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C87 ld
8.ed.
Costa, Emília Viotti da
Da monarquia à república: momentos decisivos/EmíliaViotti da
Costa. 8.ed. rev. e ampliada. São Paulo: Fundação Editora UN ESP,
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Para minha mãe
2007. e meu pa¡ (in memoriam).
ISBN 97885-7139-740-8 Para Florestan Fernandes,
Brasil História Século XIX.
sem cujo estímulo
1. Elites (Ciências sociais) - - -

este livro jamais seria publicado.


2. Brasil Política e governo 1822-1889. 3. Brasil Condições
- - -

sociais. 4. Brasil- Condições econômicas. I. Título.

07-0369. CDD: 981.04


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de América latina y el Caribe Editoras Universitárias o unem "
366 EMÍLIA VIOTTI DA COSTA

novas possibilidadespara a expansão da produção e para a espe-


cialização. Os métodos de processamento do café e do açúcar
também tinham melhorado, permitindo uma melhor divisão do
trabalho. Após a interrupção do tráfico, o preço dos escravos
aumentou vertiginosamente. O custo de manutenção dos escra-
vos parecia, em algumas áreas, igualizar-se ou mesmo exceder o
nível salarial local.
O rápido crescimento das plantações de café fez do trabalho
o problema mais urgente. Como podiam os fazendeiros satisfazer
CAPÍTULO 9
suas necessidades de trabalho após a interrupção do tráfico de O MITO DA DEMOCRACIA
escravos? Q tráficorinterno ofereceu uma solução temporária,
RACIAL NO BRASILI
mas a autoqeproclução dos escravos não podia satisfazer a de›
manda imediata. Os fazendeiros das áreas em expansão haviam
encontrado a resposta na imigração. Provavelmente, não teriam
procurado alternativas para o trabalho escravo se não estives-
sem ante múltiplas pressões. Além disso, se tivessem mais con-
fiança nas possibilidadesde sobrevivênciada escravidão ou não Numa série de palestras proferidas há mais de cinqüenta anos
tivessem encontrado alternativas, teriam lutado para manter a Estados Unidos e depois publicadas sob o título de Intezpre
nos
instituição. Teriam tentado usar os mecanismos de repressão dis» ração do BIQSÍLZ o sociólogo brasileiroGilbertoFreyre descreveu
poníveis para interromper os abolicionistas e as fugas de escravos. o idjliço cenário da democracia racial brasileira. Embora reco»
Como eles não se organizaram para defender a instituição, a es» nhecesse que os brasileiros não foram inteiramente isentos de
cravidão foi abolida por um ato do Parlamentosob os aplausos das
preconceito racial,3 Freyre argumentava que a distância social,
galerias. Promovida principalmente por brancos, ou por negros no Brasil, fora o resultado de diferenças de classe, bem mais do
cooptados pela elite branca, a abolição libertou os brancos do que de preconceitos de cor ou raça** Como os negros brasileiros
fardo da escravidão e abandonou os negros à sua própria sorte.” desfrutavam mobilidade social e oportunidades de expressão
cultural, não desenvolveram uma consciência de serem negros
da_ mesma forma que seus congêneres norte-americanos? Freyre
também apontou o fato de que, no Brasil, qualquer pessoa que
não fosse obviamente negra era considerada branca. Expressou
a convicção de que os negros estavam rapidamente desapare-

1 Palestra proferida na reunião anual da Southern Historical Association,


Washington, D. C., em 14 de novembro de 1975. Traduzido do inglês
por Marco Aurélio Nogueira.
2 Gilberto Freyre, Brazil: an Interpretation. New York, 1945. Trad. bras.:
Interpretação do Brasil. Rio de Janeiro, 1947.
40 Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes. São
Paulo, 1964; Idem, O negro no mundo dos brancos. São Paulo, 1972.
UI-PLJ lbidem, p.126.
lbidem, p.97.
lbidem, p.154.
368 EMÍLIA VIOTTI DA COSTA DA MONARQUIA A REPÚBLICA 369
§

cendo 3913x3511 .ClHÇQÍPOIHIIdOfSçC ao grupoçbranççgró E foi além de terem_ o _fu_nd_arnental preconceito de não serem pre»
disso. Censurou os que se inquietavam com os possíveis efeitos ..f-_w- ---

conceituosgs.
negativos do amálgama étnico e reafirmou a confiançana capa- O quadro que Gilberto Freyre forneceu das relações raciais
cidade social e intelectual do mulato. Foi no processo de misci- no Brasil expressava, entretanto, uma opinião difundida não
genação que Freyre julgou terem os brasileiros descoberto o apenas entre a maioria da elite branca, como também, surpreen›
caminho para escapar dos problemas raciais que atorrnentavam dentemente, entre muitos negros. Ambos estes grupos recebe-
os norte-americanos. ram o trabalho fornecido pelos revisionistas da mesma forma
Cerca de vinte anos depois, uma nova geração de cientistas como haviam recebido as tentativas de organizar um movimen›
sociais, estudando as relações raciais no Brasil, chegou a conclu- to negro no Brasil: com suspeita se não com ressentimento e,
- -

sões bastante diferentes. Estes cientistas acumularam uma nova algumas vezes, com indignação. _Os revisionistasy foram,acusados
quantidade de evidências de que os brancostnoBírasil foram de inverrtarhumjrgbklema racial que não existia no Brasil.
preconceituososçede_ queos negros, _apesar de não terem gde jõestudo das ¡deãlãgíáããàiaisirió Brasil nos fornece uma
legalmente_discriminados, foram “_r7iatural"elifiíforrhalrçr_i_e_ntexse›
_.____ - ---

excelente oportunidade para analisar a dinâmica da mitologia


greÍgãdos. A _maior-ia da população negrapermaneceu rlumar po» social. Os mitos sociais, como sabemos, são constantemente cria-
sição subaltema sem nenhuma 'chance de ascender na escala dos e destruídos. São uma parte integrante da realidade social e
social. Às possibilidadesde mobiçlidadesocialforam çsçvgrargn» não devem ser vistos meramente como um epifenômeno. Na
te limitadas aos neggsweiíseímpre que, teles competilêm_99m 03 vida diária, mito e realidade estão inextrincavelmente inter»
'bÍanchcÊ_forarn_discriminados. A caracterizaçãoortodoxa prado¡ relacionados. Os cientistas sociais e os historiadores operam no
.í.- - ›:_.. ..â_._...›

