava previsto pelos mentores da transição.
Mas, a partir de sua existência e do lançamento de um candidato à Presi-
dência da República — o brigadeiro Eduardo Gomes — não se podia adiar
mais a criação de partidos “governistas”. Em face da impossibilidade de
um único partido que conjugasse todos os líderes políticos nacionais e
regionais, e ainda agregasse o esquema criado pelo trabalhismo-corporati-
vismo, emergem dois: o Partido Social Democrático (PSD), como espaço
privilegiado para as articulações dos líderes políticos estaduais, e o Partido

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ESTADO NOVO: AMBIGUIDADES E HERANÇAS DO AUTORITARISMO NO BRASIL

Trabalhista Brasileiro (PTB), como um partido para o povo organizado


nas bases do sindicalismo corporativista.28
Nesse sentido, a herança que o Estado Novo deixou é muito sólida e
complexa. Sem dúvida, esse foi um período que modernizou a administra-
ção pública e que deixou muitos saldos em termos de desenvolvimento eco-
nômico e social, a despeito de ter restringido a cidadania civil e eliminado
a cidadania política. Portanto, se os trabalhadores reconheceram e ainda
reconhecem Getúlio Vargas como uma liderança vinculada ao acesso a di-
reitos e à cidadania, esse fato precisa ser entendido e enfrentado. Obvia-
mente, os trabalhadores e o povo brasileiro perderam muito durante a
ditadura do Estado Novo, mas, por outro lado, receberam um reconheci-
mento até então por eles desconhecido. E é essa ambiguidade um dos maio-
res legados do período, permanentemente desafiando o historiador.

Notas

1. CAMARGO, Aspásia et alii. O golpe silencioso. Rio de Janeiro: Rio Fundo, 1989.
2. HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São Pau-
lo: Companhia das Letras, 1995, p. 115.
3. Um balanço da produção historiográfica sobre o Estado Novo, que estará sendo
aqui usado, foi feito por CAPELATO, Maria Helena Rolim. “Estado Novo: no-
vas histórias”, in: FREITAS, Marcos César de (org.). Historiografia brasileira em
perspectiva. São Paulo: Contexto, 1998.
4. O livro, da Jorge Zahar, foi publicado como o volume I do projeto O feixe e o
prisma: uma revisão do Estado Novo. O volume I, O feixe com o qual vamos
trabalhar, está centrado na questão do autoritarismo e o volume II, O prisma,
estaria voltado para temas do Estado Novo e reuniria artigos de outros partici-
pantes do seminário. O volume I, como se pode verificar pelas citações bibliográ-
ficas de vários artigos, recebeu artigos concluídos bem depois de 1987 e o volume
II não chegou a ser publicado.
5. O outro artigo que também faz reflexões historiográficas é PESAVENTO, Sandra.
“Historiografia do Estado Novo: visões regionais”, in: SILVA, José Luiz Werneck
da (org.). O feixe: o autoritarismo como questão teórica e historiográfica. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991, pp. 132-139. O artigo de Gertz o antecede,
pp. 111-131.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

6. O CPDOC, da Fundação Getulio Vargas, foi organizado em 1973, a partir dos


arquivos privados de Getúlio Vargas. A partir de então, passou a reunir grande
quantidade de documentação para a pesquisa e também a produzir análises sobre
o período do pós-1930, priorizando esses documentos. A observação de Gertz
está na p. 113.
7. GERTZ, René. “Estado Novo: um inventário historiográfico”, in: SILVA, José
Luiz Werneck da (org.), op. cit., p. 112.
8. LAMOUNIER, Bolívar, “Formação de um pensamento autoritário na Primeira
República”, in: FAUSTO, Boris (org.). História Geral da Civilização Brasileira.
São Paulo: Difel, vol. 9, 1977; GOMES, Angela de Castro; OLIVEIRA, Lucia
Lippi; VELLOSO, Mônica Pimenta. Estado Novo: ideologia e poder. Rio de Ja-
neiro: Jorge Zahar, 1982.
9. GERTZ, René. “Estado Novo: um inventário historiográfico”, in: SILVA, José
Luiz Werneck da (org.), op. cit., p. 113.
10. Não é o caso de traçar maiores informações sobre esse processo, já assinalado em
muitos artigos, entre eles um de minha própria autoria: GOMES, Angela de
Castro. “Política: história, ciência, cultura etc.”. Estudos Históricos, Rio de Ja-
neiro, vol. 9, nº 17, 1996, pp. 59-84.
11. PANDOLFI, Dulce (org). Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: FGV, 1999.
12. Trata-se de LEOPOLDI, Maria Antonieta P. “Estratégias de ação empresarial em
conjunturas de mudança política”, in: PANDOLFI, Dulce, op. cit.
13. PANDOLFI, Dulce, op. cit., p. 11.
14. GERTZ, René. “Estado Novo: um inventário historiográfico”. SILVA, José Luiz
Werneck da (org.), op. cit., p. 112.
15. O artigo faz parte do livro organizado por FREITAS, Marcos César de (org.), op.
cit. Vide as notas nºs 6 e 7, pp. 446-7.
16. Estarei, a partir deste ponto, trabalhando e retomando, privilegiadamente, um
conjunto de textos de minha autoria, em que discuto e proponho interpretações
sobre as questões acima mencionadas.
17. SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Cidadania e justiça. Rio de Janeiro: Campus,
1979.
18. O livro Estado Novo: ideologia e poder, já citado, deve ser assinalado pelo papel
que cumpre nesse debate da questão do fascismo/autoritarismo no Brasil.
19. Essa é uma das teses do livro GOMES, Angela de Castro. A invenção do
trabalhismo. 3ª ed. Rio de Janeiro: FGV, 2005, cuja 1ª edição é de 1988.
20. Borges de Medeiros era então o interventor do estado do Rio Grande do Sul e o
general Góis Monteiro, que fora o comandante em chefe das forças revolucioná-
rias de 1930, um dos maiores líderes do Exército.

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ESTADO NOVO: AMBIGUIDADES E HERANÇAS DO AUTORITARISMO NO BRASIL

21. Esse Código Eleitoral tornou o voto obrigatório e estendeu esse direito às mulheres.
22. Sobre o assunto, ver CAMARGO, Aspásia et alii, op. cit.
23. MOURA, Gerson. Autonomia na dependência: a política externa brasileira de
1935 a 1942. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980; e MOURA, Gerson. Suces-
sos e ilusões: relações internacionais durante e após a Segunda Guerra Mundial.
Rio de Janeiro: FGV, 1991.
24. Uma crítica a tal interpretação, consagrada no conceito de populismo, está em
GOMES, Angela de Castro, “Populismo e ciências sociais no Brasil: notas sobre
a trajetória de um conceito”, in: FERREIRA, Jorge (org.). O populismo e sua
história: debate e crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
25. Os discursos proferidos pelo ministro eram irradiados durante o programa Hora
do Brasil, sendo publicados, a seguir, no jornal A Manhã e, por fim, integravam o
Boletim do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio.
26. Sobre como os trabalhadores se dirigiram ao presidente através de correspon-
dência, ver FERREIRA, Jorge. Trabalhadores do Brasil: o imaginário popular. Rio
de Janeiro: FGV, 1997.
27. Sobre o impacto e a permanência do imposto sindical, ver GOMES, Angela de Cas-
tro; D’ARAUJO, Maria Celina, “A extinção do imposto sindical: demandas e contra-
dições”. Dados. Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, vol. 36, nº 2, 1993.
28. Sobre a criação do PTB e suas relações com Getúlio Vargas, ver GOMES, Angela de
Castro; D’ARAÚJO, Maria Celina. Getulismo e trabalhismo. São Paulo: Ática, 1989.

Bibliografia

CAMARGO, Aspásia et alii. O golpe silencioso. Rio de Janeiro: Rio Fundo, 1989.
CAPELATO, Maria Helena Rolim. “Estado Novo: novas histórias”, in: FREITAS,
Marcos César de (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. São Paulo: Con-
texto, 1998.
FERREIRA, Jorge. Trabalhadores do Brasil: o imaginário popular. Rio de Janeiro: FGV,
1997.
GOMES, Angela de Castro. “Política: história, ciência, cultura etc.” Estudos Históri-
cos, Rio de Janeiro, vol. 9, nº 17, 1996, pp. 59-84.
——. “Populismo e ciências sociais no Brasil: notas sobre a trajetória de um conceito”,
in: FERREIRA, Jorge (org.). O populismo e sua história: debate e crítica. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
——. A invenção do trabalhismo. 3ª ed. Rio de Janeiro: FGV, 2005.
——; OLIVEIRA, Lucia Lippi; VELLOSO, Mônica Pimenta. Estado Novo: ideologia e
poder. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1982.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

——; D’ARAUJO, Maria Celina. Getulismo e trabalhismo. São Paulo: Ática, 1989.
——; D’ARAUJO, Maria Celina. “A extinção do imposto sindical: demandas e contra-
dições”. Dados. Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, vol. 36, nº 2, 1993.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo:
Companhia das Letras, 1995.
LAMOUNIER, Bolívar. “Formação de um pensamento autoritário na Primeira Repú-
blica”, in: FAUSTO, Boris (org.). História Geral da Civilização Brasileira. São Pau-
lo: Difel, vol. 9, 1977.
MOURA, Gerson. Autonomia na dependência: a política externa brasileira de 1935 a
1942. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
——. Sucessos e ilusões: relações internacionais durante e após a Segunda Guerra Mun-
dial. Rio de Janeiro: FGV, 1991.
PANDOLFI, Dulce (org). Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: FGV, 1999.
SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Cidadania e justiça. Rio de Janeiro: Campus, 1979.
SILVA, José Luiz Werneck da (org.). O feixe: o autoritarismo como questão teórica e
historiográfica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.

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CAPÍTULO 2 Celebrando a “Revolução”: as Marchas
da Família com Deus pela Liberdade
e o Golpe de 19641
Aline Presot*

*Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Autora de
“Conservadores em desfile”. Revista de História, vol. 8, pp. 60-64, 2006.

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Nos primeiros anos da década de 1960, o país viveu um momento de eferves-
cência política e cultural dos mais marcantes. As aspirações por mudança
social e a ideia de “revolução”,2 não apenas na política e nas instituições
como na cultura, nos costumes e nas expressões artísticas, ganhavam no-
vos sentidos e tonalidades mais fortes.
Mas eram também tempos de guerra fria, em que imagens3 valorizadoras
do ideário “ocidental e cristão” foram se reconstituindo e se difundindo,
especialmente por meio de certos grupos ou instituições que se mostravam,
em diferentes graus e segundo interesses também diversos, cada vez mais
preocupados com o “perigo comunista”, que se lhes afigurava mais próxi-
mo desde a Revolução Cubana, em 1959, e a opção por um governo socia-
lista naquele país, em 1961. Nesse mesmo ano, após a renúncia de Jânio
Quadros, a posse do nacionalista João Goulart na presidência foi recebida
com grande alarmismo. Sua herança política e suas ligações com os sindicatos
faziam com que fosse tido, por determinados estratos do conservadorismo
político, por “esquerdista”.4 A partir daquele momento, o país atravessaria
uma das fases de mais agudo anticomunismo na história do século XX.5
Nesse cenário, os movimentos sociais conheceram um crescimento sig-
nificativo, quando grupos de orientação ideológica oposta se enfrentaram
em alguns dos maiores embates de nossa história política. De um lado, seg-
mentos identificados com o conservadorismo político, que se articulavam
numa intensa campanha de mobilização da opinião pública pela desestru-
turação do governo João Goulart. De outro, representantes das esquerdas
que, unidos em torno de um projeto reformista, passaram, paulatinamente,
por um processo de radicalização de suas propostas.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Este artigo tem como propósito analisar um dos momentos de maior ex-
pressão da organização conservadora, que foi a realização das Marchas da
Família com Deus pela Liberdade. Enquanto fenômeno social, as Marchas
inserem-se em um momento em que diversificados setores da população
saíram às ruas em repúdio ao governo nacionalista de João Goulart, que,
segundo acreditavam, tinha aspirações comunizantes e caminhava para a
destruição dos valores religiosos, patrióticos e morais da sociedade. Tais
passeatas surgiram como uma espécie de pedido às Forças Armadas por uma
intervenção salvadora das instituições e, posteriormente ao 31 de março
de 1964, passaram por uma ressignificação de seu discurso, transforman-
do-se numa demonstração de legitimação do golpe civil-militar. As Marchas
acabaram por constituir algumas das maiores manifestações públicas de nossa
história política e tornaram-se emblemáticas não só pelo número de manifes-
tantes como também pela notável estrutura de propaganda a serviço de seus
organizadores e capacidade de mobilização popular para a ação política.6
A perspectiva da valorização analítica das relações entre as escolhas polí-
ticas dos indivíduos — no presente caso, a opção por aderir a um movi-
mento que buscava a derrubada de um governo legalmente estabelecido e,
posteriormente, a uma intervenção militar nas instituições democráticas —
e o conjunto de crenças e valores que as orientaram, a maneira pela qual
foram eleitos e manipulados tais bens simbólicos,7 foram um dos vetores
principais do estudo das Marchas da Família com Deus pela Liberdade.

A RADICALIZAÇÃO DA LUTA POLÍTICA E AS MARCHAS DA FAMÍLIA


COM DEUS PELA LIBERDADE

Durante os anos do governo João Goulart (1961-1964), a sociedade bra-


sileira assistiu a um considerável crescimento e amadurecimento da mo-
bilização popular em torno de projetos políticos. Camponeses, operários,
estudantes e militares protagonizaram greves, ocupações de terra e ma-
nifestações públicas com repercussões até então inéditas na nossa histó-
ria política.

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CELEBRANDO A “REVOLUÇÃO”

Grande parte desses movimentos sociais estreitou seus interesses em torno


do projeto das reformas de base, projeto esse que compreendia mudanças
na estrutura agrária, urbana, na educação, reformas institucionais, como a
extensão do direito de voto aos analfabetos, além de políticas de controle
do capital estrangeiro e a nacionalização de alguns setores da economia. Os
partidos de orientação de esquerda — nacionalistas, trabalhistas e comunistas
— além de organismos sindicais, como o Comando Geral dos Trabalhado-
res (CGT), entidades estudantis e ligas de trabalhadores rurais empunha-
ram com entusiasmo a bandeira das reformas, que nos anos finais do governo
Jango ganhou contornos mais radicais. Acirraram-se, assim, tensões políti-
cas e pressões sobre o governo, que desde seu início foi marcado por crises
político-institucionais, como também pela crise econômica, em parte he-
rança das administrações anteriores.
Num outro espectro situava-se uma classe média amedrontada com a
contínua perda de poder aquisitivo e com as ditas tendências “esquer-
dizantes” do presidente, tão alardeadas pelas forças conservadoras,8 e um
empresariado cada vez mais descontente, que ansiava por medidas que
pudessem conter o avanço das forças populares e dar um novo equilíbrio
ao quadro econômico.
Os grupos conservadores, que havia alguns anos denunciavam a iminência
do “perigo comunista” no país, perceberam a necessidade de intensificar
sua campanha de oposição ao governo e de arregimentação da opinião pú-
blica. Esses grupos acreditavam numa infiltração comunista no governo,
bem como nas Forças Armadas, nos partidos, sindicatos e nas organizações
estudantis, responsável pelas mobilizações populares. Os opositores do
governo Jango usaram referências simbólicas para caracterizar o “inimigo
comunista”, como a alusão aos símbolos católicos, relacionando o comu-
nismo à sombra, às trevas, ao medo e ao terror, dizendo-o capaz de des-
truir os três pilares da sociedade livre: Deus, Pátria, Família.9
O constante esforço de conciliação das demandas dos setores conserva-
dores e nacionalistas levaria o presidente, em pouco tempo, ao isolamento
político. Os setores de direita temiam a suposta tendência “esquerdista” de
Jango, enquanto as esquerdas passavam a identificar suas propostas com
mero exercício de retórica. A realização do Comício pelas Reformas, no

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Rio de Janeiro, consistiu numa tentativa de reaproximação das massas, que


se encontravam cada vez mais descrentes de seu governo. Foi sua última
manobra política de busca de apoio.
As forças governistas esperavam daquela noite de sexta-feira, 13 de março
de 1964, a difícil tarefa de unir suas bases, que se chocavam mais violenta-
mente a cada dia. E, de fato, a realização do comício acabou por superar
até as expectativas mais otimistas, reunindo nos arredores da Central do
Brasil cerca de 200 mil pessoas. O comício, organizado pelo CGT, durou
cerca de oito horas, período durante o qual discursaram líderes estudantis,
como o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), José Serra, o
governador de Pernambuco, Miguel Arraes, Lindolfo Silva, presidente da
Confederação dos Trabalhadores Rurais, além do líder nacionalista Leonel
Brizola. A presença do ministro da Justiça, Abelardo Jurema, bem como
dos ministros militares, entre eles o da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, tinha
importante significado, era uma clara tentativa de demonstração do com-
prometimento das Forças Armadas com a legalidade. Para muitos dos mili-
tares antijanguistas que acompanhavam os acontecimentos, tal apoio
adquiria ares de envolvimento das Forças com um golpe antidemocrático.10
Enquanto Jango selava o compromisso definitivo com as reformas, assi-
nando seus principais decretos, muitas famílias da Zona Sul do Rio de Janeiro
respondiam a uma convocação de se acender uma vela pelo afastamento
do país das aspirações comunizantes. Mulheres de São Paulo se reuniram e
rezaram o terço na Sé.
A resposta do presidente a esses ataques viria como crítica aos que “ex-
ploram os sentimentos cristãos do povo na mistificação de um anticomu-
nismo” e na declaração de que “não podem ser levantados os rosários da fé
contra o povo, que tem fé numa justiça social mais humana e na dignidade
de suas esperanças”. Foi o bastante para que seus adversários se organizas-
sem numa ação espetacular. A Marcha da Família com Deus pela Liberdade
seria um movimento de desagravo ao rosário insultado por João Goulart.
Na verdade, as mulheres da Campanha da Mulher pela Democracia (Camde),
associação feminina do Rio de Janeiro,11 chegaram mesmo a distorcer suas
palavras, afirmando ter ele dito que “os terços e a macumba da Zona Sul
não teriam poder sobre ele”.12

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CELEBRANDO A “REVOLUÇÃO”

As diferentes versões acerca da arquitetura das Marchas da Família com


Deus pela Liberdade convergem ao delegar à irmã Ana de Lurdes (Lucília
Batista Pereira, neta de Rui Barbosa) a ideia do Movimento de Desagravo
ao Rosário, que, como foi mencionado anteriormente, deu origem às Mar-
chas. Tal iniciativa foi compartilhada pelo deputado Cunha Bueno (PSD),
que, indignado com o discurso proferido por Goulart na Central do Brasil
em 13 de março, procurou a irmã e, recebida a sugestão, partiu naquela
mesma noite para os preparativos da Marcha paulista. A data da manifesta-
ção foi também escolhida segundo as diretrizes da irmã: 19 de março, dia
de São José, padroeiro da família e da Igreja Universal.13
Seus organizadores aguardavam um número de manifestantes que pudes-
se, ainda que por uma pequena margem, superar o comparecimento ao Co-
mício da Central, mas o que não poderiam prever era que cerca de 500 mil
pessoas congestionariam as ruas da capital paulista em manifestação pública
pela derrubada do presidente. A Marcha seria também uma forma de dizer
às Forças Armadas que era chegado o momento de se intervir na política, o
que, segundo seus organizadores, representaria um anseio do povo. Senhoras
com rosários em punho rezavam para que se afastasse do país o “perigo
comunista”. A multidão seguia num coro: “Tá chegando a hora de Jango ir
embora.” Carregavam faixas e cartazes com mensagens anticomunistas e
contra o governo, algumas delas lembravam: “Trinta e dois mais trinta é
dois igual a sessenta e quatro”, numa referência à Revolução Constitucio-
nalista. Também no sentido de homenagem à Revolução, duzentos ex-com-
batentes de 32 abriram as fileiras da Marcha, numa “trincheira democrática”,
que seguiu ao som de Paris Belford, consagrado como o hino da Revolução.14
Patrocinada pelos empresários aglutinados no Ipes (Instituto de Pesquisas
e Estudos Sociais),15 a manifestação contou com a presença maciça e lide-
rança dos grupos femininos, algumas das altas patentes militares, um estrato
considerável do conservadorismo político, além de importantes represen-
tações do clero tradicional.
Fundado em novembro de 1961, o Instituto de Pesquisas e Estudos So-
ciais reunia em seus quadros membros das elites empresariais favoráveis à
abertura da economia ao capital estrangeiro. À semelhança da composição
da Marcha da Família acima descrita, para o Ipes confluíram os menciona-

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

dos setores de oposição ao governo João Goulart (políticos conservadores,


alguns membros do clero, assim como militares, especialmente aquele se-
tor ligado à Escola Superior de Guerra).
Por trás da inocente sigla de “instituto de pesquisas e estudos” procura-
va-se ocultar o que de fato se constituiu num amplo e criterioso trabalho
pela desestabilização do governo Goulart, em defesa de um projeto políti-
co-econômico mais adequado às orientações das elites16 que se desenvol-
veu em várias frentes. Durante os anos que antecederam o golpe de 1964,
o Ipes ampliou sua estrutura e rede de relações ao fundar “filiais” em im-
portantes capitais, organizando palestras e seminários em diversos pontos
do país, além de arquitetar um poderoso esquema de propaganda, que ia
da distribuição de livros e folhetos até a transmissão de um programa se-
manal de debates, chamado “Peço a palavra”, pelo Canal 2, na TV Cultura
de São Paulo,17 além dos filmes feitos especialmente para o cinema.
Entre os anos de 1962 e 1964, o Grupo de Opinião Pública do Ipes18
produziu 14 filmes de duração aproximada de oito a dez minutos, todos
eles criados pelo repórter fotográfico e cineasta Jean Manzon, colaborador
do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) durante a ditadura
Vargas.19 Os temas versavam, em geral, sobre os perigos que pairavam so-
bre a democracia e a liberdade brasileiras, os problemas socioeconômicos e
políticos por que passava o país, dando também a receita por meio da qual
solucioná-los, extirpando o “inimigo” comunista, responsável por todos os
males que afligiam a nação. Os filmes procuravam demonstrar como, op-
tando pela “democracia ocidental e cristã”, a sociedade brasileira se torna-
ria mais rica e equilibrada, sem que instituições como a Família e a Igreja
Católica fossem ameaçadas. Também bastante frequentes eram as compara-
ções grosseiras do comunismo com os regimes nazifascistas. Os filmes pro-
duzidos eram espalhados por todos os cinemas para serem exibidos em
sessões regulares ou especiais, a partir de um acordo feito com as empresas
distribuidoras e com os exibidores.20
Outra importante atividade do Ipes foi a montagem de um banco de in-
formações “sobre 400 mil pessoas — acervo que o general Golbery do Couto
e Silva levaria consigo para dar o pontapé inicial no Serviço Nacional de In-
formações (SNI)”,21 depois de vitorioso o golpe civil-militar, ainda em 1964.

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CELEBRANDO A “REVOLUÇÃO”

Quanto à participação do Ipes nas Marchas da Família, não bastassem


as estreitas ligações com os grupos femininos22 e a responsabilidade pela
idealização e o financiamento da marcha paulista, o instituto colaborou,
através de sua estrutura de propaganda, para a divulgação das manifesta-
ções. Os ipesianos também estiveram presentes por meio das entidades
que os representavam, além dos deputados da Ação Democrática Parla-
mentar (ADP) como Cunha Bueno, Herbert Levy, Arnaldo Cerdeira,
Menezes Cortez, Padre Vidigal, Pedro Aleixo e Eurípedes Cardoso de Menezes,
que não só marcharam, mas também marcaram presença como oradores
nas passeatas.
Após a Marcha de São Paulo, outras manifestações com o mesmo teor
ocorreram no interior do estado e, em breve, o movimento teria abrangência
nacional. A grande passeata do Rio de Janeiro já estava sendo programada
quando o golpe de 31 de março modificou o seu caráter, transformando-a
numa espécie de “desfile da vitória”. O cortejo partiu da Igreja da Candelária,
ao som do repicar dos sinos. No seu auge, teria atingido, segundo algumas
estimativas, o surpreendente número de um milhão de pessoas. A come-
moração da vitória do golpe civil-militar — ou da “Revolução”, como o
nomearam seus protagonistas — durou quatro horas.
A propaganda organizada para a Marcha buscava a adesão da popula-
ção usando valores e elementos simbólicos como o amor à pátria, o respei-
to à democracia, a defesa da família e das liberdades políticas. Um volante
distribuído pelas entidades promotoras da manifestação dizia do seu cará-
ter cívico-religioso, “destinado a reafirmar os sentimentos do povo brasi-
leiro, sua fidelidade aos ideais democráticos e seu propósito de prestigiar o
regime, a Constituição e o Congresso, manifestando total repúdio ao co-
munismo ateu e antinacional”.23 Os boletins eram distribuídos em igrejas,
praias e clubes. A televisão e o rádio deram extensa cobertura aos prepara-
tivos da passeata.24 Também nas páginas dos jornais cariocas, dias antes de
sua realização, podia-se ler: “Em nome de sua fé religiosa, compareça e tra-
ga a sua família.”25 À frente da manifestação estavam as senhoras represen-
tantes da Campanha da Mulher pela Democracia (Camde), às quais era dado
o título de “líderes” da Marcha.

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O histórico da atuação de grupos femininos como a Camde, no Rio de


Janeiro, a Liga da Mulher Democrata (Limde), de Belo Horizonte, ou a
União Cívica Feminina (UCF), de São Paulo, é de fundamental importância
para a compreensão do clima de radicalização anticomunista do início dos
anos 1960 que culminou na reação conservadora de 1964.
Essas mulheres, especialmente a partir de 1962, dominaram o cenário
político com demonstrações de repúdio ao comunismo e franca oposição
às políticas reformistas do governo Goulart, que, segundo acreditavam,
representavam o primeiro passo para a completa “bolchevização” do país.
Os grupos femininos rapidamente espalharam-se por todos os estados e,
sob o manto da caridade, atuavam junto ao empresariado, a grupos políti-
cos conservadores e a alguns setores da Igreja Católica em sua campanha
de mobilização da opinião pública. As mulheres que fundaram e dirigiram
esses grupos comungavam de algumas características, como a de pertence-
rem à elite e serem esposas ou mães de empresários ou militares gradua-
dos. As diretorias, em geral, eram compostas por um reduzido número de
associadas, cabendo ao restante a realização de tarefas menores, além de
engrossar o contingente em seus aparecimentos públicos.
A Camde foi fundada em 12 de junho de 1962 e seu primeiro protesto
público ocorreu alguns dias depois, quando 30 senhoras se dirigiram aos
jornais com o objetivo de protestar contra a indicação de San Tiago Dantas
para primeiro-ministro do governo João Goulart.26
As mulheres da Camde se valeram de eficientes táticas em seu trabalho
de mobilização da opinião pública. Uma delas era o envio de telegramas,
visando a alertar as mulheres do Brasil inteiro acerca da ameaça do comu-
nismo. Do mesmo modo a Camde enviou cartas para senhoras, distribuiu
cartas na porta das estações de rádio, assim como livros, folhetos e outros
instrumentos de propaganda.27 Outro recurso usado foram as transmissões
pelo rádio, em cadeia nacional, com o mesmo objetivo de falar às mulheres
sobre os perigos que o comunismo representaria para suas famílias. A Camde
fazia um pedido às ouvintes para que transmitissem o conteúdo do pro-
nunciamento a, pelo menos, mais cinco mulheres.28
Além dessas táticas, as mulheres da Camde e de outras entidades orga-
nizaram importantes ações públicas, como a da Limde, em Belo Horizonte,

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CELEBRANDO A “REVOLUÇÃO”

em janeiro de 1964, um protesto pela realização do Congresso da Central


Única dos Trabalhadores da América Latina (Cutal). Uma “cadeia cívica
contra o comunismo” foi organizada, por meio da redação de um manifes-
to contendo 16 mil assinaturas, que foi entregue ao governador Magalhães
Pinto, numa manifestação pública que terminou no Palácio da Liberdade,
sede do governo de Minas Gerais. As mulheres da Limde alertaram, ainda,
para o fato de que, caso o manifesto não alcançasse a repercussão espera-
da, uma nova ação já estava sendo elaborada: quando o avião que trazia a
delegação pousasse em Belo Horizonte, as encontraria deitadas na pista do
aeroporto. O Congresso foi transferido para Brasília.29
O episódio da expulsão de Brizola da Secretaria de Saúde de Belo Hori-
zonte, em fevereiro de 1964, quando pretendia se apresentar numa con-
centração em defesa das reformas de base, teve também grande repercussão.
Cerca de 3 mil mulheres invadiram o auditório, ao lado do aguerrido
anticomunista padre Caio Alvim de Castro, e, com rosários em punho, impe-
diram o discurso do líder nacionalista. O desdobramento dessa atuação se
daria com um certo tumulto. Os “organizadores do evento decidiram ocu-
par o palco”, enquanto as mulheres resistiram, gritando que “um dia eles
seriam derrotados por Deus”. A polícia interveio, “inclusive jogando bom-
bas”. As mulheres “participaram usando sombrinhas e cadeiras como ar-
mas”.30 Tal episódio passou a ser conhecido como Noite das Cadeiradas.
Outro exemplo da promissora aliança das mulheres com os setores con-
servadores da Igreja Católica foi a organização da Concentração do Rosá-
rio em Família, que constituiu uma espécie de embrião das Marchas da
Família com Deus pela liberdade. A Cruzada do Rosário foi arquitetada pelo
padre irlandês Patrick Peyton e, lançada nos Estados Unidos em 1945, per-
correu diversas cidades do mundo, como Londres, Sydney e Washington.
As principais capitais do Brasil assistiram a essa manifestação, que, sob o
slogan “A família que reza unida permanece unida”, pretendia difundir o
rosário como a grande arma na luta contra o comunismo, “a mais poderosa
alavanca que eleva o mundo do deprimente materialismo em que se encon-
tra”. Em 1962, no Rio de Janeiro, a Cruzada reuniu, segundo estimativas
otimistas dos organizadores, cerca de um milhão e 500 mil pessoas.31

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

A Marcha de 2 de abril representava, pois, para aquelas mulheres, o seu


momento triunfal. As “marchadeiras”, como ficaram posteriormente co-
nhecidas de modo pejorativo, “foram insistentemente aclamadas por gene-
rais, políticos e jornalistas como a vanguarda de todo o movimento que,
pretendiam eles, teria desencadeado o golpe civil-militar”.32 O general
Mourão Filho chegou mesmo a afirmar que “ele, como todos os homens
que participaram da revolução, nada mais fez do que executar aquilo que
as mulheres pregavam nas ruas contra o comunismo”.33
Precedidas por duas senhoras, que carregavam uma imensa reprodução
de um rosário,34 as mais de 600 integrantes35 da Camde percorreram o tra-
jeto da marcha distribuindo fitinhas verde-amarelas para os participantes e
cantando hinos religiosos e canções como Cidade maravilhosa. Algumas
carregavam faixas e cartazes em que se liam mensagens como: “Trabalha-
dor, só na democracia poderás escolher a tua religião”, “Exército com Deus”
e ainda interpelações jocosas do tipo: “Vermelho bom, só batom” ou “Com
foguetes foram à lua, conosco viram estrelas”, numa referência à primeira
viagem espacial feita pela então URSS.
Engrossavam o contingente da associação carioca delegações de grupos
femininos de outros estados — 200 senhoras paulistas traziam a bandeira
usada na primeira Marcha da Família, além de uma mensagem de seu go-
vernador, da qual se destaca a frase: “O povo brasileiro não tem vocação
para escravo e esta terra jamais será senzala.”36
Estiveram presentes também mulheres de governadores, entre elas Letícia
Lacerda e Leonor de Barros, da Guanabara e de São Paulo, cujos maridos
eram aguerridos opositores do governo Goulart, além da mulher do ex-
presidente Juscelino Kubitschek, Sara.
Em meio à confusão de cartazes e bandeiras nacionais — mais de 500
haviam sido confeccionadas para a manifestação — e dos estados de Minas
Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, destacavam-se eminentes figuras
dos meios políticos e da alta oficialidade militar, como os deputados Amaral
Peixoto e o general Olímpio Mourão Filho.
A presença maciça de religiosos foi outro fator notável da passeata. Apesar
de a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não ter dado apoio

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CELEBRANDO A “REVOLUÇÃO”

oficial às Marchas, o desfile contou com a participação de importantes en-


tidades e líderes da ala conservadora, como a de monsenhor Bessa — re-
presentando o arcebispo do Rio de Janeiro, dom Jaime de Barros Câmara,
que estava doente —, além dos padres Patrick Peyton e Caio Alvim de Cas-
tro, esses com larga experiência no tocante à arregimentação popular por
meio da manipulação de bens simbólicos ligados à religiosidade.
Mas os católicos não foram os únicos a expressar a sua fé religiosa por
meio da Marcha da Família. Entre padres e freiras, que carregavam uma
enorme cruz verde-amarela, e senhoras portando estandartes com a inscri-
ção “com este sinal [da cruz] venceremos”, marchavam pastores, espíritas,
rabinos e umbandistas. Foi, aliás, com o objetivo de “universalizar” seu apelo
ideológico que aquela que foi originalmente idealizada como Marcha em
Desagravo ao Rosário transformara-se em Marcha da Família com Deus pela
Liberdade.

A VITÓRIA DA “REVOLUÇÃO”

Especialmente em decorrência do sucesso da passeata do Rio de Janeiro, as


Marchas adquiriram, em pouco tempo, abrangência nacional e o estatuto de
um autêntico movimento em apoio ao golpe civil-militar, posto que a boa
parte delas ocorreu posteriormente ao 31 de março. Tais manifestações pre-
tendiam demonstrar o caráter popular do golpe, uma vez que nesse momen-
to uma grande parcela dos cidadãos ia às ruas comemorar a vitória, dar “ação
de graças” pelo afastamento do comunismo das terras brasileiras.
Após a realização da primeira Marcha da Família na capital paulista,
foram organizadas manifestações em diversas cidades. Além das passeatas
de São Paulo e do Rio de Janeiro, que reuniram, respectivamente, 500 mil
e um milhão de pessoas, houve manifestações em capitais como Belo Hori-
zonte, Goiânia, Recife, Fortaleza, Florianópolis, Maceió e Curitiba, con-
forme pode ser observado na tabela a seguir:

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

LOCAL DATA PRESENTES

São Paulo — SP 19/março 500 mil


Araraquara — SP 21/março 6 mil
Assis — SP 21/março *
Curitiba — PR 24/março 30 mil
Bandeirantes — PR 24/março
Santos — SP 25/março 80 mil
Itapetininga — SP 28/março
Atibaia — SP 29/março
Ipauçu — SP 29/março
Tatuí — SP 29/março
Palmeira dos Índios — PR 1/abril 3 mil
São João da Boa Vista — SP 1/abril
Londrina — PR 2/abril
Rio de Janeiro — RJ 2/abril 1 milhão
São Carlos — SP 2/abril
Uberlândia — MG 3/abril 200 mil
Rio Claro — SP 4/abril
Barbacena — MG 5/abril
Jaú — SP 5/abril 6 mil
Maceió — AL 5/abril 10 mil
Pádua — RJ 5/abril
Campinas — SP 7/abril
Natal — RN 7/abril
Amparo — MG 8/abril
Regente Feijó — SP **
Franca — SP 8/abril
Cajuru — SP
Piracicaba — SP 9/abril 40 mil
Piraçununga — SP 9/abril
Mogi-Guaçu — SP 9/abril

Marchas da Família com Deus pela Liberdade ocorridas entre março e junho de 1964.
*Número de participantes não disponível.
**Data da realização da marcha não disponível. (continua)

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CELEBRANDO A “REVOLUÇÃO”

(continuação)

LOCAL DATA PRESENTES

Recife — PE 10/abril 200 mil


Passos — MG 11/abril
Presidente Prudente — SP 11/abril
Taubaté — SP 12/abril
Periqui — SP 12/abril
Botucatu — SP 12/abril
Oliveira — MG 12/abril
Campos — RJ 13/abril
Brasília — DF 15/abril
Capivari — SP 15/abril
Lorena — SP 15/abril
Dois Córregos — SP 16/abril
Lavras — MG 16/abril
Conselheiro Lafaiete — MG 18/abril
Indaiatuba — SP 18/abril
Santa Bárbara D’Oeste — SP 18/abril
Itu — SP 18/abril
Guaratinguetá — SP 18/abril 5 mil
Jacareí — SP 19/abril
Formiga — MG 21/abril
Teresina — PI 22/abril 50 mil
Florianópolis — SC 50 mil
Cachoeira Paulista — SP 25/abril
Campos do Jordão — SP 26/abril
Cruzeiro — SP
Juiz de Fora — MG
Pains — MG 1º/maio
São José dos Campos — SP 1º/maio
Aparecida — SP 13/maio 10 mil
Belo Horizonte — MG 13/maio

(continua)

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

(continuação)

LOCAL DATA PRESENTES

Goiânia — GO 13/maio 25 mil


Niterói — RJ 15/maio 50 mil
Fortaleza — CE 200 mil
Cerqueira César — SP 3 mil
Cândido Mota — SP 5 mil
Caxias — RJ 7/junho
Magé — RJ 8/junho 3 mil
Mogi das Cruzes — SP 1/junho 4 mil
Moeda — MG 1/junho 4 mil

Foi registrada a ocorrência de 69 Marchas entre março e junho de 1964.37


Dessas, acima de 80% aconteceram após o golpe, a grande maioria em abril.
Esse número dá conta da complexidade do fenômeno estudado, que não
deve ser reduzido à mera função propagandística e tampouco deve ser enten-
dido apenas como produto da insatisfação das classes médias urbanas. Não
se pretende com isso caracterizar as Marchas como manifestações de cunho
popular, nem mesmo negar a existência de um eficiente trabalho de organi-
zação e promoção das passeatas, mas sim conduzir a um questionamento
acerca da pluralidade de significados contida em tais manifestações, que
pode ser observada a partir da análise de elementos presentes nas culturas
políticas38 das regiões onde as Marchas se realizaram.
A população de Araraquara, no interior de São Paulo, foi convocada a
participar de uma “passeata em defesa da democracia e de repulsa ao co-
munismo”. Em 21 de março as principais ruas da cidade seriam percorri-
das em silêncio e a Marcha terminaria no cemitério, diante do Monumento
ao Soldado Constitucionalista, onde estudantes depositaram coroas de flo-
res em memória dos araraquarenses mortos em 1932.39
A memória da Revolução Constitucionalista de 1932 constituiu-se como
uma das construções imagéticas mais expressivas das Marchas da Família
em São Paulo. Nela, o conjunto de representações40 acerca de 1932 foi reela-
borado, tendo seu repertório calcado especialmente no respeito à Consti-

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CELEBRANDO A “REVOLUÇÃO”

tuição e às liberdades democráticas. O governador da Guanabara, Carlos


Lacerda, chegou mesmo a declarar que a primeira passeata, na capital,
marcava o “início do processo de ressurreição da democracia no Brasil, [e
que] o espírito de São Paulo (...) a partir da Marcha é o de 1932, mas de
1932 dialético, em que as trincheiras são de paz”.41
Em Itu, interior de São Paulo, a realização da Marcha da Família uniu-se
às comemorações do aniversário da Convenção Republicana.42 A data de
18 de abril fazia parte da memória política da região como marco do início
do processo de fundação de um dos primeiros partidos republicanos regio-
nais no Brasil, o PRP, em 1873.43 A ligação da Marcha da Família a esse
acontecimento pode sugerir uma referência à ideia de respeito às liberda-
des políticas, de democracia ou mesmo da extinção de uma “velha ordem”
superada.
A Marcha da Família em Belo Horizonte foi realizada em 13 de maio,
dia de Nossa Senhora de Fátima, um dos grandes ícones cristãos contra o
comunismo e origem da simbologia do rosário. “Ambas as construções sim-
bólicas, Fátima e o rosário, animaram a fé dos crentes e ocuparam posição
destacada no imaginário anticomunista católico dos anos 60.”44 O desfile
reuniu cerca de 200 mil pessoas e sua finalização, bem como a realização
dos demais discursos, se deu ao pé da estátua de Tiradentes. A Inconfidência
Mineira e a figura do mártir foram bastante usadas nesse estado. Tiradentes
representava o símbolo republicano do sacrifício em nome da liberdade,
além da associação com a figura de Jesus Cristo e seu martírio.45
Uma romaria composta por ônibus, automóveis e caminhonetes partiu,
em 15 de abril, da cidade de Capivari com destino a Aparecida, ambas no
interior de São Paulo. Com essa atitude, realizava-se mais uma Marcha da
Família.46 Aparecida, no Vale do Paraíba, tem atualmente cerca de 38 mil
habitantes e é um dos principais centros de peregrinação do país, receben-
do, em média, sete milhões de visitantes por ano. O culto a Nossa Senhora
Aparecida data do século XVII e é forte referência no imaginário popular
brasileiro. Por reiteradas vezes a figura da “padroeira do Brasil” foi evocada
nas Marchas. Ademais, o “estar em marcha” pôde adquirir, nesse momento,
um significado muito próximo de “estar em romaria”, que remete a um sen-
tido de devoção, de graça e penitência.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Em Passos, a organização da Marcha esteve a cargo do presidente e do


vice-presidente da Associação Rural do Sudoeste Mineiro, ao lado do pre-
sidente da Cooperativa de Laticínios da cidade. Contava-se com a adesão
de várias cidades do sul de Minas Gerais para o evento, que se realizaria em
11 de abril.47 Não poderia ser de outra forma, numa região onde a econo-
mia girava em torno da produção agropecuária e onde, certamente, as repre-
sentações em torno da ameaça à propriedade privada a partir da instauração
do comunismo encontraram terreno fértil.
Motivações econômicas regionais parecem, do mesmo modo, ter dado
impulso à Marcha em Curitiba, em 24 de março de 1964, organizada pela
sucursal paranaense da União Cívica Feminina (UCF) e pela Associação Co-
mercial do Paraná (Acopa). A passeata, rebatizada de Marcha a Favor do
Ensino Livre, teve como principal bandeira o protesto contra a adoção pelos
colégios do Livro Único, editado pelo Ministério da Educação do governo
Goulart, como também o combate à encampação das escolas particulares.
Em contraposição ao repertório da defesa dos valores cristãos e tradicio-
nais, nessa Marcha foram privilegiados os aspectos ligados ao liberalismo
político e econômico. A Acopa era ligada ao mercado de livros didáticos e
a proprietários de escolas.48
Em Recife, a Marcha da Família ocorreu em 10 de abril de 1964. O even-
to, assim como em Belo Horizonte, teve a participação de cerca de 200 mil
pessoas. Para o jornal O Estado de S. Paulo, registrava-se a maior concen-
tração humana de que ali se tivera notícia.49 O desfile percorreu a Avenida
Conde da Boa Vista e parte da Guararapes, local onde a multidão se con-
centrou. Na Marcha de Recife foram usadas representações acerca do “in-
vasor”, então transfigurado no “comunismo internacional”, e do histórico
da resistência empreendida pelos pernambucanos, “que eram convocados
para, na marcha, repetir o passado glorioso de lutas contra o estrangeiro”.50
A imagem feminina foi da mesma forma evocada, numa referência às heroí-
nas de Tejucupapo.51
Tais manifestações oferecem a percepção de todo um leque de imagens
ligadas a um universo de temas como família, pátria, moral, ordem, religio-
sidade, inscritas num código de saberes compartilhados em sociedade.

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CELEBRANDO A “REVOLUÇÃO”

Das guerreiras do Tejucupapo às devotas de Aparecida, as Marchas da


Família com Deus pela liberdade ocorridas nessas cidades demonstram a
força do imaginário anticomunista e do discurso legitimador do golpe ci-
vil-militar plasmados no período.
Singulares e, ao mesmo passo, componentes de um movimento, de um
projeto que foi paulatinamente ganhando estrutura e extensão — seja por
meio de um bem elaborado trabalho de propaganda, seja por meio da ini-
ciativa isolada de uma paróquia —, as Marchas revelam que, para que haja
uma conexão efetiva entre as esferas de produção e recepção de um discur-
so ou mensagem, é necessária uma correspondência desses com os bens sim-
bólicos pertencentes a determinado grupo ou sociedade. Ação que gera
identidade, reconhecimento.
A análise da realização das Marchas da Família com Deus pela Liberdade
demonstrou não apenas a força e abrangência dos discursos favoráveis à
ruptura institucional, como também a importância de se apreender de que
maneira encontraram ressonância no corpus social, ao articular-se com os
medos, as expectativas e crenças compartilhados em sociedade. Além de
fenômeno ideologicamente inspirado, evidenciou-se sobretudo a realização
desse acontecimento como um momento de produção e difusão de senti-
do, cuja investigação revelou importantes aspectos da relação entre as esferas
do político e do simbólico, elemento sem dúvida primordial para a com-
preensão da crise de 1964.
O percurso apresentado revela a existência de uma comunidade de ima-
ginação unida por certo conjunto de valores, normas e crenças de naturezas
diversas, como morais, religiosas ou sociais, que a conduziu a protagonizar
determinado fenômeno político, qual seja, a participação nas Marchas da
Família com Deus pela Liberdade em 1964. A crença de que a intervenção
militar nas instituições democráticas expressava um desejo da sociedade,
que compõe um dos principais alicerces desse imaginário, serviu por alguns
anos como justificativa do autoritarismo em voga.52
Contudo, em relação ao conjunto da sociedade que naquele ano expres-
sou em praça pública seu apoio ao golpe civil-militar, é possível afirmar que,
em algum momento, aquela comunidade de imaginação foi se enfraquecendo
a partir da confusão formada pelos desvios de interesses dos diversos seg-

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

mentos que a formaram. Entre as razões, é possível supor, está o fato de


que em nenhum momento se reivindicou um regime de exceção prolonga-
do durante a “campanha anticomunista”, e sim uma breve intervenção, que
viesse “arrumar a casa”, moralizando as instituições. Desse modo, tais re-
cursos discursivos não foram suficientes para manter acesas tais imagens
durante todo o regime. Aos poucos, a memória das Marchas da Família foi
desaparecendo da vida coletiva. Fenômeno que também tem muito a con-
tribuir para a compreensão da sociedade de então e dos caminhos traçados
por ela em 21 anos sob ditadura militar.

Notas

1. Este artigo foi baseado na dissertação de mestrado As Marchas da Família com


Deus pela Liberdade, defendida em 2004, no Departamento de Pós-Graduação
em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHIS/UFRJ)
sob orientação do professor Dr. Carlos Fico. Agradeço a William Martins a leitu-
ra preliminar do texto.
2. RIDENTI, Marcelo. “Cultura e política: os anos 1960-1970 e sua herança”. DEL-
GADO, Lucília de Almeida Neves e FERREIRA, Jorge (orgs.). O Brasil republica-
no — O tempo da ditadura: regime militar e movimentos sociais em fins do século
XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 135.
3. Para o conceito de imaginário social, cf. BACKZO, Bronislaw. “Imaginação Social”,
in: Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda, 1985,
vol. 5.
4. Os ministros militares, com o apoio da UDN, tentaram a aprovação, no Congresso
Nacional, de uma emenda que impediria a posse de João Goulart. Contudo, o
Congresso vetou as aspirações militares e garantiu que o novo presidente fosse
empossado. Em contrapartida à vitória nacionalista, uma solução paliativa foi arti-
culada pelas forças conservadoras. O presidente teve, sim, garantida sua posse,
mas sob o regime parlamentarista. Foi a forma encontrada pelos adversários de
Goulart de conter, em parte, seu poder ameaçador. O Congresso aprovou tal emen-
da, que também incluía a realização de um plebiscito, que devia se realizar 90 dias
antes do encerramento do mandato de Jango, no qual a população optaria pela
manutenção ou não do sistema político em vigor. Cf. LABAKI, Amir. 1961: a crise
da renúncia e a solução parlamentarista. São Paulo: Brasiliense, 1986.

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CELEBRANDO A “REVOLUÇÃO”

5. Para o período de “radicalização anticomunista” nos anos 1960, cf. MOTTA,


Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o “perigo vermelho”: o anticomunismo no
Brasil (1917-1964). São Paulo: Perspectiva; Fapesp, 2002.
6. SIMÕES, Solange de Deus. Deus, pátria e família: as mulheres no Golpe de 64.
Petrópolis: Vozes, 1985, p. 94.
7. Sobre o tema da correlação entre problemáticas simbólicas e ideológicas, ver as
elaborações conceituais de CHAUÍ, Marilena. Brasil: mito fundador e sociedade
autoritária. 3ª reimp. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001.
8. Já no fim da década de 1950, parte do empresariado dava mostras de insatisfação
em relação à crescente mobilização e politização das camadas populares. Quando
Jango tomou posse, esse setor ficou alarmado em decorrência de sua conhecida
atuação no governo Vargas, no Ministério do Trabalho, sempre lembrada pelo
anúncio do aumento de 100% do salário mínimo. Essa era uma das razões da
antipatia das elites com a figura do novo presidente. As correntes antigetulistas o
viam como herdeiro político de Vargas, o “chefe do peronismo brasileiro”, ele
representava a “corrupção desenfreada” e a destruição da “ordem capitalista”. Suas
visitas à China e à URSS lhe renderam a imagem de “claramente esquerdista, tanto
no plano externo quanto interno”. STARLING, Heloisa. Os senhores das Gerais:
os novos inconfidentes e o Golpe de 64. Petrópolis: Vozes, 1986, p. 42.
9. Idem, p. 80.
10. DULLES, John W.F. Castelo Branco: o caminho para a presidência. Rio de Janei-
ro: José Olympio Editora, 1979, p. 308.
11. A atuação das associações femininas nos anos 1960 e sua importância para a
realização das Marchas serão abordadas posteriormente neste artigo.
12. SIMÕES, Solange de Deus, op. cit., p. 93.
13. Idem, p. 94.
14. Idem, p. 106.
15. Sobre a criação de organismos empresariais e seu papel nas articulações em torno
do golpe de Estado, cf. DREIFUSS, René. 1964: a conquista do Estado. Ação
política, poder e golpe de classe. Petrópolis: Vozes, 1981.
16. Cf. idem.
17. ASSIS, Denise. Propaganda e cinema a serviço do golpe: 1962-1964. Rio de Ja-
neiro: Mauad/Faperj, 2001, p. 28.
18. Para mais informações sobre a estrutura organizacional e hierárquica do Ipes,
consultar DREIFUSS, René, op. cit.
19. LOUZEIRO, José. “O Ipes faz cinema e cabeças”, in: ASSIS, Denise, op. cit., pp.
31-39.
20. ASSIS, Denise, op. cit., p. 41.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

21. MORAES, Dênis de. A esquerda e o golpe de 64. Vinte e cinco anos depois, as
forças populares repensam seus mitos, sonhos e ilusões. Rio de Janeiro: Espaço e
Tempo, 1989, p. 129.
22. O Ipes forneceu apoio logístico e operacional à criação de grupos que funciona-
ram como células do instituto no trabalho de congregar adeptos, disseminar o
ideário anticomunista e realizar ações públicas sem que o nome da organização
fosse divulgado. Assim se deu com a constituição da ADP (Ação Democrática
Parlamentar), bloco de oposição às iniciativas reformistas no Congresso Nacio-
nal, que foi de fundamental importância nas eleições parlamentares de 1962,
quando os partidos conservadores conquistaram a maioria das cadeiras. Assim
também se deu com a criação da Camde, em que esteve presente, entre outros
ipesianos, uma das figuras mais atuantes do grupo, Glycon de Paiva.
23. “Na Marcha da Família o carioca expressará o seu repúdio ao comunismo”. O
Globo, 28 de março 1964. Recorte de jornal do arquivo da Camde. Paginação
não disponível.
24. “Camde comemora aniversário da revolução que ajudou a realizar”. O Jornal, 28 de
março de 1965. Recorte de jornal do arquivo da Camde. Paginação não disponível.
25. Recorte de jornal do arquivo da Camde. Paginação não disponível.
26. “Dona Amélia Molina Bastos ou Como e onde marcha a Camde”, in: Livro de
cabeceira da mulher. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967, vol. 5, p. 161.
27. Idem.
28. ASSIS, Denise, op. cit., p. 60.
29. “A fibra da mulher mineira”. Estado de Minas, 26 de janeiro de 1964, p. 10;
SIMÕES, Solange de Deus, op. cit., p. 85.
30. Idem, p. 77.
31. “Padre Peyton e a Cruzada do Rosário”. Revista Família Cristã, julho de 1964.
Paginação não disponível. Para Simões, a concentração no Rio de Janeiro reuniu
um milhão de pessoas. Em Belo Horizonte, 500 mil pessoas estiveram presentes na
manifestação realizada em 1963. Cf. SIMÕES, Solange de Deus, op. cit., p. 91.
32. Idem, p. 96.
33. Idem, p. 107.
34. “Marcha da Família durou quatro horas”. Correio da Manhã, 3 de abril de
1964, p. 1.
35. “Marcha da Família empolga todos os setores da população”. O Globo, 25 de
março de 1964. Recorte de jornal do Arquivo da Camde. Paginação não disponível.
36. SIMÕES, Solange de Deus, op. cit., p. 111. Grifos da autora.
37. Esse resultado foi alcançado por meio de pesquisas no Arquivo da Camde, na Seção
de Documentos Particulares do Arquivo Nacional; em jornais e revistas de 1964;
bem como a partir de pesquisas bibliográficas. É provável que o número de Marchas

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CELEBRANDO A “REVOLUÇÃO”

ocorridas no período seja superior ao obtido no levantamento. Pesquisas em arqui-


vos estaduais certamente contribuirão para um maior conhecimento do tema.
38. “(...) conjunto de atitudes, normas e crenças mais ou menos partilhadas pelos
membros de uma determinada unidade social e tendo como objeto os fenômenos
políticos” (BOBBIO, Norberto; MATTELUCCI, Nicola e PASQUINO, Gianfranco.
Dicionário de política. Brasília: Editora da UnB, 1992, pp. 306-308). Sobre o
assunto, consultar também MOTTA, Rodrigo Patto Sá. “A história e o conceito
de cultura política”. LPH — Revista de História, Mariana, nº 6, 1996, pp. 83-91.
39. “Empreende também o interior passeatas anticomunistas”. O Estado de S. Paulo, 21
de março de 1964. Recorte de jornal do arquivo da Camde. Paginação não disponível.
40. Para o estudo das representações coletivas, cf. CHARTIER, Roger. A história
cultural entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1990.
41. “O civismo paulista domina o país; mais 3 passeatas”. O Estado de S. Paulo, 21 de
março de 1964. Recorte de jornal do arquivo da Camde. Paginação não disponível.
42. “Hoje, dia da Convenção, Itu realiza também a sua Marcha”. O Estado de S.
Paulo, 18 de abril de 1964. Recorte de jornal do arquivo da Camde. Paginação
não disponível.
43. A Convenção de Itu, realizada em 18 de abril de 1873, deu início ao processo de
constituição do Partido Republicano Paulista (PRP), fundado em 1º de julho do
mesmo ano. O PRP foi majoritariamente formado pelos grandes proprietários
do Oeste Paulista, cujas inclinações republicanistas, em grande parte, eram fruto
de sua insatisfação em relação à política de centralização monárquica. Cf. CAR-
VALHO, José Murilo. A construção da ordem — Teatro de sombras. Rio de Janei-
ro: Civilização Brasileira, 2003, pp. 208-209. Para a data da realização da
Convenção de Itu, cf. Museu Republicano (Convenção de Itu), site http://
www.usp.br/prc/catalogomuseus/portugues/mp_museurepublicano.htm, Museus
da Universidade de São Paulo. Acesso em 14 de julho de 2007.
44. MOTTA, Rodrigo Patto Sá, op. cit., 2002, p. 218.
45. CARVALHO, José Murilo de. “Tiradentes: um herói para a república”, in: ——. A
formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia
das Letras, 1990, pp. 55-73.
46. “Com uma romaria a Aparecida, Capivari realizou sua Marcha”. O Estado de S.
Paulo, 16 de abril de 1964. Recorte de jornal do arquivo da Camde. Paginação
não disponível.
47. “Passeata continua a repercutir na Câmara”. O Estado de S. Paulo, 24 de março
de 1964. Recorte de jornal do arquivo da Camde. Paginação não disponível.
48. CODATO, Adriano Nervo e OLIVEIRA, Marcos Roberto de. “A Marcha, o Terço
e o Livro: catolicismo conservador e ação política na conjuntura do golpe de 1964”.
Revista Brasileira de História, São Paulo, vol. 24, nº 47, 2004, pp. 271-302.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

49. “A ‘Marcha’ em Recife”. O Estado de S. Paulo, 11 de abril de 1964. Recorte de


jornal do arquivo da Camde. Paginação não disponível.
50. SIMÕES, Solange de Deus, op. cit., pp. 106-107.
51. O Reduto de Tejucupapo localiza-se em terras da Propriedade Megaó de Cima,
pertencentes ao distrito de Tejucupapo, município de Goiana, no estado de
Pernambuco. Em 1646 sua população resistiu a um ataque holandês, encetado
por uma tropa de 600 homens que tentava tomar víveres da população. O local
é referido como tendo sido em grande parte defendido por mulheres, pois a
maior parte dos homens teria saído a fazer emboscadas à tropa holandesa que se
aproximava. Buscavam, então os holandeses, não o ouro, mas a “maior riqueza”
de que dispunha a população: víveres, sobretudo a farinha de mandioca. Reduto
do Tejucupapo. Brasil Arqueológico. http://www.magmarqueologia.pro.br/
RedutoTejucupapo.htm, Site da Equipe do Laboratório de Arqueologia da Uni-
versidade Federal de Pernambuco. Acesso em 24 de abril de 2007.
52. FICO, Carlos. A ditadura mostra a sua cara: imagens e memórias do período
(1964-1985). Trabalho apresentado no Simpósio The Cultures of Dictatorship:
Historical Reflections on the Brazilian Golpe of 1964, realizado na Universidade
de Maryland, de 14 a 16 de outubro de 2004. Cópia cedida à autora.

Bibliografia

ASSIS, Denise. Propaganda e cinema a serviço do golpe: 1962-1964. Rio de Janeiro:


Mauad; Faperj, 2001.
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Nacional; Casa da Moeda, 1985, vol. 5.
BOBBIO, Norberto; MATTELUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de
política. Brasília: Editora UnB, 1992.
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CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. Lisboa: Difel,
1990.
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Editora Fundação Perseu Abramo, 2001.

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CELEBRANDO A “REVOLUÇÃO”

CODATO, Adriano Nervo; OLIVEIRA, Marcos Roberto de. “A Marcha, o Terço e o


Livro: catolicismo conservador e ação política na conjuntura do golpe de 1964”.
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ra da mulher. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967, vol. 5, pp. 157-174.
DULLES, John W.F. Castelo Branco: o caminho para a presidência. Rio de Janeiro: José
Olympio Editora, 1979.
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Petrópolis: Vozes, 1981.
FICO, Carlos. Além do golpe: versões e controvérsias sobre o golpe de 1964 e a ditadura
militar. Rio de Janeiro: Record, 2004.
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balho apresentado no Simpósio The Cultures of Dictatorship: Historical Reflections
on the Brazilian Golpe of 1964, realizado na Universidade de Maryland, de 14 a
16 de outubro de 2004.
LABAKI, Amir. 1961: a crise da renúncia e a solução parlamentarista. São Paulo:
Brasiliense, 1986.
LOUZEIRO, José. “O Ipes faz cinema e cabeças”. in: ASSIS, Denise. Propaganda e cine-
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MORAES, Dênis de. A esquerda e o golpe de 64. Vinte e cinco anos depois, as forças
populares repensam seus mitos, sonhos e ilusões. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo,
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ta de História, Mariana, nº 6, 1996, pp. 83-91.
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PRESOT, Aline. As Marchas da Família com Deus pela Liberdade. Dissertação de
Mestrado, Programa de Pós-Graduação em História Social, Universidade Federal
do Rio de Janeiro, 2004.
RIDENTI, Marcelo. “Cultura e política: os anos 1960-1970 e sua herança”, in: DEL-
GADO, Lucília de Almeida Neves; FERREIRA, Jorge (orgs.). O Brasil Republicano
— O tempo da ditadura: regime militar e movimentos sociais em fins do século XX.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
REIS, Daniel Aarão. Ditadura militar, esquerdas e sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editora, 2002.
SIMÕES, Solange de Deus. Deus, pátria e família: as mulheres no golpe de 1964.
Petrópolis: Vozes, 1985.
STARLING, Heloisa. Os senhores das Gerais: os novos inconfidentes e o golpe de 1964.
Petrópolis: Vozes, 1986.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Páginas da internet

http://www.magmarqueologia.pro.br/RedutoTejucupapo.htm
http://www.usp.br/prc/catalogomuseus/portugues/mp_museurepublicano.htm

Arquivo

Arquivo da Camde (Campanha da Mulher pela Democracia), Seção de Documentos


Particulares do Arquivo Nacional.

