Ofício nº 159/2018

Rio de Janeiro, 24 de maio de 2018

Ao Exmo. Ministro da Educação,

A ASSOCIAÇÃO DOS MAGISTRADOS DO ESTADO DO RIO DE
JANEIRO – AMAERJ, representada por sua Presidente abaixo assinada, na
forma de seus estatutos, vem, muito respeitosamente, expor para ao final
requerer a V. Exa. o que se segue:

Inicialmente, impõe-se afirmar que os magistrados fluminenses fazem
mais do que seria sua mera obrigação, porque acreditam que a função do
magistrado é transformadora da sociedade. Nessa linha de atuação, temos
inúmeros juízes e desembargadores que atuam não só em instituições
filantrópicas – emprestando seu conhecimento jurídico para causas
humanitárias –, como aqueles que se dispõem a tratar dos temas relacionados a
adoção, as crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e a educação
especial, dentre outros que atingem a vida da população. São magistrados
envolvidos, proativos e que desenvolvem projetos com a sociedade.

Nessa toada, foi com grande preocupação que recebemos notícias e
documentos que indicam o curso de uma ação, dentro do Ministério da
Educação, com objetivo de modificar a PNEEPEI/2008 (Política Nacional de
Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva) o que traria como
conseqüência a perda de direitos constitucionalmente assegurados.

Assim é que, conforme se extrai do material encaminhado em anexo, a
proposta de reformar a PNEEPEI foi anunciada em reunião organizada pela
Secretaria Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão –
SECADI, em 16 de abril de 2018, em Brasília.

Ocorre que dessa reunião participaram pouquíssimas instituições, o que
sem dúvida macula o ato pela falta de representatividade. Ademais, o MEC
anunciou publicamente que colocará em consulta pública um texto-base,
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construído a partir dos debates ocorridos na referida reunião, como se o
procedimento de consulta pública fosse hábil a validar um processo claramente
viciado.

Não bastasse o vício de forma, na execução da pretendida reforma, alguns
slides exibidos pela SECADI na reunião do dia 16 de abril apresentam
proposições claramente inconstitucionais e restritivas dos direitos dos alunos da
educação especial.

Vale relembrar neste ponto que, por muito tempo, perdurou o
entendimento de que a educação especial, organizada de forma paralela à
educação comum, seria a forma mais apropriada para o atendimento de
estudantes que apresentavam deficiência ou que não se adequassem à
estrutura rígida dos sistemas de ensino.

Com o desenvolvimento de estudos no campo da educação e dos direitos
humanos, tivemos a evolução destes conceitos e, conseqüentemente, a
modificação da legislação.

Assim é que a PNEEPEI/2008 dispõe que:

“A educação especial é uma modalidade de ensino que perpassa todos
os níveis, etapas e modalidades, realiza o atendimento educacional
especializado, disponibiliza os recursos e serviços e orienta quanto a sua
utilização no processo de ensino e aprendizagem nas turmas comuns do ensino
regular (grifou-se).
O atendimento educacional especializado tem como função identificar,
elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem as
barreiras para a plena participação dos estudantes, considerando suas
necessidades específicas. As atividades desenvolvidas no atendimento
educacional especializado diferenciam-se daquelas realizadas na sala de aula
comum, não sendo substitutivas à escolarização. Esse atendimento
complementa e/ou suplementa a formação dos estudantes com vistas à
autonomia e independência na escola e fora dela. (...) (grifou-se)

Na perspectiva da educação inclusiva, a educação especial passa a
integrar a proposta pedagógica da escola regular, promovendo o

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atendimento aos estudantes com deficiência, transtornos globais do
desenvolvimento e altas habilidades/superdotação.(...)”

O fundamento jurídico da PNEEPEI/2008 está na CONVENÇÃO
INTERNACIONAL DOS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA, promulgada
pelo Decreto 6949/2009, que tem status constitucional, e dispõe em seu artigo
24, nº 1, que:

“Os Estados Partes reconhecem o direito das pessoas com deficiência à
educação. Para efetivar esse direito sem discriminação e com base na igualdade
de oportunidades, os Estados Partes assegurarão sistema educacional
inclusivo em todos os níveis, bem como o aprendizado ao longo de toda a
vida (...)” (grifou-se)

O ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE – ECA, Lei nº 8.069/90,
no artigo 55, reforça os dispositivos legais supracitados ao determinar que “os
pais ou responsáveis têm a obrigação de matricular seus filhos ou pupilos na
rede regular de ensino”.

No mesmo sentido, o ESTATUTO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA (lei
13.146/15), em seu artigo 28, inciso I, estabelece que:
“Art. 28. Incumbe ao poder público assegurar, criar, desenvolver,
implementar, incentivar, acompanhar e avaliar:
I - sistema educacional inclusivo em todos os níveis e
modalidades, bem como o aprendizado ao longo de toda a vida (...)” (grifou-
se)

Para exemplificar algumas incongruências verificadas nos slides, tem-se
que ao pontuar a Educação Especial como “modalidade escolar”, o slide 12 quer
permitir a abertura e manutenção de classes e escolas especiais, o que estaria
de encontro ao ordenamento jurídico constitucional vigente.

Nesta mesma linha, ao excluir a referência ao AEE na definição da
Educação Especial, o slide 12 pretende permitir que a Educação Especial seja de
natureza substitutiva à escola comum, o que igualmente viola a Constituição
Federal.

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Já o slide 17, ao mencionar o “processo decisório” traz grande
preocupação no sentido de estar o MEC afirmando a existência de um suposto
direito da família de “escolher” entre escola comum e escola ou sala especial.

Os dispositivos legais acima expostos não deixam dúvidas de que o direito
ao sistema educacional inclusivo, com a participação do aluno com deficiência
na sala de aula comum da escola regular é de natureza fundamental e
indisponível.

Para não alongar os termos deste ofício, e certos de que V. Exa. não
corroborará com qualquer afronta aos marcos legais acima expostos,
solicitamos respeitosamente sejam tomadas as medidas necessárias para a
continuidade e implementação da PNEEPEI em todas as escolas das cinco
regiões do país.

Confiantes em que Vossa Excelência não irá tolerar a ocorrência de
violações a Constituição Federal, solicitamos não seja permitido o
encaminhamento de estudantes para classes e/ou escolas especiais, sob
quaisquer pretextos.

Por fim, solicitamos agenda com Vossa Excelência antes que a anunciada
consulta pública seja colocada em rede.

À oportunidade, renovo a V. Exª. votos de elevada estima e consideração.

RENATA GIL DE ALCANTARA VIDEIRA
Presidente da AMAERJ

Ao Exmo. Sr. Dr. Ministro Rossieli Soares da Silva
Ministro da Educação

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