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A ptoMonte colecção gira sobre um eixo fundamental: o Homem


nu lompo e na História. Assim se pretende estudar e dar a conhe-
. m ii um vasto público as diferentes actividades e comportamen-

SÉRGIO DONADONI
inn «111o o Homem desenvolveu em todos ós campos (laborai,
m 11,'ImI, rollgioso, cultural), nas diversas épocas dos grandes períoV
■ Imo i In História Universal. Este é um trabalho fértil em descober-
ido ci plono de possibilidades de confronto com o Homem de hoje.

Direcção de
11 1M11 u iIucçóq que conta com a colaboração de estudiosos das
iIllMiniitmi porspectivas que cada época nos oferece, e com a
• ihni nun do grandes especialistas de reputação internacional.

' i. nmpniiiVi. o artosão, o escriba, o funcionário, o sacerdote, o escravo,


.• i»oii»iii|i»»|ro, os mortos, o soldado, o faraó: as figuras mais significativas
du AnilCiH I qlpto sá o aqui retratadas petos estudiosos mais prestigiados
r» Hlvnl iiiiiik II ii I, coordenados por Sérgio Donadoni. São perspectivas
*ilMiliitnn qtici, tm globalidade, dão ao leitor uma imagem compósita da
nu. iniiiuin «igípcla. Para além da ideia que nos habituámos a fazer do
Aiiiigu I gipln, Mlrnvós dos restos materiais que deixou, o leitor tem agora
n. dtthi» M pnmpoctlvas convergentes que constituem uma interessante

O HOMEM EGÍPCIO
MpindiiiMuno daquilo que deverá ter sido a vida qúotidiana no tempo dos ;

fumem, driMcruvondo simultaneamente mentalidades e comportamentos.


i iiiui Hliuidagnin fascinante dentro das coordenadas metodológicas mais
iiM.vndr.mil. <11io contribui de forma notável para um conhecimento mais
ttpi**fiiittliic |(* dii milenária civilização egípcia.

O HOMEM E A HISTÓRIA
l 111 |t MEDIEVAL, Direcção de Jacques le Goff
v <) IK )MI.:m RENASCENTISTA, Direcção de Eugênio Garin '
i ui IOMEM ROMANO, Direcção de Andréa Giardina
A. u IIOMEM GREGO, Direcção de Jean-Plerre Vernant
n () I IOMEM EGÍPCIO, Direcção de Sérgio Donadoni

9789722318129
ISBN 972-23-1812-8

789722 318129

EDITORIAL PRESENÇA
ÍNDICE

INTRODUÇÃO, por Sérgio Donadoni....................................................................... 7

I. O CAMPONÊS, por Ricardo A. Caminos.......................................................... 13

II. O ARTESÃO, por Dominique Valbelle.............................. ........................... 37


Introdução............................................................................................................ 39
Os homens e a sociedade ................................ .................... .............................. 41
O Antigo Império.................................................................................................. 42
O Médio Império .................................................................................................... 44
O Novo Império ..................................................................... ....... .................. 46
Os vários ofícios artesanais .......................................... ..................................... 49
A expiessão individual na vida quotidiana......................................................... 53
A expressão artística .............................. ............................. ............................ 56

; III. O ESCRIBA, por Alessandro Roccati ................................................................ 59

IV. O FUNCIONÁRIO, por Oleg Beriev...................................................... 79


A história de José .................................................................. ............................ 81
O manual da hierarquia.....................................—............................... ............... 83
O princípio de Hecateu.......... ............. ........... .......... ......................................... 83
Os funcionários-deuses........................................................ .........•. ................ 87
A instrução .................................................................. ....... ........ ...................... 89
A crise da classe dos funcionários ...................................................... ■ •.......... 93
A categoria dos funcionários............................................................................... 97
A manutenção dos funcionários.....................................................• • • •............. 104
Os funcionários e a cultura do Egipto ... ........................................................... 105

V. O SACERDOTE, por Sérgio Pernigoíti......................................................... 107

VI. O SOLDADO, por Skeihk ‘Ibada al-Nubi.......................................................... 133

VII. O ESCRAVO, por Antonio Lopriero.............................................................. 161


Introdução............................................... ....................................................... . 163
O escravo e a literatura......................................................................... 165
O Antigo Império............................................................................ 168
O Médio Império............................................................................ 171
O Novo Império................... ..............................................................................
A época tardia................................................................................... i84
Conclusão............................................................................................................... 186

