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autor

Fábio Diniz

editor responsável
Alberto José Bellan

revisão
Juana del Carmen C. Campos

capa
Marcio Baccan Conte

produção e diagramação

impressão e acabamento
Associação Religiosa
Imprensa da Fé - SP

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Diniz, Fábio
Tempo de descoberta / Fábio Diniz – Santa Bárbara d’Oeste,
SP : SOCEP Editora, 2009.

1. Diniz, Fábio 2. Memórias autobiográficas I. Título.

09-07435 CDD-920.71

Índices para catálogo sistemático:


1. Homens : Memórias autobiográficas 920.71
1ª Edição
Julho de 2009

copyright© 2009
por SOCEP Editora

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Sumário

Agradecimentos................................................................................ 7
Introdução........................................................................................ 9
1 - Um menino fora do seu tempo.................................................. 13
2 - O bom atraso e o vestido rosa................................................... 23
3 - O pequeno grande amigo......................................................... 35
4 - A vingança................................................................................ 47
5 - O fim da dor............................................................................. 55
6 - Mundo injusto........................................................................... 65
7 - A despedida.............................................................................. 73
8 - Unidos na amizade.................................................................... 81
9 - Boas recordações...................................................................... 89
10 - O último encontro dos três no pé de jabuticaba...................... 97
11 – Ironia do tempo.................................................................... 105
12 – Palavras não ditas................................................................. 115
13 – Sem máscaras...................................................................... 125
14 - A conversa............................................................................ 133
15 – Tempo de escuridão............................................................. 143
16 – A mudança........................................................................... 157
17 - Novos sonhos....................................................................... 165

5
Tempo de Descoberta

18 - A surpresa............................................................................. 175
19 – A fuga................................................................................... 185
20 – O atraso............................................................................... 193
21 – Vida sem máscaras............................................................... 197
22 - A viagem............................................................................... 209
23 - A revelação........................................................................... 219
24 - A despedida.......................................................................... 233
25 – A escolha.............................................................................. 239
26 - O reencontro......................................................................... 245
Final............................................................................................. 253

6
Agradecimentos

A

o Leandro Nonato, Érico Braga e Roger Wendel, que foram os
primeiros a lerem, fazendo uma leitura crítica do livro, dando
conselhos úteis no que precisava mudar. A Carolina Grechi, que
sempre me incentivou e muito ao ler os capítulos, fazendo com que me
desse cada vez mais vontade de escrever, e talvez sem essas palavras
de ânimo não tivesse terminado.
Ao Maurício Baccan, que quando o tempo ficou apertado para
a publicação, deu todo apoio correndo atrás de tudo o que faltava,
amigo que Deus me deu já há longa data, que sempre acreditou nos
meus projetos. Ao Emerson Perriello e Edinho, que acreditaram e
investiram no livro, meu muito obrigado.
Ao Márcio Baccan, grande amigo e grande profissional que me
ajudou na escolha do nome e fez a capa com muita dedicação.
Ao Luiz Silva e Adnan, que uma vez me pediram para escrever
um artigo no jornal da cidade: “Folha Popular”. Depois deste artigo,
passei 7 anos escrevendo no jornal, começando assim a adquirir
prazer no escrever.
Ao Rev. Jonas Zulske e Rev. Arthur Fernandes Junior, que deram
todo apoio na reta final quando precisei, conversando com a editora,
e à SOCEP, que acreditou na ideia e com alegria ajudou na edição e
publicou o livro.

7
Tempo de Descoberta

Finalmente, às tantas vidas e amigos que me inspiraram através


de suas vidas a escrever este livro, que é uma série de fatos vividos ou
por mim, ou pessoas que tive o prazer de conhecer.
A Deus, que é o grande inspirador da minha vida, a quem eu
conheci aos 15 anos de idade e depois disso minha vida mudou para
sempre, a Ele agradeço por tudo que tenho aprendido.

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Introdução

E

screver as próximas linhas talvez seja a coisa mais difícil e,
ao mesmo tempo, a mais emocionante de toda a minha
vida, pois significa varrer da memória emoções boas e ruins, sentir
novamente a alegria e o medo, as lágrimas derramadas e os sorrisos
distribuídos. Memórias boas, mas também memórias tristes que tantas
vezes procurei esquecer ou encontrar algum culpado.
Mas isso significa aprender com as memórias, e como aprendi,
pois professores da vida próximos a mim nunca me faltaram. Significa
também lembrar o primeiro dia de aula, e como gostaria de dizer para
papai que ele não se atrasou, que não foi culpa dele. Principalmente,
é lembrar o encontro na loja, o dia em que papai seria só meu, estava
com muitas saudades, havia muito para falar, tanta coisa para ser
dita, mas queria que ele soubesse que nunca chegou atrasado em sua
vida, tanto comigo como com Amanda e Maria das Dores. Tudo que
aconteceu já estava escrito na eternidade, eternidade essa em que um
dia estaremos todos juntos. Sim, papai, você nunca chegou atrasado
e, naquela tarde, na loja, você me deu a vida pela segunda vez.
Escrever as próximas linhas é entrar na memória de papai,
mostrar um pouco quem ele foi, como foi transformado a cada dia,
como aprendeu a viver sem barganhar a vida, e como viveu esta
intensamente.

9
Tempo de Descoberta

Muitas histórias aqui apresentadas foram contadas por ele,


outras por minha mãe, meu avô senhor Caio, pessoas que fizeram
parte da vida de papai e que, de alguma maneira, o influenciaram
grandemente. Mas, com certeza, ninguém o influenciou mais do que
Amanda e, principalmente, minha querida e doce avó Maria das
Dores, que foi a primeira a descobrir o que realmente é a vida e assim
contaminou todos à sua volta.
Escrevendo um pouco da história de papai, começo a sentir um
pouco mais de sua vida, suas paixões e medos, e principalmente, as
suas questões, dilemas que marcaram a sua vida, alguém que pagou
o preço para ser livre, mas foi livre.
A cada página ele se torna mais e mais um herói real em minha
vida, não um herói sem erros ou sabedoria fora do comum, mas
alguém que simplesmente tentou aprender, sonhar, lutar por seus
sonhos, aprendeu a amar, perdoar aos outros e a si mesmo e viver a
vida, escolhendo ser autor e não vítima de sua história.
Talvez ele seja meu herói simplesmente por ser meu pai, mas
não importa, pois para mim, é o que ele é, um herói em minha vida
e memória.
Escrevendo, volto a sentir o seu cheiro, seu abraço, parece que
ouço novamente sua risada, suas piadas sem graça, mas que dava
muita vontade de rir, só de ver como ele se divertia contando, achando
que era a coisa mais engraçada do mundo.
Às vezes fico pensando o que meu pai acharia de escrever a
história de nossas vidas e, algumas vezes, penso que ele gostaria, outras,
que talvez se chateasse por esquecer fatos importantes ocorridos em
sua vida, mas no fundo, sentiria orgulho de me ver “livre” para ser eu
e escrever o que senti, pois com ele aprendi a “sentir” a vida e assim
eternizo nestas páginas um pouco de sua, ou melhor, nossas vidas.
Mas, acima de tudo, resolvi escrever, pois sei que a nossa vida
nada mais é do que o reflexo da vida de milhares de pessoas que
vivem, já viveram e viverão no nosso mundo, que se tornaram escravas
de pseudo emoções vendidas no mundo de ilusões no qual vivemos,

10
Introdução

trocando o “ser” pelo “ter”, vivendo de maquiagem com medo de


se ver no espelho e descobrir que a vida que viveu foi sempre uma
eterna ilusão.
Papai sempre questionou o “mundo das ilusões”, não era
simplesmente do contra, pois muitas vezes questionava “o do contra”
também, o simples desejo dele era viver por um ideal, um ideal real
e verdadeiro, não imposto por pessoas ou o meio em que vive, mas
limpar o caminho da mente em busca de si e da Vida na vida.
Ele era como um pássaro que nasceu para ser livre, voar
livremente sentindo alegremente o vento bater no peito, o sol no rosto.
Assim era ele e assim somos nós, mas muitas circunstâncias e pessoas
que nos cercam nos trancam em gaiolas, escravizando o que temos
de mais sublime, que é o direito de sermos simplesmente livres para
sermos nós mesmos, talvez até mesmo muitos de nós, esquecemos o
que é “voar”, como o pássaro preso na gaiola há anos. Assim vivem
muitos de nós, e como papai que um dia abriu a porta da gaiola e saiu
voando, desejo de coração que quando acabar de ler a última linha,
possa abrir a porta da gaiola e sair para voar no mais alto e belo céu.

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12
Capítulo 1
Um menino
fora do seu tempo
“O tempo é muito lento para os que esperam, muito rápido para os que têm medo,
muito longo para os que lamentam, e muito curto para os que festejam.
Mas, para os que amam, o tempo é eternidade”. – William Shakespeare

E

ra uma manhã chuvosa e fria, mesmo já sendo primavera no
final do ano de 1961, na cidade de Divinópolis, interior de
Minas Gerais, a água batia forte na janela de madeira, como se
alguém batesse desesperadamente querendo entrar. Ao mesmo tempo,
alguns raios de sol apareciam sutilmente no chão passando através da
janela, como se estivessem bravamente vencendo a guerra contra a
tempestade que não dava tréguas do lado de fora.
Era uma janela como tantas outras, nada de especial, mas o
barulho da chuva, o silêncio da casa e a solidão da alma fazia com
que Maria das Dores, que estando em dores, enxergasse mais do
que uma simples janela, mais do que um vidro molhado, era como
um espelho refletindo a sua vida como até então tinha sido, em sua
grande parte atribulada e com dores, mas com momentos felizes e, no
exato momento, com dores, felicidade e medo, muito medo de perder
novamente, assim, assentada na cadeira com a mão na barriga,
olhando para a janela, lembrava de sua história.
Tinha sido uma vida difícil. Maria das Dores teve um pai
alcoólatra e a mãe morreu quando tinha apenas 7 anos. Vivia doente
– às vezes achava que era maldição pelo nome – era criada pelo pai,
outras épocas, pela avó solitária ou ainda pela tia solteira cheia de
gatos, os quais fizeram Maria das Dores pegar aversão por gatos.
Nunca foi destaque na escola, pois não era muito inteligente,

13
Tempo de Descoberta

mas também não era medíocre, não se destacava pela beleza, mas
não era feia, tinha 1,67m de altura, cabelos castanhos um pouco
abaixo dos ombros e sempre os mantinha presos com um laço. O
que ela não gostava muito era dos lábios por os achar grandes, mas
gostava particularmente das orelhas, simetricamente perfeitas, porém
ficava pensando se alguém iria reparar em suas orelhas. Por ser tímida
sempre ficava só, namorando sem namorar, sonhando só um sonho
a dois.
Na multidão de adolescentes da escola se via apenas como
mais uma, mas sabia que não era mais uma, que não existia “mais
uma”, pois cada um tem sua história, seus sentimentos e sua vida.
Mesmo ninguém sabendo quem ela era, queria ser alguém, ela era
alguém, alguém para ela principalmente, e esse sentimento ambíguo
batia forte em sua cabeça: ser ignorada por todos fazendo com que
se achasse “ninguém” ou lutar contra isso e saber que era alguém,
alguém especial.
Um dia conheceu um “vendedor de ilusões”, e ela, como todo
ser humano, resolveu “comprar ilusões”, pois era muito mais fácil do
que encarar a vida, pelo menos assim pensava, pois sempre existia
um “se”. Foi assim que ela conheceu o seu marido Caio, que parecia
ser uma boa pessoa e não bebia, pois pelo trauma que possuía de
ter um pai alcoólatra a única coisa que ela pedia a Deus, mesmo não
sendo religiosa, era um marido não alcoólatra.
Ele foi o brilho de luz na tempestade da vida, um bom homem,
12 anos mais velho do que ela, é verdade, mas um bom homem,
religioso, não bebia e não fumava. Ela o conheceu, inclusive, num
daqueles momentos da vida onde parece que entramos nos filmes
românticos e protagonizamos o principal personagem.
Estava Maria das Dores voltando da escola, com seu habitual
vestido rosa, que gostava de usar, pois além de ser um dos poucos
presentes que havia ganho de seu pai, era herança de sua mãe e, como
seu pai gostava de dizer, ela só tinha usado uma vez, quando eles se
conheceram no casamento de um amigo em comum. Este vestido a
fazia se sentir mais mulher e lhe trazia à memória lembranças de sua
mãe, talvez muitas destas lembranças eram apenas fantasias de sua
14
Capítulo 1 - Um menino fora do seu tempo

cabeça, mas gostava de assim imaginar, era num tom de rosa suave
com flores delicadas que vinha até quase o tornozelo, meio antigo
para a época, mas ela não ligava, afinal, era a identificação que tinha
com a sua mãe.
Enfim, ela voltava da escola mais triste e solitária que o normal,
pois já estava com 17 anos, nunca tinha namorado ou feito algo
extraordinário na vida, estava entrando no último mês de aula do
último ano da escola, e por não ter dinheiro para pagar uma faculdade
particular e nem ter estudado em uma boa escola para entrar em uma
escola estadual, teria que trabalhar em algo que não tinha a menor
ideia do que seria e, talvez, passar a vida inteira trabalhando só.
Foi nessa tarde, após uma tempestade que havia caído, que
Maria das Dores, ao ir atravessar a rua, passou um carro a toda
velocidade jogando uma grande quantidade de água sobre ela, e,
ao tentar recuar, tropeçou na sarjeta, quebrando a sola do sapato e
caindo com o traseiro na poça enlamaçada.
No mesmo instante, ela pensou que a vida já lhe tinha dado
tanta humilhação que não precisaria passar por outra ainda. Tinha
medo de olhar para os lados e ver a quantidade de pessoas que
assistiram a cena, quantos “amigos” da escola, talvez um dos rapazes
que ela sempre teve vontade de conversar; talvez o Maurício, que
depois de três anos estudando juntos, finalmente naquela semana
veio pela primeira vez conversar com ela, deixando-a sem reação;
quantas pessoas será que estavam presenciando e rindo da situação?
Na lama, era assim que ela se sentia. Talvez aquele fosse o lugar
dela, pensou com um ar de autopiedade. A vontade era se enfiar no
bueiro à sua frente. Ah, quanta vontade do bueiro estar sem tampa
para se atirar lá, no infinito e nunca mais sair.
- Maria, tudo bem? Precisa de ajuda? Dê-me a sua mão!
Quem será que estava falando? A vontade de Maria era de sumir
ainda mais, mas quem era? A voz vinha de um carro que havia parado
na sua frente. Mas, quem dos seus “muitos” amigos tinha carro? Num
sinal de coragem resolveu olhar para cima e reconheceu o jovem
professor de 29 anos, que há pouco tempo tinha sido contratado

15
Tempo de Descoberta

pela escola no lugar do professor de história que sofrera um enfarte.


Este, diferente do anterior, era jovem, cabelos castanhos claros, um
pouco mais comprido do que o normal, mas nada extravagante, olhos
levemente esverdeados, sempre sorridente e com ar de intelectual,
não era magro, mas também não era gordo, bem que se perdesse uns
cinco quilos não lhe faria mal.
Ele nunca havia falado com ela, a não ser por algumas poucas
perguntas que havia feito, e sempre com muita formalidade, mas com
certeza nunca lhe tinha pronunciado o nome, aliás, ela desconfiava
que ele não sabia o seu nome, e agora, ele a vê nessa situação ridícula,
mas querendo ajudar.
Tudo muda na visão de Maria das Dores, de repente a vergonha
e a dor se transformam em coragem, se vê como uma princesa
perdida que é encontrada pelo “príncipe”, nesse momento ela toma o
segundo ato de coragem, lhe estende a mão, talvez a única intenção
do “príncipe” fosse ajudá-la, mas o que importa, ela viveria pelo
menos por alguns segundos o seu sonho de princesa, sairia do casulo
e entraria no castelo.
- Entre no carro, eu lhe levo para casa, - disse ele sorrindo.
- Mas vou sujar o carro – disse Maria das Dores, toda
encabulada.
- Não tem importância, o importante é você estar bem, – disse
o professor com um sorriso, como quem quer dizer para não se
preocupar com a situação.
Aquilo deixou Maria das Dores muito mais aliviada e, pela
primeira vez, viu alguém lhe tratando com dignidade, sim, naquele
momento ela se achou especial, viu que era especial.
E, no dia seguinte, novamente ficaram de se encontrar. Ele, na
verdade, sempre foi muito recatado, até pelo motivo de ser professor
dela, mas sempre demonstrou interesse, convidando-a inclusive
para ir à igreja, à qual ela foi e gostou muito. Era uma dessas igrejas
protestantes, meio barulhentas, mas ela sentia lá algo diferente,
e pelo que ela sabia, os “crentes” não bebiam, não fumavam e,
principalmente, não traíam suas esposas e nem abandonavam o lar.
16
Capítulo 1 - Um menino fora do seu tempo

Após o final do ano letivo o professor Caio finalmente a pediu


em namoro. Ela nem conseguia acreditar, ela não era feia, mas por
ser tímida achava que nunca ninguém a pediria, foi um sonho e quis
falar sim antes que ele mudasse de ideia. Aquela noite, não conseguiu
dormir, lembrava do pedido, do primeiro beijo, ficou preocupada se
ele gostou ou não, afinal, não tinha nenhuma experiência nessa área,
também ficou com medo dele voltar no dia seguinte e falar que foi
tudo um erro. A cabeça dela não parou durante toda a noite, mas,
para alegria, no dia seguinte, lá estava ele, na porta de sua casa com
seu Fusca vermelho.
Foi assim que, pouco depois de seis meses de ter transformado
o pior dia no melhor dia de sua vida, ela se casou com Caio, deixando
de se sentir um peso para o pai e a família, como assim pensava,
começando então a sua própria família.
Mas, infelizmente, como o nome já diz, Maria das Dores ainda
teve muitas dores, desde o começo percebeu a diferença do marido
na igreja e no lar, e como o humor dele mudava principalmente pela
falta de dinheiro.
Aquele homem que no começo a procurava com tanto ardor
na cama, fazendo com que descobrisse prazeres inimagináveis, agora
mal lhe dava “boa noite” e já começava a roncar, e cada vez mais alto
com o crescimento contínuo da barriga.
Rapidamente o sonho do conto de fadas se desfez como a onda
do mar sobre o castelinho de areia. Apesar disso, ela percebia que seu
marido era uma boa pessoa, mas não entendia essas mudanças em
sua personalidade. Ele a tinha salvo, mas salvo do que e para quê?,
perguntava-se sempre Maria das Dores para si mesma.
Uma das atitudes de Caio que mais irritava Maria das Dores, era
como na igreja ele tratava todo mundo de irmão e irmã e um “Deus te
abençoe” para todo o lado, mas, chegando em casa, condenava todo
mundo. Reclamava do violão alto do Júnior da equipe de louvor; que
o senhor Zé, tesoureiro da igreja, era um incompetente, e ele é que
deveria possuir o cargo; que a dona Maria e a dona Cida deveriam
fazer algo mais do que comentar da vida dos outros; que o doutor
17
Tempo de Descoberta

Paulo era um materialista e preso no pecado da vaidade trocando


todo mês de carro só para mostrar para os outros. As crianças na
igreja eram verdadeiros “capetinhas” que só atrapalhavam o culto,
enfim, ninguém prestava, exceto ele, é claro, e fico pensando quantos
julgamentos não foram feitos, simplesmente talvez por inveja.
Maria das Dores começou a querer entender o porquê dessa
atitude contra tudo e todos, e nessa procura, ela começou a perceber
como ele tinha sido influenciado pela família e pelo meio em que vivia.
Assim como ela, a diferença era que cada um tinha o seu defeito, o seu
pecado, que eram camuflados em situações onde sempre se achava
outro culpado.
Ele começou a chegar em casa, muitas vezes, tarde demais e
alterado. No começo ela fingia não perceber, mas não demorou para
que ele começasse a comprar bebida e beber em casa, e isso piorou
depois que perderam o segundo bebê, que já estava com mais de 11
semanas. Foi muito triste, e Maria das Dores percebia que, mesmo
sem falar, de alguma maneira, ele também a culpava.
As dores na vida de Maria aumentaram quando Caio começou
a sair com outras mulheres. Na verdade, Maria das Dores nunca teve
prova de nada, mas as longas visitas a irmãs da igreja que ele fazia
sozinho, telefonemas estranhos, chegando sempre muito tarde do
trabalho, isso quando chegava, e aquele “ar de culpado e autopiedade”
o denunciavam. Entretanto, Maria das Dores, como grande parte das
pessoas, preferia viver a ilusão que tudo aquilo poderia não ser o que
ela pensava, afinal, o autoengano é a nossa melhor arma de salvação
ou perdição.
Os anos foram se passando, Maria das Dores cuidava da casa,
mas como não conseguiam ter filhos, ela arranjou um emprego em
uma biblioteca, onde começou a pegar mais gosto por leituras, e assim
“viajava” muito em suas leituras.
A vida de Maria das Dores e senhor Caio era sempre medida
pelo dinheiro apertado do salário deles, não viajavam muito, mas
sempre que podiam iam para Belo Horizonte ou Caldas Novas, uma
bela cidade turística.

18
Capítulo 1 - Um menino fora do seu tempo

Maria das Dores sempre pensava em como melhorar o seu


casamento, mas, ao mesmo tempo, se preocupava muito em se
encontrar. Sempre lhe vinha à cabeça a imagem daquela garotinha
de vestido rosa na escola que era ignorada por todos. Afinal, quem
era ela? Nos livros, na igreja, na Bíblia, no rádio, enfim, em tudo ela
procurava uma resposta.
Vinte anos se passaram, Caio passou de roncar às vezes, para
às vezes não roncar. A barriguinha já havia se transformado em um
monte a ser escalado, os cabelos, antes castanhos, já estavam em parte
branqueados e com uma grande falha na frente, os quais ele sempre
penteava puxando os fios de trás, que tornava muito engraçada a
tentativa de esconder a calvície já iminente. Maria das Dores, apesar
de ainda nova, apenas com trinta e sete anos, já tinha abandonado
de vez a vaidade, engordou relativamente, não tanto como o marido,
as roupas já eram mais simples, sem se preocupar tanto com a moda
ou combinar cores. O cabelo, que era um dos orgulhos que ela tinha,
pois eram compridos e bem tratados, já há um bom tempo eram
curtos e tingidos, e o olhar típico de quem vai levando a vida, mas no
fundo não se conformando em “levar a vida”, e sim procurando uma
resposta.
Já haviam mudado de igreja algumas vezes, uma vez para evitar
um escândalo, já que Caio estava sendo acusado de ter dormido
com a esposa de um dos líderes da igreja, e outras vezes por buscar
uma igreja que lhes prometesse o tão sonhado filho esperado – um
dos poucos sonhos que sonhavam juntos. Já haviam perdido cinco
filhos e, o último, no sexto mês de gestação. a qual estava indo bem,
apesar dos riscos. Se não fosse o acidente de carro que sofreu quando
Caio, pela pressa em voltar para casa após o culto para assistir ao
jogo do seu time, fez com que passasse no sinal amarelo causando
um acidente leve. O susto de Maria das Dores foi grande e o aborto
inevitável. Percebia-se, depois disso, que Caio culpava indiretamente
Maria das Dores, outras vezes se culpava, mas ao invés de abandonar
a bebida, se entregou de vez a ela.
Quantos anos se passaram desde então, e Maria das Dores já
estava decidida a ir simplesmente levando a vida, pois não via muitas

19
Tempo de Descoberta

opções, a não ser se enganar e achar que tudo isso era normal na vida
de todos.
Os sintomas de gravidez eram parecidos com o das outras cinco
vezes que Maria das Dores ficou grávida, mas agora a fé de Maria
das Dores já era menor, pois, além de estar mais velha, o marido lhe
procurava tão pouco na cama que, se realmente estivesse grávida,
daria para saber exatamente o dia em que ficou, além disso, ela tinha
medo de mais uma frustração, mais um sonho morrer antes de nascer,
mais uma dor em sua vida.
Não tinha mais como negar, feitos os exames, o Dr. Sérgio
confirmou a gravidez complicada e que exigia repouso, como todas as
outras, mas desta vez absoluto. Ao contar para o marido a notícia, seu
rosto misturava expressões de alegria com medo, ansiedade, frustração
e esperança, mas também o pavor de uma nova derrota. Talvez por
isso, ou pelo último incidente, ou até mesmo para tentar comover a
Deus, Caio parou de beber totalmente nesse período, indo mais vezes
à igreja, sempre chegando em casa logo após o serviço.
Maria das Dores, mesmo ficando praticamente vinte e quatro
horas na cama, se sentia como uma princesa, como no dia em que
conversou com Caio pela primeira vez, às vezes até desejava que a
gravidez durasse mais tempo.
Caio não só parou de beber por esse tempo, como era mais
gentil, chegando inclusive a trazer flores. Ela lembrou, então, que a
única vez que ele lhe trouxera flores foi quando ela ficou com uma gripe
e febre de quase 40 graus, ficando sem sair de casa por quase 10 dias,
deixando Caio muito assustado, ainda mais que fazia pouco mais de
um mês de namoro. Ela sempre se lembrava do cheiro das rosas que
ele lhe enviou e, depois de casados, por mais que ela pedisse, nunca
mais havia mandado, sempre dava uma desculpa, ou esqueceu, ou
o dinheiro estava curto. Mas como foi bom sentir o cheiro da rosa
novamente, ela não sabia se ele comprara a mesma que a primeira
e única vez que lhe mandou por romantismo ou só sabia comprar
esta. Bem, como sonhar não faz mal, ela preferiu acreditar que era
romantismo, afinal, tinha o direito de ser novamente uma “princesa”.

20
Capítulo 1 - Um menino fora do seu tempo

Não fazia cinco minutos que Caio tinha ido trabalhar, ela havia
se levantado apenas para ir ao banheiro, mas a dor começou forte
demais, os raios lhe provocavam medo, já estava entrando no sétimo
mês de gestação, um recorde e não podia fazer nada de errado para
perder mais uma criança. Caio, com aquela chuva, iria demorar pelo
menos mais uns 15 minutos para chegar ao emprego, então ela poderia
tentar esperar ou ligar para um táxi e ir ao hospital. Tinha medo de
tomar uma decisão errada e perder mais um filho, além do que, Caio
a culparia pelo resto da vida, sem contar na volta à bebida. Como ela
achava que ele não gostaria que ela fosse ao hospital sozinha – já que
acompanhou de perto toda a gestação – resolveu esperar.
E foi durante os 15 minutos esperando, olhando a água
escorrendo no vidro da janela e os raios de sol sobrevivendo à
tempestade penetrando como um intruso dentro da casa, que Maria
das Dores fez uma reflexão sobre o que tinha sido a sua vida até
aquele momento e que mudanças ocorreriam depois daquele dia.
Ela sabia que essa era provavelmente a última chance de terem
um filho. Por ter se casado jovem, sempre achou que teria filhos
em breve e agora sabia que a esperança estava por um fio, por isso
decidiu que, se fosse menina, se chamaria Esperança, e se fosse um
menino resolveu colocar o nome de Samuel, pois sempre lembrava
que a primeira vez em que ouviu a história bíblica de Ana e Elcana foi
logo após perder o primeiro filho, e assim sempre se achou como ela,
chorando, pedindo a Deus um filho. E como Ana tinha dedicado a
Deus o filho e dado o nome de Samuel, assim faria ela, pois até então
a aflição era a mesma, lhe faltava o filho, o Samuel que tantas vezes
morreu antes de nascer.
Caio praticamente não falou nada ao ouvi-la ao telefone e,
alguns minutos depois, ele já estava lá com um amigo que lhe levou
de carro. Um Fusca azul novo que ele tinha tanto cuidado que não
andava mais do que 50 Km/h. Caio até ficou admirado com a rapidez
do amigo, percebendo que este realmente se preocupava com ele.
Depois disso, Caio começou a ver o amigo com olhos de amizade
mais transparente como ele jamais tinha tido antes.

21
Tempo de Descoberta

Já no hospital a levaram logo para a emergência e, sem dúvida,


os minutos seguintes foram uma eternidade para Caio, que suava frio e
fez tantos votos e promessas para Deus que ficou difícil depois lembrar
tudo o que prometera. Já Maria das Dores, em meio às dores, sentiu
uma paz e pela primeira vez na vida sentiu a presença de Deus com
ela de uma maneira que nunca havia sentido. Percebeu a importância
do voto que fizera e, nesse mesmo instante, percebeu que seria um
menino. Samuel finalmente nasceria, nasceria fora do tempo, com
sete meses, mas Maria das Dores nem imaginava que o tempo seria
um amigo e inimigo, que o abraçaria e o empurraria, pregaria várias
peças na vida de Samuel, tirando e colocando pessoas e amores, e
assim moldando o caráter dele. Às vezes brincando outras brigando,
mas em tudo isso Samuel teria que viver e aprender sozinho, apesar
de nunca estar realmente só.

22
Capítulo 2
O bom atraso
e o vestido rosa
Só porque alguém não te ama como você quer,
não significa que não te ame com todo seu ser.
Gabriel García Márquez

O

suor escorria no rosto de seu Caio, já marcado pelo meio
século de vida, a gravata marrom se encontrava totalmente
torta, o paletó na mão, aliás, sempre passando de uma mão à outra, e
a camisa branca molhada de suor. A cada 15 segundos o senhor Caio
passava a mão no cabelo, olhava para o relógio ou para a porta para
ver se o médico vinha trazer alguma notícia.
Nunca fez tantas promessas e orações, e é lógico que a principal
promessa era parar de vez de beber, pois, como Maria das Dores,
sabia que talvez fosse a última chance de terem um filho.
No final do corredor surge o médico que havia estado na sala
com Maria das Dores. Para quem pensa que todos os segundos são
iguais, para o senhor Caio, aqueles foram uma eternidade, parecia
que o médico andava em câmera lenta e, quando se aproximou, Caio
já percebeu pela expressão no rosto do médico que tudo tinha ido
bem.
- Parabéns senhor Caio! É um grande menino para quem nasceu
de sete meses, e é “fortão”, 38 cm e 2800 g. Venha conhecer o seu
filho, – disse o médico.
O senhor Caio não podia acreditar naquelas palavras, depois
de 20 anos de espera, finalmente nasceu no dia 7 de novembro de
1961 o seu filho tão esperado, e ainda era um menino, o tão desejado
menino.
23
Tempo de Descoberta

Um susto. Creio que essa é a melhor definição para a primeira


olhada que Caio deu em seu filho. Ele realmente era grandinho para
uma criança prematura, mas ele nasceu muito sujo, uma mistura de
sangue com fezes e todo enrugado. Geralmente os pais acham o filho
o mais lindo do mundo, mas definitivamente não foi esse o sentimento
que Caio teve.
- Pode pegar! – disse a enfermeira.
O senhor Caio, esboçando um sorriso meio sem graça, fez
que não com a cabeça. Ele nunca entendeu direito por que não
quis pegar, talvez por medo de machucar a criança que parecia tão
indefesa, talvez porque estava assustado, ou então por medo de seus
sentimentos, medo esse que teria um dia de enfrentar ou passar toda a
vida fugindo, medo este que o pequeno Samuel iria vivenciar sempre
em seu pai, deixando-lhe sempre muitas perguntas em sua cabeça.
Um sorriso, sim, apenas um sorriso foi toda a “fala” de Caio
com Maria das Dores. Na verdade, ela esperava um elogio para a
criança, um beijo na testa, passar os dedos entre seus cabelos, mas foi
apenas um sorriso que Caio deu antes de sair do quarto.
Maria das Dores já estava acostumada com a maneira de se
expressar de seu marido, mas esperava que o nascimento do filho
desenterrasse expressões, como na gravidez já tinha começado a
fazer, mas, para a sua frustração, foi só um sorriso, ou pior, um sinal
que talvez voltasse a ser como era antes, o que ela mais temia.
Como era duro conviver com alguém onde você percebe que
há sentimentos, mas eles não são demonstrados, e assim tinha sido
durante os 20 anos de casamento. Maria das Dores contava nos dedos
as vezes que Caio soube demonstrar carinho, e isto geralmente ocorria
após alguma “falha”, como quando ele esqueceu o aniversário de 10
anos de casamento. Essa acabou sendo a “melhor” coisa que ele fez,
pois na ocasião, ao chegar em casa e ver Maria das Dores com um
belo vestido – ela havia juntado um dinheiro vendendo salgados para
um bar perto de sua casa durante seis meses para comprar o vestido
– e um jantar à luz de velas, perguntou: “O que aconteceu? Acabou a
energia? Que vestido é esse?”.

24
Capítulo 2 - O bom atraso e o vestido rosa

Nesse momento Caio percebeu como essas palavras cortaram o


coração de Maria das Dores, que, diferente dele, sempre expressava
seus sentimentos. No dia seguinte, ele se tornou o homem mais gentil
que ela conheceu – o príncipe encantado do primeiro encontro – e a
levou a um restaurante chique, o mais chique que ela já tinha entrado,
depois a levou para um hotel, não muito caro, mas um bom hotel e
tiveram uma noite como muitas não passavam.
Em menos de uma semana o pequeno Samuel e Maria das
Dores já estavam em casa, e a cada dia Samuel ficava mais bonito, já
não se parecia com aquela criança coberta de sangue com fezes, um
lindo menino que crescia sempre sorrindo. O cabelo a princípio era
liso com alguns cachinhos que lhe davam um charme a mais, depois
foi ficando lisinho.
Aos poucos Caio demonstrava sentimentos por Samuel, pelo
menos já tinha demonstrado muito mais do que por ela nesses anos de
casamento, mas, infelizmente, voltou a beber, com mais moderação,
é verdade. Porém, também é bom destacar que Caio nunca foi de
passar muito dos limites, foram poucas as vezes que Maria das Dores
o viu embriagado, e isso geralmente acontecia quando lhes faltava
dinheiro ou quando ele “aprontava” alguma, talvez por remorso.
Samuel, quem sabe por ironia do destino, desde pequeno
começou a fazer tudo fora do seu tempo, mesmo tendo nascido com
sete meses, já com 10 meses de vida começou a dar seus primeiros
passos, dando grande alegria aos pais, e o pai todo convencido, já
falava da sabedoria do menino, que contava para os amigos, dizendo
que logo mais ele iria começar a falar. Entretanto, para a frustração,
Samuel começou a falar depois do tempo normal de uma criança,
com quase dois anos de idade, e a primeira palavra que disse, não foi
papai ou mamãe, e sim “xixi”. Aliás, a palavra papai demorou tanto
para Samuel falar que Maria das Dores, percebendo a chateação e
tristeza de Caio, várias vezes por dia repetia a palavra para ver se ele
falava, e a primeira vez foi inesquecível, principalmente para o senhor
Caio. Foi no aniversário de dois aninhos, quando o senhor Nivaldo,
o chefe de Caio, o pegou no colo. O senhor Nivaldo, percebendo o
constrangimento, o entregou nas mãos de Caio e disse:

25
Tempo de Descoberta

- Ele está chamando você.


Assim, ninguém soube entender a quem o pequeno Samuel se
referia, mas preferiram acreditar que ele chamava pelo pai.
Maria das Dores percebeu que Samuel tinha as perninhas um
pouco tortas e o levou ao médico, que recomendou botas ortopédicas.
Samuel nunca esqueceu aquelas botas, que no início até achou bonitas,
diferentes, mas depois, sendo obrigado a passar grande parte do dia
com elas, e até mesmo dormir às vezes, e sendo pesadas, começou a
não gostar, ainda mais que alguns amiguinhos começaram a caçoar
dele quando todos saiam correndo e ele era o último a chegar por
causa do peso das botinhas. Usou apenas durante seis meses, mas
para o pequeno Samuel aquilo parecia uma eternidade.
Se o pequeno Samuel demorou muito para começar a falar,
depois não parou mais, muitas vezes irritando os pais, especialmente
o senhor Caio que sempre pedia para ele ficar quieto, principalmente
quando ele estava assistindo futebol ou o telejornal. Samuel não só
gostava de falar, como também de correr e se aventurar pela casa
escalando tudo. Subia na pia, no fogão, no armário e, com cinco anos,
já tinha escalado até a geladeira, provocando um tremendo susto em
sua mãe.
Maria das Dores sempre se preocupou muito com a educação
de Samuel, queria que ele crescesse sem os traumas que ela teve em
sua vida, por isso sempre estava muito próxima dele, lhe contava
histórias antes de dormir, principalmente histórias bíblicas, pois depois
do nascimento de Samuel, ela começou a se aprofundar mais em
conhecer a Deus, mesmo achando muita coisa estranha na igreja
procurava, através da Bíblia e das orações, relacionar-se mais com
Deus.
Samuel, como um bom mineirinho, desde pequeno amava
comer pão de queijo, especialmente os feitos por sua mãe. Aliás,
praticamente tudo que Maria das Dores cozinhava Samuel gostava.
O arroz e o feijão na panela de ferro, o bife mal passado, são aromas
que faziam Samuel sempre lembrar-se de sua doce mãe.
Como ele sempre caía, Maria das Dores costurava couro em suas

26
Capítulo 2 - O bom atraso e o vestido rosa

roupas na parte do cotovelo e joelho, ele achava aquilo um charme


e ficava todo orgulhoso, se achando especial, que realmente especial
ele era, mas não como imaginava.
Na infância ele tinha alguns grandes amigos, como Cazu e Riro,
filhos de um casal de orientais. Com eles Samuel aprendeu as suas
primeiras palavras em japonês: “gorram, otha”, que significa arroz
e chá, pelo menos era assim que ele pronunciava. Também havia o
Ricardinho, a Solange e a bela Paty. Ah, ela era a garota que todos os
meninos ficavam apaixonados e queriam namorar. O Ricardinho era
o “namorador”, enquanto Samuel era o peralta da turma.
O aniversário de seis anos de Paty, Samuel nunca esqueceu.
Depois de cantar os parabéns Paty, mais bela do que nunca, escolheu
o menino de shorts vermelho para dar o primeiro pedaço do bolo.
Foi quando Samuel olhou e viu que era Ricardinho o menino de
shorts vermelho. Na hora ele pensou “sabia, só podia ser ele”, ele
já com aquele sorriso que também dizia “já sabia”, mas nessa hora
Paty vai em direção de Samuel, foi aí que ele percebeu que também
estava com shorts vermelho. Não acreditava, o sorriso ultrapassava a
orelha, não via mais nada além da sua “vitória”, e foi a primeira vez
na vida, com seis anos de idade, que Samuel sentiu o gosto da vitória
e o sentimento de superioridade, sentimentos que ele passaria a vida
tentando entender e vencer ou se entregar.
Samuel sempre foi muito ligado aos pais, e mais com a mãe,
não por sua culpa, mas pela ausência do pai em muitas situações.
O interessante é que as memórias boas e ruins de Samuel, quando
criança, estão mais ligadas ao pai do que à mãe.
As lembranças ruins geralmente eram ligadas à bebida, quando
Caio bebia demais e Maria das Dores o criticava. Uma das cenas que
ele nunca esqueceu foi um dia em que, chegando tarde, sua mãe
perguntou, furiosa e chorando, onde ele estava. Samuel respondeu
que estava com amigos, mas parecia que ela não acreditava e lhe
deu uns tapas. Ele apenas se defendeu e saiu andando cambaleando,
enquanto Maria das Dores ficou em um canto chorando. Essa cena
triste marcou por muitos anos a mente de Samuel, que depois deste
dia, começou a tratar o pai também com mais frieza e descobriu, logo
27
Tempo de Descoberta

cedo, o que era esconder sentimentos.


Dos bons sentimentos Samuel lembra-se de coisas bobas,
mas que o marcaram. Como quando pulava em cima da barriga do
papai e imaginava como ele tinha conseguido adquirir uma barriga
tão grande. Quando corria do papai e assim ganhava coceguinha,
fazendo parecer que iria morrer de tanto rir. Por mais irônico que
pareça, sentia saudades quando o pai bebia um pouco demais e saía
de carro com ele, pois corria muito e pagava doces à vontade, além de
falar muito. Era o momento em que o pai de Samuel mais falava com
ele. Não falava muita coisa importante, mas falava, e em um desses
dias, ele lembra o pai falando que ele já estava ficando grandinho e
precisava saber como as crianças nasciam. Samuel ficou muito sem
graça, tentava imaginar, mas era difícil. Queria mudar de assunto de
qualquer maneira, pois não se sentia preparado para um assunto tão
importante.
Nessa época Samuel tinha muita vontade de dizer para o pai que
o amava e também desejava muito ouvir isso do pai, mas o senhor
Caio nunca lhe dava liberdade para isso, ao contrário de sua mãe,
que sempre dizia que o amava e como ele era importante. Isso fazia
com que Samuel sentisse ainda mais vontade de falar com o pai, lhe
causando assim ainda mais tristeza e dúvidas se realmente seu pai o
amava ou não. Muitas vezes até quis perguntar para o senhor Caio se
ele o amava, mas nunca teve coragem para isso.
Como Samuel sempre foi fora do tempo, com cinco anos ele já
sabia ler muitas coisas e escrever várias palavras. A mãe tinha grande
orgulho, o pai nunca falava nada. Ele lembra da primeira vez que
foi falar para o pai que já sabia escrever o nome dele e do papai, e
esperava aquele elogio, pois era uma grande proeza, além do que
seu pai era professor e sentiria orgulho de ver o filho tão jovem já
escrevendo. Porém, o que Caio fez foi só falar “que bom”; Samuel
então saiu triste e foi chorar no quarto, achou que nada do que fizesse
faria o papai gostar dele.
Maria das Dores percebia o quanto isso machucava o pequeno
Samuel, a criança tão desejada e esperada; às vezes ela falava com
ele, para não ligar, que era o jeito do papai, mas que ele se importava,
28
Capítulo 2 - O bom atraso e o vestido rosa

outras vezes ela falava com o Caio, da importância de demonstrar


os sentimentos, que mesmo não demonstrando para ela, tinha que
demonstrar para o filho. Mas ela notou que isto, no lugar de fazer com
que ele percebesse, só o irritava mais, e a acusava de querer ensiná-
lo a educar o filho, de querer lhe jogar na cara que ele não era um
bom marido, fazendo com que ele se fechasse mais e, às vezes, fosse
procurar a bebida. Com tudo isso, Maria das Dores frequentemente
apenas ficava calada e orava.
Mesmo sendo Caio quem lhe apresentou a fé que ela abraçou,
depois de anos parecia que apenas ela é que tinha fé, pois tudo
era motivo para não ir à igreja, ou porque estava quente demais,
ou frio demais. Por vezes pelo jogo na TV, visitas de amigos e assim
por diante. Só Maria das Dores e o pequeno Samuel frequentavam
a igreja periodicamente, para tristeza de Maria das Dores, que tinha
esperança que o nascimento do pequeno Samuel despertaria a fé que
um dia Caio teve.
Maria das Dores tinha dúvidas sobre de quem era a culpa da falta
de fé de Caio, se era dele mesmo, das pessoas que o cercavam ou das
igrejas e pastores que já tinham passado, pois tinham experimentado
tantas coisas em nome de Deus. Porém Deus parecia estar tão longe.
Tantas promessas de filhos, riquezas e sempre quando algo não
dava certo, os pastores os culpavam por falta de fé ou culpavam o
demônio.
Mas, de todas as igrejas que tinham passado e tantos pastores,
essa última igreja, a qual já frequentavam há nove anos, era a igreja
que Maria estava achando que tinha “roubado” a fé do marido e a
sua estava confusa, como se estivesse tentando achar uma árvore no
deserto que uma vez tinha sido uma floresta.
Não sabia o que era mais importante para o pastor, quantidade
de pessoas, dinheiro, ser reconhecido como “super-homem” ou
realmente as pessoas. Mas sobre este pastor Narciso e a igreja “Fogo
Universal” falaremos depois, nos grandes questionamentos e conversas
de Samuel com o pastor e seus líderes, que modificaram muito, não só
a sua vida e maneira de pensar, mas a de seu próprio pai.

29
Tempo de Descoberta

Como Samuel aprendeu a ler e escrever bem cedo, resolveram


colocá-lo na escola antes da época, já com seis anos de idade.
Samuel já havia frequentado o parquinho, mas agora o primeiro
ano, era um passo muito importante, já se sentia um verdadeiro
homem cheio de responsabilidades.
Aquela manhã, do primeiro dia de aula, mal sorriu, acordou
sério, foi se pentear sozinho, pois já se sentia responsável, mas a mãe
veio em seu socorro quando viu o “caminho de rato” em seu cabelo,
colocou gel, o uniforme, que era uma camiseta branca com o símbolo
da escola, uma calça azul e, principalmente, o seu novo tênis, e de
marca, seu primeiro “all star”. A lancheira ele tinha comprado com a
mãe depois de uma grande e minuciosa pesquisa, enfim escolheu uma
azul com a figura do “homem aranha”, seu grande super herói, que
por sinal, lhe tinha feito ficar de castigo várias vezes ao tentar “escalar”
as paredes da casa e deixar a marca do tênis fazendo com que a sua
mãe descobrisse suas tentativas frustradas. Como também gostava do
“superman”, resolveu ir com a cueca do “superman” no primeiro dia
de aula, a lancheira continha um lanche de pão francês com presunto
e queijo, um delicioso bolo de chocolate, o seu preferido, e um suco
de laranja natural.
Assim, foi ele todo sério para a escola, saindo de casa e ainda
procurando no último olhar a figura do pai para levá-lo à escola junto
com a mãe, afinal, ele estava virando homem e era importante a
figura do pai junto. Nesse momento a mãe, percebendo isso, falou que
o pai queria muito ir, mas tinha que trabalhar, contudo, ele sempre se
questionou se era verdade aquilo, pois que trabalho poderia ser mais
importante do que acompanhar o filho no seu primeiro dia de aula?
Samuel lembrara-se de como na noite anterior tinha sentado
perto do pai que estava assistindo o telejornal, e perguntou sério se
ele iria levá-lo à escola. A sensação de Samuel era que aquela era
a primeira conversa de “homem para homem” que estava travando
com seu pai. Seu pai, sem olhar para ele, simplesmente respondeu
que não poderia, mas que sua mãe o levaria e o mandou dormir que
já era tarde.

30
Capítulo 2 - O bom atraso e o vestido rosa

Como tinha sido frustrante para Samuel esse primeiro diálogo


sério. Foi curto, o pai nem olhou nos olhos dele para responder e era
como se a televisão fosse mais importante do que o primeiro dia de
aula de Samuel. Assim, foi dormir Samuel com esse sentimento de
desprezo na noite anterior ao grande primeiro dia de aula.
Mesmo a escola não sendo muito longe, Maria das Dores
resolveu ir de ônibus, pois estavam atrasados, já que na hora de sair
Samuel deixou abrir a lancheira derrubando o pão e o suco, tendo
que preparar tudo de novo. Aquele atraso deixou Samuel nervoso,
pois não queria ser o último a chegar, talvez pegasse o pior lugar
para sentar, talvez o diretor não o deixasse entrar, talvez os futuros
amiguinhos zombassem dele, enfim, poderia ser uma verdadeira
catástrofe. Contudo, para piorar, o ônibus não chegava, já fazia dez
minutos que estavam esperando e Samuel ouviu a mãe sussurrar “era
melhor ter ido a pé”. Com isso Samuel pensou, “definitivamente está
tudo perdido”, “se meu pai tivesse ido, iríamos de carro, e chegaríamos
a tempo”, então Samuel fez sua última tentativa de levar o pai junto.
Disse à sua mãe:
- Mãe, e se o papai levar a gente...
- Olha lá Samuel, está vindo o ônibus – respondeu a mãe.
Assim Samuel viu dissipar a sua última chance de conseguir
convencer o pai a levá-lo à escola, que era mais importante que
qualquer trabalho que ele poderia ter.
Mal sabia Samuel que essa não seria a única vez que chegaria
atrasado ou adiantado, mas esse tinha sido um bom ou, o melhor
maravilhoso atraso.
Quando chegou lá, ele não pôde acreditar no que viu. O portão
já fechado, ninguém mais lá fora a não ser um casal com uma criança
que havia acabado de estacionar o carro. Samuel parou e a mãe lhe
deu um pequeno empurrãozinho nas costas, mas daí ele parou de
vez, olhou para a mãe com o rosto já triste e disse:
- Não, não tem mais como, está tudo perdido, já está todo mundo
lá dentro. Vamos embora, amanhã a gente volta com o papai e eu
entro.

31
Tempo de Descoberta

- Vamos querido – respondeu a mãe, - você não está sozinho,


também tem uma amiguinha lá esperando para entrar.
Foi aí que Samuel percebeu que era uma garotinha da sua idade
também.
- Mas ela está sem uniforme – respondeu Samuel.
- Vai ver que ela não teve tempo de comprar ainda – lhe disse
Maria das Dores.
Assim, Maria das Dores conseguiu ir levando Samuel para mais
perto da escola, foi nesse momento que Samuel lhe disse:
- Mãe, ela usa um vestido igual à da historinha que você sempre
me conta.
Nesse momento, Maria das Dores viu que ela usava um vestido
rosa com flores, e lembrou que várias vezes quando ia colocar Samuel
para dormir, contava a história do vestido que tinha ganhado do seu
pai. O vestido tinha sido de sua mãe e, quando conheceu papai estava
usando este vestido que ela guardava até aquele dia. Também contava
que queria que quando fosse encontrar com o papai do céu estivesse
usando esse vestido. Ela lembra que a primeira vez que contou para
Samuel, ele pediu para ela comprar um vestido para ele, e mesmo ela
explicando que quem usava vestido era menina, ele não conseguia
entender o porquê não poderia ter um, já que sua mãe gostava tanto
de vestido rosa.
Talvez pelo vestido, quem sabe pelo olhar carinhoso da
garotinha para Samuel, que respondeu com a mesma ternura, um
olhar que Maria das Dores nunca tinha visto em Samuel, sua mãe
percebeu que ela seria alguém especial na vida de seu filho. Percebeu
que essa garotinha tinha um brilho na vida e assim ajudaria Samuel,
só não imaginava o quanto mudaria para sempre a vida do pequeno
Samuel.
Ao chegar mais perto, foi que Samuel sentiu pela primeira vez o
coração bater de uma forma aceleradamente mais forte.
- Oi, eu me chamo Amanda – disse a garotinha sorrindo por
detrás do vestido rosa, lhe estendendo a mão.
32
Capítulo 2 - O bom atraso e o vestido rosa

Ela tinha o sorriso mais belo que Samuel já tinha visto, mesmo
faltando um dente em cima, bem no meio, e outro em baixo, mostrando
que já estava com sete anos. Tinha o cabelo um pouco abaixo dos
ombros, preso por um lacinho rosa, era castanho bem claro, quase
loiro, possuía uma franjinha que a deixava ainda mais bonita e nos
olhos havia uma doçura que Samuel nunca tinha visto, eram verdes
claros e brilhavam de alegria, era um olhar de amor e carinho, a
lancheira também era rosa, mas não possuía nenhum super-herói, era
cheia de flores, foi assim que Samuel soube que ela amava flores.
- Você não vai me dizer o seu nome? – insistiu ela.
- Sa... Samuel – disse ele sem conseguir falar direito ou pensar.
- Vamos logo! A aula já começou e eu não quero ser a primeira
a tomar bronca da tia, - disse Amanda levando Samuel pela mão.

33
34
Capítulo 3
O pequeno
grande amigo
“Há pessoas que nos falam e nem as escutamos; há pessoas que nos ferem
e nem cicatrizes deixam, mas há pessoas que simplesmente aparecem
em nossa vida e nos marcam para sempre.” – Cecília Meireles

S

ejam bem-vindos – disse “tia” Laura, a professora que tinha
por volta de seus 45 anos, usava uma blusa branca com uma
saia bege comprida até o calcanhar.
- Como se chamam? - perguntou tia Laura.
- Amanda.
- Samuel - eles responderam.
Muito prazer, Samuel. Pode se sentar ao lado do Clever - e
apontou o lugar ao lado de um garoto sorridente que estava sentado
sozinho na segunda fileira. Os lugares eram para dois, por isso Clever
já foi tirando alguns lápis e folhas que estavam do outro lado da
mesa.
- E você Amanda, sente-se com a Cristina - apontou uma menina
que tinha um óculos muito estranho de tão grande que era.
Logo de cara Samuel gostou muito de Clever, talvez porque ele
era um pouco menor que Samuel mesmo sendo um ano mais velho,
ou pelo sorriso “maroto” e carismático que possuía.
- Meu nome significa esperto em inglês – foi a primeira coisa
que Clever sorrindo disse para Samuel, mostrando que também lhe
faltava um dente na frente. Samuel ouviu, mas só conseguia pensar
em Amanda e seu vestido rosa.

