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O USO DO CORREIO ELETRÔNICO NA AULA DE ESPANHOL LÍNGUA ESTRANGEIRA

Moacir Lopes de Camargos [1]

lopesdecamargos@yahoo.com

Resumo: O objetivo deste trabalho é relatar uma experiência que tive em uma escola de idiomas na cidade
de Campinas/SP durante o ano de 2001. Na ocasião, ministrei aulas de espanhol para brasileiros e fiz uso
da troca de mensagens eletrônicas com os alunos como forma de possibilitar uma maior interação entre
professor e aluno e entre aluno e língua estrangeira.

INTRODUÇÃO

O uso do computador como recurso tecnológico não é tão recente como parece. Conforme nos
mostra Heredia e Heredia (2001:223), em 1957 o governo americano criou a ARPA (Advanced Research
Projects Agency) para desenvolver pesquisas para as forças armadas. Em 1969 criou-se uma pequena rede
experimental de computadores pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos com o intuito de partilhar
recursos computacionais entre pesquisadores. Pouco tempo depois, seu uso também estendeu-se ao
correio eletrônico. Essa rede experimental foi dividida em duas em 1980 com o nome de Defense
Advanced Research Projects Internetwork. Daí veio a abreviação internet. Já a World Wide Web (WWW),
aparece em sua primeira versão em 1991, vindo a intensificar-se em 1993 (Oliveira e Paiva, 2001:94).

No ensino de línguas e, mais especificamente no Brasil, o uso da internet como ferramenta


pedagógica teve mais atenção a partir dos anos 90. Embora pareça que o uso esteja bastante generalizado,
seu custo ainda está caro (pulsos) e o acesso, sobretudo em escolas públicas ainda está bastante restrito,
principalmente em cidades do interior.

Neste presente trabalho relato uma experiência que tive de troca de mensagens através do correio
eletrônico em curso básico de espanhol como língua estrangeira (LE) numa escola privada de línguas e
informática. Meu objetivo é tentar mostrar como se deu a construção da identidade do professor por meio de
sua relação com a interação desenvolvida com os alunos através de troca de mensagens eletrônicas. Para
isso, além de descrever a escola e os alunos, faço uma breve exposição sobre o conceito de identidade e
as características do correio eletrônico para, em seguida, comentar o corpus (troca de mensagens
eletrônicas entre mim e os alunos) e partir para algumas considerações finais.

1 – A ESCOLA, OS ALUNOS

A escola era, originalmente, um centro de informática com sede em Brasília. Porém, nos últimos
anos ofereceu cursos de inglês e espanhol. Em Campinas, e também em várias outras cidades, a escola fez
parceria com a prefeitura e outros órgãos sem fins lucrativos para oferecer os cursos propostos a um preço
acessível.

De acordo com o folheto publicitário da escola (Prepare-se para o mercado de trabalho) o aluno
pagaria somente uma taxa de 75,00 reais pelo material didático (no caso, o livro) e escolheria o curso
básico (inglês, espanhol ou informática) que desejasse freqüentar durante seis meses tendo uma hora e
meia de aula por semana.

Como o preço do curso era baixo, houve uma grande procura. O total de alunos inscritos foi de
2300. Desse total, 165 eram de espanhol. A sala de aula, apesar de muito pequena e improvisada,
comportava 30 alunos. E, mesmo após o segundo mês de aula, ainda havia alunos se matriculando. A cada
semana apareciam alunos novos. O professor devia dar aulas de reposição para os novatos.

Vale ressaltar que a escola não possuía nenhum tipo de recurso (sequer mimiógrafo) para que o
professor pudesse oferecer outro material ao aluno. Todo o curso teria que ser dado a partir do livro
adotado. No meu caso, tinha oito turmas, o que dificultou prover material extra, com recursos próprios para
todos os 165 alunos. Os professores nem foram consultados para decidir que livro adotar. Não sabemos
como foi feita a escolha do livro.