Fontes

Jornais e revistas de 1964, tais como: O Globo, O Jornal, Estado de Minas, Correio da
Manhã, Revista Família Cristã e O Estado de S. Paulo.

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CAPÍTULO 3 As trincheiras da memória.
A Associação Brasileira de Imprensa
e a ditadura (1964-1974)
Denise Rollemberg*

*Professora de História Contemporânea da UFF. Pesquisadora do CNPq e do NEC. Autora


de “Memória, opinião e cultura política. A Ordem dos Advogados do Brasil sob a ditadura
(1964-1974)”. Daniel Aarão Reis e Denis Rolland (orgs.). In: Modernidades alternativas.
Rio de Janeiro: Editora FGV, 2008, e “Ditadura, intelectuais e sociedade: O Bem-Amado, de
Dias Gomes”. In: Cecília Azevedo, Denise Rollemberg, Samantha Viz Quadrat, Paulo Knauss
e Maria Fernanda Bicalho (orgs.). Cultura política, memória e historiagrafia. Rio de Janei-
ro: Editora FGV, 2009.

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A ABI não capitulou e nem capitulará. As bombas estouram e a
fumaça desaparece no espaço. E a ABI, a trincheira inexpugnável
continua de pé, enfrentando e vencendo o terror e a intolerância
pela afirmação dos direitos humanos.1
EDMAR MOREL

Na ordem da cultura política, é a lenda que é a realidade, pois é ela


que é mobilizadora e determina a ação política concreta, à luz da
representação que propõe.2
SERGE BERSTEIN

O processo de abertura política iniciado no governo Geisel sintetiza, talvez


como nenhum outro tema, a memória coletiva construída sobre os 21 anos
de regime ditatorial.3 No ocaso do período iniciado com o 31 de março e,
ao longo da década de 1980, os historiadores, ao mesmo tempo que escre-
viam a história do tempo presente, integravam-se num movimento da pró-
pria sociedade de digerir o período.
Segundo Daniel Aarão Reis, 1979, marco no longo processo, expressa o
sentido de conciliação no qual a transição da ditadura para a democracia
estruturou-se. Em 1º de janeiro, o AI-5 deixava de vigorar; em agosto, pro-
mulgava-se a lei de anistia; em seguida, reformulava-se a Lei de Segurança
Nacional, promovendo a libertação dos presos políticos. Entre perdão e
esquecimento — ou silêncio — seria formulada a memória dos anos de
chumbo, da barbárie dos porões da ditadura, do regime imposto pelos mi-

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

litares. A partir do ano da anistia, silenciava-se sobre o fato de que aqueles


foram anos de ouro para muitos; a consagração da metáfora porão que tor-
na invisível — leia-se, ignorado — o inadmissível, uma vez que nos subter-
râneos. A partir dali, a sociedade construía a imagem de si mesma como
essencialmente democrática, que repudiara o arbítrio, desde o início, des-
de sempre, numa luta intransigente contra os militares. Na verdade, o gol-
pe tinha sido militar; a ditadura, militar; o regime, imposto; a sociedade,
vítima. Recorrendo às palavras de 1979, consagradas até hoje — porões da
ditadura, anos de chumbo etc. —, o historiador chamou a atenção para a
construção dessa memória, abrindo amplas perspectivas para uma revisão
da historiografia sobre o período 1964-1985. Mais particularmente, sobre
as relações da sociedade com o regime e sobre a memória construída a
posteriori. Uma memória estruturada no mito da resistência.4 Golpe mili-
tar, ditadura militar, sínteses que absolvem a sociedade de qualquer respon-
sabilidade, como se referiu Francisco Carlos Teixeira da Silva,5 que negam
o autoritarismo como produto da sociedade.

MEMÓRIA COLETIVA E PROCESSO DE ABERTURA

Pode-se dizer que existem algumas linhas interpretativas acerca da rede-


mocratização do país — ou da volta ao estado de direito — iniciada no
governo Geisel, em 1974. Evidentemente, não cabe aqui uma análise
aprofundada do assunto, mas apenas destacar o debate historiográfico
centrado, em linhas gerais, em três eixos diferentes.
Um primeiro busca enfatizar o papel dos movimentos sociais de oposi-
ção e/ou de resistência democrática, que teriam sido decisivos na chamada
crise da ditadura e na volta dos militares aos quartéis. As insatisfações da
sociedade com o regime são enfatizadas, sobretudo, com a crise do milagre
econômico, mas mesmo antes. Nessas interpretações, o Estado surge como
força unicamente coercitiva, mesmo no período do governo Médici, mar-
cado por grande popularidade.6
Uma segunda linha interpretativa vê o processo de uma forma mais com-
plexa e sofisticada. Inclusive, chamando a atenção para o fato de que o

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projeto de abertura política não foi pensado devido à crise do milagre, mas,
ao contrário, devido ao seu sucesso, invertendo a lógica com a qual se tra-
balhara até então. Aqui, se procurou melhor compreender as diferenças entre
militares, jamais monolíticos, presentes na clássica alternância entre linha
dura e linha moderada.7 Como se sabe, elas compuseram-se e arranjaram-
se, inclusive, no interior de cada governo.8 Nessa interpretação, valorizou-se
bem mais o peso da linha dura, ou seja, dos segmentos militares contrários
à abertura, encastelados na chamada comunidade de informações e nos
órgãos da polícia política, fortalecidos nos governos anteriores, influencian-
do o ritmo do processo. Ainda assim, os movimentos de oposição e resis-
tência democrática têm posição de destaque. Nos longos 11 anos da abertura,
os militares só perderiam o controle da situação no governo João Figueiredo,
marcado por um elemento importante no cenário político: o movimento
sindical do ABC paulista, surgido em 1978, ou seja, ainda sob Geisel. Só
então, imerso em crises internas, econômicas e mesmo pessoais, ou seja,
em meados do governo Figueiredo, os militares deixariam de controlar a
transição para o regime democrático representativo.9
Uma terceira linha, ainda que veja os movimentos sociais de oposição e
resistência democrática atuando ao longo do período, procura explicar a
transição centrando-se nos conflitos dentro da corporação militar, nas dispu-
tas entre projetos rivais alternativos e excludentes. Segundo essa análise, os
militares jamais perderam o controle do processo: a dinâmica e o ritmo da
abertura sempre foram dados por essas disputas. Nessa interpretação, en-
fatizam-se as muitas continuidades mesmo após a conclusão do processo.10
Ao voltarem aos quartéis, os militares passavam o poder para civis, sim,
mas civis que, nas décadas anteriores, estiveram comprometidos com posi-
ções não muito diferentes das defendidas pelos militares, muitos, inclusive,
políticos da velha Arena. O próprio governo civil, ao suceder aos governos
militares, seria liderado por Tancredo Neves, jamais Ulysses Guimarães, que,
favorável ao golpe, havia se transformado em opositor, odiado pelo general
Geisel. O vice, José Sarney, presidente da Arena por anos. O ministro da
Justiça garantiria o não revanchismo. A lei da anistia, assim, representaria a
vitória do governo, pois contemplava os torturados e excluía os chamados
crimes de sangue, embora estes acabassem sendo beneficiados nos anos se-

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guintes. A lei de agosto de 1979 sobrepunha-se a outros projetos em dispu-


ta, assegurando o coroamento de uma longa transição, na qual a principal
preocupação não estava nas esquerdas ou nas oposições, mas numa extre-
ma-direita que insistia em permanecer no aparelho de Estado, recorrendo
a atos de terrorismo.
Como memória coletiva, a primeira interpretação prevaleceu, consoli-
dou-se. No fim dos anos 1970 e na década de 1980, era a versão mais pala-
tável, não porque imposta, mas por corresponder melhor às demandas e às
aspirações, por acreditar resolver muitas questões por oposições: civis e mi-
litares, a favor do regime e contra o regime. Assim, os movimentos sociais
valorizados são os de oposição; os de apoio ao regime, esquecidos ou inter-
pretados a partir de pontos de vista simplistas ou equivocados.
Hoje, quando já existe uma vasta historiografia a respeito da ditadura,
parece fundamental que se tornem objetos de estudo os movimentos, as
instituições, as manifestações, os personagens etc. que respaldaram o regime,
desconstruindo uma memória da resistência, não raramente superdimen-
sionada e mitificada.11
Mais do que isso, é preciso compreender esses objetos não exclusivamente
em campos bem delimitados de a favor ou contra, e sim naquilo que o histo-
riador Pierre Laborie chamou de zona cinzenta: o enorme espaço entre os dois
polos — resistência e colaboração/apoio — e mais, o lugar da ambivalência no
qual os dois extremos se diluem na possibilidade de ser um e outro ao mesmo
tempo. Então, para interpretar a sociedade francesa sob o regime de Vichy
(1940-1944), Laborie cunhou o conceito penser-double: muitas vezes, se é um
e outro, se é duplo.12 Nessa ambivalência, que não é sinônimo de contradição,
estaria a França dos anos troubles. Embora sejam conceitos para interpretar
uma situação específica, acredito que podem ser um instrumental teórico va-
lioso na reflexão da sociedade brasileira dos anos 1960 e 1970.
Para além da ambivalência, é preciso investigar a ausência de oposição,
ou seja, tornar objeto de estudo a opinião13 que não se manifesta diante do
infame. Esse vazio ocupa um lugar na História, na história do período 1964-
1985. Como disse outro historiador dos années noires, Henry Rousso, “o
inquietante com Vichy não é tanto os crimes de uma minoria, mas a indife-
rença da grande maioria”.14

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No caso da ditadura brasileira, é preciso ainda tornar objeto de pesquisa


o argumento do desconhecimento, da ignorância, tantas vezes usado ao fim
das ditaduras para justificar omissões. No contexto do fim da Segunda Guer-
ra Mundial, Albert Camus já alertava: “No dia em que o crime se ornamenta
com os despojos da inocência, por uma curiosa deformação que é própria
do nosso tempo, é a inocência que se vê intimada a apresentar suas justifi-
cativas.”15
Assim, o penser-double, a indiferença, a inocência, o mito da resistência
— ou a memória superdimensionada da resistência — impõem definições
ou redefinições mais elaboradas do próprio conceito de resistência.16

LUGARES DA RESISTÊNCIA

A memória da abertura segundo a qual a sociedade foi o grande ator que


impulsionou a transformação de um regime ditatorial para um regime de-
mocrático transcende o próprio período, ou seja, 1974-1985. É uma me-
mória que evidenciaria o que teriam sido, na verdade, o comportamento e
a opinião da sociedade sob ditadura.
Nesse contexto, algumas instituições surgem, então, como as grandes
fortalezas do embate contra o regime, como a Associação Brasileira de Im-
prensa (ABI), a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Como se sabe, mas frequentemente se silencia, a OAB e a CNBB apoia-
ram o golpe de 1964, saudando-o com entusiasmo. A Ata da Reunião Or-
dinária do Conselho Federal da OAB, o Conselho Pleno, de 7 de abril de
1964, é um verdadeiro manifesto a favor da intervenção militar, resgatan-
do “a memorável reunião extraordinária de 20 de março [1964]” quando
“tivemos a lucidez e o patriotismo de alertar para a defesa da ordem jurídi-
ca e da Constituição”.17 O documento e os registros das reuniões seguintes
revelam o apoio da instituição e de setores significativos da sociedade, au-
sente na consagrada fórmula do golpe militar.18
A Comissão Central da CNBB divulgou, em julho de 1964, a “Declara-
ção da CNBB sobre a situação nacional”, na qual se colocava:

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Atendendo à geral e angustiosa expectativa do Povo Brasileiro, que via a


marcha acelerada do comunismo para a conquista do Poder, as Forças Ar-
madas acudiram em tempo e evitaram se consumasse a implantação do regi-
me bolchevista em nossa Terra.

E adiante:

Logo após o movimento vitorioso da Revolução, verificou-se uma sensação


de alívio e de esperança, sobretudo porque, em face do clima de insegurança
e quase desespero em que se encontravam as diferentes classes ou grupos
sociais, a Proteção Divina se fez sentir de maneira sensível e insofismável.
De uma à outra extremidade da pátria transborda dos corações o mesmo
sentimento de gratidão a Deus, pelo êxito incruento de uma revolução arma-
da. Ao rendermos graças a Deus, que atendeu às orações de milhões de brasi-
leiros e nos livrou do perigo comunista, agradecemos aos Militares que, com
grave risco de suas vidas, se levantaram em nome dos supremos interesses
da Nação, e gratos somos a quantos concorreram para libertarem-na do
abismo iminente.19

A ABI, como instituição, não apoiou, formalmente, o golpe. Entretan-


to, na leitura das Atas das reuniões ordinárias e extraordinárias e do Boletim
do Conselho Administrativo da ABI,20 chama a atenção o tipo de luta enca-
minhado: eminentemente corporativa, de defesa de jornalistas presos e da
liberdade de imprensa. Evidentemente, eram pontos de pauta de grande
importância na chamada resistência democrática, mas estavam longe de
esgotar a agenda de temas que se impunham, mesmo — ou sobretudo —
numa instituição de jornalistas. Assim, muitas vezes, é a ausência de deter-
minados temas o que chama a atenção, prevalecendo em debate outros
menos relevantes diante do contexto por que o país passava.
Para além dessa questão, a documentação revela a diversidade das posi-
ções nos debates. A ABI e a OAB, antes de 1974, travavam discussões inter-
nas a respeito do regime instaurado no país, de como se posicionar como
instituição sem a unanimidade construída a posteriori pela memória. No
caso da OAB, a unanimidade existiu, sim, no momento do golpe, saudando
“os homens responsáveis desta terra” que “erradicavam” “o mal das conju-

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ras comuno-sindicalistas, proclamando que a sobrevivência da Nação Bra-


sileira se processou sob a égide intocável do Estado do Direito”.21
O silêncio sobre o apoio ao golpe ou sobre as contradições e embates
internos nessas instituições acerca da conjuntura por que o país passava
reforça a ideia da possibilidade de a memória coletiva ser um instrumento
de coesão social, e não exclusiva ou principalmente de coerção.22
O que é mais desafiador, entretanto, é, sem dúvida, compreender as
ambivalências que fundiam apoio e rejeição; as posições que diluíam as fron-
teiras rígidas entre uma coisa e outra, que não cabem nos campos bem de-
marcados com os quais a historiografia vem trabalhando.
O enquadramento da memória,23 assim, fez-se em função do mito da ge-
ração resistente. As gerações que viriam depois, não tendo vivido o período,
herdaram-na, projetaram-na para adiante, isolando-a cada vez mais da histó-
ria.24 Nesse sentido, o livro de Edmar Morel, jornalista, conselheiro da ABI25
ao longo da ditadura, lançado em 1985 — o último ano do regime — A trin-
cheira da liberdade. A história da ABI, subentende, até pela metáfora trinchei-
ra, que a luta da instituição foi de enfrentamento em campo claramente
definido em relação a outro campo, como numa guerra, opostos pela guerra.
A objetivo do artigo é, então, recuperar as discussões internas, nos dez
primeiros anos da ditadura, na ABI, que se tornou, com a OAB e a CNBB,
símbolo da resistência no pós-1979;26 acompanhar a diversidade que desa-
pareceu ou se diluiu, posteriormente; compreender as posições em suas
ambivalências para melhor perceber o que foram a vivência da instituição
sob o regime de exceção e a sua memória.

AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

Nas Atas das reuniões ordinárias e extraordinárias do Conselho Administra-


tivo, assim como no Boletim do Conselho Administrativo da ABI, é uma
constante a defesa da liberdade de imprensa, contra a reforma da Lei de
Imprensa em vigor, quando do golpe, contra a censura, com destaque para
a Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e a atuação em defesa de

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jornalistas presos. Criada ainda na gestão de Herbert Moses, logo se tor-


nou Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e do Livro.
Embora Edmar Morel, ao escrever a história da instituição, desde a fun-
dação, não tenha deixado de mencionar a existência de conflitos internos
— a Associação como “um verdadeiro saco de gatos”, “dividida em gru-
pos”, “clima de tensão na Casa”,27 “a classe um tanto tumultuada”28 — não
esclarece do que se tratava. Buscando coesionar a ABI num polo bem de-
marcado em relação ao regime, as diferenças se diluem. Certamente, o con-
texto do início da década de 1980 pode explicar essa construção, um
momento ainda de tensões em relação à abertura política, marcado pelos
atentados terroristas de militares contrários à abertura, atingindo, inclusi-
ve, a ABI. Apesar disso, a unidade que se construía então não deve se res-
tringir, como veremos, a esse aspecto.
Quando do golpe, o jornalista Herbert Moses ocupava a presidência da
ABI havia 33 anos, o que, diga-se de passagem, não parecia um problema.
Ao menos, não há registro nesse sentido. Idoso e com problemas de saúde,
Moses renunciou em agosto, elegendo-se presidente Celso Kelly, no mês
seguinte.29 Em fevereiro de 1966, Kelly renunciou para assumir a direção
do Departamento Nacional de Ensino, do Ministério da Educação, ocu-
pando tal função “em prol da educação moral e cívica da mocidade”, como
se referiu Morel. Assim como fizera Moses nos anos da ditadura Vargas, da
mesma forma que “quase todos os presidentes da Casa”, ele “procurou es-
tabelecer contato com os ministros militares”, alegando Kelly ser o “gover-
no reconhecido por quase todos os países do mundo”.30
Ao longo dos dez primeiros anos do regime civil-militar, é interessante
notar como a memória de Getúlio Vargas é trabalhada. Se em 1985 está
associada à ditadura — “o Brasil estava mergulhado nas trevas do Estado
Novo”31 —, em 1974, em pleno regime ditatorial, Vargas era homenagea-
do, na ABI, no momento do 20º aniversário da sua morte.32 O conselheiro
José Talarico, quando propôs a homenagem a Vargas, havia acabado de
saudar a Conferência Nacional dos Advogados, por sua atuação em “defe-
sa das liberdades democráticas”.33 Na reunião seguinte, outro conselheiro,
Gentil Noronha, referia-se à importância do suplemento sobre o desapare-

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cimento do presidente, publicado no Jornal do Brasil, solicitando que a ABI


se congratulasse com o periódico.34
Assim, Vargas era lembrado, ao fim da ditadura de 1964, como dita-
dor que cerceara a liberdade de imprensa e — não porém — digno de
honras na Casa do Jornalista. Sem aparentes contradições. Ou, ainda,
identificado com ditadura, em 1985, mas não enquanto se vivia sob dita-
dura.35 É nessa ambivalência que se pode compreender a ideia de que
“sobreviveu a ABI ao Estado Novo de Vargas”36 e, “ao deixar o Rio, após
ser deposto, [Vargas] foi acompanhado por Moses [então presidente da
ABI] até a porta do avião”.37
A relação ambivalente com a memória de Vargas parece se repetir quan-
to à ditadura que, então, vigorava.

***

As deferências a homens do regime estão presentes em diversos momentos.


Na reunião de julho de 1967, o conselheiro Oswaldo Paixão propôs o
voto de pesar pela morte de Castelo Branco. Apesar dos “acalorados deba-
tes”, quando os que se manifestavam contrários à proposta alegaram “en-
tre outros motivos a perseguição movida pelo ex-presidente aos homens
de imprensa”,38 foi aprovada com um único voto contrário, do conselheiro
Miguel Costa Filho.
Alguns meses antes,

O Conselheiro Mozart Lago apresentou proposta no sentido de ser convi-


dado a comparecer à próxima reunião do Conselho o Ministro Hélio
Beltrão, filho do antigo jornalista, vice-presidente e um dos baluartes da
Casa. O Conselheiro Othon Costa propôs, em adendo à referida propos-
ta, que a ABI envie telegrama ao Ministro Hélio Beltrão, congratulando-o
pela sua escolha para o Ministério do Planejamento. O Conselheiro Mozart
Lago propõe ainda que seja indicado o Conselheiro Othon Costa para
saudar, em nome do conselho, o ilustre visitante. Todas as propostas fo-
ram aprovadas.39

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Aprovadas, aparentemente, sem voto contrário, pois não se registrou


qualquer posição contrária em ata.
Ainda em relação às homenagens a homens do regime, um momento
especial ocorreu quando das comemorações do 60º aniversário da ABI, em
abril de 1968. O general-presidente que promulgaria, em dezembro, o AI-5,
colocando um ponto final no que ainda restara dos direitos civis, fora rece-
bido com entusiasmo na ABI. Para tal, o presidente Danton Jobim, senador
pelo MDB entre 1971 e 1978, figura que aparece em destaque na memória
da resistência democrática, muito se empenhou.40 Apesar das tensões que a
visita causou, foi na presença de Costa e Silva que se festejou a data. Em
reunião, no início do ano, Danton Jobim anunciava a honra concedida:

falou o presidente da ABI sobre o aniversário desta, quando será servido


um almoço no restaurante da casa, o qual será honrado com a presença do
Sr. Presidente da República, que acedeu, por intermédio do Dr. Rondon
Pacheco, em receber o Presidente da ABI. O presidente Danton Jobim com-
pareceu pessoalmente ao Palácio Laranjeiras ouvindo do chefe da nação que,
no dia sete de abril, deverá achar-se no Rio Grande do Sul. No entanto,
numa demonstração de especial deferência à ABI, virá de avião no dia men-
cionado, ou seja, sete de abril, data do aniversário da ABI.41

Ao mesmo tempo que se preparava e se aguardava a visita do general Costa


e Silva, o debate na ABI estabelecia-se: alguns conselheiros saudavam-no;
outros, inclusive o próprio presidente Danton Jobim, articulador da visita,
preferiam fazer ressalvas. Assim, em março de 1968, registrava-se a

moção de aplausos, de autoria dos Conselheiros Ivo Arruda e Armando


Pacheco, ao presidente Costa e Silva “pelo respeito com que tem tratado a
imprensa” e por haver declarado não se utilizar da atual Lei de Imprensa
para punir jornalistas. Fazendo considerações sobre a moção, falaram di-
versos Conselheiros, entre os quais o Presidente Danton Jobim, que disse
tratar a proposta de matéria complexa que não devia ser aprovada de
afogadilho, entendendo por isso que a moção devia ser enviada à Diretoria
para mais detido exame antes de ser aprovada (...); sobre o assunto, falaram
ainda os conselheiros Raul Floriano, que lembrou as palavras do presidente

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Costa e Silva afirmando que não modificara, de modo algum, a atual Lei de
Imprensa, e que o nosso ideal seria precisamente o contrário, não cabendo,
portanto, qualquer voto de louvor, embora não se oponha a agradecimen-
tos aos serviços que o presidente haja prestado à imprensa; Mário Saladini
acrescenta não haver o Presidente da República demonstrado nenhum apreço
à imprensa, tanto assim que procura defender a atual Lei de Imprensa, man-
tendo, além disso, o arrocho salarial, que somente se faria merecedor de
nossa homenagem se acabasse com a censura e tomasse outras medidas libe-
rais; (...) Armando Pacheco, que justifica sua assinatura na moção alegando
não se tratar de solidariedade ao presidente, mas de simples agradecimento
pelos serviços que o atual chefe de governo tem prestado à imprensa e à
classe dos jornalistas; e finalmente, Ivo Arruda diz não concordar com Danton
Jobim quando declara que não se deve aplaudir o presidente somente por-
que ele vem à ABI, recordando que o presidente Costa e Silva já se manifes-
tou sobre a não utilização no seu governo da atual Lei de Imprensa, o que
constitui um benefício real para a classe.42

Finalmente, aprovou-se a proposta de Danton Jobim de encaminhar a


moção à diretoria para “melhor exame”.
A recepção-homenagem, ao que parece, teve o apoio da maioria do con-
selho, que não a via em contradição com a luta pela liberdade de imprensa,
como expôs o jornalista Jocelin Santos.43 Ainda assim, não deixou de susci-
tar oposição, como a do conselheiro Edmar Morel, que, em resposta

a aparte do jornalista Jocelin Santos, que dizia compreender o significado


daquela luta [pela liberdade de imprensa], ao mesmo tempo em que a ABI
abria as suas portas para recepcionar Generais que sufocavam aquela liber-
dade e eram homenageados com almoços, lembrou o orador [Edmar Morel]
que tinha autoridade para se retirar, como o fez, para reconhecer e procla-
mar a linha de defesa intransigente da liberdade de imprensa em que sem-
pre se colocou a ABI, ainda que condenasse o movimento de banquetes, mas
não via em que se desonrasse a casa em receber um Presidente da Repúbli-
ca, destacando que entre vários deles que ali foram recebidos lembrava o
Presidente Getúlio Vargas, que visitou a ABI por sete vezes.

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Ou seja, era contra, retirava-se, mas a recepção não chegava a ser deson-
rosa. Segundo Danton Jobim, ao comentar a intervenção de Morel, a ABI em

nenhum momento cruzou os braços diante de quaisquer tentativas à liberdade


de imprensa em nosso País; disse dos contatos mantidos com as autoridades
militares, com Generais, políticos, inclusive com o Presidente Médici, objetivando
não apenas a liberdade de jornalistas dos cárceres, mas a liberdade de impren-
sa, não implicando a falta de publicações desses fatos em omissões...44

Sobre a homenagem da ABI ao general-presidente, Edmar Morel escre-


veu, em 1985:

Antes da morte do general Costa e Silva, a exemplo do que fizera Herbert


Moses com os presidentes Vargas e Dutra, Danton lhe ofereceu um almoço
na ABI, homenagem que motivou vários protestos sem a menor repercussão
em face da censura reinante na imprensa. A despeito do sistema de seguran-
ça, o general-presidente foi vaiado à saída do prédio. Na realidade, a ideia
do almoço foi infeliz. O presidente da República banqueteava-se na ABI,
quando havia dezenas de jornalistas presos e exilados, alguns torturados
bestialmente.45

Outro ponto importante a destacar é a incorporação pela ABI de símbo-


los dos governos militares. Assim, em 19 de novembro, a menos de um mês
do AI-5, prestava-se homenagem ao Dia da Bandeira.46 Embora esses sím-
bolos não tenham sido criados pela ditadura, sem dúvida foram amplamente
apropriados como recurso de propaganda e legitimação do regime.
Essa posição não impediu os muitos apelos para que se fizessem decla-
rações a favor de jornalistas cassados e presos, na sequência do fechamento
político que o Ato promoveu. Tampouco levou à reavaliação da homena-
gem que, naquele momento, dificilmente poderia estar desvinculada do
governo. Sem contradições, era possível atuar nos dois campos. Da mesma
forma que as perseguições no contexto do AI-5 não impediram, no ano se-
guinte, em agosto de 1969, que a ABI e seu presidente, Danton Jobim,
homenageassem o Exército:

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O presidente Danton Jobim fez um relatório das atividades da diretoria


durante o mês, destacando a participação da ABI nas comemorações da Se-
mana do Exército com a homenagem prestada às Forças Armadas, presen-
tes o Ministro Lira Tavares e os generais comandantes de unidades sediadas
na Guanabara.47

Com o afastamento de Costa e Silva e a posse de Médici, a ABI e seu


presidente saudavam o novo general-presidente com esperança e entusias-
mo. Na ocasião, foi-lhe enviada mensagem, assinada por Danton Jobim.
Com orgulho, aprovou-se a proposta de um conselheiro de transcrevê-la
na íntegra em ata. Embora longa, vale citá-la:

Sr. General Emílio Garrastazu Médici. A ABI, pela sua diretoria extraordi-
nariamente reunida, vem apresentar a V. Exa. suas congratulações pelo pro-
nunciamento de ontem, no qual V. Exa. expôs seus propósitos de governo.
Nele há posições que coincidem com ardentes aspirações dos homens de
imprensa, constantemente renovadas pelo voto de nossas Assembleias em
favor da paz e da concórdia entre os brasileiros, sob a égide de um autêntico
sistema democrático-representativo. Repercutiu entre nós favoravelmente
o reconhecimento, por V. Exa., de que para formulação de uma política efi-
caz de desenvolvimento será preciso reabrir o diálogo com os “homens de
imprensa, os operários, os jovens, os professores, os intelectuais, as donas
de casa, enfim, todo o povo brasileiro”. Bem assim a declaração que se se-
gue, de que “esse entendimento requer universidades livres, partidos livres,
sindicatos livres, Igreja livre”, o que pressupõe a eliminação da pressão ile-
gítima de certos grupos radicais minoritários. Regozija-se a ABI com saber
que o futuro presidente do Brasil “estará atento a esse esforço de libertação,
em cada dia do seu governo”. Não hesitamos, também, em aplaudir, sem
reservas, esta afirmação de seu discurso: “Em vez de jogar pedras no passa-
do, vamos aproveitar todas as pedras disponíveis para construir o futuro.”
Estamos certos, Sr. Médici, de que chegou a hora da união dos brasileiros
em torno da bandeira Democracia e Desenvolvimento que V. Exa. se mostra
disposto a empunhar com mãos firmes. A Nação poderá unir-se em torno
de um programa como esse, que resume os ideais da Revolução. Esta não
pode significar para o povo repressão e intolerância, nem hipertrofia do
Executivo e insegurança para os demais poderes. Deve constituir-se numa

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esperança de paz social e de respeito aos direitos fundamentais do homem,


jamais num regime em que a preocupação, sem dúvida legítima, com a se-
gurança nacional se torne tão obsessiva que acabe por negar o seu próprio
objeto, anulando a segurança de cada um. Ante o primeiro pronunciamento
de V. Exa., de nítida e sóbria eloquência, a ABI, invocando uma tradição de
mais de 60 anos a serviço da liberdade de expressão e considerando a ne-
cessidade de retirar-se a Nação do impasse institucional, vem manifestar a
sua plena confiança em que os propósitos de V. Exa. conduzam ao respeito
à liberdade de imprensa, a “primeira das liberdades”, numa democracia e
sem a qual será impossível o amplo e fecundo diálogo que V. Exa. deseja.
Por outro lado, a ABI lança um apelo àqueles que vêm discordando da orien-
tação do governo, inclusive a oposição organizada, para que manifestem o
seu propósito de união nacional, de modo que o novo presidente possa li-
derar com sucesso um esforço realmente nacional pelo Desenvolvimento e
pela Democracia, superando a lembrança do passado e encarando com ple-
na confiança o futuro. Danton Jobim — Presidente.48

Na verdade, o discurso de posse de Médici causara surpresa. Alçado ao


cargo por seu perfil de representante da chamada linha dura, para suceder
Costa e Silva, com a missão de radicalizar a repressão à luta armada, na
sequência da captura do embaixador americano, com o sistema DOI-Codi
funcionando a pleno vapor, as palavras e imagens poéticas do discurso soa-
ram estranhas.49 Estranho também é pensar que na conjuntura de acirra-
mento da repressão as surpreendentes palavras do general fossem capazes
de iludir veteranos jornalistas.
Na mesma reunião em que se leu a carta de saudação a Médici e consi-
derando o estado de saúde de Costa e Silva,

o conselheiro Danton Jobim apoiou moção de simpatia ao Marechal Costa


e Silva, destacando o lado positivo de seu governo, que, atendendo apelo
da ABI, restabeleceu o direito para o exercício da profissão de jornalistas
aos Srs. Antonio Callado e Leo Guanabara.

O conselheiro Hélio Silva, entretanto, manifestou-se: “achava prema-


turo qualquer julgamento favorável ao governo Costa e Silva, ressalvando,

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AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

porém, que não negaria seu voto a favor de uma mensagem ao cidadão Costa
e Silva, por motivo de sua doença”. Por fim, então, aprovou-se uma mensa-
gem, escrita por Elmano Cruz, estimando melhoras ao presidente.50
Em junho de 1970, num dos momentos de maior repressão e, ao mes-
mo tempo, de grande popularidade do governo Médici, Danton Jobim in-
formava na reunião do conselho “que havia recebido convite da Assessoria
de Relações Públicas da Presidência da República para a ABI mandar repre-
sentante a congresso a ser realizado em Brasília”. A Aerp produzia com
destacado sucesso as campanhas de propaganda política, que desempenha-
ram um relevante papel, embora não exclusivo, na popularização do regi-
me, de seus princípios e valores.51 Anunciou também o convite da Adesg,
Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra, aos associados
da ABI, para participarem do curso sobre tema-pilar do governo Médici:
Desenvolvimento e Segurança Nacional. Ao articular aquele a esse, o regi-
me procurava legitimar-se. Não há registro nas atas se a ABI atendeu aos
convites. Tampouco constam questionamentos ou debates acerca deles.52
Ainda no quadro do recrudescimento das perseguições como reação à
captura do embaixador dos EUA, o conselheiro João Etcheverry, recente-
mente libertado, agradecia “o apoio que recebeu da classe por ocasião de
sua prisão”, condenava as “manifestações terroristas” e afirmava “que não
calava seu protesto contra aqueles que têm obrigação de combater o terro-
rismo”. Por fim, em seu discurso, “pediu punição para os terroristas e terro-
ristas oficiais”. Em outras palavras, era capaz, ao mesmo tempo, de denunciar
o “terrorismo de Estado” e legitimar suas práticas, uma vez que elas se jus-
tificavam para combater, segundo vocabulário próprio, o terrorismo das
esquerdas, exemplificado no sequestro.53
Também nesse contexto, “o conselho aprovou por unanimidade o voto
do conselheiro Paulo Magalhães de pesar pelo falecimento do secretário de
Educação Gonzaga da Gama Filho”.54 Na mesma iniciativa, Magalhães pro-
punha o mesmo em relação ao ex-primeiro-ministro de Portugal Salazar.
Entretanto, nesse caso, “diversos conselheiros declararam que se abstinham
de votar, para não votar contra, de vez que os mortos merecem respeito”.
O conselheiro Miguel Costa Filho manifestou-se, explicando as razões de
sua abstenção:

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

“Não combato a proposta que acaba de ser apresentada” — leu de início —


“não só por entender que a pessoa morta, qualquer que ela seja, deve ser
respeitada, como também, e principalmente, por se tratar de ex-governante
da Nação da qual descendemos e que formou a nação brasileira com o con-
curso decisivo de africanos e indígenas”. A seguir definiu em traços breves o
salazarismo, do qual disse discordar frontalmente. Por fim, o autor da pro-
posta em causa declarou que em face à possibilidade de que a proposta vies-
se a ser aprovada por escassa maioria, com reflexos negativos para o Brasil
no exterior, decidia retirá-la, pondo um ponto final na questão.55

Se a homenagem ao ditador português encontrou espaço para ser pro-


posta, da mesma forma havia lugar para se saudar o fim da ditadura em
Portugal. Em junho de 1974, “são lidos ofícios da Embaixada de Portugal,
agradecendo a ‘moção de júbilo’, aprovada pelo Conselho Administrativo
da ABI, ao povo português, por motivo do restabelecimento do Governo
Democrático no país irmão”.56
Quando o general Geisel assumiu a presidência, justamente ele, que anun-
ciava a abertura política, as expectativas da ABI foram bem mais modestas
se comparadas às expressas na posse do general Médici:

Aprovada moção apresentada pelo conselheiro Antônio Carbone: 1 – Ma-


nifestar, em nome dos profissionais de imprensa que integram este Conse-
lho, sua expectativa favorável de que o novo governo consiga dar pleno senso
às intenções claramente manifestadas no primeiro pronunciamento presi-
dencial com relação aos campos econômico, social e político. 2 – Externar
sua esperança de que no decorrer do novo Governo venham a ser atendidos
os anseios de normalização institucional do país, através da construção de
um modelo político, consentâneo com as nossas tradições cristã e democrá-
tica. 3 – Manifestar a esperança de que em breve possa esta Casa vir a con-
gratular-se com a nova administração por ter feito cessar as restrições que
ainda pesam sobre a liberdade de imprensa e os obstáculos que se antepõem
ao acesso às fontes de informação.57

Outro elemento central da propaganda do governo, assumido pela ABI,


diz respeito às comemorações do Sesquicentenário da Independência do
Brasil, em 1972, festa que incorporava o patriotismo do regime, identifi-

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AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

cando nação e governo, e simbolizava a glória do milagre econômico: pas-


sados 150 anos da independência política, os militares faziam, então, a
independência econômica. Tempos de Brasil Grande, o país do futuro era
também o país do presente. A comemoração do 1822 celebrava, na verda-
de, o presente, o próprio regime, os militares e a independência econômica,
seu grande mérito. Uma confraternização a reunir todos, num projeto su-
postamente de interesse nacional ao qual não era possível oposição.
A ABI integrou-se à festa. Em abril, compunha uma comissão para “os
festejos do Sesquicentenário da Independência do Brasil”:58

O Conselho Administrativo participou condignamente das comemorações


do Sesquicentenário de nossa Independência, tendo realizado, por propos-
ta dos Conselheiros Fernando Segismundo e Miguel Costa Filho, um Ciclo
de Conferências, ao qual foi dado o seguinte título: “A Imprensa no Movi-
mento da Independência”. Iniciado no dia 18 de agosto, encerrou-se no dia
6 de outubro último, de acordo com o seguinte temário: A liberdade de
imprensa, pelo Senador Danton Jobim, ex-Presidente da ABI; A revolução
e a contrarrevolução, Prof. José Honório Rodrigues; A Imprensa no proces-
so da Independência, Prof. Pedro Calmon; A Imprensa do Extremo Norte
no processo da Independência, Prof. Artur César Ferreira Reis: João Soares
Lisboa, sua vida e sua obra, Prof. Fernando Segismundo; Jornais da Corte
(1808-1823), Miguel Costa Filho; Quatorze anos de luta pela Independên-
cia (Hipólito da Costa e o Correio Braziliense), Prof. Barbosa Lima Sobrinho.59

Entretanto, ao mesmo tempo que participava da festa do regime, a ABI


usou-a para falar de liberdade de imprensa, recuperando outros períodos
da História nos quais os jornalistas atuaram sob censura. Assim, recorria
também ao passado para aludir ao presente.
Por sua vez, a ABI era homenageada pelo governo:

A Comissão Executiva Central do Sesquicentenário, presidida pelo General


do Exército Antonio Jorge Correa, outorgou à ABI, como também aos sócios
que participaram das comemorações realizadas pela Casa dos Jornalistas,
um diploma pela sua inestimável colaboração às comemorações do Ses-
quicentenário da Independência do Brasil.60

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

A ABI incorporou o discurso de emancipação econômica, essencial ao


projeto de união nacional. Essa incorporação, que não impediu sua atua-
ção a favor de jornalistas atingidos pelo regime, não apareceu exclusiva-
mente nas festas do Sesquicentenário. Em 1973, por exemplo, declarava a
moção de apoio à Petrobras, aprovada por unanimidade com o seguinte
argumento:

A emancipação econômica do Brasil tem um dos seus esteios na atuação bem-


sucedida das empresas estatais, responsáveis por setores-chave da economia
nacional. (...) a Assembleia Geral da ABI dirige ao General Ernesto Geisel e,
por seu intermédio, a todos os servidores da Petrobras — auxiliares, técni-
cos, trabalhadores — esta mensagem de solidariedade para que continuem,
sem desfalecimento, no seu trabalho em prol do Brasil.61

Nesse mesmo sentido, era possível atuar contra a censura prévia sem
hostilizar o governo que a promovia. Em maio de 1973, Adonias Filho, na
apresentação do Relatório da Comissão da Liberdade de Imprensa, afirma-
va que “a comissão designada para examinar as condições em que vem sen-
do exercida a censura policial prévia não assumiu e nem sugere hostilidade
às autoridades governamentais”.62 Até porque do governo participava o
presidente da ABI, eleito para o mandato 1972-1974. Adonias Filho foi
diretor da Biblioteca Nacional por dez anos, de 1961 a 1971. Em 1967,
tornara-se membro do Conselho Federal de Cultura e seu diretor entre 1977
a 1990. Dirigiu ainda o Instituto Nacional do Livro e a Agência Nacional
do Ministério da Justiça. “Com o advento da revolução de 1964”, afirma
Edmar Morel, “Adonis Filho, pela sua cultura e respeitabilidade, tinha livre
trânsito nos altos escalões do governo”.63
Na verdade, era por meio das relações com o governo que os problemas
seriam resolvidos:

Esclarece [Fernando Segismundo] que a Diretoria está cuidando de estabelecer


melhor relacionamento com as altas autoridades do país, para o correto atendi-
mento de assuntos relevantes para a classe dos Jornalistas, como liberdade de
imprensa, o funcionamento da Comissão de Defesa da Pessoa Humana etc.64

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AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

Outra questão a se observar nas atas são as manifestações a favor da


anistia, que, desde muito cedo, aparecem. Sempre associadas às ideias de
conciliação, união de todos os brasileiros e pacificação, o modelo constante-
mente evocado é o de Duque de Caxias, patrono do Exército, o Pacificador.
A primeira referência à anistia data de 29 de abril de 1969. A proposta,
de autoria do “consócio” Pedro Coutinho Filho “e outros”, aprovada por
unanimidade, ao ser apreciada clamava ao

apelo à pacificação dos brasileiros, como essencial ao desenvolvimento do


país. “A História de nossa Pátria”, diz a proposta, “mostra que o caminho
para a pacificação é a anistia. Dela usou largamente o Duque de Caxias,
patrono do Exército Brasileiro”. Assim, propõe que a assembleia exprima a
convicção de que a anistia é a fórmula de união dos brasileiros para maior
grandeza do Brasil.65

Integrando-se ao projeto de desenvolvimento do governo, propunha-


se, no ano seguinte:

depois de se reportar às questões que dizem respeito diretamente com o


futuro e a prosperidade do povo brasileiro, lembrando o exemplo de Du-
que de Caxias, como o Pacificador, o jornalista Paulo Magalhães se reporta
a pronunciamentos feitos pelo Presidente Médici sobre a necessidade de se
complementar a independência política conquistada em 1822 e, em nome
da ABI, dirige apelo ao chefe do Governo, no sentido de pacificar a família
brasileira, através da anistia. Defendendo a sua proposição, diz que a apre-
sentação daquela moção foi feita dentro das tradições de nossa Casa, de nossa
própria vida de cidadãos, da própria vida do Brasil. Acrescenta que a anistia
é um bem para a Nação Brasileira e é realmente um motivo a mais para que
o Governo se sinta mais forte. Em aparte, o Conselheiro Raul Floriano diz
que seria melhor que essa proposição não tivesse necessidade de ter sido
feita, que não nos encontrássemos fora da lei e que era por se sentir assim,
por um sentimento de direito e de legalidade que aplaudia a proposição que
acabava de ser encaminhada por Paulo de Magalhães.66

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Outra proposta de anistia aprovada por unanimidade, em 1971, incorpo-


rando os valores e referências do projeto de desenvolvimento do regime:

Pacificação. Propondo a anistia ampla e irrestrita. Anistia: “união de todos


para as grandes tarefas do desenvolvimento econômico-social.” Conclui
reiterando apelo às autoridades da República para que façam da anistia o
instrumento de pacificação que todos esperam.67

No ano seguinte, em abril de 1972, no contexto das comemorações do


Sesquicentenário, Edmar Morel apresentou a proposta de anistia, iden-
tificada com esquecimento, confraternização e patriotismo e com o projeto
da ditadura que os anos Médici tão bem encarnavam. Vale a citação, embo-
ra longa:

Foi aprovada por prolongadas salvas de palmas a moção Pró-Anistia de au-


toria do confrade Edmar Morel, cujo teor é o seguinte: “A Assembleia-Geral
Ordinária da Associação Brasileira de Imprensa, neste ano do Sesqui-
centenário, comunga do júbilo patriótico do povo e do Governo brasileiro
pelo transcurso de um século e meio de vida independente e se integra no
conjunto da nacionalidade empenhada em complementar a Independência
política pela Emancipação econômica, em processo de ser alcançada. Como
assinalou o Excelentíssimo Senhor Presidente da República, a soberania da
Nação não se outorga, não se recebe de presente, antes se conquista, se preser-
va e se amplia. Eis por que os ensinamentos de Tiradentes e de José Bonifácio
hão de ser lembrados e reverenciados no ano do Sesquicentenário como o
melhor roteiro para que o Brasil seja uma nação livre, próspera e feliz.
A Imprensa tem procurado cumprir o seu dever contribuindo para que
o Brasil alcance a sua vocação de fraternidade e de paz, ainda que, por ve-
zes, com sérios entraves, pelo tolhimento da liberdade de informar e de crí-
tica. Que cada órgão e cada homem de imprensa se capacitem da grandeza
desta missão e saibam trazer a sua colaboração ao grande debate de doutri-
nas e de ideias essenciais à formação do consenso majoritário fundamental
à vida democrática.
A Assembleia Geral da ABI, como em oportunidades anteriores, acredita
que a vocação de fraternidade e de paz do Brasil será tão mais prontamente
alcançada quanto mais rapidamente se eliminarem as barreiras que dividem

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AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

os brasileiros. Hoje, neste ano do Sesquicentenário, como em outras épocas


memoráveis de nossa História, a anistia — o esquecimento e a confraterniza-
ção — é o remédio que cabe aplicar com altruísmo e discernimento, para
que o Brasil venha a ser, efetivamente, a comunidade de todos.” Terminada
a aprovação desta magnífica moção...68

Nos anos de maior repressão e popularidade da ditadura, corresponden-


tes ao governo Médici, a promessa de uma nação livre, próspera e feliz, vivi-
da com entusiasmo pela instituição que, ao mesmo tempo, não deixava de
defender a liberdade de expressão. A magnífica moção embebida em princí-
pios da ditadura, aprovada pelo aplauso unânime dos que se acreditavam na
trincheira da liberdade. O Brasil rumo a alcançar a sua vocação de fraternidade
e paz, que, na época, rimava com ausência de vozes dissonantes. A paz da
intolerância, a paz dos cemitérios, tal qual a conquistada por Duque de Caxias.
Marco Morel, jornalista e historiador, neto de Edmar Morel, tendo “vivi-
do como adolescente e jovem alguns desses episódios” na ABI, acredita, en-
tretanto, que a evocação da imagem do patrono do Exército teria sido mais

um recurso de retórica repetido na época, uma maneira de chamar às falas


os militares, de reivindicar anistia sem parecer subversivo e incorrer no risco
de repressão. (...) Creio que não significava, necessariamente, adesão à figura
de Caxias e aos militares que governavam, mas sim uma instrumentalização
de sua figura histórica, uma tentativa de reinvenção de memória, um mal-
arranjado Cavalo de Troia.69

Envolta nessas referências, aprovou-se mais uma proposta, em 1973, evo-


cando não apenas o patrono do Exército, mas também Ruy Barbosa:

Aprovado louvor a Ruy Barbosa, proposto por João Antônio Mesplé, lembra-
do em seu combate pela anistia no passado. “Pelos jornais, na tribuna parla-
mentar, perante os tribunais, sucedem-se apelos à fraternidade, à harmonia,
ao entendimento nacional. A anistia é o remédio que ele [Ruy Barbosa] não
se cansou de apontar, como indicado para devolver ao País a tranquilidade
necessária. É preciso retroceder ao Duque de Caxias para encontrar em nossa
história exemplo tão expressivo de apego à anistia política.”70

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

A ABI fazendo das palavras do regime as suas. Eliminadas e controladas


as oposições, o regime legitimado socialmente, cuja popularidade podia ser
ouvida nos estádios lotados clamando o nome do general, a anistia selaria
a tranquilidade da nação, coesa, fraterna, harmônica, conciliada no presen-
te, assumindo sua vocação, eliminando as barreiras que dividem, esquecen-
do e confraternizando, comungando do júbilo patriótico do povo e do governo
brasileiro, empenhada em complementar a independência política pela eman-
cipação econômica, em processo de ser alcançada. A comunidade de todos!
Afinal, Nunca fomos tão felizes, dizia o slogan da Aerp.
Por fim, na última referência à anistia, no período estudado, apelando à
conciliação, o conselheiro José Talarico refere-se à anistia como ato religioso:
“Dia 25 último, ao iniciar-se o Ano Santo, S. S. Paulo VI considera o ano da
conciliação, conclamando que, no período que irá até o Natal de 1975, as
nações de todo o mundo concretizem a anistia aos presos políticos para
maior significação desse evento católico.”71

***

O desempenho da ABI na defesa da liberdade de imprensa e de jornalistas


atingidos pelo regime parece não ter sido uma unanimidade nas discussões
das reuniões da instituição. Em junho de 1966, o conselheiro Raul Floriano
“fazia restrições à diretoria da ABI quanto à ação da entidade em defesa da
liberdade de imprensa e de jornalistas atingidos por medidas restritivas ao
desempenho da profissão”. Elmano Cruz, então presidente do conselho,
rebateu as acusações: “Jamais a Diretoria da ABI ou a Comissão de Defesa
da Liberdade de Imprensa e do Livro se omitiram no que toca a sua atua-
ção em defesa dos jornalistas presos ou ameaçados.” Em seguida, instau-
rou-se acirrado debate contra a posição de Raul Floriano e em defesa do
empenho da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e do Livro,
presidida pelo presidente do Conselho Administrativo, Elmano Cruz, na
luta a favor da liberdade de imprensa e de jornalistas presos. “O Conselhei-
ro Raul Floriano voltou a falar citando alguns exemplos de jornalistas cer-
ceados que, no seu entender, não tiveram a devida defesa por parte da ABI”,
dizendo, mais adiante, que “sofremos um pouco de descrédito” em face

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AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

das omissões por ele citadas. Foi marcada, então, uma reunião extraordiná-
ria do Conselho Administrativo para 7 de julho de 1966 para discutir espe-
cificamente as denúncias de Raul Floriano.72
Nessa reunião de julho, Raul Floriano chamava atenção para a parciali-
dade com a qual a ata da reunião anterior havia sido escrita, com a omissão
de suas réplicas no debate que se seguiu às suas denúncias. Explicava, en-
tão, que sua moção, apresentada na reunião anterior e que motivara o de-
bate, “foi inspirada pelas cassações de credenciais [de jornalistas] ocorridas
em maio e junho últimos [1966], quase todas divulgadas pela imprensa, mas
nenhuma verberada por essas entidades [ABI, Comissão de Defesa e Con-
selho Administrativo]”. Raul Floriano protestou ainda contra a omissão na
ata da reunião anterior da

explicação feita pelo Presidente Danton Jobim, que disse não ser de seu fei-
tio trazer para a publicidade os fatos ocorridos na administração de seu jor-
nal Última Hora, mas que, citado esse nominalmente pelo Conselheiro Raul
Floriano, se sentia no dever de confirmar que a Presidência da República
afastou o repórter credenciado João B. Serra, alegando ter ele assinado em
março último um manifesto com mais de mil assinaturas de solidariedade
aos intelectuais presos por ocasião da Conferência Interamericana.73

Por fim, o conselho, “tomando conhecimento de novas cassações de cre-


denciais de representantes de jornais”, resolveu tomar providências junto
aos setores da administração pública. Em agosto de 1966, Raul Floriano
voltou a criticar a ação da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa e
do Livro.74
O mesmo Raul Floriano propunha ao conselho, em janeiro de 1967,
constar em ata

um voto de louvor aos Srs. Roberto Marinho, João Dantas, Helio Batista,
Adolfo Bloch, Hélio Fernandes, Tenório Cavalcanti e Ênio Silveira que, em
seus jornais, revistas e editora, tomaram conhecimento da situação precária
em que ficaram colocados redatores e escritores seus que caíram no desagrado
do governo passado e os mantiveram em suas funções, amparando-os, não

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

os privando do que auferiam com seu trabalho. Essas atitudes não devem
cair no olvido e merecem ser aplaudidas por sua nobreza e desassombro.
Por isso, requeiro que, além do voto de louvor a O Globo, O Diário de
Notícias, Correio da Manhã, Manchete, Tribuna da Imprensa, Luta Democrá-
tica e Editora Civilização Brasileira, acima referidos os seus diretores, que
seja comunicado um ofício a cada um. (...). Esta proposta foi aprovada por
unanimidade.75

Entre as empresas e empresários estão periódicos e jornalistas identifi-


cados com o regime e contrários a ele. Uns e outros teriam amparado jor-
nalistas atingidos pela repressão, merecendo, portanto, a saudação. Com
esse critério, homenageavam-se também veículos que respaldavam o governo
e seus princípios, entre eles o cerceamento da liberdade de expressão.
Alguns meses depois, em maio, o conselheiro Ivo Arruda propôs “que o
conselho se congratule com o jornalista Roberto Marinho por haver rece-
bido o título de Cidadão Honorário de Belo Horizonte”. Assim, o respon-
sável pela rede de meios de comunicação mais importante do país, que
desempenhou um papel destacado de apoio aos militares no momento do
golpe e na implantação da ditadura, era, uma vez mais, merecedor dos aplau-
sos da ABI.76

***

Em abril de 1971, por meio do projeto de lei do deputado Bilac Pinto, do


qual se originou a Lei 4.319, foi criado o Conselho de Defesa dos Direitos
da Pessoa Humana, “que se destina a assegurar a plenitude de tais direitos
por meio do funcionamento de um órgão específico, capaz não só de pro-
mover inquéritos sobre possíveis violações, como de garantir a divulgação
do conteúdo de cada um desses direitos e de contribuir para o seu aperfei-
çoamento”.77 A ABI participou do conselho.
Entretanto, antes mesmo de terminar o ano, em dezembro, a ABI inicia-
va uma discussão interna que se estendeu nos anos seguintes: devia ou não
se retirar do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, “tendo
em vista a recente lei denominada Rui Santos, que, dentre outras medidas,

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AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

torna sigilosas as reuniões do mencionado organismo”. Danton Jobim afir-


mava, então, que a ABI fora contra a decisão pelo sigilo e no Senado con-
denou o projeto. No MDB, comunicou seu ponto de vista contrário à
retirada da representação da ABI do Conselho de Defesa dos Direitos da
Pessoa Humana. Danton Jobim se diz informado de que nem o MDB nem
a OAB se retirariam do organismo. Propunha, então, que a ABI se manti-
vesse no posto, o que não implicava estar de acordo com o sigilo: “Não
deve abrir mão de um posto que lhe foi conferido por lei e que pode servir,
como tem servido, a denúncias de abusos contra a liberdade de imprensa e
as pessoas dos jornalistas.” Defendia “que não se cale mais uma voz de pro-
testo diante de quaisquer arbitrariedades que se cometam contra jornais e
jornalistas, motivo por que é contrário à retirada da ABI do Conselho de
Defesa dos Direitos da Pessoa Humana”. A posição de Danton Jobim ven-
ceu a do conselheiro Fernando Segismundo, pela retirada, devido ao sigilo,
por 18 a 14 no Conselho Administrativo.78
Em setembro de 1972, o conselheiro Antônio Carbone referia-se ao caso
de O Estado de S. Paulo, incomodado pela censura e pela polícia. Leu o
telegrama que o diretor do jornal, Ruy Mesquita, enviara ao ministro da
Justiça, Alfredo Buzaid:

Parece incrível que os que decretam hoje o ostracismo forçado dos próprios
companheiros de Revolução, que ocuparam ontem os cargos em que se en-
contram hoje, não cogitem de cinco minutos do julgamento da História. O
Senhor, Sr. Ministro, deixará de sê-lo um dia. Todos os que estão hoje no
poder dele baixarão um dia e, então, Sr. Ministro, como aconteceu na Ale-
manha de Hitler, na Itália de Mussolini, ou na Rússia de Stalin, o Brasil fica-
rá reduzido à verdadeira história deste período em que a Revolução de 1964
abandonou os rumos traçados pelo seu maior líder, o Marechal Castelo Bran-
co, para enveredar pelos rumos de um caudilhismo militar, que já está fora
de moda inclusive nas repúblicas hispano-americanas.79

O tom agressivo e mesmo as comparações entre o nazismo, o fascismo


e o stalinismo com a ordem vigente são surpreendentes. Mas Castelo Bran-
co era diferente, encarnava os ideais da revolução que se perderam. Assim,

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

o golpe se justificara, nada tinha a ver com o que veio depois. Ao saudar o
maior líder, saudava-se o seu maior feito: o golpe. Aqui, a interpretação
que via um fosso entre a linha branda e a linha dura, sem compreender que
uma e outra se complementavam, que a combinação dessa tensão pôde ser
resolvida por muito tempo e, na verdade, permitia, entre outros fatores, a
própria longevidade do regime.80

***

O conselheiro Carbone denunciava em maio de 1973 “o ex-conselheiro


Acioly Lins [que] se encontra em Brasília procurando entender-se com se-
nadores e deputados, aos quais declara que na ABI alguns associados exer-
cem atividades subversivas”.81 Um mês antes, o sócio João Antônio Mesplé
revelara que ele e outros colegas haviam sido delatados por Acioly Lins.82
Quando houve o golpe de Estado no Chile, o conselheiro José Gomes
Talarico mobilizou-se no sentido de ajudar jornalistas exilados no país e os
que se encontravam em situação provisória na Argentina, tentando asilo
para partir. “Não desejamos aqui entrar em apreciações políticas sobre as
situações vigentes no Chile ou na Argentina. Não nos cabe e não desejamos
ter esse procedimento. Respeitamos a soberania de cada país”, afirmou, ao
mesmo tempo que atuava junto às famílias, a advogados, tentando acionar
o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana.83
Em fins de 1974,

o Conselheiro José Talarico, ao comunicar o regresso ao País do Dr. Darcy


Ribeiro, a fim de se submeter a uma operação de urgência, solicitou, com
apoio do Conselho, que seja enviada mensagem de agradecimento ao Sr.
Presidente da República e por ter proporcionado o regresso à Pátria, em
tais condições, daquele cientista brasileiro.84

Assim, expressava satisfação com a volta de um exilado político e pres-


tava reverência ao governo, que a permitia, o mesmo governo que o expul-
sara. Devia-se agradecimento a ele.

