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GEORGES B ERNAN OS

GRANDE PRÊMIO
'' _- DA ACADEMIA ARANCXSA

3.. edtçao

TRADUçÃO DE
Ed.gard G, d,a Mata Mqchado

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1951

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RIO DE JÀNEIRO
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Coqjright da
OR^I1CÂ,S INDܧTRIA§ II,EUNIDÀS 6. À. (ÂGIR)
^Il1r1'S MINIIA PÀRóQUIA é uma paróquia como as outtas,
Tôdâs as paróquias se parecem. As paróquias de hoje, na-
tumlhente, Ontem, eu dizia âo vigário de Noreniontes: .o
bem e o mâl devem equiliblar-se numâ pêróquia. só que o
ceníro de gmvidade ó colocâdo em bâixo, muito em bâixo.
Ou, se se prcfere, üm e outro se sobrepõem, sem misturar-
Titulo do original Irâncês: -se, corno dois liquidos de densidade diÍerente. O padrê du
em minha cam. É um bom cum, muito benevolente, muito
"JÔIIRNAI, D'TIN CUII'É DE CÀMPÁGNE" pâtemal e que passâ mesmo, no Àrcebispado, por um espí-
lito Íorte, um tanto perigoso. Suas troqas fazem a alegria
dos prêsbitérios e êie as apoia com um olh que desejaria
vivo, mas que eu acho, no fundo, táo gasto, tão cânsado, que
mê dá vontade de chorar.
Minha paróquia é devorada pelo tédia, eis a pâlavr4.
Cor4o lantas oulras paróqLlias I O Gdio as devom sob nossas
,,1 vistâs e nada podeúos fazer. úm dia, talvez, o coniágio to-
mârá contâ de nós, descobriremos em nós êsse câncer. Po-
de-se viver muito tempo com isso.
I A idéia me veio, onteÍn, na estrada. Câía umâ de§§âs
í chuvas finâs qu€ nos peneimm os pulmões inteLos e de§ceú
até o aenhe. Do lado de Sâi t-Waast, a aldeia surgiu-me
bruscamente, táo coníusâ, tão miserável sob o horrível céu
de novembro ! vapôres d'água subiam, como fumo, dê tôdas
ii as paltes e ela parecia ter-se deitado, â.1i, na relva úmida,
corno um pobre animal cansâdo. Que coisa pequenÊ, uma
aldeia ! E essâ aldeia era minha paróquia. Era min]1a paró-
quia e eu nada podia fazer por ela; via-a idstemente mer-
t\ gulhar lra noite, desâpaxecer... Mais alguns momentos, e
Litrorid AGÍP".. .. já não enxergava minl1a pâxóquia. Nunca havia sentido táo
cruelmente sua solidão e'a mlnha. Peu§âva no Sado que ,i
Rio dc Janeiro Iiua N{éxico, 08-B Caixa Postàl 3201
{ ouvia mugir em meio à cerraçáo e que o vaqueidnho, de
1
I
yolta da escola, malet8. debaixo do braço, ia conduzindo, âtrâ-
nuâ Eráulio Gomes, 125, loiâ 2
rirL' r,rnlo
- - - - caixâ Postal 6040 vés do pasto úmido, paÍs o estâbulo quente, chetuoso.,. Il
Ihlo lli)lizontc Avcnida ÁfoDso í ela, a pequena aldeh.. parecia agurúdar lamb{:m sem
Penâ, 919
- Caix4 Portât ?33 grande espemnça - 1ama,
depois de tantds noites passadas na
rNoxsÊço rELEaniFrco "ÁcrRsÀ' -
GEORGES AEENANdS DIÁnÍo DE úM P,(!oco DE Á!,DErÀ

urlr (loro qrtr a conLiuzissc parâ algum implovávcl, algum ini- discurso episcopal hÀveda de terminar, invaliàvelmente, com
ntllgillrivcl :lsilo. pludente alusáo ó ver'dadc, mas pluclente
()lr ! bI.tn sci qüe tudo isso são idóiês loucas. quc não perseguição plóxiina - convicta,
e ao sangue dos máItir'es. Tais predições - à
lx)sso lonrÍr iits inlcilamcnte â sério, sonhos apenâs I... As tolnâm-se cada Íez mais Laras, hoje erl1 dia. Provàvelmente,
nl(l( irs x:i() sc k.vaotam, à voz de unt àluno de gIulo cscolâr, porque sua realizaqão pârece menos incerta.
corJx) os bois. Não importa I Na târ'dc de ontem, âcho que Oh ! há uma p:rlavra que começa a correr os presbité-
ulrl sr1)10 â tinhà châmâdo. rios, uma dessos i alâvras honíveis â que chamamos de
Diziâ a mim mcsmo que o mundo ó devolado pelo téc1io. "poilus" que, não sei como, nem poi_ que, pareceram inte-
Nàtulrrlmente, é precisc refletir um pouco para dâr'se conta ressantes âos nossos ântecessores, mas que os râpâzes de
disso; n,,.o é íal.o que se apreenda àssim, de relence. É uma minha idade acham tão dcsagradáveis, tão tristes | (Sur-
r.l , r' il( pó. À gFnl^ \..i ê volll s' m o vcr. l'.cpirr.o, pre"ndê. 3liác, ..mo :. Biria das 1r'inchriras conscÊuirl ê\nri-
«)me o, bcbc-o; é lão lênue, tão flno, que nem ao menos mir tântas idéias sór'cliclas cm imâgens lúgubres; mas será
r-âIlce sob os dentcs. Mas se a gente pár:r um segundo, ei-io realmente a Siriâ das trinchejras ?) Repcte,se, pois, nâtural-
quc (iobr'c Dosso losto, nossâ máo. Temos de nos sacudi!_, mente, quc "é inirtit tentar compreendel'. Meu Deus ! Mas
s0r11 cassal, p:i]'a libe]ta1-nos dessa chuva dc cinza. DÂi por- se é disso justamcntc que se trata I Sei que há os supcl.iores.
quc o nundo tanlo se âgi1a. Quem informa, porém, aos superiores ? Nós. Então, quândo
DiI s$á talvcz quc, há muito, o muúdo se Íamiliarizou exclÍFm a obodiinl.ril F a j'r'plicidcdc do" mongê". pí .a tnim,
Í{rm o la{lio, que o tédio é a verdadeira conclição do homem. Iazem.no.m \ão: o i,'g-m!nto nro mc imlllrs.Íond,..
lir lx)sslvrl qur â scmente, cspalhadâ por tôda a partc, ger- Todos somos c:ipazes de clescascar. batstas ou cuidar de
nrirrLss(.. aqLli c ali, em telr'eno favol'ável. Pergunto. porém, porcos! desde que um mestre de noviço§ no-to Dande Íazer.
ii, os lroDl(,ns conhccelalr âlgum diâ ôsse contágio do tódio, Mas, umâ pâróquia ráo é tão fácil de regalar com atos de
r,:lir L,l)rl I Ur,r d.sospôl'o melog-r'ado, uma lorma torpe do virtudc como uma simplcs com-,-rnidâde ! Tanto mais que os
rl(.ii.rlx,ro (tuc c, ri(tn (lir!id., como que a íermeníação de paloqlrienos o hão de ignor-a} sempre; aliás nunca o have,
llIr cri:ilillliriIro í1.|lirtrrr,i)do. liam dc compreender.
I vrl, rrIr.rrr,.rrIi, rri)o irli,ills qtlc ou gualdo para mim. Eü- O Árcipreste cle Bailloeil, depois que se âpresentou, fre-
lr,lrril,, r ,' rir, (.r)vr,ri,(,rlro (lclas. Acho até que podelia qiientâ cíjm assiduidcdc os RR. PP. Cartuxos de Verchocq.
,\t,rrrl Irr rrIrl0 l!,rr, lr.rrr rlr llrir 1alvc7, pâra rneu sossê- "O quc vi em Verchoq" é o título de uma de surs palcshrs
lt" rlr|.rI rlr,r I I, irir :x)rir r,j!) {l' llrinltr con5c;ência. o otj- iL qu:rt o deão quâsc nos obrjgou a âssistir. Ouvimos 1á coisâs
rrl'r!, ,1,, I rrtr.r or, r llr,rr, Lr ,1) rl)l( lxrn(in1,o. Os que ainda iDl,a],cssantíssimas, cDocionantes m€smo, polque êssc velho
,, I'r,'1,.,..rrr, lxrr lril)i10, r,rfll u(jr.cCital ltôle. irrrlalct coLSCIvou âs inoccn'Les manias do antigo l)tolirssol
rif r,'r ,'l' ,,.r'r. r1llll t,lr(.;llrr rr' rllr rí)ü i]ir)s sillnilicâtivos; (k. Iil.râtur'a, e cuida da diÍr(.io, como das unhrs. I)ir se iâ
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'ri,.,., lfll, r, ,1, , ||Lt';r lrir r, r,.rr olrrrrlirs. ()r(lxs t)udr'cs vclhos rlr,, i. ri^rlfL .. l, rr., ,rJ rnr.:m., 1r rnlo, il lrfc ,.nr'.. llr,lrôv.i.
tr, l ,, L. I llti]lI rlririrri.. rl)rl'ôncjírs ví'l (k) Sr. Fr'àncê, Í:lrtlc sl.rs olrvilrl,r's d(, sotaina, e
,. , r l! r.r r I I I r | , i i I lr l]| ,r r.,,rlo !,r' ^tx,!Ir
, | ,
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I l,l|I iÍ). aliás imutá- {luc lhc lx.dia dcsculpc, cm nornc dc Í)cl|i o (lo lrumânismo,
^úâtole
\, L' Ii rr, ,.r ,l,nlllr,r(.rir i'lr(,irLl lliro rriro os nlcsmos;
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(()Dl olhâlcs suiis, sorrjsos cLirnl)1j«'s c Io(lrrios arn'iculâIes.
r,'. o, IIrIIr.|,iI|IIiIIlt'ji lll(' ()i I I 1 I I I ( \ I I tlritiS. Outlor'â, pof
( ) I ' I
,
I I:nlrnr, pirrccia quc.ssâ csp,icjc Llc roquolisnlo eclesiástico
i\, llrlrl(,, r.,(ullr lrir(L,ilo li ltlt rr)rllo ifiscntado que üm r.ril,irvir DL1 nro(la cm 1900; Uatiu»os, l)or isso, do der bom aco-
{
GEORCES EIRNÀNOS DI.4xIo DE ÚM PÁnoco DE ÁLDEIA

lhimcnto àqn.las palavras. (Sou provàvelmente de naturczâ si mesmo ? um padre jamais poderia ter de seus próprios
muito }u(lc, nuilo grosseila, mas confesso que o pâdre ie- interêsses a-clarâ visão tão dirctâ gostaria de dizer tào
lilrlo s|rnpr'o rlrc inspir'â horror, Flcqiicntar os "bclos es- ingêr'ruâ, tão simples - século. Câlculâr
dos filhos do
piril{rs" ó Como que jantar na cidade c não se vai jantâl - ? Não se jogâ contrâ Dcus. nossas
possibilidades, pÂra quô
Do cklr(k, tl'ndo sob as vistâs gente que- rnorre de Jome.)
I4nr r'csumo, o Sr. ÁJcipteste contou-Dos muitas ânedo-
tâs quc chama, segundo a modâ, dc "Ílechadas". Creio ter
coml)r'ocndido. Infelizmente não me sentia tão comovido
quanlo crâ de de§ejar. Os frades são incomparáveis mestrcs
da vida interior, ninguém duvida; nras pelâ maior parte, Recebi a resposta da minha tia Filomena, com duas
essas "flcchadas", como o bom vinho da terra, devem ser sâ-
notas dê cem tL'dncus. juslam,nl" o n,ce\rá_:o nJ g o l.:1i.
boleadas no lugaÍ de origem. Àltetanr se durante â viagcm.
urgcntê. O dinheiro desliza entre meus dedos, como ârcia;
é espantoso I
Tâlvez ainda... devo dizer ? talvez que êsse pequeno É preciso confessar qr:Le sou de umâ idiôtice ! Assim, por
número de homcns reunidos, vivendo 1âdo â lado, dia ê exemplo, o forneccdor de Heuchin, o Sr, Pân1vre, quc é um
noite, cricm, scm que o saibam, certa atmosfcra favorá- homem honrado (dois de seus filhos são Dedres), Lecebcrr_rre
vel... Também eu conheÇo alguns coâventos. Vi religiosos logo com muita amizade. Todos os meus colegas sáo, aliás,
rcccb€rem humiidemente, rosto em te[a, e sem murmurar. seüs fi'egueses. Insistià scmpre comigo, nos fuDdos cle sua
â repreensão injusta de um supêr'ior empenhâdo em lhes que- vendâ, pâra âceitar vinho quinâdo c sequilhos. Câvâqueá-
bral o orgulho. Mas, ncssas casas a que nenhüm eco de fora varnos unl bom tempo. Ê1c passa por uina situaqio difícil:
pertruba, o silêncio âtinge umâ quâiidade, uma perfeicáo uma de suas filhas está desen, .Dre[lada, e os dois rapazes,
vcldadeirâmente extrâordinárias; o rnenor borborinho é cap- que estudâm na Jaculdâde católica, comcrnlhc nruito cli-
tâdo, ali, por oüvidos de sensibitidade esquisita,.. E há si- nheir.o. Dm lesumo, cêrto dla, depois dc leceber minhas et1-
lêncios de umâ saia de capitulos que valem por'um estrépito comenclas, disse-me g{rntilmcntc:
dc aplausos. * Vou âcrescantâr tr'ôs garrâfas de quinado; ser-vea
(Enquanto que um sermão episcopal. . .) pare the dâ? mâis cór !
Reli sem prazer essas pdmeiras páginas do meu diário. Eu acreditei, tôlamente, que o Sr. Pâmyic me pro-
Certamcnte, r'efleti muito, antes de mc decidir a escrevê-lo. senteava,
Isso, por'ém. não me sossega o espír'ito. Pâra qualquer pessoÍr Um pobre coitado que, aos doze àncal, pass:r do Lln]x casa
hâbituada à prece, ã reflexão é, as mais das vêzes, um áIibi, miscrável para o seminário, nuncâ poder'á sabcr o Í:rlor do
uúa sorrateirâ Íorma de nos confirmar cm um designio, O djnhcilo. mesmo quc nos é diiicil scr t','.it|ilirlD.'l'rc
Iaciocínio deixe Iàcilmente na sombla o que desejamos con- ^credito
honesl,os el1r negócios. É nê1hor rão Í[exer', rindr] cllrc lno-
scrvâr oculto. O homem do mundo que refiete, calcula per- {,('nt(mcntc, corn o quc â meior pallc dos lciÍlolj collsidcr-a
Iritanlcnte suas possibilidâdes ! Mas, que poderiam vâlcr nào lrnl meio, mâs un] Íim.
n{)sjrâs lx)ssibilidades, a nós, que aceitâmos, umâ vez para sefi- Mcu colegâ de Verchin, que nÍio ar s(Dl)rrr (1,,s nl:lis dis-
l)r(,, ilhrrivel pre§ençâ; a presença dc Deus ern cada ins- cr(,lírs, âchou quc devin fâ2, r. / r'r íi)i r (l!' l, ,jr, r'.riL.fâ, alusáo
lil.lrl.(,rl( nt)ssâ ])obre vicla ? Sob pena dc pcr'{ler a 1ó e quo :ll) rllll cnLcndido, com o l)r'óI)rjo sr. P:Lü1yro. Ês1e {icou
llro r'orl.rüá, cnlão, visto quc não pode pcrd0-la scm -ncgar q iriDcri'umcntc contrar'1âclo.
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10 GEOÊCES BERNÂIiÍOS Dr.ÁÀro DE uM PÁloco DE ArDErÀ 11

o Sr. Vigário venha quântas vêzes quiser, disse, Seria necessário ÍaLar de si coú um inflexivel tigor.
- Quc
têrcmos prozer cü1 tomâr uns golezinhos juntos. O vinho E ao Drimeiro esÍór(o para se agarrrr a si mêsmo donde !ém
não cstá âssim tão pela hora da morte, grâçâs a Deus ! Mâs essa lliedade, essa lernura, êssc relaxamento de tldas as
ncgôclo ó Degócio, não posso dar minhâ mercadoria de mão fibras da âlma, essa voniade de chorar ?
beilodo.
E a sra. Pamyre parece que acrescentou: fui. ontem, ver'o vigário de Torcy. É um bom pâdre,
hujto pontual, quo eu aaho ordinàrjamcnle um lânto !u[-
* Nós, comerciantes, temos também nos§o§ deveres de EaÍ, ur; filho de camponeses ricos que sabc o valor do di-
estado. iiheiro e que tem p.rande ascÊnclência sóbre mim por causa
de sua exipriência"do mundo Os colegas dizem quê éle será
deâo de lieuchin. .. suas maneilas comigo me decepcionâm
baslânte. Doroue êle nào gosta de confidê$cias e sabe ridi-
cularizá-ta; com um lârgo riso bonacheirào muito mais fino,
Decidi esta manhã continu a expedência, mas só ate aliás, do que me parece. Meu Deus, como eu gostâria de te1
completar doze meses. No dia 25 de novembro prórimo, porei sua saúde_, sua cõragem, seu equilÍbrio ! Mâs cÍeio que -êle
no Íogo êsses papéis e tlatarei de esquecê-los. Essâ Íesolu- tem certa indulgêncú para o qúe chama minha sensibilice,
ção, tomada depois da missa, sossegou-me o espírito, ma§ Dois sabe oue issó n.io é para mim umâ ionto dê raidadel th !
só por um momento. 'hào I ltá ir".mo bastâite lempo já, que não procuro con-
Não é um escrúpulo, no sentido exato da palawa. Não
creio Íazer mal âtgum, anotando, dia a diâ, com âbsoluta
funalir com a verdadefua piedade dos santos
êsse temor infantil que em mun produz - oiorte e doce
sofrimento
Jranqueza, os humílimos, os insignificantes segredos de umâ -alheio.
vida, aliás, sem ryústédo. O qüe vou fixar no papel não en- Naala excelente sua fisionomia, ]neu pequeno !
sinará grande coisâ ao único amigo com o qual falo aindâ -É preciso dizer que ainda me sentiâ tmnstornado pelâ
de corâçáo abeúo; e, no Jinâl das contas, sinto claramente alescompostura que úe passou, poucas horas antes, na sa_
que nunca terei coragem de escrever o que eu confio a Deus,
quase tôda manhã, sem constrangimeníos. Não, isso nâo se
c stia,_o velho bumonchel. Deus sabe que eu náo queriâ
perder' tempo, nem me abouecer com os tapêtes de algodão,
par.ece com o escrúpulo; é antes uma espécie de mêdo irra-
cional, como que uma âdvertênciâ do instinto. Quando me
ãs vestes úídas de traças, e as velâs de sebo pagas muito
caro ao lornecedor de S. Excia., mes quê sP deslazem lo8o
scntei pela prilneirâ vez dlante dêste caderno escolar, pro- dêDois de âce.âs, com um bârulhinho de tligideirâ no Íogo'
culel tirar minha atenção, r'ecolher-me, como para um exâ- Dá las-ia, gratuitamenl,e, e com muito góslo. Só que os pre-
me de consciência. Mas não foi minha consciência que vi
com êsse olhar intedor ordinàdahentê tão calmo, tão pe- ços são os pr€ços; que hei de fazer ?
Dotrontc, que não se detém no pormenor, que vai direitô âo O senhor alevia botar êsse homem para fora de sua
c^lscncial Parecia escorlegar na superÍície de uma outra casa.-
(r,rrs(iiôncia âté então desconhecida de mim, um e§pelho E como eu Protestâsse:
l,urvo (lo qual temiâ ver surgil, de repente, um semblânte * Sim senhor, parâ fora, pedeitamente ! Áliás, eu co'
qrto r('mblante ? o meu tâIvez ?... Um semblante e§que- nheco ésse tal Dumonchel: o ve)ho tem com que viver.. . Sua
-" deÍulnta mulher era dlras vezes majs ricâ que êIe o ba§-
cklo, Dovomcntc cnconhado. -
12 cEoncls BEENANoS
DrÁlro DE uM P/iRoco DE Ár,DEra 13

tanto pâr'â scl cr,terlaala dece[temcnte, Vocês, os padrcs


moços. . . bôlso. Tôdâ rnaDhã, bem cnten.lido, encontravâ uma nova
Ficou lodo vlr'melho e olhoü-n1c clc alto â baixo. camada de pó ncs l):rncos, um ou dois cogumelos novinhos
l:lr ln r.ll1'o o qu. os sênhot1- lôm n-s veias, hoje. no tâpête de cordo, e tlias dc aranha Eil, mcu pequeno !
- f:Ilrrs ,n.,-os I No m' il lômt,J lir..t.t1cm.se hOm(:rS teias de ar'anha lailiar'ue para fazer -un1 enxoval de noiva.
vorr's, -
da Igreiâ não .idianta f1-anzir a tcstâ. "Eu cllriâ a mirn rllesl1lo: lustlc minhâ lilha, você verâ,
esbofeteá ]o. - Sim, homens cla Igrejâ, tolüc asinto vontade de
palavta no sen- domúgo. E o doirlrtij-o cl1c3.u. Oh ! ul1.l domingo como os
tido cm que quiser, cheics cle paróqrlias, senhor.es e donos; outros, nâdà dc Íc,LNii eorlr r:cpiques de sino; a clientela ordi-
afinâ], homens câpâzes de goveular'. Essa gente domlnâva nár-ia, qual ! L/lisÚl;l: I lll rr-l, à meia-noitc, clâ elcerava e
uma reg_ião intaira. sem outlo gcs1.o que o de levântâr. im- esir.egàva aindâ, (lc vcl:i na mã0. E aigum{is scmanas mais
p,rrti\dm^n:e o ,'oçlo. Oh I iá sci o q't você vai Ciz:r: êlês lalde, no dia dc Todo:j oa §iântcs, ürna missão de ânâ§ar, pre-
com;1m b ,nr. bêb'am m. 'hna . n: o gadâ por dois padrcs -iedentoiistâs, dois tipos enormcs ! Â
'r^.I)rêzâvâm o b.rrclho,
De acôrdo I Quando se Íaz corlveni.r'lic_mente um trâballlo, ,Lerrz Dass.rvâ \u....r\i, t'-1:rrl'.rs Inlrr s.u bald'c
ôle ânrla depressâ e bel,, sobrânCo tcul]lo pârâ descanso, o r, u e..óvJo r rotl. rq r'1o'1.!r - d! lrl tnodo qLe o mu.go
qu e bom p|rra 1ódi c g.n ,. AEo"ir. o. sê.ninát.ioc nos n an- ,r,m, aavd a -subir n .j , oluna i..i 'ri. e i r.. s n3\c'am nrs
d.m co"oinhr.. uobr..coit.rlo5 qrt. ifldqinam lrrb".hoa jur1t,üas dos ladr-ilhos. l{ao heÍja jcito de fazer a boa irmá
mp"is que ninguém, polque não cheljâm:o fim de coisa àlgu- raciocinat. Se eu Íôsae o.ivi-l4, ninguém trânsporia a nTinha
rÍla. Êsses tipos choramingrm. cÁ yez ale mandar. Lê-cm por-ta, para que o próplio Dcus não sujasse os seus pés Ía
n1ultidões de lir'ros, mns n'.lnca chagam a compleenaler a lÊ-.ia; im3Si.r, I D'/i..li,c: '^ senhors r.lo srruirra.: coln a
ccmpleendcr, está oüvindo ? a plrábola do Espôso e- ala colnpla de rêmédio!" porquêrciâ 'úo!siâ. pobre vclha, AÍi-
Espôsa. Que é umâ espôsâ, tal- como dcsejaliâ encontrar um rlill, caiu de cal]la, corn - nina crise de rcrimâtismo ârticulal,
hon-c-n. sê Á bJ"'xrll^ id:.la p: ,â r.., ".;l.ir o ^ons.r,ro do o corâqão frâqueiou, c piuf ! eis uma boa irmã diânte de
Sio Prulo:' I,,l;o r' .noh r. ;ô.quc ir â ;:rFr toli..q. po :, Saú) i,odlo ! Dm cerio scntido, ó u,a mári,ir, não se podc sus_
nnliito bem, é uma criâtur:a {ol.te e íI.me no tr.abelho. mâs tonlâr' o cont!ário. Scu êr1o não loi combâter  imun_
qüe se submete ao ritr'l1o inexorável das coisâs, sâbcndo que (11(iir', ó calto, mas tcl qitelido acelJal co11l ela, como se fôsse
tudo delc ser reconteccdo, aLó o fim. Por. mais que se ês- tar .i!,1. Um, 1rcr,,1-', i lr.,'o..rr.crr!, suj.r. L 4, cris-
Ior.cc, a Sânta Igrcjà não consegurr'á trilnsiolmar ê!1rc t)c- i:,url..,lc i liuilx nr..i , \u a. rspcl'c o ftandc di, (lo JuiTo
brc munclo em um ostenijór;o de CaIIro c1e Deus I Tive om Í'irrl, vocô hir de ver o Liue os ânjos tel'to de rotirar'dos con-
ôulr'o. iem0cs . tclo do nr,-'.J enli.j ( frroq.'ic umc r'nl- vr,rrlor; rnLlis sâ11',os, às ira,s, quc lixc I Pois .ntaú), menino,
l)legada" surprcendenlê, rü1]e boa iünã dê Bl'uges, - sccull]ri- lir() Pü)vir quL'a! lgrcjâ deve- scr ilma boll dorlà dc cas3, §ó-
zâda cm 1908, um grandc coraçaic. l{os oito púmriroÍj (lins, lllli I riLz{riv{q. Àilirhl l)oa ilnrã niro cro uma vcld!1(l('irâ do[a
lustr'a que lüstrâ, a {tasa de l)aus se pôs â leluzir corno ullr (ll, r'iLlir: uDr! vfr'(lâdcilo (bnír (lc (irsx s[br íllr('§llr (rüia nío
IftrLr1ório í'le conlento; rrão a rccoqhecia mâis, pitlirvl rl(. i. lrr rrli(liiljo. Mir:;, isso Ir(k) rrirí) i(l(iiirs rl{ lxxliI l"
honra ! Itstá!'àll]os no tempo da colheila; qücr (liz(\. {llro
rliio âptfi{iia em nlinhâ casti nam um gato, c l1 lnrlíttll( I vl, l,lrrln,riLvoqor.ilc(lrlt:rri ( iri. I I
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i t i ) rnrhia de nolo
I Í r Ir r r r

lllilllrjI i,:., qu. li ',..., o. ..f .iós. rL n.njr ,t't' l,.rlr,, rx,ll r'IIlrirrlx), lltrloi, rr('ro (ll'irtr iI|',LrIrr('rrI(', c(»Iv.ncê-lo de
holror'a clliDrlos ! 'uPlnso qric ela chrgou a l)rLgú los rlo Írll rt ,. o r rr ,rl)lr) )lrL() l(r'll li lvr'2 lx rr rrí!)llri(lo: qr]o cssa leli-
lll,,rr (lrr(, xIrr,1r (I, lrrLl)rllri,r r]r(llL Iirt]r (lc corDum com os
14 CEORCES EERNÀNOS DrÁRto DE uM !ÁEoco DE Ar.DEr 15

coroinhas, os pobres diabos .,que choEmingarn em vez de plativos estâo muito bêrr prepâxados para nos Jornecer flores,
dar ordens". verdadeiras flores. Infelizmentê, há, às vêzes, sabotagem nos
dâushos como algures a miúdo nos enganam com ÍIores
de papel. -
disse-me êle sêcamcnte, A ilusão é a
mesma. - Desengane-se,
Só que os pobres diabos náo têm a perseverança de
minba boa lrrúà. eis tudo. À primeiÍa tcnta'liva. sob o pre- Olhava-me de esguelha, sem parecer que o estava fa-
tcxl,o ch quê a exll]eriéncia do_minisle.io nào confirrna iuas zendo e, nesses momentos, creio ter percebido no fundo de
scus olhos múta telnura
idêiazinhas, desistem de tualo. Só servem parâ comer doces !
f uma cristandade, como um homem, não se pode alimentar - e Tenho
de inquletação, de ansiedade.
como dizer ? umâ espécie
minhâs- provações, êIe
dê confeltos. Nosso Senhor náo escreve oue somos o mel tem âs suas. Mas a mim me custa calá-lâs. E, se não falo,
da terra. menino. mas o õal. Ora. nosso poüre mundo se pa- é. pobre de mim. menoc por heroismo. do que por êsse pudor
rece com o velho pai Jó, nâ sua esterqueira, cheio de chagâs que. segundo dizem, os médicos também conhecem, lá a seu
ede úIceras. Sa1, na châgâ vivâ, queima. Mas impede tâm- modo e nâ ordem de lreocupações que lhes é própria. i{o
bém de apodrecer. Com a idéiâ de exteminar o diábo, outla passo que êie calará suas mágoâs. aconteça o quê aaontecer:
mânia de vocês é a de serem âmados por câusâ de vocês mês- . sob sua exl,ravagante sinceridade será mâis impenelrávêl
mos, entenda-se. Um verdadeiro padre nunca é am-aalo; que êsses Cartuxos que uma \,ez cruaaram comigd, nos cor-
guarde isso. E quer que the diga ? À I$eja pouco se lhe dá redores de 2..,, brancos como cêras.
quc vocês sejam amados, meniDo. Sejam pÍimeirc respeita- Bruscamente colocou m|nha mão sob a sua, Íúo in-
dos, obedecidos. Á Igreia precisa de ordem. Tmte de ordene! chada pelo diabete, mas que aperta ràpidamenter sem vacilar,
aa coisas durante o dla. Ponhâ as coisas em ordem, pen- dum, imperiosa .
§ando que a desordem prevâlecerá no dia sêguinte, porque, Você di-rá tâlvez que nâdâ entendo de misticos. Sim,
ai de nós, é jusiâmente na ordem das coisas que a noib Aes- você-dirá isso; nâo se Íaça de bóbo. Muito bem, meu caro,
barata seu habâlho da véspera * â noite pertenee ao diabo. hâvia no meu tempo, no seminário maior, um professor de
À noile. disse (sabia que o ia pór turioso), náo per- direito canônico que se julgava poeta. ÉIe fabdaava os ver-
tcnce- aos Ír'âdes ? sos mais incríveis. com os pés que Íôssem necessários, rimas,
cesu!âs e tudo, pobre homem ! Seria capaz de pfu seu di-
- Sim,escandalizar-me,
tr'iErgi
respondeu,he friameÍrte. ÊIes tocam música.
reito canônico em versos. Só lhe Íaltava üma coià, chame-a
como quiseÍ, a inspiração, O gênio
no seu- Nadâ tenho contla seüs contemplativos, cada macaco
galho. Músicâ à parte, são também Ítoristas. De minha parte, não tenho gênio. Se - oingeniunl sei 7á,.
Espírito -Santo me
Floristas ? chamar algum dia pam o convento, deixarei por aqui rllinha
- PerleitamÊnte. vassoura ê meu esftegáo que pensa você ? * e irel dâr
- dcscascolnos as Quando atrumamos a casa, lavâ.Ílos uma volta pelo céu, a fiÍn-de aprend$ música com os se!â-
r louçâ, batatas e colocamos a toalha na Íins, sob a condiçáo de poder desentoa! um pouco, no co-
rn(,ir[. {,ndlcmos de llores frescas o jarro; é natural. Note
íIrÍ, D)lrlxr pcqucna compalação só pode escandalizar os im- mêço. Mas hão de permitir que, antes que Dcus levante a
lx1 l,lx,r'rlu,.ó r.luro quc CxisLe uma ccjlo ditcrcnçâ... O batuta, eu possa estourar de rir na câla dos que cantam
llrftr rtrlHlll,,r rrrro n o litio rlos círmpos. E, alóm tlisio, sc o no córo !
lÍ)Ín'Ir lr1,li,r(, llnt l1ló â um Ícixo dc pclvincos, ó quo trôo Refletiu uÍr momellto e seu rostor erhbota volíado pâra
l,ltlru (1(, llll bnll,(), uÍl Íilutão I Um losumo, Bcu6 óol.ltern- â ranela, pareceu-me, de repente, sotnbrlo. ,q.É os tmços de
DIÂXIÔ DE UM PAROCO DT Á'-DEIA 1?
(}EORêES BERNANOS
16
uma mesa e um genüflexório. Na par'êde, um quadio
cndurFcerom. co'llo ce óle csperas ê di
,1),11
su|r Íisronom'â s. rLrLrlo jnesÍótico, I ecido com os quc se vêem nas salas de
i;;r"';';;;"-,it;nrio lalv'z do \ux 'ons''iência - uml l,).rprtal, r'eplescntarldo um Menino Jesus muito bochechudo,
ãti..-o. ,,, ,1, 'ri ni:.to. nâo s^i o qrrc Àliás quase na rrrul'Lo rosado, cntlc o bullo e o boi.
Está vendo ôssc quadro ? dissc-mê. É um presente
-
rlL, ürinha madrinho, Tenho meios pala adquirir coisa üe-
L"ir," ii-;oiÀm'ú' i e'e ur.'. r'.lPdz de tolt.lo nJo llLor', mâis altística; no entânto preliro ôstc. Ácho-o icio e
,.orr'. -
n-' o l.teservou do pê-
i,.:.t ii,;-, --. ti,d,, n "u, mú''i'rc.r''Lores i',, ur4 lan'o ,diol.r; ,' .o mr consola. Nós, mêni,Lo, nós 5omos
b'm
#a; ;.;*;,h ú"í.rr, "'nubrcsprIJ c\pulrâcio lensantes rlt lllandr'es, país dc gr'àndcs bebedores, de grândes come-
imasinam
à",1"i,üii""rn v.r' cln s:'r'ri'" \unl3de no ôxtâse qLre ar rlt)lr,s
-- Licos... Vocôs, pobrcs morcninhos dc Bolonhâ, nos
lli nr,ri; "àii;0" a'';Lr'ô
n t.r muiru â ri.u.i (ochicholos cie ttipll, não podem calcuiar o que seja â ri-
".i'. que:rLirrlro Àb'â'io se-
(tll( zr Llc Ilandrcs, dss tclras negr'âs ! Inútil pcdir"nos belas
'
"';,,;;;i," ôd: ncluri,lm'rrlc nir(lr 'r.'mon^"'iode
m'is làcil' às^vôzP'' que
lr,rlllvrxs que Iaçam as (laiicias dc piedosas matronas; mas â
'.ll.tt
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;.;. allur.s: (. ô IJr u-; qucnt nos lerir' o 'a'o e â ltrri('sabc dizô lâs tâmbém ê não de todo mal; temos cá
,;;,. ;;-;" ,í sc hou!,I uhverüdeicos hzcr"so sab'r des-
se mos- rrrr ll r»ística, lapaz I e nada de místicas tísicas, não ! A
:;i:"..'ü;;' nor.,"l' q," ocr',"crrtos' is uma vez cur- r,Llir lo nos Jaz môdo: um bom sanque fo!íe, bem ver-
l;;; *;ii; ";,; ",.l,to'. rro''c Lr^ 'rêscPr' por r1r llLo, l)cin dênso, que f.rlsrâ em nosses lontes, âinda quando
;;;l'ild;: , pi s^u , .iiolr oc cl^ ôquil'brio com( câvam i.l,llfos chciús dc gencbra âté o pescoÇot ou quando a cóler.a
i. ':--- ^,,-.,,.^nt.r..cm a nr,rquim: -\áo lrle a nin_
''';,i.",1. :-ii'ni- uõr: e"nécic dr 1erír'onhâ' r,r i()b(,à cirbeçâ, uma cólerâ llamenga, capaz de botar um
i'"iilii;1i,'" pero Pai' 1,, , l(,Il,lrdo no chão â gcnle tcm um lorte sangue ver-
:;;,;i;? v' igonn, 'r" r''r m' 1:n'* inrmâdos
''", * r.l^" n.r dos oulros rL llrr. (,{xn u]na pontinha - de sangue azul espânhol, o bâs-
t;c. oc b'lr-a\(nlul_nça anles !
l [rli lrlllr pe!]or Iogo. Vanios, para rcsumir: você tem seus
^l
ÊlJli Ii,iI"á", lâ:Lirg-,*"r Por i'rvor! Es as sracas es- lr,rr,r'ir
i, 11.,"'ln- nr'.. movimento da âlna é
n", 1... o prim' Iro 'r, rl' (,r rr)los, cu cá tive os nTeus - não são provàvel-
ira", vá rá' a rIr.snlos. Vocô pod.rá ser obrigado, algum dia, a
fl:: ii'"J, i;' .'";,"; :l" , n,, noi' .r, vd,dc rnan,máos rl, r r| n()ri ylrâis, lnas eü del coices, e mais de umâ vez;
E ült;,: u rerLi'et cai' entre as
do. Dcus '|t, tr|,.r, r(llilrrr'. Sc cu lhc dissessê... Mâs eu lhe direi outro
í:"'J, :e;
":i;,r;;r- ãi$-i r,rt" .'(us braço'. sóbre seu corr'ão' no
vocô toco rl.r rir r()r)rclll,(r au o cstou âchândo com uma cara muito
, n.r"aol; l" i.,.: Vocô terá "ur pa'te no concêrto
rrrrr r r,lr)lr v( nrlo â hcra em que você vai cail de Jtâqüeza,
iãr.inrro. or-"i-trt"\. pênso eu-. e eis que te pLdem lclc
-ordcnem: lúr \{,ll:Úr{k) l() ML.nino Jcsus, imagine que o vigátio dc
.i];i',uã ;rà;;,;"ori um viotino e 'vcmos
It,t , rr,|lr', rlir rnilrha lcliâ, clc acôr'.lo corn o !igário-gor'â1,
il;;i,;:.; ;;:ü,; si:r I... venha vPr meu orâtório mrs
lr ' lr,,r |irlnr.ir! r'('solvcrr,nandat mc â Siint Sulpicc. Para
i;Áp", i"re'. oc
pes. lor causr do lapête"' rr,,,r 0llilllll,(lvr(loclc],orro(o.Smrmür' ouoEscoia
L, lônrln mrrito Dour o de mobili;rjoq massrutlt11r[''.p3_
_-^'-,,"i ,1, r l,r, rir l,l, (l(,lx)is, o Sr. McLr I'xi ((\rl,Ic l)irr['r]lcscs: a
- . 1,"i um leito dc acalu mac:!o' tlm rr.
J"m:rrro
t,,r,, iL,, ti, r,, r illr(, al. crjlrtvi l)riní'iur(l(), rrrrrs prIlc('c que o
:i: ,;.'.'r.;,:;:,';;,," r,\rado. po.rlonrs cob' rli's r" rucra , r,, 'lr 'liiri.V llUll(il sr roli'r( lr ]n,1r l)iri (l(nrl,r'a lormâ: co§-
:: ..;.,,..,,.,,, ô,in,l ulno.normF Joâna d Arn rlô L'rrr)7" M'rs 'rl
l,',1i! ,',rl,ri ), o tir . M(,u I'ri l.i1rlürrí. (,Dohido de di
ll,;
'' , i.I ,', i'-ii; q;f ã vigr,io a' rorcv m'' rrucru
'lo:ll1isu
r1 , ,,, r,Lrr jtr,rr urltÍn,n, r sc julltrrvx 1ro clcvc! dc honla! a
rr,lrr r,r r,r,l l,:,rr üma outr'a sala. qua"c vitzl'r' nroDIlIauzL
18 GEOROEg BERNÁNOS DrÁlro D! uM P.ÁRoco Dx ÁúDEla 19

dioccsc. Só que, orâ essa !... Quando vi aquelâ velha casêr- me fêz caiÍ de joelhos. Depois, bebemos juntos um copo de
na lcprosa, com cheiro de caldo de sebo, bü 1,.. E todos gcnebm. E, sübitamente, olhou-me direito nos olhos, com
aquôlcs bons rapazes táo magros, pobres diâbos que mesmo um ar de seguraDça e de comando. Eta como um outro
vhtos dc lrcnte par€ciam estar sempre de pelfil... Enfim, homem, ulr1 homem que náo presta contas a ninguém, um
com tr'ôs ou quatrc bons camaradas, não mâis, a gente haziâ
os prolessôres num cortado; caçoavâ-se um pouco, qual, bo-
Os ftâdes são os fradês, disse; eu não sôu um frade.
bagens ! Os primeiros no trabalho e na comida, por exem-
plo, mâs, fom daí, uns verdadeiros demônios. Uma noite_ Não -sou um superior de convento. Tenho um rebanho, um
qLrândo Lodos dormiam, subimos ao têlro e foi um lâI de ver'dâdeiro rebanho; não posso dançar diante da arca com
meu rebanho gado; se o fizesse, com qüe me pa-
miar. .. que, por pouco, não acordamos o quarteilão inteto. - simples
rcceria, quer você dizer ? Gado, nem muito bom nem muito
Nosso mestrc de noviços peNignava-se ao pé da câmâ, pois
o inÍeliz petsava qüe todos os gatos da realonaleza tinham tnau; bois, asnos, animais para atrelaÍ ou patâ lavrar a
mârcado encontro na santa casâ, par,a contar uns aos outros tcrla. E tenho bodes tâmbém. Que hei de fazer de meus
bodes ? Não há jcito de matá{os ou de veudê-los, Â um
coisas horriveisi ur)ra farsa idiola, nào digo que náo I No
fim do trimestre, -aquéles senhores me mandúani voltar para abade mitrado basta dâr uma ordem ao irmão porteiro. Em
caso de êúo, li\,aâ-se dos bodes, num minuto. Quânto a
câsa e com câda nota ! Nada burro. rapaz honesto. boa in-
dole, e tatatá e telete... Em resumo. servid mesmo para nim, não posso fazê-lo, a gente tem de dar jeito em tudo,
gualdar vacâs ! qu que vivia sonhânalo ser padre. Ser pa- n1esmo bodes. Bodes ou ovclhas, o Mestre quer que lhe dê-
dre, ou morrer ! O coração sangtava tanto que Deus pemiiiu volvâmos cada ânimal em bom estado. Não vá meter-se na
cabeça a idéi,a de que se deve impedir que um bode cheirc
tivesse eu a tentação de matar-me peúeitamente. O
Sr. Meu Pai era um homem justo. Levoume - a bode; peÍderá seu temlo, ariiscar-se-á a câfu no desespêro.
âo sI. Bispo, Os veihos colegâs me tomam por um otimista, um Roger
nâ sua cauuagem, com uma recomendaÇão de minha tiâ-avó.
superiorâ das lrmas da Visitaçâo em Nâmur. O Sr. Bispd Rontemps; os moços de sna espécie, por um papão; âcham:
era também um homem iusto. Mandou-me entrd logo pàm -me duro demais com meus paroquianos, excessivâmente mi-
seu gabinele, Lancei-me em seus joelhos, falei-lhe dt tentâ-
litar, excessivamentg codáceo. Uns e outros me censuram,
porque não tenho um planozinlo de reforma como tôdâ a
ção que me âssaltara e. na semana seguinte, êle mandou-tne gcnte, ou porque o deixo no Jundo do bôlso. Tradição ! res-
parê §eu semináxio maiorj câsa bastante ântiquada, ma§ só-
lida. Não importa ! Posso dizer que vi a molte de pêrto, e mungam os velhos. Evolução ! cantam os moços. De mim,
que morte I Entáo, resolvi, desde êsse momento, prevenir- .rejo que o homêm é o homem. não vaLe mais que no Lcmpo
(los pagáos. Aliás. a quesláo nào é a dc saber o que ôle vaie,\
-me, fazer-me de ingênuo. tr,om do seNiço, como alizeln os
militares, nadâ de complicações. Meú Menüto Jesus é clian- mas quem o dirige. Ah ! se deixassem os homens da Igreja I
agir ! Note que não me refiro aos confeiteiros da Idade
ça demais para se inteÍessar bastante pela música ou pela Módia: os homens do século treze não passavâm por sant!
litcraturâ. E ate fada provàvelmente caretas a quem se con- |hos e se os frades eram menos idiotâs, bebiam mâis que
tcntasse em revirar os olhos para cima, em vêz de levâr
hoie, não se pode dizer o contrário, Mas nós estávâmos em
llolhar Írescâ para seu boi, oú cuidar de seu bulro. . . vias de fund um império, menino, um império junto do
pâIa fora do quarto, segumndo-me pelos (lual o dos Césares não passariâ de um excremenío uma
^Ilâstou-me
omblos, c o amável tapa de uma de suas grandeg mãos quase pt\z, à Paz Romana, a verdadeira, Um povo cristáo, - ejs o
2o GEORCES BERNÀNOS DrÁRro DE uM PÁloco DE AúDEIA

, íluc (ll.rÍl,nlos [ollllodo iodos junlos. Um povo de clist:.o. tluíssem seus brinquedos parâ gente grande. só que têría-
ltir(, rll» tn'vo,lc b'5lo{. À lgreja tcm os ner?os sólidos; mos abolido, teríâmos at!âncado do colação de Adão o sen_
o lx\ril(k) Duo lhc melje mêdo; âo contrário. Olha-o de frente, timento de suâ so1edaCe. Com suâ enfiada de dcuses, os pa_
/tr'rul,lrilljllrr r1\' , nl.. a es.mpio de No.\o S.nhor. toma-o â gãos não eram táo idiotâs: consêguiram, âpesar de iudo, dar
/ sl, Írssllrrl, -rrrr r.s!Írnsab:liclêüe. Q,isndo um bom operàrio Jos pobres ,nrorlDi" a ilu(ào de uma g'r'osseira convivência
'r lr'nbillhiL ,,onvcnienlemente durânle os scjs dias da semlna. com o invisível. IÍâs agora, ês§e iruque não vâleda uma
/ t r(l( :''-llr, dar um trago. no sábado. a ta,drnha... Veja. eu pipocâ. tr'ora dâ lgreja, um povo se!á sempre um povo de
' vurr d, iini[ u]n po\o cristdo pelo seu conlrátio. O contrário bâstardos, umr povo de enjeitados. Evidentemente, rcsta-lhe
I tle un povo cristão ó um pcvo triste, urA povo de velhos. ainda a esperânta de ser reconhecido por sâtá ! Babau ! Eles
\ v(,ci djr; que a detiniçào nào '1 b.s{xnly l,ológicc. Dc ocôr- podem pspirar, por nluilo tempo. sêu NaÍalzinho negro. Po_
I do I Mas tem por oedo Jazer rclletir os senhores quc flsiâm ãem pôr io fogáo seLr' $pato§. o diabo já se cânsou de co-
I rr miss, dc dorningo a tlo.?jJf. É nrlurâl que bocejern, Você locar nêles uma ouantidade de bdnquedos que caem da-modâ
ndo trá do querer qur e i t,mn irsisni.icanie meia-hora por
/ s,mcnc. no mesmo instante em que §ão inventados; êgora êle põe nos
IJ soubesspm â Igrcja lr"s.r cn.:nii-lh(s d clegrir ! E. âinda que sâDatos aDenas um n'inúsculo pacofe dê coccína. d. heroína
dc cor o c::1.: ,iÍo úo Concir;o de TtenLo, nào dê morljnâ, umà sujpira de pó quatquer que nào lhe custa
1 scrjâm prolavelmente úrâii âlcgr'.s. caro. Pobres tipos. C'.nsxm-se â1é de pêcar. Nem íodos que
' Por que será que o tFmpo Ll. no".r inlância nos parece queÍem dictrrii.sê çc distraPm. A menor bonêra dê quâtro
tão radiante, tãô doee ? O galôto sofre, como tôda a gente; e, tostões Íaz a felicidade de uma garôtâ, durante me§es, en-
aliás, é tão desâmado côníra a dor, a doença ! A infância e quânLo que urn pobrê diabo adullo állorrêcê_se com um mjmo/
a extrema velhice deveriam ser as duas grandes plovações (r. quinhentos Íran.os. Por quê ? P-gIju_apgg+ o- SPjlilO \
do homem. Mas é do sertiiranto de ouâ próplia impotência de jnlànciâ. Pois bem, mell caro, â ]greiâ foi encarriegâdâ '
quc a cdanqa tira, humiidelneate, o princípio de sua alegria. iõi-Nos§õSenhor rle manter no mundo êsse espírito de in-
Confia em sua mãe, coúlpleei,de ? Paêlente, passado, Juturo, iância, essa ingenuidade, êsse frescor. o paganismo não era
tôda a sua vida, a vida iaLeira, fica suêpensa â um olhar, e inimigo dâ nstureza, mas só o cristianismo a engrandecê, e
êstc olhar é um, sorriso, Pois b3111, meninc, se noa deixassem ctâltt. âdâDlando-a à medida .lo homêm, à medida de seLrs
âgir, a nós, a Igrejâ teda dâdo aos homens essa espécie ale sonhos. Góstario de agsrrcr um desses sabichões. que me
scg,rlança suplema. Nenl por isso, eDtletanto, cada um dei- âcusam de obscurantista, pam dizer-lhe: "Eu náo sou culpa-
xâr'iâ de ter sua parte de abouecimento. A fomê, a sêde, â do por Llsâr essa roupâ Íúnebre. Vejâ que o Papâ se vêstê
pobrêza, â inveja... Nunca seremos bastante foÍtês paÍa rlc üranco e os cardeãis de verm'lho. Eu teria o direito de
botar o diabo em nosso bô1so. você sabe ! Mas o homem tei-ia pâssear por aí vestido como a Râinha de Sabá, porque tenho
o ccrtezâ de que é lilho de Deus; eis o milagre ! l'eria vivido; Acntlo de mim a aleg a. Po! um nâda tha daria se você ma
rloflcria com essa idéia na câchola e não uma idéjâ adqui- pealisse. Á Igrejâ dispõe da al€g a, de tôda a provisáo de
lkls sú nos iivros, não I Porque ela - teria inspirado, graças ilegria reservada a êste triste mundo. o que §e faz contra
o lrós, os usos, os costumes, as dlstrações, os ptazeres e âte ela. faz-se contra â alegda. Será que eu impeco o senhor de
us illois hutni]des n€cessidades. Isso não impedida que o calaulâr os movimentos equinoxiais, ou de desintegrar os
ol)c!lill() ci,grav:rtasse a teua, que o sâbio esgruvinhasse sua átomos ? Mas de que lhe adiântalia fabdcar a própria vidâ,
túbuo dc logàritmos, nem mesmo que os engenheiros cons- §c o senhor perdeuo sentiment'o da vidâ ? O senhor não telia
G]]]ONOES BXIINÀNOS DIíRIo DE UM P,(RoCo DE ALDEIA

olltla c{}isit ir lizcr quc cstour'âr os mioios, diante de seus 'llrzia-me. âIiás, umâ boa notíciâ: a municipalidade vai
aplt'clhos (Luírrrico: ! Fabrique a vidâ, conio entender I A ll lndar- abrir uma cisterna cm minha casa, o que me eco-
;n)irlí\D {lx lror'[c, quc o senhor propaga, envenena, pouco ll rrrrizârá os vintc tostões por semana quê dou ao coroinha
c lxlr.rlt), o |( sxnlcnío dos misefáveis, cnche de sombras, ,'i rN buscâr'água à fonte, Mâs eu gosiaria cle ihe drzer uma
ürsvrrlror(', lcntilm.ntc, suas últimâs âkrgrias. Tudo irá bem. Jrrrlr\,r,a sôbr-e seu caberé, pois resolveu âgor'â dar um bailc,
r'rqrirlrld \lli. ', dL.lrin c s.Lr .xpllx:s lhê pF-milirl rn ia/er l,rlir qüintâ-feirâ e torio clomingo. Châmà ao dc quinta-feira
rli' Ir,ur,lo lrr,t- ie.11, com rn..ânis.ir,s ",, l)rilc das ÍamÍlias''; âtrai, parâ êle, ât€ as mocinhas da
'luo gitdm c-n vclo-
ckladc vcltigi{ose, no írâgor da maq[inaria c na explcsão l;rl)r l( a, e os rapazcs sc (iivei'tem, fazcndo as bebef.
dos logos de altifício. Mas espclc, csi:rcre o pdmeiro quarto Náo tive coragcrn. Tem,rl11 jeito de mc olhar com um
de hora dc silêncio. Então, hão cle oulir a pelàvrâ Dáo r0lli!ir), no Iunclo bâstrnte âÍávc]; isso me leva â conversar
;lqucla quc recusalam ouvjr c qu€ diziâ tranqüilamente: - Eu rr,|r i,lo con,]o sc, no liDal das contas, quâ1quer coisâ que eu
sou o Câliinho, a VerCiti.le c a Vida mâs â pâlavra que ,lt,r nro tciha inrpodância âtgllmâ. Â1iás, setia mâis con-
-
sob.- do abisn1ot êu so.-L â potla para semple lcchadg, o câmi !,lri,,rÍ. ir' à stla câsa. Há unl Dr_ctcxto parâ minha visita:
nho scr'!1 sâÍda, â ]ncntir.a e â pclCição,,. r ilr,nhor'â cstá grâvemente €niêrma, não sai do quârto, há
Plonuncioü essas Ítltimas palàvras com 11m9 voz táo
somblia qlre devo tcr ficado pálido
\, I r: rj(ntrnâs. I)izcm que não é má pessoa; e parece que,
ou, ântes, amârelo, r'r'l r|rrroDtcr -lreqüenLava com assiduidede as cerimônias
o que ó, pollre de ndm ! desde muito.- â minha maneira de
flcar páliclo; cncheu dc nor/o o mou copo de genobra e co- ''t(!NI palha lresca para o boi, cuidar do buro", §eja.
mcçarnos a fâlar Cc oull.a coisa. Sua alegria não nle pâreceu
Ialsa n€rn mesmo aÍeteda. Dois âcho que suâ próp à natu- l\4L,: (11\,cl1,s simples não são os mais fáceis, pelo conhá-
t-cza! sua alma é alcgre. IÍÍas seu olhâr não conseguiu, no rtír í)i: linlris íêm poucâs neccssidâdes, âo passo que os
mcsmo ins'i,onte, colÍrpor-se con1 sua alcgria intelior. Ao sair, 1,,'r'! rr | .. sl.i muito bem que todos fâlâm da simplicidâ-
como me inclinâsse pâra dcspeíiil-m-â dêle, Íêz com o polegar .l', ,l,i. lri)rrrrs do campo. Eu, que sou filho de rocciros. con-
uma pequcna cruz n:r_ ninha testa e introduziu. delicâd3- ,,t,1,,,, ,,r. ;llltcs, horrivchnerlte complicados. Em Béthune,
flr'nl^, un-a nolc de cem .-rnr^. no "neu bôisc- r,, l, rrlr, (lli ,lrou pl.imeil'o vicariâto, os jovêns operários de
Âposto que você está sem um níquel; os pdmeiros ,, I I I i I I I , rrmâ VCZ paSSAdO O nAtUIâI âCAnhAmento,
i I ) I I ( )

- 'r,, I
rl',r,1,,,\:rr rr,Ír)rn sucs conÍidênciâs, procurâvam tôda for-
I'rnl\o\...ô durJ.: vocc ,-lc p.'g?r;. dolois. quanoo pudcr. Ir,, rl' rI l ri| r( ll si nrcsnros: sentiâ se que transbor.lâvam
Vi lrllLa.hxnuo e n,rd* diÊ-: aos rrrljlcjs. a respcito de nós.
,l' lr ,l,,,lr:r ln,r' sluls plóplias pessoas. Um homem do
r,i'rl ,"Lfrr r ri llx.snlo Iaramente e, so mostla uma indi
nr,,,, I |rr{l t)ir)t qücm o amâ, não ó porquc düvida
rl'r ,'1, r,,'r rlll( iri, l(,,11 l! ôlc: scfia, irnl,cs, l)orquc II (lcspr.ez&.
Itr r,r ,lur rl,r rilr) ríi l)rrocul)lr 1,ânio am c(»)illit sc. Mâs
"IÍrvar paiha fresca pala o boi, cuidar do burro"; essas pa- rt.,i, ' , r'l ,1,. (1ll,. « ilr(lo sôl)r'Í' os (t( n ilos c os vicios que
latvlns rnc voltaram à mcnte, pela manhã, enquanto descÀs- !,,t,11,L,",rr t,r, r(rl(iir ll virLr inl]irr, (l('ríL (llli'os iulgou
c:lvir nrinhls betatâs para a sopa. O auxiliar da pr,efeitur[ rr'l! L Ir' ,r,,r1,.,,1,, rrr,,l()rnrívr.[, t)11{x rr])r(k) só .m manter
(lll(,Íl()u, (l(,surDr'êsa, e eu levantei-me bruscamcnte da cadci(t, ,' ', ,i,rr |,i rrrlr.irr ( r.IIrrI1,)i,r|. r',r rlirir{,UlaL k)s com o míni-
scnr lcr' [i(lo lc]npo aie sacudfu as câscâs; sentia-me ridÍculo. r",,ri '1, ttrr.r. l,i iUriiür, 1]o;rlarri() (lrsslls vi(las de campo,
24 GEORqES BEBNANOS DlÁato DE uM PÁBoco DE Ar,DErá 25

§empre secretas, as tendências mon§truosas crescem demâ- as dificuldâdes da omção, que me parecem, âinda, com Íjâs-
siâdamênte: o roceiro envelhecido custa a suportar_se t;i tante freqüênciâ, insuperáveis, talvez por causa de minhas
Ilesmo, c lóda a simpatia o exaspera. pois suipejta que ela dolorosas cótlcas de estômago. E eis que meu diário revelâ o
scJa uma especro de cumplicidadê como o inimjgo inlerior enorme, o desmesurado lugar que ocupam, em minha pobre
que devora, aos poucos, suas [ôrÇas, seu lraba_Iho. súâ riouezâ I,ida, essas mil pequeninas preocupações de todo diâ, de que
Que dizer a êsscs miseráveis ? Enconlranr-se nos leitôs dê üe julgâvâ liberto. Sei bem qüe Nosso Senhor participâ dê
morte certos velhos devassos, cuja atareza nao tera nossas contrariedades, mesmo fúteis, e que Êle nâda des-
d-e- uma aspera desforra. um câ§ligo volLlnLário.
fàiiaJã
impólto a si preza, Mas por que fix no pâpel o que deveriâ, âo con-
mesmos. durânte anos. com um rigor inflexível. É até o li_ trário, eslorqâr-mc por ir. aos poucos. esquecendo 1 O p.or
mrar da âgonia..umâ pâtavra, que a angüstiâ Jaz jllomper, a quê encontro. ncssas conÍidônciâs, uma doçurr lÀo gL.andc
leslemunha âinda um ódio de si mesmo: para o qual taivel que deveria bastar pâra me prcvenir contra elas. Enquanto
não haja perdão . Iabisco, sob a, lâmpada, estas páginas que ninguém há de
ler', er.pe mento â sensaÇão de uma pr.esença invisível que
não é seguramente a de Deus
- ante!deamim,
à minhâ imagem, se bem que alistinto
de um amigo fejto
de umá outla
.sséncia. Ontem à lârde. tal pre§enna se to"nou. de súbito,
_ Áclo quê interpretaram muito Inal a decisão oue tolnet_ lco sensivPl. cUê mc sltrpreendi a inclinar A CAbeçA não sei
hâ-uIls quinze dias. de dispensâr os sêrüCos de uma para que interlocutor imaginár'io, com uma vontade de cho-
gâtla. o que complica muil,o a coisa é qLle o marido"mprej
dessa
rar que me enchia de vergonhâ.
irtim-a. o Sr. Pegriol, acaba de entrsr pãra o castelo, como Mais vale, âliás, lev a ex?eriência até o fim quero
glr_arda-car"a. Prestou mestho juramcntô. ontem, em Saini_ -
dizer, pelo menos durante algumas semanas. Esforçar-úe-ei
-ryaast. [; eu que pênsci agir com {inura. cornprando de sua até por escrever sem distinqão o que me passax pe1à cabeaa
mao"um pequeno.bârrit de vinho: câstej. assim, os duzen_ (acontece-me também hesitar na escolha de um êpiteto, ein
lo_s Írancos-da minhâ tia f.ilomena. sem npnhum proveitô, corrigiÍ-me): depois esconderei essa papetâda no fundo de
por§ o §r- Pregriol,-não vai majs vjâjaT pâra aquela'casa uiÍlr1 gâveta e a lerel. um pouco mais larde. com a cabaça
de
ljoldêus à quai, todavia. passou a encomenda. Supontro que
ljy :yges.g iráestupidez
ralidâde,
lirar-todo o proveito de mintra pe{uena libe-
Que I

estupidez ! Espêrava queési,e diário mê aÍu_


._^,!r]Ítr.ql" meu pensamento que
91ji9 1ITu, se escapara. sempre, ãr.r_
ranÉ os raros momenÍós em que posso relletir um Douco-
Qurcera que éle fósse umâ conversãção entre Nosso Senhor
e eu, um prolongamenÍo da prcce, uroa lofina cte contornar
tr
TIVE, ESTÀ MANHÃ, depois da missa, uma longâ con'
vclsa com â Srta. Luísâ. Áté agom, rarâs vêzes nos encon-
l,rxmos nos ato§ religiosos da semana, poi§ sua situaçáo de
I»'ccepíorâ no castelo impõe-no§ a âmbos uma grande resêÍ-
v1r. Á senhora condêssa têm-Ihe muita estima. Ela devia, pa'
r'cce, entrar para âs C]ârissâs, mas consâglou-se à suâ velbâ
nrãe-enfêrmá, que só mo eu o âno passado os dois garotos
:r âdorâm. InfóUzmente. a filhâ mais velha, a Sríâ. Chan-
lil, náo lhe mânitesta simpitia atgumá ê até parece com-
I'râl.r.sp êm humilhála. em trâláJa como uma simplec do-
inóstica. criancice talvez, mas que cruelmente abonece a
Inrísa, pois, segunalo me informou â condêssa, ela pertence
o uma lamília ótlma e recebeq educaqão supe or.
Creio ter pêtcebido que â genle do castelo aprova ml-
trha re"olu(âo àp dispênsar a emprpeada. Conludo. achariam
pleferível que eu pagâsse umâ emplegâdâ de fora, uma ou
(luas vêzes pol semana, ao menos por uma questão de prin-
cípio. Evidénteheüte, é umâ questão de pdncípio. Moro eln
um presbitérjo muito confoltávet. a melhor casa do lugâr,
rl'pos do essfplo. ê pu a lâvar minha roupa?: Todos have_
I icn dê pensâr quê o lâriâ dê fropósito.
Corn certeza acham tâmbém que não tenho o direlto de
úrc distinguir dos colegas que não ganhâm mais que eu e,
no entantô, aprcveitam methor os seus modestôs recursos
Cleio sinceramente que poum me importa ser rlco ou poblê;
Í1ostâria âpenas que nossos superiores decidissem o câso, uma
vcz por tôdas. Cónvém táo pouco à no§sa miséria o ambiente
(lc Íclicidade burguesa dentro do qual nos obdgam â viver...
A oxtrerra pobreza não exige muito pam manter-§e digna.
l'or'â que ta[tâs âparênciâs ? Para que fazer de nós umas
(lr irrturas que precisam disto e daquilo ?
Esperavâ encontrar alguú consôlo nas aulas do cat€-
r,sn-o Àlementar, prepamqâo pâra a primeira comunhão,
sr,,lundo o desejo dó santo Pâdrê Pio x. Aindâ hoje quândo
r)r(ro o sussurro de suas vozes no cemiicrio e, na soleira, o
ruldo de seus tamanquinhos ferrados, parece que meu cora-
Çt
rI

tl
tr
TM, ESTA MANHÃ, depois dâ missa, uma longa con-
i Inrsa com a Srla. Luísâ. Até agora, Taras vézês nos encon-
il 1,xmos nos âtos reiigio.os da semana. pois sud situaçáo de
,i lr'cceptora no caslolo impõe-nos a âmbos uma graÂde reser-
v- . A senhora .ondéssa tàmlhe muita estima. Êta devia, pa.
t r'"e", enfrar para a._clcrissâs. mâs eonsâgrou-qe à sr.ra veila
rii, n\:r. enlermâ. quc sô molreu o ano pa§sâdo, Os dois gàrolos
iL cdoram. lntelizmênle. a Íilha máis vêlha, â Srla. Chan-
I
tal, não lhe maniÍesta simpatia alguma e até parece com-
pl.azer-se em humilhála, em tmtá-la como urnâ_simples alo-
r'lÁslicâ, Criancicê l31vez, mâc que cruelmente aborrece a
I Ul(a, pois, segundo mn info.mou â condêssa, ela pêItence
il uma familia ólima e recpbeu Fducaçâo sLlperior.
. Creio feT percpbido que a genle do câslelo aprova mI-
rrL-_rê"olucão dê dispcns?r a emi|cÊxda. Conl udo,'âchariam
l\f, ier'lvêl quê eu nâcas(e uma ãmpregada de forr. uD1â ou
rrlâs vêzes por semanâ, ao menos Dor uma questâo de p n-
r,ir'ic. Evjdenlemêntê. é uma questão de oriricípio. Moro em
um presbitérjo huito confortável, â melhor càsa do lugâr,
(lopois_ do castelo, € eu a lavar minba rcupa?!
Todos hãvel
ri:rm de pensar que o Ia a de propósito. '
Com i"erteza achâm lambém quê náo tenho o dirêito de
nln distinguir dos r'otegüs que náo ganham mâis que eu e,
rro nlanlo. sproveiram melhoT os seus modesL,os iecurms-
t'r.io '
sincFrâmênle quê pouco me imporla ser rico ou pobre:
Í{)crâ}ra apenrs quê nossos supêriores decidissêm o caqo, uma
v' z_t'or lódâs. Convém lào pouco à nossa miséria o ãmbiênte
r1r' r,ir.rosde burgucsa dênlro do qual nos obrigâm a vlver,,.
A 'xlremâ pobreza não êxige muiUo para man-ter_se cliEnâ.
l'i,r'x que lântas aparências parâ que fazer de nós imas
| r{ruras que precisam disl,o? e daquito?
E.peravc encontrar êlgum consólo n0-§ aulas do câtê-
.lsnro plementar, preparaçáo parâ a plimeira comunhão.
jx'J,undo o deseio do Sanío padrc pio X. Âin.lâ
hoi., oua[do
r,r(o o sussurro de suâs vozês no contitólio c, na solãira, o
r'uido dê seus tamânquinhos lerlados, parece que meu cora_
GEORCES BENNANOS DI.(IIÔ DE UM PÁIToco DE ÀLDEIA 29

ção se desmancha de telnura. Sillite par\ulas... s,oÍh,ava parecia falar exclusiyamente para ela. Na semana passada,
poder djze!-lhes, nessâ linguagem infantil que lne vem âos (luando Ihe entregâva, na sacristia, seu bom-ponto sema-
lábios tão Íàcilmente, tudo o que devo guârdâr pâra mim, nâl * um belo santinho pus sem querer as duas mãos
tudo que não rne é possível expressar no púIpitô onde tânto llcs seus ombros e lhc disse: -
üre recomendârâm prudência. Oh! eu não me entlegâria esíá corn pressâ de receber a Jesus em seu
â exageros, isso náo ! Mas, enfirn, estava bem alegre por ter - Você
(ioreçáo ? Acha que o dia está demorando ?
de Íâlâr{hes sôbre algo diferente dos problemas de ÍrâQões, respond,.u mê. por quê ? Chcgará o dia, quando
do direito civico, ou ainda dessas aboninávels lições de coisas, - Não.
lúr hora de chegar.
que não passam, com efeito, de licões de coisas e nada Ínais. Fiquei embaraçado, mas não muito escandâlizado, por-
| 1: O homem na escolâ dâs coisâs I Depois, eu me teria li0er- quê sei como são mâliciosâs as clianças. Tolnei a falar:
tâdo dessa espécie de mêdo quase mór'bido que todo padrc Entretanto, você ccmpreende o catecismo, nâo é ?
I moço experimentâ, quando lhe vêm aos lábios certas pala- Voaô- me escuta com 'úânta âtencáo !
vras, certas imagens de uma grâça suspeita, de um equí- Aí, arrnou urne cariüllrâ sériá e responaleu, Jixânalo-me:
'I
-Não me dei opor
voco que, obrigÂndo a retrâir-nos, Íâz que nos limitemos É porque senhor tem uns othos tão bonitos !
Íorçosamente a âusteras lições doutliÍlár'ias, nu1Ír vocâbu- achado, natumlmente; saíúos juntos
lário tão gasto mâs tão seguro que não chocâ â ninguém rla Eacristia e tôdcs as suas companheiras, que cochicha-
e que, pelo menos, tem o mé to de de<armar os comentários viün, calaram-se inopinadameute, depois estouraram de rir.
irônicos, porque é uma linguagem indeterminâda e cânêt.. liird^ntemente, t,rrh,lm .omLincdo ê coisa...
Ao ouvir-nos, muitos poderiam crer que pregâmos o Dêus . DeDois, esforcei-rnc por não audar de atitude, não que-
dos espidtuâlistas, o Ser supre:no, não sei o que, nada que r'ja dar a entender que estava compreendendo o jôgo. 1üâs
i rL pobre meninâ, com certeuâ, atiçada pelas outras, perse-
sê pareca, êm todo o caso, com o Lqenhor que aurendemos a
conh€cer como um amigo mâÍa]rilhoso, vivo, que sofre as Iltla-mê com dissimuladas e provocadoras momices, assu-
no§sas penas, alegrâ-se com nos§as alegrias, compartilhará ruindo uns modos de mulher já feita, levantando a saia pala
de nossa agonia e nos Ieceberá en1 scus braços, no seu co- ÍünaüaI o cordão que lhe serve de tiga. I\4eu Deus, cdanças
Íaçao. siio cliânças, mâs a hostilidade dêsses meninos ! Que lÉes
fiz eí ?
Entretanto, senti logo celta resistência dà paúe dos Os frades sôfrem pelas almas. Nós sofÍemos em lugar
meniúos; calei-me. No final dâs contâs, náo é por culpe (klâs. Êsse pensanênto, que me veio ontem à tarde, velou
dêles que à expe ência precoce dos animâis
- inevitável
se junta, agor'â, a do clnema, tôdas as semanas. ..
j.rnto de mim a noite intei)a. como um anjo.
't - Quando sua bôcâ a pôde ârticular pela primeta vez,
{ a pâlâvra amor era já um têImo ridículo, um nome suio que
,i de bom grado corredam a pedrâdâs, rindo, colno Íazem
com os sapos. Âs meninas, porém, me deram alguma e§- Ânivêrsário de minhâ nomeaÇão para a pâlóquia de
pemnqa, principalmente Serajita Dunronchel. É â melhor Três meses já! Rezel muito, esta mânhã, por
aluna do catecismo, alegre, asseada, olhú um pouco petu- r,Irhx faróquic. minhâ polllo piroquia. mjnhJ primeira e
^rnbricourt.
t
lante, mas purc. Habituel-me, pouco a pouco, a distinduila lrlvÊz última pâfóquia. pois eu goslcria dn molrer aqui.
entre seus colegas menos atentos, interrogava-â muitas vêzes, ÀÍinha paróquia I Palawa que não se pode pronunciar sem
,}
30 ÕÉORGES BEÀNÁIiÍOS DrÁRro DE uM pÁEoco DE ALDEIA
31

crnoçâo quc digo ? scm um transporte de amor. E, no (lôssa quis tcr â bondcde de pagálâ, uma vez por gemânâ.
r\rl.lurl.(),-at6 hojc, ela só desperta em mim u]nâ idéia con- 'r'rnhâ t8nta vcrgonha do es{ado
de minha rou;À ouc corri.
lust. sci quo minha pâróquia existe realmente, que per- osla manhá. ate Sa;nr-Waâst para comprar i"C"'iàmisã"-
t(\)( r,n)os unr âo outro, por tôda a eternidade, porque c1â é ('eroulas. lenços. Em Iesumo. os cem trancos
do vigário de
urrli! cólula viva da Igreja imoltal e não âpenas uma ficção rorcy mal chegrri m pâra cobrir essa granoe desp.sã. Atém
a(hliDistlotivâ. Mas eu quereriâ que Deus me abrisse os orsso. vou pr.ctsJr d. l'azer um âlmóço, pois uma mulher
olhos c os ouvidos, me permitisse ver-lhe o rosto, ouvirlhe â qLrc Irabatha neccssita de alimenlaçào
iãiii_
voz. Selá pedir demais ? O rosto de minha paróquia ! Seu rreoto o meu vinho d, Bordeaux vai presisr "olnreniente.
servico, Engar_
olhar ! Deve ser' um olhar doce, l,riste, paciente; imagino r'altpi-o, onLem. pareceu-me um pou;o Lurvo, no entantã
é
que há de se parecer um pouco com o meu, quando pâIo pe],fumado.
dc me debater, quando me deixo ârrâstar por êsse gr-ânde
fio invisível que â todos nos leva, de cambulhâda, vivos e . Os- dias passâm, pâssâm. .. Táo vazios ! Vou chegân_
do so tim clc minhi. larefa cotidiâoa, sempre UelxanAo
moltos, para a prcÍunda Eternidaale. E êsse olhaÍ selia o o diâ seguiníe. a e\ecucáo do pequeno programa quefràrà me
olhcr da cristandadê. de tôdas as pcróquias. ou mesmo... rrccei. Fâttc de méLodo, e evidênte. E aomã pcrco_ têmpo
quem sabe ? o olhâr da pobre raçâ humana ! O olhar que , nr ir e !ir. pêrrdc cslr.ados: A capeta mais pró'xima
Deus via do -alto da Cruz, Perdoâi-Ihes porque não sabem o rrcs.oons quUometros daqui: â oulra. a cinco. Minha b!
esta'a
que fâzem.., crc)Fti presta-mê pouco ser\iço porque não posso subir
Tive a idéia de utiliz essa pâssagem, modificândo-a rnou-o. sobretudo em jpium. sFm horriveis dores_ de estôma_
u111 pouco, para minha prática de domingo. O othar da pa- Íro. E\tâ paróqu ia . . . 1ào pêquena no mapa ! euando Denso
róquia provocou sorrisos e eu parei de JâlâÍ, um segundo quê umâ cl"ssê d. vinlc ou lrinla alunos.?e idÀae e ad ron-
bem no meio da {rase, com a impressão muito nítida, rneu dição semelhantes, submetidos à mesma disciplina, estudan_
Deus, de estar fazendo uma comédia. Deus sabe, porém, do as me-smas coisas, só é conhecida do móstre,'ao longo
quanto eu era sincero ! Ma§ nas imâgens qüe rlos comove- ,lo uns tt'es meses quando ndo é preci,o muito mais t.:.
ram muito o coração, há sempre qualquer coisa de conÍuso. porêce que minha -!ida, tódâs as lórças
de minha vida vão
Tenho certeza de que o vigário de Torcy caçoada de mim, drssrpar-se na areia.
À saida dâ missa, o conde me fâlou, com sua engmçâda voz Luísa esüá agom âssistindo à missâ. todos os alias. Mâs
um pouco {anhosa: "O senhor teve um belo vôo de omtG aparece e some táo depressa que às vêzes nem percebo sua
ria". Senti vontade de enhar pela terra a dentro. Irrcsenei, Scm elâ, a igrela oslâriâ vazia.
Encontrei, ontem, Serâfita em companhia do Sr. Du.
nron.h.l., O roslo dcs.a pequena pârece lranslormar se, dia
ir drr: outrora láo mu!ávê]. !ão móyel. vejo. agom, nôlc, uma
í')rÊcre de lrxrdez. dê rigidez, bem acima dc sur idaclc. En-
Lulsa trouxe-me um convite pâra âlmoç no castelo, quâDto the Jalava, observava-mc com uns olhos tão impor_
nlr l»óxima têrça-Íeim. A presença de Chantal me emba- l,unos que não pude deixar de enrubeccr. eucm sabe, áevo
Ir(jirvrr rrnl pouco, mas quando ia Iespondel lecusando o l)revenir §eus pai§ ? Ma§ prcvcni-los dc quê ?
corvil(., lnrísâ fôzrne, discretament€, um sinâI para âceitar. Num papel deixado scm dúvid& intcncionalmente em
rllll)rcBada voltará têrça-feira âo presbiterio. Â con- um dos catecismos e que enconhei esta rnanhã, uma rhâo
^
DúRro DE vM P,ÁRoco D! Âr,DEra 33
32 dEONGES BERNANOS
lrora exasperado. Âgom, creio que e]â é o sinal de uúe
r,ânhcsl,rrr rlc.'crrhou minúsculâ ligura de mu]her com
esta
rrxnde lé. lalvez lainbém de um grande orgulho incons-
iÍ;i;:i'::': ,, ;il;l""inr''à ao sr. visário ' como eu ijirnle. Nerüum dês.e" homêns pode a supor a tgreja em pe_
â,'-iü;:i" ;;;,;:;, inutil procurãr o autor dessa'hstribuo
brinca- r.,',, ouâlouer oue l'osse a causa. É cerLo que minha con-
dcir!i. nl'nca'nàdé melnor, -as ó provàvêlmente de oulra espécíe.
"""ii,,r uro Drccllro convencer-me de que iâis âborrecimen' liu, íranqüilidâde me espanta. . .
los rio rrruccin correnle nas casas dc educação mesmo nas (Sinto um pouco ter escrito a palavra orgulhol entre-
iãá1.'ài., i2r:"aou": rsso só me consolx peLa metacle um
recorrer âo superior' 'dar pârte"' Ao lllnLo, não a posso apagar, pois não encontro outÍa que me_
üiri..".iii,-"á " '"Àpte ttx)l áonvenlã a um sútimento tão humano, tão concÍeto.
l)âsso oue aqul. . .
**:.5l1rpflcras de contas, a Igreja não é um ideâI a reâtizar, ela
ctmas'; repeLi a mim mesmo a noite
^Mas o Ànjo não voltou' r,xiste ê "êIes" estão dentro dela.)
^linat
toaa, eiià co'nsotaoora fráse.
'Ierminadâ a confer'ência, permiti-me Jazer uma tímida
rrhisio ao programa que me irucei. Àindâ as§im, ocultei
rrrctade cloi arligos. Não enconharâm a menol dificuldade
t,rn me demonstiar qr1e sua execução, mesmo pa,rcia], exigi_
A sra. Pee.riot chegou onlem Pâreceu-me tão poycg
_tixados rlo dias de quarenta e oito horas e umâ influência pessoal
.rti;"iia'"o- o'. preqos pcla condêssa qLle lui obri dlr, o§tou lonse de oossuil e talvez nunca tenf\a a possür.
,ãão à'àci"t.c"rui" maiq cinco {rãncos de meu bólso Penso l:l lizmente, a'atençào dos prêsenlês alaslou-se de mim e o
:;;"";.-; ilil; nas sen'afes cedo demâis. pui sem as necessá- virurro de Lumbres-, especjtlisla nessas matérias. l,ratou su-
i;'p;;.ãrç;;" de mõrlo que se estrâgou enconírar a t,-ii,,r'menle do problema das caixas rurais e das coopera-
!an'âfa. na cozinha, apenas aberta, Livlts agrícolas.
'---iià.-rc-ÃÀr,". cs'sa m.rlher tem uma indole ingra{'â voitei Dara casa. com rhuva, imensamente triste, O
mi.r"-iià"-àe"ue.áaáveis. Mas é preciso ser j-usto: eu dou ,,r,uco vrnho'ouê iomei davê-me terrivcis dorcs de estomago.
"ã.'"ãii,i ilo oetí je:to com tal ambaràço ridículo -que âs iti |ilto que emagreci exl,laordinàriamente desde o úll,imo ou-
.,".ao-s qu" as recabem "d"vem licar desconcerladâs Depors, t,,,llo e ririnhâ aÉarência deve ser cadâ vez pio!, pois, agom,
iurr*"nfc lenho a imprcs'io de âgradar: lalvez porque o l{xlos evitam qüaiquer alusão à minha sâúde. se me fa-Itâ_
i ã".";l-ÃJir". lenlro sômpre o âr d; eslar dando as coisas r,'rn as tórças i Nàó consigo acrêdilar que DeLls possa servir-
I
"ôm h; vnntâdc.
., de mim tolrlmerlte-- como se serve dos oul,ros Cada
l----ã"""1,:" iêrcâ-f.ira. em casa do vigário de }Íébuterne' . - impressionado com minha ignorància dos mais
rlri.r l'ico mâis
r,rt, ã m,nsal. AssuDfo Lratâdo pelo Pde To-' r.l, rnenlares porúenorês da vida pratica. que l,óda a gente pa-
;ás licenciado em histól'ia: -A neforma or'gêns e causâs
"ónior'Cr"iu rr\'f conhecer sem nunca thos terem ensinado, por umâ e§-
Ál"jÁ.tii".-à ã.i^0. da lgreia, no século xl.t erâ esl'aÍre- rnr'ic de intuicao. Evidentemente, nào sou mais idiotx que
cirlor. À mcdiaa que o confcrcncista pros§eguia eu em sua Px- ir'r. no orr bel[rano. e. se náo voLr além dc tdrmulcs fàcil-
»osicáo ncrcssàriainenl,e um pouco
-nêtes
monóLona' otlserva- rlnrtc ouârdadas. oosso dar a ilusáo clr lcr comprêendido
i,,i1,l'i:osro" oos ouv'"1es, sem ve! outÍa coisa que a ex' lr,rs co.õas. Mas certas palâvras, quc falr os oui,ros. l,êm
.i""":,r, .f" umc curjolidade polida, exatâmente como se es_ (rll sentido preciso, pareõem-rne, ao contrário, quase nâo se
iirr''iàlr.i,:"u,.,ioos para ouijr a leitura de algum câpÍtulo (llstinguir eitle si, á ponto dê me acontecer, ৠvêzes, em-
iü"iii;tóii" àos raralós, Essa aparente Júeza ter-me-ia ou-
34 GEONGES EERNANOS DIAIIO DE UM PAIOCO DE ALDIIÀ 35

pregá"lâs âo âcaso, como um mau iogâdor anisca uma cârta. de parisicnse faz bâstântê bem
Dulanlc a discussão sôbre as caixas rurais, sentia-me e§ton-
mestre-escola
- apesar
suas conferê clas sôbre semeaduras e-âdubcs. Agora, vou
tcado, como um gârôto em meio a conversas de gente queimar pestanâ3 com isso.
grandc. Seria preciso tambán Íundâr urnâ sociedede esportiva,
É Jrovávcl que rreus colegâs não Iôssem mais instrui_ r exemplo da mâior parie dos meus colcgas. Os rapazes
dos do quc eu, apesal dos numerosos lblhetos que recebe- sc apaixo[am pc]o lutebcl, pelo boxe, pelo circuito dâ Frânçâ
mos. Mâs o que me espanta é vê-Ios logo táo à vontade, cl1l bicicleta. Porquc rccüsar-lhes o prazer de discutir essas
qurnrlo so Jbordam qucslões de tal r.périe. Quase lodos sào coisas comi[lo, sob o proiêxto de que tais distmções * âIiás
l)nbres e sc rosignam corajosamonlc à poorcza. Entretanto. logítimas não hâ dúvida não sáo de meu gósto ? Meu
licam corno que Jascinados qüândo ouvcm falâr de dinheiro. -
cslado de saúde r1ão me permitiu cumprf meu dever mili-
Suas lisionomias tomam, logo, uma eÍptcssão de gmvidade, Lar, e seria fidiculo qucrer tomar part€ cm seus jogos. Mâs
dc segumnça, que me descoloçoa, quc me lorça ao silêncio, cLr poderia estal ao colrente de tudo, aindâ que lôsse apenas
quâse ao respeito. pela leitum da página esportiva alo "Eco de Paris,,, jomal
Tenho mêdo de nunca vir â ser um homem prático. que o conde me empresta, com bastante regularidade.
A experiência não me plasmará. Para um observadol' super- Ontem à tarde, depois de escritas essas linhâs, pus-me
ficial_. em nada me dilérencio dos colegas; sou como êles um
de joelhos, ao pé da cama, e pedi a Nosso SenhoÍ aben-
homem do campo. Mâs, descenalo de umâ família de gente
paupéuima, tarefeiros, operáxios, âgregâdos de fazenda, Í41_ çoasse a resoluÇão que acabâva de tomar. Tive. sübitamen-
te, a impressão de que se desmoronavam, dentro de mim, so-
ta-nos o senso de propriedade; perdcmo-Io, com certezâ, ao nhos, esperanças, ambições da mocidade; e deitei-me tiritarl-
lonso dos século". Sóbrê ê)le ponto meu pdi se pal'ece com do de Jebre, pala só donnir ao amanhecer.
mei avô, que, por suà !e2, se parecia com seu paj. morto de
Iome no terrrvÃl invÊrno de 1854. Uma moeda de \;nte soi-
dos titilava-lhes o bôIso e corriam a buscal um companheilo
Dara eastála êm bebêri.os, M^us .olega' do :cmlnário meno(
iào si enganavam: debalde mamàe \esiia sur melhor saia.
punha bua mais bonila loucà; tinhâ sempre o ar humilde,
iurtivo, o pobre solriso dos miserâvêis que servcm dê pajem
âos filhos dos oútros. Áinda se fôsse só o scüso de proprie_ Luísâ ficou esta manhá, todo o tehpo da missa, com
dade que me faltasse ! Iúas tenho mêdo de também não o rosto escondido entre as máos. Ao úItimo evângetho, pude
sabe! mandar, como não sei possut. Isso é mais grave. verificar pefeitâmente que tinha chorado. É penoso viver
Não importa ! Acontece que alunos mêdiocres, mal do- só; Ínais penoso âinda paftithar sua solidão eom indifelen-
tes ou ingmtos,
lc.los. chegrm a subir ao primeiro lugar. Náo brilharn nun-
|r, lá isstnáo ! Nào tenho a ambiçáo de lelormâr minha Depois que tive â infeliz idéia de apresentar ao âdmi-
nirlul'r2ia; vencerei minhas repugnâncias, ei§ tudo. se, ântes nisimdor do câstelo um antigo colegâ do seminário menor
(k) m{ris nada, peltenço às almas, náo posso Íicar na igno- que viaja para uma grande casa de adubos quimicos, o di-
r'ârx:iu (las preocupações, no fim de contas legitimas, que rctor da escola náo me cumprimenía mais. Parece que êle I
ocul)am tão grânde lugar na vida dos meus paroquiano§. O ó também representante de óutra granale casa de Béibune.

