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DIREITO DAS SUCESSÕES

1ª PARTE SUCESSÃO LEGÍTIMA

2ª PARTE SUCESSÃO TESTAMENTÁRIA

3ª PARTE INVENTÁRIO E PARTILHA

SUCESSÃO LEGÍTIMA – é aquela em que o autor da herança faleceu ab


intestato (sem deixar testamento), presumindo-se que haja incidência da ordem
de vocação hereditária, esculpido no artigo 1.829 do Código Civil, sendo seu rol
taxativo.

Art. 1.829. A sucessão legítima defere-se na ordem


seguinte:

I - aos descendentes, em concorrência com o


cônjuge sobrevivente, salvo se casado este com o
falecido no regime da comunhão universal, ou no da
separação obrigatória de bens; ou se, no regime da
comunhão parcial, o autor da herança não houver
deixado bens particulares;

II - aos ascendentes, em concorrência com o


cônjuge;

III - ao cônjuge sobrevivente;

IV - aos colaterais.

A ordem de vocação hereditária se dá na seguinte ordem.

Descendentes – filhos, netos, bisnestos, trinetos, tetranetos, pentanetos,


hexanetos, heptanetos, octanetos, nonanetos, decanetos, etc;

Ascendentes – pais, avós, bisavós, trisavós, tetravós, pentavós, hexavós,


heptavós, octavós, nonavós, decavós, etc;

Obs: a linha reta (descendente e ascendente é infinita).;

Cônjuge sobrevivente/supérstite;
Irmãos – é o segundo grau em linha colateral

Sobrinhos/Tios – os sobrinhos preferem os tios, ou seja, aqueles tem preferência


na ordem de vocação hereditária.

Art. 1.843. Na falta de irmãos, herdarão os filhos


destes e, não os havendo, os tios

Estes são os parentes em terceiro grau colateral. Não havendo os tios, chama-
se os parentes em quarto grau colateral, sendo os primos, o tio-avô e o sobrinho-
neto. Neste último caso, não há ordem de preferência.

ATENÇÃO: os herdeiros necessários são DESCENDENTES, OS


ASCENDENTES E O CÔNJUGE SOBREVIVENTE.

Art. 1.845. São herdeiros necessários os


descendentes, os ascendentes e o cônjuge.

Deve-se ter cuidado, herdeiros legítimos são os que estão na ordem de vocação,
os necessários são os previstos no artigo 1.845 do Código Civil.

O autor da herança que deixa herdeiros necessários, não pode dispor mais da
metade de seus bens em testamento, devendo respeitar a legítima.

Art. 1.846. Pertence aos herdeiros necessários, de


pleno direito, a metade dos bens da herança,
constituindo a legítima.

Neste sentido, o casamento, independente do regime de bens adotado, faz


reserva de metade do patrimônio disponível do autor da herança.

SUCESSÃO DOS DESCENDENTES

Na sucessão dos descendentes, os mais próximos excluem os mais remotos,


podendo suceder por cabeça, onde recebem por direito próprio, ou por estirpe,
quando recebem por representação.

Imagine que JOÃO tem dois filhos, sendo JOSÉ e JOSEFA. JOSÉ possui dois
filhos, MARIA e JOÃO NETO. Se JOÃO falecer, seu patrimônio irá para seus
filhos, sendo 50% para JOSÉ e 50% para JOSEFA, é o chamado recebimento
por cabeça.
FALECIDO, autor
da herança
JOÃO 100%

JOSÉ 50% JOSEFA 50%

Se no exemplo acima, JOSÉ fosse pré-morto à morte de JOÃO, seus filhos, neto
de JOÃO, iriam receber por representação, ou seja, MARIA receberia 25% e
JOÃO NETO receberia 25%, ambos representando seu pai. Veja.

FALECIDO, autor
da herança
JOÃO 100%

Pré morto
JOSÉ JOSEFA 50%

MARIA JOÃO NETO MARIA E JOÃO NETO REPRESENTAM JOSÉ,


NA SUCESSÃO DOS BENS DEIXADOS POR
JOÃO
25% 25%

Agora, ainda no exemplo acima, imagine que JOSEFA também seja pré-morta a
seu genitor e tenha deixado uma filha JOANA.

