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VIGIAR E MEDICAR

ESTRATÉGIAS DE MEDICALIZAÇÃO
DA INFÂNCIA
Comitê Científico

Ary Baddini Tavares (UNIMESP)


Daniel Arruda Nascimento (UFF)
Deyve Redyson (UFPB)
Eduardo Kickhofel (UNIFESP)
Eduardo Saad Diniz (USP, Ribeirão Preto)
Jorge Miranda de Almeida (UESB)
Marcia Tiburi (Mackenzie)
Marcelo Martins Bueno (Mackenzie)
Maria J. Binetti (CONICET, ARG)
Maurício Cardoso (FFLCH – USP)
Miguel Polaino-Orts (Universidade de Sevilha)
Patrícia C. Dip (UNGS/CONICET, ARG)
Saly Wellausen (Mackenzie - Pres.)
Sandra Caponi
María Fernanda Vásquez
Marta Verdi
(organizadoras)

VIGIAR E MEDICAR
ESTRATÉGIAS DE MEDICALIZAÇÃO
DA INFÂNCIA

1ª edição

LiberArs
São Paulo - 2016
Vigiar e medicar. Estratégias de medicalização da infância
© 2016, Editora LiberArs Ltda.

Direitos de edição reservados à


Editora LiberArs Ltda

ISBN 978-85-9459-005-3

Editores
Fransmar Costa Lima
Lauro Fabiano de Souza Carvalho

Revisão Ortográfica
As organizadoras
Editora LiberArs

Revisão técnica
Cesar Lima

Editoração e capa
Simone Alauk

Imagem da capa
Intervenção sobre estudos de Leonardo Da Vinci

Impressão e acabamento
Gráfica Rotermund

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação – CIP

Caponi, Sandra (org,)


C245v Vigiar e medicar: estratégias de medicalização na infância /
Sandra Caponi, María Fernanda Vásquez, Marta Verdi (organi-
zadores) - São Paulo: LiberArs, 2016.

ISBN 978-85-9459-005-3

1. Psiquiatria 2. Patologia Mental – Crianças 3. Medicamentos I.


Título

CDD 616.89
CDU 61

Bibliotecária responsável Neuza Marcelino da Silva – CRB 8/8722

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das páginas que compõem este livro, para uso nãoindividual, mesmo para fins didáticos,
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Foi feito o depósito legal.

Editora LiberArs Ltda


www.liberars.com.br
contato@liberars.com.br
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO ........................................................................................ 7

TRANSFORMANDO CRIANÇAS
EM PACIENTES PSIQUIÁTRICOS:
FAZENDO MAIS MAL DO QUE BEM
Robert Whitaker .............................................................................................................. 13

VIGIAR E MEDICAR - O DSM-5 E OS


TRANSTORNOS UBUESCOS NA INFÂNCIA
Sandra Caponi................................................................................................................... 29

INFÂNCIAS MEDICALIZADAS:
PARA QUÊ PSICOTRÓPICOS
PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES?
Luciana Caliman .............................................................................................................. 47

“O SEGREDO ESTÁ NO INTERIOR” A NEUROPOLÍTICA


E A EMERGÊNCIA DAS NEURONARRATIVAS
NO CONSUMO DE ANTIDEPRESSIVOS”
Angel Martínez-Hernáez .............................................................................................. 61

ECONOMIA POLÍTICA DO SOFRIMENTO


João Matheus A. Dallmann .......................................................................................... 73

A PERSONALIDADE DOENTE: HIGIENE MENTAL E


MEDICALIZAÇÃO DA INFÂNCIA
María Fernanda Vásquez-Valencia .......................................................................... 85

LO NORMAL, LO ANORMAL
Y LO MONSTRUOSO: MIRADAS EUGÉNICAS
SOBRE EL SUJETO “MEDICALIZABLE”
Marisa A. Miranda ........................................................................................................ 103
LA NIÑEZ COMO SÍNTOMA
DE MALES SOCIALES: PERVIVENCIAS
DE LA EUGENESIA AMBIENTAL EN ARGENTINA
Gustavo Vallejo.............................................................................................................. 115

SOBRE O PAPEL DA AUTORIDADE


CULTURAL DA PROFISSÃO MÉDICA
NOS PROCESSOS DE MEDICALIZAÇÃO DA VIDA
Myriam Mitjavila .......................................................................................................... 133

DISCURSO BIOLÓGICO CEREBRAL E A EXPANSÃO


DE DIAGNÓSTICOS PSIQUIÁTRICOS
Fabíola Stolf Brzozowski .......................................................................................... 147

MEDICAMENTALIDADE
E MEDICALIZAÇÃO DA VIDA COTIDIANA
Luis David Castiel........ ................................................................................................. 161

SAÚDE MENTAL EM RISCO: ESTRATÉGIAS


PARA INTERVENÇÕES PREVENTIVAS
Fernanda Martinhago
Oriol Romaní .................................................................................................................. 171

DIRECTRICES ÉTICO/POLÍTICAS EN LA
MEDICALIZACIÓN DE LAS INFANCIAS HOY
Marisa Germain............................................................................................................. 183

BIOPOLÍTICA E EXPERIMENTAÇÃO
ENVOLVENDO CRIANÇAS: A DESPROTEÇÃO
COMO PERMANÊNCIA HISTÓRICA
Fernando Hellmann
Marta Verdi ..................................................................................................................... 199
APRESENTAÇÃO

A existência inevitável de fronteiras difusas e pouco claras entre normali-


dade e patologia psiquiátrica tem permitido não só a multiplicação de novos
diagnósticos, mas também a aceitação da ideia de que seria possível identificar
pequenos signos anunciadores de uma patologia mental grave por vir, afir-
mando a necessidade de realizar intervenções preventivas no campo da saúde
mental. Tais intervenções, dirão, permitem identificar prematuramente os
diagnósticos psiquiátricos evitando que uma possível doença psiquiátrica se
cronifique. Desse modo a psiquiatria parece estar habilitada a agir antes que
um processo patológico efetivamente ocorra. Falar-se-á então de doenças men-
tais do desenvolvimento, isto é, de patologias que se apresentam na infância
com sintomas “subclínicos”, pequenos indícios de que um transtorno do com-
portamento ou da aprendizagem poderá vir a acontecer ou a agravar-se no
futuro.
Pesquisadores de diferentes países do mundo como Philippe Pignarre, Eli-
sabeth Roudinesco, Ian Hacking, Allan W. Horwitz, Robert Whitaker, junto a
grupos internacionais como Stop DSM, ou o coletivo francês denominado Pas
Zero de Conduit, apresentaram sólidas objeções a este modelo de identificação
precoce de diagnósticos. No Brasil, de igual modo, se somaram críticas proce-
dentes de campos diversos: intelectuais como Pablo Amarante, Maria Apareci-
da Moyses, Rui Harayama, dentre muitos outros, individualmente ou reunidos
em coletivos engajados e ativos como a ABRASME, o Fórum Sobre Medicaliza-
ção da Educação e da Sociedade, ou o grupo Despatologiza.
Diversas disciplinas contribuem para analisar o fenômeno crescente da
medicalização da infância, dentre outras, a pediatria, a psicologia, a psicanálise,
a saúde coletiva e as ciências humanas. Os debates internacionais multiplica-
ram-se nos últimos anos, algumas críticas tiveram um impacto particularmente
importante, como a realizada por Thomas Insel, presidente do National Institu-
te of Mental Health (NIMH). Uma semana após a publicação da quinta versão do
Manual, Insel anunciava que o prestigioso Instituto abandonaria a utilização da
classificação proposta pela APA (American Psychiatric Association), argumen-
tando que, por tratar-se de uma lista de sintomas sem sustento científico sóli-
do, o DSM deixaria de ser utilizado como marco de referência para as pesqui-
sas científicas financiadas por esse instituto.
Ainda que existem inúmeras vozes críticas que destacam a fragilidade da
classificação diagnóstica hegemônica (o DSM), já é bem conhecida a informa-
ção alarmante de que Brasil é o segundo maior consumidor de psicotrópicos na

