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XVII Encontro de Iniciação à Pesquisa

Universidade de Fortaleza
17 a 21 de Outubro de 2011

GUARAMIRANGA – UM OLHAR DE DENTRO

Lilian Paula de Souza Alves ¹* (IC), Maria Inês Detsi de Andrade Santos ² (PQ).

1. Universidade de Fortaleza – Ciências Sociais


2. Universidade de Fortaleza

Palavras-chave: Memória Coletiva. Dominação Simbólica. Cotidiano.

Resumo

Este artigo analisa possíveis transformações do cotidiano dos guaramiranguenses a partir do olhar
de moradores do Conjunto Manoel de Castro Filho – CHMCF situado em Guaramiranga, cidade
cearense que nas últimas décadas, devido seu potencial turístico, tem recebido grande
investimento em eventos culturais durante o ano inteiro. O CHMF, a partir da década de 1990
tornou-se alvo de especulação imobiliária, tendo a maior parte de suas casas sido vendidas para
pessoas de fora, a maioria de Fortaleza e de uma classe social que tem maior poder aquisitivo.
Com a intensificação do turismo e a realização de eventos destinados a esse fim, a cidade recebe
o dobro e até o triplo da sua população permanente. Diante da análise da interação entre
moradores locais e estrangeiros e comparando a cidade do dia a dia atual, relatada por nossos
informantes e a cidade que existe nas suas memórias, é possível perceber uma significativa
transformação de seu cotidiano. Como referencial analítico, utilizei os conceitos de memória
coletiva (Halbwachs), dominação simbólica (Bourdieu) e cotidiano (Certeau). Foi possível observar
que a população remanescente da invasão do CHMCF passa por um processo de apropiação-
desapropriação-reapropiação de valores e significados - que lhes eram até então desconhecidos
ou que não eram importantes em suas relações frente à convivência com o estrangeiro seja ele
passante ou fixo, como: a desconfiança e os elos sociais que se dão no plano simbólico – como a
troca de favores, o sentar na calçada com os vizinhos, o fechar a casa com chave e cadeado, entre
outros.

Introdução
Nascida em Guaramiranga filha, neta e bisneta e guaramiranguenses, e ali
tendo ficado até os 22 anos de idade, acompanhei muito de perto o começo das transformações
sofridas pela vida da cidade nas referidas décadas. E é inegável que, apesar do distanciamento
que buscamos ter, enquanto pesquisador, aquilo que decidimos pesquisar está diretamente
relacionado com nossos valores e emoções, enquanto seres culturais que somos. O fato de
estarmos intrinsecamente conectados com o que vislumbramos conhecer, e que nos salta aos
olhos pela emoção, não nos torna, contudo, incapazes de estranharmos e nos distanciarmos
racionalmente, transformando-o em objeto de estudo.
A pequena cidade está encravada no alto de uma serra, na região do maciço de
Baturité, a aproximadamente 100 km de Fortaleza e tem como municípios limítrofes Caridade,
Mulungu, Baturité e Pacoti. Sua população, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística – IBGE, Censo 2010, é de 4.164 habitantes. No Censo anterior, realizado em 1991, pelo
mesmo instituto, esse número era de 5.293.
Por causa de seu clima ameno, paisagens exuberantes e água em abundância,
a cidade, desde a metade da década de 90 passou a receber investimentos para o
desenvolvimento de seu potencial turístico, passando a ser conhecida como a “Suíça Brasileira”.
A cidade abriga hoje eventos culturais o ano inteiro. Até a década de 90 as
atividades culturais eram realizadas pela e para a população local – da cidade e do maciço. Depois

