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Me desculpe por ter me apaixonado a este ponto. Prometo a ti que daqui não passarei.

Deus apresentou-te a mim, para me


mostrar lado puro deste mundo. E o que faço é perturbar-te com estes escritos. Só depois que entregar isto a ti, minha vida se
tornará tolerável.

"Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção. Pode ser a
pessoa mais importante da sua vida.”

Importante e vida são palavras quase homogêneas. E estão, na maioria das vezes, ligadas a relacionamentos. Por meio desta,
me convém dizer que você suscitou em mim mais do que paixão ou promessas rasas de amor. Ah, eu te amei de tal forma
que, se soubesse como te contar, não amaria tanto! Amei com todo egoísmo que cabia dentro de mim. Amei como queria que
me amasse. Mal posso me perdoar por deixar o mundo que fantasiei esquivar-se de mim. Ele existe. É real, mas é
inalcançável. Sinto-me impotente e refém de um devaneio.
Em momento algum senti-me envolto em abandono, porque abandono requer expectativa. Não obstante, senti-me traído.
Traído pela minha psique conturbada e demasiada instável. Quando, por vezes, parecia apático, desinteressado ou alheio,
estava, na verdade, imerso em sonhos emaranhados de morbidez. Vejo o quão complexo e labiríntico é o cérebro humano:
com seis anos de idade, fui diagnosticado com “baixa inibição latente”. Não é uma enfermidade, mas se acometer alguém
com baixo Q.I, pode levar à demência. Eu via nos objetos, coisas que pessoas normais não conseguiam; via nitidamente a
arquitetura e as funcionalidades. Colocava-os num patamar de novas possibilidades. Dessemelhante a hoje, eu era criativo,
não analítico. Aquilo estava me suprimindo; acordava à noite com pesadelos exorbitantemente assustosos; e o que fazia?
Sentava frente ao computador e digitava tudo. O fruto de tanta inquietação era tão pavoroso, que nem mesmo tinha audácia
para ler. Fui a diversos psicólogos, e até psiquiatras. Mas eles me tratavam como artefato de estudos. Pouco faziam para me
ajudar. Eu fui me isolando cada vez mais das pessoas que conviviam comigo. Submergia em leituras densas para tentar me
livrar daquela “ansiedade criativa” - sim, era como titulavam. Na quimera de pensamentos ilusórios, tu apareceste e
mostraste-me como o amor pode ser pródigo e ao mesmo tempo, libertador. Sinto-me tão contente. Ah, o que é o coração
apaixonado! Mesmo sem poder tê-la, sinto que já fazes parte da minha história. A tal “baixa inibição latente”? Ela não me
deixou. Mas tu apresentaste a mim, uma maneira tão encantadora de torná-la parte da minha essência.

Namárië!
Acordei mais cedo esta manhã. Pensei em você - como de costume. Lembrei do tempo que meus olhos só via a ti;
felizes, alheio à balbúrdia que me permeava. Por que não estás aqui para cuidar de mim? Somos tão vivos e jovens, fechados
em nossas leituras. Você está sempre a sorrir alegremente, como aquelas flores amarelas de que tanto gostas - você e sua
existência agradável e quieta. Os cômodos desta casa há tanto tempo vazios de sua presença. Me posiciono em frente ao
imponente móvel, no canto escuro do quarto: quem poderia imaginar que canela ficaria tão bem em forma de armário?
Escrevo isso assolado por uma descomunal tensão, pois tenho exígua segurança de que lerás até o fim (haverá, para mim,
alguma espécie de fim?).
Disseram-me, há muito tempo, que um bom e comedido gole de uísque à beira mar seria a ocupação terapêutica na qual
esqueceria do infortúnio um tanto fastidioso que é existir. Esqueceram de dizer-me que o mar estava agitado e não tolerava
eternos sonhadores. Não tolerava porque estava cheio de desencantos. Tantos barcos naufragados, tantos amores prometidos e
findados; tantos sonhos lúcidos em vão. Ainda guardava areia de verões passados. No entanto, o mar descansou e eu te vi
passar, sozinha, imperiosa e com as mãos caídas ao teu lado. Teu cabelo, ainda negro, quietamente esvoaçava junto ao teu
frescor particular. O azul que há muito tempo não luzia em meus olhos, ascendeu-se naquela manhã leve. O diamante
vermelho do meu coração pulsava impaciente. Ah, tão quietamente ardia a tua luz! Envolveu-me na tua áurea; mais tarde, teu
fausto rosto confirmou a loucura acesa em mim. Havia um céu nos teus lábios, um inferno em teu olhar. Havia um deus em
tua alma. Estavas cheia de uma vontade oculta de viver teu sossego; que a mim, era intenso como o epicentro de um furacão
tempestuoso e voraz. E meu coração gozou de tamanha alegria! Ficou leve e sereno como uma manhã primaveril. Fez-se um
tipo de Domo entre nós; mas só eu permaneci no interior desta bolha.