35
Tempo de Descoberta

No recreio os três já ficaram juntos. Mário também se juntou para


lanchar com eles. Ele era o mais gordinho da sala, muito sorridente e
brincava com tudo. Desde o primeiro dia os três gostaram muito de
Mário, que por sinal, era bem diferente do outro gordinho, Fred, que
já no primeiro dia empurrou o Ricardinho que era muito quieto, e
roubou um pedaço do lanche da Cristina que mal podia enxergar, por
isso, Samuel e seus amiguinhos não ficavam muito perto de Fred.
Clever sempre queria demonstrar que era inteligente, como
dizia que significava o seu nome. Contou para Samuel e Amanda
que já conseguia escrever o seu nome sozinho, e já fazia seis meses
que tinha aprendido. Com isso, Samuel não pôde deixar de comentar
que já sabia escrever muitas coisas – olhando todo orgulhoso para
Amanda com ar de vitória – mas, para sua decepção, Amanda olhou
ignorando o comentário e disse para os dois:
- Eu só sei escrever uma palavra, mas é a mais bonita e
importante que existe, - falando isso abaixou e escreveu na areia a
palavra “JESUS”.
Samuel e Clever se olharam sem entender muito aquilo, mas
mal sabia Samuel que no futuro, sempre que lesse uma passagem na
Bíblia em que Jesus se abaixa e escreve no chão, ele imaginaria que
Jesus escreveria o nome de “Amanda”, lhe trazendo fortes emoções e
lembranças do passado.
Mal Amanda acabou de escrever e Fred chegou pisando em
cima e saiu rindo. Na hora Samuel quis mostrar a sua valentia para
Amanda, se imaginou correndo e chutando o traseiro de Fred, mas
ficou com medo do tamanho dele, que para ele parecia um gigante,
e, enquanto apenas pensava no que poderia ter feito, ele viu a cabeça
de Fred ser acertada por um pedaço de giz branco que Clever tinha
pegado escondido da professora. Ao som do grito de Fred, Clever
gritou rindo:
- Corre - aquela foi a primeira de muitas boas “aprontadas”
de Clever, sempre causando orgulho da amizade e ciúmes ao mesmo
tempo no coração de Samuel, que começou a conviver logo cedo
com sentimentos tão contrários e difíceis de lidar, mas, acima de tudo,
ele gostava muito da amizade de Clever e sobretudo a de Amanda.
36
Capítulo 3 - O pequeno grande amigo

Samuel estranhava muito que Clever nunca falava do pai, e


sempre que ele perguntava, Clever dizia que estava viajando, mas
sempre elogiava muito a sua mãe que se chamava Áurea. Ela era
professora de português, e ele dizia que Áurea era o nome pequeno
de “auréola”, que era um círculo na cabeça que só tinham os anjos e
as pessoas muito boas, e a sua mãe era uma dessas pessoas.
Já Amanda falava dos pais a cada momento, e sempre com muito
amor, inclusive do irmão mais velho Alexandre. Samuel estranhava
alguém conseguir amar tanto o irmão mais velho, que geralmente só
serve para brigar com o mais novo. Isso fazia Samuel sentir inveja,
pois os pais de Amanda pareciam perfeitos e ela tinha irmão, algo que
ele sempre quis ter.
Samuel nunca esqueceu a primeira vez que foi fazer lição na
casa de Clever junto com Amanda após a aula. Ele havia ido com
a mãe dele, a senhora Áurea, e realmente Clever estava certo, ela
parecia um anjo de tão boa, tinha uma voz muito doce e tinha feito
um bolo de chocolate que Samuel devorou quase todo.
Nesse dia, novamente Samuel perguntou do pai para Clever que
disse, como sempre, que estava viajando. Assim Samuel respondeu:
- Ele só viaja.
E para a surpresa de Samuel, Clever abaixou a cabeça triste, e
essa foi a primeira vez que Samuel o viu triste e falou meio sem voz:
- Desde que eu nasci ele saiu pra viajar e nunca mais voltou.
Foi aí que Samuel percebeu que Clever não conhecia o seu pai.
Nesse momento Amanda lhe deu um abraço com tanto carinho que
Samuel ficou com vontade de não ter um pai só para receber aquele
abraço, e ela lhe disse:
- Não fica triste, você tem um papai no céu que nunca sai pra
viajar, mas está a cada dia com você, - falando isso ela orou: - Papai
do céu, nunca deixe que o Clever fique triste, pois ele tem você que
é o nosso grande e querido Pai. - E logo em seguida disse: - Vamos
pintar! E na próxima vez vamos fazer a lição na minha casa, - aquele
foi o primeiro dia em que Samuel viu Clever quieto.

37
Tempo de Descoberta

No final da tarde os pais de Amanda a vieram buscar e logo


depois chegou o pai de Samuel. Quando viu que o seu pai estava
muito quieto com a cabeça baixa e olhava para Clever, Samuel pensou
que seu pai havia percebido que Clever estava triste, ou pior ainda,
que havia bebido antes de ir buscá-lo. Como a dona Áurea também
estava quieta e de cabeça baixa, Samuel concluiu que novamente
tinha bebido, nisso ficou com vontade de falar para Clever que nem
sempre ter pai significa ser feliz, mas ficou quieto e foi embora. Durante
toda a volta, o senhor Caio não disse nada, fazendo com que Samuel
ficasse na dúvida se era melhor ter um pai que “saiu para viajar” ou
um que “sai para viajar mesmo estando em casa”.
Na semana seguinte foram fazer a lição na casa de Amanda,
como combinado. Dona Rosa, mãe de Amanda, abriu a porta com
um largo sorriso e em um só abraço, o abraçou junto com Clever
e o Mário, que tinha ido com eles dessa vez. Na casa havia várias
fotos deles, fotos do Natal, na praia e, principalmente, na igreja. Foi
aí que Samuel ficou sabendo que eles também eram protestantes,
mas de uma igreja mais tradicional. Seu pai falava que era quase
igual à Católica, uma igreja com nome difícil e que Samuel demorou
para aprender, ele chamava de “pesbriteriana”. Dona Rosa havia feito
um delicioso bolo de cenoura com cobertura de chocolate e, quando
Samuel viu, logo em seguida olhou para Mário que estava com o
olho arregalado fixado no bolo. Também havia um piano na casa, o
qual a mãe de Amanda tocava e ensinava a filha. Nesse dia Samuel
conheceu Alexandre, o irmão mais velho, que era alto e magro, já
tinha quase 12 anos e, como Amanda, era muito alegre, mas ficou
pouco com eles, já foi para o quarto “tocar” bateria, nisso Amanda
reclamou sorrindo:
- Todo dia tenho que aguentar isso.
Samuel e Clever foram se tornando cada vez mais amigos,
principalmente depois daquele dia na casa de Clever onde Samuel
ficou sabendo que ele não tinha pai.
Acostumaram-se a pegar “carona” na traseira dos caminhões
que passavam em direção da escola, às vezes aprontavam alguma,
mas sempre sob a liderança e ideias de Clever, que, por sinal, era bem
38
Capítulo 3 - O pequeno grande amigo

criativo. Um dia desses acharam uma foto de mulher nua no banheiro,


aliás, foi a primeira vez que Samuel “viu” uma mulher despida, que
o deixou com um sentimento bom, estranho e corado de vergonha.
Clever resolveu colocar dentro do livro de história do Mário, que
quando abriu o livro estava junto com Patrícia, a garota que ele
gostava, e ao ver a foto ela ficou muito desapontada e ele, muito sem
graça. Tentou explicar que não sabia de nada, mas as palavras não
saiam da boca, ficou com a bochecha toda vermelha de vergonha, e
a Patrícia ficou quase um mês sem falar com ele. Por vezes Samuel e
Clever se arrependiam, mas a vontade de zombar era maior. Mário
nunca descobriu que foram eles os responsáveis pela foto, pensava
que era o Fred o qual Clever e Samuel faziam questão de concordar
que achavam; foi nesse momento que Samuel percebeu que era mais
fácil culpar alguém do que confessar a falha.
Uma vez, aliás, a única que Samuel conseguiu enganar Clever,
foi quando estavam na segunda série, e Samuel chegou à escola
mascando chiclete e com outro no bolso, o qual tinha tinta azul que
deixava a boca toda manchada. Assim que Clever viu Samuel já foi
pedindo um chiclete. Ele pretendia dar o chiclete para o Mário, mas
como Clever pediu antes, ele viu a grande chance de zombar do amigo
“inteligente”. Clever abriu um sorriso, pegou o chiclete e com todo
gosto colocou na boca e entrou na fila da sala, nisso os amiguinhos
começaram a rir, Fred disse:
- O tampinha tá ficando azul, - (tampinha era o apelido que
Fred tinha dado para ele, mas ele fingia que não ligava, talvez para o
apelido não “pegar”), foi aí que ele percebeu que estava com a boca
toda azul.
Naquele dia, voltando da aula, eles pararam embaixo de uma
jabuticabeira, um lugar já de “propriedade” deles, pois ficava em uma
parte alta da cidade de onde podiam enxergar várias ruas e se sentiam
livres e importantes. Com frequência sentavam lá embaixo, outras
subiam na árvore como se fosse o trono deles, e apostavam quem
comia mais jabuticaba jogando no ar, quem ganhasse seria o rei e o
outro o escravo. Samuel não gostava muito da brincadeira, pois Clever
era mais ágil que ele, por isso várias vezes Samuel voltava sozinho

39
Tempo de Descoberta

para treinar. Nesse dia Samuel conseguiu ganhar e ficou duplamente


feliz, pelo chiclete e pela jabuticaba, foi quando Clever lhe disse:
- Parabéns, você foi mais inteligente do que eu hoje, - e olhou
sorrindo para Samuel, e mal deu tempo para Samuel se orgulhar, ele
abaixou a cabeça e perguntou, meio que para si mesmo:
- Será que um dia eu vou conhecer meu pai? - essa tinha sido a
primeira vez que ele falava do pai, desde aquele dia no primeiro ano
da escola.
Samuel, sem saber muito o que falar, lembrou o que Amanda
tinha dito e lhe disse:
- Lembra do que Amanda falou, tem um Pai no céu que te ama,
- mas nisso Clever respondeu:
- Para ela é fácil falar, ela tem um pai que a ama, está sempre
com ela e nunca sai para viajar.
Vendo que não deu certo, Samuel falou uma frase que o fez
pensar muito no que era verdade, mas na maioria das vezes, lhe
trouxe grande arrependimento.
- Se fosse para ter um pai como o meu era melhor que ele tivesse
ido viajar também, disse Samuel, mas já com uma sensação de estar
traindo o amor do pai, que por mais que fosse estranho, ele sabia
que o amava. Tudo aquilo deixou Samuel e seus sentimentos muito
confusos.
Eles frequentavam muito a casa um do outro e a da Amanda.
Dona Áurea, sempre um doce de pessoa, era bem simples, tinham
pouco dinheiro, mas havia uma paz que ele não entendia como
conseguia, vivendo naquela situação e, principalmente, sem marido.
Já a casa de Amanda era a preferida deles e principalmente de Mário,
que amava os doces de dona Rosa. Lá tudo era muito alegre, sempre
havia música, apesar que tinham que aturar Alexandre na bateria, e
os pais de Amanda sempre sorridentes e amáveis.
Os pais de Samuel também gostavam de receber os amiguinhos
do filho, principalmente o senhor Caio que era sempre gentil com
todos, provocando até um certo ciúmes em Samuel. Sempre que
40
Capítulo 3 - O pequeno grande amigo

os pais de Amanda não levavam Clever para casa, o seu pai fazia
questão de levar, até o Mário que acabava com as balas e chicletes,
o senhor Caio gostava. Já Maria das Dores, era sempre gentil com
eles, mas não participava muito das conversas, ficava mais na cozinha
preparando alguma coisa e tossindo cada vez mais constante, o que
deixava o pequeno Samuel cada vez mais preocupado.
Estavam no primeiro semestre da quarta série, a amizade cada
vez maior e o amor de Samuel por Amanda também aumentava com
o tempo. Ele desconfiava que ela também sentia algo por ele, no
começo tinha até ciúmes de Clever, mas como percebeu que Clever
gostava era de paquerar todas, foi perdendo o ciúmes, entretanto,
estava pensando em uma maneira mais clara de demonstrar o seu
amor por Amanda, mas mesmo gostando tinha medo, de como o seu
pai, acabar vivendo escondendo os sentimentos.
Tinha dado o sinal do recreio, dessa vez Clever não esperou por
eles, provavelmente saiu correndo para “aprontar” alguma. Amanda
foi arrumando as coisas bem devagar, como se quisesse ficar sozinha
com Samuel, pelo menos foi o que ele pensou, mas vendo que Fred
e seus dois amigos não saíam da sala, se levantou para sair. Foi nesse
momento que Fred esbarra em Amanda e lhe levanta um pouco a
saia ao ponto de poder ver a calcinha e ainda fazendo um comentário
chulo a respeito da cor.
Nesse momento Samuel não tinha tempo para pensar ou agir.
Poderia até mesmo “sacrificar” a vida, afinal, eram três gigantes que
ele enfrentaria, mas ao lembrar da história que sua mãe contava
acerca de Davi e Golias, criou coragem. Porém, na história de Davi,
havia apenas um gigante para enfrentar, pensou ele logo em seguida,
mas seria o herói do seu grande amor, demonstrando o maior ato de
bravura que alguém poderia ter, além do que poderia conquistar de
vez o coração de sua amada. Ao contrário, poderia ignorar a situação
e ser, aos olhos de Amanda, um covarde que não pôde defendê-la.
A verdade é que Samuel já se achava isso mesmo, um covarde que
nunca soube falar dos seus sentimentos, e até mesmo com o pai, que
nunca conseguiu questioná-lo porque ele nunca demonstrava que o
amava.

41
Tempo de Descoberta

Foi nesse momento que Fred sentiu um empurrão que lhe


derrubou no chão e Amanda ouviu Samuel gritar:
- Corra Amanda, corra - ordem que ela obedeceu imediatamente,
tanto por causa do choque em que estava, mas também para procurar
Clever e Mário para irem ajudar Samuel. Já Samuel quis que ela
corresse, tanto para ela ficar livre deles, como para não ver a maior
surra que ele estava prestes a tomar, como imaginava.
Apesar de todo o peso, Fred levantou-se rapidamente “bufando”
como um touro. Os outros dois amigos já estavam segurando Samuel
contra a parede, cada um segurando em um braço. Cerrando o punho
e com os olhos vermelhos de ódio, Fred disse:
- Você agora vai se arrepender de ter nascido.
Nesse momento Samuel fecha os olhos esperando o golpe fatal.
O murro, dado com muita violência, bem no meio da testa e um
grito de muita dor, fazendo com que os amigos soltassem Samuel.
Novamente Fred vai ao chão, agora ao lado de um sapato, o sapato
de Clever. Naquela hora Samuel agradeceu aos “treinos” que eles
faziam quando sentavam no galho da jabuticabeira e atiravam pedras
em alvos que achavam, como gatos, latas, ou simplesmente, ver
quem atirava a pedra mais longe. Golias estava novamente no chão,
Davi não era ele e sim seu melhor amigo, Clever. Entretanto, Golias
não estava morto, então levantou-se novamente e os três foram em
direção de Clever, que toma uma atitude que fez o coração de Samuel
parar. Ao invés de sair correndo como de costume, ele tira do bolso de
trás um canivete suíço que tinha ganhado de presente de Caio, no seu
último aniversário, e apontou para Fred dizendo com uma voz firme e
alta que Samuel nunca tinha ouvido antes de Clever:
- Pode vir seu porco, que vou enfiar esse canivete inteiro até
sumir na sua banha.
Fred e seus amigos não podiam acreditar no que estavam vendo.
Eles param, mas o ódio continuava no olhar. Samuel estava perplexo,
ficou com vontade de sair correndo, mas não poderia fazer isso, seria
a pior atitude, contudo, se preparou para correr e gritar se acontecesse
alguma coisa.

42
Capítulo 3 - O pequeno grande amigo

- Ok, essa você venceu, mas me espere, você não perde por
esperar – disse Fred. E assim os três vão embora olhando friamente
nos olhos de Clever.
Nesse momento Samuel, que estava tremendo, percebe que
Clever também estava tremendo de medo e deixa o canivete cair no
chão, ele veste de novo o sapato e pergunta:
- Será que eu teria coragem de enfiar o canivete na barriga
dele?
Nisso surge Amanda acompanhada de Mário.
- Graças a Deus você está bem, mas o que aconteceu? - pergunta
Amanda. Samuel não queria dar o gosto da vitória para Clever, por
mais que estava grato, ele é quem tinha que ser o herói de Amanda.
Percebendo o silêncio de Samuel, Clever disse:
- Não sei direito, quando cheguei vi os três saírem correndo e
Samuel de punho fechado gritando para não voltarem mais.
Amanda achou aquilo meio estranho, mas o importante era que
ele estava bem, já Samuel olhou para Clever com um ar de dupla
gratidão.
- Vamos Samuel, mas por favor não precisa se arriscar assim,
mas...., muito obrigada, você foi o meu herói – disse Amanda dando-
lhe um beijo na bochecha. Essa frase passaria pela cabeça de Samuel
durante anos, até mesmo depois de adulto. E a bochecha ficou uma
semana sem lavar.
Ao saírem da escola Samuel e Clever pararam embaixo da
jabuticabeira, ficaram um tempo em silêncio, depois Samuel cortou
o silêncio:
- Obrigado – disse Samuel.
- Não tem de que, afinal, você gosta dela e ela de você, eu já
tenho namorada, e sei que você faria a mesma coisa por mim – falou
Clever com um sorriso malandro nos lábios, revelando um “grande”
segredo. Mas Samuel ficou quieto pensando, pois não sabia se faria a
mesma coisa, aliás, tinha quase certeza que não, pois a coragem não

43
Tempo de Descoberta

era o seu forte, mas lógico, não admitiu isso para Clever, fez um sim
com a cabeça, logo em seguida Clever continuou:
- Sabe a Sheila da quarta b? Ontem na aula de natação eu dei
um beijo nela embaixo da água – disse Clever, agora com um sorriso
de conquistador.
- Foi de língua? – indagou Samuel, que tinha ouvido alguém da
quarta série falar que beijo de verdade tinha que ser de língua.
- Claro que não, ia entrar água na nossa boca – respondeu
Clever, mas novamente abriu um sorriso de conquistador e continuou
– mas o próximo será.
Samuel sentiu uma certa inveja, pois ainda não tinha beijado
e já tinha “quase” 10 anos, mas ele não queria beijar qualquer uma,
apenas Amanda tinha importância, e Samuel ficou pensando no que
Clever falou “você gosta dela e ela de você”.
- Você acha mesmo que ela gosta de mim? – perguntou
Samuel.
- É lógico! – respondeu Clever.
- Você é o irmão que eu nunca tive – disse Samuel, sendo uma
das primeiras vezes na vida que tinha sido sincero e transparente nos
seus sentimentos, provocando um medo e alívio ao mesmo tempo;
depois do que Clever o abraçou e retribuiu o elogio:
- Você também – falou já se levantando e apostando com Samuel
quem chegava primeiro lá embaixo.
Definitivamente, Samuel tinha decidido expor seus sentimentos
para Amanda, não importavam as consequências que isto teria.
Aquelas férias de julho foram as mais longas que ele já tinha
tido, pois Amanda tinha ido passar as férias na casa dos avós, no
interior de São Paulo, e só voltaria no início do próximo semestre.
Clever passou metade das férias na casa dos primos em São
Paulo. Mesmo não tendo pai, a família de Dona Áurea era grande,
ela tinha quatro irmãos e vários sobrinhos e Clever sempre voltava
contando as aventuras que aprontava na grande cidade.

44
Capítulo 3 - O pequeno grande amigo

Samuel aprendeu a respeitar mais as pessoas com a vida da


Dona Áurea, ele achava que toda mulher que tinha filho e não era
casada, era ruim, mas depois de conhecer Dona Áurea, ver o amor que
ela dava para o filho e o sacrifício que fazia, trabalhando e cuidando
da casa, fez com que Samuel mudasse de ideia, além de seus pais
sempre elogiarem a garra de Dona Áurea, principalmente sua mãe,
que mesmo sem conhecê-la muito bem, achava ela uma vitoriosa pela
educação que dava para o filho.
Samuel passou as férias em casa, pois não tinha uma grande
família e nem primos. Às vezes achava meio tediosas as férias, mas
Maria das Dores sempre estava presente, até brincando com ele,
perguntando dos amigos, o que ele achava da escola, pintava junto
com ele seus desenhos, ele tinha um verdadeiro orgulho da mãe.
Também gostava muito da comida, do pão de queijo que ela
fazia e, principalmente, das refeições de domingo. Mesmo sendo quase
sempre macarrão com muito molho, frango assado, farofa e maionese,
Samuel amava, achava divino o tempero da mãe. Sentia muita falta do
pai que, mesmo presente, era muito calado. Quando Samuel tentava
puxar uma conversa, o pai apenas respondia às perguntas. Se Caio
começasse uma conversa perguntando algo da vida de Samuel, ele
contava tudo achando que finalmente o pai estava interessado nele,
mas logo em seguida ele já ficava quieto novamente, fazendo com
que Samuel pensasse se tinha falado algo errado.
Quando Clever voltou das férias, Samuel ficou muito feliz, pois
teve de volta seu melhor amigo. Se encontravam quase todos os dias
na jabuticabeira e Samuel ouvia as histórias da viagem de Clever com
muita alegria, apesar da “ponta” de ciúmes que sentia.
Soltavam pipa, jogavam bolinha de gude, nadavam no açude.
Samuel se sentia livre e seguro ao lado de seu melhor amigo, pensava
que nada poderia separar a amizade deles, mas mesmo assim, todos
os dias Samuel contava nos dedos quando Amanda voltaria das férias,
a cada noite pensava: “uma noite a menos”.

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46
Capítulo 4
A Vingança

“Você quer ser feliz por um instante? Vingue-se!


Você quer ser feliz para sempre? PERDOE!”
Tertuliano

E

ra o ano de 1970, já tinha passado mais da metade do segundo
semestre e Samuel ainda não tinha falado nada para Amanda,
e isto o deixava preocupado, pois na quinta série talvez ela fosse
estudar em outra sala e tudo seria diferente. A amizade deles era cada
vez mais forte, e Samuel só conseguia enxergar Amanda, diferente de
Clever que todo mês trocava de “namorada”, apesar que até agora o
único beijo que tinha conseguido dar foi aquele embaixo da água.
Naquele segundo semestre, um dos momentos mais marcantes
para Samuel, foi o dia em que ele e Clever resolveram levar
Amanda para conhecer o lugar preferido deles, “o refúgio secreto”,
a jabuticabeira, pois a vista da cidade era linda. Tanto embaixo
como sentado nos galhos daquela árvore, eles se sentiam grandes e
colocavam para fora sonhos, fantasias e alegrias.
O que marcou a vida de Samuel naquele dia, foi que ao ver
aquele lugar, Amanda pediu o canivete suíço de Clever emprestado,
apesar que ela já tinha falado para ele várias vezes que aquilo não
era bom, era perigoso. Ela mal sabia que o canivete os tinha ajudado
a não tomarem a maior surra de suas vidas. Pegando o canivete, ela
escreveu na árvore o nome dela, ao lado o nome de Samuel, e o de
Clever ela escreveu na vertical. Logo depois olhou para eles sorrindo
e desenhou uma cruz, sendo que em um braço estava o nome dela,
no outro o de Samuel e no corpo o de Clever, e disse:

47
Tempo de Descoberta

- No amor de Deus, aprendemos a amar uns aos outros, e foi


Jesus que nos uniu para a nossa amizade ser eterna - falando isso,
ela estendeu a mão como um símbolo da união, e quando os três
colocaram uma mão sobre a do outro, eles as ergueram dando gritos
para o alto. Foi como se naquele momento tivessem feito um pacto de
amizade eterna.
Mas o que deixou Samuel pensativo, foi o fato de o nome de
Clever ser mais curto, então a lógica seria o nome dele estar do outro
lado do braço da cruz e o seu no corpo, pois era o mais comprido,
mas ela resolveu colocar o seu ao lado do dela, deixando ele muito
orgulhoso, e percebendo que ele era especial para ela.
Samuel a achava perfeita, tudo o que fazia e dizia era como um
anjo em sua vida. Depois de sua mãe, Amanda se tornou a pessoa
que Samuel mais gostava e a única que lhe tirava o sono, mesmo
estando apenas com nove anos.
Tudo isso fez com que finalmente tomasse coragem. Então, no
dia seguinte, durante a aula, ele escreveu um bilhete para Amanda:
“Querida Amanda, sempre lembro do primeiro dia que eu te vi, com
o vestido rosa, muito parecido com o vestido que a minha mãe tanto
gosta, queria que você soubesse como você é especial para mim, e
gostaria de saber o que você pensa de mim. Assinado: Samuel.”
Depois de escrever, ele ficou tremendo, pensando mil vezes se
deveria entregar ou não. Como era difícil expor os sentimentos, tinha
medo dela falar que ele confundiu tudo ou achar muito bobo o bilhete,
tudo vinha à sua cabeça, por isso, resolveu agir logo para não pensar
mais e se esconder como sempre fazia.
Para isso ele pediu o livro dela emprestado e colocou o bilhete
no meio dele, ele percebeu que ela leu e ficou simplesmente parada,
como se tivesse ficado congelada. Samuel ficou sem entender se
aquela era uma boa ou ruim reação.
Quando chegou o intervalo Amanda foi a última a sair para
deixar um bilhete no estojo de Samuel. Naquele intervalo Samuel não
conseguiu chegar perto de Amanda com tanta vergonha e medo que
estava, mas ficava ouvindo as histórias de Clever, suas conquistas e

48
Capítulo 4 - A vingança

travessuras, que Mário sempre escutava com muita admiração.


Assim que bateu o sinal do fim do recreio, Samuel foi o primeiro
a voltar para a sala para ver se tinha algum bilhete da Amanda.
Quando ele observa um papelzinho dobrado em seu estojo fica imóvel
durante alguns segundos – que pareceram uma eternidade – com a
mão tremendo ele abre para ler o que estava escrito no papel, mas
como um ar de defesa ele abre o papel ao mesmo tempo que fecha
os olhos, para então respirar fundo e abrir calmamente e ler o recado
“você é especial para mim”. Ele abriu um sorriso de alegria e alívio;
quando foi ler novamente com calma e mais atenção, viu que tinha
uma palavra pequena, mal escrita no começo da frase que o deixou
“branco”, assustado e pareceu que o chão saiu debaixo de seus pés. O
que realmente estava escrito era: “você não é especial para mim”.
Ele cerrou os olhos, não podia acreditar que metade da sua
“longa” vida tinha sido dedicada à um amor que não era correspondido,
que tinha sido enganado, bobo durante todo esse tempo, enquanto
pensava tudo isso começou a ouvir gargalhada do restante da classe,
provavelmente já zombando do romantismo estúpido dele, pensou,
forçando para segurar as lágrimas que lutavam para sair de seus
olhos.
Foi nesse momento que ele abre os olhos e vê várias fotos
coladas no quadro, pois ele tinha entrado com tanta preocupação em
si mesmo que não tinha reparado no quadro. As fotos continham a
imagem de uma mulher nua ao lado de um garoto e na cabeça da
mulher e da criança havia uma foto da mãe de Clever e dele mesmo,
e na frente a foto de vários homens, todas fotos tiradas de revista, e
na cabeça do garoto havia um balãozinho com a pergunta: “quem é o
meu pai?”, à qual a mãe respondia: “não sei, foram tantos homens”.
A vingança que Fred tinha prometido para Clever tinha se
cumprido, ele não tinha dúvida que tinha sido Fred o autor da terrível
“brincadeira”, e tinha atingido Clever justamente no que mais lhe
doía, ele tinha voltado no meio do intervalo, roubado as fotos do
estojo de Clever e juntamente com o seus dois comparsas tinham
montado aquilo.

49
Tempo de Descoberta

Mas o que Samuel também não sabia e ficou anos sem saber,
foi que o “não” na frase de Amanda também tinha sido colocado por
Fred, que observando a troca de bilhetes, fez tudo isso no intervalo
para se vingar de todos, e com certeza não imaginava que aquele
simples “não” mudaria a vida de Samuel e seus amigos para sempre.
Clever sai correndo e chorando da sala de aula, onde Amanda o
acompanhou, ignorando totalmente a dor de Samuel, aliás, que ficou
tão forte em sua dor que esqueceu de também ir socorrer o amigo que
tinha sido humilhado publicamente.
Pela primeira vez Samuel foi sozinho para o pé de jabuticaba
depois da aula, onde sentou olhando para o nome deles que Amanda
tinha escrito e tentando entender o que estava acontecendo. Sentiu
pena de Clever pelo que tinha acontecido, mas nesse momento, ele
estava ao lado da pessoa mais importante que Samuel conhecia,
fazendo com que ele ficasse mais uma vez com o sentimento confuso,
agora misturando compaixão com ciúmes por Clever e amor e raiva
por Amanda.
Naquela noite Samuel não conseguiu dormir direito, tentando
entender o que tinha acontecido. Sua mãe, vendo a tristeza, perguntava
o que tinha acontecido, mas ele preferiu guardar para si o sentimento,
pois o seu pai o tinha ensinado bem a guardar. Mesmo assim, Maria
das Dores foi à noite ao seu quarto e lhe contou a história da mulher
que levaram para Jesus acusando de ter cometido um terrível pecado,
Ele simplesmente se cala e escreve no chão, até que diz “quem não
tem pecado que atire a primeira pedra”. Ao sua mãe contar a história,
lembrou imediatamente de quando Amanda escreveu no chão, e
logo depois de Clever atirando o giz na cabeça de Fred e na outra
vez, atirando o sapato. Talvez Clever se achasse sem pecado, talvez
tivesse que perdoar Amanda, talvez simplesmente não entendia nada
e queria apenas sumir, preocupado tanto com a sua própria dor que
nem telefonou para Clever para saber como estava. Em meio a tosses
Maria das Dores beijou a testa de Samuel com a ternura de sempre e
lhe deu boa noite, retirando-se do quarto.
No dia seguinte na aula, ele perguntou para Clever como ele
estava, tentando mostrar que estava preocupado com o amigo.
50
Capítulo 4 - A vingança

- Eu odeio aquele gordo - foi a resposta que deu, quase fechando


os olhos de raiva. Samuel nunca tinha visto tanta raiva no olhar de
Clever como naquele dia.
Nessa e na semana seguinte Amanda preocupou-se mais em
consolar Clever do que com Samuel, e este também já estava mais
frio, resolvendo esconder mais os sentimentos, negando inclusive o
convite dela para ir à igreja, onde pela primeira vez foram apenas ela
e Clever.
Mas teve que ir à igreja com os pais, pois dessa vez o senhor Caio
também foi, não tendo assim desculpas para não ir. Samuel gostava da
igreja, achava algumas coisas estranhas, mas tinha amigos lá. O pastor
Narciso era um jovem pastor, mas que colocava uma interrogação
na cabeça do pequeno Samuel; ele era muito carismático, procurava
mostrar para todos que era muito amigo de Deus, muito mais que
qualquer outra pessoa, e que a oração dele é que tinha poder. Também
Samuel sempre lembrava apenas de duas palavras das mensagens
do pastor “dinheiro e demônio” que estavam praticamente em todas
as mensagens e, geralmente, eram acompanhadas de palavras como
“prosperidade, bênção, cura e muito aleluia”.
Após aquele culto, com muita insistência, o senhor Caio conseguiu
falar com o pastor, pois geralmente ele só falava com pessoas com
hora marcada, ainda mais depois que ele conseguiu tirar o pastor já
ancião da igreja e ficando em seu lugar como pastor titular.
Caio foi pedir oração pela sua esposa, Maria das Dores, que
estava a cada dia com mais tosse e dor no peito, já tinham ido a
alguns médicos, mas cada médico falava uma coisa diferente. Com
isso o pastor disse que aquilo era demônio que estava atacando por
eles não estarem sendo fiéis nos dízimos. O pai de Samuel tentou
explicar que tentava, mas estava gastando muito com os médicos e
medicamentos e não ganhava muito. O pastor Narciso aconselhou a
terem fé, largarem os medicamentos e darem o dízimo e o dinheiro
dos remédios que ele iria reivindicar que Deus a curasse.
O senhor Caio ficou meio temeroso, mas Maria das Dores o
incentivou a obedecer. Samuel nunca soube se foi para testar a fé

51
Tempo de Descoberta

ou simplesmente por estar cansada, mas uma coisa era certa, ela
estava mais quieta, mas não como se estivesse em depressão e sim
em reflexão, aumentou o seu carinho, inclusive com Caio, e tinha um
ar de paz que Samuel nunca tinha visto, e isto definitivamente não era
por causa da igreja.
Nessa época o senhor Caio tinha parado de vez de beber, pois
além do dinheiro estar faltando, achava que mostrando para Deus o
seu sacrifício, Deus ia ter compaixão deles e curar de vez Maria das
Dores. Para Samuel tudo aquilo era muito confuso para sua cabeça
de dez anos de idade.
Mas uma coisa ficou clara na cabeça do pequeno Samuel, como
seu pai gostava de sua mãe, pois foi clara a preocupação dele desde o
início, demonstrando carinho e afeto que ele nunca havia visto antes,
e também que o pai nunca havia lhe dado.
Mesmo doente, Maria das Dores sempre ajudava Samuel na
lição de casa, perguntava sobre o dia, o que tinha feito, brincado,
sobre seus amigos, o que ele queria que ela fizesse de sobremesa.
Nunca e em nenhum momento, por pior que estivesse, deixou de
demonstrar preocupação com o filho ou reclamou de alguma coisa.
Clever começou a ir com mais frequência com Amanda para a
igreja, também começou a levar sua mãe que gostava muito e, se antes
ela já tinha o coração bom, agora então muito mais. Era sorridente e
estava já ativa na SAF - Sociedade Auxiliadora Feminina da igreja.
Samuel percebeu que Clever, aos poucos, ia mudando seu
comportamento na escola, já não aprontava tanto com o Mário, nem
“aprontava” nada mais muito sério, mas continuava brincalhão e
alegre como sempre, esquecendo da brincadeira de mau gosto que
Fred tinha feito com ele, inclusive até sobre o fato de não ter pai. Já
falava do assunto com mais facilidade sem muita mágoa, apesar de
sempre falar com um ar de tristeza e esperança ao mesmo tempo.
Outra cena que marcou Samuel nessa época, foi quando ele
com seus pais foram novamente falar com o pastor, pois o senhor
Caio tinha feito tudo, dado até mais que o dízimo, mesmo o dinheiro
faltando em casa, e não via Maria das Dores melhorar. Então o pastor

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Capítulo 4 - A vingança

falou para Samuel orar, pois era criança e Deus sempre ouve as
crianças de coração puro. Aquilo causou um grande peso e confusão
na cabeça de Samuel, pois começou a achar que se a mãe não
melhorasse, ele é que seria culpado, além do que ele não era lá puro,
sabia de seus sentimentos e sabia que Deus sabia. Além disto, nem
orar direito sabia, pois só havia aprendido a orar antes das refeições,
ou quando sua mãe lhe insistia muito.
Com medo, Samuel não queria orar. Sua mãe, como sempre,
percebendo tudo, disse que não precisava, era só para ele orar a sós
com Deus que Ele iria ouvir e fazer o que era melhor.
Samuel percebeu que o pastor Narciso não gostou muito de
ter uma ordem desobedecida, pegou um pouco de óleo, passou na
cabeça de Maria das Dores e fez uma oração curta e séria, em seguida
falou para Caio comprar um vidro do óleo santo e passar todo dia em
Maria das Dores que ela iria ser curada, pois Deus tinha mostrado isso
a ele.
A essa altura o senhor Caio já não tinha tanta fé no pastor, mas
como as opções eram poucas e Maria das Dores só piorava, resolveu
obedecer tudo fielmente e Samuel cada vez mais confuso com a igreja
e suas ideias.
Enquanto isso, começou a tratar Amanda mais friamente e
nunca mais tocou no assunto do bilhete, e ela não entendia o porquê
dele agir assim.
- Aconteceu alguma coisa? Quer conversar? - perguntou
gentilmente Amanda para Samuel no recreio, enquanto Clever tinha
ido com o Mário comprar balas na cantina.
Samuel ficou irritado com a pergunta, como ela ainda tinha
coragem de perguntar isso, depois de tudo o que fez, pensou ele, mas
a única coisa que conseguiu dizer foi:
- Não. – Ao falar já foi indo em direção dos amigos que estavam
voltando com as mãos cheias de balas, ignorando assim Amanda, que
ficou triste com a situação, mas não disse mais nada.
Samuel sabia que não tinha agido corretamente, mas seus

53
Tempo de Descoberta

sentimentos por Amanda estavam confusos, sabia que a tinha feito


sofrer, mas, afinal, ela merecia pelo que fez com ele. Dessa maneira
Samuel ia aprendendo a justificar seus erros.
Sempre que Clever tocava no assunto, ele dizia que estava tudo
normal ou mudava logo de assunto, mas o amigo estranhava muito a
atitude dele para com a garota que ele sempre foi apaixonado, e assim
eles entraram na quinta série.
Às vezes Samuel pensava em falar com sua mãe sobre o assunto,
mas não queria lhe dar mais preocupação, pois percebia que a sua
saúde só piorava, por mais que ela quisesse disfarçar.
Mesmo Clever sendo seu amigo este também tinha ficado muito
amigo de Amanda, por causa da igreja, e tinha medo de comentar
algo com ele, e Amanda ficar sabendo. De vez em quando, Samuel
dava alguma indireta para ver se Amanda tinha comentado alguma
coisa, mas ele parecia não perceber e não comentava nada, então
Samuel resolveu deixar esse assunto de lado e falar apenas outras
coisas com Clever, que sempre estava junto dele.
Seu pai, diferente de sua mãe, já não conseguia esconder a
preocupação com a esposa, isto deixou Samuel mais assustado, pois
o senhor Caio não era muito de demonstrar sentimentos, e se não
conseguia esconder, era porque a coisa era mais séria do que ele
pensava.

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Capítulo 5
O fim da dor

“Cresci esperando que um relacionamento com Deus trouxesse ordem,


certeza e o sossego da racionalidade para minha vida. Em vez disso,
descobri que viver na fé acrescenta mais tensão à dinâmica.” – Philip Yancey

O

ano de 1973 foi marcante para a vida de Samuel, ele já estava
quase no final da sexta série, e sua amizade com Clever cada
vez mais forte; ele o tinha como um irmão e sabia que para Clever o
sentimento era o mesmo, achava até que Clever gostava mais dele,
do que ele de Clever, pois chegava a sentir ciúmes, já que Clever
estava ficando cada vez mais “popular” na escola. Tinha muitos
amigos, sempre sorrindo e era um dos melhores da classe, porém
Samuel tinha, ao mesmo tempo, orgulho de ter Clever como seu
melhor amigo, fazendo com que a eterna confusão de sentimentos
prevalecesse em sua cabeça.
Já com Amanda, Samuel mantinha ainda uma boa amizade,
pois o tempo foi diminuindo a raiva, apesar de Samuel não conseguir
entender o que ocorreu, pois nunca ela parou de demonstrar carinho
por ele, nem mesmo quando ele a tratava de uma maneira mais fria.
Faziam tarefas juntos, frequentavam a casa um do outro e Amanda
sempre perguntava da saúde de Maria das Dores, mostrando uma
preocupação sincera, e quase todo dia ela falava para Samuel avisar a
sua mãe que estava orando por ela. Aquelas atitudes faziam com que
o carinho de Samuel por Amanda crescesse sempre, mas quando isso
acontecia ele lembrava do “maldito” bilhete e fechava novamente a
“porta” de seu coração.
Samuel pensava em comentar com Clever sobre o bilhete,
mas tinha medo ou vergonha, não sabia definir, e também pensava
55
Tempo de Descoberta

que não tinha por que comentar, pois o bilhete tinha sido bem claro,
bilhete esse que Samuel nunca teve coragem de jogar fora, e quando
ficava “mais fraco”, pensando novamente em abrir o seu coração para
Amanda, ele lia o bilhete que o ajudava a se trancar no seu mundo.
Uma das cenas que marcou Samuel foi uma vez que sua mãe
ficou internada por duas semanas e Amanda foi todos os dias visitá-
la, e sempre levava flores, indo inclusive uma vez com seu pastor.
Um senhor de 60 anos, o cabelo já totalmente branco, mas com
muito cabelo, já apresentava a canseira da vida, mas ele tinha algo
diferente, não parecia um “super pastor”, como o da igreja que
Samuel frequentava, pelo contrário, parecia bem fraco, ainda mais
com a idade, e ao mesmo tempo, ele demonstrava uma força e paz
que Samuel nunca tinha visto.
Samuel estranhou que ele não a ungiu com óleo e nem fez
aquelas orações altas e em línguas estranhas que era acostumado a
ouvir, mas trouxe uma paz para o lugar que acalmou o coração de
Samuel de uma maneira diferente. Ao ir embora Samuel resolveu
perguntar para o pastor Antônio Elias se sua mãe ficaria boa, já
imaginando a resposta, como do outro pastor “que Deus era obrigado
a curá-la, pois na cruz ele tinha levado todas as nossas enfermidades”.
Mas, ao invés disso, o pastor disse:
- Não sei meu filho, mas uma coisa eu sei, Deus está cuidando
dela.
Samuel não entendeu como Deus pode cuidar, se tem o poder
para curar e não cura, como um pastor poderia não saber se Deus ia
curar? Tudo isso confundiu muito a cabeça de Samuel que já estava
com 12 anos, mas, o mais interessante foi que mesmo assim ele teve
mais respeito por esse pastor do que o da sua própria igreja, que
gostava de se gabar de ser um “super pastor”, aliás, nessa época, já
tinha sido “promovido” a bispo. Apesar de todo o respeito que teve
pelo pastor Antônio Elias, Samuel preferiu acreditar em seu pastor,
pois isso significava a cura da mãe, e era mais fácil acreditar naquele
que prometia o que ele queria, mesmo indo contra a sua razão.
Já fazia dois meses que Maria das Dores mal saía da cama.

56
Capítulo 5 - O fim da dor

O senhor Caio demonstrava, nesse tempo, toda uma preocupação


e carinho por sua esposa que deixou Samuel espantado, pois eram
demonstrações de sentimentos que ele nunca tinha visto. O mais
interessante é que mesmo sendo Maria das Dores quem estava doente,
quem parecia doente era o senhor Caio, tamanha tristeza que tinha no
olhar, diferente de Maria das Dores, que só transmitia paz e amor em
seus olhos, e via claramente que a preocupação dela, era não deixar
preocupada a sua família.
Como no nascimento de Samuel, chovia naquela manhã e isso
trouxe à mente de Maria das Dores muitas lembranças, tanto boas
como tristes, lembrando da vida sofrida de seu pai, e como ele acabou
sozinho seus últimos dias, lembrando os momentos alegres ao lado do
marido, o milagre do filho, as amigas que teve em sua vida.
Depois de horas de silêncio, escreveu um pequeno bilhete,
nisto entra o senhor Caio com o almoço na mão, nessa época, ele já
estava com 61 anos. Nesses três anos de enfermidade de sua esposa,
ele praticamente perdeu todos os cabelos, e os poucos que sobraram
estavam brancos, tinha emagrecido cerca de 15 quilos e a tristeza que
tinha no rosto fazia com que parecesse até mais velho, tristeza essa
que em vão ele tentava esconder de Maria das Dores.
- Deixe esta comida de lado querido - disse Maria das Dores -
antes de comê-la vamos saborear a comida da verdade e sinceridade.
Aquelas palavras, mesmo sem ele entender bem, gelaram o seu
coração.
Maria das Dores pegou na mão de seu esposo e fez uma pequena
oração:
- Querido Deus, dirija o meu pensamento, meu coração e meus
lábios, e para meu marido dê a sabedoria de ser apenas o que o
Senhor quer que ele seja.
- Querida, acho melhor você comer um pouco e descan....-
tentou falar Caio, quando foi interrompido por Maria das Dores:
- Querido, por favor, apenas me escute por alguns minutos -
falou, colocando suavemente dois dedos nos lábios de seu amado
esposo.

57
Tempo de Descoberta

- Sempre achei que o destino tinha sido irônico comigo dando-


me um nome de “dores”, dores essas que sempre tive, não agora que
estou doente, pelo contrário, agora vivo sem “dores”, mas dores na
falta de minha mãe, no silêncio cruel do meu pai e suas bebidas, no
seu silêncio e traições... Nesse momento Caio esboçou uma reação,
gelou frio, a última coisa que queria era que Maria das Dores lembrasse
de falhas que ele procurou esquecer, e ainda nessa situação, onde a
única coisa que ele queria era ver sua amada melhor.
- Por favor, querido, não estou lhe acusando de nada, tudo já
está perdoado, e quando digo traições, não digo as traições comigo,
e sim contigo mesmo...”. Nesse momento, Caio ficou confuso, mas
começou a perceber. Deu um grande nó na garganta, abaixou os
olhos para, de uma maneira sobrenatural, segurar as lágrimas que
insistiam em querer sair.
- Como estava lhe dizendo, achava que tinha nascido para ter
dores, mas o interessante foi que nesses últimos anos percebi que
grande mentira foi essa. Esta enfermidade, na verdade, curou a minha
alma, sempre achei que meu pai, a falta de dinheiro, beleza, a sua
indiferença, o jogo de poder e vaidade que via na igreja, iam me
tirando a vida, me fazendo acreditar que não poderia ser feliz. Recebia
tudo aquilo como um grande lixo, o qual plantava em minha cabeça
e cultivava. Era como quando você é criança, leva um grande tombo
de bicicleta, e fica com uma “bela” ferida na perna, e quando forma
a casca grossa, no lugar de esperar secar e cair, você vai e a arranca e
ainda a “cutuca” para sangrar mais ainda. Era assim que eu fazia com
as informações que recebia na minha vida, afinal, achava mais fácil ser
vítima da vida e achar culpados pela minha tristeza.
- A doença – continuou Maria das Dores - me afastou da igreja,
mas me aproximou de Deus, e Ele começou a tirar o lixo que em
tantos anos eu cuidei e “cultivei” em minha mente, para plantar um
jardim florido e regado com seu amor. Sentia um certo “prazer” no
sentimento da autopiedade, era a minha fuga, a maneira de me manter
viva, mas que engano foi isso, quanto tempo perdi na minha vida. Em
vez de procurar entender e viver a cada momento como momentos
ímpares, preferi me refugiar em meu mundo e culpar o “mundo” pela

58
Capítulo 5 - O fim da dor

minha dor, mundo do qual você faz parte. Hoje percebo que se tivesse
procurado te entender mais, abrir mais o meu coração para você, lhe
ajudar em suas dores, pois o seu silêncio e erros nada mais foram
que também fugas, fuga de viver uma vida sozinho, longe da família,
fuga de não conseguir realizar o sonho de ser um professor que mais
do que dar aula, transformava vidas, pois foi engolido pelo sistema...
Nessa altura, Caio já não conseguia esconder as lágrimas que já lhe
manchavam a camisa, percebeu pela primeira vez que Maria das
Dores o conhecia muito bem, até melhor do que ele mesmo.
- ... se nas noites em que você chegava tarde ou tinha bebido
demais, se ao invés de criticar, tentasse entender o porquê e lhe ajudasse
a mudar, pois sabia que essa não era sua natureza; se ao invés de ficar
magoada pela falta de flores, de palavras de carinho, tivesse plantado
em seu coração amor no lugar de ressentimento, tudo isso poderia
ser diferente. Na verdade, também me traí, quando escolhi ser vítima,
escolhi ser “das dores”...
- Querida, você ..., o senhor Caio tentou falar algo entre as
lágrimas, mas não conseguia.
- ...não estou dizendo que sou culpada,- continuou Maria das
Dores, não, não me culpo de nada, pois hoje sou livre, sou livre dos
traumas, da autocompaixão, das dores... sempre procurei ser vítima da
minha história, mas hoje posso lhe dizer que virei autora. O que quero
dizer é que aprendi a enxergar as informações com outros olhos, olhos
na cruz. Deus me viu com outros olhos, com olhos de amor, mesmo
eu sendo, nós sendo quem nós somos. Aprendi que o grande segredo
da vida, não é o que acontece, e sim como recebemos o que acontece,
como reagimos nas situações da vida, e não apenas nas ruins, mas nas
boas, nas quais o orgulho e vaidade nos tentam a viver em um mundo
de ilusões. Hoje aprendi que o amor independe de sentimentos, mas
sim de escolhas... .
Nesse momento, o lenço de Caio já estava totalmente encharcado,
o chão parecia que lhe tinha desaparecido dos pés, eram muitas
verdades sendo expostas para quem viveu uma vida de máscaras,
tentando acreditar nas mentiras contadas a si mesmo. Era como se
estivesse sendo arrancado do seu mundo de ilusões e ficado nu diante
59
Tempo de Descoberta

da verdade absoluta da alma, isto, por mais que parecia libertar, lhe
dava medo, pois até então era o que tinha sido a sua vida, a ilusão no
mundo das ilusões.
- ... querido, escolha ser livre, você não é obrigado a viver
“preso” no seu passado, não importa como você recebeu tudo até
hoje, o que lhe aconteceu quando criança, os seus erros de adulto em
consequência dos acontecimentos e escolhas, hoje você é livre, em
Deus somos livres, e Ele vai lhe dar força para mudar. Nunca é tarde
para mudar, para viver, isso dói, machuca, pois significa tirar a máscara,
se encarar, ver que passou anos tentando se enganar, ninguém gosta
de se assumir assim, mas é nessa condição que Deus nos restaura e
reergue, com um coração limpo, sem máscaras, sim, ainda há tempo
para viver.
- Como posso mudar assim, já sou velho, não tenho forças, sei
que falhei muito...
- Não, você não é velho para mudanças querido, enquanto há
vida, há esperança, e não mudamos por nossas forças, Ele é quem nos
muda, basta tirar as máscaras, aceitar quem somos e o que precisamos
mudar, só assim podemos descobrir a vida e sermos felizes,... Samuel...
- Nesse momento os olhos de Maria das Dores também se encheram
de água, ela engoliu o nó na garganta e agora com a voz mais fraca
continuou: - Samuel é ainda muito novo, mas já aprendeu a lição do
“faz de conta” da vida, aprendeu a esconder sentimentos, a achar um
culpado com medo de se decepcionar consigo mesmo, aprendeu, pois
é isso que ele vê todo dia na escola, na rua, na igreja... – e agora com
a voz praticamente faltando continuou “...conosco.”.
Ao falar isso, ela retoma a força de uma guerreira, olha com um
olhar de esperança nos olhos de seu marido, lhe aperta a mão e diz:
- Mas você pode ensiná-lo a ser verdadeiro, a não ter medo de
seus sentimentos, não ter medo de errar, de cair, de amar, não ter
medo de ser quem ele é. Em Deus você pode ser livre e ajudar Samuel
a descobrir o que é a verdadeira liberdade, pois a maior conquista que
alguém pode ter é a liberdade da alma.”
- Nós, nós podemos... – tentou falar o senhor Caio.

60
Capítulo 5 - O fim da dor

- Não querido, eu já não tenho mais tempo...- respondeu Maria


das Dores.
- Por favor...., não fale isso....- tentou de alguma maneira se
consolar o senhor Caio.
- Querido, não precisamos mais viver no mundo das ilusões, já
não tenho mais forças, já chegou a minha hora, mas vou livre, liberta,
feliz, pois mesmo já sendo velha, aprendi a viver, e isto ninguém
pode tirar de mim,.... nem a morte, – disse Maria já com a voz agora
faltando, mas com tanta convicção que nem a falta da voz lhe parecia
menor.
O senhor Caio, travava nesse momento uma luta muito grande
consigo mesmo, queria ser livre, queria dizer tudo o que precisava,
tudo o que sempre quis dizer e nunca disse, precisava, antes que fosse
tarde demais. Precisava falar do seu amor, pedir perdão e, acima de
tudo, precisava contar algo para Maria das Dores. Nisto confundiam-
se os sentimentos, medo, liberdade, e principalmente, medo de fazer
Maria das Dores sofrer mais; mas, como parecia que ela já sabia de
tudo, engoliu seco e começou a tentar falar algo:
- Eu preciso lhe dizer tanta coisa, preciso lhe pedir perdão, preciso
lhe contar... - Nesse momento as palavras sumiram, tentou achá-las
de alguma maneira, e quando já estava tendo força novamente, Maria
das Dores outra vez lhe toca gentilmente os lábios e lhe disse:
- Querido, já está tudo perdoado, eu te perdoei, eu me perdoei...,
– falou sorrindo, - ...mesmo você não me falando muitas coisas,
aprendi a lhe entender e amar, aprendi a ouvir o seu silêncio, o seu
olhar, não se culpe, seja livre, e saiba que nunca, nunca me arrependi
de casar com você, você foi e é o meu “príncipe encantado”, não o
idealizado que nada mais é do que uma fuga, pois ninguém realmente
o é, quando apenas é um ideal de outro, mas foi o meu príncipe
que, mesmo sem saber, me ajudou a me achar, hoje o meu “príncipe
encantado” carequinha, - falou Maria das Dores esboçando um sorriso
nos lábios.
Nesse momento Caio teve que se levantar e ir correndo ao
banheiro, pois já estava soluçando de tanto chorar, precisava se

61
Tempo de Descoberta

recompor, mas, ao invés disso, se agachou como criança, ou melhor,


como um bebê no útero – talvez em um sentido de defesa ou como
se pudesse voltar ao passado, ao dia do nascimento – e chorou
durante alguns minutos, como se o tempo fosse só seu, um direito
que se deu, que precisava para poder ser alguém. Era como se aquele
choro colocasse para fora uma turbulência de sentimentos e emoções
guardadas tantos anos, e também o sentimento de não se sentir digno
de alguém como Maria das Dores, que por mais que muitas vezes ele
não soube demonstrar, chegando até mesmo a trair, ele a amava, e
como a amava.
Ao voltar para o quarto, após alguns minutos, Maria das Dores
pediu que ele ligasse para Samuel, que tinha ido à casa de Clever
após a aula, pois gostaria de falar com ele. Nisso ela entregou um
bilhete para Caio.
- Dê para Samuel caso ele não chegue a tempo..., disse ela
sorrindo, mas não para Caio.
- Por favor, não fale isso querida..., tentou responder já sem
voz Caio. Mas, com um belo sorriso que não demonstrava já o meio
século de vida que tinha, Maria das Dores respondeu:
- Jesus já está aqui para me levar ao lar... - Essas palavras
bateram forte no coração de Caio, mas que já não procurava mais
discordar de sua amada, e foi saindo em direção do telefone, quando
ouviu a voz vinda do quarto:
- Querido, ame seus filhos e faça-os perceber isso...- disse Maria
das Dores com voz de amor. Isso fez Caio ficar congelado durante
alguns segundos, era muita informação, muita dor, muita vida
passando em sua vida.
O senhor Caio sempre soube como sua esposa era sábia, mas
estava surpreendido com tantas palavras de sabedoria, percebendo
ainda mais a joia rara que era ela, com isso vinham à sua mente
remorsos pelos erros cometidos, mas era consolado pelas palavras
ditas por ela.
Ele estava disposto a mudar, mas, como poderia se ela partisse?
Como poderia fazer tudo aquilo sozinho? Naquela conversa no quarto
62
Capítulo 5 - O fim da dor

ela abriu a mente e o coração dele para ver quem ele realmente era, e
como precisava mudar, mas tinha medo de fazer isso sozinho, sem ela
era como se o chão desabasse debaixo de seus pés.
- Senhor, me ajude, sei que preciso mudar, mas não posso sem
ela, cure-a, por favor – orou Caio segurando o telefone antes de ligar
para o filho.
- Samuel, mamãe quer falar com você, por favor volte para casa
- disse Caio ao telefone, tentando esconder a voz rouca do choro.
- Ela está bem papai? - perguntou Samuel.
- Está... – engasgou Caio - ...está querendo falar contigo filho.
- Já estou indo - falou Samuel já desligando o telefone.
Dessa vez nem Amanda e nem Mário tinham ido fazer o trabalho
com eles.
- Tenho que ir, Clever, mamãe está querendo falar comigo -
disse Samuel demonstrando ansiedade em ir logo para casa.
- Você não pode ficar mais cinco minutos para a gente acabar
a lição? Só mais cinco minutos é o último trabalho do ano - pediu
Clever.
Samuel ficou pensando no pedido, nada era mais importante
que sua mãe, mas cinco minutos não fariam também muita diferença,
e quantas vezes ele tinha se atrasado bem mais do que isso.
- Ok, então vamos acabar logo - respondeu Samuel.
Por mais que Samuel tentasse, não conseguia se concentrar na
tarefa de casa, fazendo com que o trabalho ficasse mais demorado
ainda, pois não lhe saía da mente o recado do pai. O pior foi quando
Samuel percebeu que já tinham se passado 30 minutos.
- Nossa, tenho que ir, já faz meia hora que papai ligou, por favor,
termine por mim – falou Samuel, já arrumando suas coisas e indo em
direção da porta.
Clever, percebendo a preocupação do amigo, não disse nada,
apenas concordou com a cabeça e foi até à porta acompanhar
Samuel.
63
Tempo de Descoberta

Samuel resolveu ir a pé, pois seria uma “eternidade”, esperar o


ônibus, e ele lembrava quando a mãe resolveu esperar o ônibus no
primeiro dia de escola e ficaram mais tempo no ponto de ônibus do
que se tivessem ido a pé. Além do que, se fosse correndo num bom
“pique”, demoraria no máximo uns 10 minutos, já que Clever não
morava tão longe e era descida em direção à sua casa.
Samuel já estava todo molhado de suor, mas não parou de
correr, pois queria muito saber o que sua mãe queria lhe falar, além
de estar muito preocupado com ela, pois nas últimas semanas ela
tinha piorado muito.
Ao chegar à rua de sua casa, viu parar uma ambulância em frente
dela. Isso fez o coração de Samuel disparar ainda mais, parou por
alguns segundos e ficou olhando para casa com o coração disparado,
depois esqueceu completamente da canseira que estava sentindo,
correndo mais rápido do que quando tinha começado. Seu pai, que
fora abrir o portão para os médicos, viu Samuel chegando, falou algo
para os médicos que entraram em sua casa e saiu ao seu encontro.
Mil coisas começaram a passar em sua cabeça, queria saber
logo o que estava acontecendo, mas tinha medo. Tinha medo de ter
atrasado, e pior ainda ter atrasado por “cinco minutos” que Clever
pediu. Seu melhor amigo poderia ter tirado os cinco minutos mais
importantes de sua vida, mas, afinal, foi Samuel quem concordou.
Enfim, Samuel foi correndo pensando em tudo, mas resolveu parar de
pensar, pois não sabia ao certo ainda o que tinha acontecido, apenas
não queria se “atrasar”.