VIII. O ESTRANGEIRO, por Edda Bresciani....................................................... 189

IX. O MORTO, por Sérgio Donadoni .............. ............................................... 215

X. O REI, por Erik Hornung ..... ........................................................... 237

ESQUEMA CRONOLÓGICO........... 263

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 265

275
INTRODUÇÃO

Não é fácil remontar ilesos o fluir do tempo até universos que, sob aspectos por
vezes familiares e simples, ocultam diferenças tão profundas que — se não fossem
tidas em conta — tornariam difícil qualquer compreensão. Por isso, é essencial recor­
dar preliminarmente que, entre nós e o Egipto antigo, houve uma profunda fractura.
O desaparecimento da capacidade de leitura dos textos em que se exprimiu a
sua obstinada e indómita vontade de transmitir, de geração para geração, a
súmula das suas experiências e dos seus memoranda não deixa decerto de ter um
motivo: bastante antes do período em que os últimos hieróglifos foram esculpi­
dos, em finais da época imperial romana, o vigor da civilização egípcia já se
tinha tornado penosa sobrevivência, lenta marginalização das vias mestras da his­
tória em direcção a uma mítica e exangue idealização.
Por isso, para a nossa civilização, o Egipto constitui menos uma realidade do
que um lugar ideal que possa servir de base para fantasias elogiosas ou depreciati­
vas, portanto, para concepções que não nasceram no seu seio. Alternadamente sábio
ou cruel, opulento ou tirânico, ímpio, supersticioso e avisado, infantil, politicamente
!'l< MA TÉCNICA exemplar, piedoso e cínico, o Egipto dos antigos (e até ao Iluminismo) é tema fre­
quente de reflexões várias, mas recusa-se fundamentalmente à compreensão.
IKiiIn original: L‘Uomo Egiziano A obra genial de decifração levada a cabo por Champollion, no início da
Animes: O. Iter/ev, E. Bresciani, R. A. Caminos, época romântica, alterou muito a situação; a possibilidade de estabelecer um con­
S. Domtdoni, E. Hornung, 'Ibada al-Nubi,
A, Loprieno, 5. Pernigotti, A. Roccati, D. Valbelle
tacto directo com as fontes e os monumentos dava de novo ao mundo egípcio a
Diirvçflo ele: Sérgio Donadoni oportunidade de usufruir do interesse por mundos diferentes do mundo clássico,
*D 10*10, Oliis. Laterza & Figli Spa, Roma-Bari interesse que é típico dessa época (e, a propósito, bastará recordar a longa carta
IVmtnçflo © Editorial Presença, Lisboa, 1994 que Champollion escreveu a von Humboldt para lhe apresentar o seu sistema e os
IVtuluçno dc: Maria Jorge Vilar de Figueiredo primeiros resultados). Assim se facilitou a introdução da civilização do Nilo nos
< 'npn: Ramsés II — Relevo
quadros da historicidade: no seu primeiro encontro com os monumentos cuja voz
(loinposiçílo: Mirasete — Artes Graficas, Lda.
Imprcssflo e acabamento: Guide — Artes Gráficas, Lda. era o primeiro a ouvir, Champollion saboreava o desenrolar de uma cronologia,
1," edição, Lisboa, 1994 o perfil de uma estrutura social, a organização de uma linguagem e de uma lín­
Depósito legal n.° 73969/94 gua, e dava início a uma obra de recuperação que se encontra ainda — e espera-se
que continue — in fieri. A ruptura entre o mundo do Egipto antigo e a nossa pos­
Reservados todos os direitos
para a língua portuguesa à
sibilidade de conhecimento, a fractura de que falávamos atrás, parece assim ter
EDITORIAL PRESENÇA sido colmatada pela leitura desses textos antes fechados e que passavam a revelar
Rua Augusto Gil, 35-A 1000 LISBOA abertamente a sua mensagem.