Perceba que a sucessão em tela é de JOÃO, avô de MARIA, JOÃO NETO e


JOANA. Logo, os netos estão na mesma linha, não havendo mais representação,
mas recebendo por cabeça, por direito próprio, no percentual de 33,3%.
FALECIDO, autor
da herança
JOÃO 100%

Pré morto Pré morto


JOSÉ JOSEFA

MARIA JOÃO NETO JOANA

33,3% 33,3% 33,3%

SUCESSÃO DOS ASCENDENTES


Imagine que JOÃO tenha falecido sem deixar filhos ou cônjuge, apenas seu PAI
e sua MÃE. Logo, seu patrimônio irá para seus ascendentes, por direito próprio
(por cabeça), cada um receberá 50% do patrimônio.

50% PAI MÃE 50%

JOÃO 100%

No mesmo exemplo, se seu pai fosse pré-morto, restando vivos seus avós
paternos, não há que se falar em sucessão destes, ao passo que sua MÃE,
herdaria 100% de seu patrimônio.

Pré morto PAI MÃE 100%

JOÃO 100%

Na ascendência, não se fala em direito de representação, porque os mais


próximos excluem os mais remotos.

Art. 1.852. O direito de representação dá-se na linha


reta descendente, mas nunca na ascendente.

No exemplo utilizado, imagine que restem apenas o avô paterno, e o avô e avó
materna. Utiliza-se o parágrafo segundo do artigo 1.836.

Art. 1.836. Na falta de descendentes, são chamados


à sucessão os ascendentes, em concorrência com o
cônjuge sobrevivente.

§ 1o Na classe dos ascendentes, o grau mais


próximo exclui o mais remoto, sem distinção de
linhas.

§ 2o Havendo igualdade em grau e diversidade em


linha, os ascendentes da linha paterna herdam a
metade, cabendo a outra aos da linha materna.
No caso, os avós estão no mesmo grau da ascendência, mas em linhas distintas,
pois temos um avô paterno e dois avós maternos. O primeiro herdaria 50% do
patrimônio, os últimos também herdariam 50%.

50% AVÔ 25% AVÔ AVÓ 25%

Pré morto PAI MÃE Pré morto

JOÃO 100%

SUCESSÃO PURA DO CÔNJUGE SUPÉRSTITE

Quando se diz pura, estamos excluindo a concorrência.

Se faz imprescindível diferenciar meação de sucessão. A primeira é o montante


(50%) recebido pelo regime de bens adotado à época do casamento. Com a
morte, o casamento chega ao fim, logo metade dos bens havidos na constância
do matrimônio são do cônjuge sobrevivente. A segunda é o montante recebido
em virtude da morte de alguém, pelo princípio da saisine.

Segundo Maria Berenice Dias “De um modo geral, o universo dos bens
adquiridos durante o período de convivência – seja casamento, seja união
estável – pertence a ambos. Cada um é titular da metade de cada um dos bens.
Daí a expressão meação”.

E continua dizendo.

“Os bens que integram a meação de cada um são de sua propriedade exclusiva,
ainda que permaneçam em estado de mancomunhão (...) significa que o
patrimônio comum pertence a ambos em partes iguais.

É o regime de bens que permite dizer se existe direito à meação. Somente nos
regimes em que há comunhão de patrimônios cabe falar em mancomunhão.
Depois é preciso identificar se os bens foram adquiridos gratuita ou
onerosamente, durante a vigência do casamento ou em momento anterior. Esta
é a única forma de apurar o patrimônio a ser dividido ao meio, daí “meação”
Imagine que JOÃO, sem descendentes ou ascendentes, casado com MARIA,
falece. Sua única herdeira será MARIA, sendo que seu percentual dependerá do
regime de bens adotado.

100%

JOÃO MARIA

COMUNHÃO UNIVERSÃO DE BENS – se o regime adotado for o da comunhão


universal de bens, 50% cabe pela qualidade de meeira, os outros 50% cabe por
sucessão. O montante da meação já era dela, o restante recebeu pela sucessão.
50%
meação

JOÃO MARIA 100%

50%
sucessão

Pela qualidade de meeira, o ITCMD a ser recolhido incidirá apenas sobre o


montante sucessório, ou seja, o percentual que recebeu pela saisine.

SEPARAÇÃO TOTAL DE BENS (pacto antenupcial) – neste regime, não se fala


em meação, logo, na ausência de descendentes, ascendentes, o cônjuge
receberá 100% pela sucessão, e o imposto deverá incidir sobre o total recebido
a este título.

JOÃO MARIA
100%
sucessão

Meação importa ao regime de bens, sucessão importa na ordem vocacional


hereditária.

