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UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS

CURSO DE LETRAS
LITERATURA AMAZONENSE
PROFESSOR CARLOS GUEDELHA

A ESTACA ZERO DA LITERATURA AMAZONENSE

Sempre que buscamos alguma referência sobre o primeiro documento histórico escrito
em terras brasileiras, chegamos sempre ao mesmo destino: a “Carta” de Pero Vaz de Caminha.
É o texto que descreve os primeiros contatos dos europeus com os habitantes nativos da terra
que, posteriormente, viria a ser chamada de Brasil.
Como a Literatura, em muitos pontos de sua trajetória, acompanha o fluxo da História,
não raro tem suas referências nas mesmas referências históricas. Assim é que a Literatura no
Brasil tem também como sua primeira manifestação a referida Carta. Depois dela, muitos
outros textos seriam lavrados ao longo da história, sob os mais variados estilos, focalizando
diferentes temas e defendendo os mais variados interesses.
E a literatura produzida no Amazonas, qual vem a ser o seu marco referencial? Os
pesquisadores que já se debruçaram sobre a questão são unânimes em apontar – assim como
no caso da Literatura Brasileira – o mesmo texto: a “Relação” do Frei Gaspar de Carvajal, a
qual o historiador Mário Ypiranga Monteiro (1977) assegura ser a estaca zero da literatura
amazonense.

O RELATO DO FREI GASPAR DE CARVAJAL

Mas quem foi o tal Carvajal, e o que contém a sua aludida “Relação”?
Bem, falemos primeiro sobre Carvajal. Gaspar de Carvajal era um frade dominicano
que atuava como capelão de uma expedição chefiada pelo capitão espanhol Francisco de
Orellana, que foi a primeira a percorrer o rio Amazonas. Essa expedição de Orellana havia se
desmembrado de uma outra, chefiada pelo então governador do Peru, Francisco Pizarro. O
início da expedição de Pizarro se deu em 1539 e o destino era como um tiro no escuro:
estavam à procura do País da Canela e do El Dorado, que imaginavam existir a leste de Quito.
O que motivava essa procura era a sede de riqueza, de muito ouro, e da fonte da eterna
juventude. Não encontrando a riqueza imaginada, muito menos a eterna juventude,
encontraram, sim, doenças, pragas e fome. Aliás, foi a fome que obrigou a comitiva a se
dividir, tendo o capitão Orellana assumido o comando de uma outra expedição em busca de
comida. Assim desceu o rio Napo e chegou ao Marañon, que viria posteriormente a receber o
nome de Amazonas.
Acompanhando Orellana, o capelão Carvajal atuava também como escrivão,
registrando os acontecidos da viagem. E coube a ele ser o autor do primeiro texto escrito na
região conhecida hoje como Amazônia. Trata-se de um relato bastante pitoresco, de caráter
informativo, que mostra os europeus envolvidos em várias peripécias, às voltas com índios e
lutando contra a fome. E a fome era tanta que comiam os sapatos, os cintos e tantos outros
utensílios menos palatáveis que, em situação normal, jamais constariam entre gêneros
comestíveis. Cozinhavam essas coisas misturadas com ervas e digeriam. Diz o cronista que a
fraqueza era tal que não conseguiam sequer ficar em pé. Uns deliravam, outros desmaiavam, e
cada vez mais a comida parecia uma miragem distante. Em dado momento, o padre chegou a
encomendar a sua alma e as dos companheiros a Deus, ficando apenas a esperar a chegada da
morte. Mas parece que de fome ninguém morreu. Quando encontraram a primeira aldeia,
invadiram-na, já que os índios estavam ausentes. Esbaldaram-se, sempre com um olho no
“prato” e outro nos índios, que a qualquer momento poderiam aparecer e estragar a digestão
do grupo.
A obsessão por comida é uma constante ao longo de toda a narrativa de Carvajal. E
como as margens do rio Amazonas, segundo o próprio relato, eram povoadíssimas, quase
todas as aldeias encontradas eram invadidas, seus habitantes expulsos a toque de arcabuz, e os
navegantes se apossavam da moradia, dos pertences e do alimento que por ali houvesse.
Interessante notar que o cronista narra essas invasões como sendo algo muito natural, em
momento algum deixando para o leitor a ideia de que faziam uma coisa errada. Povoado
tomado aqui, aldeia invadida ali, índios assassinados mais adiante, assim a expedição
avançava.
Na semântica de Carvajal, o verbo “matar” tinha mão única. Ao contabilizar os índios
assassinados pelos arcabuzes de Orellana, o padre jamais usa esse verbo. Ou seja, ele usa, no
lugar do verbo “matar”, a expressão “causar dano”: “causamos muitos danos a eles”;
“causamos dano à vida de três índios”, etc. Mas quando algum branco tomba pelas flechas