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deste período, algumas atividades foram remodeladas e outras criadas, visando o público externo.
Desde então, a cidade passou a receber grande número de visitantes atraídos não só pelas belas
paisagens e clima agradável, mas também por festivais como o Festival de Jazz e Blues, Festival
de Teatro e, posteriormente o Festival de Massas e o de Gastronomia. Os festivais de Jazz e o de
Teatro, muitas vezes, chegam a atrair para a cidade, respectivamente, o dobro e o triplo da
população. (Segundo informação publicada no sítio eletrônico do evento de 2011 - no primeiro
caso e no Caderno 3 do jornal Diário do Nordeste de 16 de setembro de 2006, no segundo caso).
Concomitantemente, Guaramiranga se tornou alvo de especulação imobiliária,
fato que, de certa forma, explica a diminuição do número de habitantes locais, que tiveram, aos
poucos, suas moradias compradas por aqueles que tinham interesse em adquirir um imóvel na
cidade. Um caso emblemático que bem representa tal especulação é o do Conjunto Habitacional
Manoel de Castro Filho – CHMCF fundado em 1983. Numa madrugada de 1982, um grupo de 04
(quatro) famílias guaramiranguenses sem moradia, articulando tantas outras, invadiu o CHMCF
que tinha 70 casas construídas e abandonadas há mais de 01 (um) ano, sem energia e
esgotamento de água. Esse fato causou reviravolta e mobilizou as autoridades locais e do Estado:
prefeito, vigário, polícia, deputados e representante da Caixa Econômica Federal - CEF. Mas, após
longas negociações entre o grupo invasor e prefeito, intermediadas pelo vigário da cidade à época
– Frei Barbosa, todas as famílias adquiriram os imóveis, por elas ocupados, através de
financiamento da Caixa Econômica Federal. O conjunto residencial foi, assim, preenchido, pelas
famílias, não ficando uma casa, sequer, vazia. No entanto, atualmente, das 70 casas, apenas 16
são habitadas por seus primeiros donos. As demais, sem exceção, foram vendidas para pessoas
de fora da cidade, a grande maioria de Fortaleza, e a baixos preços. Assim, o CHMCF tornou-se
um bairro de elite da cidade.
Nas fases de intenso movimento na cidade, causado pela realização de eventos
e o aumento do fluxo de pessoas de fora e que nesse trabalho serão chamadas de “estrangeiros” –
conforme a segunda definição de Larousse (1992), dadas as diferenças sócio-culturais entre o
grupo de moradores da cidade e o advindo posterior à década de 90 - há momentos de interação
entre os visitantes e a população local, seja através da prestação de serviços, seja nos contatos
que se estabelecem durante a programação do evento, nos espaços de sociabilidade ou na
hospedagem dos visitantes em residências de moradores locais, entre tantas outras situações.
Essa interação se dá de forma muito clara e, pela multiplicidade de pessoas, e consequentemente
de culturas, há uma troca intensa de sentidos e significados, que vão se expressar no cotidiano da
cidade quando os estrangeiros deixam o lugar.
O intuito deste trabalho é investigar em qual (quais) instância (s) se dá esse
processo de transformação da cidade e como isso repercute nos comportamentos das pessoas,
em seu cotidiano; como a comunidade local se apropria da cidade, antes e depois dos eventos,
como ela interioriza a exterioridade e exterioriza a interioridade (que aqui coloco como apropriação-
desaproriação- reapropriação), produzindo (ou não) novos sentidos e significados no seu cotidiano.

