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Nicolau

Sevcenko
A CORRIDA PARA
O SÉCULO XXI
Copyright @ 2001 by Nicolau Sevcenko
Projeto gráfico e capa:
Angelo Venoso

Ilustração da capa:
Oetoffie do seqüenciamento genético
da bactéria Xylella fastidiosa {amarelinho],
realáado por cientistas brasileiros com apoio da Fapesp

Pesquisa iconográfica:
Ü7st/na Carletti
Preparação:

Bione de Abreu Moturano Santoro

Revisão;
Ana Maria Barbosa
Ana Mario Alvares
Copyright e 2001 by Nicolau Sevcenko
Projeto gráfito ecapa;
Angelo Venosa

Ilustração da capa:
Detalhe do segúenaamento genétíee
do bactéria Xylella fastidiosa [amarelinho),
realiiodo por cientistas brasileiros com apoio da Fapesp

Pesquisa iconográfica:
Cristina Coriettí
Preparação:

Biane de Abreu Maturono Santoro

Revisão:
Ana Maria Barbosa
Ana Maria Almres
Irxlice para caiMogo sisiematico;
1. ClvIUzacdo contemporinea: Hbtória 90042

CMor tnKnudonals de Caulssacio ne Publka(Jo (<»)


09dps
(Omaralnt«rndcÍondis
erasileírade
doCatelogaçâo na Publkaçâo {OP)
livro, SP, Brasil)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
SevcenkoNicolau
Sevcenko, Nicolaupare o s4ciilo XXI: no kxrp de rtwnanlievussa I
A corrida
NkotauA Sevcenko;
corrida paracoordenecBo
o sécuk) XXI:
Laurano de
loopMedo
dd monUnha*russa
e Souza, Ufa/
Vai com este livro uma homenagem ao Dinwiddie Coloured
IdoriD
Nkolau SdnoRz.
Sevcenko —; coordenação
Sto Pauto: Laura
Companhia 2001Lilia
das eUnsSouza,
de Melto .—
Quartet, o grupo que, há exatos cem anos, gravou o
Morítz Schwara. — Sâo Paulo: Coraparthia das Letras, 2001. ^
<Virandosénitos;71
(Virando séculos; 7)
primeiro disco de música autentica mente negra, abrindo o
ra>i<S.3S»40»2-«
tSBN85-35»<»02-6 caminho para uma mudança decisiva da sensibilidade no
1. Brasil - Historia - Sdculo 20 2. CtvdizasBo moderrsa -
SOculo1.20
Brasil - HIstdria
i. SOcuto 211.> Souza, 20 2de. Civilização
Século Laura moderr>a
Medo ei.Schmrcz. Ulia- século
20 3. Século
Século■.TTiuto.
Morttz. 211. Souza, Laura de Mello e. ii. Schwarcz, ülla
ni. Sdrte.
Moritz.)ii.T(tulo. IV. Séfle. que passou e prenunciando o sonic boom do XXI.
0I43S2 aD-909,B2
01-0352 ax)-909.S2

Indke para caréloço sisremáticoí


1, CMIiaa0o concerr^orârtea: História 909.B2

2004

Todos os direitos desta edição reservados ã


EDITORA SCHWARa LTDA.
Rua Bandeira Paulista, 702, cj.32
04532-002 — São Pauio — SP
Teiefone:{11)3707-3500
Fax:(11)3707-3501
www.companhiadasletras.com.br
iMTROOLÇiO

Emoções na montanha-russa
A corrida do século XX
A síndrome do loop e a critica

I Aceleração tecnológica, mudanças


econômicas e desequilíbrios is
^^
A Segunda Guerra como marco divisor

A era da globalização
A desmontagem do Estado de bem-estar social
Capitalismo sem trabalhadores, sem Estado
e sem impostos
O Adão e a Eva da ordem neollberal Vai com este livro uma homenagem ao Dinwiddie Coloured
0 presentlsmo e o imperativo da responsabilidade
Quartet o grupo que, há exatos cem anos, gravou o
O retorno do colonialismo: a desigualdade se
aprofunda primeiro%
disco de música autenticamente negra, abrindo o
O FMI, 0 Banco Mundial eoTerceiro Mundo caminho para uma mudança decisiva da sensibilidade no
Crítica, luta humanitária e ação em
escala global século
que passou e prenunciando o son/cíioorn do XXI,
II Máquinas, massas, percepções e mentes
Mudanças tecnológicas e transfiguração do
cotidiano: tempos modernos
Dos olhos às mentes: designers do século XX

A indústria do entretenimento e a
sociedade do espetáculo
Da ditadura publicitária à pop art
A Revolução Microeletrõnlca e o
Motim deTompkIns Square

2004 III Meio ambiente, corpos e comunidades

O assalto h natureza
Todos os direitos desta edição reservados ã
O principio da precaução
EDITORA SCHWAHa LTDA.
A engenharia genética e o pesadelo da eugenia
Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32
Esportes, corpos e máquinas
04532-002 — São Paulo — SP Da Sagração da primavera á consagração da
Telef6ne:(11)3707-3500 música negra
Fax: (11 >3707-3501 Sonic boam e tecnopaganismo
WHrw.companhiadasletras,comi)r O teatro-dança e a revolta sensual
Imagolatria: a engenharia do imaginário social
0 declínio das cidades e a espetacular
ascensão dos museus
A ética e a estética das ruas do século XXI INTRODUÇÃO

Notas

Procedência das ilustrações

Emoções na montanha-russa i. CENA DE "THIS IS


CINERAMAI",

Uma das sensações mais intensas e per- B£ 1952,0 PRIMEIRO


FIIME A USAR O SISTEMA
turbadoras que se pode experimentar, neste
COMBINADO DE PROJEÇÃO
nosso mundo atual, é um passeio na monta- PANORAMICA E SOM

ESTEREOFÔNICO.
nha-russa. Só não é nem um pouco recomen-
dável para quem tenha problemas com os ner-
vos ou 0 coração, nem para aqueles com 0
sistema digestivo sensível. A própria decisão
12
14 «mooufiio
IKIK)l)U(AO iHmoDuqio 13
Mnoouçto IS

nos impede de suspeitar das in- massa energética em espasmo crítico, uma síndrome viva de verti-
de entrar na brincadeira já requer alguma coragem, a gente sabe que
permitindo-lhes impor uma hegemonia apoiada na idéia de uma
tenções de quem inventou essa gem e pavor, um torvelinho de torpor e crispação. É o caos, é o fim, é
a emoção pode ser forte até demais e que podem decorrer conse-
vocação inata da civilização européia para o saber, o poder e a acumu-
traquitana diabólica. 0 nada. Até que chega o solavanco de uma nova subida, não mais pre-
quências imprevisíveis. Entra quem quer ou quem se atreve, mas
lação de riquezas. No século XIX essa convicção otimista seria expres-
sabe-se também que muita gente entra forçada por amigos e pessoas cisa e reconfortante como a primeira, agora mais um tranco que atira
sa pela fórmula "ordem e progresso" significando que a difusão e
A corrida do século XK a gente para diante e para trás, um safanão curto e grosso que ao
queridas, meio que contra a vontade, pressionada pela vergonha de
assimilação paulatina e sistemática dos valores da cultura européia
manifestar sentimentos de prudência ou o puro medo. Mas,Essa
uma imagem
vez menos dá a sensação de um baque de volta à realidade.
conduziriam o mundo a um futuro de abundância, racionalidade e
que se entra, que se aperta a trava dedasegurança
montanha-e a geringonça se Tolo engano: novo mergulho fatal, desta vez oscilando para a
harmonia.
põe em movimento, a situação se torna irremediável.
russa, com todosBate um frio na
os exageros direita e a esquerda, como se a gente fosse entrar em parafuso. O
A segunda é a fase em que num repente nos precipitamos numa
barriga, o corpo endurece, as mãos cravam
que elanas alças dopresta-se
comporta, banco, abem
res- corpo se esmaga contra a barra de segurança, que a essa altura pare-
queda vertiginosa, perdendo as referências do espaço, das circunstân-
piração se torna cada vez mais difícil para
e forçada,
indicaroalgumas
coração das
descompas-
ten- ce vergar como um galhinho verde e frágil, o mundo ao redor se pre-
cias que nos cercam e até o controle das faculdades conscientes.
sa, um calor estranho arde no rosto edências
nas orelhas, ondas de arrepio
mais marcantes do nos- cipita em avalanche contra nós, se vingando do olhar arrogante com
Poderíamos interpretar essa situação como um novo salto naquele
descem do pescoço pela espinha abaixo.
so tempo. Para isso dividamos a que ainda há pouco havia sido menosprezado. Suor frio, completo
processo de desenvolvimento tecnológico, em que a incorporação e
2. *É COMO UMA
A primeira fase até
experiência
que é tranqüila,
descritaa acima
coisa se
empõe
trêsa partes.
subir num
A pri- descontrole sobre as secreções e os fluxos hormonais, lágrimas espon-
CORRIDA DE aplicação de novas teorias científicas propiciaram o domínio e a
ritmo meira
controlado, seguro, é a da ascensão
previsível. A gente vaicontínua, metódica oe per-
se acostumando, tâneas, baba viscosa que começa a espumar nos cantos da boca, os
MONTANHA-RUS$A
exploração de novos potenciais energéticos de escala prodigiosa. Isso
PARA O ESPIRITO.'
corpo sistente
começa a distender, aos que, na está
poucos medida mesmavai
gostando, emachando
que nos o olhos saltam das órbitas, todos os pêlos do corpo de pé, espetados
POSTER DE 1978 DO
ocorreu ao redor de 1870, com a chamada Revolução Científico-
máximo ver primeiro o eleva,
parque,assegura
depois onossas
bairro, expectativas mais
depois a cidade oti-
toda como agulhas.
ARTISTA TRANCES FOLON Tecnológica, no curso da qual se desenvolveram as aplicações da ele-
de
PARAuma
O THE Nperspectiva
EW SCIENCE mistas,dominante,
superior, nos enche se
de estendendo
orgulho pelaao
proeminên-
infinito. Mais um tranco seco e uma subida aos solavancos. Nem um ins-
tricidade, com as primeiras usinas hidro e termelétricas, o uso dos
MUSEUM OF MINNESOTA,
Aquilo é ótimo, a gentecia
se que atingimos
sente e de
feliz como menoscabo
nunca, pelos
poderosa, nossos
sobre- tante e já mergulhamos no precipício outra vez. Agora o carro chacoa-
derivados de petróleo, que dariam origem aos motores de combustão
voando olimpicamente semelhantes,
a multidão de que vão se apequenando
formiguinhas na exata
hiperativas se lha para os lados e arremete em curvas impossíveis, é total a certeza de
interna e, portanto, aos veículos automotores; o surgimento das
proporção em que nos agigantamos. Essa
mexendo sem parar tá embaixo, presas em suas rotinas, ocupaçõesfasee que aquilo vai voar dos trilhos, catapultado pelo espaço até se arre-
indústrias químicas, de novas técnicas de prospecção mineral, dos
pode nos
movimentos triviais. A subida representar
continua o periodo
sem parar, que vai,
no mesmo mais ou
ritmo bentar longe dali. Outro baque de subida, nem o tempo de piscar e a
altos-fornos, das ^ndições, usinas siderúrgicas e dos primeiros mate-
menos, do século XVI até meados do XIX, quan- queda livre que enche as vísceras de vácuo e faz o coração saltar pela
consistente, assegurado, forte; descobrimos que o céu aberto é sem
riais plásticos. No mesmo Impulso foram desenvolvidos novos meios
do as elites da Europa ocidental entraram nu- boca. E agora, meu Deus, o loop...! Aaaaaaaahhhhhhhh.............!!!!! Ro-
limites, bate uma euforia que nos faz rir descontroladamente, nunca
de transporte, como os transatlânticos, carros, caminhões, motocicle-
ma fase de desenvolvimento tecnológico que
havíamos imaginado como é fácil abraçar o mundo; estendemos os damos no vazio como um ioiô cósmico, um brinquedo fútil dos ele-
tas, trens expressos e aviões, além de novos meios de comunicação,
lhes asseguraria o domínio de poderosas forças
braços, estufamos o peito, esticamos o pescoço, fazemos bico com os mentos, um grão de areia engolfado na potência geológica de um
como 0 telégrafo com e sem fio, o rádio, os gramofones, a fotografia,
naturais, de fontes de energia cada vez mais
lábios para beijar o céu e... maremoto. Nada mais nos assusta. Ao chegar ao fim, desfigurados,
0 cinema. Nunca é demais lembrar que esse foi o momento no qual
potentes, de novos meios de transporte e co-
...e de repente o mundo desaba e leva a gente de cambulhada.É descompostos, estupefatos,já assimilamos a lição da montanha-russa:
municação, de armamentos e conhecimentos surgiram os parques de diversões e sua mais espetacular atração, a
0 terror mais total. Não se pode nem pensar em como fazer para sair compreendemos o que significa estar exposto às forças naturais e his-
especializados. montanha-russa, é claro.
dali porque o cérebro não reage mais. 0 pânico se incorpora a cada tóricas agenciadas pelas tecnologias modernas. Aprendemos os riscos
Essa situação privilegiada haveria de lhes Na passagem para o século XX, portanto, o mundo já era pratica-
célula e extravasa por todos os poros da pele. Não é que não se consi- implicados tanto em se arrogar o controle dessas forças, quanto em
garantir a conquista de enormes dimensões do mente tal como 0 conhecemos. O otimismo, a expansão das conquis-
ga pensar, não se consegue sentir também. Nos transformamos numa deixar-se levar de modo apatetado e conformista |X>r elas. 0 que não
globo terrestre, de suas populações e recursos. tas européias e a confiança no progresso pareciam ter atingido o seu
1( INTMDV(ÂO IHIROOU(AO 17
18 IXTRODIlÇiiO INTRODUÇÃO 19

ponto mais alto.E então,num repente inesperado, veioé okritéríon,


grego mergulho nosão os fundamentos relativos
que imprevisível,
aos valoresirresistível
mais e incompreensível. Sendo assim, sentindo-
vácuo, 0 espasmo caótico e destrutivo, o horrorelevados
engolfoude
a história: a
uma sociedade, nosdos
em nome e em função incapazes
quais osdejuí-
prever, resistir ou entender o rumo que as coisas
irrupção da Grande Guerra descortinou um cenário
zos eque ninguémsão feitos, os julgamentos são conduzidos
as críticas tomam, tendemos a adotar a tradicional estratégia de relaxar e gozar.
e as deci-
jamais previra. Graças aos novos recursos tecnológicos
sões são produziu-se Deixamos
tomadas. Daí se conclui que uma comunidade quepara pensar
perca sua nos prejuízos depois, quando pudermos. Mas o
um efeito de destruição em massa; nunca tantos morreram crítica
capacidade tão rápi-
perde junto sua identidade, vêproblema é exatamente
dissolver-se sua esse; no ritmo em que as mudanças ocorrem,
do e tão atrozmente em tão pouco tempo. Essasubstância
escala destrutiva iné-
espiritual provavelmenteoutra
e extraviar-se seu destino. Curiosamente, nunca teremos tempo para parar e refletir, nem mes-
dita só seria superada por seu desdobramento das
histórico, a Segunda
derivações mo para
da paiavra grega em questão é krisis, reconhecer
significando o o momento em que já for tarde demais.
Guerra Mundial, cujo clímax foram os bombardeios
vácuoaéreos de varre-que se estabelece quando os critérios que orien-
desorientador
dura e a bomba atômica. Após a guerra houve tamumaosretomada do alguma calamidade histórica, política ou natural, se
juízos, por
desenvolvimento científico e tecnológico, mas já era patente paraabolidos ou anulados. A sindrome do loop e a crítica
vêem suspensos,
todos que ele transcorria à sombra da Guerra Fria, daNeste
corrida arma- tumultuoso,em que a celeridade das
momento mudanças
A intenção deste texto é tentar contribuir para que isso não
mentista,dos conflitos localizados nas periferiasvem
do mundo desenvol-
sufocando a reflexão e o diálogo, mais que nunca
ocorra,é ou
imperativo
seja, para que, aturdidos por esse efeito desorientador de
vido, dos golpes e das ditaduras militares no chamado Terceiro
investir nas Mun-
funções judiciosas, corretivas e orientadoras da crítica.
aceleração extrema, não nos sintamos dispostos a ceder, desistir e nos
3. PROTESTO DIANTE DA
a critica, mas a sindrome dodo.Quaisquer que fossem os avanços, o que prevalecia
loop.que emudece Para issoera a sensação
é necessário adotar uma estratégia baseada
conformar
em três
commovi-
o que der e vier. Chamemos esse efeito perverso pelo
SEDE DA COMPANHIA

PETROLÍFERA SUNCOR, a voz da crítica, tornando ade um apocalipse


técnica surda à iminente. mentos distintos. O primeiro consiste em conseguirmos despren-
qual a precipitação das transformações tecnológicas tende a nos sub-
EM CALSART, CANADA, A terceira
sociedade. Com isso perdem ambas. Como fase
já na nossa imagem da montanha-russa é a do
der-nos do ritmo loop, das mudanças atuais,meter
acelerado a fim adeuma
obter
anuência
uma passiva, cega e irrefletida, de sindrome do
CONGRESSO
DURANTE O
a síncope final e
falamos um pouco da técnica, vamos conside- definitiva, o clímax da aceleração precipitada, sob
posição de distanciamento a partir da qual possamos
loop.articular
Se assim umfor, digamos que este livro tenta elaborar um programa
MUNDIAL DE PETRÓLEO,

EM JUNHO DE 2000. rar 0 caso da crítica, que écuja intensidade


também extrema relaxamos nosso impulso
dos mais de reagir, crítico
discernimento entre- que nunca conseguiríamos estabelecer
preventivo ase
essa
nosperversão típica da passagem do século XX para o
NOS TRASEIROS DOS
interessantes. gando os pontos entorpecidos, aceitando resignadamente ser condu-
mantivéssemos colados às vicissitudes das próprias
XXi.transformações.
É fato que não se pode prever o curso e o ritmo das inovações
MANIFESTANTES SE lE A

EXPRESS&O AMBÍGUA zidosdo


A paiavra "crítica" deriva atéverbo
0 fim pelo maquinismo titânico. Essa O
grego etapa representaria
segundo requer queo recuperemos o tempo da própria
tecnológicas,
sociedade,
mas a conclusão seguinte—de que também não pode-
“WlNDPOWER NOW'.
atual período, assinalado
krínein, que significa "decidir" Seu equivaiente por um novo surto dramático de transfor-
ou seja, 0 tempo histórico, aquele que nos fornece o contexto
mos resistir ano inte-
elas ou compreendê-las — não é verdadeira. Podem-se
mações,
em latim é cernere,que,além a Revolução da Microeletrônica. A escala
de"decidir"signi- dasqual
rior do mudanças
podemos avaliar a escala, a natureza,fazer
a dinâmica
muitas coisas
e os efei-
com a técnica, e graças ao seu incremento é pos-
desencadeadas a
fica também, como é fácil perceber,"discernir!partir desse momento é de uma tal magnitude que
tos das mudanças em curso, bem como quem são seus
sível beneficiários
fazer cada vez mais. Mas uma coisa que a técnica não pode fazer

Outras derivações gregas da fazpalavra


os dois são:
momentos
krités, anteriores parecerem projeções
e a quemem câmara
elas prejudicam. O terceiro movimento éseria,
abolirentão,
a crítica,
o depela simples razão de que precisa dela para descor-
lenta.
que significa "juiz"; kritikós (que por sua vez sondar o futuro a partir da crítica em perspectiva tinar
histórica,
novos ponderan-
horizontes. Os sistemas políticos que tentaram banir a crí-

deriva de krités), que se refere àApessoa


aceleração
capazdas inovações tecnológicasdo
secomo
dá agora numapode
a técnica esca-ser posta a serviço de valores
tica morreram,
humanos,sintomaticamente, por obsolescência tecnológica.
la multiplicativa,
de elaborar juízos ou proceder a juigamentos, uma autêntica reação em cadeia, de modo que em
beneficiando o maior número de pessoas. A crítica, portanto, é a contrapartida cultural diante da técnica, é

conciuindo por uma decisão,curtos intervalos


ou seja, de tempo o conjunto do aparato tecnológico
por uma vigen-em trés tempos não deve se 0
Essa reflexão limitar
modoaos
de interesses
a sociedade dialogar com as inovações, ponderando sobre
te passa
avaiíação judiciosa destinada por saltos
a orientar as qualitativos em que a ampliação, a condensação
das sociedades e das egerações atuais, mas levarseu
em impacto,
conta a sobrevi-
avaliando seus efeitos e perscrutando seus desdobra-

ações que dada comunidade a miniaturizaçâo


deve empreen-de seus potenciais reconfiguram completamente
vência o de vida também das gerações
e a qualidade mentos.
futurasA técnica,
— consi-nesse sentido, é socialmente consequente quando

der; outra óbvia derivação universo


do mesmo determo
possibilidades e expectativas, tornando-o cada
derando, vez mais
portanto, valores de longa duração como participação
dialoga com a crítica. O problema, assim, não é nem a técnica e nem
20 IMTRODUÇÁO INTRODUÇÃO 21

4. A CRISE MUNDIAL a percepção do tempo:ele também obscurece as referências do espa-


DE 1941,
ço. Foi esse 0 efeito que levou os técnicos a formular o conceito de
REPRESENTADA POR JU

SIMBOLISMO SINISTRO PELO globalização, implicando que, pela densa conectividade de toda a
CARICATURISTA ALEMiO
T. HEINE.
rede de comunicações e informações envolvendo o conjunto do pla-
neta, tudo se tornou uma coisa só. Algo assim como um único e
gigantesco palco onde os mesmos atores desempenham os mesmos
papéis na única peça em que se resume todo o show. Assistindo a
esse espetáculo a partir da nossa perspectiva brasileira — entretan-
to, com algum senso critico —, podemos concluir que ou a peça é
uma comédia tão maluca que não dá para rir, ou é um drama em que
nos deram o papel mais ingrato. Porque o fato é que as mudanças tec-
nológicas, embora causem vários desequilíbrios nas sociedades mais
desenvolvidas que as encabeçam, também canalizam para elas os
maiores benefícios. As demais são arrastadas de roldão nessa torren-
te, ao custo da desestabilização de suas estruturas e instituições, da
democrática nas discussões e decisões que di- exploração predatória de seus recursos naturais e do aprofundamen-
zem respeito a todos, distribuição eqüitativa to drástico de suas já graves desigualdades e injustiças.
dos recursos e oportunidades gerados pelas O lado mais perverso da história, portanto, é que, para um gran-
transformações tecnológicas, luta contra todas de número de pessoas naquelas sociedades e para uma porção signi-
as formas de injustiça, violência e discrimina- ficativa de seus sócios e aliados nestas, a síndrome do loop cai como
ção, e preservação dos recursos naturais. Esses uma bênção divina, pois lhes garante toda a excitação da correria
são os critérios para que se possa julgar critica- livrando-os, ao mesmo tempo, da responsabilidade de conjeturar
mente 0 presente, com sentido histórico e sen- sobre as conseqüências atuais e futuras desencadeadas por esse
so de responsabilidade em relação ao futuro. paradoxal trem da alegria. Como foi do lado de lá que ele foi inventa-
Se a síndrome do loop abole a percepção do do, é lá também que ficam os controles e o pessoal que o administra.
tempo, para enfrentá-la é preciso desdobrá-lo Nós,do lado de cá, temos portanto as maiores e melhores razões para
nos seus três âmbitos: presente, passado e refletir criticamente sobre os descaminhos da técnica.Talvez com isso
futuro. venhamos a lucrar todos, restituindo à sociedade a voz com que ela
Há uma última questão a considerar, par- possa declarar os limites da técnica.
ticularmente relevante. O surto vertiginoso das A situação parece crítica, mas quiçá não seja tarde demais. Segu-
transformações tecnológicas não apenas abole re firme na trava da sua vagoneta e tente se concentrar. Afinal, uma
24 CAPlruioi Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios CAPfmio ' Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios 2s
22 INTI10DU(i(0

intercalados pela Irrupção e transcurso da Segunda Guerra Mundial. Se o primeiro grande impulso para a transformação dos recursos
CAPÍTULO I
Na primeira dessas fases, prevaleceu um padrão industrial que repre- produtiV<^s foi a Revolução Científico-Tecnológica, o segundo surto foi
sentava 0 desdobramento das características introduzidas pela Revo- Acelíracm
catalisado pela corrida voltada para a produção e a sofisticação dos
lução Científico-Tecnológica de fins do século XIX, conforme indicado
na Introdução (p. 11).^ A segunda fase, iniciada após a guerra,foi mar-
tBCPõlígica,
equipaffi^otos desencadeadas pela Segunda Guerra Mundial. Para os
dois lados beligerantes, era uma realidade patente que, quem conse-
cada pela intensificação das mudanças — imprimindo à base tecno-
lógica um impacto revelado sobretudo pelo crescimento dos setores
aiaiaacas
guisse sU perar o oponente na concorrência tecnológica, contaria com
uma vantagem decisiva. Foi nessas condições que se desenvolveram,
de serviços, comunicações e informações —, o que a levou a ser ca- por exertiplo, os radares, a propulsão a jato, novas famílias de plásti-
racterizada como período pós-industrial. cos, políi^^''os e cadeias orgânicas,a energia nuclear e a cibernética.
Para se ter uma idéia da amplitude e densidade dessas mu- Corn 0 fim da guerra,os Estados Unidos se viram numa situação
danças tecnológicas, consideremos alguns dados relativos ao sécu- privilegiai^' como a mais forte, coesa e próspera economia mundial.
lo XX. Se somássemos todas as descobertas científicas, invenções e O governo americano coordenou um vasto plano de apoio para recu-
inovações técnicas realizadas pelos seres humanos desde as ori- perar as economias capitalistas da Europa ocidental,já no contexto da
gens da nossa espécie até hoje,chegaríamos à espantosa conclusão Guerra Ftia, concorrendo com o recém-ampliado bloco dos países
de que mais de oitenta por cento de todas elas se deram nos últi- socialistas-As agitações revolucionárias na Ásia, África e América Lati-
mos cem anos. Dessas, mais de dois terços ocorreram concentrada- na forçafi^m desdobramentos dos investimentos americanos tam-
5. 0 CARtOCA LEÕNIDAS das vantagens de se estar suspenso no loop é
mente após a Segunda Guerra. Verificaríamos também que cerca de
DA SILVA (1913-93), bém para essas áreas. 0 dólar americano se tornou a moeda padrão
que 0 sangue desce à cabeça, e isso é ótimo
QUE NA COPA DO MUNOO
setenta por cento de todos os cientistas, engenheiros, técnicos e para as relações no mercado internacional, a ele se atribuindo uma
DE 1938 FOI CELEBRIZADO para pensar. Imagine que você é o Homem (ou
pesquisadores
PELOS FRANCESES COMO O
produzidos pela espécie humana estão ainda vivos consistência e estabilidade que evitasse crises como as dos anos 20 e
DIAMANTE NEGRO, CRIOU A
a Mulher) Morcego, repousando e restaurando
atualmente, ou seja, compõem o quadro das gerações nascidas 30. Beneficiando-se da sua condição de liderança, os Estados Unidos
JOGADA CONHECIDA COMO as energias pendurado no teto da caverna,
depois da Primeira
"BICICLETA VOADORA ". Guerra. A grande maioria deles, ademais, não patrocinariam tratados multilaterais, destinados a garantir a estabili-
PEIA PRIMEIRA VEZ NA
pronto para lutar contra as injustiças em meio
apenas
HISTORIA DO ainda
FUTEBOL vive, como continua contribuindo ativamente para a dade do5 mercados
A Segunda Guerra ecomo
a reduzir
marcopráticas
divisorprotecionistas eI.ViSTA
barreiras
DA CENTRAL
às trevas da noite. Ou que encontrou a luz
BRASILEIRO, A SELEÇAO
multiplicação e difusão do conhecimento e suas aplicações práti- alfandegárias,consolidando sua hegemonia. NUCLEAR OE CRLHS-MEYSSE,
DESSE ANO NÃO SOFREU numa sessão de ioga, meditando de ponta- O que distinguiu particularmente o sécu- EM ARDÊCHE, NA
cas. Essa
RESTRIÇÕES situação
QUANTO A transparece com clareza na taxa de crescimento 0 resultado desse conjunto de medidas foi um crescimento
FRANÇA. eco-
cabeça. Ou que está prestes a marcar um gol lo XX, em comparação com qualquer outro
dos conhecimentos técnicos, que desde o começo do século XX é de
ESCAUÇÃO DE ATLETAS nômico sem precedentes das economias industriais. Entre 1953 e 1975
A PARTIR DA SEGUNDA

NESROS. preciso de bicicleta, estufando a rede do adver- período precedente, foi uma tendência contí- METADE DO SÉCULO XX, O
treze por cento ao ano. O que significa que ela dobra a cada cinco a taxa de produção industrial cresceu na escala extraordinária
TEMPO ENTRE de seis
A DESCOBERTA
sário e enchendo o coração da torcida de ale- nua e acelerada de mudança tecnológica, com CIENTiFia E SIAAPUCAÇÃO
anos e meio. Alguns teóricos calculam que, em vista das novas pos- por cento ao ano. O crescimento da riqueza foi de cerca de quatro por
gria porque, uma vez mais, um ser humano efeitos multiplicativos e revolucionários sobre INDUSTRIAL TEM SIDO
sibilidades introduzidas pela Revolução da Microeietrônica,em iní- cento per capita em todo esse período. Mesmo com a crise do petróleo,
PROGRESSIVAMENTE
humilde e delicado como Leônidas conseguiu praticamente todos os campos da experiência
cios do século XXI essa taxa tenderá a ser da ordem de mais de qua- que atingiu e abateu os mercados entre 1973 e 1980, oREDUZIDO:
crescimentoFORAM
furar uma defesa reforçada por todas as vanta- humana e em todos os âmbitos da vida no pla- NECESSÁRIOS 36 ANOS PARA
renta por cento ao ano, chegando praticamente a dobrar a cada continuou, embora reduzido a cerca de dois e meio por 0cento
TELEFONEao ano,
E TRE o
S ANOS
gens do privilégio. neta. Esse surto de transformações constantes PARA OS CIRCUITOS
período de doze meses.^ que ainda era uma escala notável. Após os anos 90 a tendência ao cres-
INTEGRADOS, POR EXEMPLO.
pode ser dividido em dois períodos básicos.
CAPfruioi Aceleração tecnológica, mudanças económicas edesequiliTirios 2?
26 CAPfniLOi Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios

cimento foi retoma- bial, provocando um efei-

da, mais sujeita agora to de liberalização dos

às oscilações voláteis controles cambiais que

causadas pela intro- logo se difundiu para as

dução das tecnolo- demais economias de-

•na ti*l«ro>>*e era bu<aíkiie e Miiee


«.«whir* the tovníly í» s •c<Ptd
ipvtlilwliOO' (h«ldt«n lo<*, gias microeletrônicas senvolvidas. Essas me-
«•rW «H PMMM ' honop an^ ihoir potaiRti
,,,wkere o mo"'» hom« »• Hli
no mercado interna- didas geraram novos flu-
rf"i n yo>r «airl« * h Am«riro

cional. xos de capital que, ven-


AnerUe
O mais signifi- do-se agora livres dos

PCSrERES DE 1942 DE cativo, porém, com relação a esse período de controles e restrições an-
JOHN SIEUART CURRY , DE
pós-guerra, foi a excepcional expansão do tes exercidas pelos Ban-
UMA SÉRIE DESTINADA A

REFORÇAR OS VALORES setor de serviços, que em alguns países desen- cos Centrais, se voltaram para novas oportuni- 3. “CABEÇAS RARA CIMA!