64
Capítulo 6
Mundo injusto

“E, no final das contas, não são os anos em sua vida que contam.
É a vida nos seus anos.”
Abraham Lincoln

E

la está melhor - disse o senhor Caio, chegando de cabeça baixa
e abraçando Samuel.
- Bem melhor do que nós, já sem dor, e nos braços do Pai, -
continuou falando Caio, agora já sem poder conter as lágrimas.
Samuel tinha entendido, mas não queria acreditar, queria que
tudo aquilo fosse um sonho, do qual iria acordar. Mas, pelo abraço
apertado e demorado que o pai lhe deu, pelo choro como ele nunca
havia visto o pai chorar daquela maneira, sabia que não tinha mais
esperança, sua querida mãe havia partido, e ele nem pôde se despedir,
e isso por causa dos cinco minutos que Clever lhe pediu.
O mais estranho para Samuel, foi que ele não conseguiu chorar,
não entendeu por que, mas, apesar de toda a dor, o aperto no coração
e toda a tristeza, as lágrimas não saíam, e procurou aos poucos sair
do abraço do pai. O pai nunca lhe havia dado um abraço apertado
e carinhoso, por que bem agora ele fez isso? Por causa da morte da
mãe? Ele não achava justo ele fazer isso apenas nesse momento, era
tarde demais, pensou consigo mesmo.
Enquanto pensava tudo isso e procurava se desvincular do
abraço do pai, o senhor Caio tira algo do bolso da camisa e entrega
para Samuel:
- Sua mãe me pediu para lhe entregar isso. - Samuel olhou

65
Tempo de Descoberta

trêmulo para aquele pedaço de papel, talvez o medo fosse maior pela
recordação do último bilhete que recebeu.
Samuel pegou o bilhete e saiu correndo, com tanta pressa e
angústia que nem conseguiu ouvir seu pai lhe chamando. Samuel
correu para o seu lugar de refúgio, a jabuticabeira.
Ao chegar perto, ele percebeu um intruso no seu lugar, isso
lhe acendeu a ira no coração, como alguém poderia roubar o “seu”
lugar nesse momento de dor? Mas, ao chegar mais perto, foi que ele
percebeu quem era, e vinha ao encontro dele.
-Samuel, eu sinto muito – falou entre lágrimas Amanda.
- Você já sabe? - perguntou Samuel, com um ar triste sem olhar
no rosto de Amanda.
- Sim, o seu pai me ligou para eu ir encontrar com você em
sua casa, mas imaginei que você viria para cá, então vim direto aqui
– falou Amanda, já segurando a mão de Samuel, como quem quer
passar segurança.
Samuel achava incrível como ela podia entender os seus
sentimentos, e aquele abraço de conforto que ela lhe deu naquele
momento se tornou para Samuel um dos momentos eternizados em
seu coração.
- Eu não entendo por que Deus fez isso com ela - falou com a
voz baixa e com indignação ao mesmo tempo.
- Tem muitas coisas que não entendemos Samuel, mas uma coisa
eu sei, Deus está cuidando, e ela está bem melhor agora, - respondeu
Amanda, já com os olhos cobertos de lágrimas, mas com uma paz que
Samuel não conseguia entender.
Samuel quis dizer para ela, que era fácil ela dizer, pois tinha os
pais, que praticamente nunca brigavam, o pai não bebia, mas, e ele?
Como ele iria ficar, se mal conhecia o pai que tinha? Mas não disse
nada, pois Amanda estava sendo tão doce com ele, que de maneira
alguma queria ofendê-la, além do que, ele sabia que ela não disse por
mal, mas por realmente acreditar, acreditar em um Deus que Samuel,
apesar de ter apenas 12 anos, começava a questionar a existência.
66
Capítulo 6 - Mundo injusto

Ficaram lá por um bom tempo, apenas sentados embaixo da


árvore e abraçados, um tempo que também ficou eternizado no
coração de Samuel, que resolveu não pensar em mais nada, apenas
ficar lá, ao lado agora da pessoa mais importante para a sua vida.
Nesse momento, o que assustou Samuel foram alguns
pensamentos involuntários que lhe vinham à cabeça. Queria perguntar
para Amanda sobre o bilhete, já que ela estava num momento tão
carinhosa com ele, mas, o que ela iria pensar? Que ele era insensível
querendo falar aquilo numa hora dessas, ele mesmo estranhou esse
pensamento, como pior ainda, estranhou pensar, por que Deus não
preferiu levar o pai dele, do que a mãe? Afinal, o pai era mais velho e
a mãe sempre conversava com ele, era sua amiga, agora ele iria ficar
com um “estranho” em casa.
Esse pensamento machucou muito Samuel, pois, como ele
poderia decidir quem era melhor, quem deveria viver? Ambos eram
os pais dele. Por isso, procurava fugir cada vez mais dos pensamentos
que rodeavam a sua mente.
- Tenho que ir - disse Samuel se levantando após um bom tempo
sentado junto de Amanda embaixo do pé de jabuticaba.
- Vou com você - respondeu Amanda.
- Não obrigado - disse Samuel procurando não ser grosso no
seu tom de voz.
- Tenho que ficar sozinho, mas obrigado por tudo - continuou
Samuel, olhando com olhos de gratidão para sua doce Amanda.
- Está bem, mas vou estar orando por você - disse Amanda
passando a mão no cabelo de Samuel, já se despedindo dele.
Samuel desceu e foi andando devagar, com medo do que
encontraria em casa, pois não queria ver os médicos lá, nem a sua
mãe morta, queria simplesmente ficar sozinho.
Ao chegar perto, viu que a ambulância já havia ido embora e o
pai estava na porta para esperá-lo.
- Samuel, fiquei preocupado, onde você estava? – perguntou o
pai com ar de tristeza e preocupação.
67
Tempo de Descoberta

- Eu tinha que ficar um pouco sozinho. Já a levaram? – perguntou


Samuel sem erguer a cabeça.
- Sim querido – lhe disse o pai, dando um meio abraço com
uma das mãos.
Samuel estranhou muito, seu pai tê-lo chamado de “querido”
Pensou, “ele nunca lhe tinha chamado assim, era a sua mãe que
lhe chamava, e agora ele queria pegar o lugar de sua mãe”. Esses
pensamentos perturbavam ainda mais Samuel, que procurou se
desvincular e ir para o quarto.
Ao entrar no quarto, procurou trancar a porta, sentou no chão
ao lado da cama, mas, antes, abriu a gaveta, onde tinha guardado o
bilhete que Amanda havia escrito, pegou na mão e com a outra mão
pegou o bilhete de sua mãe.
Ele não entendeu o que estava fazendo, qual era a comparação.
Talvez pessoas que o deixaram repentinamente e assim o feriram,
talvez simbolizando a sua dor, enfim, já há horas Samuel não sabia o
que pensar, por fim resolveu abrir o bilhete de sua mãe:
“Querido Samuel, você está lendo este bilhete porque não posso
mais estar ao seu lado fisicamente, mas sempre estarei com você.
Eu sei que você está triste, sem entender, até questionando a
Deus, mas quero que você saiba que agora já não estou mais com
dores, e estou ao lado do Criador de tudo e que me deu você. Nunca
esqueça por que se chama Samuel, porque você foi presente de Deus
para mim e seu pai, porque você foi escolhido de Deus, e por isso eu
gostaria que você sempre lembrasse de algumas coisas:
1- apenas os corajosos perdoam, inclusive a si mesmo;
2- você não é o que dizem que você é, e nem o que você pensa
que você é;
3- ninguém pode te ferir, além daquilo que você permitir;
4- a cada dia você escolherá se guarda lixo ou plantará um
jardim em sua mente;
5- em tudo na vida Deus quer nos ensinar uma lição, mas

68
Capítulo 6 - Mundo injusto

quando focamos apenas em nós mesmos, deixamos de


aprender;
6- Deus está sempre cuidando de você, até mesmo quando
coisas ruins nos acontecem.
Sei que você pode não entender muitas coisas que escrevi, mas
guarde consigo, pois um dia você entenderá e terá que decidir o que
fará com você mesmo, e, nesse momento, sei que Deus lhe guiará,
como sempre tem guiado.
Querido, agora você terá que cuidar de seu pai, ele te ama muito,
talvez seja difícil você entender, mas esse é o jeito dele, mas ele te ama
e se preocupa muito com você.
Nunca se esqueça que te amo, e um dia novamente lhe darei um
abraço apertado com todo o amor que tenho.
Sua querida mãe Maria.”
Era como se ele ouvisse a mãe falar enquanto lia a carta, muitas
coisas da carta Samuel ficou sem entender, principalmente que lição
Deus queria lhe ensinar com a morte da mãe, a parte relacionada ao
pai ele entendeu, e como seria difícil cumprir aquilo, pensou, mas
como a sua mãe lhe tinha falado, sim, era difícil ele entender tudo que
ela tinha escrito, principalmente os seis conselhos deixados.
- Samuel, você tem visita, Clever veio aqui te visitar – disse o
senhor Caio, batendo na porta do quarto do filho.
Isso era tudo que Samuel não queria ouvir. Como encarar Clever,
como agir agora, apenas sozinho ele queria ficar. Nisso lembrou do
bilhete da mãe, falando sobre o perdão, mas pensou: “desculpe mãe,
mas agora não dá pra perdoar”.
Ele se levantou, guardou os dois bilhetes juntos, e foi caminhando
para a porta.
- Você quer sair para dar uma volta? – falou Clever com os olhos
cheios de água.
- Obrigado, prefiro ficar sozinho – respondeu Samuel de uma
maneira mais fria, sem levantar a cabeça.

69
Tempo de Descoberta

- Eu posso ficar com você – insistiu Clever.


- Já disse que quero ficar sozinho – agora falando de uma
maneira mais seca ainda e olhando com raiva para Clever, que apenas
abaixou a cabeça e disse:
- Tudo bem, mas se precisar de algo estou aqui.
Virando-se de costas, dirigiu-se para o seu quarto.
- Samuel! – tentou argumentar seu pai.
- Tudo bem, ele está triste e quer ficar só – disse dona Áurea, que
tinha ido com o filho à casa do senhor Caio.
Ao voltar para o quarto, sentou-se novamente no chão, com o
coração dolorido, mas ainda sem derramar uma lágrima.
Os pensamentos se entrelaçavam, pensava nos momentos
alegres com a mãe, nos momentos difíceis, no que tinha falado, e no
que não tinha falado para ela, se arrependendo muitas vezes de não
ter dito palavras que estavam no coração, como quando ele tinha
oito anos, e sua mãe estava triste, porque já era muito tarde e seu pai
ainda não tinha voltado para casa, ela olhava com tristeza pela janela,
e mesmo assim, ajudou Samuel a fazer a lição de casa, esquentou
o leite, contou uma história ao pé da cama dele, e nisso Samuel a
viu tentando esconder as lágrimas. Ela enfim lhe deu um beijo na
testa, desejou boa noite e lhe disse que o amava. No mesmo instante
a vontade de Samuel foi abraçar a mãe e lhe dizer também que a
amava, mas o que ele conseguiu fazer foi só dizer “boa noite”, virar
para o lado e dormir. Quando a mãe saiu, ele virou para a porta e
disse baixinho: “eu também te amo, e estou aqui para cuidar de você,
mamãe”, e pensou por que não teve coragem para dizer à mãe os
seus sentimentos, ainda mais ela estando triste e precisando ouvir.
Dizer “eu te amo” era uma dificuldade que Samuel tinha, por
mais que amasse a mãe, até mesmo seu pai com todo o jeito dele, até
à própria Amanda, ele tinha dificuldade de se expressar, achou que
“puxou” bem o pai nisso, e isso lhe dava medo, pois não queria ficar
igual ao pai.
Cansado de pensar ele releu o bilhete, tentando entender o
70
Capítulo 6 - Mundo injusto

que a mãe lhe tinha escrito, e depois releu novamente o bilhete de


Amanda. Assim, dormiu com os bilhetes nas mãos ao pé da cama,
desejando que tudo não passasse de um pesadelo.

71
72
Capítulo 7
A Despedida

Você não pode escolher como vai morrer ou quando.


Você só pode decidir como vai viver agora.
Joan Baez

O

velório aconteceu na igreja de Amanda, pois um grupo
musical iria tocar na igreja à noite, e eles teriam que arrumar
o lugar durante o dia, foi o que alegou o bispo Narciso. O senhor
Caio não estava em condição de discutir, mas estranhou, já que se o
velório seria realizado às 14 horas, como poderia atrapalhar o show
da noite?
Não havia muitas pessoas no velório, mas a maioria dos amigos
de Maria das Dores estavam lá, inclusive praticamente a classe inteira
de Samuel.
Este não gostou de ver a presença de Fred lá, ficou com vontade
de expulsá-lo, pois sabia que tinha ido apenas para ficar com presença
na aula e comer os biscoitos. Também irritava muito Samuel ouvir
algumas piadas e pessoas rindo pelos cantos como se tivessem ido lá
apenas para “cumprir um dever”. A vontade era mandar todo mundo
embora.
Por outro lado, Amanda ficou todo o tempo ao seu lado, que lhe
deu muito conforto e apoio, mas com o próprio pai, ele mal falava,
por mais que ele tentasse se aproximar. Clever também procurou estar
com o amigo o tempo todo, mas Samuel o ignorava, outras vezes o
tratava bem, vivia um sentimento confuso em relação ao seu melhor
amigo, mas sabia que no fundo, ele nunca tinha feito nada de mal,
pelo contrário, se preocupava, e muito, com ele. “Por que ele foi me

73
Tempo de Descoberta

pedir aqueles cinco minutos?”, ficava se perguntando Samuel.


Talvez essa indiferença com Clever fosse a maneira de Samuel
se “vingar” do amigo, pois ele não entendia como ele era sempre feliz
mesmo não tendo pai, e por mais que tentasse, não conseguia ser feliz
como Clever. Além disso, depois do bilhete, Samuel tinha se afastado
um pouco de Amanda, e Clever se aproximado mais, deixando-o com
mais ciúmes, e nesse momento ele queria o carinho de Amanda só
para si. Sim, um sentimento egoísta que ele achava que tinha o direito
de ter, afinal, era o velório de sua mãe e Amanda era tudo que lhe
tinha sobrado, pensava Samuel para justificar suas atitudes.
O primeiro a falar foi o pastor Antônio Elias. O bispo Narciso,
não gostou do senhor Caio tê-lo convidado para falar, mas seu Caio
não pôde deixar de convidá-lo, pois Amanda tinha pedido, e ela
sempre esteve com Maria das Dores nas últimas semanas, inclusive
no tempo em que ela ficou no hospital, além do próprio pastor ter ido
visitar sua esposa no hospital, algo que o bispo nunca fez, alegando
estar sempre muito ocupado.
O pastor Antônio Elias leu um texto no livro de Eclesiastes que
Samuel estranhou muito, pois dizia: “Melhor é o dia da morte do que
o dia do nascimento, melhor é ir à casa onde há luto do que festa”.
Samuel não entendeu, como poderia ser melhor a morte do que a
vida.
Após ler o texto o pastor começou a explicar o significado da
vida e da morte. Disse que quando nascemos, nascem também as
perguntas e dúvidas sobre a vida, o futuro.
Como será a criança, o que vai ser quando crescer, e as dúvidas
nunca param; depois, surge a dúvida da faculdade, do emprego, do
casamento; no casamento surgem dúvidas. Perguntas e dúvidas sempre
estarão presentes na vida, por mais certeza de algo que alguém tenha,
ninguém tem certeza que irá alcançar. A única coisa certa na vida é a
morte, e ela mesma não sabemos como e quando chegará.
Já na morte, continuou o pastor, acabam-se as perguntas, as
dúvidas, mas isso não significa que é o fim de tudo, pois a vida nunca
morre, não importa se a pessoa acredita ou não na vida eterna, em

74
Capítulo 7 - A despedida

Deus. A verdade existe, independente do nosso crer, e para quem um


dia creu e conheceu o Salvador, na morte ela passa a participar da
vida eterna na presença de Jesus, pois Cristo na morte e ressurreição,
trouxe vida.
Samuel não conseguiu entender muito com seus 12 anos, mas já
o senhor Caio absorveu aquelas palavras de uma maneira profunda,
ligando-as com as últimas palavras de sua esposa. Lembrou dos sonhos
que sempre teve, dos medos, dúvidas que sempre o impediram de
fazer o que queria, de sonhar mais com a vida.
Percebeu que passou uma vida fazendo perguntas para si
mesmo, imaginando o que aconteceria se tomasse outras decisões,
que em muitas ocasiões o medo lhe impediu de tomar. Quantas vezes
por medo das respostas fugia de si mesmo, fugia da responsabilidade,
da mudança, do amor. Preferia viver dando desculpas para tudo, do
que realmente assumir o que era e o que precisava mudar.
Enquanto pensava, já não podia esconder as lágrimas, mas já
não ligava, pois Maria das Dores tinha lhe ensinado a se preocupar
com as coisas realmente importantes e não com as ilusões do mundo.
Lamentava apenas ter aprendido um pouco tarde para viver com ela
essa vida, vida essa que agora ela vivia na plenitude, sem questões,
medos ou dúvidas, e isto não era para o senhor Caio um falso consolo,
mas a real verdade da verdadeira vida, algo que pela primeira vez
Caio começou a entender.
Lembrou de quantas coisas ele odiava em seu pai, mas que
acabou fazendo a mesma coisa, inclusive a não expressar sentimentos
e a bebida. Percebeu que muitos traumas de sua infância foram levados
para a vida de adulto, seu casamento e, pior ainda, estava passando
para Samuel. Isso o deixava muito preocupado, pois sabia que tinha
que mudar, tinha que “libertar” o filho da prisão interior, prisão essa da
qual ele mesmo estava tentando se libertar, mas que não era fácil, pois
viveu mais de 60 anos nesse mundo de ilusões. Sabia que Maria das
Dores tinha lhe ensinado o caminho da descoberta da vida, e mesmo
não presente, ele acreditava que de alguma maneira ela estava lá
com ele lhe ajudando nessa nova caminhada. Nesse momento, olhou
para o filho, o amou, e sabia que ainda havia tempo, foi quando
75
Tempo de Descoberta

repentinamente, sem pensar, mas dando lugar aos sentimentos, se


ajoelhou.
Muitos acharam que ele estava desmaiando ou expressando sua
inconformidade com a morte da esposa, mas, pela primeira vez na
vida, ele resolveu ignorar o que os outros iriam pensar, iriam comentar,
resolveu viver a sua vida com transparência para si mesmo e assim
ajoelhado orou a Deus:
- Pai – essa foi a primeira vez que o senhor Caio chamou Deus
de pai – dê-me força, força para mudar mesmo sendo velho, força
para te conhecer, pois ainda não te conheço, não como minha querida
esposa te conhecia. Dê-me força para fazer Samuel crescer livre, livre
de traumas, preconceitos, livre do teatro deste mundo de faz de conta
em que vivemos, livre para ser o que tu o formaste para ser.
- Amém – falou o pastor Antônio Elias – que nessa hora já estava
de joelhos ao lado do senhor Caio, e o abraçou também em lágrimas
e ambos assim ficaram alguns segundos, fazendo com que muitos não
entendessem a situação, inclusive o bispo Narciso que olhava tudo
com um ar de reprovação.
Samuel não entendeu bem o que aconteceu, mas estranhou
muito o pai ter tomado uma atitude assim na frente dos outros, ainda
mais ele que era muito formal na presença das pessoas, mas Samuel
percebeu a dor do pai e isso lhe comoveu um pouco, ao mesmo tempo
que pensou já ser tarde para ele demonstrar qualquer sentimento.
Após esse momento, o bispo vai à frente, com uma aparência
impecável, um belo terno e sapatos importados, uma grande Bíblia
com bordas douradas, em sua mão um grande e belo anel de ouro
com uma cruz no meio e o cabelo com gel, deixando o penteado para
o lado impecável.
Ergueu a voz olhando de cima para baixo as pessoas, e
começou a falar sobre como o diabo quer destruir os lares colocando
doenças, mas que somos mais que vencedores quando somos fiéis
a Deus, incluindo nos dízimos, e assim seremos sempre prósperos, e
continuou o seu discurso sobre prosperidade, como se fosse um culto
de arrecadação ao invés de um ofício fúnebre, citando uns dois ou três

76
Capítulo 7 - A despedida

exemplos pessoais de como Deus o tinha abençoado.


Mesmo não tendo entendido direito a mensagem do pastor
Antônio Elias, Samuel viu nele um homem de Deus, que estava triste
com eles, enxergou em seu olhar amor, as palavras eram doces e
humildes ao saírem de seus lábios, ao mesmo tempo que possuía uma
certeza de quem conhece a Deus.
Já com o bispo, Samuel sentiu ainda mais ódio, pois já há algum
tempo Samuel não confiava nele, e em parte ele culpava o bispo
também pela morte de sua mãe, pois foi ele que fez a promessa de
cura, vendendo ilusões para a sua família, inclusive fazendo com que
a sua mãe não tomasse os medicamentos necessários, e agora ele
culpava o diabo de tudo. Ele sentia mais ódio pelo bispo do que por
Fred que era, até então, a pessoa que Samuel menos gostava.
Enquanto o bispo falava, a vontade de Samuel era ir lá, lhe
chutar a canela, cuspir em seu rosto, pensava que se aquele fosse
um homem de Deus, Deus realmente era irônico e brincava com os
sentimentos das pessoas, e a última coisa que Samuel queria era ser
amigo de um Deus como esse que o bispo apresentava, pois esse
Deus era tão interesseiro como os humanos.
Mesmo Samuel já tendo experimentado o ódio algumas vezes
em sua vida, com Fred, até com o próprio pai, quando chegava
bêbado ou o ignorava, agora, pela primeira vez, parecia que o ódio
tinha ganho vida e criado raiz em seu coração. Era um sentimento que
fazia com que sentisse encobertos outros belos sentimentos que tinha
e lhe tirava toda e qualquer razão, era impressionante como o deixava
cego, ao ponto que percebia isso sem perceber.
Quando estavam saindo para o cemitério, o bispo chegou perto
do senhor Caio com o filho, e lhes disse:
- É senhor Caio, lamento muito, mas tem que ficar firme, pois o
diabo quer derrubar vocês.
- O diabo é você – respondeu Samuel sem pensar, olhando com
ódio para o bispo e logo em seguida saindo correndo ao encontro de
Amanda.

77
Tempo de Descoberta

- O que é isso, meu Deus - reagiu o bispo – temos que fazer


uma libertação nesse moleque, vocês precisam ir à corrente das sete
semanas de libertação.
- Sim, precisamos ser libertos, bispo – disse o senhor Caio, com a
voz triste, mas firme, erguendo agora os olhos e olhando pela primeira
vez nos olhos do bispo, como se soubesse exatamente o que falava - e
a partir de hoje somos libertos de você e sua corja.
- Que Deus tenha misericórdia de vocês - disse o bispo com ar
de espanto, querendo mostrar humildade, mas com raiva no olhar e
no falar, dando as costas e entrando em seu carro novo.
O senhor Caio não acreditava no que tinha falado, ficou
tremendo, pensou “ainda bem que Samuel não ouviu”, até pensou
em ir atrás do bispo e pedir perdão, mas estava pela primeira vez
querendo ser livre, ao mesmo tempo que percebia que ser livre não
significava ter o direito de ofender as pessoas.
Era tudo muito difícil, pois eram muitas mudanças, mas ele
estava disposto a tentar, a lutar, pois tinha um filho e tinha uma vida,
e enquanto houvesse vida, resolveu ter esperança, afinal, devia isso
para a sua amada Maria agora já sem dores.
- Não foi certo o que você fez hoje, Samuel – disse o senhor
Caio ao voltarem para casa.
- Eu odeio esse bispo – respondeu Samuel sem erguer a cabeça,
parou um pouco...., gaguejou um pouquinho e continuou – ele... ele
matou mamãe.
Nesse instante o senhor Caio ficou assustado, percebeu dois
sentimentos fortes em Samuel, o de ódio e a fuga colocando em
alguém problemas vividos. Ficou pensando o que nesta situação
Maria das Dores falaria para o filho.
- Samuel – disse olhando direto nos olhos do filho – uma vez
ouvi uma frase que dizia o seguinte: “quando perdoamos libertamos
um prisioneiro, e este prisioneiro somos nós mesmos”. Enquanto você
odiar nunca vai ser livre, e a pessoa que você odeia não sente o seu
ódio, só você é que sai prejudicado, ferido. - O senhor Caio parou por

78
Capítulo 7 - A despedida

alguns segundos e continuou, falando firme, mas com amor em sua


voz. – O ódio, é como o câncer, vai nos matando aos poucos.
Com isso Samuel lembrou do bilhete da mãe que dizia que
apenas os corajosos perdoam, também falava algo sobre “Deus ter
uma lição para tudo”, mas como era difícil entender aquilo, preferia
não ser corajoso e não perdoar.
- Outra coisa Samuel... – continuou o senhor Caio – ... é fácil
culparmos os outros por coisas ruins que nos acontecem, mas isso é
apenas fuga, nós sempre somos responsáveis por nossas escolhas, a
sua mãe e eu resolvemos ouvir o bispo, foram nossas escolhas - disse
Caio com um ar mais triste na voz.
Samuel ouviu sem querer escutar, pois sabia que eram palavras
verdadeiras, mas ele estranhou muito essas palavras virem da boca
de seu pai, que sempre apenas lhe deu ordens, era apenas sua mãe
quem lhe aconselhava.
O próprio Caio estranhou o que falou, pois mesmo sempre
amando e se preocupando com o filho, nunca conseguiu expressar
em palavras os sentimentos, e agora parecia que a força de Maria das
Dores estava sobre ele, e o próprio Deus estava lhe capacitando e
transformando, assim, expressava sentimentos e pensamentos sempre
guardados em seu coração.
- Acho que teremos que procurar outra igreja, para ser sincero,
eu também não estava muito de acordo com o bispo – disse o senhor
Caio, dando uma piscada para Samuel. Assim ele pôde perceber que,
mesmo o pai tendo recriminado a sua atitude, lá no fundo estava de
acordo com ele. – O que você acha da igreja da Amanda? – perguntou
Caio. – Sempre gostei muito do pastor da igreja dela, ele é um homem
sábio.
Samuel abaixou a cabeça outra vez, ele tinha decidido não ir
mais a igreja alguma, aliás, também não orar mais, pelo menos até
saber realmente quem era Deus.
- Não, não quero mais ir a igreja alguma – disse Samuel com
medo da reação do pai.

79
Tempo de Descoberta

O senhor Caio ficou calado por alguns instantes, essas palavras


lhe cortaram o coração, não sabia o que responder, não queria obrigar
o filho a ir, pois queria construir um relacionamento fortificado no amor
e não por obrigação, e já tinha errado muito com o filho. Mas mesmo
assim, tinha medo de permitir que o filho não fosse a igreja alguma,
pois sabia que com os sentimentos que Samuel estava tendo, tornaria
perigoso o futuro do filho, assim, pediu sabedoria para responder e
lhe disse:
- Tudo bem querido, não vou lhe obrigar, mas estarei sempre
orando por você, além disso, creio que Amanda e Clever ficariam
contentes em lhe ver lá.
Samuel estranhou a atitude do pai, esperava uma reação mais
enérgica, afinal, quando ele decidia algo tinham que fazer. Samuel
nunca tinha convencido o pai a lhe deixar fazer algo que ele era
contra. Percebeu que realmente ele estava disposto a mudar. Mas
estava “brigado” com Deus, e Amanda já lhe tinha chamado algumas
vezes para ir a uma tal de UPA - União Presbiteriana de Adolescentes,
o grupo de adolescentes de sua igreja, e pensou que se fosse, ela
ficaria feliz e seu pai não insistiria para ele frequentar os cultos de
domingo.
Nessa época Clever, também já frequentava a igreja e este grupo,
sempre falando muito bem dele para Samuel, mas que por ser mais
novo, ficava sem graça de ir, pois a maioria das pessoas tinham pelo
menos 12 anos e ele só agora tinha completado seus 12 anos. Por fim,
decidiu ir, pois iria agradar tanto a Amanda como seu pai.

80
Capítulo 8
Unidos na
amizade
“Em cada um de meus amigos, há algo que somente outro amigo pode revelar completamente.
Sozinho, não tenho capacidade suficiente para colocar uma pessoa em pleno funcionamento;
quero outros pontos de vista, além do meu, para poder expor todas as suas facetas. Sob essa
luz, a verdadeira amizade é a forma de amor menos ciumenta que existe”. – C. S. Lewis

A

cada dia o senhor Caio procurava se aproximar mais de Samuel,
e também se conhecer melhor. Percebia que era uma missão
difícil, quase impossível, mas estava disposto a “pagar o preço”. Gastava
muito tempo sozinho, revendo as atitudes, pensamentos, procurando
ser melhor, e a cada dia querendo conhecer mais a Deus, e isto lhe
dava força para mudar. Quando pensava em desistir, lembrava da
vida de sua esposa, como ela foi guerreira e como ficaria contente em
ver sua luta. Caio sabia que devia isso para Maria das Dores, para seu
filho, que era agora sua grande preocupação, como também para si
mesmo.
Não tinha um só dia que o senhor Caio não visitasse o túmulo
de Maria das Dores, e sempre levava uma única rosa, podia chover ou
não, lá estava o senhor Caio. Levava sempre consigo um banquinho
onde sentava e passava horas conversando, como se ela estivesse
viva ao seu lado. Sempre que lhe perguntava algo, era como se ele
soubesse da resposta dela e assim, a cada dia colocava suas lutas, suas
mudanças, contava sobre como Samuel estava crescendo inteligente,
mas se fechando cada vez mais, o deixando muitas vezes sem saber o
que fazer para ganhar o filho. Já Samuel preferia não ir ao cemitério,
pois sempre quis guardar em seu coração a imagem viva de sua
mãe.
O senhor Caio até plantou um pé de rosa em seu jardim, o qual
cuidava com todo carinho, um tipo de homenagem que resolveu fazer
81
Tempo de Descoberta

para Maria das Dores, mas não como um remorso por ter lhe dado
tão poucas flores em vida, e sim para lembrar o que ela lhe ensinou e
assim querer mudar a cada dia.
Ao mesmo tempo, Samuel se fechava, e por mais que Caio
tentasse se aproximar, o filho tinha criado uma barreira que seu pai
tentava quebrar. Ele sabia que tinha muita coisa para mudar, para
acertar, pessoas para perdoar e pedir perdão, conversas que a cada
dia se tornavam cada vez mais inadiáveis.
A amizade de Samuel com Clever não era a mesma coisa e
Clever não entendia o porquê disso, mas com Amanda aconteceu o
contrário, ele voltou a tê-la mais por perto, conversar, rir, mas nem
com ela ele conseguia abrir seus sentimentos, tanto por ela, como
outros que lhe rasgavam o coração.
Samuel sabia que não agia corretamente com Clever, mas era
duro mudar, assumir que foi sua escolha ficar mais tempo estudando,
várias vezes Samuel sonhou que chegou a tempo para dar o último
abraço em sua mãe e dizer que a amava muito, mas no sonho, sempre
que ela lhe ia dizer algo, ele acordava com o coração disparado,
lamentando os cinco minutos.
Um dia, ele resolveu ir ao grupo de adolescentes da igreja de
Amanda, pois há tempo ela insistia com ele, e achou que lhe devia
isso.
Era um grupo que a princípio Samuel gostou de frequentar, mas
também percebia que mesmo sendo um grupo de pessoas cristãs,
muitas vezes tinham atitudes e sentimentos nada cristãos, fazendo com
que achasse cada dia mais que igreja era um lugar de pessoas falsas.
Se não fosse pelo exemplo de Amanda e pelo carinho que tinha com
o pastor Antônio Elias, ele nunca mais iria para igreja alguma.
Um dia, quando o grupo se reuniu na casa de Amanda, Samuel
foi pela primeira vez, lá ele conheceu a turma da Amanda. Havia o
Marcelinho e Davi, o pessoal os chamava de “o gordo e o magro”,
pois lembravam a dupla engraçada que assistiam na televisão.
Davi era bem magro e com um grande nariz, cabelo liso, usava
óculos, sempre alegre, mostrando não ter complexo do tamanho do

82
Capítulo 8 - Unidos na amizade

nariz, fazendo até mesmo piada sobre ele, aliás, ele sempre contava
piada, de tudo e de todos, tocava violão, e jogava bem pingue-
pongue, seu pai era um dos presbíteros da igreja. Já o Marcelinho,
apesar de ser gordinho, era esportista, gostava muito de jogar voleibol
e futebol. Samuel viu que, mesmo sendo bem mais gordo que ele,
jogava muito melhor futebol e voleibol, seu pai também era presbítero
e amigo do pai de Davi. Uma coisa que Samuel sempre lembrou era
dos aniversários na casa do Marcelinho, sempre muita comida e festa,
mas achou interessante, pois sempre começavam cantando algumas
músicas cristãs e algum jovem falando algo de alguma passagem
bíblica.
Em um aniversário de Marcelinho foi servido um “barco” com
maionese, e no dia seguinte, que era domingo, todos passaram mal,
formou-se uma grande fila no banheiro da igreja, menos o pastor
Antônio Elias. Samuel chegou a pensar que ele tinha uma proteção
especial de Deus em sua vida.
Tinha também a família “m”, o Maurício, que era mais velho, a
Mônica, a irmã do meio, e o Márcio, o caçula; este último se tornaria
muito amigo de Samuel, na época do colegial, pois estudariam juntos
na mesma escola.
Além dos três terem o nome começando com “m”, os pais
também tinham, senhor Marcelo e dona Mercedez.
Maurício era já mais velho, tinha 15 anos, e era o “conquistador”
da turma, já tinha namorado umas duas garotas da igreja, além
de algumas garotas de seu bairro, já o Márcio era mais quietinho,
mas também tinha o seu fã clube. Mônica era mais questionadora e
sempre estava ativa nas programações dos jovens, dando ideias e se
relacionava muito bem, logo de cara Samuel ficou bem amigo dela.
Havia também a Vitória, não era tão bonita, usava um óculos
meio antigo, o cabelo era castanho claro, usava uma franja que quase
cobria os olhos, e era levemente acima do peso. Seu pai havia falecido
quando ela era pequena, e tinha sido criada só pela mãe, tinha muita
sabedoria, sempre participava das programações, e quando tinha
gincana bíblica ela ou Alexandre, o irmão de Amanda, pegavam o
primeiro lugar.
83
Tempo de Descoberta

Betão era o rapaz com cara de intelectual, usava óculos, tinha


um nariz que competia com o do Marcelinho, mas era mais redondo,
mantinha sempre o cabelo curto, tocava violão e pregava muito bem
demonstrando paixão por Deus sempre que falava, já tinha 17 anos,
e procurava levar uma vida muito piedosa. Samuel sempre gostou
muito de ouvi-lo pregar e cantar, pois transmitia sinceridade, além do
que, ele morava perto da casa de Samuel, e sempre lhe dava carona
no seu “Fusquinha”, onde Samuel tinha sempre que voltar ouvindo
Betão tentando evangelizá-lo.
Uma das melhores amigas de Amanda era Nadejida, uma garota
magra, alta, com belos olhos azuis, filha de pais russos, era uma das
poucas que não tinha os pais na igreja, e Samuel a admirava, não pela
beleza, mas por ter tantas opções para fazer à noite, ainda mais os pais
nunca a incentivando a ir à igreja, pois eram ateus, ela sempre preferia
estar lá, com a turminha evangélica do que com os amigos da escola
ou clube. Ela tinha ido à igreja por convite de Amanda, pois faziam
piano juntas, e nitidamente a fé de Amanda a tinha contaminado e ela
abraçou com a mesma paixão que Amanda sempre demonstrou.
Maurício já havia namorado com ela uns dois meses, logo que ela
foi para a igreja, mas depois ela achou que ainda era muito nova e quis
conhecer mais a Deus, antes de se envolver em algum relacionamento.
Maurício ficou desconfiado que tinha sido influenciada por Amanda,
mas como ele não perdia muito tempo, logo esqueceu e já estava
interessado em outra. Clever foi um dos que também deu em cima
dela, mas sem sucesso, mas isso também não o afetou muito, pois
tinha sido apenas mais uma tentativa de conquista de Clever, que já
estava acostumado a tomar “fora”.
Mudou para Divinópolis uma família de São Paulo, e todos
comentavam sobre a filha deles, a bela Carol, uma garota que de longe
chamava a atenção pela beleza, era morena, com o cabelo quase na
cintura, tinha um belo sorriso e uma doce voz, era muito tímida, mas
não faltaram jovens para fazê-la se sentir bem na nova turma.
O próprio Samuel ficou encantado com a beleza de Carol, e se
o seu coração não tivesse uma grande paixão, com certeza ela teria
mexido mais profundamente com ele. Já Clever não perdeu tempo,
84
Capítulo 8 - Unidos na amizade

mas também em vão, apesar de todo o carisma que Clever tinha, ele
não conseguiu nada, a não ser uma grande amizade com Carol que
o via como um grande amigo. Já Maurício teve mais sorte, acabou,
depois de quase dois anos tentando, namorando com ela e eles
formavam, sem dúvida, o casal mais belo da igreja, e o que ninguém
acreditava aconteceu, ela deu um jeito nele, e até mesmo à igreja, que
antes ele ia por obrigação, começou a ter mais prazer em ir e também
mais vontade de conhecer a Deus.
Algo que deixou Samuel chateado foi o fato da diferença com
que tratavam ele e a Carol, que eram novos na igreja. Muitos dos
adolescente o ignoravam, já a Carol todos queriam “ajudá-la”, com
isso aumentava ainda mais o sentimento de que nenhuma igreja era
boa.
Alexandre, o irmão de Amanda, era o presidente da UPA, aliás,
ele tinha sido presidente das crianças e seria sempre um bom líder da
igreja. Samuel nunca foi muito amigo de Alexandre, mas sempre o
admirou muito, pois, como Amanda, era alguém que buscava a Deus
e percebia no seu rosto prazer no que fazia.
Íris era a conselheira dessa moçada, uma mulher de Deus,
sempre alegre e cheia de ideias, tinha uma Brasília branca antiga, mas
sempre enchia o seu carro com os jovens, chegando a transportar seis
adolescentes de uma vez, ou fazer várias viagens com o seu carro para
todos participarem das programações. Mesmo seu marido não indo à
igreja, ele sempre a apoiava e ela nunca perderia a esperança de vê-lo
um dia ao seu lado na igreja trabalhando juntos para Deus.
Samuel gostava muito dela, pois ela sempre lhe dava muita
atenção, fazendo lembrar um pouco a sua mãe. Aos poucos Mário
também começou a participar com eles deste grupo e, como era muito
brincalhão, logo conquistou a amizade de todos. Esses se tornaram os
novos amigos de Samuel.
Isso tudo deixava o senhor Caio muito feliz, convidando
várias vezes os amigos de Samuel para dormir lá e fazerem o
“acampa dentro” em sua casa, tendo um final de semana mais de
10 adolescentes dormindo em sua casa. Fazia tudo isto na tentativa
85
Tempo de Descoberta

de aproximar Samuel, tanto de Deus como de si, pois por mais que
tentasse se aproximar do filho, não conseguia romper a barreira criada
por Samuel.
Algo que marcou Samuel eram os acampamentos de carnaval,
onde passavam quatro dias em um lugar, tendo muita música,
mensagem da Bíblia e também muito divertimento, esporte,
brincadeiras e jantares especiais.
Um desses jantares que Samuel sempre lembrava, era um jantar
de gala que teve no acampamento do carnaval de 1975, onde cada
rapaz tinha que convidar uma garota. Samuel esperou até o último
momento para convidar Amanda, e quando a convidou, levou uma
flor junto, achou meio cafona, mas era a maneira de demonstrar o seu
sentimento, apesar de relutar sempre que lembrava do bilhete.
Ela aceitou com um belo sorriso e Samuel emprestou de um
amigo um terno branco, essa foi a primeira vez que ele vestiu um
terno. Clever, após convidar várias garotas, foi jantar com Vitória,
disse que tinha ido com ela apenas porque não queria nada sério com
ninguém, mas Samuel desconfiou que estava tendo um clima entre
os dois.
O jantar, que teve strogonoff, foi à luz de velas. É uma das
lembranças que Samuel sempre guardou com carinho. Ele foi muito
gentil com Amanda, que sempre respondia amavelmente e com um
belo sorriso, onde seus olhos brilhavam; ele quis muito falar algo mais
profundo ou perguntar do “maldito” bilhete, mas, tomado pelo medo,
não fez nada. Jantou com ela, depois foram para fora do salão, onde
tinham uma vista maravilhosa da lua que estava grande e brilhante
nessa noite. Nesse momento foi que ele pensou em dizer algo, respirou
fundo, e quando foi falar algo mais profundo, ouviu a voz de Clever o
chamando para ir à fogueira. Sempre, sempre Clever falando, pedindo
algo no momento errado, pensou Samuel.
Ela pegou em sua mão e com um sorriso o convidou para ir à
fogueira. A vontade de Samuel era puxá-la em seus braços e lhe dar
um beijo cheio de amor, até imaginou a cena, mas a única coisa que
fez foi ir com ela, observando sua alegria, e como o vento jogava
86
Capítulo 8 - Unidos na amizade

seu cabelo para tras de uma maneira que parecia que ele dançava
no ar. Samuel sempre se perguntou depois se ele a tivesse puxado e
beijado, se ela teria aceitado; preferia acreditar que não, pois nunca se
perdoaria de não ter feito isso se a resposta fosse sim.
Samuel não conseguia esquecer do bilhete que sua mãe havia
deixado, e aos poucos começava a entender mais, sabia que tinha
que perdoar, mas como era difícil. Ele lembra de como ficou contente
quando Fred foi expulso da escola por ter sido pego com maconha,
e não gostou de Clever ter ficado com dó, pois ele era a pessoa que
Fred mais perturbava, inclusive tendo colado as fotos no quadro com
o nome dele e de sua mãe. Sabia que era errado, mas teve prazer
nesse sentimento de vingança que sentiu, mesmo não tendo sido
responsável pela expulsão do Fred.
Ele queria aprender a lição de Deus para a sua vida, mas como
a sua mãe lhe havia escrito, ele estava focando muito nele mesmo
para aprender, e Samuel já percebia isso.
Depois da morte da mãe de Samuel, poucas foram as vezes
que ele e Clever foram juntos para o pé de jabuticaba, mas eles iam
sempre sozinhos para lá. Samuel sempre ia para pensar nos conselhos
de sua mãe, em Amanda, no seu relacionamento com o pai, na sua
amizade com Clever; era o lugar de fuga de Samuel.
Já Clever ia mais lá para sonhar com a vida, agradecer a Deus
pelas coisas boas que lhe aconteciam e para orar pelas pessoas que
gostava e principalmente por Samuel, pois via em Samuel uma
tristeza que ele tentava esconder, mas não conseguia esconder dele
e de Amanda.
Ele sempre procurava uma maneira de ajudar o amigo, pois
sabia como a morte de Maria das Dores o havia feito sofrer, mas era
difícil superar a barreira que Samuel tinha colocado, então, o que
Clever mais fazia era orar, algo que tinha aprendido com Amanda e
na igreja.
Aos poucos o relacionamento de Samuel com seu pai foi
melhorando, isso por muita insistência do senhor Caio, em quem já
era visível a mudança, mas a barreira de Samuel ainda era grande, e

87
Tempo de Descoberta

por mais que ele mesmo quisesse romper, era muito difícil. Também
com o tempo e os novos amigos, Samuel começou a “amolecer”
seu relacionamento com Deus, ele sabia que para Amanda era
importante, e isso fez com que Samuel, aos poucos, se aproximasse
mais de Deus.
Por um lado Samuel, queria se aproximar mais de seu pai,
recuperar o tempo perdido, mas, ao mesmo tempo, vinha um
sentimento de que já era tarde, de como ele tinha feito sua mãe sofrer;
assim, Samuel lutava consigo mesmo, pois mesmo amando, e muito,
ao senhor Caio, não conseguia demonstrar.
Já seu pai tinha se firmado muito na igreja de Amanda e se
tornado muito amigo do pastor Antônio Elias. Frequentava a igreja
sempre e de costume passava na casa de Clever para levá-lo, e à
sua mãe, para a igreja também. Samuel passou muito tempo sem
ir, frequentando apenas o grupo de adolescentes, mas, aos poucos,
passou a ir à igreja, pois já tinha ficado amigo de muitos de lá. Sua
amizade com Clever estava melhorando e era um lugar em que ele se
sentia bem, mesmo vendo coisas que ele não concordava. Mas nada
comparado à igreja do bispo Narciso que já estava para ser ordenado
apóstolo, e nunca mais Samuel tinha visto, mas sempre ouvia histórias
que o deixavam assustado, pois a única coisa que Samuel via nessas
histórias era manipulação e vaidade, e pior de tudo, pessoas se
enriquecendo e enganando em nome de Deus.

88
Capítulo 9
Boas recordações

“Muitas pessoas perdem as pequenas alegrias


enquanto aguardam a grande felicidade.“
Pearl S. Buck

M

aria das Dores ainda permanecia viva na memória de
Samuel, sempre lembrava dela contando histórias para ele
dormir – principalmente sobre o seu vestido rosa – preparando a
lancheira, o primeiro dia de aula e, nos últimos anos, como ela sempre
fazia de tudo para não parecer doente, pelo contrário, ela parecia cada
dia mais cheia de vida.
Lembrava sempre do arroz com feijão e o pão de queijo que ela
fazia, uhn..., como cheirava bem e era gostoso. Aliás, ele lembrava
sempre com muita saudade da comida de sua mãe, pois quando o seu
pai cozinhava o arroz ficava grudado e queimado, definitivamente,
esse não era o seu dom.
Samuel lembrava que um dia, na época que era moda soltar
pipa, a sua mãe foi com ele comprar papel de seda, madeira e linha
para fazer a pipa, e ainda ajudou a montar. Ele ficou todo orgulhoso
e foi mostrar para seus amigos que riram dele, falando que nunca iria
subir, ele voltou para casa todo chateado, e sua mãe disse que não
importava o que haviam dito, pois o importante é que foi feito com
carinho e amor, e que iria subir sim.
Ela o convidou para ir ao terreno perto de sua casa para empinar
a pipa. Samuel foi meio a contragosto, pois tinha medo de decepcionar
a sua mãe se a pipa não subisse, mas, ao chegar lá, ela deu tanto
apoio, que ele quis fazer a pipa subir de qualquer jeito para a mãe ter

89
Tempo de Descoberta

orgulho dele, e para espanto de Samuel, mesmo tendo pouco vento,


a pipa subiu e bem alto, era linda brilhando no céu azul, a pipa que
tinha um azul mais escuro e uma rabiola verde e amarela.
Depois que acabaram de empinar, a sua mãe lhe deu um abraço,
sussurrando no ouvido de Samuel:
- Estou orgulhosa de você.
Aquilo deixou Samuel todo orgulhoso, querendo que chegasse
logo a noite para contar ao seu pai, mas, que mais uma vez, demonstrou
pouco interesse, algo que sua mãe tentou disfarçar dizendo que ele
tinha ficado todo orgulhoso também.
O que Samuel nunca esquecia era como sua mãe era doce, como
ela olhava nos olhos dele, e, num simples olhar, conseguia transmitir
amor, sempre lembrava dela passando suavemente as mãos em seus
cabelos e em seu rosto, e o olhar de tristeza, sempre que Samuel fazia
algo errado. Ela não precisava dizer nada para Samuel se arrepender,
só aquele olhar lhe cortava o coração, e o fazia prometer nunca mais
fazer aquilo de novo.
Maria das Dores sempre foi uma mãe atenciosa e, nos últimos
anos, ela tinha ficado ainda mais atenciosa e carinhosa, não apenas
com Samuel, mas com o senhor Caio e com a vida. Parecia que tinha
recuperado a alegria de viver, e isto era tão forte que Samuel nunca
achou que a doença venceria a batalha contra ela, tudo isto fez com
que Samuel entendesse ainda menos a vida, e achasse tudo muito
injusto e se Deus realmente existisse, Ele tinha sido injusto com sua
mãe.
Samuel também nutria boas lembranças de seu pai, principalmente
da sua primeira infância e nos últimos anos, após a morte de Maria das
Dores. Esses sentimentos eram sempre contraditórios em seu coração,
quando queria se aproximar de seu pai lembrava de momentos
tristes e frustrações vividas, mas, em outros momentos, lembrava de
intimidades de pai e filho, que talvez por terem sido raros, ficaram
marcados em seu coração.
Ele recordava de quando, pela primeira vez, seu pai lhe convidou
para ir ao cinema assistir Ben Hur, um filme que mexeu muito com
90
Capítulo 9 - Boas recordações

Samuel, pois foi um filme forte sobre amor, amizade e vingança, e


Samuel percebeu que eram sentimentos que estava começando a
viver.
Lembrava-se dos presentes que o senhor Caio sempre lhe dava
no Natal e seu aniversário, por mais “apertado” que estivesse, ele
nunca esquecia de dar algo para o filho. E em um Natal especial,
quando Samuel tinha apenas oito anos, queria muito ganhar um
carrinho de controle remoto, mas era novidade e muito caro. Sabia
que o pai não teria condições de lhe dar, já estava até conformado
em ganhar um jogo que sua mãe falou que seu pai iria dar, mas, para
sua surpresa, quando acordou, lá estava o carro embrulhado. Samuel
brincou o dia todo até acabar a bateria do brinquedo, e foi uma das
vezes em que percebeu como o senhor Caio gostava dele, pois sabia
o sacrifício que tinha sido comprar aquele brinquedo.
O dia 13 de fevereiro de 1974 também ficou marcado para
Samuel, pois, pela primeira vez, foi ao Estádio do Mineirão ver um
jogo, isso porque o senhor Caio não gostava muito de futebol, mas
para agradar o filho, eles foram assistir ao jogo entre Cruzeiro e
Palmeiras, pelo campeonato brasileiro, já que Samuel era palmeirense
e tinha poucas chances de assistir um jogo de seu time. Nessa partida,
seu time ganhou de 1 x 0, e Samuel até estranhou como o pai torceu
pelo Palmeiras. Além do jogo, o que marcou Samuel foi o que seu pai
lhe disse logo após o jogo:
- Sabe filho, fazia tempo que eu não ia ao campo, até perdi
a conta de quantos anos atrás, e tinha esquecido a emoção que é,
obrigado por vir comigo, pois melhor do que vir ao campo, é vir
junto com o filho - falando assim, ele deu um abraço como se fossem
grandes amigos.
Aquilo mexeu muito com Samuel, pois sabia que era ele quem
tinha que agradecer, aquela era a primeira vez que Samuel estava
indo ao campo, e ainda assistir um jogo do seu time favorito, no
Estádio do Mineirão e com seu pai, como se fossem grandes amigos.
Samuel viveu aquele momento com muita intensidade, chegando até
esquecer da mágoa que ainda tinha pelo seu pai, parecia que tinham
sido sempre grandes amigos.
91
Tempo de Descoberta

Tudo isso fazia com que Samuel tivesse a sensação de ter que
se abrir mais com seu pai, pois era claro o esforço que ele fazia para
ganhar o filho, e não foram poucas as vezes que Samuel viu o senhor
Caio ajoelhado na cama antes de dormir. Samuel sabia que um dos
principais nomes na oração de seu pai era o seu.
Com Clever, Samuel lembrava de alegres e peraltas recordações,
como no dia em que soltaram fedozinho no banheiro feminino,
fazendo as meninas saírem gritando e correndo do banheiro, e a cara
cínica de espanto que Clever fez fingindo não saber de nada quando
Amanda lhe contou.
Quando apostavam corrida para ver quem chegava primeiro
ao pé de jabuticaba, apesar de Clever ter as pernas mais curtas que
Samuel, quase nunca conseguia ganhar, e ele achava que as vezes em
que tinha ganho, era porque Clever havia deixado já que ele sempre
perdia. As histórias de Clever justificando os foras que ele tomava das
garotas, isso sempre provocava muitas risadas internas em Samuel,
ao mesmo tempo que provocava uma certa inveja de como Clever
era otimista, pois por pior que fosse a situação, sempre achava que
tinha uma chance com alguma garota.
As tantas vezes que Clever falava para Samuel que ele era o
irmão que ele nunca tinha tido, as poucas vezes que ele falava sobre
o seu pai, que nunca tinha conhecido e a vontade de conhecê-lo,
algumas vezes demonstrando amargura na voz, outras, das saudades
de um pai que nunca viu. Samuel percebeu que depois de começar a
ir à igreja de Amanda, Clever já não falava do pai com mágoa, mas
sim com vontade de conhecê-lo, de lhe dar um abraço, de lhe dizer
que era seu filho, e Samuel não entendia como ele poderia não ter
mais mágoa de um pai que o abandonou e nunca quis conhecê-lo.
Samuel sabia que Clever era muito mais amigo seu do que ele
de Clever, lembrava do dia em que ele fez Amanda achar que Samuel
é que tinha feito Fred e seus amigos correrem, as tantas vezes que
fizeram lição de casa juntos, e Clever sempre socorria Samuel na
pintura, que não era o seu forte, aliás, o estudo em si nunca foi muito
o forte de Samuel.