Metodologia
Para alcançar os objetivos aqui propostos, utilizo a pesquisa de campo como
prática de investigação.
Com a finalidade de estabelecer um recorte do universo da pesquisa, defini,
como objeto de estudo o CHMCF, estabelecendo os seguintes critérios para a definição da
amostra: que os informantes sejam pessoas acima de 65 anos, que tenham envolvimento com o
CHMCF e que serão considerados os últimos 15 (quinze) anos.
Como recurso principal para a obtenção de informações, utilizo tanto a
observação e vivência com a população local, como entrevistas estruturadas com questões
abertas, elaboradas de forma a contemplar informações sobre como era a cidade de
Guaramiranga há 15 anos atrás e como a cidade é vista hoje, do ponto de vista dos entrevistados.
Os dados obtidos estão sendo analisados à luz de conceitos como: memória
coletiva, dominação simbólica e cotidiano.
Iniciando a coleta de dados, entrevistei um grupo de 05 (cinco) pessoas acima
de 65 (sessenta e cinco) anos de idade, todas mulheres e que, ou são naturais da cidade ou
moram na cidade, desde crianças, por entender que este público guarda a memória do lugar.
A abordagem do termo “estrangeiro” aqui trabalhada é “que ou aquele que não
faz parte de um grupo” conforme definição segunda de Larousse (1992), portanto, o estrangeiro a
que me refiro neste trabalho é aquele que não é da cidade de Guaramiranga nem da região do
maciço de Baturité.
Como fonte complementar, utilizei a internet para buscar informações no sítio
eletrônico oficial de um dos eventos realizados na cidade e jornais publicados durante a realização
dos mesmos.
Como forma de garantir a preservação da identidade de nossos informantes,
pois assim ficou acordado, neste artigo, utilizo as iniciais de seus nomes que são: E.C., L.A., R.S.,
V.A. e Z.E.