A alegria vem sorrateiramente em raros momentos de distração. Subtendida nas pequenas coisas, que logo se tornam
grandiosas dentro de nós. Não se pode conquistá-la de uma só vez. A felicidade vem aos poucos, como as luzes ascendendo a
cidade grande. E conquistar teu coração foi, demasiadas vezes, o bálsamo que meu peito almejava. Morar nas tuas curvas
ardentes, era estima paradisíaca. Mas ali acresceu a falta de coragem, pertencente à juventude e timidez. Desencadeou,
também, um orgulho inerente. Ai de mim - Como poderia me sentir confiante se só o que me é passado é inversamente
proporcional? Meu desejo emudece em tua presença. Pessoas quietas como você, são iguais às estrelas; não só por brilharem,
mas por estarem em constante metamorfose, e só almas por igual grandiosas conseguem ver tais mudanças.
Oh, céus! Pergunto-me à noite no deserto que homem nenhum logrou pisar: seria dos maiores genocidas que mancharam
com sangue e dor o mundo, eles mesmos, se a tivessem conhecido? O mundo seria um paraíso! Isto digo! É tão difícil existir
à tua altura! Vocábulo nenhum exprime. Tenho tanta coisa que sem ti é nada! Quem diria que eu me desacolhesse tanto... Eu
pouco espaço tenho com os rapagões bem-vestidos e de retórica apurada. Alegres e confiantes! No entanto, rústicos. Eu
procurava teu olhar, mas tu passavas de um rosto a outro; mas a mim, que estava ali só por eles, não me dirigiam! Como sou
bobo! Devias ver a cara que faço quando falam no teu nome; e perguntam se quero 'ficar' contigo... Ficar? Odeio esta palavra
com todas as minhas forças! A que homem tu somente ficarias? Senão encher de todos os sentimentos e deixar-se dominar
por ti? Ficar... O mais ínfimo e infeliz dos indivíduos tentará contrapor-se a mim citando Sartre e Simone Beauvoir – O único
prazer que sinto ao evocar estes dois, é a belíssima pronúncia dos nomes em francês. De forma eufemística, dizem que os dois
quebraram o paradigma da relação recíproca romântica e viveram felizes. Ah, mentira maior não poderia ter! É certo que tal
relação só mascarava a ternura profissional que ambos cultivavam.
Sinto monstruosa falta do dia em que a vi pela primeira vez. Foi a única que poupei da minha impetuosidade supérflua.
Sim, era um dia límpido, posterior a uma chuva torrencial. Tu estavas linda, estonteante, terna e encantadora! O dia mais feliz
e infeliz da minha vida. Feliz, porque foi por ti que me apaixonei, e infeliz porque sem ti terei que viver. Vejo tudo outra vez
com uma nitidez espantosa. Ali, a vida começou a ser real. E, por horas fiquei na parte interna do auditório. Quando,
motivado apenas por curiosidade, olhei para fora, vi no lugar da luz do sol uma vivacidade que não se explica; acho que algo
me fez ir até a janela, não sei. Observei pelo vidro que a intensidade daquele fenômeno aumentava de acordo com o passar
dos minutos (lá se ia a aparente normalidade). Achei ter visto movimentos estranhos, furtivos, mas naquele momento senti
meus olhos vívidos; caí num torpor cujo tédio fora, creio, embalado por pensamentos inumanos – sei disso porque a última
sensação que carrego, uma efígie apenas, foi de um espírito por completo arrebatador passar por mim, voluptuoso. Entre
outras coisas, representavas para mim, uma janela na qual via as ruas que, por algum motivo silencioso, sempre ficavam no
mesmo lugar; mas os carros, não. Senti ali, que só tu poderia dar-me o que já não existia em minha alma. E tu roubaste até o
brilho daquela manhã.