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infância, particularmente metilfenidato (Ritalina®), ficando atrás apenas dos
Estados Unidos (EUA). No entanto, no mesmo momento em que tais críticas se
multiplicam, se renova o debate em torno a uma legislação que garanta o su-
posto direito de identificação e detecção precoce de transtornos mentais na
infância.
Nesse sentido, diversas iniciativas têm se multiplicado em diferentes ce-
nários. No dia 24 de julho de 2012, a Prefeitura de Florianópolis – estado de
Santa Catarina – tinha aprovado a Lei nº 9.018/12 que institui a política muni-
cipal de prevenção e diagnóstico de distúrbios psicomentais na infância. Meses
mais tarde, em outubro de 2013, a Comissão de Educação da Câmara dos Depu-
tados realizou uma audiência pública para discutir o encaminhamento do Pro-
jeto de Lei 7.081/10, especificamente para debater estratégias de identificação,
intervenção e prevenção de transtornos mentais na infância, definidos de
acordo com os critérios do DSM, fundamentalmente TDAH e dislexia.
Um processo semelhante teve lugar na França no ano de 2006, quando se-
guindo uma solicitação do Ministério da Saúde do governo de Sarkozy, o IN-
SERM (Institut National de la Santé et de la Recherche Médicale), que é o maior
Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica 1 da França, elaborou a proposta
de criar uma política de identificação e detecção precoce de transtornos men-
tais em crianças a partir dos três anos de idade. Diversos pesquisadores do
campo das ciências humanas e sociais, educadores e grupos sociais se articula-
ram para impedir que esta proposta fosse aprovada. Como resposta a esta
proposta um conjunto de reconhecidos pesquisadores de áreas médicas, far-
macológicas, epidemiológicas, assim como psicanalistas, filósofos e cientistas
sociais, após grandes debates, construíram um Dossier que reúne pesquisas
empíricas e argumentos teóricos sólidos, que muito contribuiu para impedir a
implementação da proposta.
Acreditamos que se impõe a tarefa de analisar e criticar a tentativa de
propor um programa de detecção precoce de patologias mentais na infância.
Um programa que independentemente de ter recebido duras críticas da comu-
nidade internacional, no entanto continua presente e ativo no âmbito escolar.
Considerando estes fatos, o livro que aqui apresentamos busca discutir a
partir de diversas perspectivas (ética, sociológica, histórica, cultural) os argu-
mentos, conceitos, teorias, dificuldades e certezas a partir das quais foram
construídos os saberes utilizados pelos defensores da “detecção precoce” de
patologias psiquiátricas na infância, particularmente aquelas consideradas de
maior prevalência no Brasil, como o TDAH. Analisamos também os diferentes
mecanismos e estratégias de prevenção e identificação de supostos transtor-
nos de comportamento e da aprendizagem em crianças principalmente em
idade escolar. Trata-se, em fim, de criar um espaço de interação e troca com

1 Para mais informações, ver http://www.inserm.fr/.

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pesquisadores brasileiros e estrangeiros interessados em discutir os limites e
dificuldades do processo de medicalização da infância.
Para isso, resulta necessário articular diversos olhares que agrupamos
aqui em torno a três grandes eixos de análise.

1. O DSM e a proliferação de novos diagnósticos: procura indagar


sobre a influência do DSM na multiplicação de novos transtornos
e os diferentes mecanismos de categorização dos sofrimentos
psíquicos.
2. A medicalização da infância em perspectiva histórica: preten-
de compreender a partir da análise histórica o processo de cria-
ção dos chamados transtornos mentais da infância, o sistema
classificatório utilizado, o surgimento dos testes e os modelos es-
tatísticos, assim como as mudanças, continuidades e descontinui-
dades no saber médico psiquiátrico como parte da medicalização
infantil e a detecção de diagnósticos precoces.
3. Ética, indústria farmacêutica e medicalização da infância:
busca analisar criticamente o papel da indústria farmacêutica no
processo de medicalização infantil, suas implicações éticas e os
dispositivos de patologização dos sofrimentos psíquicos.

O primeiro eixo temático intitulado O DSM e a proliferação de novos diag-


nósticos, reúne cinco capítulos que abordam a problemática da medicalização
em geral e a medicalização da infância em particular. O primeiro capítulo apre-
senta um estudo inédito do pesquisador Robert Whitaker, intitulado, Trans-
formando crianças em pacientes psiquiátricos: Fazendo mais mal do que bem.
Esse texto, traduzido ao português pela professora Fabíola Stolf Brzozowski,
apresenta uma pesquisa original e rigorosa dedicada a entender uma dimensão
das classificações psiquiátricas que, ainda muitas vezes mencionada, poucos
pesquisadores abordaram em sua complexidade, proporcionando dados fiá-
veis. Whitaker apresenta aqui um estudo minucioso dedicado a mostrar este
frutífero negócio representado pelas doenças do cérebro, alertando, ao mesmo
tempo, para os graves prejuízos que causa a medicação com psicofarmacos.
Analisa e põe em evidencia as estratégias concretas utilizadas pela indústria
farmacêutica para explorar o milionário mercado aberto com a classificação do
DSM. Um negócio milionário que, como indica o autor, produz mais mal do que
bem.
O segundo capítulo deste eixo, intitulado Vigilar e medicar. O DSM-5 e os
transtornos ubuescos na infância, da professora Sandra Caponi analisa as mu-
danças existentes entre o DSM IV e o DSM-5, particularmente no que diz res-
peito aos transtornos diagnosticados na infância e adolescência. O capítulo
mostra que a desaparição de um agrupamento diagnóstico exclusivamente
dedicado aos transtornos da infância no DSM-5, está longe de ser uma boa