AMERICANOS REIA
volvidos, como os Estados Unidos, chegou a dades de investimento no mercado mundial, RUMO A 53. AQUI VEM

PROPAGANDA, LOCO APOS OLDSMOSILE!"


A ENTRADA DOS ESTADOS gerar mais de setenta por cento do Produto superando assim os limites tradicionalmente
PROPAGANDA OO MODELO
UNIDOS NA SECUNDA
Interno Bruto (PIB). Considerado esse conjunto representados pelas fronteiras nacionais. Os 88, DA PRIMEIRA MARCA
GUERRA: COMERCIALMENTE
de condições favoráveis, o resultado foi que a grandes beneficiados com essa nova situação
BEM-SUCEDIOA DE
2A. "ISTO É AMÉRICA...
economia Internacional cresceu mais desde foram os capitais financeiros — que poderiam AUTOMÚVEIS AMERICANOS.
UMA NAÇAO COM MAIS
0 IMAGINARK) OA
CASAS, MAIS CARROS, MAIS
1945 do que em qualquer outro período histó- agora especular livremente com as oscilações
PROPULSÃO A JATO, ATE
TELEFONES — MAIS 1946 ASSOCIADAA
rico anterior. De fato, o PIB mundial chegou a de valor entre as moedas fortes do mercado
CONFORTOS OUE OUALOUEfi TECNOLOGIA DE GUERRA, JA
NAçio DA TERRA. ONDE
quadruplicar entre 1950 e 1980, saltando de internacional — e as chamadas empresas REPRESENTA EM 1953 O
TRABALHADORES JVRES E A SIMBOUSMO DA CORRIDA
cerca de 2 trilhões para mais de 8 trilhões de transnacionais.
UVRE EMPRESA ESTÍO ESPACIAL. EM 1957 A

CONSTRUINDO UM MUNDO dólares.^ Essas empresas, que atuavam simultanea- UNIAO SOVIÉTICA LANÇARIA

MELHOR PARA TODO O POVO. 0 SPUTNIKe, NO ANO


mente em diferentes áreas do mundo, existiam
ESTA É A SUA AMÉRICA. SEGUINTE, OS ESTADOS

MANTENHA-A UVREI'
desde os fins do século XIX. Casos típicos delas UNIDOS REVIDAM O FEITO

LANÇANDO O JÕHTCF-C.
A era da globalizaçao são, por exemplo, as grandes casas bancárias,
2B.‘ISTOÉAMERICA...

ONDEA FAMiLIA t JMA como os Rothschild, com sede em Londres,


Nos anos 70, em meio às convulsões cau-
INSTITUIÇÃO SAGRADA.
Viena, Frankfurt e Paris e negócios nos quatro
ONDE OS FILHOS AMAM,
sadas pela crise do petróleo, uma série de
HONRAM E RESPEITAM SEUS
cantos da Terra, e as companhias petrolíferas,
PAIS.. ONDE A CASA DE UM
medidas foi tomada para dar maior dina-
prospectando petróleo onde quer que houves-
HOMEM E O SEU CASTELO. mismo ao mercado internacional. Os Estados
ESTA É A SUA AMÉRICA.
se jazidas e revendendo seus produtos refina-
MANTENHA-A UVREI'
Unidos decidiram abandonar o padráo-ouro ,4iic T\nr tnrlri< nc nilaiHrantPC Hn nUriPta. 5PII

como base do mecanismo de sustentação cam-


CAPíiuioi Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios 29
28 CAPITULO I Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios

4. "A MORTE DO
número, contudo, era ainda limitado, e elas só começariam a se mul- DINHEIRO. COMO A

tiplicar de fato com os investimentos da reconstrução européia no ECONOMIA ELETRÔNICA

DESESTABILIZOLI O MUNDO
pós-guerra e com as políticas de investimento típicas da Guerra Fria.
E 0$ MERCADOS E CRIOU

Mas foi com as medidas de liberalização dos anos 70 que elas encon- CAOS FINANCEIRO."

CAPA DO LIVRO DE JOEL


trariam 0 campo fértil e Ideal para a sua difusão sistemática por todo
KURIZMAN, OE1994, JM
0 mundo. É daí que data o fenômeno que foi propriamente denomi- DOS PRIMEIROS AUTORES A

RETRATAR A ECONOMIA
nado "era da globalização"
GLOBALIZADA: A MAGNITUDE

Nesse novo contexto se produziu uma alteração drástica de todo CRESCENTE DOS FLUXOS K

0 quadro da economia mundial. Por um lado, a possibilidade de mul- CAPITAIS — EA

DECRESCENTE EFETIVIDADE
tiplicar filiais de suas empresas nos mais diversos pontos do planeta
DAS POLlTlCAS ECONÔMICAS

proporcionou às grandes corporações um enorme poder de barga- NACIONAIS — CONDUZIDOS

ATRAVÉS DO ESPAÇO
nha, impondo, aos governos interessados em receber seus investi-
CIBERNÉTICO, POR UMA

mentos e respectivos postos de trabalho, um amplo cardápio de van- xos nessa rede mundial tornou o papel-moeda REDE QUE REAGE E

INTERAGE EM UM CONTEXTO
tagens, favores, isenções e garantias que praticamente tornava os praticamente obsoleto, estimulando fluxos
VIRTUAL, EM QUE 0
Estados e as sociedades reféns dos poderosos conglomerados multi- contínuos de transações eletrônicas, que pas- DINHEIRO SE TORNA

nacionais. saram a atuar 24 horas, acompanhando o ci- OBSOLETO.

Por outro lado, se o efeito da liberalização dos fluxos financeiros clo dos fusos horários, de modo a operar num
permitiu a ampliação dos investimentos por todo o mundo, dinami- período com os mercados do Oriente — Tó-
zando 0 mercado, a produção e os serviços, ela também acabou pro- quio, Hong Kong, Cingapura —, depois com a
vocando uma separação entre as práticas financeiras propriamente Europa — Londres, Zurique e Frankfurt — e
ditas e os empreendimentos econômicos. A especulação com moedas logo após com a América — Nova York, Chica-
e títulos de diferentes naturezas, na esfera ampla do mercado globa- go, Toronto —, reiniciando na sequência com o
lizado, se tornou por si só um atrativo irresistível para os agentes Oriente e assim por diante, non-itop.
financeiros. Nesse sentido, eles foram beneficiados não só pelas medi- Cada fração de segundo em que uma
das de liberalização e desregulamentação dos mercados, mas tam- informação nova possa ser traduzida pelo sim-
bém pelas conquistas das novas tecnologias microeletrônicas. ples toque de uma tecla eletrônica transfere
A multiplicação, num curtíssimo intervalo,de redes de computa- volumes fabulosos de recursos de uma parte do
dores, comunicações por satélite, cabos de fibras ópticas e mecanis- mundo para outra e de milhares de fontes para
mos eletrônicos de transferência de dados e informações em alta as contas de um pequeno punhado de agentes
velocidade, desencadeou uma revolução nas comunicações, permi- privilegiados. 0 montante dessas transações
tindo uma atividade especulativa sem precedentes. A rapidez dos flu- eletrónicas do mercado financeiro mundial ul-
32 (APfniiai
CAPtruLOi Aceleração tecnológica,
Aceleração mudanças
tecnológica, econômicas
mudanças e desequilíbrios
econômicas 3i 33
e desequilíbrios
3tCAPfiULOi Aceleração
artnuii Aceleração tecnológica,mudanças
tecnológica, mudançaseconômicas
econômicas e desequilíbrios
desequilíbrios

sa pode ter
trapassa sua sede
1 trilhão administrativa
de dólares por dia.onde
Cercaosde
impostos
noventasão
por menores,
cento desse çâo de recursos na forma de serviços de saúde, educação, moradia,
as unidades
total deaprodução
nada tem onde os salários
ver com investimentos são
reais emosprodução,
mais baixos,os capi-
comércio infra-estrutura, seguro social, lazer e cultura,o que caracterizou a fór-
taisserviços,
ou onde os se
juros são os maisno
concentrando altos
puroe jogo
seusespeculativo.*
executivos vivendo onde a mula mais equilibrada de prática democrática, chamada “Estado de
qualidade de vida é mais elevada. Em todos esses casos, as socieda- bem-estar social" No mesmo sentido, as organizações operárias, os
des e os Estados por onde se distribuem essas diferentes dimensões sindicatos e as associações da sociedade civil atuavam tanto para
A desmontagem do Estado de bem-estar social
da empresa saem sempre perdendo. É um jogo desigual,cuja dinâmi- pressionar as corporações a reconhecer os direitos e assegurar as
ca só tende a multiplicar
Essa mudança desemprego,
dramática destituição,
na base tecnológicadesigualdade e
e na organização garantias conquistadas pelos trabalhadores, como para pressionar o
injustiça.
dos A tradução
negócios, prática
em escala dessa receita
planetária, é ono
ocorreu, aumento dadada
entanto, marginali-
sua Estado a exercer seu papel de proteção social,amparo às populações
dade, dae violência,
rapidez alcance, deo declínio
um modo doque
espaço público ea da
se esquivou convivência
quaisquer contro- carentes, redistribuição de oportunidades e recursos, contenção dos
democrática.’
les, fiscalizações, debates ou avaliações. Suas fases, operações, rumos monopólios e contrapeso ao poder econômico. Assim, sociedade e

ou consequências não foram discutidos em quaisquer foros interna- Estado se tornaram aliados no exercício de controle das corporações
Capitalismo
cionais, nemsem trabalhadores,
sequer semeEstado
pelos governos e sem impostos
pelas sociedades diretamente e numa partilha mais equilibrada dos benefícios da prosperidade

afetados por elas. Nem essa transformação foi condicionada por industrial.
O professor UIrich Beck, da Universidade Ludwig-Maxmilian, de
qualquer mudança nas leis ou regras básicas que regem os sistemas Com a globalização, porém, essa situação mudou por completo.
Munique, caracteriza a nova situação da seguinte forma:
péía tem agora 20 milhões de desempre- 5. ESTAÇAO MABILLON
econômicos ou deu ensejo a que novas normas fossem criadas com As grandes empresas adquiriram um tal poder de mobilidade, redu-
00 METRÔ 0£ PARIS.
gados, SO milhões de pessoas vivendo
0 fim deOs
responder ção de mão-de-obra e capacidade de negociação — podendo deslo-
homens aos seus efeitos.
de negócio Tudo se
descobriram passou
o mapa do como se A
tesouro. osnova fór- Os CORTES NOS
abaixo da linha de pobreza e S milhões de DE HA8ITAÇA0
órgãos políticos ou as instâncias decisórias existentes emmais
nadacapitalismo
con- car suas plantas para qualquer lugar onde paguem osPROGRAMAS
menores salá-
mula mágica é: capitalismo sem trabalhadores RORUUR E NOS EENEFlCIOS
sem-teto vivendo nas ruas. O que aconte-
tassem. sem impostos. Entre 1989 e 1993, os impostos coletados sobre os rios, os menores impostos e recebam os maiores incentivos —, que
SOCIAIS, SOMADOS AO
ceu então com aquele excedente de rique- DESEMPREGO, VITIMAM
Esse processo revela empresas
que as grandes tanto a sociedade como o Estado se tornaram seus reféns. O tripé que
lucros das grandes caíramcorporações ganharam
cerca de 18,6 um e
por cento MILHARES DE EUROrtlJS,
za obtido nesse período? Comparando
poder dereduzíram-se
ação que tende a prevalecer sustentava a sociedade democrática moderna foi quebrado.
a cerca de metadesobre os sistemas
do total da renda políticos,
fiscal dososEsta- MACJLANDO A IMAGEM DAS
com os Estados Unidos, nós sabemos que CIDADES MAIS PRÓSPERAS
parlamentos, os tribunais e a opinião pública. O quadro institucional A situação se reconfigurou assim: se não se anularem as garantias
dos. [grifos do original] DO MUNDO.
lá 0 crescimento econômico enriqueceu
que definiu a estrutura das sociedades democráticas modernas, ba- sociais e o poder de pressão dos sindicatos e associações civis, os quais
apenas os dez por cento da população que
seadas na colega
Seu divisãoAndré
entre os três
Gorz poderes,
formula ummais a ação
quadro aindavigilante da opi-
mais completo insistem em defender salários, direitos contratuais, condições de tra-
estão no topo da lista da riqueza. Esses dez
nião pública,da
e detalhado informada em especial pela atividade fiscalizatória da
nova situação: balho e cautelas ecológicas, a alternativa é a evasão pura e simples das
por cento se apropriaram de 96 por cento
imprensa livre, já não dá conta de controlar um poder econômico que empresas, o desemprego e o conseqüente colapso de um Estado so-
de toda a riqueza adicional gerada no
escapa aos seus limites
O sistema institucionais
de seguro históricos.
social tem de ser reorganizado e assentado brecarregado, incapaz tanto de pagar suas dívidas como de atender às
período. As coisas não estão tão mal assim
Pode-se dizer bases.
sobre novas que desde
Mas adevemos
Revolução Científico-Tecnológica
também até é
nos perguntar por que demandas sociais. As grandes empresas podem,desse modo,obrígaro
na Europa, mas também não estão muito
os anos que
70, aparece
tendência histórica
ter se tornadofoiimpossível
que os Estados nacionais
financiar contro-
essa reconstrução. Estado a atuar contra a sociedade, submetendo ambos. Estado e socie-
melhores.
lassem aNos
economia
últimos evinte
as grandes
anos, oscorporações, impondo-lhes
países da União Européia um
se sis-
tornaram dade, aos seus interesses e ao seu exclusivo benefício.

tema de entre
taxação pelo qual
cinqüenta transferiam
e setenta partemais
porcento dos seus
ricos.Alucros para cresceu
economia A excepcional capacidade de mobilidade, de instalações, recur-

setores carentes
muito maisda sociedade,
rápido do que aorganizando assim
população. Ainda umaa redistribui-
assim, União Euro- sos, pessoal, informações e transações é tal, que uma mesma empre-
André Gorz continua:
34 ai>(ruu)i Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios CAPliuu)i Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios 3s

Na Alemanha, desde 1979, o lucro das empresas subiu cerca de ses empresariais passaram a considerar especialmente benéficos os
noventa por cento, mas os salários apenas seis por cento. Por outro baixos salários, as condições insalubres das fábricas, a desnutrição
lado, 0 montante obtido com o imposto de renda dobrou nos últi- generalizada e as doenças que dizimavam o operariado, eliminando
mos dez anos, ao passo que a quantia obtida com o imposto sobre assim, ao mesmo tempo, o risco de revolução.
0 lucro das empresas caiu pela metade. O imposto sobre as empre- A evolução do quadro econômico ao longo do século XIX, com
sas contribui atualmente com meros treze por cento para o total sucessivos saltos na produção agrícola ocorrendo em paralelo à
das rendas do Estado,tendo caído em cerca de 25 porcento do que industrialização nas cidades, desmentiu as teorias de Malthus. A revo-
representava em 1980 e em 35 por cento do que foi a sua parcela lução, entretanto, haveria de ocorrer, mas por outras causas, de natu-
em 1960. Se ele tivesse permanecido nessa base de 25 por cento, o reza social e política, com a ascensão de partidos comunistas e socia-
Estado teria arrecadado um montante adicional de 86 bilhões de listas tanto nos países ricos como em áreas periféricas aos centros

marcos por ano nas duas últimas décadas. Situações como essa capitalistas, sobretudo a partir da Revolução Russa de 1917. Diante

têm se repetido de forma semelhante em outros países. A maior desse fato — que representava uma ameaça concreta às suas posi-

parte das corporações transnacionais, como a Siemens e a BMW, ções e privilégios — é que as camadas dominantes se dispuseram a

não paga mais taxa alguma em seus países de origem. A menos negociar com os trabalhadores o conjunto de direitos e garantias que

que as coisas mudem nesse quadro [...J, as pessoas, com toda a haveria de constituir o Estado de bem-estar social. A polaridade que

razão, não vão mais aceitar cortes nos seus serviços sociais, nas
no entanto se estabeleceu entre os regimes comunistas e os capitalis-
tas, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, ensejaria uma
suas pensões e nos seus salários.^
situação de confronto latente e um duelo de propaganda entre os
dois blocos em que se dividiu o mundo: a Guerra Fria.
Se essa transformação drástica ocorreu, como dissemos, sem pro-
vocar grandes debates parlamentares, alterações na legislação ou
0 Adão e a Evada ordem neolibercd
mudanças institucionais, isso não quer dizer que passou despercebida
ou que se impôs sem um discurso político que a legitimasse. Ao con- Essa situação de polarização forçou uma corrida armamentista e
trário,ela assinalou um abalo decisivo que mudou os rumos das plata- tecnológica entre os mundos capitalista e comunista e no limite levou
formas políticas no terço final do século XX. Seu impacto provocou ao esgotamento do bloco soviético, cuja rigidez centralista, acentua-

uma mudança profunda nos quadros de valores, dando um viço novo da pela corrupção crescente e pela intolerância repressiva da máqui-

a posições que foram típicas do liberalismo conservador do século na partidária, acabaria por tornar seus quadros dirigentes imensa-

anterior. Nos inícios da economia industrial, as teorias de Maíthus ins- mente impopulares. Esse declínio dos regimes comunistas se deu em

tilaram pânico na elite burguesa,alertando que a tendência à multipli- paralelo à ascensão de dois líderes que avocaram para si os méritos

cação em escala geométrica da população operária, enquanto a pro- da "vitória do capitalismo”Os novos personagens foram o presidente
Ronald Reagan, dos Estados Unidos, e a primeira-ministra Margaret
dução agrícola crescia apenas em escala aritmética, levaria a uma
Thatcher, da Grã-Bretanha.
inevitável convulsão social. Em vista dessa ameaça dramática, as clas-
36 CAPiTULOi Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios CAPÍTULOI Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios 37

dade e fraternidade. Aos conservadores restava tachar essa atitude de


ilusória, de lunática,de chamariz para a implantação da tirania totali-
tária. A operação ideológica construída pelo nexo Reagan-Thatcher
mudou completamente a configuração do debate político. Sua maior
proeza foi metamorfosear os termos da sua aliança num amálgama
cultural de alcance místico. Fortemente apoiados em tradições purita-
nas exclusivistas e autocentradas da cultura anglo-saxônica, desloca-
ram seus conteúdos doutrinários da esfera religiosa para a política.
O resultado foi 0 deslizamento, para 0 próprio sistema capitalis-
ta, do conceito de destino manifesto, tão latente nos líderes históricos
ingleses e americanos, como Oliver Cromwell, George Washington e
Thomas Jefferson — da idéia de uma missão de liderança civilizado-

6. DESFILE DE MISSEIS Thatcher em especial se tornaria a madri- ra atribuída pela Providência aos povos anglo-saxões. Diante da obso-
SOVIÉTICOS NA PRAÇA
nha do novo contexto político. Decretando a lescência e do esfarelamento do mundo soviético, acentuado pelo
VERMELHA EM
falência da idéia de socialismo, ela pronunciou o apoio maciço dado pelas potências capitalistas aos rebeldes afegãos,
NOVEMBRO DE 1984.

A PARTIR DE 1955, que se tornaria a fórmula básica do novo credo diante da hegemonia incontestável da língua e da cultura anglo-
QUANDO SE TORNOU
neoliberal: "Não há e nem nunca houve essa americana, das redes de informação e comunicação unificando 0 pla-
TECNICAMENTE POSSiVEL À

UNIAO SOVIÉTICA LANÇAR coisa chamada sociedade, o que há e sempre neta e da cristalização de um estilo de vida centrado na publicidade,
MISSEISATOMICOS NO
haverá são indivíduosTórmula que ela comple- nos apelos hedonistas e na euforia do consumo, ninguém poderia
TERRITÚRIO
tou com um princípio lapidar, de fundo moral, negar a preponderância do modelo saxônico. A queda do muro de
NORTE-AMERICANO, TEVE

INiCIO UMA COEXISTÊNCIA


para abençoar o espírito da concorrência agres- Berlim só confirmou 0 que todos Já pressentiam àquela altura. Foi
PACIFICA BASEADA EM
siva:"A ganância é um bem"[“greedis good").0 quando se declarou 0 "fim da história" e surgiu a idéia de batizar 0
MILHARES DE MlSSEIS DE

PARTE A PARTE, COM fato é que, na sua oportuna aliança com Ronald século XX como o“século americano!^
ENORME POTENCIAL DE
Reagan, ao longo dos anos 80,ambos efetuaram Mas havia muito mais em curso do que apenas 0 delírio de Rea-
DESTRUIÇÃO, ACUMUIADOS

PARA MANTER UMA FORÇA uma mudança drástica do discurso conservador, gan e Thatcher de encarnarem 0 Adão e a Eva de um novo mundo em
DE RÉPRESALIA, ESTRATÉGIA

IRONICAMENTE BATIZADA invertendo os termos do debate político. versão wasp. De fato, uma nova era estava surgindo. Tomando como
COMO MAD, MUTUAL
Até então as posições radicais monopoli- base 0 ano de 1975, quando os circuitos integrados alcançaram 0 pico
ASSURED DESTRUCIION
zavam a simbologia da emancipação e da justi- de 12 mil componentes,a Revolução Microeletrônica assumiu uma ace-
(DESTRUIÇÃO RECIPROCA

GARANTIDA).
ça social, apostando todas as cartas nos princí- leração explosiva. Segundo a Lei de Moore, a tendência era que esse

pios da esperança e da solidariedade, num número duplicasse a cada dezoito meses. Ou seja, atingido um limiar

mundo coeso por impulsos de liberdade, igual- máximo de densidade para um circuito integrado, esse equipamento
CAPiruLOi Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios ss
3S CAPíTULOi Aceleração tecnológica, mudanças económicas e desequilíbrios

era então utilizado para produzir circuitos mais


A Singularidade
densos ainda, numa cadeia de transformações
j
cumulativas que se alimentam umas às outras.
Segundo outra lei clássica da engenharia, cada
decuplicação da capacidade de um sistema
constitui uma mudança qualitativa de impacto
revolucionário. O que significa que desde 75
passamos por algo como dez revoluções tecno-
lógicas sucessivas no espaço de duas décadas e
meia. Uma escala de mudança jamais vista na
história da humanidade.*

7. O ENGENHEIRO E

FiSICO-QUiMICO TEMPO
NORTE-AMERICANO

GOROON E. MOORE, QUE

VIRIA A SER UM OOS ' Ondas exponenciais


FUNDADORES DA INTEL — CorRgjrâ^ 8. ESTA VERSAO DA
a) oiigens SiNGUURIOADE FDI
CORPORATION , ELABOROU
b) dKolagím
ELABORAM EM 1994
ESTE GRAFICO EM 1965, O liiniiKdeavfDiitTiaclo
PARTINDO DOS DADOS DE POR TOM MCKENDRE,
d) mauirldade
1959, QUANDO SE e} dedlrao quando iwa teciolp^a^aiail^a a twna OA EMPRESA HUGHES
dcdiiname
ORIGINARAM OS AIRCRAFT, PARA O ESTUDO
— A magnitude aumenta geometricamerite
CIRCUITOS INTEGRADOS, DE EFEITOS DA
— Decréscimo periódico
PROJETANDO-OS ATE O ACELERAÇAO TECNOLÓGICA

ANO DE 1999. • 0 conjunto hiperexponencial atinge NO ÂMBITO MILITAR.

A ESCALA HORIZONTAL DE infinitude em tempo finito


—A aproxima^ deve quebrar em algum ponto CAOA NOVA TECNOLOGIA
TEMPO E LINEAR INCORPORA POTENCIAIS
(ARITMÉTICA), ENQUANTO A
• Situação pós-singularidade difícil CUMULATIVOS, DANDO
ESCALA VERTICAL DE
de LUGAR A UM NOVO
NUMERO DE COMPONENTES
prever PARADIGMA EM INTERVALOS
E LOGARÍTMICA
DE TEMPO CADA VEZ
(EXPONENCIAL). A CURVA
0 termo "singularidade" designa, em astrafisica, o centro de um buraco
MENORES, DIFERENTEMENTE
OBTIDA COM A lEI DE negro que, porsuavez, éocampo gtavitacionalullradenso decorrente da
explosão de uma estrela. Tudo o que esteja ao alcance dessa forca estu- DA TEMPORALIDADE UNEAR
MOORE, CONSIDERANDO OS
DA LEI DE MOORE, A
penda é atraído e desaparece. Diante dessa "anomalia" as leis da ciên-
EFEITOS DESSA EXPLOSAO
PROJEÇAO, BASEADA EM
cia não se aplicam. Usada como metáfora pelo matemático e autor de
TECNOLÓGICA EM MEIO
livros de ficção cientifica Vernor Vinge em 1991, a singularidade é o INTERVALOS DE TEMPO CADA
SECULa FOI 8ATIZAOA DE ponto em que o progresso radical não é progresso mas o fim do mundo VEZ MAJS CURTOS, TORNA AS
MURO DE MOORE.
como 0 conhecemos: em que novos modelos devem ser aplicados, mode- CURVAS 'HIPEREXPONENOMS'.
los que ainda estão além da nossa capacidade de entendimento.
ANO
4(1 CAPíruLOl Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios CAPÍTULOi Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios 4i

9. UMA CORRIDA RARA


Foi esse contexto fortuito que proporcionou os meios para que
$ER 0 PRIMEIRO FEZ DE
Reagan-Thatcher consoiidassem a agenda conservadora, retraindo a VOCÈ D QUE VOCÊ E.