Diviníssima, tu és o que o mundo jamais poderia arquitetar em sonhos. Tu és a causa, cujo efeito é tu mesma. A causa
primária de todos nós. Tu és abissal, digo isto rangendo os dentes. É essa tua imprecisão assim revelada, que te faz perfeita.
Conhece tão intimamente beleza, que a eleva à condição de Arte. Todos os arquétipos de perfeição caem por terra. Tu és
perfeita porque tuas qualidades sobressaem-se às tuas falhas. O chão, duro e estéril, transforma-se em nuvens quando tu
passas. As brumas das veredas por onde percorres tornam-se parte das árvores longínquas que fazem verde-escuro ao longe...
Levita, soleníssima. E, por onde tu incides, todos te veem entrar. Tudo perde as arestas; o mundo se desfaz. Um mundo
repleto de alegria, nasce. Cada passo desponta-se em acordes musicais. Vem, e traz os horizontes imprecisos. Ameniza o
fôlego inquieto dos angustiados; conforto raro sob a alma alquebrada dos fracos. Água fresca nos lábios sedentos dos
cansados. És alento às almas que as noites passam a interrogar as estrelas. À espera do novo dia, que volta sob a luz de um
suntuoso alvorecer. Tua voz governa o sono imponente das árvores; e os pássaros a enfeitá-las de carinho, se rendem a ti. Luz
nova que vem pouco a pouco fazendo de cada monumento, parte do teu corpo. Traz contigo o fabuloso florescer dos
momentos na primavera e leva as folhas mortiças da saudade junto ao belíssimo outono. Revela em ti a luz que rezavam os
antigos. E nela cabia toda a felicidade e deslumbre. O Universo é a janela do teu quarto. Teu trono é uma caixinha de joias. É
seda para enfeitar teu vestido franjado de infinito. Vem, e nos embala nos teus braços acolhedores e maternais. Voa sem
direção alguma, porque a tua alma é grande e o mundo é pequeno, e todos os sonhos não cabem neste mundo. Os mares
distantes ficam em foco, em cenários que só tu me proporcionas.
Estás sempre impecavelmente disposta em interlúdios minuciosamente precisos como os sonetos de Pessoa e Camões. E
eu, um mendigo à luz da metrópole soturna. Sequer posso fazer o universo caber nestas palavras, porque tu jogas ao alto
qualquer roteiro escrito talvez por Tarantino. E o mundo inteiro cabe ali. Não há modéstia em teu encanto. Uma deusa
oriunda do século vinte e um com atributos humanos. Embora viva num plano mais alto que o nosso, não demonstra
arrogância alguma. Contam que a maior das estrelas – A qual inundou de luz a terra –, coabitava aqui. Ainda que salva de
todas as enfermidades e desonras humanas. Tu és uma estrela velha que morreu. Morreu para virar supernova e cingir o
Universo – E, quem sabe, os multiversos, com teu brilho. Pereceu para viver e nos banhar de luz. Pois até o ferro que jaz no
meu sangue provém de ti. E tu, mãe das coisas que tem vida.
Ah, o que é viver sem tua presença! A vida é uma conjectura avelhantada escrita por alguém com tamanho tédio, senão
por um momento de involuntária lucidez. Só eu sei e sofro por não ter te agarrado e fugido para-além de tudo e do
intransponível, marquesa do século talvez dezenove; colossalmente longínqua. Antiquíssima bem como o sopro da vida.
Dândi rainha nascida na modernidade. Destoa até mesmo do tempo, que parece submisso à sua impávida influência sobre o
espaço. A minha causa é a causa do nada, disse Goethe. Pobre Goethe. Nossa causa e feito és tu. Já bateram ao peito
hipotético proferindo que o amor é biológico. Espinosa disse, certa vez, que o único amor eterno é o intelectual. Se vivo
estivesse, diria com igual voz: o que é o amor ao saber, senão um adorno para o amor metafísico? O amor pleno. Dizer que
perdi minha razão de homem orgulhoso nas envolventes ondas do teu mar, é não mentir; perdi também minhas ideias, e, por
isso, escrevo esses vocábulos tortos; despido de tudo. Acentuar o carinho de uma viagem metafísica que tenho por ti, é
pleonasmo do amor. Eu me rendo. Devora-me como faz com chocolates e outros encantos! Faz de mim parte do teu âmago
que proteges! Deixe-me mergulhar no mar dos teus cabelos. Sentir, literalmente, tua aura pairar sobre o céu azul que mascara
nossa ilusionaria autoimportância. Confrontar-te, é confrontar-me. É medo. É ódio. É pureza. São vãos... E esta mixórdia de
sentimentos me fazem esquecer, lembrar... E teu nome declamam aqui, acolá. Mas tudo têm de ser assim. Assisto ao meu
maior desejo tonar-se também meu maior capataz. Um gênio torturador a viver na minha consciência.