I
38 CEONCIS BERNÂNdS
DIÀ.RÍO DE IJ}.I PANO'O D! ,{I,DEIÁ

cia de drogas). Esíiânho a âusêDcia de qualquer alusáo ao


ministério quc ta"],,,cz t.nha deixaalo, $m dúvida por motivo
No Iró:jimo salbaalo, alero almo\.ar uo câste]o. Jâ que de Coenqa. Dizia-se que cstavâ amcaçado dc l,uberculose,
lr ])rin|ii)ill, otl lalíez a iinica tiitideLlc di]ste diário é cxcr- Seu pâi e suâ mãc morreiam disso.
.Ilrf.rI,, r,,' lr b',' (: ! r inloifJmcnlr' .'n'cro parJ (om:c'1 Desde que dispcnsei â empregâda, o cârtoiro hâbituou-
rncsDro, (icvo diral que não e§tou nada embaraçado, antes -se â jogar â coir'Êspondênciâ por debâixo da porta. Encon-
lison.ic (1o... Sal'liúento de quc 11:ro mc envergonho. trei, por êcaso, a cârta na hora de dcitar-me, É ürn mamento
H,Ill,. do (., .r.:o n: o linha. uonro r. rlz, gr.ndo colc(io no ^ bestante desagradávcl para rnim; Íetâtdo o o mais que posso.
s L,:nr,'o .r: ,or, c ,1 Ll4 quc rrr-1 lú\' m padre dotc con- Âs doles de estômgo sãc gerâtmente supoúávcis, màs náo
sclvar sur, indcpcndênaia Perântc as |a's!ioâs do mundo. Mas sc pode iüaginar nacia de mais monótono, com o andâr do
sôble ôsse ponto, como sôbre tanto§ outros, sou bem o lilho tempo. .{ gcnte vâj, insensivetnente, dando âsâs à imag!
cic gentc i»bre quc rrullc§ coilhcccu atqrela eJpócie da in_ naÇão, â câbeÇa Jica cheia de idéias e é preciso fazcr um õs-
veja, de rancor, do camponês proprietáiio, cm luia com uma íôrço enormc Farâ não sc levàntar. Cedô, aliás, muitro r.ara-
tcl'ra inglnix que lhe consomc a Íidâ, contia o ocioso que mente, a semelhantc tontÊção, por causa do Jrio.
só lira rcndes iesla mesma terra. Iiá muito tempo iá que Àbli a sobrecartâ, com o pressentimcnto de umâ no-
nós outros nâdà Lemos a ver com os "senhores" ! Dc nossa ticia ruim pior.mesmo uma série de más notícias. Eü
pir t1, pc. têr f\r rc lrr.rrr):cnlr x Á.s, profliPiá[io campo- é que eslavâ- mai disposto,- evi.lentemcnte. Não jmportâ ! O
nês, e náo há patrão mais diIícil d€ coritertâr, mais dulo ! tom dâ caltâ me aborrece. Àcho-a de uma alegria gâtvan!
zâda, quase . inconÍenientc, se, como é provável, mcú pobre
amigo já não poCe, pcio mcnos momentâncamcnte, êonti-
nuâr no §eu ministé1.io. "Só você é capaz dê n1e comprecn-
der'", disse. Po! quê? Lembr.o-me cle que êle, muitro rnais
brilhânte que eu, desdenhava-tle ulll poüco. Talvez poI isso,
Recebi umâ cârta estranhe do Pde. Dupréiy O Pde. Du_ cu ainda gosiavg nlêÍs dô1e.
nfêlv to; mÊu .olegc nc n.miuij';o mcnorl nepois. l.,rmiÀou Como p dL qric o p,ocurc com u-gincia. sabcrrilogo u
rnr,{ r.stuclos râo \ci or de e, 5{gu1do as surs últimâs no' que hc.
tícias, ela pr-ó-vigário de uma pequena paróquia da ahoce§ê
dê Àmiens, pois o íitular- do pósto, doente, obtivera a as§is_
l.ôr1cia cle um coadjutor. ConseNo dêle uma iembrança
muiLo viva, quase terna. Davam-no, então, como um mo-
dôIo clc piedade, se bem que, de minha parte, o achasse úer- Minha próximâ visitâ ao castelo preocupa-me bastante.
voso c1n cxccs§o, sensível demais, Durante o terceifo âno, Dum p,,meiro conlrcl,o dôppnde talvrT o (i'to .J, trondcs
lsscnlava se perto de milll, na cãpôla, e eu o ouvia, muitas projetos que âcalcnto êm mctl corâção c cluo â Íortúna e a
vir',, .'..uçcr. o roslo r-condido rm suac pcque'1as màos influência do conde pcrmitir-me-iani, senuiamcnte, realizar.
ri(lnpl'c sui:is de tinta e tão pálidas. Como rôlrprê. minha incxp' rt':lcid, mrnhr b^Lt.p p tambem
Suir crfiâ ó datada de LiIIe (onde creio lcmbral-me de que uma eslécie de fclta de sorte fidi.uiâ po.t:am.5. cm com-
llnr (krs sruri tios, aniigo guarda-civil, mantirüa um comér- plicar âs cojsâs rnais slmples. Ássim, a bcla dulheta, que !e-
servava para as circunstâncias cxcepcionais, e§tâ, ãgora,
38 GEORGIS AENNÁNOS Dú(nro DE uM pÁloco Dr À,DErÁ i9
[:
muito largo. Alérh disso, a Sra. Pegriot, â pedido meu âlia.s, rningos. Não pude deixar de lho .tizer, Íras
llmpou-a, mas com tal desmazêIo que ficarám manchâs hor- mâI, que hão sei se terá compreendialo. "*"""rà)ii)
rlvcis dc essência, como certas borbulhas üisadas em um Bimos juntos de minhâ batina. Em outrc lugar, penso,
caldo muito gorduroso, Estou achândo rneio ruim ir ao cas- ,.
lingiriam nào â nol,ar. o que. atiás. mo aei*aria %riuiàão.'
tclo com â que uso todos os diâs e que já foi cerzida e re- uom que ttberdade ésses nobres lalam do dinheiro e de tudo
ccrzida, principalmente no cotovêlo. Tenho mêdo de pen- que se relâciona com o dinheirc: que discricào.
sarem que estou querendo exibir minha pobreza.. euánta or" Ài".ã"_
cür^r rarece atê que certa pobreza, autênticà. conouistainos
coisâ podem pensar ! unqnlme.mlnlg sua conlianqâ, cria cnrrê étps e irós umã
Gostada tambéra de estar em condições de poder coÍner e§pccre^oe tnumrdad. cúÍhplice, senti bem jsso. quândo,
- ainda que Íósse só o bastante para náo chamâr e aten- care. o sr. e a Sra, Vergenne (ântigos Iâbricantes ao
(ão. Mâs é impossÍvel prever; mêu estômago é ião capri- de lârinh;
mu]lo rrcos que o ano pasmdo comprarâm o câs(elo de Rou_
choso ! Por um n€cla. aqúela dorzinha surgeão lado direito; v-r-oyj,, vlerâm visitá_los. Depois que saíram,
parece que algumd coisa se escâpa de mim: sinto como qué o conde teve
um oIIâr um pouco irónico que signitica\a elaramenle: .iHÀ
um e§pasmo, Minha bôca §eca-se instantâneamente; não
posso mais engoljr coisâ algumâ. :1f-l:.I-9: .murl,o
EuÉI.u..rara_se
EnÍim. esrâmos de novo enire nós,,. E, ná
do casamenbo de Chantal
.bem.São- incómodos. nada mais. Supodo-os perleitamente oos vergenne... Não importa ! .Acho que há no com o filho
Nào soLr aole: sou jguâl a nümàe. ,.§ua màe era qrre analiso tâo mal ourrã
senümen6
"otsanàb siinpt.i pãúd"r;;;;;
uma mulhepinha dura,'. gosla de repetjr meu tio ErnesLo. que
Para gente pobrê. crpio que isso significa uma dona de casa slncera. À maneirâ de tratar elpltôa tu'ao, '
lnlâtlgavel. que nào Iicc doeníc, e que nào dá fuabalho Dara , EvidentemenLe. goslaria que o conde mostrasse mais
pelos moús projeb; de obrcs para
morrer. :"lY:iT*g moqos _
a assocmçao. esportiva. Meõmo pondo oe |arte os suã càúto-
J3ST_-pesTâr.,p-cr
que recusar-nie o pequeiro terreno deiã_
verna granja inúlit na qual seria fácit inslatàr
urua sana loe Jogos. de conferênciâs, de projêqôes,
,".::"^*:^,"-
el,c ? per_
Cerü.smênle. o conde se parece muiüo mâis a um cam- ráo dêsâjêitado para pedir á.;;-p;;n ;u;.
ponês como eu. do que a qualquer rico industrial como âlguns aooa 9y:.*y.
S:T- genLe quer reservar_se um temoo para
de quê me aproximei, outrorâ. quando era coadjLltor. aom pero, sempre, um gfirc do coraçào. ún'irnpu15s refletir e eu es_
duas pâlarras, pós-me à vontadê. De oue Doder disoôêm oa ao meu. ,jr;;ü;_
cssa.s; pecsoas da ajla sociedade que mã-se ãis'tineueni dds
oullos ., no êntânlo, nads fazêm como os outros l- SâbÊn.lr; .^^-?je!i o acaitelo muito. muito tarde. Também
cada voita dos ponteiros,
nâo sei
qu. o minimo sinal de consideraçáo mê desconeerta, che- :!.s!-e^9lFmq; contento_me Àá-mi_
ruresüar a lntrencao de sâir. o oue nr
Énrnm até a deferência pam comigo, sem conluclo dejxar, ;;ü;#":';.::31::i..H.Hlij ""â,f;
lrrr momcnlo. de sugerir que 1,â1 respeil,o em molivado
rlxruls pclo oâráler dp que sou reveslid-o. A condêssa man_
1".:,: -:: ll;_._"lt
t,rutm, sai, hão me lembrando màis de uma só
da"l que teric podido dizer, mcs cheio
tcvc rrrlls linha impecá1eI. Trâzia um vesLido de casâ, mujlo !.11lra
urc,uc corulanca, oe âlêeria, com a impressáo de uma esné-
Itnlrl's c. sôbro os cabelos grjsathos. uma espécie de man_ renle- noficia que gostâria de dar logo de uma exie-
lllln! que mc lí mbrou â que a pobre mamàe usava, aos do- a um
pouco, quase corri, no caminho do pr;sbiiérit. amgo.
por
."afts*"
4o CEOÀGE§ BERNANOS Dúnro DE uM p.íioco »r lr»au 41

â êste pedaqo de tpüa, dâ qual exlrâi a seiva e à qual enlle-


gara- seus mortos, Como deve ser profunda. sêrreta, sua ex-
periência da vida I Esla terra possuirá moir eorpo. como o
l\duiío freqüentemente, dou um jeito de entrâr no pres- dc tantos: majs depressa, segurdmenl,c, qLr. o dos'oulros.
bitério peto câminho de Gesvres. No alto do outeiro, com
vento ou com chuvâ, assento-me num esquecido tronco de
álamo que 1á está, há não sei quantos invernos e começa já
a apodrecer. Á vegetação par'âsita Íêz em tôrno dêIe uma
espécie de estôjo que ora acho bonito, ora medonho, confor-
me o estado de meu espírito ou a côr do tempo. tr'oi âli que , Há cerios pensamcntos quê â ninguém ouso conliâr c,
enhetanto, não me parenem loucos: longe disso t eue seTja
me veio â idéia de escrever êste diá! o e penso que náo a oe mlrn. por exempto. se me resígrâssê ao papel ao quâl gos_
teria em nenhuma outra parte. Nesia regiã.o de bosques e 1âriam que me ati\êsse muitos calólieos. preocupados, so6re-
pastagens recortada de sebes vivas, coâlhada de macieims, tudo, com a conservacão social, isto é, em resumo. com sua
não encontraria outro observatório, donde â aldeia me sui- própda conseNâçâo ? Oh I Não âcuso êsses serúores de h!
gisse assim tôda inteim, concentrada no côncavo de minha poc sia.. Acredito que sejam sinceros ! euântos se julgaÍn
mão. Olho-a e nunca tenho a impressão dê que €la me estejâ adeplos da ordem e não aleÍendem mais que alguns hábiios;
olhando tâmbém. Mâs não acreditô que mê ignore. Dir-sela as vezês. nem lsso. lnas um simples vo.abulário. cujos têr-
que ela dá as costas e me observâ, olhos semi-ceEados, de mos estàode.tâl forma brunidoi. rcidos pelo u"o, que ser-
esguelha, à laiâ dos gatos. vêm pam justificâr qualquer coisâ, nada ionsiderândo Das-
Que quêr de mim ? Quererá, mesmo. alguma coisa de sivel de dúvida. Uma das mais incompreenciveis desgrâ(ss
Illim ? Dêste lugâr, ouho que não eu, um homem rlco por dos homens está em que devem confiar 6 que há oe maÉ pie-
êxemplo, poderia avaliar o preço destâs caslnhas de tâipa, cioso. a essa coisa, meu Deus, tão instáv;l, tão plásticâ- _
calcular a exata superJicie dêstes campos, dêstes pmdos, so- a palavm! Serja preciso muila coraqêm pâra iTerificar. â
nhâr que pagou a soma necessária e que esta aldeia the cada instânla, a chavc. adaptá-ta à sufpropiia fêchadura. A
pedence. Eu, náo ! gente-prafere âpsnhar a piimeira qu. nos cai sob as màos,
Por mais que o fizesse, desse-lhe até a última gôta de Iorqa-Ia um pouco. e, se a Iingüéta luncionâ, nada mais sê
p^ede. Admiro os revoluclonários que fazem láo peno.os e
trneu sangue (e é verdade que às vêzes imâglrro que ela me
pregou numa cruz âqui no alto e que me olha ao henos tão grândcs êsÍo).qos pârÍl dinar lar pal.edes. quaido o mo-
,l
ri isso pâra assistir à minha morte), por mais -que o fize§se lho.de chaves dos cidadàos bem-pensânfes Ihei leria propi-
1i não -a põssuiriâ. Em váo a vejo, neste momento, táo branca, clâ(lo o melo de entmr pela portâ. tranqüilamcnte. sem
tão novinha (por ocasião da Jesta de Todos os sântos pin- acoroal nrnquém.
,l
taram suas paredes de âzul claro) ; não posso esquecer-me de
quc está âli, há séculos; sua antiguidade me inspira l1lêdo.
. Recebi, esta Ínanhã, nova cartâ do meu antigo camâ-
Iâda, mâis esquisita alndâ quê a primeira. Terminã assim:
Muito antes de ser consfuuída, ío sêcu]o quinze, a pequena "Não estou bem ale saúde e é êste o meu único motivo
igrcjo na qüal, apesar de tudo, estou apenas de passâgem, de inquietaçâ"o. porque náo goslarja de molrcr. cgora que
esta aldeia curtia, equi, pacientemente, o Írio e o calor, a cheguei s-o pórto. depois de tantas tempestades, Iiíeni pior-
chuva, o vento e o sol, ora próspem, om miserável, agarradâ tum. Íodavia, não quero mal à minhd doença; ela me ãeu
l«.
I

rl
ú
42 CEONGÉS BERNÁNOS DIáXIô DE ÚM P,(AOCO DE ÀI,DEIÀ 4X

o rcpollso dc que precisava. que Dão 1,eria conhecido se não o "venha depressa" apêrtoú-me o coração. Depois de seu
Íôsso cla. Acabo de pâssâr alezoito meses num sanâlório. pobre discuNo (tenho â impressão de vêlo coçando a testa
Isso pcnritiu-me "cavâr" sêdâmente o problema da vida_ iom a ponta de sua caneta, como outLora), náo pôde mâis
Corn urn lou, o de L'etlêxao. pênso qu. voae chegariâ às rnp"- reter essa palavra de c anQa qüe Ihe cscapa: "venhâ de_
mrs (onc,u.oes qun pu, Aurea mcd;ocrilu., E.sas ducs pa- pressa !"... Por um úomento, imaginei que talvez não lôsse
lavlas llre provalão que minhas prctc:]sões continuam rno- o que eu pensavâ, que ôie recebia, simplesmcnte, os cuidâdos
dcstâs, que não sou um revoitado. Conser-vo, ao coÀtráriô, de uma pessoa de sua fâmíliâ. Inlelizmente só the conhe-
cxcclentc recordação de nossos mcstr.ca, Todo mal vcm não ço uma irmá, empregada de um botequim em Montreuil. Não
dâs doutrinâs, mas da ectucaqão que receber.am, e qüe nos há de ser ela "essa pessoâ que merece o maior tespeito".
transmitiram, por não conhecerem ouíro modo de pônsar e Não impota. Irei mesmo, certamente.
de sentil. Tal educação fêz de nós sujeitos individuâlistâs, veio ver-me. Muito amávcl, â um tempo res-
solitáTjos. Em resumo, não havíamos ainda saíalo alà infância; - Oe conde
peitoso familiar, como sempre. Pediu-me licença pâra
caslelávamos sem pârar. ompliávJmo\ nossas dore., dêsdo-
Dlavamos noq\rs al.gridc _ invênlê\.lmos â vida. (,n lugar
fumar, e deu-me dois coelhos que mâtarâ no bosque de sau-
oê vrve-ta. ,lJe lat lorma que, anlns d. arriscar um l)àsso,
veline: "a Sra. Pegliot preparará isso, amanhá de manhã,
para o senhor. Já falei com e1a."
lnra do nosso pequ.no mundo. sr r 1o§.tâ preciso r, tcmar o
primêiro pcs.o. Trâb rllro pano.o qu! nào sê Írz 5cm sa.ri- Náo tive coragem de lhe dizer que, atualmente, meu
lrcros do amor-próprio. nI]s a sotillio ó mais peno-d iinda. estômago só tolera páo sêco. Seu guisê-do vâi custar-me
um diâ, vocé há de cônvcncer se disso. meio dia de pagameüto à empr€gâdâ e nem êstâ se regalará
com ê]e, Ircrque tôda a Íamítia do guarda-matas está enfa-
"Inútil referir-se a mim, por aí. Uma existênciâ labo- rada de comer coelho, É verdade que posso mandar o co-
Iiosa, sã, normâl enfinl (â palavrâ normal está sublinhâda roiDha levar as sobras pala minha velha sineirâ. úâs só À
três vêzes), develia ser coisà eüdente pâra todo o mundo. noite, pâra que ninguém desconfie. Falâ-se demais do mau
Entretanto, nossa sociedade é íeita de tâl forma, quc a {e}i- estâdo de minha saúde.
cidade semprc the parece suspeita. C;reio que um õcrto cris- O conde náo apr-ovâ muito meus proietos. Previne-lne,
tiani.mo._bem di.l-nr.'ado do espi.ito do" Evangclhos. êstá sobretudo, contrâ o mau espirito do povo que, muito Íâvo-
na Iair dérse prêconccilo comum a todos, crnnlL§ e incrédu- recido, desde a guerra, diz ê]e, não deve ser lisonjeado.
los. Resleil,ando o libprdlde alh, ia, prêÍeri, ai.c agorâ. guxr- muito atrás dessa gente, não se eniregue
dal silên.io. Depois de ter refletido muiio, decidõ.mn, hoje. - Não andeDeixe
açodadâmente. qüe o procurem.
a rompé-lo, no jnterêsse de uma possoa que mcl..cc o maior o conde é sobr'lnho alo marquês de la Eoche-Macé cujâ
respeito. Se meu estado melholou bastante, cle âlguDs mcses propliedade s-Â encontra a duas léguas sômentc de miüha
Dxra cá. aindc tenho seli-\ inquictacóes de quc lhc talcrci.
Vcnha aiepressa'. ierrã natal. Passar'â ali, antigâmente, uma parte de suâs
Jédâs e lembm-se muito bem da pobre l1tâmãe, cntão em-
ItLxeni 'portuit, . . O estafeta enttegou-mc a cârto, estâ pregaalâ no castelo e que lhe dava, enormcs pedaqo§ de páo
n1anh,r, quando ia saindo para dar o catecismo. Liâ,a no ce- com nrant' iga lirrdos à. ei.'dndidas. poi ro d.Íunto mar-
mitór'io, a &lguns passos de Ârsênio que coneçava a abrir quês era muiLo seguro'. Fui r,u, aliás, quem o pós bastantê
unlir cova, a da Sra. Pimochet que será entctrâda âmanhá. aturdido com minha perguntg, mrs o conde lespondeu-rne
TÍrmb{x1r ôlc estavâ cavando â vidâ. . - pronta e gentitmente, sem se mostrar, em nada, con§tran-
DláRro DE uM PÁroco Dr ÁlDErÀ 4t
11 GÍORGE§ BECNANOS
o visário de Torcy não gosta déle Só o chama de "con-
aezin--no'11: seu condez-in-tro Isso me irrita'
gldo, Quêrida mamâe ! Mesmo táo jovem ainda, e tãd po- " uma vez'
bre, §ebia i[spirar estima e simpâtiâ. O conde não diz: _ I,or oue -condez:nho'? perguntei-lhe
"A senhora sua mãe', o que, penso, poderia parecer um poum
- ,*
i'iilüã'e üiü"lã.-e""tit olteló
eteito
e
i{Lrm
da época visto
antiquário ou
âfetado, mas pronunciâ 'a máe do senhor', "sua máe", insj,s- ã"ltponêi cie"taz
tindo no "sua" com uma gEvidade, um respeito que rne en- ""--rri"'t"'ãi reconheceriâ
i]X-"ilr, "rn aia aâ srânde bulício você não o o ver âinda'
chemm os olhos de Iágrimas. "*"i à",e-"sasse minha esperan(â de
deu de ombros'
Se essas linhas pudessem cair uJn dia sob olhares indife- irr*r"".!ãi'l'"1'pàr"'-riii"ilu .o"l"a^0" o"hoços
"J*"'ii-r"
lentês, com certeza rre achâriâm muito ingênuo. E §ou in-
l'-:-;- ielo mealheiro saxe' seu condezinlÚ' mas
gênuo. de lato, porquê nadâ exislc de inferior nessa espé- incâDaz de soltal um níquel 'le
*'"t^ã";.r""io I

cie dê admirâção que me inspira ésse homem, a.Iiás, dê as- o" r'uo tuito geÂeroso' sê náo dá â im-
outros' éle
pecto tão simples, não râro rnesmo tão lovial, que p&rece r,r"."àã- ã"-".tu, prêso ao dinheiro como tantos
um eterno estudânte, em férias et€rnâs. Não o julgo meis àosta do dinheiro; isso é verdacte '
*'%;-;i;";-*"'
intpligente que os outros e drzem que é múto áspero com tambóm âlguma coisa sóbredepois chantal'
seus rendeir\os. Náo é fambém um parcquiano exêmplar muito relicente sü-
' acneiã
porque. sê não perde missa aos domingos. nunca o vi co- ;"s dum ie;to.que hoirivelmente' Ficouo
",riut*.iít"iuii"l"àrlet.r
;it';#;;ã;ã;.. mê Dareceu rorcado
mungar. Não sei mesmo se Iará â Páscoâ. Por que será quê nome ate Luisa parece !e-to lrrrLauu'
Íoi logo ocupando, iunto de mim, o lugar ah ! tantas vêzes vãiúrió, a cara calei-me'
vâzio ! duln âÍIrigo, dum aliado, dum -companheiro ? Tal- '-_--- v."aaepois't"ci',ou amizade' observou_me _um dia
iu- a vocaçÓo daor-rrieux
vez seja- porque eu creio âchar nê1e essa "naturalldade" que J'cónego Tome cuidado- para
em váo procuro nos outros. A consciência de sua supedo- -""-uiriJ'"iiii'.ã.
',i'i.* r'ã^irãã" nào se traisforme em paixào De tôdas as
ddade, o gôsto hereditario do comando, a própria idadê não incurâvel'
óaixões, esta é a única
conseguimm marcá-lo com essa gravidatle Íúnebre, &se âf
de co[fiança suspeitosa que o simples pÍiviléglo do dinheiro
confere aos burgueses mâis insignificântes. Âcho que êstes
estão â todo momento preocupados em "conservâr as devi-
dâs distânciâs" (pâra emprcgar sua própÍia linguagem) ao sejâ Mâs conserva'mos para sâl-
pâsso que êle, o conde, âpelras ss conserva no seu ]ugar. Somos conservadoÍes. porque .o
Oh ! sei bem que há muito coquetismo
.'--.::T ;;; -ar''i.-rrndo náô pode compreender'
inconscientê neste tom breve, quase rude,
quero
- onde nã,ocrer
que
sê per- lfri'iJ üüà, ãúii.lii ora o mundo nào pode

cebe a rnínimâ - condescendência e que, no entanto, a nin- mâis "ã


contentar-se
"'*'i^-I-il^^ em durar,
talvez durar' Dumr mui-
guém humilhâ e sugere ao mâis pobÍe úenos a idéla de qual- ---a" sim nocleriartu k*ivelmente pesado es-
quer sujeição que a de uma disciplÍna livlementc aceita, teí#:'-d;'i;iü;uiã-l"io
;,,::-";;;; à iFrrâ. ôom uma cârga enorme. Àcosturnara'sê
militaT. Muito coquetismo. Muito orgulho tembóm. Iúas '" o" ostücia com era acei-
gosto de ouvllo. E quando the lalo sôble os lnterôsses da :ill à'Í;üüü:'il-u"'-ã"-o'*- dâ iniusti(a uma.cons-
paÍóquia, das almas, da Igrejâ, e que diz "nós" como se êle iãir'à'"i"'üüõ, t"a; ale uma vez;.fêza êscravidáo oh ! sem
I
o eu só pudéssemos servir à mesma causa, acho lsso natural; ;i;,i;#";il';;rt!as, instil'uiu
recelo censurá-Io.
46 CEONGES BERI{ÁNOS DrÁxrô DE uM PÁloco DE Ár,DEtA 47

dúvida, quâlquc! quc Íôsse o gmu de pedeiçâo â que pu-


I dessc um Llia rtlngir. nio permâneceria menos sujeitoà mal-
di(úo lan(irda sóbr. Ad;o. O diabo nào ignorava isso, sa-
II llir-o ulú mi itror que qualquer um. Tâmbeá, pdra quo lan- Dei essâs linhâs âo vigário de Torcy pâra ler, i]lâs nâo
çar a maldiÇáo sôbre os ombros de todo o ,,gado humano,,. tíve coragem de dizcr que êram minhâs. Ête é Íiníssimo - e
quando sc podcria reduzir tanl,o o pesado iardo ? Bastârja quc eu minto-tão mal q;e não posso estar ccrío de que tenha
s0 rcselvas§e a mâiot soma possível de ignorância, de revoltà. -
ac):editâdo. Devolveu-rne o pâpel, dndo um risinho que eu
de dcscspêro a umâ espécie de povo sacriÍicado, um povó conheço bem, que nada ânuncia de bom. Enfiin, dis§e-me:
sem Dome) sem historiÉL, sem bens, sem a1iâdo§ _ pelo mc- sr rr âmioo niro .irrcvc mal; a coisa eslá mesmo bêm
nos confessáveis -
l,r'abâlhâda. De-um rnoclo geral, há sompre v,nlagem--em
- sem JamíIla
deuses ! Que simplificação - pelo menos
do problemâ
legai
- sem
social, dós mótodos ner]sâr correl,amente; mcs seL'ia melhor ficar por â1, ve-se
de govêrno ! à roisa lal oual, scm mus:rc, ê nào se rorre o risco de cantâr
uma cançàô para 5i 3fcnas QuJndo você en'ontrar umâ
_ _ Mas essa instituição que parccia inabalável erâ, na reali_
dade, Ímgilimâ. Parâ destituila de uma yez, bastaria aboMa vctdade o;lo aaminha, a:\"-â b m, dô lo.ma a podêr reconhe-
por um século. Por um dia talvez I Uma vez conÍundialas as cê-la deôois, lnas náo t spere qua ela lhê pisque o ólho. Âs
rlasses. uma vpz dispersado o povo expi.l,ól.io, que fórça seua verdade! do Évangelho nunca piscam o ôlho. Como as ou_
capaz de o Íazer retomar o iug-o ? tras, das quâis nuncâ sc pode ter a prctensão de dizeÍ, ao
cerú, por onde andâram, antes de chegar até a gente, as
Morreu a instituição. O Ántigo Mundo desmoronou-se converlações particulares são perigosas. Não iliâ citar paaa
com. eIâ. Cria-se, Íingia-se crer em sua necessialaale; era vocô um-lioo_de bonomiâ planturosa, como eu Entretanto
aceitâ como um fato. Não se restabelecerá mais. Á humâ- ouando md calha lct umi ictéia umâ dêssas ideias que
nidade nâo ousará renovar essa tdste ea?eriência; arliscar_ -
rioderLam ser Úlêis às almas, bem enLFndido. polque as ou-
-se-ia demals, A lei pode tolerar a injusiiça ou âté favore- irasl... lento colocála diante dc qeLls e a laqo logo es-
I nunca
céJa sub-repliciamenic: nào mais a sancionaTa. A iniustica corresar. -ao ionqo de minha oraçco. É implessionante como
i por rsso_.mats há de tcr um estaluto lcgal; acalalu_se. Nem tal id-éia se djlui. Às \êzes, Iica irreconhec ivel , . .
, socledaoe entrelât1to. está mcnos espathada pelo mundo. A Não importa. Seu amigo tem razão. Pode a sociedade
J
que náo ousâsse mâis a injustiça para o moderna re;eEar sêu meslre; elâ lambêm foi redimidal já
bem de poucos,.condencr-se-ia -utilizar
a nào lbe basti adminislrar o pcLrimónio comum tem de
I dc um.mal que trâz dentro de plostêguir na destruiçáo
si, o qual, reprimido sempre nartir- cor,lo nós outros, con-:inla ou não à procura do reino
pclcs leis. rêêpareceria quase no mesmo inatante entrc'os àe Deus. E seu reino nào é déste mundo. Por isso nio ha de
_salva'te
cosrulncs socrals. para rcnovarr em senlido inverso, incân,á. em meio do caminho Há de correr sempre:
velmentc, o mesmo círculo infernal. por bem ou por mal, "árar
Lu morre l ' Outra coisa náo se pode dizer.
deve, de agorâ em diant€, pâúilhar a condição do_homctu; O que seu amigo fala sôble a escravidáo é tâmbém
corrcr a mesmâ aventura sobrenâtural. Outrora indilercnÍe muito cêrto. Â antiÁa lei tolerava a escravidão e os após-
ao bcm c co mal. o mundo apenâs conltecia a lci dc scu Dró- tolos, por sua vez, a toleravam. Não disseram ao e§cravo:
prlo pulor: o crisLianismo deuihe uIna alma. uma llma "Libeda-te do têu dono", ao passo que diziam âo luxurio§o,
salva! ou l)ctder, fara por exemplo: "Liberta-te da carue e sem denDrâ !" É uma
48 dEORGES BEANÀNOS DrÁlro DE uM !ÁÂoco DE Ar,DrL{ 49

distinÇâo suíil. E por quê? Porque, suponho. queriam dei- últimos. Tem o aspecto de um Íanl-asma que volia do
xar aó mundo o Gmpo de Tespirar. ânles de lar§á-Io em Íosl,im dâs NúpciFs: coln I túnica branea ,. -Aliás' que
uma âvcntura sôbre-humanâ. E vejâ que um homem Íogoso ouer ? É entâo que o Estado começa a fazêr boa cara na
como Sáo Paulo não tinha a mínimâ ilusão sôbre tai§ coisas, desgraca. Dá bailho aos gârotos, tràta dos doentes. Iava as
Á âboliçáo ala esclavatura náo supdmiriâ a explorâçáo do camisas, cozinha a comida dos miseráveis, esfrega â esca!_
homcü pelo homem. Para iala/ clâÉmente, um €§cravo !âdeiE dos arruiDâdos, mas espia o relógio e pêrgunta a si
-para
custava êaro; daí o fato de seu dono ter para com êle certa máimo se me deixarão t€mpo se ocupar de §eus pró-
considemqão. Em vez disso, vejâ: na mirüIa mocidade, co- Drios negócios. Sem dúvida, ainda tem alguma esperançâ de
nheci um asqueroso dono de fáblica de vidros que punha àmoresa-r máouinas pâra lazerem o traba-lho de que oulrora
qarotos dê quinze ânos a soprar canos compridos e. para ." àncãrr"earàn os escravos. Quâl ! As máquinas nào c.s-
aubstituilos quanco seu pobre pulmào estourava. o animal sam de mllliplicar-se de sorte que as máquinEls pârccem
só se embaraçavâ com a escolha. Prefedria, cem vêzes, §er ter sialo inven_tadâs só para fâbiicar de§empregados, náo
escravo de um daqueles bons burgueses romanos que, certa_ vô? É oue o nobre levã uma vidâ dum. Enfim' tenta-se
mente, nâo arnarravaln cachouo com lingüça. .. Não, Sáo alsuma óisa alirda, tá tonge, na Rússia Note que não âcho
Paulo náo se ilüdia. Contentâva-se em saber que o cdstia- oúussos oiores Que os outros l,odos malllcos. furiosos, os
nismo legara ao mundo uma verdadê que ninguém haveria iràmens oà hoje i mas ésses- diabos de rusaos têrn estô-
ale deter, porque tinha, ântes, peneírado no mais profundo mago. São flâmengos - do Exhemo-Norte, êsses tipos ! Devo_
ílas consciências. Por outro lado, o homem se reconhêcefa, rarã tudo; poderãd certamente, dumnte um século ou dois,
logc, nelâ. Deus salvou câda um de nós e cada uln de nós devorar os intelectuais sem estouralem I
vale o sangle de Deus. Você tmduza i§so lá como quiser, A idéia dêles, âfinal dê contâs, náo é esiúpida. Natu-
até em linguagem mcionalista a mais idiota de tódâs ra,lmente, tmtâ-se sempre de êxtelminal o pobre ora,
isso obrigará você a aprcxirnâr- palavms que explodcm. -âo o Dobre é o testemunhõ de Jesus Cristo, o herdeiro -
do povo
menor contaeto. A sociedade -tutura poderá tentar sentar_ iuilâico ! mâs em lugar de reduzilo a um rebanho' ou
-se em cima dessas verdades. EIas pegarào fogo por dcbaixo. àe matá-lo,- imaginaram- fazer dêle um pequeno câpitalista
Náo impede que o mundo continue a sonhâr sempre com ou mesmo suponho que iudo vá cada vez melhor um
o ântigo cohtrad oulrora Ieito com os demÔnios e quc de- -
pequeno funcioAãrio. Nãda de mais dócil que isso, de- mais
veria ãssegurar um repouso elerno. Reduzir um quarto ou regulâr.
um têr(o do gênero humano ao estado de um rebonho, mas No meu cantlnho, acont€ce_me também pensâÍ no! irs_
a um rebanho supedor, não s€da tâ.lvez paga! demosiodâ_ sos. Meus colegâs do §eminário mâior Íalavam a tôlto e a
mente câro o aparecimento de super-homens, de puxo_san_ düeito sôbre o; russos. Pdncipalmente para âssombrâr os
gues, do verdâdeiro reino ter!eshe... Há quem pense isso, Drolessôres. Nossos colegas democráticos são muito gentis,
émbora náo o diga. Nosso senhor, esposando a pobrezo, ele_ inuito zelosos; eu os aeho, porém - como diria ? - um
vou tão alto â dignidâde do lobre, que iá nóo scÍá possÍvel Douco bursueses. Aliás. o povo não qosta mul,o dêles, isso
descê-Io do seu pedestal. Deu-lhe um ântepassodo c que ê um tatol sem dúúdâ, porque nào õs compreende. será ?
I Um nome e que nomc I A gcntc o- EIII r€sumo, repito que me âcontece pensâ! nos rus§os com
antepassado - Prc(ere
rcvoitado ê resignâdo, mas, de qualquer Íorma, parcce per- uma esDécje dacuriosidade, de ternura Quando conhecemos
tence! iâ ao réino de Deus, onde oB prlmolros 8eráo o§ a miséria, suas misteriosas, suas incomunicávei§ a.Iegdas, os
50 CEORCES BIRNANOS DtÁlro DE vM priroco DE ÁLDÉtÀ 51

esclitorcs russos, por exemplo, Iâzem-nos choral. Qüando âquêle quê pleservou do desespôro um coração de menino !
meu pai mol'rcu, manãe teve de ser opetadâ de um tumor lj uma coisa que ac pessoas do mundo náo conhecem bas-
e ficou quatrc ou cinco meses no hospital de Berguette. Fui lcnte. ou_ que procut"gm esquecer. pois sua lembrânça lhes
paro â casa dc unla íiâ que tinha um botequim perto de Lens, oarrâ mcdo: cntl e o. pobres. como entre os rjcos, um pequeno
um honível balracão de tábuas onde sc vendia genebri:r aos miserável está sôzinho, tão sôzi4ho como um lilho dó rei.
mineiros, pobres demais pâra fu adiante, a um verdadeiro entre nos. nêste pais, a miséria nào se parlilha,
café. A escoia era dâi a dois quilômctros, e eu estudâva rli- ^o.menos
cada rriseravel vive só:inho na sua miseria, uma mtsêria que
nhas lições assentado no asgoalho, atrás do balcão. Um assoa- ê só déle, como scu rosto. spus braços. suâs pernas. parãce
lho, quer dizer, um péssimo esfuado de madeim todo apo- quc náo-cheguei a lazrr uma idêia ctam dc lal sotidào, ou
drecido. O cheiro da tema insinuava-se eníre as grôtas do lalvez não tênha Íeito id, ;a alguma a respêibo. Obedccia s;m-
assoalho, uma terra sempre úmidâ, lama. Nos sábado§, à plesmcnie à .lêi cla minha vioa. scm cómprcnndê-la. Terià
târde, nossos clientês nen, tomavam o trallalho de sair para dc acabal amândo-a. Nao há nada mais critei oue o orpulho
Íazer suas necessldades: urinaram ali mesmo no chão e eu do! miseráveis e oi" quc, bruocamÊnte. o livro de'corki.;in,to
iinha tanto mêdo, que âcabava domindo, debaixo do bal- d, láo iongÊ. dessas IdÚulosas tcrras, dava-me lodo um povo
cão. Náo impoí,a: o professor gostava de mim o me en]- por companheiro.
prestava livros. Foi lá que li as recordaçóes dâ inlância de Emprcsiei éssc livro a üm amigo çlur-. nâturalmente, nào
Máximo Gorki. mo .le\ol\eu. Tambcm. não gosraria de relé-lo: para que?
Há focos de miséda na Françâ, evidentemcntc. Ilhas Bastâ ter ouvido uma vez ou acreditado ouvir a qulixa
de miséria. Nunca bastante grândes para que os miserávels de.um povo, uma queixa-que não se parece á -de neilhum
possam viver lealmente entre si. vivel uma veldadcila vida outlo povo (não, nem mesmo à do povo judeu, macerado em
de miséria. Na trlanqâ, a própria riqueza é tão nratizada, tão seu orgulho, como um motto em seus aromas). Não é, âliás,
humana, náo sei, que em parte alguma brilhâ, cintila, r.es- uma queixa, é um canto, um hino. Oh! eu sel oue é um
plandece o tremendo poder do dinheiro, sua fôrça ccga, sua hmo de igrejal isso nào sê pode châmar uma prece. Ati
crueldade. Imagino que o povo russo, êste sim, foi üm povo há dÊ tudo. como se cliz: o gemido do muiiquê sob;s aqoiles,
misêrável, um povo de miseráveis, que conheccu a embria- os grilos dâ rnuthpr ItagetaAc, o sot..rco dô 6ébado e é"sô sru_
guez da miséria, seu doüínio. Se a ]gl'eja pudcssc colocal um nhido de sel\agem alegnr, cs.e lrêmito das Ênlranhas" _
povo nos âltares e escolhesse o povo }tlsso, Iá-lo-ilr o padro- porque â misériâ e a lur<úria, meu Deus, se buscam e se
eirc da miséria, o intercessoi_ particrüar dos misorrivl,is. Pa- atraem nas trcvas, como dois animais íami[tos. Sim ! tudo
rece que Máximo Gorki ganhou muito dinheilo; lcvâ uma isso deveria, de fato, horrorizar-me. Entretanto, creio que íat
vida Íaustosa, por aí, nas mârgens do Mccliten,Lnoo, s.Ílündo Inisériâ, esquecidâ do própdo nome, indiferent€ a tód; inda_
gaqao ê râcrocrnio, Tepou.ândo cm qualquer lugar sua lace
li num jornal, Ainda que sela verdadc sobrclrldo se fô,
\crLladc -
náo me arrependo dê rezar por'ôt.. l(xi,'.r,'s Llras. atónila. há de despet.tal., um dia, récosàda no- coracáo de
lrá lanto-tempo. Aos dozo anos. náo ou"o dizol qu,. iHnnri,\a Cristo.
a cxisl,ência de Deus, pois, entáo, já reconlrccia sua voz cn- Aproveitei, pois, a ocasião:
íIc muitas outms que faziam no meu cérebl'o um bârulho de , . - E se triunfarem apesar de tudo ? perguntei ao vi-
l,cmpcstadc, dc grandes águâs. Isso não inrpcdiu quc a pri- gário de Torcy. -
mcirâ cxperiência dâ desgmça Iôsse terrível. BcDdito seja Refletiu um momento.
52 GEORGES BEhNANOS DÍÁlro DE uM !,í!oco DE AT.DEIÀ

Podc estar' ccrto de que náo acoiselhadà aos pobres dadc que r.ne ó estmnha, parâ â quâl não me dispõem, aliás,
diabos- clcvolvêssem seus títulos de pensão ao fisc!. À coisa rem. meu nâsciaento, nem minha educâcão, É certo tam-
trâvctia dc dular enquânto durasse... Lrlas, enfim, que quer ? bt m quc o vigirio cl^ T,rcy. para algumrq ppssoJsrpa\sã Í)oÍ
EstÍLmos âqui para ensinar a veldade; a verdade não nos bastante grcsseiro, quass llrlgar * ou, como diz tcondêssâ
dcvc cnvcrgonhcr.
Suas mãos tremiam um pouco sôbre a mesa; náo muilo, -dôI.comuln. Mas, cnlim, €u posso escrevcr âqui o que enten-
sêm ârriscar l"lo a prê:udjcar quem qu.i que ieja. pojs
e, entretanto, eompreendi que mi1 1a pergunta âcolclâva oP)11. O OU: me pJc,, ô humanamente ao nr.nos sêr o
nêlc a lembranca de tutas terriveis, durante as quâis quate caráter dominânte dessâ noble Íigura é a altivez. -Se o se-
lhe soçobraram â coragem, a râzão, talvez a própdâ Jé... nho! ügário de Torcy não é um homem altivo, essa palawâ
Ántes de respondet-me, fêz um movimento de ombros, como não tem sentido, ou pelo menos, de minhâ pârte, não seria
o homem que vê um camirho b.r[êdo e vai desimpcdi-lo. capaz de lhe êncontrilr um sentldo. Naquele instânte. se-
Ohl não teda sido muito p3saclo em luas mãos, isso não ! gu?âmente, sofria eür sua aitivez, eln süâ altivez de homem
* Ensinar, meu fiiho, não ó briDcadeim. Não falo da- altivo. Eu soíria coD)o ê]e; gostâria tanto de Íazer alguma
queles que se limitam a dizi:r llelas palevras; você cncontrará coisâ de útil, de cficaz ! Disse tôlâmente:
muitos dêsses pela vida afola; aprcnderá a conh€cê-los. Ver- Entáo, eu tambóm devo resmonear a miúdo, porque...
dâdes consoladorâs, dizem. A verdade liberta primcir.o, Só -* Câle-se, respondeu-me. (Surpreendi-me com a súbitâ
depois consola. Àliás, não se ten1 o direito de châmâr a isso doQura de sua voz.) Ninguém poderiâ exigir que um pobre
coDsolação. Por que !1ão condolêncins ? À palavxâ de Deus diâbo como você fizesse outÍa coisa mais qüe recitaÍ suâ
é um ferro em brasa. E vocô, que a ensina, quercria apanhá- lição. Mas Dêus, âpesât de tudo, abençoâ sua licão, porqüe
-la com pioÇas, por môdo de quêimàr-se ? Não a aÍlouaria às você não tern o jêitão próspeio dum confeÍencistt pãra
mancheias ? Deixe-me l'ir. Un1 padrê que desce do púlpito missas rezâdas. Vejâ, trrosseguiu, qüâlqrer jmbocil, o pri-
-seiroa de
cadeira da Verdade eom â bôea frânzida como tra- meiro que suriâ, não podeda fic insensível à doçum, à
galinhâ, um tanto- aeâIorado, mas contentc, não prê- t€rnura da pala\rra. tal como no-la transmitem os Santos
gou, lesmungou apenas. obsêlve que isso pode acontccer a Evangelhos. Nosso Senhor âssim quis. Está na ordem dâs
qualquer um. Somos lodos uns dormjnhocos. É o diabo. coisas. Só os débeis mentais ou os pensadores se crêem
às vêze§. a genlê âcordart os próprios âpóstolos tinhcm um obrigados a girar âs pupilas e mosírar o bmnco do ôIho,
sono pesado não é? Enfim, é preciso antes de fâzer o simples gesto de ab r a bóca. E, depois,
- em EGetsêmani.
dar-se conta -de certâs coisâs. você comprecnde que o in- â natureza procede da mesma forma: acaso, pâra o peque-
divíduo que gesticula e tmnspira como um carlcgador', nem no que repousa em seu llcrço e vâi tomando po§se do mundo
sempre está mais acoldado que os outros, niro ! Alilma sim- com os olhos há um dia âpenas abertos, a vida não é tôc1a
plesmente que, quâ.ndo o SenhoÍ Íaz brotar dc mim, por suavidade, tôda calícia ? No entanto. â vidâ é dura ! Note
casualidade, umâ palâwa útil às almas, pcrccllo-a pelo so- âindâque se tomâmos âs coisas pelo s.u lado bom, a rc.ppçào
Jrimcnto que me câusa. da vrcla nao ê láo engdnosc como pJrr.c, pois a morLe nâo
Riâ. mas eu não rcconi1eciâ mais o scu modo hâbitual pede outra coisa que a fidelidade à p'omes.e lÊil,â, na manhà
dc ril. Eta um riso corajoso, certamênte, mas dilaccrado... dos dias; o sorriso da morte, por ser mais grave, não é menos
Niio mc ltreveriâ a julgâr um homem tão suporior a mim doce e suave que o ouho. Em resumo, â pâlavra se fâz pe-
cm todos os seníidos; vou referir-me, ôpenas, a uma quali- quena com os pequeno§. Mas quando o§ grandes o§ so-
-
Dúnto DE uM PÁ.Boco DE ÁlDErÁ 55
54 GÊORGES BERNÀNOS

cido I Nâs bolsas de escuclos. Nosso senhor teria escdto com


bonito repeti-]a como um simples conto
berbos
de Íadâ. - sóâcham
lhc conservando o§ aspectos enternecedoles, suâ mào: "Perico dê morte", como lâz 11 adninistracão de
ponles c câIcadrs. nos posLes dos lranslormaclore' elétri
úéticos. lnnho mcdo - mádo por i'lÀ" nâl,uralmenl,P vocé cos; a gente quer que...
ira clo ouvjr o hiDócrita. o luxurioso, o avarenlo, o mall fico Pôs-se a perconcl a sala de um extlemo âo ouíro, âs
com seus làbiôs cdrnudos e scus olhos brilhantes - 3rr'u-
-lharem o Sirzire pd.raulos sem, poÉm, se preocupâÍem com máos eDfiaalas iros bolsos de sua dulheta. Quis levaítâ!_me
a oâla!.ra seÊtinlê das mêis lerriseis, talvez. qllo o também, mas fêz-me assentar de novo com um sinal de
n,rmúo iâmais - uma
ouviLl: "Se nào vos fizêrdes como um cabeÇa, Senti quc hesitava aindâ, que :eniava julgar-me,
",,ria"
dêsses pequenos, não entraleis no reino de Deus !"
exoeiimentar mà uma vez mais, ânlPs de dizer uma coisa
ou'e â ninquém tinha dito _ pelo mênos nos mcsmos têT-
Repetiu o versículo, como para si me§mo, e continuou riros suõonho. Drrridrva visivel"nênl,ê de mim e, todavia
a falar, um momento ainala, a cabeça escondida entle as -
essâ dúvid; nâda tinhâ de humilhânte, iuro{. Áliás, não
mao§: é homem para hr]mithâr quem quêr que seia. Ne§se mo_
O ideal, vejâ, seria só pregar o Evangelho ৠcrian_ mento, seu olhar era muito bondoso, muitô telno e pa-
-
ças. Vivêmos a fázer cálculos, eis o êrro. Âssim, limitâ_ rece ridiculo hatando-se de utt homem tão forte, -
táo !o-
mo-nos, logo ile inicio, a ensinar o espi to de pobrczai mas busto. quase vulgar, com tanlâ expêriÀncia da vida e d8s
isso. meu caro, veja, é duro ! Então a gente trata de se pessoas seu oJhar linha uma eilraordinária uma jnde-
arraniar como pode. E, Iogo de entrada, começâmo§ por -
Íinível Dureza.
só falár aos ricos_. Ricos endamoniados ! são un§ tiDos muito necessário refletitr muito, antes de IâlâÍ ala po-
erperimentaalos, muito maliciosos, e têm umâ diplomacia de -teria
breza âos dcos. De outro modo, tornar-nos-íâmos iüdignos
primeira água. como oonvêm. Quando um diplomalx lêm tle a ensinar aos pobles. E como então ter a coragem de
dê apor sua assinatura a um lratado que lhc d.'3frada. apresentar-se ao hibunal de Jesus Cristo ?
discule-he as cláusulas, umâ por uma. Mudândo uma pa_ Ensinar a pobreza âos pobres ? perguntei.
lavra aoui. l,ransferindo Llma virgula para âli. tudo por tjm -* Sim, aos pobres. À êles é que Deus- nos enviou, âniês
se aieitá... Por Deus, dêsta vez, a coi§a vâlla 0 nonn: tm_ de tudo; e para lhes anuneiar o quê? a pobreza. Deveriâm
lâva:se de uma mâldi(ào, vêia. Enfim, há mâl(licio o mal_ espprar oulia coisa. Espêral o fim dê sua miséria. e êis oue
diqãc, parece. Quanddfôr o caso, passa-sê por âlto- "ú mai§ Nósso Senhor [oma a noblcza pela mdo e Ihe di7: Rêconhe-
Iáô um camclo Dâssâr pelo lundo d. umâ ngulhn qu' pri- um cei vossa Rainha, jur'âi-lhe homenagem e fidelidâde !"; que
rlco enlrar ro relno dos'eéus... Note bí'm qll. si)u o golpe ! v€ja que se trata, em resumo, dâ históriâ do povo
meiTo a achar o lexlo muito duro e quc Düo cstrrll [orr de jucleu, conl seu rejno ter)eslre. O povo dos pobres como o
-tazer distinçôes. o quê. allás. aboüeccria mllilo à cli.nlolr ôutro, é um povo errante enlre as naçõcs. em bus.a d. es-
dos iesuitss. Admilámos, Dois, que Nosso S('nln,r qllis lal1( perança§ carilâis, ul povo desenganado até os ossos.
dos
"ri"os quo têm o espiillo da riqueza. Pois u m I Mâs
qu:rndo ns diplomalrs sugerem que o burü('(, íhl iLtÍulh, Êra - Entretanto. ..
Sim, eniretanto a ordem é esta, não hâ jeito de
umâ da\ porlas dP Jerusalém sÓ quc um l)(!ll('í) mÍrls ês_ - Ohl Sem dúvida, um covarde lograda remover
tr(l1u - à" sorlê que para -
entrar nela no |clno, o Ji'o só mudá-la.
a dificuldade. O povo dos pobres é um público fácil, um
§c cxpunhâ a auânhâr â barrigâ da pernâ ou o mer os co_ bom púbtico, desde que a gente saiba maneiá-Io. Vá falâ!
tovelôs dc sua bekr túnica, que quer, mcu colo, Iico &borrc_
,i,
I
56 OEORGES AEENÀNOS Dr,4Rro DE úM PÁnoõo DE at DEra
I
da cura a um cancêro-o, ele só pensará em âcreditaf no
qu. vocô diz. Ncda mâis fá.11. clinal, quê convencer o nobre
de quc a pobreza é uma- doênça inÍamante, indigna das nâ-
t hohens, como se faz com o trigo, o açúc ou o câÍé, trans-
tornava as consciências, acredita ? Por â ter explicado do
pú]plto â meus paroquiânos, acusaram-me de socialista, e
çõcs civilizadas, que num âbdr e lechar de olhos vamos dr os camponeses "bem-pensantes" conseguiram que, por casti-
iivrrr'noi d.s"a podridão. Mas qual dc Dós se allcvcria a
Íalar assim da pobrêza de Jesus Cristo ?
I go, eu fôsse tmnsferido pâra Montreuil. Náo me impoúava
com o castigo, pode crer. Mas, nâquele momento...
,l
Olhava-me no fundo dos olhos e nem sel se me distin- Calou-se hêmulo. Filava-me ainda e eu me envelgo-
guia dos obietos fâmiliares, seus co{lidentes habituais e si- nhava de meus insignificantes aborrecimentos; tinha ímpe-
lenciosos ! Não ! não me eüxergava ! O mero propósito de .l tos de lhe beijd as mãos. Quando me atreÍi a ler.arltar os
convencer-me não tetia dado a seu olhar expressão tão pa- $ olhos, voltara-ine as costas e olhava pelâ janela. Depois de
tética. Era contra si mesmo, coníra uma parte de seu ier outro longo silêncio, prosseguiu com voz mais su1da, em-
cem vêzes âbatidâ, cem vêzes vencidâ, mas sempre rebelale, bora alterâda, aindâ.
que o viâ erguer-se com todo o seu porte, com tôdas as suas 1 vê, é um animâL UIn animal a que
- Âpedir mujto.como
piedade,
Jôrças, col11o um homem que defende a própda vida. Como se pode mâs não tudo. O melhor cão pode Íicar
era profunda a ferida de sua alma ! Parecia estar se dilace-
rando com as própliâs unhas.
I danâdo. Á piedâde é poderosa, é voraz. Não sei porque sem-
pfe â lepresêntam um pouco chorosa, um pouco idiota,
- Talaoseomo me vê, disse, gostaria bem de prcgâr a in- t üma dâs mais fortes pâixões do homem, eis o que e]â é. Na-
quele monento de minha vida, eü que the fâlo, pensavâ que
surrêição pobres. Ou, então, não lhes pregaria natla, $
absolutamente. Tomariâ, para comeqar, um ciêsscs "mili- a piedsde ia devorar-me, O orgulho, â i ,eiâ, a cólerâ, a
tantes", dêsses mercadores de frases, dêsses malâbatistas ,tl próp â luxúria, os sete pecados mortais fâziâm côro, ul'ria-
de revoluqão e the mostraria o que é um homem dc tr,landres. vam de dor. Eram como umâ tropâ de iôbos ensopados de
Nós, os flâmengos, t€mos a revotta no sângue. Lembre-se { petróleo, pegândo fogo.
dâ história ! Os nobres e os ricos nunca nos lizcrâm mêdo. senti, sübitamentê, o pêso de suas duas mãos nos meus
Graqas a Dcus, posso confessá-lo agora, âpcsar de se! um .,i ombros.
homem vigoroso, um homem robusto, Nosso Scnhor não ,i Enlim, eu cá live lambém meus pêdacos d'J"o^. o
permitiu que fôsse, muitas vêzes, íentaalo cm minhâ cârne.
{ mâis- terrível é que náo se é compreendido, que a gente se
Mas a injustiça € â desgrâça, veja, cssâs põcm-me {ogo no sente dículo. Para o mundo, você não passa de um viEà-
sangue. ÂÍualmenle. isso iá pas ou, vo,,i niô lúde imagjnar. { riozinho democrata. um vaidoso, um farsante. É possíve1
As\im. por êxemplo. sê agora vocô lc lr nqüilrm.nloa com que, em geml, os vigários democratâs não possuam bastante
a ponta dos olhos, a famosa enciciicír (li. l,,jLo XllJ .Rerum têmpera, mas eu, creio que tinha têmpera para dâr e ven-
Novarum", como se fôsse um malldamonlo dc quaresma,
jgual dos oulros, naquela él,occ. mr'nlllrr. lirrhrmn. a im-
ll der. Veja, naquele momento, compreendi Luterc, ÊIe tinhâ
têmpem, isso tinha. E em sua furnâ de Írudes, em Erfurt,
pr(ssJ-o de sentir a tcrla tron-cr sob os n(,sso., prls, Qu| enlü- rl ceúamente que a Íome e a sêde de justiça o devoravâm. Mâs
siasmo I Eu e!a, então, vigário de Nolcnlontcs, cm plena Deus não gosta que toquemos em suâ justiçâ, e sua cóIera
rcgiâo rlí. ininas. Essa idéia tco simplrs dc rt c n Irabrlho \l é muito, muito dura quando se volta contra nós, pobres
não /.urn mêrcadorja. sujeilâ à iej da ot'cltr c dr ptocura, dirâbos. Embriaga-nos, fâz-nos piores quê brutos. tr'oi âssim
quc niio so poclô cspcculâr com os salátios, com a vida clos I que, depois de têr íeito tremerem os cardeais, o velho Lutero
,;

i.
58 cÉoRcBs aERNANoS Dr,ÁÀro DE uM PÁioco DE âIDEIÂ 59

âcâbou Dor levâr seu feno à maniedoim do§ príncipe§ ale- Cale-sê I você não sabe o que é a injustiça; mas, um
rnães. Bela súciâ ! veia o seu retrato, no leito de morte. diâ, -há de sâbêr. Você pertence a umâ râça de homeüs a
Ninguém reconheceria o ântigo frade nesse bichão barrigudo, quem a iniustica Íaleiâ de longe, a quem pâcientemente es-
de lábios grossos. ÂpêsâÍ de justa, a pdncípio, 3uâ cólelâ preita, ate que um dia... É preciso que você náo se deixe
o Íoi envenensndo pouco a pouco: vtou gordura e da pior devorâr. Sobretudo, não pense que fará recuar a injustiça,
espécie,aí está , fixando-a nos olhos como um domador ! Não escapariâ à
será que o sehhor rêza por Lutero ? perguntei. sua fascinaçáo, à sua vertigem. Não a olhe mais que o tem-
- Todos os diâs, respondeu-me. AlÍás eu- também me po indispensável, e nunca o faÇa sem rezar.
- Martinho. como êle.
chamo Sua voz comecavâ a tremer um pouco. Que imagens,
Àí, âconteceu uma coisa surpreendeúte. Arrastou uma que recordações cruzavam, [e§te momento, por seus olhos !
Só Deus o sabe .
câdeim para junto de mim, assentou-se, tohou as minhas
mâos entre as suâs. sem deixar de fixâr-me com os olhos, Vai; mais de uma vez, você ir,Iveiâiá â Irmá de Câri_
seus olhos magnificos cheios de lágrimâs, e, enhetânto, dade- que. pelâ manhá, part€ contente em buscâ de seus Ea-
mâis impêdosos que nllnca, olhos que hansformariam a rotos malhapilhos, seus mendigos, seus bêbados, e trabalha,
úorte em coisa fácil, totalmente símples. com tôdâs as fôrças, até o anoitecer. Elâ se ri da iniustiçâ !
Lava os estropiados, cura suâs Íeridâs, e finalmente os se_
Tralo-o de pobre diâbo, disse. mas gosüo de você. Tomê pultâ. Não foi â elâ que o Senhor confiou suâ palâvra. Â
-
a Dalavra como ouiser, é uma gtânde palâvra: parc mim. palav!â de Deus ! Devolva minha !âlâvra. djrá o Juiz no
Deus o chamou. não há â menor dúvidâ. Fisi.amênl. lomá- último dia. Quando se pensa no que alguns deverão tir."
-to-iam por um fradeco; não importâ ! se você não tem om- nâquele instante, de suâ misera bagagem !... não se tem
bros lar-gos, tem coraÇáo; pode servir na inIântaliâ Mas, vontade de r . não !
lembre-sê do que lhe digo: não se deixe rendcr' Se algum
diâ você alescei à enferúaria. nunca mais sairâ dali. você Levantou-se de novo e olhou ouha vez para mim. Le-
náo foi feito parâ a guerra de dcsgaste. Marche firme, e vânt€i-me tanrbém.
prenare-se parã acâbai um dia, tmnqüilamente, uâ trinchei' Temos guârdado a pâlâ1ta de Deus ? E se â guarda_
ra, §em t€r ax€ado a mochila. mos-intacta, não terá âcontecido que â tenhamos cclocado
sob o alqueirc ? Será que a demos âos pobres como aos licos ?
Sei bem que não mereço sua confiancâ, mâs dcsdc que
ma deu, tlârece-me tâmbém qu. não o dcccpcionci. Nisso Evidentemente, Nosso senhor fala com ternurâ a seus po_
bres, mas, como the dizia hâ pouco, anunciâ_lhes a pobrezâ.
está tôda â fôrqa dos fracos, das crianças; a minha fôrça.
Não há jeito de sair daí, pois a lgreia é â guarda do pobre,
Aprende-se â viver mais ou mcnos lcnt,amcntc, porém inegàvelmente. E isto é o m.ais Íácil Todo homem caLidoso
-
sempro sê acaba por aprcndcr. s(Êundo a Iról» ic câpJciLlarle. eolabora nessa proteçáo. Âo pâsso que â Igreia está sôzinhâ
Cadi um lem sua pârte de expr riôncir. b.m cntcndido. Um sózinha, absolutâmente sàzinha, como guar-
vâso de vinle centili,tros nunca poderá conter o mesmo que -da veja bem
da honra -da pobreza. Oh ! nossos inimigos levam vanta-
outro de um litrc. Há, porém, a experiência da ínjustiça. gem. Havêrá sempre lobres enlre vós . Nào é uma pala-
Scnli ouc minhàs leicôes se endure.iam. conlra a mirihâ úa de demagogo I Mss é a PalalTa. e nós a rFc.bcmos. Tânto
vontndc. pôis o que dissera me Iéz mal. Ia cbrindo a bóca pior para os Íicos, quando fingem acreditar que ela Íusti-
p8,rs, responder, fica seu egoÍsmo, Tanio pior p â nós que servimo§ de re-
60 GEORdES BEÊNANOSI DIáÀIo DE UM PÁAOCO DE ÁüOEIA 61

Íéns aos poderssos, cada vez que o êxército dos miserávêis humilde, mas altivâ; l1áo servil, Â pobrcza não Íecusa o copo
vem bntcr aos muros da cidade ! É a palawa mâis histe do dágua desde que lhê seja olerecido em meu nome. e é em
/ Eva[gelho, a mais cauegadâ dle tristeza. E, em pdmeiro meú nome que o recebe. Se o pobrn ljrassê seLl dileil,o apenas
i hgar, ó diúgidâ a Judas. Judas ! Conta-nos São Lucas que da necpssidãde. vosso egoismo o teria Iogo condcnado co es-
]ôlc se onc,'r'r'egava dcs contas e que sua contabilidade não trltamente necessá],o, ex:gindo. como pagx Lrm reconhec!_
I cra lá mui{,o clâra ! Seial Mas. aÍinsl. erâ o bânqueiro dos mento e uma esc!âvidáo etimos. Por is§o, você se trita hoje
I dozc c qu"m É que iá viu, em regrâ, a contabilidaàe de um contrâ essa mulher que bânha meus pés com um nardo ca_
I bcnco? É provável que exagerâsse um pouco em sua comissão, ríssimo, como se meus pobres estivessem condenâdos a nunca
como todos fazem. A julga! por sua últimâ opemçáo, Judas se aDloveitarem da iDdúshiâ do§ peúumes. Pertcnceis a
náo telia sido um bdlhante corretol ! Mas Nosso Senhor toma essa ;aça cle genLe que. tenclo dado dois lostões a um vaga-
no"qsa poble sociedade tal quâI é, âo contrário dos charlatáes bundo. ie esna-ndolizá se nào o vé logo a correr c uma padâria
que a fabricam no papel, depois a reformam sem cessâr, sem- Dara aji empanrurrar'se de páo !elho, que o comcrr"iante ven_
pre no papel, bem entendido ! Em re§umo, Nosso §enhor co- ãeria, aliás, como páo lresco. Se lóssei! um dêle§. irÍeis tJm_
nhecia muito bem o poder do dinheiro; reservou ao lado de si bém a um vendealor ale vinhos, por'que um ventre de mi§e_
um pequeno luqar ao capitalismo; deu-lhe uma opodunida- rávei tem mais nece§sidade de ilusáo que de pão. Desgra-
de, e até reâlizou a primeirâ colocâÇão de fundos; acho issô çados I O ouro de que vós todos fazeis tânto ca§o, que é §e_
haravilhoso, que quer você ! Mognífico ! Deus não desDrezâ não uma ilusáo, um sonho, e, quantâs vêzes, apenas pro-
coisa algumâ. Âfinal de contas, se o negócio continuasse messâ de orn sonho ? À poblezâ pesâ muito na balânça de
indo bem, Judas teria provàvelment€ subvencionado sanató- meu Pai Cele§tial e todos-os 1'osso_s tesouros de fümo náo Io_
úos, hospitâis, bibliotecâs ou labomtórios. Vejâ que já se grariam equrlibrar-ll.c os prJtos Haverá sempre pobres en-
interessava pelo problema do pauperismo, como qualquer mi- úe vos, pór essa razà,r de que haverá sempre ri'os, islo é,
lionáIio. "Haverá semple pobres entle vós", respondeu-lhe homens ávidos e duros que buscam menos a po§se que o
Nosso Scnhor. "mas a mim não me tereis sempre junto de podel'. Essa espécie de homens existc entre os pobres comol
vós'. O que significa: não deixes soar em vão a hora dâ entre os ricos, e o misel'ável que ítzinba sua ressaca, nal
misericórdjra. Farias melhor se devolvesses agora mesmo o sârieta, pode estar com a cabeça cheia dos mesmos sonnos/
dinheiro que roubaste, em vez de encher a cabeoa de meus de bésar; adomecido sob suas cortrnas dê púrpurâ. Rjcos oul
apóstolos com tuas especulâÇões imaginfuiâs sôbre os fun- pobres, olhai-vos, pois. na pobreTa como em um espelho, por'-
dos de perfumâ a e teus proietos de obras sociais. Se crês ôu" eú é . imâgêm cie võssa decepçao lLrndameulal subs'
assim lisonjear minhâ sihpatia bem conhecida pelos miserá- iitui na terra o pararso -coloquei
perdido, é o vazio dê vossos coraçoes.
veis, enganâs-te redondamente. Não âmo os meus pobres de vossas màos. Se a tào alio. se a l,onrci como
como as inglêstrs velhas amam os gatôs perdidos ou os touros espósa, e a coroei, foi porqLle conhcÇo a vossa mslicia. Se
dc corridas. Isso são maneiras de geote dcâ. Ámo a pobrezâ tiiesse permjtido que a considerásseis como inimiga ou ape-
com um amor profundo, refletido, 1úcido de igual para igual nâs coúo estmnge:ira, se vo§ tivesse deixado â espeiança de
-- colro uma espôsa fecunda e Iiel, -
Corcei-â com minhas a.lgum dia poder rechaçá-Ia do mundo, tclia ao mesmo tem_
l)rólx iÍrs mar.os. Não bastâ querer para honrálâ; só a serve oo condenado os lrâcos, Polque os fracos scrro sempre para
'vós um fardo insuporla\cl. ünl pê.o morl,o quc vcssds civi-
quírn rrntc§ se Ievestlu da branca túnica de linho. Não bastâ
qucfcl, pâta par'íir com el? o pão da amargum. Eu a quis lizaaões orgulho§a§-transmitem umas às outras, com desgô§to
62 GEORCEs BERNÀNO§ DtÁlro DE uM ?ÁÂoco DE AÍ,DErÀ 63

e cólera. Pus o meu sinal sôbre suas flontes e vós só vos coisâs que julàí ridícutas, mâs ficou um pouco abollecicto
atrevereis a acelcâr-vos dêies, rastejando; devorais a ovelha quando lhe nr. -stei a intençáo de não mais pôr os pés em
transviada, mas nunca ousaleis atacax o rebânho. Afastasse casa dos Pamyre. Recordou-me algumas pa.lavras qúê pro-
cu por um momento o meu braço, e a escravidáo que odeio nutciei dumnte u1lra de nossas conferências fuimestrais em
Icssuscitada por si mesma, sob um nome ou outro, pois vossa casâ do vigário de Velchocq, à quâl não estêve presente. Pâ-
lel tem suas contas em ordem e o fraco só tem para dar a rcce-lhe que falei em têrmos demasiado inconvenientes sô-
sua pele. bre o comórcio e os comerciântes.
Sua gorda máo trcmiâ sôbre meu brâço ê âs lágrimâs Convença-se bem. meu filho. de que as palawas de
que pen§ava veÍ em seus olho§ parcciam ir sendo devoradas Llm -lovem pâ(Úe rnexpi riente como o senhor serão sempre
por êste olh que mantinha sempre fixo no meu. Eu nâo cansurâdas peloi sêxs colegas m.3is velhos, que lém o dever
podiâ chorar. Caira a noite sem que o percebesse; e ma1 oe rormâr uma oprnlao sobre os novos conlrades. Em sua
distinguia seu rcsto agora imóvel, tão nobre, táo plllo, tão idade, não se permitem tais anebatamentos. Num cÍrculo
sereno como o de um morio. E, precisamente neste instante, de relações táo pequeno corrlo o nosso, êste ,,contrôIe,, recí-
soou o primeto toque do Ángelus, vindo náo sei de que proco é legítimo, e seria um âto ale rebeidia não aceitá-lo de
ponto vertiginoso do céu, c\omo se câÍsse do alto dâ noiÍe. boa mente_. É certo que a probidade comerciat já não é hoje
a mesma de outlas épocas; nossas melhores famílias se mo!_
tram baôlante negligent€s nessâ matéria, mâs a terdvel crisê
tem seus rigores,- é preciso confessá-lo. Conieci um tempo,
em que esta hodesta burguesiâ, trabalhadora, econôrniàa,
que faz ainda a riqueza e â grandeza de nosso caro país,
Vi ontem o Sr. Deão de Blangermont que, muito pâter- sofria quase por completo â isfluênciâ da má imprensa. ÉoJe,
nalmente, mas também por tempo demasiado longo, falou-
-me da necessidâde para um pobre moço de cuidar atentê- que sente o fruto de seu trabalho ameaçado pelos elemeotos
mentê de suas contas. "Sobretudo, nada de dívidas, não cle desordem. compleende quc j.i passou a erã das generosas
admito dívidas I" Uusoes. que n€o hâ para a sociedrde âpoio mais solido quo
Surpreendime um pouco,
confesso, e me lêvântei- concluiu.
meio desajeitadamente para despedir- a Igrcja, O direito de prcp edade nâo está escrito no Evan-
gelho ? Oh ! sem dúvida, é necessário disringuir, e, na di-
-lne. Eoi êle qupm mp pediu que me assentasse de novo (pen-
reção das consclêtrcias, o senhor deve chamar á atençáo para
sou. sem dú\idâ. que eu livesse Íeito um geslo de mâu hu,
mor);acab€i por compreender que a Sra. Pamyre se quei- os deveres correspondentes a êsse direito, mas. ..
xava de estar ainda esperando o pagamento de sua conta Minhas pequenas misérias Ííslcas tornaram-me horri-
(as garrafas de vinho quinâdo). AIém disso parcce que devo velmÊnte nerroso. Náo pude rcter as pelavras que me vi-
nham aos labos e âindx proiunciei-aí
53 lrancos ao açougueiro Geoffrin e 118 ao vendedoÍ de car-
vão Dclâcou!. O Sr. Delacour é conselheiro-geral I êsses - pio-r
voz 1rêmulâ. cujo lom - surpreenclcul com uma
a mim mc.mo
sorholcs não fizeram âliás nenhuma reclamâção, e o Sr.
Doiio confcssou-me que a Sra. PaÍnyre é que o tinha infor- - Náo meum
confessioná.rio
aconteceu com â devida freqüênciâ ouvir no
penitente acusâr-se de lücros ilícitos !
rllll(k, (]o tudo. Ela não me perdoa o fato de eu comprar no O Sr. Deáo olhou,Ine bem nos olhos. e eu aflontei seu
ollrrrzórr de Camus, estranho no lugar e cujâ filha; dizem, olhar. Pensavâ no vigáflo de Torcy, De quâlqucr forma, a
u,cu.b$ (lu divorciar-se. Meu supedor é o primeilo a úr dessas indignação, mesmo justificada, é um movimento d,a1ma de-
64 GEOÊdES BERNÀNOS Dúlro DE uM pÁÂoco DE Ár,DErA 65

masiado suspeito pâm que u111 padre se y'\-ndone â êle. târeÍas do ministério ? Quem se aheveria, entretanto, a afir-
E sinlo {ãmbôm qLe bá sej]rpre âlgumâ.-.ra de esiranho mar que â práticâ das virtudes heróicas seja ptivilégio dos
em miuha cóIera quando me obrigam a falar do rieo do monges ou dos simplcs leigos ?
- que
veldâcleiro rico, do rico en espírito, pois pode haver tico
.". Compreende êgorâ que. em cêrlo sentido, e Íhzeralo
só tenhâ no bôlso um níquel o homem do dinheiro como looas as reservas sobtê o câráter uIn tanlo desrespeitoso,
thc chamam. . , Um homem do - dinheiro ! pâiadoxal, de tal brincadeira, eu pude alizer: Oeus nãs Iivré
Suâ refleyão me surpreende, disse o deão, em tom dos sa.r]tos ? Freqücntes vêzes, os santos constituiram uma
sêco.- Cteio descobr-ir nela certo rancor, ccrta acrimôniâ.,. provâção p€ra a Igrcja, antes de se trunsformarem em gtó-
Mcu {ilho, prosseguiu com voz mais suave, temo que seus rjâ paxa ela. E Jalo aqui dêsses sântos Jrustraalos,_in-
êxitos escoiales tenhâm faheado um pouco seu modo de -não
completos,.qne formigam em tôrno dos velaladeiros, óomo
julgar. O sêminário não é o mundo. Á vida no seminário lroncos rniúdos, e qur, cumo os ntqueis muilo granans. maii
náo é a vlda. Sem duvida, bastâriâ muito pouco para Íazer nos alrapalham que nos scrvem ! eue pastor. q-ue bispo gos.
do senhor um lnte1ectual, quer dizer, um levoltado, um ne- Lariâ de comandar sem, lhonto rebanho_: Êl( s t?m o ôspí.ito
gadoi sistemáljco das super'ioridades sociais que não se Jun- da obediéncia. sejd ! E dai ? por mâjs que o fa{am, suâs'pala_
dam no espírito. D€us nos livre dos refo radores ! vras, suas atrtudes. sr.u prúprio si,éncio. podêm, a câda mo_
muitos santos forâm reÍormâdores, meoto.-servir de e5cindâlo para os mediàrres. os Íracos, os
- Excciência,
Deus nos livre também dos santos ! Náo proteste, !i!r:r q! ! eu sei. o senhor var responder que Deus vomitil os
estou- falando de brinquedo; mas cscute: o senhor sabe per- tibios. Mas que tibios ? Nao o sabomos. Éodemos ter a cer-
feitamentc que a lgreiê só eleva aos altares, e âssim mesmo teza do deÍinir como Êlc r'ssa classe de pessoas ? De maneira
muito tempo depois de sua morte, um r'estrito número de alguma. Pú ouíra parlc. d lgrêja tem necess:dades
justos ercepcionais, cujos ênsinos e heróicos exemplos, pas- mos a palavra - disa-
ela tcm nr cessidade de dinhejro. Tais ;ê-
sados pelo crivo de uma análise seveta, constituem o tesouro
- o scnllor tÊm de concordâr comico- por
cessidades existem,
comüm dos Iiéis, se betn que não thes seja absolutament€ que êntão envergonhcr-sc dis.o ? À Igrela possui uri col.Do
pcrmiiido. noLo b..m. Lrsrr de tai" !,souios srm a nec..ssá a e uma almâ: é preciso provcr as necessidâdês de seu corp'o.
Jiscalizâção. Segne-se dai, guardada â reverência, que tais Um somem râzoàvel náo 5e envergonha de comer. Vêjaúos,
homens edmirávei5 se parecem coin êsses vinhos preciosos, pois, as coisas tais como são. Falávamos há pouco sôi:re os
porém difÍcei! de pieparar, qlrê custâm tanto trabâIho e tân- comerciantes. De quem tira o Estado a suâ renda mâior ?
tos cuidadcs ao vinhateiro, pàrâ vil apenas deleitar o paladar Não é justainente dFssa pequenâ burguesia, ávlda de Jucios,
de seus netos... Estou briilcanCo, bem entendido. Entretan- dura para com o pob)e como pcrâ consigo mesma, agarracla
lo. você obs' r /.rá qu. D. L.s f:t .co prêcaver-se dc multi- ao esplrllo de economiâ ? Â.ociÊdade moderna e obiâ sua,
plicar'.nlre Dó", se, ulcr:. an.t'ê nds qup somos tropcs rrgu- . Ceríamente. ninguam lhc pede trcnsigências quonto aos
lares, se âssim pcsso dizer, os santos prodigiosos e milâgro- prrncrpios. e. que o saiba, o catecisüo de nenhurira cliocese
sos, os aventureüos scbretaturâis que, não raro, Íâzem es- mudou quâlquer coisa quanto ao quarto mand*mr nl,o. Mas, I
tremecer os quadl'os da hierarquir,. O curâ d'Ars náo loi uma podemos met€r o nariz nos tivroi de contdbrlidrcte I Mai;
exceção ? Não é insignificanie o número de canonizados, re- ou menos dóceis às nossas liçóês. quando sc ttatc. for eyem_
Iativame[íe â essa rnültidão venerável de clérigos zelosos, plo. de desvios da carne sua satledoria 'mundanâ
irrepreensíveis, que consaglam suas fôrças às esmagadoras - ondêsem
vê uma desordem, um alesperdício, se elevar, aliás, muito
66 GEORGES IEÊNÁNOS Dr,4RIo DE uM p.ÁÀoco DE ALDETa 6T

acfuna do temor do risco e do gasto que chamam os 1legó-


cios parece â êsses trabalbadores um- odomínio reservado, em
de péssima far!-ra. Daiis anos mais tarde, seu Íilho, ealucaalo
cnr um cciéglo municipalj ingressou numa boa familia, os
que o trâbalho tudo santifica, pois têm a religião do tra- Delannoy, que tinlt.irn sobrinho pacir€, lelo lado dos Broge-
balho. Cada um por si, eis sua rcgra. E náo depende de Ionne. Â filha, rnoce dcscmbgrâqadâ, abr.iu um armazéin.
nós, será preciso muito tempo, sécutos talvez, parâ escla- Cl Íeiho neturalmcnte oaupou-se da coisâ, viam no rodar peios
tecer es§âs con§ciênciâs, destluil êsse preconceito de que o ( àr4:nhoi'. do con:''.J ao iim do 9no. em scu ppqu.no rârro,
comércio é uma espécie de guerrâ, gozando dos mesmos pri- lui cle qu\-m p, gou c pêns5o doi :eus netos no colrgio dio-
vilégios, das mesmas tolerâncias, que â outra, O soldado ceêâno de tr{ontrcriil. Envaidecia-o muito vê-los em cãmarâ-
no campo de batâlhâ não se considera um homicida. Igual- dâgem com os nobr.es, e, âliás, desde muito deixara aie ser
mente, o mesmo comerciante que tlrâ do seu tlabalho um socialista; scns enplegadcs temiâm-üo colno ao Iogo. Áos
lucro de usuráflo náo se crê ladrão, pois sabe que é incapaz 22 anos, Luis Pamyrc verrl dc cesar-se com a Íitha do notá-
de timr dez tostões do bôlso do próximo. Que quer, meu r;o
-De1ivâulle.
quc j'p,n..trepx dos n^gócios dê S. E\cia.;
calo filho, os homens são os homens I Se alguns dôsses co- Âiôanio se ocupa do aim-?ém; Catlos nrálica â medicina em
merciantes se dispusessem a scguir. ao pÁ da lel,ra, as pres- l,ille. o o mdis mo(o, Àuo,io, , slá no seminr,:io d. /.rrds. Oh I
crições dâ teologia no que l,oca ao lucro legÍtimo, sua IàIen- (udos sallem pêrlci(cm.nl..ql:e se e!!a gent. trab.rlhâ
no dul'o,
cia seria inevitável . n: ' é lá muilo coma|ade (m m;lêri, dc n, gócios: ..timpa-
Será desejável precipitar, assim, na classe infcdor, ai- r':m" este comarca. Iú4s qual ! se nos roubam. aindâ âsiim
dadâos laboriosos qüe tiveram tânto trabalho pâra subir, i-o. r(cpcitJm. I.bo cj'ir rn:ro êlc, e nds unta esfecic de so-
que con§tituem nos§o melhor âpoio perânte uma socieda- lidar.iealade sociat, lamenLável ou não, mas que exlsk; e trdo
de mâtedalista, que assumem sua parte nas despesas alo que existe deve sel utilizâdo para o bem.
culto e nos dão, outrossim, padres, desde que o lecrutamento Pàr'o,1. m(io vc.m.lho. Scmprê sustento mêl uma con-
saceldotal quase estancou em nosas â1deiâs ? Da gr-ânde in- velsaqao dessa ( spêcre po,quê fiinhc aLenção 5e Jxiiga logor
dústria só existe agora o nome, foi absolvida pelos bancos; qiiândo un1a secrota simpâtia não me pemite antecipar-me
a alistoclacia está morrendo, o proletaliado Ioge de nossas apaixonadamente ao pcnsamcnto do meu inte oculor é, como
máos e o senhor iria propor às classes médias a resoluçâo vio- diziam meus ântigos professôies, deixo-me ar.rasia! pela cor-
Ienta, brusca, de um problema de consciência, cuja solução rente das imagens... Ccmo ó justâ a expressão popühr ',pa-
requer rrruito tempo, prudênciâ e tâcto ? À escraviddo não lâvms que ficam no colação" I Essas ficar'am ém tômo-de
era uma das $aiores ofensas à 1ei de Deus ? &itrctânto, os rneu peito, como um bloco, e eu sentiâ que só a oração seria
apdstotos... Na sua idade, a gente gostâ cle lormular jul- capaz de lundfu essa cspócie de gê1o.
gamentos absolul,os. Descon,je cle Lais extrâvagáncias. Ndo sem dúvida, um pouco àsperamenlej con-
se entregue à mania de abshair, veja os homens. E olhe, jus- íinuou - oFalei-lhe,
Sr. Deão de Blengermoní. Foiparaieübeü. euan-
tamente, essa Íamília Pamyre; ela poderia servir dc exemplo, do você tive! vivido bastante, há de compreender. I.rhs é pre-
dê ilustração à tese que acabo de expor, O avô era um sim- vlver.
ciso ,
ples pedreiro, anticlericâI notorlo, socialistâ âté. Nosso vcne- *-É preciso fiver, que coisa miserável ! responali
i

rávcl colega de Bazancourt lembra-se de o tcr visto blasfe- sem refletb. Náo acha o senhor ? -
mal à solcirâ de suâ porta, quândo pâssava unla procissão. Esperavâ uma explosão, pois retomarâ minha voz alos
No comôço adquiriu um pequeno negócio de vinhos e tioores, maus dias, uma voz que conhecia bem a voz ale teu pai,
-
68 CEORGE§ BERNÀNOS DrÁ8ro DE uM PÁloco DE ALDEr 09