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indígenas, aí o verbo “matar” aparece com todas as letras. “Os índios mataram um dos nossos
homens...” Significa dizer que os índios matavam e os europeus causavam dano. Na verdade,
um morticínio formidável acontecia cada vez que se dava um dos numerosos confrontos ao
longo do rio. As baixas entre os brancos foram mínimas, mas entre os índios eram massacres e
mais massacres. Num desses confrontos, Carvajal teve um olho varado por uma flecha que
atravessou toda a sua cabeça. Consequentemente, é óbvio, ficou caolho.
Diversos rios afluentes do Amazonas vão surgindo à medida que a expedição avança.
Entre eles estão o Madeira, o Negro, o Nhamundá, o Tapajós, Purus, etc.
Para muitos analistas, a narrativa apresenta um tom fantasioso, chegando a ser até
delirante. Mas há outros que optam pela aceitação da veracidade dos fatos narrados. O fato é
que Carvajal frequentemente advoga a idoneidade de seu relato, evocando Deus para
testemunha em vários pontos do texto. Insiste que, se não fosse verdade o que estava
contando, não teria coragem de contar. Reitera que tudo foi presenciado pelos demais
companheiros, os quais poderiam atestar a veracidade dos fatos. Afirma, não raro, que só
escapavam com vida de determinadas situações porque Deus estava no comando daquela
expedição. E isso acontecia porque “tanto o Capitão como todos companheiros tinham tanta
clemência e espírito de santidade de devoção em Jesus cristo e sua sagrada fé, que bem
mostrou Nosso Senhor que era sua vontade o socorrer-nos” (p. 34).
É com esse relato de Carvajal que nasce a lenda das amazonas na região. Melhor
dizendo: lenda para muitos; história verídica para outros tantos. Alguns índios já haviam
advertido Orellana sobre o perigo de se envolverem em conflito com as mulheres guerreiras. A
comunicação com esses índios era perfeita porque o Capitão falava fluentemente a língua
deles. Um que havia sido aprisionado no bergantim, foi interpelado por Orellana a respeito das
amazonas, quem eram elas, quais os seus hábitos, etc. A seguir, adaptei para o discurso direto
a “conversa” ocorrida entre os dois:

ORELLANA: Quem são aquelas mulheres que vieram ajudar vocês e nos fazer guerra?
ÍNDIO: São umas mulheres que residem no interior, a sete jornadas da costa, e por
Couynco seu súdito, vieram guardar a costa.
ORELLANA: Elas são casadas?
ÍNDIO: Não.
ORELLANA: De que modo vivem?
ÍNDIO: Moram no interior. Eu já estive lá várias vezes e vi o seu trato e residências,
pois como seu vassalo ia levar o tributo, quando o senhor o mandava.