Resultados e Discussão
Conforme dito anteriormente, durante alguns eventos na cidade, o número de
pessoas chega a duplicar, ou até, triplicar. Logo, é possível imaginar que os moradores locais não
só estabelecem relações com o estrangeiro passante – os visitantes, como também com os
estrangeiros que passaram a ser fixos e possuem residência própria em Guaramiranga, logo
freqüentam com mais assiduidade a cidade.
Este trabalho tem por objetivo investigar, interpretar e apresentar como os
moradores lidam com esse fluxo de pessoas na cidade e como a interação estabelecida com estes
sujeitos repercute na assimilação de novos hábitos e valores, considerando-se que, em estadas na
cidade e em entrevistas com informantes locais, foi possível observar, nas práticas do dia a dia e
em relatos, que a cidade “já não é calma como antigamente”. “As portas de casa já não ficam
encostadas à espera do último ente da família chegar. Até já houve roubo”. “Antes, as pessoas
dormiam de porta encostada e não tinha quem fizesse mal”. “Para os jovens, já não basta mais
levar uma vida simples. Tudo tem que ser da moda e caro”. “Tem muita gente usando droga”.
Comparando a cidade do dia a dia relatada e a cidade que existe na memória
dos mais antigos, é possível perceber a transformação de seu cotidiano. Contudo, para obtermos
maior clareza dos sentidos que estas falas possuem, faz-se necessário também passearmos na
cidade da memória desses informantes, visto que, ao relatarem tais mudanças eles recorrem aos
resquícios de uma cidade memorizada vivida e vivenciada por eles, podendo-se, assim, confirmar
a hipótese de Halbwachs (1990) que “se nossa impressão pode apoiar-se não somente sobre
nossa lembrança, mas também sobre a de outros, nossa confiança na exatidão de nossa evocação
será maior, como se uma mesma experiência fosse começada, não somente pela mesma pessoa,
mas por várias”. Logo, esta cidade memória não existe só para um informante, mas para todos eles
considerando-se as singularidades dadas suas respectivas atribuições de sentidos, logo a cidade
memória é compartilhada por todos os informantes desta pesquisa, logo é uma memória coletiva.
Como já foi dito anteriormente, o Conjunto Manoel de Castro Filho invadido por
famílias sem moradia, em 1983 e relembrando o fato, Z.E. me conta: “a imagem do caminhão
sempre ficou na minha cabeça e me lembro o quanto fui contra – ao falar do filho que conseguiu o
favor de um amigo para transportar a mudança dela, sem que ela soubesse, e completa com ar
emocionado, olhando para o horizonte e olhar molhado: “hoje eu penso: ainda bem que ele fez
isso! Hoje eu tenho minha casinha...Cheguei até a pensar que não ia conseguir pagar, mas
consegui”. E E.C. fala empolgada que ela esteve à frente da mobilização das famílias por entender
que era muito sofrido, não só para a família dela, mas para tantas outras, ser morador de sítio, pois
não tinham moradia digna. As casas eram de barro, quase sem telhas, em época chuvosa era
sempre preocupante e ainda tinham de se submeter a trabalhos muito duros para ganharem quase
nada. E com satisfação, lembra do período após a negociação com a CEF: “as cartelas das
mensalidades começaram a chegar. Pra muitos o valor era tão alto, não porque fosse caro, mas o
nosso poder aquisitivo era muito baixo, mas a gente foi resistindo. E ainda hoje to aqui. Ache ruim
quem quiser. Mas é de cortar o coração! Depois de tanto esforço, tanta gente desistiu de sua casa,
mas eu entendo! Era muita pressão!”.
Em menos de 10 (dez) anos, o CHMCF tornou-se alvo de especulação e os
moradores passaram a receber propostas de compra, com valores nunca vistos, por parte dos
visitantes. E, não que os valores fossem realmente altos, mas o fato era que, como havia aqueles
que nem sequer tinham com que pagar a mensalidade, pensavam que o pagamento oferecido, que
muitas vezes nem era em dinheiro, valeria a pena. Segundo E.C., houve morador que trocou sua
casa por um fogão a gás e um botijão. E continua, “Muitos, depois venderam suas casas,
pressionados, porque as autoridades e os donos de sítios que diziam que a gente não tinha direito
de morar aqui. Que casa de alvenaria, não era pra pobre morar. E a gente ainda vive recebendo
proposta pra gente vender nossas casas. E se a gente fosse besta, já tinha vendido por uma
merreca e ficava sem ter onde morar ou ia penar pelas favelas de Fortaleza. Já recebemos
proposta até de gente que já tem casa aqui no Conjunto. Acho que é porque acham nossas casas
feinhas”. Já Z.E., desabafa: “eu não vendo minha casinha por dinheiro nenhum”.
Me diz E.C: – (...) quando eu penso que podia deixar a porta encostada
enquanto os filhos que tavam pra rua voltassem, é que vejo o quanto nossa vida mudou.
Passamos a vida ensinando para os nossos filhos que a nossa cidade era tranqüila e que tava tudo
entre amigos (...) e vejo a cidade tomada por um bando de pessoas estranhas...ave Maria!...chega
dói... - ela respira profundo e continua: até roubo, aqui já tem!”. Também diz L.A: – Fico me
lembrando que, todos os meus filhos, todos os cinco, foram pra escola, sozinhos. E agora as
minhas netas não podem ir só. Dá medo. Vive aparecendo na cidade gente que eu nunca vi e mal
encarados. Ninguém sabe quem é nem de onde vem. Dá pra confiar? Eu é que não arrisco”. E Z.E:
– “Naquele tempo – referindo-se ao período em que a cidade não recebia grande número de
visitantes – não tinha maldade. A gente se sentia segura em qualquer lugar aqui” – referindo-se à
cidade. “Hoje, nem dentro da casa da gente...a gente não se sente mais segura. Toda hora que a
gente sai, até se for só pra ir na vizinha, precisa passar a chave. Antes, a gente dormia era de
porta encostada e não tinha quem fizesse mal”, é possível compreender que os moradores de
Guaramiranga compartilhavam práticas que, atualmente, já não as fazem. Entretanto, em sua
memória estão as lembranças da vida pacata, que lhes causa faltas. Desta forma, podemos
observar que o costume, cuja memória estas falas explicitam, é o da confiança nas demais
pessoas, fossem elas do mesmo meio ou não, passando-se, a incorporarem outros costumes
como: construir muros em suas casas, fechar suas portas com chave e cadeado, evitar andar
sozinhos, entre outros, confirmando-se, com isto, a alteração de hábitos do cotidiano, ao mesmo
tempo em que se assimila uma nova percepção: a partir de um determinado momento na história,
essas pessoas não se sentem mais somente entre seus pares. Existem novos atores de outros
grupos e desconhecidos. Logo, a desconfiança está mais presente nas novas relações.
Seguindo ainda na perspectiva de que há transformação de comportamentos
por parte dos moradores de Guaramiranga, leiamos os trechos de outros relatos que seguem. Z.E:
- “Já não se faz favor como antigamente. Agora, tudo tem que ser pago. Primeiro, que a maioria
dos nossos vizinhos são gente rica. E depois, a gente não vai chegar com um copo, (se) não pra
pedir a alguma coisa, né?”. L.A: - “A gente já não senta mais nas calçadas pra conversar. De
primeiro, a gente colocava as cadeiras nas calçadas e ficava a conversar com os meninos. Ou por
outra, eles ficavam brincando e a gente olhando e aproveitando pra ficar com os vizinhos...era
esconde-esconde, era bandeira, era remam remam...tinha muita brincadeira. Hoje em dia as
crianças nem brincam mais. E hoje, aqui no Conjunto, quase não tem mais menino. Foram tudo
embora!” – referindo-se às famílias que venderam suas casas. E.C.: – “Teve uma senhora chique
que veio aqui me oferecer dinheiro pra eu fazer um muro na frente da minha casa. Na certa é por
que minha casa não combina com a casa dela e ela queria esconder a minha. Eu não aceitei o
dinheiro dela, mas fiz o muro por minha conta, não pra esconder minha casa, mas pra eu me sentir
mais segura”.
Observo que grupo remanescente representa pouco menos de vinte e três por
cento de sua composição, quando da invasão do referido Conjunto Habitacional e com essas falas,
podemos refletir sobre o impacto na vida das 16 (dezesseis) famílias locais que ali permanecem,
ante a convivência com um grupo estrangeiro e de outra classe social e sobre as relações de
poder que aí se estabelecem, o que nos leva a perceber a efetivação da violência simbólica. Para
Bourdieu (2009),
“quando os dominados nas relações de forças simbólicas
entram em luta em estado isolado, como é o caso nas
interações da vida quotidiana, não têm outra escolha a não
ser a da aceitação (resignada ou provocante, submissa ou
revoltada) da definição dominante da sua identidade ou da
busca da assimilação a qual supõe um trabalho que faça
desaparecer todos os sinais destinados a lembrar o estigma
(no estilo de vida, no vestuário, na pronúncia, etc.) e que
tenha em vista propor por meio de estratégias de
dissimulação ou de embuste, a imagem de si o menos
afastada possível da identidade legítima.”