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notícia. De acordo com a autora o DSM-5 apresenta uma verdadeira inflação
dos transtornos mentais atribuídos à infância, que estão presentes em cada um
dos agrupamentos que compõem o Manual. O artigo se detém na análise dos
Transtornos Disruptivos de Controle de Impulsos e de Conduta, prestando
particular atenção ao Transtorno de Oposição Desafiante (TOD).
O terceiro capítulo que compõe este primeiro eixo temático da professora
Luciana Caliman se intitula Infâncias medicalizadas: Para quê psicotrópicos
para crianças e adolescentes? Tal e como o indica o nome deste artigo trata-se
aqui de questionar a prescrição de potentes psicotrópicos a crianças e adoles-
centes, um fato que parece ter sido naturalizado por pais, professores e médi-
cos. O texto procura, especificamente, analisar a experiência de uso de psico-
trópicos por crianças e adolescentes, principalmente no que se refere aos pro-
cessos de psicofarmacologização das infâncias a partir da análise das narrati-
vas apresentadas por pacientes num CAPsi de Vitória.
O quarto capítulo escrito pelo professor Angel Martínez Hernáez, aborda
uma temática instigante e atual. O texto intitula-se O segredo está no interior. A
neuropolítica e a emergência das neuronarrativas no consumo de antidepressi-
vos. Neste texto o antropólogo espanhol nós convida a pensar na temática das
neunarrativas, isto é, a refletir sobre uma nova estratégia de construção da
subjetividade que se articula em torno a uma narrativa sobre si que aparece
mediatizada por explicações neurológicas ou neuroquímicas. O autor denomi-
na esse processo como self neuronal, e ainda que, segundo afirma, o self não é
omnipresente nem hegemônico no pensamento contemporâneo, sem dúvida
parece ocupar um lugar central no modo como muitas pessoas pensam sua
subjetividade, possibilitando um crescente, imenso e lucrativo mercado dedi-
cado às aflições.
Por fim, o quinto e último capítulo deste eixo temático se intitula Econo-
mia política do sofrimento, de João Matheus A. Dallmann. Apelando a autores
como Michel Foucault, Pierre Bourdieu, Emmanuel Renault e Philippe Pignar-
re, o autor explora o conceito de economia política do sofrimento, utilizando
noções e construindo hipóteses sobre a intrincada relação que existe entre os
campos científico, econômico e político. O texto insiste em sublinhar o caráter
social do sofrimento psíquico, afirmando que “é a partir de um lugar no mundo
que o sujeito sofre”. Na sociedade contemporânea caracterizada pela naturali-
zação dos processos de medicalização das aflições de adultos e crianças, parece
ser urgente a tarefa proposta pelo autor: realizar uma crítica a partir da eco-
nomia política do sofrimento, incorporando os aspectos micro e macro da vida
social. Pois, jamais podem ser esquecidos os aspectos psíquicos, sociais e polí-
ticos concretos nos quais está inserido o sujeito que sofre.
O segundo eixo temático, Medicalização da infância em perspectiva históri-
ca, contém quatro textos relacionados com as mudanças históricas que permi-
tiram o processo de legitimação da medicalização infantil e os transtornos
mentais na infância. O primeiro capítulo intitulado A personalidade doente.

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Higiene mental e medicalização da infância, da pesquisadora Maria Fernanda
Vásquez, analisa de maneira comparativa duas obras médicas, uma colombiana
e outra brasileira, para compreender como foi entendida a medicalização da
infância em cada uma delas e suas diferenças e semelhanças no marco de con-
solidação de um campo de saber relativo à psiquiatrização e psicologização dos
afetos e do desenvolvimento da personalidade das crianças, assim como das
formas de adaptação ou de ajustamento social.
O segundo capítulo da pesquisadora argentina Marisa Miranda intitulado
Lo normal, lo anormal y lo monstruoso: miradas eugénicas sobre el sujeto “medi-
calizable”, analisa a maneira como se institui o “sujeito medicalizado” a partir
do discurso eugênico. Dito sujeito, segundo a pesquisadora, se entende como
uma entidade cuja descendência pode ser “optimizada” para melhorar a apti-
dão da raça através do uso de algumas estratégias farmacológicas.
La niñez como sintoma de males sociales. Pervivencias de la eugenesia am-
biental en Argentina, do pesquisador argentino Gustavo Vallejo, terceiro capítu-
lo deste eixo temático, mostra a continuidade de políticas relacionadas, com o
que o autor denomina, a “eugenia ambiental” ou controle da sexualidade para o
“bom nascer”, próprias da primeira metade do século XX, e que atualmente
renascem no novo cenário político argentino.
O quarto e último capítulo do segundo eixo, intitulado Sobre o papel da au-
toria cultural da profissão médica nos processos de medicalização da vida, da
professora Myriam Mitjavila, analisa os atributos sobre os quais se apoia a
autoridade do saber médico, especificamente em sua dimensão cultural. A
autora sublinha que os processos de medicalização e desmedicalização dos
objetos sociais são afetados pelo grau de confiança que instituições e atores
sociais depositam no saber médico.
O terceiro eixo temático, Ética, indústria farmacêutica e medicalização da
infância, reúne os textos que buscam analisar criticamente o papel da indústria
farmacêutica no processo de medicalização infantil, suas implicações éticas e
os dispositivos de patologização dos sofrimentos psíquicos. No primeiro capí-
tulo, Discurso biológico cerebral e a expansão de diagnósticos psiquiátricos, a
professora Fabíola Stolf Brzozowski aborda a relação entre o discurso biológi-
co cerebral e a ampliação de diagnósticos psiquiátricos, a partir da análise
sobre a legitimação da proliferação de novos diagnósticos e o alargamento de
suas fronteiras no contexto das explicações neurobiológicas e tratamentos
medicamentosos. Buscando ilustrar sua reflexão, a autora utiliza como exem-
plo um artigo científico (estudo genético para o TDAH) e uma matéria jornalís-
tica de divulgação dos resultados do mesmo estudo.
O professor Luis David Castiel assina o segundo capítulo deste eixo, no
qual discute a Medicamentalidade e medicalização da vida cotidiana. De modo
incisivo, denuncia o insidioso processo de medicalização da vida cotidiana e os
interesses da indústria farmacêutica, abordando o que denomina de medica-
mentalidade numa clara alusão à ideia foucaultiana de governamentalidade
entendida como “o encontro entre as técnicas de dominação exercidas sobre os
outros e as técnicas de si”. Enfatiza o biopoder mais como uma perspectiva que

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um conceito, no sentido de se constituir como um espectro de iniciativas mais
ou menos racionalizadas desenvolvidas por autoridades no sentido intervir no
âmbito da vitalidade humana – seu nascimento, desenvolvimento, adoecimento
e morte.
O terceiro capítulo Sáude mental em risco: estratégias para intervenções
preventivas traz a contribuição da pesquisadora Fernanda Martinhago e do
professor Oriol Romani para o debate da temática do risco no âmbito da aten-
ção à saúde mental. A partir do diálogo com diferentes pesquisadores, os auto-
res buscam promover reflexões sobre algumas práticas de intervenções ditas
preventivas. Nesse exercício crítico, emergiram importantes questionamentos,
tais como: É possível prever que determinado comportamento de uma criança
poderá futuramente ser um transtorno mental? Como uma pessoa que mani-
festa sentimento de tristeza, de angústia poderá desenvolver futuramente uma
depressão? Como podemos prevenir, com base no risco, algo tão subjetivo e
algumas vezes transitório, como o uso de drogas e o sofrimento psíquico? Co-
mo o risco tornou-se uma estratégia para promover intervenções preventivas
no âmbito da saúde mental?
No quarto capítulo, a professora argentina Marisa Germain, discute algu-
mas Diretrizes ético-políticas na medicalização das infâncias, em especial, aque-
las presentes na recente legislação de Saúde Mental produzida na Argentina.
Analisa também as estratégias de proteção infantil, problematizando sua di-
mensão biopolítica, bem como a relação entre medicalização e desmedicaliza-
ção operada na Lei de Identidade de Gênero.
Por fim, no capítulo quinto do terceiro eixo, Biopolítica e experimentação
envolvendo crianças: a desproteção como permanência histórica do professor
Fernando Hellmann e da professora Marta Verdi, discute a experimentação
envolvendo crianças, na ótica da biopolítica das populações, a permanência
histórica da desproteção de uma parcela de crianças submetidas à experimen-
tação científica, mesmo com a proliferação de novas normas “éticas”. Para tan-
to, são abordados exemplos de pesquisas eticamente questionáveis ocorridas
ao longo da história da criação das principais normativas de princípios éticos
para as pesquisas envolvendo seres humanos.
Esperamos que o presente livro possa contribuir para fortalecer o debate
e as reflexões atuais referidas à temática da medicalização e medicamentaliza-
ção da infância, e que as análises aqui apresentadas possam ser aproveitadas
em diversos âmbitos acadêmicos, sociais e culturais.
Agradecemos especialmente ao Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq) pelo apoio econômico para a elaboração deste
livro, através do financiamento do projeto (408730/2013-7), “Prevenir e me-
dicar: Uma abordagem sóciohistórica à medicalização de transtornos mentais
na infância”.
Finalmente, agradecemos também às autoras e aos autores que, com suas
valiosas contribuições, permitiram a realização deste livro.