7
1'lin'lM. m 4 IlimliNilMIION M‘i lllll !»«Mli 4» III íi ÍN <l(* prilc ), il NlIllilçilO c tlifc- cultura) sabido avaliar o seu valor mais autêntico de tipização e de símbolo, em
H UM- í iinÍVf'1 fi»n liiíilm ingriilimN romo a liUforia romana» grega OU comparação com a relativa insignificância do facto específico, evocado como oca-
iMriJirvnl rliegain nic* íhVs Jrt onqumlnulo.s niiuia longa tradigito que revelou, sião ou até como pretexto,_________________________________ _________ ______
M |i»’Ucin r liuTíimnil.ciiicnlc, a sua organieldade, interpretando factos e dados Apesar de toda a sua irreprimível necessidade de escrever, o Egipto antigo rara­
VMlniilaiIrtiurnlr Nolrceionados, por vezes oni função de um determinado valor, mente — muito raramente — se sentiu tentado a descrever-se, a teorizar as suas
iPpPHNrtdoN* refutados, rcinlerpretndos — e que constituem o depósito comum de estruturas, a reunir o seu património histórico e jurídico; deu testemunho de si atra­
iMMM mnlUvoeii convivência de pontos de vista, um esquema de referência de base vés de um fluxo contínuo de informações pontuais, personalizadas, num redemoi­
([•oülitva ou negai Ivamente) para a nova pesquisa específica ou para a narração. nho de dados desgarrados que nos compete a nós tentar reunir. Por isso, temos
lítNlro liancjuilizaclor (c estabilizador) falta a quem se debruce sobre a his- com o mundo egípcio uma intimidade que não possuímos com outros mundos anti­
lótln pjiiprln e sobre iodas as outras cujo acesso se afigure idêntico. Não existe gos —■ intimidade essa que o liga a nós por pormenores vividos —* e, ao mesmo
aqui um desenho orgânico que tenha ao mesmo tempo as suas raízes na contem- tempo, há em nós uma incerteza quanto ao ambiente geral, cujos contornos fuga­
jhuimfddnde r que se tenha depois confrontado com uma tradição historiográ- zes são desenhados segundo convenções historiográficas posteriores e diversas.
í h rt Em ve/ do leu lo amadurecimento dos séculos, houve uma primeira tentativa Para serem coerentes, estas cautelas preliminares deveriam desencorajar qual­
píiiii I im I ii I i num qiimlro racional dados e informações que não provêm de uma quer tentativa de abordagem do mundo do Nilo e, quando muito, levar-nos a
opvRo piHímimir e voluntária, mas que, em certa medida, são fruto do acaso. aceitar, pelos inúmeros valores süpratemporais que possui, a experiência artística
Àquilo que snbeinos acerca do Egipto antigo é-nos fornecido — mesmo fisica- despojada do seu carácter histórico. Todavia, é demasiado pouco para quem
tmmh' pelo próprio Egipto: pelo seu território tão fecundo sob o ponto de tenha um mínimo de experiência egiptológica.
vtoln mqiieidõglco, que é capaz de conservar e de nos dar aquilo que, em outros Antes do mais, o próprio volume das ruínas dessa civilização é tão imponente
pulse*, Impeiisiivd, incluindo os papéis escritos — os papiros —, ou seja, docu­ que acaba, só por si, por ter um significado. Durante pouco menos de trinta e
mentos éflpedficoH c autênticos a todos os níveis, desde as contas privadas até aos cinco séculos, acumularam-se resíduos e depósitos de factos ligados entre si por
mMim irai* e nos iextos literários. um fio condutor bem identificável, por vezes muito evidente, outras vezes mais
Nflo delsii tlc ser significativo o facto de, desde que começaram a efectuar-se ténue, mas que se pode sempre detectar. É seguindo esse fio — ou melhor, esses
aviitOrs no Eglplo c se recuperaram papiros das épocas grega e romana, a his- fios porque há, naturalmente, mais do que um — que esse mundo fechado pode
imlotíiuHa do mundo clássico ter enriquecido as suas temáticas e as suas técnicas ser ordenado e revela maneiras de ser, problemas de devir.
tir3 pesquisii r ter mostrado aos historiadores do Egipto antigo o que esses mate- A avaliação de uma experiência tão fechada acabou por ser dúplice: por um
tbil* íliu iiiuenlnis significam, aproveitando-se da sua experiência mais longa e lado, há a necessidade de traduzir para a linguagem de uma problemática viva e
ivnlyniido u c xeivliulo-se da possibilidade de confrontar os resultados dessa autóp­ actual (a nossa) o que está expresso numa língua morta; por outro lado, realçou-
sia iiuedinOi com os dados da tradição (dados que, neste caso, vão desde as narra­ -se a íntima diferença de valor que é atribuída mesmo àquilo que se nos apresenta
res do*í liistoi indorcs até aos textos literários e aos grandes compêndios jurídicos). como indiscutível e óbvio. Perante estas duas atitudes opostas o que importa não
Ihiinvln, essa confrontação com documentos e fontes que, no que se refere ao é tanto escolher uma ou outra, mas testar constantemente os resultados dessas
1-glpio miligo, são as inscrições, os papiros e as reproduções, é dificultada pelo abordagens e conferir assim a maleabilidade necessária àquilo que, de outra
Indo de rssex documentos e essas fontes chegarem até nós como fruto do acaso, forma, continua a ser mera documentação.
quico liictor n que fica a dever-se a sua conservação e, posteriormente, a sua des- É certo que o mundo egípcio parece, em certos aspectos, singularmente mo­
■ obriln. Um papiro não se salva por ter estado guardado num arquivo, mas por derno: a estrutura da família (fundamentalmente, pais e filhos) tem pouco peso
tino (cr sido colocado numa camada demasiado húmida, por ninguém sé ter ser­ em comparação com o peso de uma estrutura tribal que liga por laços de sangue
vido dele para acender o lume, por não ter passado por perto uma cabra que o indivíduos afastados, obrigando-os a uma solidariedade automática; o sistema
pudesse mordiscar ou por o responsável pelas escavações ter adoptado as técnicas hereditário divide os bens em partes substancialmente iguais, repartindo-os pelos
adequadas para o recuperar. Não existe qualquer desígnio oculto que tenha cônjuges sobrevivos e pelos filhos; no domínio do direito privado, uma vontade
levado a conservá-lo para o transmitir como documento específico. O mesmo se livre e documentalmente expressa tem valor autónomo, e a mulher possui uma
passa com as inscrições, que nos fornecem uma infinidade de dados, referentes personalidade jurídica que lhe permite fazer testamento ou servir de testemunha
aos reis o aos homens comuns. É evidente que as informações que elas nos forne- sem necessitar de um tutor; não existe o conceito de satisfação pessoal através da
mn deverão ser lidas tendo em conta a ideologia que lhes é inerente; porém, é vingança (não existe sequer uma palavra que a designe) e mesmo na mitologia os
(requente faltar-nos o ponto de referência que nos permita detectar as diferenças. conflitos entre os deuses são resolvidos perante um tribunal. Por outro lado, e
Por isso, há demasiados relatos de feitos soberanos ou outros textos aparente­ passando a factos mais gerais, a estrutura do Estado com base territorial, a sua
mente narrativos que foram interpretados à letra por historiadores modernos, natureza potencial de império universal, a meticulosidade de uma administração
quando um leitor egípcio teria instintivamente (ou melhor, baseando-se na sua ordenada numa escala hierárquica bem definida, o peso da vida civil colectiva