92
Capítulo 9 - Boas recordações

Lembrava do dia em que acharam um enxame de abelhas


numa árvore, perto da escola, e resolveram atirar uma pedra para ver
quem conseguia fugir sem levar picada, e quando chegaram ao pé de
jabuticaba, Samuel, vendo que Clever levou uma só, fingiu que não
levou nenhuma para se orgulhar da “vitória”, mas foi logo para casa,
pois não se aguentava de dor, das 3 picadas que tomou.
Amanda era com quem Samuel nutria as melhores recordações,
desde o dia em que a conheceu com o vestido rosa. Lembrava de
como ela o ajudava nas lições de casa, de ouvi-la tocando piano,
algo que Samuel amava. Sempre que iam fazer lição na casa de
Amanda, Samuel queria que acabasse logo para pedir a Amanda
para tocar, antes que Alexandre chegasse e começasse a tocar bateria.
A imaginava tocando para ele quando fossem casados, ela sentada
ao piano e ele com os filhos em volta cantando alegres as músicas
tocadas pela mãe.
Mesmo amando piano, Samuel se sentiu importante o dia em
que ela deixou de ir à aula de piano para ir a seu aniversário, e ainda
lhe deu de presente uma Bíblia ilustrada com uma bela dedicatória.
Das tantas conversas que tiveram ao pé de jabuticaba, onde
falavam dos sonhos, Amanda dizia que queria comprar um grande
piano branco de cauda, mas o que mais queria era ser médica para
trabalhar na África, ajudando os pobres e as crianças abandonadas.
Inclusive um dia ela perguntou para Samuel se ele iria com ela.
A vontade dele foi falar que sim, que iria onde ela quisesse,
mas preferiu fugir da resposta brincando, dizendo que preferia que
ela fosse ajudar as crianças no Havaí, que ele iria acompanhar com
prazer. Ele sempre lembrou da expressão de frustração dela com essa
resposta, ele até quis dizer que era brincadeira, que iria acompanhá-
la onde ela quisesse, mas como era difícil expor os seus sentimentos,
ainda mais depois do bilhete, do maldito bilhete, que Samuel nunca
conseguiu jogar fora ou esquecer.
Samuel ficava admirado com a capacidade de Amanda de
aprender as lições da vida, sem precisar sofrer para tal. Lembrava
dela chegando triste à escola por ter visto alguns mendigos na rua, e
93
Tempo de Descoberta

para tentar ajudar tinha lhes dado seu lanche. Como ela agradeceu
a Deus pela família, por ter um lugar para morar, coisas do dia-a-dia,
mas que Amanda sabia valorizar, e mesmo assim, nunca esqueceu de
quem passava por necessidades.
Essas recordações sempre vinham à mente de Samuel quando
ele se sentava embaixo da jabuticabeira, e passava horas lá sem
perceber o tempo passar, era o seu mundo, o seu lugar, onde os
sonhos aconteciam.
Também sempre pensava no bilhete que sua mãe lhe havia
deixado, bilhete o qual guardava junto com o de Amanda.
Samuel estava lá, sentado, quando viu alguém se aproximar,
logo reconheceu que era Clever, já fazia quase um ano que eles não
se sentavam juntos embaixo da árvore. Quando Clever o viu, logo
abriu um sorriso.
- Que bom que lhe encontrei, estava com saudade de nossas
conversas aqui – disse Clever sentando ao lado de Samuel.
Justamente nesse momento Samuel pensava no bilhete de sua
mãe, quando ela escreveu que “quando perdoamos, libertamos um
prisioneiro que somos nós mesmos”. Samuel já estava com 15 anos e
entendia bem o significado disso, sabia como tinha sido prisioneiro e
como havia perdido tempo tendo sentimentos tão ruins no coração.
- Desculpe - disse Samuel, pegando uma pedra e atirando ao
ar. – Eu sei que não fui muito seu amigo nos últimos anos. – Essa foi a
primeira vez que Samuel lembra de ter pedido perdão, a não ser para
sua mãe, quando era criança e fazia algo errado e era descoberto.
- Imagina Samuel - respondeu Clever, abrindo um sorriso alegre
que só ele sabia dar. – Eu sei o como tem sido duro para você esses
últimos anos. Você sempre foi e será o meu melhor amigo – falou
dando um abraço em Samuel. – Você é o irmão que nunca tive,
esqueceu?
Samuel retribuiu o sorriso e se sentiu bem mais aliviado, como
se um peso tivesse saído de cima de seus ombros, percebendo como
era importante e verdadeira a amizade de Clever.
94
Capítulo 9 - Boas recordações

- Mas eu queria saber de uma coisa Samuel.


- O quê? – perguntou Samuel com um ar de interrogação.
- Por que você não se declara logo para a Amanda? Você não é
tão tímido assim, se eu fosse você não perdia mais tempo.
- É que.... é que... – Samuel gaguejou querendo contar para
Clever sobre o bilhete, mas fazia tanto tempo, eles eram crianças
naquela época, ficou sem graça de falar. – É que não tenho certeza se
ela gosta de mim.
- Como assim? – perguntou Clever com um ar de indignação.
– Todo mundo sabe que ela gosta e muuuiiitoooo de você, só um
cego pra não perceber, aliás, acho que até um cego perceberia – falou
Clever rindo.
- Você acha mesmo? – perguntou Samuel com um ar de quem
queria uma resposta sincera e com convicção.
- Eu não acho. Eu tenho certeza. Não sei por que ela tem esse
mau gosto, mas fazer o que! – falou rindo sem perder a oportunidade
de fazer uma piada.
- Mas, e você e a Vitória, hein? – desconversou Samuel, mas sem
deixar de pensar no que Clever lhe havia falado. – Eu é que acho que
ela está precisando trocar de óculos – retribuiu a piada de Clever.
- Sabe que até estou achando ela mais bonitinha..., se ela
mudasse de óculos então – falou rindo Samuel. – Ela passou por
muitas dificuldades na vida, mas é impressionante como ela vence
e dá a volta por cima, admiro muito ela....., quem sabe – falou rindo
novamente.
- Vamos ver quem chega lá embaixo primeiro – falou Clever,
agora ele fugindo da conversa.
Assim, desceram correndo os dois, Samuel sem se importar
em ganhar pela primeira vez, pois só pensava no que Clever havia
dito, e achava que estava mesmo na hora de falar com Amanda,
afinal, tinham se passado vários anos, quem sabe agora tudo seria
diferente.

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96
Capítulo 10
O último encontro
dos três no pé
de jabuticaba
“O grande tempero da vida é a amizade. Transformá-la em uma
fonte de alegria é um segredo que poucos descobrem”
Joseph Addison

E

stavam entrando no último mês do ano de 1977, eles tinham
se tornado belos jovens, Clever não cresceu muito, ficou com
seu 1,66 m, mas era esbelto, sempre jogava futebol, o cabelo ainda
era meio encaracolado e sempre o mantinha curto, se orgulhava dos
olhos esverdeados, continuava muito carismático cercado de amigos,
mas sempre dando mais atenção para Samuel, procurando de alguma
maneira ajudá-lo. Nos últimos meses ficou muito amigo de Vitória,
aliás, uma amizade que todos falavam que ia dar em casamento, algo
que ele negava “de pé junto”.
Já Amanda estava se tornando uma garota cada vez mais bonita,
o cabelo tinha escurecido um pouco, mas a deixou ainda mais bela,
pois destacava seus olhos verdes. Tinha deixado o cabelo crescer
bastante, chegando perto da cintura, mas sempre muito bem cuidado.
Tinha o rosto bem delicado, onde possuía covinhas nas bochechas
que deixava Samuel encantado.
Ela procurava sempre dar atenção a todos, principalmente às
pessoas que eram ignoradas, e nunca deixava de dar bom dia para
dona Maria, a faxineira da escola, e sempre a chamando pelo nome.
Era muito aplicada nos estudos, e em quase todas as matérias fechava
com nota máxima, mas nem por isso ela era soberba, dizendo sempre
que era Deus quem a ajudava.
Mário era, da turma, o que mais tinha crescido, chegou a

97
Tempo de Descoberta

1,84 m com 17 anos, e também cresceu muito para os lados, mas era
dono de uma simpatia singular. Não era muito chegado nos estudos,
mas mesmo assim sempre tirava notas boas e tinha um talento incrível
para desenhar, passava praticamente a aula toda desenhando algo e,
principalmente, fazendo caricaturas do pessoal da sala.
Algo que surpreendeu a todos foi que Mário estava revelando o
desejo de ir fazer teologia após o término do colegial, pois, pelo jeitão
brincalhão dele, ninguém esperava que ele fosse querer ser teólogo
ou pastor. Isso era algo que Amanda dava todo apoio e se sentia
orgulhosa sendo ela que o iniciara na fé cristã.
Samuel achava incrível como Amanda influenciava as pessoas
e sempre de uma maneira positiva. Ela conseguia ver algo bom nos
outros, inclusive em Fred, fazendo com que Samuel ficasse constrangido
por ter ficado contente com a expulsão dele da escola.
Samuel se achava um rapaz comum. Media 1,77m, não era
magro como Clever, mas também não era gordo, o que sempre fazia
era mudar o corte de cabelo, foram raras as vezes que passou um
ano com o mesmo corte, deixava crescer a parte de trás, outras vezes
a costeleta ou a franja. Certa vez ficou um ano sem cortar, depois
raspou quase a zero. Amanda achava aquilo muito engraçado,
perguntava o que ele tinha contra o próprio cabelo, e ele respondia
que simplesmente gostava de fazer mudanças, já que não podia mudar
o rosto, brincava, mas o motivo era que ele não gostava do cabelo,
ainda mais da entrada que tinha desde novo.
Fazia quatro anos desde a morte de sua mãe e o seu
relacionamento com o pai melhorou muito, mas ele ainda não
conseguia ser totalmente aberto, apesar das inúmeras tentativas do
senhor Caio.
Uma das lembranças que Samuel guardava foi de quando eles
estavam na sala vendo televisão, num domingo, cerca de dois anos
atrás, e o senhor Caio começou a relembrar a infância de Samuel, os
primeiros passos, a primeira vez que ele falou papai, que ele nunca
entendeu se realmente se referia a ele, contou sorrindo, e meio que
perguntando para Samuel, que respondeu brincando que era lógico
que era ele.
98
Capítulo 10 - O último encontro dos três no pé de jabuticaba

Foi no meio dessas recordações que ele parou de falar, olhou


com uma expressão mais séria para Samuel, os olhos se encheram de
água e com um nó na garganta continuou:
- Sabe filho, papai nunca foi de lhe falar palavras carinhosas, que
te amava, pois eu achava que trazendo as coisas para dentro de casa,
cuidando de você e de sua mãe, era a demonstração do meu amor,
- nesse momento engoliu um nó seco na garganta e continuou – sei
que muitas vezes você não percebeu esse amor, mas quero que saiba
que eu te amo e sempre te amei muito, para mim foi duro demonstrar,
pois meus pais nunca demonstraram para comigo este amor – nesse
momento já não conseguia segurar as lágrimas – e eu falhei muito
com você e com sua mãe fazendo a mesma coisa.
Samuel tentou falar algo, mas ele continuou.
- Mas quero que saiba que você sempre foi muito especial para
mim, um sonho realizado. Quantas vezes roguei a Deus para você
nascer, quantas vezes queria demonstrar esse amor, mas algo me
impedia e eu simplesmente me calava.
Nesse momento Samuel disfarçava para o pai não perceber as
lágrimas que insistiam em lhe descer a face.
- Querido, me perdoe, - continuou Caio – me perdoe pelos erros
que cometi com você e com sua mãe. – Nesse momento, o coração de
Samuel gelou, pois, como poderia perdoar no lugar de sua mãe? Mas
ele já sabia que sua mãe o tinha perdoado por tudo.
- Também preciso lhe pedir perdão por ter escondido tanto
tempo de você... – nesse momento a voz do senhor Caio praticamente
falhou por inteiro, Samuel, preocupado com a idade do pai, com a
emoção forte que sentia, lhe disse:
- Pai, eu entendo tudo, não precisa pedir perdão, eu também errei
várias vezes – ao ouvir isso, Caio recobra forças e tenta continuar:
- Não querido, preciso lhe contar tudo, preciso que você me
perdoe por tudo, preciso .... – Samuel, nesse momento, ficou mais
preocupado com a saúde do pai e procurou de vez fazer o pai pensar
em outra coisa.
99
Tempo de Descoberta

- Já disse pai, está tudo bem, - falou sorrindo – agora que me


lembrei, fiquei de estudar com Clever, tenho que ir lá, fica com Deus
– falou Samuel, se levantando e dando um beijo na testa do pai
pela primeira vez e saindo de casa, quando na verdade, não tinha
combinado nada com Clever. Ele foi para o pé de jabuticaba pensar
um pouco nessas palavras e no bilhete de sua mãe.
Aquelas palavras marcaram muito a vida de Samuel e abriu
uma porta para ele voltar a se relacionar melhor com o pai, pois, pela
primeira vez, ouviu o pai falar que o amava, e que ele era especial,
Samuel ficou lá sentado durante um bom tempo, chorando, desejando
que sua mãe estivesse lá.
Aquilo também foi para o senhor Caio uma vitória, pois a cada
dia conseguia expressar mais sentimentos reprimidos a vida toda,
via que mesmo sendo velho, ainda havia esperança de mudar, viver
sua vida com verdade e transparência, porém, sabia que tinha ainda
conversas importantes a ter, e para isso precisaria de muita coragem.
O senhor Caio tentava evitar ser vítima de sua história ou ficar
lamentando o tempo perdido, mas era muito duro, pois a fuga sempre
foi mais fácil, mas entendia que só viveria plenamente se olhando
no espelho como ele era e procurando mudar a cada dia. Tinha em
Maria das Dores o grande exemplo de mudança e persistência, e por
isso sabia que não era tarde, sabia que o mais difícil já tinha feito que
era começar a mudança. A amizade que tinha iniciado com o pastor
Antônio Elias o ajudava muito, a experiência dele e os conselhos
sempre foram importantes para o senhor Caio nessa época, mas,
acima de tudo, a mudança se tornou forte quando Caio começou a
ver Deus além da religião, percebeu a importância de se relacionar
intimamente com Deus, sem barganhar ou por interesses, mas apenas
pelo que Ele é. Era um Deus novo, algo que o senhor Caio, mesmo
indo à igreja desde pequeno, nunca tinha conhecido.
Ele via em pessoas diferentes a presença desse Deus, via no
pastor Antônio Elias que era um pouco mais velho que ele, via na
jovem Amanda, que mesmo nova, conhecia a Deus de uma maneira
íntima e verdadeira, não precisando passar por situações difíceis para
se aproximar de Deus. Via em Clever e Mário que vida com Deus
100
Capítulo 10 - O último encontro dos três no pé de jabuticaba

não é privilégio de pessoas mais velhas ou que nasceram em um lar


cristão estruturado. Via em dona Áurea, a mãe de Clever, que por
melhor que alguém seja, quando se tem um encontro real com Deus,
não há bondade suficiente que não precise de Deus, como não existe
alguém tão ruim que Deus não ame, e, acima de tudo, tinha visto em
Maria das Dores, sua amada esposa, que a vida só é vida vivendo sem
máscaras e desculpas ao lado de Deus, que é quem nos capacita para
viver uma vida transparente e plena.
Amanda tinha um talento incrível para a música, tocava piano
e cantava maravilhosamente, já pertencia ao grupo de louvor de sua
igreja, e Samuel ficava como que hipnotizado quando ela tocava e
cantava, principalmente quando ela e Nadejida tocavam juntas,
ambas tinham a música no sangue.
Samuel tinha ido algumas vezes ao “projeto sopão” do qual
elas faziam parte, que era uma obra social da igreja que consistia em
distribuir sopa para as pessoas carentes da cidade. Samuel admirava
como elas tratavam com amor os mendigos e pessoas marginalizadas,
apesar do mau cheiro, elas não se importavam e ficavam ao lado,
ouviam histórias e até mesmo abraçavam as pessoas, não se
importando com a sujeira que ficaria em suas roupas.
- Samuel e Clever! – chamou Amanda após o final da aula
daquele ano de 1977. – Vamos para o pé de jabuticaba? – convidou
ela.
Eles estranharam, pois já fazia muito tempo que eles não iam os
três juntos, e muitos, muitos anos que Amanda não os convidava.
- E aí, vamos? Ou vocês vão ficar aí parados? – insistiu ela
abrindo um sorriso.
Foram eles sem entender direito o porquê do convite de Amanda,
que durante todo o percurso permaneceu calada, apenas assobiando
uma de suas músicas prediletas.
Ao chegarem lá, ela olhou para a árvore, onde estava escrito o
nome dos três.
- Vocês lembram quando fizemos isso? – perguntou Amanda,
101
Tempo de Descoberta

mas já respondendo, antes que eles pudessem falar qualquer coisa –


foi em um dia especial, e hoje mais do que nunca a cruz nos liga, e é
por essa cruz que eu tomei uma decisão – falou ela agora com o olhar
mais sério.
Samuel e Clever se entreolharam, como quem perguntasse, o
que ela queria dizer, mas Samuel ficou mais gelado, com medo do
que ela poderia dizer, foi logo dizendo, com um ar de brincadeira para
disfarçar a tensão.
- Para de drama e diz logo.
- Antes, vamos sentar em um galho da árvore, quem me ajuda
a subir? – perguntou, mas já olhando para Samuel, que achou aquilo
engraçado, pois ela nunca tinha subido nos galhos, sempre que ela ia,
eles sentavam embaixo da árvore.
- O que foi, estão com medo de subir? – falou sorrindo e já
estendendo a mão para Samuel ajudá-la a subir.
Tanto ele como Clever acharam engraçado, mas gostaram da
atitude dela, e após os três estarem lá em cima olhando a cidade,
Amanda, após soltar um suspiro e sentir o vento bater em seu rosto,
começou a falar o motivo deles estarem lá nessa tarde.
- Resolvi fazer medicina para ser missionária na parte pobre da
África, talvez Quênia ou Angola, ainda não sei, mas por isso, o ano
que vem eu vou estudar em Belo Horizonte, para fazer cursinho ao
mesmo tempo, pois a faculdade particular é muito cara, então, tenho
que me esforçar para passar em uma estadual – disse Amanda, que ao
mesmo tempo que demonstrava alegria, se via um olhar de saudades
– e talvez o próximo ano só volte aqui nas férias do meio do ano –
falou agora demonstrando claramente um olhar de tristeza.
Aquilo cortou o coração de Samuel, já haviam se passado anos
anos desde aquele bilhete, e depois, nunca mais ele teve coragem de
lhe falar mais nada sobre o assunto.
Quando Clever lhe falou que tinha certeza que ela gostava dele,
ele pensou em falar, mas ainda lhe faltava coragem, ou até mesmo o
orgulho lhe impedira de falar, algo que ele não queria admitir. Mas,
102
Capítulo 10 - O último encontro dos três no pé de jabuticaba

no fundo, sabia que o orgulho lhe impedira muitas vezes, mas agora,
ela estava indo passar tanto tempo longe, poderia perder todas as
chances, pois se veriam bem menos, ela conheceria mais pessoas,
e, de repente, algum rapaz que lhe interessasse. Enquanto Samuel
pensava tudo isso, ela continuou:
- Por isso, resolvi passar estas férias aqui, não viajar para lugar
algum, pois talvez seja o meu último verão livre de estudos para poder
me divertir com os amigos – falou ela sorrindo e abraçando ambos.
Depois, ainda ficaram um tempo lá falando sobre os sonhos,
o tempo de escola, como se conheceram, mas Samuel ficava mais
ouvindo, pensando no pouco tempo que lhe restava. Amanda não
imaginava como aquelas palavras tinham colocado medo no coração
de Samuel.
Ele sabia que aquele verão poderia ser a sua última chance,
tinha que fazer algo, falar. Percebia que ela sentia algo por ele, mas
tinha medo, receio que isso lhe custasse um novo amargo bilhete.
As férias começaram, e para ele e Clever era normal passarem
as férias em casa, pois a família era pequena, os pais não tinham
condições financeiras, e Clever, que ia apenas para São Paulo passar
uma ou duas semanas no verão, também decidiu não ir. Essa seria a
primeira vez que Amanda passaria com eles, e realmente foi muito
bom, foi diferente, se divertiram muito. Iam ao cinema, à praça, à casa
de um deles para jogar. E Amanda sempre o arrastava para participar
de algum projeto social da igreja.
Também estavam sempre com o pessoal da igreja, os que não
tinham viajado. Se reuniam para jogar algum jogo, nadar na casa
de alguém que tinha piscina ou jogar voleibol. Eram tardes e noites
inesquecíveis, e era notório que Amanda procurava viver aquilo
intensamente, como se fosse o último verão, como se soubesse.
Nesse verão, Clever se aproximou ainda mais de Vitória e, no
final do verão, resolveram assumir o namoro. Samuel não acreditava
que seu melhor amigo tinha lhe “passado a perna”, sentiu uma
certa inveja, mas, ao mesmo tempo, ficou muito feliz pelo amigo,
pois tanto ele como Vitória eram pessoas boas e felizes e sabia que

103
Tempo de Descoberta

Vitória ajudaria, e muito, Clever a crescer maduro. Porém, o mais


engraçado, foi que ele sempre havia negado que tinha algo entre eles,
e agora estava ele lá, todo apaixonado por Vitória. Maurício e Carol
já estavam namorando há três anos e resolveram colocar uma aliança
de compromisso; tudo isso fazia com que Samuel percebesse que não
poderia mais perder tempo, tinha que falar com Amanda.
Amanda tratou, aquele verão, Samuel de uma maneira mais
especial do que sempre o tratara. Clever, por sua vez, insistia com
Samuel para ele falar logo com Amanda, já Samuel, estava esperando
mais para o final, para que o “clima” ficasse mais forte, e também,
mesmo ela demonstrando muito carinho por ele, dificilmente eles
conseguiam ficar sós. Assim foi se acabando aquele verão, Samuel
pensou mil vezes, ensaiou vários discursos, sonhou, imaginou, mas
não falou, nem ele mesmo acreditava que tinha, simplesmente, se
calado.

104
Capítulo 11
Ironia do tempo

“O amor é a melhor música na partitura da vida. Sem ele você será


um eterno desafinado no imenso coral da humanidade.”
Roque Scheneider

E

ntraram no último ano do colegial, ele teve ódio de si mesmo,
não entendeu por que não conseguiu expor algo que era visível,
e tudo por causa de um bilhete, um bilhete de quando eles tinham nove
anos, sim, nove anos de idade, ele mesmo não se conformava. Está
certo que era tímido, mas ela era a sua melhor amiga, demonstrava
interesse. Por que era tão difícil fazer o que mandava o coração?
pensava Samuel.
Nessa crise, nesse desespero, pensando que ela já estava em
Belo Horizonte, tendo novos amigos, conhecendo novos rapazes, foi
então que ele resolveu tomar coragem, sentou-se em frente à mesa de
estudo que tinha em seu quarto, leu novamente o bilhete de Amanda,
pegou um novo papel e começou a escrever para Amanda:
“Querida Amanda, há quanto tempo quero lhe dizer essas
palavras que agora escrevo, mas não sei se por covardia, orgulho ou
medo de perder de vez quem mais tem valor em minha vida, não o fiz.
Por isso quero começar pedindo perdão por só agora, e através de um
papel e caneta, lhe dizer o que sinto e o que se passa dentro de mim.
Eu sei que já faz muito tempo, mas aquela resposta que você me
deu quando tínhamos nove anos ficou marcada em minha vida, até
hoje tenho o bilhete que você escreveu dizendo: “você não é especial
para mim”. Eu sei que você não queria me magoar, mas aquilo fechou
uma porta em minha vida, comecei a reprimir mais os sentimentos,

105
Tempo de Descoberta

não entendia a razão, pois pela sua maneira de me tratar, achava que
era especial para ti.
Mesmo sendo coisa de criança, isso me marcou e muitas vezes
quis falar contigo sobre o assunto, abrir o meu coração, lhe dizer o
quanto você foi e sempre será importante em minha vida e quantos
sonhos sonhei com você.
Lembra de quando me perguntou se eu a acompanharia se você
fosse missionária na África? Fiquei sem graça e dei uma resposta boba,
falando que iria se fosse no Havaí. Contudo, a vontade era de lhe falar
que a acompanharia a qualquer lugar que você fosse, pois estando ao
seu lado, esse seria o melhor e mais belo lugar.
Como você está vendo, fui muito tolo, e houve tantos outros
momentos onde eu apenas “quis” falar, mas agora, quando penso que
posso perdê-la para sempre, simplesmente por me calar, me dá um
desespero sem igual, e por isso eu resolvi lhe falar um pouco do que
sinto e sempre senti, desde o primeiro dia que lhe vi com o vestido
rosa, quando tínhamos apenas seis anos.
Estou com a mão gelada escrevendo essas palavras, pois não sei
o que você irá pensar, mas procurei ser o mais transparente possível.
Sei que ficaram muitas palavras para dizer, mas gostaria de lhe dizer
pessoalmente, isso se você quiser ouvi-las.
Perdoe-me por me calar todo esse tempo e pelas vezes que lhe
tratei mal, como que por vingança, mas saiba que você é um anjo
que Deus colocou em minha vida, e independente da resposta que
você me der, você é a pessoa mais importante que já conheci, uma
joia rara, quero que você saiba que sempre foi muito especial, e hoje
é a pessoa mais especial que tenho em minha vida. Você me ensinou
muitas coisas, me ensinou a amar, a perdoar, a olhar com graça para
as pessoas, a saber quem é Deus, a ter esperança, enfim, me ensinou
a viver.
Com amor
Samuel”
Ao terminar de escrever a carta Samuel estava gelado, quis logo

106
Capítulo 11 - Ironia do tempo

ir ao correio colocar antes que perdesse a coragem, assim foi, suando,


não acreditando que finalmente teve coragem.
Como era terça-feira, antes do almoço, imaginou que a carta
chegaria no máximo quarta-feira, e se ela respondesse no mesmo dia,
no máximo até sexta-feira teria a resposta.
Esta se tornou a semana mais longa de Samuel, ficava
imaginando as mil respostas que ela poderia dar, e ficou preocupado.
Se a carta não chegasse até sexta-feira poderia ser por que ela não
teve interesse em responder, ou o correio atrasou, ou ela não saberia
o que responder, enfim, a cabeça de Samuel não parava, e via que
estava sofrendo antecipadamente, por isso resolveu tentar se acalmar
e esperar.
Sexta-feira chegou e Samuel nem foi à escola de tão nervoso
que estava, ficou esperando o carteiro que passava sempre logo após
o almoço. Quando viu, havia duas cartas, olhou a primeira e era uma
propaganda de uma nova loja na cidade, ficou com a mão tremendo
e foi ver a segunda carta.
Ao olhar, logo de cara reconheceu a letra, era de Amanda,
que tinha respondido realmente logo que recebeu a carta. Samuel
começou a tremer, resolveu ir ler a carta embaixo do pé de jabuticaba,
pois lá ele tinha apenas boas recordações de Amanda. Ao chegar lá,
olhou na árvore o nome dele, de Amanda e Clever, passou os dedos
em cima do nome de Amanda, sentou bem embaixo do escrito na
árvore, respirou fundo e foi abrindo com todo cuidado a carta.
“Querido Samuel...”
Assim começava a carta, e Samuel já ficava imaginando, o
porquê do querido, seria uma maneira educada de lhe dar um fora?
Seria porque ele realmente era querido? Enquanto lia a carta as
perguntas sempre lhe vinham à cabeça.
“...tive três sentimentos ao ler a sua carta, de surpresa, tristeza
e alegria...”
Aquilo gelou Samuel, por que tristeza? Procurava ler com calma
para não perder nenhuma palavra.

107
Tempo de Descoberta

“...surpresa por não esperar, aliás, na verdade eu sempre


esperei uma carta ou palavra sua. Lembra do jantar de gala do retiro
de carnaval? Achava que naquela noite você iria dizer algo, mas daí
Clever lhe chamou e você se foi...”
Sempre Clever, pensou Samuel.
“...tristeza, porque alguém fez uma brincadeira muito sem graça
com o que lhe escrevi, pois no bilhete eu escrevi “você é especial para
mim”, não sei quem acrescentou o “não” na frente, mas com certeza
não fui eu....”
Samuel não podia acreditar no que estava lendo, na hora veio
o nome de Fred a seus pensamentos, só poderia ter sido ele, pois ele
tinha prometido vingança e até então ele achava que apenas Clever
tinha sido atingido pela vingança prometida de Fred, e agora ele via
que ele na verdade é quem tinha sido mais atingido e durante 10
anos, 10 longos anos. Aquilo aumentou ainda mais a raiva que tinha
por Fred, se achava ainda mais tolo de nunca ter falado com Amanda
sobre o bilhete e de nem ter desconfiado, mas agora já não adiantava
pensar, queria ler o restante da carta.
“...nunca entendi por que você mudou tanto comigo depois
daquele bilhete, fiquei muito chateada e também pensei em falar
contigo várias vezes, mas como você, sempre me calei...., agora
entendo, e fico triste como isso nos atrapalhou, mas também fico feliz,
pois ainda há tempo, sim, há tanto para dizermos um para o outro, e
agora sem confusão, sem ninguém atrapalhar.
Infelizmente, só daqui a quatro meses estarei indo para
Divinópolis, pois tenho muitos exames e provas, e tenho que passar
em uma faculdade estadual, mas gostaria que você me escrevesse
mais nesse tempo, não se calasse, escrevesse sobre você, seu sonhos,
e quando for aí, marcaremos de nos ver, e será na porta da escola
onde nos conhecemos.
Com amor, de sua Amanda.”
Aquelas palavras tiraram o fôlego de Samuel, ele releu a carta
umas 10 vezes lá embaixo da jabuticabeira, não podia acreditar,
parecia um sonho, e se aquela semana esperando a carta chegar já
108
Capítulo 11 - Ironia do tempo

tinha sido uma eternidade, o que seriam mais quatro meses? Mas
seriam quatro meses em que passaria sonhando feliz, pois agora tudo
estava para ser dito. Samuel se sentia o homem mais feliz da terra, e
durante esses meses ele sempre lembrava de como ela tinha assinado
a carta “de sua Amanda”.
Ao voltar para casa, foi logo ver a carta que ela tinha escrito
quando criança, e foi aí, pela primeira vez, que ele notou que o “não”
estava escrito apertado entre as palavras “você” e “especial”, além da
letra ser um pouco diferente. Como não tinha percebido isso antes?
Como tinha sido tão cego? Falava Samuel para si mesmo.
Foi aí que lembrou do terceiro e quarto item na carta de sua
mãe:
“3- ninguém pode te ferir além daquilo que você permitir;
4- a cada dia você escolherá se guarda lixo ou plantará um
jardim em sua mente.”
Ele percebeu que a ferida não foi causada por Fred ou por
Amanda, e sim por ele mesmo que resolveu “cultivar” o ressentimento,
plantando sempre mágoas em seu coração, no lugar de enxergar tudo
com outros olhos.
Se ele tivesse entendido antes o recado de sua mãe, com certeza
tudo teria sido diferente, percebeu mais uma vez como Maria das
Dores era sábia, até mesmo nos últimos momentos de sua vida.
Resolveu rever sua vida, ver quantas feridas ele tinha “cultivado”
com seu pai, Clever, e em vários momentos de sua vida, e estava
disposto a mudar ainda mais, pois não queria perder mais tempo, e
como Amanda disse: ainda há tempo.
Clever percebeu claramente a alegria de Samuel, e lhe perguntou
o porquê disso. Samuel lhe contou sobre a carta que havia escrito,
como Fred havia mudado o significado do bilhete e como ele tinha
perdido tempo.
- Nossa, não consigo acreditar, - disse Clever – que loucura,
puxa, por que você nunca me contou isso? – falou agora com um ar
triste.
109
Tempo de Descoberta

- É que estava muito confuso com tudo, era muita coisa na minha
cabeça – justificou Samuel.
- Fred realmente cumpriu o prometido, Samuel.
- Pois é, mas agora ele está pagando por tudo – falou Samuel, se
referindo ao fato de Fred ter sido preso por vandalismo na rua, após
quebrar uma banca de jornal de madrugada, voltando bêbado do
clube.
- Na verdade ele é um coitado – disse Clever, provocando
uma reação de surpresa no rosto de Samuel. – O padrasto dele é
um alcoólatra que bate na mãe, essa por sinal também não é lá essas
coisas, gosta muito de beber também e já teve uns três maridos. Além
disso, ele se sente rejeitado por ser gordo e tem o jeito estúpido de ser
como fuga. O que ele precisa na verdade é Deus, para saber o que é
ser amado.
Aquelas palavras surpreenderam Samuel, e viu que Clever era
mais sábio do que imaginava, sem ler o bilhete que sua mãe havia
deixado, ele cumpria o pedido que ela tinha feito a Samuel.
Mesmo concordando, Samuel, com certeza, não queria ser a
pessoa a falar de Deus para Fred, que Deus usasse outra pessoa, e se
não usasse ninguém, também não teria problema nenhum, pensou.
Sabia que esse pensamento era justamente o contrário do que sua mãe
queria, e também de sua doce Amanda, mas era isso que ele sentia
no momento. Resolveu não pensar, pois estava muito feliz para pensar
em Fred, e ele já lhe tinha roubado muito tempo de felicidade.
Os meses foram passando numa lentidão que pareciam anos.
A cada dia Samuel pensava no que falar, como falar, na reação que
ela teria, mas, pelas cartas que trocaram esses meses, ele ficava cada
vez mais esperançoso, tinha até se convencido em ser missionário na
África, pois tudo valeria a pena.
A última carta que Amanda escreveu, foi duas semanas antes de
voltar para Divinópolis, e esta carta ficou muito marcada na vida de
Samuel que leu a cada dia, até o encontro tão esperado.
“Querido Samuel, você não sabe como me ajudou nesses quatro

110
Capítulo 11 - Ironia do tempo

meses receber semanalmente cartas suas, saber mais um pouco da sua


vida, de seus sentimentos, sem agora precisar tentar entender e, sim,
ditos por você mesmo. Você foi mais que um amigo nesse tempo de
solidão nessa grande cidade.
Quero que saiba que a cada dia lhe admiro mais e aprendo muito
com você, também espero que você não me veja como perfeita, pois
erro muito e tenho medo de decepcioná-lo, também tenho em meu
coração sentimentos ruins que entristecem a Deus, apenas procuro
não alimentá-los e sim amar a Deus a cada dia e às pessoas à minha
volta.
Mas já briguei várias vezes com meu irmão, já tive raiva de
pessoas e uma vez menti para a minha mãe, mas a mentira não durou
um dia, pois não poderia dormir sabendo que tinha mentido para ela.
Isso foi quando cheguei tarde da casa de Nadejida porque ficamos
assistindo um filme, e eu falei que tinha sido por causa de um trabalho
de escola. Está vendo? Também erro, e quero que você me conheça
como sou.
Às vezes sinto medo do futuro, de tomar decisões erradas, mas
acima de tudo procuro aprender sempre, aprender com meus erros,
com o que vejo nas pessoas, pois todos têm algo para nos ensinar.
Quero que você me conheça simplesmente como sou e se for
para me amar, que me ame assim e me ajude a melhorar a cada dia.
Obrigada por você fazer parte da minha vida e ser alguém muito,
mas muito especial.
De sua Amanda.”
Samuel ficou com os olhos cheios de lágrimas, nunca imaginou
que sua vida fosse exemplo para alguém, e principalmente para alguém
que a maior mentira dita foi para a mãe, em relação a tarefa de casa.
Ele percebeu que Amanda conseguia enxergar nele qualidades que
nem ele mesmo enxergava.
Ela não precisou passar por situações difíceis na vida para
aprender a buscar a Deus. Buscava sem interesse, por amor, não
invejava outros jovens que faziam o que queriam, ela tinha escolhido

111
Tempo de Descoberta

a vida, não forçada pelos pais ou com medo do inferno, foi por amor,
esse que sempre contaminou Samuel, desde que se conheceram.
Sim, para Samuel, Amanda era a prova que a felicidade não
está no ter e sim no ser, e definitivamente ela era, pois vivia uma vida
sem máscaras.
Ela estava para voltar no dia 6 de julho daquele ano de 1978,
por isso marcaram de se encontrar em frente à escola no dia seguinte,
às 19 horas, uma sexta-feira, um dia que seria inesquecível na vida
de Samuel.
Ele não via a hora de chegar o dia. Acordou cedo, ficou o dia
todo pensando em que roupa usar, tomou o banho mais demorado
que já havia tomado, mal quis comer, o pai percebia a ansiedade do
filho, e deu-lhe um dinheiro a mais para levá-la para jantar, pois sabia
como era importante esse dia para Samuel.
Às 17 horas Samuel já estava pronto, resolveu ir antes, pois
queria comprar flores, e não queria se atrasar, não queria que o tempo
novamente lhe pregasse uma peça, por isso às seis horas da tarde já
foi se despedindo do pai.
- Ainda é cedo Samuel – disse com um ar de sorriso seu Caio.
- É que quero comprar umas coisas no caminho.
Samuel já estava abrindo a porta, quando escutou o telefone
tocar. Ele olhou para o pai, como se dissesse para o pai atender,
mas sabia que o pai já não estava muito forte e o telefone estava na
cozinha, por isso resolveu ele mesmo atender o telefone.
- Nossa Clever, fique calmo, eu....eu....- relutou Samuel para
dizer – eu já estou indo...
O senhor Caio viu a expressão de seriedade do filho e lhe
perguntou o que tinha acontecido.
- A dona Áurea, mãe do Clever, parece que teve um derrame,
eles estão no hospital.
O senhor Caio já foi se levantando pegando o casaco.
- Vamos logo – disse para o filho.
112
Capítulo 11 - Ironia do tempo

Samuel olhou as horas, ficou pensando, sabia que Clever


precisava muito dele, mas esse era o encontro de sua vida, sua mente
estava confusa, precisava ir, mas não podia, sabia que estava sendo
egoísta, mas já havia perdido 10 anos. O senhor Caio, percebendo,
lhe disse:
- Querido, ainda tem tempo, vamos lá, depois você vai ao
encontro.
Samuel não queria pensar, mas sabia que tinha que ir, mesmo
não querendo, sabia que Amanda e sua mãe iriam se estivessem em
seu lugar, quis fazer o certo, era seu melhor amigo, mas um pensamento
de súbito veio à sua mente “Clever, tinha que ser o Clever”.
Ao chegar ao hospital encontrou Clever chorando, esperando o
médico vir dar a notícia do estado em que sua mãe se encontrava.
Ele tinha comentado com Clever do encontro, mas, com certeza,
nessas condições, ele tinha esquecido do encontro do amigo.
A cada minuto Samuel olhava o relógio e nada do médico
aparecer. A vontade dele era simplesmente sair correndo, mas não
podia fazer isso com o seu melhor amigo, mas já eram quase sete
horas.
Amanda havia chegado 15 minutos antes, usava um vestido
rosa, parecido com aquele que ela tinha quando conheceu Samuel,
tinha comprado justamente para essa ocasião, em sua cabeça também
havia um laço rosa, isso a deixava ainda mais com um ar de pureza,
parecendo uma boneca.
Também havia levado uma caixa de chocolate com um laço e
um papel no meio. Já tinha passado das sete horas e até agora Samuel
não havia chegado, ela ficou um pouco preocupada, pois sabia que
ele não gostava de se atrasar, e principalmente naquele dia.
Já Samuel, estava desesperado, logo depois que encontrou
Clever, foi comprar uma ficha para ligar para a casa dos pais de
Amanda e explicar a situação, mas como demorou para achar a ficha,
quando ligou, o pai de Amanda informou que ela tinha acabado de
sair, aumentando ainda mais a angústia que Samuel estava sentindo.

113
Tempo de Descoberta

- Por que você não vai buscar Amanda e a traz para cá? –
perguntou o senhor Caio para Samuel.
- Sei que não foi isso que vocês planejaram, mas creio que
ela irá entender perfeitamente, e Clever ficará muito feliz em vê-la
aqui também, e depois, vocês terão muito tempo para conversar –
completou o senhor Caio.
“Por que não tinha pensado nisso antes? Como sou idiota”, foi
o pensamento de Samuel.
Eram 19h15, Samuel saiu correndo para atrasar o menos
possível.
Amanda, vendo que Samuel não chegava, ficou preocupada,
e atravessou a rua para comprar uma ficha e ligar para a casa de
Samuel, vendo que ninguém atendia, resolveu ligar para a casa de
Clever, pois talvez ele soubesse de alguma coisa.
Enquanto isso, Samuel corria em direção à escola, já tinha
esquecido de comprar as flores, começou a suar, mas não importava,
só não queria se atrasar de novo, não outra vez.
Ficou preocupado quando ganhou a visão da escola e não
viu Amanda lá, ficou imaginando se ela cansou de esperar por ele
e foi-se embora. Mas, ao olhar para o outro lado da rua, ele a vê no
orelhão, e com isso acalma o coração, para de correr, para começar
a se recompor, pois já estava todo suado e despenteado, foi quando
ela desligou o telefone e começou a atravessar a rua, voltando para a
porta da escola.
Nesse momento, ela ouve o seu nome sendo chamado, no
mesmo instante ela reconhece a voz de Samuel, para, e com um
sorriso doce nos lábios, vira o rosto e vê Samuel vindo em sua direção
com um sorriso, quando ele diz o seu nome novamente, mas agora
num tom mais forte de agonia, volta a correr ainda mais depressa e
em seu rosto desaparece o sorriso e surge uma grande aflição.

114
Capítulo 12
Palavras não ditas

“A vida não é tanto o que nos acontece,


mas a maneira como reagimos ao que nos acontece”
James C. Hunter

D

e sonhos a pesadelos passaram pela cabeça de Samuel em
frações de segundos. Ele simplesmente não podia acreditar no
que estava vendo, e daquela distância o máximo que poderia fazer
era gritar para Amanda e fazer a oração mais curta, e mais sincera,
que já tinha feito, clamando pela vida da amada Amanda.
Ela, percebendo o desespero de Samuel, sem entender, olha
para o lado e então vê, vindo em sua direção, dois carros tirando
um “racha”, uma Brasília vermelha com uma Variant branca, mas já
estava perto demais, ela percebeu que não daria tempo para correr.
O que espantou Samuel foi que, ao invés de ver nela também o
desespero, ela simplesmente fechou os olhos, ergueu a cabeça, cruzou
os braços perto do coração, segurando a caixa de chocolates firme
com a mão direita, a expressão em seu rosto, era como se conversasse
com alguém muito querido.
A Variant, ao ver a garota de rosa no meio da rua, consegue
desviar o carro para a direita, aproveitando o espaço que ainda havia,
sem precisar subir na calçada.
Já a Brasília estava de frente com Amanda, o motorista tentou
desviar, mas acabou atingindo bem no farol direito do carro o corpo
de Amanda bem em cheio. Com o impacto ela é jogada por cima do
carro vindo a cair de uma vez no chão, largando os chocolates que
ainda cairam perto de onde ela estava.
115
Tempo de Descoberta

Samuel simplesmente não podia acreditar no que estava vendo,


era um pesadelo, do qual ele tinha a esperança de poder acordar, por
mais que ele quisesse chegar até Amanda para ver se ela estava bem,
lhe faltava coragem, ele queria ao mesmo tempo que tudo passasse
depressa e acabasse, como queria nunca chegar até Amanda, com
medo do que veria, com medo de já não tê-la mais por perto.
Samuel fez a oração mais angustiada de sua vida, incluindo
promessas eternas a Deus, mudança de vida, usando a autopiedade.
Lembra a Deus como Amanda era cristã, que inclusive queria estudar
medicina com a intenção de ser missionária, que se Ele tivesse que
levar alguém que fosse ele e não ela, enfim, tudo o que se lembrava e
tinha direito fez para não perder o tão sonhado reencontro.
Enquanto isso, tanto a Brasília como a Variant já haviam fugido,
mas pessoas começaram a parar para ver o que estava acontecendo,
e dois carros pararam para ajudar.
Quando Samuel a vê, ele não consegue acreditar, ela parecia
uma princesa, apenas dormindo, só então ele percebe que ela estava
com um vestido rosa, semelhante ao que ela usava quando eles se
conheceram, semelhante ao da sua mãe.
O vestido rosa, agora com marcas vermelhas por toda parte,
Samuel percebeu que ela ainda respirava, com medo, ele se reclina já
com os olhos cheios de lágrimas, a chama novamente com um suspiro,
como se implorasse para que tudo ficasse bem. Com delicadeza,
coloca a mão atrás da cabeça de Amanda, e a chama novamente,
nesse momento ela abre os olhos, seu lindos olhos verdes que ainda
não tinham perdido o brilho, e como se não tivesse acontecido nada,
como se estivesse sem dor, sem sofrer, ela simplesmente sorri para
ele.
O sorriso, o olhar, essas foram as imagens que ficaram gravadas
para sempre na mente de Samuel, logo após, ela fecha os olhos, a
cabeça reclina para o lado, e o sorriso, diminui, mas não perde a paz
que transmitia em seu rosto.
Chegaram outras pessoas, inclusive um médico que havia
parado o carro para ajudar, afastam Samuel que só então percebe a

116
Capítulo 12 - Palavras não ditas

mão cheia de sangue, ele vê a caixa de chocolates ao lado, a pega,


e fica esperando alguma informação do médico, mas já sabendo que
ela havia partido em seus braços.
Ao ver que o médico pede um pano para cobrir o rosto de
Amanda, a única coisa que ele consegue fazer é correr, correr, como se
pudesse voltar no tempo, correr para o infinito, correr dos problemas,
correr das dores, correr da vida, sim, tinha que fugir de tudo aquilo, e
corre em direção ao seu refúgio.
Ao chegar embaixo do pé de jabuticaba, Samuel olha o nome
de Amanda, relembrando quando ela tinha escrito aquilo, relembra
momentos de ternura ao lado dela. Depois, olha para o seu nome,
e se vê agora totalmente solitário, tendo sido vítima de um sarcasmo
de Deus. Assim pensou ao ver a cruz, a cruz que era o símbolo do
que Amanda tanto amava, e nem assim Deus pôde salvá-la. Samuel
pensou que, ou Deus não tinha poder para salvá-la ou tinha um senso
de humor terrível, brincando com a sua criação.
Depois, vê o nome de Clever, seu grande amigo e autor de tantas
desgraças na sua vida. Pensou que se Clever não o tivesse ajudado
naquele dia com Fred, isso nunca teria acontecido, pois Fred não teria
mudado o bilhete de Amanda e toda a história teria sido diferente;
do amigo, agora, o que Samuel nutria era um sentimento de rancor,
mágoa e ódio.
Samuel pega uma pedra e com força faz um “x” no meio do
nome de Clever e outro na cruz, e em seguida atira a pedra para cima,
como se pudesse acertar a Deus.
Cai aos pés da árvore com o semblante triste, mas fechado ao
mesmo tempo, o bilhete de sua mãe lhe vem à cabeça, mas a última
coisa que ele quer agora é pensar nos conselhos de sua mãe, o que
ele quer é nutrir os sentimentos que devassam o seu coração e anulam
todo sentimento bom que possui.
Foi quando Samuel lembrou da caixa de chocolates, ele a pega,
e vê um bilhete amarrado com um laço, ele desfaz o laço, e com a
mão tremendo e coberta do sangue de Amanda, abre o envelope e
lê o bilhete: “Querido Samuel, com certeza você sempre foi e será

117
Tempo de Descoberta

especial para mim. De sua Amanda”.


Samuel segura tão forte o bilhete com as duas mãos entre o rosto
que o amassa inteiro, cai de costas para o chão, ficava lembrando
de Amanda no chão com o vestido rosa, ela não parecia morta,
parecia que simplesmente dormia, havia paz em seu rosto, aquilo
simplesmente não podia ser verdade, era um pesadelo, ele tinha que
acordar, pensava..... Não, não, não, ficava repetindo para si mesmo.
Nem uma única palavra ele tinha dito à ela, nem uma
sequer, quantas palavras ensaiadas durante aqueles meses, e nada,
absolutamente nada ele tinha falado, e a última visão dela foi
a expressão de desespero dele. Tudo isto por mais um atraso, um
que custou a vida da pessoa mais pura que ele já tinha conhecido.
Simplesmente a cabeça de Samuel não parava de pensar. Tudo aquilo
tinha que ser um pesadelo, Deus não podia ser tão mau a ponto de
permitir isso, não, não está acontecendo isso, dizia para si mesmo com
tristeza e raiva ao mesmo tempo.
Será que os pais dela achariam que ele era culpado? Será que
ele se acharia culpado?
- Maldito Clever, maldito Deus – pronunciou Samuel para si
mesmo, procurando achar alguém para culpar pela sua dor.
Samuel ficou lá até a madrugada chegar, tinha medo de voltar,
medo de ver as pessoas, medo e ódio, e medo do ódio que sentia.
Ao voltar para casa, encontra o pai no portão da rua, em
desespero atrás do filho, ao ver Samuel vindo ele sai ao seu encontro,
e lhe dá um forte e triste abraço, mas que não é retribuído por Samuel,
que procura rapidamente se desvincular, como fez na morte de sua
mãe.
- Preciso dormir – foi tudo o que falou Samuel, e de uma
maneira seca, sem olhar para seu pai, e não escutando as palavras
que o senhor Caio falava entrando logo atrás dele.
Aquilo assustou o senhor Caio, a frieza do filho, nenhuma
pergunta sobre a mãe de Clever, ele percebeu que talvez aqueles
anos trabalhando no coração do filho estariam perdidos se não fizesse

118
Capítulo 12 - Palavras não ditas

alguma coisa, e agora ele já não era mais uma criança, e sim um
jovem prestes a entrar para a faculdade.
- Filho, não sei o que dizer, é muito triste tudo isso, mas a mãe de
Clever já não corre perigo – disse o senhor Caio, tentando fazer com
que Samuel tivesse interesse pelo estado dela. – Mas ela ficará com
sequelas do lado esquerdo do corpo.
Samuel ignora a informação, continuou a andar em direção à
porta, como se nada daquilo tivesse importância para ele, deixando o
senhor Caio ainda mais preocupado.
Samuel estava com medo, raiva, não queria ir ao velório, não
sabia como encarar os pais de Amanda, como encarar Clever e as
demais pessoas que sabiam do seu sentimento, era um pesadelo que
não acabava em sua mente. Preferia estar morto no lugar de Amanda,
pois se alguém merecia morrer era ele e não ela, pensou Samuel a
noite toda, achando que Deus resolveu brincar com ele, por isso fez
tudo isso.
- Odeio tudo, odeio todos, odeio Deus – foram as últimas palavras
de Samuel antes de finalmente conseguir dormir.
No caminho, inutilmente o senhor Caio tentou conversar com o
filho, que permanecia calado olhando o “nada” através da janela do
carro.
- Descobriram quem eram os motoristas? - foi o única fala de
Samuel, mas sem tirar os olhos da janela do carro.
- Sim, - respondeu o senhor Caio, com tom de desânimo na voz
– o rapaz da Variant é filho do prefeito da cidade, e o da Brasília de um
deputado que veio visitar o prefeito – depois de um tempo continuou –
parece que a única acusação feita contra eles é por não terem prestado
socorro, é o que alega o advogado. – Após longa parada, ao chegarem
à igreja onde Amanda seria velada, conclui o senhor Caio com um ar
triste – eles têm dinheiro e poder.
Samuel detestava ainda mais o mundo, a sociedade, as pessoas.
Como alguém que estava tirando racha, correndo muito acima do
permitido, provavelmente tinha bebido, já que voltava de uma festa,

119
Tempo de Descoberta

mata alguém, foge do local do crime e é simplesmente acusado de


não prestar socorro?
O desejo de Samuel era matá-los, por terem matado o sonho
dele, alguém que merecia tudo, menos a morte. Pela primeira vez na
vida Samuel desejou matar alguém, um sentimento novo e aliado a
tantos outros sentimentos, ele “matava” os sentimentos construídos
no coração por sua mãe e por Amanda.
Mal entrou na igreja e Nadejida, melhor amiga de Amanda,
veio ao seu encontro, abraçando e chorando, já estava com os olhos
vermelhos de tanto chorar, o abraçava e perguntava o porquê daquilo.
Dizia que não era justo. Mas, em momento algum, sentiu alguma
acusação contra ele.
Logo em seguida foi encontrando os demais amigos de Amanda,
ele temia muito quando encontrasse os pais dela, e também não queria
encontrar Clever, que talvez não fosse para ficar ao lado da mãe.
- Samuel – ele ouviu uma voz feminina lhe chamar. Na hora
ficou gelado, pois percebeu que a voz era de dona Rosa, a mãe
de Amanda. – Querido, ela gostava tanto de você – foi o que disse
Rosa, lhe dando um carinhoso e apertado abraço com o semblante
visivelmente abatido.
Samuel percebeu que, diferente dele, ela não procurava acusar
alguém pela morte da filha, estava triste com a morte dela, mas não
desesperada, como ele já tinha visto outros pais quando perdem os
filhos, e definitivamente não estava revoltada com Deus, como ele
estava.
O culto fúnebre começou sendo lida a passagem bíblica em
1Coríntios 13, que fala de amor, a passagem predileta de Amanda:
“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não
tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine.
Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios
e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas,
se não tiver amor, nada serei.
Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu
120
Capítulo 12 - Palavras não ditas

corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá.
O amor é paciente, o amor é bondoso.
Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não
procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor.
O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a
verdade.
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor nunca perece; mas as profecias desaparecerão, as línguas
cessarão, o conhecimento passará.
Pois em parte conhecemos e em parte profetizamos; quando,
porém, vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá.
Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino
e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei para
trás as coisas de menino.
Agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em
espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte;
então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente
conhecido.
Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor.
O maior deles, porém, é o amor.”
Depois, o pastor Antônio Elias, já bem idoso, com um semblante
triste, mas com esperança eterna no olhar que era uma marca registrada
de sua vida, começou a falar de como Amanda gostava e vivia esse
amor, disse que aqui na terra ela sempre tivera muita fé, esperança
e amor, mas agora, ao lado o Pai, ela já não precisava mais de fé e
esperança, pois ela estava ao lado de quem sempre acreditou, mas o
amor que ela cultivou a vida toda, esse sim, ela levaria eternamente
consigo.
Amanda tinha realmente vivido todo esse amor, mas, e Deus?
Onde está o amor de Deus que deixa uma filha tão amorosa morrer?
Essas perguntas não saíam da cabeça de Samuel, que depois,
quando começou a ouvir os hinos prediletos de Amanda, saiu para

121
Tempo de Descoberta

tomar água, e assim fugir um pouco das pessoas e pensamentos.


