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Bert Hellinger

OLHANDO PARA A ALMA


DAS CRIANÇAS

A Pedagogia Hellinger® ao vivo

Tradução
Daniel Mesquita de Campos Rosa
Tsuyuko Jinno-Spelter

Revisão técnica
Tsuyuko Jinno-Spelter

Conforme revisão ortográfica de 2009

Belo Horizonte – MG

2015
Este livro simplesmente conta histórias que são retiradas da vida em
sua totalidade.
São histórias de crianças que descobrem em suas almas um tesouro
escondido: um tesouro que as torna felizes, assim como a seus pais.
Hellinger traz à luz esses tesouros, de forma direta e sem desvios,
para que as crianças e seus pais aprendam com eles.
Muitas dessas histórias podem ser lidas como contos de fadas e,
mesmo assim, são verdadeiras, verdadeiramente libertadoras para
muitos.
Cada história é autônoma. Cada uma delas nos leva a um tesouro
oculto, em uma profundeza oculta.
É na história que o tesouro é trazido à luz, a uma luz libertadora.

BERT HELLINGER

Título do original alemão


Kindern in die Seele schauen
Hellinger Publications 2013 - Copyright by Bert Hellinger
Printed in Germany
1 a edição - 2013
Todos os direitos para a língua portuguesa reservados. Nenhuma parte deste livro pode
ser reproduzida ou usada de qualquer forma ou por qualquer meio (eletrônico, mecânico,
inclusive fotocópias, gravações ou sistema de armazenamento em banco de dados) sem
permissão escrita do detentor do "Copyright", exceto no caso de textos curtos pcra fins
de citação ou crítica literária.
I a Edição - 2015
ISBN 978-85-98540-78-8
Direitos de tradução para a língua portuguesa adquiridos com exclusividade pela:
EDITORA ATMAN Ltda.
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MG
Tel.: (31) 2516-2527 - http://www.atmaneditora.com.br
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que se reserva a propriedade literária desta tradução.
Coordenação editorial: Tsuyuko Jinno-Spelter
Revisão: Tsuyuko Jinno-Spelter
Revisão ortográfica: Gisele Freitas de Aguiar
Designer de capa: Alessandra Duarte
Diagramação: Virtual Diagramação
Depósito legal na Biblioteca Nacional, conforme o decreto no 10.994,
de 14 de dezembro de 2004.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
H 477 o Hellinger, Bert.
Olhando para a alma das crianças / Bert Hellinger; tradução de Daniel Mesquita de
Campos Rosa, Tsuyuko Jinno-Spelter. Belo Horizonte: Atman, 2015. p. il. 288
ISBN: 978-85-98540-78-8
1. Psicologia Infantil. 2. Felicidade. I. Rosa, Daniel Mesquita de Campos (Trad.). II.
Jinno-Spelter, Tsuyuko (Trad.). III. Título.
• 618.928 9
Catalogação na fonte Carolina Simões Barbosa CRB6-2110
Pedidos:
www.atmaneditora.com.br
comercial@atmaneditora.com.br
Este livro foi impresso com:
Capa: supremo LD 250 g/m 2
Miolo: offset LD 75 g/m 2
I NTRODUÇÃO
Este livro conta histórias: histórias reais. Podemos lê-las como histórias,
através das quais olhamos para nossa alma: para nossa alma como crianças
e para a alma de nossos filhos. Podemos até lê-las para nossos filhos, mas
sempre apenas uma. Crianças mais velhas podem lê-las sozinhas e, com a
sua ajuda, compreender a própria alma de uma maneira que às permite
respirar aliviadas. Finalmente, encontram uma saída para si. E nós
encontramos uma saída para nós mesmos e para nossos filhos.
Como ler este livro? Talvez de uma forma libertadora, para além de nossos
medos com relação a estarmos, nós e nossos filhos, no caminho certo.
Olhamos para a nossa alma e respiramos aliviados. O que acontece quando
nos entregamos a estas histórias e nos deixamos levar por elas?
Compreendemos que todas as crianças são boas, assim como nós, contanto
que olhemos para a nossa alma com amor.