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(incluindo os grevistas em defesa dos seus direitos) são factores que, nesta medida tranquilidade dos historiadores. É o preço a pagar por um anedotário divertido, e
c com esta clareza, nos dão uma imagem tão compreensível do Egipto que acaba­ por vezes apaixonante, mas que acaba por ser ineficaz se ultrapassar os seus limites.
mos por -perdeiL£LJ3QcãQ_da individualidade específica dessas características._____ Os títulos dos ensaios reunidos neste volume revelam, de facto, uma atitude.
Um exemplo: a centralidade do Estado na sociedade egípcia é a justificação isoladamente tipificante; porém, se analisarmos mais de perto, veremos que o seu
pum u potencial igualdade entre o homem e a mulher (e, mais em geral, entre os conjunto serve para revelar várias facetas de uma mesma realidade, aquela que,
cklndílos), para a ausência de uma mentalidade tribal, para a possibilidade de na civilização egípcia, tem de longe o maior peso: a estrutura do Estado. Acerca
execução de grandes obras colectivas, para a organização da actividade e produti­ de cada uma das personagens que dão o título aos vários capítulos não se per­
vidade agrícolas à escala nacional, para a importância da lei como elemento de gunta «quem é?», mas «o que faz?». Funcionários, camponeses, escribas, solda­
rr.Holiiçflo dos conflitos, para a unidade linguística e cultural, etc. Estes são alguns dos, sacerdotes, escravos desempenham fundamentalmente uma actividade com­
ilos dados que nos revelam um mundo que, aparentemente, pode ser transferido plementar da actividade de outros, uma tarefa necessária para o funcionamento
pum o nosso modo de pensar e não ter em conta esta realidade de facto seria não da estrutura social em que estão inseridos.
nó Injusto mas também errado. Por conseguinte, o que temos diante de nós é, de facto, a descrição de uma
Ilulnviíi, como não recordar, ao mesmo tempo, que, no Egipto, o «Estado» é única realidade historiográfica, que exclui forçosamente muitas das mais profun­
mncrdmncnte o «Faraó», portanto um conceito que possui um valor mitológico das actividades egípcias: a arte, a especulação religiosa, a experiência moral só
rtMoeliido ao seu valor racional? A obrigação de ter em conta essas duas exigên- aparecerão em esboço, privilegiando-se o fio condutor da identificação da racio­
clmi, i\ genericamente racional e a caracteristicamente mítica, equivale àquilo que nalidade e do laicismo (se é que tem algum sentido utilizar estas palavras, neste
iicimlcec a quem traduz de uma língua estrangeira para a sua língua: tem de estar contexto) que regem as relações entre os homens no antigo Vale do Nilo. Trata-se
nlniío c compreender (para depois o exprimir) o significado concreto do que está de um empobrecimento em relação a um quadro que poderia ser mais complexo,
c.Kprmo, mas, acima de tudo, tem de sentir o valor e a autonomia expressiva da mas é fiel a uma univocidade que é proclamada no título é não conduz o leitor
iingua original. Assim, estamos perante duas experiências opostas, mas igual- para aventurosos devaneios.
tnnilc vivas, que exigem que nos apercebamos de uma única realidade, vista do Assim, a ambição desta obra é evidente: tornar o Egipto antigo o mais com­
pxld lor naquilo que pode significar e, do interior, naquilo que é.
preensível possível em relação ao mundo cultural em que vivemos, mantendo,
No entanto, sob (ou sobre, de acordo com a atitude que se adoptar) este pro­
porém, evidentes as diferentes perspectivas que lhes permitem ser, simultanea­
blema de compreensão e de interpretação, mantém-se, firme e basilar, a docu-
mente, análogos e diferentes.
nietiinçftó. Fragmentária, casual, privada de um quadro de referência, díspar: será
Devo, porém, acrescentar que propus a mim próprio, como organizador, uma
mmliu que a encontrará, e, repetimos, sem a ajuda de uma base tranquilizadora,
outra experiência didáctica muito subtil. Foram convidados a colaborar estudio­
quem ler os ensaios incluídos neste volume. Aperceber-se-á da desigualdade da
sos de várias procedências e idades. As diferenças de formação cultural dos auto­
nuh espessura, mas também compreenderá com que objectivos e em que medida
se pode confiar nela. res dos ensaios, a maneira diferente como utilizam o mesmo material e até as suas
fí evidente que seria arbitrário (e dizemos mesmo que é arbitrário porque, idiossincrasias talvez comprometam um quadro que se julga dever ser unitário.
embora prevaricando, é algo que acontece com frequência) deduzir uma história Todavia, porquê ocultar que a nossa disciplina não reduz a pesquisa a uma única
de acontecimentos da pontualidade dos factos seguramente identificáveis. As dores perspectiva, que cada estudioso imprime nela concepções, motivos de investiga­
ilr dentes de Amenófis III, confirmadas pelo exame necroscópico da sua múmia; ção, paixões que inevitavelmente dão cor à sua obra e que isso é até um pouco
a alegria de Pepi II quando, em criança, lhe anunciaram a chegada iminente de mais frequente do que noutros domínios, onde uma longa maturação da vulgata
um anão bailarino oriundo da África central, confirmada pelo texto da carta escrita encerra em perspectivas mais rígidas pelo menos certas características gerais?
por ele próprio; as muitas outras pequenas curiosidades ou as notáveis informações No final desta série de ensaios, espera-se que o leitor fique com uma noção
ipie, pontualmente, chegam até nós não conseguem elaborar uma história coerente mais precisa do que foi a sociedade egípcia na sua evolução como conjunto de
dc factos, de tão fragmentárias que são. E o mesmo se pode dizer dos relatos de homens que têm por ideal agir em conjunto, e, ao mesmo tempo, a noção de que
vllórias c de feitos incluídos nas autobiografias enaltecedoras que, porém, como refe­ se pode analisar essa remota realidade para nela procurar coisas diferentes e que,
rimos, superam o dado narrativo com uma intenção que não é documental. se isso acontecer, será sobretudo uma demonstração da sua riqueza vital: contra­
Contudo, estas aparentes limitações não significam que não é possível traçar dições e incertezas são mais fecundas e verdadeiras do que concordâncias perenes
v compreender outra história, a história das estruturas, muitas vezes orgânica, e e seguras. Com a condição de se querer superá-las: é o que confere um sentido à
que cada vez mais se apresenta aos estudiosos como aquilo que é, ao mesmo tempo, nossa profissão.
possível e racional. Sérgio Donadoni
Por isso, o mundo egípcio, feito de expressões e de testemunhos pessoais, é trans­
ferido para um conjunto tipicamente coral, para nossa segurança e para i Ricorsi, Setembro de 1990

10 11
CAPÍTULO I

O CAMPONÊS
por Ricardo A. Caminos
«Peasants are all those who live
on the land by their own labour»
Walter A. Raleigh