Tudo em minha vida foi se tornando corriqueiro.
Eis que me aparece a literatura! Que arquidemônio me escondeu esta portentosa arte? Difícil dizer, assim como disse
para suas malas: "hei de existir independentemente dela!", não, Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)? A literatura me
proporcionou viver todas as minhas quimeras. Se vivi e morri tantas vezes, por tudo, te sou grato. Ai, meu Deus! Fui tantas
coisas! E há tanta coisa querendo ainda acontecer, que não pode haver tantas... Fui um desolado soldado em plena Guerra do
Vietnã, suplicando por uma morte rápida. Fui um judeu inconsolável a escutar os capatazes alemães contar como foi
gratificante trucidar sua família. Fui um Dândi parisiense que ostentava de mulheres luxuosas, enquanto filhos eram tirados,
por força, de suas casas, para defendê-los numa guerra cujos motivos eram mantidos às sete chaves. Fui um revolucionário
comunista, também um contumaz defensor capitalista. Fui, em minha amada terra, um separatista gaúcho, a velar por
liberdade. Não te enganes, a minha literatura és tu. E no dia em que pensar em amar-te menos, será meu último dia. Ai, teus
galantes olhos que são um convite para adentrar teu paraíso. Tem um quê fantasioso que aguça minha realidade. É o éden das
minhas esferas negras e ávidas.
Sublime, calcula pé ante pé mesmo os passos mais seguros. Não tê-la, é sobreviver a mim mesmo. O vazio que inundou
meu peito de insegurança, resiste à sombra da tua falta. Cheio de tudo, vazio de ti. Constato que, quando não te vejo, não vejo
nada. Percorrer teu rosto radioso como uma chuva de meteoros cintilantes que antecedem um doce alvorecer, é o que finda
inquietações danosas à minha mente privada de ti. As constelações estampam tua imagem mais leal e arrebatadora. Formam
um mosaico cinzelado com a luz que emana da mais densa e ruidosa das estrelas. Quisera eu, escrever com minha literatura
pobre este pomposo amor no livro brando dos romances eternos. Não só marcar, também molhar e incendiar a história.
Partilhar, bem como fizeram os sábios de outrora. Fazer dos teus gestos, poesia. E os teus lábios que desejei e sequer toquei,
governa o destino que nem mais sei se é certo. E não, não há explicação plausível para tudo isto. Matei meu ceticismo. E, ao
final de tudo – Que tal vez fosse nada, morreria de qualquer forma, como estou a morrer constantemente nessa cidade quieta e
vazia.
Acordo com grandes aspirações, no entanto, levanto da cama, e o mundo é opaco e dolorosamente alheio. O tempo dá
sustentação às fúteis expectativas, e ambos se cultivam. Tudo que me envolve é repleto de um deserto que ulula dor aos meus
ouvidos e empoeira meu peito. Hoje, me encontro estático, como quem sonhou e esqueceu. O que faz-me lembrar, é assistir
teus passos levitar em minha direção, mesmo que o alvo seja outro alguém. É ouvir tua voz cautelosa e elegante; é ver teus
olhos detrás de tuas lentes. Fazer-me vento e sentir a suavidade do teu cabelo. Tocar tua pele serena, nem que seja para ver-te
sonhar. Em figura humana, tu é carne, osso e alma que despontam uma envolvente criação. Numa linha temporal tão remota
que nem o infinito comporta, tu e eu sonhamos como duas crianças tolas. Alheios a tudo e a todos. Pois não há nobreza neste
imperceptível e pálido ponto azul chamado Terra, senão o amor. Seja ele qual for. Suspenso em nossa sutil concepção de
Universo. Esta talvez seja a maior necessidade do homem: mesmo que negue veementemente!