A possibilidade de troca de mensagens eletrônicas entre o professor e os alunos surgiu porque,


inicialmente, a escola possuía uma sala com computadores para as aulas de informática e, foi informado
aos alunos de línguas que estes teriam acesso à internet e também a Cd-roms específicos para aperfeiçoar
o estudo da LE escolhida.

No entanto, isso não ocorreu devido, sobretudo, à falta de organização e planejamento por parte
dos coordenadores da escola. Então, decidi, com os meus alunos, que poderíamos usar a internet – quem
tivesse endereço eletrônico – para trocar mensagens e informações em espanhol. Fiz uma lista com os
endereços dos alunos e também lhes passei uma fotocópia com vários endereços de páginas da Web - em
espanhol - para que eles pudessem fazer pesquisas e, dessa forma, ter mais fontes de contato com a LE.

Em todas as turmas pude constatar uma enorme heterogeneidade entre os alunos. Houve desde
adolescentes do ensino fundamental e médio com pessoas de terceira idade (60, 70 anos), alunos de
graduação, mestrado e doutorado.

Dentre os professores de línguas, era o único com formação em Letras. Todos os outros eram
universitários, mas não estudavam Letras. Dois cursavam Jornalismo, um Sociologia e um é falante nativo
da língua espanhola (peruano) estudante de Engenharia.

As aulas iniciaram em maio de 2001 e terminaram em dezembro do mesmo ano. Porém, tivemos
férias em julho, paralisações por falta de pagamento e, durante o mês de novembro, não tivemos aula
devido a problemas de locação do prédio. Neste período de seis meses, tempo em que ministrei as aulas,
foi feita a geração de dados [2] que será utilizada neste trabalho e também na pesquisa final de minha
dissertação de mestrado.

2 – SOBRE IDENTIDADE

O conceito de identidade tem sido estudado por diferentes áreas do conhecimento, tais como: filosofia,
psicologia social, lingüística, lingüística aplicada, antropologia, etc. gerando trabalhos que enfatizam os
diversos aspectos desse conceito. Essas pesquisas mostram que, ao tratarmos da identidade, por ser um
tema complexo, faz com que tenhamos abordagens diversas e contraditórias.

Segundo Gumbrecht (1999) a história do conceito de identidade possui aproximadamente 2500


anos. É um conceito filosófico que começou com Parmênides e seu uso era ontológico. Com Freud no
século XIX, embora este autor tenha dado grandes contribuições epistemológicas para a psicanálise, no que
diz respeito à identidade, não há, na obra do pai da psicanálise, a explicação desse conceito. Ele explica
sobre processos de identificação, mas não sobre identidades (Birman, op.cit).

Já na segunda metade do século XX, a sociologia classifica a identidade em social (descrição) e


pessoal (narrativa). Mais recente, Castells (1999:22) define identidade como “o processo de construção do
significado com base em um atributo cultural, ou ainda um conjunto de atributos inter-relacionados o(s)
qual(is) prevalece(m) sobre outras fontes de significado”. Para construir esse significado no processo
identitário, os atores sociais organizam-se no tempo e no espaço. Castells (op. cit) enfatiza o conceito de
identidade coletiva a partir de um ponto de vista sociolingüístico. Para esse pesquisador, devido a essa
profusão de sentidos advinda da definição acima, faz necessário distinguir identidade (fonte de significado)
de papel (normas estruturadas pelas instituições e organizações da sociedade).

Na área de aquisição de segunda língua o trabalho de Pierce (1995) traz grandes contribuições.
Esta pesquisadora discute a identidade social a partir de uma perspectiva pós-estruturalista. Sob esse
prisma, a autora considera, para o estudo da identidade, a subjetividade com três características, a saber: a
natureza múltipla do sujeito; a subjetividade como lugar de mudança; a subjetividade em constante
movimento. Dessa forma, não há uma identidade fixa ou essencial, pois esta é construída a partir do contato
com o Outro, ou seja, com a outra língua, a outra cultura (Maher, 1998). Então, partindo da teoria da
identidade como algo a ser construído busco entender a relação professor/alunos/língua estrangeira com a
nova ferramenta pedagógica: o computador [3] .