minante de que o Brasil é uma democracia racial passou a ser um nível da mitologia social e eles mesmos, quer queiram quer não,
mero mito para os revisionistas, que começarama falar na "intog ajudam a destruir e a criar mitos. No processo, a "verdade" de
lerável contradição entre mito_ daudernocraciaçraciale a real
o -u.›..›-›~
uma geração muito freqüentemente torna-se o mito da geração

negros e mulatos",7 e a acusaros brasileiros seguinte. Os estudiosos norte-americanos, por exemplo, podem
.+-

discriminação
._....,..__›

contra
hoje falar a respeito do mito do self~made man? Entretanto, para
muitos daqueles que viveram nos Estados Unidos no século XIX
6 lbidem, p.96.
7 Octávio lanni, Research on race relations in Brazil, Race and class in
Latin America. New York: Magnus Morner (Eri), 1970, p.256, 278.;0s' Entre os autores americanos: Raceand class in rural Brazil.Charles Wagley
revisionistas mais importantes são: L. A. Costa Pinto, O negro no Rio de (Ed.) Paris, 1952; Richard Morse, The negro in São Paulo Brazil,journal
-

janeiro. São Paulo, 1952; Florestan Fernandes, Roger Bastide, Brancos e of Negro History, v.38, p.290-306. jul. 1953; Marvin Harris, Town and
negros em São Paulo. São Paulo, 1955; Thales de Azevedo, As elites de cor. County in Brazil. New York, 1956; Bertram Hutchinson, Village and
Um estudo da ascensão social. São Paulo, 1955; Guerreiro RamOEn 111179' Plan tation Life in Northeastem Brazil. Seattle, Washington, 1957; Charles
dução crítica à sociologia brasileira.Rio de Janeiro, 1957; Fernando Wagley, An introduction to Brazil. New York, 1963, nova ed., 1971; Carl
Cardoso, Octávio lanni, Cor e mobilidadeem Florianópolis. São Paulo¡ Degler, Neither Blacknor White: Slavery and Race Relations in Braziland
1960; Fernando Henrique Cardoso, Capitalismo e escravidão no Brasil the United States. New York, 1971. (Trad. bras.: Nem preto nem branco.
ridional. O negro na sociedade escravocrata do Rio Grande do Sulysãí¡ Escravidão e relações raciais no Brasil e nos EUA. São Paulo, 1976). Como
Paulo, 1962; Octávio lanni, As metamorfoses do escravo. Apogeu 'E representantes da escola tradicional nos Estados Unidos: Frank
da escravatura no Brasilmeridional. São Paulo, 1962; Florestan Fernandü: Tannembaum,Slave and Citizen, The Negro in theAmericas. New York,
A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo, 1964. 2V» 33d** 1946; Donald Pierson, Negroes in Brazil. Washington, 1959, nova ed. Chi-
zido para o inglês: The Negro in BrazilianSociety. New York, 1969; cago, 1967; Stanley Elkins, Slavery, a Problem in American Institutional
de Azevedo, Cultura e situação racial no Brasil. Rio de Janeiro, and intellectual Life, Chicago, 1959.
Octávio lanni, Raças e classes sociais no Brasil. Rio de ]aneí1'0› 8 Irwin G. Willies, The Self-made Man in America: The Myth of Rags to
Florestan Fernandes, O negro no mundo dos brancos'. São Paulo, 1972- Riches. e
37o EMÍLIA VIOTTI DA COSTA DA MONAIÃQUIA A REPÚBLICA 371

(e talvez para muitos ainda hoje) ele correspondia à sua experiên- rações aritméticaspoderia ter verificado os dados do censo oficial
cia de vida e não era simplesmente um sonho que ajudava o de 1950, que revelavam de maneira irretorquível a precária situa»
homem comum a enfrentar suas frustrações diárias. O mito aju- ção dos negros no Brasil. Estas estatísticas, por exemplo, classifi-
dou a reduzir o conflito social, é claro. Mas também impeliu os cavam cerca de 60% da população total como tecnicamente
homens a grandes empreendimentos, alguns bem-sucedidos e branca, cerca de 25% como mulata e 11% como negra. Mas as
outros fracassados. Era uma parte da realidade americana, tão estatísticas referentes ao atendimento escolar de nível primário
real na experiência popular como o dinheiro, o trabalho e a fome. revelavam uma distribuição dramaticamente diversa. Apenas
O mito do selñmade man, que foi tão importante na socieda- 10% dos alunos eram mulatos e somente 4%, negros. E nos esta»
de norte-americana, não teve a mesma atração no Brasil. Teve belecimentos de nível secundário e superior o número de mula-
significado talvez para alguns grupos petibbourgeois, principalmen» tos e negros era ainda menor. Somente 4% dos estudantes das
te imigrantes que estavam engajados numa febril luta pela as- escolas secundárias eram mulatos e menos de 1% eram negros.
censão social. Mas permaneceu alheio à experiência da maioria Nas universidades, apenas 2% eram mulatos, e somente cerca de
dos brasileiros das classes superior e inferior, que em lugar do um quarto de 1% eram negros. As estatísticas não eram secretas
mito do seIf~made man criaram o mito da democraciaracial. Nos e nem difíceis de ser interpretadas. Mas foram ignoradas. E exis-
Estados Unidos, o mito do se1f~made man ajudou a cegar os ame- tiam muitos outros dados como esses para demonstrar o predo»
ricanos para as diferenças de classe. No Brasil, o mito da demo› mínio branco e a discriminação contra os negros, dados esses
cracia racial obscureceu as diferençasraciais. Em ambos os casos, nos quais ninguém prestava atenção?

a "verdade" das gerações passadas tornowse o mito da geração É importante explicar não apenas como os brasileirospude»
atual. ram ser cegos a tais realidades sociais, mas também por que eles
Nos Estados Unidos, assim como no Brasil, os intelectuais intencionalmente definiram o Brasil como uma democracia ra»
engajaram~se tanto na construção como na destruição desses cial. O que os levou a negar que seriam preconceituosos? Que
mitos. Podemos esperar que uma maior familiaridadecom a di› funções tinha esse mito? Como era usado? A quem beneficiava?
nâmica da mitologia social não somente aumentará nosso co» Por fim, por que a nova geração de cientistas sociais foi mais
nhecimento sobre a sociedade e a história, como também sensível às manifestações do preconceito, manifestações estas
contribuirá para uma melhor compreensão das dificuldades do que tinham sido ignoradas pela geração anterior? Por que eles
trabalho do historiador. não ficaram impressionados com a aparente ausênciade confli»
Em esboço, os fatos são suficientemente claros: um podero- to racial, com a ausênciade discriminação legal, ou com a pre-
so mito, a idéia da democracia racial -