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TRANSFORMANDO CRIANÇAS EM
PACIENTES PSIQUIÁTRICOS:
FAZENDO MAIS MAL DO QUE BEM 2

ROBERT WHITAKER

O fato de medicar crianças e adolescentes com medicamentos psiquiátri-


cos é apresentado pela psiquiatria americana como uma história de avanço
médico. Pesquisadores passaram a entender que crianças podem sofrer de
TDAH, depressão e transtorno bipolar, e determinaram que medicamentos
psiquiátricos devem ser prescritos para tratar essas “doenças” do cérebro. Esta
narrativa fala tanto de um avanço diagnóstico quanto de um avanço no trata-
mento de doenças que até então não eram detectadas, e, portanto, de uma
prática médica que seria benéfica para as crianças. Porém, como revela uma
revisão da história e da ciência, esta prática, que primeiro tomou conta dos
Estados Unidos e depois, gradualmente, foi exportada para outros países “de-
senvolvidos” em todo o mundo, é melhor compreendida como uma empresa de
negócios, que causa danos consideráveis quando estudados seus resultados a
longo prazo.

A ASCENSÃO DE UMA ALIANÇA PROFANA

Essa narrativa do comércio começa com a publicação, pela Associação


Americana de Psiquiatria – American Psychiatric Association (APA), da terceira
edição de seu Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (Diag-
nostic and Statistical Manual of Mental Disorders), em 1980. Este foi o momento
em que a APA adotou o que é chamado de “modelo médico” para categorizar os
transtornos psiquiátricos. Eles agora são vistos como doenças do cérebro, com
diagnósticos sendo feitos na presença de “sintomas”. Em seu livro de 1984, The

2 Título original do artigo: “Turning children into psychiatric patients: doing more harm than
good”. Tradução do inglês por Fabíola Stolf Brzozowski.

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broken brain, Nancy Andreasen, que por muitos anos foi editora-chefe do Ame-
rican Journal of Psychiatry, explicou o novo pensamento da APA:

Os principais transtornos psiquiátricos são doenças. Eles deveriam ser conside-


rados doenças médicas, assim como são o diabetes, a doença cardíaca e o câncer.
(Cada) doença tem uma causa específica diferente. Existem muitos indícios de
que a doença mental se deve a desequilíbrios químicos no cérebro e seu trata-
mento implica corrigir esses desequilíbrios (ANDREASEN, 1984, p. 29-30).

Essa é uma ideia que naturalmente leva à conclusão de que medicamentos


psiquiátricos devem ser a primeira linha de tratamento para esses transtornos.
Qualquer substância que poderia reduzir o sintoma alvo de uma “doença” mais
do que o placebo seria visto como um tratamento efetivo. Como confessou,
mais tarde, Robert Spitzer, que presidiu a Força Tarefa da APA que criou o
DSM-III, “As empresas farmacêuticas ficaram encantadas” com o DSM-III
(RONSON, 2011).
As companhias farmacêuticas mostraram seu encantamento, a partir de
1980, ao canalizar quantidades crescentes de dinheiro para a APA. Isso foi feito
das seguintes formas:

 Patrocinaram simpósios científicos na reunião anual da APA.


 Ajudaram a financiar programas de treinamento de mídia da APA,
que ensinaram os psiquiatras em todo o país como falar sobre es-
te novo modelo médico para o público.
 Ajudaram a pagar pelas campanhas de relações públicas da APA,
que repetiam regularmente a mensagem de que transtornos psi-
quiátricos são doenças do cérebro, que são “sub-reconhecidas e
subtratadas” e que os medicamentos para essas doenças são al-
tamente efetivos.
 Forneceram ajuda financeira a psiquiatras da Europa, da Ásia e da
América do Sul para comparecem às reuniões anuais da APA e as-
sim aprender sobre este novo paradigma de cuidado.

Graças a tal influxo de dinheiro farmacêutico, o rendimento anual da APA


aumentou de U$$ 10,5 milhões em 1980 para U$$ 24,9 milhões em 1990, e
então para U$$ 50,2 milhões em 2000. A receita da APA superou os U$$ 65,3
milhões em 2008 (APA, 1980-2012).
Além disso, após a publicação do DSM-III, os laboratórios farmacêuticos
começaram a pagar psiquiatras de faculdades de medicina para serem seus
“líderes de opinião”. Como investigações do Congresso revelaram mais tarde,
os psiquiatras que ajudaram as companhias farmacêuticas a criar mercados
para os novos medicamentos, ganharam centenas de milhares de dólares para
serem porta-vozes, assessores e consultores. Por sua vez, os líderes de opinião

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criaram a narrativa social que levou à expansão dramática da prescrição de
medicamentos psiquiátricos para todos os segmentos da sociedade americana,
incluindo as crianças. Os líderes de opinião:
 Trabalham para os comitês da APA que estabelecem os critérios
para o diagnóstico.
 Conduzem ensaios clínicos de novos medicamentos em pesquisas
financiadas pelas indústrias farmacêuticas.
 São autores de artigos sobre esses estudos (frequentemente auto-
res fantasmas).
 Discursam sobre a validade dos transtornos psiquiátricos e sobre
a eficácia do tratamento em simpósios científicos, cursos de Edu-
cação Médica Continuada e outros cursos profissionais.
 Definem diretrizes para a prática clínica.
 Escrevem livros didáticos de psiquiatria.
 Servem como “especialistas” que são citados pela mídia.

Assim, logo após a publicação do DSM-III, o dinheiro da indústria fluiu pa-


ra a APA e para psiquiatras de instituições acadêmicas pelos Estados Unidos (e
eventualmente para psiquiatras em países de todo o mundo). “Nosso campo
como um todo vem sendo progressivamente comprado de cima a baixo pelas
indústrias farmacêuticas”, disse o psiquiatra Daniel Carlat, em 2007. “Isto in-
clui o diagnóstico, as diretrizes de tratamento e as reuniões nacionais” (GOLD-
BERG, 2007).