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AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

Em outubro de 1973, de acordo com decisão do Conselho Administra-


tivo, o seu presidente, desembargador Elmano Cruz, se dirigia ao presiden-
te Médici:

Excelentíssimo Senhor presidente:


O Conselho Administrativo da ABI (...) vem submeter ao alto conhecimen-
to de Vossa Excelência o assunto que se faz desordenadamente, sem que haja
uniformidade de critérios ou de orientação ética na sua aplicação. As coisas
mais estranhas ocorrem com o Serviço de Censura, que, talvez porque ve-
nha sendo exercido por pessoas não capacitadas para tão alto mister, longe
de atingir sua alta finalidade, desfigura e distorce o retrato que do governo
de Vossa Excelência faz o povo brasileiro em geral e a imprensa em particu-
lar. Vossa Excelência deve sentir certamente a grande popularidade de que
desfruta o seu governo em todas as camadas sociais e a ação ineficaz e
inoperante de servidores encarregados da censura não deve e não pode des-
truir este “status”.85

Na mensagem, a percepção comum também nas esquerdas de que a cen-


sura encontrava-se em mãos incompetentes.86 Para Elmano Cruz, prova-
velmente, o general não estava a par da situação, era preciso alertá-lo. A
censura em si tinha uma alta finalidade. A grande popularidade do gover-
no, em todas as camadas sociais, observada pelo desembargador, não deve
e não pode ser destruída por uma censura mal executada por funcionários
ineficazes, inoperantes.
Nesses termos, enviou-se ao presidente o relatório da “comissão de alto
nível”, chefiada pelo ex-ministro de Estado e do Supremo Tribunal Federal
Cândido Motta Filho, da Academia Brasileira de Letras. Fazia parte da co-
missão ainda o também acadêmico Barbosa Lima Sobrinho,

além de outros jornalistas militantes — para o fim de verificar os excessos


no exercício da censura e levá-los ao conhecimento do Governo, de forma
a permitir uma revisão dos métodos a serem adotados. (...).
Ousa o Conselho Administrativo da ABI esperar do espírito democráti-
co do Governo a corrigenda dos métodos atualmente adotados e, por isso,
encarece a Vossa Excelência, por seu intermédio, se digne, uma vez lido o

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

relatório anexo, determinar ao Exmº Sr. Ministro da Justiça a revisão e


unificação dos critérios da censura à imprensa, se e quando for necessária,
com o que certamente se engrandecerá o Governo da República Federativa
do Brasil chefiado por Vossa Excelência.
Queira Vossa Excelência receber nesta oportunidade os meus votos de
próspera e feliz administração futura.87

CELSO KELLY, PRESIDENTE E INTERVENTOR

Na primeira ata em que aparece como presidente, em 27 de agosto de 1964,


Celso Kelly relatou que o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony o procura-
ra solicitando que depusesse, na qualidade de presidente da ABI, como teste-
munha no inquérito ao qual estava submetido. Com o apoio da diretoria,
segundo afirmou, recusara a solicitação, por “não haver o precedente de o
presidente da ABI interferir em processos como testemunha”; alegava ainda
“as relações oficiais que devem ser mantidas em alto estilo para efeito de as
reivindicações da ABI lograrem êxito”.88 Contra tal posição se levantaram os
conselheiros Ivo Arruda e João Etcheverry, propondo que o conselho mani-
festasse a Cony “toda sorte de assistência durante o processo”. A proposta
foi aprovada por unanimidade, apesar da posição de Kelly e da diretoria.89
Já na ata seguinte, da reunião de 24 de setembro, o presidente do con-
selho e da Comissão de Defesa da Liberdade de Imprensa, Elmano Cruz,
congratulava-se com o jurista Nelson Hungria, do Supremo Tribunal Fede-
ral, pela concessão de habeas corpus a Cony ao ser processado segundo a
Lei de Segurança Nacional. Entretanto, não há menção se a ABI, na figura
de Celso Kelly ou mesmo de outro representante, depôs no inquérito.
Na ata de 19 de outubro de 1965, em que há o registro da aprovação
por unanimidade da proposta dirigida ao Congresso Nacional em defesa
da legislação de imprensa em vigor, no sentido da preservação da liberdade
de imprensa, “fundamental na vigência do regime democrático no Brasil”,
pode-se ler também a discussão a respeito da intervenção do Ministério do
Trabalho no Sindicato dos Jornalistas, tendo à frente o próprio presidente
da ABI, Celso Kelly:

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AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

O conselheiro Belfort de Oliveira refere-se ao que ocorreu no Sindicato dos


Jornalistas Profissionais, por ocasião de sua entrega aos interventores designa-
dos pelo Ministro do Trabalho, lamentando a maneira deselegante e humi-
lhante para a Diretoria afastada com que procederam, tendo no decorrer de
sua oração aludido à renúncia do Conselheiro Celso Kelly que, convidado,
havia aceitado a sua designação como um dos interventores. Assim, solicita
que o Conselho aprove o protesto, que faz, por tais acontecimentos. O
Conselheiro João Antonio Mesplé, com a palavra, faz considerações sobre
o caso da intervenção do Ministério do Trabalho no Sindicato dos Jornalistas
Profissionais, manifestando-se contra o protesto apresentado, por entender
que a Associação Brasileira de Imprensa nada tem a ver com as questões
internas de suas congêneres, devendo, assim, conservar-se equidistante dos
acontecimentos ocorridos naquele Sindicato, narrados pelo Conselheiro
Belfort de Oliveira. Refere-se ao seu caso na Federação dos Jornalistas, de-
clarando que dele não fez ciente a Associação Brasileira de Imprensa, de
acordo com o seu ponto de vista. Encerrada a discussão, é o protesto sub-
metido à votação, sendo rejeitado. O Conselheiro Raul Floriano absteve-se
de votar, pelo motivo que expôs. O Conselheiro Celso Kelly, com a palavra,
declara de início que não havia dado ciência do caso de sua renúncia como
um dos intervencionistas, digo, dos indicados pelo senhor Ministro do Tra-
balho para ser interventor no Sindicato dos Jornalistas Profissionais, por
entender que a Associação Brasileira de Imprensa nada tinha a ver com o
fato, pois a sua indicação recaiu no jornalista, e não no presidente da Associa-
ção Brasileira de Imprensa. Entretanto, como o Conselheiro Belfort de Olivei-
ra, ao lançar o seu protesto sobre as ocorrências verificadas naquele sindicato
por ocasião de sua entrega aos interventores designados, houvesse feito refe-
rência ao caso de sua renúncia, resolve explicar os motivos da mesma, fazendo
um relato dos fatos que culminaram com o seu voluntário afastamento.90

Assim, Celso Kelly, presidente eleito por seus confrades, em 1964, não
considerava pertinente depor a favor de um colega atingido pelas leis de
exceção, sendo, porém, pertinente desempenhar o papel de interventor do
governo no Sindicato dos Jornalistas. Como se viu, pouco antes de termi-
nar o mandato, em fevereiro de 1966, Kelly renunciou para assumir cargo
no governo, a direção do Departamento Nacional de Ensino, do Ministé-
rio da Educação.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

No mesmo dia em que houve a discussão sobre o fato de o presidente da


ABI ser interventor do governo no Sindicato dos Jornalistas, o conselheiro
Fernando Segismundo propunha um “voto de simpatia ao confrade”
Pompeu de Souza, que acabara de ter seu contrato na Universidade de
Brasília rescindido. O jornalista fora o responsável pela criação e direção
da Escola de Jornalismo da UnB até então. Ao fazer a proposta, referiu-se
à “crise universitária”, “em cujo mérito o orador não deseja entrar”.91 Apro-
vou-se, então, a proposta com as abstenções dos conselheiros Raul Floriano
e Celso Kelly. Floriano alega como justificativa de sua posição o mesmo
comportamento quanto à questão do sindicato. Celso Kelly

declara que, integrando o quadro dos membros do Conselho Federal de


Educação, não lhe fica bem tratar da matéria num foro estranho, sugerindo
que se aguardasse o retorno dos conselheiros enviados a Brasília para infor-
marem ao Ministério da Educação sobre os acontecimentos e que à vista
dos seus informes melhor se poderia manifestar a Associação Brasileira de
Imprensa.92

Não por ironia, em seguida a esse debate, ainda o conselheiro Segismundo


propôs um voto de congratulações ao XIX Congresso Brasileiro de Espe-
ranto, que se realizava no então estado da Guanabara, língua cujo ideal é
“harmonizar povos e nações por meio de uma língua comum”. Aqui houve
unanimidade na aprovação da proposta.
Na reunião de 18 de janeiro do ano seguinte, 1966, o presidente Celso
Kelly leu a carta de renúncia de Belfort de Oliveira — o mesmo que discu-
tira no conselho a intervenção no sindicato — ao mandato de conselheiro.
A assembleia aceitou a renúncia e repudiou por unanimidade os “termos
desprimorosos” e “desaforados” do documento, não transcrito em ata.
Já na reunião seguinte, em fevereiro, era Celso Kelly que renunciava à
presidência ao ser “convocado para dirigir um setor do Ministério da Edu-
cação”. Na ata, as palavras da carta de renúncia:

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AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

Faço votos de que Deus nos esclareça em todas as nossas deliberações e de


que se assegure a todo e qualquer sócio liberdade de opinião e de crítica, tal
como não nos cansamos de preconizar plena liberdade de imprensa. Seja
chegado o momento de a ABI se dinamizar ao máximo, quer na parte de
estudos, quer na recreativa, quer na assistencial.93

Dessa forma, Kelly deixava a presidência da ABI para entrar no governo.

A trincheira inexpugnável

Em 1985, Edmar Morel lançou o livro A trincheira da liberdade. A história da


ABI. Essa história é contada a partir de seus presidentes e mandatos, desde a
sua criação. Em 1979, Morel recebera o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e
Direitos Humanos, concedido pelo Sindicato de Jornalistas Profissionais de São
Paulo. Em todo o período da ditadura, fora conselheiro da instituição, partici-
pando também da Comissão de Defesa da Liberdade da Imprensa e do Livro.

Meu objetivo é mostrar às novas gerações de jornalistas o trabalho da ABI


em prol das Liberdades Públicas, trabalho que tem custado sacrifícios de toda
ordem e que o terror pensa destruir, com bombas incendiárias.
A ABI está de pé com sua bandeira desfraldada, desafiando as ditaduras
que infelicitaram o Brasil.94

Hélio Silva, outro conselheiro igualmente atuante nos tempos dos gover-
nos militares, escreveu o prefácio “A história dos que escrevem a História”:

Trincheira da liberdade [a ABI] mantida a todo preço através da história;


resistindo a tudo e a todos nos períodos negros em que a liberdade esteve
eclipsada pela força, a ABI figura na vanguarda de todas as campanhas dig-
nas, ontem e hoje, quando primeiro se ergueu contra a violência, a tortura,
o desrespeito aos direitos humanos.
A ela juntaram-se outras forças nobres, a Igreja, a OAB, os verdadeiros
democratas.
Esta é a história dos que escrevem a história, no relato dos acontecimen-
tos, no desfile dos jornalistas ilustres que se sucedem na presidência da ABI.95

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

A Gerardo Mello Mourão coube a “Introdução”. Fala de ditadores e do


papel que os jornalistas vêm desempenhando na História do Brasil, enfren-
tando as perseguições. “A trincheira da liberdade, a longa luta em defesa da
liberdade de pensar e opinar da qual a ABI é um símbolo de resistência,
conciliação e negociação política.” Na lista de ditadores, Artur Bernardes,
Floriano Peixoto, Vargas, Dutra, Castelo Branco, Médici.96
Na orelha do livro, José Nilo Tavares estende os enfrentamentos dos
jornalistas ao povo, referindo-se à “... capacidade de resistência e luta do
nosso povo, em busca de dias mais livres e tempos mais belos”.97 Da mesma
forma, Edmar Morel atribuía ao povo, no último ano de ditadura, o amor
à liberdade: “Pela corajosa atuação da ABI, na sua luta contra a prepotência
que não respeita os Direitos Humanos, o povo brasileiro entregou à ABI o
estandarte da liberdade.”98
Fernando Segismundo, em ABI sempre, refere-se ao “destino democrá-
tico” da instituição, que funciona como “agente catalisador da democra-
cia”, como “o lugar certo para o exercício da cidadania”, o “bastião da
legalidade”, a “Casa da Liberdade e dos Direitos Humanos”, “escoteira na
defesa do estado de direito”: “Seu papel no restabelecimento e na manu-
tenção do regime democrático só pode merecer a deferência, o incentivo e
a melhor expectativa da categoria profissional e do povo.”99

***

As ditaduras, os regimes autoritários não se sustentam exclusivamente por


meio da repressão. São produtos da própria sociedade e, portanto, não lhe
são estranhos. Legitimam-se em expressivos segmentos sociais. Ou, ainda,
se sustentam na zona cinzenta, o espaço entre apoio e rejeição, o lugar no
qual é possível atuar nos dois sentidos.
Para compreendê-la, Pierre Laborie formulou o conceito de penser-
double:

O lugar preponderante tomado pela ambivalência é um traço majoritário


das atitudes dos franceses sob Vichy. (...). As alternativas simples entre
pétainisme e gaullisme, resistência e vichysme, ou resistência e colabo-

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AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

racionismo, fornecem apenas imagens redutoras da experiência dos contem-


porâneos (...). Sem procurar diminuir a importância do julgamento moral
na apreciação dos comportamentos, (...) a ideia de ambivalência é de uma
outra natureza. Ela abre outras portas para o historiador e alarga suas possibi-
lidades de análise. Ela permite não mais pensar apenas as contradições em
termos antagônicos — resistentes ou pétainistes, gaullistes ou attentistes*...
— mas de ultrapassá-los, interrogando-se sobre o que procuravam dizer, para
além das pseudoevidências do sentido aparente. (...). Os franceses, na maio-
ria, não foram primeiramente vichystes depois resistentes, pétainistes depois
gaullistes, mas eles puderam ser, simultaneamente, durante um tempo mais
ou menos longo, e segundo o caso, um pouco os dois ao mesmo tempo. Em
uma recente entrevista, Simone Veil lembrava as dificuldades para dominar
agora a complexidade do período e indicava, a propósito dos franceses,
“alguns se comportaram bem, outros mal, muitos os dois ao mesmo tempo.
[...] isto não era tão simples como se apresenta hoje”.100

Pensado para compreender os franceses sob Vichy, acredito que o con-


ceito pode contribuir muito na reflexão de outras experiências históricas.
Ele rompe com os campos bem definidos — as trincheiras.
As referências e os valores autoritários da ditadura civil-militar não eram
estranhos à sociedade. A memória coletiva segundo a qual a resistência foi
a tônica daqueles anos, que a sociedade repudiara os princípios e as práti-
cas da ditadura, é uma construção a posteriori, a absolver apoios, compro-
missos, omissões, duplicidades da zona cinzenta. A memória coletiva que
permitiu Ulysses Guimarães, em discurso na promulgação da Constituição
de 1988, exclamar: “Temos ódio e nojo à ditadura. Ódio e nojo!”101
Inspirada em Laborie, diria que a ABI não foi, primeiro, defensora dos
militares e, depois, resistente à ditadura, como o foi Ulysses Guimarães. A
recuperação das discussões e embates, cujo eixo foi a liberdade de expres-
são e de jornalistas, até o desencadeamento do projeto de abertura política

*Do verbo Attendre, esperar, não tem tradução precisa para o português; no contexto trata-
do pelo autor, refere-se aos franceses que não assumiram posição explícita quando da derro-
ta da França para a Alemanha nazista, da Ocupação e do estabelecimento do Regime de Vichy,
esperando os desdobramentos de um mundo em guerra para se posicionar a respeito da nova
realidade. (N. das O.)

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Geisel-Golbery, indica que esteve bem mais próxima do penser-double do


que da trincheira inexpugnável. Não era coesa, abarcava embates que desapa-
receram na memória. Mas, sobretudo, era ambivalente, capaz de ser a favor
e contra os governos militares ao mesmo tempo.
Assim, se a ABI denunciava as prisões de jornalistas, perseguidos por suas
ideias, atuava para que fossem libertados, mantinha relações com os gover-
nos militares, os celebrava em homenagens, banquetes etc. e identificava-se
com valores e princípios que os definiam. Durante a ditadura e depois do seu
fim, muitos que estiveram no campo da resistência democrática argumenta-
ram que essa duplicidade fora um recurso encontrado para combater o regime
por dentro. Essa posição, entretanto, não pode ser entendida exclusivamente
pela impossibilidade de se fazer de outra maneira sob uma ditadura ou para
evitar o isolamento da instituição, visando a uma atuação concreta.
A história da ABI nesses anos é a história da defesa da liberdade de ex-
pressão e também a história dessas relações cinzentas com a ditadura. Essa
ambivalência estrutura a instituição nesses dez anos e não se explica, exclu-
sivamente nem sobretudo, em função de uma disputa entre grupos, facções
ou tendências. Trata-se de uma realidade dentro dos grupos, facções ou ten-
dências; de uma realidade que define individualmente muitos dos mem-
bros da ABI, que dá o tom às suas atuações.
Em Herbert Moses, cuja longa gestão é sempre lembrada como “época
de fastígio e glória da ABI” — e, como disse, o fato de durar 33 anos não
parece ter sido um problema —, pode-se encontrar a personificação do
duplo, que caracterizou a atuação de grupos, tendências e indivíduos: “De
dia frequentava Getúlio Vargas e os ministros de Estado; à noite soltava
confrades detidos pela polícia política de Filinto Müller.”102 Sem contradi-
ções. Ou saltando sobre elas. Essa ambivalência ocorreu no Estado Novo,
está presente na memória destes anos (1937-1945) e permanece depois.
Danton Jobim, na última ditadura, encarnava a ambivalência, recebendo
Costa e Silva para comemorar os 60 anos da ABI, o mesmo Danton Jobim,
jornalista, presidente da instituição e senador do MDB, defensor da liber-
dade de expressão, das liberdades civis. Apesar das críticas e oposições que
a presença do general suscitou, essa duplicidade não lhe era exclusiva. Ao
contrário, definiu as variadas tendências em disputa na ABI.

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AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

Recuperar essa história, desconstruir a memória unipolar, sem ambiva-


lências, é romper com as versões entrincheiradas, muradas em campos bem
definidos. É superar as confortáveis dicotomias, os fáceis maniqueísmos. É
refletir por que a lenda se tornou realidade. É explicar sua capacidade
mobilizadora e impulsionadora da ação política concreta. É, enfim, com-
preender culturas políticas que explicam os 21 anos de ditadura, a lenta
transição de 11 anos, sempre sob o controle dos militares e/ou dos antigos
políticos da Arena. É desvendar a construção da memória que excluiu os
civis do golpe e da ditadura, que persiste e insiste em desconhecer a Histó-
ria, fechando, assim, os caminhos para a compreensão do presente.

Notas

1. MOREL, Edmar. A trincheira da liberdade. A história da ABI. Rio de Janeiro:


Record, 1985, p. 209.
2. BERSTEIN, Serge. “L’historien et la culture politique”. Vingtième siècle. Revue
d’histoire, Paris, nº 35, 1992, p. 69.
3. Para o conceito de memória coletiva, cf. HALBWACHS, Maurice. La mémoire
colletive. Paris: Albin Michel, 1997.
4. Cf. AARÃO REIS, Daniel. “Um passado imprevisível: a construção da memória
da esquerda nos anos 60”; “Versões e ficções: a luta pela apropriação da memó-
ria”; “À maneira de um balanço: epílogo ou prólogo?”, in: ——— (org.). Versões
e ficções. O sequestro da História. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1999;
AARÃO REIS, Daniel. Ditadura militar, esquerdas e sociedade. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 2000; AARÃO REIS, Daniel. “Amnistie ou amnésie: société et
dictature au Brésil”. Tumultes, Paris, vol. 14, 2000; AARÃO REIS, Daniel. “Dita-
dura e sociedade: as reconstruções da memória”, in: AARÃO REIS, Daniel;
RIDENTI, Marcelo; MOTTA, Rodrigo Patto Sá (orgs.). O golpe e a ditadura
militar. 40 anos depois (1964-2004). Bauru: Edusc, 2004. No início dos anos
1980, René Dreifuss publicou sua tese de doutorado sobre o golpe de 1964. Por
meio de farta documentação, comprovou a participação decisiva de segmentos
da sociedade civil no movimento que derrubou o governo institucional de João
Goulart, que assumiram um lugar igualmente relevante no regime instaurado.
Assim, Dreifuss o chamou de golpe civil-militar; mais esclarecedor ainda seria
vê-lo como um movimento civil-militar.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

5. Cf. intervenção de Francisco Carlos Teixeira da Silva na arguição da defesa de


mestrado de Andreia Prestes Massena, Programa de Pós-Graduação em História
Comparada, Ichf-UFRJ, Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 2005.
6. Cf., por exemplo, KUCINSKI, Bernardo. O fim da ditadura militar. São Paulo:
Contexto, 2001.
7. Para uma reflexão mais fina sobre a oposição linha dura e linha branda, inclusive
colocando em xeque a possibilidade do uso dessas referências, ver MARTINS
FILHO, João Roberto. O palácio e a caserna. A dinâmica militar das crises polí-
ticas na ditadura. 1964-1969. São Carlos: Editora da UFSCar, 1996.
8. Cf. CRUZ, Sebastião Velasco e MARTINS, C.E. “De Castello a Figueiredo: uma
incursão na pré-história da abertura”, in: ALMEIDA, M.H.; SORJ, B. (orgs.).
Sociedade e política no Brasil pós-64. São Paulo: Brasiliense, 1983.
9. Como expressão dessa linha, ver SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. “Crise da
ditadura militar e o processo de abertura política no Brasil, 1974-1985”, in:
FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucília de Almeida Neves (orgs.). O Brasil Republi-
cano. vol. 4: “O tempo da ditadura”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
10. Para essa interpretação, ver MATHIAS, Suzeley. A distensão militar. Campinas:
Papirus, 1995.
11. Daniel Aarão Reis tem chamado a atenção para essa questão, ou seja, como a
história da ditadura vem sendo contada por meio da história da resistência e
mais, como, em geral, na história do Brasil, há uma desproporção entre os nume-
rosos estudos das esquerdas em comparação com as escassas pesquisas sobre as
direitas, como se aquelas tivessem tido maior peso do que estas na nossa história.
Para uma historiografia que está na contramão dessa tendência, ver, além dos
textos do autor citados na nota 4: FICO, Carlos. Reinventando o otimismo: dita-
dura, propaganda e imaginário social no Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 1997. FICO,
Carlos. “‘Prezada Censura’: cartas ao regime militar”. Topoi. Revista de História,
Rio de Janeiro, vol. 5, pp. 251-286, 2002. KUSHNIR, Beatriz. Cães de guarda.
Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988. São Paulo: Boitempo,
2004. GRINBERG, Lucia. Partido político ou bode expiatório: um estudo sobre a
Aliança Renovadora Nacional (Arena). 1965-1979. PRESOT, Aline Alves. As
Marchas da Família com Deus pela Liberdade e o golpe de 1964. Dissertação de
Mestrado. UFRJ. Rio de Janeiro, 2004. FERREIRA, Gustavo Alves Alonso. Quem
não tem swing morre com a boca cheia de formiga. Wilson Simonal e os limites de
uma memória tropical. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal
Fluminense, Niterói, 2007.
12. Para os conceitos de zona cinzenta e penser-double, ver LABORIE, Pierre. Les
Français des années troubles. De la guerre d’Espagne à la Liberation. Paris: Desclée
de Brouwer (ed.), 2003 (ed. orig. 2001). LABORIE, Pierre. L’opinion française

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AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

sous Vichy. Les Français et la crise d’ identité nationale. 1936-1944. Paris: Seuil,
2001 (ed. orig. 1990).
13. Para o conceito de opinião, ver, além dos livros de Pierre Laborie citados na nota
anterior, o seu artigo LABORIE, Pierre. “De l’opinion publique à l’imaginaire
social”. Vingtième Siècle. Revue d’Histoire. Année 1988, vol. 18, nº 18, pp. 101-
117; cf. também BECKER, Jean-Jacques. “A opinião pública”, in: RÉMOND,
René (org.). Por uma história política. Rio de Janeiro: FGV; UFRJ, 1996; cf.
ainda, para opinião, GELLATELY, Robert. No sólo Hitler. La Alemania nazi en-
tre la coacción y el consenso. Barcelona: Crítica, 2005.
14. Henry Rousso, apud REICHEL, Peter. L’Allemagne et sa mémoire. Paris: Éditions
Odile Jacob, 1998, p. 10.
15. CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989, p. 12;
citado em O mito de Sísifo (1ª ed. de 1942), mas se trata de Homem revoltado,
de 1951.
16. Para pensar o conceito de resistência, ver LABORIE, Pierre. “L’idée de Résistance,
entre définition et sens: retour sur um questionnement”, in: ——, op. cit., 2003;
ROUSSO, Henry. Vichy. L’événement, la mémoire, l’histoire. Paris: Gallimard,
1992, em especial o capítulo “L’impact du Régime sur la société”; MARCOT,
François (dir.). Dictionnaire Historique de la Résistance. Paris: Éditions Robert
Laffont, 2006; MARCOT, François; MUSIEDLAK, Didier (orgs.). Les Résistances,
miroir des regimes d´oppression. Allemagne, France, Italie. Actes du Colloque
International de Besançon, 24 a 26 septembre 2003, Musée de la Résistance et
de la Déportation de Besançon, Université de Franche-Comté e Université de
Paris X. Besançon, Presses Universitaires de Franche-Comté, 2006.
17. Ata da 1.115ª sessão de instalação da 34ª Reunião Ordinária do Conselho Fede-
ral da OAB (Conselho Pleno), em 7 de abril de 1964, na sede, na Av. Marechal
Câmara, 210, 6º andar — Casa do Advogado — Estado da Guanabara.
18. Sobre a posição da CNBB no golpe, ver SERBIN, Kenneth P. Diálogos na sombra.
Bispos e militares, tortura e justiça social na ditadura. São Paulo: Companhia das
Letras, 2001, p. 104.
19. A íntegra do documento “Declaração da CNBB sobre a situação nacional” está
publicada em LIMA, Luiz Gonzaga de Souza. Evolução política dos católicos e da
Igreja no Brasil. Hipóteses para uma interpretação. Petrópolis: Vozes, 1979, pp.
147-149; op. cit., p. 147.
20. Para o período aqui trabalhado, a primeira ata disponível é de 7 de maio de
1964. As atas referentes ao momento logo depois do golpe de 31 de março de
1964 não foram localizadas na ABI. Como informa a edição nº 1, o Boletim do
Conselho Administrativo da ABI foi criado em novembro de 1972, sendo distri-
buído por via postal aos sócios. Segundo Edmar Morel, a sua criação ocorreu em

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

maio de 1952, por iniciativa de Herbert Moses, circulando com regularidade até
1961; depois, apareceu entre 1962 e 1974, com edições descontínuas; um ter-
ceiro período iniciou-se em 1974, seguindo desde então com regularidade. Cf.
verbete de Edmar Morel da Associação Brasileira de Imprensa, in: ABREU, Alzira
Alves de et al. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro pós-1930. 2ª ed. revista
e atualizada. Rio de Janeiro: FGV, 2001, pp. 393-394.
21. Ata da 1.115ª sessão de instalação da 34ª Reunião Ordinária do Conselho Fede-
ral da OAB, op. cit. (Conselho Pleno).
22. Cf. POLLAK, Michael. “Memória, esquecimento, silêncio”. Estudos Históricos,
Rio de Janeiro, vol. 2, nº 3, 1989, p. 3, a partir de Maurice Halbwachs. Para a
coesão, no caso específico do fim da ditadura, ver os textos citados de Daniel
Aarão Reis, nota 4.
23. Para o conceito de enquadramento da memória, ver POLLAK, Michael. “Memó-
ria e identidade social”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, nº 10, 1992.
24. Para a discussão sobre a herança da memória, ver REICHEL, Peter, op. cit.
25. Marco Morel me chamou a atenção para o fato de que, apesar de conselheiro e
da intensa atividade na ABI, Edmar Morel jamais se tornou membro da diretoria
da entidade.
26. Devido aos limites de espaço do artigo, tratarei aqui apenas da ABI. Em outra
oportunidade, da OAB. O tema e as discussões aqui trabalhados estão inseridos
na pesquisa de pós-doutorado As relações entre sociedade e ditadura: a OAB e a
ABI, no Brasil de 1964 a 1974, desenvolvida no Núcleo de Estudos Contemporâ-
neos (NEC), Departamento de História, UFF, com estágios de pós-doutorado na
Universidade de Paris X, Departamento de História, e Unicamp, Departamento
de Sociologia. Agradeço aos professores Didier Musiedlak e Marcelo Ridenti,
supervisores do pós-doutorado, e a Daniel Aarão Reis, coordenador do Convê-
nio Capes-Cofecub, por meio do qual fiz o pós-doutorado na França. Agradeço
também a Gabriela Marins de Menezes e Luciana de Castro Soutelo, que traba-
lharam na pesquisa como bolsistas de Iniciação Científica/CNPq-Propp, bem como
a essas instituições (Capes, Cofecub, CNPq e Propp/UFF). Por fim, agradeço a
Marco Morel o diálogo inteligente e generoso e, sobretudo, a amizade.
27. MOREL, Edmar, op. cit., p. 163.
28. Idem, p. 207.
29. Segundo Edmar Morel, a eleição de Celso Kelly para a presidência da ABI se dá
em 11 de setembro de 1964. Entretanto, seu nome aparece pela primeira vez
como presidente na ata de 27 de agosto (na reunião anterior, em 11 de agosto,
ainda consta o nome de Herbert Moses na função).
30. MOREL, Edmar, op. cit., pp. 164 e 163, respectivamente.
31. Idem, p. 202.

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AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

32. Sobre Getúlio Vargas e a ABI, assim se refere Edmar Morel: “Getúlio Vargas,
embora mandasse prender grande número de jornalistas, manifestou vontade de
visitar a obra da ABI [trata-se da construção do edifício da atual sede], para a
qual concedeu um crédito especial de quatro mil contos. Ao deixar o local, rece-
beu estrondosa vaia de centenas de familiares de presos políticos” e, em seguida:
“Antes da queda do Estado Novo, em 29 de outubro de 1945, Vargas concedeu a
anistia por decreto assinado a 18 de abril. Por essa época voltou à ABI, receben-
do então verdadeira consagração. Ao deixar o Rio, após ser deposto, foi acompa-
nhado por Moses até a porta do avião.” Em seu último governo, Vargas tornou-se
sócio-benemérito da ABI. Cf. Edmar Morel, “Associação Brasileira de Impren-
sa”, in: ABREU, Alzira Alves de et al., op. cit.
33. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 27 de agosto de
1974.
34. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 24 de setembro
de 1974.
35. Angela de Castro Gomes, em seu texto neste livro, trabalha essa duplicidade da
memória de Vargas.
36. SEGISMUNDO, Fernando. ABI sempre. Rio de Janeiro: Unigraf, 1998, p. 80.
37. Edmar Morel, “Associação Brasileira de Imprensa”, in: ABREU, Alzira Alves de
et al., op. cit.
38. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 18 de julho de
1967.
39. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 21 de março de
1967.
40. Danton Jobim elegeu-se em maio de 1966, depois de Elmano Cruz, como vice de
Celso Kelly, completar seu mandato. Foi presidente da ABI de 1966 a 1972; em
fevereiro de 1978, foi mais uma vez eleito, morrendo, porém, 14 dias depois,
sem chegar a tomar posse. Foi senador pelo MDB da Guanabara de 1971 a 1975
e, depois da fusão, pelo Rio de Janeiro, de 1975 a 1978. Em 1929, representara
o PCB, ao lado de Leôncio Basbaum e Mário Grazini, na I Conferência Latino-
Americana dos Partidos Comunistas, em Buenos Aires. Rompeu com o PCB em
1934. “Apoiou a implantação do Estado Novo em novembro de 1937, sendo
nomeado no ano seguinte diretor do Departamento de Propaganda e Turismo do
Estado do Rio de Janeiro, então governado pelo interventor federal Ernani do
Amaral Peixoto. Mais tarde, contudo, passou a combater o regime de exceção,
que aboliu a liberdade de imprensa e censurou, por meio do Departamento de
Imprensa e Propaganda (DIP), muitos editoriais de sua autoria. Engajou-se, então,
na campanha pela redemocratização do país...” (Vera Calicchio, “Danton Jobim”,
in: ABREU, Alzira Alves de et al., op. cit.). Em 1945, filiou-se ao Partido Repu-

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

blicano (PR). Com a extinção dos partidos políticos e a criação do bipartidarismo,


em outubro de 1965, pelo AI-2, integrou-se ao MDB.
41. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 23 de janeiro de
1968.
42. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 19 de março de
1968.
43. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 28 de abril de
1970.
44. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 28 de abril de
1970.
45. MOREL, Edmar, op. cit., p. 179.
46. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 19 de novembro
de 1968.
47. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 19 de agosto de
1969.
48. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 21 de outubro
de 1969.
49. Para o estranhamento causado pelo discurso de Médici, ver FICO, Carlos. “Espio-
nagem, repressão, propaganda e censura: os pilares da ditadura”, in: FERREIRA,
Jorge; DELGADO, Lucília de Almeida Neves (orgs.). O Brasil republicano, vol.
4: “O tempo da ditadura”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
50. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 21 de outubro
de 1969.
51. Para as campanhas da Aerp, ver FICO, Carlos, op. cit., 1997.
52. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 30 de junho
de 1970.
53. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 18 de novembro
de 1969.
54. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 28 de julho de
1970.
55. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 28 de julho
de 1970.
56. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 25 de junho
de 1974.
57. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 26 de março de
1974.
58. Ata da Reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 27 de abril de
1972; ver também a Ata de 25 de julho de 1972, o “Relatório da Diretoria: 150
anos da Independência do Brasil”.

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AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

59. Boletim do Conselho Administrativo da ABI, n° 1, novembro de 1972. Barbosa


Lima Sobrinho fora presidente da ABI em 1926-1927 e 1930-1931; depois, en-
tre 1978-1984.
60. Boletim do Conselho Administrativo da ABI, n° 1, novembro de 1972.
61. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 26 de abril de
1973.
62. Ata da reunião extraordinária do Conselho Administrativo da ABI de 22 de maio
de 1973.
63. MOREL, Edmar, op. cit., p. 186.
64. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 25 de junho de
1974.
65. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 29 de abril de
1969.
66. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 28 de abril de
1970.
67. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 29 de abril de
1971.
68. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 27 de abril de
1972.
69. E-mail enviado por Marco Morel à autora, em 11 de julho de 2007.
70. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 26 de abril de
1973.
71. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 27 de dezembro
de 1974.
72. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 28 de junho de
1966.
73. Ata da reunião extraordinária do Conselho Administrativo da ABI de 7 de julho
de 1966. Em relação às denúncias de parcialidade e omissões na redação da ata,
é curioso o ato falho que o relator de Raul Floriano comete: “O presidente Elmano
Cruz declarou que mandaria cortar da Ata os reparos, digo, constar da Ata os
reparos.”
74. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 23 de agosto de
1966. Ainda sobre possíveis omissões da ABI em relação à defesa de jornalistas
perseguidos, em maio de 1969, “O Conselheiro José Maria Neves observou que
não tinham razão os que acusaram a ABI de omissa no caso de medidas oficiais
tomadas contra jornalistas, mas que essa crítica deveria ser dirigida ao Sindicato
dos Jornalistas Profissionais do Estado da Guanabara e à Federação dos Jornalis-
tas Profissionais, que de fato se têm omitido ante tais ocorrências”. Reunião
extraordinária de 12 de maio de 1969.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

75. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 31 de janeiro de


1967.
76. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 30 de maio de
1967.
77. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 29 de abril de
1971
78. Ata da reunião extraordinária do Conselho Administrativo da ABI de 17 de de-
zembro de 1971. Embora a ABI tenha mantido sua representação no Conselho
de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, a discussão sobre a posição apareceu
nos anos seguintes. Cf. Ata da reunião ordinária de 27 de abril de 1972, por
exemplo. Cf. também a ata de 25 de setembro de 1973, com destaque para o
conselheiro Hélio Silva em defesa da retirada da ABI do Conselho enquanto
fosse mantido o sigilo. O então presidente da ABI, Adonias Filho, manteve a
posição de seu antecessor, Danton Jobim.
79. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 26 de setembro
de 1972.
80. Cf. CRUZ, Sebastião Velasco; MARTINS, C.E., op. cit.
81. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 22 de maio de
1973.
82. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 26 de abril de
1973. Em reportagem sobre a eleição para renovação de um terço do Conselho
Administrativo da ABI, a ser feito em 27 de abril de 1973, o Jornal do Brasil
considerava que a chapa de oposição, que disputava com o senador Danton Jobim
a presidência, tinha poucas chances de vencer, pois estava encabeçada por Antô-
nio Acioly Lins, sobre quem pesava “o fato de ter enviado, no ano passado, uma
carta a autoridades policiais, denunciando como ‘subversivos’ diversos membros
da ABI, o que ocasionou, em dezembro, a prisão de alguns de seus diretores”. Na
chapa de Acioly estavam ainda Henrique Pongeti, Raimundo Magalhães Júnior,
Cristóvão Breiner, José Calheiros Bonfim, Alves Pinheiro, Martins Capistrano,
Canor Simões Coelho, Jorge Freitas Batista, Reinaldo Santos, Arnaldo Niskier,
Mário Magalhães, Max do Rego Monteiro, Raul Lino Goulart, Paulo de Barros
Vieira e Raul Floriano. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 26 de abril de 1973.
83. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 27 de novembro
de 1973.
84. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 27 de dezembro
de 1974.
85. Boletim do Conselho Administrativo da ABI, nº 6, outubro de 1973.
86. O equívoco dessa percepção foi trabalhado em AQUINO, Maria Aparecida de.
Censura, imprensa, Estado autoritário (1968-1978). O exercício cotidiano da

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AS TRINCHEIRAS DA MEMÓRIA

dominação e da resistência. O Estado de S. Paulo e Movimento. Bauru: Edusc,


1999; SMITH, Anne Marie. Um acordo forçado. O consentimento da imprensa à
censura no Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2000; FICO, Carlos, op. cit., 2003;
KUSHNIR, Beatriz, op. cit.
87. Boletim do Conselho Administrativo da ABI, nº 6, outubro de 1973.
88. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 27 de agosto de
1964.
89. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 27 de agosto de
1964.
90. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 19 de outubro
de 1965.
91. Idem.
92. Idem.
93. Ata da reunião ordinária do Conselho Administrativo da ABI de 10 de fevereiro
de 1966.
94. MOREL, Edmar, op. cit., p. 15.
95. Idem, p. 18.
96. Idem, p. 19.
97. Idem, orelha do livro.
98. Idem, p. 209.
99. SEGISMUNDO, Fernando, op. cit., pp. 59, 135, 60, 141, 138, respectivamente.
100. LABORIE, Pierre, op. cit., 2003, pp. 31-32.
101. Citado por FERREIRA, Gustavo Alves Alonso, op. cit.
102. SEGISMUNDO, Fernando, op. cit., p. 139. O capítulo 19, “A serviço da pátria”,
é dedicado a Herbert Moses, saudado como grande impulsionador da ABI. Em
Edmar Morel, igualmente, um capítulo é dedicado a Moses, III, “Herbert Moses,
o consolidador”. Cf. MOREL, Edmar, op. cit.

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CAPÍTULO 4 “Vencer Satã só com orações”:1
políticas culturais e cultura de
oposição no Brasil dos anos 1970
Marcos Napolitano*

*Professor de História do Brasil Independente da Universidade de São Paulo (USP), pesqui-


sador do CNPq. Autor de Síncope das ideias: a questão da tradição na MPB. São Paulo: Perseu
Anbramo, 2007, e Cultura brasileira: utopia e massificação. São Paulo: Contexto, 2003.

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INTRODUÇÃO

O campo da cultura foi fundamental para configurar tanto as críticas das


oposições ao regime militar brasileiro (1964-1985) quanto estabelecer ca-
nais de negociação entre Estado e sociedade. Dessa maneira, a cultura e as
artes daquele período incorporaram, a um só tempo, formas de resistência2
e formas de cooptação e colaboração, diluídas num gradiente amplo de
projetos ideológicos e graus de combatividade e crítica, entre um e outro
polo. Ao longo deste artigo tentarei examinar os agentes, as instituições e
as consequências das lutas culturais que marcaram a relação entre Estado
e sociedade e entre grupos sociais de oposição, com especial atenção para
o período de vigência do Ato Institucional nº 5 (1968-1978). Partirei da
premissa de que a compreensão crítica das lutas culturais do período não
deve ficar refém da dicotomia entre “resistência” e “cooptação”, pois reve-
la um processo mais complexo e contraditório, no qual uma parte signifi-
cativa da cultura de oposição foi assimilada pelo mercado e apoiada pela
política cultural do regime.
Mesmo reconhecendo que havia uma sofisticada e vigorosa cultura de
esquerda, responsável pela disseminação de símbolos e valores democráti-
cos e antiautoritários, acredito que o uso indiscriminado e idealizado da
expressão “resistência cultural” pode ocultar as tensões e os diferentes pro-
jetos que separavam os próprios agentes históricos que protagonizaram o
amplo leque de oposição ao regime militar, dificultando a compreensão
histórica das suas matrizes ideológicas diferenciadas e do jogo de aproxi-
mação e afastamento que marcou o arco de alianças oposicionistas, bem
como a relação entre os vários grupos ideológicos que formavam esse arco

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

e o Estado, caracterizada por ações e discursos que iam da colaboração à


recusa, passando por vários matizes. O palco dessas ações culturais tinha
como elemento dinamizador um mercado de bens simbólicos em processo
de crescimento vertiginoso, particularmente significativo nos setores fono-
gráfico, televisual e editorial.
A aproximação tática entre liberais e setores da esquerda não armada,
oriunda, principalmente, dos quadros e simpatizantes do Partido Comu-
nista, foi fundamental para que a cultura engajada de esquerda se consa-
grasse e ampliasse seus circuitos de trânsito na sociedade civil, chegando
em alguns momentos a fornecer as diretrizes do mercado cultural, ao lon-
go dos anos 1970. No plano da memória social, as lutas culturais dos anos
1970 desembocaram numa situação, em princípio, muito paradoxal, per-
ceptível já no final da década: vitoriosos politicamente, ainda que cada vez
mais isolados, os militares no poder começaram a perder a batalha da me-
mória, constituindo uma memória ressentida do período.3 Já a esquerda
nacionalista, destroçada politicamente, conseguiu afirmar-se nos produtos
culturais, cujos conteúdos críticos, adotados em parte pelos liberais e ten-
do a imprensa como foco disseminador principal, conseguiu plasmar-se na
memória social dominante, consagrando uma visão heroica e ecumênica
da “resistência cultural” e sugerindo a existência de uma paradoxal “hege-
monia cultural de esquerda”,4 construída ainda nos anos 1960.
Esse processo de aproximação entre liberais e setores da esquerda se
explica pelas dinâmicas diferenciadas das guinadas autoritárias à direita, de
1964 e 1968, no plano das relações entre Estado e sociedade civil. Se o
golpe militar teve apoio de setores civis, liberais hesitantes ou autoritários
assumidos, o recrudescimento da repressão quatro anos depois, por meio
do Ato Institucional nº 5, não teve o mesmo espectro de apoio civil, poten-
cializando o fosso entre Estado e sociedade. A perspectiva de militarização
do Estado, o fim das liberdades civis mínimas e a concentração de poder
no Executivo levaram a um distanciamento estratégico crescente entre ci-
vis liberais e militares autoritários, ainda que essa relação tenha sofrido inú-
meras vicissitudes, como, por exemplo, o apoio da imprensa liberal à política
econômica do “milagre” e à política repressiva de combate à guerrilha de
esquerda. Passada a ameaça da guerrilha, mas mantido o rolo compressor

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“VENCER SATÃ SÓ COM ORAÇÕES”

da censura e da repressão, fortaleceu-se ainda mais a aliança tática entre


empresários liberais (geralmente os donos dos meios de comunicação e
corporações culturais) e intelectuais e artistas esquerdistas, muitos deles li-
gados a organizações políticas. Os comunistas foram um dos grupos mais
destacados nessa aliança tática. No plano partidário, sua expressão era o
apoio do PCB ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), consolidado
após a expressiva votação que essa frente oposicionista teve nas eleições de
1974. Uma hipótese é que essa aliança explica, em parte, a presença marcante
de uma cultura de esquerda nos meios de comunicação e na indústria da
cultura, para além das suas qualidades intrínsecas. O ponto em comum era
a defesa da liberdade de expressão e a volta da democracia nas instituições
de governo, criando duas figuras políticas contrapostas, a “sociedade civil”
e o “Estado”, como se ambas não fossem perpassadas por contradições,
divisões e conflitos entre os diversos agentes que as constituíam.5
Mas a cultura não fez aproximar, apenas, os setores da oposição civil. O
regime autoritário, por sua vez, assumindo sua carência de intelectuais or-
gânicos de direita que pudessem ajudar a veicular seus projetos ideológi-
cos, fez uma leitura pragmática da “hegemonia cultural da esquerda”,
iniciando um diálogo com alguns intelectuais e produtores culturais da
oposição, no sentido de aproveitar-se do nacionalismo cultural desses. Esse
diálogo consolidou-se ao longo do processo de distensão política, iniciado
em 1975. A partir de então, o regime militar passou a investir em novos
canais de comunicação com setores da sociedade civil, dispensáveis no
momento de maior repressão e controle policial, e a cultura, bem como as
artes, serviria como um código comum para esses canais. Esse diálogo po-
deria incluir até os artistas de esquerda, normalmente mais valorizados pe-
los grupos formadores de opinião, identificados com uma cultura crítica e
contestatória.
Portanto, tanto o regime militar quanto a oposição civil valorizavam a
cultura, mas por motivos diferentes. Para a oposição, a esfera cultural era
vista como espaço de rearticulação de forças sociais de oposição e reafir-
mação de valores democráticos. Para o governo militar, a cultura era, a um
só tempo, parte do campo de batalha da “guerra psicológica da subversão”
e parte da estratégia de “reversão das expectativas” da classe média, dado o

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

esgotamento do ciclo de crescimento econômico que a beneficiava e garan-


tia seu apoio à ditadura.
O campo da cultura foi valorizado como canal de comunicação do Es-
tado para com a sociedade civil e da sociedade consigo mesma, alimenta-
do por uma conjuntura de fechamento do espaço político tradicional. E a
cultura engajada de esquerda teve um papel central, ainda que contradi-
tório, nesse jogo, no qual práticas de “cooptação” e “resistência” não se
excluíram e muitas vezes conviviam nos mesmos agentes e instituições
socioculturais.

ESTADO, POLÍTICA CULTURAL E COOPTAÇÃO POLÍTICA

Para pensar a relação entre cultura, sociedade e Estado nos anos 1970 é
fundamental analisar a política cultural6 do regime militar, que dinamizou
essa já complexa relação e que também atuou em meio ao campo cultural
da oposição, nem sempre usando apenas o “cutelo vil” da censura.
Podemos falar em duas formas de política cultural, numa concepção
ampla do termo, durante o regime militar brasileiro:7 uma repressiva e ou-
tra proativa. Além dessas duas políticas culturais diretas e coordenadas a
partir do aparelho de Estado, havia uma forma indireta de política cultu-
ral, calcada no apoio oficial à modernização da indústria da cultura e da
comunicação, como parte do projeto estratégico de “integração nacional”.8
Nas palavras de Marcelos Ridenti:9

Concomitante à censura e à repressão política, ficaria evidente na década


de 1970 a existência de um projeto modernizador em comunicação e cultu-
ra, atuando diretamente por meio do Estado ou incentivando o desenvolvi-
mento capitalista privado. A partir do governo Geisel (1974-1979), com a
abertura política, especialmente por intermédio do Ministério da Educação
e Cultura, que tinha à frente Ney Braga, o regime buscaria incorporar à ordem
artistas de oposição.

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“VENCER SATÃ SÓ COM ORAÇÕES”

No plano repressivo, o regime se apoiava em três sistemas:10 Informa-


ções (Serviço Nacional de Informações — SNI, Divisão de Segurança e In-
formações do Ministério da Justiça — DSI); Vigilância e repressão policial
(Delegacias de Ordem Política e Social — Dops, e Centros de Operações
de Defesa Interna/Destacamentos de Operações de Informações — Codi-
DOI); Censura, a cargo do Ministério da Justiça, por meio da Divisão de
Censura de Diversões Públicas do Departamento de Polícia Federal (com-
plementada pelas seções de censura regionais), e do Setor de Imprensa do
Gabinete — Sigab, responsável por parte da censura à imprensa.11
Esses três sistemas repressivos atuaram sobre a vida cultural, por meio
da “produção da suspeita”12 e do silêncio sobre certos temas, linguagens e
produtos culturais.
A repressão que se abateu na área cultural não foi linear e homogênea
ao longo de todo o regime. Seus objetivos e sua intensidade variaram entre
1964 e 1985. Defendo a existência de três momentos repressivos sobre a
área cultural marcados por objetivos táticos diferenciados, embora com-
plementares.
O primeiro (1964-1967) foi marcado por um objetivo básico: Dissolver
as conexões da “cultura de esquerda” com os movimentos sociais e as organi-
zações políticas, exemplificado pelos fechamentos do Centro Popular de
Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC/UNE), do Instituto Supe-
rior de Estudos Brasileiros (Iseb) e pelo fim dos movimentos de alfabetiza-
ção de base. Entre as características básicas desse momento, destacamos o
controle da atividade intelectual escrita (imprensa), mediante inquéritos
policiais militares (IPMs) e processos judiciais, procedimento denominado
pela expressão “terror cultural”, consagrada na imprensa, logo após o gol-
pe militar. Outra característica desse primeiro momento é a existência de
uma censura relativamente desarticulada e branda sobre as atividades artís-
ticas, com ciclos de maior ou menor rigor entre 1964 e 1967, uma vez que
a base legal da censura às “diversões públicas” ainda era a lei de 1946.
O segundo momento repressivo (entre o fim de 1968 e o início de 1979)
foi marcado por uma prática repressiva mais orgânica e sistêmica, não ape-
nas por meio da violência policial direta sobre a área cultural, mas também
pela organização da censura às “diversões públicas” como prática estratégica

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do Estado. O objetivo central, nesse segundo momento, era reprimir o


movimento da cultura como mobilizador do radicalismo da classe média,
principalmente os estudantes. Em outras palavras, a partir de 1968, a ten-
são entre movimentos sociais e regime autoritário chegou a tal ponto que a
cultura efetivamente desempenhou um papel mobilizador sobre alguns se-
tores da classe média, principalmente entre os estudantes organizados e cada
vez mais radicalizados no caminho da luta armada. Portanto, o controle da
cultura, nesse período, fez parte da luta contra a guerrilha de esquerda e
contra o crescimento da oposição na própria classe média consumidora de
produtos culturais. Também é verdade que dentro dos setores da oposição
as lutas culturais sinalizavam para uma divisão interna, visível nos embates
entre os adeptos do Tropicalismo vanguardista e os simpatizantes de uma
arte engajada mais convencional e realista.
A partir do final de 1968, o Estado se aparelhou, burocrática e juridica-
mente, para atuar como censor implacável das manifestações culturais. Al-
guns fatos jurídicos e burocráticos traduzem esse processo. Em primeiro
lugar, foi promulgada uma nova lei de censura (Lei 5.536, novembro de
1968), voltada para obras teatrais e cinematográficas, que criou o Conse-
lho Superior de Censura. Logo depois, surgiu o famigerado Decreto-Lei
1.077, de janeiro de 1970, que estabeleceu a censura prévia sobre materiais
impressos. Em 1972, no âmbito da Polícia Federal, surgiu a Divisão de
Censura de Diversões Públicas (DCDP). Com a criação do Sigab, em 1971,
desenvolveu-se a prática da autocensura nas redações de periódicos da gran-
de imprensa, guiada pelos “bilhetinhos” emitidos de Brasília, contendo a
lista dos assuntos proibidos. Se a censura de temas políticos seria abranda-
da a partir de 1977, a censura a temas morais no campo das diversões pú-
blicas continuaria vigorosa até o final do regime militar.
O terceiro momento repressivo (1979 a 1985) tentava, basicamente, con-
trolar o processo de desagregação da ordem política vigente, estabelecendo
limites de conteúdo e linguagem para a expressão artística. Havia uma nova
ênfase no controle da “moral” e na promoção dos “bons costumes”, com
relativa diminuição da censura sobre conteúdos estritamente políticos. Em
que pese o abrandamento da censura e a “abertura” política a pleno anda-
mento, só em 1980 foram mais de 400 músicas parcial ou totalmente veta-

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“VENCER SATÃ SÓ COM ORAÇÕES”

das. Esse período também foi marcado pela implementação efetiva do Con-
selho Superior de Censura, numa tentativa de estimular a “intelectualização”
da censura e contar com a presença de representantes da sociedade civil
nessa ingrata tarefa.
No âmbito da sociedade civil, paralelamente à abertura oficial promovi-
da pelo governo militar, houve um progressivo esvaziamento da “cultura
de esquerda” nacional-popular, herdada dos anos 1950-1960, ou, como
querem alguns autores, sua inserção na cultura de massa. Essa crise foi mar-
cada por uma grande crítica intelectual ao nacionalismo cultural, pela
revalorização da cultura popular comunitária (leia-se, fora do mercado) e
pelo questionamento das hierarquias socioculturais que separavam a “boa
cultura” da “cultura alienada”.13 Nesse sentido, no segundo semestre de
1978 o debate cultural foi dominado pelo tema das “patrulhas ideológi-
cas”, cunhado pelo cineasta Carlos Diegues, que estava lançando o filme
Chuvas de verão. Tal como o anterior — Xica da Silva, de 1975 —, não
seguia a fórmula clássica dos filmes engajados e militantes, ao contar uma
história de amor de um casal de velhos, num subúrbio carioca. Antecipan-
do-se a qualquer cobrança por parte da esquerda militante, que já o havia
criticado pelo filme anterior, Diegues veiculou sua indignação diante da
“censura” de esquerda em dois grandes jornais da imprensa liberal (O Es-
tado de S. Paulo, de tendência conservadora, e o Jornal do Brasil, mais libe-
ral-progressista). Com a consagração do slogan, muitos artistas que se
sentiam “patrulhados” vieram a público, com ampla cobertura da impren-
sa, sempre interessada numa boa polêmica. Durante os meses seguintes à
entrevista, a existência ou não das patrulhas e “quem patrulhava quem”
foram questões discutidas nos meios intelectuais e no jornalismo cultural.14
No campo da política cultural proativa, o regime militar tentou retomar
uma tendência histórica do Estado nacional brasileiro, que, desde meados
do século XIX, se arvorou como o artífice da cultura nacional, vista como
elo principal de “integração nacional” num país marcado por fortes regio-
nalismos. Essa tradição foi retomada sem, no entanto, configurar uma “po-
lítica cultural de conteúdo” agressiva e impositiva, tal como havia sido aquela
empreendida pelo Estado Novo getulista (1937-1945). A questão da “in-
tegração nacional” era um dos pilares da Doutrina de Segurança Nacional

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

e o mercado tinha um papel fundamental nesse “objetivo permanente” do


Estado, pois a cultura nacional era vista como circuito de consumo de pro-
dutos de conteúdo “brasileiro”, complementado pelo estímulo ao acesso a
produtos de conteúdo universal, consagrados como cânones da cultura
ocidental. Para a esquerda, a questão da cultura nacional era vista como
tática de defesa contra o imperialismo norte-americano e meio de conscien-
tização das camadas populares, projeto acalentado desde antes do golpe
militar. Assim, o Estado de direita e os intelectuais de esquerda puderam
compartilhar certos valores simbólicos que convergiam para a defesa da
nação, ainda que sob signos ideológicos trocados.
Na montagem de seu plano de governo, ainda em 1973, o general Ernesto
Geisel convidou setores da intelectualidade de oposição, inclusive alguns
dramaturgos e cineastas de esquerda que já se constituíam como grupos de
pressão organizados, para discutir a futura política cultural. Essa aproxi-
mação ainda não foi suficientemente discutida e estudada, prevalecendo até
hoje muitas análises estritamente valorativas e pouco analíticas. Tendo em
vista a tradição histórica do Estado como promotor da “brasilidade”, quando
o general-presidente retomou uma política cultural de cunho nacionalista
e protecionista não era de se estranhar que ela funcionasse como canal de
comunicação com os setores culturais de oposição, herdeiros, em parte, do
conceito de brasilidade abrigado pelo Estado desde os anos 1930. O prin-
cipal momento da vertente proativa da política cultural do regime militar,
que, diga-se, conviveu muito bem com as políticas repressivas, foi sinteti-
zado pelo documento intitulado Política Nacional de Cultura (PNC), ela-
borado pelo Ministério da Educação e Cultura, em 1975.
Ironicamente, poderíamos caracterizar a PNC como a busca de uma cul-
tura “nacional-popular” sem luta de classes. O teor do texto procurava deli-
mitar um “núcleo irredutível” da cultura nacional autônoma, produzido ao
largo dos meios de comunicação de massa.15 O ministro Ney Braga, na apre-
sentação do plano, reiterava que seu objetivo era “zelar pelo patrimônio cul-
tural da nação, sem intervenção do Estado, para dirigir a cultura”.16 O recado
era claramente destinado aos produtores culturais críticos ao regime, bus-
cando o “reconhecimento do processo de abertura estendido à área cultu-
ral”.17 Portanto, em que pese sua visão conservadora e funcionalista de cultura,

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“VENCER SATÃ SÓ COM ORAÇÕES”

o documento tinha muitos pontos em comum com uma determinada visão


de cultura da esquerda nacionalista, consolidando um canal de diálogo entre
oposição e governo, altamente estimulado pelo mecenato oficial.
A ênfase nacionalista, a defesa do patrimônio e a promessa de apoio ao
produto nacional de “qualidade”, ameaçado pela cultura estrangeira e sem
espaço na indústria da cultura, sinalizavam uma incorporação de certas
demandas dos produtores culturais de esquerda. O plano assumia que seu
“objetivo maior era a realização do homem brasileiro como pessoa”18 e, para
tal, era preciso defender a cultura brasileira em dois níveis: o regional e o
nacional. A “cultura brasileira”, assumida em sua positividade ontológica,
deveria corrigir eventuais desvios de rota nos valores fundantes da brasili-
dade, causados pelo rápido desenvolvimento capitalista. Ao articular a po-
lítica cultural à realização dos “objetivos nacionais”, a PNC substituía o
ideário do conflito pela visão funcionalista da Escola Superior de Guerra e
sua Doutrina de Segurança Nacional.19 Entre suas diretrizes básicas esta-
vam a “generalização do acesso à cultura” e a “defesa da qualidade” (leia-
se, decoro no tratamento e na escolha dos temas e fidelidade aos cânones
consagrados pelo academicismo estético). Esses dois parâmetros permitiriam
a construção de uma política de subsídios na produção e no consumo e de
um apoio às variáveis mais conservadoras, no plano estético, da cultura de
oposição. O documento explicitamente recusava o “culto à novidade” e o
produto cultural massificado e, nesse sentido, também coincidia com parte
das críticas de esquerda às vanguardas alienadas e aos produtos massificados
de “baixo nível”.
Esse conjunto de políticas culturais, sintetizado na PNC, foi marcado
pela articulação bem-sucedida entre mercado e mecenato oficial na produ-
ção e distribuição, bem como pela ausência de uma política de conteúdo
positivo,20 e vetava apenas os temas e as abordagens vetados pela censura
oficial. A PNC tinha como eixo de atuação o estímulo às áreas de teatro e
cinema, que, não por acaso, com a música popular, formavam o “tripé” da
cultura engajada de esquerda. O Estado, portanto, tentava neutralizar os
efeitos eventualmente politizadores desse tripé artístico menos pelo con-
trole do conteúdo em si, e mais pelo controle dos circuitos socioculturais
pelos quais as obras deveriam circular pela sociedade, aprofundando a de-

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

pendência financeira dos criadores e produtores em relação ao Estado e


matizando o radicalismo no tratamento dos temas.
Na área de cinema, o governo atuou por meio de duas instituições. Pri-
meiramente, criou o Instituto Nacional do Cinema (INC), em 18/11/1966,
estabelecendo a censura a filmes como competência da União e definindo a
produção, distribuição e exibição de filmes brasileiros como política de
Estado. O INC foi extinto em 9/12/1975, pela mesma lei que ampliou a
Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes) e criou o Concine (Conselho
Nacional de Cinema), órgão normatizador e regulador da atividade cine-
matográfica. A Embrafilme foi outra instituição fundamental para essa área.
Criada em 12/12/1969, era inicialmente um apêndice do INC. Caracteri-
zava-se como uma empresa de economia mista, sendo que 70% pertenciam
à União. A partir de setembro de 1973, a Embrafilme passou a atuar tam-
bém na distribuição. Curiosamente, o primeiro filme distribuído foi São
Bernardo, de Leon Hirszman, cineasta ligado ao Partido Comunista, que se
aproveitou do estímulo à filmagem de obras literárias para fazer um filme,
de grande impacto na época, sobre o autoritarismo e as relações de poder.
A esquizofrenia da política cultural era tal que o mesmo filme ficou retido
na censura por muitos meses, causando graves problemas financeiros ao
diretor e levando a produtora Saga à falência.
Entre 1970 e 1973, a Embrafilme apoiou a produção de 83 longas e, em
agosto de 1974, Roberto Farias foi nomeado seu presidente, tendo Gustavo
Dahl, oriundo do grupo cinemanovista, seu superintendente comercial.21
Vários filmes de sucesso, muitos deles dirigidos por cineastas identificados
com a esquerda, foram produzidos, coproduzidos e/ou distribuídos pela
“nova Embrafilme”, até o final do regime militar, tais como: Sagarana, o
duelo (Paulo Thiago), Dona Flor e seus dois maridos (Bruno Barreto), Dama
do lotação (Neville de Almeida), A idade da terra (Glauber Rocha), Pixote
(Hector Babenco), Eu te amo (Arnaldo Jabor), O homem que virou suco
(João Batista de Andrade), Pra frente, Brasil (Roberto Farias), Eles não usam
black-tie (Leon Hirszman), Memórias do cárcere (Nelson Pereira dos Santos).
A empresa adotou um modelo mercadológico de “risco”, financiando
até 30% do filme e participando dos lucros. É preciso destacar o caráter
complexo desse viés da política cultural, se pensarmos num Estado mili-

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“VENCER SATÃ SÓ COM ORAÇÕES”

tarizado e de direita apoiando a realização de filmes com conteúdo de es-


querda e críticos ao capitalismo e à própria ditadura, como foi o caso notó-
rio de Pra frente, Brasil, que encenava a tortura contra cidadãos indefesos
no contexto da luta armada. Obviamente, a negociação entre os diversos
aparelhos e instâncias do Estado não era tranquila e muitos desses filmes
causaram mal-estar dentro do governo e em relação às Forças Armadas,
como ocorreu com o próprio Pra frente, Brasil, pivô de uma grande crise
interna na Embrafilme.
Apesar dos conflitos e das mediações com outras instâncias do governo,
nomes ligados ao Cinema Novo, reduto da esquerda dos anos 1960, como
Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Arnaldo Jabor, foram ampla-
mente apoiados pelo mecenato oficial. Conforme Wolney Malafaia:22

Se levarmos em consideração que, justamente nesses anos setenta, são


construídas as bases do Brasil contemporâneo, devemos atentar para a im-
portância da experiência cinemanovista no período, um tanto quanto exó-
tica, um pouco folclórica, porém profundamente ideológica, no sentido
amplo do conceito. Recusando as simplificações, não resumindo a relação
Estado autoritário/cinemanovistas como uma cooptação destes por aquele,
poderemos compreender a engenharia política de construção de um discur-
so ideológico extremamente complexo e voltado à maior parte da socieda-
de brasileira, pois trabalha diretamente seus símbolos e valores de forma
plástica refinada, politicamente vinculada à consolidação do processo de
distensão, acabando por legitimá-lo.