3 – O CORREIO ELETRÔNICO

Dentre as várias possibilidades (bate-papo, teleconferências, dentre outros) que nos oferecem a
comunicação mediada pelo computador (CMC), talvez a troca de mensagens eletrônicas parece ser uma
das mais utilizadas. Embora o acesso à internet, para uma grande maioria da população mundial, ainda
esteja caro e lento, a troca de mensagens eletrônicas tornou-se uma prática bastante comum entre as
pessoas. Seu uso é diversificado, abrangendo desde correspondências formais entre empresas,
publicidades, ensino até contato para estabelecer relações íntimas entre pessoas.
Porém, o que me interessa neste trabalho é o uso da troca de mensagens eletrônicas na prática
pedagógica, mais especificamente, no ensino/aprendizagem de LE. Utilizado com o propósito antes citado,
o correio eletrônico pode promover uma interação entre falantes nativos/aprendizes de LE e também entre
professor/aluno, aluno/aluno, aluno/professor. Isso é facilitado pela rapidez do envio das mensagens, e a
possibilidade específica da CMC de poder enviar uma mesma mensagem a vários destinatários ao mesmo
tempo resultando, principalmente, uma economia de tempo, o que não teria a mesma eficiência se fosse
feito por correio postal. Há ainda os recursos de reenvio, cópia e anexo. Ou seja, o meio eletrônico,
diferente da linguagem escrita, possui uma linguagem multimodal, quer dizer, uma mensagem, além de ser
escrita, pode ter som, imagem e movimento. Isso se revela como outra vantagem do correio eletrônico em
relação à carta, apesar da volatilidade do mundo virtual não garantir ao correio eletrônico a mesma
segurança e privacidade que oferece o correio comum (Moran e Hawisher, 1993).

Segundo Kress (1998), as mudanças trazidas com a tecnologia afetam tanto o campo social quanto
o cultural. Com o uso do computador, uma tecnologia da era moderna, observa-se que as mudanças
ocorridas na linguagem são evidentes, sobretudo no uso do correio eletrônico. Para o pesquisador, a
rapidez e a velocidade da comunicação, via rede, implicam em uma linguagem mais informal. Essas
características podem facilitar uma maior proximidade social e criar novos tipos de relações sociais
diferentes da interação face a face.

Dessa forma, na prática pedagógica, conforme observa Moran e Hawisher (1993), o fato de mudar a
escrita do papel para a tela resultou em uma linguagem híbrida, uma mescla entre oral (espontaneidade) e
escrita (assemelha-se a um bilhete, aviso), mas com traços particulares do meio digital, por exemplo, os
emoticons [4] . Isso talvez possa levar o professor a criar uma resistência em usar o correio eletrônico.

Para Snyder (1998) os educadores devem saber usar as novas tecnologias. Ou seja, usá-las de
forma útil nos diferentes níveis de ensino/aprendizagem, seja em LE ou outra disciplina. Porém, como
observa a autora, faltam teorias para que se possa melhor refletir e criticar as possibilidades de uso do
computador no ensino. Braga e Costa (2000) também compartem a mesma idéia da pesquisadora
afirmando que os estudos sobre ensino e informática necessitam ser melhor teorizados e, tanto uma
aceitação imediata quanto a recusa total ao uso da CMC demonstra uma ingenuidade por parte do
professor.
Concluindo com as palavras de Oliveira e Paiva (2001:106), “O papel do professor que integra a
internet à sala de aula tradicional ou que trabalha na modalidade à distância é o de moderador e não o de
transmissor de conhecimentos”. Cabe, então, ao professor saber aproveitar as várias possibilidades que a
Web oferece para, juntamente com os alunos, criar oportunidades mais efetivas de ensino, desde que haja
letramento digital suficiente. (Buzato, 2001).