que regulou as percep- sença de numerosos negros entre a elite -fatos que no passado
ções e até certo ponto as próprias vidas dos brasileirosda geração tinham servido para demonstrar que o Brasil era uma demo»
de Freyre tornou-se para a nova geração de cientistas sociais
-
cracia racial? Por que eles sentiram a necessidade de revelar a
um arruinado e desacreditado mito. Várias questões óbvias são existência de sutis formas de discriminação desconhecidas an-
sugeridas por esses fatos. Como puderam os brasileiros da gera» tes? Por que foram impelidos a "desmascarar" a realidade por
ção de Freyre desconhecer seus próprios preconceitos? Como detrás do mito?
puderam os negros brasileiros daquele período permanecer ce« Para os que pensam que as ideologias meramente refletem o
gos à discriminação que era uma experiência comum no seu coti» mundo "real", uma saída fácil seria dizer que as mudançasobje~
diano? Como puderam os brasileiros cultos, fossem eles brancos
ou negros, ignorar a discriminação racial quando esta estava cla- 9 O professor Richard Morse já tinha registrado a discriminação racial.
ramente demonstrada pelas estatísticas oficiais amplamente Ver seu The negro in São Paulo-Brazil,journal of Negro History, v.38,
divulgadas? Qualquer um que soubesse ler e realizar simples ope- p.290-306, jul. 1953.
372 EMÍLIA VIOTTI DA COSTA DA MONARQUIA A REPÚBLICA 373

tivas ocorridas na sociedade brasileira -

industrialização, urba- brasileira. Confrontando as teorias que realçaram a superiorida›


nização, desenvolvimento capitalista agravaram os conflitos
-

de da população branca e a inferioridade dos mestiços e negros,


sociais e aumentaram a competição, tornando os brasileiros ra»
a elite brasileira uma minoria de brancos, alguns dos quais não
-

cistas. Por isso, não seria surpreendente que cientistas sociais, estavam seguros da "pureza" de seu sangue, cercados por uma
apenas registrando as mudanças nas atitudes raciais, se tomas- maioria de mestiços não descobriu melhor solução do que co-
-

sem, após os anos 50, mais cientes do preconceito e da discrimi- locar suas esperanças no processo de “branqueamentd”. O Brasil
nação. Isto seria dizer que tanto Gilberto Freyre como Florestan superaria seus problemas raciais, sua inferioridade, através da
Fernandes (o líder da escola revisionista no Brasil) estariam cor- miscigenação. A população tornapseáa crescentemente branca.
retos.” Um expressava a realidade social do Brasil tradicional; o A uma ideologia segregacionista característica dos Estados Uni-
outro representava as modernas tendências da sociedade brasi- dos, onde qualquer descendente de uma união entre um negro e
leira. Uma segunda saída fácil seria argumentar que as ideologias um branco era considerado negro, a elite brasileira opôs uma
são realmente apenas imagens invertidas do mundo real e artifií ideologia baseada na integração e na assimilação, que implicava
cios que os grupos dominantes produzem para disfarçar as for› a repressão de atitudes preconceituosas contra os
negros e supu«
mas de opressão ou para manter a hegemonia política. Com tal nha que os mulatos estavam no meio do caminho entre os ne»
premissa, podepse-ia dizer que o preconceito e a discriminação gros e os brancos. Em vez de urripreconceito de origem (qualquer
sempre existiram na sociedade brasileira, e que o mito da demo› quantidade de sangue negro fazia um homem negro), os brasilei«
.___.__í

cracia racial foi uma distorção deliberada ou involuntária do


-

real padrão das relações raciais no Brasil. Levando esse argu-


-
rgstinham um preconceito de _cor_ uma pessoa é branca ou ne: f. ,

gra dependendo ae sua aparência).“


mento à sua conclusão lógica, alguém que estivesse sempre dis› Após a Segunda Guerra Mundial, "os pontos de referência
posto a crer nas capacidades conspirativas e no comportamento precendentes mudaram dramaticamente". Com a vitória aliada
maquiavélico das classes dominantes veria o mito da democra» sobre os nazistas, o racismo foi "derrotado" nos campos de bata«
cia racial como um expediente usado pelas classes superiores bran- lha. De outro modo, como, em poucos anos, os Estados Unidos
cas (das quais Gilberto Freyre e outros intelectuais de sua geração moveram›se em direção à integração, os brasileiros não puder
foram os porta-vozes) para mascarar a opressiva realidade das rela» ram mais se referir à odiosa instituição da segregação, ou aos
ções raciais. Somente a nova geração de analistas sociais, não horrores dos linchamentos nos Estados Unidos.” Nem podiam
identificada com a elite tradicional, poderia finalmente revelar a opor as tristes cenas das relações raciais americanas ao seu paraí-
"real" natureza das relações raciais no Brasil. so racial um dos seus exercícios intelectuais favoritos. Essas
-

Há uma terceira maneira de resolver o problema. Podería› mudanças provocaram um crescente interesse pelo estudo das
mos atribuir a circunstâncias externas a criação e a destruição relações raciais. Na suposição de que a experiência dos brasilei›
do mito, localizando as origens da ideologia racial brasileiraem ros poderia oferecer ao resto do mundo uma lição ímpar de "har-

eventos ocorridos na Europa ou nos Estados Unidos. O mito da monia" nas relações entre as raças, a Unesco fomentou uma série
democracia racial apareceria então como uma tentativa de aco» de projetos de pesquisas sobre as relações raciais no Brasil.”
modar as idéias racistas européias que se tornaram preponde-
-

rantes na Europa da segunda metade do século XIX à realidade -


11 OracyNogueira, Skin color and social class. ln: Vera Rubin (Ed.) Plantation
_. Systems in the New World. Washington, 1959, p.164›79.
12 Thomas Skidmore, Black into white, p.210-I.
10 Pierre van der Berghe, Race and Racism. New York, 1967. Thomas
13 Os resultados desta pesquisa foram publicados em Race and Class in Rural
Skidmore, Blackinto W/hite. Race and NationalityBrazilianThought. New Brazil. Ed. Charles Wagley. Paris, 1952; e em Roger Bastide, Florestan
York, 1974. (Trad. bras.: Preto no branco. Raça e nacionalidadeno pensar Fernandes, Relações raciais en tre negros e brancos em SãoPaulo.São Paulo,
mento brasileiro. Rio de Janeiro, 1976).
1955.
374 EMÍLIA VIOTTI DA COSTA DA MONARQUIA A REPÚBLICA 375

