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VIDA APOS A MORTE NA CULTURA YORUBÁ-NAGÔ

Na religião dos nagôs, cremos que há vida após a morte e que os mortos podem retornar à terra
através do Culto à Egúngún.

De forma muito resumida, podemos afirmar que há o culto aos ancestrais "Lese Òrìsà" e o culto
aos ancestrais "Lese Egúngún". O primeiro é realizado nos terreiros de Candomblé – no Ilé Ibó
Aku (casa ou bambuzal de adoração aos ancestrais), em que os Sacerdotes de Òrìsà cultuam os
ancestrais do terreiro, sem que exista a manifestação física desse ancestre. Esses ancestrais
chamados de ESÁ são louvados e evocados em rezas, e rituais como o Ipadê e em cerimônias
dedicadas à ancestralidade da Casa de Candomblé.

O segundo, por sua vez, ocorre nos chamados Terreiros de Egúngún, em que o Sacerdote do
culto a Egúngún (Alapini, Alagbá e Ojé) cultuam além dos ancestrais daquele terreiro e da
família, os ancestrais patronos de de Terreiros. Além disso, esses Sacerdotes, trazem à terra,
esses Egúngún de forma física, ricamente vestidos com roupas coloridas.

Um Itán de Ifá, narra que na cidade de Oyo (África), existia um fazendeiro chamado Alapini. Esse
fazendeiro tinha três filhos (Ojewuni, Ojesami e Ojerinlo). Certo dia, Alapini fez uma viagem e
recomendou aos filhos que não comessem um tipo especial de inhame, haja vista ele deixar as
pessoas com uma sede desmedida. Os filhos ignoraram a advertência e comeram em excesso o
aludido inhame. Como já anunciado pelo Alapini, eles tiverem uma sede imensurável e beberam
água até a morte. Quando do seu retorno, o Alapini deparou-se com seus filhos mortos e
resolveu procurar um Babalawo. Através do jogo de Ifá, o Babalawo disse que no décimo sétimo
dia da morte de seus filhos, o Alapini deveria ir até um bosque que havia perto do rio e pegasse
um galho de Àtòrì. Nesse bosque ele deveria bater no chão três vezes o ISÁN (o bastão feito da
árvore Àtòrì) e pronunciar certas palavras mágicas e chamar pelos nomes dos filhos "WA DE"
(venha), na terceira vez os filhos retornariam à terra e assim aconteceu.

Por isso, o sumo sacerdote do culto aos ancestrais é chamado de Alapini, pois o fazendeiro de
nome análogo foi o primeiro homem a materializar um ancestral na Terra. Diferente do culto a
Ìyàmì, no qual, as mulheres são as grandes líderes, no culto à Egúngún, a liderança pertence aos
homens. Há uma antiga história de Ifá, que nos explica a razão disso.

À época dos Òrìsàs, os homens eram os líderes de tudo. As mulheres, no entanto, resolveram
punir os homens, mas sem nenhum critério ou limite, abusando desta decisão, humilhando-os.
Yansan era a líder dessas mulheres revolucionárias que se reuniam em uma floresta. Oya havia
domado e treinado um macaco marrom chamado Ijimere, utilizando para isso, um isan (galho da
árvore "Àtòrì". Oya vestia o macaco com uma roupa feita de várias tiras de pano coloridas, de
modo que ninguém via o macaco sob os panos. Conforme Oya batia o isan no solo, o macaco
pulava de uma árvore para outra, movimentando-se de forma alucinante, como fora treinado
por Oya. Deste modo, durante à noite, quando os homens por lá passavam, as mulheres que
estavam escondidas, faziam o macaco aparecer e eles fugiam totalmente apavorados, pois
acreditavam estar vendo um Egúngún. Cansados de tanta humilhação, os homens foram
consultar Ifá através de um babaláwo, a fim de descobrir a causa de tamanha injúria. Através do
jogo de Ifá, a farsa das mulheres foi desvendada. Ifá recomendou aos homens, alguns sacrifícios,
sendo Ògún, o encarregado de reverter o cenário imposto pelas mulheres. Quando Ògún chegou
ao local das aparições, vestiu-se com vários panos coloridos, ficando totalmente encoberto,
escondendo-se atrás de uma árvore. Quando as mulheres chegaram, ele apareceu subitamente,
correndo, berrando e brandindo sua espada pelos ares, todas as mulheres fugiram assustadas,
inclusive Oya. A partir desse dia, os homens dominaram as mulheres e as expulsaram para
sempre do culto aos ancestrais. No entanto, Oya Igbale, continua sendo a Divindade que os
Egúngún respeitam.

Muitos desacreditam da manifestação dos ancestrais e isso aconteceu até mesmo com os Òrìsàs.
Outra história de Ifá, narra que após o Alapini ter evocado presencialmente os seus filhos já
falecidos, Sàngó mandou lhe chamar, pois não acreditava que os mortos podiam voltar do além.