- Samuel, que bom encontrar você - disse Clever vindo-lhe ao
encontro e querendo lhe dar um abraço.
Era tudo o que Samuel não queria, encontrar-se com Clever.
Para evitar receber o abraço, deu as costas, como se fosse pegar
água.
- Quer conversar?- perguntou Clever lhe tocando no ombro.
- Não toque em mim e não quero falar com você, estou cansado
de falar com você – respondeu Samuel de uma maneira áspera e
estúpida que nem ele esperava que tivesse coragem de fazer com
ninguém, muito menos com seu “melhor” amigo, que por mais que
estivesse chateado ele sabia que Clever também sentia muito, e tinha
ainda mais dores com a doença repentina de sua mãe.
- Calma amigo, eu sei que ... – tentou falar Clever, quando foi
cortado por Samuel.
- Amigo? Amigo? Você sabe o que é isso?
- Não estou entendendo Samuel.
- Não? Se não fosse pela sua grande amizade, você não teria me
ajudado com o Fred, e ele não teria mudado o bilhete de Amanda e
.... – nesse momento ele parou um pouco, respirou, enquanto Clever
continuava de “boca aberta” sem acreditar no que ouvia. - ... Amanda
estaria viva. Se não fosse a sua amizade, eu teria chegado a tempo de
falar com minha mãe, antes dela morrer.
Agora Clever estava entendendo a mudança de Samuel, após
a morte da mãe. Não tinha sido simplesmente a morte, mas que
Samuel sempre achava que ele tinha sido culpado dele não ter estado
nos últimos momentos com a mãe. Clever nunca tinha percebido isso
antes, agora ele estava chocado com as revelações, mas permaneceu
calado.
- E agora...., se não fosse.... – nesse momento Samuel se calou,
pois percebeu que magoava profundamente Clever, como se ele
tivesse culpa da mãe ter tido um derrame, mas simplesmente virou e
122
Capítulo 12 - Palavras não ditas

foi saindo, não acreditando que tinha finalmente colocado para fora
tudo o que sentia. Por mais injustos que fossem os pensamentos, eram
seus pensamentos, e sabia que talvez agora tivesse perdido não só
Amanda, mas o seu melhor amigo, que sempre procurou demonstrar
que ele o tinha como irmão.
Aquelas palavras penetraram profundamente cortando o
coração de Clever, era algo que ele nunca esperou ouvir, que por
mais que entendesse a dor do amigo, ele percebeu que já há tempos
Samuel nutria sentimentos de acusação contra ele. Simplesmente
abaixou a cabeça tristemente, entendendo tudo, virando para o lado
contrário de Samuel, entrou de cabeça baixa para o salão onde estava
o corpo de Amanda.
Samuel resolveu não ficar mais e saiu para a rua, apenas
andando sem perceber para onde ia.

123
124
Capítulo 13
Sem máscaras

“A maioria de nós não gosta de olhar para dentro de si pelo mesmo motivo que não
gostamos de abrir uma carta que contenha más notícias.”
bispo Fultron Sheen

A

sua cabeça estava muito confusa com tudo aquilo, eram muitos
sentimentos contraditórios, o seu desejo era simplesmente
sumir, e desejou inúmeras vezes estar no lugar de Amanda, pois se
alguém merecia um fim assim era ele e não ela que mal algum fez.
Quando Samuel percebeu, ele estava passando em frente
à igreja do apóstolo Narciso, ficou ali por alguns minutos parado,
lembrando do seu tempo de infância naquela igreja, do carisma do
agora apóstolo e também de como ele não conseguia ver sinceridade
em suas palavras, e do seu último encontro com ele, quando tinha
apenas 12 anos, no velório de sua mãe.
Ele não entendeu direito o motivo, mas resolveu entrar e foi
direto na direção do escritório do apóstolo. Chegando lá a secretária
perguntou o que ele desejava, e quando já estava para dar as costas e
ir embora, a porta do escritório do apóstolo abre e ele sai.
- Eu conheço você – disse o apóstolo Narciso, saindo do escritório
com um terno preto impecável, um anel de ouro com uma pedra
de brilhante ainda maior que o último que Samuel tinha visto e um
penteado cheio de gel que jogava o cabelo para trás e dava um brilho.
– Sim, você é o filho do senhor.... senhor... Caio. Como era mesmo o
nome de sua mãe?
- Maria das Dores – respondeu Samuel com um olhar frio. –
Poderia falar alguns minutos com o senhor? – Nem Samuel entendia
125
Tempo de Descoberta

direito o que tinha ido fazer lá e muito menos o que iria falar.
- Bem, se você não veio para me xingar, posso ficar no máximo
cinco minutos, pois tenho uma reunião daqui a pouco. Vamos, entre
– disse já olhando para o relógio, com uma expressão de impaciência
em seu rosto.
- Você sabe quem morreu atropelada ontem? – perguntou
Samuel olhando nos olhos do apóstolo.
- Sim eu vi no jornal, coitada, ela era tão jovem, tão bonita, era
sua amiga, certo?
- Eu tinha ido me encontrar com ela, quando aconteceu... –
confessou Samuel.
- Que triste, o diabo não dá trela mesmo.
- Diabo ou Deus? – perguntou Samuel com o olhar fechado.
- Meu Deus, você pensa isso..... – disse o apóstolo com um tom
de choque na voz pela revelação de Samuel. - ... como é mesmo o seu
nome?? Uhn... Samuel, certo?
- Me diga sinceramente, - disse Samuel ignorando a pergunta do
nome dele. – Você pensa realmente que foi o diabo? Eu a conhecia e
posso dizer sem dúvida que nunca conheci alguém mais apaixonada
por Deus do que ela. Ela até queria ser missionária na África.
- Bem, ela podia ter boas intenções, mas aquela igreja, você
sabe, é muito fria, não crê nos dons, é quase igual à Católica – disse o
apóstolo com um ar de desprezo.
- Igreja? Você realmente crê que Deus habita em igrejas, que a
igreja é mais importante que a vida?
- Ora Samuel... – tentou completar o apóstolo antes de ser
interrompido por Samuel.
- Por favor, estamos só nós, não preciso de um discurso de
igreja, eu sei quem era ela, sei que ela merecia a vida, e eu nunca orei
com tanta sinceridade como naquele momento, e mesmo assim nada
aconteceu.
126
Capítulo 13 - Sem máscaras

- Eu entendo a sua dor, mas, o que posso lhe dizer? Ou foi o


diabo, ou pecado, ou aconteceu por acontecer.
- Entende a minha dor? Aconteceu por acontecer? É isso que
você prega aqui na sua igreja? – questiona Samuel agora com um tom
de acusação.
- Porque Deus ou os anjos não a protegeram, algo tinha que
estar errado – justificou o apóstolo, agora já falando em um tom mais
seco.
- Sim, pois pelo que você prega, algo só está certo quando se
ganha dinheiro, fica rico e próspero, certo? Todos os outros vivem em
pecado, é isso que você pensa. O importante é só o “aqui e agora” - já
falava Samuel sem medo da reação do apóstolo.
- Espere um pouco, você se acha melhor do que eu? – perguntou
o apóstolo, agora sem querer se mostrar santo ou de ter compaixão de
Samuel. – Todos, todos, querem algo aqui na terra Samuel, querem
poder, dinheiro, satisfação, querem que Deus lhes sirva, e é isso que
eu dou para eles. Deus é apenas alguém que existe para servi-los, mas
é lógico, ninguém tem coragem de confessar isso, e você acha que é
diferente?
Essa pergunta deixou Samuel irritado, pois com certeza ele se
achava diferente de toda aquela gente.
- Não, não é – continuou o apóstolo – você é igual a mim e igual
a todos que vêm aqui. Você acredita que se sua mãe ou a sua amiga
não tivessem morrido você não estaria aqui, sentado todo domingo
no banco e dando o seu dízimo com fidelidade? Lógico que estaria
e sabe por quê? Porque você acharia que estaria comprando a Deus,
comprando a vida das pessoas que você ama. E não teria nenhuma
dúvida da bondade de Deus, isso porque, mesmo a sua mãe e amiga
estando vivas, muitos pais estariam perdendo seus filhos, crianças
sendo abusadas, assassinatos sendo cometidos, mas como você estaria
perto das pessoas que você ama, Deus continuaria bom, mesmo outras
pessoas sendo “ferradas” por Deus ou o diabo, porque o importante
é o que você sente e danem-se os outros, é esse sentimento que vive
interno em você e nas pessoas, mas que vocês têm medo de assumir.

127
Tempo de Descoberta

- Porque você é como todos aqui, - continuou o apóstolo –


querem um Deus para lhes servir, que lhes faça um favor, você não
quer servir a Deus pelo fato de servir pelo que Ele é, e sim pelas
recompensas, é um jogo de interesses. A diferença é que para mim
e muitos aqui, a recompensa é a saúde, dinheiro, poder, para você
seriam as pessoas que você ama, mas o jogo é o mesmo Samuel, é
servir a Deus para que Ele te sirva, é ser bonzinho em troca de favores.
Somos todos iguais, cada um embaixo de sua máscara – conclui o
apóstolo.
- Não, não sou igual a você – respondeu Samuel com raiva, pois
sabia que havia verdades na palavra do apóstolo, verdades que ele
não queria admitir para si mesmo.
- Não, não é? Ora Samuel, pare de se iludir, se Deus tivesse
ouvido a sua oração e salvado a vida dela, você não estaria agora
adorando a Deus, indo à igreja, dando dinheiro para Deus, como
pagamento pela prece recebida? Sim, pagamento, mas usando a
palavra “gratidão” para parecer mais bonzinho, se autoenganar.
- Não se iluda, somos todos iguais, todos temos nossos interesses
e vivemos por eles, e queremos que Deus viva para nos servir, a
diferença é que eu admito isso para mim, enquanto você finge que é
bonzinho. Então, quem é pior nessa história? – perguntou o apóstolo
sem vergonha de assumir os seus interesses e querendo colocar Samuel
em uma posição mais inferior.
- Eu não engano as pessoas – tentou se justificar Samuel.
- Você faz pior Samuel, ... engana-se a si mesmo, tudo é interesse
e egoísmo – continuou o apóstolo – eu vendo para as pessoas o que
elas querem comprar, e pagam por isso, e muitos melhoram, mudam
de vida e isso é o que importa para elas, e para mim também, pois elas
continuam voltando e contribuindo.
- As pessoas gostam de viver com máscaras, ilusões, pois sabem
que se tirarem as máscaras terão medo do que tem por trás.
- Elas confiam em você.
- Sim, porque eu dou o que elas querem, elas precisam de um
128
Capítulo 13 - Sem máscaras

“superpastor”, um “apóstolo”, afinal, quanto maior for o título mais


respeito as pessoas terão.
- Elas querem alguém que demonstre coragem e as incentive
em seus desejos egoístas, e eu sou esta pessoa, passo para elas a
confiança que precisam para justificar suas atitudes, assim elas se
sentem melhor, mas no fundo sabem que estão negociando com Deus
e se autoenganando.
- Você crê que Deus as ouve? – perguntou Samuel com ar de
incredulidade nas palavras do apóstolo.
- Pode ser que às vezes Deus as ouça, outras elas mudam de
atitudes pela fé e melhoram o comportamento, outras vezes elas se
iludem que melhoraram, o que importa é que elas se sentem melhor,
e assim voltam para a igreja – disse o apóstolo sem medo de esconder
de Samuel os seus pensamentos.
- As pessoas que mudam de igrejas, é porque se frustraram
por não terem os seus pedidos respondidos, não tiveram o seu ego
preenchido, então vão procurar em outra igreja o “deus” que lhes
sirva. Tudo é vaidade, é a busca da satisfação pessoal, ninguém está
preocupado com o céu e sim com a vida aqui na terra.
- Por que você está triste, se acredita que ela está no céu? –
disse o apóstolo, querendo provar para Samuel como ele também era
interesseiro. - Está vendo? Ou é porque você realmente não acredita
que ela está no céu, ou é porque é egoísta, queria ela para você,
mesmo que ela esteja bem melhor agora. Samuel, você percebe? Não
temos diferença, você, como as pessoas que aqui vêm, só buscam
interesses pessoais. Mas é sempre mais fácil achar erro nos outros do
que em nós mesmos, não é?
- Aliás, o mundo precisa de pessoas ruins, sabe por quê? Para que
nos sintamos bem, quando assistimos uma reportagem de assassinato,
estupro, pensamos “esse é mau, eu nunca matei ninguém”, mas muitas
vezes matamos o amor da esposa nas traições, matamos os filhos na
falta de amor e matamos a nós mesmos. A questão é que quando
vemos pessoas “piores do que nós”, nos sentimos bem, menos sujos,
mas somos piores que esses, pois esses vivem sem máscaras, são mau

129
Tempo de Descoberta

caráter, nós somos os sem caráter. Chocado? Pois é, agora você irá
embora me acusando e acusando a Deus, assim você se sentirá melhor
e continuará com sua máscara – concluiu o apóstolo agora com um
tom de quem tinha vencido um combate.
- Bem, agora tenho que ir – disse o apóstolo, olhando para o
relógio e encerrando o assunto já caminhando para a porta.
Samuel não disse mais nada, a vontade foi de pular no pescoço
do apóstolo pela “absurda” comparação que ele tinha feito, dizer que
ele não era assim, mas, simplesmente virou e foi saindo, com certeza
ele não tinha ido lá para ouvir aquilo, aliás, a intenção dele era falar
umas “verdades” para aquele apóstolo, mas ele nunca esperava uma
confissão daquelas e principalmente o colocando no mesmo nível.
Sentiu muita raiva, ficava negando para si mesmo as comparações,
mas sabia que tinha verdades nas palavras e aquilo o deixou ainda
mais perplexo, agora consigo mesmo.
Lembrou de um dos itens do bilhete de sua mãe: “você não é o
que dizem que você é, e nem o que você pensa que você é”, com isso
ele sabia que não era exatamente como o apóstolo o tinha descrito,
mas sabia também que não era o bonzinho que ele se achava. Se
alguém estava mais próximo de estar certo, este seria o apóstolo. Era
algo que com certeza ele não admitia para si mesmo.
Samuel passou praticamente as férias todas dentro de casa, nem
saía do seu quarto, sempre lia o bilhete deixado por Amanda com os
chocolates, se arrependia não apenas de ter se atrasado, mas dos anos
que perdeu por não perguntar-lhe sobre o primeiro bilhete. Não se
encontrou com Clever até o início das aulas, e por mais que o senhor
Caio tentasse se aproximar, ele sabia que era o luto que Samuel tinha
que viver, só tinha a esperança de não perdê-lo para sempre.
Às vezes Nadejida e alguns jovens da igreja ligavam para ele, ou
passavam lá, mas ele não se abria, preferindo apenas falar o necessário.
Nadejida, por ser muito amiga de Amanda, tinha se tornado amiga de
Samuel, e era com ela que Samuel se abria um pouco mais, pois era
quem mais entendia a sua dor, apesar dela não ter a revolta contra a
igreja e Deus, que Samuel agora guardava consigo.

130
Capítulo 13 - Sem máscaras

Apesar de toda a insistência dela, Samuel ficou por um bom


tempo sem ir à igreja, ela pedia para ele ir pelo menos falar com o
pastor Antônio Elias, mas ele definitivamente não estava com vontade
de se reaproximar de Deus. As palavras do apóstolo ainda falavam
alto em sua mente, onde ele procurava negar para si mesmo que era
egoísta, mas sabia que se Amanda não tivesse morrido, ele estaria “de
bem” com Deus, mesmo tendo tantos pais perdendo os filhos a cada
dia.
A última conversa com Clever também o machucou muito,
ele sabia que tinha sido muito duro, mas não sabia o que poderia
fazer, pois de alguma maneira, mesmo que sem querer, Clever tinha
mudado e muito a sua história. Sabia também que dessa vez Clever
não iria procurá-lo, pois ele o feriu muito, principalmente, por ter de
alguma forma culpado a doença da mãe dele, a pessoa mais especial
na vida de Clever.
- Samuel, você tem visitas – disse o senhor Caio batendo na
porta do quarto de Samuel, algumas semanas após o acidente.
O que Samuel menos queria naquele momento era visitas, mas
como não tinha jeito de escapar, saiu do quarto e foi ver quem era.

131
132
Capítulo 14
A conversa

“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro;


a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz.”
Platão

B

om dia – disse o pastor Antônio Elias, se esforçando para
levantar-se do sofá e indo abraçar Samuel. – Faz tempo que
não conversamos.
- Sim – limitou-se a responder Samuel, retribuindo muito pouco
o abraço.
- Você ainda sente muito a morte de Amanda, não é Samuel? –
já foi falando direto o pastor, sem fazer rodeios.
Samuel não sabia o que responder, era óbvio que sim, mas no
que ele poderia ajudar? E cada vez que tocavam no nome dela ele se
sentia pior ainda.
- Sabe Samuel, quando eu era jovem, eu perdi um irmão, –
falou com um ar de tristeza, como se relembrasse. – Ele era o caçula
de cinco irmãos, 10 anos mais jovem do que eu, e tinha apenas seis
anos, mas ficou muito doente, e naquele tempo, não tínhamos muito
recurso, os médicos não descobriram o que provocava a febre e em
poucas semanas ele veio a falecer.
- E o senhor nunca achou que Deus foi o responsável? –
perguntou Samuel, confessando assim o que pensava da morte de
Amanda, e esperando para ver a reação do pastor.
- Sim, achei que foi Deus e o mundo.
Aquela confissão surpreendeu Samuel, pois ele, mesmo estando
133
Tempo de Descoberta

desapontado com a igreja e Deus, sabia que o pastor Antônio Elias


era uma pessoa íntegra e o respeitava, o via como um grande homem
de Deus.
- Briguei com Deus, lembro-me que até O xinguei. Não entendia
a razão de levar ou permitir uma criança inocente morrer. Dizia que
se eu fosse Deus jamais permitiria aquilo.
Samuel, não confessou, mas era exatamente esse sentimento
que tinha, e o pastor Antônio Elias falava como se soubesse o que se
passava dentro de Samuel.
- Demorou quase um ano para eu entender muitas coisas, e
voltar a me relacionar com Deus.
- Mas agora você entende o que aconteceu, não é? – fez Samuel
a pergunta mas já com um tom de afirmação, esperando que ele
dissesse que “em tudo Deus tem um propósito”.
- Para ser sincero não, nunca entendi. E quando chegar ao céu,
depois de abraçar o meu irmão, vou querer saber de Deus o motivo,
isso se lá no céu eu ainda tiver perguntas como essa.
Essa resposta deixou Samuel espantado, não esperava que um
pastor na idade dele, com tanta experiência e vida com Deus, não
tivesse respostas, ou pior ainda, não entendesse a razão de Deus agir
assim.
- O senhor está falando sério? – perguntou com ar de espanto.
- Lógico que estou Samuel, não sei por que muitas coisas
acontecem. E se você me perguntar, por que Deus levou Amanda,
também não sei – disse o pastor olhando com amor nos olhos de
Samuel. – Não é porque sou pastor que tenho todas as respostas ou
nunca erro.
Samuel simplesmente abaixou a cabeça.
- Lamento Samuel, se lhe decepcionei, mas não sou e nunca
quis ser um “super-homem”, sou apenas alguém que ama a Deus e
procura fazer a vontade dEle, mas tenho minhas falhas.
- Essas dúvidas nunca atrapalharam a sua vida com Deus? –

134
Capítulo 14 - A conversa

perguntou Samuel, agora com mais interesse na conversa.


- No começo, claro que sim, mas agora já não mais – confessou
o pastor – pois quem disse que temos que ter todas as respostas nessa
vida?
- Mas se Deus é pai, você já viu um pai que pode salvar o filho
e o deixa morrer....só....só.... – prosseguiu falando Samuel olhando
para o chão - .... só se for um pai muito ruim.
- Morrer? Mas o que é a morte Samuel? O nosso grande
problema é que Deus não fez o homem para morrer, nós temos a
eternidade em nosso coração, como disse o rei Salomão, e a morte
é consequência da queda, mas não é o final, aliás, é só a morte do
corpo, e ainda assim, apenas momentânea. E o engraçado é que ela é
a única certeza que temos, mesmo assim, nunca estamos preparados,
principalmente quando chega “antes” do tempo esperado.
- Mas ele podia ter feito algo e não fez nada.
- Samuel, quando as coisas acontecem na vida, muitas vezes
entendemos na hora o plano de Deus, outras só depois de um tempo,
e outras iremos entender apenas na eternidade. Muitas coisas que
acontecem são fruto de nossas escolhas e decisões e Deus as respeita,
mas aí culpamos a Deus por problemas que nós mesmos causamos.
- Temos a visão muito limitada, porque somos limitados, e
nem sempre é fácil entendermos. Conhecer e viver com Deus não
significa saber todas as coisas, ter todas as respostas ou entendê-lo
completamente.
- Mas aí, a fé mais parece um amuleto que desculpa as falhas de
Deus – disse Samuel com a expressão séria, sem medo da reação do
pastor. – “Foi da vontade de Deus”, “Deus tem um plano para isso”,
cansei de ouvir frases como essa, parece o homem tentando justificar
a falha de Deus.
- Sim, Samuel, para alguns pode até funcionar como amuleto,
mas não para quem realmente conhece a Deus – disse o pastor
Antônio Elias com uma expressão séria no olhar, mas não com menos
amor. – Isso é de cada um, e não é porque também é um consolo

135
Tempo de Descoberta

para o cristão que não pode ser verdade, aliás, é mais que consolo, é
a esperança real. E também não é porque você é sincero, ama a Deus,
que nunca terá dúvidas de atitudes tomadas por Ele. A diferença é
que isso não diminui o seu amor e a sua fé, pois a pessoa entende que
Deus é Deus pelo que Ele é, e não pelo que Ele faz, o amor e o servir,
não estão condicionados ao que recebemos, mas no relacionamento
que temos, como o pai que ama o filho, independente do que o filho
fez ou fará.
- Não consigo entender – confessou Samuel agora com tristeza
no olhar.
- Muitas vezes quando criança não entendemos as atitudes de
nossos pais, mas são atitudes necessárias e muitas delas as entendemos
depois.
- Mas eles não matam ninguém – respondeu Samuel rispidamente
no mesmo instante.
- Você acha que Deus é quem mata? Foi ele que fez os jovens
correrem com o carro? Ele teve prazer em ver os pais e amigos de
Amanda tristes? – perguntou o pastor.
- Mas ele poderia impedir.
- Sim Samuel, poderia, como algumas vezes impede e outras
não. Como ele decide? Por causa da oração? Porque a pessoa irá
ser usada por Deus? Para livrá-la de um mal maior no futuro? Não
sei responder Samuel, mas sei que o nosso grande problema é que
vemos apenas esse mundo, e com muita limitação, e ainda como se
fosse o único verdadeiro. Falamos da eternidade, mas vivemos como
se a eternidade fosse apenas aqui.
- O amor de Deus, não está condicionado ao que Ele me faz,
e sim ao que Ele é, e no que fez por nós, e na cruz foi essa a maior
demonstração de amor que alguém poderia dar, como você me
perguntou: Como um pai deixaria o filho morrer podendo salvar? Foi
exatamente o contrário que Deus fez, na cruz, ele salvou o homem,
não o deixou morrer eternamente, mas nos salvou da morte eterna,
nos deu a vida eterna, e por isso um dia você poderá reencontrar a
sua mãe, Amanda e tantas pessoas que amamos e foram antes de
136
Capítulo 14 - A conversa

nós. Você consegue perceber? Mesmo sendo Deus, Ele se fez homem
e por isso Ele sabe o que é sofrer, o que é a dor humana, ele sentiu
isso na pele, mesmo sendo Deus. Ele já estava no céu, ele fez o céu,
ele é Deus, tudo o que passou foi por amor, suportou a humilhação
não apenas de se encarnar, mas de ser abandonado por todos, de ser
traído, e de ser condenado pela humanidade que ele criou por amor.
Deus conhece sentimentos como traição, solidão, ódio, não que tenha
odiado alguém, mas foi alvo do ódio da própria criação, e tudo isso
suportou por amor.
- Você percebe, Samuel, estamos falando de Vida, da verdadeira
Vida, e essa Amanda não perdeu, ninguém pode roubar dela, nem a
morte e isto não é um simples consolo ou fuga, é a verdade.
- Conversei com o apóstolo Narciso e ele chegou até a dizer que
sou egoísta por querer Amanda aqui, e todos são egoístas e só buscam
a Deus por interesse – disse Samuel para ver a reação do pastor.
- Sim, a nossa natureza caída é egoísta, a vaidade nos tenta a
cada dia. Existem muitas pessoas que vão à igreja, mas nunca tiram as
suas máscaras. Pessoas são egoístas, isso é verdade, mas eu não posso
julgar os outros, cada um é que julga a si mesmo. Pessoas choram,
sorriem em um mesmo momento, mas por razões diferentes, e apenas
elas e Deus é que sabem o que se passa no coração.
- Chorar, sofrer porque alguém que amamos partiu, não é
egoísmo ou falta de fé, é sentir falta de alguém que marcou a nossa
vida, que mesmo sabendo que um dia a reencontraremos, ficaremos
um tempo sem a presença dela em nossas vidas, é saudade – disse o
pastor Antônio Elias com um “ar” de saudades de seu irmãozinho que
havia partido com seis anos.
- Pelo fato de eu estar desapontado com Deus, o apóstolo Narciso
me disse que sou egoísta, pois se Deus tivesse me ouvido, eu teria tido
uma atitude diferente. Ele mesmo confessou que as pessoas procuram
a Deus apenas para Deus as servir. – Samuel parou novamente,
respirou fundo, abaixou a cabeça e continuou: - Realmente, se ela
tivesse vivido, eu seria eternamente grato a Deus.
- Sim, muitas procuram Deus por isso Samuel, na igreja dele,

137
Tempo de Descoberta

na minha igreja, mas quem sou eu para julgar o coração das pessoas,
quem é sincero e quem não é.
- Pessoas voltam para a igreja por algo que receberam, mas no
decorrer, muitas entendem realmente que Deus está acima das bênçãos
recebidas, outras voltam na dor, cada um é diferente, e Deus lida com
cada um de uma maneira ímpar e sempre, sempre com amor, por
mais que possamos não entender, é amor por nós.
- Mas, na sua igreja, eu já fui lá várias vezes, é diferente, não
ficam falando de dinheiro, prometendo o “mundo” aqui na terra.
- Sim, mas você acha que as pessoas lá também não têm os
seus interesses, e não fazem as suas trocas com Deus?- disse o pastor
Antônio Elias com um ar de tristeza na voz.
- Quantas vezes eu tenho que ouvir de presbíteros que não
gostam dos cânticos da mocidade, que só deveríamos cantar hinos
na igreja, já que pertence à “tradição” da igreja e são melodias que
agradam mais a Deus – nesse momento o pastor Antônio Elias deu
uma risadinha – como se soubessem qual estilo agrada mais a Deus,
ou pior ainda, como se o ritmo fosse mais importante para Deus do
que o coração puro e sincero em sua presença.
- Usam Deus para justificar preferências pessoais. Às vezes,
senhoras criticam as saias das jovens, falando que “no seu tempo não
era assim”. Mas, até que ponto, muitas críticas não são feitas por inveja
do corpo do outro?
- Pessoas que discutem por qual instrumento Deus mais gosta, se
bater palma é bíblico ou não, se os dons espirituais cessaram ou não,
tudo isso é muito triste, é vaidade. Como disse Salomão no livro de
Eclesiastes, e pior ainda, tudo isso em nome de Deus enquanto gastam
horas discutindo, pessoas que precisam ser alcançadas pela graça de
Deus, são esquecidas, tudo isso para satisfazer a vaidade humana,
onde ama-se mais defender o que se pensa do que as almas perdidas
– disse com muita tristeza na fala e abaixando a cabeça.
- Sem falar das fofocas, tendo como desculpa motivos de oração.
Sim, Samuel, tem muitos doentes na igreja, e o pior é que são doentes
138
Capítulo 14 - A conversa

que se acham doutores, cegos querendo guiar cegos, e olha que estou
falando da minha igreja.
- E se eu fosse dizer o que as pessoas já fizeram em nome de
Deus desde o início do cristianismo, então, seria mais triste ainda.
Samuel estava espantado com as revelações.
- Mas o senhor sabe e não faz nada?
- Faço Samuel, primeiro eu procuro me vigiar para não fazer o
mesmo, pois muitas vezes eu me peguei usando a Bíblia para justificar
alguma preferência pessoal, e olha que achava uns versículos que
encaixavam direitinho, ou até exortando alguém que tinha cometido
alguma falha, mas não com amor e para trazer a pessoa de volta, e sim
para provar que eu estava certo, pois a vaidade humana está sempre
batendo na nossa porta, nunca estamos livres dela Samuel. Por isso,
temos que vigiar e orar, ter um verdadeiro relacionamento com Deus,
muitas pessoas começam com boas intenções, mas quando veem o
poder e o dinheiro, mudam completamente – falou agora com uma
expressão, como se lembrasse de amigos que tinham começado com
ele o ministério e estavam agora bem afastados da verdade.
- Também, como pastor, procuro mostrar sempre a verdade na
Palavra, exortar, ensinar, amar, mas como disse, não posso julgar o
coração das pessoas, cada um sabe o motivo das atitudes.... – nesse
momento o pastor deu uma parada, e ficou com uma expressão mais
triste - .... o problema é que muitas vezes queremos nos enganar,
vivemos em um mundo de ilusões, usamos máscaras durante todo o
tempo, e o triste, é que muitos só a tiram quando a vida já passou.
Nesse momento, Samuel pensava em sua vida, quantas
máscaras usava, quantas desculpas dava para atitudes com os outros,
e principalmente com o seu pai, justificando a si mesmo por atitudes
que o seu pai cometeu no passado. Lembrou novamente do bilhete
de sua mãe dizendo “que ele não era o que os outros pensavam e nem
o que ele pensava”. Estava começando a querer entender quem era
ele realmente.
- Todos morrem, Samuel, mas nem todos vivem. Viver não se
limita a respirar e fazer coisas, a vida é muito mais. É saber por que
139
Tempo de Descoberta

está aqui, é se relacionar com o criador da vida com transparência,


sem medos, se relacionar sendo quem você é com a família e amigos,
é se despir das ilusões e se encarar no espelho sem medo. Mas sabe
por que muitas pessoas não se encaram?
Samuel até pensou em responder, mas ficou com medo do que
iria ouvir, e preferiu apenas se calar e ouvir.
- Porque as pessoas têm medo de si, de se ver no espelho e
perceber que não são os “santos” que sempre pensaram, que muitas
atitudes foram tomadas em defesa própria, em desculpas dadas para
si mesmas, e sempre com uma justificativa boa por trás disso. Elas
usam máscaras por medo de que, se as pessoas souberem quem elas
realmente são, não irão amá-las, medo de ver que passaram grande
parte da vida se enganando.
- Esquecem que todos estão na mesma situação e que diante
de Deus máscaras não existem. Ele nos conhece até melhor que nós
mesmos, mas o incrível disso tudo é que mesmo nos conhecendo,
conhecendo a nossa pior face, Ele nos ama e nos entregou a sua vida.
Percebe o que é o amor? O amor sem interesse? Ele não nos amou
porque conseguimos passar uma imagem de bonzinho ou porque
merecíamos. Nos amou como nós somos, mas nos amou a tal ponto
de não querer nos deixar assim, e sim nos moldar a cada dia, nos
transformar a cada dia, mas.... – Nesse momento, ele ficou em silêncio
durante alguns minutos, que fez Samuel pensar em tudo aquilo - ...
mas muitas pessoas não querem essa mudança, negam esse amor,
preferem viver de ilusões e vivem sem viver, por mais intensa que a
pessoa pense que vive, é apenas fuga de si mesmo. – concluiu esse
pensamento com algumas lágrimas escorrendo do rosto já marcado
pela vida.
- Não consigo entender – desabafou Samuel, colocando o
cotovelo nos joelhos e as mãos no rosto.
- Ele te ama, ele me ama e mesmo permitindo que isso
acontecesse com Amanda, Ele a ama e a ama muito. Mesmo que você
não o entenda, Ele te ama Samuel, ele não só sente a sua dor, como
sente a dor de um pai que teve a filha ainda criança sendo estuprada e

140
Capítulo 14 - A conversa

morta, como a esposa que perdeu o marido ainda jovem, como tantas
pessoas que sofrem sem ter feito algo que merecesse isso.
– Como lhe disse, não sei por que Deus permitiu isso, talvez,
porque já quisesse Amanda ao seu lado, talvez para livrá-la de algo
no futuro, ou talvez porque o Narciso - pastor Antônio Elias não o
chamava de apóstolo, pois para ele os apóstolos foram apenas os
discípulos que Jesus escolheu – estivesse certo, caso ela estivesse bem,
você nunca conheceria a Deus pelo que Ele é, e Ele te ama tanto
que quer criar um relacionamento verdadeiro e profundo contigo, sem
barganhas ou interesses, mas por amor.
- Mas como disse, não sei e talvez só no céu saberemos, mas sei
que um dia darei um belo e gostoso abraço nela – disse abrindo um
tímido sorriso.
- Jamais aceitaria que Deus fizesse isso para me ter com ele,
seria cruel demais – falou Samuel com um tom de chantagem para
com Deus, pois se sentiu com medo de Deus ter permitido isso para
tê-lo. Ainda mais lembrando do outro conselho que sua mãe lhe deu,
“Deus está sempre cuidando de você, até mesmo quando coisas ruins
lhe acontecem”.
- O segredo da vida não é quando e como se morre, mas como
se vive, Samuel. Todos morrem, mas nem todos sabem viver, e a pior
morte é a de quem está “morto” ainda em vida e acha que está vivendo
– disse o pastor, passando a mão na cabeça de Samuel.
- Bem querido, vou lhe deixar em paz, já falei muito por hoje –
completou dando uma risadinha e já se esforçando para se levantar
para ir embora.
Samuel quis agradecer pela conversa, mas era muita coisa em
sua cabeça, tinha que pensar em tudo, mas sabia que depois daquele
diálogo já não seria mais o mesmo.

141
142
Capítulo 15
Tempo de
escuridão
“Somos o que fazemos, mas somos principalmente
o que fazemos para mudar o que somos”.
Eduardo Galeano

A

ssim começou Samuel o último semestre do terceiro colegial,
triste, fechado, pensando em Amanda e em tudo o que lhe
havia acontecido, como até então ele havia vivido.
Mesmo estudando junto com Clever, eles mal se falavam, e nas
poucas vezes foi por iniciativa de Clever, e nunca de Samuel.
A conversa com o pastor Antônio Elias não saía da cabeça de
Samuel, como também a conversa com o apóstolo. Ficava pensando
até que ponto era ou não egoísta.
Samuel estava assustado como as pessoas iam para a igreja
por interesse, e sabia que se um dia voltasse para Deus, seria de
uma maneira séria, sem “negociações”, como sua mãe e Amanda se
relacionavam com Deus e gostariam que ele assim o fizesse, mas, por
enquanto, ele não conseguia entender esse agir de Deus, chegando
até mesmo a duvidar de sua existência.
Sempre lembrava dos conselhos de sua mãe, e um deles lhe
vinha muito à cabeça nesta época: “Em tudo na vida, Deus quer nos
ensinar uma lição, mas quando focamos apenas em nós mesmos,
deixamos de aprender”. Ele já entendia que não tinha que focar nele
mesmo, pois como o próprio apóstolo tinha lhe falado, “se tudo desse
certo ele estaria feliz com Deus, mesmo as coisas dando errado para
milhares de pessoas”. Ele percebia que se fosse se relacionar com
Deus, tinha que ser de uma maneira não interesseira. Mas, como fazer
143
Tempo de Descoberta

isso se não havia como separar as emoções?


Algo que lhe ajudava muito era lembrar de como Amanda se
relacionava com Deus, e agora Nadejida tinha se aproximado muito
dele, e procurava sempre lhe ajudar, assim ele se sentia mais livre para
expor suas dúvidas.
- Eu achava bonita a fé de Amanda, mas não consigo tê-la
comigo – disse Samuel para Nadejida enquanto voltavam da escola.
- Isso é relacionamento Samuel, foi Amanda que me ensinou
isso. A cada dia, quando conhecemos mais a Deus, não pelas coisas
que faz, mas pelo que Ele é, esse relacionamento cresce em nós e
nos transforma, e temos vontade de conhecer mais e mais a Deus. É
como o amor de um pai para com o filho, ele sempre amará o filho,
independente do que o filho faça, pois o amor não está condicionado
no fazer – respondeu Nadejida, com um olhar de apaixonada por
Deus.
- Creio que nunca tive isto.
- Eu nem posso lhe descrever Samuel, pois seria como uma fruta
que você nunca provou, por mais que eu lhe fale como ela é doce e
gostosa, você só saberia no dia que experimentasse. Assim é a vida
com Deus, quando você experimentar vai saber como é maravilhoso.
- Não entendo como não experimentei se vou à igreja desde que
me conheço por gente, aliás, antes disso, desde que estava no ventre
de minha mãe.
- Igreja não é Deus, Samuel. É verdade que lá e em muitas
igrejas, mas não em todas infelizmente, as pessoas aprendem de Deus,
mas o relacionamento é particular – nesse momento ela fez um olhar
mais triste e sério ao mesmo tempo e continuou. – Infelizmente, muitas
pessoas passam a vida inteira sem conhecer a Deus, fazendo da igreja o
seu clube de amigos, ou negociando interesses pessoais, ou até mesmo
por costume. Vida com Deus é muito mais, são pessoas que estiveram
tão próximas de Deus, mas nunca o conheceram realmente.
- Pois é, sou um desses – confessou Samuel.
- Que bom! – disse Nadejida com um sorriso maroto nos lábios.
144
Capítulo 15 - Tempo de escuridão

- Bom? – espantou Samuel.


- Lógico. Bom porque você foi sincero, e isso é importante
Samuel, você entende? Quantas pessoas passam a vida inteira se
enganando, fingindo que possuem um relacionamento com Deus, mas
você foi sincero e esse é o primeiro passo para uma mudança, é sinal
que Deus já está trabalhando em seu coração – completou Nadejida
com um ar de esperança em seu rosto.
- Não sei não.
- É porque você sempre relacionou Deus com as igrejas e em
como as pesssoas se relacionam com Deus, por isso é tão difícil ver
Deus como Ele é, sem paradigmas ou preconceitos.
- Que faculdade você pensa em fazer? – foi falando Samuel para
mudar de assunto.
- Tudo bem que você quis mudar de assunto – falou rindo
Nadejida. – Mas estarei orando por ti, sei que Deus vai falar com
você, pois você é especial para Ele. Mas não sei ainda, penso em fazer
administração, e você? – Nadejida não percebeu que Samuel tinha
ficado com os olhos cheios de lágrimas com aquela palavra “você é
especial para Ele”, quantas recordações lhe vinham na mente essa
palavra: “especial”.
- Não sei ainda, acho que propaganda. Preciso ir ao banheiro,
– falou rapidamente Samuel disfarçando para ela não perceber que
estava com os olhos cheios de lágrimas.
Os meses foram se passando e várias noites Samuel acordava
com o pesadelo de Amanda sendo atropelada, em alguns ele chegava
a tempo de salvá-la, inclusive em um desses ele chegou a beijá-la,
acordou com as mãos nos lábios, como se ainda sentisse o gosto do
beijo dela, o beijo que nunca deu. Passou o dia sentindo o beijo e, na
noite seguinte, não conseguiu voltar a dormir, pois tinha sido muito
real o sonho e era como se ela realmente o tivesse beijado, ele foi à
escrivaninha e pegou o bilhete deixado por ela, agora o último, com
os chocolates, que ela nunca havia entregado, e leu e releu várias
vezes durante a noite.

145
Tempo de Descoberta

Mas, geralmente, os sonhos eram verdadeiros pesadelos, onde


ele tentava de todas as formas salvá-la, mas sempre algo o impedia;
havia sonhos em que simplesmente ele não conseguia correr por mais
que tentasse, como se tivesse uma força invisível o segurando, outras
vezes ele gritava, mas a voz não saia e ele ficava mais desesperado
ainda. Como a sua cama ficava encostada na parede, muitas vezes ele
acordava com as mãos e os pés na parede como se estivesse tentando
empurrá-la, e era justamente quando ele sonhava que tentava empurrar
os carros para não atropelá-la, mas nunca conseguia impedir.
Eram pesadelos que o faziam acordar suado e com o coração
disparado, queria pedir para Deus tirar-lhe esses pesadelos, mas como
estava desapontado com Deus, não falava nada.
Muitas vezes não dormia bem pensando no que Amanda teria
falado para ele se não tivesse acontecido o acidente, criava centenas
de diálogos em sua mente, ficava pensando como teria sido a sua vida
se nunca tivesse sido amigo de Clever. Se arrependia a cada dia de
não ter falado com ela sobre o maldito bilhete, quando eles tinham
nove anos, e por isso, ele odiava Fred com todas as suas forças.
Quando esse ódio vinha forte, ele lembrava dos conselhos na
carta de sua mãe, da conversa com o pastor, e sabia que era mais fácil
achar um culpado, do que assumir as falhas. Porém, era muito difícil
assumir, e por que ele tinha que ser perfeito, quando ninguém mais
era, essas desculpas ele dava para si a cada dia.
Nesse tempo o senhor Caio fazia de tudo para se aproximar de
Samuel, mas não o convidava para ir à igreja, pois não queria aborrecê-
lo, já que sabia do desapontamento do filho com Deus. Apenas avisava
que estava indo, na esperança dele um dia querer ir junto.
Diversas vezes, sentados no sofá vendo televisão, o senhor Caio
relembrava momentos felizes que tinham passado juntos, contava do
orgulho que sentiu quando ele começou a andar e a escrever antes do
tempo normal de uma criança, contava algo sobre Maria das Dores
que Samuel ainda não sabia, tudo isso na tentativa de se reaproximar
de Samuel que tinha se fechado ainda mais. O senhor Caio sabia
que já estava velho e talvez não lhe restasse muito tempo, então, a

146
Capítulo 15 - Tempo de escuridão

cada dia, orava e tentava ganhar o filho, pois como tinha aprendido
com Maria das Dores, mesmo sendo velho há tempo para mudar, e
enquanto há vida, existe esperança.
Apesar de Samuel não falar nada, ele guardava no coração
aquelas histórias e se enchia de saudades. Queria perguntar para o
pai por que ele não foi sempre assim, por que precisou esperar a
mãe morrer para fazer isso e lembrou de mais um item da carta que
dizia: “Deus está sempre cuidando de você, até mesmo quando coisas
ruins nos acontecem”. Pensou se foi necessário a mãe morrer para o
seu pai mudar tanto, e Amanda morrer para ele mudar um dia. Este
pensamento lhe dava mais mágoas de Deus, e às vezes queria que a
sua mãe nunca lhe tivesse deixado o bilhete, pois eram conselhos que
o acompanhavam desde os 12 anos, e sabia que tinha que mudar
muitas coisas, mas não tinha coragem. Sabia da idade avançada do
pai, e o seu esforço para se aproximar, apesar de isto lhe tocar muito,
estava decidido a só fazer as coisas quando realmente entendesse
tudo e com sinceridade.
- Filho, gostaria de conversar um pouco? Queria saber mais
como você está, desde a morte de Amanda você anda tão calado –
falou o senhor Caio um dia após o jantar, em uma tentativa de se
aproximar do filho, mas Samuel apenas se calou.
- Samuel, pode falar, sou seu pai – tentou novamente o senhor
Caio que o filho se abrisse mais. Cortava-lhe muito o coração essa
tristeza de Samuel.
-­ Agora lembrou que é meu pai? Aliás, só depois da morte
da mãe é que o senhor lembrou – respondeu Samuel, nem mesmo
acreditando que tinha falado aquilo. Era uma frase que estava há
tempos engasgada em sua garganta, mas ele sabia que era injusto
esse pensamento.
O senhor Caio se calou por alguns segundos, aquelas palavras
do filho lhe cortaram o coração.
- Eu sei que errei muito contigo, mas ainda podemos recuperar
o tempo perdido – disse o senhor Caio sem erguer os olhos e se
esforçando para falar.

147
Tempo de Descoberta

- Desculpe pai, não queria falar isso – respondeu Samuel, já se


levantando para ir ao quarto. Ele estava muito arrependido do que
havia falado, sabia como tinha magoado o pai, mas, como estava
muito ferido, se achou no direito de ferir as pessoas, mais uma vez
Samuel fugindo de si mesmo.
Em umas das poucas vezes que Samuel, Clever e Mário se
reuniram naquele segundo semestre de 1978, eles estavam já no último
mês do ano letivo, quando começariam a estudar para o vestibular.
- E aí, já decidiu o que vai fazer Samuel? – começou falando
Mário para “quebrar o gelo” entre eles.
- Não sei ainda, estou pensando em fazer propaganda, algo do
gênero, afinal, vivemos em um mundo de ilusões – respondeu Samuel
com um ar de ironia no final, mas que, na verdade, talvez estivesse
escolhendo a profissão justamente por causa disso, para querer viver
uma vida de máscaras, então, nada melhor do que vendê-las para as
pessoas.
- E você? – perguntou Mário, agora se dirigindo para Clever.
- Eu...eu...- gaguejou Clever demorando para responder e
começando a olhar para o chão – não sei se vou fazer.
- Por quê? – perguntou Mário com ar de espanto, pois sabia
que Clever sempre quis fazer faculdade. Enquanto isso, Samuel só
ouvia, como se não tivesse muito interesse, mas também estranhando
a resposta do amigo.
- Bem, vocês sabem que minha mãe não está 100% e nunca mais
vai ficar. O lado esquerdo do corpo ficou bem afetado. – Foi somente
nesse momento que Samuel percebeu que nunca mais tinha ido visitar
a dona Áurea depois do hospital, isto lhe deixou sem graça, mas já não
podia fazer mais nada, então continuou lá, fingindo que não estava
muito atento, mas ouvia cada palavra de Clever. – Ela precisa tomar
remédio controlado e na hora certa, não pode ficar muito sozinha, e
se eu fosse fazer faculdade teria que estudar à noite para poder pagar,
então teria que pagar também alguém para cuidar dela, e não temos
condição, e eu não posso deixá-la tanto tempo sozinha, mas tudo bem,
Deus sabe de tudo – completou Clever com um sorriso sem graça nos
148
Capítulo 15 - Tempo de escuridão

lábios de quem tenta disfarçar. – Mas, e você, é verdade que vai para
o seminário? – perguntou Clever para Mário, provocando espanto no
rosto de Samuel que não sabia da novidade.
- Sim, já decidi, se Deus quiser estarei lá no ano que vem. Vou
fazer em Belo Horizonte, já conversei com o conselho da igreja, que
me encaminhou para o presbitério.
- Quem diria, hein! – disse Clever com um sorriso maroto. –
Você, o piadista da turma que só sabe rir e fazer desenhos na classe,
estudando para ser pastor. Eu pago pra ver – completou dando uma
gargalhada.
- Até eu vou para a igreja, pois tenho que ver para crer – falou
Samuel para entrar na brincadeira.
- Amanda ficaria feliz em saber que um fruto dela será pastor
– disse Clever, provocando um gelo em Samuel, que não gostava de
falar de Amanda, ainda mais perto de Clever.
- Ela também ficaria feliz com você – retribuiu o elogio Mário –
conseguiu até levar o Fred pra igreja no último domingo.
- O quê? – falou alto e com tom de indignação Samuel, agora
olhando nos olhos de Clever.
Clever percebeu que o amigo não gostou e entendia o motivo.
Mário, percebendo que falara mais do que devia, tentou mudar de
assunto, mas foi cortado por Samuel.
- O que você fez, amigo? – perguntou novamente Samuel, mas
com um tom de ironia agora na palavra “amigo”.
Clever ficou chateado, mas tentou responder da melhor maneira
possível para ele entender, pois por mais que ele estivesse chateado
com Samuel desde o velório, ele entendia a sua dor e sempre quis
tentar se aproximar dele.
- A vida dele nunca foi fácil, a família sempre foi problemática,
nunca teve apoio em casa, foi expulso da escola e até preso.
- Daí você resolveu ser a “fada madrinha” dele? – perguntou
Samuel com tom de ironia e raiva ao mesmo tempo.