A HISTÓRIA DO TDAH: UM ESTUDO DE CASO DA CONSTRUÇÃO DE UM


MERCADO PARA MEDICAMENTOS

Ao mesmo tempo em que a APA buscava refazer seu manual diagnóstico,


durante os anos de 1970, queria ter certeza de que haveria um diagnóstico
para qualquer um que procurasse ajuda de um psiquiatra. A profissão começou
a prescrever metilfenidato (Ritalina) para crianças “hipercinéticas” e isso for-
neceu uma razão para a força tarefa do DSM-III criar um diagnóstico, que ape-
lidaram de “transtorno do déficit de atenção”, para tais crianças. Os sintomas
principais deste mais novo transtorno construído eram desatenção, impulsivi-
dade e hiperatividade, embora um diagnóstico poderia ser feito mesmo sem a
presença da hiperatividade. Uma criança que “frequentemente não consegue
terminar as coisas que ele ou ela começa” ou “frequentemente age antes de
pensar” era uma candidata para este diagnóstico, que se dizia afetar três por
cento das crianças pré-adolescentes nos Estados Unidos (APA-DSM III, 1980, p.
42).
Em 1987, quando a APA publicou a versão revisada do DSM-III, o diagnós-
tico foi renomeado para “transtorno do déficit de atenção com hiperatividade”
(TDAH) e os limites diagnósticos foram reconfigurados, para torná-lo mais fácil

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de diagnosticar. O boom do TDAH estava oficialmente instalado. Ao final dos
anos de 1980, 600.000 jovens nos Estados Unidos foram diagnosticados com
TDAH. Então, em 1994, quando a APA publicou o DSM-IV, expandiu os seus
limites diagnósticos novamente. Dizia-se agora que o transtorno consiste de
três subtipos: somente desatento, somente hiperativo/impulsivo e aqueles que
apresentam os dois tipos de sintomas. Se uma criança tinha seis de nove sin-
tomas ditos característicos de cada subtipo, um diagnóstico de TDAH poderia
ser realizado. Considera-se hoje que o TDAH afeta até 5% de todas as crianças
americanas (LAHEY, 1994).
Com o diagnóstico expandido em mãos, o psiquiatra do Harvard Medical
School, Joseph Biederman, que tinha sido um membro do grupo de trabalho do
DSM-IV para transtornos pediátricos, começou a produzir artigo após artigo
sobre o TDAH. Sua pesquisa falou sobre como o TDAH na verdade afeta até 9
por cento das crianças americanas em idade escolar e que era um transtorno
real, com um componente genético aparente e que havia de fato subtipos dis-
tintos, assim como o DSM-IV declarou. Se os jovens assim diagnosticados não
forem tratados com estimulantes, escreveu Biederman, eles estariam em alto
risco para vários desfechos ruins: baixo desempenho escolar, fracasso no am-
biente de trabalho, abuso de substâncias e transtornos do humor. Os estimu-
lantes reduziriam os sintomas do TDAH e melhorariam a “autoestima, a cogni-
ção e a função social e familiar”, ele disse (WILENS, 1995; KOLATA, 1996).3
Biederman foi ricamente recompensado por seu trabalho. De 1996 a 2011,
recebeu honorários por palestras, honorários por consultorias e financiamen-
tos para pesquisas de mais de 24 indústrias, incluindo Shire, Janssen e Eli Lilly,
que vendiam três dos medicamentos mais populares para o TDAH (KOTTE,
2013). Tudo isso levou a um aumento constante no diagnóstico do TDAH nos
Estados Unidos e, em 2012, 10 por cento dos jovens de 4 a 18 anos tinham sido
diagnosticados4.
Nos anos de 1980 e início dos anos de 1990, o diagnóstico de TDAH foi
majoritariamente um fenômeno americano. Entretanto, a APA, em acordo com
as companhias farmacêuticas, começaram então a exportar para os países de-
senvolvidos de todo o mundo, com sucesso, os seus diagnósticos (ELLISON,
2015). Por exemplo:

 Na Alemanha, as taxas de diagnóstico do TDAH aumentaram 381


por cento de 1989 a 2001.
 No Reino Unido, as prescrições para o TDAH aumentaram 50%
entre 2007 e 2012.
 Em Israel, as prescrições para o TDAH duplicaram entre 2005 e
2012.

3 A PubMed search of “Biederman ADHD” produces a record of 604 articles from 1984 to 2013,
with Biederman, J. listed as an author or coauthor. Some of these articles are on other pediatric
disorders, such as conduct disorder or bipolar disorder, and thus not all are focused on ADHD.
4 U.S. Centers for Disease Control. Summary Health Statistics for U.S. Children: National Health

Survey, 2012.

16
 Em 2007, países fora dos Estados Unidos representaram 17% do
uso mundial de Ritalina. Até 2012, esta porcentagem cresceu para
34%.

Este foi o diagnóstico que abriu caminho para a medicalização da infância


no Brasil, e para a criação de um mercado global para os estimulantes como
tratamentos para esse transtorno. Em 2013, as vendas globais das medicações
para TDAH atingiram U$$ 11,5 bilhões, um número que era indício de uma
empreitada bem-sucedida, que havia tido seu início em 1980.

A BIOLOGIA DO TDAH

Ainda que o TDAH seja apresentado ao público como uma doença cere-
bral, os pesquisadores normalmente fracassam em encontrar qualquer patolo-
gia característica em crianças diagnosticadas. Esse tema é repetido muitas
vezes, como pode ser observado nestes pronunciamentos:

 1991: “Tentativas para definir uma base biológica para o TDAH


foram consistentemente mal sucedidas. A neuroanatomia do cé-
rebro, como demonstrado por estudos de imagem, é normal.” –
Gerald Golden, neurologista pediátrico (GOLDEN, 1991).

 1997: “Os esforços para identificar um desequilíbrio neuroquími-


co seletivo (em crianças com TDAH) foram decepcionantes.” – Li-
vro didático de neuropsiquiatria (BREGGIN, 2001, p. 180).

 1998: “Após anos de pesquisa e experiência clínica com o TDAH,


nosso conhecimento sobre sua causa ou suas causas continua
amplamente especulativo” – NIH Consensus Development Confe-
rence5.

 2012: A vasta maioria dos estudos de neuroimagem, até o mo-


mento, demonstra diferenças relativas, quantitativas, entre o
TDAH e os grupos controles com desenvolvimento típico, que não
são nem suficientemente grandes nem específicos para serem
úteis caso a caso como biomarcadores diagnósticos ou de trata-
mento” – Relatório do Consenso do Grupo de Trabalho em Marca-
dores de Neuroimagem dos Transtornos Psiquiátricos da APA6.

5 NIH Consensus Development Conference statement, Diagnosis and treatment of attention deficit
hyperactivity disorder, Nov. 16-18, 1999.
6 American Psychiatric Association, Consensus report of the APA, Work Group on Neuroimaging

Markers of Psychiatric Disorders, 2012.

17
Esses achados podem parecer surpreendentes para um público para o
qual geralmente se diz que os pesquisadores descobriram que o cérebro TDAH
é diferente de um cérebro normal. O que o público pode achar ainda mais sur-
preendente é que toda essa pesquisa foi comprometida pelo fato de que os
jovens com TDAH estudados foram expostos aos estimulantes ou estavam
tomando medicações quando seus cérebros foram examinados. Na verdade,
quando esta pesquisa foi revisada, em 2012, pelo Grupo de Trabalho em Mar-
cadores de Neuroimagem da APA, o grupo fez uma revelação surpreendente:

Os estudos de tratamento que contrastam diferenças morfométricas antes e


depois dos tratamentos medicamentosos estão notavelmente ausentes na
literatura sobre neuroimagem estrutural que examina biomarcadores do
TDAH. Até onde sabemos, nenhum estudo clínico controlado averiguou o
efeito dos estimulantes nas anormalidades cerebrais estruturais em jovens
com TDAH, sugerindo uma área crítica para pesquisas futuras (APA, 2012).