NAO PERMITA QUE UM


ação do Estado em favor das grandes corporações e do livre fluxo de
IVAX/MODEM DEIXE VOCÊ
capitais, abalando os sindicatos, disseminando o desemprego, rebai- DEVAGAR AG(»1A."

xando a massa salariai e concentrando a renda. Foi a grande epidemia DETALHE DE PROPAGAHDA

HORTE-AUERICAKA K
mundial das privatizações, das reengenharias, das flexibiiizações e
SOFTWARE, 1994.
das megafusões entre grandes empresas. Apoiada na dramática mu-
dança tecnoiógica,essa onda foi tão poderosa que acabou forçando a
aiteração do discurso das oposições.
Surfando a onda surgiu o jovem líder trabaihista Tony Biair, que
derrotou os conservadores brandindo um programa resumido em aos contextos em que são aplicados, às pes-
três palavras:"educação, educação, educação"Era uma proposta clara soas e aos recursos envolvidos ou a critérios
que tocava a todos. A nova realidade só oferece oportunidades para qualitativos que mantenham compromissos
0 trabalho qualificado; portanto, o melhor meio de favorecer a pro- com valores éticos, sociais ou ambientais. Mas
moção social deve ser necessariamente a educação. Ademais, na ver- foi assim, com esse sentido equívoco, que eles
tiginosa corrida tecnológica que sucedeu à Guerra Fria, somente acabaram se tornando as principais bandeiras
sociedades que tiverem autonomia tecnológica poderão garantir sua em torno das quais se aglutinaram tanto os
soberania. Logo, educação, ciência e tecnologia são as três chaves da grupos políticos conservadores como muitos
nova era. daqueles que pretendiam representar os valo-
Entretanto, o veneno da maçã proibida já havia se infiltrado nas res radicais, na linha do liberalismo democráti-
veias dos novos líderes. A idéia não era mais garantir um bom empre- co, do trabalhismo.da social-democracia ou do
go para todos, conforme a tradição socialista, mas disseminar o espí- socialismo. Engolfados pelas vicissitudes da
rito da concorrência agressiva por intermédio de uma nova agenda rápida globalização, que lhes diminui os pode-
educacional, de modo que, num mercado cada vez mais concentrado, res de controle e de ação, esses grupos passa-
somente os mais aguerridos, os mais individualistas e os mais expe- ram a negociar com as novas forças do merca-
dientes prevalecessem, em detrimento dos desfavorecidos em todos do, tentando garantir para si pelo menos
os quadrantes do planeta. E aqui se insere o conceito ampliado de algum poder de barganha.
destino manifesto, traduzido no novo dogma chamado "eficiência" Essa situação inusitada congelou o deba-
Eficiência, excelência ou eficácia são princípios altamente positi- te político em função de um consenso confor-
vos e desejáveis, desde que não se transformem em panacéias, em mista, denominado por seus críticos "o pensa-
fins definidos por si mesmos ou por escalas quantitativas, indiferentes mento único"0 foco da prática política mudou
42 CArtruLOi Aceleração tecnológica, mudanças econômicasedesequilfbríos apfniLOi Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios 43

substancialmente. Até então suas metas principais eram a consolida- que torna a ordem mundial cada vez mais volátil e insegura. Bastam
ção e 0 aperfeiçoamento do Estado de bem-estar social, a formuiação alguns dados para revelar o rumo turbulento que o mundo vai
de poiiticas fiscais de taxação progressiva com vistas à melhor distri- tomando. O Relatório de Desenvolvimento Humano da Organização
buição das rendas, definição e regulamentação das garantias de em- das Nações Unidas, na sua edição de 2000, revela que a disparidade
prego, saúde, educação, moradia e seguro social, fiscalização da for- de renda entre os países mais ricos e os mais pobres, que era da
mação de trustes e cartéis e controle de setores-chave da economia, ordem de 3 para 1 em 1820, atingiu 44 para 1 em 1973, chegou a 72
de forma a estimular o crescimento econômico e desonerar os servi- para 1 em 1992 e está atualmente ao redor de 80 para 1. Entre 1990 e
ços essenciais aos setores mais carentes da população. O pressuposto, 1998 a renda per capita caiu nos cinquenta países mais pobres e
muito óbvio, desse conjunto de ações era o de que o vigor de uma aumentou nos 28 mais ricos. Cerca de 1,2 bilhão de pessoas, o que
sociedade democrática é inversamente proporcional aos seus níveis equivale a um quinto da população mundial, vivem em nível de misé-
de desigualdade social. ria absoluta. Cerca de duzentas crianças morrem por hora nos países
Com 0 advento do "pensamento único" ou das chamadas políti- do Terceiro Mundo, em conseqüência de desnutrição e de doenças
cas neoliberais, passou a prevalecer, ao contrário, a idéia de que os banais, para as quais a cura seria simples, desde que houvesse recur-
Estados abandonassem a cena, abrindo suas fronteiras ao livre jogo sos de atendimento.’
das forças do mercado e das finanças internacionais, desregulamen- Dados como esses deixam bem claro quem está pagando os
tassem quaisquer mecanismos de proteção à economia nacional ou custos da globalização e quão altos eles são. Esse aumento crítico da
às garantias dos trabalhadores e submergissem junto com toda a desigualdade social é sem dúvida o legado mais perverso do século
sociedade sob uma liberalização geral, em benefício da atuação mais XX para o XXI. Segundo o mesmo Relatório de Desenvolvimento
desinibida das grandes corporações. Os argumentos em favor desse Humano da ONU, os duzentos maiores multimilionários do planeta
rearranjo enfatizam o que é caracterizado como seus aspectos positi- acumularam juntos uma fortuna de 1,113 trilhão de dólares em 2000,
vos: a difusão das idéias e informações, a atualização e transferência 0 que significa cerca de 100 bilhões de dólares a mais do que pos-

das tecnologias,© rebaixamento dos custos das mercadorias e a am- suíam no ano anterior. Considerando, por outro lado, toda a popula-
pliação das opções para os consumidores. ção somada dos países do Terceiro Mundo, seu total de renda chega
apenas a 146 bilhões, o que representa menos de dez por cento do
montante controlado pelos duzentos maiores bilionários.”
O presentismo e o imperativo da responsabilidade Constatações desse teor colocam em evidência que o problema

Mas seus aspectos negativos são cautelosamente ocultados, mais urgente dos tempos atuais é o da responsabilidade em relação

dada sua natureza alarmante: a rápida concentração de renda, o ao futuro, que está sendo configurado por forças fora de qualquer

desemprego em massa,a exploração e mortalidade infantil,a difusão controle institucional. É essa questão que o filósofo Hans Jonas

da miséria desamparada, o crescimento do tráfico de drogas, o enfrenta no seu livro O imperativo da responsabilidade, cujo subtítulo

aumento da criminalidade e da violência, a instabilidade financeira é justamente A busca de uma ética para a era tecnológica." Para o
44 CAPliuioi Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios CAPiTULOi Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequiiíbrios 4s

autor, todos aqueles que de alguma forma s? beneficiam dos efeitos 0 potencial transformador das sociedades modernas se multiplica
da globalização deveriam refletir a propósito dos seus efeitos sobre os numa velocidade muito maior do que a necessária para que as pes-
amplos grupos sociais que são ou excluídos ou vitimados por eles, soas possam compreender ou refletir sobre seus impactos futuros. Por
bem como a respeito do seu enorme impactosobre o meio ambiente. exemplo, em julho de 2000, cientistas da Universidade de Bergen, na
O fundamento da critica de Hans Jonas está numa análise dos Noruega, anunciaram as conclusões de um estudo segundo o qual, a
limites que restringiam o alcance do juízo ético, tal como formulado prosseguir o processo de aquecimento global causado pela emissão
desde Sócrates e seus discípulos, nos primórdios da filosofia ociden- contínua de dióxido de carbono (CO^) e metano (CHJ, gases respon-
tal, até 0 momento em que se iniciou a grande aceleração tecnológi- sáveis pelo efeito estufa, o Pólo Norte desaparecerá por completo a
ca, na segunda metade do século XX. Nesse amplo período, a ética se partir de 2050.'^ O efeito que isso acarretará para o equilíbrio climáti-
orientou por princípios que a mantinham restrita a um apego ao pre- co e ambiental do planeta é imprevisível, mas certamente assumirá
sente e a situações isoladas. Com o predomínio, nessa fase. de condi- feições dramáticas, se não trágicas.
ções tradicionais e de um padrão de baixo potencial tecnológico, não O que explica termos chegado a esse ponto é o caráter essencial-
se colocava a questão do impacto futuro que viessem a ter as deci- mente cumulativo das inovações tecnológicas. A crescente multiplica-
sões tomadas aqui e agora. Desde que nelas se interpretasse alguma ção de conhecimentos,as redes de informação cada vez mais densas,
forma de ganho, de vantagem ou de interesses imediatos para as par- 0 aumento constante das taxas de produtividade, o desenvolvimento
tes envolvidas, suas possíveis contrapartidas negativas eram relega- acelerado e encadeado de novos materiais, novos projetos e novas
das, sendo consideradas custos inevitáveis de algo que, no seu senti- configurações de sistemas, todos esses fatores se refletem uns sobre os
do geral, era percebido como um progresso,e cujos benefícios eram outros, de tal forma que, num curto intervalo de tempo, as circunstân-
maiores que os riscos ou os prejuízos que se podiam prever. cias iniciais de um processo se transformam para alérn de qualquer
Pode-se dizer, portanto, que durante todo o período que antece- das possibilidades previstas nos seus primeiros momentos. Portanto,
deu a era tecnológica, a ética era pensada numa base de relações de seus efeitos mais abafadores, suas conseqüências mais desestabiliza-
indivíduo para indivíduo, completamente centrada numa perspectiva doras.seus impactos mais alarmantes irão ocorrerem algum ponto do
humana, tudo o mais que se relacionasse ao mundo externo e natu- futuro, envolvendo pessoas, circunstâncias e regiões que não compar-
ral sendo tratado como elemento neutro e estranho ao mundo moral. tilharam das decisões originais, mas que então sofrerão plenamente
O que fazia sentido, uma vez que a capacidade transformadora do os resultados do processo desencadeado anos antes, por outra gera-
homem sobre o ambiente ao seu redor era, então, muito limitada, e ção, a qual, por sua vez, não estará mais aqui para assumir a responsa-
seu alcance futuro era pequeno e relativamente possível de prever e bilidade pelas iniciativas que tomou.
avaliar. Tudo nesses termos se resumia a acordos ou decisões pes- Esse processo caracteriza o que Hans Jonas considera o mal do
soais, de baixo impacto e pequeno alcance. "presentismo"ou seja, assumir decisões que envolvem grandes riscos
Mas com o advento da era tecnológica, o quadro mudou total- no presente, sem considerar suas conseqüências e vítimas futuras. Em
mente. A introdução de novas técnicas gerou uma dinâmica em que meio à tremenda complexidade atingida pelo mundo moderno glo-
4i CAPiTuioi Acelerado tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios CAPlTuií)i Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios A’’

balizado, esse mal se manifesta em inúmeras outras esferas além da acima de tudo, na valorização dos títulos da companhia. Daí os pro-
tecnológica. Ele aparece nitidamente na política, por exemplo, na cessos de enxugamento, racionalização, reengenharia, fusão, que
medida em que os líderes dos partidos orientam suas decisões pelas catapultam o valor das ações, mas fragilizam ou levam à absorção da
expectativas do eleitorado, buscando atender às reivindicações que empresa por meio de megafusões em conglomerados maiores. Para
se traduzam no maior volume de votos e aos lobbies que revertam no os acionistas pouco importa qual o destino do empreendimento:
maior volume de doações para as campanhas eleitorais. Como quando as ações ameaçarem entrar em colapso, eles serão os primei-
ambos, eleitores e lobbies, reivindicam o atendimento de seus inte- ros a vendê-las,embolsando o lucro. Greedisgoodi
resses imediatos (tal como a redução do preço dos combustíveis fós- Essas distorções que a mentalidade do presentismo imprimiu
seis), serão as gerações futuras que terão de arcar com as conseqüén- nas esferas da política e das empresas foram ademais potencializadas
cias, se isso vier a causar o derretimento das camadas polares. Mas, é por dois outros fatores que a transporiam também para os âmbitos
claro, as gerações futuras não têm poder de voto nem constituem lob- da cultura, do comportamento e dos valores definidores do status
bies, não podendo, portanto, alterar as decisões tomadas hoje, que social. Esses fatores foram a publicidade e o consumismo, que, forta-
reverterão sobre elas amanhã. lecidos pela desregulamentaçâo dos mercados, pela revolução nas
Esse mesmo mal do presentismo se manifesta no nível das comunicações e pela concentração de renda, se tornaram a ideologia
empresas. AIlan Kennedy, que trabalhou a vida toda como consultor por excelência das sociedades neoliberais e o estofo de ilusões que
gerencial de algumas das mais poderosas companhias americanas, veio a preencher o vazio do "pensamento único"
escreveu um livro em que analisa de que maneira, recentemente, a A força de sedução das novas técnicas publicitárias explorou até
cultura empresarial se tornou prisioneira de expectativas de curtíssi- os limites as técnicas comunicacionais, intensificando sua capacidade
mo prazo.'^ Segundo ele, desde o início do período industrial até os de gerar apelos sensuais e sensoriais, associados a fantasias que en-
anos 70, houve dois padrões básicos de empresa, primeiro o de tipo volvem desejos de poder, posse, preponderância, energia, vitalidade,
familiar e, desde meados do século XX, um modelo técnico-gerencial. saúde, beleza e juventude eterna. Todas essas projeções, por mais
A partir de fins dos anos 70, entretanto, uma nova mentalidade aberrantes e inverossímeis, a publicidade sugere que podem ser atin-
se impôs, em virtude da desregulamentaçâo da área financeira e do gidas, na proporção direta do poder de consumo de cada um e na
incentivo às práticas especulativas, intensificadas na sequência pela proporção inversa dos limites de seu crédito bancário. A artista norte-
Revolução Microeletrônica. Nesse novo contexto, as ações de uma americana Barbara Krugman resumiu brilhantemente esse estado de
companhia deixaram de ser um meio para a capitalização da empre- espírito definidor dos novos tempos, transformando a mais famosa
sa, para o incremento de seus negócios e a qualificação de seus pro- máxima da filosofia ocidental num slogan ~ típica técnica publicitá-
dutos, passando a ser um fim em si mesmas. Segundo essa mentali- ria — que se tornou o credo das camadas emergentes:"Eu consumo,
dade, a empresa existe exclusivamente para o lucro imediato de seus logo existo!"
acionistas. Essa mudança foi consagrada com a prática de transformar Essas pressões consumistas, intensificadas pelas estratégias
a direção e a equipe gerencial em acionistas, interessados portanto. publicitárias, se tornam assim a força motriz a multiplicar os anseios
4S CAPfiuLoi Aceleração tecnológica,mudançaseconômicasedesequilibríos CAPtTULO I Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios 4‘)

presentistas, tanto no plano econômico como


no político, o que acar-
reta uma conver-
gência cada vez
I N T ER N AT I ON A L

EílüJV Ê@YSÍ1I

maior entre OS
interesses e mo-
dos de ação das O retomo do colonialismo: a desigualdade 11. "PARE DE COMPRAR,

empresas e dos gru- se aprojunda


COMECE A VIVER. NAO

COMPRE NADA!'
pos políticos, que passam a
Contido no âmago dessa situação de ava- 'EMBAÇADORES
10. "DIA tratar a sociedade civil sobretudo como mer- CULTURAIS ", COMO SE
INTERNACIONAL DO liação preconceituosa, porém, prevalece um AUTODENOMINAM OS
NAO-CONSUMO" —
cado consumidor de mercadorias e serviços. O
vício que manifesta um dos aspectos mais per- MEMBROS DAS INÚMERAS
24 DE NOVEMBRa que significa que quem pode mais terá mais e ONGSANTICONSUMISTAS,
SIMBOLODA CAMPANHA
versos da atitude presentista. Ele consiste em DESFILAM NAS RUAS DE $AN
do melhor; quem tem menos poder de com-
ANJAL CRIADA EM 1990 se pretender fazer tábula rasa das circunstân- FRANCISCO, EM 24 DE

PELA ONG CANADENSE pra e negociação será inexoravelmente em- NOVEMBRO DE 2000.
cias históricas que conduziram a ordem mun- NESSE ANO, A
ADBUSTERS MEDIA purrado para as margens ou para fora do sis-
FOUNDATION. NESSA
dial ao ponto em que agora se encontra. O MANIFESTAÇ AO

DATA, OfA SEOUINTE AO tema, será visto como vítima de sua própria ANTICONSUMISTA CONTOU
pressuposto desse preconceito transformado
DE AçÂo DE GRAÇAS, COM A ADESAO DE
falta de iniciativa, incapacidade produtiva ou
0 COMÉRCIO PROMOVE em princípio explicativo é o de que o momen- SIMPATIZANTES EM MAIS

UQUIDAÇOES COM VISTAS inadaptabilidade à vida moderna. Ou seja, a DE TRINTA PAlSES.


to atual representa como que um marco inicial,
As COMPRAS DE NATAL.
culpa dos que se vêem alijados do consumo é 0 ponto inaugural de uma nova fase em que
lançada sobre eles mesmos. Eles irão compor estariam zeradas as múltiplas circunstâncias
a imagem negativa do fracasso, a ser despre- históricas que condicionaram não apenas cada
zada e evitada com horror, numa sociedade pessoa, mas famílias, comunidades, grupos
que se representa cada vez mais pelo modelo sociais e populações inteiras a situações diver-
da jogatina, como sendo composta de ganha- sas, desiguais e hierarquicamente sobrepostas.
dores e perdedores. E, como já dizia o velho O fato é que podemos estar no início de uma
mestre Machado de Assis, "aos vencedores, as nova etapa da configuração tecnológica, mas o
batatas" mundo certamente não começou agora.
H CAPtiuioi Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios CAPtTULOi Aceleração tecnológica, mudanças «conômicase desequilíbrios si

Desde o marco da primeira europeus se viram forçados a aban- CUBA NO ES EL CONGO..

grande mudança da base técnica doná-las, abrindo o caminho para a

da sociedade européia, porvoita sua autonomia, em geral como con-

dos sécuios XiV e XV, por meio da sequência de insurreições e rebe-

organização do mercado capita- liões nacionalistas e anticoloniais ao

iísta.do Renascimento culturai e longo dos séculos XIX e XX. Mas co-

das grandes navegações, tanto mo efeito legado pela sua presença,

as suas estruturas internas pas- as nações recém-emancipadas ado-

saram a se compor em classes taram os modelos políticos das suas .. .frente al enemigo
ex-metrópoles, lideradas pelas eli- Imperialista
de proprietários e despossufdos,
no puede haber claudicaclón.
burgueses e proletários, como tes dotadas de educação européia e i

12. MERCADORES OE seus grupos dominantes passaram a subjugar que, ato contínuo, uma vez declarada a inde- 13. PATRICE HEMERY

LUMUMBA, LIOER
MARFIM EM ZANTIBAR,
outras comunidades ao redor do mundo, sub- pendência, passaram a abusar de suas popula-
c. 1880. NACIONALISTA E
"A PAWVRA 'MARFIM'
metidas à sua conquista e reduzidas ao seu ções segundo a fórmula aprendida do domínio PRIMEIRO-MINISTRO DO

CONGO, FOI PRESO E


RESSOAVA NO AR, ERA europeu, contando para isso com o apoio e a
domínio. Os desdobramentos posteriores desse ASSASSINADO EM JANEIRO
COCHICHADA, SUSPIRADA.
colaboração militar das antigas metrópoles. O OE 1961, QUANDO
VOCES ACHARIAM QUE complexo quadro político, social e econômico, ESTARIA SOB A PROTEÇAO
colonialismo de fato nunca foi extinto, só pas-
REZAVAM PARA ElE. UMA com a difusão da industrialização, dos poten- DAS NAÇÕES UNIDAS.
POORIDAO OE RAPACIDADE
sou de mãos estrangeiras para o domínio local. ESTE E O IILTIMO
IM9ECIL SE ESPALHAVA POR
ciais energéticos da eletricidade e dos novos
REGISTRO OE LUMUUBA
TUDO, COMO O BAQUE DE meios de comunicação e transporte a partir de continuando a servir aos mesmos propósitos
COM VIDA. SUA MORTE
FEDOR DE ALGUNS
fins do século XIX, levaram a uma polarização de exploração econômica e expropriação pre- CAUSOU ESCANDALO NA
CADAVERES. POR JÚPRER!

NUNCA VI NADA TAO IRREAL ainda mais aguda dessas diferenças sociais e datória de recursos naturais. ÁFRICA E MARCOU O

INiCIO DE UMA GUERRA


HA MINHA VIDA' (IOSEPH
culturais. Foi então para tentar reequilibrar es- No presente momento, portanto, assiste- CIVIL DA QUAL CHE
CONRADI 0 COMCÁO
OAS ses antagonismos no interior da sociedade, os se a uma deterioração no que concerne a esses GUEVARA nunicipoub

ORGANIZANDO O
TUPJAS, 1899).
quais atingiram limiares revolucionários e dois diferentes contextos. No cenário das po-
BATALHÃO PATRKE

explosivos, que, como vimos anteriormente, tências econômicas, a tendência é a da rápida LUMUMBA.

os Estados modernos desenvolveram políticas desmontagem do Estado de bem-estar social, CARTAZ CUBANO DA

COMISIÕN DE ORIENTACIQN
compensatórias e redistributivistas, originan- 0 que significa que aquelas camadas da socie-
REVOLUCIONARIA DE LA

do 0 Estado de bem-estar social. dade que apresentavam drásticas carências, OIRECCIQN NACIONAL

DE ORI.
Mas se esse foi o caminho adotado pelas nos seus estratos mais baixos e entre as co-

elites na Europa, não ocorreu o mesmo com munídades de trabalhadores imigrantes, serão
suas ex-colônias. Pressionados, os Estados abandonadas à própria sorte. O que gera um
S2 CAPtruLOi Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios ctffniLOi Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios s>

ciclo vicioso no qual aqueles que tiveram menos condições de saú- Essa situação chegou a um clímax entre o final dos anos 70 e a
de, educação, emprego, moradia, estabilidade familiar e promoção primeira metade dos 80, quando, com a crise do petróleo—que mul-
social serão punidos por todas essas deficiências, ficando excluídos tiplicou mais de cinco vezes os preços dos combustíveis e forçou altas
das novas oportunidades, perdendo os poucos direitos e serviços de sem precedentes no valor do dólar e dos juros a serem pagos —, as
que dispunham e legando aos seus descendentes uma miséria ainda economias dos países subdesenvolvidos foram fortemente abaladas,
maior do que a sua. mergulhando em crises inflacionárias ou se contorcendo em espirais
No lado das ex-colônias o efeito não é menos perverso, na medi- de hiperinflação. Quando recorreram ao FMI e ao BM em busca de
da em que, diante da realidade da globalização, a grande vantagem socorro urgente, o que receberam, em vez do alívio ao endividamen-
que se apresenta às elites locais é a possibilidade de oferecer a força to, foi um grosso pacote de medidas de "reajuste estrutural"; cerca de
de trabalho de suas populações e os recursos naturais de seus territó- 115 condições sine qua non para a ajuda financeira. Esse receituário
rios em troca de valores cada vez mais baixos e métodos cada vez impunha medidas, como a desregulamentaçâo da economia e das
mais predatórios de exploração, na tentativa de atrair as corporações finanças,a derrubada das barreiras alfandegárias e comerciais,a drás-
todo-poderosas. Um quadro dramático que não raro envolve situa- tica redução dos gastos públicos e serviços sociais, a privatização das
ções extremas, como a exploração do trabalho infantil, o "turismo" empresas estatais e a eliminação de garantias e direitos trabalhistas,
sexual voltado para crianças e adolescentes, a erosão, a desertíficação inclusive com o enfraquecimento dos sindicatos, de modo a permitir
ou 0 envenenamento do meio ambiente. São lições dolorosas para demissões em massa e tornar o mercado de mão-de-obra mais bara-
quem imagina que a história é movida pelas forças do progresso e to, mais dócil e mais flexível.
que 0 futuro será sempre mais promissor que o passado. Já era o receituário do neolíberalismo se difundindo por todo o
mundo. Diante dessa nova realidade, como se vê, não se configurava

O FMI, 0 Banco Mundial e o Terceiro Mundo uma globalização horizontal e unificadora, como reza a mitologia ofi-
cial, mas um rearranjo vertical, com as potências econômicas no topo
Duas instituições se tornaram instrumentos decisivos nesse pro-
e a massa dos miseráveis do Terceiro Mundo na base imensa e esma-
cesso pelo qual o neolíberalismo impõe aos países do Terceiro Mundo
gada da pirâmide. Em vista dessas medidas liberalizantes, privativis-
uma submissão incondicional ao neocoloníalismo. Esses órgãos são o
tas e espoliativas,a questão não era mais promover o desenvolvimen-
Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, ambos criados em
to, mas fazer com que grande parte dos bens, dos recursos e dos
1944, com uma dupla finalidade assistencíal: financiar a reconstrução
mecanismos de decisão das ex-colônias retornasse às antigas metró-
dos países arrasados pela guerra e apoiar as nações em processo de
poles colonizadoras, em especial na forma de juros pagos ao capital
desenvolvimento ou recém-emancipadas da condição colonial. Os paí-
especulativo, em detrimento das necessidades básicas da população.
ses capitalistas europeus e o Japão foram de fato generosamente ajuda-
Foi desse modo que, por exemplo, uma sociedade de padrão
dos. Mas para os demais, o apoio foi se tornando uma ladeira sem fim,
socialista como a da Tanzânia, assim que assinou os termos da "ajuda
afundando-os cada vez mais em níveis sufocantes de endividamento.
econômica" com o FMI, viu seu produto interno bruto cair de 309 para
M <^LOi Acelerarão tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios CArtnHOl Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios ss

210 dólares per capita; a taxa de pessoas vivendo abaixo do nível de cento da renda total, enquanto os cinqüenta por cento mais pobres
pobreza absoluta subir 51 por cento e o analfabetismo crescer cerca ficam com 13,5 da renda. Ademais, no nível de maior pobreza da
de Vinte por cento. Como o país apresentava um quadro de expansão sociedade brasileira, cerca de vinte por cento das famílias vivem com
da epidemia de AIDS, os técnicos do FMI recomendaram que os hos- renda per capita ao redor de meio salário mínimo (equivalente a qua-
pitais públicos passassem a cobrar taxas de consulta e internação, o renta dólares).'*
que fez com que a freqüência das pessoas aos hospitais caísse em 53
porcento. Resultado:o país tem hoje 1,4 milhão de pessoas esperan- Crítica, luta humanitária e ação em escala global

do Para morrer.'*
O que não quer dizer que as forças históricas sejam inexoráveis
Mais próximo de nós,o quadro da América Latina é igualmente
e nada mais se possa fazer. Ao contrário, a grande vantagem de estu-
desolador. Se observamtos em perspectiva, veremos que nos anos 50,
dar a história consiste justamente na possibilidade,que ela nos propi-
em plena época do desenvolvimentísmo, o produto interno bruto da cia, de uma compreensão mais articulada das circunstâncias por meio
região era o maior em relação ao de todos os outros países em desen- das quais chegamos ao ponto em que estamos e, a partir daí, na pos-
volvimento, só perdendo para as grandes potências industriais. Mas sibilidade de uma melhor avaliação das alternativas que se apresen-
segundo o relatório sobre os indicadores econômicos e sociais da tam e que podemos vislumbrar graças à ampliação da perspectiva
América Latina,divulgado pelo Banco Interamericano de Desenvolvi- temporal. Essa estratégia privilegiada nos permite sair dos limites
ftiento em 5 de maio de 2000, a economia da região perde hoje para estreitos tanto do presentismo como do conformismo do "pensamen-
a Europa Oriental,o Oriente Médio e o Leste da Asia, superando ape- to único"
nas a África e alguns dos mais pobres países asiáticos. Além do mais, Se nos colocamos, portanto, a questão de como enfrentar esse
acrescenta o relatório,"a região tem tido níveis mais altos de concen- quadro de graves desequilíbrios — introduzidos ou acentuados pela
ti^Ção de renda do que qualquer outra região do mundo. Na América liberalização dos agentes econômicos e financeiros, pelas mudanças
Latina, um quarto da renda nacional vai para cinco por cento da tecnológicas e seus efeitos globalizadores —, algumas alternativas

população"’* interessantes se apresentam. O ato inicial, porém, é compreender que

No Brasil, em particular, a situação é ainda mais drástica. Dentro não se coloca mais a possibilidade de retorno a um contexto anterior,

do quadro geral de estagnação da América Latina, o país apresenta situado no passado remoto ou recente, ao qual pudéssemos regres-

tarr>bém os mais altos índices de concentração de renda. Ou seja, se a sar. As mudanças históricas ou tecnológicas não são fatalidades, mas,