4 – ANÁLISE DOS DADOS

Quando solicitei aos alunos que fizessem uma lista com os seus nomes e endereços eletrônicos,
percebi que muitos se sentiram discriminados porque somente uma pequena parcela fazia uso dessa
ferramenta. Alguns, por não terem acesso a computador, colocaram o telefone na lista. Também durante as
aulas, ocorreu várias vezes de eu levar um texto, ler na sala, trabalhar com os alunos e, em seguida, dizer:
“eu passo por e-mail para vocês”. Porém, esquecia que nem todos tinham acesso e, deste modo, não
receberiam o texto.

A troca de mensagens entre o professor e os alunos, desde o início era para dar opiniões sobre as
aulas, perguntar, sanar dúvidas e, como deixei claro na primeira mensagem enviada, escrever livremente
tudo o que desejasse. No entanto, como o objetivo não ficou claro, a troca de mensagens limitou-se a ser
um correio de informações sobre os problemas da escola, os horários das aulas, justificativa de ausência,
etc. e não uma forma de explorar mais o conhecimento sobre a língua como esperado.

Para: l_moacir@hotmail.com

!Hola

Tue, 12 Jun 2001 11:03:55 -0300

!Hola, Moacir! Yo estoy rumbo mi casa... Acabou o Espanhol!!!

Quero te dizer que hoje não vou poder assistir aula logo mais porque
estou

Indo para casa de meus pais em Jales,conhece? Também não estarei lá na

Escuela para "brigar" com aquela gorda da professora de inglês...

Aproveite o feriadão!

Até mais!!!

Será que consegui me comunicar com você por esse e-1/2? Que bom se
sim...

Aqui é pertinente a observação de Braga e Costa (2000:65) “o professor tem dificuldade de


preparar tarefas para todos que não dependam de seu controle e intervenção e os alunos, por outro lado,
nem sempre têm o desempenho autônomo desejado”.

Poucas foram as tarefas que levaram os alunos a se engajarem com a língua alvo em estudo.
Quando sugeri a eles que lessem um livro e fizessem um comentário, houve um enorme empenho em
executar a tarefa. Inclusive pediram para repetir a atividade e leram um segundo livro.

Sent: Friday, August 24, 2001 3:25 PM

Subject: Evaluación

Hola chico(a),

bueno, creo que todos se acuerdan muy bien de la lectura del libro
"el anillo de la muerta". les pido para hacer un pequeño comentario
sobre el libro y enviarme por email. esto será nuestra primera
evaluación.

qué escribir? escríbame informando sobre el libro, por ejemplo. si


te gustó o no la lectura. si fue bueno leer, tener contacto con la
lengua española, si tú te identificaste con la historia o no, si la
lectura te motivó a leer más, si te aburrió y todo lo que quieras.
escriba en español, pero no necesitas escribir más que diez líneas,
de acuerdo?

gracias

moacir

Para que o uso do correio eletrônico tenha uma eficácia na sala aula de LE, conforme coloca Primo
(2001:148), “o professor pode desempenhar um papel de provocador ao enviar questões e desafios que
desequilibram as certezas motivando o grupo a pôr em discussão determinados temas de interesse. Nesse
cenário, em vez do professor transmitir conteúdos acabados, cada participante ajuda os outros sugerindo e
debatendo temas e referências”.De fato, pude constatar, na atividade sobre a leitura do livro, que todos os
alunos se empenharam em realizar a tarefa, pois os objetivos estavam bem claros.

Para: <l_moacir@hotmail.com>
Re: evaluacion

Mon: 27 Aug 2001 20:17:32

Buenas noches!

La historia es mucho interéssante, llena del ación y la suspenses.


Mi recuerda del escritor sideny Sheldon.

Yo soy enamorada por eses estilos del libros.

El detetive Frank y su amigo Jorge son parceros en todas las


aventuras. Con tanta emociones envolvidas en la carrera de mucha
emoción.

Hay muchas palabras extrañas que tieno poco conocimiento. Creo que
aprendi muchas cosas del grande importancia para mi vocabulario.