Desde tempos imemoriais até aos nossos dias, o Egipto sempre foi, acima de
tudo, um país agrícola. A agricultura foi sempre a base da sua economia e, no
decorrer da sua longa história, o seu bem-estar e a sua prosperidade sempre
dependeram dos produtos da terra. Foi o cultivo da terra ou, em última análise,
o constante, perseverante, duro, obscuro e, muitas vezes, desprezado e sempre mal
remunerado trabalho do agricultor que tornou possíveis todas as obras que deram
ao Egipto uma posição de primeiro plano entre as nações da Antiguidade pré-
-clássica. As pirâmides de Gizé, as syringae tebanas, as estátuas colossais, os obe­
liscos e os templos imponentes que surpreenderam os visitantes gregos e romanos,
tal como surpreendem ainda hoje os turistas modernos, as jóias finamente traba­
lhadas, os linhos finíssimos, as alfaias e os utensílios de todo o género, hoje dis­
persos em colecções por todo o mundo, o conforto doméstico da camada supe­
rior da população, as conquistas militares, a expansão comercial, a influência e
o prestígio no exterior, em suma, toda a herança deixada pelo Egipto à humani­
dade tem na sua base o suor do rosto do camponês.
Durante os três milénios da história do Egipto, o camponês foi a espinha
dorsal da nação. Todavia, conhecemo-lo e conhecemos a sua classe social de
uma forma confusa, imperfeita e unilateral. Nada sabemos directamente, isto é,
através de documentos redigidos na primeira pessoa que tenham chegado até
nós. É um facto desagradável, mas que não surpreende; na realidade, sendo
maioritariamente analfabetos, os camponeses egípcios não nos deixaram teste­
munhos escritos da sua vida e das suas pessoas, das suas aspirações, das suas
esperanças e da sua opinião acerca da sua humilde condição e do seu infortu­
nado destino. O camponês situava-se no degrau inferior da escala social, era
uma molécula da enorme massa de gente vulgar, indistinta, que constituía a
maioria da população egípcia. Lutava durante toda a vida com a miséria, as pri­
vações e o cansaço físico e desaparecia sem deixar no mundo vestígios de si pró­
prio: o seu cadáver era abandonado no deserto ou, na melhor das hipóteses, era
lançado para uma estreita vala cavada na areia, sem qualquer pedra tumular
com o seu nome.

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O que sabemos sobre o camponês egípcio provém de fontes epigráficas, lit^' os relatos de viajantes europeus no Egipto dos séculos xvn, xviii e xix e, por
rins e não literárias, e de fontes arqueológicas. último, mas não menos importantes, as obras sobre os usos e costumes dos
A documentação epigráfica consiste em testemunhos iconográficos e escritos — modernos egípcios escritas por observadores-perspicazes-XOinQ-QS-erudifQS-que^-
pinturas,-relevos^textos—xonservaúosrna^suxrgrairdê maioriaTnos túmulos dos pro- em 1798, acompanharam a expedição de Napoleão ao Egipto e, em anos recentes,
prietários e dos ricos da época, desde a era das pirâmides até ao período grecoromano. por antropólogos e etnólogos como Winifred Susan Blackman e Nessim Henry
Excertos que falam das condições de vida do camponês encontram-se aqui e Henein contribuem para melhorar consideravelmente os nossos conhecimentos e
iili cm várias composições literárias, sobretudo do Médio e do Novo Império, e a nossa compreensão da situação dos camponeses no período faraónico.
limibém nos autores clássicos, sobretudo nos gregos — Heródoto, Diodoro Sículo Desde o nascimento até à morte, o camponês estava irremediavelmente ligado
r Ksf rabão — que, nas suas obras, relataram vários pormenores das actividades à terra que cultivava, fosse quem fosse o proprietário. O sistema ou o regime de
rurais que se desenrolavam ao longo do Nilo; embora reflictam a situação existente propriedade fundiária foi mudando ao longo das várias épocas, de acordo com
nn época tardia, quando a civilização faraónica, então com quase três mil anos, as vicissitudes políticas do país, mas é bastante duvidoso que essas mudanças
mi apenas uma pálida sombra do esplendor passado e se aproximava do seu fim, tenham alterado significativamente a qualidade de vida ou o tipo e os processos
icvcNlcm-sc de um considerável interesse. Há ainda testemunhos não literários escri­ do seu trabalho. Quer cultivasse as terras pertencentes à Coroa, os campos per­
tos cm papiro que também nos dizem muito acerca do modo de viver e da activi- tencentes ao templo, ou a herdade de um grande proprietário, a situação era
.hulc do camponês egípcio. Nesta categoria de materiais são de especial importância quase sempre a mesma; só os camponeses que trabalhavam para certos templos