COMUNHÃO PARCIAL DE BENS – os bens adquiridos antes da constância do


casamento, os havidos por doação e herança, são considerados particulares,
logo, falecido o dono de tais bens remanescendo seu cônjuge não terá direito a
meação, recebendo a totalidade por sucessão.

JOÃO MARIA
100%
sucessão

Na esteira dos bens adquiridos na constância do casamento e a título oneroso,


os juros, frutos e benfeitorias dos bens anteriores ao matrimonio ou união são
caracterizados pela meação. 50%
meação

JOÃO MARIA 100%

50%
sucessão

SUCESSÃO DO CÔNJUGE QUANDO CONCORRE COM OS


DESCENDENTES

O cônjuge sobrevivente concorre com os descendentes do de cujus, salvo se


casados no regime da COMUNHÃO UNIVERSAL DE BENS, SEPARAÇÃO
OBRIGATÓRIA DE BENS, COMUNHÃO PARCIAL DE BENS e o de cujus não
deixou bens particulares.

Imagine que JOÃO é casado com MARIA pelo regime da COMUNHÃO


UNIVERSAL DE BENS, ambos tendo dois filhos comuns. No falecimento de
JOÃO, 50% é do cônjuge supérstite e 50% são dos filhos, recebendo 25% cada
um, por cabeça. Se já possui meação, afasta-se a sucessão.

Agora, se JOÃO e MARIA são casados no regime da COMUNHÃO PARCIAL DE


BENS, sem bens particulares, apenas comuns, possuindo 3 filhos. Veja que na
hipótese em tela, 50% é do supérstite, pela meação e o restante será dividido
entre os 3 filhos, cada um recebendo 16,66%, em razão da sucessão.

Na SEPARAÇÃO OBRIGATÓRIA DE BENS, temos algumas particularidades. A


súmula 377 do STF, preceitua que no regime de separação obrigatória de bens,
comunicam-se os adquiridos na constância do casamento.

Logo, se JOÃO, idoso com 90 anos, é casado com MARIA, 25 anos, com 2 filhos,
falece deixando bens que adquiriu onerosamente na constância do casamento.
MARIA terá direito a meação, seus filhos terão direito a 25% cada um.
Já nos bens particulares, adquiridos antes, não se fala em meação, sendo que
os filhos receberão a totalidade dos bens por sucessão, na ordem de 50% cada
um.

QUANDO O CONJUGE SOBREVIVENTE CONCORRE COM OS


DESCENDENTES.

Por dedução, o cônjuge supérstite concorrerá nos demais regimes.

SEPARAÇÃO TOTAL DE BENS – há pacto antenupcial, diferente da separação


obrigatória de bens.

Imagine que JOÃO faleceu deixando como cônjuge MARIA, pelo regime da
separação total de bens, não há que se falar em meação. Todavia, se o falecido
além da esposa, deixa filhos, estes, juntamente com a esposa, lhe sucederão
em seus bens, pela incidência da ordem de vocação hereditária esculpida no
artigo 1.829 do Código Civil. Haverá concorrência em partes iguais e por cabeça.

Art. 1.832. Em concorrência com os


descendentes (art. 1.829, inciso I) caberá ao cônjuge
quinhão igual ao dos que sucederem por cabeça,
não podendo a sua quota ser inferior à quarta parte
da herança, se for ascendente dos herdeiros com
que concorrer.

A segunda parte do artigo citado merece melhores considerações. O cônjuge


supérstite for ascendente dos filhos com quem concorrer, ou seja, se concorrer
com seus próprios filhos, deverá ser-lhe resguardado, no mínimo ¼ parte.

Neste sentido, para incidir a norma devem existir quatro ou mais filhos.

Se houver concorrência com filho apenas do falecido, a norma não se aplica,


recebendo o cônjuge supérstite o mesmo quinhão dos filhos. Será dividido em
partes iguais e por cabeça.

PARTICIPAÇÃO FINAL NOS AQUESTOS – também decorre de pacto


antenupcial.
COMUNHÃO PARCIAL DE BENS e o falecido deixou bens particulares.

Nos bens comuns não há concorrência, pois, há meação, logo, tal regra afasta
o direito de suceder os bens deixados em virtude do falecimento do cônjuge.
Onde não tem meação, tem sucessão e, onde não tem sucessão tem
meação.

SUCESSÃO DOS IRMÃOS

A sucessão dos irmãos é regida pelo artigo 1.841 do Código Civil.