dizia mamãe... Ouvi oDiro dia um vagabundo responder âo ou náo a ponta de espâdâ, era a ponta dê espada que devia
suarda oue Ihê pedia scus papéis: prpeisl Onde hei do defendê-Io, como deí€nderia sua própria vida, pois o homem
ãrranjar'papcis ? sou o filho do §oloàdo dcsconhecido:' e o Íeudo formavam ur'!1a só coisa, â ponto de tercm o mesmo
Êssc iagabundo linhi uma voz igual à minhâ. nome... Náo ó por êsse sinal misterioso que se reconhe-
O Sr. Dcão limitou-se a olhar-me longamente, com aten- ciam os reis ? E o rei em nossos liwos santos, náo se dis-
çáo:
tingue do juiz. Certamente, um milionário dispõo, no fundo
l é
oue voeô ooela Com suas duas capclas .le seus coÍres, de rnâis vidas humanas que qualquer monar-
i - sunonho
Íetizmentei nào lÉe faltará li'abalho. o trrLâ]ho arranjara ca, mas, seu poder é como o dos ídolos: scm or.elhas, nem
tudo. olhos. Pode matar, €is tudo, sem mesmo saber â quem mata.
lalvez sejâ êste também o privilégio dos demônios.
Ontem, à tarde, Iâltou-me a coragem. Gostaiiaie poaler (Às vêzes, acho que Satã, procurando apoderar-se do
dar uma cónclusáo a e§ta enhevista. Para quê? Evident€- pensamento de Deus, não só o abouece sem compreendê-Io,
mente, devo ter em contâ o caráter do Sr. Deão, o vi§ível mâs o compteende às avessas. Contra sua próp a vontade,
nrâzer oue senle em mê contradizer, em me humilh-3r. Dis-
sobe a corente da vidâ, em vez de â descer; e se esgoiâ em
fmeuiu-ie. outrora, por sua aversâo aos jovcns padres dc' absurdâs, espantosas tentativas, para refazer, em seníido
moãratas- e me tcm iem dúvida como um déles. llusáo bêm
descuioável. em suJna. E veldade quê. pela extreJna mo' contrário, todo o esfôrço da Criação.)
clesria do minhà origêm, minhâ intancia miserável. abando-
naalâ; pela desproporção que sinto, cada vez mais, entre uma
êrlucâcáo tào descuidâda,-grossejra mesmo e cerLâ scnsibili-
dade àe inlcligéncia. que me faz adivinhar muitas coisas
nertênco â uúa espéiie de homens naturalmentê pouco A preceptora veio ver-me esta mânhã, na sacristia. !,a-
ãisciDlinados; meus superiores têm toda a razào er, d'scon_ lÂmos longamente sôbre a Srta, Chantal. Parcce que estâ
iiai 'ouc teria sido eir se... MeLl( õentimenLos â respcit'o moçâ está cada vcz mâis irritável, tornândo-se impossível sua
do oue!e chama sociedade sáo, âlias, bem obscuros... Âpesar pelmanência no castelo. Assim, conviria mandá-la pala um
.lc iilho dc eente pobre ou por isl,o mesmo quem sabe ? pensionato. Á scnhorâ condêssa não par.ece decidida ainda a
-- só como-reendô -
realmenlí' c sup.r:oridadÊ da raça' do tomar semelhante resoluçáo. Compreendi que espemvam
sÍrnpuê. Se o conlcssasse, rir_sp-iam de mim Pdrêce-me por minha inteNençáo iunto dela. PaIa isso, devo 1I ao castelo
exeãrplo, que servjria com gu'to c ú:'r v'rdadêiro senhor - jantar, na próxima semâüa.
um orlnciôo. um ret. Náo há nadí ciemais em se colocar as Evidentementê, Luísa úão quer dizer tudo. Fixou várias
auai máoi iunlas entt'e âs màos dum outro homem e jurar- vêzes seus olhos nos meust com uma insistência incômoda;
-in" fiaetiauà" Oe uassâlo, mas á ninguém ocorroria a idÊia de seus lábios tremiam. Àcompanhei-â ató à pequena porta do
rcalizar a mesmâ cerimônia, aos pés dum milionário, só por_ cemité o, À saídâ, com voz entrecortade, rápida, como
ouc c mi:ionário: sêria idiotâ. As noçóes de riqueza e de quem se desembaraça de uma confissão humilhante voz
liodnr: :irrd: nào se podem conlundirl a primeim mntinua de ronlessionário d.sculpou-se pot tl.r lccoffido a- mim,
ir sol obslrata. Bem_sei que se poderia rêspondel que nlais em circunstáncjâs -tào pêrigosas e tro oclicâdàs:
dc urfi scnhor conseg'iriu, outrora, seu feudo, gfaçâs aos Chântal tem um temperamento apaixonado, esquisito.
sâcos dc diDheiro de um pai usurá-rio; mas, enfim, adquirido Nã,o -crcio que seja viciosa. Ás jovens de sua idade iêm quase
?0 GEORGES BERNAIIOS DTÁIlIo DE ÚM !.{noco DE Á,,DEIA 71

sempÍe a imâginâção desenfreâda. Áliás, hesitei muito, diz, Iarguei a batina. Meu coração, entretanto, não mudou.
antes de pr'c\.nir o sênhor conlra ecsâ n.icn.a. a quêm amo abÍiu-se a uma concepção mais humana e, p<rt cua-
e dê qucnl tcDho pena; mas ela é $uito capaz de um gesto ^penas mais generosa da vida, Ganho a vida: é uma
stguitute,
imprudcnte. nccém'chegado a esta paróquia, seria inútil e Íllande palavra, ul11â gmnde coisa. Ganl1ar a vidâ ! O há-
perjgoso ceíier, se o caso se der, à gencrosidade, à câ dade, bito, adquiddo no seminário, de receber dos superiores, à
de pâr'ecer plovocar confidênciâs que. . . "O senhor conde não guisâ de eshola, o pão cotidiano ou o prato de Íeijâo fa,
i o tolerâria", âclescentou, com um timbre de voz desagrâdá- de nós, até à morte, uns escolares, uns meninos, Eu ignorava
i
vêl absolutatneníe o meu valor social, como você, certamente,
Certamente, nâdâ me autorizâ a suspeitar nela qualquer ainda ignom o seu. Àpenas me teria ahevido a oferecer-
parciâlidade, qualquer injustiça, e, quando me despedi, com -me para o babalho mais humilde. Ora, apesar de minha
a maior Írieza de que iui capaz, sen] lhe estender â máo, saúde náo me permitir Íazer tudo que é necessário, já rccê-
Luísa tinha lágrimas nos olhos, verdadeiras lágrimas. De- bi muitas propostâs sedutorâs, e, quando chegar o momento
pois, os modos da SIta. Cl-rantâl não me âgradam; ela tem propicio, só terei o trabalho de escolher entre uma mêia dú-
em suas ÍeiÇões a mesma Íixidez, a mesma durezâ que en- zia de situações ótimâs, do ponto de vistâ moneiiáxio. Talvez
contlo, meu Deus, no rosto de muitas moças do campo e meslno, em §ua próxima visita, já po§sa ter o prazer e a sâ-
cujo segrêdo não me é âinda conhecido, talvez náo o seia tisÍação de hospedá-lo em umâ câsa conÍoltável, pois a nossa
nunca, pois, raesmo no leito de morte, ela§ só nos deixâm atual é ainda dâs mais modestas".
surpreender pouca coisa. Os moços são bem dilerentes ! Não Bêm sei que tudo isso é basiante puêril, que não de-
âcredito quê possâ haver confissõês sacríIcgas nesses der- veriâ ligâr... Entretânto, não posso fazô-lo. IIâ umâ espé-
mdetos instantes, pois as moribundas de que falo maniles- cie de bullice, de ingenuidâde, onde reconheço, logo, hord-
taln uma contdção slncera de seus pecâdos. Mas, seus po- velmente humilhado, o orgulho sâcerdotal, mâs um orgulho
bres rostos só depois da somblia passagcm tecuperam â se- despido de todo ca.áter sobrenp,tura-I, transformado em uma
renidâde da inffulciâ (táo próxima no entanto), êsse náo quase estupidez. Como estâmos desarmados pemnte os ho-
sei quê de conliante, de maravilhado, um souiso puro.. , O mens, perante a vida ! Que absurda criancice !
demônio da luxúria é um demôDio mudo. E. no enlanLo, mou antigo colega passava, no semináJio,
Que irnporta ! Não consigo dcixar de co[siderar Dm por um dos melhores âlunos, o mais inteligente. Nâo lhê
pouco su§peita a intervencão de Luísa. É verdade que me fâltâva até certa exDeriência precoce dos sêres um pouco
Íalta& expe ência e autoDJade sulicientes pâÍa inhometer- irônicâ, e êle juigavâ mesmo certos professôres com bâsíantc
-me em negócio de familia tão deticado, e teriarn procedido lucidez. Porque tenta, agorâ, impressionar-me com pobres
melho! se me deixassem à ma4lem. Mas, alesde qúe achâ& Janfarronices que, suponho, náo chegam â eúganar nem a
prorpilo.o meter-me nessa quêstáo. que significa a proilri- s; mesmo ! Como tantôs outros, acabârá em âlgum pôsto
cio dê julgar por mim mesmo: O senhor condê nio lole- burocrático, onde seu mau temperamento e sua susceptibi-
rârio. . .,, É demais ! ljdâde doentir lorná-lo-ào ânilpático a seus cole:as. E. por
t Rocebi, ontem, nova cârta de meu amjgo; poucas pala- majs que pro.ure ocultar o passado, duvido que venha a terr
vlar. P.dô-mê t'êlardar por alzuns dias minha viaBem r algum dla. nluiúos amigos.
Lill.. l,orqrl, devc ir a P;ris, eõ neqôrios. T.rmina àssim: Pagamos ca!o, muito caro, s sôbre-humâna dignldâde
"Vocô já deve, há multo, ter compreêndido riue eu, como se de uma vocaçáo. O Ídlculo ânda, sempre, tão próximo do
GEORCÉS AEENANÔS DúRIo DE uM p,Áttoco D! ÀtDErÀ ?B

sublime I E o mundo. tão indulgpnLe, de ordinário, pora com Ontêm, confissões. De 3 às 5, as crianças. Comecei pelos
os ridículos alheios. odêia, por instlnto, o nosso. A imbeci- n1eninos, naturalmellte.
lidade feminina já é bastante irr.itante; a imbecilidade cle-
rical o é mais ainda: e âté parece um mistedoso rebento ala Como Nosso SeDlor âma êsses pequenos eualquer !
pdmeira... Â aversão de tantos infelizes, a sua profunda pessoa que não fôsse um padrc, em meu lugar, acabariâ dor-
antipatia pala com os padres não se explicam, sômente, como mindo, escutando o seu monótono rcsmunear que se paxece,
gostariam de nos Iazer crer, pels revoll,a mais ou menos Ianlas vêzes. com a simples recil,a(áo de trases liradas do
consciente clos apeliíes conlra a Lêi e conlra os que a encâr- Exâme dc Consciéncja, e repFtjdas em cada contissào. Se
nam... Que âdianta negar ? Para expedmentâr um senti se quisesse ver claro, fâzer perguntas âo aca§o, proceder como
mento de repulsa ânte a feâldade) náo é preciso t€r idéia uln simples curioso. creio que não seriâ possivel livrar se da
muito clam do Belo, O padre medíocre é asqueroso. repugnáncia. A anima)idade parece de lal lormo à ílor da
pele ! E, entretanto I...
Não faio do mau padre. Ou, antes, o mâu padrc é o
padle mêdíocre. O outrc é um monstro. Â monshuosidade Que sabemos do pecado I Os geólogos nos ensinam eue o
escapa a tôda Eedidâ comum. Quem pode conhecer os dê- §olo. apar'entcmentc tâo firme. tào eslável. é apenas del_gada
sígnlos de Deus quanto a um monstro ? Parâ que serye ête ? película, sôbre um oceano de fogo t:quido. e sêmpre agiíado
Qual a significação sobrenâtural de tão espantosa desgra- como a nata que se for.ma sôbre o leite, antes de com&ar a
ça ? Por mais que o 1aça, não posso crer, por êxemplo, que Iervêr... Que espessura terá o peccdo ? Á que profunirida-
de sera preetso cavar pira alingir o bárâtro de Íogo ?
- aao!ar.
Judas pertença ao mundo êste mundo pelo qual Jesus
se recusou, misteriosamente, .. - Judas não é dêste
mundo. . .
Estou certo de que meu desgrâçâdo âmigo não merece
o nome de mâu padre. Suponho até que êIe goste slncera-
mente de sua compânheim, pois me lemblo de quanto em
sentimentâI. O padre mediocre, meu Deus, é quâse sempre Estou sêriâmente doente; Tive ontem uma súbita cer-
sentimental. Talvez que o vício seja menos pedgoso pãm t€zâ, ulnâ espécie de revelação dâ doenÇa. A época em que
nós que certa insipidez. Há âmolecimentos cerébmis. Á-mo- náo conhecia essa dor tenaz que, às vêzes, cede aparente-
l€za do colação é pior. mentê, Inas que não afrouxa, de todo, suas gauas, pareceu-
-me, de súbito, recuar, Íecuar para um pâssado quase vert!
ginoso, recuar até a infância... Passaram-se justâmente seis
meses, desde que senti os primejros sjntomas dÀste mal, e
quase não me lcmbro mais dos dias em que podia comer e
Voltando esta manhã de minha capela, através dos cam- beber como tôda a gente. Mau sinal.
pos, divisei o conde que pleparava seus cachorros para a Entretanto, âs cÍises desaparecem. Não há mais crises.
crca. ao longo dos bosquês de Lenieres. Saudou-me de longe. Suprimi, deliberâdamente, a carrre, os legumes; alimento-
I miri rrão pcrecia ter muila vontâdê de convcrsar comigô. -me agora de pão molhado em vinho, tomado -ôin pequena
Pcnso que, de uma ou de outra fo!mâ, soube da intervençáo quantidade, tôda vez que me sinto um pouco Íraco. Õ jõjum,
dL' Llli'x junro de mim. Dcvo proceder com muitâ reserva, âliá§, Íaz-me muito bem. Minha cabeçâ fica lcve e eu me
com nlurLa pruoencta. §into melhor que há três semanas atrá§, muito melhor.
OEORGES BEENÀNOS DrÁRro DB uM P,4xoco DE ÀLDxra ?5

Ninguém se pleccupa, âgom, com nlous incôrnodos. A Meu Deus, sêi pelfeitamente que a hereditâriedâde
verdade é que eü também começo â hâbituar-me com essa l)r'-c:r, dê maneirâ extraordinária, sôbre ombros como os meus,
triste figum que já nâo pode emagrecer mais e que, no en- llles é duro escutar esta palâvra: âlcoolismo. Vestindo-me de
tânto, conserva uma aparênciâ, uma inexplicável âpârôn- r{)!o, olhava-me no espê]ho, e meu triste rosto, cada dia um
ciâ de Inocidade, não me atrevo a dizer, de saúde. Na nlinha l)ouco mais amarelo, com êste nariz compr.ido, com e§ta§
idade, um rcsto não se desfaz; â pcle, cstcndidâ sôbrc os ossos, (luas rugas profundas que descem até às comissurâs dos 1á-
Iica eiástica. É seüpre âssim ! bios, com esta bârba rala, mas dura, que minha péssima 11â-
ReIi essas linhas esclitas ontem à tarde. Passei umâ vàlhâ uáo conseguia tirar de todo, pareceu-me, de repente,
boa noite, muito calma; sinto-me cheio de coragem, de es- horrível.
perânça. É uma resposta da Providôncia às Íninhas queixas, Com certeza, o doutor surpreendeu meu olhar, pois co-
uma censulâ cheia de bondadc. Muitas vêzes uotei ou m,(cu a lir. O .achorro re,pondeu com latidos. o dêpois
penso t€r apreendido * essa imperceptível ironia da -Provi- côm sâllos de alêgria. 'Saia. Fox! saiâ. bicho sujol" Fi-
dência (infelizmente não encontro outra paiavm). Dir-se-ia nalmente, entramos na cozinha. Todo êste barulho me havia
um encolher de ombros da mãe, atenta às artes de seu Ji- dado coragem, não sei por quê. A alia chaminé, repleta dê
lhinho. Ah ! se soubésscmos rezar ! lenha, ardia como um montão de pâlha.
À condêssa, agoD, só rcsponde às minhas sâudações com -- Quando se sentir aborrecido, venhâ dar uma voita
por aqui. É coisa que não digo a qualquer uril. Mâs o vigá-
um movimento de cabeÇa, muito Jrio, müito distarte.
Vi hojê o Dr. Delbcndc. vêlho médico quê passa por um Iio de ![orcy Íalou-me do senhor e seus olhos mê agmdam.
tipo grosseiro e não exerce mâis a profissáo; seus colegas se Olhos fiéis, olhos de cão. Eu tembém tenho oihos de cão.
comprazem em úf de suâs celcas de veludo e de seus sapa- É coisa, râtâ. Torcy, o senlor e eu somos da mesmâ raça,
tos sempre eng!âxados, cheilando â sebo. O vigário de Torcy unla ÉÇa diferente .
ânunciou-lhe minha visita. Mandou que eu me estendesse Certamente, nunca me poderia ocoüer a idéia de pêrten-
num divã, e, durante muito tempo, âpalpou -meu estômago cer à mesma raçâ dôsses dois homens sóIidos. Todavia, com-
com suas enormes mãos que, de fato, não estavam muito prccndi que n5o icral.a d' briocadeila,
limpâs (voltava dâ caça). Enquanto me auscultava, seu enor- râça ? pergü tei.
me cachorto, deitâdo junto à polta, seguia câda um dos seus -* Que
A que -
permanecc de pé. E por que fica de pé ? NÍn-
movimentos com uma âtenção extraordinária, devota. guém o sâbe, ao certo. O senhor me dilá: à gmçâ de Deus.
O senhor náo vâle Iá grânde coisa, disse-me êie. Basta Só que, meu amigo, eu l1áo âcrcdito em Deus. Espere ! Não
olhar- isso (parecia tomar seu cachorro como testemunha) adianta recitar-me sua tiçãozinha de câtecismo, eu a seí de
vê-se logo que o senhor não tem comido o bâstante, não é ? cor. "O espírito sopla onde quer, pertenço à almâ da lgreia"
Talvez, em outro tempo, respondi. Mâs, agora... lorotas I Por que ficar de pé e não assentado ou deitado ?
- Agom é tarde demais ! E o áIcool, que é quc o scnhot -Observe que â explicação lisiclógica ]rão basta. Impossível
tcm -ícito do álccol ? Oh ! não o que o senhor tcm bebido, justifical pelos Íatos a hipólese de uma espécie de predispo-
Dal,uralmente, o que beberam pelo senhor, auito antcs que slção Jísica. Os atletas são geralmente cidadãos amáveis,
o scnhor vicsse âo mundo. Plocure-me daqui a 15 dias; eu conformistas como o diâbo, e só reconhecem o esfôrço que
dá dinheirc
thc dllrei ulna âplesentação para o Professor Lavigne, de
LUlc. - não oMas
ventaram o pamíso.
nosso. Evidentêmente, os sen]úres in-
eu dlzia outro dia a Torcy: "Reco-
EEORAES IERNANOS . Dr,Áiro DE uM PÁnoco DE ÂLDEra 17

nhrça. pornm, qu. 1ocê dgüentcria o golp...om ou §em pa_


lllllo de certo nirmero de pés mpados, que me pâgam com
ullre llalinila ou com uma cesta de maçãs, e me tomam, aliás,
raÍso . âor; prra nós. túJa 3 pnnte vâi pârc o céu,
^iiá., os operálios de undócima hom, não é ver-
hem? Também tx)r' üm idiote. Em certo scntido, comparados com os ficos,
alade ? No tempo em que trabalhci um pouco demais digo r',,os coitados são umas vÍtiüas. Muito bem, quer s3ber,
trrâbâlhar demãis como quem diz bcber demais -
pergunia_ Ilr. Padte? Eu cs mcto tcdos no mcsmo seco. com seüs
va a mim mesmo se não somos simÊlesmente - uns orgu- r'{ploradolcs; uns não vâIe[] mais quc os outros. Esperando
lhosos !
fjulr vez de explorar', ê1es me fâzcm de bôbo. Só que...
Em vão, ria ruidosamenic; scu Iiso fâzia-rne mal, e crer- CoÇou a cabeQâ, observou-me de esguelhâ, dissimulada-
-se-ia que seu cão pensavâ, como eu; interrompeu bTuscâmen_ nrrntc. Notei perfeitamenfe que enrubescera. Éssc rubor
te sua! cabriolas e deitâdo, corn a barriga no chão, hL1ôilde_ r'arbre seu velho rosto. cla belo.
mente, erguia pâra seu dono urrt oihar calmo, atento, um Íló que uma coi"a ó sofrer a injustiça, e outra tolerá-
olhar que parecia alhcio o ttlclo, mesmo à obscura esper!,nQa la. -Êles â toler:am. E â injustiqâ os degrada. Não posso ver
dê coúpreênder âqucla dor q[c, cntletanto, repercutiâ JuÍr_ irjtc. É um seniime!'úo que não posso dominar. Quando me
damente em suas entrânlrâs, atar à illtima fibra do seu pobre r ncoillro a.xb, n.:iJ d( ,.m pobre drLbo que nào quer nlolror
corDo ciel'ro. E a lorllIlo lo.i'l'ro. cuidadosamênte colo_ tranqüilo caso é raro, porém acontece, de vez em quaü-
carà sôbrn as llrlirs cluzari'1.. l,;.ca:rdo os olhos. s"u lombo do - omaus
I}leus instiütos sobem à tonâ, tenlo ganas
comprido movcDdo-sc do estlenhos estrcmecimenlos, gru_ -
dc dizer-lhe: "Saiâ dâí, imllecil ! Vou ensinar'-lhe como se
nhia abatadamcnlo, cnrno .' s^ arpro'imassP um ini'rigo. Íaz isso deceriiemente". O orgulho, qual, semple o orgulho !
Gostaria ale sâbcr', à11tes de iudo, o que o senhor en- Eril cer'Lo sa:liido, meu câ1'o, não sou um âmigo dos pobres,
tende- lor licar' (lc pé. i,àu rne intoL'("J1 o pr.p. lo" :,l.râ.rrovr. P.e'e'ir;a cluê sê
Scr'iâ llcciso muito tcmpo para isso Ádmitamos, irrr'ànjâsserr sem minl, que se alranjassem lá con1 os pode-
Dâra-sor brêv., qrrc rr lrôsi, -:o \ell:c!l ro convênhx aos lode- Iosos. Mds quai I nao .. lJ:m maol, r-se (m .uI posrçaro.
iosos. Pcr'.r c.loiá lx, um hnm( m razoávêl espera aiingir o ô1es nre envergonl]âm. Nola qüe é umâ desgr-aÇa scrrtit-se
Doder. o DodeÍ ou n s.u rmLolo, ê aulotidade, o dinheiro. srolidário ccm urn bocrdo de badülaques que, medlcalmente
Lu náo eiperoi. No ncu l(r(,ilo âno. por ocasiào de lxn falando, náo pâslrâm de dcspojos. Questáo de reça, pr:ovà-
retiro, o Supelior do Cológio de Mcntrcuil pediu que tÔ- velmpnto. Sou -m ue.'a..ê:lâ dâ cêb!Ça ao" pés. nossa raçâ
mâssemos uúa divisa. S'be quâl .scolhi ? "Enfrentâl" En_ ó \,'otadâ âo saclilício. A râÇâ Cas causas perdidâs, qual !
Írentar o quê ? eu the pelgunto err, um mpazinho de Penso, aiiás, que â hunlanjdaCe se divide em dLras espéciés
13 ânos !. . . - - distintâs, segundo a idéia qüe cada um Íaz dâ justiçâ. Parâ
â iüjustiça, talvez. uns, ela é um equiiibric, u)_rrar transaÇão, Para os ou1iros..,
- Enfrentar
 injustiçâ ? sim e r1ão. Não sou dêsses tipos que Pâra os cutros, disse-]he, a juctiça é como a dilata-
vivem- com a palal1a justiça na bôca. Primcilo, palavra de ção -da caridadc, scu triuilial advento.
honrâ, porque não a exijo para mim. À que diabo quef o O doul,or LlhoL-rxc lon:o:n'nip, conr .lnr -r'( sur-
senhor que eu a peçâ, se não acredito em Dcus ? Sofref â in- prêsa, de hesitâção, muito incômodo p?ra Dlirn- Ciaio que a
iustjçâ é a condição do homem mortal. olhe, dcsdo que meus frase lhe desâgradou. Com efeito, não passava de uma
rolcg.rs ospalhrram por aí o boâlo de quê eu n:jo l, nho ne- frâse -
nhums nóqáo da âsscp"ia. minha clientela desalrareceu: só
78 GEORCES BERNANOS
Dl,4!Io DE ÚM P,futoco DE AI,DEIà 70

TriunfaMriunfal l Belo triunfo, meu rapaz. Vâi üunca se viu, nunca se vetá um suíço, empenachado como
-
lespo[der-me que o reino de Deus não é dêste mundo ? De um cârro Íúnebre, i! buscá-lo âo íundo da lgreja, parâ levá-
acôrdo. M'a§, se nos pcrmitissem dar üm piparote no re- -to ao côro, com âs considerações devidas â um principe de
lógio, apesar de tudo ? o que censuro n.s senhorss não é o sangue clistáo. Semethante idéia Íaz geraLnente rt a seus
coiegas. Futilidades, vâidades ! Mas por que diabo plodigali-
Íato dc ainda existirem pobres, não ! Ató quelo ser benévolo zam êles tamanhas hoüenâgens aos poderosos da term que
com os §enhores, concordo eln qnc vclhos imbecis como eu rnorrem de gôsto ao recebê-las ? E, se as iulgam lidículas,
§e encâlreguem de âlimentá-ios, dc vesti-los, de tmtar dêles, por que as fazem pâgar tão caro ? "Rir-se-iâm de nós, dizem.
t de os limpar. o que não posso peldosr-lhes é o fato de os vendo um maltrapilho no côro; isso se converteria logo em
1,
senhores mos erúregarem tão sujos, os senhoÍes a cuja comódia". Pois bem ! Só que, quando o pobre diâbo tiver tro-
gualda fomm êles confiaclos. Conpreende ? Depois de vinte
cado definitivamente seus n]íseros tlastes por outros, de rnâ-
séculos de c stianismo, quc diabo I Já ninguém deveda en-
velgonhar-se de ser pobre. Ou ser'á que os senhores tíâírâm deim de pinho, quando os seü.hores estiverem seguros, absolu-
o Cdsto ? Daqui não saio. Qual o quê! Os serücres l,amente spguros. de que náo assoarSo mais os nâlizes com
dispõem de tudo o que ó noccssário para humilhar o úco,
os dedos, nem cuspilão nas tapeçarias, que é que os se-
para o abater. O rico ien1 sôde de atêôÇões, e qüaoto mais nholes Íazem dêsses coitâdos ? Vamos ! não me importa de
passar por um imbecji ! Sei que não estou errado; nem o
co, mâis sêde tem. Se os senlloles íivessem âo menos a co- Papa me laria mud.rr de opinláo. E o que digo, meu caro,
ragem de o manter no último lugar, perto da piÍ, cla água
os santos.iá o prclicalam. N;o dcve, pois. scr coisa assim
benta ou na porta dâ Ig|eja por que isso o Íaúa
- parâ onãobanco
refletir. Quando nadâ, olhariitm
?
- dos pobres,
tão idiotâ ! De joelhos, porante o pobr-e, o enfêÍmo, o le-
proso, eis como vejo os santos lá de sua lgreja. Engraçado
eu os conheço. Em lodui os lug-:ej. os primetros: êqui. na exército êste, em que os soldados se contentam em dar, de
casâ de Deus, os úItiüos, imagine o senhor ! Oh I bem sei pâssâgêm, um tâpinha de amizade prct€tora nos ombros do
que a col§a náo é c6n1oda. se é certo que o pobfe é a ima- hóspede roal, aos pés de quem os marechais se prostram !
gem e a §emelhança de iesus o próprio Jesus
dileito Jazê-io subil ao banco -
de - não aé
exibição, para mostrar Calou-se, um pouco sem gmçâ, por causâ do meu silên-
tôda gente um rosto irrisório do quâl, passados dois mil anos, cio. sei que não tenho bastante expedência, mas penso t€r
reconhecido nêIe, desde o pfiÍneüo instânte, ceúo jeito, qual-
os senhores não coDseguiriam ainda iimpai' os esca os. Por- quer coisâ que trai lura prolunda {eridâ d'alma. É pos§ivel
que a que§tão social é, antes de tudo, umâ questão de honrâ.
que outrcs sâibam encontrar, em tais casos, a§ palaEas i!di-
Há miseráveis, por causa ua injusta humilhação dos pobres. cadas pâra convencel, para sossegat o espírito. Ignoro essas
Não peço aos senhores qüe façam engordar cliatüras que, palavrâs. Parece-me que uma verdadeira dor, dor que sai
aliás, de geração pâra geração, loram perdendo o hábito de do Írtimo do homem, pertence, antes de tudo, a Deus. Tmto
engordar; hão de permencacr, o resto da vidâ, provàvelmente, de recebê-1a hurnildemente em meu coraçáo tal qual é; es-
maglos como passarinhos. Pode-se mesmo âdmitir, a rigor, Íorço-me por Íazê-la minha, por amá-la. E compleendo todo
em râzão de conveniências, â eliminaqáo dos tarados, dos o sentido oculto da expressão hoje tão banal "comungar
i ociosos, dos bêbados; enfim, dos fenômenos francamente com", porque, na verdade, comungo com esta dor.
complornetedores. Á.contece, porém, que um pobre verdadei-
!o poblc, u1n pobre honrado vai por si mesmo colocar-se nos O câo viem colocâ! â cabeça sôbre os joelhos de sell
úllimos lugalcs, na casa do Senhor, que é a suâ casa. E dono.
êEORGES BENNÁNOS DLÁRro DE uM ?,(noco DE Àr,DEr 81
BO

(De dois dias p.rra cá. censuro_mP por não hâver respon- O vigfuio de Eutichamps inteNeio junto do conde (é
diclo a essa cspé.ie dc rcqujiilório e no 'nlanto. bem no Íun-
rm yelho amigo do castelo). O conde não rccusou o te eno;
rrt)cnas quer atugá-lo, por 5 ano§, a 300 Írancos anuais. ller-
ão à" -i- riesrro, nâo posso cuDâr_me. Aliás,. que teria rrlisado o contratíJ, e, salvo novo acôldo, ôle entrada outta
àit i rao sou um'cmbaixador do Dcus dos fiiósofos, sou
Íaz nâ posse do seu teileno: os {elhorâmen{os e constru-
um servo dc Jesus Cristo. E o qúe me telia vindo aos lábios, (õcs eventuais pâssarian1 a ser prcpriedade sua. Á verdade
tcmo-o. Dodêria ter sido umx argumê1l4(áo muiLo fofte.
I

auviaa. mas tào lraca lambôm quc, desde muil'o, con- i) que, provàvelmente, não âcredita no ênito dc minha em-
".m prôsa; suponho mesmo que pretende desanimar-me com
venceu me, §em me dar a paz de cspírito.)
só Jesus Cristo é a Paz. cssa tmnsação, tâo pouco de acôrdo com sua situação, com
rcu ca!áter. Disse ao yigário de Eutichamps pâlâwas bâs-
tinte duras: que algumas boas-vontades excessivamente ilre-
quictas eram um pcrigo pam todos, qlre não é homem para
lomar compromissos baseados em prcjetos âéreos, que, antes,
(,o deviâ provar o movimento andando, e que era mister mo§-
A Drimeira llarte ílo mcu proÊrama eslá em vias dê reali- tràr-lhe, o mais depressa possível, o que chama de "meus
7â.àô DisDus-nie a vlsilar cxda fâmiliâ. ao mcnos uma ve'
-ia"r, Irt€tas espoúistas".
íli-i.iãÉiíã col.acs so\tám de qualilicar de exl'ra-
o c-v,'rclado que será dilicrl mânier o Só obtive quatro inscrições nadâ extraordináxias !
iÀ.rri. à.t" plojcto,
Igúorâva que existia uma associação - esportiva em Héclin Iu-
porquc. êntrs dP tudo. náo devo negligenciar pelo
"ãilúoi-".o ir"u'" a"u"t"'. As pcsqoas que prêLêndem jul- xuosamente instalada fabricante de calÇados, Vergnes,
;;;i;ã; que proporciona trâbalho à população de sete municíplos.
lànqe, clo tundo tle um gabinele confortável onde'
"ãi-rãila"j;à.--r*liram o mcsmo -lrabalho da véspera não
?i,]""'ã- E verdade que Héclin está a 12 quilômetros daqui. Mas os
-trr"t idéia dc dcsordêm, do 'dPscosicio de nos"â vida rapazes da aldeia vão lá, muito fàcilmente, de bicicleta.
"na"-
ioiiaiana. tttat cons, guimo\ üar ronta de nossa tarcla eo- Enfim, de qualquer fomâ, acabamos por trocar algumas
Àum cuia i.trlta .xFcrcio laz os nossos §uperio_ idóias interessantes. Creio que êsses pobres jovens vivem
- aqueta
ies dizerem': cis uúa paróquia bêm drrigidâ Rêsta o inlpre- desprezados por' camaradas mais glosseiros, frêqüêntadores
,iitJ. n . imprevisto- taúbém merece cuidado ! se!á que de bailes e de mulheres. Como muito bem disse Sulpício
..1á" oto" Ndsso senho( qll"r que esleja? Faço_mc csta Mitonnet, filho do meu ântigo sineiro, "a taberna Íaz mal
nêrsunta. vinLe vózcs ao dia Porque o MestTê que nos ser_ e custa caro", À espcra de coisa melhor, e na laltâ de nú-
i:À-os nào apenas lulga â nossa vida - particrpâ dela as- mero suficiente, lirIlitar-nos-emos â forma! um modesto cÍr-
."Áo-r. se.iá rruitô riais Íácrl contratar um Deus geómÊtra cuio de estudos, com sala de jogos, de leitura, algumâs re-
e momlistâ. vistas, etc. . .
Ànunciei esta manhã. depois da missâ principal. que o' Nunca presiei nuitâ âtenção em Sulpício Mitonnei. De
iô!r rl. csoortrslas da Daróquia, des"jo5us de íormâr umar equÉ
I irc. onacr'lsrrr reunjr-sã no Éresbiterio. depois dr rezd LIJ tdlde
sâúde bâstante precáfia, acaba de prestar seu serviço mili-
htirs,,,"o tomei essa decisio de uma hora para oulrâ: ano_ tar (depois de ter sido recusado duas vêzes). Átualmente
exerce, como pode, seu oficio de pintor, e é considerâdo um
l,ci, ântcs, cuictaclosâm€nte, em meus registros, os nomes dog preguiçoso.
próváÍois âalcrentes talvez quinze, ou ao meno§ dez.
-
DrÁÀro DE úM F,(Roco DÉ ÁrDErA 83
82 GÉoRoEs BERNANoS

Penso que seu principal motivo ÍlP sÔlrjmento


vem da icjr<ar-fie a ouvi_la. Os çlue p'ncam qLre â conlissão nos
vi\er' ( o::rplelxmcnle no s'g'ôdo das almas sao
muitos
".I'mite rntr'3r
em qr:e deve Como de
rrutâti;aàe'ao meio'
iÊ,i"iã Jrnn"i.o",.onha c:om uma culoraqéo na cidade pois ü..iãnie inginuos I i pena que nio pos\cmos pedir qu-e Ja-
ii# iãâ'Í"i.]i
'ôr.,
I-a brutalidadê cias grandes cidades nem L:rnI éles m"csmos â êiprrielicla Hcbll,uaclo. at' 'ntão a
menos Lemivel É pro- , ,, r-s nenitentczjnhos dõ senrinário, nao pudc âindg compre-
J"r'üioã-oritá espécie parece me contagiosa grna alma oue êstri.nha metJmorlocc as vldsi inlÔl'iores sÓ
üi"ffi";;;;i. àiisimuiàaa. mâis
de suas gârras'
,
n,.".,.r'oo,
dià de si nresmJs imdg'm láo esqucmàlica. 1ao iniierj-
---'' náo coh§egue escap$
Ímca
fiáÍei. Passada a adoleseê;cia, penso que poucos crist'ãos
I oepois da [artida ãe scus eompanheiros conversamos lixal ex' jc tornam culpáv,js d. contunhóos sacrtlcgas. E lào Íacil
l, toneãm"ente. Sdu oihar é um pouco vago não.se
.;i. a expressJo.rão comovedora dos sêres vo- rr..oseconÍessal. de modo.llgum: ]\Ías ha âl8uma (or c plor: I
;;iil.;;i;incompreensao. a sorrui_u: ! (omo o olhar de Luísa' Lma lcnla crislrliTàqho oa Ê. qui:1.'5 menlllrs oe suDÍerru- I
tados à
g:o.. de eq.rlvocos. vrl-s lorr'lJ4do em lôrno da consctcnc'a l
càoâ exlclior.u, n!c conçL'.3 linla v,!a lorma daquilo que
, tr'por d,ntr'o.'Co'n o hab:lo (om o iompo
^ o§ menos,sutis
.rcab,m criando, pa rc uso pal{:.-lar. cJm lodxs as mlnLlclas'
A Srâ, Pcgriot romunicou-me ontemdiz quc rão vollaria ri"ov'lm',rte abstrsla NJo octtl-
vergonha ela conlinuar "-i, ""o,'r;b',p.i-,
in..rue.tn
*àt.r, lr;quezâ clij";muladJ lr mirrâ êssei
mais ao íresUlferio. A'ha uma
Ie vcrua-
i.m.raiO.
dinhêiro Dor trabalho in"lgnrllcanre
-iút mais qua Írugal e o estaclo de
um ,',r,oi ioaao. qu" só d(i\am pãssar uma luz dilusa, atr'âvés
"ã"'"".êhê;
o.i"-ã"t . minha ,13 ouâ1 o ólho nadâ distingr.le.
rooda orase nào thc dáo o que fazer) 'Asiim- oue restJ, .r.,nã1, de conlissào ? Àpenas âIlora
'Pof outra parle, acrcscenÍa. "nao' ser llcal a roa : sunêrlicie ôa cons(iêrr.ia Náo m' Jtrevo a dl7êr que por
brincaaelra' -ut ç6nsegui i,rirà. tuoo se vai decompondo; ontei. se petrifica
t""tãii"""i i-"àÀ; emputavam ac''óIela "5q
Muito contra
rura-ià'"àiii.l'§i',t.rninnos ouase invencivel por
mihhâ vônlade. slnLo umâ repugnalrcia
';;iu
:,':ü"í*l;;1;,; ;;";;";;. lrontc'baixa puxada por
l#;,t';iftõ;;;;ã-Je no alto do crànio; sobretu-
vÊr o seu pr scoço oÔrrlo' raiado de linhas
ío, rraá ueii"rito "au"ro
Noite terrivel. Desde que fechei o§ olhos, a tristeza
impossivel do_
horj?ontais e sempre lusl'roso oe suo"r' É-me dê me hair' .ê âDoderoLld" lrim. Inn lizm.nl". nao r ncontro oulra pâla'
ii,liiá,i'iã" ;i"i,i"!:";s e eu lenho ranto môdo
vrâ;âra oLal:i:..rr ôsso desirlccim, nlo indefinível: ulna vcr-
que ela deve desconfiar. dadL'irâ h;morrJgia d'âllna D" perlí.i llrus'amcnl' com
'- Terminou Dor uma alusàoq'" obscura a 'certas pcssoas
rl qu" iàâ' àri1-"{ii"i'"i uq,l ' quererá dizer com isso ? um grande grito-no ouYido - mas jerá essa a palavra que
convém ? Evidentemcnte, não.
I
/.Denas dominado o tor'llor do sono, Iogo que pude fixar
t ,no', ,]"".rm.nto. ,o116t1_1., , dc rcpÊnte, ê cllrrr. O csfór(o
quo, hâb;,udlmênli'. imponho a l,lim mesmo. para dominar
t,uÍsâ aDres.ntou-se, esta manhá, ao contcssionário SeI rr.ur" nervos, e spm dúvida muilo maior do qu^ imagino'
rluc scu dirétor é o meu colega de Heuchin mas nao
poqra oepois Oa agionia dessas últrimas horas, essâ idéia me é con-

,i
84 GEORGES BERNÀNOS Dr,ÁÍtrô DE uM P,iRôco DÊ ÀLDErÀ 85

soladorâ, pois Dcus há de t€r em conta o esÍô4o quê Jaço' culo". Âcho que !ó âtgrldelam a meu pedido porque náo têm
ã;;ti;"i qu.'rêr, e do qual. por consoqirôn'iâ nío rne pode o que fazer, pol tédio pârâ ve!...
âdvir oualqu.r saliõ;aÇdo do amor-proPrio. - de Torcy
Encontrei o vigário no caminho de f)esvres.
ôúdo Dou"o conhecemos do quc .l dÊ lalo umâ vjda hu- 'Irouxe-me eo pr'esbité o no s€u carro c âté concordou em
nr*rru: io., viua. JuiJJr-noi pclo qu^ chr:namos nosso( b€ber um copo dê meu famoso "bordóus".
âtos ó. talv.z.
^. tào inutil como julgar'-no\ lelos nossos scnnos será cuc você gosia disso ? perÍJuntou-me.
I
) Errtre ecsa mull:dào dc coisas obscul'u". D( us frz a escoll'r' -Respondi-lhê - quslquer vinho ordi-
que me sâtisfazja com
sequndo sua jusL:(r, e cquala qtlc nc êlevJ pa'a o Pai no gc J nário comprâdo nc ârmazém dâs Quâtrc-Tílias. Entáo, pâre_
t, do-ofcrtóiio, tlumina-sc, dc sJb:lo. rcipl-nclece como o sll' ceu tranqüilizar-se.
N.-o:mDor'{a ! Scnlla mc liro t xlcnLeJo. eslâ manna qu" Tive a iopressão nuito nítidâ de que estava com algumâ
leria dado ô qLre Íó5"e por ulnir pclavla humana de comp''i- idéia na cabeça. m.1s que se disDusera a guardá-Ia parâ si.
iáá. a" i"tn*:r. Penscí crn.r,,','','ali a casa cte Torcy Mas' Escutâva-me con1 ar alistraído. enquanto o§ olhos, contrâ suâ
ór"iiiu*""'" as I1 horirs ',x o (alecismo 3
das criallça'
vontade, faziam me 1rmâ pergunta, diíícil dê rêspondcr, visto
I
-iúcsmo
--- de bic:c'etâ, nio |lull( riJ voltar lempo
que se recusava a formulá lâ. Como âcontece semnre oüe
I
iÀ;;th.t aÍunn é sitvcslree Galuchet, rapâzinho não
pela velha sou iníimidâdo, pus-me â Íâlar a torto e a dircito. Há certos
-"it"àue*a"úo (sua mãe nlotleu, ête é educado
silêncios que nos atrâem, que nos fascinam; a gente tem
quasl- \,nrl,rc bLll'(J,: rntrelantro lem um'r
vontade dc enchê-los com qualquer coisa, com palavras...
"rã. ".rri
Ii""rj"t: t"r"r^'qr" otssDr,lLJ. in\,1,, I\Jlm. nLe. a impres§do
de antes do pe- Vocô está" com uma âparênciâ horrivel, di§sê-me âfi-
;i,;Ç;;i ã" inoci'niia - Lrrlc ;nu'incia np-1--Coisâ Dicr não se encontrâdâ em tôda a diooese ! Pelo
iÀ"íã rrnu i"oi.nr. pur.zâ dc anim'0l pLr'o Quando di"tri-
viôto, \,ccê trabâlha como um buÍ!o, você sc alrellentâ de
tuia os bons-ponlos, vcio prorul*t §' u sJntinho nâ sscrlsl:à trâbalhâr. C) Sr. Eistro há de ter uma g1ânde necessidade
ãlãrãáli..i i"i-u," nos olh;s (3ln-os. alentos aquela piedâde de pâdres; só assim se explica que lhe tenha confiâdo uÍnâ
qual ensi3v.r. Lrlf itei-o. pol um instanlr' 'm
"rirnrã'r"iu paróquia ! Felizmente, uma paróquiâ, no fuhdo, é coisâ bem
Ã"ui t.aio" a crbeql en, scu ornbro' chorei' como um
i ",'"om sótidâ; do conhário, voeê correde o sco de a êsbandalhar.
tolo... Eu sentia que, com penâ de mim, transformava em brin_
câdeira uma opinião muito refletida, muito sincem. Leu ês§e
pensâmento nos meus olhos,
Poderia azucriná 1o de conselhos. Mas para quê?
Primeira reunião olicial alo nosso "circlilo de esbudos"' -
Quanclo erâ professor de mâtemática, no colégio de Saint-
fi"f* oen--.lo em clar 5 pr'sidenc:a mantêm â Sulpicio Mrwnost -Ome!. conheci âlünos assombfosos que conseguiam resolver
rna! D;r(ce que seus compànheiros o um pouco a problemâs muito corllllicados, prêscindindo das regaas ha-
ár"Lcircl.r. .lrt,-lr'atn_"nte, ãcher quc t1ão cievla insrslir' bituâis, por simplês maliciâ. E dêpois, meu eâro. vocé náo
! . nio l'iz.mos outra coisa que precisar àlgtln' p\n- estâ sob minhas ordens: dovo deixá-lo âgir como quiõer. l.os-
los r'c um DroqrJlne necesláliamenle $ui[o mod' sl'o ' m pro-
^li:l tmr o de que é capâz. Não temos o direito de torcer o modo
uur'.r, ,'oir ol n.s"on recut'sos os J,obl"s raprlcs cxiecem de julgar de nossos superiores. Noutm ocasião, direi a você
ivij(lll ,n"llt. ce irnâgioaç;o. de enlusiasmo. Comu o con- qualéomeusistema.
iesiã,r u"g:"10.; Deniiane tinham mêdo de "cat no ridí- * Que sistema ?
.."- 86 CEOBGES Bf,RNANOS DIAÀIÔ DE UM PAROCO DÍ] ALDEIÀ B?

Não me respondeu diaetamente. .u: rrQuando estiveres extâsiado


iunto de Dêus, se um doentê
.Vcj5. o" suFêt'iôr.s têm rezio d, cconsÊlhâr a pru- tc pedir uma tigela de catdo, desce do sétimo céu e dá-1he o
dóncia. Na lalla Cp .oisa melhor'. clr lamLôm .nu prudÀte. que pede". É uma bela fórmula, não há dúvida, mas não deve
Está no mcu temperârnento. Nâda dc lnais idiota que ürn rrcr'vir de pretexto à preguiça. Porque há uma espêcie de pre-
pâdre ir.Ieflctido â bâncar o maluco, scm quc ncm pâra quc, guiçâ sobrenatuml que nos vem com a idadc, a cxporiência,
por estilo,.. Mâs, seia como fôr, nossos caminhos não são âs decepÇões. Ah I os padres velhos são intratáveis. Á últi-
os do mundo ! Não se ânunciâ â Ver.lade aos homens, coma n1â das imprudências ó â própda prudência, quando, insen-
quâlqu€r propostâ de seguro ou qu:rlquer depuÍe,tivo. Â Vida sivelmentc, nos levâ â plescindÍ de Deus. Há pâdres velhos
é a Vidâ. Â Verdade de Nosso Scnhor ó a Vid?,. Patece quc qüe nos horodzam.
somos portâdores da Vcrdade: ó ela, porém, que nos conduz, Reproduzo essas palavras como posso; ceftâmente muito
meu Íilho. mal. Porque não âs ouviâ, quâse. Àdivinhavâ tantas coi§as !
Em que consiste mer ô1Io ? Não tenho co[fiânça alguma em mim; minhâ boa vontade,
-(Tremia-me - disse-lhe.
a voz. Tivc cle rccomeqa! a frase duas vêzes.) porém. é tão grande. que sempre a imagino visível a todos.
Você se aqita demais, Pârcce trm besouro m,otido Éico âchando que todos podem Julgar-me pelas minhâs inten-
nurnâ- gâúafa. Acho, Ior(rm, qrle você tem ô espírito de qões. Que loucura I Quando pensava estar ainda no umbral
oraçao. dêste pcqueno mundo, já muito antes penetlarâ nêle. E ali
Pensei que ia âconsdhâr me â fuÊir para Solesmes a cstâva. completamente só o caminho de volta fechado
Íazer-me frade. Àindâ nma Yez. adivinhou-me. de um relan- âtrás de mim, sem retiradâ -possível. Não conhecia minha pa-
ce, o pensamento. (Tâlvcz não 1ôsse dificil...) róquia e ela Iingiâ ignorar-me. Mas a imâgem que fazia de
Os fraales são mâis cspcrtos quc nós e você não tem ês- mim já era pedeitauente clârâ, precisa. De ta1 imagem,
pírito prático. Seus célcbr'ês Dlanos não ficam, um mjnuto, nada posso mudar, daqui em drante, sem extraordinários es-
de Dé. Ouanto à exDeriência rlos homens, nem é bom f"l.r. forços.
V."ê iUlSa o.o.]dp um "rin'l^..ônhôr; na sua Onihiio ôc O vigário de Torcy lcu o terror em minha cara ddículâ;
pirrulhos do cateci-cmo são poetas como você: e o dcão lhe imediâtâmentê compreendeu que, naquela hora, tôda a te[-
parece um sociâlistÍr. Ilníiln, vocô {âz um triste pâpê1. diJrnte tativa parâ tlanqüilizar-me seria vã. Calou-se. Esforcei-me
dessa brilhante trâróqüia. Sllvo o devido respeito. você ó corno por sollir. Creio que cheguei a sollt. Era quel !
êsses jovens mâridos sirnnlórios qu-^ se iâctam de "estâr estu-
dândo suâ mulher", ouândo elâ já os conhecia, dos pés à ,t
eabeQa, desde o primeiro instante.
Entáo ?. . .
I -(Mal podia faIar, estava Íora de mim.) Noite má. Às três horas da madrugada, peguei uma
I * Então... Vamos, continue, que quer quê eu the digâ ? lanterna e fui à igreja. Não consegui achâr a chave da porta
Você não possui ncm sombra de amor-próprio, e é djlícil dos fundos. Tive de abrir â portâ pdncipal. O ranger da fe-
i formâr opinião sôbre suas expêdôncias, porque você as reâli-
za  fun.lo, \'ccê emtlenha nelas todo o seu ser. Natriralmen-
châdura fêz um barulho imenso, sob as abóbadas.
Dormi em meu genuflexório, a cabeÇa entre as mãos e,
I I tê, nrio ó r.-u slir 5F-Lrndo c ilnrdônciâ hu'rana. Lpmbre-se tão profundamente, que só Íui acordado pelâ chuva ao ama-
desta pal:rwa oê Rursbrocck,_ o Admirávcl. llam.ngo como nhecer. Á água passavâ atÉvés do vidro qüebrâdo da ja-
t

,l
88 GEORGES BERNANOS DlÁItro DE uM P.{Roco DE ÁLDnrÀ 89

nela. Sâinclo do cemitério, encontrei-me com Á$ênio Miron, de Anjo, com suâ voz süblime, com sua prodigiosa voz: ,,Tudo
meio indistinto na brumâ; deu-me trom-diâ. em tom malicio- isso será têu se) prosfuâdo, me âdorares..,"
so. Eu devia tcr um aspecto ridículo, ccm meus olhos ainda Aí está, com certeza, o que explica sobreüaturalmente a
empapuçados de sono e a bâtina molhâda. cxtraordinária resignação das multidões. O podcr está âo
Tenho de lutâr, sem descanso, conl,ra a tentâção de cor- alcânce de sua mão, e o Pobre o ignora, ou pârece ignor-á{o.
rer a Torcy. Pressâ imbecil do jogadol que sabe muito bem 'Icm seus olhos postos na telra e, de segundo cm segundo) o
que perdeu; mas se cansa de o ouvh dizer. No êstado nervoso sedutor espera dête a palavrâ que o fará scnhor da espécie
em que estou, só podedâ, aliás, perder-me em vás desculpas. humâna, mâs que nunca há de escâpar.-se da llôca augrsta,
Pâra que falar do passâdo ? Àpcnas o Íuturo importa; e eu seladâ p€]o própdo Deus.
alnda não sinto fôrçà de o encarar de trente. Problema insolúvel: restâbelecer o Pobre em seu direitô.
O vigfuio de Torcy pcnsa plovàvelmente colno eu. Estou
sem estâbelecê-lo no poder dêste mundo. E, se acontecesse,
por impossivel, que uma impiacável ditâdura, servida por um
certo disso. Esta manhã, enquanto pcndurava âs cortiÀas ryército de [uncionárioc. dê técnicos. dc es[atisticos. rpoiâ-
pâra â encomendaçáo de Maria Per'dfot, pensei ter reconhe- (los, por sLrâ \ez, em mirhõês de espiões F de guard^.. l^-
cido seu passo firme, um tanto pesado, sôbre os ladrilhos.
Ere apenas o coveiro; vinha dizer-me que terminara sua §irasse manter respeitosâs, em todos os pontos do globo. dê
tarefa. uma vez. aS inteligÉr'.ias carnivoras, as bêsü,As ferozê\ ê â(-
tutes feitas para a gânânciat a raQâ de homens que vive do
A decepçáo quase mc lêz cair da escâdâ... Oh ! não ! homeul pois perpétua avidez de d:nheiro, não Dâssâ,
aindâ náo estou pronto. . . - umâ suâ
â[iná1. dc lol11â hipócrita. ou tâlvcz inconsr:êntc, .]1
l'^nivê|. dâ inconfêcsà!el'Iome que a devora sn n"o.
duTiria o desgósto pela oureo mpd;ocrilds assjm- logo
constiluida
em regra universal, e, pot todos os lados, ver-se-iâm Ílores-
cer as pobrezas volunlárias. como êm umâ novâ prlmâ,prJ,
Deveda ter dito ao Dr. Delbende que â Igreia não é sô- Nenhuma soci€dade etiminará o Pobre. Muitos vivem dzt
mente o qxe êle imâginâ, uma espécie de Estâdo soberâno, imbecilidâde âlheia, de sua vaidade, de seus vícios. Mâs o
Pobre, o Pobre vive da "caridade": palâwa sublime !
com suas leis, seus funcionáfios, suas fôrças
por mais glorioso quê seia, da históda dos - um momento,
homens. Ela
marcha através dos tcmpos, como uma tropa de soldados
por países ignotos, onde q[âlquer reabastecimento é impos-
rl sível. Vive sob rcgimes e sociedades sucessivas, como a tropâ
vive no lugâr em que se encontra, dia â dia. Nâo sei o que se pâssou esta noite; eu devia estar so-
Como podeda dar ao Pobre, herdeiro legÍtimo de Deus, nhando. Mais ou menos às três horas da madr.ugâda (âcâba-
um reino que não é dêstc mundo ? Á Igrejâ anda à procurâ râ de esquentar'um pouco de vinho e partirc o meu fio den-
I do Pobre, clamâ tlor êle em todos os caminhos da terra. E lro dêle. como de costump). quando a-porla do jrrct:rx.ome-
I
o Pobre cstá sempre no mesmo lugar, no vórtice extremo çou â batei táo violentamente que me vi obtigâdo a desceÍ.
do cimo vertiginoso, em fâce do Senhor dos Âbismos qüe, in- Encontrei.a lcnhada o que, do certâ maneira, náo n e surpre-
: cansàvelmentc, há vinte séculos, lhe iepete com úma voz endeu, pois tinha certeza de a ter ttechâdo, na véspera, como
i
I
90 êEOEGES BERNÁNOS DIÁ!Io DE uM pÁrioco DE ÀLDrrA 91

Ísco, aliás, lúdrs âs noiiFs. Uns vintc minulos mâis târdc. ,,r r'no vinho e guardo o pão vário§ dias, até que Jique huito
elá comecou novamenle a bater, coln violência, ainda fiaior ,l ro, tão duro que, às vêzes, tenho dc quebr-álo em aez de
ou. Llâ primni-a vêz (ventava muilo, umâ verdàaleira lem- r) r'ortar; o facão de cozinha é ótimo parâ isso. Âssim, é mais
iestadêt). É umrl história ridicula... iilril digetir o pão.
Êecomecei minhas visitas gtacas a Deus. Âs observa_ Graças a êsse lcgime, termino meu trabalho sem grande
côês do vigário de Torcy mP -
torncram prudPnl,P: procuro li- lirílií{a, € até comeco a rcadquirir um trmüco de confiânca...
mitar-me à um pequêno númeln d. pêrgunlas lêitas o mais 'l'rilvez vá, sexta.feira, à casa do vigário de Torcy. Sulpício
discretamente possível, perguntas banais pelo menos Dâ À'lilonnct vem ver-me todos os dias. Nâo é muito inteligen-
aDâ-rên.ia, Dê a.órdo com n rcjl,o.lx. -
ns[orço_mc por elevar lr,, isso não; mâs é delicado, atencioso. Deilhê a châve da
â conversâ a Llm nívêI mais allo, náo muilo, apenas âlÁ que,
," nónca ê êle enlra aqui. na minha au\ência, mnxe um
junLos. possâmos en.onlrar urna vnrdsíle, simplês. a mais hu- túuco, em tôdâ a parte. GIâqâs â ê1e, minha pobre casa muda
"mjlde po.siv"l. Mâs náo ha \oldrdês mÁdias! Por maior íli) asDecto. Diz que o vinho não convém â seu estômago
quo seià a minha l]rcccu.àn. c mccmo quândo evifam pro nrNs se Íar.tâ de açúcâr,
;unciá-In meus lábios, o nomn de De[s parê.e brilhar' sü- Contou-Ine, com lágrimas nos olhos, que suâ assiduida-
bitamente, nesta âtmostcra espôssa, sufocante, e o§ rostos d. oo presbitério atrai sôbre si muitas troças e brjncadeiras.
que iá se abriam, logo se fccham. Selia mais exato dizer que Cloio que é principalmente sua maneira de viver que des-
se obscurecem, se enchcm dc tlevas. rancetta nossos câmponeses tão lâboriosos, e censurei sevelâ-
Oh ! â revolta que sc desâbaÍa em iniilrias, em blâsÍê_ ,rante süa preguiça. Ptomcteu-me procurar tmbalho.
mias. não é nada talvez 1... A ira de Deus faz_me pensâr A Sra. Dumonchel veio ter comigo na sacdstia. euei-
semnr'. ns nossêssào diibólicc. Enlào. o dêmó'lio se âpodê- riou-se porque reptovei suâ filha, no exâme trimestral.
rnu .lêlê (JLrdâ\). Si'n, nâ nos'e"sJo. na loucurâ !.. Áo Evito, tanto guanto possíve1, aludir. neste diário, â cer-
passo que certo mêalo dissimuiaalo do dilino, esta Juga obli- tâs proves de minhâ vida que gosta a de esquecer logo que
quâ ]âdeândo â Vida, como â sombra estrêita de um muro, crcorrcm, porqrre não são daquela§, meu Deus, que náo posso
etlouanto a lLlz o inundâ de todos o§ lados ! . . . Penso nos ruportar com alegria, e que é a resignaÇão, sem âlegria ?
animâis que se allaslam até seu buraco, depois de ter-ser_ Oh | âão exagero sua importância, longe disso ! São das mais
vido aos 6rjnquedos crüéis alas crjancas. Á curiosidâde feroz comuns, eu sei, À vergorúa que me causam, essas indomá-
dos demôIlios, sua tremcnda solicitude pelo homem é ale tâI \,eis turllaÇõcs, não são muito honrosas para mim, mas não
jcito mist€riosâ !. . . Àh ! se pudéssemos ver, com olhos de posso supcrar a impressão física, a espócie de repugnância
Ánjo, essas criaturas mutiladas ! que me ocasiongm. Pârâ que negálo ? Vi, muito cedo, a ver-

il dadeira fisionomia do vício e. émbora sinta realmentê. no


'undo do mim mnsmo, Llmâ grânde Diedâde por essas pobrê§
,.rmas. â rmxScm de suâ desgràça que me xparoco. \nm que o
riI

Estou muito melhor; as crises se e§paçam e, às vêzes,


.ucirâ. ô quase intol.rá\el. Em u i:ra pabrira. a turúr.iá me
dá mêdo.
if parece-me sentfu algo semelhânte âo apetite. Em todo caso,
àgora, prcparo minhâ comidâ sem repugnância
Á impurezâ das criânçâs, sobretudo... Conheço-a. Oh !
não a lomo muilo Delo lado lregico I Penso, âo contrário, que
- sempre
o mesmo cardápio: pão c vÍüo. Só que ponho muito açú_ L.lvemos suportá-la com muita iaciencia, porque a menor ütr-

l,i
DI.(!Io DE uM PÁRoco DE ALDETa S3
92 õÉoicis BIRNÀNOS

rlr um pulo, deixânalo cair sua bôlsa em um burâco. Tive de


llrir cnviar depois, pot meu coroinhâ, que foi muito mal lece-
ylo"!' li l)r(lo cm sua casa.
das ! E. mr'Flo nesle c,co ê luo pcl-l-'(r :"#ij"t,,i*+i!['
"'.;:1,'",r;l""rli.::1:i^iT':l A Srâ. Dumoüchel mostrou-se cortês. Sem dúvida, a
iiJ,. iÀ,. 0"'*l-,". cicâtrizar-so l)cr-suâ lítlcrànciâ ale sur iilha jústificalia bastante a decisão que
numabcessÔ nrsocntc' :J',lif ;rTtí: ifl: lr)nrci; isso, porém, não pâssava de um prctexto. Selaiita é,
't se aleve ]rlê:aer
hê.1^ rl..1,1rrt-rr â conspliaça'' ll':\"'jal o prooósito dclibc-
;: ;"; ';; ";,;t'qy; ' "' ';',' "l;'il?""".ti?;il.",,lll
rliiur, bastârte inteiigcüte para se §ail com vânLâgem numa
l!)..:rírret scgundâ prova e eu não devo expor-mc a um des_
ffi; l. cúmolice dos i:,ririido h.rmilhântc. Tlatei, pois, o mais discretarncnte pos-
',f riso ioior:r '111.'1.'.t: T"
rti
r_ias que se ocredita:n sem lmDnr' "l'n"[rà'i"".{p't,":- rivcl. de dar a entender à Srâ. Dumonchel que sua Íilha me
linguagcm cln lrom' n' lêito< Muito cedo l:Lm- l)ilrccla muito desedvotvida, muito precoce, sendo born man_
i,;1; a {silr-
i hérr "]i ";:"; â lristcza nxlx nro l'"\ullàllr1e
corhêci 'onlrâ
mi"têrio:a dlrc
l(:lâ cr1'l oLservâqão por algumas semânas. Em pouco tempo,
llà*'ã i" todos' cn lc â lrrsteza rào r(.t)areiiÊ- o ailaso e, dc quâlquer mancirâ, setia umâ hoâ
I ""i"ir:iii" ll(,.1opârâ êla .
li tiil,xii"*ir{;ul";,,i,i,1"1- ;,'iilâH'r à.§#i: Â pobre ütllhci esou'r,ou-mc rrlbra de cóIera. Como qtrc
rm de'nónio
" i,"puro
-- ;ü;"iii;
à; -"1. ilãi"nci'rm"ntn
rarr do rlu:'-;;;:";1:^::';ll:
r rr'"r'ráta O cóiêr. 5.rbir ' m .JrS Ia..s) en. seus olhos.
, r .r-1irlâal, : d. suos orF'has (sl:-.âoI da cót' dê púrpurâ ^s
nio rcnho lX-
monch,r:'..o nocnl3nto, h:l clôumê. ic)_.'. .n *i* À peqrena vaie tanto como as oútras, disse-me For
fipros notivo- dc or.scunlroes.-t
r'''," p ,oun.rr.
" .1 lirn.- O qüe ela quer é quc se lhe faça iustiça, nâda mais,
l:. d" oaa..a c\tranho, rada menos,
ncsr4o se.rà 9,11? l",L: il-i, ioi,;"r1r r_-".
srrâ iCcd€. aq'rêl' dclibcrxdo p1_opo\rú"'a" " m"11 brinc-deira- "
r. ne,Dondi o l, Sc[aÍ;f, êli1 uma exc.lFnte a]una, com
*"
riíLculac momic.s nu' oâl'cr''m' 'nl"' , lto, m"s qLlJ seu proce,-limento ou ao mPnos seus modos
' '" ' ie: n'o pos'o
, 1:i; m. aÊolc. c^rl1 âl.'n":'
volunl ir !\,io orâm convcnientes.
;i;i;";:r i" i n r.i ra mcnlsuan. ! cur'. iidc d? * Que modos ?
c muilxs rneninas de lli,lliill,,];il??,'$
c p.'-e l'.i.,n"ir..."".;nino.
to,"". * üm pouco de coquetismo, respondi'}he.
âs realiza em preseilçâ de sns! conlla
enl:n- Esta pâlawa a pôs lora de si.
rclacáo a mim. rlm alTrnro o' rir mas de qu' sÔ agora
nl'mfli'idadc de
".m
ll-"rrtá àu" no "o*t pí riso co laTia-me sor Coqüetismo ? Em que se mcte o senhor âgorâ ? O
:;i;'J;;";",;;;* o crrcontro Qu ndo a Êncont"oo"";yt por aclso -
scnhor nacia tem ale ver com o coqueíismo ! Coquetismo !
iil''.i"ir'-mt'. pàÃuau*",.'''
óa *'-.'-'^3^:*9: liirtáo, âgora, um padre tambén há Cc ocupar-se dessàs coi-
:ll';"''#üü:;" - sravemenr'e com
E
l"J;
uma
pêrou-Ú'e
sas! Sal-vo o deÍido rcspeiio, sr. Vigádo, acho_o muito
jovem para Íai dessas coisas, principalmente tratando-se
:T:í",; :il;i;;à,i".-olhos úm dru "nsa.'o*-me
baixo§ cnorr.,nLo mr oproYimavr
I;; #";;I'à*,h^ ,âh .l.curà: erd cumo u:n rncx"lador de
cie uma nenina .
^ "o ileixou-me. Â pequena a espelarJa, discrctatnente, em
rÔÍln o t' mno I m que
l.'.,,iã.1'N;" É, ;; sano duranlê inclii'âda um banco vazio da igÍeia. Pela porta entrealleda, perce-
etna"rc" - linlla calr"ê 1áorcrament'e
l';;,;'r.;" ãà ,r:, u"'i,,oà:o a l)ia o rosto cle suas cotnpanhcilas, ouvia seus dsos abâfados
rPimo'a
I
l,,ii.i',' :i;", q;. tet sua nuca
- apertavam-se umas ôontra âs outras paxa ver. Selalita
.l i.",,t,t.,rr' *"i, qrando cheguej junlo dela escapou'se'me
CEORGES Bf,RNANOS
DrÁlto DE uM pÁÊoco DE ÂLD{IA 95
94
Como eÍplicff que, tendo chcgado tão disposto, eu me
lâncou.sc nos brrcos de sua màê, solu(rndo. Temo que te- irchassc, de repente, incapâz de manl,et uma conversa, ou
nha, cimpl, -menle. rêp.escntado u'rl3 comedia. urcsm,o de responder corretamcDte às pclguntas que me fa-
ouo iazer I À" crlincas lenl un s' nso do ridiculo muit'o ,il1m? É verdede que andei deprcssâ deúais. A condêssa,
vivo õ s"b.m DêrfoiLâmPilte, cm dcrlx circunsúncla ci'"en- ,"111 su3 lol-d,/ inrlccj!ê!. fingiu, a pr;llc,trro, nsda Derce-
v;lvô-to até suãs úttimas conscqüênciás, com implacável Ió- Itr r: rnàs. aÍinal, nro pódê drixrr de .irquio à,,se por Àinha
ri.r.. E..e dueio inrxÊjná)io cnli,'o vigario Ê sua colÊga vi- .jradp. Desde álgumac seDtdltas. impus a mlm me.mo a obri_
íLrelmcntc a5 aDaixo=na. Sc lr' ^ ne.nssário. inv'nLliam j, (âo dÊ me e"q ivâr c cs,a espccre d. p.rEunlrs, c a{ô me
qualquêr .oj.a. pàta qu" a hisloriu lLss' mais sedutors. l,ara
,Lrho autor/lado a mêntir. Ahás, consigo Ícze-lo muito bLm,
que durasse mais tempo.
' Pergunlo a mim m, smo rc lrl.nâro minhas ll(ões J' ca- 1,. percebo que âs pcssoa§ prclerem acreditar_nrer qoar,do,i"l

i".;smoicom o ctevido .ui,l|lclu. E:l- tarde, vÊ:o-mt- a irlóia ,r,ro qLrc oslou bom. É corLo quc minha magrêzir (, r Àc, pcio_
Drj íos m0,equês deÍ!l-l.mo o ap,l:do dc -lrjs1ê liÂura ,l .n-
oe oue l,cnho aspcraoo muito, t xp'e..samPnte. dê unld coija lretanLo. quando Íirio que ..e ce I.mílja. volIâ jÀslânlànca_
ãr".'"* não nes.a ,k llmi, o\ri8aqào dê rrrêu rnini'lô-
"r.r,rnÂratan,
ijo. das mais dcs mâls tl, nosas. Quem sou eu' parr mcnte a seienidade a todos os tostos. Estou Ionge de lal1]en_
i-r i"..o, ConI, s\ar minhsi Cnen(Js seria expor_Ée a rectLar,
p, cljr consolaçõe: , is"cs p, qu^nino" sêr. s / Sonhr i em pod' r
omo diz o vigario dc To-cy. E oFpors, na t"ttâ de coisll mej
ialâr-lhps dê cola(ro abrr'.u. ' In IrrrlilhÀr com êles minlla§ '
llrol pois não tFnno tc.-lpo de rczar _ parece_me quê só
- oh!
dores, minhas alcglia§ mas sem Íazê-los sofrer, bem -
rom. No.:o Senhor de\o r'oFlpJtLilhdr. pr)o iaaior tempô pos-
entcndido ! em" insinuar um pouco de minha vida neste
ensino, como- o faço na oração. . . l'ualo isso, afinal, é egoísmo'
sivÊ1, essas pequenas miserias.
De asora em dr3nla, imfor-mF ej o sacrificio de dai . Responoi. po:s. à .ondissa. quo sentja um pouco de dor
mcnoc lu"gar à inspilJcxo. lnll-tizmcn!e. Íâ]ll me tempol de r-":omâ,gc. por 1er almur'ado nruito tsrclc. O pbr e quc tive
-co.no
o"""a'aario sac ficar, ainala um pcuco, mirlhas horas de dô d€spedir-m. bluscam,nle: d"sci a csceclx üm so_
"J"a
ãescanso. Consegui_o eslâ noite, graçes a umâ comida su_ nêmtlulo. A conali..c âcomponhou.mô gonlitmenie aié o úl_
,i"-nrrtaa. que d-rÍleli pel,P;lâm,n1e. Eu que havia lamen_ limo degrâu. e nrm srçlLer pucte agt"de-ce[lhe. pois linhâ o
Ienco na bíica, Olhou-t)lp com uJTLl expl,essào mirito curiosa.
iado a comire ue"se bendllo bordéus I indefinive_l, oe amizad.. de surprê.id. ôe pir.dade, um pouõ
lamDem ale repugnànciê. pnnso. Um homom quê sentináu-
scas é scffpIê tjo r';dlculo: Enfim. lotnou-me â mâo que lhe
esrendia, dizendo como para si mesma, porque apenâs' adivi-
nhel â ímse peto movimento cte seus lábiôs: ipobô menúo 1,,
Ontem, visita a.o castelo: uma veldâdeirâ câtástrofe ! ou talvez: "Meu pobre menino !',
Doci.li-me a fazê-14 muito dc repente, depois do almôqo que, tão surp?êso, tão eúoeionado, quc âhavcssei o
rliris, saiu Íârale, porque perdi um tempo enorme em Ber- . _tr'iquei
jardim pala chegar à âvenida essa Lela rietva ing]êsâ dê
r r i r. Iir cd..J de §rc._ Piglon, scmpre do',11,ê. Erc p'r[o dc -
que lanlo gosla o condc o que. agora, deve cons"rlar ã marca
,;U:,lr(, l,o-as e (u mH 'cntia dispo"to, muito aninlardo Com dos meus toscos sapatos.
! ,',,,,'.,' r,,'- -nim - po;s o sçndc passa. gPri.lm^ni.. âs taT-
c scnhcrà con' Sim, ccnsLlo-rae por lcza! táo pouco c frtro mJl. euase
I 'l'_. '1,'rt,nrrLr-lr:ra
íli'rnr.
no casLelo
- só eÂconLlci jntcrromper mmha açáo
l,odos os dias, depois da missa, devo
I
i
§6 GtrORCES BENNA OS DIÁRIo DE UM PÁROCO DE AI,DEIA 91

de Êrc(a.,, l)3r'c r, r.ber um ou outro. gelxlmenÍe doenles.


Meú ünliBo cul, g:r Llo sên:inário Í'eno[, Fêbregargues. .st3'
belccido conlo -iarmacêutico nos arredores de Montreuil, ên-
via-mo algunâs amostlas de remédio. Parece que o mcstle- Aindâ uma noite hor vel, sono cortado de pesadelos. Â
-cscola naro cstá satisfeito com cssa concorrência, porque, írhuva era tão lorte que não me atrevi a ir à lglcia. Nunca
unl,... cr.r cl. .ó qu.m prostcra {,s§.s pcquenos serviços. lir lanto estórco pari rezcl; â princjpio pausadamPnle. cal_
I
CoDm ó dilícil agradar â todos ! Po! mais que se laça, as lnam,nte, dêpôisiom uma Pspecie de vroiénciâ conc'nL"âda.
pessoas parecem seúpre muito pouco dispostas a usar de lcroz, e, ónlii11 tendo recuperado com enorme diliculdâdo
I boe vontade; dir-se-iâ que preferem contrariat-se uns âos ou- o sangue-frio *- sob o impulso de üm desejo quase cieses_
iIos, iqccnscicntemente. Donde vem a incompleensivcl cste_ n, r'adã resta Dalavr,a mc horroliza), um arrebatamerll,n da
rilidade de íântâs almas ? iontude qu" i:re punha o cora(áo l,remulo de ongustia.
Certamente, o homem é, em tôda s pârte, itimigo dc si Nada !
me§mo, leu §ecreto e dissimulado inimigo. O mal lânqado oh ! sci perfeitamente que o desejo ala oração é iá uma
não impcrta onde, gcrmina quase fatâlmcnte. Ao pâsso rlüe oraÇáo, e que Deus nao me poderiâ exigjr mais Mâs não se
a menor semente do bem, para nato ser âbafada, precisâ de lraià\a de cumprir um oêver. A ora.âo mc erà Íao necessâ-
uma soÍte extracrdinária, de uma prcdigiosa ioltuna. r'ia. naquêle momenlo, como o ar pald os pulmôes o oxigê-
nio parà o sangue. Al-ras üc mim já nào estava a vida co_
tidiana, familiar, da qual â gente se escapa por um pequeno
esfôrço, embora guardando, no fuudo d'almâ, a celteza de
nela ántrar de ndvo, togo que se queira. Àirás de mim, não
havia n-ada. E, diantt de mim, uma parede, uma parede
escula,
Encontrei essa manhá, em millha coúespondêncla, u â Fazemos dâ oração umâ idéia táo absurda I Como se
cârta cêm o carimbo de Boulogne, escritg em mâu PÍrpcl qua_ âtrevem a falar dela, com tanta leviandade, os que não a co-
driculado, ta1 como se encontra nos botequins. É anôDilna. nhecem ou a conhecem pouco ? Um ílâpistâ, um cartuxo tra_
"Pessoa bem intcncionada âconselhâ-o a pedif suir ílâns- balhará, anos, pala se tõrnar um homem de oraçáo: e o pri-
Ierência. Quanto mais cedo melhor. Quando o sonhol pcr- meiro maluco,iue aparece pl'et-nde julgar uma tidâ inteirâ-!
ceber o que tôdô â gentc está vendo, chomrá lágrima.s dc sân_ Se a ora(ào fósse reâlmente o que pensam. uma e:pecle oe
gue. Tenho pena do senhor, mas reprtoi tmte de ir corLorâ !" taearelicê. o diáloqo de um maniaco com sua soÍnbrâ ou.
mãnos ainda, umà và e supersticiosa peliqào deslinàda a
Que é isso? Pensei rcconhece! a letra da Sla. l)cgl'iot obter os bens dêste mundo, aer.ia cdvel que milhões dc cria-
que cl,.ixou aqui uma cadeanela onde aDotava suirs.I'il)l.s,r
de \dbáo ê águâ-de-javêl. Eüclenlemente. êssr mul)rcr trõo iuras encontrassern nela, âté o deiradeiro dia, iá não digo
tântas doçutas pois não se impo,rtam com as consolaÇões
gosta cle n1im. Mas por que deseiadâ, tão vivarncnlc, miÂhâ
sensiveis -
mas úma sólida, Iolte e plena alegr:a ?: OIII
partidr I -
sem dúvida, os sábios falam de su8es!áo É que, de certo.
Mandei umâs palavras de desculpa à condêssâ. sulpicio nunca viram êsses velhos &onges, tão refletidos, táo plu_
Mitorulct ievcu-as ao castelo, mas não o fêz de boa cara, dent€s, tão inIlexíveis pam iulgar e, contudo, táo iuadiântes
98 GÉORCES BERNANO§ DI.ÁÊro DE uM !.futoco DE Ár,DErÀ 99

de Diedade. de compaixão, de uma tão meigâ humanidade ! Releio estas lirüas escritâs, pela manhã, á,o despeúâI.
Poi oue milaer'e ésies semiloucos, prisioneircs de um sonho, Depois, . .
dorm'indo acódados, parêcem pnnctrar. cadâ dia mâis pro- Teria sido lllna ilusáo ?... Ou, quem sâbe ?... Os sân-
Íundamente, na compieensáo dãs misérias do pÍóximo ? Es_ tos .conhecerarn estâ espócie de deslâIccinlcnto, . . Mâs náo,
trarúa espé.iê dc sonho, singulcl ópio que longe de recon_ certamênte, esta revolta surda, êste inpcrlinente silêncio
cenbrar o inclivjduo sóbre si ffLsmo longe de isolálo do seus d'almâ, quase tâncoroso, . .
semelhantes, o torna solidário dc todos. no espirilo da uni_ Uma hora: acab:r de âpagar-se a última lâmpâda da
versâl câridade ! âldeia. Vento e chuvâ.
Vou atrever-me a umâ compamqão. Peço quc me de§_
culpem. mas talvez satistc(r eiC a um grande número de À mesma solidão, o mesmo silêncio. E, desta vez, nc-
indivíduos de quem nio sc l)odc c"pôl'ar qualquer cspicir'de nhuma esperança de vencer o obstáculo ou evitá-]o. Aliás,
reflexão pessoál se, ântcs, não são estimulados por alguúa náo há obstáculo. Nada I Deus ! cu respir'o, eu aspiro a noite,
i
inesperad; e dcsconccrtante imagem: por teÍ, algumâs vê_ a noite entrâ em I]lim por nâo sei que inconcetrívêl, qúe iil!
i; zes,Jerido, ao acaso, rs lculíls de um piano um homcm sen' maginável brecha da âlma. É tudo noite em mim.
sato consid.rar-sc-ia bJslanle culorizêdo pxra julgsr a mu- EsÍorço-me por pcnsar em angústias semelhantes às lni-
sicâ ? E. se uma sinfonia dc BeethoveÍI, uma fuga dê Bâch nhas. Nenhuma compaixão po! êsses desccnhecidos. Minha
o deixâú insensÍvcl, obrigando o â contentar_§e em observâr §olidão ó compleia. trlu a odcio. Nenhurna piedade por mim
no rosto de ouira pessoa o 11 llexo dP elêvadas dqlicies 3 éle mesmo.
inaccssiveis, ntio ô aL si mcsmo que dêverá culpar_se ? Se chegâsse â não ter 1l1âis amor !
Oh ! continuar-sc-á a crer no que dizem os psiquiatras Estendi-me ao pé do lêito, com o rosto no chão. Ah!
e o testemunho unânime dos sântos não terá ncnhum valo!, certamente não sou assim tão ingênuo para crer na eficácia
ou ourse nenhum I DFbaldê su'tenlarào êstes quc tal es_ de tal meio. Queria apenâs fâzer, realmente, o gesio da âcei-
t pécie'de mnrgulhu inlcrjor náo sc parcce a nc,rhum oulro teção total, do abândono. Estâva deitâdo à beira do vazio,
ôue, em |urgcr dc drsvêndâr, pouco â pouco llos\a pronrla do nâda, como um mendigo, um bêbado, um morto; e espe-
I domolexidaãc, ploduz eln nós, imedialamente. umx súbila e rava que me levâssem pal,a longe.
totai itumjnaÇá'o, que nos ârrebal3 ao azul inlinjlo 1... Con_ .
tentar-se-áo, êm dãr de ombros. . Contudo, que homem de Desde o p meilo segundo, antes mesmo que os meus
o!âQão poderia dizer, um dia, qüe a prece o dccepcionou I lábios tocassem o chão, env€rgonhei-me dessa mentira. Por-
'Està manhá, não cor§igo -Iiteral:nente ficar dc pó. As que não esperava (oisa a'guma,.,
horas. que custaram tanto a pâ'sar, nào me deixâmm ncnhu- Qranto dâria para sofrer ! Â própda dor se recusa a vir
I ma lenibran(a precjsa nâdd mais que o scnlimcnto de a mim. Â mâis cordqueiE, a mais humilde, a minhâ pobre
um golpe !indo nào sei de - onde. allngindo-me dc chrio o co_ dor de estômago I Sinto-me houivelmente bem.
raçàõ e euja gravidade ainda não posso medjr. glrças â um Não tenho mêdo dâ molte: ela me é táo indilelente
i misericordioso entorpecimento.
Nunca se reza sôzinho. Âcaso, minhâ tdsleza Ioi gran_
como a vida; não se pode cxplimir tal coisa.
,i Parece-me ter felto, pârâ trás, todo o caminho percorri-
rl,: de demâis ? Pedi, apenas, que Deus viesse a mim. Não veio. .. do, desde que Deus me tilou do nada. Ántes, náo Jui mais
,i:' que uma centelha, um grão de pó que a divina câridade ilu-
ii
Drá.RÍo DÉ úM P,&toco DE AlDrrÀ 101
100 GEORGÉS BERNANOS
Desde alguns dhs, tenho rcIleíido muito sôbre o pe-
rq minâ, Dê noro, nio soL, msis quê isso nâ insondável noil'' cedo. À fôr'ça c1e o defiDir como uma Ialtâ cometialÀ contra a
MIs o griro dc nó qu3'c náo brilha m'i§: \ai cxlrngulr'_so' Iei cie Deus, pelecê quê nos expomos a dar dêlc umâ idéia
sumátria demais. Dizem tantâ bollagem â respeito disso ! E,
il como sempre, não se dão ao tlabalho de refletil. Há séculos
e séculos, os médicos diJcutem, entre si, sôbrc a Coenqa. Se
Àcorclei muiLo l,ârde. o sono assaltou-me, com ccltozx' se contentasscm cm clefini-la como umâ faltâ às regras da
rrr"a"u--Àt.._r1ó lrrgo. q,r" havia câido Já é hola da boa saúde. desde uuito estâriam de acôrdo. Mâs â estüdam
il^"i_ e"r".,,. "m
p61^fi.6lç pat:tir', qucr'o.scrÍve! o seguinln: no aloente, com â intenqác de curá-lo. É precisâmente o que
lÇ"]r:1ii" '6- qii ocontecetr, iomois Jalarti dtsso a quolllttt tentamos fâzer. Então. âs brincadeitas sôbre o pecado, as
piiioa,'*enoi ainde aa senlúr cloa de Torc!" ' irlonias, os solririos não nos imtlressionâm muilo,
A manhã e§tá tão clora, tão doce, de uma vivacidaclc trão Natumlmente, üinguém prctende ver âlém da Íâ1t4.
malavilho§a !... Quailcio eu e1_& r1renino, costumava csco[- Om, a faltâ não passa âíinal de um sintoma. E os sinto-
der-me numa sebe molhlida, dê manhãzinha; e Íegressàvn a mas mâis impressionantes pâla os profanos não são semprc
ãài--àr-rr;., lir,lrn'e, i liz. pa:'.r lec LrL uma pâlmâdr'lJ
os majs inquieladol'r s. os mais graves,
'l ,n-ní po'rri:" nráê e um grandé copo de leite Íervcndo' creio, estou celto, que muitos home11s eritâm sempre
Durante todo o dia, iroagens de in{ância povoaram_mc â comprometer scu ser integrâl, sua sinceridade plofunda.
cabeçâ. Penso em mim como em um morto' vivêm à suferfíciê de si mesmos: ê o solo huEano é tão
il i" o ._ rolto no todcrno unoq/Pd'tàia dc pdgitt tttt'
s'bcisletrl nrrs ttr!r''- fico, que essa delgada camada superficiai llasta para umâ
i1 forai iosqaa(,, . A' pout a\ pdlot ios
'õiis, pi* | ridodarlmenLe ri'codds ) escossa colheitâ que dá a ilusão de um veldadeiro destino.
Parece que, no curso da última guena, pequenos empregâ-
dos timidos revelar'afi-se, pouco a pouco, verdadeiros che-
fes: tinham a paixão do comando, sem o saber. Oh! nisso
n Dr D,ibLncle Ioi enÍ.onll'aco ( ci:a manhà à crrlr:rda nada há, certame[te, que se pareça ao que ciesignamos â
ní.í" aã Éiãii*it, "o,, n chb' qa ar rebenlarltt irl lr io palavrâ tão bela dc conveisão * ConDertere mas, en-
"" carnrnlln (' r)rrrJ- -
fim, bastou a êsses pobres sêres o ter feito a experiência do
àãrtà iofaOo âlé o Iun.lo d' um is rêno
pPq
rrJndos Íupõo
iàó]-áie;Àa; dP av.leirasIntre os ramos parliu ':c qrr" r. qrr'- heroísmo em estado bruto, um heroísmo sem puÍezâ, Quan-
iãii"iiiãii""-t;ii preco o Llro rrtr' tos homens jamais terão a me or idéia do heroísmo sobre-
o prostrcu.
naturai, sem o qual não há vida intedor ! E iustamente sô-
bre esta vida seráo julgados: desde que se reflita um pouco
sôbre isto, a coisa parece certa, evidentc. E então?... En-
táo, despojados p€la morte de todos êsses membros altifi
Estâva rê.olviclo ncll'lc
a deslruir êslP diiriojnurrl (lr'r"ll" ciais que a socicdade foúrece a pessoas de sua categoda,
';p;;;;"uriri julso (lrr( it"u-i apresentâr-se-ão tâis como era1lr contra suâ \ontâde
ii.. i;i'Hi pcrte que
' rlll" - es-
t"ri iui',lr.
";à;. vêies qu" a sêi d( coÍ É como untu v(rr rnc pantosos monstros ainda não desenvolvidos, pedaços de
i;i; ;;;ã; ;êm dP nolle nem de diir' ExlitrsuÚ' homens.
-se-á comrgo, suponho. ou entâo '
702 CEORGES BERNANOS
DrÁlro DE uM PÁioco DE Ar,DErA 103