A aproximação com o Estado não ficou isenta de traumas e dissensos no


meio cinematográfico, motivando uma dupla recusa de muitos realizadores,
sobretudo os mais jovens e transgressores: a recusa dos termos dessa polí-
tica de mecenato oficial e a recusa da estética cinematográfica “séria” e
“culta” a ela associada e endossada pelo governo. Muitos desses cineastas
preferiram aderir à estética marginal agressiva e dessacralizadora e aos pa-
drões de produção da “boca do lixo”, conhecida pelos seus filmes eróticos
de baixa qualidade, do que aderir aos padrões impostos pela Embrafilme.23
Em relação à área de teatro o regime herdou, de outra ditadura, o Ser-
viço Nacional de Teatro, criado em 1937 e extinto em 1981, quando foi

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

fundado o Inacen (Instituto Nacional de Artes Cênicas). A gestão de Orlando


Miranda (1974-1981), empresário ligado ao teatro de esquerda, traduziu a
relação tensa e contraditória entre a política cultural da ditadura e a cultu-
ra engajada, durante o governo Geisel. Essa colaboração foi criticada pela
esquerda não vinculada ao PCB e pelo teatro ligado à contracultura24 e aos
movimentos sociais, num processo similar, ainda que não idêntico, ao cam-
po do cinema, sobretudo porque se baseava num paradigma de teatro an-
corado na tradição do drama realista e na forma de gestão empresarial.
Uma das hipóteses que explicam a busca de apoio na dramaturgia de
esquerda é que o governo percebeu que poderia usar a televisão para con-
solidar seu projeto político e, para tanto, o teatro brasileiro era um impor-
tante fornecedor de mão de obra para uma teledramaturgia de qualidade,
sendo uma espécie de laboratório preparador para o meio eletrônico de
massa. Aliás, alguns dramaturgos de esquerda, como Dias Gomes e Oduvaldo
Vianna Filho, já atuavam na Rede Globo desde o início da década de 1970
(Vianinha falecera em 1974). Também não podemos esquecer que o teatro
era um dos eixos centrais da cultura de esquerda, dotando-se de uma capa-
cidade aglutinadora e interativa que preocupou o regime no final dos anos
1960, dada a grande presença de público jovem e estudantil.
Com a reorganização do Serviço Nacional de Teatro, o empresário
Orlando Miranda consolidou a proposta de reerguer o teatro brasileiro
reconquistando, sobretudo, o público de classe média, engajado e “sério”,
via mercado.25 O teatro realista, crítico e dramático, na linha do primeiro
Arena de Eles não usam black-tie, tinha um amplo potencial de público e
de expressão política, mas tanto a repressão oficial como as diatribes do
teatro de vanguarda do fim dos anos 1960 tinham-no esvaziado.26 A partir
de 1973, aproximadamente, começa a contraofensiva do “teatrão nacio-
nal-popular”, apoiada em inúmeras montagens identificadas com a tradi-
ção realista e que terá o apoio do mecenato oficial.27 Essas peças teatrais
constituem o núcleo básico do “teatro de resistência”, linha endossada pelo
PCB: Um grito parado no ar (Gianfrancesco Guarnieri, 1973), Ponto de
partida (Guarnieri, 1976), Moço em estado de sítio (Vianinha, 1977), Gota
d’água (Chico Buarque e Paulo Pontes, 1974), O santo inquérito (Dias
Gomes, 1976), O último carro (João das Neves, 1977), Patética (João Ri-

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“VENCER SATÃ SÓ COM ORAÇÕES”

beiro Chaves, 1978), Papa Highirte (Vianinha, 1979) e Rasga coração


(Vianinha, proibida em 1972, encenada em 1979).
Outra instituição que desempenhou um papel importante na sistemati-
zação da política cultural do regime militar e do diálogo com a esquerda foi
a Funarte (Fundação Nacional de Arte), criada em dezembro de 1975. A
Funarte desempenhou um importante papel em três áreas: artes plásticas,
folclore e música popular.28 Assim, complementava o trabalho já realizado
no teatro e no cinema pelos outros órgãos do governo. Seu primeiro dire-
tor, Roberto Parreira, foi um dos redatores do Plano Nacional de Cultura.
No campo específico da música popular, a Funarte tinha quatro objeti-
vos: 1) estimular novas produções artísticas; 2) apoiar o trabalho de pes-
quisadores; 3) financiar a gravação de músicas culturalmente significantes,
sem interesse de mercado; 4) revisar a legislação protecionista para a defe-
sa da música brasileira nos meios de comunicação. Esses objetivos refletem
os debates da Associação de Pesquisadores em MPB, fundada em 1973, em
Curitiba, que reunia jornalistas, acadêmicos e críticos, quase todos de ma-
tiz nacionalista, demonstrando a tentativa do governo de incorporar a de-
manda de setores da sociedade civil, marcados pelo nacionalismo. 29 O
Projeto Pixinguinha foi a iniciativa mais bem-sucedida da Funarte para a
área da música popular. Idealizado por Hermínio Bello de Carvalho, em
1977, promoveu inúmeros espetáculos musicais a baixo custo, fazendo mais
de 1.400 apresentações e agregando um público de cerca de um milhão de
pessoas, entre 1978 e 1979. O que é notável é que mesmo numa área alta-
mente capitalizada, a política cultural oficial também se fez presente.
Hermínio Bello de Carvalho, um produtor intelectual identificado com o
campo da esquerda nacional-popular, rejeitava a ideia de que houvesse um
processo de cooptação, afirmando que ele e sua equipe formavam um nú-
cleo de resistência antiautoritária no interior do próprio Estado.30 A Funarte,
de forma mais ampla, atuou na formação de um pensamento crítico em
consonância com o meio acadêmico, promovendo uma série de seminários
que catalisou o debate da área de artes e ciências humanas na direção de
uma revisão da história da cultura brasileira, abrigando até pesquisadores
de oposição.31 Dentre os órgãos da política cultural oficial, sem dúvida, foi
um dos que tiveram atuação mais complexa e pluralista.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

SOCIEDADE: AÇÃO CULTURAL E OPOSIÇÃO POLÍTICA

Após o golpe militar de 1964, muitos artistas e obras, identificados com os


valores da esquerda, foram incorporados pelo mercado e pelos circuitos
culturais de massa, naquele momento em franca expansão. Os casos da
música popular e da televisão são exemplares nesse processo. Portanto, a
política cultural do regime, num certo sentido, reconhecia a importância
da cultura de esquerda já consagrada no mercado e em amplos setores da
opinião pública.
O próprio conceito de Música Popular Brasileira (MPB), amplamente
adotado pelo mercado como gênero regulador do consumo musical brasi-
leiro desde meados da década de 1960, foi produto do encontro entre uma
cultura musical nacionalista, temperada por influências do jazz e do pop,
com interesses da indústria fonográfica, cuja principal estratégia de merca-
do era atender às demandas da classe média consumidora.32 Os artistas de
preferência dessa classe média mais intelectualizada eram eufemisticamente
chamados de “faixa de prestígio” das gravadoras. O surgimento da MPB,
no contexto dos festivais da canção, não apenas serviu como válvula de
escape para as críticas ao regime, mas também como sondagem de público
para um consumo musical mais qualificado e valorizado do ponto de vista
sociocultural. No âmbito da música popular, a fronteira entre a arte engajada
e a arte voltada para o mercado era tão tênue que se torna uma tarefa mui-
to difícil partir de uma divisão rígida entre esses dois circuitos socioculturais.
A convergência da expressão genuína de artistas engajados com os interes-
ses da indústria fonográfica foi menos uma concessão dessa ao “bom gos-
to” musical e mais uma conveniente aliança para ambos: os artistas poderiam
chegar a um público de massa, impossível de ser atingido por meio do cir-
cuito restrito das organizações partidárias, dos movimentos sociais e dos
sindicatos, que, por sinal, estavam duramente reprimidos desde o golpe
militar. Para a indústria, os artistas de esquerda dominavam a linguagem
simbólica e os meios de expressão que agradavam o público de bom poder
aquisitivo e em processo de expansão, concentrando um dos segmentos be-
neficiados pelo milagre econômico: a classe média escolarizada.

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“VENCER SATÃ SÓ COM ORAÇÕES”

Naquele momento, e nas condições em que a indústria da cultura se fir-


mava no Brasil, a demanda ainda era um fator importante na organização
da produção cultural, pois a indústria ainda não constituía um sistema ple-
namente integrado que pudesse dirigir e prever essa produção cultural. Além
disso, apostava-se no alto valor agregado de produtos culturais mais sofis-
ticados (do ponto de vista tecnológico e técnico-estético) que, mesmo ven-
dendo menos do que os produtos de consumo popular, garantiam lucros
maiores a médio e longo prazos. No caso da música popular, esse modelo
de organização da produção e do consumo cultural teve sua expressão mais
bem caracterizada ao longo dos anos 1970, quando abarcou, paradoxal-
mente, um campo musical marcado pelas canções engajadas de esquerda,
agrupado em torno do “gênero” MPB.
Outro caso de incorporação da arte (e de artistas) de esquerda pela in-
dústria da cultura foi o recrutamento de dramaturgos assumidamente co-
munistas pela teledramaturgia e pelas empresas jornalísticas e editoriais
como um todo. A própria Rede Globo, à época acusada de ser aliada do
regime, deu espaço para atores e dramaturgos assumidamente comunistas,
como Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes, Dias Gomes, Francisco Milani,
Carlos Vereza e Armando Costa, entre outros. É interessante notar, nesse
caso, como a política de “ocupação dos espaços” que marcou a atuação
cultural dos comunistas valorizou a indústria da cultura, sempre objeto de
desconfiança à esquerda, pela sua tendência à massificação e ao nivelamento
estético. Em relação aos casos específicos de Dias Gomes e Oduvaldo Vianna
Filho, é preciso destacar que bem antes do golpe militar esses profissionais
já produziam para os meios de comunicação de massa, como o rádio e a
TV. Entretanto, no caso de Vianinha é inegável que sua relação com a tele-
visão fica mais intensa a partir de 1968.33 Diante do recrudescimento da
repressão, a televisão passou a ser vista como alternativa profissional e um
novo caminho para a popularização da arte, desde que o conteúdo fosse
mantido dentro dos princípios de qualidade da dramaturgia clássica, como
o realismo, o decoro e o humanismo.
Esse processo de inserção do artista de esquerda no mercado foi estimu-
lado não apenas pelo rompimento, após o golpe militar, dos circuitos cul-
turais não mercantilizados, que, precariamente, uniam os artistas de esquerda

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

às classes populares (CPC, UNE volante, espaços culturais em sindicatos,


campanhas de alfabetização etc.), mas também por uma nova estrutura de
oportunidades profissionais potencializada pela expansão do mercado e da
indústria da cultura. Essa nova situação do mercado de trabalho na cultura
caracterizou-se pelo recrutamento de artistas, intelectuais e egressos dos
cursos superiores de ciências humanas por parte da indústria da cultura e
da comunicação, a partir do final dos anos 1960.34 Aliada a esses dois pro-
cessos estruturais, havia a perspectiva, ou a ilusão, se preferirmos, da parte
de certos artistas e intelectuais, de ocupar espaços em circuitos de cultura de
massa, acreditando na possibilidade de transmitir um conteúdo minima-
mente politizado e crítico para os seus consumidores.
Essa “ida ao mercado”, aliada ao processo de aproximação com a polí-
tica cultural oficial, defendida pelos artistas comunistas ou simpatizantes,
incrementou um processo de luta cultural intestino nos agentes sociais que
formavam o amplo leque de oposições ao regime. Ao menos quatro atores
político-culturais podem ser identificados naquela conjuntura: os comunistas
e simpatizantes da cultura nacional-popular; a “cultura jovem”, tributária
da tradição pop, da contracultura, das vanguardas e do hippismo; a “nova
esquerda”, alternativa ao PCB e base do futuro Partido dos Trabalhadores,
que agrupava a intelectualidade radical, os militantes obreiristas, lideran-
ças sindicais e comunitários e a esquerda católica; e, finalmente, os liberais
mais ou menos progressistas que cada vez mais tentavam se desvincular de
uma ligação direta com o regime militar.
Se a “ida ao mercado” reforçou a aliança tática entre os liberais e os
comunistas, o seu contraponto foi marcado por duas posições de recusa,
cujos valores e produtos apontam para uma ideia de “resistência cultural”
bem mais radical, longe da estratégia de “ocupar espaços”, crítica aos valo-
res nacionalistas e rejeitando qualquer negociação com o sistema político
vigente.
O primeiro exemplo de recusa à “ida ao mercado” foi protagonizada
pelos artistas e produtores culturais ligados à chamada “contracultura”,
muito significativa entre a juventude de classe média baixa dos grandes cen-
tros urbanos, mais sensível às modas internacionais veiculadas pela mídia.35
As correntes da contracultura defendiam a luta contra o “sistema” não

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“VENCER SATÃ SÓ COM ORAÇÕES”

apenas do ponto de vista político, mas nos seus aspectos mais amplos (com-
portamentais, culturais e econômicos), buscando a criação de circuitos cul-
turais “alternativos” ao mercado hegemonizado por grandes empresas. Além
disso, enfatizavam a necessidade de ruptura com a linguagem “realista” e
com os valores “nacionalistas”, tão cara aos comunistas. A “poesia jovem”,
o “cinema marginal”, o teatro jovem podem ser tomados como exemplo
dessa variável radical de crítica cultural ao regime.
Outro caso de recusa e crítica cultural radical foi a dos militantes da es-
querda não comunista e obreirista. Os principais pontos de discórdia eram
a centralidade do nacionalismo e a incorporação da “herança cultural”,36
vistos com desconfiança por fazer tabula rasa da pluralidade das culturas
populares e da vivência cultural comunitária.37 Para aqueles setores aglu-
tinados em torno das dissidências comunistas, da esquerda católica e dos
movimentos sociais urbanos, havia também a recusa ao mercado e ao nacio-
nalismo, mas sob uma ótica diferente da contracultura. O que os informa-
va era a busca de uma nova ligação com a cultura popular, principalmente
aquela praticada nas periferias dos grandes centros urbanos, e a criação de
circuitos culturais populares, livres das fórmulas estéticas e temáticas da
“cultura burguesa” de mercado.38 O conjunto da “nova esquerda”, não
comunista, via a cultura comunista “nacional-popular” como “autoritária,
populista, elitista e conciliatória”, ocultando o conflito de classes e despre-
zando o vigor da verdadeira cultura popular, cujo epicentro estava nas co-
munidades periféricas urbanas e rurais, longe do mercado e da televisão.
Os grupos amadores de teatro (Teatro da Cidade, União e Olho Vivo, Tea-
tro Núcleo) são exemplos dessa tendência de recusa do circuito cultural
massificado ou oficial, plasmando o conceito de resistência ao próprio pro-
cesso de produção e gestão da experiência artística.
Os intelectuais e artistas comunistas, e seus simpatizantes, reagiam a es-
sas duas correntes alternativas, disputando não apenas a direção política
dos movimentos sociais, mas também sua direção cultural. A contracultura
jovem era logo taxada de “escapista, subjetivista, hermética” e o conceito
de cultura defendido pela nova esquerda era qualificado como “esquerdis-
ta, sectário e basista”. Esses adjetivos não apenas pautavam a crítica ideoló-
gica, mas informavam as posições de cada segmento nas lutas culturais.

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Duas expressões que ficaram plasmadas na caracterização da primeira


metade dos anos 1970 — “vazio cultural” e “desbunde” — têm origem nas
críticas feitas pelos setores comunistas e liberais progressistas, dirigidas,
sobretudo, aos jovens produtores culturais ligados à contracultura. Numa
certa medida, esses conceitos, que até hoje marcam a memória social do
período e geram muitos debates, surgiram para nomear (e desqualificar) a
sensação de perda repentina da hegemonia cultural no seio da esquerda pelo
Partido Comunista e sua esfera de influência. Ao qualificar de “vazio cultu-
ral” o início da década de 1970, os intelectuais mais afinados com a heran-
ça da cultura nacional-popular não apenas denunciavam os efeitos nocivos
da censura e da repressão sobre os artistas e intelectuais, mas também apon-
tavam os efeitos “alienantes” da expansão dos meios de comunicação de
massa e os novos valores comportamentais e estéticos por eles veiculados,
marcados sobretudo pelo hippismo e pelos resíduos de um novo ciclo
vanguardista/formalista em vários campos das artes. 39 Tanto a ruptura
comportamental quanto a ruptura formal preconizada pelas vanguardas não
eram bem vistas por parte significativa da esquerda ortodoxa, sobretudo
aquela ligada ao PCB. Assim, “vazio cultural” e “desbunde” são, na sua
origem, palavras carregadas de sentido ideológico, voltadas para a crítica
às posições de “recusa” subjetiva e comportamental do “sistema”.
Os liberais, donos das empresas de cultura e comunicação, percebiam
que a partir do final dos anos 1960 a estrutura do mercado cultural tinha
sofrido uma mudança significativa, surgindo uma nova classe média, cada
vez mais escolarizada, muito aberta à cultura de esquerda, notadamente
aquela herdeira do nacional-popular. Portanto, em que pese o clima repres-
sivo e a censura, os produtos artístico-culturais gerados à esquerda tinham
uma boa demanda, na música popular, na dramaturgia e no cinema. A de-
manda por livros e impressos em geral (fascículos, revistas, jornais), esti-
mulada pelo crescimento da população universitária, marcou o fenômeno
das “editoras de oposição”.40 Enfim, a classe média era um grande público
consumidor para os produtos de esquerda, que os empresários liberais não
hesitavam em fornecer, diferenças ideológicas à parte. Além disso, desde
1968, os setores liberais estavam cada vez mais afastados do regime militar,

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“VENCER SATÃ SÓ COM ORAÇÕES”

ao menos no campo político, pois, no campo econômico, o “milagre” era


saudado por todos. Durante o governo Geisel cresceu a crítica à política
econômica do regime, dada a percepção de que o Estado era uma estrutura
pesada demais na vida econômica. Derrotada a guerrilha de esquerda, a
estratégia liberal, em seus diversos matizes, convergia para uma transição
negociada para um governo civil, precedido de uma desmontagem da re-
pressão policial, da legislação autoritária e da censura.
O caminho para a aliança tática entre setores comunistas e liberais esta-
va bem pavimentado, em nome das liberdades democráticas. Essa palavra
de ordem foi muito além da pauta político-institucional, adensando uma
determinada estratégia de crítica cultural e política ao regime militar.41
Em suma, nos anos 1970, temos uma conjuntura cultural rica em con-
tradições, produto não apenas de estratégias e táticas político-ideológi-
cas dos grupos de oposição, mas também fruto das mudanças estruturais
na vida sociocultural. Uma vigorosa cultura de oposição plenamente
inserida no mercado, veiculada por grandes corporações capitalistas na-
cionais e multinacionais, encontrou apoio numa tutela ambígua por parte
do Estado, que, por sua vez, controlava a produção cultural, via censura,
mas estimulava o crescimento do consumo cultural, por meio de subsídios
e criação de um mercado nacional de cultura. Em meio a essa complexa
conjuntura, consolidou-se a ideia-força de resistência cultural, expressão
que com o tempo tornou-se polissêmica e vaga, pois as diferenças estéti-
cas e ideológicas entre os atores da oposição foram se aplainando com o
tempo. Entretanto, examinando-se em sua historicidade própria, a críti-
ca cultural às bases ideológicas do regime e ao autoritarismo englobam
um conjunto de projetos e práticas — políticas e culturais — que muitas
vezes eram autoexcludentes, sintetizadas em dilemas nada fáceis de resol-
ver: ir ou não ir ao mercado; ser ou não nacionalista; falar ou não falar
em nome do povo; quebrar ou não as tradições estéticas e culturais já in-
corporadas pelos padrões vigentes.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE AS LUTAS CULTURAIS NO


CONTEXTO DO REGIME MILITAR

Partimos da premissa de que a dinâmica cultural no Brasil no período do


regime militar dialogou com as vicissitudes políticas que marcaram o jogo
entre governo e oposições (parlamentar, civil, armada). Ao longo dos anos
1970, confirmada a derrota da esquerda armada, construiu-se um campo
político-cultural que podemos chamar de “oposição civil”, articulando con-
teúdos de esquerda, principalmente da esquerda nacionalista, a circuitos
dominados pelo mercado, gerenciado por capitalistas liberais. A partir des-
sa premissa, gostaria de pautar algumas considerações, ainda com caráter
de problemáticas a serem aprofundadas em futuras pesquisas.
Em primeiro lugar, pode-se afirmar que a adesão a um nacionalismo miti-
gado, mesclado com a valorização da “herança cultural” ocidental, possibi-
litou a convergência de instituições, circuitos e agentes culturais situados
em campos ideológicos opostos. Estado, mercado e produtores culturais
de esquerda, num processo pleno de tensões e negociações, acabaram por
convergir num ponto: a necessidade da defesa da “cultura nacional” e da
“valorização do produto brasileiro”. O Estado participou desse processo
de convergência, por razões de segurança nacional. O mercado, por ade-
quação a uma certa demanda, que não chegou a ser incompatível com o
crescente interesse por produtos culturais importados. A esquerda, por ra-
zões táticas e estratégicas, além da fidelidade à tradição nacional-popular
construída nos anos 1950.
A tradição que informava esses três “atores”, naquela conjuntura, não
permitia um nacionalismo agressivo e exclusivista e isso facilitou o diálogo.
O Estado autoritário, que se via como guardião, a um só tempo, dos valores
ocidentais, “democráticos” e cristãos, desconfiava de qualquer nacionalismo
autóctone e fascista. O mercado, pautado em valores liberais, se via como
parte do capitalismo mundial, associado às multinacionais e à “livre iniciati-
va”, não podendo cercear, por motivos financeiros e ideológicos, a entrada
de produtos estrangeiros. E a esquerda propagava um nacionalismo que, por
razões também ideológicas, era tributário de um conceito de cultura “univer-

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“VENCER SATÃ SÓ COM ORAÇÕES”

sal”, de tradição burguesa e iluminista, mesclada a conteúdos nacional-popu-


lares devidamente filtrados pelos artistas e intelectuais.42
Mesmo com leituras e objetivos diversos, a burocracia oficial, os empre-
sários liberais e os artistas engajados e críticos ao regime viam possíveis
vantagens nessa improvável associação tática, num contexto de luta por he-
gemonia, perpassado por desconfianças recíprocas. O Estado via no inte-
lectual de esquerda um caminho para reconciliar-se com a classe média, base
social do golpe militar, perdida desde 1968. O mercado via no Estado um
facilitador de acesso ao capital e a subsídios de toda a ordem, e o artista de
esquerda via, em ambos, a oportunidade de produzir sua obra, ampliar seu
público e afirmar-se artística e profissionalmente.
Em segundo lugar, enfatizo que não é possível entender as lutas cultu-
rais entre “Estado” e “sociedade” nos anos 1970 supervalorizando os dois
paradigmas explicativos que marcam a memória do período: o controle e a
cooptação do sistema político e econômico, por um lado, ou a resistência
cultural, por outro. Há uma gradação ampla entre esses dois polos. O pro-
blema a ser investigado é outro: por que a pretensa “hegemonia” da cultu-
ra de oposição nos segmentos sociais mais influentes (setores da burguesia
e da classe média) não se traduziu numa organização social e política eficaz
para “derrubar a ditadura”? É plausível supor que a limitação da eficácia
política da ação cultural da esquerda pode ter sido, paradoxalmente, o re-
sultado da sua inserção bem-sucedida nas estruturas de mercado, sobretu-
do nas áreas mais capitalizadas e monopolizadas pelas grandes corporações
(indústria fonográfica, televisual e editorial). Nesses setores, os artistas ti-
nham de negociar formas e conteúdos com os interesses e os limites impos-
tos pelos donos, geralmente liberais, dessas empresas, nunca interessados
em romper radicalmente com o governo, mesmo permitindo a veiculação
de discursos críticos ao autoritarismo como projeto estratégico. Nas áreas de
forte demanda — o cinema e o teatro — mas sem produtores e circuitos
nacionais integrados, o Estado passou a acenar com formas de apoio finan-
ceiro e institucional, tendência, como já vimos, plenamente estabelecida a
partir de 1975, o que também pressupunha a aceitação das formas empre-
sariais de produção cultural. Por outro lado, admitindo-se o princípio de
que o consumo cultural, via mercado, cria e reforça identidades políticas e

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

sociais,43 em que momento essas identidades simbólicas se transformariam


em práticas efetivas de afirmação de cidadania e construção de projetos
políticos alternativos à ordem vigente, questão fundamental em contextos
autoritários?
Um segundo problema parte de questões ainda mais perturbadoras: como
foi possível um Estado dominado pela direita militar apoiar financeiramente
artistas de esquerda? Como foi possível um mercado cada vez mais domi-
nado pelo grande capital veicular uma produção muitas vezes crítica não
apenas ao autoritarismo, mas também ao capitalismo? Para encaminhar as
respostas teremos que aprofundar a análise crítica da relação entre a cultu-
ra de esquerda com o mercado, por um lado, e com o Estado, por outro. O
mercado permitia a veiculação da crítica social e comportamental por meio
da cultura, de forma genérica e diluída, pois havia uma demanda de produ-
tos “críticos”, até como efeito compensatório para a derrota política dos
projetos de esquerda. O Estado, por sua vez, se dispunha a apoiar artistas
que produzissem “obras de reconhecida qualidade estética” e “defendes-
sem a cultura brasileira”, na tradição nacional-popular, desde que expurgada
da luta de classes e da defesa explícita do socialismo ou da crítica direta ao
governo militar. Além disso, o mercado queria ganhar a classe média con-
sumidora e o Estado, principalmente após a política de “distensão” e “aber-
tura”, queria se aproximar da classe média eleitora. A cultura era um caminho
para esses dois objetivos.
Qualquer julgamento mais aprofundado acerca do papel histórico da
cultura de “resistência” cultural ao regime militar deveria encarar novas pro-
blemáticas. Até o momento, as pesquisas têm dado mais ênfase às intenções
dos produtores culturais, ao conteúdo das obras críticas e às organizações
institucionais que atuaram na vida cultural brasileira. Pouco se estudou a
atuação dos grupos de pressão junto ao mercado e ao Estado, os circuitos
culturais alternativos, o papel dos mediadores entre a produção e o consu-
mo e as formas de apropriação dos bens simbólicos pelos vários segmentos
sociais. Talvez, quando a pesquisa histórica sobre o período conseguir
equacionar essas problemáticas, teremos mais pistas para saber se prega-
ções culturais e artísticas foram completamente impotentes diante de Satã
ou tornaram seu reinado menos tranquilo.

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“VENCER SATÃ SÓ COM ORAÇÕES”

Notas

1. Verso da canção Agnus sei, de João Bosco e Aldir Blanc (1972).


2. Conforme Nicola Mateucci, o termo se consagrou durante a Segunda Guerra
Mundial, caracterizando mais uma “reação do que uma ação, uma defesa do que
uma ofensiva, uma oposição mais do que uma revolução”, podendo assumir for-
mas ativas ou passivas, coletivas ou individuais. MATEUCCI, N. “Resistência”,
in: BOBBIO, N. (org.). Dicionário de Política. Brasília, EDUNB, 1999, pp. 1.114-5.
Esse último fenômeno — a resistência individual — vem sendo rediscutido por
Wolfgang Heuer, dentro da tradição arendtiana, por meio do conceito de “cora-
gem civil”. Ver HEUER, W. “Coraje en la política sobre un verdulero en praga,
senadores norteamericanos, whistleblowers y una carreta siciliana”. História,
Questões & Debates, Paraná, 41, 2004, pp. 167-181. Sobre a relação entre a
resistência à ditadura e as várias esquerdas nos anos 1970, ver ARAÚJO, Maria
Paula N. A utopia fragmentada. Rio de Janeiro: FGV, 2000.
3. Um exemplo dessa afirmação são os depoimentos tomados pelo CPDOC da Fun-
dação Getulio Vargas e publicados em três volumes: CASTRO, Celso; D’ARAÚJO,
Maria Celina; SOARES, Gláucio D. (orgs.). Visões do golpe (a memória militar
sobre 1964). Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994; CASTRO, Celso; D’ARAÚJO,
Maria Celina; SOARES, Gláucio D. (orgs.). A volta aos quartéis (a memória mi-
litar sobre a abertura). Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995; CASTRO, Celso;
D’ARAÚJO, Maria Celina; SOARES, Gláucio D. (orgs.). Os anos de chumbo (a
memória militar sobre a repressão). 2ª ed. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2001.
4. SCHWARZ, R. Política e Cultura, 1964-1969. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.
5. CODATO, Adriano. “O golpe de 64 e o regime de 68”. História, Questões &
Debates, Paraná, 40, 2004, pp. 11-36.
6. Conforme Teixeira Coelho, política cultural pode ser definida como “ciência da
organização das estruturas culturais”, COELHO, T. (org.). Dicionário Crítico de
Política Cultural. São Paulo: Iluminuras; Fapesp, 2004, p. 293. Ainda conforme
o autor, as políticas culturais “frequentemente apresentam-se ideologizadas, atuan-
do na legitimação da ordem político-social”. As políticas culturais encontram-se
motivadas por dois tipos de exigência: a) pela ideia de difusão cultural, baseada
num “núcleo positivo” da cultura que deve ser compartilhado pelo maior núme-
ro de pessoas possível e; b) pelas demandas sociais, reagindo conforme as reivin-
dicações são apresentadas pelos atores sociocultuais (p. 294). Como veremos,
essas duas demandas foram levadas em conta na definição da política cultural do
regime militar, sobretudo após 1975.
7. Jose Brunner considera a política cultural do regime militar brasileiro uma variá-
vel do “modelo mercantil”, marcado pelo clientelismo voltado para o mercado,

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aliado à prática de mecenato público, visando a proteger a alta cultura e a conser-


var o patrimônio nacional. Apesar de bastante presente, o mecenato do Estado é
complementar e subordinado ao mercado. Outro dado particularmente impor-
tante para entender a aparente contradição na atuação do regime militar na área
cultural é a inexistência, nesse modelo, de uma ideologia central, sendo que as
pequenas ações de fomento se inscrevem nas redes clientelistas, fenômeno que
Brunner chama de “clientelismo pluralista”. BRUNNER, Jose Joaquin. América
Latina: cultura y modernidad. México: Grijalbo; Conaculta, 1992, p. 221.
8. ORTIZ, R. A moderna tradição brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1988.
9. RIDENTI, M. “Artistas e intelectuais no Brasil pós-1960”. Tempo Social. Revista
de Sociologia da USP, São Paulo, 17/01, junho de 2005, p. 97.
10. Para uma radiografia ampla do sistema repressivo ver FICO, Carlos. Como eles
agiam: os subterrâneos da ditadura militar. Espionagem e polícia política. Rio de
Janeiro: Record, 2001.
11. KUSHNIR, Beatriz. Cães de guarda: jornalistas e censores do AI-5 à Constituição
de 1988. Rio de Janeiro: Boitempo Editorial, 2004, p. 187.
12. BREPOHL, M. “A lógica da suspeição: sobre os aparelhos repressivos à época da
ditadura militar no Brasil”. Revista Brasileira de História, São Paulo, 17/34, 1997,
pp. 203-20.
13. NAPOLITANO, Marcos. “O caso das patrulhas ideológicas na cena cultural bra-
sileira do final dos anos 1970”, in: MARTINS FILHO, João Roberto. O golpe de
1964 e o regime militar: novas perspectivas. São Carlos, 2006, pp. 39-46.
14. HOLLANDA, Heloisa B.; MESSEDER, Carlos (orgs.). Patrulhas ideológicas. São
Paulo: Brasiliense, 1980.
15. MICELI, S. “Teoria e prática da política cultural oficial no Brasil”. In: ——.
Estado e cultura no Brasil. Rio de Janeiro: Difel, 1984, p. 108.
16. BRASIL. Plano Nacional de Cultura. Brasília, Ministério da Educação e Cultura,
1975, p. 5.
17. SILVA, Varderli Maria. A construção da política cultural no regime militar: con-
cepções, diretrizes e programas. Dissertação de Mestrado em Sociologia, FFLCH/
USP, 2001.
18. BRASIL, op. cit., p. 8.
19. SILVA, Varderli M., op. cit.
20. Reconhecemos que houve uma tentativa de canalizar o ufanismo nacionalista
como conteúdo artístico-cultural, sobretudo no começo dos anos 1970, mas não
se pode dizer que a Política Nacional de Cultura, pós-1975, tenha sido marcada
por esse tipo de perspectiva.
21. Em 1979, Celso Amorim foi nomeado presidente. Em 1982, foi nomeado Roberto
Parreira.

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22. MALAFAIA, Wolney. “O cinema e o Estado na terra do sol: a construção de uma


política cultural de cinema em tempos de autoritarismo”, in: CAPELATO, Maria
H; MORETTIN, Eduardo; NAPOLITANO, Marcos; SALIBA, Elias. História e
cinema. São Paulo: Editora Alameda; História Social-USP, 2007, p. 348.
23. RAMOS, José Mário Ortiz. Cinema, Estado e lutas culturais. Rio de Janeiro: Paz
e Terra, 1983.
24. MOSTAÇO, Edélcio. Teatro e política: Arena, Opinião e Oficina. Uma análise da
cultura de esquerda. São Paulo: Proposta Editorial, 1982.
25. NAPOLITANO, Marcos. “A arte engajada e seus públicos”. Estudos Históricos,
Rio de Janeiro, 28, 2003.
26. ALVES, Jair, www.navedapalavra.com.br/abrir_secao.php, acessado em 20/03/
2006.
27. MOSTAÇO, E., op. cit., pp. 170-187.
28. O SNT era, inicialmente, um departamento da Funarte, mas tinha grande auto-
nomia e iniciativa própria. Com a existência da Fundacen (Fundação Nacional
de Artes Cênicas), a área passou a ter autonomia, mas foi reabsorvida pela Funarte
em 1981, sob o nome de Inacen.
29. STROUD, Sean. Disco é Cultura: MPB and the Defence of Tradition in Brazilian
Popular Music. Thesis for Degree of Doctor of Philosophy, King’s College,
University of London, 2005, pp. 159-160.
30. Idem, p. 166.
31. A série “Anos 70” e a coleção “O nacional e o popular na cultura brasileira”,
editada em seis volumes, entre 1980 e 1983, são exemplos desse tipo de balanço.
32. NAPOLITANO, Marcos. Seguindo a canção: engajamento político e indústria
cultural na MPB. São Paulo: Fapesp; Annablume, 2001.
33. PELLEGRINI, Sandra. “Televisão, política e história: dimensões da problemáti-
ca social na teledramaturgia de Vianinha”. Revista de História Regional, Ponta
Grossa, 6/2, 2001.
34. MICELI, Sergio. “O papel político dos meios de comunicação de massa”. In:
SOLSNOWSKI, Saul et al. Brasil: o trânsito da memória. São Paulo: Edusp, 1994,
pp. 41-67.
35. Para o caso da música popular essa afirmação não vale, pois a contracultura mu-
sical (Caetano, Gil e mesmo os “malditos” Jards Macalé e Luiz Melodia) ocupava
faixas importantes, ainda que menores, do mercado fonográfico.
36. A questão da “herança cultural” para a esquerda comunista é fundamental e pres-
supõe, na linha de György Lukács, a incorporação dos autores e das obras consi-
derados progressistas, dentro da tradição realista do cânone ocidental. Ver RUBIM,
Antonio C. “Partido comunista e herança cultural no Brasil”. Ciência e Cultura,
41/6, junho de 1989, pp. 552-565.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

37. Para um aprofundamento dessa crítica ao nacionalismo, ver, CHAUÍ, Marilena.


Cultura popular: entre o conformismo e a resistência. São Paulo: Brasiliense, 1985;
BOSI, Alfredo. A dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras,
1989.
38. RIDENTI, Marcelo. “Todo artista tem que ir aonde o povo está”. In: ——. Em
busca do povo brasileiro. Rio de Janeiro: Record, 2000.
39. Esse paradigma de análise, baseado numa crítica à contracultura e às vanguardas,
foi construído por um corpus de textos, muitos deles publicados na imprensa.
Ver VENTURA, Z. “Vazio cultural”. In: VENTURA, Z. et al. Anos 70/80. Da
repressão à abertura. Rio de Janeiro: Editora Aeroplano, 2000 (originalmente de
1970); MARTINS, Luciano. Geração AI-5. Rio de Janeiro: Argumento, 2004
(originalmente publicado em 1979).
40. SILVA, Flamarion Maués Pelúcio. Editoras de oposição no período da abertura
(1974/1985): negócio e política. Dissertação de Mestrado, História Econômica,
USP, 2006.
41. Lembremos, mais uma vez, que o Partido Comunista Brasileiro, à época, apoiava
oficialmente e usava a legenda do MDB, grande frente liberal-democrática de
oposição. Em que pese a existência de um vigoroso movimento social e de uma
nova esquerda crítica e cheia de potencialidades, o processo de transição negociada
para o regime civil terá nos liberais agrupados no (P)MDB o seu ator mais deci-
sivo, sobretudo a partir de 1982.
42. A discussão articulada dos conceitos de “realismo crítico”, de origem lukacsiana,
e de “nacional-popular”, de origem gramsciana, como base da estética e da cultu-
ra defendidas pelos comunistas pode ser vista em COUTINHO, Carlos Nelson.
“Notas sobre a questão cultural no Brasil”. Escrita Ensaio, São Paulo, nº 1, 1977.
43. CANCLINI, Nestor. Consumidores e cidadãos. Rio de Janeiro: Editora UFRJ,
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Y920-01(Civilização).p65 174 28/4/2011, 18:28


CAPÍTULO 5 Simonal, ditadura e memória:
do cara que todo mundo queria ser a
bode expiatório1
Gustavo Alonso*

*Doutorando em História pela UFF. Pesquisador do NEC. Autor de Quem não tem swing
morre com a boca cheia de formiga, no prelo pela Editora Record, e “A modernidade e o
discurso: inovação estética e legitimação da Tropicália”. In: Daniel Aarão Reis e Denis Rolland
(orgs.). Modernidades alternativas. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2008.

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Começo a entender o porquê da reação dos jovens, o porquê de
suas atitudes, o porquê de seu protesto. Com relação à música
brasileira, os jovens têm protestado muito. Mas, observem, são es-
tranhos os caminhos que percorre a nossa música popular. Estra-
nhos? Às vezes chega a me parecer contrassenso!2
WILSON SIMONAL (24/7/1967)

No final de 1971 o cartunista Henfil publicou no jornal O Pasquim uma


página com os quadrinhos do personagem Tamanduá. Tratava-se, segundo
o próprio cartunista, da “besta do apocalipse que assola nosso país”. Era na
verdade um ser que vagamente lembrava o animal do título. A “besta” tinha
uma tromba que sugava os cérebros dos apologistas da ditadura e depois os
cuspia, de forma que pudéssemos ver o que havia em suas cabeças. Em se-
tembro do mesmo ano o Tamanduá já havia sugado o cérebro do cantor
Wilson Simonal, um dos cantores mais populares da época. O objetivo da
“besta” era tornar-se um bom cantor por meio da apropriação do cérebro
de Simonal. Depois de atraí-lo com uma moeda, deu o bote. Mas não foi
bem-sucedido na tentativa. O efeito foi que o Tamanduá ficou, num pri-
meiro momento, com a língua dura. Logo depois todas as extremidades
(dedos, trombas, orelhas) também ficaram duras e apontadas para várias
direções. Henfil fazia eco ao boato que todos já tinham ouvido: Simonal
era dedo-duro da ditadura. Embora já existissem antes de 1971, foi só a
partir daquele ano que os boatos se consolidaram no imaginário nacional
— e até os dias de hoje. Para o cantor, foi o início do fim. A partir daquele
ano O Pasquim começou uma cruzada contra o cantor, catalisando interes-

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

ses de diversos setores das esquerdas. O jornal acompanhou a agonia e o


declínio de sua carreira, debochando dele, ironizando-o.
Em novembro de 1971 o Tamanduá novamente encontrou Simonal em
seus quadrinhos. Simonal clamava ajuda, pois o “povo” não parava de vaiá-
lo quando aparecia em público. Choramingando, o Simonal de Henfil dis-
se: “No Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, dia 8 de novembro agora, eu
fui entrando no palco e sendo vaiado! Vaia total de duas horas! Não me
deixaram nem falar...” Tamanduá, incrédulo, não compreende: “Não acre-
dito, Simonal! Você era tão popular, o Jornal do Brasil publicou sua vida,
era um ídolo! Quero ver pra acreditar!” Empurrado para o palco, Simonal
se pergunta: “O que o Chico Buarque tem que eu não tenho?” Simonal tenta
cantar sucessos como “Meu limão, meu limoeiro” e “País tropical”, mas
não dá; as vaias não cessam. No entanto, para surpresa do Tamanduá, no
último quadrinho começam os aplausos. Em meio às palmas, ovações:
“hurra!”, “é isto aí!”, “bravo!”. O Tamanduá comenta sarcasticamente:
“Olha aí, Simonal! Agora você conseguiu conquistar o aplauso do povo!”
O cantor apontava uma arma para a própria cabeça.
Henfil se apropriara de um episódio real para aumentar o coro contra
Simonal. Ele de fato fora muito vaiado no Teatro Opinião em novembro de
1971. A partir desse dia foi vaiado muitas outras vezes até a morte em 25 de
junho de 2000, alcoólatra, sozinho. Se a vaia foi o início do fim, a reportagem
do Jornal do Brasil, também citada pelo Tamanduá, foi o auge de uma carrei-
ra sempre ascendente. Em 1970, o Jornal do Brasil fez uma longa reporta-
gem sobre o cantor que arrastava multidões aos shows. Carismático, cheio
de swing, bem-humorado, fanfarrão, pilantra: Simonal era querido por grande
parte do público, embora também tivesse seus inimigos. Diferentemente de
todas as outras reportagens já feitas sobre um músico, a do Jornal do Brasil
era gigantesca e teve que ser dividida entre as várias edições daquela semana.
Entre 24 de fevereiro e 2 de março, matérias sobre o “maior showman do
Brasil” estampavam as primeiras páginas do Caderno B. Com textos de Sérgio
Noronha e entrevistas de Alfredo Macedo Miranda, o título da primeira re-
portagem era preciso: “Wilson Simonal: o ‘cara’ que todo mundo queria ser.”3
De forma bastante detalhada, os jornalistas do Jornal do Brasil esmiuça-
ram a vida daquele que era o cantor de maior evidência de sua época, talvez

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

atrás apenas do inconteste Roberto Carlos. Mas o líder da Jovem Guarda


parecia viver um certo período de maré mansa depois que se afastou do
rock, estilo que o havia consagrado e do qual se tornara o principal
divulgador, e iniciou a busca por novos ares estéticos, aproximando-se da
música romântica. Simonal, ao contrário, parecia estar no auge da carreira.
Desde 1961, quando gravou o primeiro disco de 78 RPM, sua popularida-
de só fez aumentar, gradualmente, porém sempre de forma crescente.
Entre 1969-1970, Simonal já tinha uma imagem consolidada, para o bem
e para o mal. Ele não era ainda o “dedo-duro” do regime, pecha que só “co-
lou” de vez a partir de 1971, mas já era o cantor “marrento”, o “crioulo
metido”, “banqueiro”. Esnobe, sempre tinha algo a dizer, alguma coisa a
sugerir, a aconselhar. Achava que faltava à MPB uma comunicação mais dire-
ta com o público. Pensava que os artistas universitários estavam distanciando
a música do povo por meio de metáforas híbridas, de arranjos difíceis e ino-
vações harmônicas e melódicas complicadas. A matéria do Jornal do Brasil
deu conta dessa faceta. Das cinco reportagens, duas reproduzem no título a
ênfase que o cantor dava à sua obra: “Simonal: o charme com a comunicação”
e “Simonal: o importante é se fazer entender”. Nessa última reportagem, em
plena época de “milagre econômico”, Simonal criticara até o Hino Nacional.
Criticou também a nova geração da MPB, egressa dos bancos universitários,
pela falta de respaldo popular da arte no país. Mesmo sem formação musical
tradicional, o cantor não perdia a chance de se pronunciar:

O ensino musical no Brasil é falho porque as músicas são chatas. Veja o Hino
Nacional, por exemplo. Ninguém sabe cantá-lo porque ninguém jamais ex-
plicou o que quer dizer aquela letra em português arcaico. Os próprios
músicos, em sua maioria, não sabem tocar além do corretamente. A maioria
entende muito pouco de harmonia. Eu até faço regência da orquestra, por-
que conheço os arranjos e a moçada confia em mim.4

Politicamente, o cantor também dava seus pitacos e discordava de seus


pares da MPB, que gradualmente radicalizavam o discurso contra o regi-
me. Embora progressista esteticamente, Simonal mostrava-se conservador
em política. Em 1969, em pleno AI-5, o cantor não escondia suas posições:

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Simonal: [Passeata] é um negócio da maior boboquice. Não resolve nada.


Depois que o cara casa, tem família, vai vendo que não tem dessas coisas.
Quando é jovem, acha que passeata, baderna, anarquia resolvem.
Repórter: E a passeata dos intelectuais?
Simonal: Tudo cascata. O cara estava lá porque a [revista] Manchete ia foto-
grafar. O negócio dele era mesmo tomar uns choppinhos. Tenho uma irmã
(sic)5 que dizia que achava passeata um programa diferente. Ia lá, fazia co-
midinha pros rapazes. Estudante tem que estudar.6

No pós-AI-5, quando a MPB firmava-se nas “trincheiras” da luta contra


a ditadura, Simonal se afastava dessa perspectiva. Em entrevista ao jornal
O Pasquim defendeu seu ponto de vista:

Simonal: Antigamente, quando eu andava empolgado com a esquerda festi-


va, não me envergonho de dizer que já estive meio nessa, sabe como é: a
gente vai estudando, fica com banca de inteligente e pensando que é o tal,
achando que muita coisa estava errada, que tinha que mudar muita coisa...
Tarso de Castro: Hoje você não acha mais que tenha muita coisa errada?
Simonal: Eu acho que ainda tem, só que eu não entendo o porquê que as
coisas estão erradas e quando eu vou discutir não agrido mais as pessoas, eu
procuro propor o meu ponto de vista...7

Ele não estava desamparado em suas opiniões. Carlos Imperial, o gran-


de amigo compositor e produtor, manifestou posição semelhante: “Lá pe-
los meus 17 anos, tive essa queda natural que todo jovem tem pela esquerda.
Participava de reuniões da UNE, fazia comícios, o diabo. Mas foi só uma
fase e passou, pois logo me dei conta de que era ilusão.”8 Era por essas —
e outras — opiniões e sua falta de inibição em proferi-las que Simonal cons-
truiu para si uma imagem de arrogante, de defensor da ditadura, do “preto
iludido” com os benefícios do sistema.
Mas, talvez por isso mesmo, o “povo” gostava dele. Na reportagem do
Jornal do Brasil o “showman” explicou como percebeu que poderia traba-
lhar com a imagem do “cara que todo mundo queria ser”:

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

Eu sou tímido. Sempre tive medo de enfrentar o público, mas precisava


enfrentá-lo para ganhar dinheiro. Um dia fui assistir um filme do Sean
Conery, um desses 007 contra uma chantagem qualquer, na última sessão
de sábado. O cinema estava cheio de gente, não tinha lugar nem no banhei-
ro. Eu tive que ficar driblando uma coluna até o filme acabar. Eu estava certo
de que o cinema estava cheio de mulheres para ver o 007. Mas quando a luz
acendeu eu vi que tinha uma porção de homens. Aí eu me perguntei: como
é que pode? Comecei a descobrir que o 007 faz aquele gênero que todo
homem gostaria de fazer. Ele não é bonito. Faz o tipo machão, mas isso não
é difícil de ser. Conquista todo mundo, bate a torto e a direito. É polícia e
ainda transgride a lei. É um irreverente, um irresponsável. Foi lá na Rússia
e atacou a embaixatriz. Tem reunião e ele chega atrasado, os outros de ter-
no e ele chega de camisa cor-de-rosa com um ar cínico. Todo mundo se pro-
jeta nele. Foi aí que eu senti que dava pé: uma certa irreverência, um certo
cinismo. Ao mesmo tempo uma grande simpatia para todos que estão na
sua. E você acaba sendo aquele cara que todo mundo queria ser.9

Violento, mas capaz de seduzir a todos. Policial e transgressor da lei.


Irreverente, debochado, cínico. Simpático, atraente. A definição de Simonal
mescla ingredientes autoritários e individualistas com a sedução que esse
tipo de poder desperta nas pessoas.
Menos de dois anos antes da vaia no Teatro Opinião, o “povo” o aplau-
dira. Se em 1970 sua carreira era só aplausos, o que aconteceu em 1971
que o marcou tão profundamente, transformando-o em bode expiatório
favorito de toda uma geração?
A imagem de “marrento”, gozador e fanfarrão nem sempre esteve asso-
ciada ao cantor. Quando pequeno, Simonal era uma criança introvertida. Che-
gou a sofrer maus-tratos de uma freira no colégio interno sem que sua mãe
desconfiasse, pois o filho nada falara. Maria Silva de Castro chamava-o de
“pai João” por causa do estilo “caladão” do primogênito. Seu irmão Roberto
sempre fora mais falante, cheio de amigos. Embora mais novo do que Wilson,
Roberto começou a sair de casa mais cedo, encontrava colegas, namorava.
Ainda criança, já tocava corneta e logo passou para o sax, dado por um pa-
trão de Maria. Abandonados pelo pai, os três viviam com os parcos recursos
conseguidos por dona Maria em casas de família da Zona Sul carioca.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

A vida de Wilson só começou a mudar quando entrou para o Exército


em 1956, grande alegria para a mãe, que tinha esperanças de que o filho
conseguisse alimentação, estudo e exercício físico de forma regular. Mas
na corporação ele ganhou muito mais do que isso: foi servindo no 8º Grupo
de Artilharia Mecanizada, no Leblon, que Wilson se tornou Simonal. Co-
meçou a tocar corneta na banda e aprender alguns acordes de violão com
os colegas. Amadureceu, fez amigos, ganhou soldo, praticou exercícios, virou
homem. A criança introvertida tornou-se o palhaço dos recrutas, popular
entre os parceiros e admirado até pelos “generais”. No entanto, houve um
desses superiores que o forçou a pedir baixa em 1958. Apesar disso, nem
tudo estava perdido. Depois do Exército , ele sabia as armas que tinha para
chegar aos “outros”.

O Exército mudou muito minha personalidade. Quando dei baixa não era
tão babaquara quanto antes. Eu tinha uma porção de complexos porque
era pobre, feio, preto. Embora eu tenha saído por causa de um oficial racis-
ta, foi lá que eu percebi que podia me comunicar com os outros.10

Embora sem sustento regular, Simonal continuou vivendo pelo mundo


da Zona Sul, especialmente Copacabana. Aproveitando-se dos contatos
estabelecidos na época do Exército, começou a cantar com bandas de rock,
calypso, twist, chá-chá-chá, e o que mais viesse pela frente. Sua face “pi-
lantra” começou a emergir em meio às necessidades por que passava. Di-
versas vezes foi forçado a dormir nas areias da praia à espera do amanhecer,
quando havia condução para Areia Branca, bairro de Nova Iguaçu, na pe-
riferia do Rio de Janeiro, onde morou no período de vacas magras. Carlos
Imperial, produtor, disc-jóquei e compositor de grande fama nos anos 1960,
o conheceu logo após a saída do Exército. Desde então começou a divulgá-
lo como “o maior cantor do Brasil”.
No final dos anos 1950, Simonal apareceu em programas de rádio e
TV capitaneados pelo inovador Imperial, que, no afã de divulgar o rock
no Brasil, juntou os então jovens Tim Maia, Roberto Carlos e Wilson
Simonal no programa Clube do Rock, transmitido para os cariocas às ter-
ças-feiras, às 12h45, na TV Tupi. Quando o programa acabou, em 1959,

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

Simonal voltou à sua vida de bicos e crooner. Disposto a qualquer coisa


para viver de música, não faltaram “causos” no início da carreira, como
lembra Carlos Imperial:

Certa noite, o baterista de um grupo na boate Mittle não pôde ir trabalhar.


Polivalente, Simonal pegou as baquetas, dizendo-se integrante da banda
Renato e seus Blue Caps, indicado por Imperial. Após o show, o então dono
da boate foi reclamar: “Poxa Imperial, aquele baterista do tal de Blue Caps
é o pior do mundo.” O baterista original do grupo era o Claudinho, um dos
bons da praça, eu sabia. Foi quando o dono da boate, enfezado, disse: “Aquele
crioulo é muito metido a besta. Chegou aqui para substituir o baterista, to-
cou mal e ainda comeu dois pratos de comida.” Logo percebi: “crioulo”,
“botando banca” e comendo pelo almoço e jantar só podia ser um.11

Em meio às boates de Copacabana, Simonal logo percebeu que não po-


deria ficar de fora da Bossa Nova, que gradualmente se impunha como
padrão estético das classes abastadas. Trabalhou como imitador de João
Gilberto na boate Drink e no famoso Beco das Garrafas, onde havia uma
série de boates famosas, conhecidas como o “berço” da Bossa Nova. Mas
ele não se limitou à bossa. Como bom crooner, arranjou também um em-
prego fixo de cantor de rock na Rádio Nacional. Descoberto pela dupla
Luiz Carlos Miéle e Ronaldo Bôscoli, começou a fazer shows em teatros. A
gravadora Odeon, que em 1961 o lançara como cantor de calypso e chá-
chá-chá, resolveu transformá-lo em um novo intérprete de Bossa Nova (mais
um!) e lançou o LP “Wilson Simonal tem algo mais” (1963), logo seguido
por “A nova dimensão do samba” (1964).
Apesar de não serem inovadores, ambos os discos foram bem recebidos e
atingiram um sucesso relativo entre os entusiastas de classe média que tanto
amavam a influência jazzística na música brasileira. A estratégia de usar com-
positores já reconhecidos foi mantida, e Simonal interpretou canções de Carlos
Lyra e Ronaldo Bôscoli, Tom Jobim, Newton Mendonça, Roberto Menescal,
Johnny Alf, Vinicius de Moraes, Baden Powell e Moacir Santos. O repertório
não ia além das clássicas composições da Bossa: “Lobo bobo”, “Nanã”, “Sam-
ba do avião”, “Ela é carioca”, “Garota de Ipanema”, “Balanço Zona Sul” etc.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

O relativo sucesso do cantor de voz aveludada despertou o interesse das


redes de televisão. Apesar de ter durado menos de um ano, entre 1964 e
1965, conduzindo o programa Spotlight, na TV Tupi, o cantor desenvol-
veu ainda mais sua comunicação com o grande público. Por mais dois dis-
cos, “Wilson Simonal”, de março de 1965, e “S’imbora”, de novembro do
mesmo ano, ele se contentou em ser um ótimo intérprete de Bossa Nova.
Seus discos lhe trouxeram respeito no meio musical. Ele se agregava àquela
nova juventude tributária da “nova batida” de João Gilberto e das compo-
sições de Tom Jobim. A MPB, que começava a ser gestada em 1965, via-se
como herdeira da Bossa Nova, de suas inovações líricas, harmônicas e rít-
micas.12 Mas Simonal não se contentou em ser mais um filho da Bossa. Pre-
parava-se para um voo mais radical: a Pilantragem.
O marco inicial da mudança na carreira de Wilson Simonal foi a grava-
ção de “Mamãe passou açúcar em mim” (Carlos Imperial/Eduardo Araújo
— esse último não creditado), em maio de 1966. Fora do seu programa
televisivo um tanto elitista, Simonal se viu livre para novas aventuras. En-
trou em contato com Carlos Imperial, antigo amigo e incentivador dos pri-
meiros anos, que vinha se destacando como um dos homens dos bastidores
da Jovem Guarda.13 Aproveitando a boa fase de Imperial, Simonal gravou
o compacto com a música “Mamãe passou açúcar em mim”, e o sucesso foi
imediato. Não era mais um rock iê-iê-iê. Com arranjos de Erlon Chaves, a
música era sincopada, quase dançante, fundindo vertentes musicais diver-
sas. Para além do balanço, a canção era uma ruptura com tudo que Simonal
vinha cantando até então. Bastante simples, com referências a canções já
conhecidas (especialmente no começo) e palmas marcando o ritmo, a mú-
sica tinha uma letra machista composta por Carlos Imperial. O lirismo da
Bossa Nova dava lugar ao molejo debochado e controverso:

Mamãe passou açúcar em mim


(Carlos Imperial/Eduardo Araújo)

Eu sei que tenho muitas garotas


Todas gamadinhas por mim
E todo dia é uma agonia

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

Não posso mais andar na rua


É o fim
Eu era neném, não tinha talco
Mamãe passou açúcar em mim (...)