América Latina tem as mais altas taxas de concentração de renda do uma vez desencadeadas, estabelecem novos patamares e configura-

mundo, o Brasil excede as mais altas taxas de concentração de rique- ções de fatos, grupos, processos e circunstâncias, exigindo que o pen-
samento se reformule em adequação aos novos termos para poder
za da América Latina. Essa situação foi altamente exacerbada pelos
interagir com eficácia no novo contexto.
efeitos dos pactos de 'ajuda financeira' acertados com o FMI e o BM
Nesse sentido, uma das propostas mais oportunas é a que suge-
desde inícios dos anos 90. Segundo a Síntese de indicadores sociais de
re 0 desafio de que os Estados enfraquecidos passem a atuar num
1999 do IBGE, 0 um por cento mais rico da população detém 13,8 por
st CArtruioi Acelerado tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios c«>tniu)i Aceleração tecnológica, mudanças económicas e desequilíbrios S7

concerto transnacional, buscando uma nova capacidade reguladora conforme estabelecera a tradição liberal. O que significa que o blo-

de âmbito mundial, compatível com o campo de ação global em que queio sistemático a possibilidades de prpsperidade, promoção social

agem atualmente as grandes corporações. Complementando essa ou acesso à educação, à informação e aos meios de criação e expres-

reformulação dos Estados nacionais, seria necessário que as respec- são cultural constituem violações de direitos humanos.

tivas sociedades e suas associações civis atuassem também em coor- Esse princípio ético-jurídico comporta amplas e notáveis conse-

denação internacional, exercendo pressões como consumidores, já quências. Ele implica que os responsáveis por tais violações, sejam

que essa é agora a força dominante, para que as empresas sejam autoridades locais, grupos econômicos ou instâncias internacionais,

transparentes quanto às suas políticas trabalhistas, suas responsabi- serão passíveis de julgamento em tribunais internacionais por crimes

lidades sociais, culturais e ecológicas, sob a pena de boicotes em contra a humanidade ou contra o meio ambiente. Isso representa

escala global.'^ uma conquista inovadora e radical, à qual só se chegou — conforme

Essa dupla linha de confronto político, simultaneamente em reconhece Richard Joily, coordenador do relatório — em virtude de a

nível internacional e local, conduzida por órgãos internacionais, asso- desigualdade em âmbito global ter atingido "escalas de magnitude

ciações civis e organizações não-governamentais (ONGs),deveria exi- fora de comparação com qualquer outro processo já vivido ou conhe-

gir que as empresas e os Estados redirigíssem suas energias e recur- cido anteriormente'.''*

sos para contrabalançar os efeitos do desemprego,da destituição e da A definição desse novo conceito ético corresponde muito pro-

desagregação dos serviços básicos, dos mecanismos compensatórios priamente às expectativas manifestadas pelo filósofo Hans Jonas

e redistributivos de oportunidades e recursos. Na mesma linha, seria quanto à criação de um necessário "imperativo de responsabilidade^

urgente atuar no sentido de deter e reverter a dramática degradação Um coro de vozes, cada vez mais denso, composto de associações

das condições de vida nos países do Terceiro Mundo, estabelecendo humanitárias ou líderes identificados com os direitos humanos por

em nível internacional procedimentos de compensação e redistribui- todo 0 mundo, vem insistindo no enquadramento jurídico e penal de

ção semelhantes em espirito aos adotados internamente, em relação indivíduos, grupos ou instâncias cuja atuação irresponsável prejudi-

aos grupos desfavorecidos, nas potências pós-industriais. que outras criaturas, alheias aos processos decisórios, ou seu meio

A respeito dessa perspectiva de busca de um nivelamento mais natural.

equilibrado nas relações entre as potências capitalistas e os países do Esta é, por exemplo, a posição do célebre economista John Ken-

Terceiro Mundo, o já citado Relatório de Desenvolvimento Humano neth Gaibraith, um dos formuladores das propostas que levaram à

da ONU assinala algumas proposições novas e bastante promissoras. consolidação do Estado do bem-estar social no século XX:

Como resultado justamente de pressões contínuas de associações


civis, órgãos internacionais e ONGs diversas, esse relatório, cuja edição O desenvolvimento econômico e social que eu mais gostaria de ver

começou em 1990, pela primeira vez estabeleceu de forma categóri- no próximo século se baseia firmemente no que vi neste século que

ca que os direitos humanos devem necessariamente incluir direitos está acabando. Ele se refere à pobreza. [...] As diferenças de rendi-

econômicos, sociais e culturais e não apenas direitos civis e políticos. mentos têm de ser diminuídas, particuiarmente pela melhoria de
winiioii Máquinas, massas, percepções ementes oi
sa60 cikrlruLOiiAceleração
CAPlTULOi Máquinas, massas, percepções
tecnológica, ementes
mudanças econômicas e desequilíbrios

quadrocondições
amplo dedaqueles
como esse
queefeito
vivematua,
em verificamos
privação. [...]que as mundo
Pelo mudan-afora CAPÍTULO II
ças dos
hámecanismos
de forma
populações edrasticamente
maisque
direta,
processos técnicos,
ampliam
num primeiro
empobrecidas.
os potenciais
momento
[...] Temos
produtivos
e
de reco-
de dado
19
[nassauBrcepcifis
nhecer o fim do colonialismo deixou alguns países semsis-
gover-
tema econômico, seja aumentando
no ou sob regimes sua capacidade
cruéis, nefastos de produção
ou incompetentes, e
que ignoram
consumo, seja multiplicando
totalmente suasderiquezas,
as expectativas representadas
bem-estar pelos flu-Nos
de suas populações.
xos depróximos
recursosanos
humanos, conhecimentos,
é preciso equipamentos,
criar meios pelos quais uma mercado-
ONU fortale-
rias e capitais.
cida intervenha na soberania de países cujos governos estejam
Num segundo
destruindo seus momento, essas
povos. Não mudanças
podemos, Irão alterar
em boa a própria
consciência, conti-
estrutura
nuarda sociedade.
a tolerar Isso
décadas ocorre na
e décadas de medida em
crueldade que o surgimento
[...].'’
dos novos e grandes complexos industriais — tais como usinas elétri-
cas,Com
fundições,
0 que siderúrgicas,
concordam osindústrias
termos doquímicas e refinarias
último Relatório de petró-
de Desen-
leo, com sua
volvimento escaladadeONU,
Humano milhares ouconclui
o qual dezenas de uma
com milhares de trabalhado-
proposta polí- Mudanças tecnológicas e transfiguração do cotidiano:
resem
tica — tom
promoverá o crescimento e a concentração dos contingentes de
de manifesto: tempos modernos
operários, propiciando um aumento excepcional dos seus poderes de
1, 'EM NOME DA SAÚDE
Como
pressão,
Os barganha e contestação,
avanços no manifestados
século XXI serão por intermédio
conquistados de
pela luta humanitá- USE ELETRICIDADE.'
vimos
associações, sindicatos e partidos, colocando assimsociais
em xeque vida das pessoas e as rotinas do seu cotidiano. P2. CITY OF LIGHTDE
.
— e os meca- ROPAGANDA 1927 DA
ria contra os valores que justificam as divisões contra a
no capítulo an- EM
LECIRICAL DEVELOPMENT
AQUETE ILUMINADA E
nismosoposição
tradicionais
que de controle
essa da sociedade
luta terá burguesa.
de enfrentar por parte de interesses As novas demandas de mão-de-obra dos gran- AMECANIZADA
SSOCIATION, DE COMPANHIA
terior, a partir da
MANHARAN
ANICA DE, DESENHADA
Essa situação,
econômicos potencialmente
e políticos explosiva, levaria à criação dos
estabelecidos.^’ des complexos industriais, associadas à meca- BRÍT

segunda metade PEIO Asouinra WDE


FORNECIMENTO ENERGIA
ALLACE

primeiros movimentos e partidos com característica operária ou à for- nização em massa das atividades agrícolas, K. HAdiUSON PARA O
EIÍTRICA, PARA PROMOVER
do século XIX e PAVRH AO DA EMPRESA
mação de partidos multiclassistas, ditos de massa, que representa- provocam um êxodo coletivo de grandes con- 0 USO DOMÉSTICO DA
pelo XX afora, as FORNECEDORA DE ENERGIA
ELETRICIDADE. ALÊM DAS
riam os Interesses de amplas camadas identificadas pela sua condi- tingentes da população rural em direção às ELETRICA DA CIDADE,
transformações TARIFAS AJAS E DA PARCA
CONSOLIDATED EDISON, NA
ção de assalariadas ou dependentes da venda de seusconhecimentos cidades, dando origem às metrópoles e mega- REDE DE DISTRIBUIÇÃO QUE
tecnológicas se NEW YORI
INIBIAM : WoflLO's FAIR
0 CONSUMO, HAVIA
especializados (reunindo operários, técnicos, funcionários públicos, lópoles modernas. Pela primeira vez as cidades ADE 1939. "[...) UMA
tornam um fator RESISTÊNCIA
CIDADE COM NERVOS
profissionais liberais, trabalhadores domésticos e autônomos, vende- podem crescer em escaia colossal, pois os SUPERSTICIOSA DA
cada vez mais de- ELETRICOS QUE
POPUlAÇAa PARA CONTROLAR
dores, caixeiros, artesãos, pequenos produtores agrícolas e assim por novosnameios
cisivo defini-de transporte movidos a eletrici- SEUS MOVIMENTOS
GERAIMENTE E
ATRIBUlA

diante). Esses novos partidos alterariam o quadro político, ensejando dade,


ção dascomo os trens,
mudanças bondesTomamos
históricas. e metrôs, co-
ou os QUALIDADES
TRANSMITIR SEUS

FANTASMAGÓRICAS A
PENSAMENTOS DIZIA
0 surgimento de regimes baseados nas organizações operárias ou de veículos com motor de combustão interna,
mo nosso ponto de referência mais distante a ELETRICIDADE E PRIVILEGIAVA
O DISCURSO DE

massa, em linhas tão diversas como o populismo norte-americano, o como motocicletas,


Revolução carros, ônibus
Científico-Tecnológica dee1870
cami-e USO TRADICIONAL OA
OINAIKURAÇAO.

MADEIRA E DO CARVAO.
nazi-fascismo ou o comunismo soviético. nhões, podem
pudemos deslocar
acompanhar rapidamente
seus grandes
desdobramentos
Assim como as inovações tecnológicas alteram as estruturas multidões
que, dos bairros
em direção ao finalresidenciais para as se
do século XX,foram
econômica, social e política, mudam ao mesmo tempo a condição de zonas deprogressivamente
tornando trabalho e vice-versa.
mais acelerados,
intensos e dramáticos. Se compusermos um
CApnuiOH Máquinas, massas, percepções e mentes 6J
62 CAMTULOii Máquinas, massas, percepções ementes

Da mesma forma que crescem horizontalmente, as metrópoles


podem expandir-se na vertical, graças à versatilidade dos novos
materiais de construção, como o concreto armado, aços especiais, alu-
mínio e chapas resistentes de vidro, que darão origem aos prédios e
arranha-céus. Estes, por sua vez, podem ser facilmente escalados,ape-
sar da altura gigantesca, por meio da eletricidade que move os eleva-
dores. E, para achar um amigo, basta apertar a campainha e usar o
interfone. Ah, e convém não esquecer de acender a luz do hall, pois lá
dentro não entra a luz do sol.
Toda essa vasta população, portanto, tem sua vida administrada
por uma complexa engenharia de fluxos, que controla os sistemas de
abastecimento de água corrente, esgotos, fornecimentos de eletrici- 3. CENA DE "TEMPOS
impulsos neuróticos, como o modo pelo qual MODEPNDS”.
dade, gás, telefonia e transportes, além de planejar as vias de comu-
suas relações sociais, seus afetos e sua vida emo- "A VORACIDADE
nicação, trânsito e sistemas de distribuição de gêneros alimentícios, ENVENENOU A ALMA DOS
cional são condicionados por uma lógica que HOMENS, ENVOLVEU O
de serviços de saúde, educação e segurança pública. Assim, numa
extrapola as fragilidades e a sensibilidade que MUNDO NUM CIRCULO DE
metrópole tudo se insere em sistemas de controle, até o passo com ÓDIO E NOS OBRIGOU A
constituem o limite e a graça da nossa espécie. ENTRAR A PASSO D€ GANSO
que as pessoas se movem nas ruas, dependente da intensidade dos
NA MISÉRIA E NO SANGUE.
fluxos de pedestres e do trânsito de veículos, de forma que se alguém MELHOROU-SE A
Dos olhos às mentes: designers do século XX VELOCIDADE, MAS SOMOS
for mais lento do que seus circunstantes, ou será chutado, acotovela- ESCRAVOS DELA. A

do e pisado ou, se não atravessar a via expressa num rabo de foguete, A alteração no padrão do comportamen- MECANIZAÇÃO, QUE TRAZ A

ABUNDÂNCIA, LEGOU-NOS O
terminará debaixo de algum veículo desembestado. to das pessoas imposta pela preeminência das
DESEJO, A NOSSA CIENCIA

Esse controle tecnológico pleno do ambiente em que vivem as máquinas, das engenharias de fluxos e do NOS TORNOU CiNICOS. A

pessoas acaba, por conseqüéncia, alterando seus comportamentos. compasso acelerado do conjunto, como seria NOSSA INTEUGENCIA NOS

TORNOU DUROS E BRUTAIS.'

Nessa sociedade altamente mecanizada, são os homens e mulheres inevitável, acaba também provocando uma
DECLARAÇÃO FINAL DE O
GRANDE DITADOU. FILME Of
que devem se adaptar ao ritmo e à aceleração das máquinas, e não o mudança no quadro de valores da sociedade.
CHAPUN DE 1940.

contrário. Um drama que foi representado com singela beleza no clás- Afinal, agora os indivíduos não serão mais ava-

sico Tempos modernos, desse herói da resistência humana contra a tira- liados pelas suas qualidades mais pessoais ou

nia das máquinas e dos processos de racionalização que foi Charles pelas diferenças que tornam única a sua perso-

Cha- nalidade. Não há tempo nem espaço para isso.

plin, 0 Carlitos. Nesse fiime de 1936, o artista expõe não só a maneira Nessas grandes metrópoles em rápido cresci-

como a nova civilização tecnológica deforma os corpos e o comporta- mento, todos vieram de algum outro lugar;

mentos das pessoas, sujeitas a movimentos reflexos incontroláveis e a


upfruLOii Máquinas, massas, percepções e mentes e?
6664CAPlmoii
CAPtiuioii
Máquinas,
Máquinas,massas,percep0esementes
massas, percepções e mentes culTULOil Máquinas, massas, percepções ementes 6s

s rial no mundo. Se estivermos à velocidade da luz, como veríamos essa


portanto, praticamente ninguém conhece ninguém, cada qual tem 4. CHRISTIAN DIOR,

luz refletida? Essa mudança energética dramática na interação


MUDOU
do os
uma história à parte, e são tantos e estão todos ível (por exempio, (1905-57),
o tempo todo tão ocupa-
PADRÕES DA MODA AO
inventando nosso olhar com a realidade deveria alterar alguma coisa na nossa
dos, que a forma prática de identificar e conhecer os outros sistemas
é a mais CRIAR 0 NlW LOOK EM

de racionalização do percepção, não é? Mas, como a idéia de alguém se1947;AKOVASimuETA


deslocar a veloci-
rápida e direta: pela maneira como se vestem, pelos objetos simbóli-
FEMININA FORJADA EM
dade da luz pareceu por si só insensata, pai e tio consideraram des-
cos que exibem, pelo modo e pelo tom com quetrânsito urbano
falam, pelo seueJeito
de
CORTES ARROWDOS E
segurança para os propositada a pergunta e repreenderam o garoto impertinente. Gra-
de se comportar. TECIDOS LUXUOSOS

pedestres). ças à sua teimosia, entretanto, na busca de esclarecer essa questão,


precede aAfala
sofisti- CONFERIA MODERNIDADE E,
Ou seja, a comunicação básica, aquela que e esta-
AO MESMO TEMPO, A AURA
cação das habilida- Einstein criaria a teoria da relatividade.
belece as condições de aproximação, é toda ela externa e baseada em MÃSICA DOS BAILES E

descom
do olhar, embo- Teria sido a genialidade que levou o rapaz a formular aquela
EVENTOS ELE5ANTES
símbolos exteriores. Como esses códigos mudam extrema rapi-
ANTERIORES AS DUAS
ra decorresse de um questão? Sem dúvida Einstein era dotado de uma inteligência excep-
dez, exatamente para evitar que alguém possa imitar ou representar GUERRAS. A MARCA DiOR

cional. Mas 0 que forneceu elementos para estimular sua imagina-


características e posição que não condizem comtreinamento impos-
sua real condição, SE TORNOU SINÔNIMO DE

ALTA-COSTURA E DE
to pela própria reali- ção e seu entendimento foram circunstâncias bastante concretas. Seu
estamos já no império das modas. As pessoas são aquilo que conso- TODOS OS ACESSÓRIOS
dade de
ematrair
rápida mu- pai e seu tio eram engenheiros e foram pioneiros naINERENTES
implantação de
mem. O fundamental da comunicação — o potencial
5-"FAÇA SUA CABEÇA.
e cati- A ELA.

dança, acabava trazendo, humanas


por conseqtiência, usinas elétricas e redes de transmissão de energia na região dos
var —já
DE NOVO não está mais concentrado
, DE NOVO nas qualidades da pes- a
possibilidade Alpes, numa área em rápido desenvolvimento industrial, nas frontei-
mercadoriasdequeampliar os horizontes da ima-
E DE Nova"
soa, mas na qualidade das ela ostenta, no capital Nesse novo mundo em aceleração sem-
PROPAGANDA
ginação e de instigar as mentes a vislumbrar ras entre a Áustria, a Suíça e o Norte da Itália. Para possibilitar a co-
aplicado não só em vestuário,
NORTE-AMESICANA DE UM adereços e objetos pessoais, mas tam- pre crescente, o grande ganho adaptativo, em
modos mais complexosno
dedesenvolvimento
interação com os municação entre esses pólos, fortemente dificultada pelos picos ro-
bém nos recursos e no tempo
SOFTWARE DE DESENHO
livre empenhados termos sensoriais e culturais, consiste exata-
GRAPICO. 1993.
novos na
potenciais. chosos das montanhas, foram abertos vários túneis, permitindo a
e na modelagem de seu corpo, sua educação e no aperfeiçoamen- mente em estabelecer nexos imediatos com os
Alguns casos exemplares podem ajudar a instalação ali de uma complexa malha ferroviária.
to de suas habilidades de expressão. Em outras palavras, sua visibili- fluxos dinâmicos. Esse aguçamento da percep-
compreender Viajando com os tios, o jovem Einstein ficava seduzido com a
dade social e seu poder de sedução sãocomo ocorre esse
diretamente processo que
proporcionais ao ção visual deveria ocorrer tanto no nível sub-
envolve mudança tecnológica e alteração da brusca sensação de aceleração experimentada quando dois trens em
seu poder de compra. consciente como no da compreensão racional
percepção e da sensibilidade, comdos
efeitos dire- direções opostas se cruzavam. Quando isso ocorria no escuro de um
Esses dois novos fatores associados — a aceleração ritmos da sistemática das energias e elementos em
tos sobre a invasão
imaginação túnel, 0 garoto via dois fachos de luz apontando um para o outro. E se
do cotidiano, em consonância com a dos eimplementos
o entendimento.
tecno-Foi o ação dinâmica. Uma tal readaptação dos senti-
estivéssemos num daqueles fachos, o que veríamos? Para os adultos,
lógicos, e a ampliação do que seda
papel deu comcomo
visão o jovem Albert
fonte Einstein. Em
de orientação e dos apresenta, pois, uma dupla vantagem. Por
fins doe século XIX, quando aindae rapagote, ele a luz na frente dos trens servia a um propósito bem definido: iluminar
interpretação rápida dos fluxos das criaturas, humanas mecânicas, um lado, possibilita evitar os riscos e inconve-
0 caminho. Para o jovem, era um potencial aberto a possibilidades ili-
pululando ao redor — irãosurpreendeu seu
provocar uma pai e seu
profunda tio com na
mudança uma estra-
sen- nientes intrínsecos a essas forças e agentes
mitadas.O pai e o tio de Einstein foram pioneiros em conceber a solu-
sibilidade e nas formas de percepção sensorial das populações metro-se
nha questão:"Que aparência teria o mundo, potencializados pela aceleração (por exemplo,
vistodo
porolhar,
alguém ção de problemas práticos a partir do uso inovador da eletricidade. O
politanas. A supervalorização logoque se deslocasse
acentuada a velocida-
e intensificada desviar de um carro em alta velocidade), e, por
menino, já nascido num mundo movido basicamente pela energia
pela difusão das técnicas de da luz?"A pergunta
publicitárias, faz completo
incidiria sobretudo sentido, se
no refinamen- outro, na medida em que as pessoas apren-
considerarmos que aquilo que elétrica, vislumbrava o seu desdobramento para outras dimensões
to da sua capacidade de captar o movimento, em vez deossenossos olhos
concentrar, dem a reagir a eles, lhes permite compreendê-
captam é aobjetos
luz refletida sobre as superfície^ ainda não imaginadas.
como era o hábito tradicional, sobre e contextos estáticos. los melhor e tirar deles o maior proveito pos-
que constituem toda forma de presença mate-
..

« ui>miu)i Máquinas, massas, percepções ementes ctflruuiii Máquinas, massas, percepções ementes w

0 modo como a rápida mudança do cenário tecnológico remo- tizar conceitos de quantidade e variedade, oprí- DUETOS DESENHADOS

POR LOEWY:
delava as imaginações é igualmente nítido no caso do designer fran- me a preeminência que recaiu sobre o olhar
6. CiUERA
cês Raymond Loewy, nascido em 1893. No seu livro de memórias ele como recurso de orientação e definição de pres- rOTOGRAFICA
descreve como as novas invenções marcaram de forma indelével a tigio. Daí a necessidade de dotar as mercadorias PjRMA SPECkAl {1937),
CORPO OE BAQUEUIE, LENTE
sua visão do mundo; de um padrão visual homogêneo e inovador,
OE ACRiUCO E PRECO

identificado com formas, cores, linhas e textu- ACESSÍVEL.

Aos catorze anos, em Paris, onde nasci, eu já tinha visto o nasci- ras apresentadas como um código icònico da 7.GELADEIRA COIDSPOT
SUPER SIX (C. 1934),
mento do telefone, do avião, do automóvel, das aplicações domés- modernidade, por um lado, e, por outro, de todo
AERODINAMICA SEMELHANTE

ticas da eletricidade, do fonógrafo, do cinema, do rádio, dos eleva- um Jogo de tensões, contrastes e ousadias que 4 00 AUTOMÚVa.

dores, dos refrigeradores, do raio X,da radioatividade e, não menos as 8. TALHERES PARA OS AVIÕES

OA AIRÍRANCE (c. 1978),


importante, da anestesia.' distinguissem das demaís,as quais ficavam rebai- DESENHADOS PELA

xadas por associação a noções de passado, COMPAGME otsTHETIQUE

INDUSTRIELU, FUNDADA POR


Depois de atuar como oficial engenheiro na Primeira Guerra obso-
LOEWY.
Mundial, o primeiro conflito bélico travado em termos puramente lescência e mediocridade. 0 que Loewy desco-
tecnológicos, Loewy migrou para os Estados Unidos. Ali, fascinado briu,
de em suma,
capturar foi o conceito de estilo. Ou seja, a
a ima-
com 0 prodigioso desenvolvimento industrial, iria se tornar a figura ginação dos con-
quintessencial do design moderno. O que ele percebeu, em termos sumidores.
pioneiros,foram duas coisas básicas. Primeiro, que não basta aos pro- Caso ainda
dutos da indystria serem melhores, mais funcionais e mais fáceis de mais interessan-
usar, não basta investir em qualidade, eficiência e conforto. Num te é 0 dos artis-
mundo marcado pela hipertrofia do olhar, o ftjndamental é que os tas que criaram a
produtos pareçam mais modernos, que se tomem eles mesmos mani- arte moderna no início do século XX. Esse
festos de propaganda da modernidade que as pessoas anseiam por grupo, reunido ao redor do pintor Picasso,
incorporar em seu cotidiano, pois isso lhes permite irradiar a autocon- incluía, entre outros, o músico Erik Satie, o
fiança, 0 otimismo e o sentimento de superioridade dos que vão poeta Guillaume Apoilinaire e o dramaturgo
adiante do seu tempo, abrindo o caminho com espírito de aventura e Alfred Jarry, todos artistas decisivos na elabo-
alma de exploradores, para os que os seguem logo atrás. ração da nova estética, que viria a ser chamada
A segunda descoberta de Loewy foi que, num mundo submerso de arte moderna. Sendo gente de vida boêmia
sob a avalanche cada vez mais sufocante de mercadorias e produtos e de poucos recursos,seu modo preferido de se
industriais, não basta que os artigos sejam bons e baratos para ganhar o entreter era compartilhar das novas formas de
favor dos consumidores.O efeito massivo da produção industrial, ao enfa- lazer criadas graças ao advento da eletricidade:

lilElLlulJ
70 CAPCTULOII Máquinas, massas, percepções e mentes CApfiULOii Máquinas, massas, percepções e mentes 71

O cinema e os parques de diversões. Diga-se de passagem que, em INVENÇÕES DOS MÍLIÈS:

9. CARTAZ DO ESPETACULO
fins do século XIX, quando essas formas de entretenimento surgiram,
DE MAGICA "LE CHAIEAU
eram destinadas especificamente às classes trabalhadoras; as pessoas DE MESMER", 1S94.

mais abastadas as consideravam formas grosseiras, vulgares, coletivas GEORSES MOICS COMEÇOU

SUA CARREIRA COMO


e estúpidas de diversão, apropriadas apenas para crianças sem aces-
MACICO, FAZENDO JSO DE

so à educação e para criaturas ignorantes em geral, sem condições de PROJEÇÕES DE LUZ PARA

usufruir das belas-artes. DRAMATIZAR SEUS QUADROS


NO TEATRO DAS ILUSÕES, EM
No cinema, o grupo boêmio era fã das comédias dos irmãos PARIS. MAIS TARDE

APLICARIA SUAS TÉCNICAS


Méiiès. Nesses filmes, em gera! pastelões, criaturas caíam da janela
EM FILMES.
dos prédios sem que nada lhes acontecesse, se davam marteladas e
picaretadas nas respectivas cabeças e quem amassava era o instru- te por cima, pelos lados, por dentro, por fora, por
10. CENA OE 'VIAGEM A
mento, ou se enchiam uns aos outros com bombas pneumáticas até baixo, em diferentes ângulos ao mesmo tempo e LUA', 1902.

que um estourava, ou executavam danças em que, a certa altura, as num contexto espacial segmentado em múlti- FILME OE TRINTA MINUTOS

EM QUE SEIS CIENTISTAS ,


pernas e os braços do dançarino se separavam do corpo, ou tomavam plas faces e dimensões. Embora estejamos dian-
MEMBROS DO CLUBE DOS

um banho e encolhiam a ponto de entrar pelo ralo e circular pelos te de um objeto estável, um quadro, o que ele ASTRÔNOMOS, VAO PARA A

LUA, SAO APRISIONADOS


encanamentos da cidade, e assim por diante. Ou seja. o que encanta- representa é um dinamismo sensorial em turbi-
PELOS SELENITAS,

va os artistas eram os truques de corte e montagem que o cinema lhão, como se estivéssemos nos deslocando rapi- CONSEGUEM ESCAPAR,

CAEM DE VOLTA NA TERRA


permitia, superando todos os limites humanos e permitindo proezas damente em diferentes direções e vendo a cena
E SAo RESGATADOS COMO

jamais imaginadas, nem pelas mais ousadas formas de fantasia. pintada de vários ângulos e em muitos recortes HERÓIS.