Contrariando os resultados esperados, essas pesquisas revelaram


começos do século XX estavam bastante influenciados por
a existência do preconceito e da discriminação. A nova geração
Lapouge, Gobineau e outros escritores europeus que falavam na
de cientistas sociais lançava um ataque à tradicional mitologia inferioridadedos povos mestiços e na superioridade da raça branca.16
racial. Mas isso não explica o mito da democracia racial nem mesmo
Alguém poderia argumentar que estou apresentando uma
-

um pequeno e secundário aspecto dele, como a idéia do "bran-


caricatura grotesca dos três tipos de interpretação, que estou queamento". De fato, os intelectuais brasileiros não estavam
construindo espantalhos exatamente para destruídos. Devo ad» apenas respondendo a idéias de fora. Eles escolheram aquelas
mitir que exagerei deliberadamentealgumas tendências comuns
que lhes permitiriam sintonizapse melhor com a realidade brasi»
na história da mitologia social para provar algumas teses. Mas leira contemporânea. Sem essa suposição, como podemos
também é verdadeiro que uma cuidadosa análise dos trabalhos expli»
publicados sobre relações raciais no Brasil mostrará que muitos quismo, por exemplo, durante o mesmo período? E óbvio que os
autores têm aceito uma ou mais dessas três interpretações. O uso intelectuais brasileiros aceitaram certas ideologias européias e
de uma ou mais delas tem levado a distorções das quais devemos deixaram outras de lado. A questão é saber por que eles selecio»
estar cientes para evitar suas ciladas. Elas são reducionistas, es-
naram idéias racistas, que enfatizavam a superioridade branca,
tabelecem falsas correlações e omitem importantes mediações. quando no Brasil apenas 40% da população, por volta de 1870,
Além disso, apesar de serem fundamentalmente diferentes, es~ podia ser oficialmente considerada branca e quando alguns mem-
sas três interpretações têm algo em comum: a suposição de que bros da elite não podiam estar seguros de sua "pureza" racial.
aqueles que escreveram e falaram sobre raça e preconceito es- Quando olhamos mais de perto o que esses intelectuais faziam
tavam interessados apenas ou principalmente em raça e pre»
com as idéias raciais européias, torna-se claro que eles não eram
conceito. Nós sabemos, entretanto, que muito freqüentemente passivos receptores de idéias produzidas no exterior, meras víti›
aquilo que parece ser o principal tema de uma
geração nada mas de uma mentalidade colonial
mais é do que uma metáfora para expressar outros interesses que procuravam ver sua reali-
dade através de idéias vindas do estrangeiro. Seria talvez mais
ou realidades. isso o que nos mostrou George Fredrickson correto dizer que eles viam aquelas idéias através de
sua realida«
em The Black Image in the White Mind” e Leonard Richards de. A elite branca brasileirajá tinha em sua própria sociedade os
em Gentleman of Property and Standing.” Mudanças nos pa-
elementos necessários para forjar sua ideologia racial. Tinha
drões familiares, no sistema político, nas formas de estratifi»
aprendidoçdesdeo periodo colonial a Ver os negros como inferio»
cação social e de autoridade geraram ansiedades e levaram
Os
res. Tinha também aprendido a abrir exceções para alguns indiví-
americanos a tornarem«se abolicionistas ou antiabolicionistas.
A lição é clara: para explicar as percepções dos padrões raciais
duos negros ou mulatos. Qualquer europeu ou americano que
postulasse a superioridade branca seria necessariamente bem re-
tem-se que olhar além dos estreitos quadros de referência das cebido. Ele traria a autoridade e o prestígio de uma cultura
relações raciais. rior para idéias já existentes no Brasil. Os brasileirosteriam
supe»
Apesar de serem limitadas e insuficientes, as três interpre' de fazer alguns ajustes. E os fizeram. Para formular o "problema
apenas
tações mencionadas têm algo de verdadeiro. Não há dúvida, por negro" em seus próprios termos, eles "descartaram duas das prin«
exemplo, de que os intelectuais brasileirosdo século XIX e dOS cipais suposições das teorias racistas européias: a natureza inata
das diferenças raciais e a degeneração dos sangues mestiços”.17
14 George Fredrickson, The Black Image in the White Mind: The Debate
15
on AfroamericanCharacter and Destiny. 18174914. New York,
19.71-
Leonard L. Richads, Gentleman ofProperty and Standing. Anti-abolition 16 Thomas Skidmore, Black into White, p.48, 53.
Mobs in Jacksonian America. New York, 1970. 17 Ibidem, p.77.
376 EMÍLIA VIOTTI DA COSTA
DA MONARQUIA A REPÚBLICA 377

°Assim, embora afirmando a superioridade dos brancos sobre os mais difícil e o confronto racial menos provável.” E também
negros, eles tinham meios para aceitar negros em seus grupos. E escusaria as classes superiores brancas de tomar providências
tinham a esperança de eliminar o "estigma" negro no futuro, atra› para
evitar a marginalizaçãoda maioria negra.” Mas isso não
vés da miscigenação. signifi»
ca dizer que ele tenha sido criado
expressamente pela elite bran-
Pode-se ver que a influênciadas idéias estrangeiras deve ser ca para cumprir essas funções. Não podemos inferir
levada em consideração na análise da ideologia racial brasileira. intenções e
finalidades de efeitos ou funções. Em outras palavras, devemos
Essa influência,entretanto, não pode explicar a ideologia racial distinguir as funções do mito de seus usos (manipulação expres»
e é ainda mais inadequada para explicar a origem e a destruição sa). Qualquer tentativa de negar o preconceito racial somente
do mito da democracia racial. Igualmente insuficiente é ainter- pode suscitar a suspeita de ser um ato de má›fé depois que o mito
pretação “realista". Seria correto dizer que a industrialização, a tiver sido identificado e desvendado.
urbanização e o desenvolvimento das relações capitalistas de É óbvio que os brancos beneficiaram-secom o mito. Mas tam-
produção criaram profundas deslocações na sociedade brasilei- bém é verdade que os negros beneficiaramseigualmente, embora
ra, como aconteceu em todas as partes. E seria possível argu- de uma maneira mais limitada e contraditória. A
negação do pre-
mentar, seguindo a análise de Van den Berghe em Race and conceito, a crença no "processo de branqueamento", a identifica»
Racism, que os padrões raciais_nobrasilnpassaram depuII1 ,mogle1o ção do mulato como uma categoria especial, a aceitação de
patemalista para um mçoldelotjornpetitivo À da acomodação ra- indivíduos negros entre as camadas da elite branca tornaram mais
cial para oscoafnttííãcial, de um sistema de relações raciais no difícil para os negros desenvolver um senso de identidade
como
qual o preconceito, embora presente, não era “necessário", para grupo. De outro modo, criaram oportunidades para alguns indiví»
um sistema no qual o preconceito "é necessário". 13 Mas até mes» duas negros ou mulatos ascenderem na escala social. Embora social›
mo admitindo que houve uma mudança objetiva nos padrões mente móveis, os negros tinham entretanto
que pagar um preço
raciais, ainda temos que explicar como o mito foi criado e por sua mobilidade: tinham que adotar a percepção que os bran»
destruído. Ainda devemos perguntar por que a geração de Gil» cos possuíam do problema racial e dos
próprios negros. Tmljiam
berto Freyre precisava crer na existência de uma democracia ra- qllãfinaingsiejrêmbrancos' Ei-'âmPegf9s 'Íespeciaisf', ffnegjÍ-Bs de
cial e por que tornou~se importante para a geração seguinte alma branca?” expressãolcorrfum empregada pelos brasileiros da
-