O estrondoso sucesso da canção e a versatilidade do intérprete, já de-


monstrada no Spotlight da Tupi, levou a TV Record a contratá-lo. Em 25
de junho de 1966, estreou o Show em Si...monal, que contava com Luiz
Carlos Miéle, Ronaldo Bôscoli, Chico Anysio e Jô Soares na equipe de cria-
ção. Curiosamente, o programa estreou no mesmo dia da morte do cantor
em 2000, 34 anos mais tarde. Simonal conseguia unir no programa, exibi-
do às quartas-feiras à noite, no Rio, e aos domingos em São Paulo, tanto os
ídolos da Jovem Guarda quanto os artistas da recém-nascida MPB. O pro-
grama era um dos poucos abertos às duas vertentes, cujos integrantes cada
vez mais se viam como inimigos.
Três meses depois da estreia, em setembro de 1966, ele gravou “Ca-
rango”, outra composição de Carlos Imperial, dessa vez em parceria com
Nonato Buzar.14 Seguindo o mesmo estilo, baseada nos metais, a canção
sincopada “tirava sarro” com carro, mulheres e vida boa. Foi uma das pri-
meiras gravações de Simonal ao lado do Som Três, trio formado por Sabá
no baixo, Toninho na bateria (ambos egressos do Jongo Trio) e um jovem
pianista, César Camargo Mariano, grande responsável pelo swing inova-
dor e pelas variações harmônicas do novo Simonal. Os novos músicos fo-
ram acompanhados por um trio de metais (trombone, trompete e sax) que
dava um colorido especial à música, distanciando-se cada vez mais do mar-
co inicial da Bossa Nova.
O programa e os shows advindos do enorme sucesso serviram para lapi-
dar o novo estilo do intérprete. E, de repente, todo mundo começou a falar
em “samba jovem”, termo que também já havia sido dado às canções de
Jorge Ben. Mas Simonal ia além. Diferentemente da escola bossa-novista,
acostumada a plateias pequenas, um estilo cool de cantar, a nova proposta
buscava o contato com as massas, as grandes plateias. A música com swing
foi o meio que encontrou para tocar as pessoas, vê-las corresponder à sua
apresentação. E, para motivá-las ainda mais, Simonal tornou-se, entre

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

1966/67, um showman, capaz de conduzir um programa ou show como


ninguém. O que estava em jogo não eram mais as inovações harmônico-
melódicas complicadas da Bossa Nova. A nova música não colocava em
questão a politização como estética, que gradualmente se impunha como
discurso da MPB, especialmente após 1965. Não. O som buscava um novo
olhar para a música popular. Diferentemente da Jovem Guarda, que surgiu
importando versões do exterior, Simonal e Imperial propunham um cami-
nho diverso. Para eles a influência estrangeira não poderia ser negada. Seu
som buscava uma fusão do som que vinha “de fora” com as tradições mu-
sicais já existentes no país, do samba à bossa. Surgia um novo estilo, dife-
rente da Jovem Guarda e da MPB. Um novo rótulo apareceu para tentar
dar conta dessa nova proposta estética: Pilantragem.
Mas o que significava ser pilantra? O pilantra era um sujeito esperto,
assim como o malandro do morro, mas sintonizado nas novidades pós-
Beatles, na televisão e na moda colorida. Era um cara que buscava se ex-
pressar conectando-se com a nova realidade pop dos anos 1960. Uma
proposta que visava a integrar a juventude, agregá-la ao novo mundo, nun-
ca negá-lo. E esse mundo tornava-se cada vez mais visual, mais televisivo,
virtual. No plano musical, a Pilantragem buscava um jeito despreocupado
de fazer canções, no qual a espontaneidade seria a tônica do processo. Para
além de um grande aprimoramento técnico, lírico ou estilístico, a Pilan-
tragem valorizava a fusão das tradições, a incorporação de novidades, o
caldeirão de realidades.
Musicalmente, a Pilantragem nasceu influenciada pelo boogaloo, o jazz
latinizado produzido para pistas de dança, metais lounge do Tijuana Brass,
o clima latino de Chris Montez e Sergio Mendes & Brazil’66. Segundo
Carlos Imperial, o grande articulador do projeto:

O negócio aconteceu assim: Simonal me pediu para inventar uma nova jo-
gada. Sugeri então transformar o samba em compasso quaternário, pois as-
sim o cantor ficaria mais à vontade para se mostrar. Bolamos o estilo e eu
compus então a primeira música da Pilantragem: “Mamãe passou açúcar em
mim.” (...) bolamos que, como o iê-iê-iê estava na onda, o negócio tinha
que ser com guitarras. Criamos então o samba-jovem e nós definíamos: ba-

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

tida de samba e molho de iê-iê-iê. Aí entrou Cesar Camargo Mariano na


jogada com o seu Som 3 e começou a bolar novos arranjos. Nonato Buzar,
amigo antigo e compositor de música tradicional, juntou-se a mim para fa-
zermos músicas juntos.15

Mais do que delimitar um pai fundador, um marco fundamental, o que


se enfatizava na Pilantragem, que defendo aqui como um projeto estético,
é o caráter livre, as múltiplas possibilidades, as diferentes influências. Tra-
tava-se de modernizar a música sem ignorar o passado ou rejeitar o som
estrangeiro. Era estar aberto a novas realidades, sem estar compromissado,
necessariamente, com estruturas inteligíveis, discursos pré-fabricados.
Em novembro de 1966, Simonal lançou o LP Vou deixar cair..., que tra-
zia sucessos já lançados em compactos e algumas novas canções como
“Carango”, “Meu limão meu limoeiro”, “Mamãe passou açúcar em mim”,
“Samba do Mug” e “A formiga e o elefante”. A partir desse disco Simonal
distanciava-se da Bossa Nova, embora nunca tenha parado absolutamente
de cantar o gênero criado por João Gilberto e Tom Jobim. Fazia parte da
Pilantragem recriar antigos sucessos com uma nova roupagem, mais mo-
derna, sincopada.
Não se pode falar da nova música sem mencionar os principais compo-
nentes da proposta estética: a ironia, o escárnio e o deboche. Faziam parte
da Pilantragem o autoexibicionismo, o contar vantagem, a apologia de car-
ros e mulheres. Não à toa, os subtítulos dos LPs de Wilson Simonal eram
tão controversos. Vide a série Alegria alegria de quatro volumes, três dos
quais com subtítulos bem pilantras — vol. 2: Quem não tem swing morre
com a boca cheia de formiga (1968); vol. 3: Cada um tem o disco que me-
rece (1969); vol. 4: Homenagem à graça, à beleza, ao charme e ao veneno
da mulher brasileira (1969).
Indo além da Jovem Guarda, a Pilantragem debochava da música uni-
versitária.16 O negócio era “botar banca”, debochar, ironizar os politizados,
os “intelectualoides”. Devido a essa atitude, Simonal e, especialmente, Carlos
Imperial ficaram tachados como “metidos”. Imperial recorda:

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Tudo começou quando eu trabalhava na TV Record. Todo artista, ao entrar


em cena, era recebido com uma salva de palmas. Só havia mocinho na tele-
visão. Ora, não pode haver mocinho sem bandido. Então me deu aquele
estalo: o bacana devia tentar ser o outro lado, o do vilão. Empenhado nisso,
combinei com o câmera para me pegar sempre com o dedo no nariz, coçan-
do a barriga, cuspindo no chão etc. Minha meta era agredir o público. En-
trevistado por Hebe [Camargo, em 1967], comecei a declarar que o auditório
era ruim, sem gosto, pintei o sete. Como reação normal, que eu esperava,
vieram as vaias. Feliz da vida, com toda a potência da minha voz berrei:
auditório cafona!17

Como afirma Imperial, a “agressão” ao público deve ser relativizada.


Todas as falas dos pilantras eram também um jogo de marketing, muito bem
pensado e articulado. Nas revistas eles apareciam ao lado dos brotos e carrões
que cantavam nas canções. Na TV, faziam propaganda de um estilo escra-
chado de vida. A diversão era superdimensionar o sucesso, ironizar o meio
artístico, sempre sem qualquer compromisso com a política ou a “inteli-
gência” e bastante próximo do mercado. Simonal nunca escondeu essa face
da Pilantragem: “Não gravo disco para receber elogio, eu gravo disco para
vender. Uso a minha arte no sentido comercial. O dia em que eu ficar rico,
muito rico, aí sim eu vou me dar o luxo de fazer disco artístico, mas por
enquanto ainda não.”18
Essa relação mercadológica lastreava uma nova atitude em relação à
música popular. O que estava em jogo era a comunicação com o público,
algo muito caro a Simonal. Com o aval da fama, não se furtava a lançar
prognósticos sobre a música popular:

Eu acredito que um dia a Pilantragem vai passar, mas tem que aparecer uma
coisa melhor em termos de comunicação popular. [...] O meu problema, acho
que o grande problema da música brasileira, foi o problema da comunica-
ção. A música só se comunica com o povo no carnaval.19

Cada vez mais confiante no seu projeto estético, Simonal partia para o
ataque quando o assunto era a “elitização” da música popular brasileira,

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

batendo de frente com artistas de sua geração. Com razão, via nos “festi-
vais da canção” uma manifestação elitista, distante do povo:

Olha, “Disparada” pode ter sido um grande sucesso, mas até agora o gran-
de público não sabe de que se trata. Ouve e não entende. (...) Acho também
que deve haver dois festivais. Um da canção popular e outro da música po-
pular. Para o festival da canção popular, o júri devia ter Lyrio Panicali,
Vinicius de Moraes e Ronaldo Bôscoli. Para o festival da música popular:
Denis Brean, Abelardo Chacrinha Barbosa e Milton Miranda, da Odeon.20

Ao mesmo tempo que defendia a modernização musical, Simonal e os


pilantras se posicionavam de maneira radicalmente contra o que chama-
vam de “inteligência”, ou seja, os universitários e suas canções por demais
intelectualizadas, distantes do povo. Segundo Simonal:

O grande perigo das artes no Brasil são as pessoas comprometidas com a


inteligência. Umas pessoas preocupadas em fingir que são intelectuais. Elas
tumultuam a verdade. [...]
Não gravei “Juliana” (Antônio Adolfo/Tibério Gaspar) porque não en-
tendi direito o que o Tibério Gaspar [o letrista] quis dizer. Uma letra muito
subjetiva. “Botão de rosa, perfumosa e linda”... Tá vendo? Perfumosa. Esse
negócio de neologismo já encheu. Num Guimarães Rosa, escritor cre-
denciado, a gente respeita. Agora, chegam esses rapazes e ficam fazendo
neologismo — é meio audácia. Tem que ter bagagem para criar algo novo.21

Ele via nos festivais uma manifestação elitista, cujas músicas não como-
viam o povo, a não ser a classe média e os universitários. Julgava-se mais
capaz de atingir o “povo”:

[...] o que aconteceu é que eu criei fama de antipático e até hoje tem gente
que diz que sou “banqueiro” só porque não faço o tipo marginal. Por quê?
Porque a imagem do negro é aquele tipo marginal. Preto tem que ficar to-
cando pandeiro, caixa de fósforo, ficar fazendo palhaçada no palco. Como
eu faço um gênero que o pessoal acha que é gênero de branco, então dizem

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que fiquei pretensioso, sou metido a importante. Isso é uma consequência


do preconceito racial e a gente tem que denunciar. Mas são os brancos tam-
bém que acham que eu sou o maior showman, essas coisas todas.22

Para além do caráter comercial de sua obra, Simonal era um tipo pro-
gressista esteticamente. Para ele, a “boa” música não deveria ser “resgata-
da”, como queriam os puristas do samba e das músicas folclóricas e nativistas.
Simonal repudiava a imagem do negro sambista “da caixinha de fósforo”,
que cultivava raízes no intuito de mascarar as próprias limitações:

Simonal: Eu até faço uma divisão um pouco difícil e digo para o povo can-
tar. Mas é que o público se sente premiado em cantar a música que eu can-
to, pois sabe que eu sou um bom cantor. Sabe que eu tenho raízes jazzísticas
que americanizam a música, mas eu nunca neguei isso.
Repórter: Você não acha que isso [americanizar a música] é vigarice?
Simonal: Vigarice é ficar cantando música tradicional com caixa de fósforo
em mesa de bar.23

Debochado, controverso, polêmico: Simonal era tudo isso. E no entan-


to em 1969/1970 era o cara que “todo mundo queria ser”. Em 25 de agos-
to de 1969 aconteceu talvez o episódio mais relembrado de toda a carreira.
Naquele dia houve um show no Maracanãzinho com a presença de vários
artistas famosos na época, dentre eles Gal Costa, Maysa, Os Mutantes, Jor-
ge Ben, Marcos Valle, Milton Nascimento, Peri Ribeiro, Gracinha Leporace
e o conjunto Som três. Patrocinados pela Shell, todos fariam um breve show
preparando o público de mais de 30 mil pessoas para o astro da noite, Ser-
gio Mendes. Simonal seria o último a se apresentar, antes da entrada do
músico brasileiro de maior sucesso internacional na época. Sergio Mendes
construíra no exterior uma sólida carreira de divulgador da Bossa Nova.
Sergio fora trazido ao Brasil pela Shell, que buscava divulgar a marca por
meio da música brasileira.
Tudo corria bem até Simonal entrar no palco. Ao cantar sucessos Simonal
comandou o público com carisma e sedução, fazendo o coro acompanhá-
lo, imitá-lo, dançar com ele. Um de seus grandes sucessos levantou ainda

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

mais o público: “Meu limão meu limoeiro”, versão de Carlos Imperial para
uma tradicional canção americana. Animado, dividiu o público em vozes e
comandou a festa: “Agora os 10 mil da direita! Agora os 10 mil do meio!
Agora os 10 mil da esquerda!” O episódio marcou tanto que permaneceu
na memória de grande parte daquela geração, mesmo daqueles que não
estiveram lá no Maracanãzinho, tamanha foi a repercussão na imprensa. O
Pasquim chegou a dizer que Simonal “jantou” Sergio Mendes.24 Ao deixar
o palco, Simonal chorou de emoção ao ouvir o povo gritar seu nome. Sergio
Mendes não queria entrar, visto que a plateia estava seduzida pelo maior
“showman” do Brasil e não parava de gritar: “Simonal! Simonal!” Ele
retornou e continuou seu show particular. E ainda teve que cantar alguns
números com Sergio Mendes até o público se contentar somente com a atra-
ção principal. Depois desse dia, a Shell, patrocinadora do show, contratou
o cantor como garoto-propaganda da marca. Simonal aparecia em diversos
jornais, revistas e até na televisão proferindo os slogans da multinacional.
No mesmo mês de agosto lançou um dos seus maiores sucessos: “País
tropical”, de Jorge Ben. Quando recebeu a música, Simonal resolveu fazer
algumas modificações, transformando-a em dançante, já que a versão ori-
ginal era um sambão. Foi assim, sem sucesso, que Maria Bethânia pela pri-
meira vez cantou a canção na boate Sucata em 1969. Outra modificação
introduzida por Simonal foi cantar só as primeiras sílabas das palavras na
segunda parte da música: “Mó... num pa tro pi/Abençoá por Dê/E boni por
naturê...” Na época, Simonal aproveitou para abraçar ainda mais a campa-
nha da Shell:

Mudei melodia, harmonia e acrescentei aquela parte que diz “patropi” e “esta
é a razão do algo mais’’. Na época eu tinha um contrato com a Shell e apro-
veitei para fazer merchandising. Hoje o Jorge canta igual a mim. Se eu gra-
vasse Jorge Ben hoje, eu estaria fazendo cover de mim mesmo.25

O ano seguinte, 1970, concretizou a imagem do cantor bem-sucedido,


mas intimamente ligado ao poder. Entre janeiro e fevereiro, ao lado de Jor-
ge Ben, representou o Brasil no Festival Internacional de Cannes, na Riviera
Francesa.26 Como a Shell também era a patrocinadora da Seleção Brasileira

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

de Futebol, Simonal foi escalado para campanhas publicitárias com os cra-


ques da época. No meio do ano seguiu para o México com a seleção de
Pelé, Gerson, Rivelino, Tostão e companhia. Fez show em várias cidades,
condecoraram-no “cidadão de Vera Cruz”, serviu de embaixador da música
brasileira, cantou as alegrias do país tropical da ditadura. Era o auge.
Empolgado com as comemorações oficiais pela conquista do tricam-
peonato, gravou duas canções que marcaram seu posicionamento pró-regi-
me. A primeira, “Brasil, eu fico”, composição de Jorge Ben, era agressiva:

(...)
Este é o meu Brasil
Cheio de riquezas mil
Este é o meu Brasil
Futuro e progresso do ano dois mil
Quem não gostar e for do contra
Que vá pra...

Lançada no mesmo compacto, em dezembro de 1970, a canção “Que


cada um cumpra com o seu dever” é uma das raras incursões de Simonal
no mundo da composição:

Seja no esporte, medicina, educação


Cada um cumpra com o seu dever
Seja no trabalho, no governo, na canção
Cada um cumpra com o seu dever
Seja sua tia, seu amigo, seu irmão
Cada um cumpra com o seu dever
Seja brigadeiro, cabo velho, capitão
Cada um cumpra com o seu dever
Olha o mundo, olha o tempo
Olha a chuva
E se você entra na chuva você tem que se molhar
E se abraçar com o seu dever
(...)
Pé de chinelo, classe média, figurão
Cada um cumpra com o seu dever

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

Simonal logo sofreu com as patrulhas ideológicas quando lançou esse


compacto duplamente ofensivo. E, como “quem entra na chuva tem que se
molhar”, deu explicações bem ao seu estilo:

Aquelas músicas que eu gravei — “Brasil, eu fico” e “Cada um cumpra com


o seu dever” — não são músicas comerciais, são nativistas. Eu sou brasilei-
ro, não tenho vergonha de ser, e fico na maior bronca quando vejo um cara
dizendo que pega mal dizer que é brasileiro aí fora. Essas músicas foram
para denunciar a falta de crédito do pessoal no Brasil. O que eu digo, quan-
do viajo pro exterior é: “Eu, modéstia à parte, sou brasileiro”. (...) O Brasil
durante muito tempo foi desgovernado, a administração foi má, todo o es-
quema era devagar, não era funcional. Se os militares estão aí e você não
gosta deste regime de exceção, o que você deve fazer? Trabalhar para este
regime mudar no futuro: não ficar tumultuando com anarquia, não ficar de
gozação, não ficar desacreditando antecipadamente. Para mim não importa
quem é que está governando. Se todo brasileiro meter na cabeça que tem
que fazer o melhor, o Brasil vai dar um banho.27

De fato, ele parecia condensar na sua atitude valores já arraigados na


sociedade brasileira: a festa, a fanfarronice, a picaretagem, a irreverência.
Esbanjador, expansivo, debochado, vencedor: ele representava mais do que
ninguém o brasileiro engajado no “milagre econômico”. Enquanto o
showman apostava nessa atitude, a MPB caminhava cada vez mais para
o caldeirão político da segunda metade dos anos 1960.
Em 1965, quando foi criada a “sigla” MPB, seus integrantes apostavam
nas matrizes estéticas da Bossa Nova unidas ao samba tradicional, de mor-
ro. Os universitários, cada vez mais interessados nas “raízes” da cultura
nacional, subiram as favelas em busca da tradição “perdida” do samba.
Encontraram cartolas, cavaquinhos, pandeiros e os incorporaram ao seu
panteão. Espelharam-se no malandro do morro, no favelado resistente às
remoções. A partir da tradição do samba e da modernidade da Bossa Nova,
a MPB construiu para si a ideia de que era produtora de músicas de “qua-
lidade”, “bom gosto”.28 Essa ideia frequentemente é associada ao argumento
político da resistência ao regime. É difícil para os memorialistas da MPB (e
também para os historiadores, jornalistas e pesquisadores em geral) contar

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

essa história sem se basear nesses dois pilares. Ambos formam a identidade
gradualmente forjada ao longo das décadas de 1960 e 1970.
A ideia de que a MPB afiava seu discurso contra a ditadura, especial-
mente entre os anos 1965-1968, deve ser relativizada. Quase sempre ou-
vida como trilha sonora do período, reflexo do acirramento político,
algumas canções ficaram marcadas nos ouvidos daquela geração: “Carcará”
(1965), “Alegria, alegria” (1967), “Roda viva” e “Pra não dizer que não
falei de flores (Caminhando e cantando)” (1968) são exemplos quase sem-
pre citados. O ano de 1968 é quase sempre visto como o clímax da con-
testação ao regime. No entanto, por meio de pesquisa em arquivos de
vendagem de discos, constatei que grande parte dos compradores passa-
va ao largo do debate “principal” daquele ano: tropicalistas x música de
protesto. Segundo os arquivos do Ibope, 29 Roberto Carlos continuava
como o rei inconteste dos brasileiros. Seu disco do ano (O inimitável) fora
o mais vendido. O intérprete Agnaldo Timóteo teve a segunda maior ven-
dagem de LPs e compactos de 1968. Um dos discos conceituais da música
brasileira, Tropicália ou panis et circensis (1968), nem aparece na lista dos
20 mais vendidos daquele ano. Aliás, 1968 parece ter sido o ano de Roberto
Carlos, Paulo Sérgio e Agnaldo Timóteo, se nos limitarmos ao arquivo de
vendagem de discos.30 Isso, à primeira vista, me pareceu estranho, pois
1968 é tido pela memória da MPB como central no embate entre tropi-
calistas e a música de protesto. Foi o ano de “Pra não dizer que não falei
de flores”, de Geraldo Vandré, e “É proibido proibir”, de Caetano Veloso.
No entanto, essa trilha sonora não dá conta do que grande parte da socie-
dade ouvia na época. Se hoje a MPB é trilha sonora do período, isso se
deve à hegemonia da memória da resistência que vê no campo cultural
uma das trincheiras da luta contra o regime.31
Essa memória, criada no calor dos debates dos anos 1960/1970, expan-
diu-se pela década seguinte. É sobre os artistas da MPB a quase totalidade
das obras acadêmicas e jornalísticas sobre as músicas do período.32 Apesar
de ser bastante importante quantitativamente, qualitativamente essa biblio-
grafia reproduz em grande parte os valores já incorporados em grande par-
te da sociedade, ou seja, a exaltação da MPB como uma “trincheira” na
luta contra os ditadores. Essa é a razão pela qual Simonal sempre foi uma

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

nota de rodapé nas memórias, nos textos jornalísticos, nas dissertações e


teses acadêmicas desde então. Ele simbolizou para a memória coletiva um
“traidor”, pois a simples menção ao seu nome não cabe no discurso da re-
sistência.33 Simonal parece ter “fundido a cuca”, para usar uma expressão
da época, daqueles que gostam de se lembrar do período quase sem crítica.
Já na época, aqueles que perceberam o caminho que Simonal trilhava
criticaram sua trajetória, antes mesmo do boato de “dedo-duro” se consoli-
dar. Vários artistas demarcaram que não gostavam nem um pouco da
Pilantragem. Outros, embora reconhecessem sua bela voz, achavam que o
cantor havia se perdido. Embora a maioria dos artistas reconhecesse seu
talento, criticava as “besteiras” que cantou ao longo da carreira. Juca Chaves,
Chacrinha e Jô Soares o consideravam o melhor cantor do Brasil.34 Vinicius
de Moraes chegou a dizer que daria nota 10 para o cantor que poderia ser
se não tivesse aderido à “bobagem” da Pilantragem.35 Roberto Carlos o con-
siderava um dos três maiores cantores do Brasil, ao lado do “deus” daquela
geração, João Gilberto. Mas o Rei fazia ressalvas: “Simonal é muito bom,
[mas] eu não estou me referindo ao gênero Pilantragem, não, mas ao Simonal
como cantor, cantando outro tipo de música.”36 A opinião preconceituosa
soa estranha na voz de Roberto Carlos, já que ele próprio sofreu persegui-
ção dos puristas da música popular contrários ao iê-iê-iê brasileiro. Nara
Leão também ridicularizava a Pilantragem,37 assim como Norma Benguell:
“Nota 3 para a pilantragem e 5 para Simonal, pois ele é musical paca, mas
fica naquele negócio de meu limão meu limoeiro, não dá.”38
Antes de ser o “dedo-duro”, Simonal já tinha uma imagem de arrogan-
te, “metido” e comercial. Essa construção, já da época, transformava o cantor
num bode expiatório comercial. Embora não tenha sido o único a fazer
propaganda, frequentemente sua trajetória é contada como uma carreira
bem articulada com o mercado, o que não deixa de ser verdade. Mas tam-
bém é certo que a MPB construiu a própria ideia da resistência cultural se
apropriando do mercado. Vale lembrar também que vários artistas fizeram
propaganda de televisão, apareceram em jornais e revistas: Juca Chaves
vendia uísque;39 o conjunto Antonio Adolfo e a Brazuca vendia tecidos
Sudamtex;40 Ziraldo desenhava cartuns para o Banco da Lavoura e para a
Ford;41 as cantoras Cynara e Cybele e o MPB-4 vendiam sapatos da marca

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Alpargatas.42 Até Chico Buarque entrou na onda. Em dezembro de 1968


ele apareceu, com o pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, numa
propaganda do Banco da Indústria e Comércio de São Paulo!43
No entanto, biógrafos, memorialistas, acadêmicos, jornalistas preferem
silenciar sobre essa aproximação com o mercado. Parece que uma das pio-
res acusações que se podem fazer à memória de um artista da MPB é dizer
que teve relações mercadológicas. Não é por outra razão que as biografias
de artistas da MPB procuram calar a respeito dessas questões. Regina Zappa
simplificou a trajetória e a personalidade de Chico Buarque ao transformá-
lo num guerrilheiro antimercado:

[Ele] nunca se preocupou com autopromoção. Seu assessor de imprensa,


Mario Canivello, diz que nem ousa propor estratégia alguma, porque Chico
é o próprio antimarketing. Não faz concessão ao mercado. Faz a música que
quer fazer e que acha de boa qualidade.44

Em seu livro de memórias, o compositor Sérgio Ricardo acusa Roberto


Carlos de ter entrado no “jogo comercial”. Sérgio buscava, obviamente,
ofender Roberto Carlos. Nada mais condizente com o objetivo do livro,
que, segundo o próprio autor, é libertar-se de um pouco de sua “indigna-
ção”.45 Mas, no que diz respeito à raiva contra a relação música-mercado,
Sérgio Ricardo não está sozinho. José Novaes, defensor de uma tese acadê-
mica sobre a melancolia na obra de Nelson Cavaquinho, acha que indústria
cultural e ditadura falam a mesma língua:

Quando a censura e a repressão violenta dos governos da ditadura militar


se unem às pressões e aos cerceamentos impostos pela indústria cultural,
estruturada sobre o poder do dinheiro, há que ter jogo de cintura para se
poder segurar a barra e manter uma posição digna em defesa da cultura
popular, a ser preservada.46

Se na época a imagem de Simonal era a do artista “marrento”, “crioulo


metido” e mercadológico, um episódio em 1971 transformou-o em “dedo-
duro” do regime.47 O que aconteceu?

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

Com problemas em sua empresa, Simonal via o dinheiro ir ralo abaixo.


A Simonal Comunicações fora criada em 1969 para gerenciar a própria
carreira com o dinheiro recebido pelo contrato com a Shell. Simonal tor-
nara-se um dos cantores mais caros do país e resolveu cortar aproveitadores
indiretos de seu sucesso. Evitando os empresários, montou uma empresa
que visava a gerenciar o auge da fama. Em 1970, o cantor Ivan Lins e o
maestro Erlon Chaves também foram empresariados pela companhia. Mas
a empresa não dava o lucro esperado, e Simonal começou a desconfiar dos
empregados. Cabeças começariam a rolar.
O chefe do escritório da Simonal Comunicações, o contador Raphael
Viviani, foi demitido pelo cantor, que o responsabilizara pelos desfalques e
prejuízos na empresa da ordem de 100 mil cruzeiros. Por sua vez, Viviani
acusava Simonal de não pagar o 13o salário e férias, motivo pelo qual mo-
via um processo trabalhista na 17a Vara do Estado da Guanabara.48 Mas a
situação não se resolveria de forma legal.
Na noite de 24 de agosto de 1971, o Opala do cantor, dirigido por seu
motorista, Luiz Ilogti, estacionou em frente ao prédio do contador, na Rua
Barata Ribeiro, 739, em Copacabana. Os policiais Hugo Corrêa Mattos e
Sérgio Andrade Guedes saíram do carro, passaram pela portaria e bateram
na porta do apartamento de Viviani. A mulher, Jacira, atendeu, e um dos
homens apresentou identidade do Dops.49 Viviani foi levado até o escritó-
rio da Simonal Comunicações, na avenida Princesa Isabel, 150/404, tam-
bém em Copacabana. Diante de Simonal e dos policiais, negou os desfalques.
Foi então levado a uma dependência policial, onde os interrogatórios co-
meçaram. Segundo reportagens da época, o contador disse ter sido tortu-
rado com um aparelho parecido com um telefone, com dois fios de pontas
descobertas. O sequestrado foi então obrigado a segurar nas pontas, en-
quanto um policial girava uma manivela, fazendo-o tremer:

[O policial] ordenou que todos saíssem da sala porque eu confessaria o fur-


to em particular. Sob coação, terminei dizendo que trabalhava há dez meses
para Simonal. Depois de fevereiro deste ano comecei a subtrair quantias de
400 a 500 cruzeiros semanalmente. Fui obrigado a escrever a confissão.
Posteriormente, já pela madrugada, o policial chamou Simonal para que eu

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

falasse na sua presença. Como o desmentisse, fui atacado com socos e pon-
tapés. De manhã, finalmente, assinei o depoimento, que começava com um
relato de minha vida pregressa. No final do interrogatório, constava minha
confissão sobre o desfalque do Simonal.50

Sob pressão, Viviani redigiu uma carta de próprio punho na qual con-
fessou ter gastado o dinheiro em “noitadas com bebidas e mulheres”.51 Li-
berado na manhã do dia 26, o contador voltou para casa. Sua mulher ficou
horrorizada com o ocorrido e o acompanhou à 13a DP, em Copacabana,
para registrar o sequestro e a extorsão comandados pelo cantor. A infor-
mação vazou para a imprensa. Viviani expôs uma faceta que o regime pro-
curava esconder: a tortura. Não custa lembrar que a ditadura negava a todo
custo a existência de tais práticas no país. Afinal, como anunciava uma re-
portagem de capa da revista Veja no início do governo Médici, “O presi-
dente não admite torturas”.52 Por isso mesmo, o rebuliço tomou conta dos
meios de comunicação.
O sequestro de Viviani abriu uma ferida. O tema tortura gerou proble-
mas entre as diferentes instituições do regime. Delegacias de polícia civil
cuidavam da repressão a pequenos furtos, roubos, assaltos, sequestros, en-
fim, crimes sem conotação política. Para crimes políticos, como ações ar-
madas contra o governo, roubos de armas e dinheiro público, assaltos a
banco feitos por organizações guerrilheiras, o órgão responsável pela re-
pressão era o Departamento de Ordem Política e Social, o Dops. Institu-
cionalmente, Dops e delegacias civis eram órgãos distintos, que possuíam
missões diferentes.53 Viviani foi à delegacia de Polícia Civil reclamar que
tinha sido sequestrado justamente por achar que o crime cometido era um
delito comum, ou seja, sem conotação política. Não estava configurado,
nem para o próprio Viviani, que uma questão “política” estava em jogo.
O problema aconteceu quando Viviani acusou Simonal e seus amigos. Esses
eram policiais do Dops, que deveriam estar comprometidos com os “crimes
do terrorismo”, ou seja, com a repressão à luta armada. Não cabia ao Dops
resolver problemas de ordem particular, desfalques em empresas, roubos e
sequestros comuns. Por que o Dops se envolveria em um crime comum?

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

Ao ser chamado para depor na 13a DP, Simonal negou que tivesse se-
questrado o contador. Afirmou que vinha sofrendo ameaças e extorsões de
organizações terroristas desde que despedira Viviani. Quando começou a
ser ameaçado, dirigiu-se ao Dops e prestou queixa. Como prova, citou o
pedido de proteção feito aos policiais do Dops apenas alguns dias antes.
De fato, durante a pesquisa encontrei um documento intitulado “Termo de
declarações que presta Wilson Simonal de Castro”, datado de 24 de agosto
de 1971, no qual o cantor relata aos inspetores do Dops, Mario Borges e
Hugo Correa Mattos, que vinha sofrendo ameaças de terroristas que supu-
nha serem oriundas do próprio escritório. O datilógrafo redigiu:

O declarante desde o dia 20 de agosto do corrente vem recebendo no seu


escritório e em sua residência telefonemas anônimos os quais sempre amea-
çam de sequestro a sua pessoa e seus familiares se não fosse feita uma certa
injunção com o possível grupo subversivo (...) Evitou por todos os meios e
modos atender ao telefone bem como manter diálogo com o anônimo; que
o declarante [tendo] permanecido os últimos três dias no Rio, atendeu por
duas vezes o anônimo o qual em todas as duas comunicações telefônicas foi
taxativo quanto as suas ameaças dizendo: Se você não arrumar o dinheiro
que a nossa organização deseja, além do “sequestro” de sua pessoa ou de
uma pessoa da família, nós faremos divulgar elementos em nosso poder
quanto a uma possível fraude em suas declarações de imposto de renda e no
pagamento do INPS.
Que o declarante não vinha dando importância aos telefonemas por
pensar tratar-se de alguma brincadeira, porém o tom ameaçador com que
era feita essa nova ameaça e semelhança de voz do anônimo com a do seu
ex-empregado Raphael Viviani o levaram aqui comparecer para pedir auxí-
lio (...) visto a confiança que deposita nos policiais aqui lotados e aqui coo-
perar com informações que levaram esta seção a desbaratar por diversas vezes
movimentos subversivos no meio artístico (grifo meu).54

Como se vê, o próprio Simonal diz que ajudou a “desbaratar movimen-


tos subversivos no meio artístico”. E achava que sofria represálias por cau-
sa de sua atitude. Um dia antes do sequestro de Viviani, Simonal acusava
alguns de seus ex-funcionários:

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

o declarante acha provável partir tais ameaças de Raphael Viviani ou de


Walberto Camargo Mariano e de Jorge Martins, os dois primeiros afastados
de seu escritório por incapacidade profissional e adulteração de documento
e o terceiro seu ex-motorista particular também afastado e que presta serviços
ao Sr. João Carlos Magaldi, o qual é dono de uma firma de promoções jun-
tamente com o Sr. Ruy Pinheiro Brizolla Filho, também afastado do escritó-
rio do declarante.55

O curioso é que a declaração de Wilson Simonal ao Dops data de 24 de


agosto de 1971, exatamente um dia antes da confissão forçada de Raphael
Viviani na mesma instituição. Ainda, ela foi feita diante dos mesmos policiais
que na noite seguinte forçaram o contador a assumir o desfalque. Não há
como saber se esse “termo de declarações” foi forjado a posteriori de forma
a inocentar o cantor, embora isso não seja improvável. Mais importante do
que a veracidade do documento é que ele tenta isentar o cantor associan-
do-o ao regime:

O declarante, quando da revolução de março de 1964, aqui esteve ofere-


cendo seus préstimos ao inspetor José Pereira de Vasconcellos. Quando apre-
sentava o seu show De Cabral a Simonal [durante o ano de 1969] no Teatro
Toneleros foi ameaçado de serem colocadas bombas naquela casa de espetá-
culos e [que, por isso,] solicitou a proteção do Dops para sua casa de espe-
táculo, o que foi feito e nada se registrando de anormal; (...) o declarante
acha que tais ameaças são feitas visto ele ser o elemento de divulgação do
programa democrata do Governo da República; que o declarante esclarece
que está pronto a colaborar mais uma vez com esta seção no intuito de se-
rem apurados totalmente os fatos aqui apresentados56 (grifo meu).

Como se vê, é nesse “Termo de declarações” que surge o Simonal “dedo-


duro”. Teria sido essa declaração forjada para que o julgamento se desse de
forma favorável ao cantor? Tudo leva a crer que sim. Afinal, os prováveis
falsificadores inventaram até uma desculpa para o motorista e o carro de
Simonal aparecerem na cena do crime:

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

o declarante solicita às autoridades que apurem o fato, que procurem fazê-


lo da melhor forma possível quanto às pessoas aqui citadas, pois trata-se de
mera hipótese, e ao mesmo tempo coloca todos os meios disponíveis à dis-
posição (sic) desta seção, inclusive seu carro e motorista, por saber das difi-
culdades de meios de transporte que vem atravessando o Departamento de
Ordem Política e Social (Dops).57

Quando foram chamados para depor, Simonal e seus amigos policiais


tiveram que explicar por que levaram Viviani para as dependências do Dops.
Para justificar tal ato, eles talvez tenham inventado que o contador era mem-
bro da luta armada. Isso explicaria o motivo pelo qual o Dops se envolveu
na prisão do contador. Tratava-se, assim, de averiguar se Viviani tinha ou
não ligação com organizações de luta armada.
Simonal realmente foi “dedo-duro” ou essa foi a forma encontrada para
aliviar a pressão do momento? Um dos policiais envolvidos no sequestro
do contador defendeu a segunda tese. Em carta secreta, de circulação in-
terna do Dops, o policial Mário Borges (superior direto dos dois policiais
que sequestraram Viviani, chefe da Seção de Buscas Ostensivas — SBO)
tentou defender o cantor, colocando-o como aliado das forças de repres-
são do regime:

A quem desejam atingir? Ao Dops? A Wilson Simonal? Sim, ao Dops na sua


estrutura, por intermédio de elementos infiltrados na imprensa e simpati-
zantes dos movimentos que tanto combatemos; a Wilson Simonal, visto ser
o mesmo no meio artístico homem independente e livre de qualquer
vinculação às esquerdas, havendo ainda a possibilidade de elementos cor-
ruptos que vicejam na nossa imprensa tentarem contra o mesmo as armadi-
lhas da nefasta e jamais esquecida imprensa marrom, devendo tal fato render
grossas “propinas” a título de “cala-boca”, com o fito de cessarem as difa-
mações, os escrachos e as acusações infundadas. Aqui ficam as verdades e,
como sabe V. Sa., jamais foi qualquer funcionário desta seção contratado
por quem quer que seja para servir de revanche ou amedrontar quem quer
que seja (sic). É o que cabia informar.58

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Como Simonal era, aos olhos do Dops, um “homem independente e


livre de qualquer vinculação às esquerdas”, o apoio ao regime serviria a
seu favor diante do juiz. Simonal e seu motorista foram indiciados pelo
delegado Ivã dos Santos Lima. O processo oriundo da acusação de Viviani
baseava-se em “constrangimento ilegal e sequestro”.59 Para poder indiciar
os três policiais envolvidos (os inspetores Hugo Corrêa de Mattos e Sérgio
Andrade Guedes e o chefe de ambos, Mário Borges), o delegado enviou
uma cópia do inquérito ao Dops, a fim de que fosse apurada a culpabili-
dade dos policiais em inquérito administrativo. Além do julgamento in-
terno da corporação, os dois policiais foram julgados em júri civil, com o
cantor e o motorista.
O julgamento foi realizado três anos depois. A sentença final foi lida em
11 de novembro de 1974 pelo juiz João de Deus Lacerda Menna Barreto.
O argumento usado por Simonal e seus amigos, de que o cantor vinha so-
frendo ameaças terroristas, foi útil aos réus. A repressão às esquerdas era
apoiada pelo Judiciário. O próprio juiz, na sentença final, concordou com
a tese de que a luta contra o terrorismo era prioridade do regime:

Na verdade, a ordem de mandar buscar a vítima a fim de inquiri-la sobre


fatos que a tornaram suspeita de atividades subversivas estava revestida de
toda legitimidade.60
Que Wilson Simonal de Castro era colaborador das Forças Armadas e
foi informante do Dops é fato confirmado quer pela sua própria testemu-
nha de defesa, quer pelo terceiro acusado [Mário Borges] (...)
Que recebia telefonemas ameaçadores de pessoas que supunha ligadas
às ações subversivas também é matéria pacífica, pois são inúmeros os depoi-
mentos nesse sentido. Entretanto, nenhum desses fatos pode, de algum modo,
justificar a ação delituosa dos réus Hugo Corrêa de Mattos e Sérgio Andrade
Guedes.61

Essa primeira parte da sentença final dá a entender que se Viviani fosse


de fato um membro da guerrilha “subversiva”, tudo estaria “revestido de
toda legitimidade”. No entanto, de acordo com as investigações, “nada fi-
cou apurado sobre subversão contra a vítima”.62 Se o Judiciário brasileiro

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

legitimava a perseguição à luta armada, o grande problema para os acusados


foi que o prédio do Dops havia sido usado para questões de crime comum
e, mais grave ainda, expondo a face da tortura. Embora tenha interpretado
que Simonal fora colaborador do regime, o juiz não concordou com o uso
das dependências policiais:

No entanto, apenas ad argumentandum, se se pudesse aceitar a versão dos


réus, de que foram diretamente ao prédio da residência da vítima para o
Dops, ainda assim, e até por isso mesmo, o crime resultaria mais configurado.
Naquela repartição oficial é que foi extorquida do ofendido a declara-
ção onde se confessou responsável por desfalque na firma do primeiro de-
nunciado. (...) A só coação de levar o ofendido para o Dops e exigir-lhe
confissão de fato sem relação com a atividade normal do órgão, mas visan-
do exclusivamente ao interesse do acusado Wilson Simonal, já caracteriza-
ria a violência de que fala o caput do Art. 158 do Código Penal.63

Depois de três longos anos de processo, Simonal e os policiais Hugo


Corrêa de Mattos e Sérgio Andrade Guedes foram condenados a cinco anos
e quatro meses de prisão, além de um ano reclusos em colônia agrícola e
multa. O motorista Luiz Ilogti64 e o chefe dos policiais, Mário Borges65, foram
absolvidos. Quando saiu do tribunal, Simonal mostrou-se irritado com a
insistência dos meios de comunicação por uma declaração. Manifestou toda
a decepção contra a imprensa, que cooperava para seu ostracismo: “Não
vem que não tem. Não tem papo, bicho. Vocês são todos uns cascateiros,
bicho. Desculpe, bicho. Eu não vou falar nada. Você não me leve a mal,
morou? Mas vocês são fogo, bicho.”66
Os advogados de Simonal apelaram da sentença e dois anos mais tarde
conseguiram a comutação da pena. A 3a Câmara Criminal do Tribunal de
Justiça do Estado do Rio de Janeiro aceitou os argumentos da defesa e
reduziu a pena a seis meses de detenção com direito a sursis.67 Ou seja,
por causa da sursis, a pena foi suspensa e, na prática, isso foi quase a ab-
solvição do cantor. Mas se legalmente o cantor foi praticamente isentado
da pena por sequestro, a pecha de “dedo-duro” nunca mais saiu do ima-
ginário popular: a carreira afundou de vez.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

O grande problema do consenso que existe em relação a Simonal é que


ele foi usado como bode expiatório da MPB. Se Simonal tivera de fato re-
lações com o regime, ele não foi o único, embora seja assim lembrado pela
memória coletiva. A bibliografia frequentemente silencia sobre as relações
de artistas com a ditadura. Jorge Ben, por exemplo, é o compositor de “País
tropical” (1969) e “Brasil, eu fico” (1971), ambas cantadas por Simonal.
Curiosamente, o mesmo Pasquim que fez a cruzada difamatória contra
Simonal silenciou sobre o compositor. O jornalista Sérgio Cabral, integrante
da “patota” e renomado crítico musical, escreveu em 1971: “Jorge Ben já
chegou àquele ponto em que um novo LP dele a gente compra sem ouvir.
(...) Aliás, a propósito das letras de Jorge Ben, acredito que descobri por-
que ele tem uma cuca saudável: é por que diz tudo que pensa nas letras.”68
Outros não conseguiram escapar da crítica. A cantora Elis Regina foi
perseguida por setores de esquerda e sofreu com as patrulhas ideológicas
assim como Simonal. Vaiada quando subiu ao palco do festival Phono 73,69
ela esperou que a manifestação terminasse para começar a cantar a canção
“Cabaré”, de João Bosco e Aldir Blanc. A vaia devia-se ao repúdio de gran-
de parte do público das esquerdas à participação da cantora nos festejos
dos 150 anos da Independência do Brasil um ano antes, em 1972. Elis Re-
gina aparecera na TV, em pleno governo Médici, convocando a população
para o Encontro Cívico Nacional, ritual programado para 21 de abril, às
18h30: “Nessa festa todos nós vamos cantar juntos a música de maior suces-
so neste país: o nosso Hino. Pense na vibração que vai ser você e 90 mi-
lhões de brasileiros cantando juntos, à mesma hora, em todos os pontos do
país.”70 Na hora programada, Elis regeu um coral de artistas — a maioria
da TV Globo — cantando o Hino. A conivência da TV carioca, defensora
do regime, com o governo irritava vários artistas da MPB, dentre eles Chico
Buarque, que chegou a dizer: “Porque a Globo é prepotente, resolvi me
afastar voluntariamente de seus programas. Chegaram a dizer que não pre-
cisavam de mim. Eu também não preciso dessa máquina desumana, alie-
nante. Então estamos quites.”71 De fato, não é espantoso que as esquerdas
tenham vaiado a cantora.
O compositor Ivan Lins também foi acusado de “alienado” quando can-
tou a canção “O amor é o meu país”, no V Festival Internacional da Canção,

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

em outubro de 1970, do qual Simonal era presidente do júri. Três anos mais
tarde, em 1973, o instrumentista Hermeto Pascoal declarou-se a favor da
censura, desde que “bem aparelhada”.72 O cantor de boleros Waldick Soriano
ecoava grande parcelas da sociedade quando defendeu a existência de gru-
pos de extermínio: “Eu sou a favor do Esquadrão da Morte, acho que não
deveria terminar.”73 Luiz Gonzaga chegou a formalizar sua candidatura pelo
PDS em 1980.74 Como se sabe, o PDS foi o partido criado no fim dos anos
1970 pelos antigos arenistas, que por anos a fio foram a base institucional do
governo militar. Até o revolucionário Glauber Rocha, idealizador do Cine-
ma Novo nos anos 1950-60, bajulou os militares em 1974:

Eu acho que Geisel tem tudo na mão para fazer do Brasil um país forte, jus-
to e livre. Estou certo de que os militares são os legítimos representantes do
povo. Chegou a hora de reconhecer sem mistificações, moralismos bobo-
cas, a evidência. (...) Chega de mistificação. Para surpresa geral, li, entendi
e acho o general Golbery um gênio — o mais alto da raça ao lado do profes-
sor Darcy [Ribeiro].75

Longe de ser exceção, a adesão ao regime não era incomum. Paulo César
de Araújo, no livro Eu não sou cachorro não — Música popular cafona e
ditadura militar, aponta que “depois de Getúlio Vargas, que governou o
Brasil durante 19 anos, o general Emílio Garrastazu Médici foi o presiden-
te da República mais respaldado pela música popular brasileira”.76 Segun-
do o autor, diferentes referências da música popular aderiram de uma forma
ou outra, e em diferentes épocas, ao regime. A lista traz como exemplos os
nomes de Marcos e Paulo Sérgio Valle, Zé Kéti, João Nogueira, Sílvio Cal-
das, Dom & Ravel,77 a dupla sertaneja Léo Canhoto e Robertinho, Leci
Brandão, Miguel Gustavo (tradicional ufanista do regime), Roberto Silva e
o bloco Cacique de Ramos.78
A memória coletiva construiu-se opondo artistas e ditadores. Nesse pro-
cesso, a memória da resistência tornou-se hegemônica, sem lugar para me-
diações. Por exemplo, no mesmo ano em que Chico Buarque disse que a
Rede Globo era “alienante”, a canção “Carolina”, original de 1968, fora
utilizada na trilha sonora da novela O casarão (1976). Não era a primeira

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

vez nem a última que as canções do compositor eram incorporadas ao “pa-


drão Globo de qualidade”.79 Aliás, não custa lembrar que todos os artistas
da MPB, inclusive Chico, eram veiculados por grandes gravadoras, especial-
mente Philips, Odeon e CBS. O discurso da resistência ajudou a vender discos
e a aumentar a acumulação das multinacionais que se beneficiaram do go-
verno ditatorial.

Simonal não foi pego para bode expiatório à toa. Como todo “bode”,
ele de fato teve ligações com o regime. Ele realmente cantou as alegrias do
regime ditatorial. Mas o curioso é que, por isso mesmo, ele era “o cara que
todo mundo queria ser”. E ao se tornar o cara que ninguém queria ser, ele
continuou sendo um símbolo dos desejos da nação. Ao servir de bode e
catalisar todos os ódios para sua pessoa e seus atos, tornou-se um dos alvos
preferenciais da memória da resistência, seja por meio de injúrias e ranco-
res, seja por meio do silêncio. Não por acaso são poucos os que ainda hoje
se lembram dos sucessos do cantor. O sucesso nas décadas de 1960/70 foi
quase esquecido, grande parte dos jovens de hoje não o reconhece em fo-
tos, cartazes ou músicas. A Pilantragem não é reconhecida como um movi-
mento estético dos anos 1960. “País tropical” é muito mais associada a Jorge
Ben do que a Simonal. A memória da MPB foi enquadrada pelo mito da
resistência.80 O repúdio a ele ecoa desejos dos brasileiros de se livrarem de
uma memória incômoda.
Paradoxalmente, existe um lento e bastante tênue processo de “resgate”
de sua obra e memória. Gradualmente vem aumentando o número de pes-
soas que, por diversos motivos, procuraram inocentá-lo. Alguns acham que
Simonal também foi uma vítima dos anos de chumbo. No intuito de reinte-
grar o cantor ao panteão da MPB, muitos transformam-no em vítima.81 O
produtor Nelson Motta percorre esse caminho ao dizer:

Simonal era negro, o primeiro negro brasileiro a chegar lá, no ponto mais
alto do show business, a vender milhões de discos, a cantar para milhões de
pessoas. E isso também alimentava um intenso e corrosivo ressentimento
nos terrenos pantanosos do racismo à brasileira. (...) Estava liquidado.82

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

O comediante Chico Anysio defendeu o cantor no julgamento simbóli-


co que os integrantes da Comissão Nacional de Direitos Humanos da Or-
dem dos Advogados do Brasil (OAB) fizeram em 2000, no qual Simonal foi
considerado “inocente”. Referendando a posição estavam os cantores
Ronnie Von e Jair Rodrigues: “Só podia acusar Wilson Simonal de ter sido
delator do SNI [Serviço Nacional de Informações] quem não o conhecia.
Eu até admito que, por absoluta ignorância política, Simonal aceitasse vir a
ser o diretor-geral do SNI, mas ser um dedo-duro, quem o conhece sabe
que ele jamais aceitaria ser.”83 César Camargo Mariano, arranjador e pia-
nista de Simonal, também vai na mesma linha:

Quando ele falou que era “amigo dos homens” da ditadura, estava longe do
abuso de poder. Achava bacana ser amigo dos homens, muito pouca gente
tinha noção do que estava acontecendo naquele regime. Até onde sei era no
sentido mais inocente possível. Ele foi o bode expiatório.84

Frequentemente, o racismo e a infantilização política de Simonal servem


como argumentos para inocentá-lo. Nada mais em desacordo com sua ima-
gem “marrenta”, debochada, fanfarrona. É curioso, no entanto, que, para
reincorporá-lo à história da MPB, ele tenha que ser inocentado das acusa-
ções. Assim, procura-se reabilitar o cantor adequando-o à memória que se
tem do período, ou seja, de que Simonal, assim como toda a sociedade, foi
vítima do regime e refém dos desmandos de uma época. Ao se infantilizar
Simonal, aproxima-se o cantor de uma memória que vitimiza a sociedade.

O que aconteceu a ponto de transformar o cara “que todo mundo que-


ria ser” no sujeito “que ninguém queria ser”? Em parte, isso se deve aos
memorialistas, biógrafos, jornalistas e historiadores que “reconstruíram” a
história do período. Oriundo dos meios universitários, eles recusaram a
trajetória de Simonal repleta de paradoxos: popular, embora tenha sido
cantor das elites; negro no mundo de brancos; anti-intelectual em plenos
“anos rebeldes”; conservador na política e progressista esteticamente;
pilantra e malandro; cínico e debochado num mundo que se levava cada
vez mais a sério.85

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Transformado em bode expiatório, ele foi apagado da memória coleti-


va. A acusação da “traição” traduz a hegemonia da memória da resistência
tão cultivada pela sociedade quando se trata de se eximir das relações com
a ditadura. Ao demarcá-lo e culpá-lo como “dedo-duro”, faz-se um proces-
so de simplificação daquela complexa realidade, instrumentalizando-se
politicamente uma desgraça pessoal em isenção de grande parte da socie-
dade. O que se pretende aqui é menos o estudo da desgraça de Simonal.
Aqui ela é menos entendida de forma personalizada e condenatória e mais
no sentido de se compreenderem os fatores sociais que possibilitaram o
repúdio aos seus atos.86 Trata-se menos de apontar o dedo para o odiado
traidor e mais de compreender como a sociedade brasileira construiu uma
memória de si mesma, no pós-ditadura, se eximindo das relações que esta-
beleceu com o regime, procurando se apoiar na velha tradição dos bodes
expiatórios, que tudo solucionaria. Dessa forma, os flertes de vários artistas
com o regime foram esquecidos ou silenciados em nome da coesão da me-
mória da resistência. Para os objetivos deste trabalho, importa menos saber
se Simonal foi ou não “dedo-duro”. Ser ou não ser resistente, essa versão
tropical do dilema shakespeariano, é pouco relevante aqui. Mais importante
foi mapear a representatividade da memória “heroica” da resistência.
O caminho que percorri não foi o de fazer a apologia da história heroica
da MPB. Para além de ver o quanto a MPB resistiu ao regime ditatorial,
como frequentemente se faz, busco compreender os significados da prefe-
rência de nossos pesquisadores pelo tema da resistência. E se de fato em
alguns momentos comparei carreiras artísticas e constatei aproximações com
o regime, isso não é feito no sentido de patrulhar ideologicamente os “tro-
peços” de alguns e louvar a “real” resistência de outros. Não. O que ques-
tiono é a própria noção de resistência, utilizada como álibi de uma sociedade
que prefere se ver como vítima do que construtora do regime. Minha in-
tenção ao compará-las não foi no sentido de torná-las iguais. Cantar na
Globo não é a mesma coisa do que ser “dedo-duro”. Defender o Esqua-
drão da Morte não é o mesmo que se candidatar pelo PDS. O que tentei
demonstrar foi que a ditadura não era figura estranha, totalmente exógena
à sociedade e ao meio musical. Pelo contrário, tinha um grande respaldo
dos artistas em geral em diversos momentos.

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

Não digo que a memória da resistência seja uma falácia, pelo contrário.
Ela foi tão verdadeira que gerou toda uma mitologia acerca da ditadura,
superdimensionou o autoritarismo, apagou as mediações, louvou a luta
armada, imbecilizou a censura. O grande problema dessa construção foi que
ela deixou a “realidade” por demais “preto no branco” e não problematizou
paradoxos aparentemente simples como os expostos anteriormente. Qua-
se sempre o silêncio foi uma resposta cômoda. Quando não era suficiente,
foram criados bodes expiatórios que superdimensionam as atuações indi-
viduais e pouco contribuem para a compreensão da sociedade em geral. O
último show de Simonal foi padecer dos dois males.

Notas

1. Este artigo é uma síntese de alguns capítulos da dissertação Quem não tem swing
morre com a boca cheia de formiga: Wilson Simonal e os limites de uma memória
tropical, defendida em março de 2007 na Pós-Graduação de História da Univer-
sidade Federal Fluminense (UFF).
2. Disco Show em Si...monal gravado ao vivo no Teatro Ruth Escobar em 24/7/
1967. Na faixa 3 (5:17) Simonal conversa com o público antes de cantar uma
canção.
3. “Simonal: aquele cara que todo mundo queria ser”. Jornal do Brasil (24/2/1970),
Caderno B, p. 1; “Simonal: o charme com a comunicação”. Jornal do Brasil (25/
2/1970), Caderno B, p. 1; “Simonal: no tempo do rei do rock”. Jornal do Brasil
(26/2/1970), Caderno B, p. 5; “Simonal: uma vocação de pilantra”. Jornal do
Brasil (27/2/1970), Caderno B, p. 1; “Simonal: o importante é se fazer enten-
der”. Jornal do Brasil (28/2/1970), Caderno B, p. 1; “Simonal: eu sou um deles”.
Jornal do Brasil (1-2/3/1970), Caderno B, p. 10.
4. “Simonal: o importante é se fazer entender”. Jornal do Brasil (28/2/1970), Ca-
derno B, p. 1.
5. Ao que me consta, Simonal nunca teve irmã. Ele parece querer enfatizar sua
posição contrária às passeatas ao invocar um parente tão próximo e inexistente.
6. “Esse homem é um Simonal”. Realidade, dezembro 1969, p. 148.
7. “Não sou racista” — Entrevista com Wilson Simonal. O Pasquim (julho 1969), nº 4.
8. “Carlos Imperial: o monstro pré-fabricado”. A Notícia (16/6/1973).
9. “Simonal: aquele cara que todo mundo queria ser”. Jornal do Brasil (24/2/1970),
Caderno B, p. 1.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

10. “Simonal: o charme com a comunicação”. Jornal do Brasil (25/2/1970), Caderno


B, p. 1.
11. “Simonal: no tempo do rei do rock”. Jornal do Brasil (26/2/1970), Caderno B, p.
5.
12. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Jorge Ben e até Roberto Carlos
dizem ser fãs de carteirinha de João Gilberto até hoje. A marca que a Bossa Nova
deixou nos novos compositores é tão incisiva que muitos se lembram perfeita-
mente da primeira vez que ouviram a canção “Chega de saudade”, marco inicial
do movimento. Caetano lembra ter sido arrebanhado logo da primeira vez que
ouviu aquela música: “Eu tinha 17 anos quando ouvi pela primeira vez João
Gilberto. Ainda morava em Santo Amaro e foi um colega do ginásio quem me
mostrou a novidade que lhe parecera estranha e que, por isso mesmo, ele julgara
que me interessaria: ‘Caetano, você que gosta de coisas loucas, precisa ouvir o
disco desse sujeito que canta totalmente desafinado, a orquestra vai pra um lado
e ele vai pro outro’. (...) A bossa nova nos arrebatou.” Chico Buarque também
recorda perfeitamente sua primeira audição: “O que me levou para a música
dessa forma arrebatadora foi o fato de eu ter 15 anos quando apareceu a Bossa
Nova. Era uma diferença muito grande. Foi uma coisa que pegou a gente e que o
pessoal mais velho não se tocou tanto e o pessoal mais novo também não. Quan-
do eu vi aparecer esse negócio, inteiramente novo, foi uma revolução. Não é
coincidência que todo mundo diga a mesma coisa. ‘Onde você estava quando
ouviu João Gilberto pela primeira vez?’ Gil, Caetano, Edu, todos dizem a mesma
coisa. Parece combinado, mas é a pura verdade. Foi um marco, mas para quem
tinha aquela idade, porque é na adolescência que se faz a cabeça musical.” Sobre
Caetano Veloso, ver VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Compa-
nhia das Letras. 1997, p. 35; sobre Chico, ver: ZAPPA, Regina. Chico Buarque.
Rio de Janeiro: Relume-Dumará. 1999, p. 45 (Coleção Perfis do Rio).
13. O termo Jovem Guarda aparecerá em itálico quando se referir ao programa de
TV de Roberto Carlos e amigos, ou a marcas de roupas lançadas pelo iê-iê-iê
nacional; em caracteres normais o termo explicita a existência de movimento
cultural de rock no país.
14. “Carango” (Nonato Buzar/Carlos Imperial): “Copacabana, carro vai zarpar/ Todo
lubrificado pra não enguiçar/ Roda tala larga, genial!/ Botando minha banca mui-
to natural/ S’imbora, um, dois, três/ Camisa verde-claro, calça saint-tropez/ E
combinando com o carango, todo mundo vê// Ninguém sabe o duro que dei/ Pra
ter fon-fon, trabalhei, trabalhei// Depois das seis tem que acender farol/ Garota
de menor pode ser sem sol/ Barra da Tijuca já michou/ A onda agora é deixar cair
no Le Barthô (...)” Le Barthô era uma boate, na época, e lebrador, um neologis-
mo de Imperial, que chamava as mulheres bonitas de “lebres”. Segundo testemu-

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

nho de Carlos Imperial: “Como produtor de teatro, televisão, cinema e disco,


sempre me vi cercado de mulheres bonitas. As meninas eram lançadas por mim e
também inventei o termo lebre. O carioca gostou do meu tipo de gozar as pesso-
as. Isso caiu no gosto do povo.” “Carlos Imperial: adeus às ‘lebres’”. Manchete
(16/4/1983), nº 1.617, pp. 40-1.
15. Texto de contracapa do LP Pilantrália com Carlos Imperial e a Turma da Pesada
(1968).
16. Por “música universitária” entende-se a música feita por egressos das faculdades,
que se constituíram o principal grupo forjador do conceito estético-político da
MPB.
17. “Carlos Imperial: o monstro pré-fabricado”. A Notícia (16/6/1973).
18. O Pasquim (julho de 1969), nº 4. Entrevista com Wilson Simonal.
19. Idem.
20. “Simonal dá a receita da canção popular”. Última Hora (18/10/1967), coluna de
Chico de Assis.
21. Realidade, dezembro de 1969 p. 148. Ao contrário do que diz o próprio Simonal,
a Pilantragem teve sim uma preocupação com neologismos, com ressignificar e
criar palavras. A crítica do cantor parece não se dirigir ao neologismo em si. A
questão não era tanto o novo, mas esse ser ou não intelectualizado.
22. Correio da Manhã (4/12/1970). Caderno Anexo, p. 3.
23. “Simonal: eu sou um deles.” Jornal do Brasil (1-2/2/1970), Caderno B, p. 10.
24. O Pasquim (julho de 1969), nº 4.
25. Folha de S. Paulo (25/11/1994), caderno Folha Ilustrada, entrevista com Wilson
Simonal (grifo meu).
26. “Jorge Ben e Simonal: nossa música em Cannes”. Fatos & Fotos (5/2/1970), ano
X, nº 470.
27. Correio da Manhã (4/12/1970), Caderno Anexo, p. 3.
28. “Bom gosto” está sempre entre aspas por ser um juízo de valor. Para uma análise
do padrão estético forjado pela MPB, ver, especialmente, o capítulo “Tradição e
modernidade” do livro: ARAÚJO, Paulo Cesar de. Eu não sou cachorro, não:
música popular cafona e ditadura militar. Rio de Janeiro: Record, 2003.
29. Fundo Ibope, Arquivo Edgar Leuenroth da Unicamp.
30. Pesquisa feita no Fundo Ibope — Vendagem de discos (1968), Arquivo Edgar
Leuenroth, Unicamp.
31. Para Carlos Nelson Coutinho, a esquerda hegemonizava a produção cultural do
país nas décadas de 1960 e 1970. “As pessoas que tinham forte interesse pela
política terminaram levando esse interesse para a área da cultura. Isso teve um
lado positivo. Claramente a cultura tem uma dimensão política. Mas, às vezes,
também tem um lado negativo, no sentido de que se politizaram excessivamente

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

disputas que na verdade são mais culturais do que partidariamente políticas [...]
A esquerda era forte na cultura e em mais nada. É uma coisa muito estranha. Os
sindicatos reprimidos, a imprensa operária complemente ausente. E onde a es-
querda era forte? Na cultura.” In: RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasi-
leiro — Artistas da revolução, do CPC à era da TV. Rio de Janeiro: Record, 2000,
p. 55. De forma semelhante, críticos musicais chegaram a exagerar na vitimização
da MPB, como fez Tárik de Souza: “O AI-5 promoveu a MPB a inimiga cultural
número um do regime militar.” ZAPPA, Regina, op. cit., p. 103.
32. A bibliografia sobre outro gênero musical que não a MPB é rara. Durante a pes-
quisa encontrei algumas poucas honrosas exceções. Sobre a música sertaneja a
única obra encontrada foi uma autobiografia dos irmãos Chitãozinho e Xororó.
O funk, apesar de ter nascido há mais de 30 anos e de ter grande penetração na
sociedade (há de se perguntar qual sociedade?), não tem uma bibliografia pro-
porcional a sua realidade social. O livro de Silvio Essinger tenta cobrir a lacuna,
com brilhantismo. Ver, respectivamente: CHITÃOZINHO & XORORÓ. Nasce-
mos para cantar. São Paulo, Editora Artemeios, 2005; ESSINGER, Silvio. Batidão
— Uma história do funk. Rio de Janeiro: Record, 2005.
33. A memória construída acerca da ditadura tornou-se a memória daqueles que
foram derrotados politicamente em 1964 e 1968. Aliás, muitos militares são
unânimes em relatar que mesmo sendo vitoriosos em 1964 e, especialmente,
contra a luta armada, foram derrotados em relação à memória histórica do período.
Como lembra o historiador Daniel Aarão Reis, as esquerdas derrotadas parecem
ter conseguido impor uma memória que vitimiza a sociedade perante o governo
ditatorial. Aliás, na própria sociedade poucos são aqueles que não se reconhecem
ou não se identificam com a resistência ao regime militar. O problema é que essa
visão ao mesmo tempo vitimizadora e redentora das esquerdas não explica por
que a ditadura se sustentou por tanto tempo. Em trabalho pioneiro, Daniel Aarão
Reis demonstrou como essa memória começou a ser construída momentos após
os conflitos decisivos dos anos 1960/1970. Logo após 1964 as esquerdas cons-
truíram para si a ideia de que foram surpreendidas pelo golpe. Parecem querer
esquecer que o golpe também poderia vir por parte dessas mesmas esquerdas,
que raramente tinham algum apego à democracia que não o de uma forma
instrumentalizada. Reis mostra como as esquerdas consolidaram a ideia da resis-
tência à ditadura diante da necessidade de se reintegrar nova democracia pós-
ditatorial, memória forjada em conjunto com a sociedade que procurava diabolizar
o regime. Assim, o período de lutas pela Anistia foi essencial para a catalisação e
consolidação dessa memória vitimizadora. AARÃO, REIS, Daniel. “Ditadura e
sociedade: as reconstruções da memória”, in: AARÃO REIS, Daniel; RIDENTI,

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

Marcelo; MOTTA, Rodrigo Patto Sá. O golpe e a ditadura militar — 40 anos


depois (1964-2004). Bauru: Edusc, 2004.
34. Para as opiniões de Jô Soares, Juca Chaves e Chacrinha, ver: Jô Soares — O Pas-
quim (4-10/12/1969), s/nº, pp. 10-13; Juca Chaves — O Pasquim (18/12/1969), nº
26, pp. 8-11; Chacrinha — O Pasquim (13-19/11/1969), nº 21, pp. 10-13.
35. Para a entrevista de Vinicius de Moraes, ver: O Pasquim (agosto de 1969), nº 6,
p. 8.
36. Roberto Carlos — O Pasquim (7/10/1970), nº 68, pp. 8-11.
37. Nara Leão — O Pasquim (agosto de 1969), nº 7, p. 10.
38. Norma Benguel — O Pasquim (5/9/1969), s/nº, p. 11.
39. Juca Chaves na revista Realidade (dezembro de 1968), pp. 96-7 e p. 139; (julho
de 1970), p. 130.
40. Brazuca — Fatos & Fotos (5/11/70), nº 509, p. 83.
41. Ziraldo — Realidade (outubro de 1970), p. 106.
42. Cynara, Cybele e MPB4 — Realidade (junho de 1969), p. 105.
43. Chico Buarque faz propaganda do Banco da Indústria e Comércio de São Paulo
S/A — Realidade (dezembro de 1968), p. 152.
44. ZAPPA, Regina, op. cit., p. 10.
45. RICARDO, Sérgio. Quem quebrou meu violão. Uma análise da cultura brasileira
nas décadas de 40 a 90. Rio de Janeiro: Record, 1991, p. 11.
46. NOVAES, José. Nelson Cavaquinho: luto e melancolia. Rio de Janeiro: Intertexto,
2003, p. 86.
47. Para o escritor Ruy Castro, Simonal “encalacrou-se numa obscura história que o
envolvia como informante dos órgãos de segurança do governo Médici no meio
artístico e isso destruiu sua carreira. Para usar o jargão que ele criou nos seus dias
de glória, Simonal deixou cair e se machucou”. CASTRO, Ruy. Chega de sauda-
de: a história e as histórias da bossa nova. São Paulo: Companhia das Letras,
1990, pp. 362-3 (grifo meu).
48. “Simonal ameaçado de cadeia por sequestro”. Última Hora (27/8/1971). Arqui-
vado no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj), Dossiê Dops,
Pasta 153, Folha 113.
49. “Processo contra Simonal”. Correio da Manhã 27/8/1971. Arquivado no Arquivo
Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj), Dossiê Dops, Pasta 153, Folha 114.
50. “Simonal ameaçado de cadeia por sequestro”. Última Hora (27/8/1971). Arqui-
vado no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj), Dossiê Dops,
Pasta 153, Folha 113.
51. Para uma cópia da declaração de Viviani, ver: Anexos — Declaração de Raphael
Viviani sob coerção. Documento encontrado no Arquivo Público do Estado do
Rio de Janeiro (Aperj), Dossiê Dops, Pasta 153, Folha 102.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

52. “O presidente não admite torturas”. Veja (3/12/1969), in: MOLICA, Fernando. Dez
reportagens que abalaram a ditadura. Rio de Janeiro: Record, 2005, pp. 65-90.
53. Em teoria, Dops e polícias civis eram órgãos distintos. Na prática havia uma sinis-
tra combinação da repressão civil e política. Segundo Percival de Souza, “... [no
início da repressão] o Dops pediu reforço à Secretaria da Segurança. A ajuda veio
da Delegacia de Roubos, com todo o seu estilo, a sua cultura, os seus métodos. (...)
O know-how da repressão foi civil”. SOUZA, Percival de. Autópsia do medo: vida
e morte do delegado Sérgio Paranhos Fleury. São Paulo: Globo, 2000, p. 33.
54. Para a cópia, ver: Anexos — Termo de Declarações de Simonal em 24/8/1971.
Documento encontrado no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj),
Dossiê Dops, Pasta 153, Folha 106. Original de 24/8/1971.
55. Idem.
56. Idem.
57. Idem.
58. Para a cópia, ver: Anexos — Carta confidencial de Mário Borges aos seus superio-
res. Documento encontrado no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro
(Aperj), Dossiê Dops, Pasta 153, Folha 112-108 [Confidencial — de circulação
interna do Dops: do chefe da Seção de Buscas Ostensivas (SOB), Mário Borges,
ao chefe de Serviço de Buscas]. Datado de 28/9/1971.
59. “Simonal ameaçado de cadeia por sequestro”. Última Hora (27/8/1971). Arqui-
vado no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj), Dossiê Dops,
Pasta 53, Folha 113.
60. A sentença final do processo de Simonal e seus comparsas foi encontrada no
Aperj. Não foi possível encontrar o processo inteiro, que aparentemente está na
23a Vara Criminal do Rio de Janeiro. O processo está arquivado no Fórum do
Rio de Janeiro, no centro da cidade, mas não foi possível obtê-lo. A burocracia
da instituição e as diversas viagens do arquivo por vários departamentos levaram
ao sumiço do processo, segundo me disseram os responsáveis. Não duvido, no
entanto, que uma busca cuidadosa levada a cabo por funcionários internos do
Fórum volte a encontrá-lo. Para a cópia da sentença final: Anexo — Sentença
final. Documento encontrado no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro
(Aperj), Alvará 6, Folha 42, p. 41. Processo nº 3.540. Cópia da sentença final de
11/11/1974.
61. Para ver a cópia: Anexo — Sentença final. Documento encontrado no Arquivo
Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj), Alvará 6, Folha 42, p. 40. Processo
nº 3.540. Cópia da sentença final de 11/11/1974.
62. Anexo — Sentença final. Documento encontrado no Arquivo Público do Estado
do Rio de Janeiro (Aperj), Alvará 6, Folha 42, p. 37. Processo nº 3.540. Cópia da
sentença final de 11/11/1974.