Assim constituídos, que podem êles dizer sôbre o pe_


Ina, aírairia a dcsgraça sôbre miÍü; isso pensava eu aos
ri câdo, ó; iabcm do assunto ? o crncer qu" os corrói as- onze anos" .
Palecia-lhe que, de minha parte, não saím dali, que
i"a"ir,o:"" a muitos lumorcs - ó indo)or' ou. quando nâda
pcrjodo ficáÉmos nos onze ânos, nós, pobrcs padres. Finalmentê,
* it,"s ""nr,t",n, "* sua maior pârle c dulanle certo
ãá_""i.i"n",". umâ Iugitiva i;rprc"s,o. logo desapalccirlc ' confessei-o, na véspera de suâ molte. Que dizer ? Náo foi
ii gmnde coisa; algumas palâvms âpenas, umâ vida de no-
lt É ,uro o,," uma cr'janaa nào lenhâ lidojnlerior.êindâ que em es-
II taáà .-ii:ona.io, uma espêcie d' vrdr no sêniido tário.
áiúaà aa patartá. úm dià ou outro, o ímpet'o de suâ jovcm
fi üàá'tài fortei no iunalo de seu coração inocentc, agi-
tóu-se o ^ài"
espírito ale heroísmo. Náo mlrito tôlvez; o suficirn-
Pecado contrâ a esperança o mais mortâl de todos,
it ià, entretai:to, para que o pequenino ser possa' ter entre_ e talvez o mais bem acolhitlo, o-mais aca ciado. É preciso I
,lità. e,s ,cr"Á àté otiscurariente âceitâdo, o imenso lisco
Inúto tempo para rcconhecê{o, pois é tâo doce â tristeza
,rr'"rlr"e"o oue consisle ludo qllc há dÊ divino na '\i"liln_ quê o ânuncia, que o precede ! É o mais dco dos elixires do i
ti cia humarle,_ Soube qualquer coisa do bem e do mal uma demônio, sua âmbrósia. Pois a angústia... i
nácáo do bem e do m;l aindi isPnta dc toda mislura. igno- (Á pá.gina Íoi arrancad.a,)
rãrite aas disclptinas e do§ hábitos sociâi§. Ma§, natural-
1",,

l,l
Inà,rt", a"ug"*'nomo a r"riança: P o homem maduro só gLrar-
rl aará de ta'i minul,o de.isi!ó, solene. a recordacão dc um
àiasáo infcnLil. de umâ âparenlê trâvessula cujo vcr'lc'lciro
il sur vidâ,
i"rÍioo ri," escapârá e de quc Íalará aLe o Íim dcqrtirjo
jndulgenic. lú- Fiz, hoje, uma descoberta bern estrânhâ. Luísa deixa
Á." .."i,à demasiado alegre, gemlmente seu devocionário em um banco, na caixinhá des-
"áÀ
brico, dos velhos. tinâda 1isso. Encontrei, estâ manhá, o grosso livro no âdro
da igreja, e, como os santinhos de qüe está chcio e§palha-
!
É difícil imaginar até que ponto âs pessoas quc o mundo ram-se por ali, íive de folheá-lo um pouco, embora sem in-
tem como sériâs'são pueris, de uma puedlidade vcrcl'rdei' tenção. Cairan-me sob os olhos algumas linhas mânuscri
1 iãmeÀte inexpticá"eI, lobronqturâ1. Apcsar de snr rrn jo- tas, no verso da primeira página. Era o nome e o êndeÉço
rêm nâdre. âionlece-me, mxitas vézcs. sorrit ao pcntltt ''m ender_ôÇo, pr'ovàvelmente
iá;s à".sors. E conosco. qLrc lom dê indulgéncin. do 'om-
dê Luisa
- um antigo
Ieville (Ardennes). - em Char_
A Ietra é igual à dâ câr_ta anônima. Pelo
nãixáo nolário cle A'rã', que assisli em scus ú11il)rÔs nro'
-;"nt;t t Umhomem menos, acho que é.
imnorlante: anligo sensclor' um rlo' rniris Âgorâ, que me importa ?
lr -
ti"À ,xoorietários scu dêpâltamÃnlo - disic_n)'
de rrln rlis'
Os grandes dêste mundo sabeh despedlr, sem réplica,
;;*"À-;í" oara se desculpar de rec' bPr minh's ci"r! 'r'õos'
com um gesto, com um olhar, com menos ainda. Mas Deus..
rf iáÀ àrnir- cepticismo, âlijs benivolo: Eu cornlni 'rr( r' S-'
""u ta"it"* comparlilhêi de lais scntim('nli'\' t'u cla Não perdi nem a Fé, nem â Esperança, nem a Caridade!
irar", Nêsta vida, porém, que valem os bens eternos, para o ho_
il muito niedoso. Âos onãe anos, por nâda ncstc mlrndo me meln mortal ? O qüe impoltâ é o desejo dos beos eternos,
r;i, ntó tinha
ã"iiriii ..r" aníes ter recitado irês Àae-MariâlrDcL' oulrâ Palece-me que não os desejo mais. , .
àe iecitá-tas de um ar'ranco só, sem lespirar' Ior-

lfi
104 GEORCfS BERNAIiIGS DrÁRro DE uM !.fuoco DE ÀrDErA 105

res que dizem mâis ou menos claramentet .,vejam, estou rc-


sistindo, não Ine elogiem, isso é meu natural, obfigado...,'
O seu etmi cândidamente nossa compâixão, nossa Àimpâtia,
Encontrei o vigário de Torcy nos funerais do seu veiho mâs com tal nobrezâ | üm rei poderia mendigar assim. pâs-
amigo. Posso dizer que a lemblança do Dr. Delbel1de não me sou duas noites jlrnto do cadáver, e sua batinâ, sempre tão
deixa. Mas uma lembrança, mosmo dolorosa, não é, náo pode llmpâ, tão correta, estal@ âmauotada, col11 gr.osas pregas
sel uma oraçáo. formândo quâse uü leque, inteimmentc rnanchadâ. lalvez
Deus me vê e me julga. pela plirrtella vez em sua vida, se tiúha esquecido de fazer
Resolvi continuar êste diário porque uma relação sin- a barbâ.
ceral escrupulosa e exata dos acontecimentos de minha vida' Êsse dominio de si mêsmo distinguc.se. ênLretanlo. por
durante a terrível prova por quc pâsso, pode-me ser útil um um sinal: a Íórca sobjcnalurâ1, quê emana dêlc, om naclâ Joi
dia * quem sabe ? útil a mim, ou aos ouhos. Pois agora quê atingida. Visivelmente devorado pela angústia (cone o boato
meu coração se tornou tão rude (parece-me que náo sinto de que o D!. Dclbende suicidou-se), continua â inadiar cal-
mais nenhuma compaixão pelos outros, a piedade se tornou mâ, certeza, paz. O{icici, com ê1e, csta mânhã. servindo de
tão difícil para mim, como â prece: vedfiquei-o âindâ esta subdiácono. Penso já ter observado que, de ordinário, no
. noite enquanto velâva Adeline Soupault, apesar de assisti-la
momento dâ consâglação, suas belas mãos estendjdas sôbre
com a maior boâ vontâde), agorâ náo posso pensar- sem ami- o cálice trenlem um pouco. Hoie. não tremerâm. Tinham
zade no Íuturo tcitor, plovàvelmelte imaginário, dêste diá- mesmo umâ âutoridade, uma majestade... Realmente é in-
!io... Ternurâ quc náo aprovo, pois, âtravés dessâs pági- descdtível êste contraste com o seu rosto sulcâdo nêlâ in-
nas, é a mim qüe ela se di ge, sem dúvida. Tornei-me autór sônia,-pela Jâdiga, e por alguma visáo mais torturailte, quê
ou, como diz o deão de Blangemont, poeta. . . Entretanto.. . adivinhô-
Quero, pois, csclever aqui, corD tôda a {mnqueza, que ParLiu sem ler que|ido tomar parte no almóeo, servialo
não lujo ao cumpdmento dos m€us deveres, âo contrário. pela sobrinha do doulor . que se palece mutlo com a Srâ.
À melhora quâse incrivel dc minha saúde favolccc muito Pegriol,. só que é m"is golda ainda. Acompenhei-o âle
meu tmbalho. Tâmbém não é totalhente justo dizer que a estâ"qào c. como o lrêm Jo deuns'e pa.sar dâi ã meja hora,
não rez,o pelo Dr. Delbende. Cumplo esta obrigação, conlo
assentâmo-nos em um banco. Estava muito cansado e, sob
as demâis. Àté chcguci a privar-me de vinho Dcsscs úlii- a plena Iuz do dia. seu tosto parpcir mais ciestpiLo ainda.
mos dias, o que me enfrâqueceu pedglsâmente. Náo jhe tinha nolado. até âqueie instanre, dLLa. cnormes ru-
Curtq entlevista com o vigário de Torcy. É cvidente o gas no carto da bôcâ, de umâ tfisíezâ, de uma surDteendente
domínio que exerce sôbre si mesmo êsse padrc adlnirável. cmargura. Animpi mê a lal-r. Disselhe. de r.fcntc:
Saltâ aos o1hos, e entretanto procurar-se-ia em vão o sinai
materiai dêsse domínio que não se tmduz por gesto algum, Náo âchâ que o doutor se...
por nenhuma palavra precisa, por coisa alguma quc dcnote a -Não me deixou terminar a Írase; seu olhâr.impedoso
) vontade, o esiôrço. Do seu rosto transparece o sohimento, como que pÍendeu a última palevra em minhâ bôca. Custei
expresso com uma Jranqueza, com uma §implicidâde verda- muito a baixar os olhos; sei que êle não gosta: ,,Olhos que
lrl deiramente soberanas. Em tâis circunstâncias, Àcontece-nos claudicam ", costuma dizer. Enfim, seus treços loiam-se, ãos
§ulpreendeÍ no§ melhore§ um olha! equívoco, um dêsses olha- poucos, suavizando e quase chegou a sorrir.
:l
106 GEORCES AERNÀNOS Dr,futo DE uM PÁnoco DÊ AlDElA 107

Não reproduzirel sua convema. 'llerá sido me§mo uma ponsot, o conrerciante de Iarinhâ, estava quereudo armnjar
conver§â ? Não durou nem vinte minutos...  pequena pra- um jeito de resgatâr os credores, pâra âpossar-se de sua terra.
ça deserta, com sua dupla avenida de tílias, pareeiâ muito Evidentemente, a morte de sua endiabrada tia deu-lhe o últi-
mais câlma âinda que de costume. Lcmbro-me de qüe pas_ mo golpe Mas qual I Trezentos ou quatrocentos mil francos
savam e repassavam sôbre nossâs cabcças, em grande vclo_ qucimar-se-iam, numâ fogueira, em suas mãos. Tanto mais
cidade, alguns pombos; e voâvaür tão baixo que se podia que, com a idade, ôsse pobre homem se tornoú impossível,
ouvir o bater de suas asas. Pois. não se lhe meteu no bestunto a idéia de sustentar
Teme, realmente, que seu âmigo se tenha suicidâdo. é a pâlavra um velho bêbedo chamado Rebattut, aniigo -
Pârece que ficou muito desmorâlizaLlo, pois, âté o último ins-
-
câÇâdor clandestino, preguiçoso como êle só, que vive em
tant€, hâvia contgalo com â heranQa de uma tia muito ve_ uma cabâna de ca.rvociros, juüto às terrâs de Goubault, tem
lha que, aiinal, colocou sua folLuna nas mãos de um homem Ía1na de pe$eguir as vaqueirinhas, está sempre embdagado
de negócios muito conhecido, mândatário do s!. Bispo de S..., e, por cimâ de tudo, aindie zombava de seu protetor ? Oh I
pensa que o Dr. Delbende ignorava essas coisâs ? Náol
I em trocâ de uma pensão vitalícia. O doutor tinha ganho Tinha seus motivos, motivos lá dêle como sempre.
muito dinheiro, em outra ópoca, e o gastâva em liberalidâdes
sempre muito originais, um polrco nlalucâs e que elam quâse Quais ?
sempre conhecidâs; doDdc a suspeita gelâl de que tinha am-
- Que Rebattut cla o melhot caçâdor qu€ encontra-
bições políticas. Quândo scus colegas mais jovens Ihe to- ra na- vida; êsse
que ninguém podia privá-lo do prazer de câçar,
maram a clicntcla, não conse[tiu em muda! de hábitos: como de comer e beber'; que a polícia, com suâs multas, acâ-
quer ? Não erâ hom.m pala pequenos sacri_ bada por transformar êsse maníaco inofensivo em um pe-
I
- Quc
fícios. Repetiu-me ccrn vôzes que â luta contrâ o que cha_ rigoso seivagem. Tudo isso mistuÉdo, em sua que da cabe-
mava â férociclaalc dos homens e â estupidez da sorte, ela ç4, com idéias fixas, verdâdeiras obsessões. Dizia-me: "Dâr
pâixões aos homens e pr'oibi'los de satisfâzê-las é duro demais
empreendida contra o llom senso, pois é impossível curar para mim; não sou Deus". É preciso lembrar também que
t' da lniustjça a soc;clladc: sÜ qul-m r'lalassê uma malrria x
tirüa verdadeiro ódio ao marqüês de Bolbec e quê êste havia
outrê'. Comparavâ â tlusáo doi Ielormaaores à clos anligos jumdo fâzer que seus gualdas agarrâssem Rebattut para o
I discípulos dé Pasteul quc sonhavam com um mundo assópii- mandar à cuiana. Então, que diabo !
I
co. ltrm suma. considêmva-se um refratário, nâda mâis: o
Penso já ter escdto neste diário quo a tristezâ pârece
sobrevivente de uma taçâ de§aparecidâ há muito
- na hi_
Dót€se de ter existido alÊum Lir; mantinha dôssc modo. ser estranha ao vigário de Torcy. Sua alma é âlegre, Mesmo
ãontra. o inlasor. Ilanslór,naclo, com o correr dos sóculos. neste momento, desviando os olhos de seu rosto que manti-
em Dossuidor leqitimo, umâ lula sem esperanca e som mi§e- nha sempre erguido, muito reto, surpreendia-me certo acento
de sua voz. Embora grave, náo se pode dizer que fôsse triste;
t: ricóidia. Eu mi vrngo , dizja. Em umâ palavra n5o âcrn'
ditava nas tropas regúIarcs. compreende ? ' Quando (ncontro con§ervâvâ certo êstlemecime[to quase imperceptível, como
umâ iniu"tica. a pâs.par por âí, \ózinha, sêm guâr{las ' v'io üm sinâl dâ alegrla inte or, uma alegria tão profunda que
t, oue é rio meu porte, nem muito robusla, nem muil,o lrâca. nada a poderíâ alterar: como essas grândes águas trao-
,t órecip)to-me sóbre {la e a eslrsngulo . Isso náo lhc ' usl,avâ qüilas, sob a tempesíade.
il irucô. to último outono, po! exemplo, pâgou as dívidâsDu_
-velha o Sr-
da Contou-me muitos oulros fâtos, coisas quase incriveis,
Gachevaume, onze mil Írâncos, porque quâ§e loucas. Ao§ quatorze anos. nosso amjgo quis ser mjs-

i
108 CEOÊGES IÉRNANOS
DrÁlro DE uM PÁxoco DE ALDEÍa 109

sionário; perdeu a fé quando começou a estudar medicinâ. scrviriam os Sântos ? Pâgam para resgatar tipos como êsses;
rl Era o alnno prcferido de um gmnde mestre, de cujo nome são sólidos. Ao passo que. . .
não me lembrc, e todos os seus colegas the prcviâm uma
I carteira excepcionalmente brilhanl;ê. A notícia de sua insta- Conser-vava âs duas mãos sôbt€ os joclhos e seus lârgos
IâQão nessa região remota sulplecndcu muit'o. Diziâ-se müito ombros projetavam urna grande sombra cm sua frente,
em gucrra! que se há dê Íazer ? É preciso
pobre para empreender qualqucr cstuclo de especializacão; e - Esi.anlcs
encârar dc frcnte o inimigo
que o exce§§o de trabalho coml)rometela grâveme'nte sua
saúde. O certo é que não sc consolava de bavor pcldido a brâ-se ? EIa sua divise. Que - enfrentar, como êle dizia, lem-
um quâlquer da terccira ou
fé. Conservou uns costumes csquisitíssimosi às vêzes, por quartà linha, quc ulu simpics trcpeiro do selviço de r.eabâs-
il exemplo, interpelava um cmcilixo suspenso à parede de sêu tccimento dê pâra trás nío tem importância, não é verda-
quado; ouhâs, soluçava a scus pós, a cabeça entre âs üáos; de ? E se se trâta de um civil que apenas 1ê o seu jornal, que
,,1
chegavâ rnesmo a dcsâfiá-lo, mostlandolhe o punho. \.ale isso para o cornandante ? IIá, por-ém, os dâ vanguârdâ.
Na vanguarda um homcrn é um horocm. Um homem de me-
l(, Há âIguns dias, podcria, senl dúvida, escutar suas con- nos é coisa que importà. Há os Santos. Chamo Santos âos
fidências, com rnais sa|guc Irio. Mas, naquele momento, que receberam mais que os outros. São ricos, Sempre pen-
il', não estavâ cm situâção de suportálÊ,s, dir-se-ia um fio de
chumbo fundido, eln chaga viva. Certamente, nunca havia sei, cá comigo, que o es]ud,o_ das soci€dâdes hú14anas; se
'i sofrido tanto, c, plovàvclmcnte, jamas sofuerei assiü, nem soubóssemos iazê-Io com ôSpírito sobrenatuiâI; dar-nos-ia a
pâra morrer. o máximo qoe podiâ fazer era conservar os cliâve de muitos mislór'ios. AJinâI de contas, o homem é
xf 'Ieito à imâgem de Dcus: quando tenta cial uma ordem à .
olhos baixos. Sc os lcviintâsse parà o vigárjo de Torcy, penso
que teria gritado. Jnielizmente, em tais ocasiões, â gente é, su-a medida, tem de copial, desjeitosamente, a outra, a veÍ- -.
â miúdo, menos dono de sua tingua que de seus olhos. dadeira.  separ'âÇáo cnl,re Iicos e pobres deve corresponder
Se Ieirlmcntc suicidou-se, pcnsa o senhor que. . .
a alguma glande lei univelsal. Um úco, aos olhos da Igreja,
- vigário
O de Torcy teve um sobressalto, como se minha é o prctetor do pobr.e, scu irmão mais vetho, náo é ? Veja
I que, não râro, ó âssim mesúo, ainda contra â vontràde do
pergunta o houvessc auancado, bluscameníe, dc un] sonho.
I
(É veldade que, há cinco minutos, Ialava um pouco como rico, pelo simples iôgo das íôrcâs ecoDôfiicas, como dizem,
I Se um milionário quebl.a, miihares de pessoas são postas na
em sorüo.) Senti que me e:aminava, dissimuladámente; rua. Entao. jd podemoj irnrg:ndr o qur sc pac\c no mundo
dev€ têr âdivinhâdo mrritâ coisâ.
invisivel. quando r(svalJ um qup ihe [alo. unl
Se um ouho ma lizesse tal pergunta ! 'ré.scs ricos dê
-Depois, ficou, por longo tempc, calado. A pcqllcnx pmça
administrâdor dâs Bracas de Dcus I A tranqüilidade dos me-
dÍocres é umâ estupidez. Iúas a trânqüiiidâdê dos Santos,
continuava deserta, clarâ e, a intcrvalos rcgulail's, crn suâ que escândalo ! É precisc sel louco paxa não compreender
londa monótona, os gratdes pássâros pâr'cciâm caii sôble que a única iusliircd(rio da dp"'euâldcde nas condieocs so-
il nós, do alío do céu. Esperava maquinâlmentc sue voilâ, êste 6lenxLurais Ê o r:qco.'Nos.o ri'co: O seu, o mpu.
sibilar semelhânte âo de uma cnorme foice.
Enquânto fâlava, seü côrpo permânecia erectó, imóvcl.
111
Só Deus ó juiz, dissc com voz calnla. E Me]:êncio
(pela- p meira vez o ouvia chamar assim scu vciho amigó) Quem o visse as3entado ncste banco, sob aquela cnsolarâda
mas fria târde de inverno, lomá{o-ia por um llom curâ, alis-
era uln homem jusío. Deus julga os juslos. Não são os cutindo mil significâncias de sua paróquia e algo satisfeito do
idiotas ou os simples canalhas que me pr.eocupam I Pârâ que si mesmo, junto do jovem colegâ respeitoso, atento.
rt
GXORdES BERNANOS
,Íá.nro DE uM P,futoco DD A!DErÀ 111
110

O conale âcâba de sair alaqui. Plctcxto: a chuva À cada


Guar'ale o que lhe vou dizer: todo o seu mal vinhâ-
- que votava aos mcdíocres "você tem r_aiva nasso oue daro sxia agua de iuas grancles bole". Os lrês ou
'Ihe tatvez do ódio
dos medÍocres". dizia-1he eu. Não sc delendia, porque era um
àuatro eoeihos quo nútara lormavam no lundo do embor-
homem justo, repito. Deve_sc ter cuidado, meu filho. O me- rlal. uma mas.r iengu'nolenla de lama o dc F'loc cinz'ntos,
oê âsnccto horrivol. Pendurou o altot'g' it p-n d' e, cnquan_
díocre ó uma cilãda do demônio. A medioclidade ó cornpli_ i^ Inâ rrur". viâ. alraYés da rêde de coldas tlo cmbornal'
cada demais para nós; só Deus §abe tratâr com elâ. En_
quanto Deus não opera, o mcdioclc deveria encontrai um em meio a eisa pele eriçada, um ôlho ainda úmido, muito
r"t,inio em nossa sombl'a. v'L noc-5§ x5Js. Abl'igo c.Llor - doce, que mê fixâvâ.
Dásculoou-sc Do- ter âbordâdo o acsunlo dc rl.p'nle'
étes "orccisam dp cclor, (-..s tn'lJr s dialtos :
'SP você t,ro-
curaise rcalmenlc a Nos o S,'nhol, locê o enconlrcriil . Ll:ziâ- sêm rodeioi. com ;mc tranqueza miiite-r: todos. na aldêia'
.lizem oue SulDi.io tcm co.túm,s abominávcis No regimcn-
-lhe há Dou.o. Êle rr'rPorrtl rr'mô: Ptrocuro No'so á. S' nhor
to, segúndo a e\pr.""ào do colclê. "andou raspando o con_
onde mais DrobâbilitlflJ.' l, nlro üê enconlrálo. islo "de gue..a'i
os Dobrcs . Pel'l.rlxminlc. Só quê sPus pobres errm todos
"nire seÍho Um viciado e um hipócdtâ, tal Íoi sua
sentenÇ4.
criáturas iguai" c il' ; I r,r uma rralx!rà sujeil'os r'voljsdos' Como semprc, boâtos quÊ collem, fâtos que se inter_
tipos ínil,os" prra o lllsrrdu I f:z_'he um dia esta I' rft'n{â: pretaÁ, naaa il'e prcciso. É celto, por exemplo, qüe Sulpicio
''Ê se Jcsus'Crislo o, l,n'.:.:'.iJslamente sob a cpJrência Àerviu. durante vãrios meses, â um ântigo magistrado colo-
de r1m dcss.s sir,- vul:irr" que !oíê de:nreza. poi'. luta o niàl aoosenlaao. pns"oa Lle repuLâçào du\iclosa. nespondi-lhe
oicado. Êlc as'um. c sanLitk.r tódds 3s no'srs mi'r'l'iEs? ãro nineuém escótnc p-irôes. o conde deu dP ombros e
b.ie ou equilc ,o\rrdo nuo ':o mâis que mis'rávn:' Êõma_ ,iie trncãu um olhar ".us ripictô, dc clto a ba;xo. qu( signilrcava
pados DLlo imcn"o mrca'ri'mo social, como um ralr rob a
claramenle: 'É um 'n'b.cil, ou tinge sê Io:'
íjeal ôilc evor',r nJo pir. a d, um ser sngustiâdo 'onvcn' Confesso que tinha razões para surpleendel'se com mI-
cjão de sua rmllol,'n.'ir ê dc\orâdo oêlo méclo de tmcassaJ;
ãui.rr pu,t"" urir dt"almado. c apenJs sofre de umâ (spêcie nha àtitude. Espcrava, suponho, que nre multiplicasse em
ãÀ'iárrl^ ao oobrê - i' o c.onlece terlor lào In' xflicável p".-â"*i .clmô. não me alreto a dizer - indi-
que'inspircrr, â rlos -
nFurólico§ as cranhas c os
"'Juiiói.
iir'ente. que iá soÍro me basta. Àlóm disso cscutavâ suas
O
como o c( dirjgjam a
iám.. Voiê pro"u.u l,bç:o s' nhor enlrp 8enl,e d' tJl I sl ;-re I outurt". aori, a'bizarra imoressão de que nao seque nao sou
oercunlcill)e. E, 5( náo o procula alj dp quc sí' qrei*c'? ilim. mas a outro.. A ô"1. homem quc eu era.
-voia úue nao lhe toi co en(oiLIo. 'Talvez nio tcnl)* ido' mâis. Vieram muito txrdê. O conde tEmbém \êio tardê de_
oa.t, tel, sua corc:llidad' pareceu-me llêm afêtada'
dê fato. . . -àja.
um oouco vulÊ.ar mismo. Também ja nào goslo Ínuit'o de
-se
seLr ôlhar que dirige d3qui para ali. salta dum canto a
áuiro Oo q,iarto com;gilidàde surpreendente e volta a plan-
tar-se bem defronte do meu.
Ànalou gente pelo jardim do presbitérlo, csta noite, ou Âcabava de iântar. Â ganâlâ de vinho estavâ âinda sô-
t melhor. à târdinhá. ?enso que iam tocar a sinôtâ, quando bre a mesa. Encireu um copo, sem cerimôniâ, e me dis§e:
lrluscamente abd o postigo, sitBado logo âcima cla iangla. * o senhor bebe um vinho azêdo, Sr. vigário, isso Íaz
os passos sê distanclarâm ràpidâmentc. Tcria sido uma mal. O senhor devia te! a gallâfâ §empre limpa, e§caldá_lâ '
criançâ ?
iI
CEORGES BERNANOS
Dr,Ásro DE uM PÁ.Eoco DE ALDErÁ 113
112

Mitonnet veio esta tarde, como de co§tume. Sente uma no meu coração; Íui âcometido de um tremor que dura
ainda, no momento em que escrevo.
dor cle um lâdo, queixa-se de sufocaÇão e tosse muito. Âo
falar-the, voltou-me a aversão, uma espécie de frio. Deixei-o Não, não perdi â fé ! Esta exprcssáo "perder â fé", como
em seu trabnlho (está substituindo, com Buita peúeição, sc perdc um polta-níqueis ou um molho de châves, sempre
âlgumas tábuas podres do as§oallú) c {ui der umà volta me pareceu um pouco estúpida. Deve pertenceÍ ao voca-
pelo câüinho. Ao regressar, náo linha ainda rcsolvido eoisa bulário da piedade burguesa e foi, com certeza, inveniâalâ,
àtguma. Àbri a porta da sala. Ocupado em aplainar as tá- por aquêles t stes padlcs do século XVIII, tão fúteis.
buãs, não podia ver-me, ncrl ouvir_mc. Enhetanto, voltou_ Náo se perde a.fé * ela deixa de informar a vida, isso
-sc bruscam€nte e nossos ollrÂr'es sc cruzâram. Li no seu a sim. Daí porque os ânligos diretores de consciência tiDl1am
surpr'êsa, tlepois a atcnção, linalmcnte a mentira. Náo estâ
razão em se mostrâr cépticos com relaQão a certas crises in-
ou aquela mentira, t1râs a tonlade da mentiro. Et:a camo têlectuais, muito mâis Laras do que se supõem. Quando um
umâ água tur!ê, umâ icmx. E por iim o Iixava semprc
e tudo náo durou maii quL um jn.tânte, - eualguns se8undos homem culto ch€gou, pouco a pouco, e de maneira insensi
tâIvez, não sei alc novo reâparrcceu a verdâdeira côr de
vel, â recalcar sua crcnça em algum recanto do cérebro,
- cscória. Er'â indescdtível. Sua bôcâ. co- onde a descobre de novo, por um esfôrco de reflexão, de
seu olhar, sob cssa memória no caso em qüe tivesse alguma têrnura
meçou â tremcr, ncuniu a§ fcrramentâs, enrolou-as cuidâ- - ainda
pelo que não existe mais oü pelo que poderia existir náo
dosamentc em um prdnço dc tela, e saiu sem dizer palavra.
ó possível dar o nome de Ió â um sinal abstratô, que, - para
Devia têlo rctido para lhe pôrguntar certas coisas. Náo empl-egar uma compalaqão célebre, não se pârece com a fé
pude. Não pucle dclpúnder os olhos de sua pobre silhuêta, mais que a constelâqão do Ci.ne. com um cisne.
Àôbre o caminho. Aliás, ela se loi endireitando, pouco a pouco, Não perdi a íé. Á cNeldade da prova, sua râpidez ful-
e, âo pils:cr junto a cà' r d, D.g.is. Milonnet Íirou o sêu go, ro. minante e inexplicável puderam iransformar minhâ mzâo,
com úm qe.lo li.m cl'roÊirr'te. Vinle passos mâis: c comecou meus norvos, estancâT súbilamcnlc em mim para sem-
a âssobiai uma cle.ses cançóes de que ta.nüo gosta. horrivel' -
pre, quem sabe ? * o espilito de oraçáo, encher-me de uma
mente sentimentais, cujo tcxto copiou, com todo o cuidadc, reslgnaqão tenebrosa, mais tcrrível que os grandes sobres-
numa cadernctinha. saltos do desespêro, suas quedas imensas; mas a minha fé
Rêgrcssei a mFu quarlo, extenuado... Uma lassidão ex_ permanece intacta, eu o sinto. onde ela está, não posso atin-
traorcliúáriâ. Nada compleendo do que se passou. sob uma glla. Nâo a descublo nem âo meu poble cérebrc, incapâz de
aparência de timidez, SulpÍcio é antes um ahevido. Âlém do associar conetament€ duas idéias, que só trabalha sôbre ima-
mais, sabe que fala bem e âbusa de seu dom. Estranha-rne gens quase delirantes, nem na minha sensibilidade, nem mes-
muito que não tenha aploveitâdo a oca§ião pâra justificar_ mo na Ininhâ consciência. Parece'me, às vêzes, que minha
l" -se, tarefa fácil a seus olllos, pois, segurâmente, cstima em fé se retirou; que subsiste em um lugar onde não a poderia
I
muito pouco minhâ expedência, minha capacidadc de julgar. prccumr; na minha carne, na minha miserável carne, no meu
E depois, como pôde âdivinhar ? Não creio ter diío nem uma sângue e na minha camc, nâ minha catne perecível, mas
fl palavra e o othei ceúamente sem desprêzo, sem cóIerâ... batizada. Gostaria de exprimir meu pensamento o mais sim-
plesmente, o mais ingênuamentê possivel Não perdi a fé,
,l Voltará ?
lr porque Deus se dignou preselvar-me da ünpureza. Oh ! sem
Quando me estendi sôbre a camat em buscâ. do algum dúvida, tal rel,ação fada sordr os Íilósofos ! E é claro que as
descanso, qualquer coisa pâreceu quebmr-se dentlo de mim,
&
114 GEÔRGES BEENANOS DIARIO DÉ UM PANOCO DE ÀÍ,DEI.1 115

maiores desordens náo conseguiiam desâtinar um hoúem pojâda de tôda hipocdsia, é justamente â máscara da ân-
xMoável, a ponto de levá-Io a pôr em dúvida a legitimidade, gústia! Oh! êsses r'osios bestiâis que me aparecem âinda em
por exemplo, de certos a-xiomas dâ gconetda. uma exceção,
enhetanto: a loucura. Âfinal, que sabemos da loucura ?
sonho
- uma
Àssentâdo
noite €m dez. talvez
- essas
atrás do balcão do botequim,
fâces dolorosas !
de cócoras pois
Que sâbemos da luxúriâ ? Quc sabemos de suas relações se- muitas vêzes escapevâ da toca escura em que rninha tia - pen-
cretas ? A luxúria é uma chaga, misteliosâ no Ílanco da es- savâ que estivesse esiudândo minhas lições
pécle. Em seu flanco, não; nâ Íonte mesma dâ vidâ. Con- minha frente essâs imagens; e â luz dâ misera - surgiam em
làmpadâ,
fundir a Iuxúria própria do homem e o desejo que aproxi- suspcnsà a um fio dc cohre, senpre balançada por algum bê-
rnâ os sexos é como dar o mcsmo nome ao turÍror e ao órgáo bedo, Jazia dançü sua sombi-a no teto. Âpesar ale ser uma
que êle devom, embola um, cm sua deformidade, reproduza criança, distinguia muito bem umâ embdaguez de outra;
às vêzes, teú)velmenle, o aspecto do outro. O mundo se es- quero diz€r que só a ouírâ me dava r.ealmente mêato. Bas-
Íorça, por todos os preslígios da ârte, pü ocultar essa châga tava que surgisse a criada pobre jovem coxa de tez
vergonlosa. Dir-se-ia que teme, â câdâ nova geração, uma cinzenta - urna
para quc os oihares embrutecidos se tornassem,
revolta da dignidade, do dcsespêro, â negação lepulsiva dos - de uma iixidez táo pungente que, ainda hojê,
sübitamenie,
sêres ainda puros, intaclos. Com que estranha solicitude vela não os posso recordâr de sa1lguc-Írio.,. Ohl seguramente,
-iunl,o das crianÇas, pâta al,ônuar xntecjpadâmente. E fóIca dir-se-á que são inrpres.iacs da iniàl1cla. Que a precisáo insô-
de i-rnagens encanladorar. a humilhação de uma primeÚa Iita de tais lelDbra[ças, o teiror que, Llpois de tantos anos,
experiência, quase n0ccssàriamente irrisória I E quando, ape_ me inspiram, fazcm-nas juslamentc suspeitâs.,. Sejâ! eue
sai de tudo, se elcvíI pâra o céu a queixa semi-inconsciente os mundanos váo e vejan I Não creio que se possa aprender
da jovem majcstàde humâna escarnecida, ultrajada pelos grande coisa em rostos dcil]asiado sensiveis, alemasiado câ-m-
demônios, como sabc afogála sob a plessão de gargalhâdas! biantcs, hábeis no Íingir, e que se ocultam para gozâr, como
Que hábil dosâgcm de sentimento e de espírito, de piedade, os animais se escondem para morter. Não nego que milharcs
de ternura, de ironia; que vigilância cúmplice om tórno da de sêres passem sua vida ua desordem e ptolonguem até o
adolescência I Os vplhos pacsaros não se preocul,cm mais liüiax da velhice * às vêzes muito mais pam diânte
Jebrilmente pelo primciro vôo de seus filhotinho§; e se â - as
cur-iosidades nunca satisfeiLas da adolescência. Que apret-
repugnância é folte demais, se a pequena cr;atura sôbre der dessas criaturas frívolas ? pcalem ser joguêtes doÀ de-
quem velarn âi[da os Ânjos, plê§a de náuseas, quer vomitar, mónios: não são sua ver-dadeira prêsa. Pal'ece que Deus, poÍ
com que máos solícita§ ltre estendem â bâcia de ouro cinze_ não sei que desígnio mislerioso, não quis permitir que com-
lada pelos aÍtistas, cantacle pelos poetas, enquanto â orques_ prometessem realmente suâ âlma. Prováveis vítimas Ce mi-
tra acomparúa seus solucoq. em surdinar com um imr nso seras heranqa§ dâs quais não aptesentam mais quc uma
mulÍnúrro de folhag.ns e cle águas vivas! caricatirtâ iâofensiva, crianças retardadas, târadas mas não
Mâs, comigo, o mundo não gastou tanto... Um pobrê, corrompidâs, a Providêncie quer cotceder-lhes cerias imuni-
aos doze anos, compreende muitâs coisas. E de que me sêr- dades da iníância... Depois, que se pode concluir de tualo
vira compreender? Tinha visto. A Iuxúria não se compreen- isso ? Só porque há mâ.níacos lnofensivos, deve,se negâr a
de, vê-se. Eu vi êsses rostos Jerozes, imóleis de súbito, no in- existêlcia dos ]oucos perigosos ? O moralista define, o psi-
definível sorriso. Meu Deusl Como não nos damos contas de có1ogo ânalisa e classiJicâ, o poeta tocâ suâ música, o pinlor
que, na maior parte das vêzes, a máscara do pmzer, des- bdnca com suas côres, como um gato com sua câüda, o
Dr,Âxro DÉ uM P.Ároco Dl ÀLDEr.1 117
116 GEOECES BEBNANOS
O recurso ilc útitos padres, mais zelosos cluc prudentes,
histrião estoura êm gargâlhadâs: quc inpolta-?. repitô é sul)or â mii íó: "não crôs, porquc a clcncâ é um embaraço
ã"" ".-.r,i"i,,,,,- l. õto"a loucr.rtu r' r" - iuxúri': - o a 'o- e têüs desciol'. A quentí)§ pÀd)-es ouvi 111âr' assii[l Não seria
Ji"aJ,. trrr.onl'ssl.ro ab'rlrn'cnt'. 'r"" nJe-so de ânbbs l.rir pxrtô'ílizar: "à Drü'êze não tc é prclclitc colno um câs-
:;;-;;,;;;;";:'"i;irrDLlo tr l'1'r. J rrr':r-rr :' c'lra versonrrr riqo: é L!m., d-s L4r li.''êi mis.,crlúiir\ lnxri ' !'Jrnlês - a
;;;," ;;;úa mê.mos rr.krllo:'. . r"rii e loucura o x lu':ú- , in.*:.lncir ,r at. .r do .onnccimonLo s,,Lú n':lurai de ti
a sào uma só coise !... mi.:.r_no ao corllrrarxlento de ti mcsmo em Dcus, que se
Úm Iiló"olo. cómndLmerrlr rr'1'I:'lJ Ân- suâ bibliol''â' cllâma fé ? À impl,r,:'ze 1rio destrói êsse conhccimento; âpe_
r"ti .ãú," ruao ;.§o, nro lr: lri ,l'r!,,1.. ulJ:nr?o di\crsn LIJ do nlr.s aniouilâ x s;?1 nccessidade. se não clês mais' é porque
,-4,..-ài.0, mars ae 'c 1 rrrr lrr 'l Lrni !:grrio do inl',r or' não qucies crer . Niic qricles r]ais conhecel a ti mcslro Éssa
i1gi6. po:om, qup rf,:1 ' ' 'l' '^''rr clPr{er o í'I lno_ P' oir'u,ao, v"nt rd,'. q. i ^ 1,', e no"sil. ii lrào tc in1l'rc ' d E
i"r'-o'"tut. "oin o .n,n t rlr. rr ''|. a esmat'Llor" ;-n r:io.lilds 3 ii 'I 'mo':.o'êlllnr{"
qu. o' dogl.ir'quo. arlloi onl'm'
ãàiã-ã oc iri. | ..ê,r.'^m \rrliScm: p.lo que o' ltnIln1 lrril Llr ' i! r Iros_'rlês l1m lcll eipl'
mrrs"on,i
rin.i.,, r. r,:r , r'i,'.. p.lo que xLlirir'i' 'r' i;1,- -,t ràzá^ o , I 11, lc; quc iÀfor13 | So lo'"uimos L'êbl-
aireres do" D^.rucno rr r,,:,.' I l'.: ',." 5'mpre ai mr:Irirq'
""""iãÀ. nr, t.r u "out d*l.i r, ,t toasr.rr, pols, p.lra o homem. lrão
,rr"r,:'.1'i,' ! ' qr'ando.lrrl '\' 'n: s "rr'.in
p,.si lol .1. r', rr. li. Ja n.ú r1c' 1 ' I l. m'smo l\ão
""iã
ãii "u"Lr""a,,' rr' 'l'''r':a Ir 'o"'bra Íormigsm romo cr].oiâ mris tLlÍl ir're'i,. F cr"no nào s' pode anlar a si
,' lll' ''1' . enlÂo a. \ ivÊt nhslro , ..ráo r rn F('r., 'l :'cs de ainc. a l: mPsmo. E não
iar*"-;"", " ,'f.'' , ., I nais te amalás Eunca mais, ncste mundo nem no outro,
,tl:, r,r, "'(, 'c'rrFchmos
r'riLI- sempÍe bLcrl' de -
"LiÃi,i.,,l,'
ã"i-"'i'""ri," ii,,ir: . r)r'i)r,it.l t uil,âi'l.'ie de nossa miscr''rl'ci iâ- eternarnenie,"
! cér'U''Llo 'o LIP\Ia pt)rino, à motJ"m, as 1t'
r ttt ',.'
iui"r*. o. qu, r.'r
1,,- t '-r". I O". '-or : o lrc-- tPodpn-se I'
- ett.it:c r'' I tJú - ','o ' o:n"o leli''ets: Es-
mem.5Lrnr"\i]rlr\ i'' n Llr'osllquo tlil' sua nlla
larva ! crevi isio, mtma glân(lc c plene angústia do colação e dos
sentidcs. Tumult;dc iL1óiâs, de imagens, de pâlavras. A alma
Âcusam-nos, âtustu no:j iio sernpre, a nós pâdr,cs -umaé sê cala. Deus se cala. Silêncio.)
rão úail ! de alirncntal, 1To iundo de nosso co}'Ílci:to'
-
i'ãíà-iir":*ulf iir':,i iil'.', cont'a' â riiirirrâde: lodos cnlrc-
ri( n'i- do p'ca.lo Jb m
il"õ. ord u nhain ,'gu',.:I .rrt:nrcrrl' : \p'
abalar' oob :'ui^s vc-
r]""rii âm, r.ir,"con
prorir' r' cir" lcnl.o
Ili"ã0.]'irã,:i.rl;,.,. , 'ob '.cr
"i,."ã tror'' rr' is
i riiii,a""ãil "àmo a ;nr 'li'.'1r':, tncanâz de
'ri,:r' sú pode Impressão de que isso não é nada ainda. Que a ver-
;;;;;i.;," .;; i,'-,',:, rrrgil p.oniessa do hrrrnânidacle: dadeiritentação
-
â que csperlo
-
está muito longe Àpro_
lil?il..'.,i,'i;" liri"rn n" o,',ã'. .o prjnciniô rrc loLla' ds xima-sê cle mim. lentamcnle. anunciada por vocifclaqões de_
ir..,. á"'oo.", Iir..,; a qLl .nrln. num trecho da l'l'tl'r'1a selva- IimnLcs. E a minhâ pobrc âlma também espcra. Caia-se'
il---.',1...r.- ,ô" o,.""'n,,^' m'r"' camos Llo
'rr'r Iom a lu- Fâscinação do colpo e dâ âlma.
das máo'do Srnlror do5 pro- (A rapidcz, o câráter Iuiminânte de minha desSl:aça'
ir.ir.l"iqr"i ó, tal conlo sâiu das (ntrcnlras rrio
;;:i;."; -]ii; Ãun no. ""np, É apenas o esirÍrito de oraÇáo allârldonou-me, scm qre cu- sentisse
;i";;i;.;."", "l i.p ''r..o', l'u'tcr \os su !o' que deren- qualqluer dilaceraçào, po! si mesmo, como cai um Irlrto ")
raaleastes a molte do mundo!"
118 CEOEGES BEBNÁNOS DlÁlro DE uM P.ÁRoco DE ALDETA 119

Só depois surgiu o mêdo. Quando olhei pera as minhâs cometo: pelturbâram-me demais. Peltenço, ceúaôente, a
mãos vazias, compreendi quo sou, ape4âsr um pobre vaso essa categoria. de débeis, de miseráveis, cujâs intenções são
quebrado. boas, mas que oscilam durante toda a vida enhe â ignorân-
cia e o desespêro.
Corri até Torcy, esta manhá, depois da missa, O ügá-
Iio de Torcy caiu de cama, e está em oasa de uma de suas
Sei perfeitàmentÊ quê sêmelhanl^ provacão não é novâ. sobriDlas, em Litle, Não voltará, antes de oito ou dez dias,
Um médico dil-me-la. sem dúvi,lJ, que solro dur.1 simflc. pelo úenos. Até Iá. ,.
êcgotâmento nervoso: quc (1 rirlíctllo pretender alimênl3r se Escrever-lhe parece inúí . Náô saberia confiar meu se-
apenâs de um pouco de pão . rln tinho. Mas. antês dc ludo, grêdo âo papel. Não poderia; provàvêImente não tenho o
não me sinto esgotado. Longc disso: estou melhor. ontcm, dirêito de fazê-lo .
qucsê âlmocei como nos vollros jêmpos: batatâs, manl'ie2. Áo sâber que o vigário de Torcy não esiava, â dPcepcão
Álóm do mais. rêâlizo làcillnentc to4n o meu írabalho. Deus Íoi tão forte qúe tlve de âpoiar-me á paÍêde pam não cair.
sabe quanto qucro lutar contLa mim mesmo ! Se o conse_ Â empregada observcva-me com um o'har mais de curioli-
guisse, parece quc me voltariâ a coragem, Minhâ dor de es- dade que de penc: um olhâr que já surpreenÚ, mais de
tômago despcrtâ, às vêzcs. Agora, cntretanto, ela me sur- umâ. vê2, desdé âlgumas semanas, e em pessoas muito dife'
preende; iá não â cspcro, como outrora, segundo a segundo. . . rentes o oihar dà sênhora condêssa, o de Sulpício e de ou_
Também sci quc sc contam muitas coisas, verdadeiras tros...-Dir-se-á que têm mêdo de mim...
ou falsas, sôbrc os soÍrimentos interiores dos sântos. A se- A lavâdeirâ MartiâI estendiâ â süa roupa no pátio, en_
melhanqa ó, contudo, âpcnâs apârcnte; sim ! Os santos não quanto eu procurava r..lazPr r'linhas Íórcas. anles de me pôr
se comprâziam em suas desgraqas; sinto que já estou queren_ á caminho; percebi, p.rteitamenlp. que as duas mulheres
do bem à minha. sc ccdesse à teníâçáo de me queixar â falâvêm a meu respeito. Uma delas disse mais alto, com um
quem quer quc fôssc, rornpcr se-iâ o úItimÔ elo que me liga âcento de voz que me fêz enrubescel: "Pobre mpaz I" Que
a Deus; entrâriâ no silôncio ctelno. sabem êlâs ?
Entrelanlo, pclcorri, onl, m, um longo lrêcho de estra_
da, em direcáo â Tot'cv. Minh, \olidào é agorê tão protun-
da, tão verdâdeiramentc inuúanà, que me veio, de súbito,
a idéia de ir rezar jünio ao túmulo do velho Dr. Delbende.
Depois pensei no seu protegido, neste Rebattut que náo co- Dia telrível parâ miú. E o pior é que não me sinto
nheço. No ultimo momeolo, lallou-me a pnelgia. câpâz ale qualquer apreciação razoável, moderada, sôbre fatos
cujo verdadejrrc sentido talvez me escape. Oh ! conheci mo_
mentos de desatino, de ârnargura. Mâs então, e sem que o
percebesse, conservâva minha paz interior: os acont€cimen-
tos e os sêres se refletiam nela, como num espelho ou Í1â
Visita de ChantâI. Do que se pâssou naquela entrevista superficie de uma água lÍmpjdal ê. depois. devolviam-me sua
táo alesconcertante, nàü me sinto capaz de reproduzir coi§e imâgem. A fonte. agora, eslá âgitadâ, turva.
alguma, estâ noite... Pobre de mim I Nada sci, nuncâ sabe_ Coisa estrânha, vergoDhosa talvez: quando, certâmente
rei nada sôbre os hoüens. Não me aahantam âs falías que por culpa minha, a oraçáo é para mim um recuNo tão Íraco,
êXORGES BEENANOS Dr,(nro DE uM PÁRoco DE ALDIIÀ 121
120

só encontlo um )ouco de sangue_frio ne§ta me§a, diante des_ * Eu a melarei. disse-me, Maíála-ei, ou rne matalei!
O s€nhor há dê responder por isso, um dia, diante do bom
tâs fóIhas de PaPel branco. Deus 1á do senhor !
Oh ! eu gosàriâ de_que tudo náo pa(sâsse de um sonho' Soltava cssas loucuras sem levantâr a \.o2, Ao contrá.-
um mâu sonho ! rio: às vêzcs, ma1 â ouvia, Tâmbénl, mal a c xel'gava, ma1
distinguia seus traÇos. Com uma das mãos âpoiâdâ à pa-
rede, â outra deixândo cair urna pele ào longo .lo corpo,
de ce- inclinava-se pala mim e sua sombra cnormc tinha. sôbrê
Por causa dos Iunerais ala Srâ Ferrând, tive.julga1'â- os ladrilhos, a fotma cle um arco. Meu Dcus, qucrn pcnsâ
fefrar-à missã às seis horas. o coroinha náo vêio;
que a confissão nos aproxima pedgosamentc dos mulhcres
liÃu*ioã"iio ti" is*ja. À cssa hor'à, nesta estaqáo' o oihar
;; ;ü.;;; ú1.á ',1.n, iloJ il' stêtl\ do córor o rcrto
o dcbil
rica
bârulho
êngana-\o por cnmf
'lol .{c m,nliro""s ê âs Ínrrri-cc' in.-
piram-nos, antes, picdade; e â humilhâção das outras
n, ;il;;. srüitn*"nt,, ouvi. coin nilidÊz -
à'É ií iôiàtio à"'tiranrlo pulo banco ' câindo no
ô;rü, ;i; naãc: u Lo,L, .tc Lrrr a bênc;o não mc
lâdrilho'
allt vi a
as sinceras
- é contagiosa.
pude compreendel
Foi só naquele instante clue
o sccrck) domínio dêstc sexo sôhre â his-
levantar os olhos. tóriâ, sua espécie de fatalidâde. Um homem irado pâr.c-
um Iouco. E as pobles filhas do povo que eu cor'rheci itr.
Esoêrava me à túrlu Lla sscrist'â Eu o sabix S' u
Íino
quê na ânlcvésnel'a. e minhâ infância, com suas gesticulaqôes, seus gr'itos, súa
-+.-"!i^ra-^a't ti,rlrrr:r'lo. -indâ' grctesca ênfasc, faziam-me, ântes, rir'I Naclâ sâbiâ dêsse
ià rio rogo da bôca, tão dcs'lenhosa, táo dula Dis-
""." artebatamento silencioso quc par-ece irrcsisílvel, dôssê gren-

se-]he: de ímpeto de todo o sc1 Íeminino parâ o mal essa liber-
 senhora sabc muito bem que não posso i_ccebôla dade, essâ naturalidâale no mal, no ódio, ne-vcrgonhe...
aoui:- retirc se ! Aquilo era quase belo, de uma beleza que não ó dôstc mun-
' Seu olllrr mc ti7 mido êmbolx nào me livccsÔ acovor'_ nem do outro mundo mâis aníigo, aute-
dad;'il;u D;;slquc raila rm §ua !o?! E ôslr olhar re-
do
- de um
rior-ao pecâdo, talvez aDteriot ao pecado dos Ànjos.
ffiiá ;; .;e;lh; quosc dc'pLrdorado É possivol ler ó''lio
Depois, repeli cssa idéiâ, como pude. É absurda, pcri-
serr se envergonhar ? gosa. A püncípio não me pârece uma bonitrâ idéia, e eu só
senholita. alisse the, o que prometi fazer, farci' a fomulava, afinâl, de modo impelfeito. O rosto de Chân-
- Hoje ? tal estava quasc junto do mcu. À manhá subia lentâmente,
- ÍIoie mesmo. pelos \.idros foscos dâ sacr'istia, manhã de inverno, tletnen-
*- É àue amanhã, sr. Paahe, será tarde dcmais' Elâ damente tdste. O silôncio entre nós dois só durou urn ine-
tante, o tempo de lezar uma SâIve-Rainhâ (e, eletivamcnte,
.,r't".uã ü- ão oie"uir"rio; (la sabn tudo É uslul'r 'omo
s' I'Lbilur.a
iâià.à:'e"i*, "i nào d.j'onliava: a g'nle as palâvrâs de Sâlve-Rainha, tão belas, tão pulas, vi.râm,
-me aos labios, sem que o n"rcebesõc).
;.í;ã;;:-;;ú, â supo los inocentes Ago's .ou queria
! esmugalLl o Deve ter pressentido que eu lezava. Bateu o pé no
Árrancá-los- êstes ieus olho", sim Eu os 'onl ?c chão, Íuriosa. Segurei-]he a mão, mão pequeninâ e elás-
assim I
* Fâlar dessa formâ â dois pâssos SS Sacrâmento! tica que âpenas se contraiu dentro da minha. Certarncnte
A serüora não tem temor de Deus ! 'lo a âpertei com mais Íôrça do que pensava. Disse-Ihe:
êI]ORGES BERNANO§ Dráslo D! uM P,íItoco DE ar-DErÂ
122

Aioelhe-se. Pdmeiro ! dâ janela, no palquê. Êies nem tomam trabalho de cerrâr


-DobÍou um pouco os joêlhos em frênk à mesa da ro' âs cortinâs. (Pôs-se â rir, Judosamente. Náo querendo mais
muühão, Àloiavà as máos na me§a c olhava_me com uln âr
fical âjoelhada, teve de dobrâr'-se etú duas, o rosto encos-
ílê insolência e de desespêro inimaginávcis' tado ao confessionário, âbafada de cólem.) Sei pedeitamen-
te que êlês darão um jeito de mandar-me embora, custe o
Diêa: _MÊu oeus, ncsto mÔmÍ-nlo sinto-mêsou lncâ_
quê cusld". Dero parlir para a Inglal,erra. nâ próximÍr Íér-
-
raz a" Ei". outra coisâ quc vos olondêr-: mas não. eu
,ãi é que cstá em mim ça-feira. Mamá. lêm umâ prima. lá. Mamàe achâ o plano
ãrã. oi"no", êste dàmónio
" Yoz muito co venientc, muito prático... Conveniente ! Tenho
Anesar de tudo. rcpêliu, pch\r' Dor p'lalTâ côm vontadc de mord€r' a rni41 mesma. Mas ela c!ê em tudo
.lê criânca oue rêcita É m'smo quasF uma menina §ua
que lhe dizem, em íudo. ttldo ! "Come" tudo, exâtamente
ãã*riia, rr"t" ató o chão, e eu pisava em
- tinha deslizaclo
como rá come môsca. QuaI !..,
;;;-àãr. ievantou-sc, incsperaclamente, âJâstou-se. de
Suâ mãê, comecei. ..
;l;.. ;; o rosto vollxd.r 1'1r'à n altar' dis'ê enlrê deÍríes:
.Podeis condpnar-mo. Senhor, náo m. lmporto". Ilngl nao -Respondeu-me com palavras quase ignóbeis, que não
escutá-lâ. Parâ quê ? mê attevo a rcprcduzir. Disse que a infeliz senhora não
soube deÍender suâ fclicidade, suâ vida; que é imbecil e co-
senhorita, continuci, náo podemos convelsâl aqul,
-_-
no -
meio da igreia. só há üm lugar onde a posso ouvÚ' vardê,
* ,4. senhom anda escutando Âtrás dâs portâs, ânda
r,-.,r"""i, dolicaalmente rara o confessionálio ' Pôs- olhando pelos buracos da [,châdurs. a senhora, uma moqa
-sê de joêlhos. som c rninimx r' luláncia'
Nâô or1.rr, conÍcssar-me tão all;va. fazendo o pcpcl de espià. Quanto s mim, não
- r.iãã à."rin a" ..nr'"'a. Pnnsê. anÊnâs qup.êsses.ta- passo de um pobre câmponês; vivi dois anos de minha adoles-
-
h;orleq dê ftâd.irâ iá ouvirâr' a confi§são de muilac mrse-
cén.ia num misêro botaqim. onde a senhora náo ousaria pôr
os pés. Mrs n;o prorêdória como a senhora. nem que Ídsse
iri.-'i.t;á i-.i"."uàos de r"isória. A senhoraoséoutros uma criâ-
um para salvar minha vida.
ij,,i r-üii. ,iãi í..Êxlho ó ur'l DÊcâdo de 'omo
lama' Levantou ce inopinpdâment€: manleve-se dÊ pé, djante
nniico mais de lamâ sóbrê um montão - con,essronârio.
do a cabcca inclinadâ. o ódio ainda estam_
"-- n^«r i rênlicou o snnl]or sabe muito bÊm olle
-
ol-"lrliicr. - aiià". lrgo Dara essa lamâ verda- pado no rosto. Gritei-lhe:
"o là-; e; humilhacáo a
àiri, ", "looue me suieiiarâm Dcsde oue Ponha-se de joclhos ! De joelhos !
-Obedeceu-me.
aquêla mull^er enlror, cm norsa casa, l'Fnho comido mais de novo -
Iâma do que Pão. "A.nteontem, censurei a lnim mesmo por ter tomado
Saó patavras que a st nhora aprendeu noc livros' A muito a séfio o que talvez não Íôsse mais que obscura inveja,
- -
senhorita é üma criança Dove fâlâr como crianca' um detírio mórbido, um pcsadelo. Prevenira.m-nos tanto con-
.rian(a ? Há muit'o tempo delxei de sêr üma tra a malícia daquelâs a quem os vê]hos hatados de moral
- Umc
eriançâ. Sci tudo que ó possível saber. Sei bastânte paÍâ o chamam, ingênuamente, "âs pessoâs do outro sexo" l Imâ-
ginavâ, pedeitamente, com que espécie de ironiâ o vigário de
resto de mimha viala.
calma, minha filha. Torcy receberia essas coisas... Ácontecia, porém, que me
- Fique
Esiou caimá. Ânte§ o senhor estivesse tão calmo
achavâ sôzinho à mesa, tcfletindo em palavras mâEuilal-
- esta noite. Estava exatamente debâixo mente retidâs pela memória e cujo tom se perd€ra, em de-
"o*o "rr.-fa"rt"ia",
124 GEORGES BERNÀNOs DIARIO DE UM PARÔCO DE ALDE1À 125

fihilivo Ao Dasso que, agorâ, tinha. diante do mêu' u'n es_ nheci minha visão. Sua pâ]idez era extremâ, qüase ridícula.
i"'à'iiià .á'Liã"lrÊ,iàoí n;q pao mido ,nds por um pâ- Iremiamlhe as mãos.
ã.-ii-àiàir"a"-. mai' intirior'. crm I Lenho a exo'ri- agtiento mâis, disse com voz iniantil. Por que o
"iã.
à""i. ai'"";ii-áiiàirqào de trccos br"raote parecida: só que - Náo
senhor me olhou daquele modo ? Deixe-me !
íii"r,, oui".uuao, aié entáo, apenas na face dos agonizan-
nàturarmen'te, uma causa ba'nal' física'
Tinha os olllos sccos, ârdentes. Náo sabia o que res-
?;;'il"-;úüil, ponder. P.êconduzi-a, delicâdâmente, âté à porta da igreja.
ô; ;ÉJ,;";-À;ai;. de lâlil oâ ,"mrs' a'a da agonia" os Se â senhor, {iv.sse àmor a seu pai. n;o pelmane-
médicos se engànâm. com !l"ltlcncla ' ceda- nesse horrível estado de Ievolta. Será a isso que â se-
ôtlc clizer. oue laTer ern larol clesca criaLura tãÔ _'- nhora chamâ ter amor ?
* Não gosío mâis dêie, respondeu. Àcho que tenho ódio
".rai *üãài.1rrt vidc r.rrocia ' ''dpJr-se âos borlrolões
dêlê- Tenho ódio d. todos.
ã;";i;r;; chaqa invisrvnl ? E. an'sar de Iudo iulgu'i quc .4.s palavrâs sibilavam em suâ bôca e, no fim de câdâ
ã&:à'ãuaraar "si)Éncio, por segundos ainda -correr
'.lg'rns
éste ri;co. Depois, ,'eclliorci llm pouco as mlnnas IoÍcâs:
fmse, como que soluçava, um soluço de desgôsto, de fadiga,
já podia rezar. Ela lnmbim sê caldrs nao sel.
Não querc que o senhor me tome por uma idiota,
Nêssê instrntc. aconlê.nu uma coisa esquisita' Não ex-
-à""iààrr.-r. trl qrrxl disse- €m tom de suficiôncia e de orgulho. I\[inho máe pensa
Lào Iâtjgado lão nÊr'vo- que eu não lei nada da vidi, como dizcm. Seria preciso que
"r1." p;*,*1.
$-;;" á-t;; -;i." ciincl. quc
^ndot'nh: :onhado Em surna eu andasse com os olhos dcnt,ro do bólso. Nossos empregados
ã;i ãirá li'iài'r xbtsrrurâ de sonbra no confeosionário são verdadeiros mâcacos, e c1a os crê irrepreensíveis
ãiiããlriiã.i." pino diâ, não posso rêconhecer um rosto'
de muita confiançâ". Ela mesma os escolheu, imagine - "gente
I Tô-
"ii,
o .lê Chantal coni^(ou c sul'grr_me. 8râdualmPnfê' cadâ \ez dâs as meninas deviam scr intclnadâs num colégio. Pois
r"Ài-. A imir)lêm ''slirvJ âli ânte meus olhos numa bem, aumâ palavrâ: âos dez ânos, ou antes talvez, já sabiâ
c.necÍo rie instrbilidãd., . eLl l,e_mane'ia imóvel como se o
"itioo. de quase tudo, Isso me horror'jzâvâ, me fazia sofrer. Iías eu
)."-I"à" ,*.tã-à nud".e dis'rpir. QLrero di7er. náo a clÍslin- ia aceitândo ludo, como se âacitam a doença, â morte e mui-
nuiát.i*,-ã" p'.ó.r": a imag'n lol(çsa chegânclo a mim lenta- tâs outrâs necessidades lepugnantes a que nos devemos re-
irentc. E. acora, tico s.m s^b(r sr e:peclc df llusao csla- signar. Havia meu pâi, por'ém. Meu pâi em tudo para mim:
ria liÂada à;inha prl-.c: quem sabc 5e et'a â proprla lmagem um mestre, um deus, um rci um amigo, um grande â-migo.
Ào'mlntrá oracà,,o ? Minhx ôla(ào era lristei a imâgom cra Quando em pequena, -
convcrsava sempre comigo, trâtava-me
i"'r.i" iãÃrraÀ. MaI nodia supo'1ar essa trislezal masoude'c- as-
quase de igual para igual. Eu guardava sua fotografia num
i;;;.;-me;" temtlo, corrÉ:rtilhá-la com algLróm medalháo, sôbre o meu seio, com umâ mechâ de cabelos.
I'i-ii, Lãàã irr"iiã,'iunndô-c penetrar em mim en'ber Minha mãe nuncâ chegou a coüpleender lsso. Minha mãe . . .
mêu coracao, minha alma, Í'lcus o sos mêu ser' FaTi'r c'lar * Náo Íale de sua mãc ! Você náo gosta de sua mãe.
que
em mim ésse burdo l'umor de voTes conÍusas inlmlgcs E, depois,..
,i"rr" sem ces5ar. hsvia duas 5'-63n4'1 rrstabe_
I pode continuar'l nu a detesto. Sempre a de...
"i"rà"dà
i;1.#";;il ;"il;;.i; da outrora. o bem-â\'enLurado silen- - Oh Cale-sel l\{eir Deust. há €n1 tôdas as cases. D1esmo as
ãio ã*tro ao qual Deus vai falãr Deus fala ' - animais inlisíveis, demônios. O mais feroz de todos
- cdstâs,
Saí do confessioüário. Ela se tinha levantado, ante§ estava em seu coração, há muito tempo e a senhola não
ae ml . fncontramo-nos, de novo, Iace a Iaoe E não reco- sabia.
GEORêES IERNÀNO§
DrÁnro ,! uM !Á!oco DE ÁI,DEL{ 121
126
pensei que essa obsiinaÇão contra a dor não era isêniâ de
* Tânto melhor. alisse ela. Gostariâ que êsse animal orgulho, e, humildemente, pedi'Ihe que parasse um minuto,
tasse troiiívei. medonúo. Náo rL\peito mals a meu pai. Não pois já não podia ândar.
creio mais nêie e o resto pouco mc impor:ta. Êie me enganou'
Poale-se ensanâr umâ lilhâ, como se .llgana a mulher' Náo Foi, âcaso, a p meira vez que olhei um rosto de mu-
,/t ã a mÃma_colsat é pior. Iús cu me \ingarei Fugirei pâra Iher. Oh ! é certo quo ndo or eviio de ordinário, e até cos-
i.uiis- serei desonrada c lhe cscrí verei: está aí o que o se- tumo achaT alguns :rgraciaveis: mas, sem compartilhar do
nhor -têz de mim I E ôlo hà dc sulrol o quê eLt sofri' êscrúpulo de alguns de meus colegas de semináiio, conleço
suficientemeute â malícia a-theia, para não observar a rê-
Refleti um instante. Par.ecia-me i! lendo em seus lál'io§ seNa indispensável a urn padre. Desta vez, porém, venceu-
ou[râs Dalâvras que ela nio dlzi9. que se gravarâm' uma a -Íne a curjosidadc. lma r,Lrriosidade de que nao posso r nvcr-
irmàl-ciàmei""tis em mcu cct'cbr-o Gritei. quasê lora de gonhâr-me. Em, penso, a cufiosidâde do soldado que se aven-
mim; tuÍa fora da hinchcirâ, pâra ver, afinal, o inimigo a desco-
senhora não idá ta1 coisa ! Não é â is§o que a
- Aestá
senhora tentada; eu sei.
berto, ou ainda... Lembro-me dê que aos sete ou oito anos,
indo com minha avó à casâ de um vetho pr-imo que havia
comecou a trcmcr, dc tsl modo que leve de apoiar-se morrido e, Jicando só no quarto, levantei o lençol e olhei,
com as dús mãos, nc prrcdc. E a'onleceu outro pequeno desta mesma Jormâ, o rosto do defunto.
iáto o"e ,o, conlari comb o pcimeiLo. sem também poder ex_ Há rostos puros, de onde irradiâ a pureza. Assim, tinha
o'iúlã. rãi.i ro """so, suponho. E, no entanto. eslava cerlo sido, sem dúvida, o que estivera, então, sob meus olhos. Mas
àe oue não me cnqanava.
'- Dé.me a cri1c. a calla qup está ai, no seu bólso' o de agora tinhâ não sej o que de fechado, de lmpenetrável.
Nào -têt mcncio de r.sislir. Sollou. êpenas. üm plofun_
Á pureza já não estava âli; mas, nem a cólera, nem o des-
prêzo, nem a vergorlla tinham conseguialo ainda dissipâr-lhe
do s,lspito onlreÊou'me o papel. levanLando os ombrosi
"
sênhor. cnlào ó o próprio diabo. drsse ' o sinal mistedoso. Eram contrafações âpenâs. Sua nobrezâ
-'O
Saímos quase tranqüilalnenle; mas eu nâo .I',e agllen_
exhaordinária, quase terdvel, !êvelavâ & fôrça do mal, do
pecado, dêste pecado que não erâ o seu.. . Meu Deus ! Será
rrr" a-à oO. aiOava eulvjdo ' m riois; minha dor de estómago, o homem tão miserável a ponto de voltar coniia si ú\esmo a
ouãsá eiqueciaa, Íéz-se sêntir de novo mais Iorte. rnais cn-
Êuitiar'tt"^ que nunca. Umd palard do saudoso Dr' Dclbon- rebeldia de uma alma orgulhosa ?
ã" uàitou-me à memórj-: doi de espel,adas na barriga Éra a senhora o que entender, disse-lhe. (Acháva-
ii"o -"a*o. Prnsala naquele bicho qL,e ogolpe conde hlvir ]rre- - Façâ
mo-nos no fundo do ceüitério, pelto da pequena porta que
Eado âo chão, dianle de mim, com um dc ccpclo e dá para a casa de Casemiro, nesse canto abandonado, ém
ãue agonizava, atravesiado dc um lado a outloi num Pu_ que o câpim cresceu tanto, que não se distinguem mais os
iaco. abandonâdo pelos prÓprios caec. túInulos, túmulos abandonados, há mais de um século,) Faça
Chantal não rie presleva, aliás. a miruma atenrão Ca_ o que entender; outro qualquer_ se teria recusâdo â ouvi-la.
miniavi ae cateqa erguida eítre o§ túmulos' Mal emeela, atre- Eu, porém, não rae recusei; seja. Mas não responderei a seu
;i;.^;;rú-lr, il"tr. üt " meus aledos, suacxprcrsio
cartâ às
csrr'l-
desâfio. Deus não responde a desafios.
,ã1"r. lrtauuu_*" os olhos de soslaio com
a carta e eu o deixarei livle de tudo, !es-
,rLã. rru-." dilÍcil acomparhá-tâ: a cada paslo cstrva I - Devolva-me
pondeu. Saberei defender-me sôzinha.
ponio oe gritar, e me moidia cruelmente os lábios Enfim'
. .:l

724 Cf,ORdES SEENANOS Dr,ÁEro DE úM PÁaoco Dx A!DEr 12S

DcÍeniler se contra ouer,..contra quê 1 o mal é mâis doú o caos. Quem é a senhorâ pam jüIgú a falta do prG
i fôriê- alo oLe vocé. minha liiha. Será â senhora tào orgulho- ximo ? Quem julgâ a falta se coniunde com ela, a esposa. A
sa paia a;realilar-se inatingivel ? senhora pensa estar muito longe dessa mulher de quem tem
ao menos à lama. ódio, mas o seu dia e a falta por ela cometida são coúo dois
-* Inatingível,
A senhora também se transfo]mou em lâma' brotos do mesmo tronco. Que vâlem seus conflitos ? Oes-
tos, grltos, nada mais ! Seja como Iôr, a morte de-
- it;;;" i s"rã quu No"so scnhor pode prcibir àguérn - vento ao
!'olverá ambas à imobitidade, silêncio. Que importa, se
de amar seu Pai ? desde agorâ estão unidos no mal, presos todos os três no laço
Náo pionuncie cssc prla\ra amor. disselhe: â se_ do mesmo pecâdo carne pecadoÍa
-
nhora oecd<ú o dÚêilo do t.rzü_lít, o.lir,ito e o poder' sem
sêres que o
- uma mesma
nheilos, sim, companheiros ! companheiros até- àcompa-
eter-
ãuiiarl o amorl Há, prlo munuo mjlhares demorles nidade. -
imDloram r Deus, esi,ú plontos ! soirer mil para
Com certêzâ, reproduzo muito mal minhas próprias
orà cria. "m sua bi('a.nl(rncde, uma 8óla dágua. des§a palavras. Pois, na minha memór'ia, só me lestam de preci-
águc que nào loi r.cusllda í Somalilana e que imploram em sos os n,ovimentos do rosto sôbre o qual acreditava Iê-Ia§.
vão. ELr que lhe Í41o.. I disse ela com voz surda.
Dctive-m{. a tcmpo. Conludo. êla deve l,e, compreen- -Só Basta
os olhos não me pediam perdão. Nuncâ ú, nã,o verei
dido: Dxl'ec.u-mc, rlc i'nrnlc, lranslolnada É verdadê que. [unca mais, eom certeza, urÍ rosto tão pungente. E, no en-
se bcrir ouc trtasio nm ioz baixâ - ou por êsse molivo tal- tanto, não sei que pressentimento me assegurava de quê era
vez
- a violln.ic qu. imfu,lha a mim mesmo devia dar à
minha voz um aconto pârtioular. Eu a sentia como que trc-
âquêle o seu maior e último esÍôrqo contra Deus
saía dela. Que significa mocldade, velhice ? Essa
pecado
- oface do-
mer dentlo alo colcqão. Será quc essa moÇa me iulgavâ um lorosa seria â mesrna, quase infantil, que tinha visto, a-lg!.
maluco ? Seu olhâr' cvilâva o meü, e eu pensava ver e§tender_ mas semanas ântes ? Não seria capaz de ihe dar uma idade;
-s€, em suas Íàccs, umâ cavidade de sombm, e talvez que êsse rosto não tivesse idade. O orgulho nâo tem
Drocsceui, tluârílc nard oulros tal desculpa. Nio idade. ,A, dor também náo,
oassa - dcSim.
irm pobt'e l)adin, muilo indigno e muil,o inJeliz. Pfftiu selll dizer palavra, bruscamente, depois de um
iúas sci o ou. é o p;ccdo. A senhora não o sabe. Todos os longo silêncio... Que fiz eu ?
oqq669" se rrnlcrom; hti um so pecado Náo Ihe fâlo Pm lin_
;uâaLm ob"cura, Eilr vord,loes cstáo ao alcance do mais
fium"ilde cri"láo, de"do que ôÍÍ se digne recebê-las de nós.
o mundo alo pecado está perante o mundo dâ graça, como
uma paisagem pel'cnr súa p.ópria imagcm reflel,ida em Voltêi muito târde de Áubin, onde tiye de ir visltar uus
r,-, á"ua "nesri e Drolunda. Há uma (omunháo dos san- doentes, depois do jantar. Inútil tentâr dormir.
Como pude deixá-la ir nâquele estado ? Nem sequer lhe
tos: hã tambÀm uma comunháo dos pecadores No ódio. no
deiDrôzo que os pecador Ps têm un§ pelos oul,ros. êl's se unem, petguntei o que esperava de mim.
*" rt1.-caà. se riristuram, se conlLrndem; e um djâ aos olhos  carta continua em meu bôIso, acabo de ver o ende-
àà Eter no náo serào mais que ésle lâgo-de lama sempreris_ rêço: é dirigidâ ao conde.
coso sóblo o qual
_o passâ e repassa em vao. â Jmensâ mare oo Minha dor de estomago. dor de espeLadâs na barriga',
amor divino, mâr de chamas vivas e rugidoras que fecun' não cessa. Ate as costas estáo sensÍveis. Náuseas continüâs-
130 CEORAES BERTÍANOS DlÁnro DE uM PÁnoco DÉ ÁLDÍrÁ 131

I ouâse me alesro Dor nào poder refletir: a fcroz distrâção do prezei. D€us me puniu. Mânde-me de novo para o seminá-
sàJrimento é
"mâi; Íorte due a angúslia. PFnso nesses câ- r_io; eu sou um perigo para as âlmas !"
valos mânhosos que, quando pequeno, eu ia ve! Íelrar -em Teria compreendido I Sim ! Quem não o compreendê-
ca"sa de cardinot-. DeÀd€ que thês amal.Iâvâm os Íocinhos ria. aliás, só com a leilura destas míseras páginas. em que
com âouêle íordáo cober{,o Ae sanguc. de e§puma, os pobres minha ftâqueza, mi[ha vergonhosa frâqueza se levela, em
anLnai" ficavem trânqüilos. agâchlvdm as orelhas, e tre_ cadâ linha ! Será isso o testemunho de um chefe de paró-
miam com suas longai pernas. "Era disso que você -preci_ quia, de um condutor de almas, de um mestre ? Pois eu de-
sava, velhaco", dizia CâÍdinot com uma grande galgalhâda. veria ser o mestre desta par-óquia. E eis que me apresento tal
Era alisso que eu plecisava, êu também. qual sou: um inleliz rnendigo que vai de porta em porta,
A dor cessou de repenle. Era; aliás, tão regulâr, tão com a mão estendida, sem âtlever-se sequer a bater. á,h !
conúnte. que, faligado, qursc ch.guei a dormir. Quano'o é certo que não tênho Iecusado tmbalho, que tenho Ieito o
cessou levaálei-me ãe um-sa]Lo, bâlenclo o queixo. o cére- que posso; mas para quê? Não tenho feito nada. O chefe
brc terrivelmente lúcido, com a impressão a cetrlezo' de não s€rá julgado apenas por suas intençóes: ao assumir o
ter ouvido alguém me chamrr... - - cargo, se torna responsável pêlos resultados. E, por exem-
 lâmpada brilhava âinda sÔbre a mesa. plo, ao negâr-me a conlessâr o mau esíado de minha sâúde,
pode-se ctel que obedecesse apenas a um sentimento do de-
Dei uma volta pelo iar.dim, nada! Sabia que não iriâ veI, por mais exaltâdo que Jôsse ? Tinha, a1iás, o direito de
encontrar ninguém. Ttclo isso me parece âinda um §onho' afrcntar êste risco ? O risco de um chele é o dsco de todos.
nrrios oormenotes. Dor'óm. xnr.sêntâm se a mim. um a um'
coin tao pl'rfeita nitidnz uma e"orcie de luz intcrior' de Ánteontem, não deveriâ ter recebido a Srta. Chânta.I.
luz fria i- que náo -
deixa ncnhum trccho de sombra onde Sua primeira visitâ ao presbitério já Ioi quâse inconveoiente.
,rãisa encontrar algumo s.auranÇa, algum repo,lso.. É as_ Dêpois, eu ieria podido interrompê-la, ântes que... Mas âgi
iim qr", pa.a aléÀ dc mor1n. o homem deve rever-se a si só, por mlm rnesmo, como sempre. Via, exclusivamente, uma
mesmo. Ah ! sim, quc fiz eu ? cliaiura diante de mim, no limrar do ódio e do desespêro
Hâvia iá muitas scmrnas que náo rezavâ que nâo podia como à margem de um duplo abismo, e completamente .iaci-
rezar. Que náo podia 1 QuPm sabe: Esla graça das gra(as Iânte... ó rosto torturaclo I Celtamente, um rosto assim neo
tem cle ier meréeida como qualqüer outra, e êu. com cêr- podia mentlr, não podia fingf uma angústia. Entretanto,
teza. não a merecia mais. ÀfinâI, Deus se havia retirado de outras angústiàs.nunca me emocionaram àquele ponto. Por
mim; disso, ao menos, est{ru ccrto. Desde aquêle momento que será que, ldgo osta, me pareceu um desaiiõ intolerá-
iá não valta nâda; e guald.i Dâra mim 5ó éste segrédo. Mais vel ? Â lembmnça de minha poble meninice está perto de-
âinda: o silêncio guárdado .onrlitui uma glória pâra mim: mais; eu o sinto. Eu também conheci, em outrâ época, êste
achava-o belo, heióico. É celto que tentei estar com o vi-
recuo de espanto, diante dâ desgraça e da velgonlla do
sfuio de Torcv. O que devia Íazea, porém, era lançar_me. de mundo... Meu Deus ! a rerelàqão da impureza nào passa-
íoethos. aos p"és clo rneu superior, o deão de Blangermont. da de urrta expedência banal, se náo nos revelasse â nós
ter-lhe-ia diio: 'Náo estou mais em condições dê governar rnesmos. Esta hordvel voz, jâmâis ouvida, e que, süblta-
umâ Daróquia: náo tenho ncm prudéncia nem iuizo nem $ente, desperta em nós um longo murmúrio.. ,
bom sinso, nem verdadeira humrlclêde. Ha bem poucos dias Que importa ! Seljâ o caso de agir com reflexão e pru-
ainda, tive o desplante de julgar a V. F-xcia., quâse o des- dência ainda Inaiores. E eu brqndi alguns golpes ao acaso,
Dr.{Itro DE uM PÁnoco DE ÀI-DEIA
132 G4oRoÉs BERNANoS
moral. em certo diâ um iístânte basta devem ter sus-
ârriscândo-mc a ferir, atr'âvcs do animal lProz, a pÍêsa ino_ peitado alguma coisa- dessa possessão do m,ú, - devem te! que-
;;;1;-";;;;;aá^ . um pâdrí'o'snodedÉsre nome n:lo en- rido sutlhair-se a eIâ, a qualquer preço. À solidad€dade no
i;ã ,-;*;'ã coni' co'tunrc, sinlo quê mcl. Êis o que esprní, : Porquê os c|imcs. sejan, os mais
";* "oncri'in.
em consid(
' rocào cs necessidâd's
áo'orrtlnenle âtrozes, üão conscguem revelar muita coisâ sôbre â nâtureza
íâmlliais. suciais, nênl os .omproml' 'os. 1egi1'lmos sem ou-
"ã,i-ioríãi do mal, como as sublimes açóes dos santos pouco rel,elâm
vida- oue dê lai.j nec. sildadcs §, r'r'lginarn AnâtquÉLa so- sôbre o esplendo! de Deus. Quando, o seminário úlâior, co-
o sr. Deáo do Blansc"monl tinha razão
"''';Êà6o""iul
irÀià"-i.
à; p;.;;; u- t"-1'o cÃorme à janela a despêilo n]eçamos o estudo dc liíros que um jornâlista maçom do sé-
lürr'' culo passado Lóo Taxil, pênso tinha pósLo à disposi-
ao iiio. ú iunao ao 1utc o como uma gâse luminosâ:
cáo do público - soU o lil,ul'o] ali.is -cnganoso, dê 'Livroi sê-
à-áolau" qr" o movim('nto do cr 3 desmancha em longo§
ctetos dos conÍessores", o que primeiro nos surprcendeu foi
ii.Jouà ioü", obllquamcrrlc per'. o céu e parecem pairar, a exirema pohreza dos meios de que o homem dispõe para,
âli. a'uma âll-ura U riiginos,. l!; lro perlo. entrel'anlo lao! náo digo ofender, mas ultraiar a Deus, plagiar miseràvel-
ã"it" ãrã'.i r"io tlu!írr' ,'m crrnr di)s álamos: ónão qlrimeras
mente os demônios,., Porquê Salanaz é um mostre extrema-
'- l.láa* cont,ó""-o\ r,'âlmanle oêste mundo; eslamoi
menle cruel: não e éic quom iria ordenar. como o Outro,
no mundo, ro- com sua divlnâ simplicidade: imitâi.me ! Não tolem que suâs
À minna esquerala, viâ uma glande mâssa obsculâ o vítimas se parcçalr} com"êIe; só lhes permite uma caiicatura
a"aaã àc-uma rüróole c quc. poicontraste tinhc brilho
grosseira, abjeta, impotente, da quâl deverá desfrutar, sem
ià-'lÃ^-i"ãÀ, a" basali.o, imx aensiclade mineral Ê o ponlo nunca se sâciar, a feroz imnia do abismo.
ii"i. ái"rrãã aã-r';ique. um bosque plâ,tado de olmos lendo
iiài. ri. àiüo,i üti"', crrormo' !:nhiiros que as tempestades Em uma pâlavla, o mundo do mâI está tão fora do al-
áô oeste mulil3m, a |a'la outono O câslelo esta do ouÍro cânce de nosso espírito ! Aliás, nem sempre consigo imaginá-
iuiíã"
_--- pr.". al,L.rr' .lc coste" para l'odosnadx nÓs . lo como um mundo. um universo. Êle é, sera sempre. apenas.
"ã'ià.
rt-^à i oot il.is qu" ta"e nào me lembro cc destâ um esbôço, o esbôço de uma criação disfolme, abortada, no
que
aorrrãü, ,ril- um: tiase pieci.a. . -Di) ncste diálio ccatou
-5e-ia o meu. es- extremo limite do ser. Penso nestas cavidades Ílácidas e
linha'
i;i"" orr-u_r"aunli_ru, om aÍgum3sesta \driâ contudo um fato translúcidas do mar. Que importa ao mo stro um criminoso
irl?ãüi,"^ r". ú'.1" mcm;ria a mâis ou a menos? Desde o pdmeiro instante, devora seu cd-
*li ri"'"tl*ã,i^, ãJ p-sso qr,o. orci'r'a ';â menlt ' ,,e e impossi- me, incorpora-o à sua abominável substância, digere-o, sem
algum lropêqo'
,ãi Ãrã"rr"iut dez patevr'. s sem eat.rnio. cxprimra. pare'e-me sair, um momento, de sua terrível e tema imobilldade. Mas o
;;" ";;i;; abunâ,ncia. E, rlo êca'o,
que
historiador, o moralistâ, o própdo filósofo só querem ver o
#tá;r; vez, sem precauiócs. sÊm rode:os
- temo c minoso: refazem o mal, à imagem e semelhançâ do ho-
i;; il;;rl""" tambem'- ê'ra s(ntimenLo muilo vilo ímàs mem. Não têm idéia âlguma sôbre o mat em si, essa enorme
i.# à é qu"'e uma visào, aquilo nada linha aspiração do vazio, do nada. Porque se nossâ espécie deve
"*'."n1i-"ri",
;;"Á.i;;to). a imasem, cntim que lcço do mal do seu perecer, perecerá de repugnância, de tódio. À pessoa humâna
nois- habilualmcnle, cLl me e"Íorço por alaslar seme' terá sido !oÍdâ, lentamente, como uma trave, por êsses co-
"napr:
irrãi" i*ir, elà me oll:êssions dcmâis. ela suicidiosmc lorca a com_ gumelos invisíveis, que, em algumâs semenas, transÍormam
ccrtos sim'
"ilàrá.i -"it"smâjs dó que nós ros atrevemos c supor'
"ái,uimuito
inexplicaclas. um pedaço de carvâlho em uma mâtéria esponjosâ onde se
íl"iias:rtmcs. pode enflâ! o dedo, sem esÍôrço. E o moralista discuttâ pâi-
ipirJit"í"ãi" úoit.rentes a iôda religião, ou mesmo â tôda
L34 GEoRGls BERNÁNo§
i Dúlro DE uM p,ftroco DE ALDETA 1g5
xões. o homêm dê Eslado hulljpticarâ guârdas
e Íuncioná_
:,-oj: 9..99u:,udo" redigirá programas . [u.t"r_"*ào i"""ôírã.
para,rrabârrlar. em váo, sóbre uma ma"§a;a
-. _ ..] ":,..
ie"_àÀiãl
Ixrr exen]pro, essas gu.t.ras g, ner-âlizadas
"em quÊ pa_ *i,11ii-irn1l,*".i]l;,il[ij:r'HnTTsi"ilãr?i:
recem oÉnotar uma atividadê Dro.liÍ,i.
sem réra. Fiquei
,o *.io.,.,Jo'i"iii;;;'"i!';:,i.- 3;; :;"iiJ""H;f
-"*r por levar ao matadout,.). rlê
á(uual,ao lil::
intervalo a intervato, "."*áá1" #,"",13:iii."J3'l1,"ii*ún
lmensos rebânhos resienâdos )
-,. Dizem
eT
que.ao cabõ dc milhrres ctê séculos.
â teua ainda 5**,p.l m,çi, *1.-iíi::1#i:;
'::l,l'"'
il;,I ü;
::1?
p1êna juventudc. como nôc primeúos;siáeio;;;';;; Minh5s írô.". .i. ^:,^;::-
cvoruçao planetál.ia. O tnâ1, ixmbim,
çando. . . ".tá ap;;;; ;;;; frurar',
["j;;":i:I".-;!i,,i;"ã'f i."-r8ài'T.illl;X,::il.,:;à::"11;
gêlllendo. como rrm nhihor ê: l
Meu Deus, presxmi ox38.r'adcmênte de tvtas sã0"ã'mi.,i'"'i l* "T"'i1:,i"-?I"
b' tÂ14 uttimasabe o que sorro'
b -
.Eir agora, me prccipitx\tcs no desesDér,
hirüas Íôrçât : mnrsài.-iãi;;"';;;., "' lrasc' escrita à
u
aguâ um anirirerzri,ü;;;; ;;";;';.§:*?1"'qJ:,1lXl*

E"lg p".,".". quc nào âcaba }najs. Lá Íora


.^-^
rera e úao crlm3, l:,o lrrtrc, que oueo. distintamente,â aatmos_
-.911!
cãú
quarto dc hor.e. o glaha" r.ciógio aà tgrela
de l.lo.ioivài-ã
IIe§.qurlôm^lro§ dnqui. Oll : s;m auvlãa"um tro;;;;;;; ;;;:J*fiths."li::,;i"{"Í',F,TqT:"",lril,Ti,;"""?itli:
sorririâ,dê rninha rnêtislic, mxs pode alguém
pressentimento ? aornlnui uii
I
^_- _,C:To
cnamet i, . .
fui dcjxcr quc elâ paíisse ? por que nào a f,**:ffi i"iff ;,,},,#ii,fttnlÍ-;,-nl,*
.-.- O porLeiro
oruscâmpnle.
tardou ,Jguns jrulânLes. e êu tne lêrhbrei.
com írrlor.,ãe oro u
pago- um mês anlês.
eue dizFr'? i"ia "onaa..r-ià -..,iiíi.l
portc eniiorü"rla.,riã
_ Á catta está ali, sôbre a mesa. Eu a retirara, distral_
damenre.,de meu. bôtso. .iunto de um maqo a.
incom pr ên.íl êl : nào pe n s o ua'fapàis.-Éár'-
mà i,
f-!l-t_._ allas. lazer um grrnde eslórço àe vontaOe, ác n i s s à.
j,-reclso."l1,Unn"o.