Nos parques de diversão, o que os atraía eram os brinquedos ao mesmo tempo.^

que, ou por submeterem as pessoas a experiências extremas de des- O que a nova estéti-
locamento e aceleração ou por lhes propiciarem perspectivas inusita- ca cubista propõe Já
das, alteravam dramaticamente a percepção do próprio corpo e do nada tem a ver
mundo ao redor. Era o caso dos trenzinhos expressos, do tira-prosa, da com as tradi-
roda-gigante e, claro, da montanha-russa, uma mistura de tudo isso cionais “be-
com muito, muito mais emoções. las-artes"
De tal modo aqueles artistas souberam transpor essas experiências mas é uma
para o mundo artístico que, quando observamos um quadro típico do reflexão acer-
cubismo, a linguagem artística criada por Picasso,o que vemos é o efei- ca dos novos po-
to conjunto dessas técnicas de corte, montagem, multiplicação de pers- tenciais e seu impacto trans-
pectivas e fragmentação da visão. Os objetos são vistos simultaneamen- formador sobre a percepção, a
72 CAPITULOU Máquinas,massas,percepções e mentes CANTULOII Máquinas, massas, percepções ementes 73

11. "SACRÉ-COEUR",
dos maiores expoentes da física quântica, era um colecionador apai-
TEIA DE 1910 DE

GEORQES BRAOUE. xonado e compulsivo de arte cubista. Quem poderia imaginar quão
longe chegariam os efeitos desorientadores da montanha-russa?
12. FOTO DA BASILICA DE

SACRE-COEUR EM
A indústria do entretenimento e a sociedade do espetácuUi,
MONTMARTRE, PARIS.

Mas a montanha-russa obviamenle não foi criada com essa


PiCASSO E BRAQUE,
intenção de potencializar a imaginação e nem mesmo o cinema deri-
UGADOS UM AO OUTRO

COMO UMA DUPLA DE vou de qualquer motivação dotada desse teor nobre. Sua destinação
ALPINISTAS. COMO ELES
desde a origem foi a de proporcionar entretenimento para o maior
MESMOS DIZIAM, LEVARAM

AO CUME AS NOVAS número pelo menor preço. Corresponde ao que nos Estados Unidos
POSSIBILIDADES NAS ARTES
foi chamado de mercado das"emoções baratas"Como vimos,o rápi-
VISUAIS. BRAQUE ASSIM

DEFNIU A LINGUAGEM do processo de industrialização gerou processos de crescimento e


VISUAL APELIDADA DE
CUBISMO; "NOVOS MEIOS. concentração urbana, ensejando o surgimento das metrópoles. A for-
NOVOS TEMAS... O OBIETIVO
te organização dos trabalhadores e suas lutas constantes pela melho-
NAO É RECONSTITUIR UM

PATO DA WOA REAL, MAS ria de suas condições de vida e de trabalho acabaram se convertendo
CONSTITUIR UM FATO
(especialmente depois das grandes greves e agitações revolucioná-
FiaORico... TRABALHAR A

PARTIR DA NATUREZA rias entre fins do século XIX e inícios do XX) em ganhos salariais, re-
SIGNIFICA TER DE
dução da Jornada de trabalho, folgas semanais e férias. Formaram-se
IMPROVISAR... Os SENTIDOS

DEFORMAM, A MENTE assim grandes contingentes com alguns recursos para gastar e algum
FORMA... Eu ADMIRO AS
tempo livre. Como a ópera, o teatro e os salões de belas-artes eram
REGRAS QUE CORRIGEM AS

EMOCCiES". luxos reservados aos abastados, alguns empresários vislumbraram a


oportunidade de investir nas duas formas baratas de lazer possibilita-
das pelo desenvolvimento da eletricidade: o cinema e os parques de
diversões.
O resultado foi um espantoso sucesso. A montanha-russa foi
inventada em 1884 e o cinema dez anos depois, em 1894. Em ambos I
se fica na fila, se paga, se senta e, por um período de tempo determi-
imaginação e a inteligência humanas. Não deve- nado, se é exposto a emoções mirabolantes. A montanha-russa produz
mos nos surpreender, portanto, se descobrimos a vertigem no corpo, de tal modo que oblitera os sentidos e mal se
que 0 dentista que sistematizou a mais ousada pode observar ou apreender o mundo ao redor. No cinema, as luzes se
revelação da ciência moderna, Niels Bohr, um apagam e a tela se irradia com uma hipnótica luz prateada, isolando
74 CAPITULOU Máquinas,massas,popcepçõesementes CAPfTULOii Máquinas, massas, percepções ementes 7S

todos OS sentidos e fazendo com que a vertigem nos entre pelos olhos.
O que se paga é o preço da vertigem, e não é caro. O impacto psicofi-
siológico da experiência é, no entanto, de tal forma gratificante, que
ninguém resiste a voltar muitas e muitas vezes, fazendo desses atos
um ritual obrigatório de todo fim de semana. Eles, literalmente, viciam.
' Grandes fortunas se fizeram explorando esse anseio pelas "emo-
ções baratas" entre as massas urbanas. Era o nascimento de um dos
tov e Eisenstein, capazes de desafiar as con- 13A E 13B. LUNA PAAK

empreendimentos mais prósperos do século XX;a indústria do entre- DE UIA E A NOITE.


venções da percepção e abrir novas possibi-
CARTÕES-POSTAIS.
tenimento. Em 1897 foi inaugurado em Coney Island, conexa à cidade
lidades de compreensão e interpretação dos INAUOURADO EM 1903, O

de Nova York, o Steeplechase Park, criado por um especulador do LUNA PARK FOI CONCEBIDO
fatos e processos. Mas esses experimentos nun-
PARA "NÃO SER DESTA
mercado imobiliário, George Cornelius Tilyou, consolidando a idéia
ca conquistaram as multidões.O modelo norte- TERRA": CADA VISITANTE
genial de associar num mesmo ambiente todo um lote de diversões
americano acabou prevalecendo e o cinema ERA ADMITIDO COMO

elétricas, vários cinemas e uma enorme montanha-russa.0 afluxo de ASraONAUTA E AVISADO DE


ficou condenado ao efeito montanha-russa — QUE "AVIAGEM A LUAA
público foi tão grande, os lucros tão estratosféricos, que o empreendi-
uma forma de entretenimento cada vez mais BORDO DO LUNA IV" SERIA

mento não parou mais de crescer. Em dez anos o parque de diversões INEVITÁVEL. EM POUCO
infantilizada, mais cheia de frissons, de verti-
TEMPO PARQUES DE
se estendia por uma área de quase um quilômetro quadrado, tornan-
gens, de correrias, tiros, bolas de fogo e finais DIVERSÕES COMO

do Coney Island o maior centro de entretenimento do mundo. Era o STEEPLECHASE, DREAMLANO


felizes.
E LJNA PARK SERIAM
precursor das Disneylândias, dos parques temáticos e das estâncias
Uma das razões para esse desfecho está REPRODUZIDOS NOS QUATRO
turísticas, que mobilizariam multidões cada vez maiores e investi- CANTOS DO PAlS E DE TODO
na etapa seguinte do desenvolvimento tecno-
O MUNDO.
mentos milionários, oferecendo sempre a mesma coisa em diferentes
lógico. As inovações técnicas ocorridas duran-
partes do mundo.
te e logo após a Primeira Guerra assentaram as
É interessante considerar como alguns dos mais eminentes pio-
bases da eletrônica, multiplicando o potencial
neiros da arte moderna, principalmente dentre os surrealistas, se
de recursos já existentes mas ainda muito li-
deram conta do extraordinário potencial artístico do cirema. Assim
mitados, comq_q cinema, o rádio e o fonógra-
como os cubistas haviam buscado reproduzir com seus pincéis a
fo. Implementos eletrônicos, além de permiti-
mobilidade, a versatilidade, o dinamismo e a descontinuidade com
rem a transmissão de sinais e sons com grande
que a câmera de filmar capta e transforma a realidade, havia a opção,
precisão, possibilitaram o aperfeiçoamento de
muito óbvia, de usar a própria filmadora para repassar versões
sistemas de amplificação, o que os faria passí-
"cubistas" do mundo para o grande público dos cinemas. O que foi
veis de ser consumidos em mercados de
tentado e gerou experiências de notável densidade artística, em
massa. Assim, o fonógrafo se tornaria a eletro-
especial por cineastas europeus como Abel Gance, Bunuel, Dziga Ver-
la, permitindo que a audiência dos discos pas-
76 CAPfruLOii Máquinas, massas, percepções ementes CAPiTULOii Máquinas,massas, percepções emenics //
78 CAPlruioii Máquinas, massas, percepções ementes CARfTULOii Máquinas, massas, percepções ementes 79

e sessões de fofo- 15. "ENTRE A LOURA E A


Guerra, O objetivo do novo ma- esse complexo legado cultu-
MORENA", TITULO
cas das rádios. BRASILEIRO DO FILME
gazine, segundo seu ral é diluído num conjunto
"THE GANGS ALL HERE",
Nos
editor, seria refletir e de fórmulas padronizadas, DE 1943, DIRIGIDO PELO

intervalos vinham COREÓGRAFO PREFERIDO


alimentar 0 estado de de extensão, duração e efei-
os anúndos comer- DA HOLLYWOOD DE
espírito que tomava to calculados, para terem
ENTÃO, BUSBY BERKELEY.
ciais, cujos produ-
conta da civilização preço mínimo em função de COM ESSE FILME, CARMEN

tos eram, uma vez


industrial:"uma cres- uma ampliação máxima do MIRANDA SE PROJETOU
DEFINITIVAMENTE,
mais, associados
cente devoção ao pra- seu consumo. INTERPRETANDO

ao estilo de vida COMPOSIÇÕES DE ARI


zer,àfelicidade,à dan- Subsistem ainda ele- BARROSO, tEON RUSIN
dos protagonistas
ça, ao esporte, às delícias do país, ao riso e a mentos da cultura popular, E HARRV WARREN,
16. A PRIMEIRA
14. pAROut oe sasse do cinema, do rá-
as do ambiente do lar e da família para os EXECUTADAS PELO
BEMONJIRAÇÃO-tie-UM todas formas de alegria"’ Essa atmosfera que são metodicamente sele- CONJUNTO BANDO DA LUA
grandes dio e do disco. Pa-
e salões de baile, teatros, music-halls
as ima- e
DIVERSÕES NO UUiO
AFUREmO DE TVLSE-DEU
ONTARIO.
fremente desejante, que galvanizava cionados e incorporados pela indústria do E PELA ORQUESTRA DE
17. Os PRIMEIROS
EM-W26,
grandes juke-boxes. 0_rádi^em vez de limita- ra completar a ce- BENNV GOODMAN.
A PARTIR DO SUCESSO EMginações e atravessava as divisões sociais,
PELO ESCOCÊS JOHN LOGIE se entretenimento, mas eles estão descontextua- APARELHOS DE TV

BAIRD, OUE BATIZOUMSEU


ANHATTAN, A CHAMADA
do aosumfones de ouvido individuais, soaria au- na, nos anos 30 se CUSTAVAM TANTO QUANTO
tornaria imperativo de mercado: o que lizados, neutralizados e encapsulados em
INVENTO DE "TELEVISOR":TECNOLOGIA DO UM CARRO. A PARTIR DE
dível não só para as casas, mas para as ruas, os difunde a criatu-
FANTÁSTICO, USADA PARAquer que atendesse aos seus apelos seria favo-
A TEIINHA EM UMA DAS
doses módicas, para uso moderado, nas horas 1949, FORAM SE

carros, ra-chave do sécu-


EXTREMIDADES E ENTRETER
A CAIXA MAIS DE comoslucros
bares,e os restaurantes,as barbearias. TORNANDO CADA VEZ MAJS
recido sucesso; o que a confron- apropriadas. Seu fim não é 0 êxtase espiritual
DE SOM EM1 OUTRA.
MlLHiO DE PESSOAS POR ACESSÍVEIS, COMO ESSE
O cinema, mágica das mágicas,e aiém das ima- lo XX — a televi-
tasse
DIA NOS PARQUES DE seria punido com prejuízos desgraça. dos rituais populares tradicionais, mas propi- MODELO FEITO DE

gensOem movimento, apresentava agoraentre^-..


o som são —, já na sua
DIVERSÕES, SE TORNOU
pano de fundo dessa revolução'^ ciar a seres solitários, exauridos e anônimos, a BAOUELITC, 0 BUSHTV12.

ACESSÍVEL MESMO LONGE


sincronizado com as faias e com as ações versão totalmen-
DAS GRANDES CIDADES.
tenimgaio, que redefine o padrão cultural das dos identificação com as sensações do momento e
POPULAÇÕES RURAISpersonagens. te eletrônica, com tubo de raios catódicos de
sociedades urbanas do século XX, é a dissolução com os astros, estrelas e personalidades do
PUDERAM ADQUIRIR, A
Porém, mais importante, a partir desse grande definição visual.
PREÇOS MÓDICOS, SUAda cultura popular tradicional, causada pela mundo glamouroso das comunicações. Além, é
momento Essa conjunção emergente configurava
emomassa
sistema cuiturai inteiro adquiria
PRIMEIRA E MUITAS VEZES
migração dos trabalhadores das áreas claro, de preencher 0 vazio de suas vidas emo-
UNICA EXPERIENOA DA
uma nova consistência, na medida em que a um novo fenômeno cultural, que um historia-
CONDIÇÃO METROPOUTANA.rurais para as grandes cidades. Essa inserção de cionais e 0 tédio das rotinas mecânicas com a
eletrônica permitia dor denominou"a revolução do entretenimen-
contingentes cada vezuma interação
maiores sinérgica
de populações vertigem dos transes sensoriais e experiências
entre todosnas
esses recursos. Assim, to" e um outro teórico anunciou como "a so-
camponesas áreas urbanas, ondeas rádios
são redu- virtuais de potencialização, multiplicação e
tocavam as músicasdisdplinadores
da indústria fonográfica, ciedade do espetáculo" Já prenunciado nos
zidas aos imperativos da condi- superação dos limites de tempo e espaço.Tudo
que por sua vez haviam sido lançadas pelos fil- grandes parques de diversões, esse estado fre- I
ção operária, extirpa as formas de transmissão calculado, compactado e servido ao custo de \
nético de disposição apareceria plenamente
dames musicais
cultura da indústria
tradicional, cinematográfica,
todas elas presas às raí-a um tostão.
representado no editorial de uma revista que
zesqual fornecia
locais o quadro
dos campos de astros
e das e atrizes,
práticas de
agrícolas, Segundo a análise do teórico Marshall
cantoras e dos
cantores se tomaria o órgão oficial dessa mentalidadeia
dependentes cicloscujas vidas eram
da natureza escrutina-
e dos seus McLuhan, a sociedade tradicional, assentada
das pelos populares programas de auditório Vanity Fair, de Nova York, lançada precisamente
simbolismos mítico-poéticos milenares. Todo no âmbito rural e na oralídade,estabelecia um
em 1914, no contexto da irrupção da Primeira
80 CAPÍTULO !i Máquinas, massas, percepções 6 mentes CAPtruioii Máquinas, massas, percepções ementes si

ambiente cultural de predominância acústica, auditiva, em que todas


as relações sociais eram intensificadas por rituais que acentuavam o
presente, a simultaneidade e a riqueza de cada instante, A introdução
da imprensa mecanizada, nascida com os tipos móveis de Gutenberg,
consolidou uma cultura centrada na visão e baseada no primado da
sucessão temporal em cadeia linear, enfatizando valores abstratos,
racionais, hierárquicos, cumulativos, e o anseio pelo futuro. O recente
advento das técnicas eletro-eletrônicas reformulou esse contexto ao
atribuir um novo papel ao olhar, não mais estático como aquele con-
dicionado pela imprensa e pela perspectiva linear do Renascimento,
mas um olhar agora onipotente e onipresente, dinâmico, versátil,
intrusivo, capaz de se desprender dos limites do tempo e do espaço,
como aquele da câmera de cinema. A esse olhar alucinado, os recur-
sos eletro-eletrônicos acrescentaram os potenciais do som amplifica- Portanto, trais que mera diversão ou 18. EMBORA
MONOCROMÁTICA E COM
do e distorcido, repondo ao conjunto os efeitos de simultaneidade, de entretenimento,0 que essa indústria fornece, TELA PEQUENA, A TV SE
descontinuidade, da interatividade de fragmentos autônomos, ade- ao custo de alguns t roçados, são porções rigo- TORNOU UM SUCESSO QUE

ESVAZIOU SENSIVELMENTE
mais da conectividade táctil de um mundo invadido pelas multidões, rosamente quantificadas de fantasia, desejo e AS PLATÉIAS DOS
pelos fluxos e pelas mercadorias.'' euforia, para criaturas cujas condições de vida CINEMAS.

Como elemento contingente dessas transformações complexas, as tornam carentes e sequiosas delas. Como A INDÜSTRIA

a cultura é redefinida por um processo de comercialização, transfor- disse outro teórico, Guy Debord, essa indústria
CINEMATOGRÁFICA REAGIU,

EXPLORANDO NOVOS
mada num campo de investimentos, especulação e consumo como se esforça por compensar o extremo empo- RECURSOS DE SOM,

qualquer outro. Seu mecanismo básico de funcionamento é aquele brecimento da vida social, cultural e emocio-
FILMAGEM E PROJEÇÃO:

CINEMASCOPE, CINERAMA E
revelado de forma pioneira pela montanha-russa e o cinema. McLu- nal, arrebatando as pessoas para uma celebra- 3-D, PROCESSO LANÇADO

han, uma vez mais, definiu-o com rigorosa precisão: ção permanente das mercadorias, saudadas PEIA POLAROID COMPANV,

EM 1952, QUE EXIGIA 0


como imagens, com o novidades, como objetos uso DE ÓCULOS ESPECIAIS
Em experimentos nos quais todas as sensações externas são blo- eróticos, como espetáculo, enfim. DE PAPEL BICOLOR PARA SE

OBTER A SENSAÇAO DE TRÊS


queadas, o paciente desencadeia um furioso processo de preenchi-
DIMENSQES.
mento ou substituição dos sentidos, que é a alucinação em forma
Entendido na sua totalidade, o espetáculo
pura. Do mesmo modo, a excitação de um único sentido tende a pro- é tanto 0 resultado quanto o objetivo do
vocar um efeito de hipnose, equivalente à maneira como a privação
modelo de produção dominante. Não é
de todos os sentidos tende a produzir visões.^ algo acrescentado ao mundo real — não é
S2 up(TULOfi Máquinas, massas, percepções ementes CAPiniLOii Máquinas, massas, percepções ementes HJ
S4 CAPtrvLOii Máquinas, massas, percepções ementes CAPiruLOii Máquinas,massas,percepçõesementes BS

um elemento decora- das instituições liberais-democráticas do século XIX, essa meta-


REVOLUTIONARY NEW
lógica do exilo dos FOOD TREND!
poderes humanos num “mundo superior a Após 1945, a instauração da Guerra Fria reformularia o jogo polí-
tivo, por assim dizer. morfose tem sido um golpe intolerável em sua auto-estima, o que
*^'|||'«nii
este“— $11MI e a perfeição IIIJNéN*J, bi» graças
alcançada Imill à separação entre os seres tico em termos, literalmente, de um duelo de propaganda. O núcleo
.a., ibi fiii-l a- -IJ! ‘"il ...... ...............
f-J .... ,,r„u,6..- ........ Ao contrário, constitui a mantém relutante em aceitar o diagnóstico — aversão que a
humanos.^ das potências capitalistas de um lado e, do outro, o bloco soviético,
0 próprio coração da induz a renegar neuroticamente sua condição, reproduzindo ima-
separados simbolicamente pelo muro de Berlim, manteriam seu
realidade irreal dessa gens alienadas e fantasmàticas de si mesma e recorrendo às fór-
Essa fórmula básica, que propunha o reino prometido em troca enfrentamento por meio do controle das comunicações, da política
sociedade. Em todas mulas mais aberrantes de representação espetacular. Raramente se
da estigmatização, exclusão, perseguição e até do extermínio de gru- cultural e dos sistemas educacionais, na medida em que o advento
as suas manifestações ouve a voz de criticos lúcidos, como Neil Postman, com seu tom
pos humanos específicos, foi a primeira a fazer um uso intenso e siste- das armas atômicas tornava o conflito direto inviável. Macarthismo e
específicas — noti- perturbadoramente profético:
mático dos novos recursos eíetro-eletrônicos de comunicação e das stalinismo se representavam como os únicos dialetos em que podia
cias ou propagandas,
técnicas da publicidade moderna. A receita consistia em opor, em ser articulado qualquer discurso público ou prática cultural. Nas peri-
anúncios ou o con- Quando toda uma população vè suas atenções atraídas pelo trivial,
duelo mortal, uma grande generalidade passível de receber represen- ferias do mundo, o confronto se desdobrava em violência desenfrea-
sumo de quaisquer quando a vida cultural é redefinida como uma sucessão perene de
tação épica e heróica — uma "naçãoT uma "raça" uma "cultura" uma da, por meio de ditaduras brutais e guerras genocidas em que eram
entretenimentos, quando toda conversação pública séria se torna
formas de entreteni-
"tradição','uma"civilização','uma"filosofia',’uma "ciência"—que se opu-
A comi^le quidi-froxen lutkey testados os últimos prodígios da corrida armamentista, incluindo
dinner readv lo heot and serve um balbucio infantíl,quando, em suma, um povo vira platéia e seus
mento —, 0 espetá-
nha aos segmentos apresentados
«lial como
'•niil—rp^ iu> egoístas,
«ie<W sectários, renegados, armas químicas, biológicas e mísseis teleguiados de grande impacto
Oai «; IM I-» itMo lU-a l*!-' B liearl» negócios públicos um número de teatro de revista, então a nação
culo concentra o mo-
subversivos,
Swmtep iy WnMvi (««MnC
IlUih aJka tÁ JuUy larbM «U rirH,
r>^ <vWr if*‘y tornVaat dfMw
uirt^dUtMereiiüy
estrangeiros, impuros,
A «16 AOkO SWANWN 9MASH IIIMIMI
contaminadores,
CAAIMJON degenerados e destrutivo. Os massacres diários nas periferias se traduziam em due-
se acha em risco:a morte da cultura é uma possibilidade nítida.'
U SABIAOINO TH( NCWA IIKC WttDflKC
WRiiecirt Mon (MláM, (*«ü»r
^Mrm fM Mb «Afe Ib, iw*> |l*iilie'‘>>o*iai''<i««tr**i1iarxlle^l" - trouvi E>viidgj<arf- do dominante de vida
perversos.Tais
(í)
(MluiirU •Maok) grupos«eoi.poderiam
r*eiag*>4d« ser
<<ei ir> au. ('sD. ««in. representados
-Ire Huraaroit Vttta> como uma classe los estatísticos na linguagem publicitária da Guerra Fria.
fi.Kl OMlUtutOf. social. Ele é a celebra-
social, uma etnia, uma religião,
QVKmcoHrDOM ■
uma doutrina, uma tara, uma patologia,
C. k. B WA N S O M A » O H 9 • O M A H A » . N I B R A A K A
A rebelião
Da ditadura juvenilàdos
publicitária popanos
art 60 — catalisada pela resistência obs-
ção onipresente de
um arcaísmo ou, no melhor dos casos, tudo isso ao mesmo tempo. tinada à intervenção norte-americana no Vietnã e pelo repúdio à
uma escolha já feita na esfera da produção E quantas vezes a cultura do século XX não morreu, ou melhor,
19. "DA CAIXA PARA O
A utilização coordenada da imprensa, do cinema, de canções, repressão da Primavera de Praga pelas tropas soviéticas — abriu um
FORNO — 25 MINUTOS
e 0 resultado consumado dessa escolha. não foi assassinada, nesse periodo turbulento que o historiador Eric
rádio, pôsteres, slogans, imagens, cores, símbolos, monumentos, per-
DEPOIS, UM PEITO DE
campo de representação cultural autônomo, desvinculado da polari-
Tanto na forma como no conteúdo, o espe- Hobsbawm chamou de "era dos extremos"? Pois foram as instâncias
formances
PERUe rituais
PRONTO PARAespetaculares em espaços públicos, propiciou a zação da Guerra Fria. A indignação, o idealismo, a generosidade e a
COMER, EM SUA PRÓPRIA táculo serve como justificação total para as de poder que em primeiro lugar se valeram desse pendor contempo-/
esses grupos poderes de comunicação, sedução e apoio político entu- disposição de sacrifício dos jovens, associados às suas mensagens de
BANDEIA DEALUMiNiO.”
condições e as metas do sistema existente. rãneo para a ilusão. Instâncias que correspondiam à interação entre ^
siástico em escala jamais vista. Nas décadas de 1920,30 e 40, Estados humanismo, pacifismo e espontaneidade no retorno aos valores da
PROPAGANDA
Ele ademais assegura a presença perma- os sólidos interesses econômicos e os grupos políticos articulados ao
potencializados por esse virtual monopólio das novas tecnologias
NORTE-AMERICANA DE natureza,do corpo e do prazer,da espiritualidade,abalaram o campo
1953: REFEIÇÃO
nente dessa justificação, pois governa prati- redor de plataformas que refiguravam as pessoas como heróis, suas
comunicacionais instituíram práticas de política cultural concebidas
CONGEIADA, A "TENDÊNCIA
político estagnado e os transportaram para o centro do espetáculo.
camente todo 0 tempo despendido fora do lutas como épicas, os inimigos como demônios e a vitória final como
como autênticas engenharias de imaginações, emoções, desejos e
REVOLUCIONARIA", SERVIDA
Sua palavra de ordem,"Faça amor, não faça a guerra"seguia a fórmu-
NO MESMO RECIPIENTE EM
processo de produção.® a liberdade e a felicidade conquistadas num campo de batalha san-
(Comportamentos. Estados baseados nesse arcabouço eletro-eletrôni-
OUÉÊ AQUECIDA PARA SER
la concisa e lapidar dos slogans publicitários e era acompanhada do
grento e fumegante. Nas palavras de Guy Debord,
to e CONSUMIDA
em efeitos espetaculares assumiram diferentes feições, cada qual
DIANTE DA TV. símbolo oriental de uma forquilha invertida dentro de um círculo,
Para uma cultura orgulhosa de se repre-
fcom suas características peculiares, desde as nazi-fascistas e stalinis- caracterizando um logotipo, o que demonstra o quanto os jovens se
sentar como a herdeira das tradições civiliza- A negação absoluta da vida, na forma de um paraíso falacioso, não
i'tas da Europa, até o populismo autoritário de Rooseveit na América e apropriaram de técnicas que regiam o universo das mercadorias.
é mais projetada nos céus, mas encontra seu lugar no contexto da
i as fórmulas híbridas dasdoras dos gregos e romanos, do humanismo
nações periféricas, como Juan Carlos Perón É claro que o mercado se aproveitaria dessa ambivalência para
própria vida material. O espetáculo é portanto uma versão tecno-
renascentista,do racionalismo da Ilustração e
j na Argentina e Getúlio Vargas no Brasil. fazer exatamente o oposto, isto é, para incorporar o prestígio da rebe-
86 CAPiTüioii Máquinas, massas, percepções ementes CAPlAiLoii Máquinas, massas, percepções ementes 8?

22. QUANDO OS

UNIVERSITÁRIOS DE PARIS

SAlRAM As RUAS NO

COMEÇO DE MAIO DE

1968, PROTESTAVAM

CONTRA A POLÍTICA

OBSCENA QUE PROMO\nA

A GUERRA DO VIETNÃ E

AS DISPARIDADES SOCIAIS.