oh papiros demóticos e gregos, que chegaram até nós em grande quantidade; é que podiam esperar ser isentos das corveias: falaremos deles mais adiante.
rrlcrcm-sc, naturalmente, à situação no período ptolomaico, mas a vida nos cam­ O que condicionava de uma forma vital o camponês e, afinal, toda a nação
pos por cies documentada pode ser projectada para o passado, mesmo remoto. De era a cheia anual do Nilo, que irrigava e, ao mesmo tempo, fertilizava a terra.
«mude valor é, também, a documentação arqueológica, que consiste em alfaias agrí- A cheia surgia e cessava com indefectível regularidade durante os meses de Verão.
* o I iin . como cestas para sementes, sachos, enxadas, foices, crivos, todos os utensí­ Fruto de copiosas chuvas na África subtropical e do degelo nas terras altas etío­
lio* que o colono egípcio usava no seu trabalho, e em instrumentos a eles associa­ pes, a cheia ocorria, em Junho, em Assuão e, como não era detida por barragens
dos, como cordas, cestas, peneiras, que chegaram até aos nossos dias em grande ou diques, precipitava-se para norte, atingindo Mênfis cerca de três semanas
vmi ledade c de vários períodos, e ainda em miniaturas dejnadeira estucadas e pin- depois. Antes disso, penetrava imperceptivelmente nas terras aráveis, mediante
imliiN que reproduzem com um delicioso realismo diversos episódios da vida rural. um processo de infiltração que enchia depressões e pântanos e humedecia as
dbin dc sc reconhecer que as fontes de que dispomos estão distribuídas de um camadas inferiores do solo. Em meados de Julho, o nível das águas começava a
modo I ui si nnte desigual, quanto à época e quanto aos locais; apesar disso, parece- subir rapidamente e a água, transpondo as margens do rio, cobria a terra até uma
noN possível traçar um quadro relativamente coerente dos vários aspectos da vida altura de dois metros ou mais. Desde meados de Agosto até meados de Setembro,
mjíi leniu que, como esperamos, não andará muito longe da realidade. .0 leitor todo o vale se encontrava inundado e parecia um longo, estreito e sinuoso lago,
drve ler sempre presente que os Egípcios eram um povo bastante conservador e semeado de aldeias e cidades construídas nos terrenos mais elevados. Depois, a
qur, cm iodas as sociedades, as actividades agrícolas e os camponeses são, e sem- cheia diminuía gradualmente e, em finais de Outubro, já o nível das águas voltara
p»r foram, os mais conservadores e os que mais lentamente se modificam. ao seu nível normal, deixando o solo bem humedecido e, sobre ele, uma camada
< >iiitiiio \\ agricultura egípcia e à vida dos que a ela se dedicavam, o que é válido de lama cheia de detritos orgânicos e de sais minerais, alimentos naturais da terra
paia um determinado período é-o também, fundamentalmente, para os outros. que não eram decerto inferiores aos melhores fertilizantes modernos. Thmbém
Oh mais simples utensílios agrícolas, uma vez desenvolvidos, continuaram a ser deixava atrás de si poças de água espalhadas pelos campos: as «bacias» ou
uiili/iulos com alterações mínimas durante séculos: as actividades descritas no depressões, que eram complementadas por uma complexa rede de diques cons­
luiimlo de feto siris, datado de 350 a. C., diferem muito pouco, ou mesmo nada, truídos pelo homem, lagos e canais, formando um sistema de irrigação denomi­
das reproduções de trabalhos agrícolas nas mastabas do Antigo Império, edifica­ nado «irrigação por bacias», já confirmado no período pré-dinástico e utilizado
da vlnic c três ou vinte e quatro séculos antes. A dureza da vida, os aconteci­ ininterruptamente no Egipto ao longo de toda a sua história: de facto, nos anos
mentos, as preocupações e os problemas diários do camponês egípcio parecem 60, ainda era utilizado no Alto Egipto.
lei mudado muito pouco durante todo o período dinástico e mesmo depois, até Heródoto e Diodoro Sículo ficaram maravilhados com a cheia do Nilo e com
m>*i nossos dias, quando a introdução de novos métodos de irrigação, a electrifi- os seus efeitos benéficos para a agricultura do país. O «Pai da História» escreve
i in.no c, sobretudo, a construção, em 1972, do Saad el-Ali (o Grande Dique) de o seguinte:
AnnuíIü, começaram a modificar o sistema e o ritmo tradicional da actividade
agrícola do país. É devido a esse conservadorismo, quase diríamos a esse imobi­ «Em todo o mundo, ninguém obtém os frutos da terra com tão pouco trabalho.
lismo, do tipo de vida agrícola egípcia que os textos de historiadores árabes como Não se cansam a sulcar a terra com o arado ou a enxada, nem têm nenhum dos traba­
Mownffnq-Eddin Abd el-Latif (11627-1231) e Tagi ed-Din el-Maqüzí (1364-1442), lhos que todos os outros homens têm para garantir as colheitas. O rio sobe, irriga os