A AJUDA QUE DEMANDA


Trechos curtos extraídos de um curso para jovens de orfanatos, seus
educadores e pais
Bad Kreuznach, 2001

CONTEXTO
H ELLINGER : Muitas crianças são oprimidas por destinos e experiências de
infância. Principalmente aquelas que vão para orfanatos. Algumas delas
perderam os pais e foram entregues a outros, algumas não tinham lugar em
casa, seja qual for o motivo. Esses são destinos que oprimem. Umas lidam
com isso melhor que as outras. Muitas vezes, a dificuldade surge quando
olhamos para o que está próximo. A criança olha para sua mãe e para seu
pai, os quais ela talvez nem mesmo conheça. Entretanto, ela olha para eles
e talvez esteja zangada com eles. Ela sente falta deles, está triste e, às
vezes, desesperada. Quando se continua assim nessa ligação - da criança
em relação aos pais e dos pais em relação à criança - é estabelecida uma
tensão. A criança não consegue olhar para seus pais da forma como são.
NOSSOS PAIS DA FORMA QUE SÃO
O que significa "pais e filhos"? Significa que os filhos receberam a vida
desses pais específicos. Não existem outros pais a não ser esses. Por esse
motivo, são os melhores pais: os únicos possíveis e, por isso, os únicos
certos.
A pergunta é: de onde vem a vida que nossos pais nos transmitiram? Eles
a receberam de seus pais, e estes, por sua vez, de seus pais. A vida vem de
longe, o quão longe não sabemos. Ela se perde em algo não reconhecido e
desconhecido para nós.
Mesmo assim, a vida que flui por essas gerações é sempre a mesma. Nada
se altera nela. Por isso, não faz diferença como foram os pais. Todos são
iguais naquilo que receberam e transmitiram.
O CORAÇÃO AMPLO
Quando uma criança que teve um destino pesado não olha apenas para os
pais, mas para todas as gerações antes deles, até a origem da vida e quando
ela retira a vida daí, da forma como lhe é chegada através de todas essas
gerações, seu coração se amplia. Sabemos e sentimos que estamos ligados
a algo maior, para além de nossos pais, e obtemos uma força especial a
partir dessa grandeza.
Entretanto, devido a esses pais específicos, também nos sentimos
limitados. Faltam-nos possibilidades, mas, através de nossos pais, temos
certas capacidades e possibilidades. Muitas vezes, o destino pesado é maior
que o leve. Vou contar uma história sobre isso.
A GRANDEZA
Em Londres, trabalhei com uma mulher que havia tido paralisia infantil.
Andava de cadeira de rodas e tinha um marido amável, que a ajudava.
Perguntei a ela: "Seus pais agradeceram pelo fato das coisas terem dado
certo para você?” Após ouvir sua resposta negativa, perguntei: "Você pode
agradecer agora?” E ela pôde fazê-lo.
Então a fiz imaginar que tivesse crescido como as outras meninas e, depois,
se ver crescida da forma como era na realidade. Depois perguntei a ela: "O
que é maior?" Ela começou a chorar. Não queria responder. Perguntei
novamente a ela: "Qual dos dois destinos é maior? O seu ou o outro?" Ela
disse: "O meu.” Havia aí uma outra força por trás.
Assim, todos aqueles que têm um destino especial devem ver que há uma
força especial por trás deles, desde que concordem com ele e façam a lgo a
partir dele.
É nesse sentido que trabalharei com as crianças aqui e tentarei encontrar
uma boa solução. Verei se consigo mobilizar forças que provêm dos
próprios pais, do próprio destino e da origem, para que, com essa força,
possam comandar a própria vida de forma que sintam: "a vida que tenho
está certa e é boa.”