149
Tempo de Descoberta

- Não, apenas o encontrei um dia desses na praça sozinho,


percebi que ele não estava legal, então resolvi ir lá e conversar, ele
estranhou muito, ficou meio fechado, mas depois aos poucos foi se
abrindo. Quando surgiu a oportunidade o convidei para ir à igreja e,
para meu espanto, ele aceitou e foi, apenas aconteceu isso. De repente,
Deus quer trabalhar na vida dele – completou Clever tentando fazer
com que Samuel entendesse.
- Interessante, então você resolveu ser o melhor amigo dele –
perguntou Samuel, novamente com ironia na voz.
- Samuel, creio que Amanda ficaria feliz se... – nesse momento
Clever foi interrompido por Samuel.
- Não toque no nome dela! – falou com irritação dando as costas
para eles e indo embora.
Nesse momento, Mário tinha ficado muito sem graça, se
achando o culpado daquela confusão, tentou falar alguma coisa, mas
foi novamente interrompido. Já Clever ficou ainda mais triste com a
situação, pois tinha ainda mais motivos para se aproximar de Samuel,
que se afastava cada vez mais.
Samuel saiu e nem voltou mais para a aula, a sua vontade foi
ir para o pé de jabuticaba, mas depois que Amanda morreu, nunca
mais foi lá, e não queria lembrar das belas recordações que tinha tido
lá, então resolveu ir para casa.
- Já acabou a aula? – foi perguntando o senhor Caio ao ver o
filho chegar mais cedo.
Samuel respondeu algo mal abrindo a boca, fazendo com que o
pai nem entendesse direito e já foi indo para o quarto se trancar.
Tudo isso fazia o senhor Caio pensar, cada vez mais, o que fazer
para ganhar de volta o filho, tirar a dor do coração dele. Ele sabia
que enquanto ficasse fechado em si mesmo dificilmente conseguiria
se aproximar do filho, lembrava muito dele mesmo, quando mais
jovem, como se fechava e não expunha os sentimentos, usando
máscaras a vida toda, não queria isso para o filho, e ele seria quem
mais iria sofrer. Como libertar o filho da prisão em que ele se colocava

150
Capítulo 15 - Tempo de escuridão

a cada dia? Essa pergunta o senhor Caio fazia para Deus e para si
mesmo a cada manhã.
Por mais que Samuel soubesse que todos precisam do perdão
de Deus, que Amanda ficaria feliz em ver mais um se convertendo,
até mesmo Fred, tinha tantas outras pessoas para irem à igreja, mas
logo ele, que foi autor de tanta desgraça em sua vida, e pior ainda,
convidado por Clever. Era muita coisa para a cabeça de Samuel, que
mesmo que estivesse tentando saber melhor quem era Deus, essas
provações eram muito fortes, mexiam muito com suas emoções,
estava achando muito dolorida a lição. Assim dormiu abraçado
ao travesseiro com as pernas encolhidas como se pudesse voltar à
infância, pensando em como estava sendo duro querer entender tudo
sem sua mãe e sem sua amada Amanda, e mais do que nunca, ele
precisava da presença delas agora com ele.
Naquela noite no jantar, o senhor Caio perguntou para Samuel
sobre a faculdade, se ele já tinha definido, pois para o pai era muito
importante o filho continuar estudando, para isso ele não media
esforços.
- Acho que vou fazer publicidade – respondeu Samuel.
- Uhn..., interessante, é um curso novo, já ouvi dizer. Mas já tem
aqui na cidade?
- Vai começar no próximo ano na FACED - Faculdade de
Divinópolis. É uma faculdade que está em crescimento em todo o
Brasil.
- Que bom que você já decidiu. Eu ouvi qualquer coisa que o
Mário está indo para o seminário, você está sabendo?
- Sim, ele já decidiu.
- Fico feliz por ele também. E o Clever, você sabe o que ele quer
fazer?
- Parece que não vai fazer faculdade – respondendo seco, como
se não quisesse continuar o assunto. – Me passe o arroz, por favor.
- Sério, por quê? A última vez que falei com ele, me parecia tão
empolgado em ir à faculdade.
151
Tempo de Descoberta

- Por causa da doença de sua mãe, ele não pode deixá-la sozinha
e nem pagar alguém para ficar com ela.
- É uma pena. Se pudéssemos ajudá-los... – disse o senhor Caio
com um ar de tristeza.
- Me passe o frango pai, por favor – falou agora procurando
fugir de vez da conversa, algo que Samuel estava se tornando hábil
em fazer.
O senhor Caio não disse mais nada, mas guardava tudo aquilo
dentro de si, tendo esperança de um dia o filho mudar, mas sabia que
precisava fazer algo, pois Samuel era a joia mais preciosa que Caio
possuía.
Samuel procurava se concentrar nos estudos, já que queria
fazer a faculdade, e sabia que se não fizesse, seu pai ficaria muito
chateado, e concentrando-se nos estudos também teria menos tempo
para pensar em Amanda. Havia a possibilidade de estudar em Belo
Horizonte, talvez até mesmo para fugir do passado, mas sabia que
seu pai teria que fazer um grande sacrifício. Mesmo sabendo que para
ver o filho estudando o senhor Caio faria qualquer coisa, Samuel não
queria abusar de seu pai que vivia apenas com a aposentadoria e o
aluguel de uma casa herdada dos pais.
Mário já estava encaminhado para o seminário, Nadejida
e Samuel estavam indo juntos fazer os primeiros exames para a
faculdade. No caso de Clever, sua mãe queria muito que ele fizesse
faculdade, falava para ele não se preocupar que ela poderia se virar
sozinha nesse período, mas ele sabia como seria duro para ela. Mesmo
assim, ele resolveu tentar o vestibular, apenas para agradar a mãe, já
consciente de que dificilmente conseguiria fazer uma faculdade.
O senhor Caio sempre pensou em como se aproximar mais do
filho, e foi num desses dias, após voltar da igreja, enquanto assistiam
televisão, que ele comentou:
- Estive pensando Samuel – falou Caio enquanto Samuel só
ouvia sem tirar os olhos da tv.
- Eu já estou velho, mas graças a Deus ainda sou forte, fico muito

152
Capítulo 15 - Tempo de escuridão

tempo aqui sozinho em casa, você e Clever sempre foram grandes


amigos, desde o primeiro ano da escola. – Samuel ficou pensando
onde ele queria chegar com aquela conversa, temia de que fosse algo
que não gostasse.
- A casa aqui ficou bem grande para nós dois, temos um quarto
a mais para visitas, mas quase nunca recebemos hóspedes para dormir
aqui – agora definitivamente Samuel já não estava mais gostando da
conversa.
- A dona Áurea é uma mulher guerreira, ainda tem muita força,
só precisa de um pouco de ajuda, então estava pensando em convidá-
los para vir morar aqui. Ela poderia ficar no quarto vazio, e Clever
com você no seu quarto, além do que ela seria uma companheira para
mim, não ficaria tanto tempo só, e para você creio que seria muito
bom, afinal, a sua amizade com Clever é algo de mais de 10 anos –
completou o senhor Caio, achando que Samuel iria adorar a ideia,
pois mesmo tendo percebido que o filho se afastou de Clever nos
últimos meses, achou que foi só devido à dor pela morte de Amanda
e nunca imaginou o que se passava entre ele e Clever. Pensava que
Clever poderia ajudá-lo a se reencontrar, consigo mesmo e com Deus,
era a grande esperança de Caio.
Samuel nunca esperava aquilo, teve uma mistura de sentimentos
muito fortes dentro de si. Se fossem alguns anos ou até meses atrás
seria a melhor coisa, pois Samuel sempre quis um irmão e via em
Clever o irmão que nunca teve, mas agora, depois de tudo aquilo, as
coisas ainda não tinham se acertado entre ele e Clever. Por mais que
conversassem, nunca mais tocaram no assunto do velório, e ele sabia
que precisaria um dia fazer, se quisesse voltar a ter a amizade com
Clever que um dia já teve. Mas agora, morar juntos, e talvez estudarem
na mesma faculdade, seria muito e ele não estava preparado, mas, o
que responder para o seu pai?
- Não sei se ele aceitaria, e a dona Áurea também penso que
não – respondeu Samuel tentando desanimar o senhor Caio da ideia,
arranjando um culpado para não dar certo.
- Creio que sim – respondeu animado o senhor Caio. – Andei

153
Tempo de Descoberta

“sondando” ele na igreja e me parece que se você concordar ele aceita,


afinal, sempre teve você como um irmão – concluiu Caio olhando
com esperança nos olhos de Samuel, pois via em Clever a esperança
de resgatar o filho, já que Clever estava mais firme na igreja e com
Deus.
Samuel não gostou de ver que o pai já tinha decidido isso antes,
e até conversado com Clever sem ele saber, procurou disfarçar o
sentimento confuso que tinha dentro de si.
- Então, se vocês já decidiram, tudo bem, o que posso fazer? –
disse Samuel, com um ar de reprovação. Aquilo deixou o senhor Caio
surpreso.
- Não filho, não está nada decidido, por isso estou falando
contigo, só achei que você gostaria da ideia – tentou se justificar o
senhor Caio com um ar de triste surpresa da reação do filho.
- Tudo bem por mim – falou tentando agora disfarçar a
insatisfação. – Não sei se já comentei com o senhor, mas estou
pensando em fazer faculdade em Belo Horizonte.
Aquela revelação deixou o senhor Caio chocado. Lógico que ele
não tinha falado nada, aliás, ele só havia decidido naquele momento,
foi a maneira de fugir da situação.
- Mas você não disse que abriu aqui também uma faculdade de
publicidade? – perguntou o senhor Caio com um ar de surpresa.
- Tem, mas vai ser o primeiro ano, ainda não tem o certificado do
MEC, e a de Belo Horizonte já é uma faculdade com tradição – tentou
argumentar Samuel, mas, na verdade, o único motivo da escolha
tinha sido pelo fato da conversa que haviam acabado de ter.
- Entendo, mas ainda acho que seria melhor você estudar aqui,
afinal, é a sua cidade, seus amigos, sua família, onde sempre viveu
– falou triste o senhor Caio. – Mas, filho, você é quem vai decidir, só
pense bem antes, creio que seria muito bom para você ficar, e Clever
também ficaria contente. Bem, estarei orando por isso – completou
o senhor Caio, tentando ainda ter esperança que o filho mudasse de
ideia.

154
Capítulo 15 - Tempo de escuridão

Samuel sabia que para o pai seria um grande sacrifício mantê-


lo em Belo Horizonte, mas ele poderia trabalhar para ajudar nas
despesas e evitar um sacrifício maior de seu pai, além de começar
uma nova vida, pensava Samuel. Tudo aquilo lhe dava medo, nem
ele mesmo tinha pensado tão sério assim naquela possibilidade, pois
viveu a vida toda em Divinópolis. Mas, de repente, estava se tornando
a melhor opção, além do que, a própria Nadejida também tentaria
o vestibular em Belo Horizonte e, se ela fosse estudar lá, não estaria
assim tão só, poderia evitar ainda mais ter a conversa necessária com
Clever e continuar a fugir de si mesmo.

155
156
Capítulo 16
A mudança

“O fraco jamais perdoa, o perdão é característica do forte.”


Mahatma Gandhi

C

omeçou o ano de 1979 e com ele as provas dos vestibulares.
Mário já estava morando em Belo Horizonte, onde iria fazer
seminário. Samuel fez o vestibular tanto em Divinópolis como em
Belo Horizonte, mas já estava praticamente decidido a ir estudar fora,
pois, além de Clever estar fazendo vestibular, que significava que
provavelmente iria morar em sua casa, ele estava gostando da ideia
de morar em outra cidade, experimentar uma nova vida. Nadejida
também fez em Belo Horizonte, na mesma faculdade que Samuel,
fato que o deixou mais animado.
Como estavam no período de férias, Samuel e Clever mal se
viam, mas, para surpresa de Samuel, um dia Clever apareceu em sua
casa, e começaram a conversar, ignorando como Samuel o tinha ferido
com palavras e havia muita coisa importante para se conversar.
- O que você acha da ideia de seu pai, Samuel? – perguntou
Clever, revelando assim o motivo da visita.
- Seria bom para você e sua mãe – foi a resposta que Samuel
deu, que ao mesmo tempo em que não mostrava objeção, também
não mostrou alegria ou que seria bom para a amizade deles.
- Gostaria de saber sinceramente se você não tem nada contra,
pois é importante, é a sua casa, e não quero que você se sinta obrigado
– disse Clever olhando seriamente para Samuel.

157
Tempo de Descoberta

- Já lhe falei Clever, não tem problema, mesmo porque eu devo


ir estudar em Belo Horizonte, o curso que eu quero é melhor lá.
- Seu pai tinha comentando comigo da possibilidade, então,
você vai mesmo? – perguntou Clever com um ar de frustração.
- Sim, se eu passar no vestibular.
- Que bom para você, mas é uma pena para nós – disse Clever
com sinceridade no olhar. Samuel apenas se calou.
- E o que você tem feito? Faz tempo que não sentamos e
conversamos – falou Clever, como que tentando se relacionar com
Samuel, como antes fazia.
- Nada de mais, só estudando muito – limitou-se a responder
Samuel.
- Quer dar uma volta? – perguntou Clever.
- Não posso, obrigado. Fiquei de ir estudar com Nadejida.
- Ok, mas vamos marcar de sair um dia, antes que terminem as
férias.
- Sim, eu te ligo – respondeu Samuel, já sabendo que não
cumpriria a promessa.
Uma semana antes de Clever se mudar para a casa de Samuel,
este já havia se mudado para Belo Horizonte, sendo a primeira vez,
desde os seis anos de idade, que não tinham passado as férias de final
de ano juntos.
Tudo era muito novo e estranho para Samuel, que mesmo
morando tão longe da capital, era a primeira vez que moraria fora
de casa. O que lhe dava força era saber que Nadejida estaria lá com
ele, agora na nova vida, ambos tinham passado na mesma faculdade,
e a república em que moravam era perto do campus, podendo se
encontrar sempre. Enquanto Samuel escolheu fazer propaganda,
Nadejida estudava psicologia.
Samuel nunca esqueceu a expressão de tristeza do senhor Caio
ao levá-lo com as coisas de mudança para Belo Horizonte.

158
Capítulo 16 - A mudança

- Seria muito bom se você ficasse conosco – falou o senhor Caio,


como se fizesse a última tentativa. – Bem, mas se você não se adaptar,
pode transferir a faculdade para a nossa cidade, e mesmo que perca
algumas disciplinas, não tem problema. E sempre que precisar de algo
me ligue – completou o senhor Caio segurando para não chorar.
- Tudo bem, pai. Vai dar tudo certo, obrigado – limitou-se a
responder, dando um sorriso para o pai, mas sentiu como se estivesse
se vingando um pouco de quando o seu pai não foi lhe levar no
primeiro dia de aula escolar, quando ele tinha apenas seis anos, apesar
dele ter insistido tanto.
Samuel viu o pai indo embora na Belina marrom muito
vagarosamente, como se ainda esperasse que o filho desse algum
sinal que havia mudado de ideia.
Mesmo a presença de Nadejida trazendo lembranças de
Amanda, Samuel se sentia bem melhor com ela por perto, pois era a
ligação dele com toda a vida que tinha tido, e era com ela, que após
a morte de Amanda, Samuel mais tinha liberdade de expressar seus
sentimentos.
- Já lhe disse que minha mãe me deixou uma carta no dia em
que morreu? – perguntou Samuel para Nadejida, enquanto voltavam
da faculdade. Lógico que ela não sabia, pois Samuel nunca tinha
comentado da carta com ninguém, mas foi a maneira que ele achou
de lhe contar. Ele mesmo estranhou muito ter tocado em um assunto
tão particular para si mesmo, mas gostou de se ver livre para isso,
precisava se libertar, de se expor, e estava começando a conseguir
fazer isso.
- Não. Que carta? - respondeu com um ar de espanto
Nadejida.
- Uma carta onde ela diz várias coisas para a minha vida e me
dá seis conselhos.
- Posso saber quais? Isso, se não for algo muito particular –
perguntou Nadejida, com “ar” de respeito e curiosidade.
- Bem, acho que não tem problema.... – Samuel fez uma pausa

159
Tempo de Descoberta

e continuou. - ... essa é a primeira vez que comento....., nem para


Amanda eu tinha falado.
- Você sente muito a falta de Amanda, não é Samuel? – perguntou
Nadejida com um pouco de medo, pois era um assunto que ela sabia
que mexia muito com Samuel e ele nunca tocava no nome dela.
- Sim, muito, pois tudo de bom que um dia eu aprendi foi através
dela e de minha mãe – confessou Samuel, mas já sem medo de tocar
no assunto.
- Eu também sinto a falta dela, ela me ensinou muita coisa,
parece que até hoje eu ouço os conselhos dela. Sempre que tenho
que tomar uma decisão ou fazer algo importante, penso no que ela
faria em meu lugar.
- São coisas que eu não entendo, tanta gente ruim, e por que
ela?
- Eu acho que ela era tão especial para Deus, que Ele a quis logo
para perto dele.
- E depois eu que sou egoísta – murmurou Samuel para si
mesmo. – Mas, voltemos para a carta de minha mãe – disse Samuel
mostrando que não queria mais conversar sobre Amanda.
- Eu sempre fico pensando em seus conselhos e já decorei todos,
não são fáceis de segui-los, ainda mais quando se está desapontado
com Deus.
- Nossa, então fala Samuel, já estou curiosa – disse com um ar
de ansiedade Nadejida.
- Bem, os conselhos foram:
“1- apenas os corajosos perdoam, inclusive a si mesmo;
2- você não é o que dizem que você é, e nem o que você pensa
que você é;
3- ninguém pode te ferir além daquilo que você permitir;
4- a cada dia você escolherá se guarda lixo ou plantará um
jardim em sua mente,

160
Capítulo 16 - A mudança

5- em tudo na vida Deus quer nos ensinar uma lição, mas


quando focamos apenas em nós mesmos, deixamos de
aprender;
6- Deus está sempre cuidando de você, até mesmo quando
coisas ruins nos acontecem.”
- Nossa, que lindo, que profundos esses conselhos – disse
Nadejida, pensando em cada um deles. – Sua mãe era muito sábia.
- Sim, a pessoa mais sábia que já conheci.
- E quais deles você já consegue seguir? – perguntou Nadejida
com um sorriso nos lábios.
- Creio que nenhum – respondeu retribuindo o sorriso.
- Às vezes até consigo chegar perto, mas depois acontece algo e
volta tudo à estaca zero – confessou Samuel.
- Porque você não consegue entender Deus, certo?
- Sim, creio que isso ajuda. Só de pensar que muitas coisas ruins
podem ter acontecido para Deus me ter perto dele...., isso me afasta
ainda mais.
- Você já parou para pensar que às vezes Deus usa situações que
nós criamos para nos aproximar dele? – perguntou Nadejida, fazendo
com que Samuel pensasse de uma maneira que ele ainda não tinha
parado para analisar.
- Uhn..., interessante, é a primeira vez que vejo desse ponto de
vista – disse Samuel com um novo sorriso.
- É a “síndrome de Adão”.
- Como assim? – perguntou Samuel curioso.
- Uai, Adão culpou Eva por ter comido o fruto proibido, já Eva
culpou a serpente, a serpente olhou para o lado, viu que não tinha
ninguém para culpar e pensou “dancei” – falou rindo Nadejida.
- Mas Deus transformou essa situação, mesmo o homem tendo
escolhido se afastar de Deus, Ele enviou o seu Filho Jesus, que é o
próprio Deus, para trazer de volta as pessoas, mas, infelizmente, muitas

161
Tempo de Descoberta

pessoas vivem na desculpa de Adão e não querem se reconciliar com


Deus.
- Eu penso que Deus é comediante. Por que Ele colocou a árvore
lá se sabia que o homem iria comer? Ou Ele não sabia? Então, não
sabe de tudo e não é Deus, ou tem um terrível senso de humor – disse
Samuel, confessando ainda mais não entender e não concordar com
Deus.
- Sabe, eu tinha feito essa mesma pergunta para Amanda, e ela
me disse algo muito interessante, ela achava que é porque Deus queria
que nós nos relacionássemos com Ele, não por não ter opção de não
se relacionar, e sim por amor, por escolher ser amigo dEle, Deus não
queria um bando de robôs que não tivesse opção, é relacionamento,
isso é amar, perdoar, se sacrificar, tudo isso Ele fez.
Samuel apenas ficou em silêncio pensando nessas palavras.
- Então, talvez esteja na hora de você “plantar” um jardim em
sua mente e coração e não permitir que seja ferido – disse relembrando
os conselhos de Maria das Dores. – O que acha da ideia? – falou
Nadejida, dando uma piscada para Samuel.
- Interessante, mas meio difícil, talvez precise de ajuda – disse
Samuel olhando como quem pergunta se ela aceitaria ajudá-lo.
- De repente, foi para isso que Deus me colocou aqui, está vendo,
Deus está cuidando de você! – falou como se tivesse certeza do que
estava acontecendo.
- Quem sabe – respondeu rindo Samuel. – Então, você topa?
- Lógico. E me sinto honrada de ser a primeira a saber da carta
– confessou com um ar de orgulho Nadejida.
- De repente, já é Deus trabalhando – disse Samuel em tom de
brincadeira, mas já demonstrando estar aberto para se aproximar de
Deus.
- Então, comece a tentar ver Deus e as situações de sua vida de
uma maneira diferente, tente perdoar quem precisa, e a si mesmo,
como a sua mãe lhe disse.

162
Capítulo 16 - A mudança

- Nossa, calma, vamos devagar, se não já vou desistir – disse


Samuel em tom de brincadeira, para depois continuar a falar sério. –
Na verdade, há anos penso em tudo isso, mas fiquei muito magoado
com Deus e com coisas que via nas igrejas, nas pessoas, mas você
está certa, tenho que mudar a minha maneira de ver as coisas que me
acontecem..... – ficou em silêncio por alguns minutos e continuou. - ...
nem que seja pela minha mãe e por Amanda.
- E por você, por você – completou Nadejida.

163
164
Capítulo 17
Novos sonhos

“O homem ama porque o amor é a essência da sua alma.


Por isso não pode deixar de amar.”
Leon Tolstói

A

quele semestre Samuel refletiu como nunca tinha refletido
sobre o bilhete que sua mãe deixou. Resolveu ir jogando fora
o lixo que sempre cultivou em sua mente, pensou em várias lições que
deixou de aprender por ter decidido ficar magoado ou simplesmente
olhado as coisas de uma maneira negativa. Quantas conversas deixou
de ter com seu pai, simplesmente para se “vingar” de anos querendo
conversar e o senhor Caio simplesmente “não tinha tempo”. Percebeu
que não apenas feriu seu pai, como, na verdade, ele próprio era o mais
ferido na situação, sem dizer de Amanda, que agora já não havia mais
tempo para conversas. Ainda tinha Clever, com esse, tanto como com
seu pai, Samuel sabia que precisava mudar de atitude. As conversas
com Nadejida o ajudavam muito.
Samuel e Nadejida começaram a frequentar a oitava Igreja
Presbiteriana de Belo Horizonte. Samuel se sentia bem lá, era uma
igreja diferente das que Samuel já tinha ido, tinha um pastor idoso
muito sábio que lembrava o pastor Antônio Elias da igreja de Amanda,
e um jovem recem-saído do seminário que sempre conversava com
Samuel com muito entusiasmo. A igreja, mesmo sendo de uma linha
mais tradicional, tinha um grupo musical muito animado e era um
ambiente que misturava respeito com alegria, algo que cativava
Samuel.
Apesar de toda a preocupação que o senhor Caio tinha com
o fato de Samuel estar longe, fazendo gastar horas de oração, este
165
Tempo de Descoberta

tempo estava fazendo muito bem para Samuel, no lugar de ser a fuga
que ele esperava, estava se tornando um lugar de reencontro consigo
mesmo.
Não havia uma semana que o senhor Caio não ligasse pelo
menos três vezes para o filho. De vez em quando Clever também
ligava para ele, fazia perguntas sobre a faculdade, como estava na
nova cidade, e aos poucos Samuel ia se soltando mais.
Dona Áurea se tornou uma boa amiga e conselheira do senhor
Caio, creio que ela que mais cuidava dele do que ele dela, e os
dois sempre brincavam quem é que tomava mais remédios. Muitas
conversas do senhor Caio com Clever tinham a participação do nome
de Samuel, suas histórias sempre eram lembradas com muita alegria,
e algumas com um tom de tristeza, como várias que envolveram a
sua vida com Amanda, como Samuel ficou fechado por causa de
um bilhete escrito na infância e como perdeu tempo por causa disso.
Ambos viam que Samuel precisava ser curado e sempre que possível,
oravam juntos a respeito.
No primeiro semestre foram poucas as vezes que Samuel foi
para Divinópolis, pois ainda não se via preparado para ter a conversa
necessária com Clever, e também estava cada vez mais se relacionando
com os jovens da igreja de Belo Horizonte.
Samuel começou a ficar apreensivo com a chegada das férias
escolares, pois teria que passar um mês em casa e não sabia como lidar
com a situação, ele já tinha falado algo para Nadejida, que sempre o
incentivava a conversar com Clever, que uma amizade de anos não
poderia ser perdida por coisas tão bobas.
- Você não imagina quem está noivo, Samuel, – disse Nadejida
com ar de suspense.
- Quem?
- Vamos, tente adivinhar – insistiu Nadejida.
- Não faço a menor ideia. Pare de suspense e me diga logo.
- Vitória e Clever.
- Não brinca, sério? Mas já, tão cedo? Será que aprontaram
166
Capítulo 17 - Novos sonhos

alguma? – perguntou Samuel, com um ar de sarcasmo.


- Lógico que não – respondeu séria Nadejida.
- Sempre desconfiei que Clever gostava dela, apesar dele negar.
Quem diria, hein......, que rapidez.
- Estou muito feliz por eles, ela sempre o achou interessante,
mas o achava muito mulherengo, por isso nunca demonstrou interesse,
mas parece que ela deu um jeito nele. E em você, quem dará um jeito,
hein? – perguntou rindo Nadejida.
- Você viu que vai ter um acampamento de crianças e outro de
adolescentes na igreja em julho? – perguntou Samuel, mudando de
assunto, já que tinha ficado vermelho com a pergunta.
- Sim, até pensei em ir ajudar na semana das crianças, mas
este primeiro semestre fui tão pouco para casa que estou com muitas
saudades de meus pais e do pessoal da igreja.
- Se você for eu irei – disse Samuel com um sorriso e um olhar
desafiador para Nadejida. Ela, por sua vez, olhou sério para ele
perguntando:
- Você quer ir para ajudar no acampamento ou para fugir,
Samuel?
Ela já o conhecia muito bem, era difícil esconder as coisas dela,
por isso procurou ser sincero.
- Bem, você sabe que estou procurando acertar a minha vida e
é verdade que tenho medo de me reencontrar com Clever, com meu
pai, mas por outro creio que será bom esse tempo no acampamento,
sem estudos, seria um tempo de reflexão com Deus, além de ser muito
legal poder ajudar no acampamento das crianças – disse Samuel para
surpresa de Nadejida.
- Bem. Se você realmente quer se acertar mais com Deus para
depois acertar o restante de sua vida, eu vou com você – disse com
um belo sorriso nos lábios.
- Então, estamos combinados – falou Samuel esticando a mão
para Nadejida que retribuiu com um forte aperto.

167
Tempo de Descoberta

A notícia, a princípio, deixou o senhor Caio triste, mas ele via que
Samuel estava cada vez mais se abrindo, e isto lhe dava esperança,
além do que seu filho iria para um acampamento cristão e a própria
Nadejida tinha falado com o senhor Caio sobre as melhoras na fé de
Samuel. Tudo isso fazia com que Caio orasse ainda mais e com mais
esperança de ver um dia o filho livre de toda máscara colocada no
decorrer da vida.
Samuel procurou ir ao acampamento com o coração aberto
para Deus, ele estava cansado de toda essa situação, mas também
estava decidido a não voltar para Deus na teoria, queria algo sincero,
e realmente compreender tudo aqui e não simplesmente ter uma fé
com interesse, como o apóstolo Narciso o havia acusado.
Na semana do acampamento das crianças, Samuel trabalhou
muito, pegou o trabalho da cozinha e de cuidar de um dos quartos.
Foram mais de 90 crianças de seis até onze anos. Mesmo com tanta
correria, foi muito bom, pois ouvir mensagens bíblicas infantis lhe fez
muito bem, além de gastar um bom tempo sozinho, tentando curar
as feridas que estavam abertas. Também várias noites ele e Nadejida
ficavam conversando olhando para o céu.
- Está vendo aquela estrela grande que fica piscando para nós?
– disse Nadejida apontando para uma bela estrela.
- Sim, o céu hoje está muito bonito.
- Eu acho que é Amanda olhando para nós – disse com um
sorriso nos lábios. – Ela deve estar falando: “Juízo Nadejida, eu estou
de olho”.
Aquelas palavras deixaram Samuel totalmente sem graça, ficou
pensando se havia sido uma indireta que Nadejida havia dado para
ele. Já havia um certo tempo que ele percebia que havia algo entre
eles. Mas procurava ignorar, pois achava que Nadejida só queria
ajudá-lo, além do que para ele isso era confuso, pois ela tinha sido
a melhor amiga da sua grande paixão. Também Samuel não podia
negar que já há algum tempo sentia uma atração por ela.
Naquela noite Samuel não conseguiu dormir direito, pensando
no que ela havia falado, se teria sido uma indireta ou não. Se achava
168
Capítulo 17 - Novos sonhos

um bobo em pensar isso, talvez ela apenas quis dizer que Amanda
estava lá com eles, outras, ele achava óbvio que ela tinha dado uma
indireta. O fato é que isso mexeu muito com ele, pois a ideia de ter
algo com Nadejida, já havia passado algumas vezes em sua cabeça,
mas sempre fugia desse pensamento, talvez por respeito a Amanda
ou, sendo mais sincero, por medo, medo de perder um novo amor.
No restante daquela semana, eles não tocaram no assunto, ele
procurou se manter ocupado, mas ela não saía de sua cabeça.
- Você vai ficar no acampamento dos jovens? – perguntou
Nadejida para Samuel.
- Apenas se você ficar – respondeu Samuel com um sorriso nos
lábios.
- E eu só se você ficar – respondeu retribuindo o sorriso.
- Então vamos ficar – falou agora com convicção Samuel.
No sábado à tarde e no domingo eles, com outros oito jovens,
ficaram arrumando o local para receber cerca de 150 jovens que
viriam para o acampamento na segunda-feira logo cedo.
Domingo, após todo o trabalho, eles sentaram como de costume
na grama perto de um lago que havia no local. Nadejida gostava muito
de sentar lá, pois tinha uma bonita vista dos pomares de laranja, das
árvores do bosque e principalmente do brilho da lua refletida na água
do lago.
- Você gosta de mim? – foi perguntando Samuel sem parar para
pensar, e nem mesmo ele acreditando naquela pergunta. Talvez ele
tenha sido agora tão rápido para compensar o tempo perdido com
Amanda, talvez por medo que se pensasse muito não falaria nada,
ou até mesmo para fugir do medo de se apaixonar com medo de
perder, o fato é que ele perguntou e no mesmo instante bateu um
arrependimento, viu que a pergunta não tinha sido nada romântica,
contrastando com a situação, ficou pensando que já tinha estragado
tudo.
- Como, como assim? – perguntou Nadejida, mostrando-se
claramente surpresa.
169
Tempo de Descoberta

- Desculpe, é que.... – antes mesmo que Samuel pudesse


completar a frase, ela continuou.
- O que você acha Samuel? – perguntou olhando nos olhos
dele.
Samuel, vendo aqueles belos olhos azuis, ficou sem fala e,
talvez por isso, tomou a atitude de maior coragem até então, foi se
aproximando dela, tocou-lhe levemente a mão em seu rosto como
um sinal de carinho, e ela, vagarosamente, fecha os olhos como
se sentindo o toque de Samuel. E nesse momento, com o coração
disparado, Samuel se aproxima e lhe dá um suave beijo, mal tocando os
lábios, este que ela retribui com a mesma suavidade. Nesse momento,
Samuel viu o céu mais estrelado que jamais havia visto, e isso com os
olhos fechados, passou agora a mão por trás do cabelo de Nadejida
tocando-lhe a nuca e continuou o beijo, agora mais apaixonado e
mais intenso, e tudo retribuído por ela com a mesma paixão.
Após alguns segundos, ele a abraçou e ficou assim alguns minutos,
como se não acreditasse no que acontecia, e depois novamente olha
nos olhos dela para repetir o beijo, algo que parecia como mel em
seus lábios, o primeiro beijo de Samuel, que já estava com quase 19
anos.
- Você sabe a tradução do meu nome em português? – perguntou
Nadejida abraçada com Samuel.
- Não tenho a menor ideia, só sei que é bem diferente – respondeu
rindo Samuel.
- Esperança. Em português é esperança – falou com uma voz de
orgulho Nadejida. Após alguns segundos, responde Samuel:
- É engraçado, uma vez minha mãe me disse que se eu tivesse
nascido garota o meu nome seria Esperança – disse Samuel com um
sorriso. - Sim querida, é o que você trouxe de volta para minha vida,
esperança – falou Samuel acariciando os cabelos loiros de Nadejida
para logo em seguida lhe dar um outro doce e suave beijo.
Aquela semana foi sem dúvida a semana mais feliz de Samuel,
estavam sempre juntos, e todas as noites procuravam ficar algum

170
Capítulo 17 - Novos sonhos

tempo na beira do lago abraçados. Samuel não queria que aquela


semana acabasse, era como um sonho vívido do qual tinha medo de
acordar.
Na última semana das férias, Samuel foi para Divinópolis, e seu
pai ficou muito feliz, não só pelo filho ter ido e sim também pelo
namoro. Ele conhecia Nadejida, e sabia que ela era uma moça séria
com Deus, e assim Caio poderia ter esperança de que, apesar da
distância, Deus estaria trabalhando em seu coração, além de já ter
visto clara mudança na vida do filho.
Uma noite, chegaram até a sair juntos Samuel, Nadejida, Clever
e Vitória, isso por muita insistência de Nadejida, mas Samuel não
falou muito durante a noite, ao contrário de Clever que não escondia
a alegria de estar junto com o amigo, agora já como jovens e com suas
namoradas.
O segundo semestre de Samuel foi com certeza um semestre de
descoberta, onde ele procurou se conhecer melhor, sem máscaras,
procurou ser o mais sincero e transparente possível com Nadejida, ele
se sentia muito livre com ela, não queria perder o tempo que havia
perdido com Amanda, deixando de falar de sentimentos importantes
e reais.
No começo, a situação lhe incomodou um pouco, afinal,
Nadejida tinha sido a melhor amiga de Amanda, e fazia apenas um
ano que Amanda tinha partido quando Samuel deu o primeiro beijo
em Nadejida. Para ele era um tempo muito curto, mas, ao mesmo
tempo, sabia que tinha que viver a vida, não poderia ficar sofrendo
a vida toda por algo perdido, precisava olhar para frente, aprender
as lições da vida, sabia que Amanda concordaria com ele e se ela
pudesse escolher, acreditava que ela escolheria Nadejida para ele.
Nesse tempo ela o ajudou muito a se reencontrar consigo mesmo
e com Deus, eram sentimentos belos e verdadeiros que sentiam um
pelo outro. E Samuel estava disposto a deixar isso crescer a cada dia,
ele percebia que Nadejida continuava o trabalho que Amanda tinha
começado em sua vida.
Uma das grandes dificuldades nessa época era em relação

171
Tempo de Descoberta

ao sexo. Samuel sabia que para Nadejida era importante esperar o


casamento, mas eles passavam muito tempo sozinhos, e a atração era
forte um pelo outro, principalmente para Samuel, que foi como se
tivesse despertado um vulcão adormecido.
Sempre que a mão ultrapassava o limite, Nadejida parava, às
vezes chegava até a chorar depois, pois queria esperar o tempo certo
para se entregar a Samuel, mas lá, longe da família, era muito difícil, e
sabia que teria que vigiar. Samuel, como ainda estava no processo de
reconciliação com Deus, não se sentia tão culpado, a culpa maior era
pelo fato de que sabia que depois Nadejida se sentia mal, mas isso se
tornava uma luta quase diária.
Por isso eles resolveram começar a orar juntos, evitavam ficar
em situações que facilitassem, mas era uma época muito boa, a qual
Samuel não esperava voltar a sorrir e se alegrar tão rápido, parecia um
presente de Deus. Isso fazia ele pensar se não estava se reaproximando
de Deus apenas porque as coisas estavam indo bem, pois não queria
um relacionamento interesseiro, e isto fez com que o processo ficasse
mais lento, mas com sinceridade.
Já fazia quatro meses que estavam juntos, e foram meses de
grande aprendizado na vida de Samuel, passava por uma nova
descoberta. Durante esse tempo, Samuel ligou mais para seu pai,
até conversou algumas vezes com Clever e perguntava de sua mãe,
mas sabia que faltava a conversa necessária, pois a amizade dele com
Clever nunca mais foi a mesma depois do acidente.
Um dia, já perto dos exames finais, quando Samuel e Nadejida
estavam na república em que ela morava, as suas amigas foram para
uma festa e eles ficaram sozinhos. Aquela noite ficou marcada para
Samuel.
Mesmo gostando e muito de Nadejida, ele sempre procurou
respeitá-la, mas a cada dia ambos conheciam mais a alma um do
outro, se despiam emocionalmente, revelando medos, complexos,
alegrias, coisas guardadas no coração, e naquela noite se sentiram
tão nus emocionalmente que não foi difícil se despir do mais fácil, as
roupas, e assim Samuel e Nadejida tiveram juntos a primeira noite de

172
Capítulo 17 - Novos sonhos

amor, carregada de desejo, proibição, prazeres antes inimagináveis e


transparência de alma.
No dia seguinte, Nadejida ficou muito chateada, apesar de ter
sido uma noite inesquecível, ela esperava acontecer apenas após
o casamento, fazendo com que prazer e frustração se misturassem
em suas emoções. Para Samuel o que o deixou chateado foi o fato
de saber como Nadejida tinha sido afetada emocionalmente, ele se
desculpou com ela, depois disso, procurou colocar mais limites, mas
sempre recordava com muito carinho e ternura daquela noite.

173
174
Capítulo 18
A surpresa

“Mesmo as noites totalmente sem estrelas podem


anunciar a aurora de uma grande realização.”
Martin Luther King

Q

uerido, estou preocupada – disse Nadejida voltando da
universidade com um olhar de muita preocupação.
- Com quê? Você está indo bem nos exames – respondeu
Samuel, como quem não entendia a afirmação.
- Não é a faculdade.... estou atrasada.
- Como assim? - Samuel entendeu, ficou branco, mas preferiu,
ou melhor, quis não entender.
- A menstruação...., era para ter vindo a semana passada e ainda
nada.
Samuel gelou, não queria pensar nas consequências antes de
ter certeza, pois poderia ser apenas um atraso.
- Nossa, caramba – foram as únicas palavras que ele conseguiu
pronunciar naquele momento. – Mas foi apenas uma vez... .
- Eu sei, pode não ser nada – disse Nadejida, tentando não
mostrar preocupação, mas era algo visível nela nesse momento.
- Você prefere esperar mais um pouco ou ir ao médico?, pois
se for para ir ao médico, é melhor irmos aqui do que em Divinópolis.
Samuel tinha medo do que as pessoas poderiam comentar em sua
cidade.
- Também concordo, bem, vamos esperar mais uma semana,

175
Tempo de Descoberta

se não vier, eu marco o médico – disse Nadejida com medo em sua


voz.
Essa semana, tanto Samuel como Nadejida tiveram dificuldade
em se concentrar nos estudos, ainda bem que faltava apenas mais
uma prova para Samuel e duas para Nadejida.
Por mais que Samuel tentasse evitar pensar no assunto, era
algo que não lhe saía da cabeça. Pensava na alegria de ser pai, e ao
mesmo tempo como isso seria sério, a responsabilidade que teria, e
não esperava um filho tão cedo, aliás, casamento só pensava depois
que terminasse a faculdade, sabia que isso mudaria a vida deles para
sempre.
A semana passou e não veio a menstruação, então resolveram
ir ao médico, a resposta sairia apenas em uma semana, já que foi feito
no hospital público, seria mais uma semana difícil de esperar. Samuel
e Nadejida tiveram que inventar uma “desculpa” para ficar mais uma
semana em Belo Horizonte, já que as férias haviam começado, isso os
deixou chateados, mas não tinham muitas escolhas, precisariam saber
o mais rápido possível se estava ou não grávida.
Na noite anterior de pegar o exame, Samuel nem conseguiu
dormir, os dois foram logo cedo para o hospital, e, após esperarem
duas horas na fila, pegaram o exame. Ambos tremiam muito ao abrir,
sabiam que se realmente estivesse grávida, a criança seria muito bem-
vinda para eles, mas tinham medo da mudança de vida, e Nadejida
sabia que provavelmente teria que parar de estudar, além de haver
muito comentário na cidade e igreja.
Samuel tinha medo de ser pai, ainda tinha muitas coisas para
resolver dentro de si, tinha medo de se tornar como era o seu pai
antes, e não sabia ainda como poderia sustentar uma família, já que
mal tinha dinheiro para os estudos.
Enfim abriram, o rosto de ambos teve uma mistura de alegria com
medo. Nadejida começou a chorar e abraçou bem forte Samuel.
- Tudo bem querida, vai dar tudo certo, só temos que sentar para
ver o que faremos, mas ele ou ela será bem amada desde já – disse
Samuel, querendo passar força e ânimo para Nadejida que estava
176
Capítulo 18 - A surpresa

trêmula, mas, no fundo, estava ainda mais preocupado do que ela.


Eles resolveram ficar mais alguns dias na cidade para decidir o
que fazer, e como falar para os pais de Nadejida, o senhor Caio e o
pastor Antônio Elias. Nadejida não tinha muita preocupação com os
pais, pois, pelo fato de serem ateus, eles nunca foram contra ela se
relacionar sexualmente antes do casamento, apenas pediam para ter
cuidado, mas ela sabia que não seria um bom testemunho para os
pais. Mas a grande preocupação era com o pastor Antônio Elias, pelo
que ela conhecia, sabia que ele iria entender e apoiá-los, mas sabia
que poderia ficar chateado com essa situação e haveria comentários
na igreja.
Já Samuel, por mais que o pai fosse ficar surpreso, ele pensou
que o Senhor Caio ficaria feliz em ter um netinho ou netinha, ainda
mais já estando com quase 70 anos, seria um presente para ele na
velhice.
Também decidiram que teriam que voltar a morar em Divinópolis,
pois não teriam como sustentar uma família em Belo Horizonte.
Samuel ainda não sabia se teria que parar ou não a faculdade, por
mais que o seu pai fosse ajudar, ele mesmo não tinha muitos recursos,
a família de Nadejida tinha um pouco mais, mas também não eram
ricos.
Na semana que voltaram resolveram já dar a notícia a todos,
foram primeiro falar com os pais de Nadejida, que para espanto de
Samuel, não só ficaram felizes com a notícia, como ofereceram a
casa para eles morarem lá com eles. Nadejida era filha única, e o
seu quarto era grande com banheiro, então, não teriam problema e
a dona Svetilana, mãe de Nadejida, iria ajudar a cuidar da filha e da
netinha. Cergei, pai de Nadejida, deu toda força para Samuel não
largar a faculdade, achando que ele deveria investir no futuro, já que
agora tinha uma família para cuidar.
No mesmo dia resolveram falar com o senhor Caio. Desde que
Samuel tinha chegado, seu pai percebeu que ele estava diferente, com
ar de preocupado, perguntou algumas vezes para ele, mas ele sempre
respondia que estava só cansado das provas finais.

177
Tempo de Descoberta

Foram juntos dar a notícia, Samuel ficou meio desconfortável


ao ver que Clever estava lá, ele ainda não tinha contado para Clever,
mas sabia que ele não iria espalhar a notícia, além do que era noivo
de uma das melhores amigas de Nadejida, e provavelmente logo
Nadejida contaria para Vitória.
- Preciso conversar sério contigo pai – disse Samuel com ar de
preocupação para o senhor Caio.
- Vamos para a sala filho, lá é mais confortável.
- Quer que eu saia? – perguntou Clever, como quem não quer
atrapalhar.
- Pode ficar, também ia acabar lhe contando, mais cedo ou mais
tarde – respondeu Samuel.
- Pai, eu vou ser papai, descobrimos há poucas semanas que
Nadejida está grávida – foi logo falando Samuel sem fazer rodeios,
se calando logo em seguida para ver a reação de seu pai. Após um
tempo de silêncio, o senhor Caio diz:
- Nossa, tão rápido.... – aquilo deixou Nadejida muito sem graça,
mas logo em seguida continuou – vocês estão felizes?
- Sim pai, e muito – respondeu com convicção Samuel apertando
a mão da namorada.
- Bem filho, o que puder fazer para ajudar eu farei, mas creio
que vocês devem voltar a morar aqui na cidade.
- Sim pai, já decidimos isso também.
- Se quiserem, o inquilino saiu de casa e vocês podem morar lá
depois do casamento, para mim e para minha mãe vai ser um prazer,
pois além de você ser um grande amigo, não tenho nem palavras para
agradecer o que o seu pai tem feito por nós – disse Clever expressando
desejo de ajudar Samuel.
Samuel não esperava aquilo, ficou muito grato e comovido com
o carinho de Clever para com ele, depois de tudo o que ele tinha feito.
O convite era muito bom, mas morar na casa dos pais de Nadejida a
ajudariam a continuar com a faculdade, pois sua mãe lhe ajudaria a

178
Capítulo 18 - A surpresa

cuidar do bebê.
- Obrigado mesmo Clever, mas decidimos ir morar na casa dos
pais de Nadejida, eles nos convidaram. Dona Svetilana ajudará a
cuidar do bebê e Nadejida poderá continuar a faculdade.
- Sei que não é muito, mas além do que lhe ajudo, vou começar
a lhe passar o aluguel da casa também – disse o senhor Caio com
olhar de amor para com o filho.
- Obrigado pai, mas creio que ficará muito pesado para o
senhor.
- Não, filho, não tem problema, ter vocês aqui perto de mim, e
ainda mais agora um netinho ou netinha, algo que talvez nunca fosse
ver por já ser velho, é algo que não tem preço – disse o senhor Caio já
com os olhos cheios de lágrimas.
- Deus lhe abençoe muito também minha filha – disse o senhor
Caio dando um abraço carinhoso em Nadejida que já estava com os
olhos vermelhos de chorar.
A conversa tinha sido muito mais fácil e cheia de amor do que
Samuel e Nadejida esperavam, em nenhum momento houve acusações
ou questionamentos, apenas perguntas sobre se realmente estavam
dispostos a casar por amor, ou só por causa do filho, perguntas sobre
a faculdade e a criação. Samuel via, que mesmo ele tendo feito coisas
erradas, Deus nunca o tinha deixado.
No dia seguinte resolveram conversar com o pastor Antônio
Elias. Nadejida estava muito nervosa, chorou quase todo o tempo da
conversa, o pastor procurou primeiro ouvi-los, depois deu conselhos
sobre o que significa ser pai e mãe, o que é casamento, família, falou
da responsabilidade de cada um no lar, mostrou as consequências de
terem se precipitado, pois pularam a parte do casamento onde eles
se conheceriam melhor já que é uma grande mudança de vida, para
já terem filhos, que é outra grande mudança na vida, também lhes
explicou que pelo fato de Nadejida ser membro da igreja, a notícia
teria que se tornar pública, mas, acima de tudo, destacou o amor, o
perdão de Deus e a importância de criar a criança no amor de Deus,
isso tudo falando sempre com muito carinho.
179
Tempo de Descoberta

Samuel não esperava palavras tão sábias e tantos conselhos,


ficou grato pelo carinho que em todos os momentos difíceis de sua
vida, que havia passado, ele lhe dava uma palavra amiga.
- Não vamos poder casar na igreja, não é pastor? – perguntou
Nadejida, já agora com as lágrimas enxugadas.
- Querida, eu faço casamento onde Deus está presente, e isto
é importante, então, se você quer casar na igreja, para mim não
tem problema, pois Deus estará lá, e isso é que importa – disse com
convicção o pastor Antônio Elias.
- Mas tem muita gente que não vai gostar, que vai ficar falando,
dizendo que no templo santo grávidas não podem se casar.
- Filha – disse com ternura o pastor – como lhe disse, o importante
é o que Deus pensa, e se Ele vai estar. O que é mais importante, o
templo ou Deus? Então, se Deus vai estar eu faço em qualquer lugar
e assunto encerrado. Com os meus presbíteros eu me viro, não se
preocupe, apenas se preocupe em amar a sua família – disse o pastor
Antônio Elias encerrando o assunto, para logo em seguida orar pela
vida dos dois.
Eles resolveram casar antes do início do ano letivo, não iriam
fazer nenhuma grande festa, apenas teria a cerimônia e logo após o
bolo no salão social da própria igreja.
Dos pais de Nadejida, eles ganharam a viagem de lua-de-mel,
que seria em Caldas Novas, apenas cinco dias, já que logo na próxima
semana se iniciariam as aulas. O senhor Caio ainda não tinha dado o
presente quando Samuel foi buscar algumas coisas na casa de seu pai
para levar ao novo lar.
- O senhor poderia me emprestar o carro para levar essas
coisas à casa dos pais de Nadejida? – perguntou Samuel, já sabendo
logicamente que o pai emprestaria.
- Não, – respondeu o senhor Caio calmamente.
- Como? – perguntou Samuel, como se não acreditasse na
resposta do pai.
- Não vou lhe emprestar filho, sei que o carro não é tão novo, já
180
Capítulo 18 - A surpresa

vai fazer seis anos, mas ele está inteiro, e quero dá-lo de presente de
casamento – explicou o senhor Caio.
- Não pai, o senhor precisa dele – argumentou Samuel.
- Você vai precisar mais do que eu filho, agora tem uma família,
além do que, já estou velho para ficar dirigindo, a farmácia é aqui
perto, e a igreja não é tão longe, ficarei muito feliz se você aceitar,
pode ter certeza – disse o senhor Caio esticando a mão para pegar as
chaves.
Samuel ficou algum tempo sem reação, depois abraçou o pai e
lhe disse aos ouvidos:
- Obrigado pai. – Ele ficou com muita vontade de lhe dizer
“te amo”, mas como nunca havia falado, pensou que soaria como
interesse, e além do mais, era muito difícil falar, já que seria a primeira
vez. Ele percebeu que o pai queria ouvir, mas como era duro, queria
um dia ainda dizer que o perdoava por tudo, mas nesse momento, a
cabeça estava apenas voltada para o casamento.
A grande preocupação de Samuel era convidar Clever para ser
padrinho, ainda não se sentia confortável para isso, mas sabia que ele
ficaria muito chateado se não o convidasse, foi quando Nadejida sem
querer o ajudou e muito.
- Bem – disse Nadejida – não sei o que fazer, sei que Clever é
seu amigo, mas também gostaria que Vitória fosse minha madrinha no
casamento, o que você pensa?
- Não tem problema querida – respondeu Samuel sem conseguir
esconder muito o alívio – creio que Clever vai entender, e além do
que, ele será de qualquer forma padrinho do nosso casamento ou por
minha parte ou por sua.
- Samuel..., - quando Nadejida o chamava pelo nome, ele sabia
que ela não tinha gostado de algo. - ... você aceitou muito rápido,
pelo visto você e Clever ainda não conversaram sobre vocês, não é?
– perguntou seriamente Nadejida.
- Ainda não tive tempo querida – tentou se justificar Samuel,
mas sabia que não conseguiria enganá-la.
181
Tempo de Descoberta

- Não teve tempo, lógico – falou Nadejida com um ar de ironia.


– Querido, não brinque com isso, é importante a amizade de vocês.
- Sim, eu sei, depois do casamento eu falo com ele.
- Sempre depois – disse agora com um ar triste Nadejida.
- Sério querida, eu vou falar com ele, prometo.
- Ok, confio em você – disse ela dando-lhe um beijo nos lábios.
O casamento foi simples, mas muito bonito, ela entrou com um
vestido de cauda muito bonito e uma pequena coroa de rosas na
cabeça. Samuel estava com um terno preto, era a primeira vez que
usava terno, e estava todo nervoso, bem mais que a própria noiva e
quando a viu entrar, teve que se segurar para não desmaiar.
Em um ano e meio a sua vida tinha dado tantas reviravoltas, a
morte de Amanda, a briga com Clever, a mudança de cidade, nova
namorada, primeiro beijo, a gravidez e agora o casamento, ainda não
estava conseguindo organizar todos os pensamentos.
Depois do casamento foram com a Belina marrom para Caldas
Novas, onde passaram momentos inesquecíveis. Samuel já sentia que
a partir de agora tinha que ser mais responsável, havia mais duas
vidas que dependeriam dele.
Nadejida conseguiu passar praticamente todo o primeiro semestre
frequentando as aulas, e logo no começo do segundo semestre já
estava com a barriga muito grande e teve que ficar mais em repouso,
mesmo asssim, foi uma boa gravidez sem grandes problemas.
Samuel conseguiu uma vaga na faculdade à noite e arranjou um
emprego durante o dia em uma loja de camisas, e em alguns meses
já estava como gerente. Ele ia frequentemente com Nadejida à igreja,
mas nesse período resolveu não pensar muito nas suas questões com
Deus, pois trabalhava todo o dia, estudava à noite e ainda tinha a
esposa e o filho ou filha que estava para chegar, portanto, via boas
desculpas para deixar um pouco de lado essas questões e os conselhos
de sua mãe.
No dia 16 de agosto de 1980 rompeu a bolsa de Nadejida, foram
rapidamente para o hospital. Samuel suava frio o tempo todo, e esteve
182
Capítulo 18 - A surpresa

em todo momento orando para que tudo desse certo, e quando orava,
vinha à sua mente que estava sendo interesseiro, como o apóstolo
Narciso havia falado, mas não queria pensar mais nisso, não naquela
hora, queria logo apenas ter notícias da esposa e da criança.
- Parabéns, papai – disse o médico vindo em sua direção com
um sorriso – é uma bela menina.
Minha mãe falou que meu pai não podia acreditar, quando me
viu, ficou sem palavras, a vontade dele era abraçar-me e beijar a todo
momento. Ele falava que eu era muito bela desde pequenina, nasci
quase sem sujeira de sangue no corpo e bem cabeludinha, dizia que
eu era a mais bela criança da maternidade, mesmo sabendo que todos
os pais dizem isso, eu acreditava, tamanha a convicção com que me
contava a história.
Samuel praticamente fazia apenas três coisas na vida, trabalhava,
estudava e cuidava da família. O senhor Caio também começou a
passar mais tempo na casa dos pais de Nadejida que em sua própria
casa, era apaixonado por mim. Samuel chegava a pensar que se
quando criança ele também o havia tratado daquela maneira, com
tanto carinho e amor.
Escolheram para mim o nome de Isabela, pois significa “presente
de Deus”. A sugestão foi de minha mãe, e meu pai gostou muito, pois
sempre me disse que eu era um presente em sua vida, que restaurou
muitos sentimentos.
Logo com 10 meses já estava andando e pronunciando as
primeiras palavras, o que deixava meus pais orgulhosos.

183
184
Capítulo 19
A fuga

“O coração delicado sofre menos das feridas


que recebe do que das que faz.”
Santo Agostinho

E

ra o ano de 1983, eu estava com três anos quando Clever
e Vitória também resolveram se casar. Essa data Samuel nunca
esqueceu.
Ele estava já no último ano da faculdade, e tinha ganho uma
bolsa para participar de um seminário de uma semana em São Paulo,
quando veio Nadejida, falando que eles tinham marcado o casamento,
e era justamente na sexta-feira daquela semana na qual ele só voltaria
no sábado à noite.
- Querido, você não pode ir, Clever é o seu melhor amigo –
argumentou Nadejida.
- Eu sei querida, mas é muito importante esse seminário e eu fui
escolhido na faculdade, não teria condições de pagar, é uma grande
chance profissional na minha vida. – Samuel usou esse argumento,
mas no fundo, sabia que ainda tinha algumas mágoas de Clever,
a conversa que ele falou que teria depois do casamento ainda não
tinha acontecido, tinha adiado tanto que preferia apenas fingir que
estava tudo bem, e agora, no casamento de seu amigo, ele sabia que
precisava antes falar com ele, pois nunca mais foram os mesmos.
- Samuel... – disse Nadejida, o chamando pelo nome, algo que
ele não gostava, pois sabia que não conseguiria enganá-la - ... você
não cumpriu a sua promessa para mim, não é? – perguntou com um
ar triste.
185
Tempo de Descoberta

- É que o tempo foi passando querida, e achei que não precisaria


mais – respondeu Samuel, nem ele mesmo acreditando em suas
palavras.
- Bem, você sabe o que é mais importante, sabe como é
importante para Clever a sua presença, e para mim também, mas não
vou lhe forçar a nada, apenas pense e ore no que irá fazer – disse com
seriedade e tom de tristeza em sua voz.
- Vou ver o que posso fazer querida – tentou novamente se
justificar.
- Depois do nascimento da Isabela, você... – nesse momento os
olhos de Nadejida se encheram de lágrimas e ficou quieta.
- Eu o que, querida?
- Bem...., em Belo Horizonte, você estava cada vez mais
querendo se conhecer, sempre falava para mim o que sua mãe lhe
havia escrito, estava tentando se conhecer e conhecer a Deus, mas
depois... – novamente perdeu a voz.
- Você quer dizer que não sou um bom marido, um bom pai? –
perguntou Samuel com indignação na voz.
- Não, não é isso que quero dizer querido, pelo contrário, você
é um ótimo pai e ótimo marido, estou falando de você com você, de
você com Deus, dos conselhos de sua mãe. Veja, faz mais de quatro
anos desde a morte de Amanda, e até hoje você não se acertou com
Clever. As poucas vezes em que o Fred foi à igreja, você evitou passar
perto dele, nunca o cumprimentou, e o seu pai lhe procura muito mais
do que você o procura, e ele já está bem velhinho, precisando do seu
amor, do seu perdão.
- Sim, como sempre sou culpado de tudo, não é? – perguntou
Samuel com irritação na voz.
- Não é isso que estou dizendo. - Antes mesmo dela continuar a
falar, Samuel já a cortou e continuou:
- Não, imagina. Faço tudo que posso por vocês, não tenho tempo
para mim e ainda sou acusado de não ser amigo, não perdoar, tudo
186
Capítulo 19 - A fuga

porque quero fazer um seminário para dar uma vida melhor para a
minha família.
- Não estou entendendo Samuel, por que está agindo na
defensiva? – falou Nadejida espantada com a reação do marido, pois
aquela era a primeira discussão séria que eles estavam tendo.
- Defensiva? Estou cansado, só isso, cansado de tentar mudar,
melhorar e ainda ouvir que sou culpado. Por que só eu tenho que
mudar? Por que só eu tenho que melhorar? Você já pensou nos seus
defeitos?... Bem, depois conversamos, preciso ir à faculdade entregar
um trabalho – disse Samuel já virando em direção da porta, pois
ainda era perito em fugir de discussões e de se encarar no “espelho
da vida”.
Samuel ficou espantado com suas palavras, e principalmente
porque para se defender acusou Nadejida. Se sentiu um covarde,
nunca tinha feito isso antes com a esposa, queria voltar e pedir
desculpas, mas estava cansado. Sabia que se pedisse desculpas
teria que conversar mais, ela iria cobrar a conversa com Clever, e
novamente depois de anos ele pensou, “sempre Clever arranjando
confusão na minha vida”. Sabia que não era justo aquele pensamento
e Samuel não queria, nesse momento, mudar nada.
Nadejida não acreditava no que tinha ouvido, era como se ele
ignorasse tudo o que tentou mudar, os conselhos de Maria das Dores.
Nem ele mesmo acreditava no que tinha falado, mas estava com
raiva, e em parte porque sabia que Nadejida estava certa, ele tinha
simplesmente ignorado muita coisa e ia levando a vida sem resolver
assuntos importantes, tanto com as pessoas, como com ele mesmo e
Deus. Caiu apenas em um mecanismo religioso e comportamental,
algo que via nas pessoas e sempre teve medo de ter.
Nadejida, vendo que Samuel iria mesmo para o seminário, pediu
para Vitória convidá-la como madrinha ao invés de Clever convidá-
los, para ser menos triste para ele. Ela assim o fez, mas não adiantou
muito, pois a tristeza de Clever ficou estampada em seu rosto.
- Samuel, tudo bem? – falou Clever ao telefone, após Vitória
informar que ele não iria ao casamento.