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campos e, depois de os ter irrigado, torna a baixar. Então, cada um semeia o seu não podia ser deixado ao acaso. Ápis, a divina encarnação da cheia, fora gene­
campo e nele introduz os porcos para que as sementes penetrem na terra; depois, só roso e trouxera prosperidade ao país e por isso se entoavam hinos em seu louvor,
tem de aguardar o período da colheita. Os porcos também lhes servem para debulhar .agradecendoJhe.- Contudora su a-generosidade-e o-seufavornãcreraiTr^irficfentês
para que as searas crescessem. O árduo trabalho do homem nos campos conti­
nuava a ser preciso. Dii facientes adiuvant. O camponês egípcio sabia-o melhor
Diodoro, por seu lado, declara que o Nilo supera todos os rios do mundo pelos do que qualquer sábio da sua terra, dado que, enquanto os outros davam ordens
benefícios que proporciona à humanidade, e acrescenta que as águas da cheia, que e emanavam directivas, era ele quem executava materialmente o trabalho.
sobem lentamente, arrastam consigo lama fresca e fértil e impregnam os campos, As semanas que se seguiam ao fim da cheia eram um período de grande traba­
tornando a tarefa do camponês ao mesmo tempo leve e proveitosa. Mal as águas lho. Canais, diques e regos obstruídos pela lama, destruídos ou arrastados pelas
voltam ao seu nível normal, os camponeses começam a trabalhar o solo, que ficou águas tinham de ser reparados ou reconstruídos, porque eram essenciais para o bom
mole e húmido com a cheia; a sementeira e a colheita eram bastante fáceis: funcionamento do sistema de irrigação por bacias. Para pôr de novo a funcionar
esse sistema, o camponês tinha de trabalhar árdua e rapidamente; com efeito, a ope­
«A maior parte deles lança apenas as sementes, leva os rebanhos para os campos
ração tinha de estar concluída o mais depressa possível, antes de a terra secar: a cava
e eles enterram as sementes: quatro ou cinco meses depois, o camponês regressa e faz
a colheita. Alguns camponeses servem-se de arados leves, que removem apenas a e a lavra que, com a sementeira, constituíam a primeira parte do ciclo agrícola, eram
superfície do solo humedecido e depois colhem grandes quantidades de cereal sem bastante mais fáceis quando a superfície do solo ainda estava enlameada, mole e
grande despesa ou esforço. De uma forma geral, entre os outros povos, todo o tipo de húmida, o que não se verificaria durante muito tempo sob o quente sol egípcio.
trabalho agrícola comporta grandes despesas e canseiras; só entre os Egípcios é que a A típica enxada egípcia consistia num pedaço de madeira desbastada, que ser­
colheita se faz com poucos meios e pouco trabalho.» (Diodoro Sículo, 1, 36.) via de lâmina, introduzido transversalmente na extremidade de um cabo também
de madeira e atado com uma corda: era um utensílio grosseiro e simples em
Embora errada, esta visão cor-de-rosa da situação agrícola no Vale do Nilo forma de A, com uma perna mais curta do que a outra; havia também enxadas
tem uma explicação. Heródoto e Diodoro vinham de países onde era necessário feitas de uma só peça, construídas a partir de um ramo bifurcado. Derivado da
trabalhar muito para se conseguir uma magra colheita de um solo hostil e enxada, o arado era tão simples como a sua antecessora e é de supor que, origi­
rochoso. Portanto, ficaram impressionados com o que viram: uma terra fértil irri­ nalmente, não seria mais do que uma enxada que era arrastada pelo solo, pri­
gada por um grande rio, bom clima, searas abundantes, diversidade de produtos meiro por um homem, depois com a ajuda de uma corda e, finalmente, por bois.
agrícolas. Para eles, o Egipto era um Eldorado campestre. Todavia, na realidade, O arado normal do camponês egípcio, que se manteve praticamente inalterável
a situação era muito diferente e qualquer fellah antigo (e mesmo os modernos) durante todo o período dinástico, e mesmo depois, já era utilizado no Antigo
poderiam desenganá-los. Império e era constituído por uma relha, de madeira por vezes revestida de metal,
O fenómeno natural da subida e descida das águas do Nilo ocorria, com uma que penetrava na terra e cuja extremidade inferior estava ligada a uma comprida
regularidade previsível, todos os anos e sempre na mesma época. O que nem sem­ estaca de madeira, que tinha na outra extremidade um jugo igualmente de
pre era idêntico era o volume da cheia, facto de uma importância fundamental madeira, em forma de barra transversal, que era atado com uma corda aos chifres
porque implicava prosperidade ou catástrofe. Tanto a escassez da água, o cha­ dos bois. Às vezes, porém, o pesado trabalho de arrastar o arado era feito por
mado «baixo Nilo», como o seu excesso, o «alto Nilo», significavam anos difíceis homens e não por animais de tiro. Posteriormente, o arado passou a ter uma
para todo o país. Quando as águas do rio não subiam o suficiente para irrigar a rabiça ou, mais frequentemente, duas, fixadas à extremidade inferior da estaca.
(erra de cultivo, lavrava-se uma superfície demasiado pequena para a colheita da Simples ou dupla, a rabiça parece ter sido utilizada mais para fazer com que o
estação seguinte, o que provocava inevitavelmente carestias e dificuldades: era a arado penetrasse na terra do que para controlar a sua direcção.
situação que os Egípcios designavam por «anos de fome». Pelo contrário, quando Por vezes, o camponês lavrava sozinho, mas era quase sempre auxiliado por
a cheia era excessiva, acabava por ser ainda mais desastrosa, já que destruía a um companheiro, que guiava os bois e os incitava com um bastão, ou um chicote,
rede de diques e canais de irrigação, causando frequentemente perdas de vidas e com gritos. Havia outros trabalhadores que preparavam a terra para a planta­
humanas, de searas e de gado; além disso, como observa Plínio o Velho (5, 10, ção, desfazendo com as enxadas os pesados torrões de terra negra. Havia também
58), o excesso de água exigia um período mais longo para o seu nível voltar à nor­ um semeador, que ia extraindo punhados de sementes de uma bolsa ou de uma
malidade, deixando pouco tempo para a sementeira, a germinação e a colheita cesta que transportava aos ombros e as ia lançando no solo húmido. Se seguia à
antes da nova cheia. Os camponeses conheciam bem esta situação porque eram os frente do arado, os bois iam enterrando as sementes na terra e a relha enterrava-as
primeiros a sofrer com a irregularidade do Nilo. Mesmo quando o nível da cheia depois ainda mais profundamente. Quando seguia ao lado do arado, ou atrás
era óptimo (o que se designava por «grande Nilo») e atingia a altura que, por dele, a semente era enterrada por um rebanho de ovelhas que era conduzido atra­
experiência, se sabia ser geradora de maior produtividade, o trabalho dos campos vés dos campos recém-semeados e obrigado a movimentar-se por um camponês