A LIGAÇÃO
H ELLINGER : Faço parte de uma família. Nossa família está ligada a algo
maior, a um grupo, e este é comandado por uma consciência coletiva. Essa
consciência não é consciente, é inconsciente. Essa consciência possui leis
rígidas. A primeira lei rígida nessa consciência é: ninguém que pertence a
ela pode ser excluído. Quando alguém é excluído, essa consciência obriga
alguém que vem depois a representar esse excluído. Ou seja, sob a
influência dessa consciência, o indivíduo não é livre.
Q UEM PERTENCE À NOSSA FAMÍLIA ?
Sendo assim, precisamos saber quem pertence ao grupo que é comandado
por essa consciência coletiva. Começando por baixo, são eles: os pais, seus
irmãos, os avós e, às vezes, também os bisavós. Esses são os parentes
consanguíneos.
Também pertencem ao grupo todos aqueles que cederam lugar a alguém da
família em benefício de alguém da família. Por exemplo, a primeira esposa
do pai, ao morrer, cede lugar à segunda. Sendo assim, ela também pertence
ao grupo. Se ela e o pai tiverem apenas se separado, ela também cedeu
lugar. Ela também pertence.
Se houver, em uma família, grandes riquezas que tenham sido obtidas à
custa de outros, à custa de suas vidas, todas essas vítimas também
pertencem ao grupo.
Por último, algo importante que só pude ver claramente nos últimos anos:
se houver assassinos na família, suas vítimas pertencem ao grupo. Da
mesma forma, se houver na família uma vítima de assassinato, o assassino
respectivo também pertence a ela.
Isso traz amplas consequências. Em Israel, por exemplo, pude ver que os
assassinos da época do holocausto também pertencem às famílias dos
descendentes dos sobreviventes do holocausto. Quando isso não é
respeitado, são representados na família. Quando eles não são acolhidos, a
família enfrenta consequências pesadas. Os assassinos devem ser
acolhidos. Para nós, na Alemanha, isso significa que devemos dar a todos
aqueles que rejeitamos como criminosos da época do nazismo um lugar em
nosso coração. Do contrário, não haverá paz.
Fiz uma constelação na Universidade de Ben Gurion, em Israel. Tratava -se
de uma cliente com claro risco de suicídio: ela queria seguir aqueles de sua
família que tinham sido assassinados. A bênção que a permitiu continuar
viva não veio das vítimas, mas sim dos assassinos. Ver isso a abalou.
O OUTRO AMOR
Quando lidamos com crianças ou jovens e não sabemos como ajudá -los,
porque talvez sejam rebeldes ou agressivos, ou talvez queiram morrer ou
fugir, às vezes somos tentados a dar-lhes bons conselhos. Isso é uma
completa perda de tempo, como os educadores sabem, pois a criança ou o
jovem não se sente compreendido.
O que quer que façam, se desejarem se matar ou fugir, ou se forem
agressivos, todos o fazem por amor. A pergunta é apenas: amor por quem?
Temos de descobrir para onde vai o seu amor e de quem talvez tenham
raiva, justamente porque a amam.
Existirão novos panoramas e perspectivas se soubermos disso. Então a
criança se sente compreendida e consegue, lentamente, reunir força s para
algo maior. Por isso é tão valioso aquilo que é trazido à luz através das
Constelações Familiares, assim como esses emaranhamentos de muitas
gerações atrás.
Contarei um exemplo de como algo assim pode acontecer.
Há pouco tempo dei um curso no Japão. Uma mulher disse que não queria
ir para casa, pois seus pais a rejeitavam. Fiz uma constelação com
representantes dela e de sua mãe. A representante dela fez uma cara
agressiva. Então pedi a ela que dissesse à mãe: Vou te matar. Ela disse que
não tinha coragem de dizer aquilo.
Em seguida Coloquei a própria cliente na constelação e pedi a ela que
dissesse o mesmo à mãe: “Vou te matar. Ela o disse com raiva. Quando
perguntei se a frase era verdadeira, ela disse: "Não totalmente: eu apenas
quero que ela morra."
Na prática, isso significa que essa mulher quer se matar. Sua alma não
suporta isso. Quando uma pessoa tem esses sentimentos agressivos em
relação a seus pais, ela se mata. Não há outro caminho. Entretanto, não fiz
nada. Interrompi a constelação e não fiz mais nada com ela. Eu até mesmo
a esqueci. Esquecê-la é um exercício espiritual. Eles não são mais
influenciados por mim e não podem se voltar contra mim.
No final do curso, ela veio a mim e disse: "Não consigo ficar em paz.
Preciso fazer mais alguma coisa." Um colega me sugeriu colocar uma linha
de ancestrais. Eu concordei.
Posicionei uma representante para a mãe dela e, atrás dela, uma
representante para a mãe da mãe dela e assim por diante, até chegar a oito
gerações. Em seguida, Coloquei a cliente em frente a essa linha de
ancestrais, para ver onde o fluxo da vida e do amor havia sido interrompido.
A cliente havia se virado para sua mãe, mas não vinha amor da mãe para a