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

63. Anexo — Sentença final. Documento encontrado no Arquivo Público do Estado


do Rio de Janeiro (Aperj), Alvará 6, Folha 42, pp. 36-7. Processo nº 3.540.
Cópia da sentença final de 11/11/1974.
64. O juiz João de Deus Lacerda Menna Barreto julgou que o motorista Luiz Ilogti
agiu de acordo com as funções profissionais: “Destarte, à ação do terceiro de-
nunciado nenhum reparo é possível fazer, pois agiu consoante os ditames da lei e
as exigências da sua função”. Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj),
Alvará 6, Folha 42, p. 40. Processo nº 3.540. Original de 11/11/1974.
65. Em sentença final, o juiz Menna Barreto absolveu o chefe Mário Borges, pois
esse não teria participado da sessão de tortura. Mário Borges era chefe do Servi-
ço de Buscas Ostensivas: “Com efeito, é o próprio Raphael Viviani quem (...) diz
que Mário Borges não exerceu qualquer pressão contra o declarante e não estava
presente quando das sevícias que lhe foram infligidas; que sua atuação se limitou
a indagar do declarante se confirmava os termos daquela declaração, fazendo
algumas perguntas sobre o caso.” Anexo — Sentença final. Documento encon-
trado no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj), Alvará 6, Folha
42, p. 40. Processo nº 3.540. Cópia da sentença final de 11/11/1974.
66. “Simonal ouve sentença”. O Globo (14/11/1974), pp. 1 e 11.
67. Sursis: suspensão condicional da pena. “Simonal tem pena reduzida”. Jornal do
Brasil (4/6/1976), p. 12. Cópia encontra-se no Arquivo Público do Estado do Rio
de Janeiro (Aperj), Dossiê S Secreto, Pasta 159, Folha 188.
68. O Pasquim (9-15/11/1971), p. 9; Sérgio Cabral não estava sozinho. Jornalistas
da revista Fatos & Fotos tinham opinião idêntica. Para esses, as letras do compo-
sitor têm “conteúdo lírico e crítico” que “vai descobrindo novos e sugestivos
caminhos”. Fatos & Fotos (22/1/1970), nº 468, p. 81.
69. Tratava-se de um festival “sem competição” organizado pela Philips, gravadora
que abrigava quase todos os artistas da MPB. Realizado entre 11 e 13 de maio de
1973 no Palácio de Convenções do Anhembi, em São Paulo, tinha uma estrutura
sui generis. Primeiro um artista cantava uma ou duas músicas do seu repertório e
depois dividia o palco com o artista seguinte. Depois de cantar “Cabaré”, Elis
dividiu o palco com Gilberto Gil e cantou “Ladeira da Preguiça”, música do
próprio Gil. Dentre os presentes estiveram Toquinho e Vinicius de Moraes, Jair
Rodrigues, Jorge Mautner, Caetano Veloso, Odair José (este em parceria com
Caetano, que insistiu em cantar ao lado do “brega” o sucesso popular “Eu vou tirar
você desse lugar” — o que causou vaias preconceituosas da plateia), Raul Seixas,
Ronnie Von, Erasmo Carlos, Wanderléa, Gilberto Gil, Jorge Ben, Ivan Lins, MPB-
4, Chico Buarque, Fagner, Nara Leão, Jards Macalé, Gal Costa, Maria Bethânia e
até Wilson Simonal, que cantou “Hino ao Senhor” (de Tony Osanah).
70. ARAÚJO, Paulo C. de, op. cit., p. 288.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

71. “Eu só podia resistir”. Veja (27/10/1976). Páginas Amarelas, pp. 3-5.
72. O Pasquim, nº 169 (s/d).
73. “Uma noite com Waldick Soriano no Harém e na Urca”. Zero Hora (8/4/1973).
In: ARAÚJO, Paulo C. de, op. cit., p. 71.
74. RENNÓ, Carlos. Luiz Gonzaga. São Paulo: Martin Claret, 1990, p. 78 (Coleção
Vozes do Brasil).
75. Entrevista de Glauber à revista Visão (11/3/1974), pp. 64-74.
76. ARAÚJO, Paulo C. de, op. cit., p. 219.
77. Ver idem para um relativização do ufanismo de Dom & Ravel, especialmente
capítulos “Um grande açoitando um pequeno” e “No país dos mortos-vivos”.
78. Idem, p. 222.
79. Segundo Paulo César de Araújo, as canções de Chico estavam presentes em várias
novelas. “João e Maria” em Dancin’Days (1978-1979), “Olhos nos olhos” em
Duas Vidas (1976-1977), “Carolina” em O Casarão (1976), “Vai levando” em
Espelho Mágico (1977), “Não existe pecado ao sul do equador”, tema de abertu-
ra de Pecado Rasgado (1978-79). Idem, pp. 301-2.
80. Michael Pollak lembra que a criação de uma versão homogênea do passado reve-
la um enquadramento da memória. POLLAK, Michael. “Memória, esquecimen-
to, silêncio”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, nº 3, 1989, pp. 3-15;
POLLAK, Michael. “Memória e identidade social”. Estudos Históricos, Rio de
Janeiro, vol. 5, nº 10, 1992, pp. 200-212.
81. Até o primeiro semestre de 2007, todas as “comunidades” encontradas no
site de relacionamentos Orkut, na internet, eram favoráveis ao cantor. Eram
cinco comunidades. Na maior delas, com quase dois mil integrantes, todos
sem exceção acham que Simonal deve ser reintegrado à MPB. Não obstante,
acham que ele era inocente de todas as acusações. Comunidade criada por
Kléssius Leão: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=66520.
Acessado em 12/06/2007.
82. MOTTA, Nelson. Noites tropicais: solos, improvisos e memórias musicais. Rio
de Janeiro: Objetiva, 2000, p. 213.
83. OAB absolve cantor Wilson Simonal. O Estado de S. Paulo Digital. Acessado em
24/9/2003: http://www.estadao.com.br/divirtase/noticias/2003/set/24/164.htm
84. “César Camargo Mariano faz show no Sesc Mariana” (entrevista a Pedro Ale-
xandre Sanches): acessado em 19/3/2003: http://www/.folha.uol.com.br/folha/
ilustrada/ult90u31444.shtml.
85. Quando digo “a sério” quero dizer que a MPB não lidava bem com brincadeiras,
especialmente durante os anos mais repressivos da ditadura militar. O riso, a
alegria e a ironia eram vistos como coadjuvantes do regime.

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SIMONAL, DITADURA E MEMÓRIA

86. Essa é a razão principal por eu não ter feito uma biografia do cantor. Penso que
o formato da biografia poderia levar mais facilmente, embora não necessaria-
mente, à vitimização do cantor. Ver: FERREIRA, Gustavo Alves Alonso. Quem
não tem swing morre com a boca cheia de formiga: Wilson Simonal e os limites de
uma memória tropical. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal Flu-
minense, Niterói, 2007.

Bibliografia

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décadas de 40 a 90. Rio de Janeiro: Record, 1991.
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fis do Rio).

Fontes pesquisadas

A Notícia
Correio da Manhã
Fatos & Fotos
Folha de S. Paulo
Jornal do Brasil
Manchete
O Globo
O Pasquim
Realidade
Última Hora
Veja
Visão
Zero Hora

Arquivos pesquisados

Arquivo Edgar Leuenroth da Unicamp, Fundo Ibope.


Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj), Dossiê Dops; Dossiê S Secreto.

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CAPÍTULO 6 As atividades político-partidárias e a
produção de consentimento durante o
regime militar brasileiro
Alessandra Carvalho*

*Professora de História do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro


(UFRJ). Autora de “Realidades e desafios: experiências educativas en Argentina, Uruguay y
Brasil” (com Federico Lorenz, Aldo Marchesi e Laura Mombello), in: Elizabeth Jelin e
Federico Lorenz (orgs.). Educación y memória. La escuela elabora el pasado. Madri/Buenos
Aires: Siglo XXI, 2004, e “31 de marzo de 1964 en Brasil: memorias deshilachadas” (com
Ludmila da Silva Catela), in: Elizabeth Jelin (org.). Las conmemoraciones: las disputas en
las fechas “in-felices”. Madri/Buenos Aires: Siglo XXI, 2002.

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Em fevereiro de 1974, o presidente da República eleito, general Ernesto
Geisel, encontrou-se com o general Dale Coutinho para convidá-lo a assu-
mir o Ministério do Exército em seu governo. E expôs um dos problemas
que o afligiam:

Na área política continuamos com a mesma droga. [...] Todos nós, de um modo
geral, temos uma repulsa ao político, mas o político é necessário. Nós não
podemos ter os políticos só para dar uma fantasia, quer dizer, não vamos ter
o político para chegar no dia lá e votar no general Geisel ou votar no Médici.
Não é? Ou chegar no dia tal e votar a lei que o governo quer. Quer dizer, isso
tem que evoluir. (...) eu vou ver se consigo fazer um esforço para melhorar
este país, tem que trabalhar nesse sentido. Não vou dar aos políticos o que
eles querem, não vou, não vou me mancomunar com eles, mas vou viver com
eles, eu tenho que viver com eles. Porque senão como é? Nós vamos, nós te-
mos a outra alternativa, que é ir para uma ditadura. Então vamos fechar esse
troço, vamos fechar o Congresso, vamos fechar tudo isso e vamos para uma
ditadura, que é uma solução muito pior. Não é? Quer dizer, esse é um dos
quadros em que a Revolução, no meu modo de ver as coisas, fracassou. (...)
Ora o sujeito vai conversar com os políticos, ora dar coice nos políticos, fecha
o Congresso, abre o Congresso, e vivemos nessa porcaria.1

As afirmações acima, publicadas por Elio Gaspari no terceiro volume de


sua obra sobre o regime militar, introduzem algumas das questões funda-
mentais que permearam as relações entre o governo autoritário e o sistema
político. Nesse breve trecho, as declarações de Ernesto Geisel dão conta da
instabilidade e tensão que marcaram os 21 anos da ditadura, com a abertu-
ra e o fechamento sucessivos do Congresso, as tentativas de aproximação

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entremeadas por cassações de mandatos e direitos, o esvaziamento do exer-


cício parlamentar pela centralização das decisões no Executivo e a aprova-
ção automática dos projetos de lei oriundos da cúpula governamental, a
ameaça sempre latente de supressão total da atividade política.
A prova cabal dessa instabilidade pode ser encontrada nas mudanças
constantes promovidas na legislação que ordenou as atividades partidárias
e eleitorais sob a ditadura, como a instituição de dois sistemas partidários —
1965 e 1979 —, mudanças no cálculo da representação dos estados, altera-
ções na lei orgânica dos partidos e normas casuísticas para organizar elei-
ções.2 Sem dúvida, para os políticos essa dinâmica embutiu uma extrema
incerteza acerca da continuidade de seus trabalhos e do espaço que suas
ações poderiam alcançar. Para o regime militar, o objetivo primeiro foi as-
segurar para o governo maiorias parlamentares e que o partido de oposição
não conseguisse alcançar posições-chave no Congresso Nacional, além de
afastar da política formal determinado grupo de indivíduos.3
A cassação de mandatos e direitos políticos foi, certamente, um dos ins-
trumentos usados pelo regime recém-instalado em 1964 e recebeu o apoio
de lideranças importantes, adversários de primeira linha ou não do gover-
no de João Goulart, que acreditavam ser necessário banir seus partidários
da cena pública.4 Além das cassações, relevantes atores sociais e políticos
defenderam a necessidade de alterações mais profundas. Analisando os edi-
toriais publicados por jornais dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo
em 1964 e 1965, Vasconcelos encontrou reiteradas críticas à atuação do
Congresso Nacional nos últimos meses do governo Jango e a defesa de me-
didas autoritárias que reorganizassem a ordem política. Isso não significava
desqualificar totalmente as atividades partidárias e parlamentares — em-
bora o jornal O Estado de S. Paulo chegasse a defender o fechamento do
Congresso em distintas ocasiões — mas o apoio de diferentes setores à al-
teração das regras do jogo por meio da intervenção do governo militar.5
No bojo dessa percepção, as mudanças no código eleitoral para a esco-
lha dos governadores em 1965 determinaram a proibição das coligações
partidárias nos pleitos proporcionais e o aumento da cláusula de barreira
para o funcionamento dos partidos, entre outros dispositivos usados para
diminuir o número de legendas presentes na competição.6 Muitos acredi-

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tavam que o novo código serviria para superar os graves problemas que aco-
meteram o sistema político e dar maior racionalidade ao processo decisório,
incluindo as relações entre o Executivo e o Legislativo depurado.7
Isso demonstra que a fragmentação partidária era percebida como um
fator crucial no processo de aprofundamento da crise de 1964 por jorna-
listas, políticos e autoridades militares, o que justificaria a necessidade de
modificações a serem feitas pelo novo governo. Nesse contexto, Franco
Montoro, cujo primeiro mandato eletivo de vereador fora conquistado em
1950 pelo PDC, partido no qual se manteve até se filiar ao MDB em 1966,
afirmou sobre as novas determinações que “seu objetivo, aliás meritório,
era acabar com a excessiva multiplicidade de partidos. Nada menos do que
15 existiam naquela época, muitos deles sem linha política, simples ajunta-
mentos em defesa de interesses menores”8 — argumento muito presente
também nas avaliações do sistema político brasileiro feitas por defensores
do golpe militar.
A derrota de candidatos apoiados pelo regime autoritário, em fins de 1965,
mostrou que as reformas até ali empreendidas podiam assegurar a redução
do número de partidos, mas não a eleição dos indivíduos identificados com
a ditadura militar. Desse momento em diante, as intervenções se tornaram
mais profundas com o Ato Institucional nº 2, que o mesmo Montoro afir-
mou ser “o grande divisor de águas da política brasileira”,9 e seguidas altera-
ções na legislação eleitoral, feitas e refeitas de modo a assegurar maiorias
parlamentares para a Arena, uma oposição moderada e cautelosa e o contro-
le dos governantes militares sobre as principais instâncias de poder.
Todavia, a despeito da fluidez e incerteza institucional descritas, foram
mantidas as atividades partidárias e as eleições diretas para os cargos de
vereador, deputados estadual e federal e senador, bem como de prefeito —
excetuando-se as capitais dos estados e os municípios classificados como
áreas de segurança nacional e estâncias hidrominerais. Esse aspecto distin-
guiu o regime autoritário brasileiro de seus congêneres latino-americanos e
colocou-se como um canal por meio do qual puderam ser construídas e
reconstruídas as relações entre o regime e a sociedade.
Simultaneamente à manutenção das eleições diretas para esses cargos,
durante os governos militares assistiu-se a uma expressiva expansão do

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número de eleitores, decorrente, em grande parte, da extensão dos direitos


políticos a indivíduos jovens dos centros urbanos. Entre 1966 e 1978, o elei-
torado brasileiro cresceu 51%. No início da década de 1960, 43% da popu-
lação adulta eram inscritos como eleitores; 20 anos depois, esse número atingiu
cerca de 83% dos brasileiros adultos.10 Segundo Maria D’Alva Kinzo, isso
significou que um terço dos eleitores no início dos anos 1980 só conhecia os
partidos criados durante a ditadura — MDB e Arena. É possível afirmar, então,
que um grande número de cidadãos brasileiros teve suas primeiras experiên-
cias com eleições, votos e candidatos sob o sistema bipartidário criado pelos
governos militares. Se não podemos dizer que esse período participou do
processo de criação de uma democracia de massa no Brasil, com certeza
estamos tratando de um sistema eleitoral desse porte. E, na dinâmica político-
partidária e eleitoral, o regime militar sempre viu um potencial para a con-
quista de legitimidade, apoio e consentimento da sociedade.

UM BREVE BALANÇO DA LITERATURA

Os estudos sobre as atividades político-partidárias durante os anos do regi-


me militar são marcados por algumas características e perspectivas de in-
terpretação. A primeira a ser ressaltada é a descontinuidade, uma vez que
apenas períodos específicos da ditadura despertaram uma curiosidade aca-
dêmica sobre a política. É o caso, por exemplo, dos anos que se seguiram a
1974, quando o MDB alcançou uma grande votação nas eleições legislativas
estaduais e federais, iniciando um processo de crescimento que se revelou
contínuo nas eleições de 1978. Esse fenômeno foi, então, alvo de inúmeras
investigações por parte, principalmente, de sociólogos e cientistas políticos.
De forma predominante, essas análises se debruçaram sobre os resulta-
dos eleitorais da década de 1970, buscando entender e explicar a opção
pelo voto no MDB a partir de variáveis sociológicas como a localização geo-
gráfica do voto dado aos dois partidos, sua distribuição entre os segmentos
socioeconômicos e sua relação com o surgimento de identidades partidá-
rias.11 Essas análises, todavia, não se sustentaram como um campo específi-
co de estudos, aspecto apontado no balanço bibliográfico elaborado por

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Lima Jr., Schmitt e Nicolau. A década de 1980 registrou um progressivo


abandono do tema, que cedeu o lugar para discussões sobre o processo de
redemocratização e os períodos de multipartidarismo na república brasileira.12
Os 15 anos que nos separam do levantamento bibliográfico citado pare-
cem não ter alterado de forma significativa esse quadro, embora, nos últi-
mos tempos, alguns trabalhos no âmbito dos programas de pós-graduação
tenham se voltado para diferentes aspectos do período bipartidário.13 En-
tre eles, podemos apontar o estudo pioneiro de Maria D’Alva Gil Kinzo
sobre o MDB, Oposição e autoritarismo. Gênese e trajetória do MDB (1966-
1979), publicado em 1988. O mesmo partido foi objeto da análise de
Rodrigo Patto Sá Motta em Partido e sociedade — A trajetória do MDB,
publicada em 1997. O interessante é que sobre a Arena, partido de sus-
tentação do regime em que atuaram destacadas lideranças políticas anteriores
a 1964 e também posteriores a 1985, não há obra semelhante, apesar dos
instigantes trabalhos de mestrado e doutorado de Lucia Grinberg, que tra-
taram da criação e institucionalização da legenda, da atuação dos militan-
tes e dos espaços de atuação autônoma dos políticos arenistas.14 Outras
pesquisas de mestrado e doutorado voltaram-se para a dinâmica das ativi-
dades político-partidárias nos níveis regional e local.15
Uma das explicações para a descontinuidade nas investigações sobre a
política formal pode ser encontrada no questionamento ou descrédito de
sua relevância durante o regime autoritário. Isso se daria por, pelo menos,
duas razões. Primeira, as seguidas intervenções, com o uso de métodos co-
ercitivos e repressivos e o esvaziamento das funções e prerrogativas do poder
Legislativo, estabeleceram limites muito estreitos para as atividades políti-
cas. Das cassações e perda de direitos, da criação de sucessivas legislações
eleitorais e partidárias chegando aos tristemente famosos “porões da dita-
dura”, uma série de mecanismos de vigilância e repressão foi acionada em
diferentes momentos com o objetivo de enquadrar a vida política brasileira
nos moldes pensados pelos militares que governaram o país.16
Nessa perspectiva, os partidos, os políticos e o Congresso Nacional pas-
saram a ser vistos como atores sem poder efetivo. Suas ações não teriam
produzido resultados importantes para a compreensão dos rumos do Esta-
do autoritário no que se refere, por exemplo, ao processo decisório gover-

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namental. Apontando as “deturpações” e “deformações” dos procedimen-


tos democráticos vigentes sob a ditadura, grande parte das avaliações aca-
bou sempre por realçar as imperfeições do jogo político, aquilo que ele
deveria ser e não foi. Sob esse prisma, eleições, campanhas, discursos e ne-
gociações no Congresso Nacional se assemelhariam a um mundo de fanta-
sia distante da realidade, já que os políticos teriam perdido a capacidade de
criar leis, de influenciar a elaboração de programas públicos e de se colocar
como um contrapeso às ações do poder Executivo.17
Uma segunda razão para a pouca atenção analítica às atividades políti-
cas diz respeito ao novo sistema partidário, que, imposto pela ditadura,
enquadrou compulsoriamente as forças existentes nas duas legendas cria-
das em 1965. Dessa forma, reuniram-se no mesmo partido indivíduos com
diferentes matizes ideológicos e bases políticas, conferindo um caráter de
heterogeneidade e indefinição ao MDB e à Arena. Como consequência, não
seria possível relacioná-los claramente a interesses e setores sociais especí-
ficos — função considerada precípua das agremiações eleitorais. Ao lado
desse aspecto, as limitações e os controles legais e ilegais aos quais as ações
políticas foram submetidas também colaborariam para diminuir a capaci-
dade de representação dos eleitos, que não construiriam relações “orgâni-
cas” com a sociedade. Assim, por outro caminho, chegaríamos à mesma
conclusão: as atividades políticas eram uma fantasia, entendida agora como
disfarce “democrático” de um regime autoritário que trabalhava constan-
temente para enfraquecer a participação dos cidadãos e impedir a livre defesa
de seus interesses.18
Importantes políticos que atuaram nos anos de autoritarismo corrobo-
raram esse tipo de interpretação. Num discurso feito no Senado em 1975,
o arenista Teotônio Vilela, senador alagoano de longa trajetória política,
fundador da UDN em seu estado, lamentava o que ele chamou de declínio
sistemático da ação política e dos políticos que, diminuindo seu trabalho e
sua influência, terminou por criar “um mundo à parte, um clube de deli-
rantes que luta em campanhas eleitorais para ser uma coisa e é outra — o
ensimesmado de hoje, não por requinte, mas por confinamento, e ainda
com a ingrata missão de ornar o quadro do governo com a presença do faz
de conta”.19

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Essas conclusões, entretanto, são contestadas por uma série de trabalhos


sobre as atividades políticas durante o regime militar. Em algumas investi-
gações, como as de Motta sobre o MDB e de Grinberg sobre a Arena, o
quadro que emerge aponta em direção, se não oposta, ao menos divergen-
te. Nessas análises, os autores puderam identificar uma ação constante dos
políticos, governistas ou da oposição, no sentido de enfrentar e ampliar os
limites impostos pelo governo autoritário, reforçar a legitimidade de seus
mandatos populares e estabelecer laços com grupos, organizados ou não,
buscando enraizar socialmente seus partidos e atuar como representantes.
A própria acusação de Teotônio Vilela foi feita por um senador situacionista
na tribuna do Senado. Isso não significa afirmar que o objetivo dessas ações
era o combate à ditadura ou a oposição franca ao regime militar, mas realça
a necessidade de se considerarem os elementos específicos que constituem a
ação dos atores políticos em um sistema eleitoral, mesmo sob uma ditadura.
Para situar melhor a divergência nas interpretações sobre a importância
e o escopo das atividades político-partidárias, é preciso assinalar que a pers-
pectiva adotada por Grinberg e Motta enfoca não só as questões insti-
tucionais, que estabeleceram uma ordem autoritária, mas principalmente
as ações e práticas empreendidas pelos indivíduos como políticos e homens
de partido, em suas tentativas de garantir e alargar seu espaço dentro dos
limites definidos pelo regime — seja para afirmar a legitimidade de sua
ocupação ou assegurar a manutenção de suas carreiras. Nesse processo, o
que se constata é a existência de uma atuação incessante dos políticos por
meio da qual as relações com o Estado autoritário são marcadas por en-
frentamento, negociação, diálogo e influência. Por outro lado, participan-
tes da competição eleitoral e, portanto, dependentes do voto, eles sempre
viram a urgência de estabelecer contatos e relações com a sociedade, de-
fendendo as demandas dos eleitores junto às esferas de decisão — locais,
regionais ou federais.
Aproximando-nos dessa abordagem, as ações daqueles que optaram pela
vida político-partidária perdem um pouco do seu caráter de artificialidade
e ineficiência, podendo ser vistas como interações concretas com os eleito-
res, com organizações sociais e com o Estado.20 É nessa chave interpretativa
que propomos, neste texto, analisá-las como um meio para forjar social-

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mente o consentimento à ditadura militar sublinhando três dinâmicas prin-


cipais. A primeira delas refere-se à permanência no regime autoritário de
parte relevante das elites políticas advindas do sistema multipartidário an-
terior a 1964, com bases eleitorais sólidas conquistadas ao longo de traje-
tórias que, muitas vezes, remontavam às décadas de 1930 e 1940. A segunda
dinâmica se estabelece com a atuação dos arenistas junto à população, dis-
putando eleições, ocupando cargos em órgãos legislativos e executivos e
atuando como um canal de mediação entre a sociedade e o regime.
Por último, acreditamos que a manutenção da vida partidária, do funcio-
namento mínimo do Congresso e do calendário eleitoral fez com que mui-
tos indivíduos, até da oposição, aceitassem participar da ordem institucional
estabelecida pela ditadura, vista como um espaço para a contestação ao
regime. Fernando Lyra, deputado federal eleito pelo MDB em 1970 que
integrou o grupo autêntico, explicou sua opção pela vida político-partidária
afirmando que pretendia lutar contra o regime e seu partido, que conside-
rava muito cauteloso, e acreditando que isso era importante para “despertar
a juventude, debelar a luta armada, extinguir o voto nulo”.21 Nesse movi-
mento, acabou-se por legitimar uma via de resolução dos conflitos políti-
cos e sociais pensada e controlada pelos governantes autoritários até a
transição para o governo civil.

A CONTINUIDADE DAS ELITES POLÍTICAS E SUAS BASES SOCIAIS

Os efeitos negativos do cerceamento das funções e dos espaços da política


são muito frequentes nas avaliações do regime militar feitas por diferentes
líderes. Para Tancredo Neves, cuja carreira se iniciou na vereança de São
João Del Rey, em 1935, se construiu no PSD mineiro e, depois, no MDB,
os 21 anos de regime militar mutilaram as tradições democráticas brasilei-
ras e impediram o avanço das forças populares na luta pela liberdade e jus-
tiça social — duas das principais bandeiras que seriam consagradas pelo
MDB. Saturnino Braga conquistou o primeiro cargo eletivo — deputado
federal — em 1962 pelo PSB e optou pelo MDB após o AI-2. Para ele, a
ditadura impediu a formação de novas lideranças e de partidos representa-

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tivos das correntes de opinião existentes na sociedade. Por último, José


Richa, deputado federal em 1962 pelo PDC que se filiou ao MDB com a
instalação do bipartidarismo, lamentou o que chamou de involução, pois
os jovens foram mantidos longe do aprendizado da política, o que, segun-
do ele, teve reflexos negativos na sociedade brasileira.22
Para esses homens, uma das mais graves consequências da ditadura foi o
afastamento da população do exercício da política, que teria provocado um
dano irreparável na formação e educação de uma geração de brasileiros —
fossem eleitores ou “elegíveis”. Cabe, todavia, relativizar esse afastamento,
uma vez que, como assinalado antes, o contingente de eleitores cresceu de
modo significativo nas décadas de 1960 e 1970. Nesse sentido, alguma
modalidade de socialização ocorreu no Brasil, mesmo que não a da “verda-
deira” política, feita por “genuínos” partidos. Os jovens, e não só eles, ao
contrário do que afirmou José Richa, não foram mantidos longe do apren-
dizado da política. Mais do que isso, a cada dois anos, os eleitores brasilei-
ros compareceram às urnas, envolvendo-se minimamente com questões
políticas e alimentando continuamente as atividades partidárias.23
No caso específico dos três líderes citados, como também no de muitos
outros, o golpe militar de 1964 e as intervenções na área política que a ele
se seguiram não representaram uma ruptura em suas carreiras pessoais.
Tancredo Neves continuou sua trajetória no Congresso Nacional até 1982,
quando foi eleito governador de Minas Gerais, e, 1985, quando se tornou
presidente da República. Saturnino Braga encerrou, em 2007, o mandato
de senador, com uma carreira marcada por postos no Executivo e Legislativo.
José Richa esteve presente no Congresso como deputado federal ou sena-
dor até 1982, quando foi eleito governador do Paraná. Posteriormente,
retornou ao Senado, onde permaneceu até o início de 1995. A partir daí,
retirou-se da vida pública, mas seu filho, Beto Richa, elegeu-se deputado
estadual e prefeito de Curitiba.
Esses três exemplos demonstram que o novo contexto estabelecido a
partir de 1964, radicalmente transformado em muitos aspectos, acarretou
alterações substantivas nas formas de agir e pensar dos atores políticos, mas,
para muitos, não significou uma barreira intransponível. Antes, instituiu um
novo cenário, marcado por sérias limitações, incerteza e repressão, mas no

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qual o jogo continuava — na medida do possível, ainda que longe do dese-


jável. Como bem colocou Rafael Madeira, o AI-2, em 1965, instituiu uma
nova moldura institucional, mas de maneira nenhuma significou a anula-
ção das histórias partidárias e individuais até ali construídas.24 Em artigo
publicado em 1977 no jornal O Estado de S. Paulo, o jornalista Mauro
Santayana afirmava que no regime militar “permaneceram os homens anti-
gos em seu exercício, amparados por uma biografia que os excluía das
suspeições novas”.25
A continuidade das elites políticas no regime militar pode ser verificada
nos quadros a seguir, que indicam os altos números de filiação partidária
anterior a 1965 dos governadores, senadores e deputados federais eleitos
durante o regime militar:

Quadro 1
Filiação partidária anterior a 1965
dos governadores eleitos entre 1965 e 1978

Ano de eleição Nº de eleitos Nº de filiados a siglas


anteriores a 1965

1965* 10 10
1966 12 11
1970 22 12
1974 21 13
1978 22 15
Total (a) 87 61
Total (b) 83 57
Fonte: ABREU, Alzira Alves de et alii., op. cit.
*O governador de Alagoas eleito em 1965 não foi considerado, uma vez que não chegou a tomar
posse.
(a) Referente ao número total de cargos de governador para os quais houve eleições diretas (1965)
e indiretas (1966 a 1978).
(b) Referente ao número de indivíduos eleitos, subtraindo quatro nomes que ocuparam o posto
de governador por duas vezes: Alacid da Silva Nunes (Pará), Antônio Carlos Magalhães (Bahia),
Chagas Freitas (Guanabara e Estado do Rio de Janeiro) e Pedro Pedrossian (Mato Grosso e Mato
Grosso do Sul).

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Quadro 2
Filiação partidária anterior a 1965
dos senadores eleitos entre 1966 e 1978

Nº de eleitos Nº de filiados Nº de filiados Nº de eleitos


antes de 1966 a siglas a siglas por via direta antes de
antes de 1965 antes de 1965 1965 e depois de 1979

111* 96 63 92**
Arena (88)
MDB (23)
Fonte: ABREU, Alzira Alves de et alii., op. cit.
*Nesse número estão incluídos os senadores eleitos de forma indireta em 1978.
**Para postos legislativos e/ou executivos nos níveis municipal, estadual ou federal.

Quadro 3
Filiação partidária anterior a 1965
dos deputados federais eleitos entre 1966 e 1978

Legislatura Legislatura Legislatura Legislatura


1967-1971 1971-1975 1975-1979 1979-1982
98,5% 89% 81% 72%
Fonte: FLEISCHER, David. “A evolução do bipartidarismo brasileiro 1966-1979”. Revista Brasi-
leira de Estudos Políticos, Belo Horizonte, 1980, nº 51, pp. 55-85.

O caminho para essa continuidade se deu com a criação do MDB e da Are-


na a partir do Congresso, num processo em que se transferiram para as novas
agremiações não só as principais lideranças, mas também suas redes políticas e
bases eleitorais.26 André Marenco dos Santos afirma que no realinhamento
partidário ocorrido em 1966 houve um trânsito cruzado; ou seja, as siglas ex-
tintas ofereceram quadros tanto para o MDB como para a Arena, havendo
alguma fidelidade às alianças e aproximações anteriores a 1964 somente em
Minas Gerais, Guanabara, Estado do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.27
Todavia, apesar de não ser verificada uma convergência total entre as prefe-
rências anteriores a 1965 e o sistema bipartidário, é possível afirmar que as
correntes mais conservadoras tenderam a encaminhar-se para a Arena, enquanto
alguns grupos liberais, de centro e esquerda agruparam-se no MDB.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Na divisão dos membros das antigas legendas, para a Arena dirigiram-se


a quase totalidade dos parlamentares da UDN e parte majoritária do PSD.
O MDB foi o destino da maior parte dos parlamentares petebistas, princi-
palmente dos deputados federais, e parcela do PSD, que somados repre-
sentaram 80% do partido.28 A formação das primeiras direções partidárias
da Arena e do MDB demonstra a presença de destacados líderes políticos
das legendas anteriores a 1965. No partido do governo, a proeminência
era de lideranças udenistas, donos de larga experiência política e fortes bases
estaduais.29 No MDB, principalmente após o arrastão na representação
parlamentar promovido pelo Ato Institucional nº 5, o partido passou a ter
sua direção composta por políticos do antigo PSD, embora a presença sig-
nificativa dos ex-petebistas possa ser assinalada, ainda que de forma decres-
cente, até o fim do bipartidarismo.30
Com as velhas lideranças, manteve-se também muito da identidade par-
tidária construída até 1965. É interessante perceber que mais de dez anos
após a criação do bipartidarismo muitos políticos ainda eram identificados
pelo pertencimento às siglas anteriores a 1965, principalmente a UDN e o
PSD, e as disputas internas opunham correntes surgidas então. Margaret
Jenks, em seu estudo sobre as legendas políticas durante a ditadura, retra-
tou a permanência dos velhos laços partidários por meio de um evento
prosaico durante a campanha para as eleições municipais de 1976. Num
mesmo voo para Mato Grosso, estavam o líder do governo na Câmara, Célio
Borja, e o presidente da MDB, deputado Ulysses Guimarães. No aeropor-
to, esperavam pelo deputado arenista dois grupos, formados por políticos
da ex-UDN e do ex-PSD. Ao ver o líder oposicionista, imediatamente o
grupo formado por ex-pessedistas pediu licença para ir cumprimentar o “com-
panheiro de partido”, deixando de lado a recepção ao representante da
Arena.31 Em outros casos, as disputas intrapartidárias em relação à indica-
ção de nomes para candidaturas ou ocupação de cargos importantes, prin-
cipalmente na Arena, continuavam colocando em oposição grupos cuja
lealdade era fornecida pelo pertencimento a uma sigla pretérita a 1965.
A continuidade das identidades partidárias deve muito à manutenção
das redes individuais dos políticos, que foram transferidas para os novos
partidos. Houve um esforço permanente de mobilização e direcionamento

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dos antigos diretórios municipais, cabos eleitorais e bases para a Arena e o


MDB. Nesse sentido, como afirma Grinberg, se os partidos eram novos e
artificiais, seus membros tinham longa prática política, o que permitia a per-
manência das identidades anteriormente construídas junto ao eleitorado e
às forças políticas atuantes.32
Do que foi dito, é possível afirmar que muitos políticos continuaram de-
senvolvendo uma atuação permanente junto aos partidos, às instituições e à
população. O prestígio, os redutos eleitorais e o espaço público de muitas
lideranças foram mobilizados em um novo contexto institucional, muitas vezes
na defesa da intervenção militar em 1964 e do regime autoritário estabeleci-
do nas décadas seguintes. Ao mesmo tempo, essa ação fazia parte do traba-
lho cotidiano necessário para garantir a manutenção das carreiras políticas
individuais, o que obrigava esses homens a buscarem se aproximar das auto-
ridades, intermediarem as reivindicações de seus eleitores, influenciarem de-
cisões e nomeações governamentais, entre outras práticas características dos
políticos. Nesse duplo movimento, o regime autoritário assentava lugar em
uma história que se iniciara para aquém do golpe de 1964.

O FORTALECIMENTO DA DINÂMICA ELEITORAL E O SURGIMENTO


DE NOVAS IDENTIDADES

Se a identidade partidária de antigas lideranças resistiu no sistema bipar-


tidário, outras foram criadas a partir da dinâmica eleitoral no decorrer do
regime militar. Esse é o caminho apontado por grande parte das análises
produzida sobre as eleições ocorridas durante a ditadura. Um dos aspectos
verificados foi a tendência constante do crescimento do MDB, principal-
mente nas áreas mais urbanizadas, acompanhada do declínio da Arena, que
concentrou seu poder eleitoral nos municípios menores e nas áreas rurais.
Isso se pronunciou nos primeiros anos da década de 1970 e adquiriu mais
força nos pleitos parlamentares seguintes.33
Esse movimento não significa, porém, uma reversão de expectativas an-
teriores, e sim uma intensificação da força que o partido oposicionista sem-
pre teve nos maiores centros urbanos, enquanto a Arena se caracterizou desde

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

o seu surgimento pela maior presença em regiões do interior do país. Esse


aspecto está diretamente ligado ao que vimos tratando: a transferência das
redes políticas anteriores a 1964. Os ex-udenistas e ex-pessedistas que se
filiaram ao partido do governo tinham fortes raízes nas áreas rurais e foram
capazes de organizar diretórios municipais e impulsionar o novo partido em
suas regiões.34 O MDB, por sua vez, herdou um grande número de parla-
mentares com atuação destacada no meio urbano e aí foi possível se articular
mais rapidamente, ao contrário do que ocorreu no interior dos estados.35
O avanço das conquistas parlamentares do MDB a partir de 1974 aba-
lou seriamente a supremacia que os arenistas haviam alcançado em 1966 e
1970, permitindo estabelecer uma divisão do período bipartidário em duas
fases no que se refere às eleições para o poder Legislativo — a primeira
engloba os pleitos de 1966 e 1970, com enorme vantagem para a Arena, e
a segunda refere-se às eleições de 1974 e 1978, quando os oposicionistas
tomaram conta de posições importantes.36 A Arena conseguiu manter seu
controle nos estados das regiões Norte e Nordeste, sua maior base eleitoral
e da qual passou a depender cada vez mais; entretanto, mesmo aí o MDB
logrou penetrar nas cidades mais industrializadas.37
No âmbito dos municípios, também pode ser registrado um crescimento
contínuo do MDB durante a década de 1970, decorrente não só da imagem
oposicionista que o partido adquiriu a partir da campanha de 1974 como
do trabalho de organização e enraizamento por meio da criação de dire-
tórios. Ainda assim, a Arena permaneceu com uma larga vantagem no
número de prefeitos eleitos. Isso indica que, a despeito do crescimento do
MDB nas maiores cidades, a capilaridade da estrutura organizacional do par-
tido governista lhe garantiu uma grande força política e controle sobre o
eleitorado. A herança de grande parte de líderes locais e estaduais do PSD
e UDN, como já apontamos, somada à chegada, após 1970, de muitos pre-
feitos que, eleitos pelo MDB, migraram para a Arena buscando aproximar-
se do governo, foram fundamentais nesse processo.38 O MDB só veio a
alcançar uma abrangência nacional em fins da década de 1970, quando
conseguiu organizar quase três mil diretórios no país.39
Os números do controle arenista sobre as prefeituras são muito expres-
sivos. Em 1968, conquistou o poder em 80% dos municípios; quatro anos

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depois, esse índice subiu para 88%. Segundo Jenks, nesse pleito o MDB
sequer foi capaz de apresentar candidatos em um quarto dos municípios,
principalmente nas regiões Norte e Nordeste.40 Em 1976, a alteração foi
mínima em relação ao número de municípios controlados pela Arena, que
alcançou 83%. O interessante a notar é que, embora os arenistas perdessem
somente 5% do número de prefeituras conquistadas em 1972, a votação
do MDB cresceu 30% em 1976, praticamente se equiparando ao adversá-
rio em número de votos, o que corrobora a força oposicionista nos maiores
centros urbanos.41
Para entender a discrepância entre o crescimento alcançado pelo MDB
nas eleições para os órgãos legislativos e a força arenista nos municípios, é
importante indicar um elemento fundamental das atividades políticas du-
rante o regime militar. A dinâmica que regeu as eleições parlamentares se
diferenciou do que podemos encontrar no âmbito municipal, no qual as
disputas estaduais ou nacionais cediam lugar às questões locais e a proxi-
midade com os governos estadual e federal adquiria grande importância.42
Nesse processo, os governadores desempenharam um papel crucial, uma
vez que serviram como elo entre as orientações, os recursos e programas
do governo federal e os políticos da Arena em seus estados, responsáveis
pelo trabalho de base para a conquista de votos.
Fato é que, ao longo da década de 1970, o crescimento eleitoral do MDB
foi inegável, sendo embasado na construção de uma imagem oposicionista
de tons inéditos que lhe garantiu grande apoio entre a população assalariada
e mais pobre dos grandes centros urbanos.43 Essa nova identidade, por sua
vez, foi cuidadosamente construída pelas lideranças oposicionistas. Desde
inícios de 1971, a atuação no Congresso Nacional do grupo de deputados
conhecido como autênticos e a campanha da anticandidatura de Ulysses
Guimarães, em 1973, iniciaram o trabalho de divulgar uma imagem pública
do MDB como um partido crítico ao regime e com objetivos de luta claros,
superando a apatia e moderação extremada que pareciam dominá-lo desde a
crise de 1968. A campanha eleitoral desenvolvida em 1974 foi bastante impor-
tante para agregar a essa imagem o aspecto de partido defensor dos pobres.44
Os sinais de mudança na orientação do MDB podiam ser vistos na reu-
nião do partido ocorrida em Campinas, em 1971. Nessa ocasião, o jovem

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

prefeito dessa cidade, Orestes Quércia, cuja carreira se iniciara em 1963


como vereador pelo Partido Libertador, defendeu a adoção de uma atitude
pragmática, afirmando que, para além das questões democráticas, havia
outros problemas de cunho social e econômico que afetavam diretamente
a população e diante das quais o partido era obrigado a se manifestar.45 A
força de Orestes Quércia advinha de um intenso trabalho de estruturação
do partido, em São Paulo, ao qual ele se dedicava, com a criação de cente-
nas de diretórios municipais.46 Nessa mesma época, os deputados autênti-
cos chamavam a atenção para a necessidade de o MDB organizar-se não só
em diretórios, mas também junto a grupos específicos como os jovens, as
mulheres e os trabalhadores.47 Em ambas as iniciativas, deve ser sublinhada
a percepção interna da necessidade de aproximação do partido com a socie-
dade, discutindo importantes questões e trabalhando no sentido de inten-
sificar a participação e a mobilização políticas.
A proposta de Quércia sobre as diretrizes que deveriam nortear a atuação
do MDB acabou ganhando apoio. Na campanha eleitoral de 1974, todo um
esforço foi feito para elaborar um discurso unificado para os candidatos do
partido, redirecionando algumas críticas e incorporando, então, os temas
socioeconômicos ao debate.48 Franco Montoro, coordenador nacional da
campanha desse ano, reuniu-se em São Paulo com os principais líderes do
partido para traçar uma estratégia comum e percorreu exaustivamente o país,
participando, segundo ele, de uma infinidade de programas de televisão.49
A partir desse momento, o MDB construiria sua posição diante do governo
relacionando temas sociais e econômicos às questões políticas. Daí o slogan
“O país vai bem. E você? Vote no MDB. Você sabe por quê”. No mesmo tom
vinham os discursos proferidos pelos candidatos do partido, contra os quais os
arenistas diziam ficar sem respostas — a comparação entre o “preço do frango
e as horas de trabalho necessárias para comprá-lo”, a crítica à construção de
“grandes obras enquanto a população passava fome”, as denúncias da concen-
tração de renda confrontadas com os índices de crescimento da economia.50
Em 1974, o senador Paulo Torres, militar que participara do levante te-
nentista de 1922 e foi candidato à reeleição pela Arena derrotado por
Saturnino Braga no Estado do Rio de Janeiro, resumiu seu dilema nos se-
guintes termos:

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Eu apresentava gráficos e estatísticas na televisão, mostrando que em 1963


havia tantos analfabetos e que agora só existiam tantos. Falei das obras da
Revolução, principalmente da ponte Rio-Niterói. Aí eles vinham e falavam
que precisavam tantas horas de trabalho para comprar um quilo de carne e que
ponte não enche barriga.51

A partir desse ponto, a relação entre liberdade política e condenação da


desigualdade social (vista pela ótica popular e do trabalhador) passou a for-
mar o eixo fundamental do discurso público do MDB — a liberdade e a
justiça social enfatizadas por Tancredo Neves. A propagação dessa leitura
da realidade e dos problemas brasileiros deitou raízes no eleitorado nos anos
seguintes. No programa que o MDB exibiu em cadeia de rádio e televisão,
em junho de 1977, o mesmo raciocínio esteve presente na fala do presi-
dente do partido, o deputado Ulysses Guimarães, e do líder no Senado, Fran-
co Montoro: as restrições à participação política dos cidadãos impostas pelo
regime levaram à adoção de uma política econômica marcada pelo arrocho
salarial e pelos preços altos.52 Essa ação capitaneada pelos líderes do parti-
do, mas contando com a participação de diferentes correntes internas, pro-
porcionou aos emedebistas a oportunidade de estabelecer novos laços com
os eleitores e, assim, aprofundar a legitimação de seus mandatos populares
como representantes dos interesses sociais. Nesse processo desenvolvido
desde o início dos anos 1970, o MDB terminou por desempenhar o que,
para Serge Berstein, é uma das funções primordiais dos partidos: a articula-
ção, numa linguagem própria da política, de um discurso sobre a realidade
que propõe uma solução para os problemas vividos pela sociedade. Em ou-
tras palavras, os políticos são responsáveis por fazer a mediação entre um
problema e a maneira como ele é lido e compreendido socialmente, o que a
legenda oposicionista esmerou-se por realizar a partir da década de 1970.53
Citando Bolivar Lamounier, os “partidos não são somente agregadores
de interesses, mas também formadores de opiniões e atitudes”.54 Construir
um discurso público no qual a solução dos problemas econômicos, tema
fundamental para a população mais pobre dos centros urbanos, se ligava
diretamente ao reforço das instituições democráticas foi a explicação da
realidade e o caminho indicado pelo MDB. A partir das eleições de 1974,

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

esse discurso oposicionista atraiu muitos votos. Conferiu à disputa de al-


guns cargos, como o de senador, um caráter plebiscitário, na medida em
que se colocou como um julgamento do governo — e nessa categoria se
incluiria o crescimento dos votos na legenda.55 Foi capaz também de origi-
nar ideologias e líderes, identificados com as mudanças e os problemas da
sociedade brasileira na década de 1970.
Com essa imagem forjada para e pelo MDB, novas identidades surgi-
ram, coexistindo e se mesclando com lealdades aos partidos extintos em
1965 e às antigas lideranças. Hélgio Trindade e Fernando Henrique Car-
doso, em estudos sobre os resultados das eleições de 1974 no Rio Grande
do Sul e em São Paulo, afirmaram que os eleitores dos candidatos do MDB
seriam os que apoiavam as antigas siglas de centro-esquerda e transferiram
suas preferências para os emedebistas, a partir do início da década de 1970.56
Dessa forma, os autores verificaram uma continuidade ideológica em parte
do eleitorado, disposta a apoiar candidatos novos cujo discurso mostrava
semelhanças com a plataforma defendida pelos trabalhistas. Ao lado desse
grupo, novos eleitores — principalmente jovens, urbanos, de estratos mais
baixos da população — encaminharam-se também para o apoio ao MDB.
Retomando a distinção sobre as duas fases do período bipartidário, pode-
se afirmar que o pleito de 1974 explicitou a emergência de uma nova dinâ-
mica política e eleitoral, marcada por uma intensificação dos debates
públicos, pela identificação de bases sociais e geográficas diferenciadas para
Arena e MDB e pela maior mobilização social. Nesse sentido, a artificialidade
debitada aos partidos criados em 1965 perdeu cada vez mais espaço diante
dos aspectos renovados das atividades político-partidárias.57
O enraizamento social do MDB e sua força crescente tiveram, como
efeito, o fortalecimento na sociedade do caminho pensado pela ditadura
para sua própria legitimação e transformação: as instituições políticas re-
presentativas clássicas — o Congresso Nacional, a atuação partidária, a
competição eleitoral.58 Encontrando nas eleições uma possibilidade de con-
quistar posições cada vez mais importantes, os líderes do MDB comprome-
teram-se progressivamente com uma atuação dentro dos limites permitidos
pelo regime ditatorial, ainda que sob o preço de enfrentar constantes crises
internas por conta de setores que defendiam para o partido uma atitude

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mais oposicionista e desafiadora. Essa opção terminou por unir situação e


oposição em torno de alguns temas comuns, como a defesa do fortaleci-
mento do Congresso Nacional, ao lado da necessidade de negociação cons-
tante e “respeitosa” com as autoridades do regime.