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que brandia um punhado de erva ou uma mancheia de cereal à frente do focinho O trabalho nos campos era ininterrupto e as Várias operações iam-se suce­
dos animais enquanto um outro instigava com um chicote a manada que balia. dendo, com dificuldade e intensidade variáveis, sem paragens nem fim.
Raramente se utilizavam bois QiLburrog_,para„este JinU-nQ Delta^HeródQtO-^hL Depois da sementeira, começava o processo de maturação. Em primeiro, lugan
porcos que pisavam as sementes. as terras mais afastadas do Nilo necessitavam de ser posteriormente irrigadas por­
As cenas reproduzidas nos túmulos e que com tanta vivacidade retratam os que ficavam secas e para isso era utilizada a água recolhida nas bacias, naturais
trabalhos agrícolas, mostram também o proprietário do túmulo, que podia ser ou cavadas à mão pelo homem, e encaminhada para os campos que dela necessi­
um funcionário do faraó inspeccionando os trabalhos nas terras pertencentes à tavam através de pequenos canais que saíam dos canais maiores alimentados pela
( broa, o intendente de uma propriedade pertencente a um templo ou um proprie­ água das bacias; o curso, a distância a percorrer e a corrente eram regulados por
tário privado. Fosse quem fosse, era sempre reproduzido em tamanho muito barreiras e diques.
maior do que os homens e os animais que trabalhavam sob o seu controlo. Ou se Este sistema exigia uma atenção constante e um trabalho árduo. Com efeito,
mantinha direito, numa atitude de majestosa dignidade, ou estava sentado num mesmo quando a água corria livremente pelos canais, não podia transpor as subi­
pavilhão, ao abrigo do sol, tendo a seu lado uma mesa bem fornecida e um servo das, e a irrigação dos campos situados a um nível superior tinha de ser feita pelo
que lhe estendia alimentos e bebidas. As inscrições referem que ele chegou ao camponês por meio de pesados cântaros de barro transportados aos ombros. Foi
local para inspeccionar e controlar ou apenas para ver como prosseguia o traba­ o que se fez durante séculos, já que só durante o Novo Império é que foi inven­
lho nos campos. É o grand seigneur. Podemos estar certos de que, em toda a sua tado um engenho mecânico muito simples para tirar a água, o shaduf atestado
vida, nunca pegou num arado. pela primeira vez no século XV a. C. e desde então utilizado no Egipto.
As cenas também incluem frequentemente breves textos que reproduzem, ou O shaduf é constituído por dois pilares de cerca de dois metros, unidos em
fingem reproduzir, observações feitas a propósito do trabalho dos camponeses, cima por uma curta haste de madeira. Sobre esta existe uma vara fina que tem
ordens c ditos trocados entre eles, comentários relativos às condições do terreno numa das extremidades um recipiente para a água e, na outra, um pesado torrão
<• ao tempo, gritos e incitamentos dirigidos aos animais. que serve de contrapeso. Um homem colocado na margem mergulha o recipiente
«Em frente, em frente!», grita aos bo.is jungidos o homem que os guia, e no rio ou no canal e depois, com a ajuda do contrapeso, iça-o até ao rego que
«llira trás!», quando chegam ao extremo do campo; e, para o semeador: conduz aos campos o precioso líquido. O shaduf desempenhava bem a sua mis­
«Enterra as .sementes, enterra as sementes com as mãos!» Um camponês anima são, mas acabava por ser um engenho cansativo e malsão que tinha de ser des­
n .seu cansado companheiro, que trabalha a seu lado: «Acorda, chefe, para a cido, içado e esvaziado constantemente, durante todo o dia, dia após dia,
licnle com os bois. Cuidado! O patrão está cá e está a ver-nos.» Quatro homens enquanto o camponês encarregado de o manobrar estava imerso no lodo até aos
m rastam um arado diante do patrão, que lhes recomendou, sem razão, para se tornozelos e coberto de lama da cabeça aos pés.
apressarem, e murmuram entre eles: «Olha para nós, estamos a trabalhar. Não te A nora ou roda de água, saggiah em árabe, só aparece no Egipto durante o
preocupes com os campos^ estão óptimos!» O jovem camponês que caminha período ptolomaico; chegou tarde, mas a sua vida seria longa. Gira lentamente,
junto deles, lançando as sementes, completa o que eles dizem, afirmando: rangendo, puxada por um boi ou uma vaca, por vezes um camelo, que é guiado
«O ano é bom, não trará miséria, há todas as espécies de plantas em abundância e obrigado a andar à volta por um homem ou uma criança: a saggiah ainda hoje
c os vitelos estão melhores do que tudo o resto.» Um velho camponês exprime a é um elemento característico da paisagem rural egípcia.
sua aprovação: «O que dizes é bem verdade, meu filho.» Quando as searas começavam a germinar, o camponês tinha outras preocupa­
Má um camponês que se gaba, enquanto, curvado para o solo como os seus ções. O livro bíblico do Êxodo fala de inesperadas tempestades que, no Egipto,
descendentes modernos, vai cavando a terra: (^Trabalharei ainda mais do que podiam destruir o cereal que estava a despontar, seguidas de vagas de gafanhotos
aquilo que o patrão quer.» O seu vizinho não é tão zeloso e ele diz-lhe: «Amigo, que «devoravam tudo o que o granizo tinha deixado» (cfr. Êxodo, 9, 22; 10,12).
dcspacha-te com o trabalho para poderes ir cedo para casa.» Contra a fúria dos elementos e a voracidade dos insectos, o camponês era total­
Thl como os modernos fellahin, também os antigos camponeses egípcios mente impotente, embora, é certo, nunca fosse muito visitado por tais calamida­
cantavam durante o trabalho. Um grupo que anda a semear canta uma velha des e nunca, pensamos nós, pelas devastadoras tempestades do género das que o
canção: velho Jeová costumava desencadear sobre a terra dos faraós. Seja como for, uma
preocupação constante eram os pássaros que não cessavam de esvoaçar sobre os
^Trabalhamos para o patrão!
campos e as hortas à cata de sementes, grãos e fruta, em suma, de qualquer vege­
O dia está bonito e nós estamos à fresca, tal que pudessem debicar e comer. É certo que os camponeses podiam desemba­
os bois vão puxando, puxando, raçar-se deles de uma forma mais ou menos radical: homens e crianças colocados
o céu está como o desejamos, nos campos e nas hortas podiam afugentar os pássaros com gritos, fisgas ou agi-
trabalhamos para o patrão!» tanto paus e trapos e podiam capturá-los com armadilhas e redes quando eles

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