Em resumo, 30 anos depois da APA ter construído este diagnóstico e o


conceituado como uma doença, não tem havido nenhum esforço por parte da
área de conhecimento para descobrir se havia uma anormalidade em jovens
não expostos a estimulantes. Mesmo assim, a área com frequência apresentou
PET scans complexos, contando como o cérebro TDAH funcionou de formas
diferentes do cérebro “normal”, um espetáculo que, claro, ajudou a vender o
transtorno para o público.
Na ausência de marcadores biológicos, o diagnóstico é feito de acordo com
avaliações subjetivas do comportamento infantil. O diagnóstico nos EUA surge
primariamente de preocupações dos professores, já que pesquisadores desco-
briram que “apenas uma minoria das crianças com o transtorno exibe sintomas
durante uma consulta médica” (MAYERS, 2008). Pesquisadores Canadenses
também determinaram que, em uma sala de aula, as crianças mais novas têm
30% mais chance de serem diagnosticadas com TDAH do que crianças mais
velhas, evidência de que a data de nascimento da criança, em relação às outras
em sua classe, pode ser um sintoma desta “doença” (MORROW, 2012).

O EFEITO DA RITALINA NO CÉREBRO

O metilfenidato e outros estimulantes aumentam a atividade da dopamina


no cérebro. O metilfenidato, comercializado como Ritalina, faz isso bloqueando
as moléculas que removem a dopamina da fenda sináptica entre neurônios e
transportando-a de volta para o neurônio pré-sináptico. A cocaína aumenta a
atividade da dopamina do mesmo jeito e, como Nora Volkow relatou a potência
do metilfenidato em bloquear o processo de recaptação é similar à da cocaína
(VOLKOW, 1999). Entretanto, o metilfenidato bloqueia a recaptação da dopa-
mina por horas, ao contrário da breve interrupção dessa função realizada pela
cocaína.
Em resposta à perturbação da função da dopamina causada pelo metilfe-
nidato, o cérebro passa por uma série de adaptações compensatórias projeta-

18
das para manter o equilíbrio homeostático, isto é, o funcionamento normal do
sistema dopaminérgico. Os neurônios pré-sinápticos podem começar a liberar
menos dopamina, enquanto que a densidade dos receptores dopaminérgicos
nos neurônios pós-sinápticos pode diminuir. O fármaco acelera a atividade da
dopamina no cérebro e o cérebro responde através da regulação de tal ativida-
de.
Não houve uma boa pesquisa sobre se, após a descontinuação do medica-
mento, o sistema da dopamina de uma criança se normaliza. Entretanto, em um
estudo em ratos pré-adolescentes expostos ao metilfenidato por duas semanas,
houve uma diminuição dramática na densidade de receptores de dopamina no
corpo estriado que persistiu até a idade adulta (MOLL, 2001). Ainda que o
cérebro humano possa ser bastante diferente, este estudo em ratos forneceu
razões para se preocupar com as mudanças compensatórias induzidas pela
exposição a fármacos, que podem não ser totalmente reversíveis após a retira-
da do medicamento.

A EFICÁCIA DOS ESTIMULANTES

A questão chave agora é esta: as mudanças na forma como o cérebro fun-


ciona, induzidas por medicamentos, fornecem um benefício para as crianças,
tanto a curto quanto a longo prazo? Dado que a prática de prescrever estimu-
lantes para jovens com TDAH é feita desde 1980, poder-se-ia esperar que há
evidências abundantes que esse é o caso.
Os estimulantes, de fato, produzem uma mudança característica nas crian-
ças. Crianças assim tratadas se movem menos e socializam menos e sua aten-
ção pode se tornar mais focada em uma tarefa específica (como aritmética).
Esta mudança é vista como uma redução nos sintomas do TDAH. Como investi-
gadores do Instituto Nacional de Saúde Mental (National Institute of Mental
Health) escreveram em 1995: os estimulantes são muito efetivos em

(...) reduzir dramaticamente um grande espectro de sintomas centrais do TDAH,


tais como atividade independente de taregas (por exemplo, tamborilar os dedos,
inquietação, movimento motor fino, comportamento independente da tarega
durante a observação direta) e perturbação na sala de aula (RICHTERS, 1995).

Ao mesmo tempo, pesquisadores descreveram as seguintes mudanças no


“comportamento global” em crianças medicadas:

 Há um “aumento pronunciado relacionado ao medicamento em


brincadeiras solitárias e uma redução correspondente na inicia-
ção de interações sociais” (BARKLEY, 1978).

 O medicamento reduz a “curiosidade da criança sobre o ambien-


te” (FIEDLER, 1983).

19
 Às vezes, a criança medicada “perde o seu brilho” (DAVY, 1989).

 Crianças medicadas frequentemente se tornam “passivas, sub-


missas” e “isoladas socialmente”. Psicólogos da UCLA,
1993(GRANGER, 1993).

 Os estimulantes restringem a hiperatividade por “reduzir o nú-


mero de respostas comportamentais”. Oxford Textbook of Clinical
Psychology and Drug Therapy (BREGGIN, 2001, p. 92).

Tais descrições sugerem que as mudanças no comportamento, induzidas


por medicamentos, enquanto vistas como evidência de efetividade em um es-
tudo clínico, podem ser danosas à criança. Na mesma linha, estudos anteriores
fracassaram em provar que os estimulantes ajudam crianças a irem melhor na
escola.
 A Ritalina melhora o desempenho em “tarefas repetitivas, rotinei-
ras, que requerem atenção continuada”, mas “o raciocínio, a solu-
ção de problemas e a aprendizagem não parecem ser afetadas po-
sitivamente” (SROUFE, 1973).

 A Ritalina não gera nenhum benefício para os estudantes em ter-


mos de “vocabulário, leitura, ortografia ou matemática”, e escon-
de suas habilidades em solucionar problemas. “As reações das
crianças sugerem fortemente uma redução no comprometimento,
do tipo que parece ser fundamental para a aprendizagem” (RIE,
1976).

 O principal efeito dos estimulantes parece ser uma melhora da


manuseabilidade em sala de aula mais do que do desempenho
acadêmico. (BARKLEY, 1978).

Ao mesmo tempo, pesquisadores dos anos de 1980 também falhavam em


encontrar evidências de que o tratamento medicamentoso auxilia as crianças a
longo prazo. Em 1994, o livro texto de psiquiatria da Associação Americana de
Psiquiatria (American Psychiatric Associations Textbook of Psychiatry) resumiu
os achados desapontadores: “Os estimulantes não produzem melhoras dura-
douras da agressividade, transtorno de conduta, criminalidade, sucesso educa-
cional, desempenho no emprego, relações conjugais ou adaptação a longo pra-
zo” (BREGGIN, 1993).
Deste modo, enquanto que o diagnóstico do TDAH já estava sendo utiliza-
do, os pesquisadores, até aquele momento, falharam em provar que o trata-