13,",-p31",3_ll,^i
a ênconr, cr no rundo de mim
(orsa oo tmpulso jffesjsti!r I que me úü;à;
ãie"n_
lli;À*,*l;#l $k$t,"ili,,:ffi ::*
mardâdê. euêria. tatvez.:jgnilicar: :.poOr" -iupãr,f .,i-""_
patavras que ppnso esrLl*r c:nda: ,.Dé:me
Iêz pronunciar.aquàlcs rii
-l:::eij:1nu:c1199 . reatm.n rc 1 E o que persunto ,
";;t;i_tÊ
de mjm
$,l"iiTii"lro" o podcrá Àudar..: isso. ou qualquer cóisa
pdld tttútL. ti possrvel que. aiucinada pelo médo. pelo re_ ,,'#l:l"Bà.t|#_#'Xfif
" "}ã:i.?i
::fli" T#,à $*.::?
GEORGES BEBNÀNO§' DIÁ!Io DE UM P,{ioco DE ÀI,DIIA

clndêssa empullou-a para perto de mim. Ivlinha fra.qu€za Deus lhe tivesse dado nâda mâis que o conhecimento bas-
me envergonha. tante parâ se colocar, por si mesmo, ao â1câDce ala senhota,
Venho falar-lhe de suâ Íilha, disse-lhe. quando dêle precisâsse, seria mais ou menos o que sou para
-Houve um i[stante de silêncio. Com certeza, erire tô_ todos, o que desejâÍia sêr.
das as criaturas, sôbre as quais vcla, dia e noite, a Prov! E]â soniu; mâs o seu rosto exprimia, com cêrteza, qual-
dência Divinâ, eu eta, naquele momento, uma das mai§ quer coisa que não era alegda nem ironia. Eu estâva, âliás,
abandonadas, das mais miseráveis. Mas todo amor-próprio bastante surpreendido com minhâ câIma. Seria â contraali-
estava como morto em mim, À condôssa patou de soEir. çáo entre minha atitude e a humildade de minhas palâwâs
Eu o estou escutando, dissc ela; fale sem mêdo; creio o que a intrigavâ, a incomodâva?,.. Olhou-me, várias vê-
saber- muito mais que o senhor sôbrc essâ pobre criançâ. zes, dissimuladament€, suspirando.
respondi, só Nosso Sênhor coDhece o segrê_ Que quer dizer de minha Jilhâ ?
- Senhom,
do das almas, só ÊIe. os mais clarividentes se enganam. - Vi-a ontem na igreja.
o senho! ? (Ela fingia atiçar o fogo, com uma - Na igreja
- Etôda
atenção especial.) O senhor se coloca entre os clâri dâs -
? Isso me surpleende. As filhas rêvolta-
contra seus pais não têm nada que fazer na igreja.
videntes ? A igrejâ é para todos, minha senhora.
Talvez tenhâ qucrido magoâ!-me. Mas, naquele instan_ -Olhou-me de novo, mâst desta vez, de frcnte. Os olhos
te, estâva completamcnte incâpaz de senii, qualquer ofensa. pareciam solljr âinda. enouânto que a parte inÍerior do
O que prevalece semplc em mim, de ordinário, é o senti- rosto indicava surprésa. desconíjaneâ. uma iner?limive'l
mento de nossa impolônciâ, de todos nós, pobres sêres, de obstinaçâo,
nossa cegueira invcncívcl; e êsse sentimento era, então, O senhor se deixa engânâr por uma pêssoazinha in-
mais forte que nunca, cta como uma prensa que me âper_ -
trigânte.
tavê o coração. Não a precipite no desespêro, disse,lhe; Deus lho
sentrora, disselhe, por mâis âIto qtre a ri- -
prcibê.
queza- ouMinl-ta
o nascimento nos tenhâm colocâdo, somos sempre Recolhi-me üm pouco. Os tições crepitâvam nâ châmi
§ervos de âlguém. Eu sou o servo de todos. E ainda: servo né. Pelâ jâne1a aber'tâ, aíravós das codinas de rendâ, via-se
é uma palavla nobre demais pâIa um pobre e insignificrrr ' o imenso tapête de relva fechado pela muralhâ escura dos
padre como eu; develei drzer: sou a coisa de todos; menos pinleiros, sob um céu tâcitur[o. Era como um tânque de
ainda, se Íôr da vontâde de Deus. águâ estagnadâ. As pâlavrâs que âcabara de pronunciar
Pode-se ser menos que urnâ coisâ ? me enchiam de pasmo. Estai'am táo longe do meu pensa-
- Há coisas que são escór-ia, que se jogam Iora, por- mento, um quarto de hola antes ! E bem compreendia,
que -parâ nada sêtvem. E se, por exemplo, meus §uperiores ago!â, que erâm palalTa§ ireparáveis, que devia continuâr
tne reconhece§sem incapaz dc desempenhar a moCesta ta- alé o Íim. A pessoâ. quê. tinlE dianle dos olhos, lrmbém
reíâ que me conÍiâmm, eu seda uma escóriâ. nao era a mesma quê antes lmâgtnâra,
prosseguiu * náo duvido que suas
Com tal opinião sôbre o senhor mesmo, penso que
seriâ- imprudente pretender. .. - Sr-sejam
intenções
Vigário
boas,- excelentes mesmo. Desde que o senhor
pletendo coisa alguma, lespondi. Êste atiçador rêconhece voluntàriamente sua inexpedência, não insisii-
- Não
de Íogo não passa de um instruhento em suas mãos. Se rei nela. A1ém disso, há certas circunstâncias nas quais
-
138 GÉORGE§ BERNAITOS Dr,4aro DE uM F.4ioco DE ÁlDÉrA 139

expedmentado ou não, um homem úunca há de com- Eu o conheÇo. O senhor é um padrc í1oço e boü,
- mulheres
preender nada. Á.penas as sabem encará-las Íosto sem -vaidade. scm ambi(ão; nào gosta cprtâmente dc intrjga.
a rosto. Os homens só âcleditam nas aparências. É há cer- Por isso creio quê o senhor es?á apenâs rocilando uma liçáo.
tas desordens. . . Esra msneira de Íalar... Es[a Áegurança dê exprêssào...
Palavrâ de honra, crcio que estou sonhando ! Vàmos, seja
- Tódas ss desordens proc.dem do ffesmo pai, o pai
da mentirâ- Í,ranco. O senhor acha que nào sou boa máe, que sou má-
drasta ?
- Há desordêm e desordem...
me pemito jutgá-ta.
Sem dúvida, respondi, mas sabemos que há uma só
- a da caridade.
oldem, -* Não
E então ?
Pôs-se â lir, um riso crucl, râncoroso. Também náo me permito jutgar â Srtâ. Chantal.
Mas-lenho a cxpêriôn.ia do sofrimenl,o: sei o que e jsso.
- Certahente
Penso
não cspcrava... começou.
que leu nos mcus olhos a suryrêsa, a piedade; do-
hinou-se logo. - AEmidâdê
sua idade ?
nrda tFm quê ver no caso. Também sei que
sabl- o s.nlror ? Quê lhe contou minha litha ?
- Quejulgam-so -
o_solrimento Lem sua lingúagem: q.le nâo se deve tomar'ao
As joveDs semple intetizps, incom prepndidas, E pe da lelra suas palâlras. condená-lo, por suâs palavras. O
sempte §e encontrâm ingênuos que acreditam nela§. . . sofrimento blaslerna de tudo: da soci;dade, da'Iamilia, da
Olhei-a bem de lrente. Como tive a audácia de Íalar pátria, do próprio Deus.
a§sim ?
- OÂ senhor
senhora não ama sua filha, disse-lhe. - E será que o senhor aprova lsso ?
Não_aprovoi procuto compreendêr. O pâdre
sc atrevc ?.,,
- Minhâ scnholâ, , - o médico: náorlenas
é coÍno d"vn lêr mêdo dasihagas. do püs. da
Dcus é testemunha de que vim âqui, sânie. Tôdas as chagas da â1ma supuram, riiúa sàtróra.
estâ-manhá, com o d,rcjo de sertir â todos. E fui múilo
lolo Êm não mê lcr prrl,J-ido, dp ântem;o, Foi a senhora Empalideceu bruscamente e fêz menção de levantar-se.
meslna quem me diíou estas palavras, e Iamento tê-la ofen- * Eis por que não retive na memória as palâvras de
dido - srta filha; aliás, não tinha o direito de Íazê-lo. Um padle só
* Será que o senhor tem o poder de ler em meu co- dá âtenção ao solfimcnto se ête é verdadeiro. euô impor-
raçáo ? tam as palâvras que o cxprjmem ? E embora Íóss'em ouiras
que sim, tcspondi. tantas menti!:as- . .
-TlveCreio a paciência, de que se pu-
mêdo de que perdesse Sim, a meniirâ c a verdâde no mesmo plano: bela
sesseâ me injuriâr. Seus olhos cinzêntos, de ordinário ião moÍal- !
doces, pareciam obscureccr'-§e. AÍinal, baixou a cabeça e, Náo sou um professo! de moral, disselhe.
com a ponta do atiqador, começou a desenhar círculos na - condêssa
 perdiâ vi\.velmente a paciência, e eu cspe-
ct!\20". râva, a cadâ instânte, que me convidâsse para sair. Gosia-
dissê delicâdamente, que seus superiores ju1- ria de fazê-Io, certamente, mâs, cada vez que lançava os
- Sabe,
gariam o seu procedimento com tôda a seveÍidade ? olhos sôble o meu triste semblante (êu o via no espelho, e
Meus superiores podem desautorizar-me, se quise- o reflexo verde dos gramados torrava-o âinda mais ridi-
rem;-têm o dteito de fazê-to. culo, mais pálido), movia impercepiivêlmente o queixo, como
140 GEORdES BENNANOS DIÂXIO DI UM ?ARÔCO DN ÀLÍ]EIA 141

se quises§e recupelar â fôrçâ e a vontâde de convencer_ae, que mal a reconhecia: torrlara-§e âguda, arastâva as últi-
de dizer a última palâvl.a. nlas síIabas. Cr'eio que percebia tudo isso, e so{ria teúivel-
: Minhâ Íilha está-, simplcsmcnte, po§suída de ciúmes mente por não poder doüillar-se. Não sâbiâ que uênsâr de
contrâ â preceptora; deve ter contâdo ao seühor coisas hor_ semelhante frâquczâ cm urnâ senhorâ, dc ordinário táo
riveis. dona de si mesma. Também minha audáciâ em inexplicá-
Penso que elâ têm, principâ1mcnte, ciúmes da arni- vel: provàveimcnte, peldi s câbeça, precipitei-me pâra dian-
zade-de seu pai. te, à maneira de um tímido que, pam estar segulo de cum-
Com ciúmes do pâi ? E cu cntão, que devo fazer ? prir seu dever até o fim, renuncia a todo recuo, empenha-se
- Tranqüilizá-lâ, sossegá-la. todo inteiro. Mas, e ela? §er-lhe-iâ tão fácil desconcertar-
- sim, eu deveria lançar-me a seus pés, pedidhê -mel Bast)aria, ta-lvez, um certo modo de sordr...
-
perdão!...
* Âo menos, não deixá-lâ afastar-se da senholâ, de I\4eu Deus ! será que tudo isso vem da desordem de mêu
pensâmento, do meu colâqão ? Será contagiosâ â angústia
suâ casâ, com o desespêro no corâçáo. que sofro ? De algum temlro pâra cá, tenho :L impressão de
Ela partirá, sejâ como íôr.
- Pods obrigála â isso. Nosso senhor a iulgarâ. que basta minhà presenÇâ, pârâ que o pecado saia do seu
-Levantei-me. Lcvântou-se ao mesmo tempo que eu, e antro, suba à superficic do ser, aos olhos, à bôcâ, à voz...
pude ler nos seus olhos umâ espécie de teuor. Parecia ter Dir-se-ia que o inimigo desdenhâ de Íicar escondido diante
mêdo de que cu a dcixassc c, ao mesmo tempo, lutâva con- de adversário tão mesquinho; vem desâfiar.-me de frente,
trâ o desejo de dizer tudo, dê se dcsabafar do seu pobte se- rindo-se de mim.
grêdo. Não pôde mâis dominar'se. Escapou-lhe o segrêdo, Ticamos de pi:, um âo lado do outro. Lembro-me de
como se tinha escapado o da outrâ, de sua filha. que a chuva açoitavâ as janelâs. Lembro-me também de
o senhor não sabc o que tenlú sofuido. O §enhor que o velho Clóvis, que tinha acabado o trabalho, liDpava
nâda- conhece da vidâ. Âos cinco anos, minha fiihâ iá crâ as máos no seu al.ental azul. Ouvia-se, do outro lado do ves-
o que é hoje. "Tudo, e tüc1o âgora nesmo", ei§ sua divisa. tibulo, ur! ruído de vàsos que se chocâm, um remexer de
Oh I os senhores fazcm da famílla, cs senhores pâdres, t:1111â vasilhâs. Tudo estavâ trânqiii]o, fácil, famitiar.
idéia ingênua, absurda. Bastâ ouvi los falâr (du-se) nas ce- vIl,ima ! prosseguiu â condêssa. Um ani-
rimônias Íúnebrcs: familia unldâ, pai respeitado, mãe in- - Singular
malzinho de préia: isso.im c que ela é.
comparável, espetáculo corsoledor, célu1a sociâI, nos§â que- Seus olhos me observavam, furtivamente. Nada tinhâ a
rida trYança, e tatatá, tetcté... O estrânho não é que os sê- reslrondel; calei-me. Meu silêncio par_eceu exasperá-1â.
nhores digam iais coisas, ó que pênsem comover os o'dtros, * Náo sei por quc the coàfio êstes segredos de minha
é que âs pronunciem com prazer. Â famiiia, senhor vi- vida. Não importa i De qui.lquer jeiio, não qu,ero meníir !
gário . . . É certo que eu desejava, àpeixonadamente, ter um Íilho. I
Deteve.se inopinadámente, táo inopinadâmente, gue Tive-o. Viveu apenas dezoito meses. E sua irmã já o odiavâ...
pareceu ter engolido as palavrâs, literalmente cng'olldo. I
Sim, apesd de tão pequenâ oaliava-o. Quanto a seu pai...
Como ! Era a mesma senhola tão reservada, tão clelicada, Teve de tornar Jôlego, antes de continuâr. Seus olhos
que, na minha primeira visiía ao castelo, vim encolhida no estavâm fixos, suas mãos llendentes esboçavam o gesio de
t
Jundo de sua enorme pclt]onâ, rosto pensativo, sob sua mân- agâr1?r-se, de escoral-se a alguma coisa invisível, Parecia \
tilhâ preta ?... Á própria voz tinha mudado de tal maneira, escoüegar pol um plâno inclinado.
l
742 GÉOBGES BERNÀIÍOS DrÁnro DE uM pÁnoco DE ÁrDEri 14.:]

. - oNopequono
último dia. sâiram junbos os dois: quando vol- cidade de jutgar é tão segum, muitas vêzes Jefina, não com-
taram. eslala morto. Dcsdc .ntáo. n;o se sepa- preendeu que... Nâda compreeDdeu. Al,e o dia em que...
raram mais. E como erâ h,ábil, a pequena I Esta pâlavr-a Nole bem. Sr. Padrê. quê. dúante tód3 a minha vida. Àupor-
lhe parece estranha, natumlnente. O senlor penia que Lei inlidelidâdes scm {úmoro. iâo grosseims. tào pueris. que
uma l/lenina espera a maioridade pâIa set mulúer, nãó é nao me lazlam o menot.mal. entrc clâ c eu, nio sou
isso ? Os padres são uns ingênuos ! euândo o gatinho brinca eu, certamente. a majs engânada !...
^liás.
com a bolinha de Iâ. ignoro se ponsa noi Tâl,os, mas laz êxa- Câlou-se de Dovo. Crcio que pus $aquinalmenl.e a mào
tamente o que é prêciso lazôI.. Diz, m que um homem pre- sÓbre seu braço. Eslava abismâdo de espanio, de pena,
cisa de ternurâ: sêja ! Mas do um:[ êspécie de ternurâ, ima minhâ senhom. Não quereria que se
so
- nada ffais que uma daquel- que convém à sua na_ - Compreendo,
auependesse, um dia, dc ter dito ao pobre homem que sou,
turezâ. - nr".ieu.
daquela parâ a qurl À sinceridâdê... que palavrâs que só um padre deveria escutâr.
importa?... Náo é ver.alâdc que nós, as máes, alamos áos Lançou-úe um olhar alucinado.
nossos filho§ o gôsio dâ mentira, das mentiras que, de§de o Irei até o fim, disse com voz sibilânt€. O senhor as-
berço, acalmâm, tmnqúitizâm, adoimentam; mentiras doces siln -o quis.
e ternas como um seio ? Em uma pâlavra. depressa comprê- não lui eu quem o quis.
endi-que minhâ tjlhinia ert a vcráacieira donã da casc.'que - Não.
O senhor não devia ter vindo. Depois, sabe muito
mê devia resign ao papol dc sacfiJicada, resignar-me a ier bem-ârrancar confidências; o senhor é um astuto padrezi-
apenas e§pectadora ou criada. Eu que vivia da saudâde do nho. Vamos I termincmo.l Que the disse ChanLat? Tlal,c
meu Íilho. enconlrdndo-o por tódâ a parle em sua caalei- de responder, com Iranqueza.
rinha, em suâs roupinhâ.. num brinquedo-quebmdo; o mi- Batia com o pé no chão, comô sua filha. Conservaya-
sé a ! Que diz€r ? Uma mulher como eu não se rebaixa a -se de busto €rguido, rnas com um braço apoiado sôbre a
certas rivalidades infamcn{.s. D, pois. minha desgraça nào lábuâ-da chÂmiÍIé e a mio criõp.da em tôTno cle um leque
lirüLa remedio. As piorus des3r'açis de tamilia tú sempre que ali estava. enlre alguns brbetots"; e eu via o eabo de
qua.lquer coisa de )idiculo. Enlm, Iui vivcndo. Vivendo ên- madrepércla quebrar-se, pouco a pouco, eníre seus dedos,
tre êsses dois sêÍes, tão exatameníe feitos uIn para o outro, Chantal não püde suportar a preceplora; nunca su-
apesar de completâmcnte diversos, e cujâ solicitude para poÉou - ninguém nesta câsa !
comigo
- sempre
censurar-me
cúmplicê exâsperava-me. Sirn, pode
- digo
se quisel, mas eu que ela me rasgava o
Ca.lei-mê,
pois ! Elâ terá contado âo senhor que
coraçáo, inJiltrava nêle milhârcs de venenos; preJerúia que - Responda,
seu pai... Oh! não negue, lelo a verdade em seus olhos.
me odiasse. Eottetanto, Jui resisiindo, sofrendo calaala. Na- E o senhor acreditou ? Uma úise!ável mocinha que se
quele tempo, eu era moça, bonita. Quando a gente está se- aircve...
gura de agradar aos outros, segura de que pode ser amadâ, Nâo pôde concluir. Creio que meu silêncio, meu olhâr,
a virtude não é dilícü, ao menos para as Inulheres de mi- ou quâIquer coisa que irradiava de mim cefta tristeza
Iúa espécie. Basta o orgulho para manter-nos de pé. Não a lâ,zia parar, antes de levântar o tom de- voz e, a caala mo-
-
Íaltei ao cumprimento de nenhum dos llleus deveres. por mento, ttnia de rêtomar. apesar. de trêmula dc despeiLo,
vêzes, sentia-me até leliz. Meu marido não é um homem su- sua voz habitual, apenas mais rouca, penso que aquela ini
perior; longe disso... Por que mitagre ChaÍrtat, cuja capa- capacidade, que antes a irdtara, .acâbou por enchê-lã de in-
744 GEOECDS BEÊNÁNOS DLÁnIí' DE ÜM PÁEoco DE ÀLDEIÀ 145

quietação- Ao desâpertar os dedos, o leque quebrâalo aleslizou Onde foi que o senho! aprendêu isso ? Leu por aí,
de suâ mão. e ela. nêrvosamenle, empurrou
_ os pedaços para coln -certeza. Isso está acima de sua expedência. O senhor
debaixo do relógio, enrubescendo. tem mêdo dâ morte, tem ?
-MâsEÍâltei-mê, começou. ..
a Íingida doçura do seu lomt de voz soavâ íorte de- - Sim,
camente.
minhâ senhom. Mâs permita que lhe fale Ímn-
À morte é um transe muito difícil, nâo é feita para
mais. Pârecia unt trabdlhsdor do.-.ôriJdo que. pxperimen- os orgulhosos.
tando suas f.r"amentâs. umx arrus ôulra, sern cncàntrcr a Perdi a paciênciâ e acrescentei:
que procura, lança-as râivosomcnte para ttás. Tenho menos mêdo da minha morte, quê da sua,
Enfim, é o senhor quem deve falâr. eue Veio fazer minha- senhom.
aqui -? Que que! ? Não posso explicar; mâs é verdade que, naquele mo-
Srta. Chantâl íalo11-me de sua próximâ partida.
- ÁPróyimâ. mento, eu â via, ou supurüa vê{a molta. E, sem dúvidâ., ê
imagem, que se fomava em meus olhos, dêve ter-se refleti-
- aliás, hamutto
decidida,
próxrn a, cont eteito. A coisa esl,á
baslant. l,mpo. Ela mentiu ao senhor. do no seu, pojs deu um $ito abafado, uma espécie de ge-
Com q_ue diroito o sonhol foclei:â opor-se a... continuou mido animal. tr'oi até à ianela.
ela, esrorçando-se por r.ir.. Meu mârido pode pôr denüo de casa quem quiser,
- Não tcnho ncnhum direito: quêria apenâs conhecêr Alóm- disso. a preceplora não trm recursosi nào iremos jo-
suas jnlcnçôes. E sc a decisáo é irr;vogávet'... gá{a na rua para satisfâzer os Íâncores de uma insolente!
Mâis uma vez, não pôde continuar no mesrlo tom; bai-
- É, Náoconsid,.tJr
zoàvelmcnle.
xcho qun umâ moça como Chântal Ircssâ. ra-
a e.tadá de alguns mesei na ln- xou a voz.
possível que meu maúdo se tenha rnostrâdo exces-
glalerra. em .asJ dr' uma i-mtlia amiga. i"omo prova su-
pedor a suâs lôrças. - É gentil... excessivamente familiar, pâm com a
sivâmente
Por isso, qucriâ .nt.ndcr-me com a senhor'l, pcla preceptora. Os homens de sua idade costumam ser sentl-
rlr obter- de su, rillra quc ^o Icsigne. quê ooêdeça. mêníais... ou pensam que o sáo.
? Sclia preciso ânt€s matá-la I Deteve-se de novo.
- Obedecer tudo isso ]l]e é indiferentê I Qual ! Tenho
ii
il . -^
Temo. com aicilo. que ch,gue o prsticâr um abo de - Ehácomo
sofrido, tantos anos, tudo quanto é humilhação, as mais
oesespelo.
'i
âto de dôscspêro... Como o senhor fâla bem! ddículas (êIe me enganou com tôdâs as cdadas, qiatura§
insigrificant€s, verdadeiras escórias); náo há de ser âgora,
,l
Quer-Um
certamente insinuar que eia se matará. Mâs ó a úIti- quando náo passo de uma veiha, que irei plotestar, abrf os
ma coisa de que será capaz I Perde a cabeça com qualquer olhos, luta.r, afroníar perigos; e por quê ? Será que devo Íazer
doençazinha; tem um mêdo houível de molÍer. Só nisto se mais caso do orgulho de minha filha, que do meu ? O que
pârece com o pai.
sofri, náo pode elâ, a seu turno, sofrer ?
Senhora, disse, são pessoas dessa espéeie que se
.- Pronunciou esta terflvel frâse, sem elevar o timbre de
voz. De pé, no váo da imen§â janela, unr, bruço pendentê ao
- Então ?
O vácuo Íâscina os qup náo se âlrevem â othá-Io de
longo do coryo, o outro levaniado âcima dâ cab€ça, en_
quanto a máo amarrotava a codina, lânçava-me aquelas pa-
it - o próprio terror de cair Íaz com que se arrojem nêle.
Jrenle; Iavras, como quem cospe um veneno conoslvo, Àtmvés dos
146 CEORGES BERNÁNOS
DrÁnro DE uM PÁRoco DE ÁLDErÀ 141

vidros molhâdos pela chuva, via o parque tão nobre, táo


tranqúilo, as curvas majejlosas do tápéte da relva, as vethas pcndurar os nossos à janelâ ? Engânadâ tantas vêzes, eu
árvoros solenês... Cerlamente. oquctã mulher só Dodia ins_ I)odeda ser uma espôsa infiel. Nada tcnho, em meu passa_
prrar-m-c prna. Introlânto, apesrl de mo ser hâbilualmen- (lo, de quc possa envelgoDhar-me.
sejam as faltas quc deixam em nós a hu_
É rao. tac-Í aceitar a lalba do pt.o\imo. comparlilhar de sua
humjlhação, o contrasle entrê ês\a c€Lsa apiâzÍvel e os seus
- Benditas
mithaÇão ! Oxatá quisesse Deüs que a scnhora se desplezasse
srgredos revolLava-me. Sim, ali se revelava menos â loucurá a si mesma !
molal.
qg".lgT"ls que sua obstinaçáo. sr:a maliciâ, a coopera(ào
olssrmulada que. sob o olhar dp Dcus. prestâm a tôdos
- Engraçada
Não é a moral do mundo, com efeito. Que importam
podercs da confusão e da morte. Teiràei ;idi ;l;r; os - o prestigio, a dignidade, a ciência, se tudo não passa
a Deus
rância, a doenQa, a misória devorâm miffrares àó inocen%i; de um sudário de sêda sôbre utn oadáver âpodlecido ?
entáo que o senhor pleferiria o escândâIo ?
e.-quândo a.protidência, por mitàgre, proporciona um asilá
onde possa uorÊscer a paz, !é,n ai paixôis esconCer.se ali: - será
E a s€nhor'â pensa que os pobres são cegos e sur-
âll se tnsialam. e põêm se a uivar d.á ê noite, cotno teras.,. dos ?- Oh ! a misória é cla]-ii.idente até demais ! Não há pior
cledulidade, minha seühora, que â dos bem nutrldo§. oh !
- Minha senhota,
com
disselhe, tome cuidaalo !
qucm, com quêi Com o senhor. tâl- a senhorâ pode esconder dos pobres os vÍcios de sua câsa;
Ir vez't--Nao
-Cuidado
dramalizemos as (oisas, O que o senhor acâba de êles os reconhecem de longe pelo cheiro, Enchem nos os
ouvir ainda não tinha revelado a nin§uém. ouvidos com a abominação dos pagáos; mas êIes, pelo me-
.- Nem mesmo a seu confessor ? nos, exigiam dos escr'avos uma submissão igual à dos ani-
ll mais domésticos e, umâ vcz ao ano, nâ Iesta dos sâturnâis,
. -.IIeu conlessor
oe scntimentoi
nadd lem que rer com isõo. Tratil-se
que não posso dominar. Aliás. nunca insni_
os escravos tinhâm a liber-dade de sorrir. Ao passo que os
ii seqhores, abusando da pala\rya divina que ensinâ ao pobre
raram fteu modo de pÍocedcr. Esta câsa. Sr.. Vigar o, e dm
Iar cristâo. a obediência de cor'ação, pretendem subtrair astutamente o
que deveriâm recebel de joelhos, como um dom celeste: a
rl Cristão e exclâmei. obediênca do pobre. Não há pior desordem neste mundo que
-A palavra fe u-me de cheio, no coração, queimava-me. a hipocdsia dos podcrosos.
tl
__- É verd.ade. minha s, nhor., a senhora reeebe aoui o Poderosos ? Posso citar ao senho! dez Íazendetos
ll Crisúo: mâs como o lra{a: J, sus esléie r".rr"* ná-"ãlu_ai mais- ricos quc nos. No.. mru pobro tj8ário, somos insigni-
CaiJás. Íicântes.
? O senhor está iouco ? Não censuro a meu
I' - Caifás
marido nem a minhd tjtha por nào -e co-p.""nd"""-l Todos, porém. os considerar4 Emos e senhores. O
- Iunatamonlo clo pocier é a ilusáo dos misel'áveis.
Cerioç mal-entendidos sao irr.nâráveis. À genle se resigna único
a êles. Fraseologia pura. Os miseráveis não se preocupam
com -os nossos negócios de família !
I
I
senhora. a gentF se re.ign, a nào nais
I
I - u!T.ryiry,,
arnar. demõn:o lode plolanar Ludo. até t resjgnaçio dos - O' minhâ-senhorâ, âpenas uma famíliâ existe rêal-
I §antos. mentei a grantle familia humanâ de que Nosso Senhor é o
chefe. E os senhores, os ricos, teriam podido ser' filhos plivi
- Otern
íamilia
senhor raciocinâ como um homem do Dovo, Câdâ
seus segredos. canharíamos ,ieu*l Iegiaalos. Lembl'e-se do Antigo Testâmento: os bens dâ terra
"ói.a'iã erãm, com fueqüênciâ, sinal do favor celeste.
li
ir
148 GEORCES BENNANOS
DrÁnro DE uM !Ánoco DE ÁLDEIA 149

._-.Que p a vidÊ do pobre I Um andâr monótono atrás do


* Í'rascs ! Que sâbe o senhor de mim, com plecisão ?
xrursPFhsàvcl: uma iritenuantê luta cor.tta que â seÍüorâ me disse.
11

"^6,,rqI
a tome, a séd";
cotrdlàno de um venirp Insc.,,rcl, vazio I... Ha- - OA intenção do senhor é pel'tulbar meu espílito; rlão
l
"cra
prrlilegio rnais precioso qur ndsser lrb, r to clê semelhrnle -
o conseguirá. Tenho bastânte bom scnso.
Jugo ? As casas dos senhorea dc vcrjd m ser .a\as de paz, de Calei-me.
ll orâeao. Nunca lhes impressionou a in"i"tência com'que
os
aierram a jngénuà imee, m quc Íormam dos ii"os i Enfim, disse eIâ bâtendo côm o pé no chão, suponho
quê -selemos julgados pelos nossos atos. Qual é a falta que
RTÍêsos
Y.j" ^sesenhores Íalam sompro do inveja dos pobres: nr s
I1o-,pogêm compreender quà nro e c i;qup7x quê rtr.Li coheti ? É verdade que solnos, minhâ filha e eu, como duâs
il o:seJo do pobrê, mas qurtqunr {,o:.,a de inexprimivel que. o pessoâs estrânhâs. Ató âqui não deixamos que percebessem,
às
;:i:::1.s eDcanta a solrdco: um sonho de magniÍicenc,r, Veio a crise. Executo a voDtade do Ineu marido. Se êIe se en-
q!^Éúrüeza. um poor'^ sollio. um gana... Oh! êle crê que sua filha voltará, um dia, a per-
sonl^o poblê,
de mas rben_
f, çoaoo por- Deus- tencerlhe.
da min . íumo rignilicar que che. Houve qualquer mudânçâ em sua fisionomia; mordeu os
^^ o momênto Li, rr Í,r. I n ir,,rd.n1.a
_-Álroximou-se
tsara SÊnti lue minÉâs últt- lábios; mas erâ tarde deftais.
ll l1iâs, Pa-lavras llâviirm lh., ,l: L:o t: l,
-Deustrl !aVirou
Or AoÀinar-se; iàm"n_
r,er Ie-rQs ptonuncic(r,,. Ao rrrô trs.fornq
Benhora também crô ? perguntei.
liêlam-me; ohl náo a câbeca parâ trás e vi eu vi
il
Ij:^I'el:alo do quu di..^. nio: l\1 nhec-patavras loram sim-
presmente humân..: n.,.td mc.:. F<pnincm uma rarte o tempo de um relâmpago, a confissáo - sim, - du-
subir, contra suâ
cruel. muilo prorur.t:'. d. mei coraçào ae men'iià.
ciecepçáo vontade, dâs profundezas de sua alma sem peldão. O olhâÍ,
Ir^u1to
u.êrmr,nênte. outl'os cl,rn rl, n ra. mithóes àe surpreendido em pleno ato de mentir, diziâ : "sim", enquant'o
sére* d. mi_ que o jrresistivel movimento do ser interior lânçava o "náo",
nna de minha r'.p.crr, a cooll.ceráo ainda. Estâ dí]-
fl -classe.
cepçao é heran(a do polrr,, um doc elpmentDs essenriais pela bôca entÍeabertâ.
da Creio que êste "não" a eIâ mesma surpreendeu, mâs náo
llltlia; dúvida u luóp.ia pobleza. Dêus qro, quo ô
ii mlselavel "o. mendiguê â Lr.rrrcle,/r como o mais, ámOorâ eta demonshou o mínimo empenho em rctirá-lo. Os ódios de
llraole de sua pessoa. scm que o perceba, Íâmilia são os mais perigosos de todos; porque, no contacto
il P§8uei meu chapéu qlrê linha pô\lo numa cadeira. contínuo entte as pessoas, i,ãc-se, aos poucos, satisfazendo;
^ sáo como abcessos aber-tos que envenenâm o organismo, lenta-
il 3Y-i"_9-9 a" viu prcstes a s.rr. âllr:nclo a porla, a condÁssa
rev€- u^l}l estrêmêcimento de todo o mente, sem febrc.
sei, uma espécie cle senhora, disse-lhe, â senhom põe para lora
illlj.:; Or" lne
Luue urcompreensivel.
perrlrbou. Lia nos "eu
seus oihos uma'tnquie_ - Minha
de casa a suâ filha, e sâbe que é pâlâ semprc.
I oe
O spnhor é um podre biza.ro, dissê com voz irêmula
-,*lqpâcjencjâ. - Isso depende de1a.
Eu me oporêi d ,emelhanle cojsa,
T de ncl.1ôsidad,. um padre diterente de iodos
gue t4lho conllecido, S{ paremo-nos. ao menos, - o senlor náo a conhece. É orgulhosa demais pam
aInrgos.
como bons
ficar- âqui, por tolerância... Não o suportaria.
i . _- Qomo não seria seu amigo, minha senhora ? Sou seu Perdia a paciência:
] vryalro, §eu past/or. Deus a castigaú, gritei.
-
it
UIú P,(NOCO DE ÀíD!I.4 151
150 êÉO*GXS BERNÁNOS DIÁTIo DE

águiâ Àh ! é que o mais miser_ável dos homens


Elâ soltou uma espécie de gemido; oh, não em um ge- como uma
rrnrla 3 faculclade
mido de vencido que pede perdáo; era antes o suspiro, pro- ',;;; ;;-;".-., nào mcis ámxr, conj'r'râ ,

Íundo suspiro de um ser que recolhc suas fôrçâs, ântes de i" ià,. 'ú"tmo o ódio llode lesplanLlc'ír c brilhar: e o me-
Llc euTo no que cha-
ã".ãnios s" expancti'ir
lançar um desafio. ;i;J;;;,;ãà;. manhã'
Castigâr-me ? Já me castigou. Que pode Êle aincia rn,mos o dcsesDêro, como em uma rumLno"c "-lr"rrnfal
- mim
contE ? Roubou meu filho. Não o temo mais. ôilil;o:;l;Í;:;ilãi:. e a ausên"ia do amor' A auséncia
Deus o alastou da senhora por algum iempo, mas It,,'r"iài, i"ii, oúvidos como uma expressáo familiâr'
- ..
â dureza. lrÍãà -ri, *^rt"'"ã"i"";
signilicl. pdra o homcm vivo rmcr menos'
que nos pdrece
r*,i: a" out., iolma. É sr , s"a iaculdade
- Cale-sê !
 dureza de seu coração pode separá-lo da senhora ",i
,';,;";;*1 ào no..o."., qlrc é c no so próprio s'r
-
com-
pala-sempre. i;;,i;;;.,-io.Lu o' amar -.sã essa tacu-ldadê
ili'ãi.'i"".-a".u
pr."".t qrre seria d' nó'' Nào mai' rmar' nlo
- oNáosenhor está blâsfemando. Deus não se vingâ.
se vinga, é uma expressão humalra; só tem sen-
i, oaÉ.iÀ
l"i]. "à^oreino*, e ionlinucr vivendo: ó prodigio- o.érlo
abandona-
tido -para â senhora. ;;;"#;"ôâ;;;it' Á etribuir a es§ês 'riaturas
nossa perpélua mobili-
Será que meu Íilho poderia odiâr-me ? O filho que ;:'l';;il;;;i;-,i,a" "Éi j,i.r" na'.hácletempo
- no
trouxê meu seio, que mrtri com meu Ieite ? ;;à":;ü;ü, ;à;; '" nuo . oh ! sê Deus ncm movimênro :
 senhora não será odiada por êle, nem o odiârá. L,i""ài".* ii*r.. a.àbicld'! nos colocasse
- â senl1ora e ôle não mais se conhece!ão, um ao ouíro.
Porquê :ff;#"à; ; -"Ããàá ar,"t" disso que não passa de
the Iâ-
;;;':'c;i.a:;. ;a -coisa dolo'osr. que linguagem.
- Cale-se I

não DTc câlalei, minha senhor'â, Os padrcs se tarÍamos, màsmo quP li!ís"e sido. anlês o nosso amrgo trrar§
- Não,
calaram, mais do que deviâm, e eu quisera que fôsse apenas
nosso semelnallre o
earo? ierlamcnlÃ. se um homnm_r,ivo.arroiãdo íal qlal ê'
por piedade. Somos covardcs. Uma vez exposto o princípio, ,'ui,-^ a" r.a". vil enlrÊ o' vis, tô"se
deixamos que os outros íâlern, E que fizeram do inferno, a I'l'ii"'.ii-i*iãiaÀ"i*"ls:'liil3^1".i"",Ti,1',li'ffJS::Xâ
senhor-a e os outros? Uma espócie de prisão perpétua, anáIoga sorte, iria dispuLá-lo â seu vcrdugo'
às que existem no mundo; c aí cncelrâm, antecipadâmente, À .lF\orâí,:I. I lnconccol\''r d''gráca clessas pedras
â caça humana que suas polícias pcrseguem, desde o comêço il;;à;; d;" ;;;;; coisa hom' n' esrá em que é irnpossiver com-
do mundo: os inimigos da so|ieilade. Pâm Iá, também, en- hârtilhâr oualquer com etes'
viam os blasfemos e os saclíleÉps. Que espírito sensato, que "- "ã."."t".l"pi"uuziclo b' m tiêlmenle minhas palavrc'l
coração altivo aceita a, sem repugnância, semelhânte iüa- poo^'."' q,á. rioà.. p."dylu1 ^r,sl:ir'#â["?il"; Há1iii1l
gem da justiça de Deus ? Quândo essa imagem lhcs aborlece, ãerto de que as pronuncicr t'o oesâJ(
é fácil para os senholes âÍaslá-14 da idéia. Julga-se o infelno, rlêvêm ler oare'loo rlulcLll15 M'l pude aLticular
segundo as máxiüâs dêste mundo; e o infemo não é dêste ãiliifii"fr..i;àJ,lliimà . E't'u' q"e dilaccrado' Quêm
"o*o âmâtrolando entre os
mundo. Não é dêste mundo. e menos âindâ do mundo cristão. ;;ii.:;,;;ú; âpoicdo à parêde
Um câstigo etelno, uma expiaçáo eterna a",r.._r"", ch:péu, jün[o dc"a mu]her impe'io'a lomar-me-
possamos pressentir o inferno, mesmo nestê - omundo,
milagre é que
apesal i)iiá.'ii^ "tri,^ot] teniân'ro em rrào iusLirlcar-se (E procre
de que, apenas cometida a ialta, baste um olhar, um sinal, #"ill* ür". rt".*.r À conclê'se' obse*avd me' com extraor-
um mudo apêlo para que o perdão desça do alto dos céus, d.inária atenção.
152 CEORCE§ BEENANOS DrÁilo DD uM PÁnoco DE ÀLDETA

Não há {alta, disse coln voz roucâ, que possa le- Pôs as duâs mãos no meu braço; seu rosio quase tocâva
-
gitimar.., o meu.
Parecia-me ouvi-la atÍavés dê uma dessas brumas esDês_ É insensato; o senhor me fâIâ. como â umâ cdminosa,
sas que abafam os sons. E. ao mcsmo tempo, a tristezà se -
Ás inJidelidades do meu marido, a indilcrenqâ de minha
apoderava de mjm. umâ jndefinivel trislezo, conira a quat me íilha, sua revolta, tudo isso náo é nâda, nâda, nada !
.todo_impotenl e. Era. ictvêz. a maior tentaçáo de
sentia de fâlolhe como pâdre scgundo as luzes que
minha vida. Nâquelê momenLo. D.us me ajudou: se;ti de - Senhora,
o Senlor me deu. Engenâ-se, tomândo-me por um exâltado.
repente uma lágrima no meu r.ojtô. Uma jágrima apenas, Embora moQo ainda, náo ignoro que há muitos lares como
como a que se vê no rcsío do moribunalo, no ãxtrerno 'limité o seu, mâis desgmçados ainda. Mas o mesmo mal que poupa
de suas lnisériâs. Ela viu cssa lágrima correr. uÍn, matâ o outro; e parece que Deus permitiu-mo conhecer
mê ouviu? _ pergunlou. Compreendeu- o pedgo que ameaça a senhora, exclusivamente a senhora.
_-- ?
-me -SIju ::nq.
lhe djsse que ncnhuma talta no mundo._.. dizer que sou â causa de tudo.
.Con[essei que nâo. que nào a havia escutâdo. Náo {irava
- óQuer
minhâ senhorâ, ninguém sabe de ântemã.o o que
o§ olhos de Inim- - seguir a um mau pensamento: em mil que o vento
se pode
um pouco, o senhor náo pode alar alez passos, Ieva, que os espinhos sulocam, que o sol secâ, âpenas um
- De-scanse
sou mais Íorte que o senhor. vamos ! N;dâ dis"o tomâ raízes. Â semente do bem e do mâl voa por tôda a parte,
com o que a religião nos ensina. Tudo isso não ";;;;;;;paisa de A grandê de.grâca estâ e,n quê a justica dos homensrnler-.
sonho, de ]loemas. Náo o julgo um homem mâu. Esiou certa vém. de regra, larde dFmais: roprime ou condenx al,os. sêm \ '
uld,o o.*lhor pudêr ra.iocinar, vei envcrgonhar_sá poder remontar acima e âlem dsqup,e que os pralica. I'{as Ir
1:^1y"t,9I
oessa abominável chântagpm. Nada nos pode sepaiar, nossas laltas ocullas envenenam o âr quo os oulro. respiram: .'J
munoo ou no outro. dâquêle a quem amarios mais que a nós
neste
e um crime. cujo germe um miserávpl lraz consi8o. sem o '
mesrnos. mais que a vida. mais que a salvação. saber, jamais teda daalo seu Jruío, sem êsse princÍpio de
corrupçao.
, - Mjnha senhora.
uma
dissêlhe. mesmo neste munclo, uma
in5ignrtjcante hemorragia cerebrat, me_
. * Sáo loucuras, puras loucuras, sonhos maus. (Estavâ
!l-!1.9",
nos ainda."3du:
bâslâ para qup. de uma horâ parà outra, dely;mos lívida.) Se se pensâsse nessas coisas, ninguém poderiâ viver.
oe conhecer as pessoas que. outrora, nos fordm mâis caras,
* É certo, mirha senhora. Crcio que se Deus nos desse
umâ idéia clara da solidadedaale que nos liga uns aos outros,
*Âmortenáoéaloucura. no bem e no mâI, não podedamos mâis viver. É certo !
não nos é mâis conhecida que ela. Ao lerem essas linhas, pensarão, com certezâ, que não
- Mas
O amor Íalavâ ao acaso, que seguia um plano. Náo era absolutâmente
-. - santos. é mats forte que a mort€: está escrito nos
lrvros assim, eu o juro. Defendia-me simplesmente.
dignar dizer-me que falta ocultâ é estâ, disse
- Não
ordem,
fomos hós quê inventamos o amor. Êle lem suâ
sua lei.
- dêPode-se
depois um lougo silêncio, o veame no fruto ?, , .
preciso que a senhorâ se rcsigne à.., à volttade
* O amor está nâs mãos de Deus. - É É preciso que a senhora abra o coracão.
de Deus.
Deus não é o alono do amor; é o própdo amor. Se Não me atrevi â lhe falar mâis claramente do pequeno
quer-amar, não se coloque à margem do ainoi. morto, e â palavra resignâção pâreceu sulpreendô-la.
154 AEOECES BERNÁNOS DI,ÁRIo DE UM PÁEoco Dú A]-DEIÀ 155

Resignâr-rne a quê ?. . Como se âtreve a senhotâ â tmtar dessa ma cira a


-Depois, .
sübitamente, comprêenaleu. l)cus- ? Fecha-Ihe o cotação e...
Cosiumo (nconlrar ppcadorcs r nLlurecidos, m.nos vivia ênr paz. Em ))c? morreria, . .
pa-rlo dFk nde-se conlra Deus. âpcnas pot umâ êspécie
A maiof - Ao Agorâ, isso não é possível.
dê spn
tr,lnento cÊgo. .E ô mesmo angustiocà clÍscobrir: nas feiçóos -voltou-se para mim, como uma víbora :
de um velho qua sê empellhâ om ju.lj.i.ar seu \íciot a ex- indiferente. o senhor mc obrigou a con_
precsao âo mpsmo lempo e"Lúpirlâ o f, roz de Um menino - Deusde era-me
vcncer-me que O odeio; que adiantou isso, imbecil ?
emDürrado.- M"s. desta vez. .u ti x revolla, a v.rdadeirâ senhora não o odeia mais, disse-Ihc. óclio é indi-
revolfÊ êslalar num rosto humano, T.rl .oisa náo sê exDrimia Icrcnça- Ae desp]êzo. E agoral eis que se encontrâm íace â Íace,
nem pplo olhsl Jixo e como qu' vclâdo, nêm pelâ bó;a; e a a senhora e Êle.
própria cibêqâ. longe dc p1gup... altivâmênle. inclinâvâ se Continuava a olhar o rnesmo ponto do espaço, sem
pala o ombro. pâre.iâ ccd.] 30 pê.o dê jnvisÍvel fârdo... responder.
â.h! âs lanrat ronadas do blàsr^mó nrda têm que vêr com Neste momento, não sei que terrol se apoderou de mim.
essa simplicidadê lráAica. Dtr-\^ iâ quo o brudco ârrebatâ- Tualo que acabava de dizer, tudo que me havia dito e1â, ô§se
menlo dâ vontâde. suâ ctorvÍ,n,én.iâ dêixavâm o con)o inerte. diátogo interminávet pâreceu-me vazio de sentido. Que ho-
impassivpl. esgol,ado prtd entrcga totat e vtofenta àe iàáô mcm râzoável o teda julgado de outra forn1â ? Sem dúvida,
o scr. cleixei-me enganar por uma moqâ enÍurecida de inveiâ e de
_ * Resignar me ? disse com ulna voz suave qüe ge- orgulho; pcnsei ter lido o suicídio nos seus olhos, a vontade
lavâ o corâção; que se-aleve entender por isso ? Entdo. não do suicídio, tão claramente, táo distintamente, como umâ pa-
esl,ou.re\ignad, ? Sê r5o o pslivossê. àstaria mort;. Cesig_ lâvm escrite na pârede. Era apenas. afinal, um dêsse§ im-
nadâ ! E.fou r'ísignrdd (tômaic. âte me envergonho de est;r tlulsos inefletidos, cuia própriâ violência é suspeita. E é
Iesjgnadâ d.ssA formd. íSux !oz. scm Se ê]evAr de tjmbre, certo que a mulher que tinha diantê dc mim, como diante
tjnha umâ sonoridcd..strârlr3. nta Ê\pé.iê dê bl.ilho metá_ de uü juiz, havia realmente vivido muitos anos, nesta paz
lico.) Oh! mais dc uma v./. , m outtoc iempos. tive inveja teríve1 das almas abandonedâs, que é a forma mais cruel,
dessas mães ft'arzs 6Ltç n;6 r;-,ist"m â semêlhân+es chOqU;S, l1iâis incurável, a forma lllenos humana do desêspêro, Mâs,
Mas nóc. os dê nos.a tamitia. somns Ieiiírs dp cât e dc a;eia. semelhante misériâ é, precisamente, dessas que um padre só
Pam .mpedir quê êsÍc nri.^r'ávôt corpo esqu.c.ssê. soria pre_ pode encarar tremêndo. Pr'ctendi lequêntar de umâ vez êsse
clso matá Io. Quem quFr nrrlar.^ nâo se mata. iomção gelaclo; levar â luz ao último Iecesso de ulnà cons-
N?o é dessa resignâÇào qlp falo. dissF-lhe; â senhora ciência que a piedaCe de Dcus talvez quisesse deixar, einda,
,oem -o sâhê. mergulhada em misedcordiosâs irevas. Que dizer ? Que
fâzer ? Estava como o homer]l que, tendo subido de um sâlto
E enlão? Vou à his"a. Íaço nrinha páscoâ; no en-
. - podêria a uma altura vertiginosâ, abre os olhos, detém se e§pantâdo,
tânto. t r abandonado iód, á prática dà rêl:giào. Che_ sem poder subir nem descer.
guei â pens:-r nisco. Mas parêrcu-me coi\a indignicle mim.
Foi entáo não ! is§o não se pode expdmir I Foi então
, ry"hu sinhora. quâtqu-r blâ"férniâ seriâ prelêrível que, enquanto -lutava com tôdas âs minhas Íôrçac contra a
a tal--pálavra. Há. na sua bóca, lóda a dureza do inferno. dúvidâ, iontm o mêdo, o espírito de oração voltou a enhâr
Calou-se, o olhar fixo na parede. em mim. Entenda-se bcm: desde o comêço dessa extlaordi-
156 GEORCES B'TINANOS
DI.ÁEIo DE UM PÁNoCO DÉ ALDIIÀ L51
náriâ entrevlsla. não hâvir pârado dc rpzal. no sêntido çl.re
os cristáos lri!olos dào a lât úaLavrc. Um .ntêl:z animal, den- brecha em náo sei que muralha invisível; que â paz enhavâ
tro da cêmoana pneumát:câ, pode l.rzor toCos os movimentos rx,r tóLl:ls c\ partes c §ubia maiesto\âmcnte ao nivol superior
oâ resprrF1"Êo: que imootla ? E ni( qJ-. ino§pr radampn te, o I uma pez desconh"crdâ da terrâ. â docc paz dos mortos
âr,s,Orla de noro em scus brónquio.. dê.Llobra um a Llm os Subia como umâ águâ profunda.
dellcados lecidos pulmonarê, Já mLl,'r,o., as a!-téfies lremem * Tudo lne pareee clalo, di§se (]la com voz prodigiosa_
ao pr'imciro golpe do sanguc v.-rntolrJ merte alterada, mas tlanqüila. Sabe o que diziâ, no melr
um nâvio de velas intur]1escid2ls. - tooo o ser é como coração, agora mesmo ? Talvez não deva confessá1o... Pois
 condêssa deixou-se câil em uma polttona, com a ca_ bcm. eu dizia a mim mesmo: se existisse um lugâr, neste
beça entre as mãos. Suâ mântithâ râsgaàa desdojrrava-se{he mundo ou no outro, um lugâÍ em que Deus não estivesse
sôbre os ombrcs; tirou-â docemente, IãÀçando-a a seus pés. ainda que eu devesse soJrer mil mortes, em câde scgundo,
Não peralia nenhum alaqucles movimentos;, entretanto, ti;ha -cLernâmenie para ali levar'ia meu... (náo teve comgem
a esquisita impressão cle que não estávamos ali, nem eú nêm -
de pror,unciar o nome do pequenino morto) e diria a Deus :
eu. naquele trislc saláo: lintu c jmpl.ssáo de que a s.la es_ sâciai-vos ! esmagai-nos ! Isso, com certeza, lhe parece
ta\a vazlà- hordvel.
Vi que tirav do sr io um m-drthào su.o.nso â uma cor. minha senhorâ.
renle de pralír muito \rmplFs. E, semprê com â mos,1,ra calma - Não,
Como náo ?
calma mais ter'rívcl que qualquer iiolôncia abriu com a
- Porque â mim também, minha senhola, acontece-mê
-unha a tampa do mealaihão cujo vidro rclou -sôbre o tâpête, às -
vêzes. . .
scm que p1n pcrnccsse rer pctccb'do. utrn ln.cha do .â]]etos Não puale acabar, A imagem do Dr. Detbende postava-se
louros [:cou-lli" cnlt.n os dpdosj dir se.ia umc tâm:na de olrlo. rliânie dCmim sôbie o meu, seu Yelho olhar cartsado, infle_
li
O srnho[ iutâ,,. Coni.ou a cj'llr. xível, um olhar-em que eu temia 1er quâlquer coisa. E ouvia
-Mas viu. súirilcl]]cnl., êm meu olhar, que cu llavia com. também, pensava ouvir, neste minuto mesmo, o gemido de inu-
prcendido, que nã,o ju!-ariâ nada. neráveis peitos humâr1os; o soluÇo, os estertôres nossa mi-
fiiha (a palavm me veio espontâneamentê aos -
scrável humanidade sob terríÍet pressão, um medonho mru-
_ - Minhâ
lábios.) Não regâteic com Nosso SeÊhora. É prcciso entre- múrio...
! disse-me lcntâmente. Ácâso é pos§ível?...
gar-se a Êle sem condições. Dê ihe tudo e ÊIe d;volverá mais
cinda. Nào rou plo[,la ,..m ad;vin].o: mas daquele tugar Tâmbém- VaÍlros
os meninos, as c aturinhas de coraçáo fiel?... O
parg ondê Lodos vamos. so Íj,,. pôde votrar. senhor já viu algum dêles morre! ?
Não protesíou: apenas inctinou-se mâis parâ baixo e, â Não, minhâ scnhola.
- sílaba,
cada via tremerem-lhe os ombros_ - oruzou calmamente as rnãozinhas, tomou um ar
O_que posso afirmar à senhora, toalavia, é que não gra\e- e... (... eu linhc tonlâco darlhc dê beb(-r. Llm mo-
_- -
]1á um reino dos mortos e um reino dos vivosi só há-o reino menlo ânle<: na sua boquinh:1 âbcr{â. podia-se vel âillda uma
de Deus, e eslamos nêle, vivos c mol io5, _ Cnmr
eótâ dc leite.. .
cou â trêrr1el corno umx fôlhr. Paa"ceu_mc estaf
, Plonuncipi cssâs palalrâj .omo poCêriâ 1er pronunciddo
outras. Nesip momenlo. tinlrm tào pouca imúorlància as só, de pé e'só, entre Deus e essa criaturâ tolturada. Era como
palavras I P&eciâ-me que misteriosa úáo tinhi aberto uma se grrndci pi,n.dddi e"liv( 'c.,'1 ccoando em meu corêç;o. En_
tr(l,anl,o, Nosso Senhor pel'miiiu que eu resistisse.
OEORCES IERNÀNO§ Dúnro DE uM Prütoco DE ÁLDEr,\ 159

Scnhorâ, disse{he, se nosso Deus fôsse o dos pagãos


ou o-dos filósoJos (pâra mim, é â mêsmâ coisa), em vão se
- O roino cuja vinda acaba de desejar é seu e dêle
também.
lefugiâria no mâis alto dos céus: nossa miséda o precipitada
de 1á. Mas a senhora sabe quc nos:o Dcus foi ao êncoitro de
-SeusEntão, venha a nós o vosso reino !
olhos Íixaram-se nos meus c licamos âssim alguns
tudo. Pode-se lhe mostlaL o punho lcchado, cuspir-lhe no segundos; depois, clisse:
rosto, flagelá-lo e, finâlmente, prcjlá-lo em umâ cruz: que É ao sen}ror que me rendo.
adiantaria ? Isso jti Íoi íeito, ?tuinhli lilha, . . - A mim?
Não se atrevia a olhar. o mcílâlhão que continuava segu- - Sim, ao senhor. OIendi a Deus, porque talvez O odeie.
Iândo e[tre os dedos. Eu cstavà tão longe de supor o que Sim,- creio, agom, que morrer-ia com êsse ódio no coração,
iria lazer ! Disse-me: rcpitâ âquê]a trase... aquela Írase... Mas é apenas ao scDhor que me rendo.
sôbre.,. aquela: o inferno é a ausôncia do amor.
Sim, minha senhola. - Euuma
positasse
sou um pobr_e homem. É como se a senhora de-
peça de ouro em uma mão Juladâ.
- Repita ! Há umâ hora, minha vida parecia-me pefieitamente
- O inferno é â ausência do amor. Enquânto estamos -
em ordem, cada coisâ e111 seu lugâr, e o §enhor [ada deixoú
üesta- vida, podemos iludir-nos : crer que amamos por nossas de pé. nada.
própdas fôrças, quc amamos Íorâ de Deus. Somos iguais aos Enhegue sua vida a Deus, suâ vidâ tal qual é.
loucos que estcndarn os br:rÇos parâ o rellexo da 1ua, na água. *- Quero d tudo ou nada; meu feitio é êsse.
Desculpe, cxprimo muito mâl o que penso. Dê tudo.
Sorriu de mancira cstranha, scm conseguir distender o - Oh! senhol não pode compreender. O senhor pensa
rosto contrâído um sorr,iso fúnebre, Fechou no punho o que eu- já meo submeti. Não I o que me lesta de orgulho s€ria
medâlhão e, com-a ou1,r'a mão, àpertou-o de encontro âo seio. bastarte para condenar até o senhor !
quel o scnllol que eu digâ ? Dê o orgulho com o resto; dê tudo.
- Que
Djga: vcnha â nós o vosso reino. -Âpenas pronunciàaia esta palalTa, vi não sei quê res-
- Venha a nós o vosso reino ! plandecerlhe na face, mas era târde demais pâra impedir
- Seja Íeita a vossa vontade. Jôsse o que fôsse. Lançou o medalhão no mcio do Íogo. Ajoe-
-Levantou-se a rr.b- l*drr.nl^, com a mào sêmpre aper- Ihei-me, merguihei meu brâço entre âs chamas, sem perceber
tada contra o peito. que me queimava. Por um instante, julguei ter agarrado
* Vamos, gritei-lhe, ó uma pâIavrâ que a senhora repe- enhe os dedos a pequenâ mecha loura; elâ porém escapou_se,
tiu mritas vêzes; é prcciso agora pronunciá-]a do luúdo do caiu na brasa vermelha. Fôz-se, atrás de mim, um silêncio
coraçao, tão horrível que não nle âtrevi a voltar o losto. À manga de
* Nunca mais rezei o Padre-Nosso, desde que... desde minha bàtina estâva queimâda até o cotovelo.
* Como teve coragem de fazer isso ? balbuciei. Que
que... Aliás, o senhoi o sabe, o senhor sabe tudo, antes quê -
a gentê fale continuou, levântando os ombros e, dcsta vez, loucura !
encolerizada.- Depois, fêz um gesto cujo sentido só compleendi Àfastara-se ate a pârede; e ai apoiara os ombros e as
mais tarde. Sua !csLa brilhava de suoL, mãos.
Náo posso, gemeu, parece-me que o perco duas vêzes. Peço-lhe que me perdoe, disse humildemente.
- -
160 GEOROES BERNÀNOS DIÂRIO DE ÜM PAROCO DE ALD]IIA 161

Pensa que Deus é um câtâsco ? Êle quer que tenha- que estavâ dentro. Erâ o peqteno medâlháo, agora vazio,
úos -compaixão cle nós mesmos. Depois, nossas d,ores não nos prêso à sua couenie cluebradc.
nert.ncein: Ê.e as assume, cm setl colarão tstão as nos"3s Ilavia tambóD uma cârta. Ei la. É ostranha:
ã;';..^N;; L"*";; ;iülro oe rr uu".,i 13s ali para dêsafiálas, "Sr. Vigário: crcio que o scnhor: não é capaz de imâginar
nara ultralâlas ComPreendc ? o estado em que me dcixou; cssas qucstõcs de psicologia de-
' está leiti, cstá t.ilo I Nrda posso remediar.
- OScóLr"
é assim, fique em Daz, minha Íilhâ
vem-Ihe ser per-Iaitâmante indifcrentcs. Quc direi ao senhor ?
desesperâdâ lembrânça cLe um pêqucnino morto conser-
-E dei-lhe â bênção. ^vava-me alhcia a tudo, numâ tremenda solidão. Agora, pâ-
Meus dedos sangravam À pclc do meu br'aço estavâ rece-me o,ue um outro lill)o arlancou-me desta solidão, Esper:o
cheiâ de borbulhâs. A condôssa rasgou um lenço e pensou náo abolrecô-lo Liartanclo-o âssim. colrlo a uü menino. O se-
as feridas. Não irocávamos uma palavra §equer. A paz que nhor é umâ crixrco. Q-' D?us o ('ons.rve as5inr. para
iinha invocado para elà havia dcsaido sôbr_e mim E táo sim- sempre !
plc",lio Ídmiiiai, que nrnlrunlfl !rcsl n.d log.'ârrâ perl,urbá la. "Não sci o quc o senhor'{ê2, nem como fê2. Ou melhor,
irnhamos r', gr^s.atlu 1-o \uJ\^nlêlltê à vida colldiana. quê o não procuro sabcr coisâ algun1a. Tudo esiá bcm. Não pensava
obseNador';ais âtcni,o nada pocleda sürpreender dêsse se_ que lôsse possível â rcsignação. E não foi, dc faÍo, a resigna-
_ peàiu
orêdo oue r3 úiro nos Dcrtencia. Cáo que reio. l{inha n3türczâ a r'êpeki; e mcu plesscntirnento
m" qtrc r olrvi's' en' conÍissáo. no dia seguinte' a respeito não me cnganava. Náo estou resignadâ, esloz
tr'i,6us t,r'6,n"i,'."o n;r, côntâr a nirgu.m o que se tinha /€liã. Nada quero, nada dcscjo.
n^.=i,to nó', oLri[rnllo mê, L]c ]ninhl fâlte. a obsêl var
"ntt",b-ôlrrlu. 'A.onl\.1 o qun âconto'er" disse'
irÀ srtêncio "Não mc esperc amaDhã. Irei confessaf-me com o
Pde, X. . ,, como dc costumc. Fá-lo-ei com e máxima sinceli- f
Pronuncianalo essàs últimas palavras, senti que merl corâção dàde, mas tambóm com a maiol discliqão possívcl, não é ?
se oprimiâ, a trisicza me invadiu de novo. Seja feita a von- Tullo isso ó tão simples I Quândo disser : "pequei, l,olun-
tade de Deus ! tàriarnentc, contra a espcrança, â caala hora do cliâ, durânte
Deixei o câstelo às onze horas e tive de partir imediata- onze ânos", telei dito tudo. A csparança ! Erl a live morta
mcnte oflil Dorba Lo. Do l'' qa.'"o, dÔ]ivo me no cxtrêmo do entre meus braços, na tcn'ivel noite de um mês de marqo,
tTosouc-'r-L ond" sc dn' orlins o 1xl. ' tcmbcm âs compridas
cheio dc vento e dcsolaqão... Senti seu úItimo suspil'o no
ladeir"s qurse insen'iv.rs. qu^ lr'r"m l'nramente. para o meu r.osto, em urn lugar de que me lernbro. E agora a cspe-
;ar'. Nâ'cldeiâ, h.rv r ro-npr:d, um lnuco d^ pão c lrâ,:rl_
leisa: comi com sllclit'. (r no dcpoj' d' cJdâ pro!c cl'crsrvâ
ranga voltou, DesLà vez, não apeDas en'rprcstâda. mas dâdâ.
à"-mrnra vida, Â*p.,"*n_tr' . ú,ra e'pêcie dr entorpeci_ üma esperânça inteiremente minha, só minha, que não se
parece com o que os lilósolos chamam esperanqa, corno a pâ-
Tn"nto. u*a in.en.iôiliclâ,1" menlal que nao e dêcagradável e 'lavra "amor" não se pârece com a pcssoa amada. Uma cs-
ou, me r.lá uma cLlrio,a ilu"io cle lc', zà. dc lcli(idad'. Que peranqâ que é como a cârn-ô dâ minha carnc. Íj inexprimivel
t.ll.lara" t Não l)oderia ciizê-]o É uma alegria sem rosto' Seliâ noccssár'io possuir o vocâbulário das crianças.
ô ou-" tinha Llc aconl'cFr tá a.onlc.eu: ei'rLlLlo. Clreguei
.m'l..!:r muito larcle. e, no .aminho, cruzoi com o v'lho "Quer.ia dizer essâs coises, hoje mcsmo. E]a prcciso.
Clóvis quc me entlegou um peque{o cmbruiho cnviâdo pela E depcis, náo falaremos mais do âssunto, não é ? Nunca
condêssà. Não me dlcidi a ábr1-Io e, no enianto, "sabia" o mais ! Essa palâvra é doce: nunca I Ao cscrevêla, plo-
162 CNORGI.S BÍRNÁNOS DINÀIO D: UM PAROCO DE ALDEIÁ

nuncio-a baixinho e p3r'ece que explime dc Draneira maravi- pois, naturaimcnte. §eü braço csquerdo, iá rigido, ficcu um
lhosa, inefáve1, a pâz quc Iecebi do sÍrnhor." pouco ciobladc. Dcs.ic âlguns meses, sofiiâ de moiéstias â
Coloquci a carla na mjnha "Imii.rÍlão", um veiho livro que os médicos não etlibuiâm importância. "Átlgina pecto-
que pertenceu a mamãe e que aincla tam cjleiro de alfazema, f_is", ccm cer'lazà
allazema quc ela punhâ em um sacLuir)ho, iunto da roupa de l-ui colrenalo i).o aarstelo. onde chesuci biÍ,hado.le suor-
dentro, segundo o antigo corilum(r. \iio a lia muitas vêze§ F.p.:'"vâ ,\:lo. i . ! . . ,o,1, C., cLu"r,tn, tir. rr.ra rnL'et,
porque os ti)os são psqucDoii c âs páginas dum papcl tão ürn giiinde ci,ióríro, uin aslôrço absurdo; batiam-me os den-
iino, quc seus pobles clclloaj, rr,cilados, não conseguiam tes. Conlo sou roviir(le I Scu rosto esla..,a cohatio com um
virá-lâs- lenço de rnousscline c àrÊl thc podiâ disi,ingufu as feições; mas
Nunca... Nunca l1lais... P'3r quê ?... Na verdade essa viâ, con] tóda a nilicicz. scus lábíos ouc tocàvam o rêcido-
palâvrâ é doce. Des, i.rir l. nlo q . ,:r :u .' e |sie .ur.r"o imL.:r lrável
Estava com sono. Para tcnuinar meu brcviário. tive de .roj ra,rroi çlrrô r.,o L r. , ni Jtnon:/d |orn spr maravilhnco
ficar andando, de unr lado pâi'â outiao, ilois nleu§ olhos se silêEcio 1... Não sonia. A bôcâ, ieveiucntc relor.cida para a
íechavam sem quer.cr'. Não rci se sou ieliz ou não. djreitâ, sugcria utn âr clc lndifercnqa, de desdém, qúse de
dcsprêzo. Ào levanlal ir nrão llâra aÉençoá-ta, meu ú.aco pe-
Seis horcLa e tncia. sava eon1o chunbo,
A condêssâ morrHr cstâ noiíe. Poi ume" csLl'ânha clsiiatidade, drüs faeir-ss e..,Do1eres
li.lh.. r lrrCo. r a vr 1. i'... 2!r cd.telo; o .-noe oi r,'cô..,se
.... i ej1: .'o, lo.o dc!,ris clp L rmi_
t,L:.c lctj.z. hu.i^.,t^ r..
Passei as primejr'âs horâs dêsse terrível dia em um uâílas slias visitas- llornllre]ll, pois, üo castelo. Encontr.ei-âs
estado- vizinho clâ r'cvolta. R?loltâr-sc é não compr:eender, 1á, tão pequeninas, (lc[tro c]e suas túnicas lârgas, coi11 sêus
eu não complcendo- Podem-ie suporial pro'/as que, à pri_ grcssos sapatinhos anjâraaãclos. 1'emo que minha atitude as
meira vista, par.,ccnl cstal acirrâ de nossas fôrçes queúI teDhe sul'preendiclc. Ohsc] vevam me lur.til.arnentc, orà umâ,
de nós conhece suâs lôrqas ? À'I⧠eu me sentiâ ddículo- na oia outr'â, e eü não porllâ recolher-me. g.ntiâ-me gelâdo,
desgrâça, incapâz dc Iazcr qualquer coisa de úti1, um obstá_ menoc r 1r (erlo .it,.:'r' u. ..r, u e.tôrnESo qUe qL irnava. Tive
'
culó pâm todor. E su lLi\lê d ..o...i. Ê"a tào grande que não
pod:á dÊixâr ctp nrbnri, jl! 1,." ge.ro-. Via nos (sp^lhos, EnIim, com â irjuCa dc Deus, Ioi-me pos:ííel rezar. Por
nos vidros, o meu losto quc p:-recie desfiEurado, meüos pelo mais eue proüure ini,r|r-oger a Inim masmo, rade acho que
sofrimento que pelo môdo, co1n êrte ríctus doloroso de qucm üelelra cansura. CÍri1sur:n n1e de quê ? Se, entlctanto !...
pede piedade e que se patecc cor1l â deÍolmidade de um sor- Pe11so que poc'iaria velÍ]r csta nolte, grarder intacta, por
Íiso. Meu Deus ! âlgrúiras holâs mais, a lcmbranqa daquela entrcvisla q.1e
Enquânto meditava, cm vão, cada um Jaziâ o que lhe d.\,la s€i'â última. A pl;mei!--o- tambó..r, aliás. À plirxeira e
cumprla fo?, r; acabei por n o r'hrr sõTinho OcondênJose a íütirxa, Não sei se uou feliz, ou Dão, esclevi... Tolo que
ocuoou dc'n'm e, Srt.r, ChJnl.l li'1lil nio mc vel. O lato eu era I Sei êgora que nunce halia conhecido, quc nunca
se deu lá pelas aiu4s horas dn mânhà. A condêssâ reslalou mais tcrnarei â pas:s.l"r. hcirs tão plel!âs, tão iioces, inteira-
alo leito e, üâ sua qucda, quebrou um despertador que estava maxtê cheies de uüa pIesancâ, dum o1har, duma vida hü-
sôbm a mesa. só se descobliu, pol-ém, o câdávcr muito de- mana; Pcnsava i§so enquântc, cniem à tnr.de, com os cotovelos
Dr.Ánro DE uM p.fuoco DE ÂÍ,DErA 16b
164 G'OiGÍS BENNÁNOS

ócUos que â morte nem sempre desarmâ. E depois, se reve-


aDoiâdo, à m."à, 1:nhl inlre as m:lnc o v.lho livlo eo qual lasse as confissões quc mê foram Íeitâs, não peieccriam elas
iãvià cont;. to minh, .xtti, .orno i l:rr' .mito "'turo e d's- iusíificar ântiÍios rancores ? Á Srta. Chantai é jovem e sei,
crelo. E o que iris tào d'Preisa l) r'1.' .t pullr i volunluria' iJ.- .xleriinrir . o.r.11o -ào rjya\. indele\.i. raivel, as im-
menlc no sono. um sono neg;ro, scnl scillos... lj' .'. dJnro,i,li,r, . .1,incl. r.c.rro'1dtaoSr. (on,gô que
Àgora t,rdo acâbou. À lcmbrrnca rl2 fotldê§sâ vai_se ciis- :, .onLles,ia tinhl n iuiJ,5tâdo o deseio do que se rcsiabe_
tanciando e eu sci que a mcrnóliâ só gua]'dará" a imagem lecesse a cordialidadc entre os membro! de suâ JamíIia.
ãa Àãr-ta. sôtrrc a quàl Dcus pour;ou lr suâ máo. Que podcria ? perguntou sêcamente. O senhoÍ em
'r;;;".;" esDíri',; de cir{ru;sii cias 1.ão:fortuitas, através - DevêrâsSr.
seu conÍessor, -Vigário ?
drs qLrris 31d.. is ,p. 1n..4' lr''. c' ,,o trl.i ' ,'d ? Nos"o Scnhol
pi"":'""*,f" utnr tr''cn,unltr:.. Ll .ui (''o hiLlo'em dúvrd3 - Não.
recia.um.
(Dcvo col,iessar que seu tom de voz me âbor-
pouco. ) CrLlio que ela estava pronta pâra compâre-
ia latta ae melhor, assim como sc chama um transeunte' cêr diante de Dcus, aclcsceitei.
: _ o.uê l;\c'5e dc''m_
sÀria orecl.o qu, l'ü..'in.r,ô p rd ( Olhorl-nle com ar estranho.
nnr1n"ào u, pJn'l, lrrr, \^rclad' iro p3l{ ll id ioi :nuito
que
Voltei a eEtrar: uo quarto, un:râ última vê2. As religiosas
beus ne 1iz,sr','x ílr: '-J 'lc a'si.'lil à r"on' rlr'rcrl0 dl- uma
cstavam acabando rle Iezar o têrço. Áo longo da parerle ha-
âlmd com J , sl!'r: n.i , -l:rs <ÔI n>" nrlpc:as' viam :rmontoado coloâs de flores trazidas pelos amigos e
TiIe alc rlcil',,r o cJsl' lo, pnr \o'14 Llac duas horas' que ea parentes que não ccssâtam de desfilar, junto à moría, du-
aula de caLccismo se p]olongoú até muito mais terde do rante todo o diâ, e cujo l,umor quase alegre cnchia a câsa.
í-i, r-";.r.-;ú, lr'-i.,.'rdirro" em p''no i\emê Irim'srrâl' A cadâ instan'úe, o Ier-oi de üm automól,ét brilhava atr.avés
o".""1"i:, t, rf"n," nrs',r â norl' ;uirlo d? con'lô'o1 'rrs as d3s vjdrr(âs, E..LltJ\.r t.Jnlnr a areja d3s cv(n:das e tocar
i"li;i""";;;ii,,,,,.;', tr, r(omo cón' só de l.. Mollc Bru\ro.,, 'io :r" burrncs dos cJr't'o'. Na.h dis.o p,tlurlr?va o mônó!ono
i',i ?àrià..-,i-oi'", \' irlr Fr-:. N:o 1:!^ 'oracrt.l de in- rerrfuunear dâs boâs Innãsj pâleciam duas Íiandeiras.
.;slir. O cLrnr' .i'l'i,,onl,n'lr,l:'. _r''r" ê 'oÍrs3tin_ompreen' ? .. Mclhor que a luz do c1ia, â das velas deixava ver. o rosto
_ rti. ,r. (ru i i. cum hu.:li rrcJ . o ' l"ndi'"o
ii""i b"r a'Lr:âvós do lenço de trousscline, Eestatam âlgumas horas
o sr. ( ór:, lo cl l3 l\4olle n Lr\ro' ouc eslá pa-râ se[ená-lo, distcndê-1o, e o círculo engrândecido das ]láI-
visitelmenle,1,,'i12,ln comiso. chnmolr':1'ê't:n r'lon'ênIo a
pebrâs fechadas dava a idéia de um olhar pensativo. Era
,,"ar". nrra nl'qunl-l'n" s^. noro'1r tl 'Ls;o no"x con!ers.rtdc âinclâ um rosto âltivo, ccrtamente, e âté imperio:o. Mas
i:ii;; ' ; ;oi.d'1"; tinhs P:Lo qtr. r'i'' r i I 'u'r sJúdc
v1-mc
prrçciâ esqu:vâr'-s, ,lo Lir aLlvêt'sal io. lor F.-iio l, mllo de-
c;;;.;;ái rnuito bem quê Ll2'1u'l' nroco' 'o:1vid' rL não' §-l.aLlo Ja.ê a 1.,cl-. 15f* m...gu1h5r. DoLco c fouco. nums
ài".'.ir*."'", ,'r"Lrr'. Diri, lci t: l'r'l '? P'n'o o rrcd;l-.in iniin r1 in.,:,Ll ,!LL Como (st ,i. tônge de nós,
Ã".i- clizer tudo. E o slgrêdo dâ cot-tdôssa' que de nolso poder ! D, .te rjÍtbito, vi suâs pobres míos, cruza-
m" p"rt' n,.u lodo 'nre'iln Dprl'nre_mÔ l r'n^s
nun..,"a"""iaiio 'lue
(lo Dara
das, suâs mãos íiníssimas, muito longâs, parecendo reaimer]te
.,lnn n, mals e'rar:n_enl', â'3ba cle me 5er crrnbrl mais moltas do que o losto; e r-eccnheci urn pequeno sinal,
;i;p;". io""; rr;;""r- que px.ridoque lira'i?m dôl' â rrnor';ncia' uma simples arranhâdula que tinhâ pê1.cebido nâ véspera,
, t.l, ir.-" ód;ô 1àlve71 Àgora escds alLoz" ri\clrdàdes t-nqucirto ,p.rl2\a o rn, .lr.,.Lo , nntrc o pô:'o, A dcllâdâ
i.iá i-",i,,1""àl
.,i.i,Àt:oo, 'r;4" rxpór-rrê ao pcri,'n dê su" 'trr fólha ot-.oló.r:o aindc ."r',\a xli. l\áo sêi oor quc. sentique
'.ü rà" r n ro e'o dc'u"rJ lêmb'rn'.:r qu' -' rrc'a: meu coração se pârtia. A lembr-ânça dessâ Iuta que tlnha
iiÃo quà , ániiou"* l ivas. aincla por muil'o tempol sio dêsses
êEôACES BEENÀNOS DIAIIO DE UM PAiOCO DÉ AL'EIA 167
166

Acâbo de encostar-mo à jânelâ. O desfilc de automóveis


sustentêclo rljantc cle mim, sob mcus ollros, o gle'nde com- continua lá em bei,-,o, num surdo rumor ale festa... O en-
llâtê D. l 'ir'a r l,'fnx, do qLal sir:ll .s':'lcdc. mDs in" 'lP' têr'ro será no sábado.
roltolr m1 r,o vi..l-rrn êà m,rróri:, q'rn "r' n Jodc lr'i-c
os senti.lo!. Co]llo não adifinhci qüc tal dià selia o iritimo,
oüe llós nos hâvíamos deüontâalo, altbos, no.extrerÍro limite
áêssc munclo visível, à margcm Co abjsmo dc tuz ? Por qrle
náo oâímos iuntos ali ? "Fiquc cm paz", disse_lhc E ela ie-
cebeu essâ p2z de ioclhos. Quc a tenha parâ semprc ! I''L1i Esta m]nhã, lui, mriio cedo, ao câstelo. O conde man-
err ouem lhi cleu, O' malâvilha qüe sc Do§sa assim ÍâzÊr Dre- dou dizer-üe quo asteva todo en'liegue à sua dor, que não
podia leceber-me, c qric o Sr. CôDego de lâ Motte Beuvron
senie do que não sc possui. Ó cloce milag1ê de nossas Y!1ãos iria, esta ilrde, às duas 1mras, ao L-r.csbitédo, a fim de en-
vâziâs ! À-espcrançâ qtlc morria no meu corâlião lefloiitl I1o tender-se comigo sôblc os lunerâis, Que estalá acontecendo ?
scu, o espíritã de orâÇão quc julgâÍa t-'r'peldido sem rcmédio, As duas boas Lri1ars n]e achâram com uma carr, tão
Nosso Senhor tho dou c quelr sâbe ? tâ1vez em nicu
nome... Que o tcnhâ -
sempr'i consigo, que- o tethâ todo-in- ruim quê pedilaln âo ciindo. contra minhâ vontâale, um
copo de vinho do pôr'to que bebi colr.l pr.azcr. O "garqon,,,
ieiro t eis-mc dcspojaclo, SeDhor, como só Vôs sabeis de§- sobrinho do velho Ci(lv;:r, orrlinàúâmente delicado, e até so-
pojar, pois nâ.lâ cicapa à vos:a solicitude tremen'la, ao vosso
1ícito, respondeu corn r:!'ruitr Irisza â rncus cumplimentos.
tremendo amor_. ÍÉ rrrdaüo quc o.: 'i.r d-s fiJnd.c .âsac nào gos-
ÀIastci o vóu do moüsscline, rocei com meus dedos â tam de tdmilia'i,1. d. r',".t'-o,
ri, ,.o á\'nlr entê .lô .iêripda,
_à de
testa âlta e pule, sâtlriâda de sitêncio. E, embola não p:r§se pessoas como cu.) I1tês, onlétr à tarde, servia mesa, e
de um pobrc c insiSnificantc pâdre, aliante de-'tâ mulhei, penso que deve tel surpreendido algumas pâlavrâs. Quâis ?
aindâ o;têm, tio sllpórior â mim, pelâ idâde, pelo nescjltento, Só disponho de nria horâ parâ âlmoqâr, mudar â dulhe-
ía (recomeçavâ a clo./er) c arnimar um pouco a casa que.
- siü,
pelâ íottuna, pclo àspÍr'ito, compreentli coúprcendi
o que era â patelnidâdc. desde alguns dias, está nümâ desordem abominável. Nã,o
quero esoandâlizâr o cônego de lâ l4olte Beuwon que já
Ao sair- do cÍr.sta'lo. tirlc c1e âtrâvcssa'r o colredor' A pcr'La está predisposío contre mim. Patecc, pois, que eu deveria
do salão estava complctân.nte abertâ, e também â dê' §ela Íâzer algo meis irnpoliantc que escrcver cstâs linhas. En-
d. ilntr". onop, n:,r t,''',o, l. '. cc or"rl v'rnr''rli. o:' vi'ilJ'' trctânto, tenho, mâis que nllnca, necessidade de ú1eu diário.
lês, pf,r.. com. '' s-n/lu ,l,.s. L§ p'^' J . âr L ' dÔ I a ,,cs O pouco tempo qüe lhc consagto é o único em que sinto
ca.ú. Tul é o costume clirsla região. Ila'/ia algun§ oric, .o elguma vontade da vcr claro em $im. À reflexão se tor-
pâssal um membro cla Iamí]ia, slllpleendldoli com o-ice nou tão pcnosâ parir- mim, minha memóda está tão ruim
cheia. as bocheches iDchi.ales, tinham de se cslorcilr rrlliio
" falo da mcmóIia ,,los fâtos reccntcs, porque â outra !...
por toüal- um al dc trijitazà c de compàixão vulllis se_ -minha imagjnâqáo tão ll]ntâ, que tenho de metar-me de trâ-
iI-roras, solcrctudo, pirlcccr'am me fiâl me ^s
aírcvo â cs- bâlho parâ pocler subtritil rnc a essa- espócie c1e sonho vago,
cr.ever a palatr'a fàmint3s, -
lequar.osas' Chantal io:i,ou_]n" i:llo:'re, do qual c orê._.ô n,irl sprpr', m. Iib.rl3. LoSo
à" ouri,- à 1xiohâ Pâsslgem, um esLranho rnurmú- ql'c ffo dal^nno, cinto Ín,' .r|l' r m um ]reio Sono que cOn-
" P,l'cc. Ialcrrm d' !:ljm. Iunde tôdas as pcrspeciivâs da lembr:ança, faz de cãda um
r:o "osto.,
dc \1,/.,. !1.1t
DrÂBro Dn uM PÁRoco D, ArDErÁ 169
168 GEORGES ANRNÀNOS