187
Tempo de Descoberta

- Sim, só muito trabalho, sem tempo para nada – foi falando


Samuel, como que já justificando a sua ausência.
- Vitória me disse que você não pode ir ao casamento, verdade?
Não tem como voltar antes do seminário? – perguntou Clever com
espanto na voz.
- Desculpe Clever, mas é importante para mim profissionalmente
esse seminário, é uma pena as datas coincidirem – disse Samuel, como
se estivesse triste em não ir, mas todos sabiam que nada daquilo era
verdade.
- Você ainda está magoado comigo, não está? Pelo que ocorreu
com sua mãe e com Amanda.
Samuel gelou, não esperava que a conversa entrasse nesse
tema.
- Deixa pra lá, já faz tempo, foi coisa de criança – tentou se
justificar Samuel, mas já respondendo mais rispidamente.
- Não, Samuel, não foi coisa de criança, você guardou isso no
coração, se fechou comigo e agora não quer ir ao meu casamento
porque está magoado. – Samuel não acreditava que Clever tinha ido
tão direto ao assunto, aquilo lhe deixou um pouco desconcertado e
irritado ao mesmo tempo.
- Agora você sabe melhor do que eu o que se passa dentro de
mim? – perguntou Samuel com tom de ironia.
- Samuel, não somos mais crianças, eu te conheço, você é
meu melhor amigo, pare de fugir, de fingir que não temos nada para
resolver, temos tanto para conversar, aliás, eu preciso falar com você,
lhe dizer muitas coisas importantes.
- Agora quer me dar conselhos também? - disse Samuel com
tom de ironia na voz.
- Não, não é isso, mas tem coisas que ficaram pendentes, outras
que preciso lhe contar, mas você tem que parar de fugir.
- Não aguento mais as pessoas falarem o que preciso fazer, eu
não fujo de nada, apenas quero trabalhar e cuidar da família, você foi

188
Capítulo 19 - A fuga

um amigo de infância e só isso, apenas não posso deixar de crescer


profissionalmente por causa de um casamento de um amigo de
infância, hoje eu tenho a minha vida e você a sua, cada um foi em
um rumo diferente e pronto. Quando foi que lhe dei conselho sobre
como viver a sua vida, e por que agora você quer dar conselhos para
mim? – completou Samuel com clara irritação na voz e como quem
não quer mais conversar sobre o assunto, mas sabendo que aquelas
palavras cortariam o coração de Clever.
- Desculpe Samuel, nunca quis me intrometer em sua vida,
apenas ser seu amigo, pois você não foi apenas um amigo de infância
para mim, foi e é meu melhor amigo, desculpe se lhe ofendi.
Com essas palavras encerraram a conversa, Samuel ficou ainda
mais admirado com o caráter do amigo, ele é que o tinha ofendido
e Clever é quem lhe pede perdão. Quase nada do que Samuel tinha
falado era verdade, e ele sabia disso, sabia que Clever não tinha sido
apenas um amigo de infância, era seu melhor amigo, alguém especial
que ele admirava muito, e suas vidas tinham muita coisa em comum.
Samuel ficou arrasado consigo mesmo, mas se fechou ainda mais,
como quem está perdendo o controle e faz de tudo para tomar à força
o controle da situação.
O senhor Caio não acreditou no que o filho estava fazendo,
ligou e conversou sério com Samuel, fazia tempo que Samuel não via
o pai tão furioso.
- Bem, faça o que você quiser filho, mas saiba que já está na
hora de você virar homem e enfrentar seus medos, de ser livre – disse
Caio no final da conversa com muita seriedade e tristeza na voz.
Aquilo deixou Samuel ainda mais irritado, ainda não tinha
esquecido a conversa com Clever e no dia seguinte seu pai liga
também o acusando, pensava Samuel, mas o que realmente o deixou
irritado foi por serem palavras verdadeiras, mas que ele achava que o
pai não tinha o direito de falar.
- E o senhor, então, teve que a mãe morrer para o senhor
se libertar, então eu ainda tenho muito tempo – falou Samuel sem
acreditar que aquilo tinha saído de sua boca.

189
Tempo de Descoberta

O senhor Caio não disse nada, apenas desligou o telefone


enquanto as lágrimas caíam sobre seu rosto.
Samuel foi para o quarto, não queria pensar em nada, mas
sabia que tinha ferido muito a seu pai, sentimentos ruins já esquecidos
voltavam à sua mente, e novamente os conselhos de sua mãe, Maria
das Dores. Enquanto isso, Nadejida apenas orava, ainda tendo
esperança dele mudar de ideia.
Ele se achava no direito de sentir raiva, estava cansado de tentar
mudar e não conseguir, de ser cobrado enquanto tinha que fazer de
tudo para estudar, trabalhar e cuidar da família, mas no fundo sabia
que tudo não passava de desculpas com medo de si mesmo, de se
encarar e ver que ainda tinha muita coisa para ser acertada.
- Estou indo querida, te ligo de São Paulo, tchau princesa do
papai, e nunca esqueça que eu te amo - disse Samuel se dirigindo
para a porta, dando um beijo na bochecha de Nadejida e evitando
olhá-la nos olhos, pois lhe cortava o coração ver a tristeza que ela não
disfarçava em esconder.
O próprio Samuel não entendia bem por que estava fazendo
aquilo, brigou com a esposa, ofendeu o pai, tudo isso porque achava
difícil conversar com o amigo, porque tinha que fugir. Por mais que
não quisesse pensar, as perguntas sempre vinham à sua mente, além
dos conselhos de sua mãe, “apenas os corajosos perdoam, inclusive a
si mesmos” e “ninguém pode lhe ferir além daquilo que você permitir”.
Fechou a porta, mas já com grande arrependimento, querendo voltar,
mas não teve coragem suficiente para assumir o erro, preferindo,
como de costume, fugir.
A semana passou, e quando chegou a sexta-feira a vontade
de Samuel foi pegar um ônibus e voltar correndo para casa, para o
casamento. Ele sabia que tinha ferido pessoas importantes em sua vida,
não apenas Clever, mas sua esposa e seu pai. À noite não conseguiu
nem ir à palestra, ficou no quarto sentado no chão, bebendo como
nunca havia bebido antes, pensando no que tinha feito, já estava com
22 anos e ainda não era corajoso para perdoar os outros e a si mesmo.
Se sentia ferido, frágil e como era difícil não permitir se ferir, como era

190
Capítulo 19 - A fuga

difícil seguir os conselhos de sua mãe, como era difícil entender Deus,
como era difícil viver.
Foi uma das piores noites de Samuel, agora se sentindo ainda
mais como a parte ruim de seu pai, usando a bebida como fuga, mas
mesmo com tanta angústia e sentindo culpa, não conseguia chorar,
como não chorou na morte de sua mãe ou de Amanda. Havia algo
ainda em sua vida que o prendia, e muito, e agora tudo tinha piorado,
era como se tivesse novamente voltado à estaca zero.
Ao voltar para casa, preferiu ignorar o ocorrido, trouxe vários
presentes para Isabela e Nadejida, perguntou do casamento e depois
já foi mudando de assunto, como se ele e as pessoas não estivessem
feridas com sua atitude.
Mesmo estando óbvio no rosto de Nadejida a sua decepção, ela
preferiu se calar em relação ao assunto e apenas orar pelo marido.

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192
Capítulo 20
O atraso

“Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo
do céu: há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de chorar e tempo de rir;
tempo de abraçar e tempo de afastar-se; tempo de amar e tempo de aborrecer;
tempo de guerra e tempo de paz.” – Eclesiastes

A

pós a faculdade Samuel continuou na loja de camisas, já
que estava com o cargo de diretor geral, sendo responsável
pelas três lojas na cidade e ainda prestava serviço para algumas
empresas que lhe procuravam. Nadejida preferiu esperar a filha
chegar à idade escolar para começar a trabalhar em sua área, mas já
dava alguns atendimentos domiciliares, e era a psicóloga voluntária
de uma nova casa de recuperação para dependentes químicos que
tinha sido aberta na cidade por um jovem sonhador chamado Wilson.
Ele passava com grande paixão para as pessoas o sonho de ver a
cidade livre dos vícios e, acima de tudo, entregando a vida a Deus que
era o único que poderia libertar por completo o ser humano.
Nos anos seguintes, meu pai, Samuel, se dedicou ainda mais
ao trabalho, mas nunca deixou de lado a família, já não era tão
transparente com a esposa e tinha colocado uma barreira de liberdade
com todos. Ele estava ficando com medo de se transformar no pai
que teve quando criança, por isso, a mim, sempre procurava tratar
com muito amor, mas já não conseguia ser como antes, era como
se enquanto não resolvesse outras áreas de sua vida, as quais tinha
simplesmente ignorado, não conseguiria ser totalmente livre para
expressar seus sentimentos.
Clever e o senhor Caio nunca mais haviam tocado no assunto do
casamento ou das conversas ao telefone, apenas oravam por Samuel,
enquanto Samuel fingia que nada daquilo havia acontecido.
193
Tempo de Descoberta

Entramos no ano de 1986, eu, a pequena Isabela, crescia esperta,


com seis anos já lia e escrevia quase tudo que me pediam, por isso
meu pai resolveu me colocar na escola. A princípio, ele não queria me
colocar na escola em que tinha estudado, pois mesmo tendo várias
boas recordações, as mais marcantes eram tristes; mas como a outra
escola ficava do outro lado da cidade, minha mãe não via motivo de
não me matricularem lá.
Assim, fui me preparando para o primeiro dia de aula, meu
pai me ajudou em tudo e fez questão de me levar para a escola, e
procurou tirar todo o medo que estava sentindo. Comprou para mim
uma lancheira rosa com flores, preparou o meu suco e lanche.
Ele, às vezes, parecia mais nervoso do que eu, talvez por lembrar
muito o seu primeiro dia de aula, e para dar a segurança que não teve,
fez questão dele mesmo me levar à escola, como quem dissesse para
si mesmo: “sou um bom pai, não lhe deixei sozinha, sou diferente”.
Ao chegarmos à escola as “tias” vieram me dar um abraço
perguntando meu nome, isso me fez sentir mais à vontade, mas
quando estava entrando voltei para trás e abracei muito forte meu pai
que se ajoelhou para receber meu abraço e lhe disse:
- Papai, por favor não se atrase.
- Pode deixar filha, estarei aqui na hora - respondeu Samuel
com um aperto no coração.
Não imaginava o quanto aquela frase marcava a vida de meu
pai.
O primeiro dia de aula foi muito bom, fizemos muita pintura,
e aos poucos foi passando todo medo a apreensão. Já para meu pai
não foi tão fácil, era pior que como se fosse o seu primeiro dia de aula,
procurava não fazer vínculos com o passado, não pensar na frase que
eu havia falado, apenas viver o presente.
Como estava um dia bom, meu pai resolveu ir à escola a pé,
assim poderia voltar conversando mais comigo sobre como foi o meu
primeiro dia de aula.
Samuel percebeu que tinha calculado errado o tempo de sua
194
Capítulo 20 - O atraso

casa para a escola. Como nunca tinha feito esse caminho a pé antes,
imaginou que seria mais rápido, não contava com o tempo gasto na
subida, aliás, da casa para a escola era só subida, então, o caminho
que ele achou que levaria apenas 10 minutos, já estava com sete
minutos e não tinha chegado à metade ainda.
Tudo aquilo começou a deixar Samuel nervoso, e arrependido
de não ter ido de carro, mas já era tarde para voltar e pegar o carro.
Procurou apertar o passo, já que estava na hora e tinha prometido para
a filha que não se atrasaria, mas como era muita subida e nunca foi
um esportista, aquilo lhe cansava rápido e lhe deixava todo molhado
de suor. Estava se achando um estúpido pelo atraso, e agora não
tinha o Clever para colocar a culpa.
Ficou mais tranquilo quando avistou de longe a escola e viu que,
apesar do atraso, eu não era a última, ainda havia duas amiguinhas
esperando os pais.
Eu olhava de um lado para outro em busca de meu pai, quando
o vi, sorri e fui em sua direção. Como a professora estava entregando
uma outra menina para os pais, não percebeu que eu passei por ela e
fui em direção dele, correndo e sorrindo.
Meu pai quando me viu sorriu, mas quando viu que eu tinha
“escapado” da professora e estava correndo em sua direção, ele olhou
para o lado e seu rosto ficou pálido, a expressão mudou por completo,
como há oito anos.

195
196
Capítulo 21
Vida sem
máscaras
“A paz não pode ser mantida à força.
Somente pode ser atingida pelo entendimento.”
Albert Einstein

A

s orações a Deus cheias de promessas, a corrida em direção
da escola para socorrer a pessoa amada, tudo se repetia na
mente e na vida de Samuel, mas com mais intensidade ainda. Em
vez de dois carros tirando racha, era uma moto que vinha, não muito
rápido, mas como entrei de repente em sua frente não houve tempo
para o motorista desviar, acontecendo o inevitável, deixando marcada
em minha vida a visão do rosto de desespero de meu pai.
Samuel simplesmente não acreditava no que via, a cena se
repetindo, a moto ao me acertar me joga ao lado, mas passa com
a roda em cima de minha perna esquerda, o motorista cai logo em
seguida com sua moto, ficando mais assustado do que ferido.
Papai coloca as mãos embaixo de minha cabeça, onde o sangue
escorria entre seus dedos e manchava o meu cabelo onde já tinha
sido desfeito o laço rosa que combinava com o vestido rosa que eu
usava.
Enquanto falava o meu nome com angústia na voz, uma das
professoras já havia ligado para o hospital, pessoas ficaram em volta
esperando alguma reação, pois parecia que eu simplesmente dormia.
Pelo perigo de ter fraturado alguma costela ou a espinha,
ninguém me tirava de lá, meu pai foi logo procurando o meu pulso
para ver se ainda havia vida, mas o desespero não o permitia conseguir
perceber.
197
Tempo de Descoberta

Ele só repetia “estou aqui querida, estou aqui princesinha”,


sua cabeça se encheu de dúvidas, angústias e o medo de perder
novamente quem amava. Parecia que Deus estava brincando com
ele, pensava. Se culpava do atraso, da maldita escolha de ir a pé, e
agora sem ninguém para culpar, apenas ele mesmo, apesar da cabeça
não parar, o pensamento era apenas na vida da filha, o maior tesouro
que tinha.
- Ela está respirando – disse o pai de uma das meninas que
tinha ido buscar a filha após verificar o pulso – fique calmo, tudo
vai ficar bem. – Aquelas palavras foram um alívio para Samuel, mas
como era fácil alguém falar aquelas palavras quando não é a própria
filha que está lá esticada no chão. Para Samuel, a ambulância parecia
que demorava uma eternidade para chegar, isso porque não haviam
passado nem cinco minutos.
A ambulância chegou rápido ao local.
- Cuidado, é a minha filha – disse Samuel, como se o fato de
ser ou não sua filha fosse fazer diferença no cuidado que os médicos
teriam.
Os médicos me colocaram na ambulância e meu pai foi junto. Foi
quando ele ficou mais chocado percebendo que meu vestido estava
todo coberto de sangue, vestido esse que o fazia lembrar tanto a sua
mãe como a própria Amanda, deixando ainda mais vivas as imagens
tristes do passado. Sua própria roupa e rosto já estavam cobertos de
sangue, por ficar constantemente passando a mão no rosto, mas foi
quando percebeu o meu braço esquerdo virado para o lado oposto
e as duas pernas fora de posição, sendo que na esquerda havia algo
pontiagudo para fora, que cortava a meia que estava vermelha de
sangue. Aquela cena, mais o oxigênio em meu rosto, soro em meu
braço e três médicos ao redor de mim, fizeram com que ele desmaiasse
imediatamente, acordando só no hospital em cima de uma maca.
Ao acordar tentou coordenar os pensamentos, lembrar o que
tinha acontecido, e quando percebeu, por pouco não teve outro
desmaio. Procurou rapidamente se levantar e ter alguma notícia,

198
Capítulo 21 - Vida sem máscaras

foi quando soube que estavam me operando, mas o risco ainda era
grande e só depois de saber algo concreto é que os médicos dariam
alguma informação.
Aquilo deixou papai ainda mais tenso, se ajoelhou e começou a
orar naquele mesmo instante.
- Deus, sei que tenho falhado e muito, sei que sou interesseiro e
não estaria orando agora se não fosse o acidente de minha filha. Sei
que falho e muitas vezes fujo de me encarar com medo de me ver no
espelho e ver que não sou nada daquilo que imaginei ser. Sei também
que feri muitas pessoas em minha vida, pessoas que eu amava e me
amavam, sei que não mereço muitas das coisas que o Senhor tem me
dado – orava Samuel com o coração aflito, mas procurando ser o mais
sincero possível com Deus e consigo mesmo.
- Mas o Senhor também sabe como quero um relacionamento
sincero contigo, como, apesar do medo, quero acertar a minha vida,
o Senhor sabe a importância que minha filha tem em minha vida,
sabe a esperança que ela me trouxe de volta.... – nesse momento,
Samuel sentiu dificuldade em continuar a oração, pequenas lágrimas
escorriam em seu rosto, e sentiu nesse momento uma mão em seu
ombro, como se fosse Deus dizendo “estou lhe ouvindo”.
- Amigo, estou aqui, não sei o que falar, mas estou aqui – disse
Clever o abraçando, com um abraço de compaixão de quem sente a
dor do outro.
Aquele amigo, com quem tantas vezes Samuel foi injusto, estava
lá novamente, procurando de alguma forma o ajudar.
- Só queria entender – disse Samuel no ouvido de Clever
retribuindo o abraço.
- Vamos esperar e colocar nas mãos de Deus – disse Clever,
convidando Samuel para sentar e esperar. – Vitória está na sua casa
com Nadejida, ela não se sentiu muito bem, mas já tomou calmante, e
daqui a pouco elas chegam, minha mãe reuniu as mulheres da igreja
para orar, apenas .... – nesse momento, Clever fez uma pequena pausa

199
Tempo de Descoberta

antes de continuar. - ... achamos melhor não avisar seu pai até termos
alguma notícia mais concreta, por causa da idade dele.
- Fez bem – disse Samuel fazendo sinal com a cabeça que
concordava. O senhor Caio era forte pela idade que tinha, mas
mesmo assim, a paixão que ele sentia pela netinha poderia despertar
sentimentos perigosos para a idade dele.
- Sabe Clever... – começou a falar Samuel, já demonstrando
mais autocontrole e agora com manchas secas de sangue no rosto que
ainda nem tinha reparado que as tinha - ... muitas vezes questionei
Deus, sobre o porquê dele permitir certas coisas se tem o poder de
curar, mudar, ajudar as pessoas. Quando eu tinha 12 anos, no dia
da morte de minha mãe, ela me deu algumas respostas, estas que
sempre procurei entender sem querer entender, com medo do que
deveria fazer. – Clever ouvia, a princípio sem entender. - Nunca lhe
contei, mas ela me deixou um bilhete com vários conselhos e entre
eles seis específicos, que se eu tivesse realmente praticado, hoje tudo
seria diferente.
- Como assim? O acidente não teria acontecido? – perguntou
Clever sem entender direito.
- Não sei, talvez tivesse acontecido, mas a minha maneira de
lidar com tudo, com todos e comigo mesmo e, principalmente, com
Deus seria bem diferente.
- Um dos conselhos... – continuou Samuel – ... era que “ninguém
pode me ferir além do que eu permitir”, e quantas vezes eu me permiti
ficar ferido, aliás, eu quis ficar ferido para sentir a autopiedade ou
para cultivar um sentimento de mágoa no coração contra pessoas que
fizeram algo que, pela minha justiça era errado. Com isso eu recolhia
um lixo emocional na minha mente e o cultivava a cada dia como se
fosse um jardim. Não via as pessoas com os olhos de graça que Deus
nos vê e muito menos via a Deus com olhos de graça, achando que
entendia muito mais de graça do que o próprio Deus.
- Sempre quis aprender as lições do meu jeito, então, quando algo
não dava certo, quando a minha justiça era contrária à justiça de Deus,
200
Capítulo 21 - Vida sem máscaras

simplesmente olhava para mim mesmo, para as minhas necessidades,


achando que Deus e o mundo estavam sendo injustos comigo. Como
minha mãe também disse “quando olhamos apenas para nós mesmos,
perdemos a lição de Deus para a nossa vida”, e principalmente, para
aprendermos algo com a lição era necessário algo ruim acontecer,...
como agora – disse confessando que finalmente estava aprendendo
as lições.
- Achava a maior injustiça de Deus nos ensinar algo através de
acontecimentos ruins, e com pessoas boas, como minha mãe, Amanda
e agora ... Isa...bela... – meu pai quase não conseguia pronunciar meu
nome.
- Percebi que muitas vezes quis ser juiz de Deus no que era certo
ou errado, pode e não pode, no lugar de servir a Deus, eu queria que
Ele me servisse, mesmo que os outros não tivessem a resposta como
queria, o importante é que eu teria, uma atitude egoísta e de quem
não conhece a Deus.
- Por mais irônico que pareça, conversando com o apóstolo
Narciso foi que eu percebi isso. Tentava disfarçar, achar que não era
bem isso, e novamente minha mãe estava certa, eu não era a pessoa
boa que os outros achavam e também não era o “coitado” que eu me
achava.
- Talvez você esteja se perguntando o porquê disso tudo agora
– disse Samuel vendo claramente que talvez Clever achasse que ele
estivesse tendo algum delírio provocado pelo acidente.
- Quero dizer que cansei de fugir e fingir, cansei de dar desculpas
para mim mesmo de atitudes erradas tomadas na minha vida, cansei
de tentar entender Deus em tudo, como cansei de ser juiz de Deus.
– Nesse momento, meu pai respirou mais profundo, engoliu seco
e continuou. – Quero dizer que Isabela está nas mãos de Deus, e
realmente não sei se Ele vai salvá-la, se vai ficar perfeita ou não, mas
como o próprio nome diz, ela é presente de Deus. Deus deu e Deus irá
retirar quando Ele quiser, independente do que acontecer, minha vida
pertence a Deus, como a dela também. Se Deus a levar, posso nunca
201
Tempo de Descoberta

entender o motivo aqui na terra, mas Deus continuará sendo Senhor


da minha vida. Sei que em muitas coisas posso não entender o agir
de Deus, sei que outras coisas são escolhas nossas das quais sofremos
consequências, mas agora sei que Deus é Deus e não está limitado à
minha mente ou de qualquer pessoa. – Aquelas palavras encheram de
água os olhos de Clever, pois ele percebeu que Samuel resolveu jogar
fora toda máscara, não teve medo de se encarar e estava disposto a
viver a vida, e não apenas passar pela vida.
- Minha mãe estava certa..., “mesmo quando coisas ruins
acontecem em nossa vida, Deus quer nos ensinar algo” e hoje entendo
isso – disse Samuel com um pequeno riso nos lábios lembrando de
quando falou para Deus que se Ele quisesse ensinar algo para ele,
tirando alguém da vida dele, nunca aprenderia nada e só se afastaria
ainda mais.
- Desde o nascimento de Isabela deixei com que os estudos,
o trabalho, a família e a correria em que vivemos, fosse uma ótima
desculpa para deixar de resolver problemas sérios comigo mesmo,
sempre deixando para depois,... inclusive contigo – disse Samuel
confessando pela primeira vez que precisava se acertar com Clever.
- Deixa isso para lá, já está tudo esquecido – disse Clever, não
querendo colocar mais preocupações na cabeça do amigo, mas feliz
por ele reconhecer a importância da amizade deles.
- Não Clever, ainda temos que conversar, temos muito que
conversar – falou Samuel com a cabeça baixa.
- Ok, mas depois, quando tudo estiver bem.
Neste momento, entram Vitória e Nadejida, que corre em
direção de Samuel, em lágrimas, e o abraça apertado perguntando
sobre a filha.
- Ainda não veio ninguém, temos que esperar mais, mas calma,
Deus está no controle.
Aquelas palavras surpreenderam Nadejida, pois era a primeira
vez que ouvia Samuel dizer que Deus controlava a situação.

202
Capítulo 21 - Vida sem máscaras

Ela se assustou ao ver o marido todo cheio de sangue, foi só


nesse momento que ele percebeu o quanto de sangue havia em sua
roupa e em seu rosto, indo para o banheiro se limpar um pouco.
Depois de mais de quatro horas de espera o médico sai da sala
e vem em direção deles. De longe Samuel procura ver a expressão do
médico para ter ideia do que tinha acontecido, mas não conseguia
definir as expressões, fazendo com que fosse correndo em direção ao
médico com o coração acelerado.
O médico olhou com seriedade para os pais, tirou os óculos,
enxugou um pouco do suor que escorria na testa, antes de começar
a falar com seriedade. Para Samuel e Nadejida foram segundos que
pareceram uma eternidade.
- Ela não corre mais risco de morte.
A fala fez com que Nadejida caísse no chão de tanto chorar
e apenas dizia “obrigada Deus, obrigada”. Samuel também, se
segurou para controlar as lágrimas, pois sabia que o médico não tinha
acabado de falar, ergueu a esposa, abraçou-a e pediu ao médico que
continuasse a falar.
- Mas o acidente foi muito sério, graças a Deus, ela não sofreu
nenhum hematoma na cabeça, mas quebrou uma costela que por
pouco não perfurou o pulmão, não sei se vocês são cristãos ou creem
em milagres, pois se acreditam agradeçam a Deus, pois da maneira
que a costela quebrou foi um milagre não ter perfurado o pulmão.
Também teve uma fratura não muito grave no braço direito e na perna
direita logo abaixo do joelho, mas o pior foram o braço e perna do
lado esquerdo. O braço teve fratura em dois lugares, inclusive um
chegando a entrar o osso na carne, mas não chegou a ser fratura
exposta, já a perna ficou fraturada em três lugares, sendo uma fratura
exposta. – O doutor Anderson olha sério para os pais novamente e
continua dando o diagnóstico.
- Já fizemos a cirurgia no braço esquerdo e engessamos o
lado direito, mas na perna esquerda teremos que colocar pinos e
não podemos afirmar que ela irá andar perfeitamente, isso é, sem
203
Tempo de Descoberta

mancar. Apenas o tempo dirá, mas com certeza precisará de uma boa
fisioterapia. Creio que terá que permanecer no hospital de três a cinco
meses, pois estará toda engessada e precisará de cuidados médicos
diários. O mais importante é que já não corre risco de morte, ela é
uma garotinha muito forte – disse concluindo o médico.
Clever e Vitória se aproximaram abraçando o casal e todos
oraram juntos agradecendo a Deus pelo livramento. Nesse momento
Samuel sabia que mesmo se ela não tivesse sobrevivido, apesar de
toda a dor que sentiria, ele também oraria a Deus, e percebeu pela
primeira vez que estava tendo uma comunhão sem interesses com
Deus.
Só depois disto tudo é que Samuel percebeu que Clever havia
emagrecido muito, isto porque ele já era magro, notou que nos últimos
anos, poucas foram as vezes que ele e Clever pararam para conversar,
ele nem tinha notado as mudanças do amigo, mas ficou preocupado
com a saúde dele.
Fiquei internada quatro meses e sete dias, meu pai me visitava
todos os dias, aliás, ele e minha mãe, junto com meu avô Caio,
brigavam para ver quem ficava mais, sem contar o avô Cergei, a avó
Svetilana, Clever e Vitória. Sentia-me muito amada.
Meu pai, particularmente, sempre me contava as suas histórias,
coisas engraçadas que tinha feito com a minha idade, da sua amizade
com Clever e de sua grande amiga Amanda, sem dizer da avó que
nunca conheci, Maria das Dores, era o assunto preferido de meu pai.
Foi nessa época, apesar de muito jovem, que conheci muito da vida
de meu pai, quem ele era, e me apaixonei ainda mais por ele, era o
meu herói em carne e osso.
Nesse tempo, meu pai não fazia mais nada a não ser cuidar de
mim, trabalhar e rever toda a sua vida, mas o via sempre feliz e com
uma paz que nunca tinha visto. Era como se voltasse a ser criança.
Foram quatro meses difíceis, pois coçava muito dentro do gesso,
muitas vezes se formavam feridas dentro dos gessos, e as enfermeiras
tinham sempre que me virar e muitas e muitas picadas de agulha que
204
Capítulo 21 - Vida sem máscaras

me deixaram com traumas, mas meus pais estavam sempre lá para


me ajudar, e me sentia muito protegida.
Quando saí do hospital não conseguia andar, só voltei a andar
quase duas semanas depois com muita fisioterapia. Vovô praticamente
tinha se mudado para casa, já que meu pai tinha alugado uma casa e
tinha dois quartos vazios.
- Papai, essas marcas na minha perna e no meu braço vão
sair? – perguntei com ar triste, pois não queria ser “diferente”. Papai
respondeu com ternura e amor:
- Princesinha, esta marca significa que Deus cuidou de você, que
você está aqui, que vai crescer feliz e bonita.
- Desculpe papai eu ter corrido – disse abraçando-o com
lágrimas nos olhos, pois sabia que tinha sido minha culpa.
- Não foi culpa sua princesinha, não foi culpa de ninguém –
respondeu papai me dando um abraço e se libertando de toda culpa,
aprendendo a perdoar a si mesmo, a última grande lição que lhe
faltava.
A nossa casa sempre ficava lotada com amigos que vinham me
ver, tanto durante o dia quanto à noite, mas principalmente Clever e
Vitória não saíam de lá.
- Tenho uma notícia para você, Isabela – disse Vitória com um
sorriso nos lábios.
- O que, tia?
- Você vai ganhar uma amiguinha ou um amiguinho – respondeu
Vitória passando a mão na barriga.
- O quê? Como você não me disse nada? – protestou Samuel
para Clever com ar de surpresa e alegria ao mesmo tempo.
- Porque apenas ontem soubemos – respondeu Clever.
- De quantos dias estão? – já quis saber Nadejida.
- De nove para dez semanas – respondeu meio sem graça
Vitória.
205
Tempo de Descoberta

- Como assim? Só agora estão sabendo? – perguntou sem


entender Nadejida.
Clever e Vitória ficaram meio sem graça, então Vitória, que
sempre foi muito corajosa e cheia de esperança, tomou a palavra.
- É que temos estado muito ocupados com alguns exames de
Clever, ele anda com muita dor no estômago e nenhum médico
consegue descobrir o que é – falou agora Vitória com ar de preocupação.
Foi quando Samuel entendeu a razão dele estar tão magro.
- Nossa, faz muito tempo isso? – perguntou Samuel com voz de
espanto e um semblante sério e com ar de preocupação.
- Já faz alguns meses, ou melhor, vários – respondeu Clever com
um ar de brincalhão que só ele conseguia fazer. – Acho que começou
há uns sete meses, não dei muita importância, tomei uns remédios por
conta própria, mas foi piorando. Fomos a alguns médicos, mas eles
não conseguem descobrir o motivo, talvez seja a comida da Vitória
– concluiu brincando para não demonstrar a preocupação com a
enfermidade.
- A semana que vem iremos para Belo Horizonte fazer mais alguns
exames, lá eles têm aparelhos mais sofisticados que podem ajudar
a descobrir o motivo dessas dores – completou Vitória retomando a
seriedade da conversa.
- Eu já falei pra Vitória que ela precisa caprichar mais na comida
– disse Clever sorrindo para novamente tentar tirar o clima sério que
tinha ficado na sala.
“Só ele mesmo para poder conseguir brincar com algo sério
sobre si mesmo”, pensou Samuel.
- Isso porque você não comeu a comida russa de Nadejida –
brincou também Samuel para disfarçar a preocupação que estava
sentindo.
- Agora eu, que não tenho nada com isso sou culpada, né! –
respondeu Nadejida fazendo todos caírem na risada. Mesmo todos
sabendo que a doença poderia ser mais séria do que imaginavam.
206
Capítulo 21 - Vida sem máscaras

Naquela noite Samuel ficou pensando na conversa que tiveram


em sua casa, ficou preocupado com o amigo, e mesmo ele já estando
muito mais próximo de Clever, depois do acidente com Isabela, ainda
não tinha tido a conversa, pois ficava o tempo todo no hospital, mas
agora já não tinha mais motivos para adiar a conversa.

207
208
Capítulo 22
A viagem

“O passado não muda, mas o futuro


se constrói com ações do presente.”
Fábio Diniz Pinto

G

ostaria muito de conversar com Clever antes de ir viajar – disse
Samuel para sua esposa, pois estava com uma viagem
marcada para França a uma feira que havia. Uma das empresas que
ele prestava serviço estava patrocinando esta viagem, a qual seria a
primeira de Samuel para fora do país.
- Sim, eu sei querido, mas esta semana ele e Vitória estão indo
para Belo Horizonte fazer os exames, e a cabeça deles, com certeza,
agora está apenas na dor que Clever sente constantemente. Além do
que, eu creio que será bom para você viajar. Esses últimos meses com
Isabela no hospital ficaram muito pesados para você. Creio que será
bom, tanto para o seu emprego, como para descansar um pouco, pois
está precisando, e aproveite o tempo para ver o que falar com Clever
– disse Nadejida, incentivando o marido, e sabendo que desta vez ele
não iria arranjar uma desculpa para não falar com Clever depois. Ela
tinha visto como ele tinha mudado após do acidente, não só com ela,
mas com ele mesmo.
- Tempo para pensar já tive muito querida – respondeu Samuel
com um sorriso meio sem graça. – Preciso agora é fazer, mas concordo
com você, a cabeça deles está agora só em achar a solução, ainda mais
com a gravidez da Vitória, mas estou preocupado com eles, e já perdi
muito tempo esperando.

209
Tempo de Descoberta

- Se Deus quiser não será nada grave – disse Nadejida querendo


mostrar esperança, mas com um ar de preocupação.
- Se Deus quiser... – falou Samuel como que em um suspiro.
A mudança que Samuel tinha tido após o acidente com a filha
era algo bem visível, mesmo tendo sempre sido um bom pai e marido,
agora ele era mais transparente, feliz, parecia mais “leve”, mudou
muito também com a família, os amigos. Não havia quem não notasse
e elogiasse isso. Passou grande parte do tempo no hospital revendo
suas atitudes, seus erros, não como se lamentando, mas vendo o que
poderia melhorar, como ter uma vida transparente com as pessoas e
consigo mesmo, e agora ele não media esforços para isso, queria viver
a vida na plenitude e não apenas passar por ela, estava decidido a
não ser mais vítima, e sim autor de sua história.
- Perdão – disse Samuel para Nadejida, logo após o jantar e ter
me colocado para dormir, olhando sério nos olhos dela.
- O quê? Perdão por quê? – perguntou Nadejida sem entender
aquele começo de conversa do nada.
- Por tudo querida... – começou a explicar Samuel. – Por mentir
para você quando disse que iria conversar com Clever e não conversei,
quando justificava os meus medos e fracassos, achava sempre um
culpado por eles, quando me escondi no trabalho, nos estudos e na
família para não pensar no que deveria melhorar, não acertar a vida
comigo mesmo, sempre dando para mim mesmo a desculpa de que
não tinha tempo e outras que achava convenientes.
- Não precisa se desculpar querido, lógico que eu entendo e já está
tudo perdoado – disse Nadejida com os olhos cheios de lágrimas.
- Sim, preciso, preciso dizer para você, para mim mesmo,
preciso me libertar desse peso – continuou falando Samuel com a voz
embargada.
- Achava que era mais fácil ir levando a vida, como todos fazem,
fazendo os meus deveres como marido, pai, cuidando da família,
sustentando a casa, achando que o tempo iria curar as feridas, mas
210
Capítulo 22 - A viagem

o tempo só acrescentou mais peso sobre minhas costas, esfriou o


meu coração, Deus quase precisou levar a nossa princesa. – Nesse
momento ele teve que parar um pouco, pois a vontade de chorar se
tornou muito forte, e ele não conseguiria continuar se não respirasse
fundo por alguns instantes.
- De tanta coisa que me arrependo, o que me marcou muito
foi como machuquei você, Clever e Vitória não indo ao casamento
deles, e como me machuquei também. Deixei um orgulho ferido,
mágoas falsas antigas falarem mais alto. Sei como você sofreu e
como decepcionei Clever, eu mesmo não entendo como fui capaz...
– agora Samuel precisou se levantar tomar um pouco de água, sentar
novamente para conseguir continuar a falar - ...como fui capaz de ter
sido tão estúpido.
- Querido, já passou, está tudo perdoado, inclusive Clever já o
perdoou, tenho certeza – disse Nadejida, se levantando e indo em
direção do marido, parando em pé ao seu lado, colocando as mãos
entre os cabelos de Samuel, como quem ama e cuida da pessoa
amada.
- Eu sei disso, também não quero ficar me lamentando pelo
passado, mas precisava desabafar para encerrar esse assunto no meu
coração. E preciso falar com Clever e com meu pai, daí sim, enterrar
de vez o passado – falou Samuel erguendo a cabeça e olhando nos
olhos de Nadejida, não com um olhar de quem quer piedade e sim de
quem está querendo reconstruir a vida.
- Meu perdão você já teve faz muito tempo querido – disse
Nadejida enxugando as lágrimas. – E mesmo você tendo falhado
algumas vezes, não apenas conosco, mas consigo mesmo, você é
sem dúvida o melhor marido e pai que alguém poderia ter, sempre
amou e soube demonstrar amor, procurou dar o melhor e não digo
financeiramente, mas de você mesmo, ensinando o que é caráter,
amor, preocupação, hoje eu entendo perfeitamente o que Amanda
sempre viu em você – falou agora novamente com os olhos cheios de
lágrimas abraçando forte, mas carinhosamente Samuel.

211
Tempo de Descoberta

- Você é um presente que Deus me deu querida, presente que eu


não merecia. Ele te usou para me transformar a cada dia, para curar as
feridas. Você e Isabela são as joias mais preciosas que eu possuo nessa
vida. Obrigado ­– conclui Samuel dando um beijo cheio de amor na
esposa amada que retribuiu com o mesmo amor.
Aquela conversa deixou Samuel muito mais leve, como se saísse
um caminhão de suas costas, mas sabia que ainda precisaria conversar
com seu pai e Clever, logo que voltasse da viagem.
Nisso tudo Samuel via a mão de Deus, além disso, ele começou
a ver como Deus sempre esteve com ele, sempre o guiou, como sua
mãe havia dito, em todas as situações. A diferença agora era que
Samuel não olhava mais para si mesmo, aprendeu a olhar a vida, as
pessoas, Deus e a si mesmo com outros olhos. Não mais os olhos da
justiça própria, mas olhos de amor.
Foi muito difícil para Samuel a despedida, deixar a filha amada
por três semanas após tanto tempo juntos seria muito difícil. Viajar sem
ter conversado com seu pai e Clever e ainda, sem saber o resultado do
exame de seu melhor amigo, isso machucava o seu coração, mas sabia
que era um tempo necessário, um tempo onde Deus iria trabalhar
mais em seu coração.
Em Lyon, na França, não havia um dia em que não pensava
na família. Na minha recuperação, o grande medo de meu pai era eu
ficar com algum problema na perna esquerda, já que ainda andava
com muita dificuldade e com uma bengala e sentia muita dor onde
foram colocados os pinos na perna esquerda.
Samuel lembrou muito de sua infância, das artes que aprontou
junto com Clever, das várias conversas que tiveram em baixo do pé de
jabuticaba, lugar que já há muito tempo Samuel não visitava; a última
vez que tinha ido foi no dia do acidente que tirou a vida de Amanda.
Lá era outro lugar que Samuel sabia que precisava ir quando voltasse,
precisava ir para enterrar de vez os medos que, por tanto tempo,
lhe perseguiram, um lugar de alegres recordações, mas feridas não
tratadas, que agora precisavam ser curadas.
212
Capítulo 22 - A viagem

Lembrava muito também de Amanda, sempre com muito carinho


e ternura, mas agora não lembrava mais pensando como seria se ele
não tivesse se atrasado, se ela não tivesse partido, já não pensava
nas palavras não ditas e os enganos que muitas vezes estiveram em
seus caminhos. Lembrava com saudades do tempo em que passaram
juntos, das palavras ditas e não ditas, mas percebidas pelo olhar, pelo
sorriso, sabia que mesmo não tendo falado com ela naquele dia, ela já
sabia tudo o que se passava com ele, como sempre soube. Apenas ele
é que achava que não. Samuel ria de si mesmo quando se lembrava
dessas coisas.
Nessas semanas não ficou encantado com o velho continente,
com o charme da França, ficou encantado e mais apaixonado foi pela
vida que tinha vivido e vivia, pela família, amigos e por Deus.
Ficou apaixonado por poder viver sem máscaras, sem medo de
se ver no espelho como realmente era. Sentia-se livre, pela primeira
vez na vida, e o desejo era voltar para casa e viver, junto das pessoas
amadas, essa liberdade.
Apesar de todo o interesse que a feira tinha, de toda a beleza
de Lyon e Paris, Samuel contava os dias para voltar ao lar e viver a
verdadeira beleza da vida.
Logo na segunda semana sua voz ficava embaraçada quando
falava comigo, percebia claramente o desejo de meu pai de estar aqui
ao meu lado, por isso lhe contava em detalhes como tinha sido a
fisioterapia, os desenhos que tinha pintado, as brincadeiras com o
vovô Caio, era como se ele me sentisse ao seu lado.
Samuel também percebeu tristeza na voz de Nadejida, mesmo
ela sempre dizendo que estava bem, Samuel sentia que ela não lhe
falava tudo. Julgou que era saudade e que, em breve, estariam juntos
e tudo seria ainda melhor.
Ele ainda não tinha tido nenhuma notícia dos resultados dos
exames de Clever, deixando-o mais preocupado ainda, e tanto ele,
como eu, éramos motivos diários de suas orações.

213
Tempo de Descoberta

Foi grande a alegria de Samuel quando chegou o dia de voltar,


era como uma criança indo pela primeira vez ao parque de diversões
que não consegue dormir à noite de alegria e pensando como seria o
passeio, ele parecia que tinha passado anos fora.
Fomos todos ao aeroporto de Belo Horizonte esperar sua
chegada, mamãe, vô Cergei, vó Svetilana, inclusive eu em uma
cadeira de rodas, já que não podia andar muito, apenas o vovô Caio
que ficou. Mamãe falou para papai que foi porque não tinha mais
espaço no carro, mas ele não acreditou muito, pois ela também dirigia
e poderiam ter vindo em dois carros.
Ele me abraçou muito forte, até pensei que fosse me esmagar, e
percebi que escorriam pequenas lágrimas enquanto me abraçava.
- Como está a minha princesinha? – perguntou papai, acariciando
o meu rosto.
- Olha o desenho que fiz para você – disse lhe mostrando um
desenho que estávamos todos nós, ele ao lado de mamãe, vovô Caio,
vovó Svetilana e vovô Cergei, além de mim mesma. – Olha aqui, já
estou andando sem precisar de bengala ou cadeira de rodas – disse
apontando para mim no desenho.
Aquilo o deixou ainda mais emocionado, fazendo com que me
abraçasse ainda mais apertado.
- Como está o Clever? – perguntou papai para mamãe, enquanto
caminhavam para o carro.
- Quando chegarmos conversamos sobre isso querido – disse
mamãe com um tom mais sério, e logo mudando de assunto.
Aquilo deixou Samuel preocupado, percebeu que poderia não
ter boas notícias. Após chegar a casa e distribuir os presentes foi me
colocar para dormir.
- Vou à casa de meu pai lhe entregar a lembrancinha, depois
podemos visitar Clever – disse Samuel pegando o presente do senhor
Caio.
214
Capítulo 22 - A viagem

- Ele não está em casa – disse Nadejida abaixando a cabeça.


- Como? – pergunto Samuel com aflição na voz e o coração já
disparado com medo do que poderia ouvir.
- Está no hospital.
- No hospital? Mas por quê? O que aconteceu? – perguntou
Samuel interrompendo Nadejida que não tinha conseguido completar
a frase, mas ao mesmo tempo já mais aliviado, pois se ele estava no
hospital era sinal que ele ainda estava aqui entre nós.
- Calma querido, ele está bem – tentou explicar Nadejida. – Ele
está lá com Clever – continuou Nadejida tentando mostrar ser forte,
mas não conseguindo esconder as lágrimas que começavam a escorrer
em seu rosto.
- O que aconteceu querida, pelo amor de Deus, me diga logo –
falou Samuel novamente com voz de preocupação e o coração que
mal tinha se acalmado voltando a disparar.
- O exame... – Nadejida procurava forças para continuar a falar
– ... o exame acusou câncer no intestino.
Samuel sentou, colocou a mão na cabeça, como quem não
acreditasse no que ouvia.
- Meu Deus, ele é tão jovem – foi a única coisa que Samuel
conseguiu pronunciar.
- Os médicos deram..., deram... – ela simplesmente não
conseguia completar. - ...deram de três a seis meses de vida para ele –
disse Nadejida, agora correndo para abraçar Samuel que ficou parado
sem acreditar no que ouvia.
- 26, ele só tem 26 anos – disse Samuel abraçando a esposa,
sem força em seus braços - ...e ...e ainda nem viu a filhinha que vai
nascer.
Samuel teve que ficar alguns minutos revendo seus pensamentos,
era difícil acreditar nisso tudo, novamente era um pesadelo, precisava
colocar em ordem os pensamentos, sentimentos.
215
Tempo de Descoberta

- Em que hospital ele está? – perguntou Samuel.


- Hospital São João de Deus, ele está fazendo quimioterapia,
por isso precisa passar lá alguns dias –respondeu Nadejida, agora já
um pouco mais controlada.
- Estou indo para lá – disse Samuel procurando as chaves do
carro.
- Vou com você querido, vou ligar para meus pais ficarem com a
Isabela – disse Nadejida caminhando em direção ao telefone.
- Não querida – disse com voz baixa Samuel, olhando para ela
– preciso ir sozinho, preciso conversar com Clever, uma conversa só
nossa, conversa que já foi adiada por muitos anos.
Nadejida sabia da importância da conversa para Samuel, apenas
fez que sim com a cabeça e caminhando na direção do marido.
- Estarei orando por vocês – falou no ouvido de Samuel após
abraçá-lo.
Mal tinha voltado de viagem e tantos sentimentos passaram em
seu coração. Dirigindo em direção ao hospital procurava coordenar os
pensamentos, já não sabia mais como falar com Clever, todo ensaio
da conversa tinha sido em vão após aquela notícia, apenas queria ser
o mais sincero e amigo possível, enquanto dirigia enxugava as poucas
lágrimas que corriam em seu rosto.
Ao descer do carro as mãos tremiam, foi logo procurando saber
onde ficava a unidade de quimioterapia, na caminhada pelo corredor
Samuel repassou em sua mente vários momentos juntos com Clever,
e ainda não conseguia acreditar no que estava acontecendo.
Quando chegou perto do quarto viu o senhor Caio sentado em
uma cadeira no corredor com a cabeça baixa apoiada nas mãos.
- Pai – disse Samuel dando um abraço no senhor Caio. – É aqui
que Clever está? Ele está acordado?
- Filho! – disse o senhor Caio como se ignorasse as perguntas de
Samuel – preciso falar com você.
216
Capítulo 22 - A viagem

- Depois pai, preciso falar com Clever, preciso muito – disse


Samuel, já se levantando para ir em direção à porta.
- Não! – disse o senhor Caio com um tom sério na voz que
Samuel nunca tinha ouvido – tem que ser agora, não posso esperar
mais nenhum dia, nem um minuto sequer, tem que ser agora – disse
se esforçando para se levantar e com um semblante tão sério que
assustou tanto a Samuel, que não pôde fazer nada, a não ser parar
para ouvir o que seu pai tinha para dizer.

217
218
Capítulo 23
A revelação

“Amizade é como raiz profunda,


nem uma tempestade consegue arrancar.”
Rosecleide Amorim da Silva

V

ocê sempre soube como eu e sua mãe desejávamos uma
criança... – começou a falar o senhor Caio como quem se
lembrava do passado - ...foram cinco terríveis abortos que ela sofreu,
e em cada aborto um pedaço da nossa esperança ia-se embora..., o
último então..., o mais dolorido, seis meses..., seis meses de gestação
e por causa de um estúpido acidente de carro.
Samuel já sabia de toda aquela história, não entendia a razão
de seu pai resolver relembrar tudo, e bem naquele exato momento;
isso começou a deixar Samuel impaciente.
- Aquilo me deixou muito ruim, ruim comigo mesmo, pois de um
lado, eu me culpava por ter parado para comprar cerveja, do outro
lado, culpava a sua mãe, por ser fraca e não conseguir gerar filhos,
a frustração era muito grande, eu já estava ficando velho, a sua mãe
também, com a idade de risco para se ter filho, e se quando jovem ela
tinha dificuldade para ter, agora então, muito mais...., tudo aquilo fez
com que eu entrasse em uma depressão e me afastasse um pouco de
sua mãe.
- Nesse tempo eu tinha um relacionamento com Deus bem
superficial, não conhecendo realmente a Deus, apenas ia à igreja por
rotina e em troca de favores, mas mesmo assim eu me sentia traído
por Deus, como se Ele fosse o outro culpado por mais um aborto.
Eram tantas promessas que ouvia na igreja, promessas que acreditava

219
Tempo de Descoberta

por querer acreditar, mesmo no fundo achando tudo aquilo apenas


um negócio com Deus que o apóstolo fazia para manter os fiéis lá –
falava o senhor Caio com tristeza na voz.
- Pai, tudo isso já passou, faz parte do passado – falou Samuel
como quem quer consolar e também um pouco irritado querendo
encerrar a conversa, pois a sua cabeça estava dentro do quarto do
amigo e não mais na conversa com o pai que ele não via nenhum
sentido em ter naquele momento.
- Por favor filho, apenas me escute – insistiu o senhor Caio
com seriedade em sua voz e olhando fixamente para Samuel. –
Sempre gostei muito de sua mãe, mas nem sempre demonstrei ou
agi corretamente... – continuou a falar o senhor Caio, desta vez tendo
que se sentar e enxugar algumas lágrimas que começavam a descer
em seu rosto.
- ... na escola em que eu dava aula, estava nitidamente abatido
com a perda do quinto filho, achando que a esperança de se ter
um filho tinha desaparecido de vez, e nesse tempo havia uma nova
professora muito simpática que sempre conversava comigo, eu me
sentia à vontade para falar com ela sobre as dificuldades que tínhamos
para ter filhos, e um dia após as aulas ofereci carona como já havia
feito outras vezes, ela, vendo que eu estava triste, me convidou para
entrar, tomar um café e conversar um pouco. Como não queria voltar
logo para casa, aceitei e perguntei se tinha cerveja no lugar do café.
Samuel sempre soube que seu pai não tinha sido fiel sempre no
casamento, mas não entendia o motivo dele, justamente agora, querer
revelar isso a ele, além do que, ele deveria era ter pedido perdão
para a esposa, pensava Samuel, não queria ouvir aquilo, mas se via
obrigado.
- Eu tinha alguma atração por essa professora, mas nada muito
sério, percebia que às vezes ela também me olhava diferente, mas
tínhamos nos tornado muito amigos e sabia que ela era uma pessoa
séria, não via muito problema em tomar algumas cervejas, ainda mais
que era claro que a preocupação dela comigo era pela minha profunda
tristeza, mas.... – agora o senhor Caio precisou de alguns minutos
220
Capítulo 23 - A revelação

para continuar a pensar, e era como se a cena voltasse à sua mente


- ... quando percebi já estávamos nos beijando, e lá, naquela mesma
sala, eu traí a sua mãe.
- Pai, faz parte do passado... - tentou falar Samuel secamente,
sentindo uma certa mágoa com a revelação, mas foi interrompido
pelo senhor Caio que ignorou a fala do filho e continuou.
- Nos dias seguintes nós mal nos falamos, sabíamos que tinha
sido um erro, ela sabia que eu amava sua mãe, aquilo não me consolou
e fez com que eu perdesse uma amiga, pois além da amizade já não
ser mais a mesma, ela se transferiu de escola algumas semanas mais
tarde, mudou de telefone e até de casa.
- Fiquei alguns anos sem vê-la, até que um dia... – nesse momento
o senhor Caio parou por alguns instantes de falar, pôs o rosto entre as
mãos, olhou novamente para Samuel, depois voltou a olhar para o
chão e num esforço procurou prosseguir.
Samuel se encostou na parede, estava ficando confuso, estava
começando a entender, mas não queria entender, simplesmente não
poderia ser verdade o que seu pai queria lhe contar, a vontade de
Samuel era sumir, era entrar no quarto do amigo e fingir que nada
daquilo estava acontecendo.
- Eu a vi quando você tinha seis anos de idade, quando fui...
- Não, não... – eram as únicas palavras que Samuel conseguia
dizer colocando as mãos na orelha como se pudesse evitar ouvir o que
seu pai revelaria.
- ... quando fui lhe buscar na casa de seu amigo que você tinha
ido fazer lição de casa.
- Não, não acredito... – disse Samuel encostado na parede e
deslizando até sentar-se no chão com o cotovelo apoiado nos joelhos
e as mãos no rosto, balançando a cabeça negativamente.
- Quando a vi fiquei sem reação, quando vi seu amiguinho de
escola eu então entendi por que ela mudou de escola, não atendia
meus telefonemas, ela sabia que eu amava sua mãe e a notícia de um
filho poderia mudar toda a minha vida, isso por causa de uma noite
221
Tempo de Descoberta

sem pensar. Por isso ela resolveu assumir tudo sozinha, pois sabia que
eu nunca deixaria um filho.
- Você não podia ter escondido isso de mim, não podia... –
falava Samuel agora sem poder esconder as lágrimas que começavam
a escorrer, ao mesmo tempo com raiva em sua voz, por ter sido
roubado o direito de saber que tinha um irmão que sempre sonhou,
não apenas um irmão, mas esse seu melhor amigo.
- Você não poderia ter feito isso comigo, com Clever, ele sempre
quis saber quem era o pai dele – continuou falando Samuel, lembrando
a tristeza que Clever demonstrava sempre que tinha algo relacionado
ao pai dele, como ele sempre o chamou de irmão, como muitas vezes
guardou mágoa de Clever sem motivo, e tinha feito isso não apenas
com o melhor amigo, mas com o irmão, irmão tão desejado por
ambos.
- Sempre quis te contar filho, mas foi sempre muito difícil, era
uma marca em minha vida que eu não sabia como lidar. Quando fiquei
sabendo, falei com Áurea que precisava falar com sua mãe, contar
para Clever, ela também achou isso, mas queria um tempo, pois seria
muito difícil para ela explicar como o pai apareceu depois de anos, e
eu também precisava de um tempo para saber como contar para sua
mãe sem perdê-la.
- Mas nos anos seguintes a sua mãe começou a se sentir fraca,
então fui esperando ela melhorar, pois tinha grande preocupação com
a sua saúde, mas no lugar dela melhorar só piorava, já não sabia mais
o que fazer, se contava ou não... . Não queria trazer mais tristeza ao
coração de sua mãe.
- Mas você não tinha o direito de esconder de minha mãe, de
mim, de Clever. Não tinha – disse Samuel claramente chocado com
toda aquela informação.
- Foram mais de três anos de enfermidade de sua mãe, nesse
tempo eu procurei amá-la, de alguma forma obter o perdão dela,
mesmo sem ela saber.
- Ela nunca soube? – perguntou Samuel ainda sentado no chão
tentando entender os sentimentos que vinham a seu coração.
222
Capítulo 23 - A revelação

- Nunca consegui contar, mas creio que ela sabia, pois no dia
em que ela partiu... – nesse momento as lágrimas voltaram a escorrer
nos olhos do senhor Caio. - ...eu tentei de todas as formas, e ela não
deixou eu contar, apenas pediu para eu “amar meus filhos”. Foi então
que percebi que ela sempre soube que você não era meu único filho.
“Sabedoria, sempre agindo com muita sabedoria minha mãe”,
pensou Samuel. “Deus, me dê um pouco dessa sabedoria, pois não
sei o que pensar e fazer agora”, orou brevemente em pensamento
Samuel.
- Clever sabe? – perguntou agora Samuel se levantando e
olhando para os olhos do pai.
- Depois da morte de sua mãe – continuou o senhor Caio – você
se fechou mais ainda, tentava me aproximar de você, precisava lhe
dizer, mas não sabia como, tentei algumas vezes, mas você sempre
se fechava, foi quando a dona Áurea teve o derrame, percebi que
não poderia fugir mais, tinha que falar. No hospital, conversando com
Clever, lhe contei tudo. – Nesse momento o senhor Caio volta a se
sentar. – Ele ficou em estado de choque, era muito difícil para ele, e
ainda mais naquela situação, mas eu não podia mais esperar para contar,
esperava você voltar, como estava feliz com o seu relacionamento com
Amanda, achei que seria a hora certa, porém, aconteceu a tragédia
com ela ...
Samuel se lembrou de como foi duro com Clever no velório de
Amanda, de como ele se fechou para seu melhor amigo, impedindo
assim qualquer tentativa de aproximação.
- ... depois daquilo você voltou a se fechar e ainda mais. Clever
conseguiu me perdoar, começamos a ser amigos e aos poucos ele me
via como pai, mas não conseguia me aproximar de você, era como se
tivesse ganho um filho e perdido outro – falava com tristeza na voz o
senhor Caio.
- A esperança voltou a surgir com a ideia de Clever vir morar
com a mãe em casa. Finalmente teria os meus dois filhos em casa e
assim ficaria mais fácil te contar, mas você decidiu ir estudar em Belo
Horizonte. Você não imagina como isso machucou a mim e também a

223
Tempo de Descoberta

Clever, não sabíamos o que fazer, apenas orávamos.