Percebo, então, que, ao mesmo tempo em que a população local se prende à


cidade memória, enquanto referência, para perceber as transformações ocorridas em seus hábitos
(e mesmo considerando muitos hábitos como importantes, mas deixados para trás, como a troca
de favores, o companheirismo, as amizades, a confiança, etc), ela aceita de forma ora resignada
ora provocante os novos costumes, embora, em alguns casos, outros sejam ressignificados, como
foi o caso da construção do muro para a informante E.C. Com isto, constatamos a transformação
do cotidiano dessas pessoas, entendendo aqui cotidiano, como sendo “(...) aquilo que nos é dado
cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos pressiona dia após dia, nos oprime, pois existe uma
opressão do presente.(...) O cotidiano é aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior.
(...)É um mundo que amamos profundamente, memória olfativa, memória dos lugares da infância,
memória do corpo, dos gestos da infância, dos prazeres ...” (CERTEAU, 1996)
Então, compreendo que nesta dinâmica de apropriação-desapropriação-
reapropiação, considerando-se que esta construção é histórica e que, por isso mesmo, não se dá
de forma sistemática, os moradores de Guaramiranga percebem as mudanças ocorridas e
reconhecem os valores que ainda lhes são caros, mas que agora existem mais na memória
pensada e sentida e menos na prática vivida. E os elementos que funcionam como elos que
constituem a simbolização e o sentido de pertença do grupo vão se rompendo e se reconstituindo,
outros, ao mesmo tempo que ressignificados, sob a égide de novos valores que, sob a perspectiva
dos moradores mais antigos, são valores apreendidos na nova forma de viver, oferecidos pela
nova dinâmica de cotidiano da cidade. Assim, os atores vão, ao longo de sua história, e de forma
contínua, introjetando e exprimindo valores construídos coletivamente e os ressignificando - sem
com isso haver uma linearidade ou hierarquização quanto à forma de apreender-elaborar-exprimir
tais valores, de acordo com sua margem de liberdade.