Meu tio, cheio de seus aforismos fortuitos, sempre dizia-me: “Lucas, quando um grande amor aparecer na sua vida,
lembre-se desta história. Não a deixe escorrer por suas mãos. Se há algo grandioso neste mundo pelo qual deve ser lutado, é
um grande amor.”
Ele morreu, e, desde então, minha vida ficou seca. Até, é claro, o advento da tua aparição. Como queria dizer a ele que li
todos os livros do seu Érico Veríssimo! Que orgulho ele me teria!
Querida, sonhei tantas vezes com nós cingindo o mundo com nossas almas quietas e grandes. Explorando o vácuo do
mundo e seu dinamismo sem fim. Mostrar, enfim, para os jovens amadores, que o telescópio é só a porta do paraíso, e não o
mesmo. Faria para ti, um cinturão, não de asteroides, mas de galáxias inteiras; faríamos inveja aos aqualoucos, banhando-nos
com toda a energia cósmica. Presenciaríamos as fusões termonucleares na lúdica mistura elementar. Buraco negro algum teria
forças para nos sugar; e assim colocaríamos um toque de quietude no caos infindável do Universo visível e material. E não
mais seríamos escravos cardíacos das belezas, como também faríamos parte delas. Mas isto, uma pena, ficará num pretérito
indefinido. Nem Romeu nem Julieta. Somos nós, um Universo para-nós-mesmos. Porque tu és a única verdade absoluta que
aceito. Olha que religião ou qualquer filosofia não doutrinam mais que teus lábios cantantes. Teus lábios rindo estilhaçam
qualquer hegemonia. São música para os meus ouvidos e calma para minha alma. E o que tu fazes, deus-homem nenhum
desfaz. Resta, a nós, a cômoda condição de assisti-la.
É doloroso ver-te passar por mim, como o vento assanha as copas das árvores e não olha para trás. É corrosivo. Mata-me
palmo a palmo; até que não reste senão cinzas de mim. Meu coração, tão jovem, parece longevo e cansado como se estivesse
para morrer e não tivesse mais ternura pelas pequenas coisas. Esses dias têm ficado cheios da minha apatia. Pobre da minha
alma humana. Dias de quimeras frias; dias quentes que me gelam a espinha de tão vagos. Debruçado sobre pilhas de poemas
que exaltam a dor em versos, faço de mim cada estrofe. Como um rio que deságua no mar, em ti, cada palavra ganha vida.
Cada verso, cada estrofe, vive. Não em hologramas ou sei lá o que moderno.
Deleitas em tua alma, porque a ti conheces. Apraz em ti, porque tens uma alma celestial! Tu que veio, que é, e sempre será
a ocupação mais pura e inocente da minha mente. E, quando as cortinas do meu pensamento se fecham, a ideia de que o
mundo é um lugar cuja finitude é irrelevante, desponta-se deveras aprazível. Pergunto-me, às vezes, por que me apaixonei por
ti. A resposta que me ocorre é deliciosamente plausível e assustadoramente real. O que sentia Beethoven ao estar diante do
imponente Piano? Para mim, representa tão somente, teclas arranjadas perfeitas e uma madeira possivelmente extraída de
algum Pais no Sul da África. Diz-me qual sensação abastava de ternura o coração de Michelangelo ao passo que pintava de
tal forma única suas telas? Que escrúpulos ou dúvidas tinha Einstein, ao resolver suas equações? Sinto, hoje, o que nenhum
desses homens jamais conjecturou sentir. Não me tenha como covarde, as palavras são a forma com que encontrei para te
dizer o que sinto. E, não tens ideia do trabalho que tenho para tornar isto simples. Poderia pedir teu amor, mas hesito, sabendo
já a resposta. Não penses que me engano! Leio em teus olhos que não tem por mim o amor que tenho por ti. Seria a maior
presunção achar. Tenho medo de saber que homem sou em teu coração: nada ou insignificante! - Penso eu. Tudo isto fruto da
minha velha angústia e do amor que nutro pelas coisas que tem existência calma. Pediria, também, que honrasse-me com um
jantar à meia-luz em um dos restaurantes suntuosos da terníssima Veneza; quem sabe, se te agrada, uma bebida num dos pubs
ostentosos de Londres; White Hart seria uma ótima pedida. Se perguntar-me qualquer coisa sobre Michelangelo, saberei te
responder, porque li muito acerca. No entanto, trocaria todo este conhecimento por uma visita à Capela Sistina contigo. Ah,
destruiríamos um mundo! Os museus se tornariam salões para dançarmos o passado. E contigo, viagens temporais sairiam da
nuvem negra dos boatos, e se tornariam minha mais louca realidade! Destarte, peço-te nobremente, que apenas continue a ser
este Ser indizível ao meu pobre vernáculo.