Como Sàngó era o grande Rei de Oyo, o Alapini foi prontamente ao palácio, quando chegou lá,
Sàngó disse que iria prender Alapini, pois ele dizia que tinha o poder de trazer os mortos do
além e isso era uma grande mentira e que se ele realmente conseguia fazer isso, que fizesse
diante dos olhos de Sàngó. Alapini respondeu que não poderia evocar os ancestrais diante de
Sàngó, mas que sim era possível trazer os mortos do além. Sàngó então mandou que
construíssem um quarto dentro do palácio e vistoriou toda a edificação, garantindo que não
havia ninguém dentro dela. Sàngó pediu para que o Alapini entrasse no quarto e que se ele tinha
realmente esse poder, ele evocasse os ancestrais lá dentro, pois Sàngó tinha certeza que não
havia mais ninguém lá. Alapini pediu algumas coisas, como panos, espelhos e um Isan (a grande
vara de atori). Sàngó pessoalmente entregou tudo ao Alapini, certificando-se que não havia
truques. Feito isso, Sàngó trancou a porta e ordenou que Alapini evocasse os ancestrais. Pouco
tempo depois, uma voz rouca começou a sair do quarto. Sàngó irritado, disse que se aquilo fosse
um truque, o Alapini seria morto. Passado mais um tempo, o Alapini pediu que abrissem a porta,
quando Sàngó abriu, saíram de lá o Alapini e Egúngún, vestido com os panos e espelhos
preparados pelo Alapini. Diante disso e impressionado, Sàngó instituiu o culto aos ancestrais em
Oyo (seu reinado) e, a partir desse dia, todos os Alaafin (rei de oyo), são empossados pelo
Alapini, pois é ele que conhece a ancestralidade de Sàngó.

No Candomblé, o culto aos antepassados é tão importante que, mesmo antes de louvarmos os
Òrìsàs, devemos render homenagens aos ancestrais, isso é ainda mais saliente nas casas antigas,
em que já houve mais de um Sacerdote, sendo que o líder atual, sempre reverenciará aqueles
que o antecederam. Nesse sentido, acreditamos que, quando uma Ìyálòrìsà ou Babalòrìsà falece,
ele também servirá como conselheiro para os que o sucederão, no entanto, como ancestral,
sendo muitas vezes consultado por meio do oráculo. Há um antigo provérbio yorùbá que diz:
"Você só completará a sua missão, se cumprir a missão dos seus antepassados".

Como exposto acima, no Candomblé nós acreditamos na vida além da morte, em verdade,
cremos que a morte é o renascimento para todos. Nós cremos que, quando uma pessoa morre,
ela parte para um dos espaços Orùn, a depender da sua conduta no Ayè (que também é
considerado um dos Orùn, para os yorùbá).

Acreditamos na existência do Orun Rere (reservado para as pessoas que tiveram uma conduta
exemplar no Aye), o Orun Alafia (local de grande paz e harmonia), o Orun Funfun (local da
pureza), o Orun Baba Eni (local no qual cremos que residem os Sacerdotes), Orun Isalu (local
onde as pessoas serão julgadas), Orun Apadi (local ruim, das coisas que não serão reparadas e
que não serão restituídas à vida através da reencarnação), o Orun Buruku (o pior espaço, para
onde vão as pessoas más) e o Orun Afefe (onde os espíritos permanecem e tudo é corrigido, e lá
ficarão até serem reencarnados).

Desse modo, nós também acreditamos na reencarnação (Atunwa), mas como vimos, nem todos
serão reencarnados. A viagem da vida (Ajolaiye) em sua amplitude, não é concedida a todos,
mas quando isso ocorre, cremos que seja na mesma família. No Candomblé, quando existe a
reencarnação, essa ocorre invariavelmente no mesmo seio familiar daquele que faleceu.

Nesse sentido, essa "sentença" de nascer na mesma família, serve como "premio" ou "punição".
Quando uma pessoa atingiu seu papel no aye, de forma benéfica, ele certamente contribuiu para
a edificação de sua família, assim sendo, quando ele retornar para essa família, ele estará
retornando para um ambiente que ele mesmo contribuiu para que fosse bom e isso será
considerado um prêmio ancestral. No entanto, se ao invés disso, ele tenha causado problemas à
sua família, ele retornará para um ambiente que ele contribui para que não fosse bom, sendo
assim uma punição, no entanto, com uma oportunidade de virar o jogo.

Há um itan de Ifá, que discorre que uma pessoa só descansará eternamente no Orun, caso ela já
tenha conseguido realizar todas as coisas boas que ela tinha que realizar no Ayé. Somente após
isso ele poderá descansar, caso contrário, ela retornará ao Aye (Atunwa), para cumprir a sua
missão. Isso tem como objetivo, atingir o equilíbrio máximo entre os Orun e Aye.