Samuel entendeu a grande tristeza do seu pai quando foi estudar
fora, percebeu também por que Clever sempre tentava se reaproximar
dele, enquanto ele fugia. Ficou ainda pior quando percebeu que
recusou ir ao casamento do próprio irmão por causa de uma mágoa
estúpida.
Simplesmente seu pai não tinha o direito de lhe roubar o irmão
durante toda a vida, pensava Samuel, mas ao mesmo tempo, sabia
que estava achando novamente um culpado para seus erros, pois
tinha sido ele próprio que se afastara de Clever, sendo ele seu grande
amigo.
- Muitas vezes tentei te contar filho, mas era duro demais para
mim, sei que não tinha o direito de fazer isso com vocês... – continuou
falando o senhor Caio, enquanto olhava com amor para o filho - ...sei
do meu erro, da minha covardia, mas espero um dia ainda em vida
que você possa me perdoar – disse o senhor Caio se aproximando do
filho vagarosamente e lhe dando um abraço, o qual Samuel resistia
tentando não retribuir, era uma luta imensa que passava dentro de si
naquele momento, por mais que quisesse perdoar o pai, tinha ficado
muito ferido. Mas, ao mesmo tempo, procurava tentar imaginar o que
tinha se passado com seu pai, a dor em esconder tudo isso, após
resistir por um tempo, retribuiu o abraço começando a chorar.
- Ele sabe que você me contaria? – perguntou Samuel olhando
para a porta do quarto.
- Sim, eu disse que não deixaria você entrar sem antes lhe
contar.
- Como ele está?
- Bem, fez quimioterapia, mas está reagindo bem, creio que está
acordado.
Todo o ensaio das conversas que Samuel teria com Clever agora
tinha definitivamente desaparecido, não sabia o que falar, só queria
abraçar e pedir perdão para o seu melhor amigo, seu irmão.
A mão tremia quando empurrou a porta, foi entrando e erguendo
224
Capítulo 23 - A revelação

a cabeça quando viu Clever deitado na cama do hospital.


- Meu irmão – disse Clever sorrindo e esticando o braço onde
havia uma seringa com soro.
Samuel não conseguiu dizer nada, apenas caminhou em direção
de Clever abrindo os braços e o abraçando, começou a chorar, chorar
como nunca chorou, como se finalmente chorasse pela morte de sua
mãe, de Amanda, pelo acidente comigo, chorou pelo tempo perdido,
pelas falhas e por tudo que podia e tinha que chorar.
Choro este que foi acompanhado pelo choro de Clever também,
mas esse diferente, choro de alegria, de saudade, choro de quem ama
e vê a pessoa amada.
- Perdão, perdão... – eram as únicas palavras que Samuel
fracamente conseguia dizer abraçado com seu irmão.
- Perdoe-me também irmão – respondeu Clever em lágrimas - ...
devia ter lhe dito antes, mas também deixei com que mágoas falassem
mais alto.
- Não irmão... – essa era a primeira vez que Samuel o chamava de
irmão, era uma sensação estranhamente formidável - ...eu errei muito
mais, coloquei em você culpas que tive ou de fatos que simplesmente
tiveram que ocorrer. No lugar de reconhecer, preferi fugir como
sempre e achar um culpado – falava agora Samuel olhando nos olhos
de Clever.
- Tudo já está há muito tempo perdoado, irmão – falou com
um sorriso entre as lágrimas, Clever – ...na cruz tudo foi perdoado,
e além do mais, ainda não morri – falou sorrindo novamente, agora
para disfarçar a situação em que se encontrava. - Há tanto ainda para
se falar, para se viver que não temos tempo de lamentar o passado,
temos que construir um futuro.
- Verdade, e hoje eu virei um corajoso – falou rindo e enxugando
as lágrimas Samuel.
- Como assim? – perguntou sem entender Clever.
- Lembra da carta que falei que minha mãe havia me deixado?
Pois é, o primeiro conselho que ela me deixou é que “apenas os
225
Tempo de Descoberta

corajosos perdoam os outros e a si mesmos”, e hoje consegui me


perdoar por tudo, e agora no lugar de lamentar eu quero é viver a vida
ao lado das pessoas que eu amo, e entre elas, você, meu irmão – falou
com uma paz que Clever nunca havia visto em Samuel.
- Posso entrar? – perguntou o senhor Caio batendo à porta.
- Claro pai – responderam praticamente juntos Samuel e Clever
e logo em seguida caíram na gargalhada.
O senhor Caio se emocionou muito com aquilo, se aproximou e
abraçou os dois, que retribuíram o abraço.
- Obrigado Senhor, obrigado – era o que dizia o senhor Caio
entre lágrimas abraçado com os filhos, uma cena que ele já achava
que nunca mais seria possível.
Depois de várias horas conversando, Samuel foi para casa
pensando nisso tudo, ao mesmo tempo em que lhe vinha à mente
como o segredo de seu pai lhe “roubou” anos de sua vida, procurava
não ficar magoado, tentava entender a situação que ele tinha vivido,
e também sabia que grande parte da culpa tinha sido sua, por ter se
fechado, mas voltava para casa mais “leve”, pois não tinha mais o peso
da culpa, não queria ficar lamentando o tempo perdido, queria viver
o tempo que ainda tinha, percebeu que finalmente tinha aprendido as
lições que sua mãe lhe deixou, depois de tantos anos.
Naquele hospital finalmente Samuel tinha conseguido se
perdoar, e quando assim o fez, lhe saiu um peso das costas e viu que
não tinha mais a necessidade de culpar ninguém por fatos ruins que
aconteceram em sua vida, nem a si mesmo. Era como se agora tivesse
descoberto o verdadeiro sentido do que é viver a vida em abundância
que Jesus disse aos discípulos.
Não era rico, não tinha fama ou um sucesso profissional como
muitas pessoas, mas agora Samuel vivia a vida na sua forma mais
ampla e feliz que alguém pode ter, as promessas que anos atrás ouvia
do apóstolo se tornaram vazias e sem sentido. Conhecia um Deus
totalmente diferente, um Deus mais verdadeiro e se relacionava mais
intimamente, sem interesses e com mais vida. Sabia que ninguém que
226
Capítulo 23 - A revelação

não fosse livre de si mesmo poderia saber o que é isso, descobriu o que
é a liberdade, a vida, algo que dinheiro ou poder nenhum poderiam
nos dar, a vida sem máscaras, sem medo de se encarar.
Samuel queria aproveitar para viver perto de Clever o máximo
que pudesse, pois já completava quase um mês que o médico tinha
descoberto o câncer, e o tempo de vida que dera a Clever não passava
de seis meses.
Quando contou para Nadejida a conversa que tinha tido com
seu pai e Clever, ela ficou sem reação, depois começou a chorar,
depois riu, precisou tomar água com açúcar.
- Vitória, minha amiga, na verdade é minha concunhada – disse
Nadejida, meio que brincando com a situação.
- Sim, e meu grande amigo é meu irmão, eu não sou filho único
e nem filho mais velho, agora virei caçula- brincou Samuel.
- A nossa família aumentou do dia pra noite. E Isabela vai ganhar
um priminho ou uma priminha – falou com um sorriso Nadejida, mas
sem conseguir esconder ao mesmo tempo a tristeza de saber que tão
bela descoberta era em volta de uma doença sem solução.
- Querido, você tem muito tempo para recuperar – disse Nadejida
abraçando o esposo.
- Sim querida, e não quero perder nem mais um minuto.
Dessa vez Samuel cumpriu o que disse para a esposa, procurava
estar todo o tempo com o amigo-irmão, e, ao mesmo tempo, não
descuidava da família. Mas, para isso, ele acabou perdendo duas
promoções no emprego que exigiriam um tempo maior dele em uma
empresa e um outro onde iria ganhar mais de três vezes o salário, mas
teria que mudar de cidade. Nada disso abalou Samuel e a família, pois
tinham aprendido a valorizar o que realmente tem valor na vida. Era
um homem de sucesso, não de sucesso como muitas pessoas pensam,
um “sucesso” para mostrar aos outros, mas tinha sucesso, pois era
realizado como pessoa, amava tudo o que fazia e valorizava o que
tinha valor na vida, não comprando mais ideias fabricadas por outros,
mas vivendo a sua própria vida.

227
Tempo de Descoberta

Clever superou por um milagre, como os próprios médicos


disseram, o tempo estimado de vida. Ainda viveu mais dois anos e viu
a filhinha nascer, à qual deu o nome de Júlia, era a querida Julinha.
Eu a tratava como uma irmãzinha mais nova, procurando sempre
ensiná-la a andar, pintar e falar.
Deus deu-lhe o privilégio de também vê-la andar, falar as
primeiras palavras, inclusive a primeira palavra que disse foi “papai”,
era a maior herança que ele deixaria aqui, assim pensava Clever.
Ele e Samuel sempre riam muito das aventuras de crianças,
lembrando das peças que aprontavam, as caronas na traseira de
caminhões e tantas outras aventuras.
Quase todo dia ou Samuel ia à casa de Clever ou Clever à casa
de Samuel, por mais que a doença se agravasse. O senhor Caio,
que já estava com quase 80 anos, também estava sempre presente,
parecendo o mais infantil de todos, estando sempre com os filhos,
as netinhas, tinha uma força incrível, era como se ficasse cada vez
mais forte, sua alegria em ter a família ao lado era visível, mas de
uma maneira especial se preocupava com Clever, pois sabia do pouco
tempo que lhe restava.
Muitas vezes até esqueciam da doença de Clever, pois parecia
bem melhor, tendo até engordado alguns quilos, e todos os domingos
era sagrado ir à casa do senhor Caio, onde ele se divertia com as
netinhas, que adoravam pular em cima da barriga do vovô.
Foi um tempo dourado na vida de Samuel, onde tanto ele
como Clever não procuravam lembrar o tempo perdido, mas apenas
recordações alegres do passado, e mais do que isso, procuravam viver
o presente como dois irmãos inseparáveis. Nunca se lamentaram
pelo tempo perdido ou pela doença recente, mas procuravam viver a
cada dia a verdadeira vida. Falavam muito sobre Deus, a eternidade,
talvez por ser uma realidade bem próxima de Clever, mas também
porque Samuel já contemplava a realidade de Deus ao seu lado hoje,
e percebia que a morte já foi vencida na cruz e um dia estaria junto
das pessoas que amava, sem doença, morte ou algum engano, e isso
eles já desfrutavam.

228
Capítulo 23 - A revelação

- Faz quanto tempo que não vamos juntos para o pé de jabuticaba,


irmão? - disse Clever para Samuel como quem tenta lembrar há
quanto tempo atrás tinham ido pela última vez.
- Nossa, faz tempo – respondeu Samuel com um ar de espanto.
- ...Acho que uns 10 anos ou mais – disse lembrando que a última
vez que tinha ido com Clever foi quando foram os três, ele, Clever
e Amanda, um verão antes dela ir estudar em Belo Horizonte, e a
última vez que ele havia ido, tinha sido no dia da morte de Amanda,
deixando lá muitos sentimentos ruins.
- Vamos para lá? – disse Clever com um sorriso que fez Samuel
lembrar quando eles eram crianças e Clever tinha alguma ideia peralta
e dava aquele sorriso.
- Não sei se é bom – falou Samuel agora com um tom mais sério
devido ao estado já mais delicado em que Clever se encontrava, pois
nos últimos meses ele tinha piorado consideravelmente, e já estava há
um ano e seis meses de “hora extra”, pela perspectiva médica.
- Vamos sim, eu não estou tão ruim, e além do que, lá é um lugar
que marcou muito as nossas vidas – disse Clever já se esforçando para
se levantar e mostrar que já estava decidido a ir.
- Creio que Vitória não vai gostar – tentou falar Samuel como
último argumento.
- Então vamos aproveitar que elas e as crianças foram fazer
compras, digamos que será a nossa última “peraltagem” – disse
Clever com um sorriso ainda mais malandro.
Samuel, vendo que já estava sem muito argumento, resolveu
ceder, apesar de todo receio, mas um dos medos que Samuel tinha
era que Clever visse que ele tinha riscado o seu nome da árvore.
Samuel ainda não sabia se Clever tinha voltado lá depois da morte
de Amanda.
Como o pé de jabuticaba ficava em uma parte alta da cidade,
pararam o carro cerca de 50 metros para baixo e foram andando para
lá, Samuel foi ajudando a Clever que parecia muito cansado, já sem
forças, mas com muita vontade de subir.

229
Tempo de Descoberta

Ao chegar perto da árvore, Samuel perguntou a Clever se ele


havia voltado lá nos últimos anos.
- Muitas vezes – respondeu Clever para a surpresa de Samuel.
Foi quando Samuel olhou para a árvore e percebeu que ao lado
da cruz onde havia o nome dos três com o de Clever riscado, havia
uma nova cruz, agora com o nome dos três nos braços da cruz, sendo
primeiro o nome de Samuel, depois no meio o de Amanda e no outro
braço da cruz o nome de Clever, e contornando a cruz uma frase:
“amigos para sempre, onde nem a morte poderá nos separar”.
Samuel, ao ler aquilo, não conseguiu segurar as lágrimas, ficou
parado em frente à árvore alguns minutos pensando nas palavras.
- Você que escreveu? – perguntou, mas já sabendo da resposta.
- Sim, alguns dias após a morte de Amanda eu vim aqui e
escrevi – falou Clever demonstrando canseira na voz - ...preciso sentar
– pediu Clever antes de continuar a falar. Ambos se sentaram como de
costume embaixo da jabuticabeira.
- Na verdade, eu sempre voltava aqui, tinha a esperança de um
dia lhe encontrar e, assim como aconteceu um dia, voltarmos à velha
amizade bem debaixo desta árvore. Sempre olhava para lá... – falou
Clever apontando em direção onde ficava a casa de Samuel - ...com
a esperança de que você aparecesse. Mas o importante é que agora
estamos aqui – disse Clever sorrindo como para tirar a tristeza que via
nos olhos do irmão.
- Sim, eu sei irmão, mas... – Samuel tentava não chorar mais,
porém, já tinha acostumado a não esconder sentimentos. - ...aqui
eu tenho tão belas recordações, quantos sonhos sonhei sentado bem
aqui, quantos “planos” bolamos, e a última vez que vim tentei apagar
tudo isso, então hoje, é como voltar ao passado, é relembrar sonhos,
Amanda.
- Amigos para sempre, onde nem a morte pode nos separar –
disse Clever quase sem voz e se esforçando para levantar o braço e
apontar para a frase na árvore.
Samuel se levantou, pegou uma pedra pontiaguda, ligou com
230
Capítulo 23 - A revelação

uma seta o nome dele com o de Clever e escreveu “irmãos na fé, no


sangue e na eternidade”. Depois voltou a sentar ao lado do irmão.
- Obrigado por tudo o que você fez por mim, irmão – começou
a discursar Samuel com gratidão na voz, enquanto Clever encostava
a cabeça na árvore, já praticamente sem força nenhuma.
- Sempre admirei muito você, a sua alegria, sabedoria, sua
coragem, em tudo isso você sempre foi melhor do que eu.
- Não irmão, não é verdade – tentou contestar Clever, se
esforçando para erguer a cabeça e olhar para o amigo - ...você que
sempre foi um espelho para mim, sempre tive um imenso prazer e
orgulho em ser seu amigo – falava Clever com um leve sorriso, até ser
interrompido pela canseira na voz e depois por Samuel.
- Sei que não sou de se jogar fora – brincou Samuel para
descontrair um pouco, já que percebeu claramente a dificuldade de
Clever para ouvir tudo - ...mas você não imagina como lhe admirei,
chegando muitas vezes a ter inveja de você – confessou pela primeira
vez, o que provocou uma risada espontânea em Clever que foi
interrompida por tosses fortes logo em seguida.
- Você está brincando, eu que sempre tive inveja de você – agora
foi a vez de Clever confessar tentando sorrir entre as tosses.
- Lembra do chicletes com tinta que você me deu? – perguntou
Clever tentando sorrir, já com a voz faltando e voltando a encostar a
cabeça na árvore.
Depois ambos ficaram um bom tempo relembrando com alegria
histórias do passado, e principalmente histórias embaixo do pé de
jabuticaba. Clever mais ouvia que falava, pois, por mais que quisesse
falar, já não tinha forças para isso, ficando apenas imaginando tudo
com os olhos fechados e encostado na árvore.
- A morte... - tentou falar Clever, abrindo os olhos, mas sem
conseguir desencostar a cabeça da árvore - ...a morte não existe para
nós que temos a esperança eterna meu irmão, apenas ficarei livre
da doença e um dia nos encontraremos de novo, já em um novo
corpo sem dor, sem tempo perdido, sem tristeza e sem saudade e,

231
Tempo de Descoberta

principalmente, ao lado do criador de nossas vidas, que nos fez mais


que amigo e irmão, te espero lá, mas não tenha pressa para ir – falou
tentando esboçar um sorriso, enquanto Samuel olhava para frente
não querendo mostrar as lágrimas que voltaram a escorrer.
- Você ainda tem uma família, uma filhinha e uma sobrinha
para ajudar a cuidar, só depois é que quero lhe ver de novo e aí sim,
vivermos novas aventuras, algumas só nossas, outras com as pessoas
que amamos e, principalmente, com nosso Salvador – concluiu Clever
encostando a cabeça nos ombros de Samuel e fechando os olhos,
agora para sempre.
Samuel ficou parado por alguns instantes, era difícil se despedir
do amigo-irmão, não queria acreditar que ele tinha se despedido, pois
um ano e meio de vida a mais que teve lhe deu tanta esperança que
achava que duraria para sempre.
- Obrigado, obrigado por ser meu irmão – disse Samuel antes de
pegar o corpo de Clever e colocar no carro para levar ao hospital.

232
Capítulo 24
A despedida

“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá;
e quem vive e crê em mim nunca morrerá.”
Jesus Cristo

A

s músicas já tinham sido escolhidas por Clever quando ainda
vivia, inclusive, o pastor Antônio Elias, mesmo já bem idoso,
fez questão de dar a mensagem no velório, leu a última carta que
Paulo escreveu antes de morrer, o livro 2ª Timóteo 4.6-8, que diz:
“Eu já estou sendo derramado como uma oferta de bebida. Está
próximo o tempo da minha partida. Combati o bom combate, terminei
a corrida, guardei a fé. Agora me está reservada a coroa da justiça, que
o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas
também a todos os que amam a sua vinda.”
Procurou explicar a vida vitoriosa que Clever tinha vivido, a
importância de entender o que é a vida. Como ele viveu ao lado
de Deus, tinha sido um guerreiro contra a doença, mas mesmo
questionando Deus por permitir muitas coisas, nunca duvidou do seu
amor e carinho por ele, e agora estava com Deus, nos braços do
Pai.
Logo depois o pastor Mário, amigo desde os sete anos de
idade, tomou a palavra, ele teve muitas dificuldades em falar, pois as
lembranças da infância ainda eram fortes, e isto fazia a saudade bater
mais apertada dentro do peito, mas procurou em poucas palavras
falar do grande amigo e irmão que era Clever em sua vida, e a
alegria e esperança que ele sempre transmitiu para as pessoas que o
conheciam.

233
Tempo de Descoberta

Por mais que fosse um ambiente de despedida e tristeza, havia


paz no lugar, todos respeitavam a coragem e alegria que Clever
sempre teve. Durante todo o tempo da doença ele nunca reclamou
ou murmurou contra Deus, tinha sido um exemplo, como sua esposa
que era uma verdadeira guerreira.
Naquela mesma igreja tinham sido veladas as pessoas que
Samuel mais gostava, sua mãe, Amanda e agora seu irmão. O primeiro
hino a ser cantado foi um dos preferidos de Clever: “Deus Somente
Deus”, hino que fez Samuel refletir na grandeza da criação de Deus,
do seu poder e amor, isso fez com que Samuel sentisse uma “certa
inveja” de saber que Clever estava ao lado desse Deus tão grande,
mas tão amigo e íntimo que eles tinham conhecido, um Deus muito
acima da religião pregada nas igrejas.
Não era uma saudade questionadora que Samuel sentia, muito
menos desesperadora, era uma saudade do tempo bom vivido,
esperando o tempo de “matar” de vez a saudade.
- Ele foi uma pessoa incrível – falou alguém parando ao lado de
Samuel e colocando as mãos em seu ombro.
Quando Samuel olhou para o lado foi que percebeu que era
Fred, e, apesar da surpresa, nenhum sentimento ruim despertou
dentro de si. Essa era a primeira vez que conversava com Fred, desde
o tempo da infância na escola.
Samuel sabia que Clever era que tinha iniciado a vida cristã de
Fred, e já há algum tempo ele frequentava uma outra igreja cristã na
qual sua família passou a frequentar, já tinha ouvido falar da grande
transformação que Fred havia passado, mas nunca mais tinha tido a
oportunidade de conversar com ele.
- Acho que lhe devo desculpas Samuel – continuou falando
Fred, com um tom na voz de quem quer arrumar coisas no passado.
– Creio que lhe prejudiquei muito.
Aquilo se tornava engraçado para Samuel, esperou muito
tempo por aquilo, ou uma chance de se vingar, agora nada daquilo
fazia sentido para Samuel. Ele lembrou do que Fred tinha feito com
Amanda, depois, como ele mudou o bilhete dela fazendo com que
234
Capítulo 24 - A despedida

ficasse anos guardando aquilo no coração, mas agora sabia que, na


verdade, Fred nunca foi culpado de nada, foi o seu próprio orgulho,
mágoa, que fez com que perdesse tanto tempo. Agora já não sentia
raiva de Fred, pelo contrário, se sentia bobo por ter guardado, tanto
tempo, mágoa no coração, e agora já não poderia culpá-lo pelo que
ocorreu. Finalmente, Samuel entendeu o sentimento que Clever
e Amanda tinham por Fred, mesmo ele tendo feito tudo o que fez,
só agora, conhecendo quem Deus era é que Samuel podia ter esse
sentimento que é mais forte que qualquer sentimento de mágoa ou
raiva que poderia ter.
- Já ficou tudo para trás Fred, aliás, você nunca me feriu além do
que eu permiti, e se aconteceram coisas ruins eu fui o grande culpado,
mas até isso também já está perdoado e esquecido.
Nem mesmo Samuel acreditava que estava falando aquilo, e
falava com sinceridade, era como se libertasse o último prisioneiro
dentro de si. No seu coração já não havia mais lugar para mágoas ou
ressentimentos, era livre de sentimentos ruins.
- Obrigado, você nem imagina como fico feliz em saber que
está tudo bem entre nós, há muito, muito tempo esperava por esse
encontro – falou Fred com lágrimas nos olhos.
Para Samuel era uma cena que jamais imaginava, pois a última
pessoa que ele esperava ver convertido era Fred. Em Fred, Samuel
via ainda mais o poder transformador de Deus e como nós julgamos
as pessoas como bem queremos, condenando e salvando quem nós
bem queremos.
- Quem deve estar feliz nesse momento é Clever – disse Samuel
retribuindo o abraço fraternal de Fred.
Nadejida foi levar Vitória, a pequena Júlia e dona Áurea embora,
enquanto Samuel levou seu pai, que o convidou para entrar e tomar
um café com pão de queijo.
- Desculpe pai, acho que lhe devo desculpas – começou a falar
Samuel enquanto colocava duas colheres de açúcar no café, sentado
na mesa da cozinha.

235
Tempo de Descoberta

- Não meu filho, se alguém deve desculpas aqui, esse alguém


sou eu – falou o senhor Caio pegando um pão de queijo e olhando
para o filho.
- Bem, acho que todos nós temos que desculpar uns aos outros,
mas também acho que já está tudo desculpado – disse rindo Samuel,
tendo o senhor Caio retribuído o sorriso.
- Sim, concordo.
- Mas quero que o senhor saiba que lhe admiro muito, pai –
falou agora Samuel colocando mais seriedade na conversa e pegando
um pão de queijo.
- Pois você teve a coragem que poucas pessoas têm, depois de
ter vivido já mais de meio século, perceber os erros e mudar, e quando
as mudanças não conseguiam ainda penetrar no coração das pessoas
que você amava, você não desistiu..., não desistiu de mim, e continuou
a mudar, a orar, a tentar, um verdadeiro exemplo de que nunca é tarde
para melhorar, para mudar, para amar, tenho orgulho de ser seu filho
– completou Samuel pegando a mão do pai do outro lado da mesa e
lhe dando um sorriso.
Essas palavras comoveram o senhor Caio que não esperava
uma reação assim do filho.
- Filho, fui cercado de pessoas maravilhosas, sua mãe era uma
mulher divina, uma sabedoria que não se aprende em nenhuma
escola, mesmo depois de ter partido ainda continuou nos ensinando
a viver através das recordações de como viveu a vida. O Clever,
alguém sempre positivo, olhando para frente, que transmitia alegria
e esperança, você, mesmo com suas dúvidas com Deus, mesmo
quando se fechou, nunca deixou de procurar respostas da vida, nunca
se conformou com as desculpas dadas a si mesmo, lutou a vida com
dignidade e soube assim vencê-la nos momentos mais difíceis, você é
um verdadeiro herói, tenho orgulho de ser seu pai – concluiu o senhor
Caio olhando com amor para o filho.
Samuel também ficou surpreso com aquelas palavras, não
esperava essa reação de seu pai, não esperava uma conversa tão
sincera e transparente entre eles, algo tão simples, mas adiado por
236
Capítulo 24 - A despedida

tantos anos. Também nunca tinha se olhado daquela maneira, fazendo


com que novamente lembrasse de mais um conselho de sua mãe:
“você não é aquilo que dizem de você, como também não é o que
pensa sobre você”.
- O importante é nunca deixar de aprender na vida – disse Samuel
sorrindo para o pai e assim devoraram todos os pães de queijo que
restavam sobre a mesa.
Na semana seguinte Samuel voltou para o pé de jabuticaba,
lugar de tantas recordações de sua vida, sua infância. Passou o dedo
nos escritos de Amanda e Clever e ficou lá sentado durante várias
horas, como se esperasse que Clever e Amanda aparecessem lá. Pegou
uma pedra e atirou para baixo com toda a força, como fazia com
Clever quando criança para ver quem atirava mais longe. Depois, fez
um buraco no chão na frente da árvore, onde tinha a cruz e o nome
deles, leu pela última vez os conselhos de sua mãe.
- Obrigado mãe, você nunca deixou de estar comigo e me ajudar,
me ensinou tantas coisas, me ensinou a ter dignidade, a me enfrentar
sem medo de ser o que sou, me ensinou o que é a vida verdadeira,
obrigado por ser minha mãe – disse Samuel olhando para a carta
antes de dar-lhe um beijo e colocá-la no buraco.
Logo depois pegou os dois bilhetes que Amanda tinha lhe dado,
leu-os também pela última vez, o primeiro, desta vez leu da maneira
correta, sem o “não” e repetiu várias vezes fechando os olhos, como
quem voltasse ao passado e imaginando Amanda escrevendo o bilhete
com um sorriso tímido no rosto.
- Não sei dizer o que você foi em minha vida, amada minha,
foram tantas lições que aprendi contigo, mas nenhuma mais forte do
que o que é o amor, amor pelas pessoas, por Deus e pela vida. – Nesse
momento a saudade de Amanda bateu forte no coração de Samuel,
precisou parar de falar, apertou o bilhete contra o peito, deu um beijo
nele e colocou ao lado do bilhete de sua mãe. Logo depois cobriu
com terra os bilhetes e voltou para casa, não sem antes atirar com
toda a força a última pedra, como quem disputasse a final de uma
olimpíada. Depois, desceu para amar as pessoas que estavam perto
dele que poderiam receber seu amor.
237
Tempo de Descoberta

Samuel viveu os próximos anos com intensidade, sempre que


podia estava na casa de seu pai que, apesar de toda a idade, ainda
continuava forte, ajudava na criação da Julinha e a cada dia procurava
ser um pai, um marido, uma pessoa melhor.
O que lhe assustava e dava tristeza, era como nos últimos anos
aumentou o número de “apóstolos narcisos” pelo Brasil, sempre havia
uma nova igreja com pessoas se autointitulando pastores e bispos, com
mensagens sempre focadas no bolso, e não no coração das pessoas,
onde a preocupação era que Deus os servisse e não mais servir a
Deus, os “apóstolos narcisos” tinham crescido assustadoramente,
como um câncer.
Tudo isso fazia com que Samuel se apegasse mais à Palavra da
verdade para que sua família nunca esquecesse de quem é Deus, e
assim ele nos ensinou muito sobre a vida, valores e, acima de tudo, a
amar ao Deus verdadeiro sem fazer barganhas, mas pelo que Ele é.

238
Capítulo 25
A escolha

“Ainda que eu falasse a língua dos homens, e falasse a língua dos anjos,
sem amor, eu nada serei.”
Paulo de Tarso

J á estávamos no ano de 1995, agora Mário, amigo de meu pai, era


pastor titular de nossa igreja em Divinópolis, ele já estava como
auxiliar há alguns anos, pois o pastor Antônio Elias tinha partido
há um ano, aos 94 anos, e o pastor titular, Antônio Carlos, tinha se
mudado para Belo Horizonte, para pastorear uma igreja na grande
cidade.
Eu já estava com 14 anos, tinha crescido muito, chegando a
1,72m, tinha puxado muito a aparência de minha mãe, o cabelo
era loiro um pouco ondulado, olhos azuis que meu pai tinha muito
orgulho, era magra e de pernas finas. Minha mãe sempre falava que
eu parecia muito com as russas, meu pai tinha muito orgulho de mim,
falava que Deus era muito bom por eu não me parecer nada com ele,
eu dizia que não era verdade, que ele era o pai mais lindo do mundo
e que minhas amigas, às vezes, achavam que era meu irmão mais
velho, já que tinha só 34 anos, mas com aparência de quem ainda
não chegou na casa dos 30.
Resolvi estudar o colegial em Belo Horizonte, meu pai não
gostou muito da ideia, achava a cidade muito perigosa, mas como
tinha o desejo de fazer medicina seria melhor estudar em uma escola
melhor, pois por mais que meu pai estivesse indo cada vez melhor no
emprego, ficaria muito apertado pagar uma faculdade particular de
medicina para mim, por isso, com apoio de minha mãe e finalmente a
239
Tempo de Descoberta

aprovação de meu pai, eu fui estudar em Belo Horizonte.


O primeiro semestre foi muito difícil para mim, chorava quase
toda semana e sempre que podia voltava o final de semana para casa,
mas percebi que para meus pais foi mais difícil ainda, principalmente
para meu pai que era muito apegado a mim, ainda mais que não
tinham conseguido ter outros filhos, como era o desejo deles.
No segundo semestre as voltas para casa se tornaram menos
constantes devido à quantidade de trabalhos escolares que tinha que
fazer, isso fez com que as ligações para casa fossem praticamente
diárias.
- Princesa, tenho duas surpresas para você – disse meu pai ao
me ligar no começo da noite como de costume.
- Então me diga, que já estou curiosa – respondi de imediato.
- A primeira é que vou para Belo Horizonte essa semana, então
poderemos nos ver – disse ele com uma alegria na voz.
- Não acredito! Que bom, você não imagina como fiquei feliz, e
a segunda? – perguntei demonstrando alegria e curiosidade.
- A segunda só lhe conto, ou melhor, te mostro quando estiver
aí.
- Ah..., assim não vale – respondi. – Já estou curiosa, então
venha hoje mesmo.
- Então trate de controlar a curiosidade... – disse sério, mas com
“ar” de brincadeira. – Quinta-feira eu lhe conto. Onde podemos nos
encontrar?
- Pode ser na loja de cd em frente à faculdade às cinco horas da
tarde, está bem pra você, pai?
- Sim, ótimo.
- Então estamos combinados, mas não se atrase, hein! Te amo
pai. – Houve um silêncio do outro lado que não conseguia entender.
– Alô pai, você ainda está aí? – perguntei assustada.

240
Capítulo 25 - A escolha

- Sim filha, ok, cinco horas em ponto, também te amo – falou


mais sério desligando o telefone.
Estranhei muito o final da conversa, pois não sabia como
a “cobrança” para não se atrasar lhe trouxe à mente sentimentos
que procurou esquecer. Naquele mesmo instante Samuel lembrou
do atraso na volta para casa que fez com que não se despedisse de
sua mãe, o atraso com Amanda que provocou a tragédia e o atraso
comigo mesmo quando tinha seis anos, provocando um problema na
perna esquerda que deixou algumas cicatrizes, mas nada mais sério, e
nessas duas últimas ocasiões acompanhadas da mesma advertência,
“não se atrase”.
Aquela semana, por mais que Samuel não quisesse pensar, as
recordações não saíam de sua mente, o medo voltava, e algumas
noites até acompanhado de pesadelos no qual o carro quebrava e ele
não conseguia chegar na hora marcada na loja de cds, fazendo com
que quando chegasse, não me achasse mais lá, ficando desesperado.
- Querido, está tudo bem? – perguntou minha mãe, após o
jantar, preocupada com a expressão de meu pai.
- Sim querida, só um pouco cansado – respondeu meu pai
tentando disfarçar para não trazer preocupação em vão para a
esposa.
- Você tem certeza? – perguntou minha mãe com voz de quem
não estava nem um pouco acreditando.
- Tenho querida, pode ficar tranquila – falou lhe dando um beijo
e indo para a sala, para assim fugir da conversa.
- Creio que Isabela vai gostar muito do telefone, só não esqueça
de levar para ela amanhã – comentou minha mãe, falando sobre a
segunda surpresa.
Tinha sido meu aniversário, e como meu pai tinha comprado
uma carta de telefone celular, ele estava esperando chegar o telefone
para me dar de presente. Algo que eu não sabia, e como eu só voltaria
para casa no começo de outubro, e ele precisava ir para Belo Horizonte

241
Tempo de Descoberta

naquela primeira semana de setembro, resolveu levar o meu presente,


presente este que mudaria para sempre nossas vidas.
Naquela última noite antes de ir para Belo Horizonte não
conseguiu dormir direito.
- Querida, você é muito especial para mim – disse para a esposa
dando-lhe um carinhoso beijo e passando as mãos em seus cabelos.
- Você também querido – disse Nadejida, mas estranhando um
pouco a maneira de falar do marido.
Nos olhos de Samuel havia amor e um pouco de tristeza que
nem ele conseguia entender, mas percebia que aquele dia não seria
apenas um dia comum.
Foi para Belo Horizonte refletindo muito na vida, de como tinha
aprendido a viver a vida, se via uma pessoa feliz e realizada, era grato
a seus pais, a Amanda, Clever, Nadejida e principalmente a Deus pelo
que aprendeu na vida.
Durante todo o dia Samuel não conseguiu se concentrar no
trabalho, apenas pensava em mim e no que eu tinha falado a ele,
tinha um grande medo de se atrasar, pois lembranças já deixadas para
trás voltavam à memória.
Quando a última reunião acabou por volta das quatro horas
da tarde, ele já foi em direção ao lugar marcado para se encontrar
comigo, pois tinha medo de que algum incidente o atrasasse, deixou
inclusive para comer em algum lugar perto da universidade.
Como o lugar onde ele tinha ido não era longe da universidade,
antes das 4h30 ele já estava lá, e resolveu me esperar para comermos
juntos.
Passeou um pouco na rua em frente à loja, depois ouviu alguns
cds, e tinha certeza de que nada o tiraria de lá de dentro enquanto eu
não chegasse, dessa vez não se atrasaria de maneira alguma, pensava
consigo mesmo.
Às cinco horas meu pai estava lá dentro da loja, na parte mais

242
Capítulo 25 - A escolha

para o fundo, vendo alguns cds de Elvis Presley que sempre gostou,
quando observa entrar alguém na loja, alguém que não era eu, mas
provocou a mesma reação no rosto de meu pai quando foi encontrar
Amanda e me buscar na escola naquele primeiro dia de aula, olhou
pela janela da loja desejando de todo coração que eu não aparecesse
lá.

243
244
Capítulo 26
O reencontro

“Viver é a coisa mais rara do mundo.


A maioria das pessoas apenas existe.”
Oscar Wilde

E

ntraram duas pessoas ao mesmo tempo na loja, um homem
magro, alto, de pele bem clara, nariz fino, cabelo curto e com
uma cicatriz feia que lhe pegava metade da testa. Foi em direção
ao meio da loja falando para todos os clientes irem para a parede
apontando uma arma em direção deles, o outro que o acompanhava
era um pouco menor, de cor escura e alguns quilos acima do peso,
usava um boné azul e foi em direção ao homem que estava no caixa,
falando com ameaças para ele abrir rapidamente o caixa e o cofre.
O homem do caixa, um senhor de média estatura, de
descendência hispânica, já na meia idade, tentava explicar que não
tinha a chave do cofre com ele e lhe entregava um pouco do dinheiro
que tinha no caixa, mas o homem negro não acreditava e ameaçava
matá-lo se não abrisse logo.
Na loja, além de meu pai, havia mais seis pessoas, uma senhora
baixinha e bem acima do peso teve um desmaio e quando um outro
homem que estava na loja foi querer ajudá-la o outro bandido que
estava na loja não deixou, obrigando todos a ir para a parede e
deixarem a senhora desmaiada no meio da loja.
Eles estavam nitidamente nervosos, provavelmente por efeito
de drogas, que era visível que tinham usado. Tudo isso deixava claro
para o meu pai que a qualquer momento alguma tragédia poderia
acontecer com alguma das pessoas que estavam na loja, ou pior, com

245
Tempo de Descoberta

quem entrasse na loja.


Meu pai olhava desesperadamente para a janela, pedindo a
Deus que não me deixasse chegar na loja naquela hora, queria pela
primeira vez na vida que eu me atrasasse, e por ironia, o atraso, que
tantas vezes tinha prejudicado meu pai, agora poderia salvá-lo e a
mim.
Enquanto isso o senhor do caixa tentava convencer o ladrão
a ficar apenas com o dinheiro do caixa, já que não tinha a chave
do cofre, ao mesmo tempo o outro bandido falava para as pessoas
passarem o dinheiro.
Meu pai foi o primeiro que passou a carteira, o único desejo
dele era que os bandidos fossem embora o mais rápido possível.
O seu desespero aumentou quando ele me viu atravessando
rapidamente a rua.
Estava usando uma blusinha rosa que tinha ganho de meu pai e
uma calça jeans, segurava nas mãos o material escolar e um chocolate
que tinha comprado para presenteá-lo, estava sorrindo, não vendo a
hora de encontrá-lo.
Ele queria desesperadamente me impedir de entrar na loja, pois
percebeu que os bandidos não sairiam antes de eu chegar. Isso fez
com que ficasse imaginando o que poderia acontecer, desde um tiro
até um sequestro, tudo isso o deixou ainda mais agoniado, pois apenas
pensamentos ruins passavam em sua cabeça, ao mesmo tempo que
orava pedindo uma solução.
Foi quando ele lembrou do telefone celular que tinha trazido
para me dar de presente, presente este que preferia nunca ter ganho
de meu pai.
Poucas pessoas tinham telefone celular, pois para comprar você
tinha que primeiro ter uma carta de compra, essa carta não apenas era
de alto valor como demorava alguns meses para receber o telefone,
que era um aparelho preto e grande, mas muito desejado naquela
época, marcava uma revolução nos telefones convencionais.
E talvez pelo fato de poucas pessoas terem celular, os bandidos
246
Capítulo 26 - O reencontro

não se preocuparam em revistar quem tinha ou não um telefone


destes, já que não havia muitas pessoas na loja.
Talvez por instinto ou por ver essa como a única solução, meu
pai pegou o telefone e começou a discar e falar em voz alta.
Quando os bandidos viram, no mesmo instante deram um grito
de muita fúria, mandaram ele entregar o telefone se não iriam atirar
nele. Falaram apontando a arma para o peito dele com a mão rígida e
ódio no olhar, de quem não acredita na audácia da pessoa.
Meu pai olha calmamente para os bandidos, com um olhar de
paz que provocou mais raiva nos ladrões, e com calma disse:
- Alô polícia, estamos sendo assal.... – ele não conseguiu
completar a fala antes de se ouvir um disparo.
O disparo fez com que ele caísse para trás, mas sem soltar o
telefone que ficou preso na mão, uma pequena mancha vermelha
começou a aparecer em seu peito sujando a camisa cor de creme e o
paletó preto, ele ainda mantinha os olhos abertos e se esforçava para
olhar em direção da porta, na esperança dos bandidos saírem antes
que eu entrasse, algo que conseguiu.
- Corre, corre – foi o que disse o bandido alto e magro após
disparar o tiro contra o peito de meu pai.
- Que idiota – disse o outro olhando com raiva para o meu pai
que estava estendido no chão.
Ambos saíram correndo com o pouco de dinheiro que tinham
pegado, praticamente esbarrei com eles na porta da loja sem entender
o que estava acontecendo, mas estranhando o barulho forte que havia
ouvido, assim como toda aquela movimentação.
Entrei confusa, procurando entender toda aquela situação,
apenas vi um senhor ligando para o hospital pedindo socorro
informando que alguém tinha sido baleado, e as pessoas cercavam o
corpo de um homem no chão.
Entre as pessoas em volta do homem não via o meu pai, e isso
fez com que o meu coração disparasse, estava começando a entender
o que tinha acontecido, só queria que meu pai tivesse atrasado como
247
Tempo de Descoberta

de costume, ele tinha que ter atrasado pensava eu, com medo de olhar
para o homem que estava no chão, com medo que aquele homem
fosse ele, meu pai.
- Que homem louco, por que ele foi ligar para a polícia na frente
dos bandidos? Era lógico que eles iriam atirar – falava uma senhora
que olhava para o rosto de meu pai, enquanto um outro socorria a
senhora que ainda se encontrava desmaiada no meio da loja.
Fui me aproximando não querendo ver, tremia de medo
imaginando que poderia ser a pessoa que mais amava que estava lá,
tremia toda, as minhas pernas já não me respondiam corretamente,
tinha que me esforçar para não desmaiar.
- Tenha calma, a ambulância já está a caminho – falava um
homem para meu pai, enquanto colocava a mão no ferimento para
tentar estancar o sangue que já manchava o chão do lugar.
- Pai! – Gritei ao ver que era ele, correndo em sua direção e me
ajoelhando ao seu lado, ou melhor, mais caindo do que ajoelhando,
enquanto isso, lágrimas começavam a escorrer em meu rosto.
- Princesa... – disse ele, esboçando um sorriso e olhando em
meus olhos - ...que bom que você está bem – disse ele mostrando
tranquilidade e paz em sua voz.
- Pai, pelo amor de Deus, não morra, eu preciso de você, você
vai ficar bem, aguenta firme – falava eu entre lágrimas enquanto
segurava a cabeça dele com uma mão e a outra passava em sua testa
como quem cuida da pessoa amada.
- Dessa vez não me atrasei – disse ele agora se esforçando mais
para falar.
- Não era essa a segunda surpresa que tinha para você – falava
ele, como que tentando me acalmar brincando com a situação – mas
a segunda surpresa acabou lhe salvando – falou se esforçando para
erguer o telefone que ainda segurava em sua mão.
- Pai, por favor, não me deixe - falava chorando mostrando
agora claro desespero – não fale muito, você precisa aguentar firme,
por favor. Deus por favor, salve o meu pai, por favor.
248
Capítulo 26 - O reencontro

- Princesa, Deus já me salvou, por isso hoje não tenho medo...


– falava meu pai, fazendo um grande esforço - ...obrigado por ser
minha filha, você foi a melhor coisa que já fiz na vida.
- Por favor, por favor – era a única coisa que conseguia falar
entre as lágrimas.
- Cuide de sua mãe, da pequena Julinha, todos vocês me fizeram
muito feliz.
- Não, por favor não pai – falava ainda mais desesperada já
banhando o rosto dele com minhas lágrimas.
- Já estou bem filha – falava agora meu pai mostrando uma paz
muito forte e mudando completamente o seu semblante.
- A dor foi embora.
Essa frase me deixou ainda mais nervosa, pois percebi que já o
estava perdendo, e não poderia aceitar isso.
- Deus, por favor, salve meu pai, eu preciso dele – orei em voz
alta como um clamor – não morra pai, eu preciso de você, por favor
– pedi como implorando para ele lutar pela vida e não deixar a morte
vencer.
- Princesa, o que é a morte? Ela não existe para sempre, como
um dia minha mãe e Clever me disseram, estaremos todos juntos
novamente em um lugar sem dor, e chegou a hora de rever alguns
amados que faz tempo que não vejo – falou meu pai, olhando para o
lado e abrindo um sorriso, como se enxergasse lá sua mãe Maria das
Dores, Amanda e Clever.
- Pai, por favor, não faça isso comigo, por favor – insistia como
que implorando para ele lutar pela vida. – Eu preciso de você, preciso
de você, não posso viver sem você.
- Querida, Ele veio me buscar, estão todos aqui. Não se atrasaram
– falou esboçando novamente um sorriso como quem está feliz em ver
alguém que há muito tempo não via.
- Eu te amo pai, te amo, te amo – falava, percebendo que já
havia perdido a batalha, mas sem me conformar com isso.

249
Tempo de Descoberta

- Eu também filha, te amo de todo meu coração, sentirei muitas


saudades, mas um dia nos encontraremos e seremos uma só família,
agora tenho que ir, rever amigos da alma e meu Salvador que está
aqui estendendo a mão marcada por amor a mim.
Assim, como quem estendia a mão para tocá-lo, meu pai reclinou
a cabeça ao lado encostando no meu peito mas sem desfazer o sorriso
que permanecia em seu rosto, agora já sem vida.
Abracei-o forte contra o peito, não acreditando que aquilo tinha
acontecido, ainda falava com ele, como se pudesse ouvir, mas já sabia
que ele estava em outro lugar, sem dor e bem melhor que este.
- Foi para salvá-la que ele ligou para a polícia – falou cochichando,
em lágrimas, uma senhora para outra ao perceber toda a situação.
Foi quando peguei o telefone que ainda estava em sua mão e vi
que não havia nenhum número discado, ele nunca havia ligado para a
polícia, não houve tempo para isso, tinha sido apenas uma encenação
para os bandidos terem medo e fugirem. Tudo isso ele tinha feito
sabendo o que aconteceria, mas para eu não correr nenhum risco,
por amor. Nesse momento senti algo estranho, senti o duplo amor,
senti como o amor de Jesus tinha salvo a minha vida sem eu merecer,
como agora o amor de meu pai tinha me salvado, ambos entregaram
a vida por mim e sem eu ter feito nada para merecer.
Ao perceber, chorei ainda mais com o telefone na mão e
abraçando ainda mais meu pai, que me deu a vida duas vezes.
- Por que pai, por quê? – perguntava abraçando-o, mas já
entendendo o motivo.
Fiquei lá abraçada com ele até a ambulância chegar, as pessoas
em minha volta ficaram em silêncio, como que respeitando esse
momento, percebia lágrimas escorrendo nos olhos de pessoas à minha
volta.
Meu coração estava apertado, mas sabia que meu pai agora
encontraria as pessoas que ele tanto amou e perdeu em vida, sabia
que não sentia mais dor e nem arrependimento do que tinha feito.
Sabia que ele estava ao lado da pessoa que também tinha dado
250
Capítulo 26 - O reencontro

a vida por ele, sem ele ter feito nada por merecer, simplesmente por
amor.

251
252
Final

É

por causa do vovô que eu me chamo Samuel? – perguntou
meu filho que já tinha seis anos de idade, quando lhe contava
um pouco da história de meu pai antes dele dormir, como sempre
fazia.
- Sim, querido, porque seu avô foi um grande homem e você
também é um “pequeno grande” homem – respondi, enquanto puxava
a coberta até perto do pescoço para deixá-lo bem quentinho naquele
começo quente do inverno africano.
- Vovô morreu tão jovem mamãe, queria tê-lo conhecido – disse
Samuel com um “ar” de lamento por ter conhecido o avô apenas
através das fotos e histórias.
- O importante, querido, não é o tempo que se vive, mas como
se vive – comecei a falar tentando explicar para meu pequeno Samuel
o que é a vida. – Existem muitas pessoas que vivem muitos, muitos
anos, morrem velhinhos, mas nunca na verdade viveram, apenas
cumpriram a rotina da vida, sem entender o seu significado, viveram
se autoenganando, usando máscaras com medo de si mesmos.
- Seu avô... – continuei a falar, como quem recorda a expressão
de vida no rosto de meu pai - ...soube o que era a vida, soube viver
intensamente, soube amar, perdoar, ensinou tudo isso para as pessoas
que estavam perto dele. Em poucos anos, ele viveu uma vida que
muitas pessoas não vivem em dezenas de anos.
253
Tempo de Descoberta

- Então ele foi feliz? – me perguntou o pequeno Samuel já


abrindo a boca de sono.
- Sim querido, foi a pessoa mais feliz que eu conheci, ele não
apenas teve momentos felizes, mas aprendeu a ser feliz, e nos ensinou
a viver assim, ser feliz sem máscaras, sendo quem é, e querendo
sempre ser melhor, deixando sempre Deus trabalhar em seu coração
e sua vida.
- Hoje ele está com as pessoas que sempre amou e junto daquele
que lhe deu a verdadeira vida. E nós que ficamos, um dia também
iremos encontrá-lo, aí seremos todos uma só família, já sem dores
e separação – disse lembrando o que ele tinha me falado em nosso
último momento.
- É por causa de Amanda que você resolveu ser médica aqui em
Gana, mamãe?
- Não querido, é porque aqui nas tribos, não existem médicos,
nem do corpo e nem da alma, por isso eu e papai resolvemos dar
para essas pessoas o melhor que nós temos, o melhor que seu avô
nos deixou, mas é verdade que a pequena Amanda contaminou todo
mundo com seu amor, até as pessoas que não a conheceram, como
eu – respondi como quem sentia saudades de uma grande amiga,
mesmo tendo nascido muito tempo depois da partida dela.
- Boa noite mamãe, amo você – falou meu filho, o pequeno
Samuel já fechando os olhos.
- Também te amo querido.

254
Este livro foi composto pelo Grupo Z3 de Comunicação, em
Souvenir Lt BT e Belwe Lt BT, e impresso pela Imprensa da Fé - SP,
em papel bulk paper 70 g/m2 no inverno de 2009.