MANIFESTAVAM AINDA SEU


DESCONTENTAMENTO COM O

ULTRAPASSADO SISTEMA DE

ENSINO E AS MAS

CONDIÇÕES DAS
de, do hedonismo e da liberdade de escolha.
20. MANIFESTAÇÃO lião juvenil e usá-lo para dotar os artigos de UNIVERSIDADES.
CONTRA A GUERRA DO Não por acaso a corda moda se torna o“s/ioc/c-
consumo de um charme pretensamente "irre-
VIETNÃ EM FRENTE AO
ing pink", o rosa-shocking, de perturbadora 23. A CRESCENTE
OBELISCO MONUMENTAL verente" e "desreprimidoT Essa estratégia se
EM WASHINGTON, EM sugestão genital, aplicado ampla e generosa- INSATISFAÇÃO COM O
revelaria em peças publicitárias famosas, em TOTALITARISMO SOVIÉTICO
1971.
mente às roupas e recursos de maquiagem, aos LEVOU ALEXANDER
O SÍMBOLO PACIFISTA
tom de suposta contestação, como"A liberdade
objetos pessoais, à decoração de ambientes, ao DUBCEKAO CARGO DE
TOMOU 0 LUGAR DAS
é uma calça velha, azul e desbotada" para pro- PRIMEIRO-SECRETARIO DO

ESTRELAS, NA BANDEIRA mobiliário, aos eletrodomésticos, aos carros, às PARTIDO COMUNISTA


NORTE-AMERICANA.
mover a venda de roupas de brim, ou "Corra
embalagens, e também, é claro, aos doces, sor- TCHECOSIOVACO EM

para bem longe da sua casa” (abusando do JANEIRO DE 1968.


vetes e confeitos. 0 que levou um grupo de
EM 21 DE AGOSTO AS
21. DEPOIS DO
célebre mote hippie “turn in, turn on, drop out“,
artistas a levar esse cinismo ao extremo, pintan- TROPAS RUSSAS INVADIRAM
CONFRONTO VIOLENTO
"se ligue, pire e caia fora"), criado para impul- O PAlS, PONDO FIM AO
ENTRE POLiCIA E
do de rosa-shocking um tanque de guerra.’
PROGRAMA REFORMAS
sionar a venda de tênis esportivos apropriados
ESTUDANTES NA 'NOITE Assim, as ditaduras da moda, do estilo e 00 "SOCIALISMO COM

DAS BARRICADAS", ENTRE para corridas e jogging. ROSTO HUMANO" PROPOSTO

10 E 11 DE MAIO DE
do consumo, todas baseadas numa multiplici- POR OUBCEl:.
Graças, pois, ao modo como as novas
1968, AS CENTRAIS dade crescente e opressiva de opções, substi-
SINDICAIS E OS PARTIDOS gerações se voltaram para valores sensoriais, tuiriam a lógica dual da
DE ESQUERDA

CONCUMARAM GREVE
sensuais e espirituais, forças econômicas até Guerra Fria, cujo ato fi- 24. "LE MAZEUE

GERAL DE SOLIDARIEDADE então submetidas ao dualismo redutivo da naiassinalado sintoma-


DECURA GUERRA AS

EM TODA A FRANÇA. COISAS COMUNS."


atmosfera política puderam tanto se despren- ticamente por um car-
APESAR DA CRISE POUTICA PROPAGANDA BRASILEIRA DE

OUE SE DEFLAGROU, AS der da tutela do Estado, como investir a merca- naval de imagens, se deu CONFECÇÃO OE ROUPAS

ELEIÇÕES DE JUNHO FEMININAS, DE MAIO DE


doria de uma aura de glamour e sensação, com a queda do muro
REITERARAM A VITÓRIA DO 1968.
CONSERVADORISMO. recolocando-a no âmago do imaginário cultu- de Berlim em 1989. Essa
ral, recoberta pelos novos vernizes da juventu- ebulição sísmica da mer-
88 CAPlTuuiii Máquinas, massas, percepções ementes CAPFIULOII Máquinas, massas, percepções ementes B9

cadoria já vinha sendo re-


gistrada e denunciada,com
um corrosivo senso de iro-
nia e sarcasmo, peia pop
art, desde o início dos anos
50. Artistas como Richard
Hamilton, Eduardo Paoloz-
zi, Robert Rauschenberg,
Roy ljchtenstein,Claes Olden-
burg e Andy Warhol perce-
beram que a mercadoria
25. "MAS O QUE E QUE havia assumido o centro da cena cultural, apoia-
MZ AS CASAS DE HOJE

TÃO DIFERENTES, TÃO


da em dois processos básicos: sua abstração era Reagan (1981 -89) e Thatcher (1979-90) — 26. SEM TITULO.

ATRAENTES?" em ícones visuais sedutores pela publicidade, e, por trás disso tudo, como seu elemento pro- COLAGEM DÉ 1949 DO

CARTAZ DA EXPOSIÇÃO ESCOCÊS EDUARDO


em especial pela TV, e a transformação do con- pulsor, a Revolução Microeletrônica e digital. 0
“ISTO É AMANHÃ", PAOLOZZI, UM DOS
PRECURSORES DA POP ART.
CÉLEBRE ACONTECIMENTO sumo num ato simultaneamente "libertador" e resultado é uma situação na qual as imagens
PARA O ARTISTA , “OS
NA CENA ARTÍSTICA
substitutivo dos desejos reprimidos. De modo são mais importantes do que os conteúdos,em SÍMBOLOS PODEM SER
LONDRINA EM 1956. TETO
INTEGRADOS DE DIVERSAS
LUNAR, PRESUNTO EM LATA que, na sociedade da mercadoria, o consumis- que as pessoas são estimuladas a concorrer
MANEIRAS. O RElOGIO COMO
SOEREA MESA, SiMBOLO DA
mo seria proposto como a terapia por excelên- agressivamente umas com as outras, em detri- UMA MAQUINA DE CALCULAR
FORD NO ABAJUR, MOÇA AO

TELEFONE NA TEIA DA TV, cia para aliviar o mal-estar gerado pela própria mento de disposições de colaboração ou senti- OU UMAJÕIA, UMA PORTA

COMO UM PAINEL OU UM
GRAVADOR DE ROLO ETC.,
essência desse sistema, centrado no mercado e mentos de solidariedade,e na qual as relações OBJETO DE ARTE, A MÃOUINA
0 INVENTARIO DO

CONSUMO E OA CULTURA não nos valores humanos.’® ou comunicações mediadas pelos recursos tec- FOTOGRAFICA COMO UM

LUXO ou UMA
POPULAR URBANA NA SALA
nológicos predominam sobre os contatos dire-
NECESSIDADE".
DE VISITAS, NA COLAGEM DO
A Revolução Microekírônica e o Motim
ARTISTA INGLÊS RICHARO tos e 0 calor humano. É um mundo sem dúvida
HAMILTON. de Tompkins Sqmre
vistoso, mas não bonito; intenso, mas não agra-

Juntemos agora esses três fenômenos dável: potencializado por novas energias e

fundamentais: a ascensão da cultura da ima- recursos, mas cada vez mais carente de laços
afetivos e de coesão social.
gem e do consumo, a desreguiamentaçào dos
Um dos diagnósticos mais agudos sobrea
mercados e a retração do Estado, com a pro-
natureza dessa situação foi formulado pelo
gressiva desmontagem de seus mecanismos
artista e músico Brian Eno em 1979, quando
de distribuição e apoio social, promovidos pela
90 CAPlruLOii Máquínas,massas, percepções e mentes CAPíruioii Máquinas, massas, percepções ementes 9i

ele se mudou para a área mais badalada de Nova York, junto ao bair- Eu estava me divertindo muito naquele momento, mas não conse-

ro de Greenwich Village.onde viveria pelos cinco anos seguintes. Ali a guia deixar de sentir que havia um tipo peculiar de empobreci-

comunidade artística convive numa fronteira estreita com a área da mento essencial se manifestando naquela sociedade para a qual

Bolsa de Valores e o mercado da nova economia, centrada desde 1971 eu havia me mudado. Do que exatamente se tratava, ficou claro

na Bolsa Nasdaq, Por conta dessa concentração de riquezas e oportu- para mim num dia em que fui convidado ao loft glamouroso de

nidades, a região atraiu uma enorme população de yuppies, gente uma ceiebridade — um projeto arquitetônico e decorativo de

muito Jovem que em pouquissimo tempo acumulou grandes fortu- cerca de dois milhões de dólares, localizado numa área tensa da

nas especulando com os potenciais da economia virtual." cidade.Tivemos que saltar entre os montes de mendigos que abar-

Como a área vizinha sempre foi associada às atividades portuá- rotavam a entrada do prédio, depois de atravessar aos solavancos

rias e como os portos por todo o mundo decairam em função das ino- aquelas ruas abarrotadas de dejetos, num táxi caindo aos pedaços,

vações técnicas que baratearam os custos do transporte aéreo, os até que conseguimos entrar naquela ostentação de luxo totalmen-

antigos prédios que eram armazéns de estocagem de mercadoria te decadente. Durante o jantar eu perguntei h nossa anfitriãi^Você

foram convertidos em amplos apartamentos de luxo, os lofts. Ao seu gosta de morar aquif^^Mas claro7ela respondeu, "esse é o lugar

redor, atraídos pela riqueza dessa gente, proliferaram galerias de arte, mais adorável em que eu já morei em toda a minha vida."

joalherias e butiques sofisticadas. Logo me dei conta dequeo"aqui”em que ela morava termina-

Ao mesmo tempo, grandes contingentes de desempregados va na porta de entrada da casa. Essa era uma maneira de pensar

foram também atraídos pela mesma e imensa prosperidade. Eram totalmente estranha para mim. O meu "aqui" inclui no mínimo toda

gente de todos os cantos do país, tornada "obsoleta^ou imigrantes do a vizinhança. Depois dessa experiência, passei a reparar que a comu-

Terceiro Mundo, incitados pelas possibilidades de se alojar clandesti- nidade desses jovens envolvidos no mercado artístico de Nova York

namente nos prédios desativados ou de se estabelecer nas praças e tinha a mesma estreiteza no que se referia à sua acepção de "agora"

ruas vizinhas. Para eles, a grande vantagem estava em que ali pode- "Agora" para eles significava "esta semana" Todos eles tinham aca-

riam viver dos excessos prodigiosos do consumo que aquela camada bado de chegar ali e estavam dispostos a ir para qualquer outro

de novos-ricos descartava todo dia, abundantemente, em suas lixei- lugar a qualquer momento. Ninguém se dispunha a nenhum inves-

ras. O sul da ilha de Manhattan se tornou, nesses termos, uma espécie timento em qualquer tipo de futuro a não ser o deles mesmos, con-

de cenário que sintetizava o conjunto de transformações que assola- cebido nos termos mais estreitos que se possa imaginar.

vam 0 mundo nesse fim de século, acentuando as desigualdades e os Escrevi então no meu diário, naquele mês de dezembro:"Cada

conflitos sociais. vez mais eu sinto que quero morar num Grande Aqui e num Longo

Poucos dias depois de ter chegado ali, em fins de dezembro de Agora'.'’'

1979, sob os rigores do inverno nova-iorquino, Brian Eno relatou o


seguinte episódio, altamente revelador de um novo mundo e de uma A preocupação de Brian Eno é mais do que sintomática. De fato,
nova sensibilidade em formação: 0 que ela Indica é o oposto de seu desejo: o fato de que somos draga-
92 CAPITULOU Máquinas,massas,percepções e mentes CAPlruioii Máquinas, massas, percepções ementes «

Os dois grupos, os despossuídos e a polícia, se enfrentaram nu-


dos cada vez mais rápido e cada vez mais fundo
ma ampla área pública que ambos disputavam, a Tompkins Square —
para um mundo cada vez mais retraído num
mesma praça que, em janeiro de 1874, fora palco de um famoso
Pequeno Aqui e num Curto Agora. Além,é claro,
enfrentamento entre desempregados e polícia. Dessa vez, a polícia
do fato de as pessoas estarem cada vez mais
com cassetetes gigantes, bastões de choque elétrico, algemas, bom-
indiferentes ao destino de seus próximos ou a
bas de gás, cães, cavalaria e helicópteros; a população de rua com
qualquer senso de convívio, de comunidade ou
panelas, com as latas de alumínio que recolhiam e os carrinhos de
de solidariedade. As pessoas vão se fechando
supermercado em que arrastavam seus cobertores e agasalhos. Era
num "nós" cada vez mais exciusivo, tendendo
uma luta desigual, desencadeada e vencida pelos que queriam afir-
27. MARGARETTHATCHER
a se restringir, no iimite, a um "eu" conectado
COMEUORAHOO DEZ AROS mar uma nova ética baseada na desigualdade. Aconteceu em 1989 e
numa rede infinita de circuitos virtuais. Casais
NO MINISTERIO BRITANtCOl ficou conhecida como o Motim de Tompkins Square, marcando o iní-
EM 1989.
que se falam por meio de secretárias eletrôni-
cio da política repressiva chamada de "tolerância zero" Seu objetivo
SUA$ MANOBRAS OE
cas, pais que se comunicam com os fiihos peia
OESRECULAMENTAÇAO E
era transformar grande parte da população "obsoleta" em população
internet, professores que ensinam por telecon-
DESMONTAGEM DO ESTADO carcerária,com predominância das comunidades negra e latina e imi-
DE BEM-ESTAR SOCIAL ferência a alunos que respondem por e-maii.Ao
grantes em geral. Num sentido muito preciso, esse motim significou
ATRIBUIRAM AQ SEU
redor deles, um mar de gente relegada, sucatea-
GOVERNO UM CUNHO também o fim de uma era, lançando as raízes do novo século.'^
AUTORITARIO CRESCENTE.
da como máquinas obsoletas, abandonada ao
relento.
Pouco depois de Brian Eno deixar Nova
York,as circunstâncias se precipitaram.Oaqueci-
mento furioso do mercado de especulação imo-
biliária no sul de Manhattan, onde as fortunas
se multiplicavam a um toque nos botões eletrô-
nicos, atingiu o paroxismo. Os agentes especula-
dores, numa avidez por lucros nunca vista, co-
meçaram a pressionar a polícia para que ela
desalojasse os moradores clandestinos, as popu-
lações das ruas e praças e as legiões de pobres e
desempregados vivendo como nômades urba-
nos, que iam ali coletar os desperdícios dos ricos.
Atacada sistematicamente, a população carente
do sul de Manhattan reagiu.
I

CAPITULOU!

O assalto à natureza

Um dos impactos mais inquietantes das novas tecnologias tem


sido 0 seu efeito sobre o meio ambiente. Desde a primeira fase da
indus-
trialização, as ilhas britânicas, que foram a sua base inicial em fins do
século XVIII, ficaram marcadas pelas amplas emissões de gases e de
poluentes,fazendo com que as pessoas se referissem à"lnglaterra verde"
aquela onde as fábricas ainda não haviam se instalado, e à "Inglaterra
cinza"indicando as regiões onde os resíduos expelidos pelas chaminés
haviam sufocado a paisagem das cidades e dos campos sob um monó-
tono tom pardacento e uma densa neblina de fumaça. A situação se
agravou muito mais no final do século XIX com a segunda onda indus-
trial, quando se diftjndiu a utilização dos derivados de petróleo, surgiram
os veículos com motores de combustão interna,as indústrias químicas e
os equipamentos de grande consumo energético nas fundições, nas
siderúrgicas e nas usinas termoelétricas. Desde então esse assalto dos
resíduos industriais sobre a natureza, os oceanos e a atmosfera só cres-
ceu, em escala exponencial.
Assim,o quadro, nesta passagem de século,é dos mais
alarmantes.
Uma das caracteristicas do grande salto tecnológico e de produtividade
96 CAPíriiuiiit Meio ambiente, corpos e comunidades CAPÍTULO III Meio ambiente, corpos e comunidades 97

enorme gama de pro- elaborar a seguinte lista de precauções que deveriam ser tomadas
dutos químicos sintéti- por quem quisesse tentar minimizar o risco de contaminação para si
cos. Atualmente exis- e sua família:
tem mais de 100 mil
desses produtos em cir- Monitore continuamente o conteúdo de todo tipo de água que
culação,sendo que mais você consuma: qualquer que seja a fonte de que ela provenha,
de mil fórmulas novas pode estar contaminada. Nunca aceite tranqüilamente que a água

são introduzidas a cada engarrafada seja segura, ainda mais se ela estiver em garrafa plás-

ano que passa. Como tica. Destile a água que você vai consumir em casa, pois a maior

são todos de criação parte dos serviços de água encanada costuma estar contaminada.

relativamente recente, Tome cuidado com tudo o que você come. Evite peixe, que é uma

poucose sabe sobre seu fonte preferencial de contaminação, assim como as gorduras ani-

efeito de longo prazo mais, quer estejam no leite, nos queijos, na manteiga ou na carne.

nos seres humanos ou na natureza. Um dos tipos Compre frutas e legumes produzidos organicamente ou plante-os
IAE 1B. VISTA DE

STOKE-ON-TRENT, CENTRO mais preocupantes dentre esses produtos são os você mesmo. Reduza ao mínimo possível o contato entre os ali-
PRODUTOR DE LOUÇA E
chamados pesticidas, na medida em que sua mentos e os plásticos. As mães deveriam considerar o abandono
CERÂMICA INGLESA,

DURANTE O PERlODO OE característica é a de serem mais eficazes quan- do aleitamento no peito, já que ele expõe os bebês a um alto risco
USO INDUSTRIAL DO
to mais tóxicos são e quanto mais conseguem de contaminação.
CARVÃO (FINAL DO

SÉCULO XfX) E DEPOIS interagir com estruturas biológicas variadas. Lave as mãos frequentemente ao longo do dia, pois os agentes
DO ADVENTO DO GAS E
Ademais, eles são usados sempre em grandes contaminadores evaporam e assentam em todas as superfícies no
DA ELETRICIDADE (iNiCIO

DO SECULO XX). quantidades e lançados sobre vastas extensões interior das casas, impregnando-se nas pessoas a qualquer mínimo

A TRANSIÇÃO TECNOLÓGICA territoriais. Uma vez aspergidos, são levados contato. Nunca use inseticidas ao redordacasa ou nojardime evite
MlOA AS CONDIÇÕES DE
pelos ventos e pelas águas subterrâneas e incor- entrar em casas onde eles são usados. Jamais compre quaisquer
VISIBILIDADE, AS
CARACTERÍSTICAS DOS
porados por plantas, insetos, animais e pessoas. produtos de lojas ou supermercados sem verificar se eles vapori-
AGENTES POLUENTES E 0
Nada escapa deles e eles não desaparecem, só zam as mercadorias com pesticidas, o que é uma prática ampla-
SEU IMPACTO AMBIENTAL.

se recombinam. Apenas nos Estados Unidos,são mente difundida. Afaste-se dos campos de golfe, pois eles se torna-

atualmente aplicados mais de 3 bilhões de quilos ram densamente contaminados, mais ainda do que as fazendas.^

de pesticidas por ano.'


Esse é só um caso entre uma infinidade de Parece chocante, não é? 0 que é que sobrou para fazer, beber ou

outros. A situação atual é tão complexa, que comer que não esteja sob o risco da toxidez e do envenenamento? 0

levou 0 sociólogo inglês Anthony Giddens a fato é: muito pouco. Se essas precauções lhe soam muito pessimistas
98 CAPfTiiLOiii Meio ambiãnte,corpose comunidades CAP(TiiiDiii Meioambiente,corposecoinunidades 99

e até catastróficas, considere as pesquisas feitas pela equipe da biólo- 2. DE 1780 ATÍ O
COMEÇO DO SÉCULO XX,
ga Theo Colborn, reunindo dados colhidos em sessenta estudos reali- O NORTE DO PAIS DE

zados em diferentes pontos do globo. Esses cientistas procuraram GALES FOI O PRINCIPAL

FORNECEDOR EUROPEU DE
observar os efeitos tóxicos causados por produtos químicos indus- ARDÓSIA PARA PISO E

triais e 0 seu impacto sobre o sistema hormonal de diferentes animais COBERTURA.

e de seres humanos, Seus estudos se concentraram sobre os mais 0 APROVEITAMENTO DESSA

PEDRA DE CONFORMAÇiO
comuns — o DDT, os PCBs e a dioxina —, mas deixaram bem claro MUITO VARIAVEL IMPLICAVA

que existem cerca de cinqüenta outros produtos que atacam o siste- DISPENSAR NO AMBIENTE

30A PARTE DO MATERIAL


ma endócrino, acumulando-se no corpo ao longo da vida e sendo PROSPECTAOO E, AO LONGO

transmitidos de pais para filhos. Esses produtos estão por toda parte DO TEMPO, FORMARAM-SE

MONTANHAS DE RESiDUOS,
e são presenças banais no cotidiano das pessoas: detergentes, desin- de tudo isso se deve a
COMO A QUE SE VE NA

fetantes e outros produtos de limpeza, plásticos, sprays e assim por quais agentes químicos FOTO, ATRÁS DAS CASAS DA

CIDADE DE BLAENAU
diante. industriais e em que
FFESTINIOG.

Pois bem, os estudos se concentraram em três grupos:aves, lon- circunstâncias ocorre a

tras e peixes. Algumas conclusões, apenas como exemplo, revelaram contaminação, é algo
3. O DEPÓSITO DE LIXO
que as águias do Sudoeste dos Estados Unidos se tornaram maciça- difícil de precisar. Para
INDUSTRIAL NOS VALES DO

mente estéreis; as lontras praticamente sumiram das ilhas britânicas, esse estudo seria ne- RIO CUBATÀO E DO

RIBEIRAO DOS PILÓES, NO


onde costumavam ser abundantes; e as gaivotas que pescavam aren- cessário contrapor o
PARQUE ESTADUAL DA

ques na região do lago Ontário começaram a dar à luz filhotes com grupo pesquisado com SERRA DO MAR EM SAO

deformações grotescas. Por toda parte onde pesquisaram, esses bió- um grupo de controle, isento de contaminação. PAULO, FOI DESATIVADO

NA DECADA DE 70.

logos constataram grupos de animais que apresentavam declínio Mas 0 triste fato é que não foi possível encon- DESDE ENTÃO A PAISAGEM

acentuado de fertilidade, apontando para a própria extinção da espé- trar em nenhum ponto da Terra, por mais dis- VEM SE RECOMPONDO, MAS

SOB A VEGETAÇAO

cie, deformações aberrantes sobretudo dos órgãos reprodutores e tante e remoto que fosse, mesmo entre os PERMANECE INTEGRALMENTE

outras anormalidades congêneres. esquimós do Pólo Norte, algum grupo que vi- A HERANÇA DOS TEMPOS

MACABROS, COMO ESSE

Mas 0 que é pior: eles desenvolveram também estudos sobre a vesse em algum ambiente ainda não contami- RECIPIENTE DE PRODUTO

relação entre o declínio do esperma e o crescimento dos índices de nado por produtos químicos industriais.’ QUlMICO AINDA

ENGARRAFADO.

câncer dos testículos em seres humanos. Sua constatação foi a de que


entre 1938 e 1990, em populações ao redor de todo o mundo, os O princípio da precaução

niveis de esperma caíram praticamente à metade, equivalendo a um


Esse é 0 fato mais problemático da nossa
aumento agudo do câncer testicular, afora um crescimento extraordi-
presente situação: não apenas é patente que o
nário de anormalidades genitais em meninos e adolescentes. Quanto
meio ambiente está saturado de produtos tóxi-
upduioiii Melo ambiente, corpos e comunidades ioi
100 CAPliULONi Meioambíente.corposecomunidades

lidade e alerta para a vulnerabilidade e as peculiaridades do meio


COS, mas, o mais grave, não sabemos exatamente qual é o impacto de
ambiente e dos seres humanos-
longo prazo que esse quadro terá sobre a nossa espécie e as demais.
O maior obstáculo à formulação dessa ciência responsável é,
Estamos no escuro, tanto pela amplitude como pela condição recen-
uma vez mais, o modo corPO no panorama atual as grandes corpora-
te desses fenômenos. Como diz a bióloga Theo Colborn:
ções escaparam do controle de órgãos reguladores e dos grupos de
pressão da sociedade civil. Conforme vimos, na medida em que des-
As alterações que estamos observando funcionam como uma
frutam de uma condição privilegiada, isentas do controle do Estado
espécie de experiência em âmbito global — com a humanidade e
e infensas às demandas dã sociedade, elas se tornaram o principal
todas as formas de vida da Terra atuando como cobaias... Novas
agente indutor das políticas de ciência e tecnologia. Dados os cons-
tecnologias são concebidas numa velocidade estonteante e postas
tantes e crescentes cortes de financiamentos para as universidades e
em prática numa escala sem precedentes no mundo inteiro, muito
institutos de pesquisa, a alternativa deixada a essas instituições é
antes de podermos avaliar seu possível impacto sobre os sistemas
buscar recursos junto às grandes corporações. A prioridade das
naturais ou sobre nós mesmos.*
megaempresas, por sua veZ. ^ a valorização de suas ações, o que
implica compromissos coPi gtupos minúsculos de acionistas e com
Um estudo como esse evidencia o novo dilema posto pelos recen-
planilhas de prazos muito curto^completamente indiferentes a enti-
tes desenvolvimentos científicos e tecnológicos. Por um lado, com o pro-
dades tão amplas como a humanidade e o planeta ou como o futu-
pósito de fomentar o controle da natureza, a ciência e a tecnologia não
ro distante. Assim, em vez de ser responsável, a ciência é levada a ser
raro acabam gerando efeitos que envolvem riscos difíceis de avaliar, pela
amplitude de sua escala e pelo inusitado de situações com que nunca rentável.
tivemos que lidarem toda a história pregressa e para as quais,portanto, Se algum cientista isolado ou algum grupo independente revela
não temos nem experiência nem compreensão. Por outro lado, para que determinado produto ou procedimento é nocivo para o ambien-
uma criteriosa avaliação da situação e para a formulação de alternativas, te ou os seres humanos, as grandes corporações dispõem logo dos
a ciência e a técnica são ferramentas indispensáveis. recursos necessários para financiar estudos na direção oposta, des-
Logo, não se trata de condenar pura e simplesmente cientistas e moralizando os cientistas autônomos e desqualificando os resultados
técnicos por falta de responsabilidade, mas de entender como funcio- desuasexperiências.Além,écíaro,de tírartodooproveitodeseu vul-
nam as políticas que controlam as decisões sobre as pesquisas e os toso potencial econômico pa« gastar generosamente em publicida-
processos produtivos. Nesse sentido e ao mesmo tempo, é necessário de e negociar o apoio de setores significativos da imprensa e das ins-
pressionar pela definição de práticas científicas que estejam atentas tituições políticas e der,t/fi«s. Uma vez mais, é um duelo desigual,
às incertezas presentes nos sistemas complexos e, portanto, que con- como sempre 0 será.
siderem seriamente os limites dentro dos quais se dá a produção dos Foi por conta desse desequilíbrio de base que várias ONGs e gru-
conhecimentos. Essas seriam as condições necessárias para o estabe- pos de pressão da sociedade civil, ao redor do mundo, criaram e
lecimento de um tipo de ciência dotado de alto senso de responsabi- aper-
feiçoaram 0 chamado "principio da precauçloTA iniciativa decorreu
I
102 CAPfnjLoiii Meio ambiente, corpos e comunidades CAPiruLOiii Meio ambiente, corpos e comunidades i03
------------------------------------------------------- ç-----------'-----------------------------------------------------------------------------

4. DR.ARPAD PusnAi,
nismo precautório é: melhor zelar pela segurança do que ter que
GENETICISTA BRITÍNICO

FORÇADO A SE APOSENTAR
lamentar [“better safe than sorry”).
EM JJINO DE 1998 POR Os três elementos-chaves de que se compõe o principio da pre-
TER ENCONTRADO

EVIDÊNCIAS OE DANOS
caução são:
PROVOCADOS EM ÔRGAOS

VITAIS EM RATOS DE

LABORATÓRIO ALIMENTADOS
1) 0 reconhecimento de que determinada técnica ou produto
COM BATATA envolve algum potencial de risco;
GENETICAMENTE

MODIFICADA. O EPISÓDIO
2) 0 reconhecimento de que pairam incertezas científicas sobre
VEIO A TONA EM FEVEREIRO 0 impacto imediato ou as conseqüências futuras relacionadas aos
00 ANO SEGUINTE, QUANDO
usos de determinado produto ou técnica;
CIENTISTAS OE TREZE PAlSES

PEDIRAM SUA REABIUTAÇAO, 3) a necessidade de agir preventivamente em relação aos riscos


DEPOIS DE ESTUDAR E
latentes em quaisquer situações desse tipo.
COMPROVAR OS RESULTADOS

DA SUA PESQUISA. SO

ENTÃO O GOVERNO DE
Assim definido, o princípio da precaução se tornou um item fun-
TONY BLAIR MUDOU A

POSIÇÃO FAVORAVEL AOS damental das reivindicações das ONGs junto aos órgãos reguladores
ALIMENTOS
internacionais, estando no topo da agenda das mobilizações popula-
GENETICAMENTE
res que marcaram as reuniões da Organização Internacional do Co-
MODIFICADOS E SUSPENDEU sobretudo da última grande ameaça ao meio
SUA COMERCIAII2AÇÁO NO mércio em Seattie e Washington.
ambiente, surgida na forma de Alimentos
REINO UNIDO.
O objetivo das ONGs que agitam em nome do princípio da pre-
Geneticamente Modificados (GMF/Genetically
caução não é simplesmente contestar o desenvolvimento de novos
Modified Food) e todo o arsenal de recursos da
produtos ou tecnologias, mas submetê-los ao primado do interesse
engenharia genética. O fundamento do princí-
público, da defesa do meio ambiente e da saúde e enquadrá-los sob
pio da precaução é o de que quando uma tec-
uma ética de máxima responsabilidade. A idéia é que esse princípio
nologia ou produto comporta alguma ameaça
se torne uma exigência corrente das populações em todos os cantos
de dano à saijde pública ou ao meio ambiente,
do mundo, que seja ensinado às crianças nas escolas e incorporado
garanta-se que antes de serem liberados eles
por toda espécie de órgão regulador. Por trás dele palpita a nítida
sejam evitados ou postos de quarentena para
intenção de rever o papel e as condições que presidem as políticas de
maiores estudos e avaliações. Essas medidas
pesquisa científica, a disposição de incrementar a participação públi-
seriam tomadas ainda que não se pudesse ava-
ca nos debates relativos à saúde e ao meio ambiente e de consolidar
liar a natureza precisa ou a magnitude do dano uma ética que repõe os seres humanos e a natureza antes dos interes-
que viesse a ser causado pelo processo ou pro- ses econômicos.^
duto em questão. O sentido básico desse meca-
104 CAPITULO III Meio ambiente, corpos e comunidades CAPtniLOiii Meio ambiente, corpos e comunidades los