O APOIO ELEITORAL À ARENA: CLIENTELISMO E CONSERVADORISMO

O crescimento do MDB e o destaque alcançado por ele durante a década


de 1970 atraíram muita atenção de jornalistas, sociólogos, cientistas políti-
cos e historiadores sobre o partido; daí o grande peso que adquire até neste
trabalho. Mas o que dizer acerca da força eleitoral da Arena? À primeira
vista, a literatura disponível parece indicar que não há muito a se questio-
nar sobre os votos que esse partido recebeu ou sobre o que eles poderiam
nos informar acerca de identidades partidárias e ideologias. Se o apoio ao
MDB foi entendido como canal de protesto e repúdio às ações governa-
mentais ou expressão de eleitores de centro e de esquerda, os votos dados
aos arenistas foram geralmente debitados na conta de práticas clientelistas.
Tendo seus redutos eleitorais localizados nos chamados “grotões”, em áreas
menos urbanizadas, e, principalmente, nos estados das regiões Norte e
Nordeste onde reinariam as oligarquias tradicionais e cenários marcados
por altos índices de pobreza e analfabetismo, o suporte à Arena não carece-
ria de maiores investigações, podendo ser compreendido como resultado
do uso da máquina estatal para a conquista do voto.59
Sem dúvida, não há como negar a maior presença arenista nas áreas ru-
rais e a força que o partido retirou daí. Também é difícil deixar de reconhe-
cer as estreitas relações do Estado autoritário com os políticos da Arena,
que facilitaram a esses o acesso a recursos federais e estaduais. A necessidade
de estar próximo das benesses do Estado fez com que muitos políticos, cuja
base eleitoral se sustentava na distribuição de bens públicos, se ligassem ao
partido do governo. Por outro lado, a premência pelo sucesso eleitoral da
Arena que a própria ditadura exigia, principalmente a partir de 1974, deri-
vou na intensa manipulação dos recursos federais em benefício dos candi-
datos arenistas.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Muitos autores sublinharam a relação entre o fortalecimento eleitoral


do MDB e a ação governamental em benefício da Arena. Margaret Jenks
identificou o uso em larga escala de práticas clientelistas, intensificado a
partir de 1975, pelos grupos políticos anteriores a 1965 que formaram as
principais correntes arenistas. Fernando Abrúcio enfatizou o aumento dos
repasses federais para os estados após 1974, especialmente aqueles mais
pobres localizados nas regiões Norte e Nordeste do país, onde a Arena
obteve grande força eleitoral. Sônia Draibe investigou a aplicação das polí-
ticas sociais durante a ditadura, encontrando uma relação direta entre o
aumento da competição eleitoral e o uso clientelista dos programas públi-
cos. Frances Hagopian, num estudo sobre Minas Gerais, afirmou que as
elites políticas tradicionais conseguiram manter uma articulação importan-
te com as agências burocráticas criadas pelos governos estadual e federal;
relação fortalecida, segundo a autora, nos momentos em que o regime teve
de enfrentar o crescimento do MDB. Por fim, Alzira Alves de Abreu, anali-
sando o arquivo pessoal do general Geisel doado ao CPDoc-FGV, apontou
as relações estreitas entre a política de concessão de canais de rádio duran-
te o governo Geisel e os imperativos das disputas da Arena com o MDB.60
Essa argumentação pode nos ser bastante útil para pensar o emprego de
práticas clientelistas como forma de produzir o apoio social à ditadura, for-
talecendo as posições dos políticos arenistas — o que, de resto, coloca-se
como um elemento tradicional das relações políticas no Brasil. Acredita-
mos, porém, que ela não é a única a explicar os votos da Arena, pois se
concentra exclusivamente numa variável não ideológica. Ao fazer isso, des-
preza o dado de que, assim como o MDB conquistou votos defendendo
ideias sobre liberdade, distribuição de renda, custo de vida e desigualdade
social, os candidatos arenistas também apresentaram suas bandeiras, em-
bora sobre elas tenhamos pouco conhecimento.
É interessante observar a predominância desse tipo de visão restrita acerca
do apoio à Arena por parte até dos autores que se dispõem a analisar os
partidos conservadores por uma dimensão ideológica, como é o caso de
Mainwaring, Meneguello e Power.61 Em seu estudo, os autores não usam
uma definição de conservadorismo calcada em um núcleo ideológico es-
sencial, tomando por base as posições programáticas dos partidos em rela-

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ção a políticas e propostas específicas. Esse critério confere um caráter


conjuntural a essas classificações, na medida em que são as posições adotadas
diante de questões discutidas em cada período histórico que situam os par-
tidos no espectro ideológico.
No Brasil republicano, de uma forma geral os autores sublinharam que o
clientelismo e personalismo são características distintivas da ação dos con-
servadores para a conquista de suporte eleitoral e o estabelecimento de redes
políticas.62 Para o período do regime militar, essa interpretação se acentuou.
Afirmando que a ditadura se apoiou nas siglas conservadoras e que a Arena
seria “o novo veículo do conservadorismo”,63 continuando o trabalho do PSD
e da UDN, os autores explicaram a força arenista pela patronagem e pelo
clientelismo, sobretudo rural. Nas áreas urbanas e mais desenvolvidas, o apoio
ao partido governista seria declinante em razão do maior nível de informa-
ção política e da menor dependência dos recursos federais. Mais uma vez, a
possibilidade de analisar a Arena a partir de suas linhas programáticas, inclu-
sive das votações de diferentes projetos no Congresso Nacional, foi ignorada
e o peso recai sobre esquemas clientelistas e de patronagem.
As diferenças entre as legendas no sistema bipartidário se resumiriam,
segundo os autores citados, às atitudes em relação ao regime militar e à de-
mocracia. Todavia, a seguirmos esse raciocínio, como entender a rejeição dos
deputados arenistas a projetos governamentais, como ocorreu em 1968, ou
as críticas constantes feitas no Parlamento à falta de liberdade política ou às
restrições impostas aos partidos? Em vários desses momentos, as atitudes dos
governistas concernentes à democracia e ao regime militar se aproximaram
muito daquelas defendidas pelo MDB, o que tornaria mais confusa a distin-
ção entre os dois partidos. Para além, as questões debatidas pelos políticos
durante a ditadura foram bem mais amplas e diversificadas e sua análise po-
deria fornecer importantes subsídios para ampliar a compreensão da atua-
ção partidária nesse período, sob um viés ideológico.
Na obra de Motta, ele expõe uma pesquisa feita pelo Jornal do Brasil com
parlamentares dos dois partidos em 1975 demonstrando diferenças relevan-
tes entre as convicções de arenistas e emedebistas, que aproximariam os pri-
meiros de concepções de direita e conservadoras. Finalmente, analisando as

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

votações na Assembleia Constituinte em 1986 nos temas referentes ao capi-


tal e trabalho, Madeira encontrou uma diferenciação relevante entre os vo-
tos de ex-emedebistas e ex-arenistas — a despeito dos partidos políticos aos
quais esses se filiaram após 1979 — que permitiria alocá-los em posições mais
progressistas e mais conservadoras, respectivamente.64
As práticas clientelistas e de cooptação não são muito úteis, por exem-
plo, para explicar o apoio, ainda que decrescente, que a Arena recebeu nos
centros urbanos, vindo de parte relevante das classes média e alta. Se o voto
no MDB nas cidades foi o voto dos mais jovens e da identificação do pobre
contra o rico, como podemos entender o eleitor urbano e rico da Arena,
que não se colocava na dependência da distribuição de bens públicos? Se as
antigas bases eleitorais petebistas se aproximaram do MDB, por que as
udenistas não se encontrariam nas ideias da Arena? Essa é até uma das con-
clusões apontadas por Fábio Wanderley Reis em seu estudo sobre as elei-
ções de 1974 em Minas Gerais, no qual os eleitores udenistas tenderam a
apoiar os candidatos da Arena. Numa survey realizada em São Paulo no
mesmo ano, Lamounier encontrou diferenças ideológicas entre os eleito-
res emedebistas e arenistas, que situavam os segundos em posições conser-
vadoras e evocavam, segundo o autor, características da velha UDN.
Se o surgimento de novas identificações partidárias no MDB foi uma
questão a demandar explicações, a continuidade das correntes conserva-
doras também deveria ser — e, para além, o exame das transformações no
próprio pensamento conservador em meio a um período de profundas trans-
formações sociais como os anos entre 1964 e 1985. Por isso, e fazendo eco
aos trabalhos de Lúcia Grinberg, analisar mais profundamente o caráter
ideológico da Arena pode suscitar uma reflexão sobre a atuação das cor-
rentes políticas de direita na política brasileira.65 Desse modo, não só o MDB,
mas também a Arena pode ser entendida como um canal de participação e
representação das ideologias e setores sociais, canalizando para o regime
militar o apoio de eleitores conservadores.

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Notas

1. GASPARI, Elio. A ditadura derrotada. São Paulo, Companhia das Letras, 2003,
pp. 319-320.
2. SCHMITT, Rogério. Partidos políticos no Brasil (1945-2000). Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor, 2000; FLEISCHER, David. “Manipulações casuísticas do
sistema eleitoral durante o período militar, ou como usualmente o feitiço se vol-
tava contra o feiticeiro”, in: SOARES, Gláucio Ary Dillon; D’ARAUJO, Maria
Celina (orgs.). 21 anos de regime militar: balanços e perspectivas. Rio de Janeiro:
FGV, 1994; ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil (1964-
1984). Petrópolis: Vozes, 1987.
3. BAAKLINI, Abdo. O Congresso e o sistema político no Brasil. Rio de Janeiro: Paz
e Terra, 1993.
4. GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras,
2002; GRINBERG, Lúcia. Partido político ou bode expiatório: um estudo sobre a
Aliança Renovadora Nacional. Tese de Doutorado, Universidade Federal
Fluminense, Niterói, 2004a. Sobre a lógica das primeiras ondas de cassação de
mandatos e direitos políticos, ver SOARES, Gláucio Ary Dillon. “As políticas de
cassações”. Dados, Rio de Janeiro, nº 21, 1979, pp. 69-85; DINIZ, Eli. Voto e
máquina política: patronagem e clientelismo no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1982.
5. VASCONCELOS, Cláudio B. A preservação do Legislativo pelo regime militar
brasileiro: ficção legalista ou necessidade de legitimação (1964-1968). Disserta-
ção de Mestrado, UFRJ, 2004.
6. FLEISCHER, David. “Os partidos políticos”, in: AVELAR, Lúcia; CINTRA, An-
tônio Octávio (orgs.). Sistema político brasileiro: uma introdução. Rio de Janei-
ro/São Paulo: Fundação Konrad-Adenauer-Stiftung/Fundação Unesp, 2004, pp.
249-285.
7. GRINBERG, Lúcia. A Aliança Nacional Renovadora (Arena): a criação do bipar-
tidarismo e do partido do governo (1965-1979). Dissertação de Mestrado, Uni-
versidade Federal Fluminense, Niterói, 1998.
8. MONTORO, André Franco. Memórias em linha reta. São Paulo: Editora Senac
São Paulo, 2000, p. 14.
9. Idem, p. 123.
10. KINZO, Maria D’Alva Gil. “Partidos, eleições e democracia no Brasil pós-1985”.
Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, vol. 19, nº 54, 2004, pp. 23-41;
SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Votos e partidos: almanaque de dados elei-
torais: Brasil e outros países. Rio de Janeiro: FGV, 2000.

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11. Sobre essa literatura, ver a introdução de Hélgio Trindade em MAINWARING,


Scott; MENEGUELLO, Rachel; POWER, Timothy. Partidos conservadores no
Brasil contemporâneo. Quais são, o que fazem, quais são suas bases. São Paulo:
Paz e Terra, 2000.
12. LIMA Jr., Olavo Brasil; SCHMITT, Rogério A.; NICOLAU, Jairo César. “A pro-
dução brasileira recente sobre partidos, eleições e comportamento político: ba-
lanço bibliográfico”. BIB, Rio de Janeiro, nº 34, 2º semestre de 1992.
13. O minucioso levantamento bibliográfico feito pelo historiador Carlos Fico e
publicado em 2004 pode corroborar essa avaliação. FICO, Carlos. Além do gol-
pe: a tomada do poder em 31 de março de 1964 e a ditadura militar. Rio de
Janeiro: Record, 2004.
14. GRINBERG, Lucia, op. cit., 1998; GRINBERG, Lucia, op. cit., 2004a.
15. MELHEM, Célia Soibelmann. Política de botinas amarelas: o MDB-PMDB paulista
de 1965 a 1988. São Paulo, Hucitec/Departamento de Ciência Política da USP,
1998; CANATO, César. Arena e MDB em Araraquara (1965-1979). Dissertação
de Mestrado, Unicamp, 2003; DOCKHORN, Gilvan O.V. A redefinição do Esta-
do autoritário brasileiro: a perspectiva do Parlamento sul-rio-grandense (1974-
1984). Tese de Doutorado, UFRGS, 2004; VERSIANI, Maria Helena. Padrões e
práticas na política carioca: os deputados federais eleitos pela Guanabara em 1962
e 1970. Dissertação de Mestrado em História Social, UFRJ, 2007.
16. FIGUEIREDO, Marcus; KLEIN, Lúcia. Legitimidade e coação no Brasil pós-64.
Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1978; Brasil, nunca mais. Petrópolis: Vo-
zes, 1985; GASPARI, Elio, op. cit., 2002; GASPARI, Elio, op. cit., 2003. Para as
relações entre o regime autoritário e o Congresso Nacional, ver BAAKLINI, Abdo,
op. cit.; PESSANHA, Charles. “O poder Executivo e o processo legislativo nas
constituições brasileiras: teoria e prática”, in: VIANNA, L.J.W. (org.). A demo-
cracia e os três poderes no Brasil. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002.
17. Sobre a produção legislativa durante o regime militar, ver BAAKLINI, Abdo, op.
cit.; ASTIZ, Carlos. “O papel atual do Congresso brasileiro”, in: MENDES, Cân-
dido (org.). O Legislativo e a tecnocracia. Rio de Janeiro: Imago/Conjunto Uni-
versitário Cândido Mendes, 1975.
18. Uma discussão dessas visões é feita em GRINBERG, Lúcia. “Uma memória polí-
tica sobre a Arena: dos ‘revolucionários de primeira hora’ ao ‘partido do sim,
senhor’”, in: REIS, Daniel Aarão; RIDENTI, Marcelo; MOTTA, Rodrigo Patto
Sá (orgs.). O golpe e a ditadura militar: 40 anos depois (1964-2004). Bauru:
Edusc, 2004b, pp. 141-159.
19. VILELA, Teotônio. A pregação da liberdade. Andanças de um liberal. Porto Ale-
gre: L&PM Editores, 1977, pp. 63-64.

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20. Conclusão semelhante se origina da leitura de depoimentos e biografias de figuras


políticas que atuaram durante a ditadura militar. Ver, por exemplo, MONTORO,
op. cit.; VILELA, op. cit.; NADER, Ana Beatriz. Autênticos do MDB: história
oral de vida política. São Paulo: Paz e Terra, 1998; GUIMARÃES, Ulysses et al. A
luta pela democracia: MDB no rádio e na TV. Florianópolis: Instituto de Estudos
Pedroso Horta, s/d.
21. NADER, Ana Beatriz, op. cit., p. 116.
22. Para as citações, Retratos do Brasil (Da Monarquia ao Estado militar). São Paulo:
Política Editora de Livros, Jornais e Revistas, 1994, vol. 4, pp. 27; 93; 107-108.
As informações biográficas se basearam em ABREU, Alzira Alves de et al. (orgs.).
Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro Pós-1930. Rio de Janeiro, FGV, 2001.
23. As eleições para prefeitos e vereadores, a partir de 1970, passaram a se realizar
entre os pleitos para deputados estaduais, federais e senadores. FLEISCHER,
David, op. cit., 1994.
24. MADEIRA, Rafael Machado. Vinhos antigos em novas garrafas: a influência de
ex-arenistas e ex-emedebistas no atual multipartidarismo brasileiro. Tese de
Doutoramento em Ciência Política, UFRGS, 2006, pp. 51-52.
25. SANTAYANA, Mauro. Conciliação e transição, as armas de Tancredo. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1985.
26. A lei exigia a filiação de 120 deputados federais e 20 senadores, o que implicava
o surgimento de, no máximo, três siglas, considerando o número de 409 deputa-
dos e 66 senadores que compunham o Congresso Nacional em 1966.
27. SANTOS, André Marenco dos. Não se fazem mais oligarquias como antigamen-
te. Recrutamento parlamentar, experiência política e vínculos partidários entre
deputados brasileiros (1946-1988). Tese de Doutorado, UFRGS, 2000.
28. FLEISCHER, David. “A evolução do bipartidarismo brasileiro 1966-1979”. Revista
Brasileira de Estudos Políticos, Belo Horizonte, nº 51, 1980, pp. 55-85; MOTTA,
Rodrigo Patto Sá. Partido e sociedade: a trajetória do MDB. Ouro Preto, UFOP, 1997.
29. GRINBERG, Lúcia, op. cit., 2004a.
30. KINZO, Maria D’Alva Gil. Oposição e autoritarismo. Gênese e trajetória do MDB
(1966-1979). São Paulo, Vértice/Revista dos Tribunais, 1988; MOTTA, Rodrigo
Patto Sá, op. cit.; MELHEM, Célia S., op. cit.
31. JENKS, Margaret. Political Parties in Authoritarian Brazil. Dissertação de Ph.D.,
Duke University, 1979, pp. 301-302.
32. GRINBERG, Lúcia, op. cit., 1998, pp. 50-51.
33. CARDOSO, Fernando Henrique; LAMOUNIER, Bolívar (orgs.). Os partidos e
as eleições no Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978; KINZO, Maria
D’Alva Gil, op. cit., 1988; LAMOUNIER, Bolívar; REIS, Fábio Wanderley (eds.).
Os partidos e o regime. São Paulo: Símbolo, 1978.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

34. A Arena se organizou também contando com quase todos os diretórios do Partido
da Representação Popular, Partido Republicano, Partido Democrata Cristão e
Partido Social Trabalhista. Cf. o texto de Lúcia Grinberg, “‘Saudações arenistas’:
a correspondência entre partidários da Aliança Renovadora Nacional (Arena),
1966-1979”, nesta coleção.
35. JENKS, Margaret, op. cit.; MOTTA, Rodrigo Patto Sá, op. cit.
36. SCHMIT, Rogério, op. cit.
37. DINIZ, Eli. “O ciclo autoritário: a lógica partidário-eleitoral e a erosão do regi-
me”, in: LIMA Jr., Olavo Brasil de (org.). O balanço do poder: formas de domi-
nação e representação. Rio de Janeiro: Iuperj/Rio Fundo Editora, 1990; SCHMIT,
Rogério, op. cit.; CAROPRESO, Álvaro; PEREIRA, Raimundo; RUY, José Carlos.
Eleições no Brasil pós-64. São Paulo: Global, 1984.
38. JENKS, Margaret, op. cit.
39. ANASTACIA, Maria de Fátima. Partido Democrático Social e a crise da ordem
autoritária no Brasil (1979-1984). Dissertação de Mestrado, UFMG, 1985.
40. É importante lembrar que, nesse período, o partido oposicionista se debatia in-
ternamente com as cassações derivadas do AI-5 e os números desanimadores das
eleições parlamentares em 1970. A proposta de dissolução foi aventada diversas
vezes, diante dos limites impostos pelo governo autoritário a suas ações.
41. JENKS, Margaret, op. cit.
42. TRINDADE, Hélgio. “Padrões e tendências do comportamento eleitoral no Rio
Grande do Sul”, in: CARDOSO, Fernando Henrique; LAMOUNIER, Bolívar.
(orgs.), op. cit.
43. CARDOSO, Fernando Henrique. “Partidos e deputados em São Paulo: o voto e
a representação política”, in: CARDOSO, Fernando Henrique; LAMOUNIER,
Bolívar (orgs.), op. cit.; REIS, Fábio Wanderley. “As eleições em Minas Gerais”,
in: CARDOSO, Fernando Henrique; LAMOUNIER, Bolívar (orgs.), op. cit.;
CAROPRESO, Álvaro; PEREIRA, Raimundo; RUY, José Carlos, op. cit.
44. KINZO, Maria D’Alva Gil. “O legado oposicionista do MDB, o partido do Mo-
vimento Democrático Brasileiro”, in: SOARES, Gláucio Ary Dillon; D’ARAUJO,
Maria Celina (orgs.), op. cit.
45. JENKS, Margaret, op. cit.
46. MELHEM, Célia S., op. cit.
47. MOTTA, Rodrigo Patto Sá, op. cit.
48. KINZO, Maria D’Alva Gil, op. cit., 1988.
49. MONTORO, André Franco, op. cit.
50. GASPARI, Elio, op. cit., 2003.
51. KINZO, Maria D’Alva Gil, op. cit., 1988, p. 157.
52. GUIMARÃES, Ulysses et al., op. cit.

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53. BERSTEIN, Serge. “Os partidos”, in: RÉMOND, René. Por uma história políti-
ca. Rio de Janeiro: UFRJ/FGV, 1996, pp. 57-98.
54. CARDOSO, Fernando Henrique; LAMOUNIER, Bolívar, op. cit., p. 33.
55. LAMOUNIER, Bolívar. “O Brasil autoritário revisitado, o impacto das eleições
sobre a abertura”, in: STEPAN, Alfred. Democratizando o Brasil. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 1988.
56. TRINDADE, Hélgio, op. cit., 1978; CARDOSO, Fernando Henrique;
LAMOUNIER, Bolívar (orgs.), op. cit.
57. MADEIRA, Rafael M., op. cit.; MELHEM, Célia S., op. cit.
58. LAMOUNIER, Bolívar, op. cit., 1988.
59. GRINBERG, Lúcia, op. cit., 2004b.
60. JENKS, Margaret, op. cit.; ABRÚCIO, Fernando Luiz. Os barões da federação:
os governadores e a redemocratização brasileira. São Paulo: Hucitec, 2002;
DRAIBE, Sônia. “As políticas sociais do regime militar: 1964-1985”, in: SOA-
RES, Gláucio Ary Dillon; D’ARAUJO, Maria Celina (orgs.) op. cit.; HAGOPIAN,
Frances. Traditional Politics and Regime Change in Brazil. Cambridge: Cambridge
University Press, 1996; ABREU, Alzira Alves de. “As telecomunicações no Brasil
sob a ótica do governo Geisel”, in: CASTRO, Celso; D’ARAUJO, Maria Celina
(orgs.). Dossiê Geisel. Rio de Janeiro: FGV, 2002.
61. MAINWARING, Scott; MENEGUELLO, Rachel; POWER, Timothy, op. cit.
62. Idem, capítulos 1 e 2.
63. Idem, p. 24.
64. LAMOUNIER, Bolívar; REIS, Fábio Wanderley, op. cit.; MOTTA, Rodrigo Patto
Sá, op. cit., pp. 46-59; MADEIRA, Rafael M., op. cit., pp. 99-102.
65. GRINBERG, Lúcia, op. cit., 2004b.

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CAPÍTULO 7 “Saudações arenistas”: a correspondência
entre partidários da Aliança Renovadora
Nacional (Arena), 1966-1979
Lucia Grinberg*

*Professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Autora de Par-


tido político ou bode expiatório: um estudo sobre a Aliança Renovadora Nacional (Arena).
Rio de Janeiro: Mauad/Faperj, 2009, e Memórias da Justiça Federal, em coautoria com Pau-
lo Knauss. Rio de Janeiro: Centro Cultural da Justiça Federal, 2009.

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O correligionário que esta lhe escreve é o arenista desde as primei-
ras horas, revolucionário de 64, ingressei na Arena, não apenas por
ser o partido da revolução, mas sim, porque sempre fui contra o
comunismo, a anarquia e a corrupção, razão pela qual consenti que
minha esposa saísse em companhia de minhas cunhadas na passea-
ta que deu início à revolução de 64, COM DEUS, PÁTRIA E
FAMÍLIA.1
O BRASIL É FEITO POR NÓS2

Entre os anos de 1965 e 1979, havia apenas dois partidos políticos na lega-
lidade, sendo a Aliança Renovadora Nacional (Arena) uma legenda gover-
nista e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) um partido de oposição
à ditadura. No arquivo do Diretório Nacional da Arena encontra-se uma
vasta correspondência entre os arenistas por meio da qual podemos ver o
partido em atividade — membros do diretório nacional, dos diretórios re-
gionais e municipais trocavam impressões e tomavam atitudes. As narrati-
vas de políticos, militantes e simpatizantes do partido, de municípios muito
distintos, apresentam uma visão em comum da política nacional, uma certa
interpretação sobre a história do Brasil recente e muitas recomendações para
o futuro do partido e da nação. As cartas indicam uma das maneiras como
parte da sociedade participava politicamente na ditadura, militava e se sen-
tia representada pelo partido.3
Os estudos sobre o regime autoritário têm sido feitos principalmente sob
a ótica dos militares e da oposição. A proposta deste trabalho é analisá-lo e a
seu sistema partidário a partir da perspectiva dos políticos locais e simpati-

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

zantes da Arena. Após a deposição de João Goulart, em março de 1964, muitos


políticos e sindicalistas foram cassados, mas os partidos políticos continua-
ram em atividade.4 No entanto, após as eleições para governadores em 1965
e a vitória de candidatos do Partido Social Democrático (PSD)5 na Guanabara
e em Minas Gerais, o governo Castelo Branco determinou a extinção de to-
dos os partidos políticos por meio do Ato Institucional n° 2 (AI-2), em 27 de
outubro de 1965. O objetivo do governo não era instalar uma ditadura sem
partidos, mas alterar profundamente as forças políticas em jogo.
A Arena e o MDB organizaram-se a partir de exigências do AI-2 e do
Ato Complementar n° 4, que limitavam fortemente a organização dos par-
tidos. Esses só poderiam ser organizados por membros do Congresso Nacio-
nal (em número não inferior a 120 deputados e 20 senadores), as novas
organizações não poderiam usar quaisquer símbolos dos partidos extintos
e tampouco a palavra partido em seus nomes. O objetivo do governo era
criar um sistema partidário novo, procurando descaracterizar as organiza-
ções partidárias em atividade desde 1945.
As análises sobre a Arena são marcadas pela ideia de artificialidade, seja
pela limitada influência no governo ou pela diversidade de origens partidá-
rias de seus membros. No entanto, a Arena foi formada pela nata dos polí-
ticos conservadores, lideranças egressas da União Democrática Nacional
(UDN)6, do PSD, do Partido Social Progressista (PSP), do Partido Liberta-
dor (PL), alguns nomes do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), entre outros.
Quer dizer, a sigla Arena era recente e podia não ter identificação popular
inicialmente, mas as lideranças que formaram o partido eram representan-
tes de forças políticas enraizadas em cada estado ou município. Portanto,
se a Arena foi inventada na ditadura, seus membros não o foram, tendo em
sua maioria longa prática na política partidária de 1945 a 1964. A extinção
dos partidos e a criação de um sistema com apenas dois e da Arena, como
legenda governista, não foram consensuais nem mesmo entre os políticos
que apoiavam o movimento de 1964.7 De qualquer maneira, todos que não
foram presos e/ou tiveram seus direitos políticos cassados e quiseram per-
manecer na política partidária tiveram de escolher entre Arena e MDB.8
Em 1965 tornou-se notória a dificuldade de formar o MDB, quando a
maioria dos deputados e senadores procurou se filiar à Arena.9

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“SAUDAÇÕES ARENISTAS”

A história dos partidos políticos brasileiros é repleta de sucessivas inter-


venções por parte de governos autoritários de vários tipos. Entre elas está
a da Revolução de 1930; a do Estado Novo, em 1937; a do regime militar,
em 1965; e, em 29 de novembro de 1979, a última extinção de partidos,
por iniciativa do Executivo federal, aprovada pelo Congresso Nacional. As
interpretações — acadêmicas ou não — sobre a história dos partidos têm
reforçado muito mais o fator de instabilidade dessas organizações do que o
fato de sua extinção ocorrer através de medidas autoritárias. Com isso, res-
salta-se mais a fragilidade dos partidos do que a arbitrariedade por parte
dos regimes que os eliminaram por meio de decretos.10

“O BRASIL É FEITO POR NÓS”: MEMÓRIA E HISTÓRIA NO ARQUIVO DO


DIRETÓRIO NACIONAL DA ARENA

Entre 1966 e 1979, a Arena esteve em atividade. A memória política con-


solidada após o fim da ditadura desqualifica a legenda como se ela fosse
orientada principalmente por interesses fisiológicos e não fosse represen-
tativa de uma corrente de opinião defendida por uma parte da sociedade
brasileira naqueles tempos.11 No material conservado pelo Diretório Nacio-
nal encontra-se uma outra memória sobre a organização, diferente da visão
desqualificadora da Arena que circulou na imprensa, construída principal-
mente por seus adversários políticos. A documentação produzida pelo
Diretório Nacional e enviada para os seus dirigentes, ao longo dos anos,
indica dimensões distintas da organização, possibilitando uma releitura da
memória social que se tornou hegemônica nas últimas décadas.
A documentação depositada no arquivo do Diretório Nacional da Are-
na não revela grande novidade. Não há furo, no sentido jornalístico. Mas a
leitura dos documentos possibilita o estudo do tema a partir de uma pers-
pectiva original. Os papéis arquivados no Diretório Nacional foram pro-
duzidos na ocasião da fundação da Arena e ao longo de suas atividades.
Como são contemporâneos dos fatos, mostram uma sensibilidade distinta
da memória construída a posteriori tratando dessa questão. O historiador
francês Henry Rousso refere-se a um processo de recontextualização, “que

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

implica que sejam examinadas séries mais ou menos completas para se com-
preender a lógica, no tempo e no espaço, do ator ou da instituição que
produziu esse ou aquele documento”.12
No caso, a documentação da Arena permite-nos conhecer a perspectiva
dos políticos e simpatizantes que formaram o partido, na qual se destaca a
referência constante ao pertencimento aos partidos extintos em 1965 e o
esforço organizacional para manter funcionando diretórios municipais, regio-
nais e o nacional. Como todo partido político, a Arena era formada por um
conjunto de pessoas que estabeleceram relações diferenciadas com a organi-
zação: políticos profissionais, militantes e simpatizantes. Sem falar dos elei-
tores, afinal a Arena contou com muitos votos em todas as eleições durante
a ditadura. A documentação depositada no arquivo do Diretório Nacional
permite a observação de indícios variados da participação das pessoas no
partido, em muitos municípios, no interior e nas metrópoles. Uma visão ge-
ral da documentação do Diretório Nacional permite-nos avaliar os mean-
dros da sua burocracia que remetem para o esforço organizacional necessário
para manter um partido funcionando em todo o território nacional.
As séries criadas pelos arquivistas para organizar o acervo mostram gran-
de parte da rotina de um partido político: correspondência, eleições, orga-
nização partidária e assuntos constitucionais. A série Eleições é formada
pelas subséries: processos eleitorais, legislação eleitoral, campanhas eleito-
rais. Entre os processos eleitorais, encontram-se recursos ao Diretório
Nacional referentes a candidaturas e diretórios, tratando de intervenção
nos diretórios, fidelidade partidária e campanhas eleitorais. A subsérie cam-
panhas eleitorais é formada por documentos diversos: relatórios sobre pes-
quisas e resultados eleitorais e um manual de campanha elaborado pelo
Diretório Nacional para os candidatos.
A série Organização Partidária é formada pelas subséries: atas (relativas
às reuniões dos diretórios da Arena, incluindo as atas de votação, apuração
e das convenções partidárias); Arena Jovem; constituição partidária (docu-
mentos referentes à constituição das comissões diretoras regionais e seus
respectivos gabinetes executivos; documentos relativos à fundação do par-
tido: documento constitutivo, estatutos, carta de princípios, regimento in-
terno do gabinete nacional, normas gerais para a formação das comissões

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“SAUDAÇÕES ARENISTAS”

diretoras municipais; documentos relativos ao programa da Arena em várias


conjunturas); convenções partidárias (discursos e documentos variados
relativos às convenções partidárias); diretórios (relação dos membros dos
diretórios nacional, regionais e municipais e das comissões executivas; trans-
crições de reuniões do Diretório Nacional para tratar dos recursos provin-
dos dos diretórios regionais e municipais); reunião das bancadas da Arena
na Câmara dos Deputados e no Senado (transcrições de reuniões sobre as-
suntos diversos).
A série Assuntos Constitucionais é subdividida em documentos relati-
vos à reforma constitucional de 1967 e documentos relativos à campanha
liderada pelo MDB para a convocação de uma Assembleia Constituinte
(1976).
Afinal, um dos maiores fundos do arquivo do Diretório Nacional é a
série Correspondência. Ela é formada pelas subséries: correspondência geral,
pedidos e convites. A correspondência de membros da Arena compreende
cartas, telegramas e circulares trocadas principalmente pelos presidentes do
Diretório Nacional, dirigentes regionais e municipais, deputados federais e
estaduais e vereadores. Além de correspondência de dirigentes partidários
e filiados ou simpatizantes da Arena, associações e sindicatos.
Entre os pedidos, há cartas relativas a emprego, bolsas de estudos, car-
tas de apresentação, transferências no serviço público, audiências. Muitos
prefeitos pediam os mais diversos donativos, entre os quais ambulâncias,
assim como auxílio para obtenção de financiamentos para a construção de
pontes, calçamentos, quadras de esportes. Além de pedidos e recomenda-
ções de correligionários aos dirigentes partidários. Certamente nem todas
as cartas foram arquivadas, outras podem ter sido retiradas do arquivo na
ocasião da doação do acervo para consulta pública. Mas mesmo assim são
representativas da participação política na Arena, registros das iniciativas e
dos investimentos empreendidos pelos membros da Arena para a constru-
ção do partido, colocando em destaque sua dimensão de projeto político.
“O Brasil é feito por nós”, carimbou o Diretório Nacional.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

“SAUDAÇÕES ARENISTAS”:13 A PARTICIPAÇÃO NA ARENA

Por meio das cartas de correligionários e simpatizantes é possível conhecer


os homens e as mulheres responsáveis por movimentar o partido nos mu-
nicípios. Muitas pessoas militaram na Arena e estabeleceram vínculos com
o partido ao organizar diretórios municipais, elaborar campanhas eleito-
rais, acompanhar a situação política nas suas localidades ou denunciar ad-
versários por meio de cartas endereçadas ao Diretório Nacional.
As maneiras de participar da organização, mais ou menos engajadas,
como membros de diretórios, candidatos, filiados ou apenas escrevendo para
os seus dirigentes, não podem ser entendidas senão a partir da perspectiva
da participação política. Quer dizer, essas atitudes, que têm sido registradas
principalmente como adesismo, expressam alternativas de participação
política favorável à ditadura. Seja em pequenos municípios do interior ou
nas grandes metrópoles, houve empenho de boa parte da sociedade em
organizar a Arena, seus diretórios, suas candidaturas, possibilitando a rea-
lização de eleições em todo o país. A manutenção da estrutura para realizar
as disputas eleitorais pelo poder local indica, a nosso ver, um dos pilares do
respaldo social que possibilitou uma duração tão longa ao regime autoritá-
rio. Nesse sentido, a política local era parte fundamental da política nacio-
nal, não sendo possível considerá-la uma questão menor.14
Uma das considerações decorrentes dessa perspectiva é que a realização
de eleições não é acontecimento passível de ser interpretado como mero
processo de legitimação do regime autoritário junto à comunidade interna-
cional. Certamente esse é um argumento importante para a manutenção
das eleições, mas, por meio delas, o regime também permitiu a continuidade
da participação política de grande parte da sociedade brasileira. As eleições
são fatos complexos que envolvem a participação de muitos na organiza-
ção dos partidos, na composição das candidaturas e no próprio voto. Não
bastam os servidores públicos, funcionários da Justiça Eleitoral, cumprirem
os procedimentos legais para a realização das eleições, o mais importante é
a iniciativa dos filiados aos partidos em cada localidade.15
A correspondência arquivada indica os valores, as normas e as práticas
comuns dos membros da Arena. Trata-se de uma correspondência entre os

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“SAUDAÇÕES ARENISTAS”

políticos locais e os militantes, filiados ou simpatizantes da Arena com os


dirigentes nacionais. As cartas caracterizam-se por dirigir-se a autoridades
na direção partidária e no governo, os endereçados eram geralmente os
presidentes do Diretório Nacional da Arena, com poder no próprio partido,
no Congresso Nacional e contatos no poder Executivo. As cartas se dirigem
principalmente aos sucessivos presidentes do Diretório Nacional: Daniel
Krieger, Filinto Müller, Rondon Pacheco, Petrônio Portella, Francelino
Pereira e José Sarney. Algumas cartas endereçadas originalmente aos presi-
dentes da República, marechal Castelo Branco e general Ernesto Geisel, por
exemplo, foram enviadas pela assessoria da presidência ao Diretório Nacio-
nal da Arena.
O Diretório Nacional, por sua vez, enviava telegramas em nome do pre-
sidente da Arena agradecendo as colaborações recebidas. Muitos foram
arquivados: “Agradeço caro amigo carta vinte et quatro último pt sua cola-
boração vitoriosa arenista bem recebida. Abraços deputado Francelino Pe-
reira.” Simpatizantes escreviam para agradecer a atenção dedicada e o
recebimento de material do partido: “Foi com imenso prazer que recebi
folhetos e livretos explicativos da Arena, bem como discurso presidente
Geisel em MT.” Ou ainda: “Exmo. deputado recebi telegrama de V. Excia.
que me dá mais forças para colaborar e lutar pela vitória arenista.”16 “Acusa-
mos em nosso poder ofícios de Vossa Excelência de 15 e 16 de dezembro
de 1975 e como entusiasta partidário temos a agradecer o expediente, lou-
vando sobretudo a sua iniciativa em reviver as diretrizes do nosso partido
em todo o vasto território nacional.”17 “Recebi o telegrama de V. Excia., o
qual muito me alegrou...”18

Há muitos pedidos de favores, como em muitos arquivos de autoridades.


Mas há também verdadeiros discursos políticos, reiterando o apoio à ditadu-
ra. As cartas de militantes ou simpatizantes da Arena apresentando propos-
tas políticas mostram o desejo de participar do partido e de colaborar com o
governo. A disposição para a redação de cartas expressa o envolvimento
político daquelas pessoas, que se apresentam e querem colaborar, de manei-
ras mais ou menos enfáticas: “É movido de inteira alegria e com o sentido
voltado para a nossa pátria, que, descendo serras, deixei minha querida e

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

adorada Belo Horizonte, nossa simpática capital das Gerais!”19 “Peço vênia
para lhe apresentar algumas sugestões que me vieram à mente, agora em
minhas férias na cidade serrana (...)”. “Leia toda esta carta. Leia mesmo.”
Muitas cartas, ofícios, telegramas e bilhetes conservados na série cor-
respondência do Arquivo do Diretório Nacional da Arena expressam a cul-
tura política dos arenistas, suas esperanças na construção de um novo país
e seus ódios em relação aos adversários políticos. Por meio da correspon-
dência enviada ao Diretório Nacional da Arena entre 1965 e 1979, de mu-
nicípios espalhados por todo o território nacional, é possível traçar um perfil
das pessoas que se identificavam com a organização.
As cartas mostram que os remetentes, militantes e simpatizantes da Are-
na, ocupavam os mais variados lugares na sociedade brasileira. Há cartas
enviadas de todas as regiões do país, os arenistas escreviam tanto de capi-
tais, como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Campo Grande,
Goiânia, Manaus, Recife e Porto Alegre, quanto de cidades pequenas e
médias dos diversos estados: Petrópolis (RJ), Teresópolis (RJ), São Fidélis
(RJ), Guarulhos (SP), São Vicente (SP), Pontal (SP), São Sebastião (SP),
Penápolis (SP), Buritis (MG), João Pinheiro (MG), Cruz Alta (RS), Santarém
(PA), Vila Rondon (PA), Londrina (PR), entre outros. Há cartas datilo-
grafadas e manuscritas, a maior parte era datilografada. Entre as manuscri-
tas, há caligrafias bem desenhadas de quem tem o hábito da escrita e letras
irregulares que revelam o enorme esforço empreendido naquela redação.
A maioria das cartas era escrita ou datilografada em papéis em branco, sem
identificação. Mas muitas foram redigidas em papéis com o timbre de dire-
tórios municipais da Arena e de câmaras municipais. Poucas indicam o lo-
cal de trabalho do missivista, como os impressos de escritórios de advocacia
e engenharia, assim como de sindicatos de trabalhadores e associações de
moradores de bairros. Muitos se identificaram como trabalhadores, médi-
cos, advogados, artistas, engenheiros agrônomos.
Como estavam se reportando ao presidente do Diretório Nacional, que
não poderia conhecê-los todos, os políticos locais e os simpatizantes da
Arena procuravam se identificar por meio de suas trajetórias políticas. Nesse
sentido, o conjunto das cartas forma um painel da participação política con-
servadora de algumas gerações na história do Brasil. Na maioria das cartas,

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“SAUDAÇÕES ARENISTAS”

nos primeiros parágrafos, o remetente se identifica por meio da narrativa


de sua biografia política. Procuram mostrar que não são iniciantes no cam-
po político, ao contrário, se identificam como representantes legítimos dos
partidos políticos em atividade de 1945 a 1965. Ao aludir aos partidos aos
quais pertenciam, procuram lembrar de um passado comum, em busca da
cumplicidade das lideranças nacionais.
De Recife, um arenista escreveu a Aderbal Jurema, pessedista histórico,
então presidente do Diretório Regional da Arena em Pernambuco: “Preza-
do amigo e correligionário. Tangido pelo espírito de franqueza que me é
peculiar, venho à presença de V. Excia., na qualidade de cidadão filiado à
Arena, desde a sua fundação, e velho militante do extinto PSD...”20
De Minas Gerais, há uma vasta correspondência de congratulações ao
deputado Francelino Pereira pela indicação para a presidência do partido
em 1975 e ao longo de seu mandato. Em muitas delas, conhecidos e mem-
bros da Arena mineira remontam suas trajetórias políticas destacando a
militância na UDN, da qual também fizera parte Francelino Pereira. Há sau-
dações ao “conterrâneo” de Minas Gerais, mesmo lembrando que o depu-
tado nasceu no Piauí, manifestando o tradicional “orgulho mineiro”.21

Com relação ao meu ponto de vista político, explico a V. Excia., sempre fui
pendente ao partido da antiga UDN e hoje graças a Deus fui o pioneiro neste
município a enfrentar a luta a favor da nossa gloriosa Arena (...) sou de ori-
gem udenista desde os meus antepassados (...).22

“Quem vos fala é um arenista de coração e de alma, que não quer vê-la
derrubada, e que também é um udenista por tradição de família, e que ama
também a nossa Gloriosa Revolução de 31 de março de 1964 (...).”23 “... na
qualidade de ex-udenista, revolucionário civil de março de 64 e arenista.”24
“Na qualidade de filiado à Aliança Renovadora Nacional deste município,
tendo pertencido por diversas vezes ao diretório municipal da extinta UDN
[...].”25 “Sendo arenista e, antes de tudo, revolucionário, porque antes ha-
via sido o vice-presidente do diretório da UDN (...).”26 “Aguardo a resposta
de V. Excia., pois cumpri com meu dever de Brasileiro, udenista de tradi-
ção desde jovem no nosso longínquo Piauí.”27 “Desculpe a massada, mas

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

eu sofro desde 1935, como presidente da UDN, de uma coligação e da Arena,


como vice no exercício da presidência quase sempre, e como presidente
em dois períodos.”28
Os missivistas se apresentam como membros dos diretórios ou filiados
à Arena, explicitando o que consideram os marcos de sua trajetória política
anterior ao novo sistema partidário, o que para eles legitima a sua partici-
pação na vida pública naquele contexto por meio da Arena. Em muitos casos,
os políticos enumeram os cargos que exerceram em partidos e os mandatos
eleitorais exercidos. Os significados que esses correspondentes dão às suas
biografias são referenciais indispensáveis, as biografias constituem parte de
suas identidades e também de seu capital simbólico.29 Nesse sentido, os
políticos valorizavam sua inserção nas organizações extintas, explicitando
a importância desse capital no campo político.
Cada militante, por meio de relatos biográficos, narrava a sua história
de lutas, a sua contribuição para a fundação e as vitórias da Arena em seu
município. Nas cartas, eles relatam o trabalho de organização de cada
diretório do partido, uma etapa considerada fundamental para a consoli-
dação de uma ampla rede organizacional, o que garantiu ao partido ter
candidatos e votos em todos os municípios. A rede de diretórios munici-
pais da Arena foi formada por quase todos os diretórios da UDN, do Parti-
do da Representação Popular (PRP) e do Partido Republicano (PR) e pela
maioria dos diretórios do PSD, do Partido Social Trabalhista (PST) e do
Partido Democrata Cristão (PDC), possibilitando uma ampla vantagem da
Arena sobre o MDB na corrida organizacional.30
Como eram organizações novas, Arena e MDB tiveram no primeiro ano
de fundar diretórios municipais e regionais, assim como aprovar filiações em
todo o território nacional, tendo em vista as eleições parlamentares em outu-
bro de 1966. Nessa conjuntura de reorganização partidária, muitos políticos
escreveram para o presidente do Diretório Nacional da Arena de todos os
cantos do país. Em muitos casos relatavam disputas em seus estados pelas
candidaturas da legenda governista. Em contrapartida, o senador Daniel
Krieger, presidente da Arena, enviou telegramas comunicando a decisão de
“considerar candidatos automáticos a cargos eletivos, atuais deputados federais
devidamente inscritos mesa câmara dos deputados como pertencentes ban-

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“SAUDAÇÕES ARENISTAS”

cada arenista”.31 No entanto, em alguns casos, algumas lideranças desistiram


da filiação na Arena. O argumento recorrente era a disputa entre membros
de partidos extintos, egressos do PSD e da UDN, principalmente, agora na
Arena. Em abril de 1966, o deputado José Barbosa Reis alegava a

(...) impossibilidade de continuar oferecendo a minha colaboração à Arena


face ao radicalismo das forças coligadas da ex-UDN, PSP e PTB, que vêm
praticando atos de perseguição a centenas de humildes e leais funcionários
de minhas bases eleitorais, muitos deles com mais de 20 anos de bons servi-
ços prestados ao Estado.32

Em carta ao senador Daniel Krieger, então presidente da Arena, os de-


putados Castro Costa e Benedito Vaz também explicaram o seu desligamento
da Arena devido a

(...) as imensas dificuldades com que lutamos para fazer a integração de uma
ala do ex-PSD nos quadros da Arena de Goiás. Constituída a Arena goiana,
ao invés de criar condições de convivência partidária, o governo estadual
passou a agir discriminadamente, demitindo e transferindo nossos compa-
nheiros funcionários e pressionando nossos prefeitos.33

Durante toda a existência da Arena houve uma grande disputa pelo con-
trole dos diretórios regionais e municipais. Não era nada fácil depois de 20
anos de pluralismo partidário (1945-1965) os políticos se organizarem em
apenas dois partidos. Os arenistas procuravam mostrar a sua participação
na organização dos diretórios locais e em campanhas eleitorais. De São
Vicente (SP), em 21 de fevereiro de 1977, um militante escreveu:

(...) tomei parte em todas as campanhas da Arena, mesmo não sendo candida-
to, não só aqui nesta cidade, como em diversos municípios pelo litoral, como
Praia Grande, Itanhaém, Itariri, Toledo, e outros, sempre às minhas próprias
expensas, meu pequeno escritório nesta cidade foi sempre comitê de candi-
datos da Arena sem que eles me pedissem, formei o comitê pró-Carvalho Pin-
to (...) procurei sempre aumentar o número de correligionários inscritos na
Arena, mandando imprimir fichas de inscrição às minhas expensas.34

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Cada um descreve as suas iniciativas para o sucesso do partido nas dis-


putas eleitorais e algumas maneiras habituais de fazer campanha:

O correligionário que esta lhe escreve foi candidato a vereador pela nossa
legenda; [...] acostumado em campanhas eleitorais, procurou organizar jun-
to a amigos e parentes, equipes de trabalho, bem como comitês em casas
particulares de amigos e parentes requerendo em nome do partido.35

De Presidente Nereu (SC), o presidente do Diretório Municipal narra a


sua iniciativa de aproximar-se da juventude, organizar um diretório misto com
“sete professores, um industrial, um dono de transporte, um comerciante e
os demais agricultores, dentre eles jovens solteiros”.36 De Caxias do Sul (RS),
em papel timbrado da Câmara Municipal de Vereadores, o arenista relata as
atividades do Diretório Municipal em 1977 com o objetivo de divulgar o
programa do partido: criação de vários departamentos e assessorias, realiza-
ção de palestras, organização de subdiretórios de bairros, reunião e convites
pelo rádio, organização de nova sede, departamento jovem e departamento
feminino.37 De Belo Horizonte (MG), o missivista se identifica como um
“velho artista e idealista sincero correligionário”. Ele conta que irá realizar
“apresentações em comícios e shows em praça pública, durante a campanha
voluntária [...] a fim de conscientizar o povo das Minas Gerais a votar con-
victo na grandeza e estabilidade nacional”. E reitera o seu entusiasmo: “Lu-
taremos sem esmorecimentos e daremos, mais uma vez sem favor algum, mais
uma merecida, justa e indiscutível vitória a nossa grande e imbatível Arena!”38
Entre as contribuições para as campanhas eleitorais, também há marchinhas:

É hora, é hora/É hora/De entrar em cena


Vamos votar/Vamos votar/Nos candidatos da Arena.39

E poemas:

Quem planta por certo colhe


É o povo quem dá guarida
Ao desempenho magistral
Da nossa Arena aguerrida

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“SAUDAÇÕES ARENISTAS”

Viva a REVOLUÇÃO
No rojão da ARENA
O voto é a suprema ação
Tal escolha, nosso condão
Atendendo supremo anseio
Que nos reclama a Não.40

Em anos eleitorais, os políticos e militantes locais escreviam com


frequência ao Diretório Nacional relatando as disputas entre os membros
da Arena e do MDB em seus municípios. A partir do crescimento eleitoral
do MDB em 1974 — quando elegeu 16 senadores — os arenistas procu-
ram se organizar ainda mais para enfrentá-lo nas urnas. De Presidente Nereu
(SC), em 12 de fevereiro de 1976, o presidente do Diretório Municipal en-
viou sua análise da conjuntura política:

(...) todos nós, das pequenas e médias comunas, observamos uma radical
mudança e fortalecimento assustador da oposição nos dois últimos pleitos
eleitorais. Verificamos facilmente que certos banidos pela Revolução de
março de 1964 indiretamente influem muito com os antirrevolucionários
que permaneceram intactos, mesmo como sacrifício de uns e outros de seus
líderes, começaram lentamente a penetrar em todas as camadas, daí, ele-
mentos ambiciosos, antes ligados ao partido revolucionário, por não conse-
guir de imediato qualquer posição pretendida nas causas públicas, facilmente
deixaram-se entusiasmar e aderiram à oposição e estes semilíderes levando
farta bagagem eleitoral consigo, daí o rápido fortalecimento.
(...) em nosso município não há doadores, rendas eventuais à família
arenista — fiel a nossa liderança, praticamente gente modesta.
A nosso ver, um grande passo seria o de o Diretório Nacional (...) colo-
car ao alcance de pequenos e médios municípios um Programa de Rádio à
disposição destes diretórios em horas adequadas e em determinadas escalas,
tanto para entrevistas como para pronunciamentos, isto pela facilidade de
contato que teriam os líderes de cada comuna, pois que certamente cada um
tem um elemento capaz e de confiança do governo e da Arena antes da
divulgação.41

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

O anticomunismo era uma referência muito comum entre os arenistas.


Muitos políticos da Arena denunciavam seus adversários locais como co-
munistas. De Guarulhos (SP), um arenista acusa o MDB de “cabide de comu-
nistas”.42 De Cruz Alta (RS), o missivista envia uma “denúncia de infiltração
comunista no MDB”, conforme suas palavras. A “denúncia” consiste em
uma lista de nomes de autoridades locais filiadas ao MDB qualificadas uma
a uma: “Militante velho do PCB, integrou a claque de Luiz Carlos Prestes
em Porto Alegre. Caráter ditatorial e temperamento violento”; “Subversi-
vo por convicção. Expurgado do Banco do Brasil, por ato revolucionário,
em 1964. Chefe de greve de bancários...”; “comuno-anarquista”; “comu-
nista confesso e implacável contestador da Revolução”; “Inconformada e
contestadora”; “No discurso de posse, elogiou Érico Veríssimo principal-
mente por ter detectado as mazelas das republiquetas militares do conti-
nente. Tido como comunista militante”; “chefe geral do Grupo de Onze”.43
Ao qualificar os emedebistas traça as suas trajetórias políticas mostrando
que são adversários históricos e localiza-os em uma rede mais ampla de
referências da esquerda brasileira, como o Partido Comunista Brasileiro
(PCB) e Luiz Carlos Prestes, o líder comunista mais popular no país; assim
como da política e da intelectualidade gaúcha, como o escritor Érico
Veríssimo e o Grupo dos Onze, movimento de resistência organizado pelo
então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, em 1961, tendo
em vista assegurar a posse de João Goulart na presidência da República.
De maneira semelhante, um arenista de Londrina (PR) narra com orgu-
lho a sua história de enfrentamento com militantes comunistas:

Sou marcado por essa casta de traidores vendilhões da Pátria de nos outros,
pois que eles não têm Pátria. Fui Suplente do Delegado Regional durante mui-
tos anos e, tive que enfrentar — com muito prazer — à frente de um “Contin-
gente” de Polícia, quando respondia pela Regional justamente quando (1955)
realizaram por todo Brasil, nas capitais e principais cidades, todavia, não em
Londrina, porque não consenti e, no sábado véspera de tais concentrações era
aniversário de Prestes, e na calada da noite hastearam uma enorme Bandeira
Russa, bem no centro da cidade, no mastro do altar da Pátria, onde se hasteia o
Pavilhão Sagrado. Ali mesmo queimei aquele Pano Vermelho nojento.44

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“SAUDAÇÕES ARENISTAS”

A mobilização anticomunista no Brasil cresceu ao longo dos anos 1950


até 1964. Os líderes do movimento de 1964 não usavam o argumento antico-
munista apenas como fachada para justificar suas ações. Como mostrou
Rodrigo Patto Sá Motta, o temor da ameaça comunista durante a crise no
governo João Goulart era real.45 Naquele contexto, a força do PCB apare-
ceu multiplicada no discurso comunista, que passou a intitular de comunista
toda a esquerda radical. Muitos arenistas louvaram seu passado antico-
munista e usaram o mesmo expediente ao denunciar políticos do MDB, os
seus únicos adversários nas eleições, como comunistas.
Para os arenistas, a “revolução de 1964” era o marco fundador da histó-
ria da Arena. É a principal constante na correspondência enviada ao Diretório
Nacional, caracterizando o arenista como antes de tudo um “revolucioná-
rio” de 1964: “Como homens públicos, imbuídos dos princípios consagra-
dos pelo movimento ordeiro revolucionário de março de 1964, membros do
Diretório Municipal da Aliança Renovadora Nacional (...).”46 “Na qualidade
de um admirador da Revolução brasileira e consequentemente de seu parti-
do, Arena, desejo trazer a minha parcela de colaboração (...).”47
Na memória dos arenistas a “revolução de 1964” não foi uma realiza-
ção apenas dos militares, as Forças Armadas aparecem como instrumento
da vontade do povo contra o comunismo. De São Joaquim do Monte (PE)
chegam lembranças das disputas políticas nas zonas rurais contra Miguel
Arraes e Francisco Julião à frente das Ligas Camponesas:

As Forças Armadas brasileiras interpretaram o sentimento patriótico do nosso


povo, realizando a Revolução de março de 1964. No anonimato do interior,
vozes corajosas ecoaram contra a subversão que tentava se implantar no seio
da classe trabalhadora e essas vozes anônimas que testemunharam e comba-
teram a infiltração de comunistas no campo (...).48

De Belo Horizonte (MG), a rememoração das Marchas da Família com


Deus pela Liberdade se assemelha à descrição de uma cruzada:

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Torna-se necessário que evitemos questões e possamos, unidos, levarmos


avante os sagrados postulados de 31 de março de 1964, que tira das mãos
vermelhas do comunismo a dignidade de nossa santa e idolatrada Bandeira
Brasileira! [...] O que fizeram durante tantos e tantos anos, estes idiotas, ateus
e sem Pátria pelo povo, pelo Brasil? Nada! (...) Onde se podia orar com
tranquilidade? O povo se sentia apavorado. Nenhum direito. Eram irmãos
contra irmãos, pais contra seus próprios filhos! Veio a passeata Família com
Deus! O terço em mãos confiantes, contra os ateus comunistas, em plena
Belo Horizonte. Fomos pisados e nos faltaram com o respeito (...) jamais
conseguiram nos vencer porque onde se faz presente Deus, a vitória foi de-
morada... mas veio. Lembram-se do Comício da Central em 13/3/1964? Foi
ali que o Comunismo ateu selou a sua derrota total! As gloriosas Forças
Armadas... unidas ao povo, deu um basta! E graças ao bom Deus, em 31/3/
64, desfraldou sobre o nosso solo Pátrio, a alvorada de Paz, amor e progres-
so, onde estamos dentro de um padrão de honra-trabalho-direito e liberda-
de dentro da Lei! E o que mais podemos desejar? Apenas que, ao entrar na
cabine de votar, se conscientize e vote na Arena! Para grandeza e estabilida-
de de nossa Pátria! Muito obrigado.49

Para muitos arenistas, o contexto de mobilização política anterior ao gol-


pe de Estado é rememorado como argumento para a deposição de João
Goulart. De Manaus (AM) chegam votos de confiança: “Confiamos que
sob a administração de V. Excia. a Arena se torne uma força organizada capaz
de mostrar que os brasileiros apoiam a Revolução de Março de 64 e que
jamais permitirão que se volte à situação anárquica anterior.”50
Na conjuntura de abertura, nos governos de Ernesto Geisel e de João
Batista Figueiredo, entre a extensa correspondência há poucos elogios às
medidas adotadas e raras manifestações de incentivo à abertura, como o
telegrama das arenistas gaúchas: “Sucessor do presidente Geisel deve ser
político. Proposição aprovada em reunião do Departamento Feminino da
Arena de Porto Alegre no dia 13 de agosto do corrente [1977].”51 Ou o
repúdio às eleições indiretas: “Sou apenas um simples brasileiro que deseja
um Brasil próspero e tranquilo, sem dever tantos bilhões, confiando nas
suas próprias forças. Mas essa coisa de senador sem voto é um pecado muito
grande.”52

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“SAUDAÇÕES ARENISTAS”

A maior parte das manifestações era contrária à liberalização política.


De férias, em Petrópolis (RJ), um médico morador do Rio de Janeiro se
apresenta ao presidente da Arena como um brasileiro interessado no de-
senvolvimento nacional, pede licença e apresenta algumas sugestões:

Julgo, por vezes, a Arena com certa tibieza, na defesa dos princípios revolu-
cionários, e mesmo acovardada, durante certos impactos, como foi o caso
da aplicação do AI-5 a dois deputados paulistas.53 Ora, não se pode com-
preender isso, pois nós estamos ainda em pleno processo revolucionário.
Vejamos: a Revolução Russa tem a minha idade — 59 anos — e ainda con-
tinua; a Revolução Chinesa tem 27 anos (início 1949); a Revolução Cuba-
na, 20 anos (1956). A nossa, que não é comunista e que adota outros métodos,
ainda vai fazer 12 anos e já estamos pensando em “distensão” quando os
resultados da détente mundial ainda são incertos, ou melhor, na visão dos
chineses, os russos é que estão levando as melhores vantagens (Angola!). Ora,
a nossa política interna tem naturalmente que sofrer os reflexos da política
externa e da crise mundial de guerras revolucionárias. (...). Para os que não
esposam os princípios marxistas, não podemos fazer política em termos de
democracia utópica. Caminhemos para uma democracia plena, no seu devi-
do tempo e dentro de um modelo brasileiro (...).54

Em muitas delas, o argumento é justamente o possível retorno da situa-


ção pré-revolucionária. Havia o temor de que líderes do extinto PTB, como
o ex-governador do Rio Grande do Sul Leonel Brizola e o presidente de-
posto João Goulart retornassem ao jogo eleitoral com grande capacidade
de mobilização:

Se tivemos os Costa e Silva, e se temos os Garrastazu Médici, os Ernesto


Geisel, para a felicidade do povo e bem da Nação, ainda temos, infelizmen-
te, e nas sombras, os Jangos, os Brizolas, na espreita de novas derribadas.
Felizmente a Revolução de 64 é irreversível e o povo jamais esquecerá do
que foi o Brasil antes de 64 e do que é atual: Grande, forte, próspero e feliz;
com este grande Presidente Geisel, graças a Deus!55

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Durante o longo processo de abertura, muitos políticos locais e simpa-


tizantes da Arena apoiavam a continuidade da ditadura, eram contrários
à extinção do AI-5 e à realização de eleições. Quer dizer, defendiam pro-
postas políticas extremamente autoritárias em nome da “Revolução de
1964”. Ao mesmo tempo que estava em debate no Congresso Nacional a
aprovação da emenda constitucional prevendo o fim do AI-5, havia mui-
tas divergências:

Sou vereador há 15 anos e desde 1945 vínhamos augurando um clima de


tranquilidade e de prosperidade idêntico ao que se vive no Brasil de hoje
(...). Que o AI-5 não seja nunca abolido, se possível até adaptá-lo na Cons-
tituição Federal. Consideramo-o como um pneu sobressalente de um carro,
que nos deixa tranquilo e seguro a uma longa viagem e que só é usado na
hora precisa.56

Políticos de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul também escreveram


criticando a possibilidade de eleições diretas para governadores em 1978:

Senhor presidente,
Esta tem por finalidade solicitar toda a atenção de V. Excelência, a fim
de que não permita a realização de pleito DIRETO para o Governo do Es-
tado do Rio Grande do Sul, primeiro por entender eu que a REVOLUÇÃO
DE 64 não atingiu todos os seus objetivos e que para tumultuar o resto da
Nação, ainda somando-se que nossos líderes não estão preparados e exis-
tem muitos poucos líderes que consigam encontrar apoio para uma candi-
datura à Governança do Estado. Sugiro eleições através de colégio eleitoral,
única forma de manter o governo da Arena no poder.57

De Araçatuba (SP), em novembro de 1977, um correligionário escrevia:

Agora o Exército fez uma Revolução forçada pelo povo e, vai deixar tudo
como estava? Ajude o presidente Geisel para que não cometa o crime de
perder mais esta REVOLUÇÃO que o povo quis e apoia, entregando o
BRASIL à gang de políticos militares e civis ... Porque ouvir Médici, Jura
(sic) Magalhães, Cordeiro e, outros carcomidos? Porque não usar o AI-5 com

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“SAUDAÇÕES ARENISTAS”

mais frequência contra militares e civis desonestos ou contestadores? Por


que pensar em retirá-lo da CONSTITUIÇÃO se, tivemos há pouco tempo,
um julgamento, pelas duas casas do CONGRESSO absolvendo um SENA-
DOR DESONESTO? [...] As eleições devem ser indiretas para PRESIDEN-
TE DA REPÚBLICA E GOVERNADORES quer queira ou não o MDB, que
precisa ser controlado juntamente com a IMPRENSA pois, abusam da liber-
dade existente para prejudicar o BRASIL.58

Por ocasião do debate sobre a liberalização partidária e a anistia políti-


ca, o que significaria o retorno de líderes políticos cassados e/ou exilados,
há muitos diagnósticos fatalistas:

Se ressurgir estas siglas a confusão vai retornar e aí então o governo (por


força das circunstâncias) terá que dissolver tudo e começar tudo de novo. O
revanchismo está na mira dos Brizolas, Arraes etc. etc. com a cooperação
do MDB — comunista que já faz a trama com as viagens de seus líderes à
Europa para avistarem-se com os exilados. Brizola e Arraes, hoje, são os Reis
pequenos do Brasil.

E continuava sua análise política mostrando o impacto esperado com o


retorno de líderes políticos como Leonel Brizola e Miguel Arraes:

Quando esses políticos CARICATOS pisarem o solo pátrio será uma apoteose
política, nunca vista no Brasil: mulheres chorando, homens desmaiando, até
a terra é capaz de tremer, tal é a importância que estão dando a estes inde-
sejáveis brasileiros que nenhuma falta vêm fazendo ao Brasil desde 1964,
31 de março passados.