combater esse mito. As mudançasnos padrões das relações raciais classe superior branca sempre que se referiam aos seus amigos ne»
e na estrutura econômico-social apenas podem ser compreendi» gros. Se alguns deles estavam conscientes das sutis formas de
pre-
das como precondições para o desenvolvimento de uma distinta conceito e discriminação, fizeram questão de não mencionadas.
percepção do preconceito e do conflito racial. Esses indivíduos compartilharam com os brancos o mito da de-
mocracia racial. Para a sociedade em geral, eles serviram como
1 Igualmente insuficientes são aquelas interpretações que pos« um claro testemunho da realidade do
* tulam
o caráter manipulativo dos mitos sociais e que caracteri» mito, como uma evidência
tanto da ausênciade preconceito como das possibilidadesde
J t' zariam o mito da democracia racial como uma criação das classes mo-
bilidadesocial desfrutadas pelos negros no Brasil.
superiores brancas para disfarçar o preconceito e a discrimina-- Uma anedota sobre Machado de Assis ilustra bem o dilema
li
l ção. Não há dúvida de que o mito mascararia a real natureza das do mulato da classe superior no Brasil durante o século XIX
i relações raciais no Brasil e esconderia o preconceito e a discri› e,
espero, nos colocará no caminho para explicar a vida e a "mor-
a minação. Ele tornaria o desenvolvimento da consciência negra
I9 Thomas Skidmore, Black into White, p.218; Florestan
Fernandes, The
18 Pierre van den Negro in Brazilian Society, p.l36.
Berghe, Race and Racism, p.3Z. 20 Florestan Fernandes, op. cit., p.134, 138.
378 EMÍLIA VIOTTI DA COSTA DA MONARQUIA A REPÚBLICA 379

te" do mito da democracia racial no Brasil. Quando Machado çados ou envergonhados, por serem negros. Ele os trararia como
de Assis morreu, um de seus amigos, José Veríssimo, escreveu se fossem brancos.
um artigo em sua homenagem. Numa explosão de admiração Todos sabiam que Machado era um mulato, mas reconhecer
pelo homem de origens modestas e ancestrais negros que se tor- isso publicamente seria uma gañfe, uma ofensa a Machado. Essa se›
nara um dos maiores romancistas do século, Veríssimo violou ria também a opinião de Machado. Nabuco estava certo. Toda sua
uma convenção social e referiu-se a Machado como o mulato vida, Machado tinha sido perseguido por três pesadelos: seus ata»
Machado de Assis. Joaquim Nabuco, que leu o artigo, rapida- ques epiléticos, suas origens modestas e sua cor três fontes de
-

mente percebeu o fawopas e recomendou a supressão da pala- medo, ansiedade e vergonha. Ele pareceu ter-se resignado mais à
vra, insistindo que Machado não teria gostado dela. "Seu artigo sua epilepsia do que às suas origens e à sua cor. Visitava sua família
no jornal está belíssimo" escreveu a Veríssimo
-
“mas esta fra-
-
em horas em que não poderia ser visto. Desposou uma mulher bran»
se causou-me arrepio: “Mulato, foi de fato grego da melhor épo« ca. Manteve urna atitude discreta e reservada diante da abolição.
ca'. Eu não teria chamado o Machado de mulato e penso que romances, trabalhava com tragédias pessoais de indivíduos
nada lhe doeria mais do que essa síntese. Rogorlhe que tire isso brancos e raras vezes,e apenas marginalmente, referiu-se a escra›
quando reduzir os artigos a páginas permanentes. A palavra não vos ou a negros.” Jamais. enfrentou o problema da "negritude".
é literária e é pejorativa, basta veplhe a etimologia. O Machado Ãõcontrário, fez o 'Efiíê muitos outros negros de sua geração que
para mim era um branco e creio que por tal se tomava...".31 ascenderam a posições importantes fizeram. Viveu a ambigüidade
Essa história é reveladora das tensões sociais e raciais e das de sua situação e cumpriu conscientemente o papel que lhe era
formas de acomodação característicasda sociedade brasileiranos atribuído na comunidade dos brancos, da qual ele tinha se torna-
séculos XIX e XX. Nabuco era branco, de uma família de impor» do um membro. E não teria gostado de ser chamado de mulato -
r

tantes políticos, e ele mesmo foi uma destacada figura no Parla» uma expressão que revelaria a ficção de sua pessoa pública.
mento. Foi também o líder do movimento abolicionista na Câmara A atitude de Nabuco correspondia ao ideal cavalheiresco
dos Deputados e o autor do mais famoso libelo contra a escravi» cultivado pela elite branca. Ele conhecia e respeitava o protoco-
dão no Brasil.” Como muitos outros membrosda elite brasileira, lo, tal como o imperador que, ao ser avisado num baile da Corte
tinha negros e mulatos como Machado entre seus amigos.
- -
de que o engenheiro negro André Rebouças ainda não havia
Sabia o que se esperava dele, como uma pessoa branca, sempre dançado, solicitou à sua própria filha (a princesa Isabel) que
que se dirigisse a um negro ou a um mulato. Consideraria seus dançasse com ele.” Mas todo o paternalismodo imperador, todo
amigos negros como iguais, exprimindo de maneiras sutis que ele o respeito de Nabuco pela etiqueta social, todo o prestígio social
não tinha preconceito contra os negros uma forte convicção
-
de homens como Machado e Rebouças, todas as manifestações
que ele tinha não apenas a respeito dele próprio, como a respeito de igualdade dos membros da elite brasileira em suas relações
dos brasileirosbrancos em geral.” Evitaria cuidadosamente qual» com os negros todos esses cuidados e discrições não podiam
- -