A engenharia genética e o pesadelo da eugenia Mas claro que, no pior dos casos, esse empreendimento seria
uma variante do mesmo desatino eugenista, que tenta seduzir e se
Mas, como se sabe, além de interferir no equilíbrio da natureza e
utilizar dos geneticistas para realizar sua obsessão de poder e domí-
dos ecossistemas do planeta, os avanços da pesquisa em microbiolo-
nio sobre outros seres humanos menos aquinhoados. Assim, os super-
gia permitem atualmente um alto grau de manipulação da própria
bebês geneticamente programados, alimentados pela superpapinha
estrutura genética dos seres humanos. Com os resultados do Projeto
de vegetais GMF e implantados de nanocircuitos, tornariam realidade
Genoma e o mapeamento completo do repertório genético da nossa
0 velho sonho do dr. Mengele e dos ideólogos do Terceiro Reich: criar
espécie, a expectativa dos cientistas é,no limite extremo, desenvolver
uma nova raça de senhores, destinada a dominar os povos escravos.
técnicas para projetar homens e mulheres em conformidade com os
Só que a entrada no novo círculo do poder e privilégio não estaria
interesses de quem possa pagar pela encomenda.
condicionada pela carteirinha do partido, mas pelo volume da conta
É 0 velho sonho — ou melhor, pesadelo — da eugenia, a ambi-
bancária dos interessados. No passado já se disse que tempo é dinhei-
ção de criar super-homens e supermulheres, destinados a se tornar
ro; no futuro provavelmente se dirá que genes são capital.
mestres dominadores de uma subumanidade de seres comuns. Foi
Antecipando esse espírito, modelos de personagens como o
em nome dessa veleidade que os vários grupos racistas, desde fins do
cyborg, o robocop ou os scanners se tornaram típicos de um padrão
século XIX, alegaram fundamentos científicos para seus programas de
de filmes comerciais muito difundidos, em especial pela TV e entre o
discriminação. Seria uma ironia que, agora, os grupos econômicos pri-
público infanto-juvenil. Já é o processo educativo que se costuma
vilegiados com a grande concentração de renda viessem a assumir o
chamar de "formação das almas"
projeto sinistro dos grupos políticos derrotados em 1945. E,uma vez
E outro processo de condicionamento dos corpos e mentes que
mais, com o apoio de cientistas alheios a qualquer senso de ética ou
adquiriu uma ascendência cada vez mais preponderante, desde fins
responsabilidade.
do século XIX, ao longo do XX e em direção ao XXI, são os esportes.
O melhor dos cenários,contudo, é que as técnicas de intervenção
Prática ainda embrionária no período anterior a 1914, eles tiveram
genética sejam usadas para detectar e prever malformações e doen-
um desenvolvimento exponencial estimulado pela Primeira e Segun-
ças transmitidas pela cadeia de genes; nesse sentido otimista,elas se
da Guerra Mundiais, até se tornarem a principal arena simbólica do
prestariam apenas a incrementar as condições de sobrevivência e a
confronto entre os americanos e o bloco soviético durante a Guerra
qualidade de vida das pessoas que delas necessitassem. É assim tam-
Fria. Sempre acompanhando de perto o desenvolvimento das novas
bém que os especialistas em cibernética e em nanotecnologia (enge-
tecnologias, nas Olimpíadas de 2000 acrescentou-se ao juramento
nharia de circuitos em escala microscópica) preveem a criação de
solene que antecede as disputas o compromisso de que os atletas se
recursos e equipamentos que possam ser inseridos ou acoplados ao
abstivessem de todo tipo de dopp/ng, substâncias e intervenções que
organismo humano, para ampliar seus potenciais e estender sua exis-
alteram o corpo, o rendimento físico e os movimentos reflexos. A essa
tência. É 0 projeto do chamado cyborg, meio homem e meio máqui-
altura já está claro que sem a alteração tecnológica dos corpos e men-
na, dotado de superpoderes e virtualmente imortal.
tes não se terá mais chances em esportes competitivos, não se que-
106108
upduLoiii Meio
CAPiTULOiii ambiente,
Melo corpos
ambiente, e comunidades
corpos e comunidades CAPtruLoiii
CAPíTuioiiiMeio
Meioambiente,
ambiente,corpos e comunidades
corpos e comunidades i09
107

brarão recordes e não se avançará nas estatísticas da "melhoria" da


5. "POWERHOUSE augúrios. Eles se realizavam em várias partes da Grécia, tais como Del-
espécie. MECHANIC", 1925.
fos. Corinto, Atenas, Argos,Tebas, entre muitas outras. Sua periodicida-
LEWIS W. HINE FOI UM I
Esportes, corpos é máquinas
DOS FOTÓGRAFOS
de também variava conformea localidade e a cerimónia, podendo ser
NOFITE-AMERICANOS OOE anuais, bianuais etc.ou ser convocados em virtude de alguma circuns-
A respeito dasOlimpiadas,aliás,valea
DOCUMENTARAM AS pena um pequeno excur-
tância excepcional.E,mais importante de tudo, envolviam uma ampla
FÃ3RICAS GIGANTESCAS, DE
so relativo à história dos esportes.Tornou-se uma prática sistemática,
ARQUITETURA gama de performances: disputas de poesia,flauta, cítara, canto,dan-
a cada quatro anos em que ocorrem os Jogos Olímpicos,jorrarem, em
IMPRESSIONANTE,
ça, tragédias, comédias ou recitação épica. Se se tratava de eventos
todos osAMBIENTES
veículos de imprensa,
ABAFADOS E alusões à Grécia antiga e descrições as
MAL ILUMINADOS E SUAS envolvendo força e habilidade física, os mais populares eram a corri-
mais pormenorizadas sobre como os gregos criaram os esportes,
MÁQUINAS PESADAS CENAS
da a pé no Olimpo e, acima de tudo, 0 salto do carro de guerra em dis-
regulamentaram as competições periódicas e desenvolveram o espí-
COMO ESSA, DE SUBMISSÁO

DOS HOMENS ÁS
parada, um antigo ritual guerreiro associado à ascensão da realeza,
rito esportivo. De forma que as Olimpíadas modernas não passariam
MÁQUINAS, SERVIRAM DE celebrado na Panathenaia,em Atenas.
de uma retomada, ainda que tardia, de uma tradição já assentada no
INSPIRAÇÃO TANTO PARA O
Em 1896, portanto, quando 0 barão de Coubertin e a cartolagem
berço da
FILMEnossa civilização e para sempre vinculada aos seus destinos.
TlMKlS MODERNOS

(1936), QUANTO gos aplicavamdecidiram


franco-britânica ao corpo e à ação,
instituir osdeveríamos 6. A "SAGRACAO DA
Jogos Olímpicos modernos, pre-
O problema com esse tipo de formulação não é apenas que ela cons- PRIMAVERA".
Mf7ROPOl/S(1927), DE
nos voltar
tendendo quepara outras
fossem práticas,
uma tais como
continuação a
da tradição grega, 0 fato é que
titui uma impropriedade
FRITZ LANG. em termos históricos, mas sobretudo que BAILARINOS EXECUTAM OS
dançaaltura
àquela e a música.
se tratava de algo completamente diferente. O momen-
ela não somente impede a compreensão da singularidade da cultura PASSOS RITUAIS CRIADOS

POR NIIINSKI: DE FRENTE


grega, como oculta o fato de que o esporte, tal como o conhecemos, to histórico, como vimos, era 0 da segunda industrialização (baseado
PARA A PLATÉIA, JOELHOS

é uma criação específica do mundo moderno. naDa Sagração da


eletricidade primavera
e nos à consc^ação
derivados do petróleo), da concorrência acirrada
DOBRADOS, PÉS

Para os gregos antigos a idéia de disputa, de confronto entre opo- entre as potências
da música negra rivais,da fúria imperialista pela partilha das colônias
ESPALMADOS E CABEÇA DE

PERFIL.
nentes por meio de performances sucessivas, atéeque um dos conten- e da chamada"pazarmada"a corrida armamentista que culminaria na
gos nunca conheceram nem sequer imagina- A trajetória da música no século XX é das
dores superasse os demais, atingindo um grau de excelência reconhe- carnificina da Primeira Guerra Mundial. Num mundo em que as máqui-
ram. Nesse sentido, os esportes da nossa época mais surpreendentes e o seu legado para o XXI
cido e admirado portodos os circunstantes,era um ritual central em sua nas, para a produção ou para a guerra, haviam se tornado onipresen-
são, de fato, exercícios de produtividade, em é sumamente inspirador. O abalo sísmico que
cultura.Os gregos o denominavam agón e faziam com que ele integras- tes em curtíssimo espaço de tempo, 0 esporte era 0 recurso por exce-
perfeita sintonia com os princípios econômicos dividiu a história da música (e também a da
se várias de suas cerimônias, as mais importantes e as mais sagradas. lência para 0 recondicionamento dos corpos às exigências da nova
e os vaiores morais que regem a nossa socieda- dança) entre um "antes"e um "depois"foi a tur- )
Sim, sagradas, pois o agón era uma experiência essencialmente religio- civilização mecânica. Foi esse
de. Basta iembrar que o atieta norte-americano bulenta sessão inaugural da drama da domesticação
Sagração da pri- dos corpos à
sa. Seu objetivo era produzir um efeito epifânico, invocar a irradiação preponderância das máquinas que, como de
já vimos. Charles
I Chaplin
Frederick Winstow Taylor foi, ao mesmo tempo, mavera, de Stravinski (com coreografia
numinosa divina, o noüs, para que ele se manifestasse no calor das condensou
0 criador dos primeiros manuais de treinamen- Nijinski e brilhantemente em Balés
os dançarinos dos Tempos modernos.
Russos de
refregas, pondo a todos em comunhão mística com a energia sagrada. É por isso
to científico para esportes e o inventor do pro- Diaghliev), emque os no
Paris, esportes
ano dese baseiam
1913, no desempenho físico
às véspe-
Na sua origem mais remota, esses rituais tinham um sentido medido \
cesso das iinhas de montagem para a produção ras dacontra 0 cronômetro,
Primeira em modalidades
Guerra Mundial. A partir de de equipe adaptadas
expiatório, associado aos sacrifícios e à morte. Aos poucos passaram a à rigorosa coordenação
industriai. Mais provavelmente, se quisermos então, tudo mudou emcoletiva,
relação articulam-se
ao código em organogramas de
compor também rituais de iniciação, de passagem, de purificação e classes,categorias e rankings e são
musical, que se havia definido em programados
função da por tabelas progres-
encontrar hoje em dia alguma coisa que evo-
sivas de recordes
escala temperada— desde
equipamentos,
o períodosistemas e métodos que os gre-
do Renasd-
que algo daquele espírito sagrado que os gre-
UPtruLOiii Meio ambiente, corpos e comunidades iii
110 CAPliuLOiii Meio ambiente, corpos e comunidades

pessoas comuns à fruição musical, c,omo o salto das tradições popu-


mento, assim permanecendo sem grandes alterações ° escândalo
lares para o primeiro plano da cultura, embaralhando irremediavel-
devastador daquela histórica noite parisiense. Aquel® evento na ver-
mente a distinção convencional entre o popular e o erudito. Pelo seu
dade catalisou mudanças que já estavam em curso, ° ^
amplo alcance social e sua capacidade extraordinária para ultrapassar
acentuado pela guerra que se seguiu, ele praticameri^® constituiu um
fronteiras, fossem culturais, religiosas ou sociais, a música popular, tal
rito inaugural, um novo ponto de partida, um marco
como canalizada pelos novos meios de comunicação, se tornou des-
As mudanças desencadeadas naquela noite
de cedo uma espécie de língua franca e termómetro emocional das
ram em todos os sentidos e direções possíveis. As foram
grandes cidades.
se multiplicando em busca de outros códigos
Num primeiro momento, a indústria fonográfica se voltou quase
modos e linguagens. Difundiram-se esforços de voltados
exclusivamente para a música erudita, como que para compensar a
para outros períodos e outras culturas, com especial irit^f^sse nas tra-
sua novidade, mal conhecida e mal compreendida, com o prestígio da
dições extra-européias da Asia, da África e das Amé'''^^^- i^^smo
alta cultura, representada pelo repertório sinfônico e operístico. Como
tempo, um empenho determinado a incorporar oi
0 equipamento era originalmente muito caro, só as camadas privile-
metrópoles,das indústrias e das máquinas, do ruído
giadas podiam adquiri-lo, o que contribuiu para esse consórcio entre
rovias,dos aeroportos e das grandes multidões.
a Indústria e as elites. Mas ele não durou multo. A rápida evolução da
O desafio de experimentar as possibilidades d^^ tecnolo-
tecnologia, sobretudo com o surgimento dos toca-discos movidos a
gias eletro-eletrônicas, a ampliação, a decomposição- as colagens, as
eletricidade após a Primeira Guerra, aumentou a sua popularidade, ao
sonoridades projetadas e editadas em laboratórios acústicos, unindo
mesmo tempo em que o incremento dos sistemas de amplificação
ciência, técnica e arte. E também o anseio de explora' potencialida-
permitia usá-los em grandes ambientes, auditórios e salões de baile.
des e os efeitos sonoros da voz humana, da nature^^- ®
É nesse contexto, e em particular no dinâmico mercado norte-
silêncio.Sondagens,portanto,quenlosó procuravafO'^^^'^®'^*^'^'®'^^'^
americano, que começam a preponderar os repertórios populares,
formas tradicionais da percepção auditiva, como se 3^”'’ ^
com grande destaque para as músicas originadas nas comunidades
de materiais sonoros inéditos, de novos efeitos timP’’'^*''-®^'
negras e, entre elas, especialmente o jazz. Por que as coisas tomaram
ções cromáticas inovadoras, de estratégias compo^'^*''^^ ousadas,
esse rumo? Porque a música erudita se organiza sobretudo em função
acompanhadas de mudanças nas técnicas de notaçáO''’®^®''^'^®®^®’
da estrutura harmônica e da linha melódica, ao passo que a popular, e
cução — enfim, uma transformação completa no social da
a de origem negra mais que qualquer outra, se apóia numa sofisticada
música e de sua relação com o contexto cultural.
variedade rítmica. Era esse elemento rítmico, sincopado, com seu irre-
Entretanto, por mais prodigiosa que tenha si<í° aventura
sistível apelo pulsional, que sintonizava por um lado com as cadências
criativa da música no âmbito da cultura das elites, fo' esfera popu-
mecânicas das cidades industriais e por outro com a intensidade emo-
lar que se deu a grande transformação. Ela foi prom*’''''^^ P®'*^ adven-
cional da vida moderna, pronta para dissipar suas energias concen-
to da indústria fonográfica,do rádio, do cinema e
tradas em passos enérgicos de danças alucinadas.
piciaram, pela primeira vez, tanto o acesso direto ® irtestrito das
CAPfiuLOiii Melo ambiente, corpos e comunidades I13
112 íAPtTuioiii Meio ambiente, corpos e comunidades

0 escritor Essa revolução centrada na música continuou após a Segunda

norte-americano Guerra. O ano-chave foi 1956. Durante a exibição dos filmes Black-

Scott Fitzgerald, boardJungle e RockAround the C/oc/c, jovens representando os grupos

que batizou os marginalizados e excluídos, em meio à onda de prosperidade que

anos 20 com o arrebatava os Estados Unidos, se punham a dançar sobre as poltronas

nome de "Era do até arrebentar os cinemas. Estavam respondendo aos apelos rítmicos

Jazz^escreveu de músicos negros como Chuck Berry, Bo Didiey e Littie Richard.Ou a

como transcorreu vozes que emergiam das cidades empobrecidas do sul, identificadas
pelo convívio com comunidades negras, como EIvis Presley, Gene Vin-
7. "O BAILC DA RUA a ascensão dos ritmos negros de uma condição
BlOMn", DESENHO DE cent e Eddie Cochrane. Poetas boêmios com nomes esquisitos de imi-
clandestina, rejeitada, amaldiçoada até, para o
GEORCES SEM, 1923.
grantes não integrados na sociedade americana — Kerouac, Corso,
0 BAILE NEGRO, JM OOS centro da vida cultural.
CABARÉS DA RUA BLOUEI,
Ferlinghetti, Ginsberg — tomavam de assalto a recém-construída
EU MONTtVLRNASSE, Rota 66, ligando o país de costa a costa, e procuravam nos aldeamen-
A palavra jazz, no seu progresso para a res-
ESTAVA SEMPRE LOTADO.
tos indígenas e nos guetos negros a verdadeira América.
MULHERES ELEGANTES peitabilidade, primeiro significou sexo, de-
DESCIAM DE CARROS DA Nos teatros da Broadway, em Nova York, o coreógrafo Jerome
pois dança, depois música. Ela está associa-
MODA PARA DANÇAR COM
Robbins estreava o bombástico WestSide Sfory, unindo a crítica anar-
lOVENS BONITOS da a um estado de estimulação nervosa,
ORIGINÁRIOS DAS CQLdNIAS quista dos Balés Russos às músicas e danças dos bairros negros e lati-
não diferente daquele das grandes cida-
FRANCESAS DO CARIBE E DA
nos. Era a fusão da arte moderna com a chamada "dança suja" e o
ÁFRICA, NO BAIRRO QUE
des por trás das linhas de guerra.^
FICOU CONHECIDO COMO 0
"canto indecente" Para os jovens, era a insurreição contra a hipocrisia,
HARLEM DE PARIS.
a desigualdade e a estupidez. Para os guardiães da ordem, era o paga-
Aos ritmos negros logo vieram se juntar
nismo, a delinqüência e as trevas. EIvis foi queimado em efígie por
os latinos, numa evolução semelhante, da abje-
todo 0 território, discos foram espatifados nas lojas; negros, latinos e
çâo à respeitabilidade, fundindo suas raízes
imigrantes foram atacados,ameaçadose intimidados por associações
negras com múltiplas influências ibéricas, ára-
racistas e intolerantes.
^ bes,ciganas, mediterrâneas e do Norte da Euro-
A resposta veio na forma do movimento pelos direitos civis. As
pa. Assim, se na chave erudita o evento que
comunidades negras se insurgiram por todo o país, sob a inspiração
implodiu a tradição musical e coreográfica foi
de líderes como Martin Luther King, Stokely Carmichael e Malcom X.
a Sagração da primavera, evocando rituais
A luta contra todas as formas de discriminação racial se desdobrou no
pagãos da Rússia pré-cristã, também na música
grande movimento de resistência contra a guerra do Vietnã. Esse
popular foi essa inspiração básica das religiões
motim crescente alcançou um pico em 1968, com a irrupção da revol-
e culturas africanas que mudou compietamen-
ta estudantil, o surgimento da freak generation e da contracultura.
te a cena cultural em escala mundial.
..I ,,, ^ iUUiiiia
fmiJlüi

114 CAPtruioiii
116 CAPliuLOMí Meioambiente.corposecomunidades
Meio ambiente, corpos «comunidades CAPiTULOiii
CAPlTULOiii Meioambiente,
Meio ambiente,corpos
corpose ecomunidades
comunidadesiisn?

região. Diante da força dos sindicatos locais, no seu esforço para so- ção. A prioridade 9. A MARCHA DE 300

MIL PESSOAS FOI A MAIOR


breviver essas empresas adotaram táticas gerenciais de reengenha- no confronto en-
REGISTRADA NOS ESTADOS
ria, enxugamento e incremento tecnológico, as quais resultaram em tre as potências UNIDOS ATE AQUELE MES

amplo desemprego, afetando particularmente as comunidades negras. passou para a cor- DE ABRIL DE 1971.

MAESE VIÚVAS DE
A depressão do poder de consumo prejudicou enormemente os rida tecnológica,
SOIDWOS ACOMPANHARAM

pequenos estúdios, base da grande criatividade musical da região. campo em que OS 3 MIL VETERANOS DO
VIEINA NA SUA
Sem chance de obter emprego nas indústrias automobilísticas ou de os Estados Uni- DETERMINAÇÃO DE ATIRAR

fazer carreira por intermédio de algumas das gravadoras e clubes dos manifestavam SUAS MEDALHAS DE GUERRA

EM DIREÇÃO AO CAPHÕua
locais, os Jovens foram as maiores vitimas da decadência industrial. esmagadora su- EM 1967, A

Em bairros degradados, sem estímulos para a educação ou equipa- ASSOCIAÇAO


perioridade, fosse
ViETNAN VETERANS
mentos e atividades de lazer, se tornaram uma fonte de tensão cres- na esfera militar AGAINSTTHEWAR,

PROMOTORA DA
cente nas cidades. Até o ponto em que, no fundo do poço, encontra- ou na produção
destino e consumo
em sociedades quede bens, produtos
perderam a coesão, 11. MESSAGE FROM
MANIFESTAÇAO, ERA
ram na sua
8. EM própria
SETEMBRO PE consumando-se
tragédia num
os recursos espasmo
para comaocena.
reformular gesto e0serviços.
sentimento de solidariedade e de apoio aos
SEAT STREET.
CONSTITUlOA D£ APENAS
1957, A CIDADE DE
Com LmiE
a transição punk de 1976. Durante
da tecnologia todo analógicos
de recursos esse percurso
paraa digi- seusO impacto mais
membros dessavulneráveis.'
nova conjuntura sobre a SEIS SOCIOS-FUNDADORES,
DlSC-l&OUEIS F«£M ARTE
ROCK, NO
MUTILADOS NA GUERRA.
EM IM RlAVâRDUND NO
tais, entre AoRKANSAS
fim, dos música
FICOU anos 70 funcionou como
e o inicio dos 80 ohouve
eiemento
uma aglutina-
substituição cultura Outros
foi enorme. Mencionemos
recursos apenas umtec-
que a transformação BRONX, NOVA YORK, NO
MUNDIALMENTE MMOSA:
dortoca-discos
rápida e sistemática de e animadoredo confronto
LPs poiítico
por leitores e culturai,
digitais e CDs. Dis- exemplo,
nológica para ficardisponibilidade
pôs em nesse mesmoeâmbito
que seda
tor- INiCIO DA DECAOA DE
10. A ERA
0 PRESIDENTE EISENHOWER
80. A CRIAÇÃO OE
pondo
TEVE DEdos
ENVIARnovos e era sempre
equipamentos, asmúsica demais
pessoas raízes negras. simples-
abastadas música OEAouARia
0 EKERCITD naram popular.
decisivosOnessa
eixo Detroit—Chicago con-
revolução musical fo- ALGUMAS DAS fíCNICAS
PARA ENFRENTAR AS "MORTOS DA SEMANA",
mente punham nas ruas os aparelhos "sucateados" e seus discos centrou
ram os um grande parque
sintetizadores industrial,
(samplers), osrelacio-
painéis de UTILIZADAS PELOS DJS E
AUTORIDADES EA PAINEL DE FOTOS DE

"velhos" Pois Sonic boom e íecnopaganismo ATRieUlDAA GRANDMASTER


POPULAÇÍO lOCAISos jovens
E FAZER desempregados passaram a recolher essa "tra- nado principaímente
operação com a indústria
de som {engineering automo-
boards) e as per- SOLDADOS AMERICANOS NO
FLASH, NOME ARTÍSTICO DE
VIETNA, EXPOSTO NO
lha" e a reconfigurar seu uso. De equipamentos destinados a reproduzir
CUMPRIR A LEI OUE
tiva. Por essa
cussões razão, foi
eletrônicas ao longo
{drum do século
machines). XX
Inven- JOSEPH SADDLER, CUJO
EXTINSUIA A SEGREGAÇAO
A partir de meados dos anos 70 a cena FESTIVAL OB MONTEREY, NA
CLASSICO "THE MESSAGE"
sonsRAGAL
previamente gravados, eles os transformaram em instrumentos uma fonte
tados em constante de demanda de
1955, os sintetizadores mão-de-
foram sendo CAUFÕRNIA , EM JUNHO
NA5 ESCOUS. OS mundiai é reconfigurada, como já vimos, pelos EXPÕE TANTO A DE
1967. O SUCESSO
DAS DO
capazes de gerar
ESTUDANTES NEGROSsonoridades
processosnovas e originais.
de desregulamentação dos merca- obra, atraindo aperfeiçoados,
rapidamente grandes contingentes da popu-
ensejando mode-
DEGRADAÇÃO

FESTIVAL,
CONDIÇÕESONDE SE QUANTO
SOCIAIS
ENTRARAM NAS CUSSES
Manipulando habilmente os discos
dos, liberação sobrefinanceiros,
dos fluxos os pratos de dois toca-
reformula- lação empobrecida
los mais do uso,
versáteis no Sul,em especial
mais negros.
ricos de recursos APRESENTARAM ESTRELAS
A PERVERSIDADE OA
ESCOLTADOS POR MILHARES,
COMO JiMi HENDRIX, Ons
dores
E AS paralelos ouA acoplados,
TROPAS OCUMRAM eles criavam
ção das empresas efeitos de
em âmbitos dearranhamento
atuação Nenhuma surpresa,
e, sobretudo, portanto,Nos
mais baratos. queanos
essas70duas
a aco- "REAGANOMICS"
ftEDDING, RAVI SHANKAR E
CIDADE ATE 0 FINAL DO (A POLITICA ECONÔMICA
[scratching), de alteração da rotação
transnacional e aíphasing) ou de ecos entre
grande transformação os dois
tecno- cidades
plagemtenham se tornado importantes
de microprocessadores cen-
os tornou pro- JANIS JOPLIN, FOI MARCADO
SEMESTRE PARA REPRIMIR DE REAGAN).
PELA HARMONIA. DOIS ANOS
pratos {needie rocking),
HOSTILIDADES queimpulsionada
lógica devidamentepela
combinados, ritmados
microeletrônica. e con-
Em tros de produção
gramáveis. Mas musical
0 granderelacionados ao jazz
salto qualitativo veio
DEPOIS, EM WOODSTOCK,
trapostos se tornaramparalelo,
a base do rap e dodos
a retirada hip-hop, a nova
Estados forma
Unidos musi-
do Viet- ecom
ao blues, mas também ao
0 desenvolvimento dossoul e ao
digital funk. O
sampling, NO ESTADO DE NOVAYORK,

OUTRO FESTIVAL REPETIRIA A


cal que num curto espaço de reaproximaçâo
nã, sua tempo tomou ocom
planeta de assalto.
a China A linha
e a política processo decopiar
permitindo globalização — som,
qualquer com a liberação
reproduzi-lo,
PROEZA EM ESOUA MWTO
musical é dada pela fala cadenciada
de distensão e sincopada,
com ao estilo
relação à União dos poemas
Soviética das barreirasalterar
modificá-lo, alfandegárias —, e ofragmentar,
a frequência, avanço das MAIOR, SE TORNANDO 0