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ORELLANA: São muitas?
ÍNDIO: Sim. Eu sei pelo nome setenta aldeias, e já estive em algumas delas.
ORELLANA: Essas aldeias são de palha?
ÍNDIO: Não. São de pedras, e com portas. De uma aldeia a outra vão caminhos
cercados de um e outro lado e de distância em distância com guardas, para que ninguém possa
entrar sem pagar direitos.
ORELLANA: Elas parem?
ÍNDIO: Sim.
ORELLANA: Não sendo casadas, nem residindo homens com elas, como emprenham?
ÍNDIO: Estas índias coabitam com índios de tempos em tempos, e quando tem aquele
desejo, juntam grande porção de gente de guerra e vão fazer guerra a um grande senhor que
reside e tem a sua terra junto às terras delas, e os tem consigo o tempo que lhes agrada, e
depois que se acham prenhas mandam eles de volta para sua terra, sem fazer mal a eles; e
depois, quando vem o tempo de parir, se têm filho o matam e o mandam ao pai; se é filha, a
criam com grande solenidade e a educam nas coisas de guerra.
ORELLANA: Elas são comandadas por quem?
ÍNDIO: Entre essas mulheres há uma senhora que domina e tem todas as demais
debaixo de sua mão e de sua lei. Ela se chama Conhorí.
ORELLANA: Há riquezas lá?
ÍNDIO: Lá tem muita riqueza de ouro e prata, e todas as senhoras principais e de
maneira possuem um serviço todo de ouro ou prata. As mulheres pobres se servem em
vasilhames de pau, exceto as que vão ao fogo, que são de barro.
ORELLANA: têm religião?
ÍNDIO: Na capital e principal cidade, onde reside a senhora, há cinco casas muito
grandes, que são adoratórios e casas dedicadas ao sol, as quais são por elas chamadas Canaraí.
Essas casas são assoalhadas no solo e até meia altura. Os tetos são forrados de pinturas de
várias cores. Nessas casas tem ídolos de ouro e prata em forma de mulher, e muitos objetos de
ouro e prata para a adoração do sol.
ORELLANA: Como se trajam?
ÍNDIO: Andam vestidas de luxuosas roupas de lã, porque lá tem muitas ovelhas do
Peru. Seu trajar é formado por umas mantas apertadas dos peitos para baixo, o busto
descoberto, e um como manto amarrado por uns cordões. Trazem os cabelos soltos até o chão
e tem na cabeça coroas de ouro, da largura de dois dedos.
ORELLANA: Tem animais lá?
ÍNDIO: Lá tem camelos que carregam a gente e tem animais grandes com pêlos e com
patas fendidas. Tem poucos deles, que vivem amarrados tem duas lagoas de água salgada que
elas usam pra fazer sal. Tem uma ordem que quando chega o pôr do sol não pode ficar
nenhum índio macho em nenhuma das cidades. Tem que ir se embora pra suas terras. Elas
mandam em muitas povoações de índios vizinhos. Elas obrigam eles pagarem tributo e
servirem a elas. E tem outros povoados que elas atacam de vez em quando, fazendo guerra. (p.
65-6, adaptado)

Corria o ano de 1542, o mês era junho, e a expedição de Orellana aproximava-se da


foz do rio Nhamundá, pelo grande rio, que até então tinha sido batizado como Rio de Orellana.
Foi então que alguns dos homens da expedição, aproximando-se da margem à procura de

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alimento, foram atacados por uma “patrulha” de mulheres guerreiras que lutavam de forma
surpreendente, desferindo impiedosas flechas sobre a comitiva. No confronto, algumas
mulheres morreram, mas as que restaram produziram estragos consideráveis. Veja um trecho
do relato:
Íamos desta maneira caminhando e procurando um lugar aprazível para folgar
a celebrar a festa do bem-aventurado São João Batista, precursor de Cristo, e
foi servido Deus que, dobrando uma ponta que o rio fazia, víssemos alvejando
muitas e grandes aldeias ribeirinhas. Aqui demos de chofre na boa terra e
senhorio das amazonas. (...) Começaram os espanhóis, arcabuzeiros e
balestreiros, atirando aos indígenas que lutavam como bichos bravios. Quero
que saibam qual o motivo de se defenderem os índios de tal maneira. Hão de
saber que estes são súditos e tributários das amazonas, e conhecida a nossa
vinda, foram pedir-lhes socorro e vieram dez ou doze. A estas nós as vimos,
que andavam combatendo diante de todos os índios como capitãs, e lutavam
tão corajosamente que os índios não ousavam mostrar as espáduas, e ao que
fugia diante de nós o matavam a pauladas. Eis a razão por que os índios tanto
se defendiam. Estas mulheres são muito alvas e altas, com o cabelo muito
comprido, entrançado e enrolado na cabeça. São muito membrudas e andam
nuas em pêlo, tapadas as suas vergonhas, com os seus arcos e flechas nas
mãos, fazendo tanta guerra como dez índios. E em verdade houve uma destas
mulheres que meteu um palmo de flecha por um dos bergantins, e as outras um
pouco menos, de modo que os nossos bergantins pareciam porco-espinho.”
(...) Os espanhóis, dirigidos por Francisco de Orellana, mataram umas
sete ou oito amazonas, afracando a resistência indígena. Desceram os brancos
o rio, levando um prisioneiro que narrou as notícias surpreendentes, quando
interrogado pelo capitão. As mulheres residiam no interior, a sete jornadas da
costa. Eram sem marido. Dividiam-se, numerosas, em setenta aldeamentos de
pedras, com portas, ligadas às povoações por estradas amparadas, dum e
doutro lado, com cercas exigindo pedágio aos transeuntes. Quando lhes vinha
o desejo, faziam guerra a um chefe vizinho e trazendo prisioneiros, que
libertavam depois de algum tempo de coabitação. As crianças masculinas eram
mortas e enviadas aos pais e as meninas criadas nas coisas da guerra. A rainha
se chamava Conhori. Há riqueza imensa de ouro, prata, serviços domésticos
em ouro para as fidalgas e de pau para as plebéias. Na cidade principal havia
cinco casas grandes, com adoratórios dedicados ao sol. As casas de devoção
são os Caranai. Tem assoalho no solo e até meia altura, os tetos forrados de
pinturas coloridas. Nesses templos estão ídolos de ouro e de prata em figuras
femininas e muitos objetos preciosos para o serviço do sol. Vestem finíssima
lã de ovelha do Peru. Usam mantas apertadas, dos peitos para baixo, o busto
descoberto, e um como manto, atado adiante com uns cordões. Trazem cabelos
soltos até o chão e na cabeça coroas de ouro, da largura de dois dedos.
(Carvajal, in: CASCUDO, 1988)