filha. Então, a mãe se virou para sua mãe. Também aí não fluía amor. A
linha prosseguiu, e não havia nada entre elas. Apenas a oitava mãe fechou
os punhos, recuou e olhou para o chão. Obviamente havia ocorrido um
assassinato ali. Podia-se ver isso. Olhar para o chão sempre significa olhar
para um morto, e os punhos fechados indicavam um assassinato.
Então Coloquei um homem deitado em frente a essa mãe. A cliente
imediatamente se agachou no chão junto a esse morto, soluçou alto e o
abraçou. Ela se identificou com ele, apesar das oito gerações que os
separavam. Depois de eu ter levantado os dois e posicionado o morto ao
lado de sua mãe, ela pôde se voltar com amor à sua filha, e esta à sua filha,
até que todas as mães pudessem se voltar às suas filhas.
No momento em que foi reconhecido que esse morto pertencia, o amor fluiu
através de todas essas gerações.
Depois, a cliente se agachou junto à sua mãe, ajoelhou-se diante dela,
abraçou seus pés, soluçou alto e disse a ela: "Querida mamãe.”
C OMENTÁRIO
P ARTICIPANTE : Uma pequena observação sobre a questão dos assassinos e
vítimas no exemplo de Israel. Para mim, isso tem algo de trágico e algo de
estranho. As pessoas têm, por um lado, o holocausto atrás de si, o problema
com os palestinos diante de si e se culpam diante deles. Uma vez que se
culpam diante dos palestinos, há uma solidariedade familiar com suas
vítimas, e acontece aquilo que, na verdade, desejam evitar. Essa é a parte
estranha.
H ELLINGER : Você não tem compaixão pelos israelitas.
P ARTICIPANTE : Pode ser.
H ELLINGER : Sendo assim, você também não pode resolver nada. Fiz uma
constelação em Israel com um rapaz. Sua família havia viajado com um
grupo para o Egito, e um segurança egípcio atirou ao seu redor e matou
oito crianças israelitas, dentre elas a irmã desse cliente que na época tinha
oito anos.
Posicionei as crianças israelitas assassinadas, o segurança egípcio e o
cliente. O cliente não quis olhar e se virou. Nada se moveu nele. Então
incluí cinco representantes para crianças palestinas assassinadas por
israelitas.
Aí houve movimento no grupo. Algumas das crianças israelitas quiseram
ir até as crianças palestinas, mas estas recuaram.
Então posicionei representantes para os pais das crianças israelitas
assassinadas e para os pais das crianças palestinas assassinadas.
O segurança egípcio foi até os pais e chorou. O cliente se virou para os pais
de ambos os lados e os abraçou. As crianças palestinas se agacharam no
chão junto às crianças israelitas.
Somente quando temos todos no nosso campo de visão e quando todos
recebem um lugar em nosso coração, conseguimos restabelecer a paz. Não
antes disso.
C OMPLEMENTO AO EXEMPLO NO J APÃO
P ARTICIPANTE : Tenho uma pergunta sobre o exemplo no Japão, com a
mulher agressiva. Se eu não tivera capacidade ou a possibilidade de
reconhecer que houve um assassinato oito gerações atrás, que possibilidade
existe para essa mulher de sair da agressividade que sente perante a sua
mãe?
H ELLINGER : Nenhuma. É um emaranhamento.
P ARTICIPANTE : Em constelações anteriores, vi que os assassinos eram
excluídos. Agora isso foi revisto com as novas descobertas ou é apenas em
casos isolados?
H ELLINGER : Quando comecei com as Constelações Familiares, estava claro
que os assassinos, enquanto estão na família, possuem influência nefasta
sobre os outros. Na época, ainda não havia percebido que eles devem ser
integrados à família, juntamente com as vítimas. Essa é a novidade.
O UTRAS HISTÓRIAS
Vou contar mais algumas histórias, para fins de orientação. Em um curso
em Washington, quatro semanas atrás, havia uma mulher que havia adotado
uma criança. Ela estava lá com seu parceiro. Colocamos isso e encontramos
uma solução.
A mãe da criança não a queria, e o pai tampouco. Por isso, os dois haviam
adotado a criança.
Posicionei uma representante para a mãe biológica e um representante para
o pai biológico. Coloquei sete gerações de mães atrás da mãe e sete
gerações de pais atrás do pai.
A mulher estava com o bebê adotado, na época com um mês de idade, e o
mostrou a todas as mães que se encontravam atrás da mãe biológica. Todas
olharam amavelmente para a criança, com exceção da mãe biológica. A
avó, a bisavó e as outras mães olharam amavelmente para a criança. O pai
adotivo da criança tomou-a nos braços e mostrou-a aos pais ancestrais.
Todos olharam amavelmente para a criança.
Anteontem recebi uma carta do casal. A criança costumava sempre franzir
a testa. Depois da constelação, seu rosto se tornou radiante.
Não olhamos apenas para os pais biológicos, mas muito além deles, e
obtemos das gerações anteriores a bênção e a força de que precisamos.