Art. 1.841. Concorrendo à herança do falecido


irmãos bilaterais com irmãos unilaterais, cada um
destes herdará metade do que cada um daqueles
herdar.

Irmãos bilaterais são os chamados germanos, filhos do mesmos pais, os


unilaterais são os consanguíneos, ou filhos do mesmo pai OU da mesma mãe.

Imagine que JOÃO, irmão germano de JOANA e JOSE, e irmão unilateral de


PEDRO e PAULO. Se JOÃO, solteiro, sem ascendentes e descendentes, vier a
falecer, sua sucessão se dará na seguinte forma.

Seu patrimônio (100%) deve ser dividido pelo número de irmãos acrescido pelo
próprio falecido, ou seja, por cinco, remanescendo um percentual de 20%.
Multiplica-se o percentual havido da divisão (20%) pelo “peso” que cada um tem,
em relação ao grau de parentesco. Os irmãos germanos possuem peso 2, os
consanguíneos possuem peso 1.

Falecendo o autor da herança deixando apenas colaterais, ou seja, sem


descendentes, ascendentes e cônjuge, seu patrimônio irá para seus irmãos,
imagine que haja dois irmãos e um deles seja pré-morto, mas deixando dois
filhos, sobrinhos do autor da herança. Os sobrinhos receberão o percentual que
cabia ao irmão do falecido, por representação.

Todavia, se também forem falecidos, deixando filhos, ou seja sobrinhos-netos do


autor da herança e havendo irmão vivo, não haverá direito de representação
quanto aos sobrinhos-netos, pois o artigo 1.840 diz que a representação na linha
colateral vai até os filhos do irmão pré-morto, não abrangendo os sobrinhos-
netos. Os mais próximos excluem os mais remotos, logo, os bens vão para o
irmão vivo.

SUCESSÃO NA UNIÃO ESTÁVEL

O STF declarou a inconstitucionalidade do artigo 1790 do código civil, sendo


aplicável o artigo 1829, no que tange ao cônjuge.

INDIGNIDADE, DESERDAÇÃO E RENÚNCIA

A indignidade está no artigo 1814 do CC.

Art. 1.814. São excluídos da sucessão os herdeiros ou


legatários:

I - que houverem sido autores, co-autores ou partícipes


de homicídio doloso, ou tentativa deste, contra a pessoa
de cuja sucessão se tratar, seu cônjuge, companheiro,
ascendente ou descendente;

II - que houverem acusado caluniosamente em juízo o


autor da herança ou incorrerem em crime contra a sua
honra, ou de seu cônjuge ou companheiro;

III - que, por violência ou meios fraudulentos, inibirem ou


obstarem o autor da herança de dispor livremente de
seus bens por ato de última vontade.

A indignidade é declarada por meio de ação declaratório cujo prazo é de 4 anos


(art. 1815, PU), a partir da morte do autor da herança. O herdeiro indigno é
considerado como se morto fosse, logo, seus filhos herdam por representação.

A indignidade pode ser declarada em virtude de homicídio, tentativa de homicídio


e calúnia. Nos dois últimos casos, o autor da herança não morreu, logo, pode
fazer pela deserdação.

DESERDAÇÃO – ART. 1962 e 1963 CC.


Art. 1.961. Os herdeiros necessários podem ser
privados de sua legítima, ou deserdados, em todos os
casos em que podem ser excluídos da sucessão.

Art. 1.962. Além das causas mencionadas no art. 1.814,


autorizam a deserdação dos descendentes por seus
ascendentes:

I - ofensa física;

II - injúria grave;

III - relações ilícitas com a madrasta ou com o padrasto;

IV - desamparo do ascendente em alienação mental ou


grave enfermidade.

Art. 1.963. Além das causas enumeradas no art. 1.814,


autorizam a deserdação dos ascendentes pelos
descendentes:

I - ofensa física;

II - injúria grave;

III - relações ilícitas com a mulher ou companheira do


filho ou a do neto, ou com o marido ou companheiro da
filha ou o da neta;

IV - desamparo do filho ou neto com deficiência mental


ou grave enfermidade.

No artigo 1962, o ascendente deserda o descendente e, no artigo 1963, os


descendentes deserdam os ascendentes, mas as causas são as mesmas.
Homicídio não cabe deserdação, apesar do artigo 1962 e 1963 fazer expressa
menção ao artigo 1814 do CC.

Continua...