Ademas, la historia llevome a leer más y más. Fie cón que él


buscasse más informaciones en la internet. Quédo más curiosa, por
esa cultura que alucina quién lle conece.

Estoy cada vés más enamorada por eses estudiios. Creo que tomei la
decisión cierta.

Principalmente por la qualidad del profesor.

Adíos , hasta la vista.

Gracias,

Todos os alunos que possuíam o endereço eletrônico enviaram os comentários. Os demais


entregaram na sala de aula em uma folha de papel e todos debateram, perguntaram, sanaram dúvidas.
Pode-se observar na mensagem acima, que, apesar do nível de interlíngua, todos os comentários foram
escritos na língua alvo e a aluna demonstra interesse em buscar mais conhecimentos “la historia llevome a
leer más y más. Fie côn que él buscasse más informaciones en la internet”.

De fato, o que se observa é que muitos professores acreditam usar a internet para ser modernos,
crendo, dessa forma, estar atualizados e inovando o ensino/aprendizagem, mas, na prática, apenas
reproduzem o sistema behaviorista. Ou seja, a internet serve somente para treinar exercícios estruturais
(completar, preencher lacunas) que os alunos já fazem em sala de aula. Não devemos nos iludir,
acreditando que, devido ao uso de imagens, sons e os outros recursos que oferecem a Web seja garantia
de um ensino de qualidade e, conseqüentemente, de uma tarefa que leve o aluno a aprender a LE.

Assim agindo, o professor mantém sua identidade resguardada, pois detém o seu poder de controle
do conhecimento, mesmo que ilusoriamente. Por meio da troca de mensagens com os alunos, percebi que
o professor não é mais o centro da sala de aula, pois várias vezes, os alunos trouxeram informações que
conseguiram em rede para mim e os colegas. Inclusive, um aluno que é engenheiro e trabalha com
computação, enviou-me por correio eletrônico endereços úteis de dicionários em espanhol.

Para: <l_moacir@hotmail.com>
Assunto: sugestion

Data: Mon 3 Sep 2001 08:39:02

Hola Moacir, como estas ?

Las paginas com diccionarios virtuales son las seguientes:

http://tradu.scig.uniovi.es/busca.html

Esta direccion es de la Universidad de Oviedo

en la propria pagina tiene um conjugador de verbos y ligaciones a la


otros

diccionarios.

La otra direccion es

http://www.elmundo.es/diccionarios/

que tambien tiene sinonimos, antonimos y otros.

Ya leido todo el libro del "El anillo de la muerta".

Es una historia muy interessante, muy bien contada y escrita.

Estoy a hacer los exercicios de comprension de la lectura.

El texto tiene muchas vezes la palabra "he" que me deixou


desconcertado

(confuso)

en la comprension de las frases.

Es la primera vez que escribo un e-mail en espanol y portanto este


pequeno texto

deve tenir dos toneladas de errors.

Abrazos

Também vários outros alunos encontraram músicas, poemas e várias outras informações interessantes
sobre a língua espanhola que usamos na sala de aula. Isso evidencia que a identidade do professor não é
fixa, ele deve ser flexível para saber compartilhar o conhecimento com o aluno. Com o acesso a Web, que é
uma gigantesca biblioteca virtual, o conhecimento não é mais privilégio somente do professor que tudo
sabe, tudo controla.

Não tive problema em dizer ao alunos que não era suficientemente letrado digitalmente, pois cometi
erros ao enviar arquivos anexados, além de outros problemas, como, por exemplo, falta de conhecimento
sobre gerenciamento de pastas contendo as mensagens eletrônicas recebidas e enviadas. Perdi várias
mensagens que enviei aos alunos, pois não sabia como salvá-las. Bem mais tarde, percebi que bastava eu
incluir um outro endereço eletrônico na lista de endereços dos alunos para que eu também recebesse todas
as mensagens enviadas a eles. Some-se a isso, o fato de não termos um acesso de qualidade a internet e,
como não tinha computador em casa, usava apenas na universidade, o que tornou difícil o contato com os
alunos. Eles também reclamavam do preço – podendo acessar somente final de semana -, e também do
"apagão" que nos afetou .