CONSTELAÇÃO COM KEVIN


Kevin tem 16 anos e, mora há cinco, por vontade própria, em um orfanato.
Sua mãe morreu sob circunstâncias desconhecidas. Seu pai é um músico
negro e, devido à sua condição de vida, não pode criar o filho.
H ELLINGER para Kevin, que está sentado ao seu lado: Feche os olhos. Há
algo em movimento em você agora. Permita que isso se expresse
exatamente da forma que deseja. Vou dar-lhe o tempo necessário.
H ELLINGER após um instante: Vá voltando lentamente.
Kevin inclina a cabeça para frente. Hellinger acolhe esse movimento
arbitrário, coloca seu braço em volta dele e, com o outro braço, envolve
sua cabeça, puxando-a suavemente para seu peito.
Após um instante, Hellinger coloca uma representante diante deles. Kevin
abre os olhos. Ele e a mulher se olham demoradamente.
Após um instante, Kevin se recosta novamente em sua cadeira e continua
olhando para a mulher.
H ELLINGER para Kevin: Diga-lhe: "Mamãe, eu tenho tudo."
K EVIN : Mamãe, eu tenho tudo.
H ELLINGER : Olhe para ela: “Mamãe, eu tenho tudo."
K EVIN : Mamãe, eu tenho tudo.
H ELLINGER : "V OU fazer algo com isso.”
K EVIN : V OU fazer algo com isso.
H ELLINGER : "Não precisa se preocupar.”
K EVIN : Não precisa se preocupar.
H ELLINGER : "Você pode ficar em paz agora."
K EVIN : Você pode ficar em paz agora.
Kevin chora. Hellinger apoia sua cabeça em seu ombro.
H ELLINGER : Diga-lhe: "Sinto muito a sua falta."
K EVIN : Sinto muito a sua falta.
H ELLINGER : "Você ainda está viva dentro de mim."
K EVIN : Você ainda está viva dentro de mim.
H ELLINGER : Olhe para ela.
Após um instante Diga-lhe: "Vou transmitir o que você me deu."
K EVIN : V OU transmitir o que você me deu.
H ELLINGER : "Com amor."
K EVIN : Com amor.
Hellinger posiciona um homem diante do acontecimento.
H ELLINGER para Kevin: Este é seu pai. Diga-lhe: “Agora renuncio a você
para sempre.”
Kevin olha demoradamente para o pai, calado.
H ELLINGER para Kevin: Diga a seu pai: "Eu tenho tudo. Agora renuncio a
você para sempre."
K EVIN : E U tenho tudo, eu renuncio a tudo.
H ELLINGER : Não. "Eu renuncio a você para sempre."
K EVIN : E U renuncio a você para sempre.
H ELLINGER : "Mas eu tenho tudo."
K EVIN : Mas eu tenho tudo.
H ELLINGER : Outros me ajudaram em seu lugar.”
K EVIN : Outros me ajudaram em seu lugar.
H ELLINGER : "Agora sou forte o suficiente."
K EVIN : Agora sou forte o suficiente.
Kevin olha mais uma vez demoradamente para o pai.
H ELLINGER : Diga-lhe: "Obrigado pela vida.”
K EVIN : Obrigado pela vida.
H ELLINGER : Diga um pouco mais amavelmente.