Como se pôde ver na cobertura jornalística na época, o arenista estava cer-


to, a cada chegada houve uma festa nos aeroportos.59 Em seguida, completava:

A Revolução de março deveria ter feito tal como no Irã atualmente. Pergun-
to V. Excia. quem vai reclamar direitos humanos dos Arraes? Carter, o CNBB,
o MDB, os comunistas? Dom Hélder Câmara? Os Bispos? Os Arcebispos?
Os Padres? A imprensa falada e escrita? A Rádio? A Televisão? O certo é,

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

excelência, que o Irã é que está certo. Não é patriota, fogo nele. Se a Revo-
lução tivesse adotado tal medida, hoje o Brasil seria um seio de Abrahão.
(...) O governo tem que tomar medidas enérgicas, contra todos os crimes,
inclusive mandar prender os “advogados” que surgirem pedindo habeas
corpus para esta marca de gente ordinária que infestam as Capitais, as gran-
des cidades etc. etc.60

Como ocorre em muitos movimentos políticos, o significado da “revo-


lução” esteve sempre em disputa entre os seus partidários. Algumas cartas
são verdadeiras provocações aos arenistas e ao governo, os missivistas se
identificam como defensores da “Revolução de 1964”, no entanto possuem
várias restrições a lideranças da Arena e ao governo, mostrando divergên-
cias entre os simpatizantes do movimento de 1964 por meio da disputa dos
verdadeiros objetivos da “revolução”. Há cartas com ataques e denúncias
que jamais seriam publicados na imprensa, pois usam uma linguagem chula
e raivosa. De São Paulo, em 29 de setembro de 1977, um cidadão questio-
nava o partido:

A Arena fala muito na revolução. É a revolução pra aqui, revolução pra colá.
Marcha da revolução. Contestação etc. O governo, idem. Como se a revo-
lução fosse alguma coisa ou um patrimônio deles. Quando a revolução foi
feita, em 1/4/64 (1º de abril) por Magalhães Pinto, Adhemar de Barros e
Carlos Lacerda, gostaria de saber onde se encontravam os bravos revolucio-
nários de hoje: José Bonifácio (o velho gagá), Dinarte Mariz, Eurico Resende
(o grosso), Portela (ih ... esse aí era até contra a revolução), Francelino Pe-
reira (o puxa-saco) e os generais da copa e da cozinha do ALVORADA, que
se arvoram de donos da revolução.61

“SOU ARENISTA, EU E MEUS IRMÃOS, GRAÇAS A DEUS!”62

A historiografia recente sobre a ditadura civil-militar procura mostrar que


o processo político de 1964 não foi apenas um golpe arquitetado pelas Forças
Armadas, mas um movimento político com a participação de civis e de
militares, com amplo apoio da sociedade, o que é uma dimensão funda-

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“SAUDAÇÕES ARENISTAS”

mental para a sua compreensão. No estudo sobre a Arena, essa questão rea-
parece com o sentido de conhecer a perspectiva dos entusiastas da deposi-
ção de João Goulart e do regime autoritário que se autodenominavam
“revolucionários”. Não havia qualquer tabu em defender a deposição do
presidente da República João Goulart por meio de um golpe de Estado em
1964. Nas leituras das fontes produzidas pelos filiados ao partido, em reu-
niões e debates parlamentares é notável o orgulho da designação do movi-
mento de 1964 como “revolução” e a autodesignação de “revolucionários”.
Nessa perspectiva, a “Revolução de 1964” é um evento fundador da iden-
tidade política arenista. Apesar de a Arena, sua expressão partidária, ter
sido criada por decreto, tinha um lastro social significativo.
Em cada município do território nacional, políticos locais e militantes
organizaram os diretórios municipais da Arena. Apesar de ser organiza-
ção partidária recente, a Arena canalizou a participação política favorável
à ditadura. As cartas mostram o tipo de representação política defendida
por muitos arenistas: a valorização da representação por meio de parti-
dos políticos, a valorização da tradição partidária brasileira anterior ao
AI-2, assim como a ambiguidade em relação às eleições diretas e ao
pluralismo partidário. Havia debates sobre o futuro da Arena e do regime
tanto entre os deputados federais e senadores arenistas no Congresso
Nacional como entre os políticos locais e os simpatizantes da Arena.63 As
divergências sobre as políticas de liberalização a partir do governo Ernesto
Geisel indicam que o retorno à democracia não era consensual entre os
civis, nem todos apoiaram a liberalização, mesmo feita por meio de
“distensão lenta, segura e gradual”.

Notas

1. Todas as cartas citadas neste artigo encontram-se no Arquivo da Aliança Renova-


dora Nacional (Arena) depositado no Centro de Pesquisa e Documentação de
História Contemporânea do Brasil (CPDOC/FGV).
2. Carimbo do Diretório Nacional da Arena. Arena 65.08.31 cor/cg pasta 59, CPDoc,
FGV.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

3. As análises sobre a correspondência entre cidadãos e autoridades têm mostrado


que se trata de uma prática comum na política brasileira, como podemos ver em
pesquisas sobre a relação entre Getúlio Vargas e os trabalhadores, a ascendência
de Filinto Müller na chefia de Polícia (1933-1942), as pressões de cidadãos na
Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCPC) nos anos 1970, as sugestões
ao Programa Nacional de Desburocratização inaugurado em 1979 e as cartas de
militantes da Ação Integralista Brasileira. Ver respectivamente, FERREIRA, Jor-
ge. Os trabalhadores do Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 1999; HEYMANN, Luciana
Quillet. “Quem não tem padrinho morre pagão: fragmentos de um discurso so-
bre o poder”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 13, nº 24, 1999, pp. 323-
349; FICO, Carlos. “Prezada censura: cartas ao regime militar”. Topoi, Rio de
Janeiro, nº 5, setembro 2002, pp. 251-286; REIS, Elisa. “Opressão burocrática:
o ponto de vista do cidadão”, in: ——. Processos e escolhas: estudos de sociologia
política. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 1998; POSSAS, Lídia M. Vianna.
“Vozes femininas na correspondência de Plínio Salgado (1932-38)”, in: GOMES,
Angela de Castro (org.). Escrita de si, escrita da história. Rio de Janeiro: Funda-
ção Getulio Vargas, 2004.
4. FIGUEIREDO, Marcus; KLEIN, Lucia. Legitimidade e coação no Brasil pós-64.
Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1978.
5. HIPPOLITO, Lúcia. De raposas e reformistas: o PSD e a experiência democrática
brasileira, 1945-64. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
6. BENEVIDES, Maria Vitória de Mesquita. A UDN e o udenismo: ambiguidades
do liberalismo brasileiro (1945-1965). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981; DULCI,
Otávio Soares. A UDN e o antipopulismo no Brasil. Belo Horizonte, UFMG,
1986.
7. GRINBERG, Lucia. Partido político ou bode expiatório: um estudo sobre a Alian-
ça Renovadora Nacional (Arena). Rio de Janeiro: Mauad; Faperj, 2009.
8. Carlos Lacerda pretendia fundar o Parede. Não se filiou à Arena nem ao MDB. O
Parede não foi adiante e seus membros se filiaram à Arena. “Ata da reunião do
Gabinete Executivo Regional da Aliança Renovadora Nacional da Guanabara. Aos
seis de julho de mil novecentos e sessenta e seis, sob a presidência do deputado
Adauto Lúcio Cardoso... É apresentada e lida pelo ministro Danilo Nunes uma
carta do ministro Venâncio Igrejas, na qual argumenta favoravelmente à aceitação
dos membros do Parede como componentes da Arena.” Arena 66.01.20 op/a
9. KINZO, Maria Dalva Gil. Oposição e autoritarismo. Gênese e trajetória do MDB.
São Paulo: Idesp; Vértice, 1988.
10. É notável, por exemplo, que muitos pesquisadores se refiram aos partidos extin-
tos em 1965 como partidos “tradicionais”, já que essa qualificação expressa um
julgamento negativo. Com isso deixa-se de enfatizar que o AI-2 extinguiu os

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“SAUDAÇÕES ARENISTAS”

partidos em atividade, minimizando-se a violência da destruição daquelas orga-


nizações. Sobre o processo de consolidação do sistema partidário brasileiro entre
1945-1964, cf. LAVAREDA, Antônio. A democracia nas urnas. Rio de Janeiro:
Rio Fundo, 1991.
11. GRINBERG, Lucia. “Uma memória política sobre a Arena: dos ‘revolucionários
de primeira hora’ ao ‘partido do sim, senhor’”, in: MOTTA, Rodrigo Patto Sá;
AARÃO REIS, Daniel; RIDENTI, Marcelo (orgs.). O golpe e a ditadura. 40 anos
depois. Bauru: Edusc, 2004b.
12. ROUSSO, Henry. “O arquivo ou o indício de uma falta”. Estudos Históricos, Rio
de Janeiro, vol. 9, n° 17, 1996, p. 89.
13. Arena 65.08.31 cor/cg, CPDoc, FGV.
14. REVEL, Jacques. “Microanálise e construção do social”, in: ——. Jogos de esca-
las: a experiência da microanálise. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1998.
15. OFFERLÉ, Michel. “Mobilisation électorale et invention du citoyen l’exemple
du milieu urbain français à la fin du XIXe siècle”, in: GAXIE, Daniel (ed.).
Explication du vote. Paris, Presses FNSP, 1985.
16. Arena 65.08.31 cor/g pasta 37, CPDoc, FGV.
17. Arena 65.08.31 cor/g pasta 20, CPDoc, FGV.
18. Arena 65.08.31 cor/g pasta 24, CPDoc, FGV.
19. Arena 65.08.31 cor/g, CPDoc, FGV.
20. Arena 65.08.31 cor/cg pasta 23, CPDoc, FGV.
21. Arena 65.08.31 cor/cg pastas 7 e 8, CPDoc, FGV.
22. Arena 65.08.31 cor/cg, CPDoc, FGV.
23. Arena 65.08.31 cor/cg pasta 23, CPDoc, FGV.
24. Arena 65.08.31 cor/cg, CPDoc, FGV.
25. Arena 65.08.31 cor/cg, CPDoc, FGV.
26. Arena 65.08.31 cor/cg pasta 35, CPDoc, FGV.
27. Arena 65.08.31 corg/cg pasta 24, CPDoc, FGV.
28. Arena 65.08.31 cor/cg pasta 23, CPDoc, FGV.
29. PENDARIES, Jean-René. “Approche biographique et approche structurelle:
quelques remarques sur le ‘retour du biographique’ en sociologie”. L’Homme et
la Société, État et Société Civile, Paris, n° 4, 1991, pp. 51-63.
30. SOARES, Glauco Ary Dillon. “A política brasileira: novos partidos e velhos con-
flitos”, in: FLEISCHER, David. Da distensão à abertura: as eleições de 1982.
Brasília: UnB, 1988, p. 105.
31. Arena 65.08.31 cor/g pasta 1, CPDoc, FGV.
32. Arena 65.08.31 cor/g pasta 1, CPDoc, FGV.
33. Arena 65.08.31 cor/g pasta 1, CPDoc, FGV.
34. Arena 65.08.31 cor/g, CPDoc, FGV.

275

Y920-01(Civilização).p65 275 28/4/2011, 18:29


A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

35. Arena 65.08.31 cor/g pasta 44, CPDoc, FGV.


36. Arena 65.08.31 cor/cg pasta 20, CPDoc, FGV.
37. Arena 65.08.31 cor/cg pasta 63, CPDoc, FGV.
38. Arena 65.08.31 cor/g pasta 69, CPDoc, FGV.
39. Arena 65.08.31 cor/g pasta 37, CPDoc, FGV.
40. Arena 65.08.31 cor/g pasta 38, CPDoc, FGV.
41. Arena 65.08.31 cor/g pasta 20, CPDoc, FGV.
42. Arena 65.08.31 cor/g pasta 50, CPDoc, FGV.
43. Arena 65.08.31 cor/g pasta 50, CPDoc, FGV.
44. Arena 65.08.31 cor/g pasta 49, CPDoc, FGV.
45. MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo
no Brasil (1917-1964). São Paulo: Perspectiva; Fapesp, 2002.
46. Arena 65.08.31 cor/g, CPDoc, FGV.
47. Arena 65.08.31 cor/g, CPDoc, FGV.
48. Arena 65.08.31 cor/g pasta 38, CPDoc, FGV.
49. Arena 65.08.31 cor/g, CPDoc, FGV.
50. Arena 65.08.31 cor/g pasta 8, CPDoc, FGV.
51. Arena 65.08.31 cor/g pasta 62, CPDoc, FGV.
52. Arena 65.08.31 cor/g pasta 71, CPDoc, FGV.
53. Em janeiro de 1976, o general Geisel cassou os mandatos do deputado federal
Marcelo Gato e do deputado estadual Nelson Fabiano Sobrinho, ambos do MDB
de São Paulo.
54. Arena 65.08.31 cor/g, CPDoc, FGV.
55. Arena 65.08.31 cor/g pasta 7, CPDoc, FGV.
56. Arena 65.08.31 cor/g pasta 75, CPDoc, FGV.
57. Arena 65.08.31 cor/p pasta 90, CPDoc, FGV.
58. Arena 65.08.31 cor/cg pasta 60, CPDoc, FGV.
59. Nos anos 1980, após a anistia e a liberalização partidária, Leonel Brizola e Miguel
Arraes de fato voltaram a organizar partidos políticos. Brizola não conseguiu a
legenda histórica do PTB, mas criou o Partido Democrático Trabalhista (PDT) e
Arraes reorganizou o Partido Socialista Brasileiro (PSB). Ambos foram eleitos
governadores após a abertura. Sobre Leonel Brizola e o PDT, ver: SENTO SÉ,
João Trajano. Brizolismo: estetização da política e carisma. Rio de Janeiro: Espa-
ço e Tempo; Fundação Getulio Vargas, 1999.
60. Arena 65.08.31 cor/g, CPDoc, FGV.
61. Arena 65.08.31 cor/g pasta 58, CPDoc, FGV.
62. Pontal (SP), 22/7/1976. Arena 65.08.31 cor/cg pasta 38, CPDoc, FGV.
63. GRINBERG, Lucia, op. cit., p. 200.

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Arquivo

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ção Getulio Vargas).

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CAPÍTULO 8 Desbundar na TV : militantes da VPR e
seus arrependimentos públicos1
Beatriz Kushnir*

*Diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Professora visitante de História


do Brasil na UFF. Pesquisadora do NEC. Autora de Cães de guarda: jornalistas e censores, do
AI-5 à Constituição de 1988. São Paulo: Boitempo, 2004, e organizadora de Maços na gave-
ta. Reflexões sobre mídia; Niterói: EdUFF, 2009.

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DEMARCANDO O TERRITÓRIO: COLABORACIONISMO EM FOCO

Ao refletir acerca das relações da grande imprensa brasileira com os órgãos


de censura do Estado no pós-1964, centrei as ponderações nos exemplos de
colaboração de parte dos jornalistas. Essa perspectiva inaugurou uma abor-
dagem diferenciada e que anteriormente era marcada majoritariamente pelo
ponto de vista da resistência. Não estou aqui generalizando nem incluindo
todos os jornalistas sob o manto do apoio ao arbítrio. Mas foram os jorna-
listas que apoiaram o ponto que elegi para analisar. Da mesma maneira que
outras trajetórias, opostas à tratada, já foram localizadas e estudadas, esse
olhar distinto auxilia na compreensão e apreensão do contexto, ampliando
os focos de análise.
É essencial, portanto, esta ressalva: o eixo desta apreciação ancora-se
em um território do qual participava apenas um pequeno grupo de dirigen-
tes — donos de jornais — e um diminuto círculo de jornalistas nas reda-
ções. A força que tiveram esses homens de jornal, entretanto, foi oposta ao
reduzido número de componentes.
Nesse sentido, não quero dar a entender que a autocensura e o colabo-
racionismo tenham sido praticados pela maioria dos jornalistas, pois isso
está longe da verdade. Muitos dos que “combateram” as práticas do Esta-
do pós-1964 e pós-AI-5 ficaram desempregados, foram encarcerados ou
perseguidos. Muitos jornalistas igualmente desempenhavam uma militância
de esquerda — de simpatizantes a engajados — e padeceram (muitas vezes
com marcas na própria pele) por tais atitudes.
Não é meu propósito, entretanto, assentar em uma mesma casta os do-
nos de jornais e os jornalistas de várias tendências. Não estou esquecendo

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

a multiplicidade de papéis possíveis de se desempenhar. Assim, o ponto de


partida foi como a relação imprensa versus Estado autoritário apreendeu a
existência de jornalistas que colaboraram com o regime, de outros que re-
sistiram e de outros ainda que lutaram contra ele. Tais avaliações também
se aplicam aos seus patrões.
Minha inquietação, no entanto, não se debruçou sobre a resistência. Não
negligencia a sua existência, mas buscou focar outro lado da problemática,
sem, espero, desejar generalizar, afirmando que todos colaboraram. Ape-
nas quis mostrar que nem todos combateram. O que essa avaliação preten-
deu foi revelar um dado oculto, que assim estava por força de um hábito ou
pela expressão dos acordos de uma convenção. Revelar aqui tem o sentido
de tirar um véu, não de “fazer uma revelação”. A vontade foi examinar para
desmistificar tanto a noção generalizante de que os jornalistas arguiram o
arbítrio, como também a percepção de que o censor é, antes de tudo, um
bilontra. É importante enfatizar, por conseguinte, que não quis delatar,
denunciar pura e simplesmente, mas “fazer conhecer” outra faceta da nar-
rativa histórica contemporânea que oculta personalidades menos “nobres”.
No âmbito da pesquisa mais ampla e que culminou na tese de doutora-
mento, os focos de análise confluíram em dois cenários e no diálogo que
eles estabeleceram. Busquei arrolar, por um lado, os jornalistas de formação
e atuação que trocaram as redações pela burocracia e fizeram parte, como
técnicos de censura, da DCDP (Divisão de Censura de Diversões Públicas),
órgão vinculado ao DPF (Departamento de Polícia Federal) e subordinado
ao Ministério da Justiça. E, por outro, os policiais de carreira que atuaram
como jornalistas, colaborando com o sistema repressivo e censor do pós-
1964. Para encontrar exemplos dessa trajetória, procurei redesenhar o per-
curso do jornal Folha da Tarde, do Grupo Folha da Manhã, de 1967 a 1984.
Ao deparar com essa interseção, que reunia jornalistas e censores em um
mesmo lado, unidos para resguardar um modus operandi, a imagem de cães
de guarda para defini-los tornava-se cada vez mais adequada.
Foi instigante, todavia, notar que, na busca por abarcar e delimitar o
conjunto de censores, me surpreendi ao encontrar, no primeiro grupo des-
locado para Brasília, dez jornalistas. A avaliação da trajetória do jornal Fo-
lha da Tarde se divide em dois períodos: do retorno da circulação, em 1967,

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DESBUNDAR NA TV

até o AI-5, quando se torna um instrumento de apoio e propaganda do


Estado autoritário. Na seção sobre os jornalistas, investigo a redação que lá
se encontrava em 1967, vinculada à cobertura dos movimentos políticos
da época, da qual faziam parte militantes de esquerda — de simpatizantes
a engajados. No ponto sobre os policiais, o foco é a mudança de contorno
e de conteúdo dos que lá passaram a trabalhar, já que o jornal ficou conhe-
cido como o Diário Oficial da Oban.2
É necessário mencionar que cheguei à história da Folha da Tarde por um
acaso. Na realidade, buscava uma entrevista com o delegado Romeu Tuma
— que, ao ser convidado pelo presidente José Sarney (1985-1990) para as-
sumir a direção do DPF, rompeu a tradição de militares ocuparem o cargo
máximo dessa instituição. Para tentar agendar com o delegado Tuma,
contatei o seu assessor de imprensa, em São Paulo, mas não conseguia mar-
car um encontro. Ao entrevistar o jornalista Boris Casoy para compreen-
der os reflexos da censura na redação da Folha de S. Paulo, mencionei a
dificuldade de localizar o já então senador Tuma. Casoy me explicou quem
era o assessor de imprensa de Tuma e o significado da frase que definia a
Folha da Tarde como “o jornal de maior tiragem”, pelo número de tiras,
policiais, na redação.
O espanto da revelação guiou a investigação. Se existiram censores ex-
jornalistas, também houve tiras escrevendo em jornal. Este é um estudo,
portanto, que toca na questão da ética, mas centra-se na prática de um ofício,
nas regras a serem seguidas e, sobretudo, nos seus momentos de rompi-
mento da prática e da conduta esperada. Ao mencionar a temática da ética,
é importante apontar igualmente que as empresas de comunicação vendem
um serviço. Ao comprar o impresso, adquire-se uma informação. Nesse
sentido, negocia-se com a veracidade de um relato. Assim, o que ocorreu
na Folha da Tarde de 1969 a 1984 é algo muito relevante para refletir acer-
ca das normas que regem esse “negócio”.
Da mesma maneira, creio ser importante assimilar que, ao focar a expe-
riência do colaboracionismo em parte da grande imprensa e, em especial,
nesse jornal, pude perceber que essa atuação se ramificou por todos os estra-
tos da sociedade brasileira. Exemplo disso está no objeto a ser cotejado nesta
análise: os desbundados. Essa pulverização e a multiplicidade de atuações

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

possíveis ratificam as considerações do historiador Daniel Aarão Reis, ex-


militante do MR-8.3 Para o autor,

(...) a sociedade brasileira viveu a ditadura como um pesadelo que é preciso


exorcizar, ou seja, a sociedade não tem, e nunca teve, nada a ver com a di-
tadura. [Então], como explicar por que a ditadura não foi simplesmente
escorraçada? Ou que tenha sido aprovada uma anistia recíproca?4

OS GANSOS: SEUS PESCOÇOS E OS MEANDROS DA INFORMAÇÃO

Percival de Souza, repórter especializado em polícia de O Estado de S. Pau-


lo e do Jornal da Tarde, tem se dedicado a conceber biografias de figuras
enigmáticas e de trajetórias sombrias da recente ditadura civil-militar brasi-
leira. Nessa linha, transcreveu e publicou o depoimento do cabo Anselmo5
e continuou na mesma trilha ao traçar o perfil do delegado Sérgio Paranhos
Fleury — o temido e sanguinário torturador do Deops do Largo General
Osório — como um amante adolescente.6
Esses relatos igualmente esquadrinham a estreita cumplicidade entre a
maioria dos profissionais da grande imprensa que se dedica a cobrir a área
policial e os meandros daquela instituição. Não foram poucos os jornalis-
tas que trabalharam como policiais contratados, como também existiram
policiais que cumpriram expediente nas redações, narrando e assinando co-
lunas e artigos. As biografias escritas por Percival de Souza, entretanto, não
agradaram nem mesmo a uma parte das antigas esquerdas armadas — que
o acusam, por exemplo, de fazer uso de uma estratégia escusa para conse-
guir o relato de Anselmo. Além disso, constrói uma imagem que muitos ex-
militantes consideram pouco fidedigna desse momento recente da história
brasileira. Ao que parece, também não saciou os desejos do outro lado.
Uma das críticas “bem à direta” à mais recente publicação de Percival de
Souza foi feita por Rômulo Augusto Romero Fontes, figura cuja trajetória
expõe uma das inúmeras comicidades, se não fossem tragédias, que per-
passaram a imprensa e as esquerdas armadas no pós-1968. Fontes foi mem-
bro de um grupo de cinco militantes da Vanguarda Popular Revolucionária

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DESBUNDAR NA TV

(VPR),7 que, depois de capturados pelos órgãos de repressão, negociaram


um arrependimento público nos jornais e na TV. Os que desbundaram, como
ficaram conhecidos, é o mote central desta análise, após essas observações
preliminares.
Apreendidos por mim como fiéis cães de guarda, os jornalistas colabora-
cionistas nas redações ou nos órgãos de censura foram definidos por Rômulo
Fontes, na sua crítica ao livro de Percival de Souza, com a imagem de “ni-
nho de gansos” (possivelmente por ser esse também um frequentador des-
sas “moradas de informantes”). Assim descreveu Fontes a atitude de dois
grupos diversos diante do prédio do Deops:8 havia profissionais da grande
imprensa que esperavam para serem revistados na portaria, para só depois
ter acesso às informações e elaborar suas reportagens, e jornalistas tidos
como “da casa”, como Fontes classificou Percival, que seguiam por uma
entrada lateral, reservada aos policiais e apelidada de “passagem dos gansos”.
Percebendo-os como gansos ou cães, ao que tudo indica, parte da gran-
de imprensa brasileira seguiu uma “tradição” não inaugurada em 1964 e/ou
em 1968. Usando-se essa “passagem”, essa entrada lateral, esse outro lugar
(escuso, alternativo, não legal), alguns jornalistas eram habitués do lado de
lá do balcão. Esses trocaram a narrativa de um acontecimento pela publica-
ção de versões que corroborassem o ideário repressivo. Certamente acre-
ditavam nas suas ações, compactuando sempre com o poder vigente. Além
de usar as penas, que também servem para escrever, mais do que isso, como
os gansos, esticaram os pescoços, “viram” e nos contaram uma versão bem
particular da realidade que se vivia. A esse ato se pode dar o nome de
autocensura, como também de colaboração.
Submissamente leais aos seus “donos”, esses cães de guarda farejaram
uma brecha, protegeram uma suposta morada e, principalmente, ao defen-
der o castelo, nos venderam uma imagem errônea, desfocada e particular.
Quando o tabuleiro do poder se alterou, muitos desses servidores foram
aposentados, ao passo que outros construíram para si uma imagem positi-
va e até mesmo heroica, distanciando-se do que haviam feito. Outros tan-
tos se readaptaram e estão na mídia como sempre.
De todos esses esquemas e estruturas formulados para “perder poucos
anéis”, algo deve ser sublinhado: a informação impressa, narrada ou tele-

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

visionada é um produto vendido por jornais, rádios e TVs. Na condição de


serviço — difundir a notícia ou a informação — tornou-se um bem público
e uma relação de comércio, quando comprada pelos leitores, e confiança,
ao se adquirir esse e não aquele jornal, revista etc. Mais um exemplo dessas
narrativas desfocadas pode ser apreendido quando se analisa a experiência
dos mea culpas públicos.

DAS ONDAS QUE VÃO E VÊM: AÇÕES E REAÇÕES

Parecia que quase tudo era possível, bastava ousar. Pisar na Lua era
possível.
Pisaram. Recusar ir para a guerra era possível. Recusaram. Desviar
um avião para Cuba era possível. Desviaram. (...) Obrigar a dita-
dura militar a ler em todas as televisões um manifesto contra ela
mesma era possível. Obrigaram. Livrar -se da URSS era possível.
Tentaram, os tchecos tentaram. Ganhar o trimundial de futebol era
possível. Ganhamos.9
IVAN ÂNGELO

Ousados sequestros de diplomatas estrangeiros retiravam militantes dos


cárceres com notas divulgadas pela TV. Em algum momento, a repressão
revidaria tanto “atrevimento”. Mas, antes de exemplificar esses atos de re-
taliação do governo, é preciso compreender um termo aqui usado. Para
circunscrever o conceito de desbundar, uso um comentário que me foi feito
por Daniel Aarão Reis. Preocupado com possíveis interpretações irônicas
ou que atraíssem a ira sobre as vítimas das torturas, e não sobre os tortura-
dores, Aarão Reis refletiu que

(...) devemos ter, sempre, compaixão dos que não aguentaram os maus-tra-
tos. Desbundado foi uma palavra inventada pelos caras “duros” de vanguar-
da que, assim, se referiam desprezivelmente a todos que não viam com bons
olhos a aventura das esquerdas armadas. Depois, passou a se referir especi-
ficamente às pessoas que cediam diante da tortura. Mais tarde, o termo tor-
nou-se um genérico, designando, ambiguamente, seja os que eram contra a

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DESBUNDAR NA TV

luta armada, desqualificando-os, seja os que cediam diante da tortura. Enfim,


trata-se de um termo carregado de sentido pejorativo e deve ser usado com
muito cuidado. Em tempo: os torturadores gostavam muito de utilizá-lo.

Para adentrar esta narrativa talvez seja importante fixar como um mar-
co o assassinato de Bacuri. Eduardo Collen Leite era um jovem quadro de
ação armada, fundador da Resistência Democrática (REDE), pequena or-
ganização de São Paulo, que ingressou na Ação Libertadora Nacional (ALN)10
em 1970. Preso em 21 de agosto de 1970 e torturado por cerca de cem
dias, foi assassinado em dezembro de 1970. A notícia oficial de sua morte,
transformada em reportagem pela Folha da Tarde, legalizou, atribuindo
outras causas, um assassinato decorrente de tortura. Mas não eram só essas
temáticas que preocupavam aquele jornal a partir de julho de 1969.
No sábado 24 de outubro de 1970, Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo,
caiu. A manchete da Folha da Tarde do dia 26 tem o seguinte título em letras
garrafais: “LAMARCA, O LOUCO, É O ÚLTIMO CHEFE DO TERROR.”
Na exposição sobre o homicídio de Toledo, quando se refere a Lamarca, o
jornalista da Folha da Tarde menciona que “(...) resta a esses grupos uma única
e péssima alternativa: aceitar a chefia do delinquente Carlos Lamarca, que
não passa — e eles bem o sabem — de um criminoso comum e psicopata”.11
O veredicto do tabloide expõe os pressupostos das medidas repressivas
contra a luta armada — quebrar as organizações das esquerdas capturando
seus líderes. Objetivando desmoralizar um dos últimos líderes das esquer-
das armadas ainda vivo e fora da prisão, a notícia da morte de Bacuri fina-
liza emitindo as opiniões de um ex-militante da VPR, Massafumi Yoshinaga,
sobre o ex-militar. As declarações de Massafumi, o Massa, fazem parte de
uma outra ponta da teia montada para destruir as ações das esquerdas, que
tinha nesse órgão de imprensa um aliado.
Assim, além da captura de seus líderes e militantes, também fez parte da
estratégia “induzir” alguns militantes a protagonizar um arrependimento
público. Nesse contexto, em 2 de julho de 1970, os dois principais jornais
de São Paulo tinham como manchete: “Terrorista entrega-se ao Deops”
(Folha de S. Paulo); e “Desiludido e cansado, terrorista entrega-se” (O Estado
de S. Paulo).12

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Essas reportagens narram a trajetória de Massafumi Yoshinaga, de 21 anos,


que, engajado na VPR e com participação política havia cinco anos, fazia parte
do grupo do estudante Marcos Vinício Fernandes dos Santos e que, segundo
declarou, se entregou ao Deops paulista por livre e espontânea vontade. Para
o jornal Folha de S. Paulo, um dos principais motivos desse ato seria o não
repasse de recursos da organização para mantê-lo na clandestinidade. Já O
Estado de S. Paulo noticiou que foram membros da família do militante que
negociaram com as autoridades policiais a “rendição” de Massafumi.
Essa história, entretanto, começou um mês e meio antes. A manchete da
Folha da Tarde de 22 de maio de 1970 anunciava: “Terrorismo é uma farsa,
denunciam jovens presos”, expondo o arrependimento de cinco militantes
políticos recém-ingressos na VPR — Marcos Vinício Fernandes dos Santos,
Rômulo Augusto Romero Fontes,13 Marcos Alberto Martini, Gilson Teodoro
de Oliveira e Osmar de Oliveira Rodello Filho. Capturados pela polícia
política de São Paulo em janeiro de 1969, decidiram escrever, quase um
ano e meio depois, duas cartas abertas, em que reavaliariam suas posições
ante a militância armada. Uma seria dirigida à opinião pública internacio-
nal, “tranquilizando quanto ao tratamento carcerário dos presos políticos
à disposição da Justiça brasileira”,14 e a outra, aos jovens brasileiros, con-
denando as ações armadas e o engajamento na militância de esquerda, que
“alienariam os seus participantes”. Adequando assim seus discursos à prá-
tica policial do momento, esse grupo de militantes “inaugurou” essa prática
de “arrependimentos públicos”, que, infelizmente, seria repetida por outros.15
Esses cinco militantes estavam detidos na ala para presos políticos do
presídio Tiradentes, em São Paulo, quando foram a público prestar depoi-
mento, ou seja, desbundar. Ricardo Azevedo, ex-integrante da Ação Popu-
lar (AP),16 que esteve confinado entre 18 de setembro de 1969 e 3 de outubro
de 1970, relembrou que eles estavam na sua cela, a de número 3, e que,
frequentemente, saíam para conversas com advogados. Essas ausências

(...) aumentavam. Passaram a ser chamados quase diariamente e permaneciam


fora da cela por várias horas. Um dia, constatamos que tinham sido levados
para fora do presídio. (...) Qual não foi nossa surpresa quando, à noite, em
horário nobre, vimos os cinco na televisão, dando declarações de arrepen-

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DESBUNDAR NA TV

dimento. (...) A revolta foi geral. (...) Imediatamente, os coletivos das diver-
sas celas se reuniram e, não me lembro como, os coordenadores de cela fe-
charam unanimemente nossa posição.
(...) Para nossa surpresa, por volta da uma da madrugada, o camburão
chegou ao presídio trazendo-os de volta. (...) Todos nos aglomeramos junto
às portas das celas. (...) Eles assomaram à entrada do corredor. Imediata-
mente nos pusemos a gritar como loucos, com toda a força que a raiva nos
dava. (...) Creio que por cinco minutos, na madrugada paulistana, mais de
cem presos gritamos: “Traidores! Traidores! Traidores!” (...) Rômulo sorria
ironicamente, Marquinhos xingava e os outros três estavam de cabeça baixa.17

É importante ressaltar que os desbundados aqui relatados pertenciam a


uma mesma organização: a VPR. Isso não quer dizer, entretanto, que só
cometeram esse ato os militantes dessa organização. É necessário, contu-
do, compreender que organização era essa. A Vanguarda Popular Revolucio-
nária surgiu, em março de 1968, da “(...) união de militantes de origens
diversas: dissidentes que cindiram”. Tal ruptura se deu porque alguns dos
companheiros “(...) defendiam a necessidade de partir imediatamente para
a construção do foco guerrilheiro”.18 Seguindo os passos dos integrantes
do MNR19 — que tentaram iniciar em Caparaó o foco de luta rural — e de
líderes operários ligados ao movimento sindical da cidade paulista de Osasco,
na VPR, segundo Rollemberg, podem-se (...) distinguir (...) duas fases bem
claras. No 1º Congresso, em dezembro de 1968, (...) [se] explicitou a ten-
são entre o grupo dos militantes do MNR, que defendia propostas de con-
fronto imediato com o regime, e o setor liderado pelo então teórico da VPR
João Quartim de Moraes, que recomendava o recuo na linha responsável
pelas ações de grande impacto que a organização vinha fazendo.20 Assim,

(...) Em 1º de julho de 1969, a VPR juntou-se aos Comandos de Libertação


Nacional (Colina), organização que também se formou com dissidentes de
Minas Gerais do 4º Congresso da Polop. Nessa fusão, entraram outros gru-
pos, como o do Rio Grande do Sul.
(...) A união não resistiu ao primeiro congresso da nova organização, em
setembro de 1969, quando a maioria dos militantes recuperou antigas posi-
ções da Polop que buscavam limitar o militarismo.21

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Os que discordaram da posição que prevaleceu no congresso e defende-


ram o desencadeamento imediato das ações armadas partiram para a re-
construção da VPR.
Nesse sentido, os militantes que desbundaram adentraram na organiza-
ção nessa segunda etapa, “(...) cujas posições estão expressas no documen-
to elaborado por Ladislas Dowbor, com o codinome Jamil Rodrigues, [com
o título de] Caminhos da Revolução”.22 As diretrizes ali traçadas instituíam
a necessidade de uma entidade disposta a enveredar pela luta armada. Feita
essa observação, pela qual se compreende o perfil da VPR em que estavam
esses ativistas, é preciso destacar outro ponto: embora as notícias desse
“arrependimento” não tenham sido veiculadas apenas pela Folha da Tarde,
o que chama a atenção é o destaque dado a elas por esse jornal. Os infor-
mes acerca dos fatos eram sempre notas oficiais divulgadas à imprensa. A
revista Veja publicou uma reportagem de seis páginas, em que as duas últi-
mas pinçavam os principais trechos dos depoimentos tanto do grupo de
Marcos Vinício como do de Massafumi.23 A Folha da Tarde, além de ter
feito do argumento uma manchete de primeira página, contratou, como
também o fizeram outros jornais um pouco mais tarde, dois desses “arre-
pendidos” como jornalistas.
Marcos Vinício Fernandes dos Santos e Rômulo Augusto Romero Fon-
tes, após ser libertos, passaram a escrever para a Folha. Marcos Vinício
participou da greve dos metalúrgicos de Osasco, em 1968, em que conhe-
ceu José Ibrahim Pereira, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos daquela
cidade, e, a partir de então, envolveu-se nas atividades do MNR. Na Folha
da Tarde, foi um colaborador.
Fontes pertenceu ao quadro do periódico até 1984. Pernambucano,
narrou sua militância vinculada aos movimentos estudantis, às Ligas Cam-
ponesas e, mais tarde, à IV Internacional, de cunho trotskista. Encarcerado,
permaneceu, de dezembro de 1966 a agosto de 1967, no Recife. Evadiu-se
para São Paulo, em março de 1968, depois de saber de sua condenação na
Auditoria Militar do Recife, e vinculou-se ao grupo de Pedro Chaves, Roque
Aparecido da Silva e José Ibrahim Pereira.
Fontes, Marcos Vinício, Ibrahim e os outros caíram dias depois da deser-
ção do capitão do Exército Carlos Lamarca, em 24 de janeiro de 1969.

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DESBUNDAR NA TV

Lamarca, que naquele momento se ligou à VPR, servia no 4º Regimento de


Infantaria, no Quartel de Quitaúna, em Osasco, na época comandado pelo
coronel Antônio Lepiane. Desses militantes, em setembro, Ibrahim foi um
dos presos políticos trocados pelo embaixador americano sequestrado.
Marcos Vinício revelou, tempos depois, que foi a prisão que possibilitou
uma reflexão sobre suas atividades na militância de esquerda, ideia corro-
borada por Osmar de Oliveira.24 Fontes, no período em que ficou preso
pela segunda vez, já em São Paulo, esteve incomunicável até agosto de 1969.
Rememorando, revelou que foi a partir das visitas, que começou a receber,
que o grupo deliberou (...) expressar uma posição contrária. [Portanto], “a
entrevista [de maio de 1970] foi um produto de um trabalho que fizemos.
O manifesto de maio de 1970 foi o coroamento de uma visão nacionalista,
de plena identificação ao ideário do governo Médici. Entrei no presídio
Tiradentes como um homem de esquerda e saí como [um homem de] direi-
ta. Hoje sou integralista”.25
Nessa mesma direção, Marcos Alberto Martini assumiu, um ano depois
do seu “arrependimento público”, que teria sido o discurso de posse do
presidente Médici, ouvido por ele na prisão, o que o levara a (...) [pensar]
“na necessidade de questionar os fundamentos da minha doutrina”. Princi-
palmente o papel político que tinha desempenhado como membro de uma
organização esquerdista radical.26
Buscando ressaltar esses atos de desbunde, Fontes sublinhou o ineditismo
da ação de maio de 1970, o manifesto, como denominou. Nessa trilha, igual-
mente enfatizou que foi uma decisão de foro íntimo e que não houve pedido
de pessoas do governo para que isso se realizasse. Havia, segundo ele, ape-
nas um “encontro” de propósitos.
Desse modo, Fontes destacou que, quando os cinco se decidiram, aí sim
houve a “visita” de representantes do governo — dos quais Fontes não quis
mencionar os nomes — na tentativa de delimitar de onde viria essa ajuda.
É oportuno destacar que Fontes e mais dois amigos tiveram como advoga-
do o dr. Juarez Alencar de Araripe, da Auditoria Militar. Como consequência
das declarações de maio de 1970, foi transferido para Fortaleza, no Ceará,
só sendo libertado em 14 de julho de 1971. Seus quatro companheiros, en-
tretanto, ganharam liberdade no Natal de 1970.

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

Ainda refletindo sobre essas “exposições públicas”, vale enfatizar o caso


de Massafumi. Após a sua queda — sendo esse o último participante do
grupo de desbundados da VPR — existiram, é claro, inúmeras reportagens,
em todos os jornais do país, que exibiram o seu arrependimento público.
Há, contudo, uma referência do Jornal da Tarde, de 18 de julho de 1970,
que procurou manipular o fato, construindo mais uma vez, e de forma ne-
gativa, uma reflexão acerca da militância armada.
Nessa direção, o jornal narrou uma reação de parte da militância, que
teria arremessado de cima do prédio da rua Santa Teresa, em São Paulo,
panfletos assinados pela Unidade Operária com o título “O que Massafumi
deixou de dizer”. Neles, eram expostos o (suposto) vínculo de Massafumi com
a polícia e as questões nacionais que sua carta à imprensa se “esqueceu” de
mencionar.
Era uma tentativa das militâncias das esquerdas de apresentar um outro
quadro da situação e circunscrever o negativismo em relação à causa da luta
armada a um grupo de “maus” companheiros. Dias depois, o Jornal do Bra-
sil divulgou que os “arrependidos voltariam à TV”. Seriam eles Massafumi,
Fontes e Marcos Vinício, em um programa gravado na TV Tupi de São Paulo
e que, após aprovação das autoridades, seria exibido na noite de 23 de ju-
lho de 1970. A mesma nota do jornal carioca informava as investigações
do Deops paulista para descobrir os autores dos panfletos contra Massafumi,
que “não teria falado das torturas, da exploração de flagelados do Nordes-
te e da suspensão das eleições diretas, (...) anulação da lei de remessa de
lucros e da venda de terras a estrangeiros”.27
Anos mais tarde, sem se reconciliar com seu passado, Massafumi se sui-
cidou. Mais uma vez refletindo acerca dos comentários de Daniel Aarão
Reis, é importante sublinhar o que esse processo representou para cada um
dos envolvidos — os militantes, o governo e os desbundados.
Essa triste memória — a ida à TV para um expurgo público que infeliz-
mente não parou nesses cinco casos — também marcou outras pessoas, todas
militantes de esquerda. São eles: o carioca Manoel Henrique Ferreira, ex-
militante do MR-8, e o militante responsável pelo setor de inteligência da
VPR, Celso Lungaretti. Isso porque a crueldade dessa ação, desse arrepen-
dimento público, não cessava de aparecer nas notas na imprensa. Muito

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DESBUNDAR NA TV

provavelmente, a maioria desses indivíduos teve sua “rendição” conseguida


pelos órgãos de repressão, que, certamente, usaram de violência física para
tal. Programas gravados foram veiculados minutos antes do único jornal
televisivo nacional da época, o da Rede Globo, recentemente colocado no
ar. Ou seja, o intuito era afirmar, em cadeia nacional de TV, que ser oposi-
ção ao governo era um exercício realizado por pessoas que, arrependidas,
expunham quão sem sentido era o combate.
Destruir a imagem desses militantes diante da população em geral, fa-
zendo do povo um aliado contra a luta armada, era, em primeira e última
instância, o alvo.28 O Jornal do Brasil de 3 de setembro de 1977 trouxe um
depoimento de Manoel Henrique Ferreira sob o título “Terrorista preso
afirma que ‘se arrependeu’ sob tortura”. Na época com 31 anos e condena-
do a 57 de prisão, Manoel escreveu uma carta ao arcebispo de São Paulo,
dom Paulo Evaristo Arns, em que afirmava ter comparecido à TV sob coa-
ção e com promessas de que seria libertado. Debatendo-se com a dor da
prisão e com o esquecimento momentâneo das propostas da luta, Manoel
ficou profundamente marcado pelos episódios de julho de 1971. Ele era
procurado, entre outras atividades, por ter sido um dos quatro guardas res-
ponsáveis pelo embaixador alemão sequestrado em 11 de junho de 1970.
Seu nome foi divulgado pela imprensa um dia após o seu pronunciamento
na TV, em 13 de julho de 1971.

Esse pronunciamento (...) deveria ter como objetivo impedir que outras
pessoas ingressassem na subversão. Eu deveria dirigir-me sobretudo à juven-
tude. Deveria também falar sobre o bom tratamento que estava recebendo,
sobre a inexistência de torturas. (...) Dias depois, descumprindo um dos tra-
tos, é levada uma televisão à cela, onde é passado o meu pronunciamento,
gravado anteriormente em videotape. Aquilo foi uma verdadeira agressão
aos presos, principalmente pela surpresa e pelo fato de eu tê-los enganado,
não falando nada para ninguém.29

Centrando nesses outros dois militantes — Manoel Henrique Ferreira e


Celso Lungaretti — e tendo como foco a versão da Folha da Tarde sobre
esses casos, publicada na manchete de 9 de julho de 1970, o Jornal do Brasil

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

sentencia, no caso de Lungaretti, que: “Terrorismo em pânico: outro ban-


dido deserta.” Detido desde 16 de junho, Lungaretti renegou sua militância
em um manifesto divulgado no dia anterior, na 1ª Região Militar, no Rio.
As declarações desse militante na prisão, coletadas sob tortura, iniciaram
uma nova devassa nos quadros da VPR. Sua atuação, renegando a luta, foi
exposta durante uma hora na TV, no mesmo dia em que o jornal estava nas
bancas.30
Ivan Seixas lembra que, na ocasião do depoimento de Lungaretti na te-
levisão, Carlos Lamarca estava escondido em sua casa, em São Paulo. Na
entrevista, Lungaretti chamou Lamarca de “paranoico exibicionista, que
usava nomes de guerra de personagens grandiosos, como Cid, César etc., e
que tinha um plano de sequestrar o delegado Fleury para fazer um duelo,
do tipo faroeste, para ver quem era mais rápido no gatilho”. Essa clara ten-
tativa de desmoralizar e ridicularizar Lamarca, como recorda Seixas, dei-
xou o ex-capitão profundamente magoado.
Se um lado dessa estratégia aproxima os militantes “arrependidos” dos
órgãos de repressão, outro necessariamente precisava ser ocupado pela re-
lação desses órgãos repressivos com a TV e a imprensa. Como me relatou
Duarte Franco31 — funcionário do Departamento de Qualidade da TV
Globo por mais de 30 anos —, os trâmites para a apresentação desses pro-
gramas naquela emissora de televisão eram de responsabilidade de um fun-
cionário com profundas ligações com o Estado-Maior do Exército, Manoel
Edgardo Ericsen. O objetivo era apontar à população a certeza da diretriz
do governo na repressão aos movimentos de guerrilha. Alguns desses de-
poimentos na TV foram posteriormente exibidos aos companheiros de cela
do militante. O anseio talvez fosse o de que ali se realizasse um justiçamento.
No cerne desse mesmo enfoque, Judith Patarra, redesenhando a biogra-
fia de Iara Iavelberg — a mulher de Carlos Lamarca —, reflete sobre a ques-
tão. Assim, em 21 de maio [de 1970], cinco presos denegriram a militância
em vídeo gravado e posto no ar pela TV. À revolta seguiu-se comiseração.
O que haviam sofrido, qual a fraqueza a provocar simbiose com o algoz?32
A mesma autora usa essa investida biográfica para, pela fala de Iara, ques-
tionar esse ato. Nessa reflexão, a militante, nas palavras de sua biógrafa,
procurava (...) o deletério nos semblantes. Há graus de sucumbência, dizia,

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DESBUNDAR NA TV

onde [há] diferença entre eles e Olavo Hansen, do grupo trotskista, preso
em 1º de maio e torturado sem nada abrir até a morte?
Um dia [diria Iara por Judith] “estudo o lado emocional da militância”.33
O importante a ressaltar é que, em parte da imprensa brasileira, em deter-
minados momentos desse período, se pode pinçar um ou outro episódio
estranhamente reportado. Um exagero na análise e a ausência de uma in-
vestigação mais precisa comprometeram, olhando do presente, a clareza
do fato. Além disso, muitas análises iam de encontro — no sentido de se
chocar e opor — à ação das esquerdas armadas. Certamente, uma parcela
grande da imprensa condenava a guerrilha e usava termos como “subversi-
vo”, “terrorista” e “terror” para referir-se ao assunto. Nessa direção, um
exemplo encontra-se na ponderação feita pela revista Veja sobre o militan-
te Carlos Lamarca, em que são apresentadas muitas das ideias e imagens
que circunscreviam a temática no momento.
Na edição de 3 de junho de 1970, em uma capa que copiava trechos
manuscritos do militante, expõe-se sua caligrafia, que, segundo o semaná-
rio, revela a letra de um menino. Desse fato, pelas impressões de Iara, trazidas
por Patarra, tem-se que a (...) reportagem [era] sobre Lamarca, as quedas
de 21 de abril omitindo a morte de Juarez [Guimarães de Brito], as tortu-
ras. Páginas assépticas. Censura. A capa reproduzia um texto manuscrito,
(...) junto ao rosto recortado, sem traços. Forma de máscara mortuária. [O
título diz] “A nova face do Terror”. Começa com a plástica de Lamarca,
que a repressão mantivera em segredo. (...) Alguém da VAR-Palmares aju-
dou a reportagem, conclui.34
No exercício de uma arqueologia do léxico, o jornalista João Batista de
Abreu35 ponderou acerca do vocabulário que permeou a imprensa brasilei-
ra no pós-1964. Unindo uma terminologia policialesca às questões da
militância política, os guerrilheiros da luta armada tornaram-se “elemen-
tos”, como qualquer “meliante” que assalta um banco ou rouba um carro.
No decorrer do processo, “subversivo” era toda e qualquer pessoa que se
opunha ao golpe. A exemplo da figura de Che Guevara, o militante era tam-
bém um “guerrilheiro”, mas no sentido negativo do termo, ou seja, não o
que luta, mas o que se opõe. Influenciado pelas ações de guerrilha urbana
na Europa, na América e no Oriente Médio, que, para o noticiário da épo-

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ca, geravam terror e caos, o militante também passou a ser “terrorista”. Nesse
sentido, nos cartazes de procurados, liam-se “terroristas políticos” e a ad-
vertência: “Para a sua segurança, coopere, identificando-os. Avise a polícia.”
Esquadrinhando a gênese do termo, Abreu entrevistou jornalistas. Para
Alberto Dines — editor-geral do Jornal do Brasil entre 1961 e 1973 — te-
ria sido o governo que recomendou o termo “terrorista” a partir do AI-5.
Já para José Silveira — secretário de redação do mesmo jornal — foi uma
invenção do próprio jornal. Mas, como demonstra Abreu, foi o jornal O
Globo que, em 1966, pela primeira vez envergou o termo, sem qualquer
pedido das autoridades.
Na manchete da primeira página desse periódico, em 26 de julho de
1966, lê-se: “Terrorismo não interrompe o programa de Costa e Silva.”
Assim, antes mesmo de o governo impor, alguns jornais já tinham condenado
as guerrilhas urbanas. Tal qual o PCB, que, em 1967, no seu VI Congresso,
não acreditava na luta armada como uma forma de combater a ditadura
civil-militar, uma grande parte da imprensa nacional igualmente não ade-
riu a essa forma de combate. Para os pecebistas, o caminho seria a (...) par-
ticipação em todas as instituições permitidas pelo regime ditatorial. Por meio
do caminho eleitoral, consideravam possível e desejável restabelecer a or-
dem democrática no país. (...) criticando todos aqueles que no pós-64 rom-
peram com o partido e aderiram à luta armada, os pecebistas afirmavam:

Já nos primeiros dias após o golpe militar, (...) recusaram-se ao esquerdismo


aventureiro, diagnosticando os aspectos essenciais da ditadura militar. Nega-
ram-se ao radicalismo e colocaram no centro de sua estratégia a luta organi-
zada das massas contra o autoritarismo, a autocracia, o fascismo.36

Mesmo depois do AI-5, para muitos ainda, a luta não deveria ser associa-
da às armas. Se alguns jornais mantinham uma política híbrida, a Folha da
Tarde, entretanto, foi radical. A diferença encontrada no caminho percor-
rido pelo jornal é mais agravante e, por isso, tão inusitada. Sua trajetória, a
partir de julho de 1969, assenta o debate na questão da ética, da função do
jornal e do papel do jornalista. Radical em sua reflexão, Cláudio Abramo
sentencia que

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DESBUNDAR NA TV

(...) a ética dos jornalistas, portanto, é um mito que precisa ser desfeito. (...)
O jornalista não deve ser ingênuo, deve ser cético. Ele não pode ser impiedoso
com as coisas sem um critério ético. Nós não temos licença especial, dada
por um xerife sobrenatural, para fazer o que quisermos.
(...) O jornalismo é um meio de ganhar a vida, um trabalho como outro
qualquer; é uma maneira de viver, não é nenhuma cruzada. E por isso você
faz um acordo consigo mesmo: o jornal não é seu, é do dono. Está suben-
tendido que se vai trabalhar de acordo com a norma determinada pelo dono
do jornal, de acordo com as ideias do dono do jornal.
(...) O jornalismo não é uma profissão, é uma ocupação. Um dia desses
Paulo Francis melhorou o meu pensamento — e definiu jornalismo como uma
carreira, o que eu acho uma definição correta. É uma carreira, não uma pro-
fissão. O que é o jornalismo é uma questão complicada. Depende muito do
conceito que se tem da função do jornal, do jornalismo e do papel que eles
exercem na sociedade. O que tenho a oferecer é a minha visão, que provavel-
mente não é compartilhada por outros jornalistas brasileiros ou do resto do
mundo. O papel do jornalista é o de qualquer cidadão patriota, isso é, defen-
der seu povo, defender certas posições, contar as coisas como ocorrem com o
mínimo de preconceito pessoal ideológico, sem ter o preconceito de não ter
preconceitos. O jornalista deve ser aquele que conta a terceiros, de maneira
inteligível, o que acabou de ver e ouvir; ele também deve saber interpretar
coisas como decretos presidenciais, fenômenos geológicos, a explosão de um
foguete, um desastre de rua. Deve saber explicar para o leitor como o fato se
deu, qual foi o processo que conduziu àquele resultado e o que aquilo vai
trazer como consequência. (...) Caso se dê a notícia simplesmente, ela não é
mentirosa: aconteceu aquilo. (...) Mas a informação pode ir mais fundo.37

A redação da Folha da Tarde depois de 1° de julho de 1969, ao que tudo


indica, concedeu uma leitura muito particular às imagens que vinham das
ruas e das instâncias do poder. Desse grupo de desbundados, a opção por
uma vida oposta à que tinham na militância parece que foi a conduta esco-
lhida. No caso de Fontes, a militância integralista o absorve no momento.
No exemplo de Lungaretti, após anos se sentindo injustiçado pela reação
dos seus companheiros militantes de esquerda às suas opções, veio à tona
com um relato particular do que teria acontecido.38 Na apresentação do
livro, Luís Alberto de Abreu expõe as

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A CONSTRUÇÃO SOCIAL DOS REGIMES AUTORITÁRIOS — BRASIL E...

(...) duas graves acusações (que) pesavam contra Celso. Uma delas era con-
creta: imputava-lhe a responsabilidade pela queda do segundo campo de
treinamento da guerrilha de Lamarca, no Vale do Ribeira.39 Essa acusação
durante mais de 30 anos teimou em tornar-se História, mas neste ano novas
informações isentaram completamente Celso Lungaretti da acusação de
delação, como está bem documentado e reconhecido neste livro.
A outra acusação era abstrata. Tratava-se de um julgamento moral sobre o
fato de Celso Lungaretti ter, publicamente, abjurado da luta armada e lança-
do acusações contra Lamarca, seu comandante na clandestinidade. Não se
levaram em consideração as evidências de que tal abjuração tenha sido
conseguida por meio de tortura como podia ser percebida no rosto, ainda
inchado por maus-tratos, exposto nas imagens da TV e em revista de circula-
ção nacional. E é aqui onde a ficção se aproxima perigosamente da realidade.40

No relato de Lungaretti, de mais de 200 páginas — bem como em sites


de jornalistas, como o de Carlinhos Brickman,41 no qual escreveu em 30 de
março de 2007 o texto “Há 43 anos o país entrava nas trevas” —, nunca há
qualquer menção que exponha o que teria acontecido para que essa dela-
ção pública tenha ocorrido. Lungaretti “optou” por circunscrever esse pe-
ríodo de sua trajetória a um momento que deve ser absorvido pelo “terreno
do abstrato”, como, parece, seus amigos o preferiram classificar. O silêncio
foi a opção/estratégia para (não) encarar esse episódio.

Notas

1. Uma versão anterior deste texto, bem como as linhas gerais desta reflexão, são
frutos de minha tese de doutoramento em História, defendida na Unicamp em
outubro de 2001 e publicada no livro de KUSHNIR, Beatriz. Cães de guarda: jor-
nalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988. São Paulo: Boitempo, 2004.
2. A Operação Bandeirantes (Oban) era a ação repressiva vinculada ao II Exército,
financiada, em parte, por empresários. Foi uma iniciativa conjunta do II Exército
e da Secretaria de Segurança Pública do governo Abreu Sodré, como uma tenta-
tiva de centralizar as atividades de combate às crescentes ações de guerrilha urba-
na em São Paulo. Criada em 29/6/1969, a Oban permaneceu até setembro de
1970 em caráter extralegal (não era encontrada no organograma do serviço pú-

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DESBUNDAR NA TV

blico). Isso demonstra que esse tipo de expediente era usado pelo governo dita-
torial para manter em sigilo operações mais incisivas.
3. O Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8) originou-se da Dissidência
da Guanabara (DI) do PCB (Partido Comunista Brasileiro), tendo uma grande
influência sobre o movimento estudantil. Destacou-se nacional e internacional-
mente ao idealizar, em conjunto com a ALN (Ação Libertadora Nacional), o
primeiro sequestro de caráter político que obteve êxito: o do embaixador norte-
americano no Brasil. Sua nomenclatura é uma lembrança da data de prisão de
Ernesto “Che” Guevara, na Bolívia, em 1967, assassinado no dia seguinte.
4. AARÃO REIS, Daniel. Ditadura militar, esquerdas e sociedade. Rio de Janeiro,
Jorge Zahar Editor, 2000, p. 10. É importante também sublinhar uma imagem
cunhada pelo mesmo autor quando analisou as recentes apropriações imagéticas
dos anos de chumbo, como o filme O que é isso, companheiro? Formulando a
expressão de uma “memória da conciliação”, em que a dor não tem lugar, Aarão
Reis demonstra certa continuidade de olhares sobre um dado momento históri-
co. Ver “Um passado imprevisível: a construção da memória da esquerda nos
anos 60”, in: AARÃO REIS, Daniel et al. Versões e ficções: o sequestro da histó-
ria. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1997.
5. A trajetória do cabo Anselmo tem diferentes interpretações. Para alguns, ele era,
naqueles tempos, um esquerdista talentoso e excelente agitador que despontou
na militância de esquerda por suas articulações com o MNR (Movimento Nacio-
nalista Revolucionário). Muitos se referem a ele sublinhando sua ousadia e arro-
gância. O cerco aos movimentos da luta armada e o medo da morte justificariam,
para alguns, sua traição e colaboração com a repressão policial. A ideia de ter
sido ele um delator infiltrado é uma leitura do PCB, que se comprazia em dizer,
desde 1962-1963, que o cabo era um agente do serviço secreto americano (CIA).
Para o Partidão, a mudança de posição e sua colaboração são tidas como uma
“prova” que corrobora sua reflexão.
6. SOUZA, Percival de. Eu, cabo Anselmo. Rio de Janeiro: Globo, 1999.
7. Fruto da fusão, em 1968, da Organização Revolucionária Marxista (ORM), da
Política Operária (Polop) de São Paulo e da seção paulista do Movimento Nacio-
nal Revolucionário (MNR). Sua principal figura pública foi o capitão Carlos
Lamarca, que desertou do 4º Regimento de Infantaria do quartel de Quitaúna,
no município de Osasco (SP), em 24/1/1969. Em 1969, a VPR fez uma nova
aglutinação com o Comando de Libertação Nacional (Colina), adotando, a par-
tir de então, a nomenclatura Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-
Palmares). Em setembro de 1969, ocorreu uma cisão, fazendo ressurgir a VPR.
Em 1970, a organização esteve envolvida no sequestro dos diplomatas japonês,
alemão e suíço, bem como nas tentativas de guerrilha rural do Vale do Ribeira

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(SP). As divergências e prisões marcaram o ano de 1971. Nesse período, Lamarca


deixou a organização. A VPR passou a receber orientação de Onofre Pinto, do
exterior, que eram executadas pelo cabo Anselmo no Nordeste. Mais tarde, des-
cobriu-se que esse era um agente infiltrado e que foi responsável por uma série
de prisões e mortes, como a dos militantes assassinados em Pernambuco. A VPR
teve 37 militantes mortos pela ditadura.
8. Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops): apelidado de Casa
d