quer situação que pudesse fazer que negros se sentissem embara» apagar definitivamente a existência do preconceito racial e da
discriminação racial na sociedade brasileira.Machado, cuja qua»
21 Revista do Livro, v.V, ano 11, p.164, março de 1957, cit. por Eduardo de
Oliveira e Oliveira, O mulato, um obstáculo epistemológico, Argumento, 24 O mais recente livro sobre Machado de Assis é o de Raymundo Faoro,
jul. 1974, p.70. Machado de Assis, a pirâmide e o trapézio. São Paulo, 1974. Ver também
22 Joaquim Nabuco, O abolicionismo. Londres, 1883. Sobre Nabuco, Ver Miécio Tati, O mundo de Machadode Assis. Rio de Janeiro, 1961; e Roberto
Carolina Nabuco, The life ofjoaquim Nabuco. Stanford, 1950, (ed. bras.: Schwarz, Ao Vencedor as batatas. São Paulo: Duas Cidades, 1977.
A Vida de joaquim Nabuco. São Paulo, 1929); Luís Viana Filho, A vida de 25 Sobre o imperador, ver Heitor Lyra, História de D. Pedro H. São Paulo,
joaquim Nabuco. São Paulo, 1952. 1938- 1940, 3V.; Mary Wilhelmine Williams, D. Pedro the Magnanimous.
23 Thomas Skidmore, Black into White, p.23. Chapel Hill, 1937.
380 EMÍLIA VIOTTI DA COSTA DA MONARQUIA A REPÚBLICA 381

lidade mais notável como escritor foi seu senso de ironia e que mulatos (a maioria da população) funcionavam
negros livres e
passou boa parte de sua vida como romancista revelando as con» v como a ciientelaçida elite branca. A mobilidade social não era
a..___._____- -.

tradições entre a imagem das pessoas e a oculta realidade de suas obtida por meio da competição direta no mercado mas por meio
km1...-

vidas, provavelmente teria sentido isso melhor do que seu ami-


,

de um sistema de patronagem no qual a palavra decisiva perten»


go branco. Nabuco, de sua posição de branco da classe superior, _
cia à elite branca. Segura de suas posições, controlando a mobi»
talvez estivesse mais esquecido de seus próprios preconceitos. -n. _ lidade social, imbuida de um conceito hierárquico de organização
a-
No fim das contas, ele não tinha entre seus amigos muitos mula- social” que santificava as desigualdades sociais e enfatizava as
tos ilustres? Como muitos outros brasileiros, entretanto, ele es» obrigações recíprocas, bem mais do que a liberdade pessoal e os
perava que a imigração européia trouxesse para os trópicos o direitos individuais -, a elite brasileira não temia a população de
"fluxo do vivo, vigoroso e sadio sangue caucasiano".25A mesma negros livres como faziam os norte›americanos. Os negros podiam
forma de ilusão e a mesma ambigüidade nas relações raciais tor- ascender na escala social apenas quando autorizados pela elite
nariam possível ao mulato Nina Rodrigues, o famoso antropó- branca. Dessa forma, o iesãravvgçráta brasileiro,que compartilha-
logo brasileiro da década de 1930, propagar idéias a respeito da va com os escravocratÃrsde todas as partes
os estereótipos nega»
inferioridade dos negros. tivos a respeito dos negros, nunca traduziu esses estereótipos em
Naturalmente, homens como Machado ou Nina Rodrigues “racismd”ou discriminação legal: Os escravocrataspodiam mês
foram e poderiam continuar a ser usados como evidências da mo violar as regras discriminatóriascontra os negros encarnadas
mobilidade social dos negros, da ausência de preconceito e de na tradição legal.” Podiam aceitar, de tempos em tempos, em
discriminação racial, uma série de crenças que constituíam o suas camadas, um mulato de pele clara que, como Machado,
âmago daquilo que a geração dos anos 60 chamou o mito da automaticamente adquiria o status de branco.” Os negros que
democracia racial. O mito nada mais foi do que a formalização ocupavam uma posição de classe superior identificavam a si mes»
num nivel teórico de experiências vividas
por brancos como mos como membros da comunidade branca. Eles representavam
Nabuco e por negros como Machado. A chave para a compreen~
são do padrão racial, do processo de formalização do mito e de
sua critica pode ser encontrada no sistema de clientela e 28 Richard Morse, The heritage of Latin America. In: Políticas and social
patronagem e no seu desmoronamento. change in Latin America: the distinct tradition. Howard Wiarda (Ed.)
Amheherst, Massachusetts, 1974, p.Z5, 70.
A

Desde o periodo colonial, o monopólio dos meios de produ»


29 Charles Boxer, The Golden Age ofBrazil. 16954750, Berkeley, 1969, p.166
ção pela minoria branca (fazendeiros, comerciantes, burocratas) (trad. bras.: A Idade de Ouro no Brasil. São Paulo, 1959). Idem, Race
e aslimitadas oportunidades de participação econômica, políti« Relations in the Portuguese Colonial Empire. 14164825. Oxford, 1963,
ca e social das massas criaram as bases de _urrrsisterrradge cliente- p.1 17.
la e patronagem.” No interior desse sistema, brancos pobres, 30 Sobre o mulato na sociedade brasileira, ver Carl Degler, NeitherBlacknor
W/hite: slave and race relations in Brasil and the United States. New
York, 1970 ( trad. bras.: Nem preto nem branco. Escravidão e relações raciais
26 Thomas Skidmore, Black into White, p.24. no Brasil e nos EUA. São Paulo, 1976). Para um ponto de vista diferente,
27 Sobre o sistema de clientela e patronagem: Victor Nunes Leal, Coroneiismo ver o comentário ao livro de Degler feito por Eduardo de Oliveira e Oli›
enxada e voto. Rio de Janeiro 1948 (nova ed.: São Paulo, 1975); Raymundo veira, O mulato, um obstáculo epistemológico, Argumento, junho, 1974.
Faoro, Os donos do poder. Porto Alegre, 1959 (2.ed., São Paulo, 1975, Para uma análisedas maneiras através das quais o mulato aceita a ideolo-
2V. ); Maria Isaura Pereirade Queiroz, Omandonismofocal na vida politica gia dos brancos, ver A. PretonRodas, Negritude as A Theme in the Poetry
brasileira. São Paulo, 1969; idem, O coronelismo numa interpretação so- of the Portuguese Speaking World. University of Florida Humanities
ciológica. In: HistóriaGeral da CivilizaçãoBrasileira, tomo 8, III, O Brasil Monograph, n.31, Gainesville, Flórida, 1970; Roger Bastide, A poesia
Republicano, v.1, p.175, 190. São Paulo, 1975; Marcos Vilaça, Roberto año-brasileira. São Paulo, 1943; idem, A imprensa negra no Estado de
Cavalcanti e Albuquerque, Coronel coronéis. Rio de Janeiro, 1965. São Paulo. ln: Estudos Año-brasileiros. São Paulo, 1973, p.I29, 150.
382 EMÍLIA VIOTTI DA COSTA DA MONARQUIA A REPÚBLICA 383