To: "moacir lopes de camargos"

Subject: Re: letras de canciones

Date: Mon, 27 Aug 2001 20:19:44 -0300

Buenos noches chico,

Gracias por la mensaje ,más tu anejo non filón.

Aguardo las canciones con muchas expectatión.

Uno abrajo.

Abaixo está minha resposta explicando sobre o não envio do anexo, onde confesso que não sou
suficientemente letrado digitalmente.

Buenos dias chica,

disculpa, pero no soy muy bueno en estas cosas modernas... voy a intentar enviarte las
canciones nuevamente. a ver si marcha bien.

abrazos

moacir

Sobre a relação professor e ensino via rede, Moran e Hawisher (1993:93), colocam o seguinte:
“...professores podem ser capazes de usar o espaço do e-mail para dar aula e expressar aspectos
diferentes e complementares a respeito deles mesmos, embora reforçam sua afetividade como
professores”. Para que a interação, em sala de aula e via rede, tenha resultados positivos, o professor deve
saber negociar, discutir, ouvir e sugerir atividades aos alunos e não somente impor, controlar, como
acontece na comunicação face a face. Quando os alunos me enviavam mensagens eletrônicas, tinham uma
grande preocupação com os erros gramaticais (ver mensagem abaixo) e sempre me pediam para corrigi-
los.

To: l_moacir@hotmail.com
Subject: Re:teste

Date: Sun, 17 Jun 2001 11:01:07 -0300

Estoy bien, gracias. ¿Y tú? Le agradezco por darme libertad en


escribir todo lo que pienso.Escribe tú tambien lo que desear.
Abrazos.

(PS: Desculpe-me pela demora em responder, estou em semana de


provas na faculdade e tive que estudar quasa o tem po inteiro.
Desculpe tambem pelos erros acima escrito, pois é errando que se
aprende, não é mesmo?? Até mais..)

Essa preocupação com o erro demonstra como a relação do presencial – onde o professor é o controlador,
aliada à concepção de aprender dos alunos (escrever tudo certo, isto é, na linguagem padrão) – influencia
no virtual. Outras vezes, eles não se dispunham a escrever mensagens na língua alvo, acreditando não
estar aptos para tal atividade, o mesmo que acontecia na aula presencial. No entanto, a mensagem acima
revela que a identidade do aluno também não é fixa, pois apesar de estar preocupado com os erros, ele os
admite como parte da aprendizagem.

Em uma experiência anterior com diários dialogados em LE, conforme Camargos (1997), observei
que os alunos tinham mais compromisso com as tarefas, eram bastante engajados. Todos os dias, após as
aulas, eles deveriam escrever em seus cadernos, os relatos sobre as aulas, em seguida, passavam-me
para que eu pudesse comentar. Os resultados foram muito produtivos. Quando iniciei a troca de mensagens
eletrônicas, imaginava que algo semelhante fosse ocorrer. Ou seja, que eles escreveriam muito. Porém,
devido o caráter rápido que possui o meio eletrônico, às vezes, uma mensagem que o aluno enviava se
restringia somente a um muchas gracias, por exemplo.

No entanto, é interessante observar como o correio eletrônico serviu também como ferramenta
democrática e desinibiradora para alguns. Alunos que não falavam em sala de aula e se mostravam tímidos,
escreviam longas mensagens na LE quando me enviavam mensagens eletrônicas. Então, em sala de aula,
eu elogiava esses alunos. Aqui, nota-se, como a interação entre professor e aluno (presencial) pode ser
melhor entendida através do contato virtual; ou ainda entre os alunos, o que não foi incentivada pelo
professor.
No que se refere à linguagem escrita das mensagens, foi interessante observar como, no início,
tentei, hipotetizo pela posição do professor como detentor do saber, escrever formalmente, embora tenha
contato com a linguagem eletrônica há mais de cinco anos. Escrevia sempre com a preocupação do
correto, mesmo os alunos estando mais descontraídos, usando a linguagem própria da rede, colocando os
seus apelidos no final das mensagens. No entanto, no final de nosso contato, percebi como minha
linguagem já havia adquirido um tom bem mais informal e, inclusive, não mais escrevia meu nome, mas
meu apelido, embora não fosse esse o tratamento em sala de aula.