20
mento medicamentoso para o transtorno fornecia um benefício a longo prazo
e, mesmo em curto prazo, seus méritos eram questionáveis. Em 1994, com esta
questão dos méritos dos estimulantes pairando no ar, o NIMH montou um
estudo, conhecido como Estudo de Tratamento Multimodal e Multicêntrico de
Crianças com TDAH (Multisite Multimodal Treatment Study of Children with
ADHD), para investigar melhor seus efeitos a longo prazo. No início, os pesqui-
sadores reconheceram explicitamente que, até o momento, “a eficácia a longo
prazo da medicação estimulante não foi demonstrada para nenhum domínio
do funcionamento infantil” (RICHTERS, 1995). Este era para ser o estudo que,
de fato, colocaria em teste a questão dos méritos a longo prazo dos estimulan-
tes.
No estudo, as crianças foram randomizadas para um dos quatro grupos de
tratamento: somente o medicamento, como prescrito por especialistas em
psiquiatria infantil; terapia comportamental; medicação mais terapia compor-
tamental; ou cuidados de assistência social. Ao final de 14 meses, parece que a
psiquiatria finalmente tinha evidências de um benefício a longo prazo. A “ad-
ministração cuidadosa de medicamentos” provou ser superior ao tratamento
comportamental na redução dos principais sintomas do TDAH e houve tam-
bém um indício de que as crianças medicadas foram melhores em testes de
leitura”. Os investigadores concluíram que agora havia evidências para o “tra-
tamento contínuo” (MTA study group, 1999).
Este resultado ainda é apresentado ao público como indicação de que os
estimulantes fornecem um benefício a longo prazo. Entretanto, este não foi o
final do estudo. Os pesquisadores continuaram a acompanhar as crianças e, ao
final de três anos, o uso de medicamentos “foi um marcador significante, não
de resultados benéficos, mas de deterioração. Isto é, de fato, os participantes
que usaram medicação por um período de 24 a 36 meses mostraram aumento
da sintomatologia durante o intervalo relativo à não tomada dos medicamen-
tos” (JENSEN, 2007)7. Crianças medicadas também se tornaram um pouco mais
baixas e apresentaram maiores índices de delinquência (MOLINA, 2007). Os
resultados de 6 anos foram ainda piores: o uso de medicamentos foi “associado
com piora dos sintomas de hiperatividade-impulsividade e compotamento
desafiador opositivo” e com maior “dano funcional global” (MOLINA, 2009).
Tais achados negativos não foram publicizados e de fato não foram apre-
sentados nos resumos dos artigos publicados. Podem ser encontrados somente
a partir de uma leitura minuciosa do texto de cada artigo. Entretanto, em uma
entrevista num jornal, um dos pesquisadores, o psicólogo William Pelham, da
Universidade de Buffalo (University of Buffalo) resumiu os resultados correta-
mente:

Nós pensávamos que as crianças medicadas por mais tempo teriam melhores
desfechos. Não foi o que aconteceu neste caso. Não houve efeitos benéficos, ne-

7 Ver a tabela na página 9997 sobre o uso da medicação.

21
nhum. No curto prazo, [a medicação] ajuda a criança a se comportar melhor; no
longo prazo não. E esta informação deve estar muito clara aos pais (MIRANDA,
2007).

Outros estudos de longo prazo com crianças medicadas para o TDAH pro-
duziram resultados semelhantes, a saber:

 Em uma revisão de 14 estudos, que duraram pelo menos três me-


ses, envolvendo 1.379 jovens, pesquisadores canadenses concluí-
ram que há “pouca evidência da melhora do desempenho acadê-
mico com estimulantes” (SACHAR, 2002).

 Em uma revisão com 2.287 estudos, pesquisadores da Universi-


dade de Ciência e Saúde de Oregon (Oregon Health and Science
University) e seus colegas concluíram que “não há evidências de
boa qualidade sobre o uso de medicamentos que afetem os desfe-
chos relacionados ao desempenho acadêmico global, às conse-
quências dos comportamentos de risco, às realizações sociais,
etc.” (McDONAGH, 2006).

 Em uma pesquisa de dez anos, realizada pelo Departamento de


Saúde do Oeste Australiano (Western Australian Department of
Health), crianças com TDAH medicadas tinham dez vezes mais
chances de serem identificadas pelos professores como tendo um
desempenho abaixo do nível para a sua idade, nos trabalhos esco-
lares, do que crianças com TDAH não medicadas. As crianças me-
dicadas apresentavam também sintomas piores de TDAH e pres-
são diastólica elevada. Os pesquisadores concluíram que o uso de
medicação não se traduz em benefícios a longo prazo para desfe-
chos sociais e emocionais da criança, desempenho na escola ou
melhora dos sintomas (WADH, 2009)

 Pesquisadores no Quebec, Canadá, relataram, em 2013, que o uso


a longo prazo de medicamentos para TDAH tem consequências
negativas em vários domínios: aumento da infelicidade, deterio-
ração na relação com os pais, deterioração dos resultados educa-
cionais, um aumento da probabilidade, entre os meninos, de de-
sistirem da escola e aumento na probabilidade, entre as meninas,
de serem diagnosticadas com outros transtornos mentais ou
emocionais (CURRIE, 2013).

Em 2012, Alan Sroufe, um professor emérito de psicologia da Universida-


de de Minnesota (University of Minnesota), que começou seus estudos com

22
crianças hiperativas nos anos de 1970, resumiu sua história de pesquisa em
uma entrevista para o New York Times:

Medicamentos para déficit de atenção aumentam a concentração no curto


prazo, motivo pelo qual eles funcionam tão bem para estudantes em épocas
de exames. Porém, administrado em crianças, por longos períodos de
tempo, não melhoram o sucesso escolar nem reduzem os problemas de
comportamento (…) até hoje, nenhum estudo encontrou algum benefício a
longo prazo da medicação para déficit de atenção no desempenho
acadêmico, relações com os pares ou problemas de comportamento, as
primeiras coisas que gostaríamos de melhorar (…) os medicamentos podem
ter também efeitos adversos sérios, incluindo déficit de crescimento
(SROUFE, 2012).

Como qualquer medicamento, há uma análise de risco-benefício a ser feita


e a expectativa é a de que os benefícios superem os riscos. Porém, no caso dos
estimulantes como tratamento para o TDAH, não há benefício a ser encontrado
a longo prazo, o que significa que somente há riscos como resultantes desta
equação, e sendo assim, uma análise de risco-benefício só mostraria os danos
causados. Os efeitos adversos conhecidos dos estimulantes podem ser classifi-
cados como segue:

 Físicos: sonolência, perda de apetite, letargia, insônia, dores de


cabeça, dor abdominal, anormalidades motoras, tiques, cerramen-
to da mandíbula, problemas de pele, doenças no fígado, perda de
peso, déficit de crescimento, hipertensão e morte súbita.
 Emocionais: depressão, apatia, fraqueza geral, mudanças de hu-
mor, crises de choro, irritabilidade, ansiedade e um sentimento de
hostilidade do mundo.
 Psiquiátricos: sintomas obsessivos compulsivos, mania, paranoia,
episódios psicóticos e alucinações.

Após a retirada: sintomas do TDAH (excitabilidade, impulsividade, tagare-


lice) podem ser tornar piores do que nunca. O comportamento pode rapida-
mente se agravar.
Estudos em animais fornecem mais motivos para se preocupar com os da-
nos. Ratos pré-adolescentes expostos ao metilfenidato se tornaram ratos adul-
tos ansiosos e depressivos, com um “déficit no comportamento sexual” (BO-
LAÑOS, 2003). Em macacos, exposições repetidas a baixas doses de anfetami-
nas fez com que eles exibissem “comportamentos aberrantes”, que permanece-
ram por longo tempo após cessar a exposição (CASTNER, 1999). Tais achados
levam os pesquisadores a concluir que a exposição de adolescentes ao metilfe-
nidato provoca “consequências neurocomportamentais persistentes”, incluin-
do menor tolerância ao estresse e sensibilidade diminuída às recompensas
naturais (MARCO, 2011).