um modelo para a maioria dos negros que permaneciam nos po» bém durante esse período que uma série de levantes e conspirações
rões da sociedade. O fato de que alguns negros tinham aparente- envolvendomilitares,setores da classe média e trabalhadores amea›
mente se livrado de seu "estigma" e ingressado na comunidade
çou a ordem política, culminando numa revolução em 1930, que
branca induzia os negros e brancos a verem a privação em que colocou um fim à hegemonia política das oligarquias tradicionais.”
vivia a maioria dos negros como uma conseqüência mais de dife- A geração de Gilberto Freyre foi surpreendida por esse pro«
renças de classes do que de diferençasraciais, ou mais da inferio- cesso de rápidas mudanças. Seus representantes viram o cresci»
ridade dos negros do que da discriminação por parte dos brancos. mento das novas usinas que substituíam os tradicionais engenhos
De outro modo, os negros e os brancos das classes mais inferio~ de açúcar. Observaram um grande número de outras indústrias
res, igualmente dependentes do patemalismo da elite branca, sendo construídas no sul. Descobriram um novo problema social:
podiam Viver na ilusão de solidariedade criada pela pobreza com› a classe operária** Viram os filhos de imigrantes tornarem-se
partilhada, pelo desamparo comum e pela dependência em rela- empresários e os membros da "aristocracia" tradicional ocupa«
ção à elite branca. rem posições insignificantes.” Confrontaram um novo estilo de
Após a Independência, com a criação das formas representa» vida e de política e não ficaram muito satisfeitos com o que vi»
tivas de governo, a necessidade de a elite controlar o eleitorado ram. O cenário alterowse mais rapidamente no Sul do que no
deu nova força ao sistema de clientela e patronagem. A relativa Nordeste, mas a mudança podia ser sentida por toda parte. Na
expansão do mercado internacionale a abertura de novas carrei› década de 1920, quando os intelectuais paulistas organizaram a
ras na burocracia, no direito, no jornalismo e na engenharia tive› "Semana de Arte Moderna" e assinaram um Manifesto Modemis»
ram o mesmo efeito. A expansão, entretanto, foi limitada e ta,35 GilbertoFreyre e seus amigos responderam com o Manifesto
continuou sendo possível à elite manter as tradicionais formas de
controle sobre o processo de mobilidade social. No século XX,
Regionalista,37 que enfatizava a tradição. Os paulistas (a versão
brasileirado Yankee) aparentavam estar comprometidos com o
entretanto, com o incremento da urbanização, o crescimento da
progresso; aparentavam ter zombado de suas tradições, rompido
população (a população brasileira aumentou de 14 milhões para com o passado. GilbertoFreyre escreveria a epopéia de Casa gran~
mais de uma centena de milhões desde 1890) e a relativa distri-
de e senzala. Revelaria a tradição senhorial de uma maneira sim'
buição da riqueza, tornou-se difícilpara a elite tradicional conser- pática. Engajapse-ia numa "proustiana" busca do tempo
var sua posição. Houve divisões no interior da elite. Setores
perdido.” Mostraria ao Yankee brasileiro e ao Yankee real os as»
“progressistas” opuseram›se a grupos tradicionais. As emergentes
classes médiasurbanas tiveram uma chance de escolher entre per»
manecer como clientela das oligarquias tradicionais ou seguir os 33 Boris Fausto, Pequenos ensaios de História da República. 1889-1945,
novos grupos. Puderam até mesmo sonhar com o desenvolvimeny Cadernos CEBRAP, n.10, s. d.
to de uma visão do mundo autônomae de uma ação política inde» 34 Rui Barbosa, A questão social e política no Brasil. Rio de Janeiro, 1958.
35 Bastante expressivos dessas inquietações são os romances de José Lins do
pendente.” Nos anos 20, pela primeira vez a palavra oligarquia foi *

Rego pertencentes ao "ciclo da cana-de-açúcar".


usada criticamente em análises da sociedade brasileira.”Foi tam¡ 36 Sobre o modernismo, Wilson Martins, 'lhemodemistidea. New York, 1970;
John Nist, The modemist movement in Brazil. Austin, 1967; Mário da Sil-
va Brito, Históriado modernismo brasileiro, v.l: Antecedentes da Semana
31 Edgard Garone, A República velha. Evolução política. São Paulo, 1971; de Arte Moderna. 28.ed. Rio de Janeiro, 1964; Afrânio Coutinho, An
idem, A República Velha. Instituições e classes sociais. São Paulo, 19708; introduction to literature in Brazil. New York, 1969.
Décio Azevedo Marques de Saes, O civilismoe as camadas médias urba- 37 José Aderaldo Castello, josé Lins do Rego: modernismo e regionalismo.
nas na Primeira República Brasileira. 1889-1930, Cadernos da Universr? São Paulo, 1961; GilbertoFreyre, Região e tradição. Rio de Janeiro, 1941.
dade Estadual de Campinas, IFCH, n.1, s. d. 38 GilbertoFreyre, The Masters and the Sia ves: a Study in the Development
32 Emília Viotti da Costa, Sobre as origens da República. Anais do Museu of BrazilianCivilization.New York, 1946, ed. abreviada, 1964. p. 11 (ed.
Paulista, v.18, São Paulo, 1964, .p.76«7. Ver capítulo 9 deste livro. '

bras.: Casa grande e Senzala. Rio de Janeiro, 1933).