Conclusão

Neste trabalho busquei analisar as possíveis transformações do cotidiano guaramiranguense a


partir do olhar dos moradores locais. Para tal análise, lancei mão dos conceitos de memória
coletiva – trabalhado por Halbwachs, dominação simbólica – trabalhado por Bourdieu e cotidiano –
trabalhado por Certeau.
Constatei que, durante as fases de intenso movimento e de fluxo de pessoas estranhas à cidade,
na cidade – quando da realização dos eventos, há momentos de interação e também confronto
entre os visitantes e a população local. Essa interação/confronto se dá de forma muito explícita e
provoca uma troca intensa de sentidos e significados que vão se expressar no cotidiano da cidade
quando os forasteiros deixam o lugar.
Comparando a cidade do dia a dia atual, relatada pelos informantes, e a cidade que existe na
memória dos mais antigos, é possível perceber a transformação de seu cotidiano podendo-se
observar que o principal costume, guardado na memória é o da confiança nas demais pessoas,
mesmo as que não faziam parte do grupo do CHMCF, passando, agora,a incorporarem outros
valores e costumes, como o de construir muros em suas casas, fechar suas portas com chave e
cadeado, evitar andar sozinhos, não mais sentar-se nas calçadas com os vizinhos, entre outros,
confirmando-se, com isto, a alteração de hábitos do cotidiano. Além disso, confirma-se a
efetividade da dominação simbólica entre a população local que, mesmo considerando muitos
hábitos como importantes, os deixa para trás, como a troca de favores, o companheirismo, as
amizades e a confiança. Há uma apropriação-desapropriação-reapropiação de novos sentidos e
significados, que são expressados nas atitudes do dia a dia e que se manifestam na desconfiança,
no medo e no desencantamento em relação à cidade.
Referências

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Bertrand Brasil, 2009.


CERTEAU, Michel e GIARD, Luce: A invenção do Cotidiano: 2. Morar e Cozinhar. Petrópolis,
Rio de Janeiro, Ed. Vozes, 1996.
HALBWACHS, M. A memória coletiva. São Paulo: Vertice, 1990
LAROUSSE, Cultural Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo, Editora Nova Cultural, 1992.
ORTIZ, Renato. (Org). Sociologia de Pierre Bourdieu. São Paulo, Editora Ática, 1994.
Sítio eletrônico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE disponível em:
www.ibge.gov.br.
Sítio eletrônico do Festival Jazz e Blues versão 2011 disponível em: www.jazzeblues.br.
Sítio eletrônico do Diário do Nordeste disponível em: www.diariodonordeste.globo.com.

Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Curitiba, Editora Positivo, 5ª Edição, 2010.

Agradecimentos
Às senhoras guaramiranguenses que me abriram as portas de seus lares e de seus corações e me
acolheram com tanta atenção e a mim confiaram longas conversas regadas a um café quentinho.
À Guaramiranga, minha cidade raiz onde cresci cercada de tanta natureza e pessoas queridas.
À minha família que me inspira e me impulsiona, a cada dia.
Aos meus amigos, de perto e de longe, que sonham comigo ou que me fazem desistir alguns
sonhos para que eu não me machuque.
À minha querida orientadora professora Dra. Maria Inês Detsi de Andrade Santos a quem muito
devo meu amor à Antropologia. Obrigada por sua meiguice e dedicação com as quais nos ensina
tanto da vida, das pessoas e das relações.