23
Há ainda o risco de o estimulante induzir mudanças de humor que levam
ao diagnóstico de bipolaridade. Os estimulantes produzem efeitos excitatórios
e disfóricos, que são os próprios sintomas utilizados para diagnosticar o trans-
torno bipolar em jovens. Não é de surpreender que vários estudos com jovens
diagnosticados com transtorno juvenil estabeleceram que dois terços usavam
estimulantes “antes do aparecimento de um episódio afetivo”. Assim, um dos
riscos em ser diagnosticado com TDAH é que o tratamento medicamentoso
levará a um diagnóstico bipolar, que é entendido como uma condição crônica,
severa e para toda a vida (DelBELLO, 2001; PAPOLOS, 1999). Isso é evidência
de um processo trágico, de um diagnóstico e subsequente tratamento que po-
dem tornar uma criança “hiperativa” em um paciente mental crônico.
Essa é a história do TDAH. É uma história de um diagnóstico que foi cons-
truído em 1980 e então comercializado para o mundo, e de grande sucesso
comercial. Isso ocorreu mesmo que as pesquisas tenham falhado em identificar
qualquer patologia característica nas crianças diagnosticadas, e na ausência de
qualquer evidência de que o tratamento medicamentoso fornece um benefício
a longo prazo, em qualquer domínio ou função. A única evidência que emerge
dos estudos de longo prazo do TDAH é a de uma prática que faz mais mal do
que bem.

ISRSS E ANTIPSICÓTICOS TAMBÉM PARA CRIANÇAS E ADOLESCENTES

O restante dessa história, dessa patologização da infância, desdobrou-se


em sintonia com a comercialização dos antidepressivos ISRS e antipsicóticos
atípicos. Assim como foi o caso da criação de um mercado para os estimulan-
tes, o modelo de doença da APA tornou possível a venda de antidepressivos e
antipsicóticos para crianças.
Antes do DSM-III, a depressão maior era vista majoritariamente como
uma doença da meia idade e da velhice. Os problemas de humor em crianças
eram vistos como normativos e autolimitados. Entretanto, o DSM-III forneceu
critérios baseados em sintomas para diagnosticar a depressão, com pouca
investigação sobre se os eventos da vida poderiam ser a origem de tais sinto-
mas, e crianças e adolescentes podem agora ser vistos como tendo depressão
maior se tiverem esses sintomas. Além disso, a APA identificou a irritabilidade
como um sintoma principal da depressão em crianças e, com a construção
deste diagnóstico, os pesquisadores logo relataram que 12% dos adolescentes
sofreriam uma crise de “depressão maior” até os 18 anos (MERIKANGAS,
2010).
No início dos anos de 1990, os fabricantes de antidepressivos ISRS identi-
ficaram crianças e adolescentes como um mercado inexplorado para seus me-
dicamentos. Pagaram psiquiatras acadêmicos nos Estados Unidos para condu-
zir ensaios pediátricos para seus produtos e, até 2004, eles tinham nove estu-
dos publicados que falavam da segurança e da eficácia dos ISRS para tratar a

24
depressão em crianças. Com tais relatos aparecendo na literatura médica, a
prescrição de ISRSs para jovens decolou, pelo menos dos Estados Unidos, e até
2004, uma em cada 40 crianças em idade escolar na América tomava antide-
pressivo (DELATE, 2004). Um dos “líderes de opinião” que ajudou a construir
este mercado, Martin Keller, da Universidade de Brown (Brown University),
recebeu aproximadamente US$ 1 milhão entre 1997 e 1998 por seus serviços
para as companhias farmacêuticas (BASS, 1999).
A literatura científica pode ter afirmado que os medicamentos são efica-
zes, porém, como o FDA anunciou em 2004, 12 de 15 ensaios clínicos pediátri-
cos com ISRS, de fato, não conseguiram provar que os medicamentos proporci-
onaram algum benefício. O FDA rejeitou o pedido de seis produtos ISRS que
solicitaram rotulagem pediátrica. O órgão só aprovou a fluoxetina (Prozac)
para o uso em adolescentes (LAUGHREN, 2004). Fica claro que os relatos pu-
blicados em periódicos médicos contavam uma história corrupta, e agora co-
nhecemos a extensão dessa corrupção: havia um viés no próprio desenho dos
estudos; os resultados publicados não correspondiam aos dados reais; os efei-
tos adversos foram minimizados ou omitidos; e estudos negativos permanece-
ram não-publicados ou foram transformados em positivos. Como a Lancet
editorou em 2004, “A história da pesquisa sobre o uso de inibidores seletivos
da recaptação de serotonina para depressão em crianças é uma história de
confusão, manipulação e falência institucional”8.
Os dados do FDA também indicaram os danos causados. Ainda que não ha-
ja evidências da eficácia dos ISRS em crianças (com a possível exceção da fluo-
xetina) houve muitos riscos registrados, incluindo um aumento no risco de
comportamento suicida e conversão para transtorno bipolar, uma grande
quantidade de efeitos adversos físicos, emocionais e psiquiátricos, e, ao longo
do tempo, um risco de apatia induzida por medicamentos (disforia tardia),
danos cognitivos e de disfunção sexual na vida adulta. Enquanto que tudo isso
reduz a prescrição dos ISRSs para crianças e adolescentes em muitos países,
nos Estados Unidos sua prescrição continua sendo uma prática comum, com
um em cada 30 adolescentes dos EUA tomando antidepressivos, em 2010 (JO-
NAS, 2013).
A prescrição de antipsicóticos atípicos para adolescentes nos Estados Uni-
dos disparou em meados de 1990, logo após a segunda geração de antipsicóti-
cos – Risperdal, Zyprexa e etc. – serem lançados no mercado. Esses novos me-
dicamentos foram prescritos para controlar a agressão e para tratar o trans-
torno bipolar, uma doença que, até então, não se pensava ocorrer em crianças
pré-adolescentes. Porém, tais distúrbios do humor começaram a aparecer de
forma um pouco regular em jovens para os quais foram prescritos estimulan-
tes e ISRS, e então, em meados de 1990, logo quando os antipsicóticos atípicos
chegaram ao mercado, Joseph Biederman anunciou que muitas crianças com

8 Ver: Editorial, “Depressing research.” Lancet, vol. 363, 2004, p. 1335.

25
TDAH possuíam comorbidade com doença bipolar, e esse novo diagnóstico
decolou, pelo menos nos Estados Unidos (BIEDERMAN, 1996). Em 2010, um
por cento dos adolescentes dos EUA utilizavam um antipsicótico (HOWIE,
2014).
Nos Estados Unidos, mais de sete por cento das crianças entre 6 e 17 anos
agora utilizam pelo menos um medicamento psiquiátrico diário, evidência de
como a indústria farmacêutica, em colaboração com a Associação Americana
de Psiquiatria, construiu um mercado que conta com a patologização da infân-
cia. Esta prática foi exportada dos Estados Unidos para grande parte do restan-
te do mundo desenvolvido, embora com graus variados de sucesso. Nos Esta-
dos Unidos, um marcador do dano causado por esta prática vem das estatísti-
cas de incapacidade: o número de jovens com menos de 18 anos recebendo
pagamentos por incapacidade, devida a doenças mentais, cresceu de 16.700
em 1988 para perto de 800.000 em 2011 e, quando esses jovens atingem os 18
anos, uma porcentagem significante entra direto nos de incapacidade na idade
adulta9. A patologização da infância, pelo menos nos Estados Unidos, levou à
criação de uma nova carreira para muitos, o que quer dizer uma vida como
deficiente mental. E esta é apenas a evidência mais visível do grande dano que
está sendo causado por essa indústria.

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