Minha sobr'inha estêve aqui, co11l o senhor ?


dos mcL'' d.â' \'âdo\ Lrnr pdrsr s;T"i.i - A Sr-ta. Chântal me procurou âqui, Sr. Cônego.
sem canl'nhos.-IIlllrn'àI|XIã';.,S r1c,,
pa
â3";
tos d.. re;cren.:a. e à norle. *- Ela tem um carátel pcligoso, indomável. Com cer_
conlinuJr . :.rrrpulocâm'nfo perr, ","'.i"*"àfoã"i-r"a. lfti- teza, conseguiu cmocioná-lo, não ?
ãiário t.,la ,5:3s so,:clões' ",: l9'-ll.'";r".';;',;;*;. *,. Tratei'.r dulanente. Penso até que a humilhei.
mas fólhcs no bólso, pâra rcle-ras
qu - Elâ ódio do senhor.
nhas raminhaclr' monotonas ur' '"lel'
a capêla 1'nho
- Não tem
acho, 51 . Cône€io. EIa imâgina ter ódio de mim,
' *""rlt
médo de ceder à vertigem' o oue- náo é a mesmÍl coisa.
."." o, s' rJ lue eslo drrrio ncLrpâ.lugàr demasiâdo "
- o
senhor âcrcdlta ter alglrma influência sôbre elâ ?
#i"ri" "io. i. . lg;oro o so DPLI' o scbe ' Agora, não, certamente. n{as ela náo se esqueccr_á,
"* - d;que uD1 poble homcm como cu soube enlreutá_Ia,
tâlvez,
um dia, e que â Deus não se engâna.
* EIa deu uma versão bem diferente da convelsa que
teve com o senhor'.
la Mollê BrulJon acaba dp sair daqli É seu jeiÍo, comprcenclo. A scnholita ó bastâ[te or-
o cónceo d^
,'- ,ii,l Li- .n1i.
uir" Llo quc in"3inâ!3 Por
que não me - Àpara
guthosâ não sc envelgonhal de suâs mentims, mais
"nli6,r" ir"n',n errl' : com cerreza quis
ill:i";; "";,;l i,l r,","^ns cedo ou mais talde. Ainda desta vez, há de envclgonhar-se.
do nrundo tàn corr'to§ lcmem
vF
ll,iiá. il".;".. Precisâ muito envelgonhar se...
.
sivetmente en tenclcrst'' -Eosenhor?
'"''Á"".n, ino, l,"lâmo' e\'lli':vamenl" de orgàni7ar os Oh ! eu ? Olhe minha figürâ... Sc pâra elguma coisa
p".,iJ","' l'o-'un''''1",qlrc "^ i:31: f"':1,"::ful.T ;"'[ -
Nosso Senhor a Iê2, Ioi pora rccaber- bofeladâs; e alnde não
iuxo. s, gun.l, - ciirmc 'l'-' a"I'.!ü.-iicã-oi'.ilnnnioso. âs reccbi,
tas r êzc-s nxp''e"so..Tcrminoda serrt llli"!--à i""i *rgiao. o Nesse momento, seus olhos câírem sôbre a portâ en-
um e outro, Por bistinic tÊmpo: e trcha!a maquinalmen- treabcrta da cozinha e ôlc viu minha mesâ cobcrta com o en_
;ij;;;. ,;; " oll,J' no lclo' 'br;l cerâdo e o reslo da comida: pão, n1âqãs (manda'.râm_me um
te. sàLr erande rLloAio cle ouro' cesto, ontem) e & galrâIa de vinho iá quase vâ2i1.
De\o DlPvcni_io oe qLlÊ ln'u jav"
'o6'i616 66pr to con'de O senhol não liga nuito pa]a a sâúde, não ó ?
;:;'o r-birr ' d' * rar'rr (m par'rrcular - XIcu
." - - csLômago é m'rito câprichoso, respoldilhe; náo
";;,'&i;;
com o scnhiJr esta tsrcle o sacristiu do\iâ vir _
posso digedr quase nâcl:t; apôlâs pão, frutâs, vinho.
RcsDono: Ihc quc â' q larro norus iria ao lto,rt*au nm 1ue ^ vcio. lcÍo oue o \:n',u lhc seja
,q,i;,"i:';'i;;à.; i" r. pôq-rin' e quê loso dopo:s m:ris- orer.oicill ouL ulrl. A ilt,cro d1 si,:de nlo é a s-Lde.
re(ebê-lo em srls cxsl o
Pioclrei "xplic"r rh, lup ,c ^ \inlro 'ra Lrr v'lho bo.-
"u"t"'l ar.u. m, u Íilho tcri cle!eqrrc déus que me Íoi Ioü1.cido pelo guarcla-ceç4. Ele §or]1u.
."",--. ;à; é ;;;",;;grandc
clo,r3r1'l o
rcscrYa r
dr abo'.ti,"ill.J
T",X.T; Sr, Vi!,;r:o. cônlllruou conlo sP l'-lJic ' 'l' ';l:Jl pxrÍr
- quâ:ê c:o'n opl^fi'1, .4: ê f.ovávcL oJ. 1''-o
jeual, r''.r âmos
sêlharh a mântel
âtos do seu miÚlstélio' aluas idéias comurls nô quc diz lespeito ao gol'êlno ale uma
ouais atos ? paróquia, mas o senlor é o chcfe aqui, iem o dirêito de o
-ReflàLiu. antes de responder:
I
Dr,ÁRro DE uM PÁioco DE ÀLDErÀ 1?1

CTOÂCEg BLRNANOS
170 Comc não lcspondesse, filrou_me, dê noÍo' com
por muito
t,,",i" 1,"i:.' \ ,i r,,: vülür.1r:i.mc'llc ênagldo' 'eus
lii-;i-"ii,..-:i;" l,ro'',.,,. só ntr''ulodo com ros{o'
'eu umà voz
colltinuou
- o serllcr
dasconfià cl_'D1irn,
trorqLLila, s€gurr, sem 1[ irlica
nesnomii or.rr r ,' .omor'cnLlje r"r1o s'melhânlê con-
\'.1 ;::;;:;,",, "',' or, ià i" u- r':eiór'io: náo tÊve rcsl'-

m**tln*;ffi i.l '-". ; i;,'' c, n.. q n-;3. só a co:'djss'


sua diÍulgâqão.

aio,'
Deu dc ombros.
- à;;;.
s. ntaoalá,
pod'rid auloriTar

r'rão corrl,cce o esptuito búrocrático Àpre-


mi"". j.. ' Pli' J'io :eri' :'ceilJ ale com ni§sc'
i"n"i. s. rr r.q'rr\ii'r ' n:ngue'n n'3is
grâti-
p' n5ará
Ipli;acóer rêrbâic'
T' i'li":;'r*m *' il'àrt *".i,, o ''','l ' ' nin' a nooer'à
i"i.ii.. rl.o'
pc'dcLà 'm ' lcldr a lingLrdAem
"""'-,,-* ;-íTi:Iiiit itl".
:iiliàl:il nois '
'rtl"..ã o
." ã ..,it or :t e" d;'.':r ap"nas que dois e
por um louco'
ãiii" *u, r r',,,i, 1, :::*:,:" ?T,l.Xtj.l;,,,"T;l:^;t aàii ü" i"iú" lomirlo-ão por um exaitâdo'
Caleilmc. Êlc Dôs a máo sôbre o mcu ombro:
'+!ii::..'.:llli; I] v""*:,-o"i'.""-" i!so. lrei'-ncs crnoscom amanhá se -o
â int€nqão
i :i3'11',"J:',íil",if [f : """1,*ilil-iiir:"iÍ;o-in"
iiJ
ocltto que vim
,',.,,",,i-r" ,"* , \ sr.rl ô ni' u:oLr;nho: nio dizer
I 13' prra quô.1
11";'$"1l,iI "il,:;',,,', .l:r., :"'-_; ;.liütl;fuS:i;
(urLlq ';
ã'.':i'#;;;à; ,r' "'. o'," ,];.r"m i,l.,r nar'3 nada
sua ãulor--idxllc corlr
'" i-, " "r-zm. nt", r:, , o o: 1' 1.':'a\,a [r7er'
ir,iàr. .""i, -Pi' qu' I:r Llo i-Pl Llc que nr cpn'uram1
;ii ; I' l. i,': :''; lli'' l';:i:' ;'Jll.,'J'xi "1: - ; .' 'l;.,,' o renho'É; n''o l:r'êr'"méLlio nrra i\so
:::n"-,ttm ;
, ;,.i *. , :i;.;'.; '. ' .e.r '( Lo c(l "ua çimplrcidâdc'
^ã...,i1' , -",: .r,- ,i| i;, . .o.r', rm .ogo .tuê ,c
"tll**"g.;, : :,n,I,l,i, -,,,1!.1ltj:tU,,:S^ , '-, O -.' ;'o_ t""' ':l ; ' ' ''' o" rom seu Dob_cr+':' 5'r-
";j1, i;;,ro;;;. r.,'. p r',.,1,rr"..n.ro L"lx to'l'x
n,t" tortr. ro q'" pr'"n lro' u.1r i!'âdc cl^ pa'lor' Nove
ri,te,..'nii* o pisr"uo' Mrs
*"ir} si ii$ffi: ik;l'si .^; " -;: , ,',r*r"r-oàu
i.l-,, i''nl i.á-:",ã,;.a;.i
;
,,
dn'ua'nios
o.'1"."r'In'rêr''
1:nl'- olrnrr o '
n
muiro
Ari-5 nara
iP Urar^r
r-i,,, .-;; nu '' 7. n o
'.j,,irir"àtr"iii"
I
; irr aÀ murh'r'cs dos lre'ille-
lt*iúlÉ."#aili;;+J:+i:: '::; *r', i3i?
Hil;;;;". iô:n
iobrinha;
s:ni-'re uma§ criaturâs especiâis' e
siclr.r

*; ilo.rx: ri';:;'À', ",,""1.;:o J'iLo n.i1 ur il.p: arrancarja ràcilm"nlí"

i;,ililf üffi ui" i:'i'ilx: I,,.n:ri uos t..tr:os ou L,n 'Brlnla dos olhos' Receba mru
t12 GEOÀCES BETTNANOS
DrÁrro DE ur,, p,irBoco DE ÀLDETA

sob}'inho, falc lhc como quiser, Lcnlbre-sc. âpcnas, de que


ê1e ó um tolo. E não tenha â mcnol con:.i.loracãc pelo noüe,
e outrâs baÍIâte]âst âcho que o sa'nltor p(n câusa dê sua gene-
rosiclade, dá müitâ lmportâúciâ â ess:lri coisâs. Já não há no- . O coro.linr,'. "t,,.
;fnor'a'*
n^c ,r,,u ,, u"o Ít.:o, nlrs cortê.. Creio que
, ui .L,,rr-,.ro cl. c, ll iio: as t,,, i.j
bres, mcu carc amigo: grâvc bcln lslo ne cabcaa.., Nâ mi_ od i_
nha mocidade conhcci dois ou lrôs. Ilrarn lr'.lleitos ddiculos, ÊâLlo c l"rt,.r'. d ro,o. .r, qLL, -,ao dos tLlnprris, Conh, ce
mas exlmordinàriafi ente carnclcr.izl!al05. Faziam mc pensâr m.lho,.cr." ' , ur t,, d^ ri.uo. ,l"1,ute â r-udlidr.e das
1.1, S . ej,.r.(,.r..u n.,,,t, r,r,rt Llrt ri:.o d,.;enJ s'bre â
nesscs cxrvalhos ale vintc ccrll,írnítlr'os quc os japonôses cui_
tivam em pequenos jârros. Os pccinatos ja os são nossos fl.:n1.,.i...jÊnjj,., ,I- .,...y- u,n qu..tr,r lê.iJ cotu.rda
a cça. Entretanlo, seri j.asio está üárcâdo pcti clor, pelâ
u§os. nossos costumes. Nrio há lnDriliar que possâ lesistir âo {adigr; mesmo suir \roz cst1l. .liícron1e, meno; dcsagr.actável_
iento desgastc da avârczr, queD(lo a lei é iguâl para toalos e rx^:-, , l)ho x qui.'.. ,o. umo. ê. tro 5eu lernO pr,"i-o, -nui ,,
a opinlão juiz e amo. Os nobrcs .le hoje são burgueses en- niOC..''u. CLr'n., t. ,.ta,.O. -,.1...1...... (,6r'.g61 ,.,m qtal-
vergonhados. qu'r '-,tl,ooa\:.,,.,. I r..i ,ur,:lo: Ê1tao É r" v. Io,ildo_
Ácompanhei-o âLó ir l)oltt e dci âlguns passos, com ê]e, m,rns. üo ,. o Comn. ir:i :to u.. Lm,..
l,r: oi1 uL! ra ?,.. Oh:
roi dizêmo: c l.i,njt'.. .., 'Jrrii. ^, ;ur)o
pelo câminho. Fiqrrci jrrÍrlliDan(lo que esperavâ de mlm {,...,ru" la.rbcm
âlgum gcsto dc 1'r'tüÍlLlr7t, da conÍiancâ, nTas plclelia celâ!- r- l'Jl'lx. A g' nl, Ll, !. i. ,, /Jr mrrito l, J ,r. ,iJ . As
l Idmrlr"s mtslem n r ln,.oo. Dr üs ltj tcnTà ll.
-me. Scntiâ-n]L' inl(,illnr{!rla iocar})az dc dominâr, nâque1e (-tn s..x miseri_
instxníc, umx inrl)r(,!siro (lri,NÍfrdívcl qüe ãc soube, âliás, l córdial.-.
di.:rnlhr',. r'.j,.rr,ll|- E.lou c.rlô. ,,.ri.rr,.,lô,tu- o CóncLo CÊ là 11.. e Bru-
l.,u'r\r . m mjr \. rez vl0n r.iro nr. rn.',.i! lt. 1l-. r Jr todir Is.r.J., lot.ôJ, o
pol o.,1lrâ, corn Ilnrrr ('1rr:Í):ri(Lrdc tranqililâ. Comô dizer-lhe c^ir,-, Íoi.:..mJ,''.'.,nrr, r",.., . ,0.,: n-rlosJ, hl. :.j, p, n,ei
que não lazia a mírinrr i(laix sôbrc o.iuc tcria abolreci.lo ao que ia falar, mas! entío aconteceu uma coisâ houívei. Me_
coilde e que acabirvlrrln)r, jn\rl qü0 ôic o souhessa, da faze! \'nu'n. f:.\.i, L" ,,,,.,rr..-. Irarr lri.oi,ut..t.I,.1 .urmula
um simples jôgo clc l)nlxvrÍrr '? rlnflê.sa dí\rir'. I.t...i r.,.nios. L:.p*].,' i l..par", por i I lucto.
É tão tarde, quc âcho ilnil il ir à jgi'clâ; o saclistão devê .t;nir-inLo o- râ : ir t:,. .do. àt pte..rs, neEs, i ê cul-.,, attas
ter feito o necessário. l^€,-lr-llt urrn r'a:|ilaçio .tâis |lccipitada, mais cur.tâ; espe-
l-ârra que lolDre:rse o siiancio, a cada segunalo, e comecei a
 visita do conde niro ,,1c (,rrllra.au anl coisl !.lgumt. fazer tudo 1lrais d..rasãr:. À injDressão ::ã torlou tão íolte,
Atrumei a mesil, pus tudo orrl or'(i^rlr, rrrirs alair{ci ___ despre- que \'iiei bruscamcnle e quase dei de losto com êle. Esll,_.i
ocüpâdamcntc a pcrtâ íio 11lnr: Iio i1l)ctt:1. lll:at1-lncnta de pe, b:m j[nio dc lni]a. üulto vctmelho, e me ê,rteniliâ
coilro o cônallo)-o condc iari la:lo |onÍli) o:_ olilos ne lil'3,fâ um Idpd dobrJ, o_ên, t,:,t..o q p ti(llr , ..u "..o. rlo lrja
de vinho, É como uarâ espaalc Lir rilx)st.r. (ltríxrdo parlso no o,§*ji.cú* rn,.a, l.: -,.:{, o- sr:r,n.llh, ., o.tJ e clciLltn
"Ql

meu caldápio dc todos os diâs. corn o quol rltliLoti trob'.cs não grito e, elrquânto toúa1,3, de suas mãos, clevc ter Dcr.cehido
sc pocleriàm contcttar, acllo ut1l i)ouco ii'tiixr11c a !'Jll,rrêia qup e-ldV.' '1.r,'r,o..,. ic oc Lenoi r..""r 1..j, p.nni.
quc cada um manilcsil, qualdo vefilicá quc blbo orl!.a coisa de algulnas Íias€s sem imlcttància, clestrediu-§e ", ac mim ôoÀ
atóm de água. Levanteime devagal e fui Íechar a Forta. umA saudtr.iO cer inrO1io..t, lrCi bo ia"i.to, amdnLri de
manhã.
DrÁlro DE UM P,{ROCO DE ÀLDEIÀ 175
CEORGES BIÍNANOS
174
r x l'ri-Í o d:a _1
a n ;lc acord:Co: .'or' '
Passei 1ó(l'
i,*"';ilà;;;";^ e {Y esfuà:;:laXd: 1: ltl:0T""1.".,'; Fui ontem pela Irranhá âo câ§tclo, como iinha prometido'
Foi Chântal oúcn, veio abril_me a portà. Isso me ôs de
sobreaviso. Eslerava que me reccbes§e na sala, por'ém, guiou-
frtqr -i4i1 * :,; ;; :
r m,. qucse emlrur raclo, l:r,a o p. clujno s-J:io cujas pal"lanâs
il',' x##* 5 ,srdvám tcrhachs. O l,qu^ qLlrb,âdc rinda !e ,ncontrJva
canhares. com o rosLo
en.c t:uL, na châminé, atrás do reló8io. Penso que Chantal surpre_
(Iüc l, li
t"''' ' "i,.,:rnor,."ao.,,,
nente. tào ó o, tão vazlo' cndeu o meu olhar. Seu rosto ficou mais scvc]o que nunca.
irmc scn.aÇáo ogradavel .rrro cie \inho r1o llnJo tr,ôz mcnção de asselrtâr-se na poltrona, a mesma em que
dois dias ântes... Nesle montenio, pensci ter de§coberto em
Fcrirnrcnte rinde hsti'r lll,"'I';;'rn;'i, *t,'",. t seus olhos uma espócie dc clarão; disse lhe:
da gàrrrta. Bebi-onrui'u,o-'rírr a'" ,.',nnu iJà0" n;oroo" Scnhorita, djsponho de poüco lempo, falâr'_Ihe_ei
de pé.
Enrubesceu; sua bôcâ trcmiâ de cólera.

*ffi*l*riltd'lt1t':
Apesar irc ru,ro.. i .. .:.,,...:::",:;":; ispecie <le Lo,Êor
êm r!t;r'.]',1"á,"0á*ã-r,.,S*,,;.
- Por
-
quô

honunciou,
?
Porque aqui não é o mcu lugar, nem o seu.
então, uma palavrâ horrível, táo estranha
para uma jovem oe sua iúâdê, qu. e irôpos"ivel náo lhc ter
nho muira dilrculu-'l' q"' 'l':,'.-:;i;: ;^,"n,ã,tto;,t'" sido soprada pol um dêmÜnio. Dl"se-me:
oue nào c a in'-r't' crrcd Náo l, nllo mêdo do" morkrs.
J* qr" pto"u'o' qu"i rncor'rrrnrrrr;';; ;;r. e 1ào iácil. -Voltei-lhe âs costas. Lançou-se entr'e mim e a porta,
m"ui mi,"s. Àb"ndorrr.É c,.ê^1e'ilH; ;;", o;; nacre pode- bârrando-me saída com os brâqos allertos.
â
quando J t'll"-::-li"pãt r. ceb"r. Farja melhor fingindo umâ comédia ? Se pudesse
')'periin'j'. "o" "rnurc,e- - r'ezarja. Chcguei mesmo a tentá-io. Não se reza com
m,'r:m1",'1",.Y"ililll jr";.,:lll;;i"],:r-:'3 rezar,
esta coisa aqui... (Apontava para o coraçao.)
ldtdis
pâlsam oc ,onsrquer'.(raÀs,:'":;;;t" a me .Íor.or * Que coisa ?
imenso sLrvrco
que mc nre''J ']'l'ir"il.-^*,'*"*. o."-
rr. : ;ll'l'"r'"1 - Cha-"-u ccmo quiser; clêio que é alegria. Àdivinho
distinBuir a parte qLre
no pr-1, ;. ,, o que o senhor vai pensãr: que sou um monstro, náo ?
há monstro.
j;ür f:;::"'lrl'n"r' ::r"li'.fl; - Não
Se o outro mundo se pârece com o que dizem que
*ii,,,:;ixi::i[]#. - minha mãe deve compieender. EIa nunca me amou '
êle é.
nesale â morte de mên ir.mão, detestavâ-me. Não ienho ra-
jnrptidco soblcniluldl qLlc eLr lcfta .-?az
diria zào llara faicI ao s'rlhcr' :rarca,]1ente ?
(Há um qualio f" nl'l: i".,:iJJ'i1o"1"n."'.,. : tni'.-
"q lr!' À senhora nao ifipolta minha opinião...
de escrever, afinal r1e conras' -
tanto, PLlde escrevé_Ias )
111
DrÁrro DE üM PÁRoco DÉ AI'DEIA

GEOROÉS BÍRNANOS
1'?6
.,.T",,]";]1 ..,H, 1!t li,ii?1,"", Ji,i:'s:,":1"^'§:,1":'%;;;â"';:'?n:â:
" ioo
,*.; :" .lnl;:'liJi:i: l* l"" I ,, n't',o,u. 1.'i 1 '5"1:1L'1",ff#:.J:'T'liXi:"';
"." P."l'a que nio rdr\.inh : na T""'§..i náo sei

Lii:;i:: jll: ".", " ' n.s Prx tinha âs-rr


r , r,1ou iJzen.lo 9qrl,,,,l-'.:-:1;::."li ";;,*'mim.
.,
,

'r" ""15 ijfllii,:u'":'á'::l;il';,' Íarâr-me dc perdào'


.",'" i;;ji l:{:', o"l',;:":"I"T,':':,
!"i;,, l, "',,: :",rr l.:r,I;i.":I, "'
c
|on'o :;11"..:"i^"."";'H,S: JJ.i:tHi
1'^fr'rf'
Todo-Poclero'o' ":.:'l'ià;el;;l ; í" à."nno.u
l',lil :.,' ,;;;"1 ,, o.,. ,, :;l:"iililltll;uT,,","i;
"'i' *" u"'' 'ei.
a carioe.t, nàoi oqrr'i o,múnoo,X liim,*à,,r,ro.a.
cu,.,.sn Ieflelir sÜb'1 qu'o- "saria
l''" l' i' i)' '".,'' ' "' rn
íj. âcórdo comigojusr:'J nir'rr:.el;'iioüia
'lL'r u'" 1"",n...au""misericorctie "
iiç']i:;;.:i ,1,::'u" '
p"'"
ií-É.po um dii.r, scnl'ruê--r
sle,
' e
-u
ârrcpclul
ci"X'iil, lrreparxvel e
àl^'ii" "ü r"*
a si ríê'mâ d si
rncs',.a
""' ?li tt'';:, ' l:ll,i,', " *'"
"ucontràr
0""
YX""i" bem. o senbor náo sâberá coisa algumâ '
- N"lü; ;: 1:
r., r,
.r1,i,11or1;,J;'i";
I-r.u"l'.il"Iia teixa."fTà'i,ifi;
OLr. ndo rd sarnoo cn\'i lju'
('-roo-^e',ii,r.r,
i,:i$i***lr:",..* .l paredc. com 05 braco"
O conue só chr gou cm
\ ollJvd cio crmpo. ,cdo cnl2rrcaúo'
ír {
dê hora depois.
, nÀ". d r*
r"lâ']ii*.iróá"!or-*
*ü'$**.ru ,t lnijr. Pua"." que chcil 'r!a I arcouL'
.rê mê pn.ontrxr rlL. ... ? Ai eslá o !or-
Minha IiIIla dcu_lhe os Psperl nào

t,l'$*qffi -
t::u;;il at"lltç;1,'"tl;,''n';l;'T$á
n'i-ciro.
-
irôe\ma

inl"'à
coLrr'
TnfellzmcnLc, as taLlra§ uc

-- #;; i""'r'.",,'t'
ô s' nhor
n1o me uis"
nco
§';'iiT?-tiJill':
,rru jr e daqueia época Dro

"t" i%l'ilii;" com minhâ lrrha. nâda"


eslêvo com
'
I ;a 1

il$ffii*:mltil,,,n";i\ru: -
Acallo dc
-Chartal nào haviü
vé_la '
v;.;h;;. rnrnhasaido
rrrha,
do
o':':,1#Siiif i;n.
PÊqr ",u
0,"

:l :'[ç .tl'ru;S-*$*i'i-i'*-'
CEORCIS BERNÀNOS
Dri.ÊÍo Dt úM Pi,Roco aE aLDEra 179
1?B

O chequa. Suo cadcrrteta está na esclivaninha do


esl av3 âl r'ás d, po,1 s pois.apê-re:' :, lt"1rili;1""1'"1#'ü" â -
salão.
I;sionorniâ oo soldc mudou tlu "'Y]^*,,;.;r"..É lorrr\.êlmên-
..r.Ílitar
';' €m meUS l)rúprios ot[os Mo
x':* - Deixc-me em paz .
À voq'.3dc, pâpai. Eu qucrie só poupal ao senb.r o
;;i;-.i";". Eri o orh'\ .l:' :Lii,::.i,"il; - de disculir cssas qucsiões com Lulsa que está, ver-
tmbalho
riso. con c cc,11,., .'F trmd ""1"i: '"l,,uJ'r;i"';i:á#rl* i"-.ir,,nte dadeilarnenriê- transtorna.la.
lêz um sinrl co a cibeli\ ' uomo acr Fela primci|a vcz, encarou, de frente, sua Íithâ. Eta,
sangue lrio numd. pessoa l!o o\'êm
:

_ F'âtâmos de outlx crrrla, o .lr. Vigár io e êu. disse fo1óm, nãc baircu os olhos, conselvando um ar dc surprôsa
e de lnocônciâ. E, cnb.ra náo se pudesse duvidâ! de quê
o,^,,, i iá# i,'","..'.; ".",-f ' :l'.? .-q i.',,Tl;fl li'"":i3;; cstal.e IeDi'escrltlildo uina coméa1la mcsquinhâ, haviâ em
-the caria btanca Esrâs "clllneslsses. chequ' sur al;i,uàe não sei qxe de nobr.e, urDa esóécic de digÍrid!-cc
;i',',;ã;;. ;;;",1':" ot 'L'r,rrb'1
I ' '' rs"in" r"rnhênr um
L oe qr' cla cleve pêrtir esla airda ir1l;,,niil, cic ârlerjlur-â pr'ccoca, quâlq,.1al coisâ qlre me
iã.ã'ãIi,r''r' "",'.' oprjmia o cotâciio. I.tra .,erdâde, eatava julganCo seu pai; seu
a'si"lir 3os luncrâis 1 jriig.lmento err scrlr apôlo e, prcvàvelrnente, se1n peidão, mâs
'utdl csl, lcrl'' I I'li '" o \ei
g'niê' nalo sêm'Lri5',eri. l! ráo erâ o,icsprêzo, cra a laisieza que ]he
csllrnno c luda a
"-l'iü" "o-o *,"1, . orê Pêrgunio ao conlrario quem.ó
rsso vai-úie1er Cava iôrç:is pâi'à a1o ir]âr' sau veiiro pâi, porquc nadâ hnr.,ia
no conde que s! plldesse harmonizet com aqrjcla tristeza: êle
^
."" ãi "ãilt:,"i.t ,"rôrcià Dspois' qu'e se há de fazer ? Ela !ão e ccmprêcndia.
9""_ ir_sc
áuer_ emborr. '
o conde co_ o chcquc. \,,oite daqui a dez ininutos.
14,i1r"'p." ' n". inrolnoLl_vJ \islvPlnente
\ua lilha conlinua\a 1ão - Vou assinar
Chanial agraaicccu coir un1 solri:ra.
l'ur de
,".u'â* i. ã."rr,, '. 'n"'1áod l-'nqüi'a'
.?'.i"ii]-"-ni" n",,ol. qLrc s' locnava impos- É umâ criâiq:a nuito delicâda, muito sensível. De-
ve-sê- condciJccndcr Drulto coni ele, disic em tcm arlogânte.
IírJ náo rn,1,"n't"r tn' no tr_ein'o 1n'r1' À lrecell'loi:a nío a iratava con1 bastante coüsiderâcão. Íjn-
"""':";;;;"- dc ordenaclo' prosseguiu' acho exâgerâdo' quanto sua lxãc estàva !ivâ, â pobrc rnuihet pôde evitâr os
até ridiculo. choques.,. NIâs âgora...
T".Il.tu,rto, foilur o impoÍiància g"" q.19"1'?T,i:"1:l:
â r"'r'-'""'---' CcndLziu-Be à s.ala de janta!, mas não me convidou
Ira,IJr.
mamáe, quârdo Jalavam 1!-1.^ !là:rpedi']a ÂIiás' êsses
senhor e
sennor .,co ã ^ -^-." dá viaÊ(tn: parâ e§seiE1r.
ués mil tÉn.o. - l''ofr Lrrrtr.. - aoi' .":1"",n$lX'l;l'"",1;
"onta gr. Vigái:ic, continuou, é melhor falar-lhe com Ímn-
lã"à Tà',iilili?-,,liii,i'*f i'uituo-ã - Ecslejlo
? ''L'"o ? pr r|i que
marrlimo e,i: '--*-,,-," quc:a. o clero, rlcus parentes hantiver.am sêm-
Col:lo Qu. fo
.
iJa."."-ii'à'l iirr' na casr LIc
'u:-
t
ia^ -Pl:nl:s
rs, Ire excclentes ]'elaçõcs com seus predecessores, nlas eram
"ru ilil;;i;i;;;t".ü"':''';'*o
úá d"' u"n" 9l'-.::111 ::: ""*1
rc1âqões de defer:ência, de esLirnâ, ou, ma.is ei(cepcionelnleúte,
de aürizade, I'iáo queio que um padre se intrometa em meus
,t,*;:;;",;;1i'; ,1:T 3Y; vida'
t"a"''nu ]:,il '""fú"'"X
cntre nós' cesos de fâmilia.
;**âfo".là:$t,$;;i"r;;)ip"*''ãà que somos intrometidos nêles, contra nos-
""" lbi
náo nâda alcgre' - Àcontecc
sa vorltade, respondi the.
ô conde lom6u 6 clcrrs_o oe TJngãr'sê: * O senhor' íoi a causa inl,olüntár'iâ. . . ao mqnos in-
"-'i.-. l"* liq* por di com suas rcllexÜcs Que está
' conscicnte... de... de un-ra grande dcsgraça. Quer.o que a
espclando ?
DrÁriro DÉ uM PÁÀoco DE AlDrIÀ 181

dEO!G!A BEÂNÀNOS
180 meio de rompê_lo;
riâm medir. Dcii nào dispõem
i; :'J ;;; ;"".';;;; i
ji' de nenhumassociânclo. insénuamente'
" "olsas,
o_ lento dêcenrolar de seus so-
;;;.róiil; labor cotidiano.que. vêzes. Ó solidào dos pobres !
ntroi... ete o dia em às

n*l;itit:*m,$tiit*ri*';*m Denois cle lcr sscudiclo

§"d;" ;á.;;;,;;s
as lapê(arja§ sentamo_nos .um
rnjlrntà. no ban.o d' pedra da sa'ri"tiâ Vio-o na somDra'
cruzades circunspe'tàmente sôL"c
g*+*r+f*t"lr[*]r[.;"lm "",r. -rnroa ioelhoc, o corpo inclinaclo para a lrent'e â curra
mecha d"p cabelos grisalhõs pegada na tesl'a empapaoa
---
suor.
(re

perguntei-lhe
Que pensam cle mim na paróquia ? -
t"'-'1' -
- _-"i"-"rd" convorsârlo com éle senâo sóbrp coisas.insi-
bruscamente.
*", tio, o cóneco^dcra -M.9^1.;i"*iXHl^i,::'11T"'X3
'lii"n,
*,r'"'Íit Ã, que n,'Lunt, a"ula.p"tec'rlhe âbsurda -.e
;;;'";;;.";; mà respondesse À verdadê é que me Íéz
tftT*-**$l:hi'hílillt'"1#*:rt **-: muito temPo.
esoerar
ú;; Áo"'o uettrot n:;o comê
,,'rn, voz cauernosa, ê que
direito acabou por
o senhor vira a ea_

l",Im: n;ru',{il ";iiit:xi}*t" p,l[l


"r'^,r"" ".-
il";:,fi;;ót;. outro mundo'
* ;].-úmo, com hiirórias dovocé
*":;";;;rar;
a quê você p'nsa de mim Arsênio ?
ç"n"ti" pot rnula i"mpo ainda que dâ primeiru. vez' a
'trabâlho ciandolhe as costas'
hfu5?iJ"1dTi"{l[d.Íii*tu:xi',.:,il'.,";"idl't',5: tul
'* p'o'À'a ôü"?,.*"i rr;u
' r,l"lmlnne oDiniào, o senhor airda náo tem idade '
ouis rir. mírs náo me senti disposto'
l:õ;;;;;r. o,.6r,1o. u i6sde virá com o tempo ! . pa-
aÍas- êIe coniinuava, sem me ouvir, sua meditação
.iênte. obstinada.
-'.-: ii* visário é como um tabelião Aparêce em caso
*tr*íHii#frftffi*fli#ftffi "'
trâbalho
Nào dêvêriâ perturbar os outros'
"- iür" ãn"-.'ãr;ênio.
ae necessiaaae_.
o'tabeliào lrabalhâ pâra sj: eu
Dara Nosso Sênhôr. NinBuém se converte por si so
'-"-i,"'^iiG, ."u u""qala c apoioú o queixo sóbre ela' Quem
o
" visse poderia supó{o dormindo -.
--- àonverter.
h-tql*t**:,,:":màqtrir*$tiiffi , contjnuou afinal, coflverter" Tenho
l3 anos-ã nunca vi isso com meus olhos Cada üm nâsce
nasceu' Nos nos Iá
irl.i. ou aaouele ieilo como
,;r-g*'{#tn.$s+{s*lq';".i'fl*sit e morre
ã. iá."r" .ã-ir. ã"'tgreia. Meu avó era sineirc em Lyon' a
,IÁTIo DE I,M PÁRoco DE ALDEIA
LB2 CEOEGES BERNANOS

clo v:Fario dF lvi]_ de âlgum tremendo â1c1il de Chan!âl e tenho mêdo de o


.lcÍunta r.linlrJ Ínàe {4rpr.8ada Ímpcà'a
nl' no::o qu^ I' nhil atnl1ecer.
il#:';;,; .iir ,.- irpto ce ,tgLrm n
Depois, é preciso calâr-se, enquanto â morta estiverob
;;:;1.. -;.."". o. Jr o sanguc qrr^.uer c'siilr. nio h'- ::eu tetà; átó àmanhã ! Meis teide, talvez... Êsse "mais
jn't0 :3rL,e. polint. r,ltn.. ''ri. Mir'r^ .ilurqào no prróquja s.
.r,,,,a.. or.ontrr''ó com !o'rn ' no c;r' di"c'_)1re'o
I Í.Ô' oos rvo'vc ''r' lo],no',1 tão difícil quc zr intcrr,'.nção do conde junto de
*'1"" i"i','i'"ii, '''lú n'"ir" rn,'u r' 'n:.,1ô: r:nhd pP'd"'i li. Ey, i,. têró c. r''rr,. 'rr.. fl r o i\.1o.
..nuíir'-^niul ,to'iio.., ru', n'onunciou s.x urri Não importa ! PoL mâis que âs releiâ, perecem-me vãs
;':"';i,;iq" o" o o,li,' o" no\" I Ui ) 'ro 'n"r'u'civêr'
r:": *Lx um t \or cstas páginás nâs qrrâis nà,da ellccntro dc repreensível. É
;;'o,;;u ", ' 'm urrJ \ô4 que nenburl laciocínio (lo m,Jndo píiderig provocar â ver-
'"
oue Dareaia vir aio Iundo rlr\ rdxll'':
oul"cà , e"nl' rrrorr' ' li'':u n orfc
'- ;.;'';;;"";-:,'"""c; dls'e ôle
d lc'- da.ieirâ ídsteza
- a Lr'isiL'zâ d:r. alma
-
provocá-Iâ ou
lo' rÍi" '"r s(n:ia 'dper or''
1'encê-la, quândo ela cntrou cn1 nós, Deus sabe por que h!e_
0".:";;';, ;:i.;i. Iii"ru qtr, r c rl Lí' nÍe nPlr nn rsava .he do sei... Que dirjcr ? Ill:! nalo cntrou, está dentro de
is1-v3 ulcn,r. ndo urrr' 'ai rr' q' ''bl' nós. Cadâ diâ me cônlen?o mais de q1]e o que chamâmos
êr'1ixqu^
Llc ub in'epacicxoc 'Ô'''ln'
odra imr' tr:steza, angústia, dcsesl)êr'o, como par'a persüadir-nos de
n.,"rllo n"r,rt" dr cr'nl::' :'u
r'ri'r< no
cld" que se trâta de certos moÍimêntos da a1úa, ó â pr'ópria alma;
;il;; iil; , rcrn:r. .it 4 r',1 -rri ")'rêrrê-r'ie 3 h :mrlde dc que, depois da que(là, a condiqão do homem é tal que nada
1;";.;J,; ",.,,; "; ,,t';",' r,, ", rdrida ma' quP
."rré"íi" a. ' su r.';. rrrc r' ' | \! comF cÊÍ:aI rrbô-râsr'm n-:dr'
b-l-
rnais podeda perccbci em si, nenr Iorâ de si, senáo sob a
;#;;i";";i'" 'i,,', r'. n'" h rd'rro r'sjrimJ'
''n , n'- l.'s54o" b'iizrios r'i' o i'^n-
loima'd1 cncúslir . O mcis 'nd:lêl.rt. c.' 'obren-tural con-
líIi".,iJ.,", .. rva, r'té no"praz"r', a ,cns'iênciJ ob "ura clo e)pantoso mi'
'ãiiã, "
c lírvl lr',1,. o,ot.'x ' ''rrnL: mevcnto cê -c'enl': lxÂr.' qu. é o ilor...rim' nlo rie lt]If \ó alegr:a em um sêr capaz
-;,
li.iiiiL"i r., "nr,,,,u'c* I : Ili ' 'i:'ho no 'ub c ,lo conc b." s.u prutr.., cniquil.'rento e Íor.ado a ju"liÍi-
àh.,va. car, co1l1 grande trâllalho, por meio de laciocínios semprc
precários, ã Jrriosa rcloLta de sua câlne contra esta hipó-
tesc absulda, horrívcl. lIão {ôs:e â vigilante piedade de Deus,
perece-me, ao primcilo instenle em que tivesse co[sciôncia
_'a r'. si proprio, o homcnl fôlrrn-.:5 ao pú,
Aco:l oü. ,'1as linhl 'or: roir' I'1.''c ilc" olho l"om o n Àcabo de fechar minhà jâlrcra e de acender um poüco
âbcrl3 sübr" ir a d'"Jro'n de r';"1 ' .lc íogo. Por câusâ da grânde Cistância de ume de minhâs
^,.',i;"'r1ãrà six':s !j"i\êi" âpP'1r' a..rr'u ullru"'
;i;;i",],-"":- rnsirevc.
p"qii, no\
eYr' micl't'io\a lin(u' en i'
r cepclas, sou dispensado do icium sâcramentâl, no dia em que
;li. """rrii ,l devo celebrar, ali, â Santa l4issa. Não quis, até hoje, usar des-
'J:;")i;";,,.;.,;;'i. as," 'or'c
r,tr;n ' ho'as
jsx
lsLou 'nai" )'"oi '
ner' in'u'li'i nr:o ci' sa tolerânciâ. Vou agora csquentar um pouco de vinho açu-
Bri i:;;;'; ,-'dô a' rP rr
". o..^ m" p m;1rrrlLn"'.to cârado.
à'j,ià. . io,."",;
Llo t,, .'n nr rmrnto
por si rr-smo' 'r rr : "1 or'an- Relendo â carta dâ condêssa, tenho a impressáo de
ií i, r.'ir.., .".â,",irr nuo' ptrece âbsurdo' Pol ouc nao vêla, de ouvila... "Nada mais desejo". Sua longa prova
i.'f ll o ,r. 'I lcio i.'"o mê
n"ôr'r'io cÜ-' Lo d' la cstavâ terminada, consumadâ. A minha começa. Quem sabe,
lini áo""ona" um. ricce:sàrjequ'-o
pxplicario
I Priôrió porqun "u pello ó a mesma ? Talvez que Nosso Scnhor tenha querido oolocar
ii"ii !. r",o,., lure.uc
184 GEORGES BERNANOS DL4iro DE úM p.Áaoco or ar,onra 185

dizem. vão psra os ronventos, c a pobre. câmpon.ses como


sôbre meus omblos à cârga de qu€ âcabava de libertâr cu é quê \ão conliar o pôso dê llés paróquias: Âliás, tahbém
ãáirà, õonde m; vinha êsse misto de âIc-
""irt"ru nao sou proorrrm^nle um campon..c. o s.nhor bnm o sâbe.
ãiir . a" mcao. e,:i
".sntâda.
.n ê3çalom i tri \ idcne. nÔ momonlo e"Y)
Oc !eLdadeiros camnonns, s dê,orp,am o inclivi.iuo. Co,no êU,
ãue a abencncr i Á nrulher quí' a"rLi \r d^ ab"ol!êr' c que a
iio'G :,:i, àoit,o., algumus i'rot'. s nrâic t'rd' à enlr'dd do empregados, crjados, quc mudam de região quando mudarn
prr, ! \o:uri'1'a. o,''porlso ll^n.bro- os patrões, isso mesmo quando não sáo contúbanc,listas, câ-
oucrto tâmilia, Í ilc çadores Jurtivos, gcnte sem lei nem rei. Ohl não me íomo
-me de oue no o'.1 s' erl'rl ' ., u r"lúts:o rÊ en'onlÍcva !'nLlx
por um imbecil; antes fôsse um tolo. Nem herói, nem santo,
a oar' dP. no luqà- cm quc o hâvia puslo' anl's dê üem. - .
""-*Àri.,i
se áoitcrt, perlennra iá ao nrrrrou icri:rv'l: contêmpl'i'cm
o iêf1exo dâ pâz dos mortos'
froite, Cale se, disse o vigário Lle Torcy, não seja crianqa.
o saber. sôbie sua -
.SoDravâ u'n vcnto fofle; vi sübitâmenle sàu velho rosto
Tenho certamente de Pagâr isso. azulado pelo JIio.
N. B. ._ ,4qai Dtitios pá'Jina, lorom otron(odos plrece
oue àirissaac, m'cn t o qttà íe'to i-crito na" n1Íitg?ns é i-te'
". ? lô toÍjoda rcm r-sto- ilc pena lõo -ErâEntre
a
aí, estou gclâdo.
pequcna
árint,'"oaa DoloDta ,lenha.
- cabana onde Clóvis guarda os feixes de
ácenlutrlos qur lur,rom ô popcl em diL)ersas Iugarcs-
(üma iôIha bronca Jicau intacta Só canté'm estas , nos.
ce - N;o posso acompanhá-lo à .ua casâ. âtorâ: quê diriam
çê nos vissnm? Dppois. o Sr, Bigrê drvp reconduzir_
'' ' '
iir?hds:)
_Iê.dc ca"ro. pir"a To-.y. Nn .lrndo, \océ vc. cu .te\erià jer
nesolvido com^ , 'lou Í nào d( st ruir islp diário ma§tendo lrcacio mcis alguns dias om Lillej êslc tempo é horrjvel para
i"rnuào l"áLp"nt;u"l ,, rcr.âr algumâs páginâ' ês'rita". em mim-
"ver"daae;ro a,li-io, qu.ro. tndxviâ.2'Lr'âl_mê de que ês'3 dura
O serhor veio por minhâ causa! disse_lhe.
ã -ài". a"l'"ncáu cle minhâ lobre vida. pors não node- - princÍpio.
A
.iiu i^reirãi nadr cle lio'
"r""ã: encohlrou me üm momo'rto' le\,antou os ombros, com cóletâ,
o ênlárro ? Aljás. vo.é náo lcm nada .om isso, me_
ie- ieii?"àçao, ""- "oiagem; que me veio a algu
e tentâçáo de " _,-^-l-!
nas ltnhds nrho. tâco o q c quero, venhà \ er-me amanhà.
r A írase eslri itocotni,t. Fotlúm lombém
no coméCo dd Pagina scguinte ) , -,Nom amanhâ. ne"n dÍpois de âmanhi. nêm provà_
velmente esta semanâ. a menos que...
alê tantos .,â menos que,'. Venha ou não
venlra. - Deixe
Você c"lcula d.n Ji.. Você ê.tá nc bicâ de se nar_
der no.rn.io de.lantos advorllios. E preciso conslruir â v'ida,
bom ciâlirmrnLa. .omo umâ tra"^ à lran.psa. Cada Um
.'',.que é preclso rÍlmp( Í a lodo o rusi')o serve a Deus a seu rnodo, na sua tíngua. OIa bolas ! E êste
I cÂ-" dicsê. 5 loclo o cuslo ? Nào o romfreÍ ndo NêrJa
e insig- seu aspecto, seu ar, csta capa por' exemplo. . .
-*Ã""ra""á" üãi. ""iã. 'ullt."' sou um pobre
iiii"Í,iü .áaii o"".ó que,' pao"ar dê'lPrccbldo sF te(o toli' Esta capa ? Mas é um presente de minha tiâ !
-* Você
'-'^...ri Gii"..'.:" própri"! o, mim ld'ipm me riuÍculo dê- parecc um romântico alemão. E depois, que
,àii*i,-ãi-ãoÃrr. motiio dc ri.o. S.rá quc náo poderiam carâ, meu Deus I
tambêm derxàr_me um momenlo oara vr t clêro1' Mas qual ! Tomara n-a exprr 5sào que nun.â ha\,id visto nele, uma
iiÀ]áiiã àó pua."". De quen-r â cufua? os tipos de eliie, como cxpre5são quase de oJ:o. Creio qup. a princrpio. tinha de
186 GÍONCES BERNANOS Dr,(!ro DE uM !ÁEoco DE Ar,DEra 1g?

Íazêr grande esfôrqc para me fâ1ar severamente, mas âs pa_ :919!u.:Íd3 um de nós em seu vcr.ladeiro lugâ. no Evan-
lawaÁ mais duras comêqavam agom a vir-Ihe à bôca e talvez gc,no. Ut1t vejâ quo jsr.o nô" r.juven.sce cleãolsmil anos
que o motivo de sua tritação Íôsse o fato de não âs poder ^,ma$ arhda: O tprnpo nao ê nadâ nara Nosso Scnhor. seu
evitar. ol).raI O aLl.dvê§sa. DigO quo i.lLl:ro antes do no\so na.cimen_
sou eu que fâço â minha carâ ! dis§e. ro palâ lJlar êm l-n"u rp.Ín humAna _ No§.o SenhOT
- Não
sim I é você ! Ântes de tudo. \'ocê se âlimenta de
-
co,rLrou-nlsTrn.âlÊum lugJr, nm Belêm, em Nazari, nos
en_

uma-maneira absurda. Prêciso rnesnto falar-Ihe a êste res_ mrnnos dit calilaia. s.i I; onde: Um Oia, seus ottros
-\€"4m em nós: Ê d^ l.órdo.om o lu83r, a hora, a circuni_ ie "i.
li
peito, müito sêriaüente. Pergunto se você sabe que...
Calou-se.
rrncra. nossx vocl.jo l,omoü seu câráler pârti.ulâr. Oh !
n. o va pensur quc isso a. l,.ologtâ | Fnlim, eu Dcnso, imasinn
Não, mais tarale, continuou com voz mais suâve, não
-
vamos falâi disso nesta casinholâ. Eú uma pâlavrâ, você
sonho. qu^m sâbe 1 eue s, nossa alma que nào esor;.,i'
que a" lembrt \cmpt.e. nrd,,soF arrastar hosro
se âlimentâ coütla o scnso comum e einda se admirâ de (tô.se.uto a "^clrlo. Íiz.-ro rcmonlar eçlâ enorrn;rrofr"'-"o-"-,i,
sofrer. . . No seu lugâr, eu também teria cólicas de estômago ! onco.la àe
flors miL 3nos. condLl.ti.lo-iJ. dit.êtâr'1rnle, a ésse mesmo luírâr
E. no oue sê relerê-à vida ini,.r ior, mêu anligo. lemo que não .m que... Comol eue e que você tem? eue cstá:tcci:-
seia a'mêsma coisa. Vo.ê n3o rê7a o suÍiciente Você solre cendo ?
demâis pam rezâr o que rezâ, minha opiÀião é estâ. É pre_
_proporção
m.-mo
ciso âhientar-se em
dêve âcomodar-se à mcdida de
com as fadigas, e a oração
nos§os sofrimentos.
_ *{:T
nem "u r.lisso. tinha píiccbjdo que eslava chorândo;
pensava
É que... eu não... eu não posso ! exclamei. Por oLrp é qu( êsià chorando ?
- vêrdado
-E logo ârepcnali tÍlê ale o ter cônfessado, pois seu olhar .À ó qu.". d"sdê loLlo o:empre, é no Jardih das
se tornou severo.
^..
t'rtêrms que rnr Énconlto. e naqLlnle momenlo _ sim, é
você não podp r.7cr, repiía âs orâ.õcs como um Ic-lznlro nâqucle rnoracnlo prcj.O em Oue, pondo a l])áo
- Se Olhe.
Danâsàjo. eu tambÉm tivo minhas diticuldâdes ! O sob, e.os omlll'os dê pedro. t lc fôz esla pêrgúnla _ bem inútil_
jrrrnal.^quasp inoanuc. rncs láo.otiês.
à;àuo mo insplrava ht hofior à orâçào. que eu Íicâva enso- táô ternâ: -Está dor-
pado de suor, pâm rcciíâr meu têrço. I{em ? veja se com- l1,l:l:9:' Lm mo\,imento d.atma
:-f,ago"c. não Iinhx pen.âdo muilo famiLiar, muito
IrJriuât: ,lê
_
prcende isso !
c crre 1,ocê tem 1
nisso. e. de J.openle,..
Oh ! eu compteendo ! respondi, e com ial ímpeto que
- cle Torcy pôs-se a examinar-me longamente, dos
o vigádo
-.
vo.e^-_Que - repeliu
nao me riaulâ. està son'lândo, euem
o vigário de Tol.cv.
qu"r rezar, nào
pés à cabeça, mâs sem maldade, ao contrário... pode sonhar. Sua oração se evota em Àontlo.'Waaa
aà lnai!
gravê pam a âlma que essa espécie de hemorragia
E.cuie. di"ce, njo creio lêr-mc enganaclo a seu res- !
- Vâmos
peiL,o. ver \. responde a pêlgunta que vou lazer. Abri a bôca.-ia respondec. náo pude. pioÍ: Já
Oh: chamo sud âf.n(ão parâ minlla pequPna Drova. apFluts r ô€.muito que Nosso Senhor 1lô lenha ÍeitoTanlo essa graca de
pelo qr.:e elâ vale; nào é máis que uma icléia pessoal. um modo levelal-me hoje,_ peta bôca de meu vêlho mestre, q'ue iraãá
ãe reionhener a m'm ílesmo, c Íui logrâdo mai' de lrma vez. n r ârr'an.orid do tugar escolhido pat.d mim,
naturalmente. En1 síntese, tenho rcfletido muito sôbre a vo- í't^rnroaoc. revetal me que sou prFjoneiro da a"raà maà á
(Jucm ousarra prcvcl:clt:!ê de lal graça Santa AÊonia ?
cação. somos todos chamados, é evidente, só que cada um ? En\uguei o; olhos
a aeu modo. E, para simplificar âs coisâs, começo tentando ,,.rssrel-me. 1ao desâjeilcdâmcnte. que o
bom viÉário sorriu.
188 GEOEGES BEENÀNOS DIánIo DÉ UM PÁloco DE AIDEIA 189

Não pensava que você Íôsse tão criança;,você não palavra, e nem o Santo Pâdre o Pâpa pode Jazer douirâ
sâbe- dominar seus nervos, meu filho. Íorma.
ja1 que tenho êu que ver com, ..
fMâs. ao mesmo tempo, obs.r\âv3 'me de novo. com - Mas
vivâcidâdê dc atencáo. qLü me cLlslrva enormement€ licar Com essa históriâ do medalhão ?
calado. Via oscilar seLls olhôs e sontià qu. estâva a ponio - De medalhão ? (não podia compteender).
de alescobrir meu segrêalo. Oh! é um verdadeiro mestre de -* Ora, seu bôbo, alguém o escutou, alguém o viu. Não
almas !) há milâgre nisso, sossegue.
Finalmente, levantou os ombros, ccm ieito de quem re_ * Quem nos viu ?
nunciava. filha da condêssâ. Mas o de la Motte Eeuvron já
chega; não podemos pâssar a noite nesta cafuâ. - À ter
lhe deve informâdo disso. Não se faça dê ingênüo,
- éBem,
Á.liás, impossívil que No§so senhor o mantenlâ na tris_ Não.
teza. Semp_re obseNei que tais provas, por maior que seja - Como náo, ora essa I Muito bem, já que comecei acho
I

â desolaçáo em que nos submelgem, nunca falseiam nossos que -devo fu até o fün, não é ?
iuízos. dpsde que o bcm das almcs o .x;gê. Já me lêm con- Não fiz o menor movimento; tinha tido tempo pâra re-
iado a ser.r resipito coisl. aborl ocida', incrivei': não imporls ! cupelar um pouco de calma. se chantal altercu a verdade,
ConhpQo a màticia dos outros. Mas é c.lLo que você só féz deve tê-Io leito com habilidade e eu iria debater-$e numa
toli.es com a pobr, condê\sa, puro tealro I inextricável rêde de meiâs mentilas, donde náo conseguiria
Náo comprccndo. ârrancar-me, scm colrer o fisco de, por minha vez, trail â
- Você leu "L'Otage" de Paul Claudel ? morta. O \,igário de Torcy parecia espantado com meu si-
, -Respondilhe que nem sequer sabia de quem se tratavâ. Iêncio, desconcertado
qüp você cnlende por resigna(ão... For-
' Bem, tanto melhor ! Traia-se ali de uma saútâ moci_ - Pergunlo o
ç. r uma pobrê mãc a lanca! ào fogo a única lembranqa que
nha-que, aóonselhada por um padre do seu estilo, fâlta à guardavâ de um filho morto: isso parece histódâ de judeus,
sua oàlavra. .asâ-se com un' v,lho renêgado. entrega s. âo é puro Ániigo Testamento. E com que direito Íalou de u]nâ
desedpêro, tudo sob pretexlo cle inrpêdir que oPxpa caísse eterna separâção ? Meu Íilho, não se faz pressão sôbre as
prisioneiro, como se, desde São Pedro, o lugar de um ?âpâ almâs.
iôsse antes em Mamertina que num Palácio decorâdo dc
cima a baixo por êsses devassos do Renascimento quc, para - O senhor
eu poderia
apiesenta âs coisas de urn modo, disse-Ihe,
nintar Nossà Senhora. lâ7inm pousar suas âmantês ! Nolc verdade.
apresentá-}as de outro. Para quê ? O essencial é
àue ésse tal Claudel é um génlo: nâo digo que nào mcs i.cos E é só isso que você responde ?
Iiomens de letras são toalos iguais: quando pretendem tocar - Sim.
nâ sântidâalê lâmbuzam-se de sublim€. metem o sublimc cm -Pensei que ia arrâsar-me. Pelo contrário; ficou muito
tódâ â Dart€l A santldade náo é sublime. E, se cu Íó:sr r'on-
lessar á heroína de Claudel, ter-lhe-ia impósto. Iogo ílu illi.io palido, quase livido. Compieendi então quanto me amava,
a Denitência de mudcr, pala um verdadeiro nomc (lc crisli. fiquêmos aqui por muito tempo, balbuciou; e,
chama Cisne; depois. cxilliriâ quo - Nãonáo reccba mais rquela mocinha em sua casa:
seü nome de ave
- ela seporque, enfim, só se deve tcr uma
cump{sse sua paia\Ta,
sobretudo,
é um detrlônio.
190 CEOICÊS BERNANOS
Dúlro DE uM !Ásoco DE ÂI,rEra 191

Náo lhe fecharei minha porta, não fecharei.minha Quando chegüei ao presbitério, âchei esquisito estâr com
- fome. Minha provisão de mâçãs âinda não se esgotou; muitas
porta
- a ninguém, enquanto fôr vigário desta paróqula vêzes cozinho-as na brâsa, passando nelas, depois, um pouco
Ela allz que sna mãe o cnlrentou ate o Íim, que você dc manteiga. Âindâ há também alguns ovos. O virü-ro, de
-
a tlelxou numa àgiíação, numa alesordem de espfuito inacre_ fato, é horlív€I, mas, quente e âçucârado, é passável. sentiâ
ditável. Foi mesmo ? tanto frio que, desta vez, enchi a caçarola. Equivaie a 1rm
copo d'água, náo mais, juro. Quando acabavâ de comeÍ, o
-Não! a deixou... não apenas a
- Você com Deus, em Paz
vjgárro de'lbrcy entrou. Â surprêsa
surprêsa - mas
como que pregou-me ao cháo. Pús-me de pé, va-
- Deixei-â
I (dêu um profü[do süspiro). Pensa que, ao -
cilante; parecia Íora de mim. Ao levantar-me, bati com a mão
- Áh
morrer. ela terá podido conser\a' a iembrança de suas exi esquerda na galIafa, que se quebrou com um ruído espan-
géncias. da manóira pe'a qual você a tratou ? toso. Um fio de vinho negro, lodoso, começou â coner sôbre
"cvcra
molreu em paz. os ladrilhos -
- Ela
Como é que você sabe ? . - Meu pobre filho ! - disse. E repetia - enião e
-Nem scotler ti\e , tenlaq.:o d' rc{erjr-me à carLa Se assrm... easslm... com uma voz mergâ.
Não compreendi âinda, nadâ compreendia; sabiâ ape-
u*or"iiao iláo p"r""e"e riclicula. di,ia que. dos pés à ca- nas que a estrànha paz que acabâva de desfrutar, por uÍr
^üeià', era mai§ quc silêncio, silêncio e noite' noomento, era, como sempre, o prelúdio de nova desgrâça.
"uEm "louma palàvra) morreu. Que quer você que se
- alisso ? Cenás como aquelas §áo Íatais para uma car_ Isto não é vinho, é uma houorosa tintum. Você
pense - envenenando,
está-se meu caro I
díaca.
Não tenho outro .
Calei-me. Sepâmmo-nos sem nada mais dizer' - Vocô devia ter"me pedido.
Reqrnssei vaÀarosamenle ao prc'bilério Nào sofria' - Juro que. ..
s""ú-ilã-áte a:ijrdo de unr grancle pêso Essa- enlre\jsta
- Caie'se !
com o vieário de Torcy em como um ensalo geral da enÍla- -&npurrrcu com o pé os pedaços de gáÍrÊ.fa, colno se es-
r iiiã quõ itiu tcr, raialmcnlo com mcus
superiores: e 'u
r iniia âescotrerto, quâse .o'n âlegria. que nada l'inhâ c di7' I magasse um animal imundo. Esperavâ qúe telminâssê, ln-
De dois dias paia_cá, e 'cm que tivesse muilo clarafienl"ê capaz de ârticular uma palavra sequer.
consciéncia disso, rr:eu médo era de que me âcLlsrs|cm dê Como poderia você ter outlâ cara, meu pobre me-
umâ falta oue nào cometêrJ, Â honeslidade, nesLc ca'o. 1êl_ [ino,- com um caido dêstes no estômago; você já deveda
-me-;a imp;dicio de 8u;rdxl srlL ncio Ao passo que dc rJrra estar morto.
em diante_. estou livie d€ deixar qúe câdâ um julguo, à süa Colocou-se diante de mim, com âs duâs mãos nos bolsos
mânêira. atos de meu minister:o, suscPtiveis. cliás d3 t 'n i: ' da dulheta. E quândo o vi mexer com os ombros, senti que
ãivãiias ap.ecl-caes. E e'a tambÉm um grande âlt!io plra ia dizer tudo, que náo perdoada uma palavrâ.
mim pensár que-Chantal se enganarâ, de boâ fó, sôble o ver_ * Bem, perdi o carro do Sr. Bigre, mâs estou Eatisfeito
dadelio caráter de un]a conversação que, pr'ovàvclmcnte, por ter vindo aqui. Àssente-se, antes de iudo.
àuviu muito mal. suponho quc estava no jardim, dcbâixo da
ianela que é muito alta. -Não!*êxclamei-
Dr,Âlro DE uM PÁRoco D}] AlDEra 193

cEoÉGEs BERNANoS
fSZ cara a eara Prrecic que nos despediâmos
cle longe dâ m:lr_

mim como me-a'on- iãã aãrito clê um ieminho invi§ivêl'


*'":;";;";;,
E sentja I voz tremer dentro
'le cor:"luiu com \oz. tlm nôuco mais só
roLrc'r
terüo
flue de costume, ri;o va dar asâs ^a im3à:naqão
àlinàl e um excelente
liL}"L. t",'ã iqrl a delxo você
*",.'Ttt*,"*í+[*:*m"lf*+n$#;'fl ürà1"ãiiiià i's"- !,e.c! nLcldjTer
a pobrê mortc e precrso
confessar que. . .
§s"'* rtltt"-i,#'i. +[;*i*: i:"-;:ii'**:i
':i.+i:[ - Deixemos
Como
isso !
queira !
hora antes'
d" P1 nào o censuro -c*]ã.i* ü"yn de ir embora -romo fiz uma
r."rt". continuou o viBário de Torcy êle estava em rninhs cJsa'
#;;fi; i;'i'.eiro: mas
seja lou-
""
ilir"^-ãi'"!oÁi,i, tL" quê se clecidisbe a parlir' Deus
iiliil "pà"áiii'i q;; nào me {allrsse
b velho mestre scu olhar inqui"to que
l:r*:;*t*:*a'*ffi lfl $i*";[{pli,$*fi àii"*r*ii'ãltiãr'"rn3 vez sua
;;;1i;i;";-;" bru\càmenrê: echcia
rrussáo
eu ouli de novo a voz que
l?ffi i; # ;;"i;
?].i"".il g;:r
i:::'::If, iXll g':#l Hi#; iXiiii'iiiir.õ, i*t;. eudaz' pequenas de misleriosa alês'iâ '
miam mal. ou náo comiam de Jerro ,'ili;;:";e;i- e.pecie, f"- Trabalhe, disse. Ia(a coisas clia a diâ' en_
-
glrry.:ji*',l;.1i'-;":it";:r'lln-l,t;x1.""1".[:';,1
llli,i, iXá;à" s;;;; fri"i '".'no' quândo nos âbandona âs
coisas parecem nada'
i,i'"iái õià,r.iu. torqds As Peçluenas
como âs Ílores dos campos: a

ffiT.$r+*trsgt**;ffi
il"';;;';à" sabia. E mesm-o que vonê só bebesse por ora
';:X'i-:;":r";" Exatament'e
ii,:r"i"ãaã-á'i,;;
ã;l["ffii'i,]il'à-u
náo lem
'
pet no enlanto quando jun-
tume:
'À'úcao aus pequenas cojsas é ino-
iliiti."Íi,i i'ãJi p;quena coisà há um tuiJo será qLre voce
iliãiffi"$il# sdTll'l;11""*:;:e ru'"11i!il:':t reza pam os Anjos ?
Deus sim. ' . eu rczo '
'.'1ãi" qle vinho ! as tôrcâs c a corasem que - Meu
ãà ill-nã - verdadiiro grn g"tut' n;o pedimos sLlfi'iêntemente o socono
Xãâ!,iã""ii-ri,,- em
" i.rm bom um assâdo' Huma-
- teólogos por
;ffiili:'i"rãi,;"" ff":*,:t X* :::f iil"' 3"[3i1",;l ao" aniôs'. Êies m"l,em üm pouco de mêdo aos
ãi";'d;; ";ll.À;"'êsiac orientais.
de Anjos E a -um
Nossa
médo nPrvoso
senhora'
.ora !
você reza
iii"ün?o-
;ff;". ü;X'JAii; ;;"i:!:^":.-':'"'i-Yl'""33 $H",1,in",ilifl ".lã-"r.,"i.
a Nossa Senhora ?
ôh I .êrtâmente !
- íà"à àii'iiiã. rtaas sêrá que você reza. como -é lr
*l*ululí""Ê":xrri.1ãl^.-Ti%??"J:t.x'?';:'ó;; - iàtulr" uocê implo'a direito a protec;o de NoFla
i lrr'"
"u..ar:o,
à"iiiôi, nossa mà. náo se nodê duvidâr' E a mae
il";i;ã; ;;,"';; ; nova'Eva xrâs é também suâ lilha
i"ix,,"i*;S*tmlm'*A*t*qr":s*
194 GEoÊGEs IEBNANoS Drállo DE uM PÁRoco DÉ ÀtDrra 195

O ântieo mundo, o doloroso mundo. o mundo de ântes da caalo. À{as sua morte, sânto Dcus, cuidou carinho§ameÍlte
;u;; ã;ú;ú;'", lonsamcnle. em seu desolado coraçáo dela, nada ihc faltou. Ao pâsso que seu triunfo ioi um tflun-
ã"iànt" e sécõlos - nâ obscura Êxpeclativa. -
na ln_ lo pâr.a cdança, vocô não acha ? Uma jmag.m cle Epinal,
"e"rlosesperançâ dê urnà virgo Genitrir" Dlr- com o burro nliüd,nho, os raúos vefdes, c o pcssoâl da roça
iãnL" i""u'o. o seeuios. o mLlrüo lrrot(gLu com suâs velhâs
"ãÀpi"e".iver bat€1rdo palmils. Uma genlil paródiâ, um pouco irônica, das
rnáos carr{ Saoâs de crimFs. suas peõâdas mao§. a JorenTl_ maqnificên(:r. jmp'ri"rs. Nosso Senhor frl'.ria sorrir,
Nô.,-.o s,nlú'' soLr:a. J túda horx. Ê]e nos ílil: Nào lcve
nh. mr.avrihosa, da qual ncl.1 oô 'nÊnos o nome sabia Umá muito a séiio, mas, eüiim, há tr'iunfos legítimos,
i.uotrl rainha àos ÁrJosl E i.incla o é. a rainha dos es§â,s coi§a§
tliuniar; quando Joana d'Arc
'a;t"i ;.",f*<e esoucca I A lisd^ tÍêula compreendeu ludo' vocês não cstão proibidos de
rob flore§ e auriflamas, com sua Jor-
Ma"s ouem é ouo_podc irnl\d:r oq ilnboci§ dP relazc' a seu cntraÍ em Orleans,
màào] o arurira da gncainaçào . como éiPs dizêm ? Ágora' mosâ capa tôda doumda, não quero que ela pense que está
.." ,urna- obriqacios, pair mâ:liÊr o plecliEjo a vestir Íâzendo üm mal Ieito. Descle que \ocês gostâm tanto disso,
",i.
de oolicniielos scus ntod,'tos Juízes de pâ7 ou a coser ga_ meus pobrcs m,.r1inos.5anL;,'lqu i o triunlo. abencoei-o. conlo
io".'r-ra" aaa,gr do.i cmpl'eg:'d,:i d^ eslr-da dc lcrro só Do- abcn(oei o visl.o das villhab . E qu-nrc aos mihgrPs, ltote
;"ri"^-;;.;ã ánvcr'çonheri " dê conlesirr aos incrédulos bem, lbi a mesma coisa. Só fêz os que eiam necessários. Os
;;;; ;;ico à;.". ó orcma .lo' drrr'ras -nem porque nào há milagres são as lmagens do livro, âs belâs imagcns ! Mas,
olrrtr16 Íoi ronr(senlâCo s'.l1 clecolâcõcs passamana- agorá, menino, veja bem uma coisa: â santa Virgem não teve
-
âs. Veia bem I O Verbo S" Iéz ,alne. e OS lornallstâS Oa- n;m triun{o, nem rnilâgres. Seu Fitho não pelmitiü que a
ouete l,einpo nada soub( rain. No entonto a experlencla oe plona humlna a loÇasse, mccmo com a mais llna extremi-
áaa dia li',e. ensina que as !.rdadeirâs grandezas mesmo i.de d" sua enorme â"e ,el\âgem. NingLlém \iveu. soÍreu ôu
humânâs. -- o eênio, o h.lôj'mo. o puÚprio êmor seu pobfe morreu assim tão simplesmcnte e numa ignorânciâ tão pro_
,i'ror sáo'oiricirimo" cle s, r leionhecidos ! -
De tâl modo funda de suâ própria dignidade, de uma dignidade que â co_
ãr,"à" torer,la e io\r vczcs por c' nto que vão levar suas loca. entretanuo. ccima dos Anjos Pois, atrnal de contas.
iiores de retórica ao cemiÉrio. só prestam homenagens aos n!s.êu sem pecaclo: esp-ntosa sollddo i Uma lonlc tào pura
*ottoa. a santidade de Deus! À simplicidade de D-eus,d-osa tl"o limpida, lio limp,da e táo pura que ilão podia sequer
irlmenaa sirnpticiaaa. dr DÊrs que condÊnou o orgulho re"i(L,riuo própria imagem. feila alrênâs pârÊ a alegria do
í"iâ"-iãln. à demónio .o|t:rmcnte l( nlou contemplá-la Paii ó sâgrada solidão ! Os antigos demônios Íamiliares aos
e a im,nsa to.nr llamejânte colocâda no cimo
iã"ãã r""".'precipitou-sei homens, amos e servidores ao mesmo tempo, os terúvcis
da cÍiâqáo de um golpe, nas trevas -O povo patriarcas que guiâram os primeiros passos de Àdão aié o
iudêu tinha a cabeca clulc. t.nhJ mesmo: poÍque sFnao com- limiar do mundo maidito, a Âstúcia e o Orgulho, olhalll dc
iriàÀ"a"rla ou" oeus reilo homom. realizando a perÍei(ão longe essa milagrosa criatura, colocadâ fora do seu âLcance,
ào homem. iorreria "* o risco de pa'sar dêspercebido; linha a invuinerável e desarmada. Certamente, nossa pobre espécie
cafeca Oura: porque, senáo, abijria os olhos. E veja exala' não vale gl-ande coisa, mâs a infâ.nciâ comove semple suas
menà. o episódio_da enlrada triunfal em Jerusalém (eu o entlanhas, a ignorància dos pequenos a obrigâ ã bairar os
i"í. iàã #1. tr . Nosso senior dignou-se desfrutar o gózo do olhos -- olhos que conhecem o bem e o mal. olhos qLle viram
t"iu"à, àe tudo mai". como da própria. morte: não re- lantrs col5as: Mds, rpesar dP ludo. no cdso. há apenss
ã"iáo "ornonenhumâ de nos§as âlegrias. só recusou o pe_ ignorância... A Vtgem, â Viryem erâ a Inocência lmagine
"""tia
CEO§CIS ABENANOS
Dr.íiro DÊ uM P,ÁÍroco DÉ Ar,DErÁ 19?
agom o que somos para ela, nós, a raça humâna ! oh ! na-
turalmente, Nossâ. Senhorâ dcíestâ o p.rcadot mas, ao Íinal e é só disso or:e mê aeusam. É muiio possivel quê a emo(ão
das contls. náo tem ncÍúun].r.rpcr:incra dêle. êssa expp- lcn\â aDres:;do , morte da condêssa; o senh-or vigârio d''
riência que rlio I:,'lo ao. nra;or, § scr.ro.. ao próprjo síltito Torcy eira, âpenas, quant,o âo verdadeiro cÊráte! de nossa
dê As.is, por n'ii^:rr'-lico ôu' lr::h'r r:do. O or:iar da Vi.- eniróvista. Põr mais extmordinário que pareqâ, tal pe!.t--
gêm ô o unico olhrr veÍdêoêirarn.nra iniant.l, o tlnico v. r- ncntô âliviou-me. Se vivo alepiorândo minha insuficiência,a
dadeirc olh de criança que jamâis se fixou em nossa ver- n^r oüê h.;it.r or:r :rre colocli enlrc os podrcs l:1'dio'r'es
gonha, em nossa ciesgraca. Sim, meu fi1ho, par'a implorá-lâ i[eui p"imoiros e':il,o' d^ ec!uc.'nle crlrram doc^m'nfe no
bem, é preciso sentir sôbre si êste othar qu; não 6 exatâ- corecio do DFqueno in: liz qLle eu erâ êntão, e a lêh'branca
mente o dâ jlldulgência a indulgênciâ vem seErpr.e clésse rr-zeri li;:u ínÍ r,rim, ap.sal de tudo Nào_brilhanfe'
fosso l,olÍ'_
acompanhada de certa e\De - pois
ência amarga mas o olhâr rar a'idáix do, rr-pois de hcier sido um aILrno
dâ terna compâixáo, dâ alolol,osa surptôsa, -de não sei que demaiÀ ! ter de assentar_me, hoje, nos Í11ti-
outro sentimento inconcebível, inexprimivel, que a faz màis -r-ostlrilhante
dâgrdus, con' os-preguiçosos, Fico pensândo tâmbáa1
jovem que o pecado, rnais jovem que a raçâ dá qual e1a mes- quê à liitimê .Ênsura do v gário de Torcy náo e tao:nlusla.
nTa plo.ede:. c aindâ qu. sejc Mre pela grâCa. máe das gra- cbmo a principio imaginara. É ce"1o quê minha consciência
ças, e tambem â caçulâ üo gen^to humsno, não me àcustale coisà algumâ: não fui eu qu€ escolhi, por
'_ Muito obrigado, disse-lhe. minha própliâ vontade, êste regime alimêntar que acham
Náo encontrei outra palavra. E até pronunciei-a tão extrava;anio. Mêu estômaP,o náo suporlaria oulro aí está.
friâmcntê ! Deoor".-p.nsava âirrda, êst; êIro, ao mPnos êsLc. não tFrá
PeÇo qlle Ine abenÇoe, cottinuei no mesmo tom. esúndati"ado njne,uém. Foi o Dr. DPlb.ndc quem pós meu
-Á verdade é quc, havia dez minutos, Iutâva contra mi- velho mestte cle soibreaviso; e o ridículo incidente dâ gârrafâ
nha dor, mir l"a terr,Ível dor de estôm3go, que nunca tinha quebmda terá servido apenâs pam confirmá-lo numa opinião
sido mâis angustiosa. lileu Deus, a clor. sc à âindâ suportá- completamente gratuita.
vel, mas a espócic de náusc.r que a âcompanha, agora;ar.ra- Ácabei soúúdo ale meus temores. sem dúvida, a srÀ.
sa completanl.enlje minha coragem. Pr qriot. M;lonnet, o conde e âlgun\ outlos não ignoram quc
Estávamos no uDbral dâ portâ. belro vinho. E daí ? Seria absurdo demâis llnputarr,n mc
Você está sotrendo. resfondeu. vocé é quem deve como crirne umâ falta que, aflnal de contâs, não Dassa de
. -
âDenqoar-fie.
um pecado de guià, Íamiliâr â muitos do§ meus colegas. E
Deua sabe que ninguém âqui me colsiderâ um glutáo.
E tomou minha máo nâ sua, Ievontou-a ràpidamente até
sua tesia, fêz uma cruz e partiu. É ver.Cade (ue começava (Há dois dias, interrompj êste üário. sentia enorme re_
â ventar fortemente, mas, pela primeira vez, não o vi tevantajr pup.náncrà em continuáJr. nelletindo depois live mêrlo ie
seu majestoso busío: andâva inÍeiramente cuNado. ãstãr obeclecenclo menos o um êscrüpulo legílimo qrle a um
Depois que o vigário de Torcy se foi ehbora sssentei-me sentimento de vergonha. Tentarei tevá-lo até o fim.)
uÍn momento na cozinha. Não queriâ entr.egal-me demais à
reflerio. S. o quô me acorÍece. pen.ara. aCquire tani,a im- Depois que o vigário de Torcy foi-se embora, sai. Em
porlâncrà a mPus olhos a porque mê Criio inoccnie, Há cer- primei:b lugir, linhã de informar-me sóbre um doeÂte o
tamenle murros p.dres câpales dL gr.andes imprudênci-s. Sr. ouplouy. Enconlrei o nos ul[in]os estertôlês. Entretãn-
to, sofala apenas de uma pneumonia bâstante benigna, no
UM P.4]iOCO DX A,,DEJÀ 199
GEORGES BE§NANOS DI,{ÀIo DE
198

a listâ me pare-
dizer do méd-ico; mas é um homem gordo e seu corâção ce- riscando os nomes dls casas visiLadas mas do lugar' term!
fora
iiâ i"Gi-iraro , Quando mc encontrei que me faltou a co-
deu, desde o primeiro instante. sua mulher acocolada dian-
te do fogo, esquentavâ traÀqüilamente uma xícarâ de i.i""I.'-i--n,. "i.iii. sÊntiâ.me táo mal por um
café. Náo pôr'cebia coisa âlgumâ. Disse simplesmente: "Tal- ã;';;,';;;;:*;i; ôcio caminlro principal: lomei
vez o senhor tenha iazão: vâi morler". Âlgum tempo de-
:,;:i;: í;;";''; P;r âti. Êoderiâ ôassar bem perto da eâsa
pois, le'rantândo o lenÇol, dissc: "Veja como está frâco, é o ;;; il;";;hài. ond" queíia ir' De Íârô há duas semânas
iim". Quanclo cheguet con] os sântos óIeos, estavâ mortd.' il: #;;i; ;;;;;rei!'ao catecismo Queria. perguntaÍ â
Tinha cor'rido muito. Fiz mal em aceitaÍ uma xícâla ;i;';"iú ;;
"1';
cusên"ia A princÍpio andava bem -co'
dc estómago parecia menos rorte:
de cefé com genetrra. A genebrâ me repugna. O que o Dr. ;;;{r;;."i;i minha do" ue,u3"" e náusea' Le.rbro-me' mtti-
Delbende afirmou é verdade, com celteza. Minha lepugnân- :ãfi;;;;;;" áigu*r. o exiremo do bosque de Authy '
cia se parece com â saciedade. Bâsta o cheiro. Tenho a im_ io-üirn.'o" ler;lravos'ado
ào*_a"i*ru dostal, ri um pouco mai\ no adiantc' Pensava lutar
pressão de que minha língua incha dentro cla bôca, como sê meu rosto a argilâ
Jôsse uma esponja. àtãJ rrtà'-. flanter de'pé' s'nli'' mesmo a procuràr'nleu
l'"r"ii"' ,rit..r lÉ\lntei-me. cheguei
Deveriâ ter voltado ao presbitério. Em minlra casa, no ãáiÉ;;"ii; ;; úinna iou'e cabêca nào aeüêntava
meu quarto, s experiência Ioi_me ensinando, louco a pouco, ".{j;ü.
;;j;. ;i"i;;;;;';ü ürg.m uoninr' úr qual mâ .haviâ.des-
certas práticas que provocaliam fiso, mas que me permitem Tôr.v âDre.rnjava_sê, conslantemênte a
lutar contm a dor', ador'mecô-la. Suem tem o hábito de so- ^-rr^ ^ "r.;.i^.1ê
iràir]. i,rn"í pãr maiõr ei'or"o que li7'sse para recuperar
frer acaba comprccndcndo que a dor deve ser tratada com li^---.-r., "," rr,nqciéncia. niinha orlcào, percêbia' ap'nas comecada,
por. jns-
cuidado, quc muitas vêzes se vence â dot com a âstúcia. ã::i;,i;j:; '; ,;'ú;'. cuja incoerêniia
Cada üma, a1iás, tcm sua pcrsonâlidade, suas preferências, ir"ili." nà, i-l.iiã àiiet ót'unto ten'no nndei assim Aqrâ-
mas tôdas sãô más c estúpidàs, e o processo de vencê-las, que i;i"'r. à. vjsões náo ctregavain a acalmar que a jntole-
se revetou bom uma vez, pode servir indefinidamente. Em
resumo, sentia que o assâtto seria duro e fiz a bobagem de
H,';iã;", ;;; "eã. *; iá,i,
"u'*'
aiÍ o chào
êÍa-como
Penso
um
só a
àã, *ã'i*ó"alá o" cair na lou'urr: l-o"to..lY-o
querer resistir, de frcnte. Foi Deus quem o qurs. E temo - ,""ro rotu, de meus sonhos Perseguem-me
ií,ãiio-i."àt ãr$da'
que isto me tenha pôsto â perder. que Pscrclo e' grac's a Deus não me cau_
iiã nio--
 noite caiu ràpidâmente. Por cúmulo da desgraqâ ti_ iãa"""nr,r*"*.""io.so. pois lninha vonlade
â
âs repclLg
palavra de
re-
unl
nhâ de fâzer algumas vjsitas nos arredores de Galbat, cujos ;;;;,;;.;,i, Lemericlacle. como é poderosa
aqul' com
caminhos são péssimos. Não chovia, mas â terra argilosa i.ràÀ"* O" Deusl Cêrt.mênl,. quero afirÍ'là_lo sentido que se
no
colava-se a meus pés; só em agôsto csta arglla seca, Em cada iiã, á'*là"m"à", ,"nca acrcclitei em da minha indignidade'
visóes'
casa, faziam-me sentar perto dâ estufa repleta de glandes á?ã"".i, pàüri".'p"is a m0 âbandonou
lembrança.
assim
carvões de BILays; sentlâ umas batidâs tão Jortes n3 ca_ àã i,inr'tã'mi""tir, "por -dizer'
beçâ, que üe era diíícil escutar, respondia mâis ou menos "uncâ quê se formava mrm
iÍ;;-;-;;n". qr" o espirito â'olhe ou repelc por 'm
certo quc a imagem
oua pró-
ao acaso. Deviâ ter um âr- muito estranho ! Entretanto, re- iii.'".r'àã.i".
sisti: a viagem a Galbat é sempre penosa, pol cau§a dâ dis- il;;;tüú i1ççvq1-me-ia a conressá-Io ?'''
tância entre as casas, espalha.las âtruvés dos prâdos; e eu ' (Aqui, dez linhas riscadas )
não quelia arriscar-me a perder outra tarde, a1i. De tenrpos
em tempcs, consuliava fürtivâmente minha cadelneta. Iâ
CEORGIS BÊBNANOS
DrÁnro DE uM PÁnoeo Dx Ar,DÍrA 201
200