A narrativa de Carvajal é uma evidente adaptação da lenda grega das amazonas à terra
em que estavam pisando. Isso mesmo: a lenda das amazonas já existia lá na Grécia, e vamos
apresentá-la a seguir, para que você possa identificar os pontos de contato.

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Pierre Grimal, em seu Dicionário de mitologia grega e romana, conta que As
amazonas são um povo de mulheres que descendem do deus da Guerra, Ares (Marte), e da
ninfa Harmonia. O seu reino é localizado ao Norte, quer sobre as cordilheiras do Cáucaso,
quer na Trácia, quer na Cítia Meridional (nas planícies da margem esquerda do Danúbio). Elas
governam-se a si próprias, sem recorrerem a nenhum homem. À sua frente está uma rainha.
Não toleram a presença dos homens, a não ser em trabalhos servis. Acredita-se que mutilavam
os filhos do sexo masculino quando nasciam, cegando-os ou tornando-os coxos. Outros
contam que elas se uniam, de vez em quando, a estrangeiros, para perpetuar a raça, mas só
conservavam vivas as crianças do sexo feminino, a quem amputavam um seio, para que não se
embaraçassem na prática do arco ou no manejo da lança – daí o seu nome, amazona, cuja
tradução literal do grego é “sem seio”.
Sua paixão era a guerra. Várias lendas narram os combates sustentados pelos heróis
gregos contra essas estrangeiras. Num desses casos, Heracles recebeu de Eristeu o encargo de
se dirigir às margens do Termodonte, na Capadócia, e aí se apoderar do cinto de Hipólita, a
rainha das amazonas. Hipólita teria consentido facilmente em dar o seu cinto a Héracles, mas
Hera, com inveja do herói, suscitou um motim entre as amazonas e Héracles teve de matar
Hipólita e retirar-se debaixo de furioso combate. Nessa expedição, Héracles estava
acompanhado de Teseu. Este raptou uma amazona, de nome Antíopa. Para vingar esse rapto,
as amazonas marcharam sobre Atenas, e o combate travou-se dentro da própria cidade. As
amazonas acamparam na colina que mais tarde recebeu o nome de Areópago (colina de Ares).
Conta-se ainda que elas tiveram uma outra rainha, chamada Pentesileia. Elas adoravam
a deusa da caça, Ártemis (Diana), cuja lenda muitos pontos comuns com a história das
amazonas, guerreiras e caçadoras.
Motivado por esse encontro malfadado com as pretensas amazonas, Orellana, que já
havia batizado o grande rio com o seu próprio nome, rebatiza-o agora com outro nome: Rio
das amazonas, que algum tempo depois seria apenas Rio Amazonas, nome que também seria
dado ao estado no futuro – Estado do Amazonas. O nome das guerreiras é a matriz do nome da
própria Amazônia, região onde o atual estado do Amazonas está situado.

REFRÊNCIAS

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CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 6ª ed. São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 1988. pp. 45-6.

GONDIM, Neide. A invenção da Amazônia. São Paulo: Marco Zero, 1994.

MONTEIRO, Mário Ypiranga. Fases da literatura amazonense. Manaus: Imprensa Oficial,


1977.

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