Eu cresci, por influência fortuita de meus tios, à sombra da melancolia de Byron, do terror tentacular de Lovecraft, da
Fantasia de Tolkien e submergi na solidão de Gabriel García Márquez. Questionei-me, enquanto ser, nas filosofias de
Espinoza, Kant e na dialética de Hegel. E tenho feito filosofias em clave que nenhum deles fez. Inútil. Saboreei poemas de
Rimbaud e Rilke; epopeias de Homero e Hesíodo. Ri junto às anedotas de Voltaire. Tanta confusão à minha porta batia ao
falar de Shakespeare e Chaucer; sempre preferi Charles Dickens e Cervantes. Ah, e a literatura brasileira. Esta sim, das
grandes! Horror de Poe nenhum me põe mais temor que viver com tua falta. Tanta força fazia para venerar com igual
entusiasmo, Dostoiévski. Mas, russo sem igual era mesmo Liev Tolstói. Adoro as elegantíssimas obras de Van Gogh e
Michelangelo, mas opto pela pluralidade de Leonardo Da Vinci. Ainda assim, me descobri apenas detrás das tuas lentes. No
teu olhar que reflete o que vale a pena ser arriscando e vivido neste mundo. Há mais brilho nos teus olhos que nas bilhões de
estrelas que despontam ao anoitecer, e morrem no alvorecer pulsante. Digo a ti, sem titubear, que literatura nenhuma narra
melhores histórias que teu riso. Romance algum me envolve mais que teus cabelos. Conto nenhum é mais sucinto que um
momento ao teu lado; e não há novela mais labiríntica que teu coração. Que chato seria um mundo repleto de eruditos
pedantes. Cheios de seus existencialismos e propagação do óbvio. Usando de um erotismo barato de quem tem muito a
aprender com Sade, e romantismo tacanho de quem só leu Goethe, e olhe lá. Que me perdoem os cânones literários, mas suas
mentes não teriam forças para te conceber.
É estranho e maçante ouvir de um incógnito ser-nenhum que te ama, eu sei. Preferível, quem sabe, ouvir de quem se tem
alguma afinidade. Mas, sou eu, o que nasceu e ninguém notou. A estrela que virou um planeta morto e neutro. Sou eu, e
talvez sempre serei esse vácuo inexplorado; cercado por semideuses; abstrato aos teus olhos e ausente para-mim-mesmo
como um fósforo frio e riscado. Gritando sem ninguém para ouvir. Eu, que não acreditava em nada, fui, por ti, engajado. Eu,
que tantas vezes me enganei tentando te esquecer e detestando-me só de ter meditado tal hipótese. Tenho lutado. Mas, como
deixar de lado o sentimento mais puro e arrebatador que já me ocorreu? É uma luta na qual eu não quero vencer. Sou eu, o da
casinha no fim da rua, ainda que não more nela. Sou eu, o que tem dentro de si todos os sonhos do mundo.
Te escrevi no dia do seu aniversário, porém, não tive força para entregá-la. Escrevi também noutras oportunidades, mas
hesitei por receio de ser ignorado. Escrevo um livro, se preciso. Agora, nada mais importa. Falhei em tudo. Fui imprudente e
presunçoso. Nem que me metamorfoseasse e criasse uma máquina temporal, conseguiria alcançar-te. Digo meu adeus em
prantos. Meu peito sofre com precocidade, sinto que, talvez, não resista a isto. O que será de mim? Serei mais uma alma
confusa e torturada por um futuro que escapou às minhas mãos? Minhas manhãs perderão o fascínio. Minhas madrugadas
serão nulas e minhas tardes gélidas. No entanto, diviníssima, meu pensamento sempre estará com você. Guio-me, agora, pela
morte em vida que me espera. Nem o físico, nem o metafísico. Nada me conforta. Farei de mim um feixe pequeno de luz. Lá
no céu, no alto céu, continuarei a contemplá-la.