... criaturâ sublime cuias mãos pequena§ deilveram mas scn,ia nâ bóci uma ágL.a mornl que narccia tcr o gôslo
o raio, suas mãos cheias de graç4s... Olhava suas maos. dc láÍ'rimcs. Aligura!a_se_-"no 9b'oluixln' ni' lrrPalllavcl o
t" ti.rt o ienço do bólso nio 1'nha pêrLli'to de
Ora ai erxergava, ora não. E como rrinhâ dor se tornasse ".tni"6 ^liàs simfle<mente- ês'
excessivâ e ár me sentisse dcstalccer de novo, tomei uma tor-à ofeu-u, a co,lscién.ia: s"nfia_me
fortê. ou ênl's da lem-
àiias na mintra. Era a mão de uma clianqa, de umâ c an- cmvo dc-uma dor dFmasiadâmente
tranca ae uma aor pois â ceríeza de que voltariâ ela mais
ça pobre. gasla pelo lmllalho p4lo pollre tratralho de lava_ -
ãneuliios^ que o própiio sotuim' nlo - e eu a larêjâva como
deiia. coúo expiimir isso ? Nán quFriâ que fo'se um sonho. ;ri;;;ã;ró úreic s",r dono. Penr-va tcmbem quê irrâ caiÍ
ê. no entanto. lembro-mê de l'r techado os olhos Tinha ã-o*rq".t mnmerro. oue Ínc }:'o'ltrilr::lt _ti c^mimorlo'
Àêdo d.. tevant:rndo as pilpcbr'â. percebcr o rosto dicnle ã,-" "àtia um e"cáidâlo a maic. 'i pârpce_me que chamei lâ
cio qual todo joelho se dobia. Eu o vi. Erâ também um rosto
de ôriancr. õu de uma mo.';nha muiLo jov' m. sem brilho aniando apoiado á .ê-r'a; sLrbitarn' n P mêus hraro( cncon-
algum. dra âo próplio rosló da !_'clrza mas de uma trist'za
iiàiã* o iario dianlP de si e o solo desaparecÊu sob meus
Dés. Ha\iâ .hegado, sem per.eb'r. à Pxtremidade cto oêcu'
àu_e não connei'ia,'de umâ trisln/a da qual nã,o podia. dr ío, vlotenta-ment". coÀ os dois joelhos no chão e meu
fàrma aleuma. Darl,icil1lrr, umâ lristeza tào fróxima do mêu ,o"uo Ioi d. en.onl,ro ৠpêdras do caminhoque
"Ài- Por um mo'
ãe *"r.] 61.1fsr,l cord(áô cle homÊn e. enlretanlo ainoa. pens.i quê Íie tinha lev.tntàdo. estava de
inacéssíve]. Não há t steza hilmana sem amargura; e
"nr""ao. -ÀnLcaminf,ah.to. Dànois. folcebi quê Ióra cp' nas rLm so_
âouela lrisleza prc só suat;alad.; náo há tristezE humana "àvo Á oarec.u_ir", dê súbito, nlais nêgra. mais com_
seirr revoltc. o âquola tris1e73 era só aceilâção. Fdzia pensgr "t"
oacta: ".it"
pensei'qu. estavâ, outra vez. cajndo Mas agorâ
em náo sPi quo g"arrao noiiF docc. inÍinilâ. Nossa lristêza. ã.ia no i enciol Despenhei-me, de um pulo. no silêncio E o
enJim, nasce'da ixperiênciâ de nossâs misérias, experiênciâ silêncio se Íechou sôbre mim.
."r.rorc imour.a. c ;quela Iri.lPza era ino'enl,e. Era a pró-
pria inocé;cir. Comürc' nrli enláo o signilicado dê algumâs Abrindo os olhos, r'ecuperci imcdiatâmente â memória'
pr.u""ul-. que despontavã o dia. Era o reflexo de uma
i:a)awas do vigaljo dn Torcy que mÊ haviam parecido obs- i"]it"".", iãtà . bariranco, ' m minha Irentê via também
iurcs. D"u" de-vp ter ocultado, por algum pmdigio essâ t §- àiiiiu áiuiiaoo.. à esqucrdâ, nâs á.,oles; reconliecl, âo p]i-
iezã rirgirnr, porque, senáo, poi mai§ duros e cegos que Íôs_ a'casâ àos Dumonchel, com sua varanda !1-
sem. os nomeà< úriam rPconh, cido. por aquêle sinal a jo- ;;i-;il";,
vem êsperaclâ, o üllimo rêbonto de stla raça antiga. ctiatura ãiá"ú. a rátir* ensopadâ tinhâ-se agârrado às minhâs c!s-
angelicJl, pm torno d' quem rugiriam os demónios; e os tas; estava só.
hoirens ter-se-iam levâni:rdo, lodos junlos. pala fxzer de Trnhâm Dósto a lanl("n: bêm iunlo dn Irinhx ccbê.a
,, -i' à"ii^! lãiil.inac clp eslrebaria. iluÍninada a
petróleo'
seus corpos mortâis um bâluârte que a deÍendesse.
Penso ter ândâalo algum tempo ainda. Áfastara-me,
- Íuma(a quê lLr7. Enorme inselo revolLrLeava
"."-;;-;;i;
]--d,""-ã"rr. Tenl, i l' vx.'t3r rne, .'em o 'on :': " ""nlrr'
norém- do caminho e lroó"iava na rplva espóssà, ensopada algumc tórçal já não sohra EnÍim'
ãe chuv. e oue se aÍundávj sob mcus pó'. Quando percebi ^""*'l"t."""rarrOo olrvia o gacto
meu êrro, ericontrava-me dianie de uma cêrca que me pa_ ãries;;i a s.nrai me. Do outro Jado da cêrca qu"
leceu excessivamente âlta e espêssa; não poderia saltá_}a' ilà'- t""lor"gar. Percêbià.pê.n,lidarnenle ainda-mes-
AÍastei-me. À água que caía dos ramos inundâva-me o pes-
" de era larde denais
il;;;e ;;.;esu:sse lje,rpacienlemenle a curiosldade0ara Íugü:
só-m'e ieslava'suportar de quem
coço, os bÉço§. Minha dol iâ-se acâlmando I»uco a pouco,
202 CEOICES BERNÀNOS DIÁRIo ,E UM P,dxoco DE ÀI,DEIÁ 203

me descob u, a1i, e togo voitâria para buscâr s,.ia lanternâ. tumada, âi, al, âi I Er'a bem dilerente quando meu irmão
Ái ! â casa dos Dumonchcl é certâmente a ú1ti- Nâfciso !e casou. IIem ? Que é que o senhor diz !
- pensava,
ma pâra onde gostarii que me levessem. Coiscgui pôr-n1e Bíiiâ os deni,os. Ela acabou por complccnder o que the
de joelhos e nos enccntramos, bruscamente, face a Íâce. Em pcdia: que fôsse ao plesbitério no dia seguinte e, 1á, eu lhe
pé não cra mais altâ que eu. Seu magro rostinho não pare- explica a.
cia menos âstuto que de hábito, mâs o que observel ne1a, não posso ir. Eu disse coisas hordveis do senhor.
antes de tudo, Joi um ar de docc seriedade um pouco solene, - Não,
O scnhor clcvia bater-mc, Eu sou ciumentâ, horrivelmente
quase cômico. Reconheci Scrafita. Sorli'lhe. Provàvelmente ciumcntâ. ciumenta como um ânimal, E desconfie das ou-
pcnsou que zombâvâ dela e cm scus olhos blilhou êsse res" tms. São uüâs llôstas, umas hipócritâs.
plendor maligno
- tãoos olhos.inlantil e que, mais de
pouco
- entáo, que tinha Enquânto falâvâ, iâ passando o pano em meu rosto, em
uma vez, me Íêz baixar Pclcebi, minha tcsta. A águâ fICSca fazia-mc bem. Levantelme,
nas mãos umâ vasilha dc btrlr'o cheia d'águâ, onde ÍIutuâva mas continuevâ a tremer demais. Por Jim. cessou o calâírio.
um pedâço de pano, não muito limpo. Prendeu o vaso entre Ilinha pequenâ samarltânâ Ievântou suâ lantêrna à alturâ
os joelhos.
do meu queilo, suponho que para melhor apleciar o seu ira-
tr'ui enchê-lo no brejo, disse, era mâis seguro. Todos
estáô- 1á em câsâ, pol cxllsa clo casânento do primo Vítor. Eu
balho.
quiser, eu vou corn o senhor até o comêço
saí parâ pôr os bois pale dcntro. - Se o senhor
da estrada. Cuidado com os buracos. Depois de passar o
Olhe que vão castjgá-Ia. pasto, a coisa scrá mâis fácil.
- Castigar-me rne castlgaram. Um dia, papei
- a mão pai? Nunca
levantou nlim. "Não me toque, disse-Ihe, senão Comeqou â ândar em minhâ frente, quândo se âlârgou
o caminho, colocou-sc a meu Iâdo e, âlguns pâssos mais âdian-
eu dou ervà má à Ruc.r, c da morlcrá inchâdâ." Â Ruça te, trôs sua máo nâ minha, muilo sêriamente. Nenhum dos
é a vâquinha mci' l'.nila qllo lcmos. dois falavâ. Âs vacns mugiâm lügubrement€. Escutamos, &o
não devia lalâr assim, Íêz mal.
- Você
MaI, replicou lcventândo os ombros com mâliciâ, é
longe, o bâiulho de umâ por:tâ qrie se abria.
Preciso voltar, dissc eIâ.
- botar-se no estado cm quô o senhor se achâ al.
a gente -Planlou-so. por'ém. (iiânlc dc ftim. com seu pequeno
Fiquei pálido e e1a lnc olhou curiosamehte. busto levântado.
boa sorte encont, l-}r o senhor. Ia tocando o gado,
- Foi
quando meu tamanco rololr pelo caminho e eu desci. Pen-
Não se csquê!â de dcital sc logo que chegue. É o me-
Ihor -que o senhor pcdc lazer. O ruim é que o senhor nãÔ
savâ que o senhor e§tâva morto, íem ninguém para esquentar seu câ.ié. Àcho que é m-.rit r
melhor. vou lcvantâr-me. infeliz, muito sem jeiio, rI! homcm sem mulher.
- Estou
I\das o senhor não pode regressar l1esse estâdo ! Nào podia âfastar os olhos de seu losto. IIá nêle llr,
- Quê l.nho I âbaíimento, palecc envethecido, mcnos a fronte, tão pura.
- O sênnor vírmitou e cstá com 3 .ara suja coll'o se Não podeÍia supor que sua fronte coniervasse iahta plrrezâ.
- comido âmora.
tivesse Escute, não acredite no que vou dizer, sei que o s.:_
Tentel segurar o vaso que quase caiu de minhas máos. -
nhor náo Iôz isso de lropósito. Com certezâ puseram üm
* O senhor está tremendo demais, d€ixe, eu estou acos- pôzinho em seu copo; isso é uma buncadeim que muita
Dr,{xro DE uM PÁnoco DE 205
204 CEOEGES BERNANOS ^LDErÁ
O vigário d. Toi cli Ioi le'râco onNcm parâ uma clinica
gentc gcste cle fezer. Mas, graças a mim, não perceberão de Amians. Tevc u]lia cris3 cariliàcâ não muito greve, dizem,
nadr, ficartl, bem de:âliontiados. .. nlas quc eÍige oi (üiriâLios c e e.s§istência de uma cnfermeira.
Oncle está voaê. mcnina I
-Reconheci Dêixo rarr- ro;in Lirl ir,lh3ta Ê:crito â lápis, antes de entlar
a voz da scu pai, Ela sa1íou do barrSr-rao, pâr'a a âmbxlância: "11{.u qdÉii.lo idiota, lezc ba§tante a
seln fazer mais bârulho nnc iim Í,.1o. ('ôm s.rlc doi's tâinân- Nos"o S-nJc_ ..'1? em Am.ens. na pró'irna "e-
quinhcjs em uüâ das mãos e â lanterna ua outra. maDa".
-- Psiu ! vclte collcndo. Juiizrnente €sta noite sonhei Âo sail da igrejâ. cLri c-ie ciira com Luisâ. Julgâvâ a muito
com o senhor. O senhor tinhâ Lrin jsito táo trisie, como longe c1aq4i. TjDh. vlndo .le Ârches, a pó; scus sapatos es-
âgora. Acordei chorando. tàl'âm chcios dc iarnir, san l'osto pàreceu-me sujo e desfeito,
Em casa, Ioi preciso levar_ rnirhl bal,inâ. O pano estal'â unla dc su:s luÍes clc Iã .stavâ tôda fuladâ, os dedos de
durc, e a águâ ficou vetrnclha. Coinprccndi que tinha per- Íora. E antes eiia tão cuid:lciosri. táo correta I Tíve um dó
dido muito sanguc. imrnso deta. Entrehnto, desdc a primeira palavra, cornpre-
Ào dêitat-me, estava dccidido â tomâr o txem da manhã, endi que seu soilimelto era dêstas que não se pcdem con-
p!r* Lr.'ê. Minh.: rLl_n_csi .r- li'ô lrBndc o m.do de Iessar.
i.ro:,.. "ó reio rtct o. ítu^, sê o v.iho Dr. Dclbendê fósse Disse-me quc, há seis üeses. não the pâ[iâvâm o orde-
vivo, leriâ cerLaircnle corido âté Desvle!, em plena noite. nado, que o trbcliáo Co conde the propunha umâ transação
E iuatemantc o que nãc csfêrala r'eà1izou-se, como semprc. inaceitível e assinr nio se âtrevià a alaster-se dc Àrches,
Dclmi de umâ cstiraclâ; lcvantei_me bem disposto, quândo Vivia no hotet.
os galos começâvâm a cantar, Até íivc ànimo de lir, um riso coüdc vâi sentir-se muito só. É um hom?m il'aco.
louco, quânrlo olhava rninhâ tfistc car'â, ao mesmo ternpo - Oaferr'aCo
egoístâ, a sers LÍbitos; sua lilha o Íârá soirer- rnuito.
que pâ..sâv- e 11 I'a..avâ ól |e un' bsal\:l qu' nenh::nl in-' Compreendi que elâ espeiiiÍâ airda, não me alicro a di
!IUrTcrlo do t"4un,io.on,..-,r ir':a, o,1.,'. un r \":'c ÜoiIJ''llbx zer o quê... Eslorça\.a-se por arreclondar âs frases, como
de ândarilho... Àfinâl, o sangue quc suiou minhâ bâiinâ anljga,nenrê, e, ij1.' : .L'.lrs ,n'.1. nl. s. ôua \o, .p r" rê'ia
i:ode ter saido âpcnâs (io nariz. Como é qüe umâ hjpói.:c ccm, voz da coldôs:ia, dc quem pegou também um jcito de
LÊo plâusíÍei náo me ocor'r'eü logo ? LIes a hemorragia teF franzir âs pálpebtoÍ, pl'óprio dos míopes...  llumilhaqão
-se-ia proaluzialo düeutc uma lig9ih jrincoire, Pois, ellles ale voluníária é qu:rlquer coi:tr cl. magníÍico; mas uma vaidâdê
pelder os sentidos, s,'nti unla rlÉiuseâ 1lot1orosa. descoaposta ó hoi'rívcl ce rer !...
De qualquer lbrma, ltci a I-i113, oot,sultar, csta sernana, Mcsmo a serihora cor'rCêssa, disse cla, tratâva_me
sem fâlte. conlo- pessoa de celt;. condiçáo sociai. À1iás, meu tio-avô, o
Depois cia missâ, visitei 1lleu colega dc llaucoilE, pâra comandante Hudebert, eía ca!âdo com uma dê Noisel; os
pedirlhe quc mc substii,uílim, em ciso dc eusênciâ. É um de Nolset sâo parentes do conde. Â prova de que Deus me
padle que conheço poilco, cmbôr'â sejê da n1e§ma idtlde qtle envia. . .
6u c me inspire confiança. Àpasar de a ter lâvadc muitas Nio !L,Ce dr ir: I d. ' ' I on'nó-lr:
vêzes, a marcha de miDhâ bâiinâ coniinua enolmc. Contei- Não invoque a Dcus, assim tão lcvi:uarncnte.
-lhc que um rii,r'o de tiniâ veri1.lhâ tinha virado 1ror ci4a *- Oh | é fáci1 para o sonhor condenai-me, desprezar-
de mim. Meu colega empies'Lou-me Sentilmente uma ddhetâ -me. O senhoi- uão sabe o que é â solidão I
velha. Que pensará de nlim ? Nada pude ler em seus o1hos.
206 CXOÂCES BERNÁNOS DúÀto DE uM PÁRoco D! Àl"DErÀ 207

Não ó possí\'el aabêlo, dissê. Ningllém conseguc che- * Uma iinguagem humâna ?
gar -ao {undo de §ua solidÍo. que não ? É belo elevar-se acir.a da altivez, l1ras,
Ertim. o s^nhor r...lo m.'los t.m ú qu. laz.r, os J:â. - éPor
ântes, preciso cheggr a e1a. Não tenhc o dircito dê falar
-
pâssam deplessa, ligremente a Icspcito da honla, segundo o mundo; não é um
§old, scm qucret. tema de convcrsâç:io psra um pobre pâdre como eu, mas
- A senhola deve, âgora, a{nslar.,se, disselhe, deixâr acho que, às vôzes, se desdenhâ, demâis, a. honra. Àh ! todos
êsle -lugxl. P:_omFlo côn" L:1,. i o ,, l.-;uern o q!1. (.v,,li somo§ capazes dc not chafuldar nâ lama; â lama parec€
a...pnhola. llândrr-lhe- i o ,li r...,o pcrc o tuArr quc .. se_ IeÍrescântc pâr_a os colaçõcs ettenuados. E a desorlla é um
nhora indicâr- sono collro qualqlrcr- outto, nm sono pcsado, uma embriagúez
craças à senhotita, scm dúvidâ... Não qu.ro mâl
- - l-li1nçâ. sel1l sonhos. Sc ur11 iLltimo restioho de orgulho chega para
àquê1tr p^,dô.r.r. u Ir.r t, j-il,Frdn., nto \ioienLo, mas pôr dô no\o de ln um d \grâcado. por que râzào ha\,eria do
genêIo.o. vr'7.i. lr o 9fi., ,e l.r r\pti.a.. ., .o|l ttdd desdenhá-lo?
^s eu ..'1r
Ll' gràçadal
Tjiou rrnr-r d:r. luvrs c .1 ..,r rljvd n^rtniJm^nt ^a - Sou disse-lhe, e se a humiiho é na espeEnça de the
mio. Tinhâ p(nx drh. r \. i'rl:d,. ,rrr lantllcm Lm poLlco dc - Sim,
poupar uma humilhacão dolorosa, i epârável, que a degrâ-
ho or. dâria a seus própri{)s olhos para sempre. Allandonc êsse pro-
- - Senholila, dissc lhc, à tâite cleoutrà coistr, a âiti1,ez
deveria proibi-la dc Iozcr ccltas tentativas. a]iás inúteis_ E ieto de revel a Srta. Chântal. Á senhora se rebaixaria inü.
o c\ll'aordinario ô qu,. r s nliorJ pl, tencla J.sor:at,me J os.âs tilmente, seria esniâgaclâ, pisada. . .
corsâs. Calei-me. Pcrcebi que ia licando revoltada, encoledzada.
. AlÍiv,z? Il i.,-. , ..Ê tllgol onL:L v'vi lptiz, .onsrír.- Gostariâ de podcr encontr'ar uma palâvra de piedade; mas as
-
Iada...quasê i3r,r.r,. e tt,-... LrJ.â.ri. llor al, feilo r,ma que §e apresentavarn a meu espir'ito só sefviriam para comovê
m.nolgr. S( rc 5 ..ijo q.l. o : enl.or chaml cltjvcz ? Ontcm -la, para entelnecêla ainda mais por sua própria situâção,
mcsm^. no.mol'c:llo. r ltsull. .- nnoner s qLre., nt o_11o Iemp,,, para abrir a íonte dc ignóbeis tágrimas. Nunca havia com-
I!
me -:?!gil,u*
cbâixon,to ir c*o,(i âle ó chro, .rngram r.ao preendido tão be,1 minhe incopacidâde diante de cedos in-
Ieconhccer. fortúnios, dos quais não posso patticiper, por r]tais quc peleje.
- Náo os reconh€qâ tambóm. Sejâ altlva ! * Sim, disse cla, entre mim e Chantal, o senhoÍ não he-
A altivez, sen,prc a altivez I... euê é attivez, afinal de sitâ. Sou â mais Íraca. Ela me esmagou.
- ? NJncJ pcn{ I qL c âtLiviz róõ.e uma dcs rir.lrr lcs
contâs
l,eolo8ârs. lrco me5. o , l. .r-dâ d. Ou\:r dc bóca do .e_
Esta palâvra lembrou-me uma frase da minhâ última
njlor es[a paiavt.a. conversa com a condêssa: "Deus a esmagar'á I" gritei-lhe.
Semelhante recordação, naquele instante, Íêz-me mal
.. ,- P, rLlão s, .. s(,rh.,tr qu. t la'!r'co padlo. e. lhê fe_
orrâ-á co:lllosao dê sLrs lallal I.ara tet o dit,,ilo rlc Jb_ Nâo há nada â csmaga! na senhora, disse-Ihe.
-Arrnpcndi.mc dp têa lalaclo assim: agora não me arre-
Nào qucro pendo: saiu do meu corâção.
- Pe.mila i1.e.nada d:s.o.
pnl:o, dirigit--re à senhora em uma Ela o engana ! repii.ou Luísa com um trejeito horí-
-
lingucêem qu. a senhora po:ra comlrcendeÍ. vel. -
,2OB
GEORGES BERNANOS Dr,Áxro DE uM PÁBoco D! Ár,DErÀ 209

!a,t'?vJ a voz: ialàvs apenas màis dFprcssa "mui-


N;o t, dê noio. Tive cle fazet um grânde eslôrço para tomá{a na
to dcor.".. N',o pú'"o. êlirs. r,l)'o'1L7:r lucio: âqu'lo rrula' minhã e alaslá-lâ delicadamente.
va embors I drs"c lhe. R-zâr'' i p.lâ -Fnhola.
inesgôtàvelmcnie, de seus lábios sccos.
'-- irlo t,rl óá;o ao senhor. o'lcii o desde o primciro.dia' -Fincimcntc, .o']s,- gui v'rdâdPiram'nle têr dó delâ'
Eirle-l,;,r;;;;i; de clàividônciâ-diâhóllca E como é es- Tudo sê arranjár'á, eu ihe prcmeto. Vou procurar o
i".,.:-'i,"J"',,É, ""pr. Lo:o qr," t'o ô nariz !ora de
'r"a Sr. -
-- Conde.
I' "'' ";'';-- 'ào-i'"i; 't' u' oú1"'i s.;'lhor- da doc s: ãs cÍi'n aiuito"o" ràpiclan]ente, cabeçâ baixâ e ligeiramente in-
",..' E os meninos lhe u'n ir.lo um dnim"l lerido
ãá"
"'^ããi"-.
à;;;-;;."
r"lr-rnes a rêspcit(i do
I qu" hi:lorils rl' ci F^mPdâ 'ud na- "-'õ sí.parâ
clincclê
i"t, c" ,I I "omo
- T"4olle Beu\ ron êcaba de deixar Àm-
s,
'u '21' 'o qu' hj'
oz. o nh" r c")rnrerll:1'
".ril a" L,r,i.
e:' o
É ciu'tn c ijt.,menl,1 ".
Iolllx' rl'" :"l'11 Ll:li: I ljogu' a " '' Çi"r'roNào turn.i u \ê
brrcourt. 1o
'IoÍâva conta 6p 5gx vsq2 assentada
it.,, xlios. e utn- ,':i. 1 ".' : :n cul'lD-i':_o ' "_s,i"ril" Ap.oximei_me. náo ftuiIo FLrglu'
,'ro rlto àó"burrun,o
"rJr-r.
âutconten. . . ^ir''"
Sctlli col'lo quc um golln no tori(ão
-Caie'se!-dissc.
Mas ó pr'eciso quc o senhor saiba qucm ô elâ - Evidcntem,'11e. m:nhà lim:dcz. d'sdc algum tempo És-
- eu ,'t scn'ri,,". n:ro l'od compr(enLle la ei('lâm' i sumiu o cat átcr d' t, rdad' ira obsÊ\s;o DiÍicilmente se
pode
-Es endru
"ei.ri:r., ., ,t pó"'' :o lo 'lum:lh"lo' É'n sJ t i, i,".- i"t" i.-". :rÍü..ondl, inranlil. quê me obrigâ a virar'
'r'," as Iátri tru:clmentc. oLlnno perceLo, "óbrP mii-1 o olhar de um
'""c;;;i;';,; po,1"m., '1l' rrl.. o \enÍa dHve ter õeeado
ja r-sc no do p.ito. e eu só torno
]rã.;-li",J, ..m r",to o:'ilh"nlê quê perd' i;;;;úG. Mi.r co,,cáo s-ra dcniro"bom
vlzio Jc s.lrblil J-' lr.tn'ic dp \' u ro'lo' ;;;"p,;;r, d(t1ois rl, l,r ou\icio o oia' que responde
((t,vor.'r'r ir,,. t' ''n. c a'Llilanle do jar'dineiro ao mau. Qucnoo r I, chegr. 'L não o
''perava'
-
oro a ,* u m.'3 n.' "',,,,
.rLr i: d' F'_nc::co ChJnlàl conlou A curiosjd-dc !ai se, pordm. de'!i.ndo cle mlm Ja lul
"i"
i,'i". "-"...r-; ( srnL i' r. u rrrJrdm c'' Iir" Eja enconlroL u"rr l'rI";;;.'ô;, mris r,,dim iuc,er dn r"rm! Dt ât^ra em di-rn-
l;;:ff.;ál; a. cu." .'o. D..rnuilcnol: o nome do oenhor ie."tooot ú. un xlrli.a.ao plau.lvcl f.miliâr. tranquril-
r'Pve a jdêia dc ;n-
;;ü;, : .iii" ".; e, ',',(':'i r. u nc. Er'iro l''o pre lol soll Llrou
,raài, a" -inr c ,or clir c. Tal e\nli'acáo pPrmrlê{hessérias'
coisas
alâs-
terrogrl'" Scrcti". L J rx qr' ll:1 r' scn râr-sc de mim. vollârrm a pleocllpar-§e com l
tudo...
-'_'-oinava-a. ÀÀir"- ou" _eu bebo' sozrhho - ás escondida" os jovens
estuire.lacio, sem poder articular uma palsvü" Jir"-, iu *o.t, -
5LrÇir". Deverts bâ'tar jsso. lnfellzmenl,e
v, ,.'í ,iit,,,t", r.* qle cl' rcrra P5Lar s'bL'rr drrdo ieiin ástlr mi"rrn car'á ruim, esta minhâquê cara Íúnebre de qüe I
"."r"f"
t:"*ir?-,, .ol! r-3 n-o cunsrSurx cl-l- I'ells ll'l\io' olhus nãúài-"ni" "ao po§so desiazer-mc,perdoarão e se hamoniza tão
"r,
;;i.;';i;i;-,:i; qu" à a.,,n. ri"igneqoo oe an;m,.' ri.rrn' j- mal com a intempêr'ança. Não me e§tâ cara'
iico: ancn-s .(.u ioclo
"' - l'g"1.À csl-vd un po-c ' n:enos I'al'ao'
ã"" i gdr'ót! n(oot'ou o \enhor ronr'..,rlllo'
no câlrinho de. , .
Vrr.f.;r, i.s clrsl.ls, CO r', u âlrl S cl. mim c \cndo slJa
Estâvâ com muito mêdo dâ âuia de catccismo Oh! cer-
m*o ,a'à,re.io" rninha brl;na. n_o pucie r'plinril um3'sto tame"* espemva pelo que a gíriâ dos colégios châma
"ao
nrÁRro DE úM PÁBoco DE ArDEl,\ 211
210 GEOÍCXS BIRNANO§

'1 dio vâia:): temia' üe _minha pequ'ri- . Minn. pÊquena. logo a es a iumenta
t1ma vaia (os Fe'ilt'r'os calni]cnêsPs.nu11 S,, ,' r'o o , nl:.-'r foLl' o'z' r issol
l.'iiri ã= ü"i,1
_" 'ã.rru,a rr',ot sorliros Nâda a'orlcceu' ró:.:a
- c
', g-1(' ciürlrclLt!.
voJé
cic':t'da' on *Jn ' rrrrlo v'"melhx rcci-
" PJ-
-Soltôu um gri.nil.e stspiro, epertando os olhos, colno se
"1,".1
.."";l-;';;,",t ,,n, io,,.o Nopo| d' 'lJ iini aulx' enquanto
r-r.rclr,Jsrl \ l nu l,l r,:o d-'etL pcn'4ff^nLo bem no lLrndo'
i, i' dêsriTar I ris de suà' companhci-
i;;": s,;;i;;;. lrr., tiv':r' ''LJo l'rulrrn' iaoo ja escutnva . E o ncrllrol,ri. ; bonito, dis'e' ntr e os denlcs
('Jm uma
"i.-.i"i or. o seriedaíe in:m,:lillí'.'.1. !r :,ó pafqu. o s'niroi é trist' l'{cs_
;úü;i;; " crr, crr ci,nl'-r' n'- t"r; r s, ,rhor é tlisli Achu quc 'e sou-
"" ;";,'", o ;,;ja. ''11nrânco"
, nrdrrr' r i rr Irrxo dô pulpim o srande
nror'rn.oo.,i,:"
'f...1
pà..tu" ,',n , i:i '. nlrn':l mai: 'e'li Iuim
rrand" pàrc o bólsoqu'do' eu "
r.,cJ ãíü iiãã" à'',r'nr'o' r')"rrc n''o sú tristc, dirlc lh!, porquc Deu§ não ó amado'
,u"i,frt- e ou" , :i, ,. erl, "t i ' r.'.'
r
m':rl( ' P' nsir
' n :q:'ro obielo precioso' -SecLlcliu a cabcçii -ar liiâ ez-111. compiê-Lalilenic suiâ, que
:;';T;;,",,;-" "h,gc1m
"o"ilâ'àtr. o.",",-"lrol '
. r''':cbrc p'ro cLridado que t'€m com .n ura. rlo rilo d:: ':. b ',. '1'' IroJ'.c (jbFio:. d sdt'fasr e
,t,iir.," ri...., :,', .' r: LIr ,io qrl.:\o C:jo'nlc,n"1{Ê,
"---vãii"r,
s11âS COiSAS.
ima'lo rlé s' u banco sem inliha t;,r,rc lllc pti..ia cblciila, muito cbscüra. LIàs não Íi_
o" tâlo colr'Lr de rrm coil müiró icmpo plDs! nclo.
rrrrrin"o'"riiir., iirr.lô "'' tJr-r-rr'o' r' c'xeava rgreja
muim mais
tqu ten:rbónl soLl tljsre. É bom a gente ser tliste' O
oue antes, mrs qu.ndo i' In_r rL' trc' tuado dr cami' - não ache que â tri§teza pcldoa os pecados?. . .
aeniror
rihou de novo, quuse rrcci'i ' coü.ic .'tiuilcs Pecâdos?
Está aqui scu lcnço. Não o csqueça mais! - Vocô
Nossat Setrhoie i (LnÇou-me um olhar de c€nsurâ de
-B"ruru ,"tit" prt RLrr_s \'i lês a vPjo c"sim pois a - cur]''li .' cd ) o .Pnhor sdllc. NPm por i.'o gosto
Irumii-i'
'r'''
co"lLrn- tru l* êc"llalê Arrancou-mê o lcnço murr.C-r,".clJ t'r,r.,rosl N;o p'.'i,Jm L,drJ nrda. Sio bo-
-uníi "-ôç"o -i'' rrr'1l'. 5'm
âà.'ilaã.,-Àió. D'pois permane-
bos! X luins: varialiciros cacholros darados!
ààu imov, tlcom i p(rn3 rlo'r''H'3Iáde((r'
uob! da' você não sc envelgonha disso?
* Pode il. clissc-lho delicadâmcnte' - Sim, eu fico col]1 ver'8onha. Isebel, Noêmia e cu lamos
Dcu um pas"o pxrâ a |orlJ. ê logo \ollou até mim'
com -
encontlar ós rncninori 1á cllt cima, no morl'inho de l"{aiicorne,
ãà"ir"Àri" ad,rrilaret üc spus fequÊnos ombros: àondc se tjra arcia. Piimeir:o a gcnte biinca de rodar na areia'
"- A Sr,d ChrlllJl lolcoü ''r ' no comiço I lc\ântâv_r-se iu:o:.r a piol tle tôaas, ijou slü1i lllas quando êles vão cmboÉ,
-
Ã,ã àà. ,"!, uiii ^nn otnrr bem no Iosiot e depois ' cu bdnco dc molta. . .
"^
aepôis... Dc mollat'
-''-- pgp6is rocê falou porque quis' não é ? As meninas sao - sim, de molta Fi,co um burâco lla areiâ, ficc 1á den_
tro, -de àcsias, bcm deitàclj.llhe, as ú;os 'r'lrzadâs Íechândo
"
tâEai_elas.
Eu náo sou lagJr" 'ou 1lr'r ' os o1hos. QuànCo eu tlcxo um pouquinho mesmo üm pou_
- uêvera§. otirrhi. i:t â1.,- cte:., l' rJ o r' J pr scc(-o. crltlJ nas onqucllc
lhâS
- ã,r't, a"u' ru.. con-o e d' !' r"' nrrê Deu' mc vê ('om entrr el. n: bó a QuL'i: qu'nio Íó'se b:''nqu uo fiquei
ii"ii"t: *"iÀ". lepois que cóntci aquilo pâra chantal,
oLio de t;n"r le7 ul- ' c ' ; àa tesla
- c roc lubiosr '
seu oolelcr iã uri" oor"." Oe l;mpo'. Quân,lo (h, gu( i êm c.sJ. pâPai me
ilL','üà Üqui o ."nnor di'sê ao' our'o' - umas làldvras-bo-
zelida bdtru. i.lieo. Lu chorei, ma. ( u n;o Losto dL choldr. '
íiià.i-*riià m"itu". PoL cxemplo, o senhor chamou
GEORGES BERNANOS DIAI]ÍO DI' UÀ{ PAROCO DÉ ÁLDEIÀ 213

nunca chora? liveimeutc dololoso, pojs ela fêz uma caretâ hoBível. Se não
- Você
Náo; acho isso ri-ruito bôbo, u1na bobag.il. Quando a a segurasse, tctiâ caí(io, certamente.
- chora, a tristezâ sai dâ gentc, o coração da gente vira
gente P|om lâ-mp qr.,. locô n;o lrrá ,nai.' i."o.
-Incliiru
manteiga! Ou então... (apeltou d. novo âs pálpebras) só a csbcQâ, scrnpre muito sériâ, e pârtiü, segu-
se a gente achar unl outro, um outro... um outro modo de Iendc com â mão a lralede. Que Deus a guardcl
chorar. O senhor acha que isso é bobagem?...
Não, dlsse-lhe.
-Hesitdva em lhc recpond r, Pareciâ-me que â mcnor jm-
prudênciâ iria âIaslal. dc rn:nl, para scmpre, aquêle pelluêni-
Com certeza, ti1'e essâ noite uma hemonagia insignifi-
no aninlal selvagem. cante, é verdâde; mas âgora, não é possÍvel confundi-la com
Um dia vorc ('omlii 'n, F i, que a ora.ão é. ju.tâmcn- o fluxo de sanguc do nâriz.
-
te, êsse outro modo dc cho,iar; as únicas iágrimas que náo Como não ó r'azoá1.cl irdlar, incessantemente, minha viâ_
são de Íraqueza. qem a Lille, csclevj ao doutor propondo-lhe a data de 15. Em
Quando ouviu a pelavtâ "or'âçalo", franziu as sobrance_
lhas, seu rosto sc contlaiu con]o o dc um gato. Virou as cos- Crmpii a pr-ôm.'!sa feita a Lui§â. Custou-me horrivel_
tas para mim e alaslou-se, colteândo. mente fazel csta lisilâ âo castelo. Pâra felicidade minlla en_
Por quc ó quc você estâ mancando?
-Parou contrei o condc no jardiú, Não pareceu âbsolutâmente es-
loÊo, loJo:ou ''orpo l,ronlo farâ col"lêr. só.om a pâ-ntado com o mcu pcdido; dir-se-ia que o esperava. De_mi-
cabeça loll da lrJrr nrim. L] pois. lêz aquêle me5mo movi_ nha pâlte, dcsem]lên]lei-me da inc,rmbência mais hàbilnente
mento de ombros c eu me âproximci, suavemente; ela csíi_ do que pensâva.
cava, desespelaclânente, até os joelhos, sua saia de lã cirl-
zenta, Por um buraco da meia, vi que sua perna estava roxa.
Está aí polque rocô .§tá mancando, disse_lhe; que é
-
isso? A respostâ do doutor chegou-me, pclo coreio seguinte.
Sâltou pÂra tr'ás, üras eu Íegurei-a com a mão, como se Áceita â data fixada. Posso regressar no dia seguinte, pela
a apênh!5sp torndo. D. bal( rdo-sP. dêixou âparecpl um pou- manhã.
co âcima da barr.igâ.iâ pcrna um gr_osso barbante tão aperta- substitui o vinho por café forte, muito foltê sinto-me
do que a carne iormavâ clois coldões côr de bedngêlâ, roxos. bem. I"4â,r, pol câusa do novo regÍme, tenho insônias que náo
Desprendeu-sc tle um ârr'anco, saltando com um pé só atrâ- me serjâü muito penosâs, poderiam mesmo scr agrâdáveis,
vés dos bancos; sô â apanhei, a dois passos da portâ. Seu ar se não fôssem essas pahitações do coração, bastante angus-
sério iinpôs-me silêncio. tiosas, âfinal. O apârecímcnto dâ autora é sempre táo doce
É castigo porque cu fâlei com â Stta. Chantal; Íiz para mim ! É aomo uma grâça de Deus, um sorriso. Benditas
- dc ficâr com o coldão nâ pernâ, até de rroiie.
promessa sejam as manhãs!
Colte isso! disse-Ihe. Renascem-me as Íôr'çes. como uma espécie de apetite.
-Ertendi palâ ela meu cânivete. Obedeceu sem dizer uma O têmpo está, aliás, bclo, sêco e Írio. Os prados estão cober-
palâwâ. Mâs o repentino afluxo do sângue deve ter sido te!_ tos de geâda brânca. À âldeiâ parece-me bem diferonte do
2t4 CEOEGES BERNANOS DIÁRro DE uM PÁRoco Dr ,lúElA 215

que era nc outono. Dir-se-ia que a limpiilez do 3r v.Li-Ihe ti- bem "consoladorâs". E, no entanto, havia reseNado para o
rando, pouco a pouco, todo o pêso e, quando o sol começa a Jim aouelas cuio Éxilo tavorável me parr cia mais duúdoso ..
declinar, crer-se-iâ que eta fica suspcnss no vácuo, não toca A que se deve-alrjbuir eslx súb'ra Iacilidâdr ctos sêres e das
mais a terrâ, escapâ-se, evola-se. Eu é que me sinto pesado, coúâs? É imaqrnáridl Telci ticJdo insensivel â cêrtas pêque_
âgârr'sdo ao chão, por um grandc pêso. Às vêzes, â ilusão é nas derera(âi? OL! minha jnsiBntticànci1. rêconhecrda poÍ
tâl, que olho com uma espécie de tenor, uma repulsâ inex- todos, désârmou a suspeita, a antipâtia? Tudo isso me parêce
plicáve], meus grossos sapaíos. Que fazem âí, em meio de um §onho.
tânía lu7? Pâr(ce quê 05 vcjo sumir. c. r Mêalo da morlr. A sêqunda .rise Íoi mais violentâ
que
â Drimeirâ. Mas é bêm c§lrãilho ês'e :obressâllo. essa contrâ_
Evidentemente, rezo mclhor. Mas não rcconheço minha peito.. )
omção. Artigamente, ela tinhâ um cêráter de ollstinada im- çà'o de todo o ser em ú''no .io nào "êi que Flonlo do
ploração, e, ainala quândo a l1ção do breviário, por exemplo,
retinha minha atenção, scntia prosseguir em mim êste coló-
quio com Deus, ora suplicaâte, ora apl_essâdo, imperioso
slm, eu quere â afrâncar-Ihe suas graças, violentar sua íer_-
nurâ. Agora, náo chego prÔp aôente a desejar coisa alguma. Àcâbo de ter um encontro- ohl um encontlo bêm pouco
Como a aldelâ, minha oração já não tem pêso: evola-se... surpreenalente. atinal. No êsládo em que.me âeho o menoÍ
Sêrá um bem? Ser'á um mal? Náo sei. âcoiltecimenlo DPrrle suas nroporcõêc Fxâtas. como uíla pal-
n. n"roãiro. Em uma paiev.a. croio ter encontrado
"án"m
um am'.go, Senli a rêv.lacáo da amizâdê.
Est; confi-csão surpreênd-eria a muitos dos mêus antigos
nois ladn^ mP iutgâm bâslaote fiêI a cerlas simDa_
Àinda uma peqnenâ hernorragia; ou talvez um escâtro de "o1qEa..mociaaa.. Min] i mêrrória clas.lalâ< minhâ êxaiidào
iiaiia
sangue, Roçoü-me o mêdo ds morte. Oh! sem dúvida, o pen- à* *ão"àr" oa aniversários de ordenação,-por exemllo,. é cé_
samênto ala morte vem-mc lreqüente§ vêzes e, não ralo, ins_ lelrre. Âtê cacoâm alis§o. Tudo, porém, náo passa cle simpa-
pira'me temor. l,llas temor não é rÂêdo. Is§o durou um mo- liâ- ComDreendo. cgorá. quP s amizâde pode irromper ênl,re
mento só. Não sâbcria com que comparar essa impressáo JUI- dois sérei. com êstê caratêr dê ârrêbatamPnlo de violência.
gurante. O açoite de uma ponta de chicote no coraçâo, tal_ que as peisoas do munclo só reconhecem nâ revelaqão do
vez. .. Ó Santa Àgonia! amol.
Meus pulmões estão em mau e§tado. Nada mais cclto. Ia, pois. para MéscrgLres quando ou\ i atrás de mim po-
Enhetanto-. o Dr. Detbende me âuscultâra cuidâdosamente. rém muito dillante, um loqui de sirena. êslê rumor quê au_
Em algumas semenas, â tuberculcse não deve ter podido Ía_ metrta e de"r"sce, aiternati\iamente, segundo os cap chos do
zer múltos plogressos. Átilis, muitos triunfam dessa dcenqa vento ou as sinuôsidâdcs do caminho D€ algun§ dias pam
pela energla e á vontade dc curâr-se. Tenho uma coisa e ou- cá, estâ sirena é Jamiliâr a todos: ninguém mâis lev-antâ -a
tIâ. cabeca. quando a ouve, DiT m âpPnas: é a mol'ocicleta do
Terminei hoje as visitas que o vigfuio de Torcy chama sÍ. Olivier". Umâ máqujna alemi. êxlraordinárià. que dá a
irônicâmente de domiciliárias. Sc não deiestasse tan o o vo- laléi,a de uma pequenâ locomotiva teluzent.. O sr. olivier se
cabulário habitual â muitos de meus colegas, diria que foram chama realméntê Treville-Sommerange; é sob nho da con-
nrÁRro DE uM PáRoco DÉ ÀLDETA
CÍORGES SIANANOS
276
C.mc em um relâmpago vi minhâ trislerênâ':anr adolescência
sLra'-.não
vi:ias'
i#; às ,iü;;; qlel segunao dizem'
q;e sPntix,eta a de
:ô,,li"..'Àlü!:':,l-li:?:f"lii*+Jà-#i:?:tgi[$
â entrar para o exerclro l'rr
rnLes de d.sapar.cer. pols a rffpres'ao
:,-: ";;".;';;'.". inl'trnt,neide qLrad'os. n'1ol Era como
obricá-lo
"-' '"o"i,""-.'," o baru-
no ilt,o do b*tt'n"o para des'ansar' ;;';;"fãi;.i; à; mim uma pe"soa 'rr §'1 ( vivo oLr mor-
câust talvrz do.rêconhe-
,r.," ío -oto; "É,*". por olgLrns sccuncios
lpor ià. ã-"à0"r,. Mes eu nio êstava seguro vai par' cer
;ü; 'ü
ã; "Era ;, d e dit on ne r-
t
"j" ry ::ifl il:T* ã:. "à'i"r.
::.fi;;;;;;;'n' porque - ohl isso
primpjra
te.
e
-or*." grito
como um setvagem' rllrlr "",H=rlfl
do morro' em
i"^*" '"ii"'r"^
- t"*"" ó estava
"êri3 vendo pela vez'
em
ll.#.ioà io mesmo insl'ntê' o alto i,r""à ã li"r,á ,i-tà -;tês. Minha adolê'^ên'iâ Das'ara
il,"'{i,"'i."""ü. d ê um c
::'ü"":",J:',à:, l;"t"J^;'i; ;;i;;;;;; .orro nrs'àm iunto dê nós rânro' estmnhos
o sol caia. a ""r-s€
pino
"ãi sóbre L"l'i:"i;;';";; u. Iili".,"ãili"^ - .,. ,i ;J 1, o'' fri'' orre se arcstam ê
- 9 '"9 iàr"ni" iào
"'lot'''o'
voltam meis. Nr,n'à tul 'ovêm porque nirnca m" alrevi a
r"lül|i:fu *;":i', ir}[r,:tiiíii1 ; lrxr* ".i; '"i;.';;'.;á;. de mim provàvê)meniê a vidâ seeuià.ácida sou

::l:r, ;;r; ;;..'rdas sabornavam esta

#; ; üi1*, ; ü ;. l"r _1. ::,::,::: S: i,1:"T.?,tr'fllif, f I3. il:Tt###ã: ltii:ni;;::l


'onhê'iâm
n:'am m $i,::i li' i lT
-

i;: 'rÃ;';;;ã;;il de meus amisos temer' ainda

ti-,;f,"",ilfiTll?';xi*""''*#f liü*']q** i."t., iuu vonl3d.. a mârca


i;i;;il.";
'"".;;:';;;Ã;;il
".r"tiat"à
que em mim haviâ
'leviârú
inrenlil dâ mi'éria ^de seu
âbris"e meu cora'ão' mas o
dêi7^-'lo a
op-'-óbr"'o'
quc- rm'
."orme ainda.que o sritom,
iIràili-*Jniul. ,1,"
' o sr. olirier e"l,âvâ. cli. diante_'hâs. com sua brusâ
sêm chaoóu. Nrrn_ :*xtâ t*";:,*:l*fi
'hcs
:x';"iJil.:"#l;i"{t:li
quis sel
j,
co-
r,* *i:{ rl,rl } i"J s"t;#àslt
F"xft {; Olhava_me lsril: ;i:i,5;à;i1i;";;i"i
miso.
jovem, porque ninsuém o

sorrlnoo "''"t,4. u, eois.s mo Darecôram sübilamênle sim_pl.'" 4


te "l côr.
^ sua ão". subir, sr. vigário? - nêrsllntou-me
com uma ,^-*i.-"- a, ,a"r".côncla nunrt mais sê âparlará de mim'
do ouro as dê"'idr" dx
:,#;;;;J ;;a voz ãup imecliatamenle reconheci doce 3Té';1i:í"::;;;;. n",-oãi"olii'u'rn
e csiaEiôrrin3 dPslumrladôrâ
"",
e inflexível a voz da concressâ ' íiiutà ãi"à"" rrt u de s:lo
'"",iii.'*u - iom tenho a cobre o solo. ComprFêndi que a
Íisionomista como di7êm ma§um - ^ -r^!!êi'vâ ""us
.tô.emcntc
correr
a" esqLreco. nunca amo-as i,ii"íirãà ã ia"dc b' ndita - que ê u,, ljsco a pressênti-
-
-"*itii#aii'uJ;*. ;àocleve
ll''.ilãti-*â" uiii.,l.
-cÊco
alrender muitas cojsâs ouvrnoo "*ã ó ab'n'oado E por
#à.'àri piàpi," iis,'o comprêendia lambém sobia que um

'"" -I"r-ã "r"" i'táosrioxpli'ar'


q* eu morrê'çe sem conhecer qLralquer coi-
Li," n'-'* _ja.."
ii'à,]'.-"ãJi.ã.i^
;"*irH"-i::,T"1"""J,'ill.' ;'lii,i.}ii. i^ ":.." - e),atumFnt. o hdslxnte ta'vêz para. que
,nri"u".r.i.r*i " "m poucominhadê ironia também Ào lado da-
nrsra e
tolrl qrrrndo -chesa'se o ltromenro '
;d';;;rt;-; fóssep fusâ7,ninulo
;i;;i;;h;;;iu"i.p";qtie
máqiina' batina era uma ôàrr."ãi"ii; pobre dlrl'f,1ilá,ao
rnilasrc mc cênii Pnláo inv' m' Íâo de um I ou.,ur. u","
Ili"il irià";i'r,,- triunral nranhã? Falar as§im, a
Propósito
iài'"à -: ãiii s*' ia; làv"m - co*o
aqoeta
2LA GEORGES BENNANOS Dr,Ánro DÉ uM P.{roco DE Ar,DEra 219

pârêcer bem iolo, §ei dislo. Que importa! Para não ser ridi na suâ cürva imensa, na suâ prodigiosa âscensão. Á paisa'
ôuto na feiicidade, é preciso conheiê-la desde os plimeiros gem náo vinha a nós, abda-se por tôdâs as parte§. E um pou_
ano§, quando ainda não se pode nem sequêr balbuciar seu co além do ziguezaguear louco da estmda, dobrava-se mâjes-
nome. Nunca mais terei, nem por um segundo, estâ firmeza, torâmente sôbre si mesma, como a porta de um outrc mundo.
êste gâlbo. A felicidâde! Ums espécie de altivez, de alegria, sentia-me completamente incapâz de medir o câminJrb
uma esperânça âbsurda, pummentê cârnâI, a forma calnal percorÍido e o tempo gasto. Sei âpenas que íâmos depre§sa,
da esperança: creio que é a isso que se châmâ felicidade. En-
Íim, sentia-me jovem, reâlmentê jovem, diante dêste com- muito aleDressâ. câda vez mâis depressâ. O vento iá não êra,
panheiro tão iovem como eu. Âmbos éramos jovens. como no comêço, o obstáculo conhâ o qual me âpoiâvâ com
todo o pêso do corpo; trânsfolmara-se num corredor veftig!
onde vâi, sr. Vigádo?
-* Pâra
Pala Mésârgues.
noso, uh vazio entre duas colunas de ar âfastadas brusca_
roente. numa vetocidade âlucinant€. sêntia-âs rolar à minha
O sênhor nullcâ andou nisso ? alireite e à minha esquerdâ, como duas mumlhas líqxidas; e
-Desatei-me a dr. Pensci que, vintê anos antes, só pelo qu?ndo têntavc eslirar o bmqo, êlas pareciam agarrar-se a
Íâto de âcâliciar com a máo, como fezia naquela hom, o longo ileLr flanco. por uma tôrça irrecistível. Ássim chegamos à
reservaiório, trepldante com as lentas pulsaÇões do motor, curya dê Mésargues. Meu conduíor voltou-se parâ mim, um
teria desmaiado áe prazer. E, no entanto, não me lembml'â de segundo. Inclinado em ]neu assento, âinda ficavâ âcimâ dê
ter. qüanrlo mcninb, sequer imaginâdo possuir um dêssês seus ombrcs: êle tinha de olhar-me de baixo para cima "Áten_
brinquedos fantástjcos pala menjnos pobres: um bdnquedo gritou-me. Pârecia Iir com os olhos. O vento fazia
ção"!
mecânico. um brinquedo que anda. Mas êste sonho permane- ilutuar- seus longos câbelos louros. Vi o bauanco do câminlo
cia cedamente intacto, no fundo de mim. E surqia do passâ_ lancâr-se sôbre nós, depois fugir, bruscamente, numa cordda
do. estâlâva, de súbito, no meu pobre cors.ção doente, já to_ oblígua, inverossímil- O imenso horizonte vâcilou duas vêzês,
cado pêla morte, talvez... Estava 1á dentrc, como urn sol.
* Com cfeito, continuou ôle, o §enhor pode orgulhâr-se e logo mérgulhamos nâ descida de Gesvres Meu companhe!
de nle têr espanf,âdo. Náo tem mê,:lo disso ?
ro grifou me nao sei o qua. respondi_lhe com um sorriso: sen-
tia-me Íeliz, libeltado, tão longe de tudo! Afinâl, compÍeendl
Oh! não, por que hâvia. de ter mêdo ? que meu semblânte o surpreenderâ um pouco e êle pensou,
- Por nada. prrovàvelmente, qüc eu tinha mêdo. Mé§argues estava âirás
- Escute, será que, daqui a Mésarg:ues, náo
iiemos - encontrâÍdisse-lhe,
alguém? Não queria que caçoâssem do se_
de nós. Não tive coragem de prctestâr. No Íinal da§ contâs,
pensava, teda dc gastar pelo menos uma hoÍa para Íazer o
nhor. trajplo a pé ainda estou ganhando,..
* Eu é que sou um ialiota, req)ondeu, depois de uÍn Si- Regaessamos ao presbitélio, mais pausadâmente. O céu
lêncio. I
estava encoberto, sopl'aÍe um ventozinho ásperc. Tive a sen-
Trepei como puale a um pequeno assento bastante incô-
modo e, quase ao ilesmo tempô, â longa descida que tinhamos saqã, perfeita c1o despertar de um sonho.
dianíê de nós par..eu-me sall,ar pam l,rás, enquênto a voz do Por sorte, o câminho estâva deserto. só nos encontramos
motor se ele!árÍr cr.dâ vez mâis,-alê se reduz:r a uma única com a veiha Madalenâ, que estava catando lenha. Nem âo
notâ, de extraordináriâ pureza. Erâ como o cânto da luz, êrâ menos vfuou o rosto. Pensei que o Sr. Olivier lôsse continuâr
a própria luz, e eu tinha a impressáo de a segut com os olhos, até o castelo, mas pediu-me, gentÍmente, licença para en-
\,$,t

220 GEOEGES BEÀNANO§ 1 Dr,Áaro DE uM P.á.Roco D! ArDEr 221


I
har. Não sabia o quê Ihe dizer. Deus sâbe quanto daria para dizer que morremos bastante bem. Mas, ora! O senhor iá
poder seNir{he alguma coisa, pois ninguém timrá da cabeça I sabia disso, antes de mim. Essas qualidades e deÍeitos, todos
de um camponês, como eu, que um militâr tem sempre Jome juntos, prcduzem soldadcs passáveis. Infelizmente, minfla
e sêde. Naturalmente, nâo me atlevi â oferecer-lhe do meu plofissão ainda não admite mulheres, de modo que as de fa-
vinho, que não passa de uma tisana barrentâ, pouco apresen- míIia con,Io a nossâ ! É o diâbo... Minha pobre tia havia
tável. Ácendemos, porém, um gmnde fogo e êIe encheu seu eneontrado uma divisa para nossâ gente: Tudo ou Í!âda.
cachimbo. I Diziâ{h€, certa vezr que essa divisa não significaria grandb
* É pena que tenha de partir amanhã; pode aÍIos re- I
coisa, a menos que se ihe desse o caráter de uma aposta. E
cúrneçâr.., semelhantê aposta só se pode fazer sêriamente, na hora da
Bâstaa experiência que Iizemos, respondi. o povo morte, não é verdâde ? Nenhum dos nossos voltou pâm di,
não -gostaria de ver seu vigário couendo pelos câminhos, com l zer-nos se ganhou ou não a aposta, e por quem.
a velocidâde de um trem expresso. Aliás, isso poderia ma-
tar-me.
- Estou certo de que o senhor acredita em Deus.
Entle nós, respondeu, é uma questão de que não
senhor teln mêdo ? -
se cogita. Âcrcditâmos todos em Deus, todos, até os piores
- OOh ! náo,.. Enfim, qual!... Mâs que pensada o os piores mais que os outros, tâlvez. Penso que somos
- ?
Sr. Bispo -orgulhosos demais para dccidir-nos a Jazet o mal sem cor-
Suas manêiras me agr'âdam múto, disse. Podería- rer algum fisco: assim, há sempre uma testemunhâ â afrou-
mos -ser âmigos. târ: Deus.
amigo, eu ? Tais palavias deveriam rasgâr-me o coração, pois era
- Seu
Por que náo ? Mesmo depois de saber o que sei a fácil interpretá-]as como outras tântas btasfêmias, e, no en-
seu - respeito. Por aí só se Jalâ do senhor. tanto, não me perturbarâm dê maneira alguma.
é mau aÍrontar a Deus, disse-lhe. Isso força o
- Mal ?
Ásslm, assim... Minha pdma é râncorosa. Umâ ver- homem- Náo
a compromeler,se a Íundo, a comprometer â Íundo a
- Sommemnge, âquela âli.
dadeirâ esperança, tôda a esperançâ, de que é capaz. Só que Deus se
quer dizer com isso ? aparta, às vêzes. . .
- Que
orâ, eu também sou sommerange. Ávido§ e duros, Tinha cravado em mim seus olhos pá-Iidos,
nunca - satisleitos com coi'3 alguPla, com um náo sêi quê - Meu tio o toma por um padrezinho de nada. Âcha
de intratável que deve sêr, entre nós, a parte do demôüio; lnestIlo que o seDhor. . .
isso nos faz terivelmente inimigos de nos mesmo§, a ponto O sangue sübiu-me âo rosto.
dê que nossas virtudes se pareçâm com nossos vicios e de que â opinião dêle lhe é indiferente. Meu tio
que o próprio Deus terá dit'cLrldadc, qtlando quiser distin- - Penso
é o último dos imbecis. Quanto à minha prima. . .
guir. nã fámilia. os maus e os sanl,os se é que há santos Não toque nisso, peço-lhe !
na famÍlia. A única qualidâde que nos- é comum é a de de- -Sentia que meus olhos sc enchiam dc lágrimas. Não
testar o sentimentalismo, como uÍla peste. Recusândo par- podia resistir àqucla súbitâ frâqúezâ; e o mêdo de ser ven-
tilhar com os outros nossos prazeres, ao menos temos a cido por e1â, coDtre miDha vontâde, era tão grarde que um
Iealdâde de náo nos embaraçar com nossas dores. É umâ qua- arrepio perco eu-me o corpo e tive de ir agachar-me, num
lidade preciosa na hom da morte e a verdâde me obriga a cânto da chaminé, entle as cinzas.
Dúaro D! üM P,íBoco DE ÁLDEIA
222 §EORGES BERNÀNO§

Foi â Drimeira vez que vi minha prima êxprjmir um


ludo... Camponeses como os outros. E eis que âs palaúâs
- de um desconhecido despertavâm de repente, ern mim, tuna
sentimento cdm essa..,, Oidinàriamente. opóe a lÓda indis- inexplicável curiosidade.
criçao, mesmo frivolâ. um rosto de bronze.
* Nào laiê dela. Fale dc mim... IIá blaslêmia e blâsfêmiâ, continuaYa meu collpa_
- com
nheiro voz trânqüila, quase severa. No espírito dos ca-
Oh ! o senhor ? Se não fôsse essa batina hegrâ, o mâradas é uma maneila de cortar as pontes atrás de si.
-
senhor se pareceria com qualquer trm de nÓs. Percebl i§so, Estão acostumados. Àcho tudo isso idiota, mas não Íeio.
.lêsdê o Drimeiro instânte.
Fora da lei neste mundo, põem-se fora da lei no outro. Se
Náo compreendia íainda agolc. não compreêndo). Deus não salva os soldados, todos os soldados, pelo fato de
O sPnhor não quer di7êr que... §erem soidâdos, inútil insistir... Um blasfemo a mais pâra
*- Sim, ora essa ! Quero dizer i§so precisamente. Quem (ompletar a sêrie. para parLicipar do mesmo destino dos
sabe o seúor ignora que siNo no rêgimento eshângeiro ? câmaradâs, parra evilar a absolvição por minoria de Íavor e
No regimento ? pronto I AÍinal, é sempre a mesma divisa: tudo ou nada,
- Nâ Legiáo Estrangeira, om essa ! Tomei biüa da pa_ não âcha ? Âposto que até o senhor.,.
- depois
lav!â, que os romancistas a puseram em moda.
- Talvez
um pcdre... balbuciei. - Eu? náo, o senhor ! tr1 verdade quê há uma pequena
Padres ? É o que não faita ali. Vejâ: o ordenança
- comandante era um ântigo vigfuio de Poitu. Só o - PoisEnfuetanto,
diferença. bastada que o senhor se olhasse...
de meu Olhar-mê ?
soubemos depois. . . -Não pôde conter o riso. Rimos juntos, como haviarlos
de qué ?
- Depois
Depois de sua morte, ora essa!. . .
I.ido, antes, no caminho, sob o sol.
- Quero dizer qu. se seu rosÍo não exprimisse. . .
-Ecomoéque... -Deteve-se. L{as seus páIidos olhos jâ não me desconcer-
é que morreu ? O!a, moniândo em umâ mula
- Como
de carga, amallado como um salsicháo. Tinha umâ bala na tavam. Nêles Iiâ seu pcnsamento, com absoluta clareza.
Penso que o hábito da oração... continuou. BoIa§ !
Ests-linglagem não me é familiar. . .
bâuiga.
é issoque
- Não Pergunto.
Escute, não quero mentir ao senhor. os râpazes gos_
oraçáo ? O hábito dâ orução ? Oh ! se o senhor sou-
- . A. Eu
tam -de bancar o valente, naquela horâ. Empregâm duàs ou
besse. rezo muito mal
Ocorrcu{he uma Iesposta estmnha que me fêz refletir
três fórmulas que se palecein bâstante com o que o serhor muito, depois.
chatna blasiêmiâ, sejamos Ímncos. * o hábito dâ oração ? Para mim, hata-se, antes, dâ
* Que horror ! preocupaçáo perpétua pela omçáo, uma luta, um esfôrço'
Passàva-se em mim qualqúe! coisa de inerplicável. É o contínuo temor do mêdo, o mêdo do mêdo, que modela
Deus sabe que nunca me tinhâ preocupâdo com êsses ho_ o rosto do homem valente, Pemitâ-me dizer que o seu, o
mens aluros; com sua vocação teúÍvet, misteÍiosa, pois pâIa seu rosto palece gasl,o pclâ oraçáo: I1z pensar em um Ítis-
mirúâ geraçào o nonle de soldado evoca âpenas a irnagcm sal muiio velho, ou aindà nessas imâgens desfeitas, tlaçadas
banal d; um civil mobiiizado. Lembro-me bem dos que vi- a buril na lousâ dos sepuicros. Não Ímporta ! Creio que
nham em licenqa. Chegavam caregados de embornais; úâs, não seria preciso aouito pâIa que seu rosto ficasse igualzi-
na mesma noite, voltávâmos a vê_los vestido§ de pano de ve_
224 CEORGES BERNANO§ D,rinlo DE uM P.{NoCO DÉ A!,DEIA 225

nho âo ale um "fola da lei", do nosso estilo Áliás, Íneu tio ppnsam as senhoril,as. Mas, quaMeria preciso vê-los como
iã ãi""" oue o senhor náD tem o senso da vida social' Con' ie apresentavam perân{c o inimigo, cscudo con[ra escudo.
i"."", gente doutra espécie. náo ? corpo a corpo. valiam o que valla a elevada imagem que se
"o.os
Não mi recu§aria a ser como êles, disse Cen§uro-os-, esfórçavarn por reproduzir em si. E aquela imagem, não
-
âDenâs. Dorque tém amor. . . Íoram pêdila a ninguém. O§ iipos de nossa raça iinham a
' I.to""oa eamaraalas não sabem mais que o senhor. cavâIaria no sangue; a Igreia não fêz mais que abençoála
-
Pensxnr oue Deus é solidário cle uma espécle dP iustiqâ que soldados, nada mãis que soldâdos, eis o que foram. o mundo
êles despiezam. porque é uma iusliça sPm honra' não conheceu outros iguais. Protetores da Cidade, mas não
A homa. a próDria hon'a, comecei. . servidor€s: iratavam-nâ de igual pâra igual. ÁfastaÍam da
- Oh | é cerlo | Úmc honra lá a seu modo .. Por mais hislória a mais sublimê encârnaçáo militar do pâssado: -a
- que pareça aos câculsias. sua lei tem ao mcnos'
orcl;nrria do solclado-lavrador da anl.ga Romd. Oh I cerLamente nao
á -o.no aà cultar'cato, murto c*ro .. É como a pedra do erarn toclos nem justos, nem puros. Mas, nem po! isso, dei-
sacrilic:o uma pedrinha de nada rponas um pouco maior xaram de representar uma ju§iiça, uma espécie de justiça
-
ônê âs oulras. mis tótla r(spiandecente de sangue luskal' oue. duranté sêculos e sêculos, preocupa a lrislêza dos misê_
Éã-,'" a"ú ndo é murto clàra para nosso lado e fariamos rãveis, ou às vêzes lhes povoou os sonhos, Porque. alinâl de
óii"brãco. arrâncarPm os ljos dt cabeça se l'ilessem tempo conta;, a justiça nas mãos dos podelosos não pa§sa de um
de se oúpar de nós. O lato é qLre nenhum deles se aLrêle- instÍumenio de govêrno, corno qüalquer outro. Por que cha-
i;, u "r.ientrt q'ualque. vivos ou mor'Los. pertencemos àquele má{a iusriçâl DiSa-se anl,es a injLlsti(4. mas cal'ulada,
munao.rtre o (r:, de rhêio há rinte séculos, a ünica eficaz. baseãda inlairamente na terrÍvel experiêncja da re-
mâldiçáo do Evairgetho. Pois a lei do mundo é a recusa - sisténcia do fraco, de sua câpacidade de solrimento, de hu-
e nós irada recusaúos. nem â no§sa própria pele; é o prazer mrlhacáo e de inÍortunio. A lniustiqa mantida no exato grau
e nó5 só pedimos à boemiâ. como a um 6ono qua-Iquer' o de ten;ào necessá-rio para que iuncionem as rodas da imensa
-repáuso e o'e"que"imcnlo: e a séde do ouro - e a maior máouina de tabricai r,cos, sem que estoure a caldelrâ, E.
puite aos to"soi nem ao mênos possui os mi§êráveis espó- de iepente, correu, por tóda a terra cristà. o boal,o de que
íiài matricutados com que vão pâra detJaixo dâ terra' O
ia su;sir ulna espécie de gendarm.ria do senhor Jesus...
senhor há de concor-daf em que semeihante pobreza pode
Um bõato que corre náo e la grande coisa: isso não! Mas,
ser compalada conl a dê celtot Irades da moda, especialistas olhe I oLiando se rellele no éxúo fabuloso, inlnterrupl,o de
no exâme interior de âlmas raras.. um Il\T'o como o "D. Qüxol,e', a gen!,e se vê obrigado a
Olhe, disse, há o soldado eristão. . . compleender que se a humanidade âinda náo conseguiu vin-
-Minhâ voz tremia, como tleme cada vez que um sinal gar-ie pelo so de §üa grande espera.nça flustada, é que a
misterioso me adverte que, por maÍs que o faça, minhas pâ- iinha tmzido muito tempo consigo, é que haviâ penefuado
lavlas hão de tlâzer, sãgundo a vontade de Nosso Senhor, muito protundamente no coraqáo do homem I Cavaleiros
o consôlo ou o e§cândalo. andantés, vingadores de olensas. vingadores de máos de [erro.
O cavale:rc ? perguníou sol,Iindo. No colégio, o§ Inútil dizer: aquêIes homens de§carlegavam gmndes golpe§,
-
bons oadres ainda -
juravãm pe,o elmo e pela cspâdâ con_ golpes pesados; o certo é que lorçaram nossas consciencias, a
.ia".ruum a Cancàó de Rolcndo" como a Ilirda lr'rncesa' gmndes golpes. .{inda hoie, as mulheres pagam muito caro
Evidentemente, âquêles Íamosos câvaleircs não eram o que õ direito de ttazer seus nomes, seus pobres nomes de solda-
226 dEORCES BEINÀNOS DIAÀIO DI UM PAEOCO DE ÀLDEIÀ 221

dos: e as ingênuas âlegorias desenhâdas outrora em seus es- Â brincadeira poderia provocâr-me o dso, pols se parece
cudos, por aigum clériào dcsajeitado. pôem a sonhar os opu_ rÂuito com as que, lântas 1êzes. ouvi no seminário; mas per-
lentos slnhorãs do carv-áo, da hulha oú do aço. o senhor náo cebi que seu oihâ! era triste, de uma tÍisteza que bem cô-
acha cômico ? nheço. Tal espécie de tristeza atinge-Inê no Íundo d'alma;
sinto. dianle dclâ. uma cspécie de timidez estúpidâ, insu-
- Nâo, disse-lhe.
Eu acho. É táo engraçado pensaÍ que as pessoás do
perável.
* Âfinal que é qu€ o senhor censura nos homens dâ
mundo - se iulgam semethantes a essas criâtulas sublimes, Ígreja ? acâbei por pergüntar um tanto idiotamente.
deoois de seteõenlos anos de domesticidade. de preguiça e de
adirltérios ! Àquêles soldados pcrteÂcialn apenas à c-risían_ ? Oh ! não é lá glandê coisa: censuro-os poÍ nos
dade e a cristàndade já nâo pcltencc a ninguém. Já não
- Eulaiclzado.
hâverem Á primeila verdâdeÍa laicização foi a do
existe, nunca mâis exisürá a cdsiandade. soldado. E não é de hoje. Quando os senhores choramin-
gam por causâ dos excessos do nacionâlismo, devedam lem-
- Por
quê ?
brar-se de que, em outros terhpos, caçoaram dos legistas dâ
_nraisnáo há mais soldados. Náo há
Porque mais solda- Renascença que botavâm o dir'eito c stão no bôlso e refa-
dos. -
nào há cristânclcdc. oh : o sênhor dlrá que a Igreja ziam pacientemente, nas barbas dos senhoÍes, o Estado pa-
sobievive a tudo e que o princ;pal é isso. Náo há dúvida. Só gáo, aquêIe que não conhece outra lei que a de sua própda
que o reinâdo tempõral oi Crislo. ê.te, háo haverá mais. aca-
sâivação as implacáveis nações cheias de avarezâ e de
bou. Â esperança de tal reinado rnorreu conosco. orgulho. -
.- Com os senlores ?l - exclamei. Não são soldados que Escute, disse-lhe, não sou lá muito e[tendido em his-
nos Íâltâm I tória,- mas me parece que a anarquia Jeudal tinhâ tambéÍn
? CIÉme a isso que há por aí, Íniütares.
- soldados
O último verdadeirc soldâdo morIeu no dia 30 de maio de
seus pedgo§.
náo há dúvida... os senhores não quisemÍri
1431 e Íomm os seDhores que o mâtanam. §im ! os senho- - Sim, D€ixaram
âÍrontá-los. a cristandade incompleta; a cdstan-
res I Mâis do que matar: condenarâm_no, e depois queima- dade se formava muito leDtamente, custava muito e rendia
ram-no. pouco... Aliás, não foi com pedÍas dos templos que os se-
Mas também, fizemos dêle urna Santâ... nhores construír'am suas basilicas ? Não construíram um
- Diga. antes, que íoi Deus quem o quis. E se aquêle novo direito, quando o Código de Justiniano permEnecia ao
- foleievado a aemelharte all,ura foi precisâmente por-
soldâdo âlcance da máa? "O Estad.o d.omifl,atutlo tudo e a lgteja Co-
que êra o último, O último }ebento de tal raça só podtria mhúmiLo o Estado", esta Íórmulâ elegante devia mesmo agra-
sãr um santo. Deus quis aincla que -[ósse uma Santa Res- dar aos políticos dos senhores... Quanto a nós, tínhamos
peitou o antjgo pacto-da càvalaria. A velhâ espada iamais nossos privilégios; e, além das Jronteiras, nossa imensâ fra-
iendida, repousa sob joelho" que o mais valente dos nossos ternidade. Tínhamos até noslos claustros. Monges-soldados !
só pode beijar chorando. Gosto disso o senhor sabe gosi,o Era suliciente pam despeltar os procônsules nos seus tú-
da àiscretâ alivisa dos torneios expressâ pelo gÍito: "Honra mulos; e os senhotes, os senhores também não se encontra-
às Damas !" Há nelâ razão suficiente para botar ve§go§ de vam muito seguros 1... Â honra do soldado, o senhor com-
raiva seus doutores táo desconfiados da§ pessoas do §exo, preende, não pode cair no aiçapão dos casuístas. Basta ler
hem ? o processo de Joanâ d'Àrc: "Sob a fé juÍada â seus Santos,
DIÁiIO DE ÚM P,fuIOCO DE A,,DEIÁ 229
22A GEORGES BBRNANOS
que rccusaram a sepultur'â eclesiástica aos pobres cômicos
do rei.de do século x\{I. como háo de enterrá{o ? E§tá assim de tâl
sob â fidelidaLle !o sus.!'ano. 'ob a legilimidade de l'udo modo âviltâd no-lsa prolissão, que náo possamos, âbsolutâ-
iii^r.". ià"iíà* "os diziam Nris a '6!0l\eremos nente responder pelo nlenot dos nossos aios, que sejãmos
:-'1ti;;';;;.;-";, ;b;ol\ida depod'ria nxc* ' respondia - 'En-"
? Ela lêsl'nJel - 5ÍrPi obrigados a comparíilhu dâ horrível inocência de nossas má-
i;o vamoi .onciê_l:"13
quinas de aço ? Ota, vamos I O pobie diabo, que, numa talde
ênkio condônârld, lunlo com nli u ju'a n'nto- Porque nosr:
os senno.'s Lbencodr'1m ês'e iuramcn- ,1c p;irnavei.r, b':nca com sua amiga no musgo. é conside-
i;i';;r-;- l;;;..,;. nlo aos sennores §'rÚ rrdô pelo. senhorr. (m c\l.do do pêcado mo al: c o des_
1.. mas a êla é qLle pertnn(iamos.
qn{r'og:r'om ao Eõtado o Estâdo' truidor de cidades, enquanto as crianças que €nvenenara âcâ-
iil"ãiiã io" beln de vomitâr os pulnrões no rêgaço de suas mães, só terá
âuã "*nlr,"5'n65
no. u".," nos-3liment-r. l,oma conta tam-
" o trâbalho de mudar as calQas pam ir distribuindo o pão
üJir] "ãi "iÃ^,con"ciencia. Proilliclo d. julgar. prorbi(áo êté
a" no"., bcnto ? Como os senhores são lârçântes ! Inútil fingir que
ã" 1Ãpià."a*. E seus l,eólogos aprovam isso como coisâ estão tratanCo com Césares ! Á cidâde antiga morreu, mor-
naturaL. Concedpm-llo'. com umd carela petmissão para ma- reu com scus deuses. E os deusês prol,erores das cidades mo-
lar. Dard marar nao ln,pol'Íd ond' rao inlporlâ 'omo' firrar dernas, todos os conhecêm, iantam nâ cidade, e se chamam
reprimimos
*idra"m. co.o um v,. idutso. DeÍcn'orcs do soro passcmo-s
a re\olu(áo vênce a banqueÍ'os. Redijam, pois, âs concordatas que qui§êrem !
iainbém a r, \olu(io; mas so Fora da cristandade, náo há lugar no ocidentc nem para a
servi-la: dispênsr cle lid, lidaoe, Pol eslê í'ranslor-
'egime
militares quc Pátria, nem para o soldado. E as covardcs complâcências
-ãÁà'nu" eir mililcre' E 1bo perleitâmenlê
a todos os servilismos' o dos senholes acabârão logo por deixar que se desonrem
,romã àe-o".o"iu aco§tumaalâ uma e outro !
dos sen, r'ais-min::l ros consegue escândJlizar os advogados'
Levântou-se; ao fâlar-me envolvia-me com seu olhar es_
iaà Exatamento, táo pr rteilcmenlê militar(s' que um homem tlanho, de um azul sempre tão pátido, mas que, na sombla,
§pmDrê est€ nome ln_
de qrande esl,rrpc. como Ly|ruley rep'lirr parecia dour"do, Lan.ou lur:ocàmênle s, u rr8arro às c:nzâs.
ià'riii,ii.-- Á ii"á r dc contas. d'qui a pouco hcrerá mai'mi'
il;;;; D;" ú" anos todos todos o qriê ? Quanto â mim, pouco se me dá, continuou. serei
. aos scssenta
vaziâ de senlido - antês.
molto,
ôlióolio exarc,lo se torn, uma palrvra os outros as tribos Cada uma de suas palavras agitou-me âté o fundo do
;"fi";;;;;;;;;; ián(n* 'onrra -
ãl-aii;ca.'qu"r I - lrltos 'nt
dn cem milhórs dê homens É coração. Oh ! Deus se entlegou em nossas mãos seu Corpo
- em
X-i"ài1,"ã. r", mais êborrecido. continuará a assrnar e suâ Álma o Corpo, a À1ma, â Hoffâ de Deüs nossas
Ióiluras impresoas^ redrg dd§' supon-h-o
"-.Já pelos -
mãos saceldotais e o que êsses homens sacrificam, por
;i;;;.?;'-
i.^',i^.". a" Ministerio da Consciin'la Nacional Mas onde aí, em todos os câminhos do mundo... Saberíamos, ao me-
? os melhorês mat'rdores ama- nos morref coüo ê1es? perguntava a mim mesmo. Po!
irá";;;t-;;i"t -êm teologos
--i;'--r",;" .orrer Deriso. A trlnLa mil pés acima do um instante, escondi meu - rosto; espantava-me de sentir âs
-uem..aorigad." Iágrimas eorrerem eníre meus dedos. Chorar diante dêIe,
:ã[; ;:;ü';; ;;;,;Àeiiirirroespecralislas não"T "ln"-.'lil:":
prcrr"ara como cliança, como umâ mulher I l{âs Nosso Senhor de_
ii. tàà".áo de fueüotáorar os
uma cidddê
mar§
i'rtêirxi volveu-me aos poucos a corâgem, Levântelme, deixei cair
à;1; à; ;ir;"r; par'' assassina'
os braços e, com um grande êsfôrço a lemblançâ disso
" apen*s (onr rrrruo de perder o scu ianlar-
; !ôli.ârá deores'a,
daLa a s'melhanrr tipo o nome me Íaz mal - atéfigura,
ofereci-lhe minha trisíe minhâs ver_
;rà;;i;;"i,,,'§ãil nin§uem
q"ã o de milital ? E os senhores'
-
ãJ'i.láàãã. êle merece
GIORGES BERNANOS
DI,ÁRIo DE uM P,Áioco Dx ÀI,DEIA
230

enfim, o quc dela 111e rcsta náo me pertence; âcâso


Êonhoirs láq'j113-:. OlhoLl-me dur'.rrle n'uilo temDo. Ohl o -tcr-lho o direito de â guardâr sob-o alqueire ? Certamente, se
àrqullro . n,a êsl-i b'm u;vo em mim: Irn*g:ndv- um soc_
iià r-Ê,1,..:"170. LLfi sol.r:so dc coi'l;'.:Yâo enr 5, u\ liLio( \^_ a'parav_âs do sr. oli'/;,r .'orim um pra?êr para mim. não
Iuntalio:os tcmiâ mâis sua comilaixão que seu desprôzo. me trânstolnalam à cabcÇa, Dt1âs, deduzo, âpenas, que
- posso, à primeila vislâ, inspi-râr simpatia às cliaturas que
-- O senhcr'é um âdmirávcl laPaz, disse êle. Não quc_ se patecem com êle e que sào, tcdavia, superiores a mim,
reria oütro padre iunto a lneu lcito de morte. sob tantos aspeclos . . . Isto nãô é um sinal de quê ? . . .
E bcijou-l1])e, à maneiiâ clas crianças, nas duas Íaces. Lemblo-me também de uma peiâvra do vigário de Tor_
cÍ: "Você não ó ioito para a guerrâ de desgaste". E esia
é, precisâmente, a guelra de desgâste.
Meu Deus, se cu Í1ci15se bom I se â crise que sofro Iôs§e
Resolvi partir para Lillc. x{eu substituto chegou esta o primeiio sintomâ cic i|anslonnação fisica pela qual a gents
pâssa, às vêzes, aos trinh aoos 1,.. Àndo impressionado com
mânhã. Àchôu me com bom aspecto. É verdade que me sinto
melhor, muito mclhor'. Iraro mil proietos nm tanto malucos. uma Írâse quc Ii, Dão sei onCc, há uns dois dias: "Meu cora_
É certo que. até âgora,
_si tcnho duvidado demais de mim ú'^- ção está com os dr vanguRrctâ, com os que se deixam mâ-
mo. ,À Aúv;Oa dc nâo ó humilclâdc; acho mesmo que ô a tar". Os que se deixa11r matâr... Soldados, missionários...
forma mâls cxaltaclâ, quase delir.ante do orguiho - uma O tempo está pcllcitilmente cm harmonia com a. . ia
esl)écie de cium(\ltr lcl'ociclrda que faz um infeliz fo]tar"se dizer: â minhâ alcÍI'ia, mss e Dirlavrâ não scria exâtâ. E§-
co_ntr'a si mcsmo, piu.r, se dcvorâa. Dcve estar aí o scgrêdo perancâ conviri.r n 'l ,", Sinr im ',sr. mârávilho"a n\pc_
do infelno. icnra qup rstá I'n., rr;ê rii r-o .un^. pois Íoi fo.:tivJn'-nle
Têmc qric l.ri. . rI nriill o L'rn. CP lI'n flsncle org'L' ela que Íre fêz dcspcltar eslà noite. Dtri comigo de olhos
ll"r. Há r"uito, . ir,r,..,. ..t. q l. sinlo n'ro que sê conv.n- âbêrtos, no esculo, c tã.o feliz que a impressão de felicidâde
clonou châmar as vâicladcs do mundo inspira_1ne mais dcs_ erâ quâ.se dolorosâ, à lôrqa de ser ine)rplicável. Levantei-me,
conÍianca alue c ontcnlal'Dento . Digo a mi]n mcsmo qüe Lá bebi urn copo d'água c Iezei ató âo amanhecer. Erà como
qL.clquor cl. ,r,.o1l rI nr . oé', dê r'fug1. ncid ir_
"oi.e
um grande murmirr-io d'â1m4. Fazis penser no imenso fâr-
v"ncivel qrr, rinlo I o,' rr'ni.. _i '..r i.r n 's^o. O pouío de falhar de {ô1has que precede o nâscimento do dia. Que dia
cuiclaCo que tomo comlgo, a incâpâcidade nâtulal contlâ â vai nâscer em mür ? Dlu-me Nossc SeDho! essâ graça ?...
qual iá não luto e âté o frazrr que enaontro em certâs pe-
ouenas injustirias que n14 Iazem e qlle, eliás, machucam
úais que muitas oütras. rlão ocuitarl ün,a decepção cuia
caulc.ãos olhos de Dcus, r,aro ó pura ? C,rrtamente, tudo isso
mc rne[tén'], de umà lornâ oll de outra, em disp3siqõas Nâ caixâ de corrcspondêneia, encontrei um bilhetinho
mais ou menos âcaitávcis ccm rciâqão ao próxinc, lor'qrrg
m,:u ,rr-mL.-o in r)ul.o é n'., ti -t .'a"io t. rni-n rnc':',o' a.ê:1c dc Sr. olivier, dalâcto de LiUe, onde passará, diz ô1e, seus
l',,,:ti,t L. .. orr r. , . : o:,' .. -'\l s nr.o i .,.1o tam- úr"irnos dias de licençn, €n1 casa de um amigo, rua Verde,
""-
b.lm qu., t.oi.o ; ,'.ücn, luU f.r4,rdo 3 côn.ir lr.J, o en_
30. Náo me lcmbro de the ter falado da minha próxima ida
lusi.rsinc, à e pctr..çJ oe (o 'i:r mFll]or" I\4,nh. nlocidade àqueia cidâde. Que êstrânha coincidência I
232 GEOEGES BEÍNANO§ Dr.(ÀÍo DÊ uM PÁloco DÉ A!D!rÁ

o carro alo Sr' Bigre virá buscar_me esta manhã. às cinco um Ii-
seus passos, Pâra dizer a verdade, estava absor-vido em
e meiâ. dículo trabalho. Meus sapâtos não cstáo ruins, mas a umi-
dade os pôs meio vermelhos. Estava passando.tinta nêIes,
ântes de os lustrar. Náo ouvindo mais ncnhum ruido. fui
até à cozlnha e vi Chantal assentada em umâ câdeira baixa,
DeilêimF, onl.m à noil.. co'n melhor dispo(ição O
junto ao fogão. Não olhou pâÉ mlm. Tilhâ os olhos Jitos
v.io. Por muito i,cmpo. resisti á lenta(áo de levall_
na cinza.
;;;;- à" relomar, ârnda utna vpz. o m'L' diáriopor
"o.rnão como
tão Confesso que isso não mo surprcendeu, de Íorma algurna.
,.iàãeiJt Me\mo a ialóia dê deixc-lo aqui. emborâ
Eesignado â sofrer', dc antemã"o, iôdas as conseqiiôncias de
ãurta au"ência, me é lilêrdlr-cnre insupor'ável. Acho que minhas Íaltas, voluntárias ou não, tênho â impressão de dis-
nãà resistirei mais, quc, na última hora, o esconderei na por de Lrma como moratória d. 6re^as. um çur.iq' não qur ro
minha ma1a. AIiás, é certo que as gavetâs fechâm mal, uma Íazer pr'evisões, para quê ? Pareceu desconcertâr-se um pou-
in.liscricào é semDre Dossivel co com r]leu bom-dia.
rnâic nada c. um dia. a
oh'! suDoe*; nào lc" Jpigo a próplio
eent* ã"scoti. quc e 1'll'n'â àn seu 'og-o' que o mais * Pârece qrie o senhor vai embora amanhá, náo ?
vou, senhorita.
lÀtr" ao" nomeris l. m rr u tesoulo ê''oadldo O" menos orP-
ãioio". ,ã ã oi.n""l", nio ";o o' mcnos lÊm;v'i': ao conlrá-
- Sim,
O senhor volta ?
iio. Há quátqu". ,oi"- dn rórbido no apêgo quc 'errho.a - Depende.
eslo< lólhâs dê 1,. pel. N" !êrd-de 'Iâs mP serviram murLo - É, depende, mas do seohor...
à" ãiirio. minlias p.ovações; e me dão, âgora, um teste- - Não, depencle do méclico. vou a um médico, em
mDnho muilo "o. pt'ecioso, hu"ni,hcnLP de'nri: par' que eu fie Lille.-
comoraza nô'^,_brilcnlê prrci.o para Íixar meu pPnsamclll,o. É uma sotte para o senhol estar doente Quando â
Li\r;ram mp da im!grnâc.;o. Já. algL,m" coisa. gen'.- esli clocniF, lr m lêmpo para sonhar. Eu nunca :o-
É Dos"ível. Dlor:lirel mr'"mo, qrle me seráo inúlejs de iho. Tucio sê d'..Ên\o:ve 'm '-l'nr]â cabe(a com uma pre-
unoru d- ài"n,.l Deu' ne cunulá dê lantJ' graqâs ê- tão
cisão houível, como a contâbilidade de um meirinho ou de
in'esp"*aas, lào eslranhas I Estou tran§bordant€ de conflân_ um notário. Ô scnhor sabe que as mulher.es de minha fa_
' e de Paz.
ça mÍliâ são muito positivas.
Pus'um pcu dê l.nhâ na larcira e f,quei olhgndo_o quei_ Aproximou'se de mim, enquânto estendia cuidâdosa_
mâr. cntes âe ,""r,,"r. Se mêLl5 anteps'sadoc bFllêlam mente a graxa sóbre meus sâpatos. Fâzia o trabâlho leüta_
demai" e nio comPlirm bâ"lanlc. deviàm estar tamlrêm nâ- mente, e gostarià bcm que nossa conversa tcrmlnasse com
üi-úaoa ro f!io, pois sinto sêmple, diante de um grande uma gargàlhâda daquelas suas. Tall'cz tenha sdivinhado
Íoco. náo sei que aisombrada es apidez de criança ou de sêl- meu pensamento. Disse-me, de repente, com uma voz âguda:
Como esta câlma a noilc I sinlo bcm que não dor_ pri&o falou de mim com o senhor ?
"a'gem.
mirei mais. - Meu
Sim, Lespondi. Mâs náo lhe posso contar'nada do que
- disse. Já não me lembro o que foi.
êIe me
Acabava meus preparativos, esta târde, quando ouvi ba_ Que importa ! Não ligo nem pâra â opinião dêIe,
terem à portâ. Espêrava meu substituto - Pen§ei reconhecer nem-para a do senhor.
DrÁnÍo DE uM PÁloco or ar'lrre 235
CEOECJ1S BERNANOS
licil r lal prcti§ào Papai e"tá dis-
Oh I não ó ci t37'
nhór' e lóda a gente aqui o
- ][i*'f'-ti'iiruic;o "' r]o
-.,[
,n"ã I l,lli;J?i,.1,1,:":
HÊsitou um ;n.l-nt,.. depolF ',t"
:::",: -""".::
l.
*"nrir.
:,:":J';. ion'jcl"rr, agora. um bêb'do porqur"'
Voltei_nre brusccr'ente'
pricidadê: sim: porq'':e nu:-q::"' ] i".il I .r" c-ti,e. Nio qurro fâllar com o respeito a
à

Ur. pldre rrro 1 m- oprnlao ;n"t r,.i" qu" â senho.a


'*ut!ãm peio met ."nno-rl irl ,,lo ''
"orre""
com sêmêllrdntos
cslá
lol:cecl sc-
ce-rta-
- -u'd!* € a senhorl ãàrüo *" r.zondo Lc.o. Desdc qüe 'qui a -amumar
!:-r^Yi:I':,1:'hi"",-Ji:,?i:.l:. lo, àurio; "li.r,
il;;;;1";;;;'; uÁ,',," ';'laze Io' - seu pai aiude-me
lã"t;: ôài liá'r'"'
t'"- ni T,TIiul*p1-.nq ae acôrdo _ casa,
â - Sózinho, nào Posso
icmblando oc,or'á lucto que se passou não posso com_
a^ menos Poderia o seln-or cóm o peceilo' com a r;.;so *. ôb(de'' ndo NaqLrele inslanto'
i'uJ'l"i]i i'"nji*]0" "to'ao j
"'".,il;;";;;; jnha ca\a mudoLr a olhos vistos
""...
totl r'u'ldo.â grrqa e ignoro
âs gra'
5"il r"r
iii"'.ii,u
."o ,.pecr o dÊ m
rr.-p"r"vra e qLrendo a obserrava
" ':"i de soslâio'
aó oodorlu iulgâla s'
.:^ ^,,^ i. ri.âh.iô."rr1 vL7 maLs puricla D' rrpenl'
' õ"'ir.ii"iuà à;""' i**'iii"i'I5ll
I ^u.",urrr io".. rn. ;;"'ià"; ó-n.Àã "o* qLP lrmpr\J o' is e
iogou
arroxrmou-
",, orâ. mas âfincl o scnllur l#iái"fi"i,1 '.r" m:m.
'^'ov'
áom o iost'o trr'n'tornaoo dc cóI"ra'
-
e ouveromo lócla a ginlê .... nào mê ajudariâm.
uu"
Ôh ! Ineus olhos c mFus ^.,,iclos *''"'-'àr."n,
Ouase tive mêdo olJ: o senhor
i..ol chrgal E"là sal'"l"ito?
-
dê foma slguma i' Jul ''l x sÊl'rrur'" *rr"..ã"i"i i.i, ' inipi u j8uo A sên-te !' n'2 qrl"
"..::lhll
a dü Mas como o scnhor e se-

i #i .."j i}.,, o :.
il;1.;:i;,;';;;à,:
^^?
:,1:: ". : lH:,].:"'o.o'íii','., " \cl'o édulo: '_
Nào sou eu qucm e duro 'I rt durapróprio e"tririto' a
: es"a pârlê inne-
- or]'ã ..".i r'ro-., ,, n, drnlro de seu

:,mjlt**i;[;ffi*;ilffi;:; 'i,,
n"t"jt::X'"* o s, nnor c.r; dir' ndo ? s'i perlêjtâmente
.r";,X'::'";;": qLc
.:,,"
i'"'ira"' "" l"'""o'
a t'dà ..
AÚ;' se eu dis-
"' --'.;.. ô,.or o fpn.o sobre
"--'E.rutxvê-me atental"] L i*:,,
$ExrrrJ,Tli:'{*t"i*i .,":.:: : :::". Ii- ;;, ideó'quc
isso on aquilo, eis o
ri'o se pnn"l grandc colsâ Deseja-"e
há'
lll o d"do mindi-
cur" àJ a."1"" m ols Pu oerrJu ludo o mal e o bcm'
rosto cntrc os màos mor(lelloo - Muilo ll. I
hts^.r.r nào esou, rda Hei
'"' cle conhec€r tudo, tudo ! '
E sê o senh^I. rrp de- I i..à r:"",""r- e:x bre'/r' dis'Plhe rindo'
o1i À" asora m' smo ao
i'àil,;';; r cie mo'â' s'i perleilament€ que
"",,"- "lll:*""Py i.i; u,..
- ^fc.. ''''* d' 'onliê'er tudo'
i";t;n'"n'
"Í.
f;;'."i u;;.""^u:, '.' ' llll
*:olrrhora, üissc-rhê. , . pâra
Eu nào csrou dP'alr-'1oo " l,;' ;;; a s"nhora csri-
'' "': í,""i""i-
*";,*
r pol^q,. n.1o o qL,i""ram ,lf^lT"$i;"i"T3Jji;
- ;*n"' Mas a senhora, â scnho'a nunca lque viaicm (m redor do
t"la sà'J o\ l'ais
x;*i:1t i"ry:*+ ;, l';,:*r i''l"i'ii'i
:ftJ;'.;;;;r-
CEÔRCES BEÊNANOS
236 DrÁxro DE uM PÁÊoco DE ALDETA 237

próprio quarto. Quândo a gente caminha em linha reta' â Eu estaía esco:rclida debâixo dâ janelâ, quando o se-
terra é pequena.
! Vingâr- nhor- falavâ a rnamãc. De repente, suâ Jisionomia se torüou
àe à viaa iôr ruim parà mim, não importa tão... tão docc I llrr.qucle instânte, eu tive ódio ao sehhor.
-
-me-êi, fazendo o mal Pelo mal. Oh ! não creio em milagr-es, como não creio em a1mâs do
Ôrli1ndo rheqar ê"'" mo'n' nto a sênllorc en'ontra_ outto mundo, Àras conhcciâ ninha mãe ! Ligava tanto para
, -ocu-i-ói I :Fi"que náo nrc P5lolr cxorimindo bem c quP' âs belas fras.s, cono um peixe liga para maqã. O senhor
";
,ii"or,l"ntlnta é uma oienq . Mcs posso dizer que a se- tem um segr'êdo ! Resllonda sim, ou não !
ir..r, "ã-i"1..i. utrrnclo as,'o'lx5 I R'a o rnJndo. poi§ o mun- um scgrêdo peldido, r'espondi. A senhorâ poderá
;;;;";;;;;iü; à accitaqão, ó, anies de ttldo' a eceitaQão da - Émâs
âchá-to; há de peldé-lo por sua vez. Depois dâ senhorc,
â"".i.1,:". i"na" a.. pois, pirla x lrenlÍ como quiser: um dià a
outros o iransmitirío, porque a raça à que a senhora e eu
;ü;il; ü à" ""à* . ló'r. as brechas sÍ abrirão para p:rter-rccmos clurará enquanto durar o mundo.
o céu. ? Que raqe ?
o senhor ÍâIa âssim" por.' por" por fanta_ - Como
 que o p)óplio Dcus pôs cm marchâ e que não mais
-
sia... ou ântes .. se há- de deter, até que tudo seia consumâdo.
É verdsdr'qLro o" mansos pos"uiráo a lerrr' E aqué]'s
-
oo"." o"rt""ài i:oiia õrnno-r ,:om n;o a cli"pularáo a elPs por-
[]. *ã.rrr,:lr,, n quc ta-.r I teilo os arrebârados
s'ó arrebatam o reino clos céus.
tr'icou vcrnlclila lcito um lacle e levantoú os ombros'
tcnr cânâs d' r' '0onclêr ao sênhor nào s'i
a nÊnlr 'Á'
- i;ii;i;: riqu' o nlôr nensa que me domina'
,'srt""ei ' conctenar-mc ao inrerno mui-
"''ê--
:;;i,:;;:i1;" ;;,,i"J"
to llem, se o quiser'.
Fico iesponsávet pela senhora, disse-lhe' alma por
almâ. -
menos
Lâvava as máos ne torneirâ da cozinhâ Nem ao
-o"'".:i.
." ',"ii"'i (:olo.ou tr.'1qÜil"mPnlP na o cha-
'abeç! mrm'
ia, íõi i,*í, ii"o" p,r. trrbail"r ' ^rrraqi'norr':
fl rua
d^
jonomià' po-
i;,ifi,;i;. s. 626 ç6611ncrs'c láo.b' tjr
ã" ; â;;ê;:q;;e'i;'a colnr. mds via tr'mer o cân1'/0 dc sua
---
bôca.
quero Íazcr' unl trato coú o §enhor, disse Sê o se-
-
nhoréoquePenso...
Nào .ou cxnlar1.nlP o que x senhorJ penlJ que^ sou'
-
 senhora ô que 'e ve em lnim. 'omo num c'pclilo ve sua
âlma e seu destino.
É vcrgonhoso n:o poder sustehlâr a penâ. Minhas mãos
tremem. Íôo sempre. mas por crises. muito curtas, aliás
alguns s€gundos. I'aço enolme esfôrço para escrevet isso.
- Se me sobrasse algum dinheirc, tomaria o trcm para
Ámiens. Mas acabo. agorâ mesmo, de fâzer umâ coisa abtur-
da, ao sair do médico. Quê Lolicel Restam-me a passagem
de volta e hinta e sete tostões.