A:

CC: l_moacir@hotmail.com

Asunto: tu vendrás mañana?


Fecha: Mon, 08 Oct 2001 21:17:51

hola chica,

bueno, tú tienes el teléfono de Agenil? podríamos tener clase en el


sindicato otra vez. qué te parece? podrías llamar a Agenil para
saber. mañana les encuentro otra vez. de esta forma, no estaríamos
aprendiendo um poquito más...

abrazos

moa

Conforme coloca Xavier (2000:53), “o texto eletrônico subverte os elementos convencionais da escrita
(pontuação, por exemplo) e reaproveita-os, reconfigurando-os e dando-lhes novos significados”.

Isso revela o pluralismo de identidades, tanto por parte dos alunos como do professor, pois com o
desenvolvimento da tecnologia na área computacional novos desafios no sistema educacional vêem à tona.
Então, surge a necessidade de repensar toda a estrutura da prática pedagógica, o que infelizmente não
acontece, embora haja avanços em todas as demais áreas do conhecimento (Snyder, 1998).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O correio eletrônico possibilitou a mim e aos alunos uma discussão assíncrona, um novo contato e
uma experiência bastante enriquecedora com a LE em estudo, complementando o caráter limitador do livro
didático e a falta de recursos didáticos oferecidos pela escola. Entretanto, devido ao descompromisso da
escola com o planejamento didático e a orientação dos professores, todo o bom andamento dos cursos foi
prejudicado. Caso houvesse uma melhor organização por parte da escola; se tivéssemos, por exemplo, a
sala com os computadores disponíveis, creio que o uso desse recurso tecnológico na prática pedagógica
poderia ter sido melhor aproveitado no ensino/aprendizagem da língua alvo. Concordando com Braga e
Costa (2000), “o baixo índice de uso de tal ferramenta (correio eletrônico) como espaço pedagógico se deve
ao fato de o próprio professor, a princípio, não utilizar todo o potencial que essa ferramenta oferece”.
Acrescento também que, a grande maioria dos alunos, além de não ter acesso a Web, não sabe aproveitar
esse recurso, atribuindo ao professor, o sucesso ou fracasso de sua aprendizagem.

Moore (1998), afirma que o sucesso da educação mediada por computador depende da instituição,
da instrução individual apropriada e do material de aprendizagem para dar oportunidades de diálogo entre
professores e alunos. No caso do correio eletrônico, analisado neste trabalho, creio que seu uso nas
interações pedagógicas deve ser bem orientado para que se obtenha um bom aproveitamento dessa
ferramenta.

Para o professor, o espaço on-line oferece um novo espaço para construir uma identidade que é
diferente daquela que ele tem na interação face a face. Ou seja, sua identidade está em constante
movimento, pois depende de sua subjetividade que é um lugar de mudança. Observei que, enquanto tinha
uma alta afetividade com os alunos no presencial (conforme vídeo, diários), no virtual era mais formal, direto
o que revelou uma identidade múltipla do professor.
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XAVIER, A. C. S. Hipertexto: novo paradigma textual? www.unicamp.br/~hytex, 1999.

XAVIER, A. C. S. O letramento digital. www.unicamp.br/~hytex, 1999.

[1] Embora eu faça doutorado em Lingüística, este trabalho é parte do corpus da pesquisa de mestrado em
Lingüística Aplicada que realizei durante o ano de 2001/2002 no IEL.
[2] Terminologia utilizada por Mason (1997)
[3] Sobre a questão da identidade do professor de espanhol no Brasil, ver Camargos (2003).
[4] Emoticons ou smileys são pequenos desenhos feitos com caracteres para expressar emoções. Ex: :-) rir