Partirei. Que fazer aqui? A conversa que se aligeirava cotidianamente começa a ficar um tanto maçadora. Alguns me
tratam da melhor forma possível, mas isto por si não me apraz. São pessoas de espírito, mas de um espírito completamente
vulgar e trivial. Isso pode soar como empáfia, mas suas conversas não entretêm mais que um bom livro. Partirei; e não te
ponho como conhecedora da situação, por ter esperanças ou qualquer outra coisa; mas pelo não tão simples fato de que seria
devastador ver-te partir antes de mim. E cá estou, despedindo-me do meu grande amor. Infelizmente, não se pode forçar uma
pessoa a gostar de outra. Nem se eu pudesse o faria. Talvez eu tenha posto mais fantasia que realidade em minha vida. Talvez
eu tenha me enganado. Talvez eu tenha vivido um filme por dentro, e descido pelas janelas da realidade. Estou ancorado num
porto de meios-termos. Terei de ser temerário para, mais uma vez, transcender estes tapumes que eu mesmo me impus. Mas
isto não compete ao que sinto por ti. E faço disto meu escudo. Intransponível. O preço a pagar por isto tudo, é muito alto.
Desistir talvez seja a maior de todas as coragens. Já senti a dor de tantas despedidas.
Calar-me-ei por um tempo! Deixarei estas toneladas de poeira que me apresentaste, baixar. Deus, Júpiter, humanidade!
Por que tu não ficas eternamente sob minha vista? Mas, esta é boa! Que arrependimentos eu hei de ter? Sei de tanta coisa,
mas não consigo sequer responder tal questão. Sei que se pergunta como posso ter esta adoração por ti. Digo apenas que são
axiomas alimentados por uma mente nada criativa, mas muito analítica e taciturna.
Hoje, és para mim, não um objeto carnal parte da terra, mas um abrigo. Anseio que meus sonhos sejam generosos e te
tragam todos os dias até mim, porque as noites não serão suficientes. Ouço uma música de fundo se aproximar... Música sem
som algum, porque não é música, é saudade. Eu preciso da solidão. Necessito dessa morte não falada. Dessa literatura
invisível chamada dor. Essa é minha essência. E você, só você sabe do que necessita. És livre. És segura, confiante e
incrivelmente cheia de vida. És solene. Completaste há pouco tempo mais um ciclo em sua vida, e é tão vivaz e única. Todos
os elogios que me ocorrem, são singelos. És tu. A suma inspiração do meu ser. Estimo-te verdadeiramente. Minha pobre alma
fica altiva perto de ti. Vivi durante este tempo, a ternura da alma verdadeira. Coisas que só via aos longes. Vi também o
infinito, porque este só é visível à luz do amor, e só o enxergamos até onde chega nosso coração. Sentirei falta de ver-te andar
pelos corredores do Centro de Treinamento. Lá, você sorria, enchia meu tempo de vida, minha vida de dia e meus dias de
amor. Não poderia estar mais inquieto, sem disposição e ideias. Até os livros estão a fazer-me pregas na alma! Minha
escrivaninha agora coexiste no lado direito do meu peito. O instante mais feliz dos meus dias, era quando chegava primeiro
que você no C.T e ficava te esperando. Quando chegavas, o que eu sentia transcendia a liberdade da felicidade. E tu jazia
como uma imperatriz prodigiosa naquele canto que só existia quando estavas lá. O restante do dia, a tristeza, impiedosa, me
acometia. Não obstante, “ostra feliz não faz pérola”, disse Rubem Alves, com muito calho. Agora, o sol adentra e revela a
poeira característica desse lugar velho, a qual chamei de lar. Tudo o que desejar, pode vir a ser. E serás, eu sei. Prometi a mim
mesmo que sondaria novos horizontes, faria novos caminhos. Foi dito com muito acerto que só é digno da felicidade quem a
busca todos os dias. Algumas vezes, você me entristeceu sem o saber, mas são incontáveis as vezes que me fizeste um bem
extraordinário. O meu maior temor é que o tempo um dia leve todas as lembranças que tenho de ti; que apague todos estes
pensamentos que venho, há muito, guardando só para mim. Farei de ti um quadro de imagens sucessivas e abstratas; assim
você ficará eternamente em minha arte. Vou te cultivar no meu jardim de papel. Um dia minha alma reencontrará a quietude
tirada de mim, na tua. Fique bem, e então, ficarei muito melhor. Ainda que além…

Au Revoir, Noite-rainha!