Suponhâmos que tudo tenha corrido muito bem: eu es-


taria tâIvez nest€ meslno lugar, escrevendo como faço. Lem-
brc-me perfeitamente daquele botequim tranqüilo, com o re-
servado deserto. tão cómodo e as grandes mesas de madeira
tão mal ajustadas. (A pâderia. ao lado, exalava um cheu.r-
nho de pão fresco. ) Chegava a ter fome. . .
Sim, certamente. .. Tirariâ êste caderno de hirúra ma-
leia, pediria tinta e pena; a mesma emplegada os irâria para
min, , com o mes1no souiso. Eu sordria também. A rua está
cheia de sol.

Quando irei reler estas Ilnhas ? Amânhã ? Daqui â seis


sêmanas, seis meses tâIvez, quem sabe? Sinto que terei von-
tade de encontrar nelas.., Meu Deus ! De encontmr o quê ?
Pois bem:- sd a.prova de que eu ia e v.inha, como seirpre
Ía,qo.,. Éinfantil...

- PÍimeiro, caminhei em linhâ reta, parâ a tente, rüno


à_êslaqão. Entrei numa velha igreja cujo nome ignoro. Ha-
via gehte demais. Is1o lambém é inlaniil. mâs êu gostaria
de..me ajoelhar, liwemente, no laúilho, deitax-me,- talvez,
deitâr-Íre com o rosto no chão. Nunca travia sentido com
GEORGES 3IINANOS
Dr.ÂRro DE uM P.Áioco D! ÁlDEra 241
240
tôda essa gente me envelgonha. Palece logo que não têrll
tânta violênc:a a revolla lisica conlra a prêcê - e tào nitida- l1ada de sobrenatural, pois é expressa num idioma que já nã,o
mênt€ ouc náo expcrimcnl,ava o minimo rpmorso Mrnnâ e c};stào. Quer dizer que náo â exprimem. que não se expri-
iàrÇa para resistir. Náo pocliâ crer que isso mem a si mesmos. AIlanjâm-se com provérbios e irases de
"à"ãá"iã.llrná
oue sc chama com o riome táo ballal dc dlstl'ação' chegasse jornais.
d âtinsir ê,te caráler dê di":ociâ(ao, dê di"peÍsao' Pols na,o Sabendo que devia tomar o trem só à tardinha, a Sm.
i,riru._"on,r, o mêdo, mas.onlrt um número âparenl'e'jncn- Duplouy pôs à minha disposição um reservado.
ii ü?i"lió aá *oaos - umJechâva mêdo parâ cada ÍÍbra, umâ muiti
disse e1a, o senhü pode continuar tmnqüilâ-
ààà ae moaos. E qdanalo os othos e tentava concen_
c'cutar o murmurio de mente- âÀssim,
escrever o seu sermão.
iõ -á, p""."*,hto, parecia-me
esconclida no Íundo Custou-me muito impedi-la de âcender â estufa (ainda
i-"rru ÁIit,áà", de inivisrrel mullidáo
tidto um pouco. )
de minl1o angúsiia, como na mais projunda olte'
mãos Por fim, sai padres meu tempo, continuou, comiam muito;
O suor Jescia_me
a^ in-r"ii, s."ti. oentr,]
pelo
oe
rosto,
'nrm. o
Pelas
trio da rua And'va de' - Ossangue a de
tinham mais não poder. Hoje os senhorcs estão
.oiitndo tcria podrdo te-r dó de mais magros que gatos perdidos.
ii"iiãlõi"lo q"à "" "slivessc mim de5graça Mas sen- Creio que interpretou mâI a pequena careta que fiz, pois
inim me.mo. càorcr Dor lor nrLnhà
ii, ão""as *u lcvezâ incompreensivel Meu espanLo ao con- acrescentou precipitadamente :
* O comêço ó sempre durro. Náo importâ! Na suâ idâde,
tacti dessa mull idao ruioosa parecia um alluxo em meu pel_
to. À alegria me dava asa§.. ' tem-se a vida inteira pelâ frcnte.
3.bri a bÔca para responder... e nesse in§tante úão corn-
preendi. Sim, antes mesmo de ter resolvido qualquer coisâ,
de ter pensado em qualquer coisâ, sabia que iria guardar o
Encontrei cinco ftancos no bôIso de minhâ dulhetâ Ti silêncio. Guardar o silêncio, pâlavrâ estranha! É o silêncio
rã."irãoo pátd o chculicur do sr' Bigre- E"qLreci-me que nos guarda.
de IhoS alar. Tomej calé ptrro com um desses pdezrnnos cuJu
"hu-* (Meu Deus, Vós o quisestes assim, leconheci Vossa mão.
Jieiro estava sentinao Á proprietfuiâ do boiequim châma-se Crcio tê-Ia sentido sôbre meus lábios. )
Ãiã- biirLrv. é vrr,va de'uni pedreiro que lravia morado
pm Tor.i. úesde alguns mrnulos observa\a-me dlsslmula-
áãi""ni""oo ailo do õatcáo, por crma oo Labique da sâla en- in-
iúioi. v"ió r..""tu.-se perid de mim e ficou-me olhando A Srâ. Duplouy deixou-me para voltâr âo bâlcão. Âca-
quânto estâva comendo. bâva de chegâr gênte, operáIos que vinham merendar. Um
sua idade, alisse_úe elâ, não se come, devorâ-§e' dêles viu-me através do tabÍque e seus companheiros pusê-
-TiveNade aceitar manteiga, essa mânteiga de tr'landrcs que ram-§e a lir. O bârulho que fazem náo me perturba; ao con-
morreu tu- trário. O silêncio intetor bênção de Deus nunca me
.r'eià a áveiá. o único fi'Íhô da sla. Duplouyvintê meses' isolou dâs cdaturas. Pârece- que entram em -meu silêncio,
ú"i"rio.o â sua lilhinha, de meningiLê aos
recebo-as como se fôssê em minha casa, E elas vêm. cefta-
Éic " solrc de dtabete: suas pernas estão inchaclàs mas
mente, vêm sem o saber. Oh! só lhes posso oferecer um refú-
^..-o
aà*i"*ua achar um comprddor pal'â ésse bol'cquim onde
gio precáriol Mas imagino que o silêncio de celtas almas é
",iã ipr.".". Conoolei-à, como pude  resign"ção de
"irreu"À
242 OEOEGES BERNANOS DIÁEro DE uM P.fuoco DE ALDETa

como um imênso lugar de âsilo. O§ pobres pecâdores,-exte_ Deus quem o reteve. Oh! sei perfeitamentê que â compâixão
nuàáos, crregr- titübeântes, dormem e voltam consolâdos, de outrem consola poÍ um instantet não a desprezo. Mas não
leíar nãnhuma lembranqa do grande templo ilxvisível sâciâ, escorre da alma como atmvés de um crivo. E quando
onde depositâram um momento seu fardo.
^e-m nosso solrimento passou de co'npalyão em compaiyáo como
de bôca a bôca, parece que já não podcmos respeitá-io, nem
EviÀentemente, é um pouco ialiota evocar um dos mais amálo. .
da cdmunháo clos sântos, â propó§ito
.
-kÉi;;;";;p;;6'.
ã;;;;;";i.;;; pêlaque acabo de tomar e que bem me pode a
td sialo ditada mera prudência humana Nao e por ml-
or" iieo sempre dependenalo da irspiraqáo do mo-
"í, Eis-me de novo nesta mesâ. Quis rever a igr€ja dâ qual
""lou
ã".'antes. Dara dizel a verdade de um gesto dessa
-à-t".
ãÀce misericórdia ão Deus à qual me abandonei Em uma
sâí tão envergonhâdo de mim mesmo, esta manhá. É verdade
o_uê êIa e fri2 c (scura, O o-r.e eu eio^rJva nào veio.
pãiirtã, õÃp*"i,ai sübiLamenie que. depois de minha visiÍâ
ãÀ rrÀài-. eitava louco por confúr meu segrêdo, pa ilhar
ããm áierem minha amaigura. E compreendi também que,
para re;uperar a calma, baslâva-me calar. .. Nâ Íctta, a Sra. Dr1ploly partiu comigo seu almôso. Não
tire coragem de recusar. Fâlamos sôbre o vigário de Torcy
que ela conheceu quando pároco de Prcsles. Tinha muito
mêdo dê]e. Comi sopa e legumes. Na minha ausência, tinhâ
Minhâ infelicidâde
-}rà-ens nada tem de estranho Hoje cente- acendido a êstufa e, terminada a refeição, deixou-me sàzinho,
nu., ãiiilur"i-ã" talvez. através do mundo ouvirão nâquele ârrbiente tópido, diaDte de uma xícara de café,
;;;;"il; mesma sentença, eom igual espanto' Enl're to- Sentia-me bem. Cochilei um pouquioho. Ao despertar...
ãài.-ioo pioi.r"ttn""le o ménos câpa, de dominar o primei- (Meu Deus! é preciso que o escreva. Penso nestas ma-
rã imoutlo. conheco d' mais minha frcqueza. Mas a experien- nhãs, nâs minhas últimas mânhás da semana, no suave aco-
;ilü;i".;-m; tàmbÉm qu. herdei dP minha màe e sem lhimento destâs manhãs, no canto dos galos na alta jâne-
í,:,viou á" *"itu" outras piobres mulheres de minha ÍamíIia' -
la tranqüila ainda cheia da nolte, de cujo vidlo, sempre o
rrmá esoécie ue paciên.ia àue se tornou irresistivel com o cor- mesmo, o dâ dileite, começr a raiar o dia... Como tudo isso
iáiià-[.ãro, ó.qu. nôo pretende medir-se com a dor; des- é fresco, puro. . .)
ilza úra aãnlri dà dor, habjlua se. pollco a pouco. com ela'
iüi á'"ata to".u Íórça senáo como explicar a encarni(âda
obstinacão pela vida de Lantas infelizes cuja espantosa pa_
ciénciaâcada por esgotar a ingrâtidão e a injusliça do mau- Cheguei, pois, muito cedo à casa do Dr. Lavigne. Í'ui in-
àà, aos tltrros.ios pãrêntes ? Õh I mies de miserávcis : trcduzido, quase nâ mesmâ hora. À sâla de espera estava em
Devo calar_me. Só i§to! Devo calar-mê, enquânt'o me Jôr gmnde desordem; urÍra cliada, de joelhos, enrolava o tapêíe.
Dermitido o siléncio, E i§so pode durar semanas' meses' Tive de esperar elguns minutos nâ sala de jantar que nào
ôuando penso que, atê há pouco, bastaria uma palavra, um fôra auumada desde a véspera, suponho, Os postigos e âs
olhar de_compaixão, uma simples pergunis' talvêz para que cortinas estâvam fechados; a toalha na mesâ; no âssoalho,
me escapasse o segrêclo.,. Éle la estava em minha ooca; lol pedacinhos de pão que estalavam sob meus pés; e um cheiro
Dr.Álro DE uM PÁRoco DE ALDErÀ 245
244 GEORGÉS BEBNANOS
por q11e * êsees brirlquedos quebrados, e§sa boneca oprimiam-
de cigarro apagâdo. Alinal abriu-se a porta atrás de mim e -me o coraqao.
o doutor me Íêz um sinal pâra entrar ' Pode vestir se. disse o doutor.
DesculDe_me lecebê-lo neste qualto É a sala de blin_
-Uma semanâ ântes teriâ espelado coisa pior. Mâs, de
-
o""aos ã" ,niÀr,a Íilha. Ests mcnhã. o consultório está de alguns diâs para cá, sentiâ-me tão bem! De quâlquêr jeito,
üãt*a prm o ar. O proprietário o entrega todo mê§' a-depiis umâ os-minutos pareceram-me longos. Tentava pensl no Sr.
ão"-i* ãã ilrnrr"ru..l tôlicesl Ncsses alias, só recebo Olivier, em nosso passeio de seguÍtda-feirâ passada, naquela
ããi ãã, r,otu'.'ItIu. parece qrre o sFnhor e\I,:r apresssdo En-o estraala luminosa. Minhas mãos tremiam tanto que, ao cal_
ii- i"rro" um divá'. o scnhor pode estender-§e nêle' É çar-mê, aüanquei duas vêzes o cordão do sâpato.
priácipat. O doutor aualâva ale um iado para outro, ao tongo da §ala.
Âfinal, virou-se tlarâ mim, §ollindo. Seu sor so trânqüili_
AJastou âs cortinas e eu o vi em plena 1uz' Náo pensâva zou-me, lnas um pouco só,
ou" iat..-iãà ràr".. se{r ro:to e tào magro como o meu e de
pleilo bem, veia, gostariâ de uma radiografia. Vou
ima cOr Uo eiqulsita que in)-'e.npi. a
luz. Dir-se-ia uh reflelo d. bronze.
prlncrpro
Seus olhos
um
pretos.
dc
rrxa- - Müito
dâr-lhe uma recomendagão para o hospital, clinica do Dr-
uma c§,tcciê .lc ,.lh' JflLn'o. de impaciência' Grousset. Infelizmente, o senhor tem de espelar até segunda-
"r--Ã"
mâs sem "o* nenhuma clu reza de expressáo: ao contrário Como -feiÍa.
preciso?
iiiesse aleum eslórço pxra tircr mêu pulover. muito remen_ Mâs será
-Hesitou um instânte. tr{eu Deusl parece-r.e que, naquê-
aaao. virãur-me a. nn.la". tiquni b,rllamente assentâdo no
*ã ãtr"u"t 3 deit"r"'o (lrvá P"rdva aliás coberto le momento, ouviria qualquer coi§a, scm pestanejar. Mas, sel
ãià..à*
_úii"ou"aot pcr erperiência quc, quândo se levanta em mim êste mudo,
ã" -ri" ou nrPnos qu'bradocl havia até uma bo_
êste plofundo apêlo que precede 6 oraçãc, meu rosto toma
,rÀ"à o.'p"oo, suJa íl^ tir,rr. o doulor d conduziu parâ uma
de algumas perguntas, auscul- umâ exprcssão que se parece à da angústla. Pênso, agora, que
ããáeiÀ ó, e*'see""iaa, depois -lechaoalo, o doutor â iomou por outra coisa. Sorriu ainda mais abertâ-
iáü-*à_ de vez em quando, - os
"1,ria.aoíam"nte, acima do meu e a compdda mente, um soriso muito Íranco, quase afetuoso.
àirro". s"" .o,t" e§tâva pouco
Não, disse, seria mera formalidade. Para que rctêlo
á" cabelos pietos roçavâ minha testa Via seu
"ãu ""." enrbiviclo rrüm colarinho postico de ee- mais-aqui ? Voltê trânqüilamente parâ câsa.
.,à;;;oã";;rr;áó, * Posso retomar o exercício do meu ministério ?
iutóraà, toao amârêlo o sanquê que subia pouco a
pouco'
, *"ii io"to. dava-lhe uma colôrâçdc dc cobre lnspirava_me Certamente. (senti quê o sangue subia-me ao rosto.)
mêdo e um Pouco de repugnância.
oh! -não quero dizer que o senhor vai ficar lirre de seus incô_
o Jato de modos; as crises podem vo){ar. QLle remédio? É preciso apren_
o exâme duLou muito tempo. Surpreen'leu-me passou va_ der a viver com siu mal, a situâcáo dê tôda a gênt-e é mais ou
aar tào oóuca aten(ào a m/ u reil'o doÊnlê: apenas
lugar da menos parêcida à sua. Nem lhe vou dar um regimê: vá experi-
rias vêzês a m;o pelo meu ombro ê'querdo no cla_
mentândo uma misa ou outla, não engulâ senão o que possÀ
À ion"iu." abria pala um corredor ejódo através dos ii- passar. . . E quando o que passava nào passâr mais, não insis-
"iiur".
à.;:;;',;i;;;;'.*, pareàe que tnegle'idr pelo e prrÍurada
ia. volte serenamente ao leite, à água com âçúcâr' Falo_lhe
com aberlures tào esireii,âs pareciam seteüas' 'l'vlden!e- como e$igo, como companheiro. Se as dores fôrem muito
ãÀ"t". ii"r.i feito outra idéia do Professor Lavigne e d€ sua vivas, o se-uhor pode tomar uma colher de sopa do remédio
i,ãiii.ô-qirãit" ptr*ia-me verdadeiramente suio e não sei
-
,úRro DE úM P.fuioco DE Ar,rEIlr 247
246 êEORCES BIRNANOS

umÍr colhPr de duas êm duas


fiô dê Glousset. Nâ têrça_feiÉ da próximâ semanâ Estâ
.,uê voü escrÊvêT nâ Iórmula
tãrr" -
m-i. de cinco colheres ao dia. c'rnprêPnde ? bem ?
---_-Ouâse
"""", me empurrou pâra Íora do quarto Depois.de al-
Sim, Sr. ProÍessor. a"u to.l,o. tão sombrio lomou uma esqLrisil'â ex-
-Pnxou -,".Çuutãi.
umâ mesinha pâra perio da câdeira que estarâ :;1";; ;;;;il ;i*re. duma alêqril desproposi-
diânte ale mim. Ficou câra â câra cÔm a boDeca de pâno qÚe
da qu'l o"-
i;à;;,ío"ã; àtgu". qo' se esÍorce 'onvulsiva
por oculiar suâ impa-
quan_
iriu"ia-:"ta"rat para ôle sua 'ahêca defol'mârla niénciâ- sai. sem úr coragem de ap'dar_lhê a m8o' e so
ãoirià a pinlura ào" podaqos. clir'-sn ia por ê§cxmas Joqou-_a ã" .i-""i*i ;, .rr, foi quê per'ebi que me tinha es-
cle espera,
Íurio.amànlc pala a oul,ro exl"êmidàd" do qLlarlo Ela tez .r""iaã au rccêila. Acabavà iu'tamente dê fechâr a porta'
um hat'ulho engra(ado nâ faredê. ânlês de calr ao cnao li ;:;::i"il;;;;;; no satào, iuteuel que a sala estaria vazia
iür. àii, o" costas, os bra'qosparaâs doutor' nem para a Do-
o pcrnas Dara cima Não ..r* lirar a r;ceitâ da mesa sem inromodar
linhâ.oragem de olhar, nêm o "ãà"ii"'À.i*.,
i,i'-,ãá... ti" ã.t"va ali, junto à ianela estrL'tâ' de pé' e'
neca. coÀ- um taao da ccl(â dê§cido. aploximava da coxa uma pe-
Escute, disse de súbito, decldidamente acho que ài*irriàii"ú. àotal v:a briihar em sêus dedos Não me
- aevá raàel uma râaliograÍiâ. M⧠náo há prc§sa Volt€.o
senrror ;;.#"";;;;; "rl" ;; ."u espantoso sorrisoemque a surprê-sa nõo
daqui â oito dias. àonseguiu logo de§{azer: errava ainda rêdor boca en_
treaberta, enquânto fixavâ-me com raivâ' 'la
não é âbsolutamente necessário ' '
- seNáo tenho o direito de lhe fâl doutra Íorma Nin_ - vim Que há?
- buscar a receitâ, balbuciei.
euém é intalivel a tinc l. Mâs nào lioue impre'sionâdo com.âs
'intormacôes -Dei um passô pârâ â mesa. o papel já não estavâ ali'
dc GroussPt. Um ÍolóÊrafo é um lólÔgralo nrn-
suém lhà vai nêílir discur'o' . D.'oi§. 'onvPrsarpmcs a res_ Eu o pús no bôIso, disse êIe. Espere um segundo '
;êitn o sênhor e (u. D.'quclquêr folma. s' o sÔnhor oLler -Àrrancou a squlha com um golpe sêco e Íicou diante de
sesulr minha oniniào. nad; muci. eri rêus hnbilor' No iun_ mim. lmàrei, s"m ãeirâr de lixar-Àe;a seringa na mão' Parc-
Á"'Á" r.;t itoq s;o amicos do I om^m, m'smo os hábilos mcrls cia desafiar-me .
ó- oiát qra lhc pode âconlêcr.r é
jnl' rromper seus trahdllos
Com isso. meu caro, a gente pode prescindf de Deus'
Doi qualquer Eotivo quc sejc. -Creio que meu embalaço o de§armou,
' Mrl o oLlvia. Tinha pin s.r dc me en'onllar oulrâ v"z
na Íua, livle ! orâ- nào é uma pilhêria de soldado' nespeit'o tódas
* Bem. Sr. Professor. -
as ooiniáei.-mo"mo
-Náo ,s reiigiosas. Aliás. eu não tenho nenhu-
ma há opiniôes prra um módico Há apênas hlpoteses'
Levântei-mê. O doutor mexiâ nervosamente com os pu_
nhos de stta calllisa. - Sr. Professor, . .
Por que o senhoÍ me chama de professor? ProJes§or de
diâbo o mandou aqui? -
- OQuell1
Dr. Delbende. ouê?
'
- Delbende ? Não o conheço. Tomei-o Dor um louco.
- O Dr. Delbende rnolreu. . . Éoipo'"oal Que diallol o senhor vcm aqui recomen_
- Àhl muito daqui a olto diâs.' daao- poi uin médico que não conheqo e me trata de pro-
- -tú bem. Tanto pior. Volte levarei ao consultó- Íessor . . .
s"*, -;i. .. *"Ihor. . . erimesmo o
248 GEORGES BERNÁNOS
DrÁÂro DE uM !ÁRoco DE AI,DEIA 249

* o Dr. Delbende âconselhou_me a procurar o ProÍessor . * Certâmente, não! exclamei. Àcho que o senhor está
Lavigne. zombando de mim.
:- Lavigne? Será que o senhor estâ zohbando de mim ? Virou-me as costas, levantando os ombros.
muitos padres em sua fâmília?
O tal Dr. õelbende dêvia se! um perfeito idiotâ. Lavigne - Há Nenhum. É verdaale que não conheço muito as pessoâs
morreu em janeiro último, com setenta e oito ânos! Quem lhe - fâmília. Fâmílias feito a minha não têm histfuia.
Íle minhâ
deu meu enderôço ?
no â[uário. O senhor está enganaalo. À histoliâ de sua ÍâmíIia
- Enconhei-o está -inscritâ em cadâ rugá de seu rosto. E é bem interessan-
Ora estâ! Eu náo me chamo Lâvigne, mas LaviUe O
- sabe ler ?
senhor '' -
teahistoda-..
Nao teria o mínimo cleseio ale ler semelhante histó_
Eu ândo muito deso entâdo Perdoe_me - os mortos enterrem jrs seus moriros'
-Colocou-se entre mim e a porta. Tinha a impressão -de '_- Para qué? Queênterram
ria.
mu;tô bem mas é aos vivos o
mais daqüelâ sala que tinha sido Drêso
ó.i.o.toi
n"" náà iálti. rrr""^ sen}ror - se acrealitâ um homem livrc, hem ?
àÀ"--:á"o. ou" tinha cciclo num elqâpáo o suor descia'me Não sei quânfo de liberdade tenho se muito se -Dor'rco '
pelo !o§to. Cegava-me. -
creio aoeúi Àü" o.us m. oulorgou a quantidade suficiente
Eu é oue lhe Dêco pêrdão Se o senbor quiqer' nossÔ rê_ oara oüe eu a ãevolvs, um dia. a suas mãos.
- â'outro profFssor' DuDPtitpré. Dor PxemDlo M"as'
protls- '-' -- Perdoe-me. conlinuou após um silêncio. o sPnhor há
aoui êntre nós, ponso ouP será inútil Conheco minua
"o-enAá-io
de a.hat-me qro(sPiro. É oue eú lambÁm perlenco a uma [a_
iaã't". qu:rnto êsses médicos de províncla: Iui intemo
Íniliâ... umt fsmilia no eénPro da suâ. sunonho vanoo o'
em hospilais d; Pdric. ê obtivê lêrcêiro luÉ'ar em un 'on'rtrso
"ã. -r,à
ilu" a dê"aeraclável imDressão dê mc encnntrar
aiÍÍcil.' Perdoe-me por estar Íazendo o meu pÍóprio elÔgio' ".r--
àGri1.... alant" dê rr;u duplo. o sênhor mc acha doido ?
sàu caso, atiás, não apresenta dificuldade alguma, Qualquer Olhej. involuntàriamentà para a serinqâ Pôs-<e â tir'
um teriâ concluído o mesmo que eu. ltão. a morÍina nâo embriâga. pode esl'ar certo Des-
Dirielmê outra vez paraã porta. suas pâlavrasque
nãn me -
maranrra;uJro úàm o cérebro Quero quê a morlina me.dê
inspirávim à.icontiançâ alguma: seu olhar ê me inco- pede nrovàvelmênle à ora'ão o êsouêc'rnênro
-ããàr. Ààrrirer-"nl,e. Era"excessivamente brilhante e lixo'
o'''-oue o É"iaá..'4i.."-lhe,
sênhor
não se pede à orâçào o esquecimen
* Eu náo qüeria abusar, disse_lhe. '- mâs na roria
to. iórÇa.
o senhor não está ellusândo (tirou o relógio) I minhas nào me serviria para nada'
-
consultas só começam às 10 hora§. Devo conÍessâÍ-lhe, acles- -Levantori aâiáchão a boneca e a colocou cuidadosamente
oue é a Drimeirâ vez que me ênconlro com LLm dos sôbrc â lareira.
"à"to"- com um pâdrê. um iovem padre Aclra cs- prosseguiu com um timbre de voz como
iãnlores,'entim,
tranho ? Eu também acho estranho. - À oracào... pr-rdãsst o sênhor rezar tào fàcilmente
Sinto, apenâs, dar âo senhor umâ idéia táo má de nós, ""
ã"ãnú eu enrio esfa agulha na pele- os angustiados como o
""uv".sã_Jo-rtrnoó;
-
sou um padle muito ordinário. sênhor nào rpzam, ou rezam mal. Conlesse pois, de uma vêz'
Oh! náo digal Ao contrário, interes§o-me enormemen_ ãii" ã só áma na oraçáo o esfôrço, a violência, uma
- senhor.
tê Delo O sénhor tem uma fisionomiâ uito... muito Jiolência oue eYerce sóbre sua própria p.ssoa mesmo sem o
""-rlo.
noiável. Nuncâ lhe dis§erâm i§so ? sàf"r. o tipo nervoso e sempre um verdugo de si mesmo'
250 GEORGES BERNÀNOS DI,{ÊIo DE U1\4 P.iNOCO DÉ AI,DEIA 251"

Refletindo agorâ, não posso e>'?licar a espécie de ver- Meu Deus t Por um instante, pensei que tivesse sabido
gonha que me causaram aquelas pâlâvras. Náo tinha cola- do suicídio do Dr. Delbende e representas§e uma âtroz comé-
gem de levantar o§ olhos. diâ. Mas não ! Seu olhal era sincero. E, embom eu estivessê
* Náo peüse que sou um matedalista dâ velhâ guarda. emocionadíssimo, tinha a impressáo de que minha presença
* por que motivo. não sei o perturbavâ, era-lhê intole'
O instinto da oraçáo existe no fundo de cada um de nós -
e náo é menos inexplicável que os outros. Uma das Íór- rávêi, sem que, entletânto, pudesse conseguir libertar-se de
rnulas da obscura luto do indivíduo contra a raçâ, suponho. mim. Éramos pdsioneiros um do outro.
Mâs a mqa absorve tudo, silcnciosâIüente. E a espécie, por * Gêniê como nós deveriâ viver cuidândo de vâcas,
sua vezj devora a raça, para que o jugo dos mortos esma- acrescentou com â voz §urdâ. Não podemos ter considêiâ_
guê um pouco Ínais os vivos. Não creio que, há séculos ê c5o pâr.a co'r r"oica âlÊum., ÂoosÍo quê no seminário você
sécu]os, algum dos meus antepâssados tenhâ sentido o m! àra exatamente o que fui no liceu de Provlos. Deus ou a
nimo desejo de saber, sôbre tais coisas, mais quê seus proge- Ciência: a gente se entrega de corpo e âlmâ. sujeitos como
nós f.ôm fogo no ventre. E afinal!,.. Eis-nos diante da
nitores, Na aldeia do baixo Maine, onde sempre morâmos, mesma. . .
alizem comumente: cabequdo como um Triquet. Triquet é o Parou btuscâÍnênte. Eu deveria têr compreendido, mâs
ncsso sobrenome, um sobr'enome imemorial. E cabeçudo, lá,
só pensava em fugir para longe.
§gnifica estúpido, grossciro. Muito bem; eu nâsci com êsse * Um homeh como o senhor,\disse-1he, não desiste de
fulor de âprender que os senhores c}ràt7]am libido scietuili, âlcanqar o que g!er.
Trabalhei como quem devorâ. Quândo penso em meus anos quê ouero alcancâr é que desiste dê }t1im,
de mocidade, em meu pequeno cuarto da rua Jacó, nas noites - Âoujlo
lespondeu. Daqui a seis meses, estarei morto.
daquele tempo, sinto uma espécie de terror quase religioso. Pensei que falava aindâ do suicídio. Com celteza, leu o
E para chegar a quê? A que, pergunto ao senhor. Esta curio- pêlrsamenfo em meus olhos.
sidâcle que os meus náo conhecerâm mato-â, agora, a peque-
Não sei por que estou bancando o câtotino, diante
nos golpes, a golpes de úorfina. E se isso demorar muito,.. -
senhor. O senhor tem olhos que obdgam a gente a contar
do
O senhor nunca sentiu a tentacáo dê suicidâr_se, hem ? O histórias. sêlam quais Íôrem. Suicidar-me ? Ora essâ! O
fato náo é raro, é mesmo bastante normâI, entre os nervo- suicírlio é um Dâssâtetnpo de grânde senhor, de poetâ, uma
§os de sua espécie. . . elegância que não é para meu bico. Não gostaria, além do
Não tlve nadâ parâ respondcr. Esiâva fascinado ! mâis, que o senhor nie tômasse por um covardê.
* É verdade que o gôsto do suicídio é um dom, um Não âcho que o senhor seja covarde. Âpen⧠Íico
sexto sentido, não sei o que, alguma coisâ com â qual a -
pensando
- que a... que estâ droga...
gente nasce. Note que eu fariâ isso, discretamente. Saio ca- Náo diga bogagens sôbre â morjifla... O sentox
çândo; salto uma cêrca, o fuzil dispâla airás de mim (com - um diâ...
mesmo,
qualquer um poCe acontecer): pan I E, nâ mânhã seguiÍtte, Olhava-me com doÇurâ.
a aurora encontra o coitado de nariz no cháo. todo coberto Já ouviu falar em linfo-gmnulomatose r'naljgna? Não?
de oryâlho, iresquinho, bem tlanqüilo, enquanto os pdmelros - náo
CIâr§: é uma enÍermidade para o público. Já fiz urua
Íumos sobem para o céu, entre as árvores, os galos cantam tese á respeito, imagine o senhor. Assim, não podeÍia en-
e piam os passarinhos ! Que tal ? Isso não o teuta ? ganar-me, nem pr€ciso esperar o exame de laborâtólio. Dou
GEOECES BENNAI{OS
Dl.{Ítro DE uM PÁnoco DE Àr,DlrA 253
ainda a min1 Inesrno hês meses, seis no máximo, Vê o sehhor espelho e não se reconhece, o imbecil I Só é possível gozar
quê nâo renuncio ao meu fim. Náo fujo dêle. Encâro-o de â.expênsas próprlas, a expensas de sua própria substància:
fuente. Quândo a comicháo, lá denho, é muito forte, coço- âreglra e dor sao uria colsa sô.
-me um poúco; ma§, que se há de fazer ? A clientelâ te}n
o senhor chama alegria, pode sêr. A missáo
suas exigências, um médico deve ser otimista. Nos dias de
consulta, sapeco lá dentú um pouquinho de drcga... Men-
- O que
da I$eia é justahente descobrir de novo a fonte das âle-
tir âo doent€ é uma necessidâde da pfofissão. grias perdidas.
Seu olhar tinha a mesma doçura quê sua voz. Sentia
- Mrs talvez o senhor minta demâis.
uDr cansâço inexpúmível. Parecia estar âIi, há horasl
- o senhor
mo acento
âcha ? perguntou. E sua voz íinhâ o mes-
de doçura.
Deixe-me ir embora, exclamei.
-Tirou
seu pâpel é rnenos diIícil que o lnêu: o sênhor §ó
a receitâ do bôlso, mas não ma entregou. E, de
rcpente, pôs as máos ern meu ombro, com o braço esten-
hata- de mo bundos, suponho. A maior parte das âgoniâs dido, a cabeçâ inclinada, piscando os olhos. Seu olhar lem-
são eufóricas. Outra coisa é lancar para baixo, de uÍÍl só brou-me as visões de minhâ infância!
golpe, com ümâ única palâvrâ, tôda a esDetâncâ de um .- Áfinal, disse, é possível que se deva dizer a verdade
homem. Isso me aconteceu, uma ou duas vêzes. Oh ! sei o a cnatums como o senhor.
que o §enhor poderia responder-me. Seu§ teóIogos fizer:am
da estlerança uma virtude, esperânqa de mãos postas. Ílão é Hesitou, antes de continuar. Por mais absurdo que pa-
isso ? sejâ ! mas não há uma pessoâ que tenhâ visto esta reça, as palavras Jer:am o meu ouvido, sem despertar ne-
divindade de muito perto. À esperânqâ é um ânimal, eu lhe nhum pensamento. Vinte minutos antes, te a entrado re-
digo, um ânimal que está dentro do homem, um têrrível e signâdo ncsÍa casa, teria ouvido o que lósse... Assim como
feroz animal. É melhor deixá{a extinquir-se. lentamente. a ultima semanx parsada em Ambricàuri me havia dâdo umâ
inexplicáv€l sensação de segurança, de conliançâ
Ou. eütão. não mexa com ela. Se o senhor mexer. ela ârrâ-
llha. morde. E as criaturas doentes têm tanta malíciâ I Não - como.
que uma promessc de,telicidade. as palavras a principio láo
tranqüilizadorss do Sr. Lâ\ille causâiam-me grande aiegria.
adianta conhecê-las. Um dia ou outro, elas nos apa[hâm em
falso. Veia: um antigo coronel, dêsses que se formam no Compreendo, âgorâ, quanfo aquelâ alegria era muito, muito
rigor dàs colônias, pediu-me, um dia, que lhe dissesse a ver- maior do que pensava, muito mâis prolunda, Era a mesma
dade, como um câmErada,., Brrr !... impressão de libertê(ao. de alegria que experimentara no ca-
preciso mouer, pouco â pouco, disse-lhe. Ir-se acos-
minho de Mésargues; mas, âgora, misturava-se-Ihe a exal-
- É â mouer...
tumando
iação de uma impaciênci@ extmordinária. clostalia de lugir
daquela casa, transpor aquelas paredes. E no momento llre-
! Será que o senhor já Íêz alguns tueinos ?
- Tolices
Pelo menos, tentei, Á]iás, não me eomparo às pessoâs
ciso em que mêu olhar parecia re>ponder à mLldâ inLerróga-
-
do hundo que têm suas ocupações, sua família. Ninguém çao do doul,or. meu pensamenbo se perdiâ êntre o vcgo rumo!
dâ rua, lá fora. Escapar-me I Fügir ! Novamente encontrar
se incomoda com a vida de um pobre padre como eu.
possível. Mas o senhor se limita a pregar a con- o céu de inverno, táo puro, onde tinha visto, esla mallhã,
- É com â sorte,
Íorrnaçáo isso náo é novo.
pela janela do trcm, nascer o sol ! O Sr. Laville interpretou
mâI minha atitude. Mâs â luz se fizera em mim. de Íe-
A alegre conformaçáo... disse-Ihe,
- !
Om O homem se mira na suâ aleg â, como num
pente. Antcs que livessc acabado sua Írase, eu náo era mâis
que um morío entle os vivos.
-
DrÁxro DE uM P.ÁÀoco DE ÀrDErA 255
254 GEOTGES BERNÀNOÊ

Câncer.., Câncer no estômago... Foi a palavrâ, antes désses. o senhor sentir uma dor na fâce intcma dâ coxa ês_
de tudo, que me unpressionou, Espelava outra. Esperâvâ ouerda. com um Douco de lebre, cleite-se. E'sa espéciê de
que dissesse: tuberculose. Foi-me necessário um gmnde es- íiebite é muil,o cónum êm seu caso e o senho! correria o
Ífuço de atenção pam pelsuadir-me de que ia morrer de pedgo de ter uma embolia. Àgorâ, meu caro, sabe tanto
um mâI que se observa muito mramentê eniÍe as pessoas quanto eu.
de üinha idade. Com certeza, apenas franzi o sobrolho, como Dêu-mc. enfjm. a r.cei:a e eu â meii maquinalmênl,e
diante düm problema difícil. Estava tão absolvido que em mjnha râderneta. Por que nào sxi naquele mesmo ins_
penso nem ao menos ter ficado pálido. O olhâr do doutor tante ? Não sei. Tâlvez náo tenhâ podido dominâr um mo_
não se apartava do meu, Iia nêle a confianç4, a simpatia, náo vimento de cólerâ, de levolta contra o desconhecido que aca-
sei o que mais. Era o olhâI de unl amigo, de um compa- bava, tmngüilaménte, de dispor ale mim, como d€ prcp eda_
nheirc. Sua mão âpoiou-se, de novo, em meu ombro. de súa. Talvez estivesse demasiadamente absoNido pela êm_
Iremos consultar Grousset, mas, pâra lhe ser franco, Dréso absurda dê harmonizar, êm alguns instanies. meus
náo -creio que se possa operâr êste tumor.. . Àdmiro-me, ató, ferucnrentos. mpus projelos, minhas própriàs rêcordã(õFs,
de que o senhor tenha agüe[tado tânto tempo. À n],assa intnha rioa inte:r'a õom â nova cêrteza que me convertia
abdominal está volumosa, o ingurgltâmento é considerável; em outro homem. Àcho, muito simple§mente, que estava,
e eu acabo de reconhecer sob ã, claÍícula esquerda um sinal como dc cosLume, pxrz.lisado pela timidez. Náo enrontrava
infelizmente muito seguro, o que chamamos o gânglio de jeito de despÊdir_me. ÀIcu silêncio surpreendeu o Dr' Lâ-
Trcizier. Note que a evolução pode ser mâis ou menos lenia, ville. Iíoteio pelo tremor de sua voz.
mas devo dizer que, nâ sua idade. . . Afinal. há, hoje, pelo mundo, mithares de doent€s
Que prazo me dá o senhor ? -
condenaalos pelos médicos e que estão câminhando pam os
-Cedamente nada percebeu, pois minha voz não iremia. cem ânos ou mâis... Já se observarâm mesmo absorções de
Oh! meu sangue-{rio não era mais que espanto, surpÍêsa! tumores malignos. De qualquer lorma um homem como o
Escutava distintameôte os bondes rodarem, o som das cam- senhor nào sõ d"ixaria engánar. muito te'npo. peias tâga_
painhâs; em pensâmento, já me encontrava dentro daquelâ relices dê Groussel que só iranqüilizam aos idiotâs. Nâda
igreja fúnebre, perdia-me na multidão apressada... Deus me ma:is humilhante quã arrancar, pouco â potlco, a verdâde a
perdoel Não pensâvâ Nêle... àsses áueures que: âliás, náo ligam âbsolulamente para o
É difícil responder. Depende, sobretudo, da henlcr- nr" contãm. Sdb o regime da ducha e§cocêsa a gênte perde
- Rarâmente
ragia. é fatal, mas sua lepetição Íreqüente... o resoeiío de si mesmõ e os mais corajosos â.abam iuntan-
Om I quem sabe ? Quândo eu o âconselhava, ainda há poucc, do-se'aos demais e seguem. às tonlâs pâra seu deslino. mi§-
a retomaÍ tmnqüilamente suas ocupações,. úão estava re- turâalos ao rebanho... Volte, de amanhã a oito dias; eu o
prcsentândo urrla cohédiâ. Com um pouco de sorte, o senhor levarei ao hospitai. Dâqui até lâ, celeble sua missâ, con-
bem poderia morrer de pé, como aquêle fâmoso impemdor, fesie seus devoi,os, não mude eoisâ alguma em seus hábitos.
ou quase. .. Questáo de moral, A menos que, . . Conheço muiío bem sua paróquiâ. Tenho até um amigo em
que ? Mésârgues.
- AO menos
senl1or é um tipo obstinado. DâIia um bom mé_ Esiendeu-me â mão. Eu continuava no úesmo estado
alico.- Prefiro, aliiás, informá-Io de iudo, minuciosâmente, em de distraçào, de ausôncia. Por mâjs que me eslorce' nunc&
vez de deixáJo esmiuçar dicionários. Muito bem. Se um dia ãr."À*"i â compreender por que espantoso prodjgio pude
254 GEORGES BERNANOS DrÁlro DE uM P.futoco DE A!DE!À 267

em tais circunstâncias, esquecer até o nome de Deus, Esiavâ âquela vez ? Oh I pensei ter atravessado o mundo, qua§e §em
só, inexprimlvelmente só, diante dâ morte, e esta morte era o ver, como quem caminha de olhos bâixos, enhe a multl-
apenâs à privaçáo do ser, nada mâis. O mundo vislvel pa- dáo. Cheguei a pensar que desprezava o mundo. Mas, en-
recia desprender-se de mim com uma veloeidade espantosâ táo, erâ de mim que mê envergonhava, não dêle. Era como
e numâ desordem de imagens, náo fúnbres, mas, ao contrá- . um pobre homem que a.ma §em ter coÍagem de o dizer, que
rio totalmente luminosas, deslumbradoras. É possível ? Será não tem coragem nem de confessar a si mesmo que ama.
que o amei tânto ? Essas manhãs, essas tardes, êsses cami- Oh! não nego que essas lágrimas podedam ser lágrimas de
nhos ? Câminhos cambiântes. misteriosos, caminhos chêios Jmqueza. Mas eram tambÉm lágrimas de amor. ..
dos passos dos homens. Será que ámei tânto os caminhos, ÂfinâI, virei as cosias, sâí, encontrei-me, de novo, na
nossos câminhos, os câminhos do mundo ? Que menino rua.
pobre, crcscido no pô dessâs estladas, náo lhes teda con-
Meirr-1ioite, en casd. da Sr. DuÍrét!
fiado seus sonhos ? Levalnos lentamente, majestosamente,
para não sei que rlâres desconhecidos, ó grandes rios de luz
e de sombra que conduzis os sonhos dos pobres, Creio que Não sei por que não me ocorreu a idéiâ de pedir em-
Íoi a pâlavra * Mésargres que feriu, dêsse modo, meu prestado vinie francos à Sra. Duplouy; assim teriâ podido
-
coração. Meu pensamento parecia muito longe do Sr. Oli- hospedar-me no hotel. Ê verdade que, ontem à noite, ere-me
vier, de nosso passeio e não havia tal, eniretanto. Não tirâva impossível refleíir, estava desesperâdo por ter perdido o
os olhos do rosto do douto:r e, sübitamente, êle desapareceu.
trem. Meu pobre camaradâ recebeu-me, aliás, muito acolhe-
dorâmc-nte, Pârece que tudo vai bem.
Não compreendi, logo, que estava chorando,
Sem dúvida, hão de censurar-me por ter aceito, mesmo
Sim, eu estava ohorândo. Chorava sem um soluço, penso por umâ noite, a hospitâlidade de um sacerdote cuja situa-
que sem um suspiro sequer. cholava com os olhos âbertos,
como vi tanias vêzes chorâr€m os moribundos. Em a vida çáo não é regulâr (é pior, ainda). O yigrixio de Torcy nle
tâtará de ingênuo. Não se enganará. Isso Inesmo dizia o
que saia de mim. Enxuguei os olhos com a manga da bâti- iníq próprio, ontem, quando subia a escada, tâo Íétid&, tào
na; distingui, novamente, o rosto do Sr. Laville. Tinha uma negra. Fiquei âlguns minutos em frente à portâ do oparta-
expressão indefinível de sulprêsg, de comÉâixão. Se alguóm mento. Um cartão de visita, já todo amarelo, eli csliavo
pudesse moúer de desgôsto, eu teria morrido. Deveria teÍ fu- prêBo por umâs tachinhâs: "Luís Dufúty, reprêscnt[nto'! ,
gido e não tive coragem. Espelava que Deus me inspirasse !.lra hor vel !
uma palavra! uma palavra de sacerciote; teria pago essa pa- .{lgumâs horas ântes, não tedâ tido comgem (lc cntror.
Iawa com minhâ vidâ, com o que me restavâ de vida. Quis, MÂs já não estou sõzinho. Há isto em mim, cslo colstr...
âo menos, pedir-lhe perdão; só pude balbuciâr â palavra, as AÍinal, toquei a câmpainhâ, com a vaga cspcrançn dc rão
lágrimas me suÍocavam. Sentl:L-as correr pela minha gargân- encontrar ninguém. Veio ablir-me. Estâvâ cln mrrngas dc
ta: tinham o gôsto de sangue. Quanto dariâ para que fôssem camisa, com ufiâ dessas catças de algodão quc vostirnos dc-
rnesmo sanguel Doàde vinham essas lágrimas? Quem poderia bâixo da batinâ, os pés nus, dentrc dos chinelos. Disse-me
dizê-lo? Não em por rnim mesmo que chorava, juro-ol Nünca quâse àsper'âmente:
tinha estado táo perto do ódio a mim mesmo. Não chorava Você poderia tcr'-me prevenldo. Tcnho u1n csclitó-
pela minha morte. Na minha inÍâ[cia, acontecia-rne des- rio, -na rua Oníroy. Aqui esíou apcnus ocâmpâdo. A casa
pertar assim, soluçando. De que sonl1o acabava de despertar, é horúvel.
:l'lEEÇ'lusMIÇ l

25A cEoBcEs BEaNANos


DrÁ$o DE uM p,fut@o DE Ar,DErÁ 255
Dei-lhe um €bm(o. Êle teve um acesso de losse. penso
dou em mim. de âlgumas sêmanas prra cá; o pensâmento
mais emooionado do que queria aparentar. Às de voltâr à minha casa com... coni esta coisa. enfjm, mê
^S::.--!.l3ri
sollms da reJêiqão sinda eslavam sóbre a mesa.
trorroriza, Íne amarga. Já me sentla tão inclinado a repug-
- Devo e,alimentar-me,
comove.dorâ,
contlnuou com umâ grâvidadê
in.feiizmên1,e. tenio pouco apetite. "Lembr;_
nar minha próp-ria pessoa. Ê agorâ sei o perigo de Lal'se;-
l,imento que acabaria^por.tirar-me tóda a coraãem. Mêu pfi_
do seminárioJ O pior e que é pieciso cozinhar, melIo de!er, no comé(o dâs provâ(óes quê mé esperâ_m, dê-
^":.9o*1-1,J-?9 no quarto. Enjoei_mê com
33u.,_,Ieqtr9. o aheiro da gordu_ veria ser. não há dúüda. reconciliàr-me comigo iresmo.
ra trrta. e irrilante. Em oulro luAar. comeda comó um
houtlo. _ Refleti mLlito na humilhacão que sofri, esta manhà.
fenso que deve ser atribuídâ antp§ a um érro de jutgamento
Àssenlamo-nos um junl,o so outro. euasê nào o reco_ que à fraqueza. tr,altou-mc o bom êenso. t
ntleciâ. seu pescoÇo .[inou dcsmesurada.mPnte qüu,_em iàãé
comDrido ê da morte, hinhâ atitude não pode ser a "frrode homens muito
sua cabeça. lá no âIto. parpcia pequenina, air_se-ia u'mi ca:
DeQa de rato, superiorêS a mim, e que âdmirc o Sr. Oliviêr. Dor exer1tolo_
ou otigário dê Torcy. (Junto de propósito ésses ôois nomei.y
loi genLil. vindo à m;nha casa. para tâlâr com
. - VoeeIiquei-surprocndido Em. tal circun\láncia. um e outro leriam guardado esta ei-
ISnqueza, ao receber suas respostas
runnâs carlas. ,,Lá . vocé nào era dos mais toleraites... às pecre de d§tin(ao suprema que é a própria natureza, a Ii_
Respondi nã,o sei o quê. berdade dâs grandes almas, Mesmo a conrléssa... Oh! sei
que tudo isso são qualidades e não virtudes; ninguém pode:,
- - Desculpa, um.
.. disse-mê ôle. vou Iâzer uma pequenâ "to!
pouco de Íotga. e"j." ,arí. ô;" qu;;i
ria adquirilas! Meu Deus! ê preciso que nala at-guma'coisa
|.if.t
Á vloa L.1g._!1*
aLtvâ tem sêLr lado bom, Mas nào perue que me trans_
delas em mim. \islo que tanto üs âdmiro nos o-ukos_. _ É
foqnei em uÍn beócio ! Leio enorrnemenie, nuirca t únto. como um idioma que poderia compreender huito bem. sem
Talvez mesmo que, um dia. . . TenlLo por aÍ u*u" ser capaz de {a.]ar. Os Íracassos não me conigem. Justa-
lnFressanles, muito vívidas. Depois, fajâremos disso.
Ãriô
"àtã. AnÍ,! mentê quândo teda necessidade de tôdas as múhas fôrças,
gamenle, parece. você arredondava bem seus âJexandrinos. o sentirnento de minha incapacidade me oprime lào viva_
rhentê que perco o lio de minhâ própria corâgem como um i
Poderá dar-me conselhos preciosos.
orador medíocre perde o Íjo de seu discurso. Ésta provaçào
Um instante o vi. pelâ porta êntTeaberta, desli_
-- *em direçãodepois.
zar-se à escadâ. com uma latinla de leite na
não é nova. De ofltlas vêzes, consolâva-me com a eÀperáça
de algum âcontecimento mâravilhoso. imDrevisi;el
I

mâo. -trquet cle novo só, com.., I\Íêu Deusl é verdade ouê-
por mlm. teriâ escolhido outra molle ! pulmoes que maúirio tâlvez ! Na minha idâde. a morte párece tào lonqe-'ô
á".j que a experiência colidiana de nossa própiia mediocridaãe
I_11eT, po_uco
a pouco, como um pedaço oe açucai nJàguã, "o Ilão nos convence âinda. Não queremo§ crôr que tâl âconte-
um coraçao extenuado que se deve incessantémente estiáu-
lar. ou me$no aqueta esquisila doenca do Dr. Lavi{Ie. cimento. nada terá de estranho, que não será, sem dúvide,
cuio nerll lnais nem menos m€díocre que nós, terá nossa imagem;
nome esqueci: tudo são hales cuja ameaça é agora, para mú,
yrn lanq vaga: abstrata.. . Ao pâsso quê. coiocanâo apenas a imagem de nosso dêstino. Não parece pertencer a n_-ossó
a máo sóbre a b-alina, mundo familiar; pensamos nêIe, como pensamos nesses Daí.
-no
lugar em que. por tanto tempo, se ses labulosos. cujos nomes lemos nos livros. Ágora meslrto,
1l

demoraram os dedos do doutor, ereio sentir... Ímasiiacân


rarvez... Não importa ! Inütilmente repetirei que nalaa Àu_ imaginava que minha angústia nâsceu de uria decepçãã
brutal. instantánea, O que julgava perAido para atáir'àé
260 GEoRcEs BERNÁNo6
Dráxto DE úü P.íÀoco DE Á!DErA 28L

oceanos imâgiDário§ estava diante de mirn, Minha hortê minha câma em um pequeno c$rredor, onde meu amigo
está aí. É iguâl a quâIquer outÍa morte e nela entrarei srmma suͧi amostra! de rcmédio. Todos êsses pacotes têm
com o§ sentimento§ dê um homem muito comum, muito um cheiro hoúível. Não há solidáo mais profunda que certa
ordinário. É tarnbém certo que não sâberel melhor morrer Íealdadê, que ceúa desolaçáo de fealdade. Um bico de gá§
que governar minha pessoa. A mesma lalta de jeito, â mesma como que âssobiâ e cospe por cimâ dê minha cabeçâ. Pâ-
,êce que me esconde dentro dessa mi§ériâ, desta fealdade.
lncâpacidâde. Quantâs vêzes me disseram: ,.Seja simples,,.
tr'iz o que estava em mim. É táo difícil ser simptesl l\.ias as Noutro tempo, ter-me-ia inspirado repugnância. Hoie fico
pessoas do mundo dizêm -os simples", como dizem .,os humil_ satlsfeito porque tal miséria acolheu minhâ desgmçâ. Devo
des". com o mesmo sorriso indútgenLp. Suâ palâvra deveda dizer que não a procurci, nem mesmo a reconheci imediata-
ser outra: os reis. -. mente. Quando, ontem à noite, depois de minha segunda srn-
copê, encontrei-me deitado nesta câmâ, minha priheirâ idéia
Meu Deus, eu vos dou tudo, com todo o meu coraçáo. Só íoi certamente de Íugir, Íugtu de quâlquêr ieito. Lembrava
que não sei dar. Dou como quem deiÍâ tomar. O melhor é minha quedâ, em lrente à casa do Sr. Dumonchel. Em
ficar tranqüilo. Pois se não sei dar, Vós, Vós sabeis tomâr... pior. Náo erâ só o caminho escavado que me vinla à me-
Entretanto, meu Deus, eu gostâtia de ser uma vez, ao menos m6úa. Viâ também minhâ casa, meu jardinzinho. Pensava
uma vez, liberal e mâgní{ico para convosco. ouvir o gmnde álamo que, nas noites mais tmrqüilas, des-
Tive a tentaçáo de ir procural o Sr. Olivier, na rua perta muito antes dâ âurora. Imaginei estüpidamente que
Verde. _Cheguei a pôr-me a ca&inho, e voltei. Penso que seria Inetr coração ia parar de bater.
impossível esconderlhe o segrêdo... Como, dentro_de dois Não quero moller âqui! exclamei. Tirem-he daqui!
ou tlês dias, êle aleve partir para o Marrocos, isso não teda -
Lêvem-me para qualquer lugar !
grânde importância, nras sinto que, diante alêle e contra
minha vonr€de. teriâ Íêito um papel... Íalâdo em linguâ- Com certeza, pêt'di os sêntidos. mas aindâ pude escutaÍ
gem _que nào é minha. Nào queró v:olentar coisa alguima, a voz do meu pobiê companheiro. Estava. a um tempo. trê-
dêsaÍiar â ninguém. Para um tipo .omo eu, o heroiJmo ê mula e raivosá. (Discutia com outra pessoa, no patamar d,
e§cada. )
não ter heroísmo; e, visto quê me Íalta a fôrça, quereda fâzer ? SôziDIo náo posso caüegá-lo. E
Que hei de
agoÍa que minha morte fôsse insigniÍicântê, tão insignifi- você-sabe muito bem que iâ não podemos pedir qualquer
cânte quanto possível, que não se distinguisse dos outros fâvor ao portciro.
acontecimentos de minhâ vldâ. Àfinal, é por causa de minhâ
natural inépcia que posso contâr com a indutgência e a Então, tive vergonha, compreendi que era um covarde '
amizade de um homem como o vigário de Torcy. Nâo será
coisa indigna essa minha inépcla. Será a incapacidade da
infância ? Por mais severamente que me julgue, nu[ca alu-
videi de que terha o espírito de pobreza. O de infância se Áliás, é necessário que me explique aqui, uma vez por
pafece com êle. Àmbos, com certeza, são umâ só e mesma tôdas. Vou retomâr minha história, no ponto em que â
co§a. deixel, algumas páginas art€s. Àpós a saida de meu com_
panheiro fiquei sôzinho um bom pedaço de tempo. De-
Estou contente por ão ter visto de novo o Sr. Olivi"r
Estou contente por passar o primeiro dia de minha prova- iois ouvi cochichos no corredor e, afiüal, êle âpâreceu, ainda
com a garrafa de Ieite na mão, ofegânte, vermelho.
ção, aqui, nest€ quarto. Náo é, aliás, um quarto. puseram
262 CEORGES BEINÀNOS Dr,ÁRro DE uM P,Áxoco DE ALDEA 263

* Espero que você jante comigo, disse. poderemos rlhos duros e, se não tivessê, entáo, para §ustentar_rne, o
conversar um pouco. enquanio eçperatnos. Talvez eu leia sentimento de minha responsabilidâde pam com... para
para você algumas páginas. É uma espécie de diário, com com uma pes§oa que sâcrificou por mim uma situaçáo bd_
o titulo: Mjnhas elapas . Mru caso deve inteTessar a mui- thante e â quâl... Mas perdoe e§sa ÂIusáo ao fato que...
t€s pessoas. É tipico.
- Eu conheço, disse-lhê .
Enquanto éLp fâlava, devo ter Lido a Drimeirâ vêúisêm Sim. . . não há dúvida. . . Áliá§, podemos falar disso,
o])rrgou'me a beber um grande copo de i,jnno. nquei"me_ - obj êtiva.rnente . Você comprecndcrá que tomei cau_
muito
ll,or, emtlora senlisse aindâ uma dor violenÍ,a à aitura do telas para evitar-lhe, esta noite, um encontro que. . .
umbigo, mas que Íoi passândo, pouco a pouco. Meu olhar o incomodava visivelmente. Não podia ler
Que se há de Íazer ? continuou, Temos sangue ruim nêle o que gostariâ de ler... Diante des§a pobre vaidade
nas -veias. Os seminários não tonam absolutam-ente co_ tortuÍadà se-ntia a mesma implessão dololosâ quc expe _
rúecimenüo dos progressos da higiene. É honivel ! Um mé_ mentara, âIguns dias ântes, em plesenço de Luísa. Era a
alrco atrsse-me, certa vêz: -Você é um dêsses intelectuais mesma- incapacidade de ter pena, de compadilhar da dor,
sub-alimentados desde a infância',. Isso explica muitas a mesma opre§sáo d'alma,
coisas, náo alha ? chegâ, gemlmente, a esta hora. Pcdllhe que
Náo pude deixar de sorrü. - Ela
pâssas§e a tarde com uma amiga, umâ lizinhe. ..
Nao pFnse quê prêtenda justiticar-me. Mcu pârlido Timldamente, estendeu para mim, por clma. da mesa,
ê. um - só: o da sinceridade para com os outros e pâra co_ um bmço magro, livido, que saía da mangâ IarguÍssima do
lnigo mesmo. "Cada quat com sua verdade. é o [ituto de paletó, iôs a úáo sôbre a:minha (sua mão tôda suada, Iriâ.)
u-rna comédia assombrosa e de um autor multo conhecido. Fenso que estava realmente emocionado, ma§ seus olhos
. -,
Reproduzo rxatamenle suas palavras. parecer-me-iaÍr continuâvam a mentit.
tr(ucutas, se náo visse. ao mesmo tempo, em seu rosLo o náo inlluiu êm nâda sôbre minha evolução inte_
§jna.l evidenle de uma angüstia. cuja ionfjssào nâo espe- - Ela
lectual, se bem que nossa amizade t€nha comcçado, exatâ_
rava. Caiou-se por um jnslanle. depois prosseguiu: mente, por umâ troca de vistas, de iulgamentos, sôbre o§
a dopnça, creio que es[aria no mesmo homens. a vida. Desempenhava as funções dc enlcrmcira_
ponto.em- NãoqueIósse
você eslá. Li muito. E depois. quando sai do -chele, no sanaório. É uma pessoa inshuída, culta, de ealu_
sanalório, Live de cavar Luí emprêgo, inedjrlme com um caçáo muito aci&a da médi* um dos seus tios é colctor
novo deslino. Questào de vonl,ade. De energja; sobrel,udo de rendas eln Rang-du-Fliers. Em resumo, âchci que dcviâ
de energiâ. Naturalmenle, vocé há de imaginar que é muilo cumprir a promessa que lhe tinha feito. Náo vá pensar
Iácü colocâr mercadorias... Êrro. grave érrol Que se ven- que me deixei lê\r'aÍ por um arebatamento, por um pd-
dam remédios olr minas de ouro, seja-se Ford ou um mo- úeüo impulso. Àchâ estmnho ?
Pâlêce-he, porérn, que não Ihe adian_
desto representante, traLa-se sempre de manêjâr com os
homens. O rnanejo dos hoútens é a melhor escola de von_ - Nâo, respondi.
ta defender-se, assim, por ter amado uma mulhcr escolhida
tâde. ÁgoÉ, conheço algo a respeito. Felizmente, iá dei por você mesmo.
o pâs§o.perigoso. Ánt€s de seis §emânas, meu negócio fi- sabiâ que você em sentimental. . .
cará eslrivel, conhecerei as do(uras da independénciâ. Nore - Não continuei: se âlgum diâ tivesse de ter a in_
que Dào animo ninguém a se§uir meu exeniplo. Há pedâci- - Escute,
Íelicidade de Íaltar com âs promessâs dc minha ordenâçáo,
2U cEoEc&s BERNÁ!{os DrÁlro r,E uM PÁioco DE Ár,DDrA 266
prefe Íia qxe fôsse. antes, pelo amor de uma mulhêr oue o serhor se sentir bem, irei elnbor&, contl'
em consequenciâ do que você chalna sua evoluçáo úte- - OQuando
nuou. Sr. LuÍs não gostariâ de me encontrâr aqui. Não
lectual- queria que nos conhecê§semos, e recomendou que lhe dis-
I'êz um gesto de despfêzo. sesse que eu era uma vizirúa.
Não sou da mesma opiniào, respondeu sêcamente. Assentou-sê em uma câdeira.
-fermrLa-me
-- dizer. antes cle tudo, quê vócê está falando áe senhoÍ deve Íazer umâ pésslma idéia de mim; o
uma corsa que ignom. Múha evolusào intelectuâI... - Onêm
quârto âo menos Íoi aüumado, tudo está imundo. É
Cont- cerleza falou ainda por que eu paxto para o seryiço, de manhá, muito cedo,'àrs cinco
a vaga tembrança de um longo muito temoo
monólogo
'oudDois tenhô
escutav: horas. E târnbém não sôu lá muito forte, como o senhor
:!1 9ompreendêr. _Depois, minha bôca si enôheu de uma- vê.,.
(§pe(rc oe tooo m$pldo. ê seu rosúo me Á senlrcrâ é enfermeira?
nitidez, tuna precisão àxlraordinária, anles apareceu com ulna
_ãe;:.;;;;?;;;
de meIÊulhar *- EnÍermeim ? Imagine I Eu erâ âraumâdeira, lá, no
rIas trevas. euando abri os otlos. acabava sânâtório, quando enconhei o senhor... MaÁ corn certeza
que se âgarrava a mirúas gengivas (era um se admira de que eu o chàne sI. Luís, visto que moramos
:91"-1--yr"s9.u
:s9!r.o 9e sangue) e ouvi togo uma voz de -muthe;. Dizia iudtos.
com o sotaque dos habitantes de Lens: Bâixou a cabeÇâ, fingindo refazer as pregas dâ saia.
.- Não mexa, sI. Vigário, isso vei passar. não vê mais nerüum dos seus antigos... de
Rêcuperei os seniidos, no mesmo instante. O vômito
- Êle
seus... enÍim. dc seus antigos colegss. náo é? O senhor é
me alivjara muito. Sentei_me na cârna. Â pobre o primeiro. Pensando bem. sei que nào fui feil,a para êlc.
quis sair; tive de segurá-la pelo braço, mulhel, Só que, no sanatório, pensou que estava curado, comeQou
a Íazer planos... Poa causâ de rcligião, não veio mal algum
-. . :- Peço-lhe dês(ulpa. E\lava no apartamento de uma
do outro- tado do corrector. O'Sr. I_uis ficou uri
em a gente viver como maddo e mulher, mas êle prometcu,
:lll!!u,
puu(jo oesortenLado. Quis correr alé a tarmá.ia
não âcha, náo é verdade ? Promessa é dívida. Não impotlo I
o Naquele tempo, eu náo podeta Íalar-Ihe de scmelhunto
Sr. Rovelle é seu amigo intimo. InÍetizmenle aRovelle. tuirlj"ã coisa, mas é que... desculpe... é que... eu o amavo.
nao- Llca^aberta a n-oil,ê, e o Sr. Luis nâo pode andar
pressa. (J menor_ e§Íorqo o póe olpgante. Ém maLéria dê- Prcnunciou â pâlavra com tanta tdsteza, que uüo souLo
sauoe. nao tem 1á muita cor.à para tender, nào!
de o que lesponder. Âmbos licamos vermelhos.
I{avia outra mzão. Um homem instruido como 0lr. ,.
Para tranqüiiizá-lâ dei alguns passos pelo quarto e ela, Não -é fácil cuidar de um homem assim. Sabc taulo, (nr)lroco
-.._
Allnal. Consêntiu em assenlar.se um poUco, U tão pequena, tão bem os remédios como qualquer doutor. I,l, to hout (ltlr,,
que.a gente l,omaria por uma dessâs filhas de mi;eir:o âgora, Íâça pa e dêles, os remédios âind( (udülnl rxrr(,,
quals e otltctl dizer quanlos anos tem. o seu aspecüo náo da;
apesar do desconto de cinqüenta e cinco por c0ntr,.
ê. desagradável, ao contrário; entrel,anto, parece que basta- Que é que a senhorâ Jaz ?
rlâ vrrar o rosto. para esquecéLa imediatamente. Seus olhos -Hesitou um instantê .
9,"-_1,T,
ur"r palido sugerem um souiso tà,o resjgnado, tão Limpezas â domicílio. O quc põo r l{r,lll,í runlltr(llr
humrlde, que parecem olhos de uma velhinha, oúos de ve_ neste- serúço é ter de ir dum bâirt'o por& oul,ro.
lha Íiandeim . E o negócio dêIe ?
-
266 oEoRcEs BERNANoS Dúlro DE uM F.íloco DE Àr,Drra 287

Pârece que dará muito dinheiro. Mas êle têve de


pedir- emprestado pâra montar o esc tóÍio, comprar a má- - Vocês
estão câsado§ ?
qúna de escrever. e depois. o sênhor sabe. êie nào'pode sair. Náo. sênhor.
-Estâ sempre cansado. penso quê eu sôzinhâ davi conra da
-Vi passar uma sombra sôbre o seu rosl,o. Depois, parece
casa. mac. agora, êtê êstá com a hania de me dâr instruçâo, que tomou, de repente uma resoluçao.
a escola, como êle diz, imagine ! Náo vou mentir âo senhor, eu é que nao qu§'
- Por quê ?
-- ,A que horâs ? - Por cãusa de. .. Por causa do que êle é. orâ ! Qxan-do
saiu -do sânaLorio âchei que ia melhorar. que salasse .Enlao,
Bêm, à tarde, à noite; porque éle não dorme muito.
- romo
Gente eu. operária, precisa de domtir. Oh! êje nân
Iaz.de prop-ósilo. náo. Nào pensa nisso. Eu lalot -Olha, já é se isso aconteccr um dia, quem sâbe ?... Tenho cerl'eza cte
heia-nojlê . Não adiânl,a. Acha que eu devo seT urna" se_ oue nào o aborreceria.
' que loi que élc pensou sôbre issol
nhora. L,m homem de seu vaiorl . . . Está direito, náo é ?. . .
Ê certo, náo tem dúvida. eu náo servia pâm compânheim
- OoIL! nada: Pensoir que eu náo queria por causa do
déIe, se... Írleu-lio de Rang_du_Fliers. um antigo carteiro. que Lem
Jã,r"i e ;áo Eosta de pâdre cont€i-the que meu tio
Obselvava-me com extraordinária atenção, como se suâ
vida.inteira dêpendcsse da palawa que ia âizer, do segrêdo ná me daria horanÇã. o engiâcado da coisa é que o velho
"ou.e"
que ia con-fiar-me. Não penso que desconliasse de mimlmas me deserdou de fato, mas porque eu continuei moçâ', urna
ààncuUina, como êle disse. É um homem muiLo direil'o, pre-
Íaltoulhe â coragem dc pronunciar. diante de um estranho, feito da alaleiâ: "vocé nem conseguru que o seu ügário ca-
ê pâIâwa fatal. Tinhâ vergonhâ. Freqüentes vezes, notei com você, cscrcveu-me êle; é sinal de que você não
entre as mul}leres pobres es.a repugnáneia em falar de doen_ "àsse mais Para nada".
presta
ças, êsse pudor. Ficou escarlâte. Mas qüando. . .
vai moüer, disse ela. Mas não sabe alisso.
-NãoÊlepude -Não tive coragcm cle acabar. Ela acabou para mim'
deiÍar de sobressaltar-me. ficou ainda mâis
---rrma ró, que-teria parecido indiferente a muil'os' mas
vermelha. ã"" m'uito bc-. voz que desperta em mim tanl'âs
.-_ Ohl. adiúnho o que o senhor está pensânalo. Estêve "ãnúeco a voz scm idade. tvoz vâlenle e resignâda que
iàmtt.rrçai:
aqui um vigário dâ_ paróquiâ, um homeú muito eatucado, âoujeta à bébedo, passs pil,o no§ meninos malcriados em-
que, âliás, o Sr. Luís não conhece. Segundo êle disse, eü üàü-í cilanclnira,'aiscule com o lornecedor intransigente'
estava impedindo o Sr. Luis ale cumprir-seu dever. O dâver imDlora o oÍicial de iustiqa, lrânqüiliza as agoniâs: â \oz
- o senlor não âcha ? não é fácil de compreendei. Oh I àai ooures donas de câsa, sempre igual, 6em dúvids atmvér
êsses senhores cuidariâh- methor dêle, em visú do âr üciado ãài iécutos, a voz quc xÍronta lodas as misérixs do mundo "
do alojâmcnto e da atimentaçáo dêIe que nào está direila, ôuândo éle molrer, jrei por ai Íazenclo minhas lim_
âpesar de tudo. (Â quatidadê não é ruim; mâs não há é - Ã"i"i ào sanrtólio, eu eia cozinlreira num prêventó-
vâIiedade: o Sr, Luís entara depressa das coisâs:) Mas se ""r"".
ijà de crianqâs Iá pâra o lado de Hyéres. no sul Mexer com
tem de-acontecer. sêria melhor quê éle se decidisse, não achâ? o ienhor'sabc, as criânças são boas como Deus'
sê eu fôsse embora, éte ia pensãr quo o trai. porque, enÍim, "airrr"a".
nao quero otender o senhor, mas eu náo tenho religiâo. De -1 À senhora talvcz cncontre um lugar semelhante,
disse.Ihe,
modo que. . , Í'icou âinda mais vermelha.
268 CEORGES BERNÁIíOS
Drixrô DE uM PÁloco DE ÁrDErÁ 269

á.cho que não. Porque eu não quelia que ísto


-
Íôsse contâdo mas, aqui entle - nós, eu já náo sou tão quândo estou cânsadâ. muito cansada.., Mas por que o se-
-
foúe, êle me pegou a doença. nhor me perg:rinta isso ?
respondi. Porque há momentos em que
Câlei-me. Parece que Íicou incomodaala com
silêncio -
o meu - Por .amizade,
eu mêsmo. .
Não tirava os olhos de mim.
- É lrossívêI
culpouse.
que tenhâ apaDlÉdo antes a doença, dês-
Minh.a rl}ãe iâ" nãn era lá muito Jotte, o senhor também não tem boa caÍa, sI. Padre, lá
de poder ajudá-]a, disse-Ihe. isso -náo!... Muito bem, pois veja, quândo já náo sou capaz
-ComGostâdâ
certeza pensou que ia oferecêr-lhe dinheiro, úas, de fazer nâdâ, quando iá não me agüento em cirnâ das per-
depois de olhar-me, hanqüilizou-se. Chegou hesmo a sorrir. nas, com minhâ dorzinhâ de lado, vou esconder-mc num
senhor vai echar graçâ
- Escute,
quem sabe o senhor poderia dizerlhe uma canto, compleiamente sõzinha e
em vezãe fic pensando coisas - o alegres, coisas que dÂ.o
palavrinha sôbre essa idéia de me insti.uir ? Quândo se pensa
que... ênfim, o senhor compreende, pelo tempo que â gente
-càngem, penso em tôdas essâs pes§oas que não conhcço,
que Àe parêcem comigo * há gente âssim, â terra é grândel
aindâ tem para passar junlos. nós dois, é durol Êlê nunca
menaligos que caminham debaixo da chuva, as criÂn_
toi muito paciente. Tambem, coitâdo, ruim como está | Mas
ê]e diz que eu fâço de propôsito, que, se quisesse, poderia
- osDerdidcs,
cas os doônl,cs, os loucos dos asilos quc Jicam
aprender alguma cojsa. Ácho que a doença é que nãó deixa, gritando paÍa a lua, ê t ntos ! e tantos ! Parece que vou
ándanclo aom êles, vou ficando pequeninâ... e não só com
eu sei. não sou Íão bóbâ âssirn... Mas que hei de respon- os mortoc lambÉm. os que sofreram. e
{ente viva, sâbe ?
der ? Imagine o senhor que êIe começou â me ensinar latim,
veja, eu nâo fiz nem o grupo escolar. Depois. quândo acabo
-
õs oue tiro aparecer no mundo lambém para sofrer col'lo
nó.1.. por {ue? Por que solrer l" direm todos .. Pa-
rece que eu digo o mesmo com êle§, -acho que os escuto, a
mirhâs limpezas, minhá càbeça parece moríâ, só penso em
oormlr: §era quê a gênte nem pode conversar tlanqüila? gente ouve assim como se fôsse um barulho que faz dorhir.
Bâixou a cabeça e ficou brincando com um anel que Nesses momentos, não trocaria meu lugal pelo de um milio_
têm no dedo. Quando percebeu que eu estava olhando pâra nário, sinto me feliz. Que hei de fazer ? É contra minha
o ânel, escondeu depressa a mâ,o no avental. Estava ansioso vontade. Eu não râciocino. sou igual a minha mãe. "s^ '
pol lhe faze! uma pergunta, mas não tinha coragem. sort€ é não ter sorte, dizia elâ, estou bem §ewidal" Nunca
Enfim, djsse-lhe, sua vida é durâ... A senhom nâo a ouvi queixar-se. E, no entantô, casou-se duas vêzes, com
-
desespera às vêzês ? dois ébrios. Pâpai era o piol: um viúvo coú cinco filhos,
c_erteza pensou que lhe estava armando um lâço. verdadeiros clemônios. Ela engordou a mâis não podcr, 1,odo
^ Com
Seu rosto ficou sombrio, atento. seu sangue se transformou em gordurâ. Não Ihe importa!-
 senhora nunca sentiu a tentâção de se revoltar ? vâ I "Nãda mâls duro que umâ mulheÍ, costumâva dizcr
- Não, tarnbém, só chega a deitar-se, parâ morlel." Teve uma docn-
- náo orespondeu,
em que
sômente âlgumas vêzes, há ocasiõeÂ
compleend