SFMBOLO DA
cantados da música jamaicana. Ospara
contribuíram versos falam dos dramas,
o arrefecimento emoções e
da Guerra fábricas japonesas
editar, repetir, ligado
colar, à robotizaçào,
encadear,fechar numprovo-
ciclo
CONTRACULTURA
Fria, difundindo
expectativas desses jovens um clima
sobreviventes geral largados
das ruas, de despolitiza-
ao próprio cou um acentuado
repetitivo contínuodeclínio
e assimdas
por indústrias
diante.Os da
pai- AMERICANA DOS ANOS 60.
unidades apnuLoiii Meio ambiente, corpos e comunidades 119
118 CAPtiuioiii Meio ambiente, corpos e corri

néis de operação permitem conectar entre si diferentes fontes de como produtores de rap estamos pretendendo fazer... detonar os sis-
temas de som dos carros,detonar os das casas,das danceterias e dos
samplers, recombinando aqueias possibilidades nas mais mirabolan-
juke-boxes... Isso é que é a música africana"®
tes direções. A isso se acrescentem os recursos de percussão eletrôni-
A matéria-prima básica nessa estratégia cultural do sampling é 0
ca, e eis que uma única pessoa pode gerar toda uma orquestra de
break beat, aquela parte da música, especialmente em shows ao vivo,
sons, para além de quaisquer limites conhecidos. Os recursos são tan-
em que 0 vocalista interrompe a linha melódica e os instrumentistas
tos que só estamos no início das suaS possibilidades de exploração.
assumem 0 comando, produzindo variações e improvisos sobre os
Essa nova constelação rítmico-tecnológica projetou um perfil
temas básicos. É esse elemento de espontaneidade e inspiração criati-
inédito de artista musical que é o DJ, a criatura que opera essa mágica
aovivo,paraêxtasedopúblicodançante.Essa aventura musical,quese va mágica que os DJs perscrutam nas coleções de LPs antigos até
achar.
originou tecnicamente na Europa do Norte, na Alemanha em particu-
Eles têm que ser necessariamente de antigas gravações de soul e funk
lar,ganhou asua mais complexa estruturação rítmica,éclaro,no circui-
dos anos 70.^ O que significa que toda tecnologia é acionada para dar
to Detroit-Chicago-Nova York. A orientação que os rappers vêm
uma ressonância explosiva à memória musical da cultura negra.Como
dando a ela está longe de significar celebração do
diz 0 crítico musical GregTate,"o sampleamento é um jeito de fazer com
malabarismo tecnológico. Ao contrário- ela referenda aquela mesma
que todas as eras da música negra se concentrem num único chip"'°
agenda da cultura negra, que expressa as fontes mais profundas da
sua inspiração espiritual, marcadas pelas experiências excruciantes do O teatro-dança e a revolta sensual
colonialismo, do exílio,da escravidão, da segregação e da exclusão.
Nesse sentido, o estilo negro de usar esses recursos busca sem- Esse percurso pela fascinante energia criativa que tem animado
a produção musical nos indica uma das sendas mais inspiradas para 0
pre os efeitos mais opacos, surpreendentes, imprevisíveis, bizarros. A
florescimento de uma nova sensibilidade, rica de memória, de densi-
idéia é operar nas áreas de distorção dos sons ampliados, usar as
dade humana espiritual, do impulso de gozo da vida e do reconheci-
reverberações acidentais causadas pelo baixo puxado para o primei-
mento de nossa ligação, por meio da pulsação do corpo, com as ener-
ro plano e tocado em volume explosivo- desmontar os padrões rítmi-
gias fundamentais da natureza. Há quem chame essa disposição de
cos e recompõ-los sobrepostos num efeito caótico de cascata, provo-
tecnopaganismo.O nome pouco importa, para quem entende e expe-
car a contaminação ao acaso dos sons por meio dos diversos canais
rimenta 0 sentimento. E essa comunidade parece crescer, animada
de gravação e inserir células pulsantes que detonem nexos estratégi-
por esse sonic boom, mas enfrenta todo tipo de dificuldades e contra-
cos da memória musical. Dai a prefefênda pelo equipamento usado,
ataques. Por exemplo, os pequenos estúdios independentes, que
reciclado, precário, em más condições de operação e defeituoso, evi-
sempre foram a base estratégica da criatividade musical, se encon-
tando deliberadamente que o resultado seja claro, nítido, cristalino e
tram sob 0 assédio de corporações que crescem sem parar, em suces-
oco,comoseria típico da sofisticada engenharia high-tech.Oobjetivo
sivas megafusões. Recentemente, um dos mais radicais dentre eles, 0
dessa estratégia acústica subversiva é produzir o que a comunidade
Death Row Records,foi cercado simultaneamente pela voracidade da
chama de“sonic boom':Como diz o DJ Kurtis Blow,’‘é isso que nós
Time-Warner,Sony,MCA,Seagram e Matsushita."
122 CAPnuLoiii Meio ambiente, corpos e comunidades
CAPiniLOiii Meio amblente,corpose comunidades i23 CAPtTuiDiii Meioambiente,corposecoinunidades 121
I» oplruiow MeioamliHente.corposecomunidades

Precisamos fazer com Imagolatria: a engenharia do imaginário socicd Últimos anos na Amsterdam School for the Arts para tentar enfrentar
12. CAMPEONATO

que a mente volte para iNTERNACIONAl DA


sempre a mesma questâo:"0 corpo está desconectado??
FEOERAÇAO DOS
Questão deveras difícil, em especial se atentarmos para o que
0 corpo'' É nessa dire- Eva Schmaie, um^ das mais destacadas participantes desse
TURNTABUSTS, SAN ocorre na área da percepção visual. Nesse campo, o efeito dominante
ção e nesse espírito que
FRANCISCO, 1997. grupo, multiartista e diretora do centro de dança-teatro Leibleches
parece ser uma avalanche de imagens que embaralha e ofusca nos-
0 Sonic boom converge
*UM VERDADEIRO
Theater de Colônia, na Alemanha, respondeu assim à pergunta:
TURNTASUST PODt SE sos olhos, nos tornando antes vítimas que senhores do nosso olhar.
para desencadear o sen-
APROPRIAR DE QJALQJER Nas palavras do historiador Michel de Certeau:"Da televisão aos jor-
sual unrest. OOEque
TRECHO le-E
ÜM VINIL O conhecimento que o corpo possui dos seus própnos processos
CRIAR ALGO
nais, da publicidade a todo tipo de epifania mercantil, nossa socieda-
va Eva Schmale a res- biológicos raramente nos é acessível, e, uma vez que seja perdido,
COMPIETAMENIE NOVO A de se caracteriza por um crescimento canceroso da visão, medindo a
ponder àquela
PARTIR pergunta
DAl. Às VEZES ACHO dificilmente poderá ser recuperado. Nossos modos de vida con-
tudo por sua capacidade de se mostrar ou de ser visto e transforman-
OUE NOS SOMOS 0 ÚNICO
inicial formulando uma temporâneos tornam cada vez mais difícil viver em conexão com o
PESSOAL NESTE MUNDO OUE do a comunicação num percurso visual'"^ Essa é a contrapartida da
outra: CHEGA MESMO A MEXER corpo. I...J É o corpo que pode nos atiçar na nossa suposta seguran-
consolidação no nosso tempo daquilo que Guy Debord analisou
DIRETO NO SOM* (D)
ça, nos provocar e questionar; ele traz consigo um potencial de
BABU, QUE TOCA NO BEAT como a sociedade do espetáculo. Um outro crítico expõe um diagnós-
Os tempos resistência, que é 0 que me interessa.
JuNKiES, DE Los ANGELES).
tico ainda mais complexo desse câncer da visão.
sempre foram Estando já desorientados — continua ela —, fiquemos tam-
difíceis, mas a universa- bém irritados e fos sintamos infectados, de modo que queiramos
Mas as ressonâncias do sonic boom conti-
A experiência humana está mais submetida hoje aos estímulos
iidade e a aparente ine- expelir de nós tcjdos os sentimentos e valores suspeitos, na busca
nuam repercutindo e atingem as mais ediversas
visuais aos processos de visualização do que jamais esteve, das
vitabiiidade da nossa pre-
áreas da cultura, eletrizando-asimagens
com suas transmitidas via satélite ao escaneamento dedas outros que sejom autênticos. Já tendo sido feridos,
minúcias podemos
sente situação — por
vibrações extáticas. É o caso das do corpo humano. Na era das telas e visores,admitir
artes cênicas,
interiores o seu nossa
ponto vulnerabilidade para ver aonde isso nos leva. Já
exempio, no que se refere de ovista é crucial. tendoUnidos,
errado,a podemos finalmente admitir 0 erro e a dúvida, assu-
0 teatro e a dança. Nesse campo corpo fun- Para a maioria das pessoas nos Estados
ao nosso impasse ecológi- mindo-os
cinema.como componentes integrais da vida. [...] Precisamos
13. EVA SCHMALE ciona como uma metáfora viva vida
paraéexprimir
mediadaa pela televisão e, em escala menor, pelo O
£M CENA: co — dão à atuaiidade uma dimensão americano sintonizar
médio de dezoito anos assiste apenas a oito com nossos sentidos. [...I É assim que posso exprimir
filmes por
condição de todo o organismo social, as ten-
"QUANDO O CORPO NÍO
completamente nova. Estamos cercados e ano,fantasia
mas vêepelo melhor meus
de sentimentos e minhas preocupações intelectuais,
ESTA INIBIDO PELO sões da cultura, as demandas da do menos quatro horas de TV por dia. Essas formas
somos confrontados por um mundo ao comunicação compartilhando-os com os outros. Eu espero compartilhar uma
INTEliCrO, QUANDO LHE É desejo. A música, o ritmo, as cadências que estão agora sendo ameaçadas pelos meios visuais
PERMITIDO WLAR, ENTÍO O qual não conseguimos mais dar expressão como a Internet e os recursos de realidaderebelião
virtual. sensível, “fa revolta sensual Isensua/unrestl
PENSAMENTO PODE
fazem os corações bater juntos,interativos,
compassados, Vinte
e que impõe a esquizofrenia, a nós e ao e três milhões de americanos estavam conectados com a rede em
NOVAMEMIE SE CONEQAR experimentando coletivamente as mesmas
COM O SENTIMENTO”.
que está ao nosso redor. [...] Nossa huma- 1998, com as adesões crescendo a cada dia. Em meio Esse impulso
a esse sedicioso, essa disposição subversiva é deflagra-
turbilhão
intensidades passionais, se chocam com uma
nidade é baseada na nossa consciência da pela
de imagens, ver significa muito mais que acreditar. Asdor, afliçãonão
imagens e revolta de corpos que se sentem em desacor-
ordenação que, embora global, favorece a
perceptiva. A questão é: que significação são mais uma parte da vida cotidiana, elas são a vida
do, cotidiana.’'
num mundo que perdeu sua conectividade com os outros seres,
fragmentação, o isolamento, o individualismo,
nós, como humanos, atribuímos à percep- com a natureza, com os fluxos eróticos e com 0 gozo sensorial da vi-
0 autismo e o consumo. Por isso, o mais impor-
ção sensorial, se ainda fazemos questão da Não apenas consumimos imagens em massa todos os dias,
da. A artista mas
MinTanaKa enfatiza esse mesmo ponto:'‘0 mais impor-
tante grupo de pesquisa e reflexão sobre as
nossa humanidade?'^ também ajudamos a multiplicá-las, involuntariamente, fornecendo
tante é 0 fato de que nosso entendimento provém do sentimento.
artes cênicas na atualidade tem se reunido nos
124 CAPlTVLOiii Melo ambiente, corpos e comunidades CAPÍTULOiii Meio ambiente, corpos e comunidades i25

nossas feições e nossos corpos para a infinidade de equipamentos de las sempre foram um privilégio das elites e como a cultura dominante
segurança que se muitipiicam por toda parte, por lojas, repartições sempre as manteve restritas a rigorosos códigos de representação {a
públicas, bancos, supermercados, shopping centers, ruas, avenidas, via- perspectiva linear e o realismo, por exemplo) ou submetidas a rígidas
dutos, praças, aeroportos, saias de espetáculos etc., ou voluntariamen- classificações temáticas, estilísticas e técnicas, as possibilidades de sua
te, registrando tudo o que for possível com máquinas fotográficas, fil- multiplicação introduziram componentes democráticos, emancipado-
madoras, câmeras digitais e cabines de fotos automáticas. Mas o pior res e experimentais. Daí a extraordinária riqueza estética, política e
de tudo,de longe, éa publicidade. Segundo 0 especialista LeslieSavan: cognitiva das experiências visuais do Cubismo, do Surrealismo e em
particular do cinema europeu dos anos 20. Mas tudo isso, como vimos,
Estudos estimam que,contando logotipos,rótulose anúncios,cerca foi abafado e abortado com o clima intolerante do período entreguer-
de 16 mil imagens comerciais se imprimem na consciência de uma ras, em que os novos potenciais da comunicação visual foram apro-
pessoa por dia. A publicidade hoje infesta todo e qualquer órgão da priados pelos regimes autoritários, populistas e totalitários.
sociedade. Onde quer que a propaganda ponha um pé, ela aos pou- Após a Segunda Guerra, a TV se torna o centro da vida cultural,
cos vai ingerindo tudo, como um vampiro ou um vírus [...].’* com algumas poucas redes controlando os mercados nacionais e,
nesse sentido, operando como grandes máquinas de engenharia do
Câncer, turbilhão, vampiros, vírus — a maneira como os críticos imaginário coletivo, por meio das quais se massificavam simultanea-
se referem à invasão das imagens não deixa dúvidas sobre seu esta- mente os valores da Guerra Fria e do consumo. O enorme potencial
do de alarme total. Como chegamos a esse estado? Como sempre, a para a informação, o esclarecimento e a ação transformadora que
fonte está nos potenciais desencadeados pela Revolução Científico- existe latente nesse estratégico veiculo de comunicação raras vezes
Tecnológica da virada do século XIX para o XX. Foi nesse contexto que se manifesta, em meio aos rígidos mecanismos políticos e mercado-
surgiram a fotografia,o cinema, as rotativas elétricas, os cromofotoli- lógicos que 0 controlam.
notipos, possibilitando a publicação de imagens em cores; as câmaras Foi assim, por exemplo, quando os correspondentes de guerra
se tornaram cada vez mais simples, pequenas e leves, os filmes vira- começaram a mostrar a carnificina no Vietnã, em dissonância com a
ram falados e coloridos e, grande clímax, surgiram as televisões, em propaganda oficial.o que acabou desmoralizando o governo e o exér-
cores, via cabo, satélite e on-line. Mas claro que não foi a tecnologia cito, retirando os Estados Unidos da guerra. Foi assim também com a
que impulsionou o turbilhão das imagens; antes o contrário.Tal é seu TV interagindo com os movimentos de solidariedade mundial que
potencial de capturar os sentidos, o desejo e a atenção dos seres promoveram um ataque sistemático e fatal ao apartheid na África do
humanos, que logo os estrategistas as elegeram como o meio ideal Sul. E foi assim também com a reação em cadeia que as transmissões
para difundir idéias, comportamentos e mercadorias, pressionando de TV causaram, acelerando o colapso final dos regimes comunistas
por novas e melhores técnicas para reproduzi-las. no Leste europeu. Mas são absolutas exceções. O destino da TV —
Em princípio não há nada de errado com essa multiplicação exa- pelo modo como seu desenvolvimento histórico a encalacrou entre o
cerbada de imagens. Ao contrário, como as possibilidades de produzi- poder estatal e as grandes corporações de mídia — é estar acorren-
126 CAPITULO III Meio ambiente, corpos e comunidades CAPiTuioiii Meio ambiente, corpos e comunidades 127

tada ao entretenimento superficial, ao sensacionaiismo de baixo ins- recursos, públicos potenciais estimados na escala dos milhões ou das
tinto, ao festival aliciante do consumo e à mais mesquinha manipula- dezenas de milhões. 0 resultado foi que as artes plásticas, que já
ção política. Basta como exemplo mencionar a fraude obscena que viviam uma situação de desmaterialização dos suportes, passaram a
transformou as guerras do Golfo e da Iugoslávia em espetáculos vir- depender de forma crescente de agenciamento por esses novos
tuais lúdicos.'® canais comunicativos. Ao mesmo tempo em que acarreta a diminui-
A introdução dos canais deTV a cabo e por satélite devem muito ção de sua dimensão material e sensorial (na medida em que tende a
ao alto incentivo dos governos conservadores,que desde meados dos dispensar 0 contato entre 0 público e as obras), isso enfraquece tanto
anos 70 vislumbraram nesses novos recursos a possibilidade de reti- 0 impacto da sua recepção quanto a singularidade da sua produção.
rar 0 poder de um pequeno grupo de programadores que controla- O paradoxo perturbador é que, em paralelo a essa tendência ao
vam as cadeias nacionais e que, segundo lhes parecia, eram por obscurecimento ou diluição da arte, do artista e das condições con-
demais condescendentes com atitudes e valores provenientes da cretas que assinalaram a criação, ocorre uma dilatação, na mesma
rebelião cultural e política de 68. Seu plano era multiplicar as opções, escala, do prestígio dos museus e galerias, das grandes exposições e
enfraquecendo as grandes redes nacionais e concedendo generosas dos curadores. É como se os valores da montagem, da exposição e da
fatias às comunidades locais, grupos religiosos, novos interesses promoção prevalecessem sobre os da imaginação, da criação e da
empresariais e organizações conservadoras, ainda que travestidas do expressão artística. Como no mercado, a vitrine, a embalagem e a
look neoliberal. Não atingiu seu principal objetivo — o de estabele- grife se tornam a chave de um ato que se caracteriza mais como de
cer um novo consenso conservador —, mas este certamente se tor- consumo do que de invenção cultural, desafio dos valores estabeleci-
nou decisivo para consolidar o destino comercial da televisão.'^ dos ou pesquisa das fronteiras do imaginário, tal como se definia a
arte — como a pedra angular da cultura. Uma vez mais foi Guy
Debord.com seu implacável tom profético, quem prefigurou esse des-
O declínio das cidades e a espetacular ascensão dos museus
dobramento da sociedade do espetáculo:
O impacto dessas grandes mudanças tecnológicas sobre as artes
plásticas trouxe igualmente notáveis mudanças. A criação de um cir- O conhecimento histórico e 0 levantamento de todas as
cuito cultural privilegiado, em termos de educação, informação e manifesta-
poder de consumo,conectadoa uma rede virtual, trouxe duas conse- ções artísticas do passado, junto com sua promoção
quências básicas. Em primeiro lugar, dotou o próprio processo de retrospectiva
comunicação de uma nova densidade cognitiva, na medida em que à condição de artes de todo 0 mundo (worldart), serve para lhes
criou uma equação segundo a qual quanto maiores e melhores dar um peso relativo dentro de um contexto de desordem global
conhecimentos se tiver sobre esses recursos comunicativos, mais e [...]. O próprio fato de que esses "resgates" da história da arte
melhores informações poderão ser obtidas por meio deles. E, em tenham se tornado possiveis indica 0 üm do mundo da arte. Só
segundo lugar, aglutinou, graças ao alcance planetário desses novos nessa era dos museus, quando já nenhuma comunicação
artística
1Í8 cAPftuLOiii Meio ambiente, corpos e comunidades ctftniioiii Meioambiente,corposecomunidades 129
CAPfTULOiii Meio ambiente, corpos e comunidades 131
130 CAPlTULOiii Meio ambiente, corpos e comunidades

nenhum deles agora, em vista do desaparecimento dos pré-requi- "tudo na sociedade de consu-
de todos, pelo bem comum. 0 grupo, que começou a atuar em 1995, se bairros populares, para as comunidades desassistidas, para as popula-
sitos da comunicação em geral, estará sujeito ao desaparecimento mo assumiu uma dimensão es-
identifica com toda a longa história do protesto popular na Inglaterra, ções de rua, para as massas de desempregados. O passo seguinte foi a
da sua capacidade particular de se comunicar’’ tética"”
desde os camponeses que lutaram contra o cercamento dos campos denúncia da exploração das populações nos países subdesenvolvidos,

comuns em fins da Idade Média, os niveladores que queriam transfor- 0 esbulho das "dívidas externas" o garrote das políticas "desenvolvi-
De modo que, em meio a um processo de decadência e colap- A ética e a estética das ruas
mar a Revolução Puritana num movimento de redistribuição da proprie- mentistas"do FMI, do BM e da OMC, a pauperização e depredação do
so das cidades, resultado de seu abandono deliberado pelos benefi- do século XXI
dade, até os operários industriais, cujas lutas continuas forçaram a ado- meio ambiente em escala mundial promovida pela globalização. Por
ciários do novo arranjo global e das novas tecnologias informatiza-
ção do Estado de bem-estar social. A diferença está no seu tempo,no Foi conexões
meio das para confrontar essa a conspiração adquiriu amplitude pla-
pela Internet
das, procura-se promover a idéia de sua refundação, não mais em
seu apropriação da cultura
netária e alcançou pelasimpacto nos confrontos de Seattie, Wash-
enorme
bases históricas, democráticas e participativas, mas a partir de mar-
estilo e na sua plataforma. elites dominantes,
ington,Toronto pela políti-
e Praga,em que se tornaram marcos históricos.
cos dos novos tempos, representados por grandes museus de arqui-
ca e pelo
Quemmercado quenogrupos
diria que novo século o front político retornaria para as
Em vez dos canais convencionais, contaminados pelo conservado-
tetura mirabolante e megacentros culturais. Em geral, esses projetos
autonomistas
ruas, tal comode várias
nas pólispar-
da Grécia antiga? Quem diria que alguém
rismo do "pensamento único" que praticamente neutralizou o debate
têm em vista um público que não é o local, empobrecido, mas visi-
tes do mundo decidiram criar
fosse aprontar uma festa tão grande, que fizesse parar até a monta-
político, a tática do grupo é agir nas ruas, criando autênticos carnavais
tantes prósperos de outras partes do país e do mundo. Ê a recicla-
uma antiestétíca
nha-russa, das as
para que ruas. A
pessoas pudessem participar dela? E se esse é
e teatros de rua que paralisem os fluxos e rotinas do ''mercado"a que as
gem das cidades, esvaziadas de sua vida local e reduzidas a estereó- idéia era repor no centro da
cidades se viram reduzidas. Fantasiados e mascarados como persona- 0 front da grande batalha ética pela definição dos valores que devem
tipos destinados ao consumo de multidões turísticas cosmopolitas, cena tudo 0 que estava sendo
gens populares e folclóricos, eles chegam de transporte público, a pé e orientar o futuro de nossa espécie e deste planeta, provavelmente
atraídas poio marketing do refinado ou do exótico e confiantes na excluído dela, a natureza, as
de bicicleta, bloqueiam avenidas, vias expressas, rodovias ou a entrada ninguém os formulou de forma mais simples,concisa e nítida do que
legitimidade que a posse de moedas fortes atribui aos seus juízos cidades, as comunidades, as
de instituições econômicas e políticas, criam barreiras com fardos de 0 artista plástico alemão Joseph Beuys, e numa única frase:
culturais, à sua ansiedade por entretenimento e ao seu poder de ruas, os corpos, a comunhão
feno e,ato continuo, se põem a cobrir o asfalto ou cimento com cama-
compra. pela festa franca e aberta,
das de terra, grama ou areia, plantando hortas, jardins, cardos, buchos e A dignidade das pessoas, dos animais, de toda a natureza, deve
Enquanto dentro dos museus e centros culturais se cultua um dançada sob 0 azul do céu. A inspiração vinha 14. "QUANOO ouço A
árvores. Erguem "mastros de maio" enfeitados de flores, guirlandas e uma vez mais retornar para o centro da experiência.
passado sacralizado ou um presente embalado no cristal líquido da de Guy Debord e dos situacionistas, a força da KUVRA CULTURA, EU

fitas coloridas (o símbolo tradicional da festa da primavera), ao redor $AC0 O MEU TAIAO OE
novidade, ao redor os serviços públicos fenecem, as possibilidades de imaginação que engendrou a grande rebelião
dos quais se põem a dançar quadrilhas com as crianças. Criam escultu- Que assim seja. E assim será, se nós o quisermos.
CHEQUES", 1985.

promoção social se apagam, o espaço urbano se degrada, os empre-


libertária de 68. O primeiro grupo a ganhar 0 DTO, PAROBIANOO O
ras com repolhos, pepinos, abóboras, cenouras e massa de argila, ou
gos evaporam e as comunidades se dilaceram,flageladas pelo desem- LEMA NOTORIO DE UM
notoriedade e tornar-se uma referência para os Primavera de 2000
OFICIAL DA GESTAPO, FOI
"decoram e incrementam" os monumentos que já existem. Ao fundo,
prego, pelas drogas e pela criminalidade. Nesses termos, a própria cul- REFORMULADO PELA ARTISTA
demais foi 0 Regain the Streets, com sede em
grandes caixas de som e os indefectíveis toca-discos de dois pratos, NORTE-AMERICANA
tura virou uma droga, o ópio dos privilegiados, numa tal extensão que
Londres.
onde os DJs se revezam, atraindo a população local para uma grande BARBARA KRUGER, E
ela atualmente intoxica tudo, Foi com relação a esse aspecto contami-
O próprio nome já indica qual é 0 seu pro- ATUAUZA 0 SENTIDO
folia a céu aberto. E eis o sonic boom e o sensual unrest comandando a
nante e alienador que o filósofo Frederic Jameson alertou; "Hoje no DAQUEIA FRASE HISTÓRICA
jeto: a retomada e requalificação do espaço
subversão do século XXI.^° quE, NO PERlOOO NAZISTA,
mundo tudo é mediado pela cultura, até o ponto em que mesmo os
público, por gente simples e anônima, com 0 CONCLUÍA COM “EU SACO 0
No inicio 0 objetivo era impedir a derrubada de bosques e flores-
níveis político e ideológico devem ser desemaranhados de seu modo MEU REVÓLVER".
objetivo de revitalizar os laços comunitários e
tas para a construção de mais rodovias, para dar mais espaço aos car-
primário de representação,que é cultural"Nessa linha,ele conclui que refundara democracia com base na participação
ros e ao transporte privado. A seguir foi a defesa de rios e lagos, depois
0 esforço de chamar a atenção para a degradação das cidades, dos

KÉ~«ii««iniiiiiiip.- 1^-71 utaíJlr


132 CAPITULOIII Meio ambiente,corpos 6comunidades

15. "TOCANTINS",

1993.

FllHOTES D£ FÉMEAS

CAÇADAS POR ÍNDIOS

GUAIAS SÃO ADOTADOS PEIA


TRIBO. ALÉM DE RECEBER

AMPARO NA INFÂNCIA, TÈM

RECONHECIDO O DIREITO DE

VIVER INTEGRALMENTE SUAS

VIDAS, SEM OUE VOLTEM A

SER MOLESTADOS POR

AQUELE AGRUPAMENTO

I. Aceleração tecnológica, mudanças econômicas e desequilíbrios (pp, 23-58)

(1) Essa fase e todo o novo contexto estabelecido pela Revolução Científico-
Tecnológica estão bem caTacterizados e analisados no volume anterior desta
coleção (Angela Marques da Costa e Lilla Moritz Schwarcz, 1890-1914 — No
tempo das certezas, Coleção Virando Séculos, São Paulo, Companhia das Letras,
2000, pp. 15-22). Há também uma oportuna tabela de Invenções e descobrimen-
tos do período entre 1816 e 1914, às pp. 159-60.
(2) Robert Weimann, "Value, Representation and the Discourse of Moderniza-
tion: toward a Political Economy of Postindusü'lal Culture", in David Palumbo-Üu
& HansUIrich Gumbrecht 5freamsof Co/íura/Capite/, Stanford,StanfordUniver-
sity Press, 1997, pp. 224-5.
(3) Paul Kennedy, Preparing for the Twenty-First Century, Londres, Harper Col-
lins, 1993, pp. 47-64.
(4) K. Ohmae, The Borderíess World: Management Lessons in the New Logic
of
the Global Marketplace, Power and Strategy in the Interlinked Economy, Nova
York/Londres, Haqierbusiness, 1999, passim.
(5) UIrich Beck, What Is Globalization?, Cambridge, Polity Press, 2000, pp. 4-8.
Nicolau Sevcenko, “Upgrading Estado e Sociedade", in Cartó Capital, 18 de
março de 2000, pp. 26-9.
(6) Entrevista com André Gorz, Frankfurter Allgemelne,\^ de agosto de 1997,
p. 35, apud U. Beck, op. cít., pp. 5-6.
(7) N. Sevcenko, "O professor como corretor". Folha de S.Paulo, Mais!, 4 de
junho de 2000, pp. 6-7.
(8) Stewart Brand, The Clock of the Long Now, Londres, Weindenfeld 8i Nicol-
son, 1999, pp. 12-7.
'3 ]'a 15 ■ tfí 17 ■ W 21)7^
19 *

0 sétimo e último volume


da Coleção Virando Séculos
I
traz uma reflexão lúcida e 771
'■0 272
77G 77?

perturbadora sobre a passagem


"f. An ■’
para o século XXI. O atual J1C :
momento histórico é marcado
por uma aceleração dramática
no processo de transformações
1% 735 -
tecnológicas; é como ;33 73.i m 1% n
se tivéssemos embarcado
sfii ‘37 «iri67 asa
numa montanha-russa e agora,
na entrada do novo século,
fôssemos apanhados pela 'ODP 1WJ lÜAfe 10U3 lt«rt

vertigem do loop. Essa


aceleração, que é excitante,
ina
é também inconseqüente: n3s
vai aumentando as desigualdades ” I!?3I276 J27F 1^3 ■ l?aO
'.'71 1273 1277
entre os grupos e sociedades, !??5

multiplicando crises e violências |14!3 Ul4 1d15 RlSf4Í8 ’,Afr


1417 1420
e ameaçando o equilíbrio 14?1

ambiental. Mas Nicolau Sevcenko Jtí lW


T5« I52~
C3
mostra também que, no limiar 1M1 1544
1543

do século XXI, surge uma nova I7‘B 1717 5

q^eraqão disposta a lutar para


que as prioridades desse mundo lS?l653 IffiA ■ 1855 IK

globalizado se voltem para -


os homens, a natureza wam 'i-ll■■:
5903 Wo “ 1997 1994 19S

e a solidariedade. 1991

iTHs ?Í4C' 21-17 215(5


7143
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rõ 2^ 23 K 2239 279' 9
ISBN 85-359-0092-6 2?B4
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27

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