384 EMÍLIA VIOTTI DA COSTA DA MONARQUIA A REPÚBLICA 335

pectos positivos de sua tradição. Nada parecia mais oportuno do das relações raciais".4° Argumentou que era importante destruir
que falar a respeito da democracia racial brasileira,especialmente as falsas imagens sociais, pois "os mitos dominantes numa sociedaa
num momento em que negros organizavam uma Frente Negra desceram sempre aqueles que ajudariam a manter a predominante
para lutar pela melhoria de suas .condições de vida.” estrutura de interesses econômicocomerciais e de convenções
O problema era que, com a gradual derrocada do sistema de sociais". E finalmente expressou sua convicção de que os novos
clientela e patronagem e com o desenvolvimento de um sistema estudos sobre raça, adotando uma nova perspectiva, constituíam
competitivo, tornava-se mais difícilpara negros e brancos evitar “umaimportante contribuição para o desenvolvimento da demo«
situações em que o preconceito e a discriminação tomar›se›iam cracia no Brasil".41 Ianni deu ênfase à sua confiançanos métodos
visíveis. Se a manifestação de preconceito era basicamente in- científicos como técnicas para desenvolver um conhecimento ra›
compatível com o velho sistema de clientela e patronagem, numa cional da realidade social. E prognosticou que eles teriam um im-
sociedade competitiva ela transformava-se num instrumento portante papel a cumprir na criação das condições para o progresso
natural usado pelos brancos contra os negros. Os brancos toma- social e, conseqüentemente, na destruição dos mitos que, em suas
ram›se mais conscientes de suas atitudes preconceituosas, uma palavras, "eram valiosos apenas para os grupos dominantes numa
vez que tinham que confrontar os negros em lugares que eles sociedade agrário›exportadora",43 uma opinião que ele comparti-
raramente freqüentavam antes (clubes, teatros, universidades e lhava com Florestan Fernandes, o principal estudioso das relações
hotéis da classe superior) ou em momentos em que tinham que raciais no Brasil.
tratar, face a face, com um negro "agressivo", "arrogante", que Os revisionistas eram produtos da Universidade de São Paulo
não cumpria seu papel de acordo com as expectativas tradicio- e de outras instituições análogas, que tinham sido criadas nos
nais de humildade e subserviência. Os próprios negros constata» anos 30 com a finalidade de formar a nova elite de profissionais

quando tiveram que competir por empregos e posições no e burocratas relativamente independentes das oligarquias tradi-
ram,
mercado de trabalho, sem o amparo de um patrão branco, que cionais. Muitos dos cientistas sociais treinados nessas novas ins»
estavam submetidos à discriminação. tituições tinham saídoda classe média e alguns poucos de famílias
Os cientistas sociais dos anos 60, entretanto, não estavam da classe inferior. Alguns eram mulatos, mas não sentiam o mes-
respondendo apenas a essas novas realidades. Havia mais opor- mo embaraço de Machado quando falavam a respeito de suas
tunidades para a percepção do preconceito e da discriminação origens modestas. Não depend iam do tradicionalsistema de clien-
do que antes; mas não foi porque ele se tornou mais óbvio que os tela e patronato. Adquiriram seu status mediante sua afiliação
cientistas sociais alvejaram o mito da democracia racial com a com as novas instituições. Seu público também era diferente.

mira da crítica. O ataque ao mito, de fato, proveio da luta poli» 00H10 parte do processo de criação de uma nova elite cultural, o
tica contra as oligarquias tradicionais, luta essa que atingiu seu ensino universitário tinha sido democratizado. Cursos noturnos
1niciaram«se em 1946, imediatamente após a queda de Vargas.
clímax nos anos 60. A denúncia das "mitologias" tradicionais só
pode ser compreendida nesse contexto. Os novos estudantes, como seus professores, representavam um
Os intelectuais, é claro, tinham sua maneira de explicar o HOVO estrato social e também estavam prontos para participar
da crítica aos mitos tradicionais.”
que estavam tentando fazer. Octávio lanni, uma das importam»
tes figuras entre os revisionistas, explicou que o que os motiva-
va era a crença em que, de algum modo, o “avanço da civilização
40 Octávio lanni, Research on race relations in Brazil. ln: Magnus Morger
brasileiradepende do estudo científicoda natureza e da direção Race and class in Latin America. p.257.
41 lbidem, p.258.
42 Ibidem, p.22.
39 Florestan Fernandes, The Negro in Brazilian Society, p.189, 233. 43 Ver Octávio lanni, Sociologia e sociedade no Brasil. São Paulo, 1975, p.22.
386 EMÍLIA VIOTTI DA COSTA

Combater mitos que ainda estão vivos na sociedade é sem-


pre uma tarefa difícil e perigosa. No Brasil, o mito da democra-
cia racial não está completamente morto. Embora profundamente
enfraquecido nos centros urbanos, o sistema de clientela e
patronagem ainda sobrevive no Brasil-quase intacto, como em
algumas regiões do interior, ou remodelado para ajustar-se à so»
ciedade moderna. Isso explica por que ainda hoje é difícil, no
Brasil, organizar um bemsucedido movimento negro. Também
explica, pelo menos em parte, por que os professores Ianni e CAPÍTULO 1o
Fernandes, como muitos outros que consideravam como sua a SOBRE AS ORIGENS DA REPÚBLICA1
tarefa de destruir os mitos tradicionais que inibiam o processo
de democratização da sociedade brasileira, foram forçados a se
retirar da Universidade de São Paulo em 1969.

A versão dos contemporâneos


Uma das tarefas mais difíceis do ofício de historiador é a
crítica dos testemunhos. Ao descrever o momento que estão vi»
vendo, os homens traçam freqüentemente uma imagem superfi»
cial e deformada dos fatos. O grau de comprometimento do
observador, a qualidade e a quantidade das informações de que
dispõe sua maior ou menor capacidade de análise, a maneira
pela qual se deixa empolgar por paixões e sentimentos refletem»
se no seu depoimento. regra elementar da pesquisa histórica
submeter a documentação a uma crítica rigorosa e, no entanto,
essa regra tão elementar é extremamente difícilde ser
posta em
prática e, principalmente, ser
de bem›sucedida quando se trata
de criticar o depoimento testemunhal. A dificuldade é maior
quando se estudam as reformas políticas, econômicas ou sociais

l
e os processos revolucionários. Os temas que provocam contro»
vérsias, que envolvem posições opostas, as situações históricas
que produzem vencedores e vencidos dão origem a uma docu-
mentação testemunhal contraditória.Cada grupo explica a rea»

1 Originalmentepublicado nos Anais do Museu Paulista, São Paulo, XVIII,


1964.

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