K EVIN : Obrigado pela vida.
H ELLINGER : "Farei algo com isso."
K EVIN : Farei algo com isso.
H ELLINGER : "Não precisa mais se preocupar".
K EVIN : Não precisa mais se preocupar.
H ELLINGER : "E U renuncio a você para sempre."
K EVIN : E U renuncio a você para sempre.
H ELLINGER : Sente-se agora como alguém que é forte. Isso. Internamente
ereto, assim mesmo.
Há uma história na Bíblia. Havia alguém que possuía cinco talentos e não
realizou nada com eles. Uma outra pessoa tinha apenas um talento e
superou a todos com ele. Ele realizou algo com isso.
Vou contar mais uma história. Alguém estava viajando de trem em um
vagão-leito. Estava no leito debaixo e, em cima, havia alguém que ficava
dizendo: "Estou com tanta fome, estou com tanta fome." O passageiro de
baixo foi até o vagão restaurante e lhe trouxe algo para comer.
Passado algum tempo, o passageiro de cima começou novamente: "Eu
estava com tanta fome, eu estava com tanta fome."
Ok? Certo, isso é tudo então.
H ELLINGER enquanto uma educadora conversa com Kevin e o abraça:
Alguém que tenha trabalhado dessa forma comigo é forte. Ninguém deve
ir até ele e perguntar: "O que aconteceu?".
Isso é uma invasão brutal da alma do outro. As pessoas que fazem esse tipo
de pergunta são curiosas. Sugam a energia dele para a própria alma. Isso é
ruim. Kevin tem tudo. Ele tem seus pais e sabe o que faz.
Para Kevin: "Tudo de bom."

SER VÍTIMA
H ELLINGER : Fiz e ofereci terapias durante muitos anos e descobri que tudo
se resume a uma coisa, algo muito simples. A terapia conhece apenas um
caminho que leva ao objetivo: conectar alguém à sua mãe ou ao seu pai.
Isso é tudo. Com algumas pessoas é mais fácil, com outras um pouco mais
difícil. Alguns ficam presos em acusações contra seus pais.
Não podemos trabalhar com ninguém que se apresente como vítima. Quem
se apresenta como vítima é agressivo contra outros. E estes ficam irritados
quando ele se apresenta dessa maneira. Quando ele vai a um terapeuta,
acaba o irritando: "Coitadinho de mim, você precisa me ajudar. Ai de você
se não me ajudar da forma que eu quero." Essa é a agressão que se esconde
por trás dessa postura de vítima.
Muitos que já estiveram em um orfanato têm acusações contra seus pais.
Dizem: "Se tivesse sido de outra maneira, teria me tornado outra pessoa."
Uma vez fiz um exercício em relação a isso. Um hipnoterapeuta dos EUA
fez um exercício comigo e com outras pessoas. Ele colocou três retângulos
no chão, um ao lado do outro. Um representava os pais ideais. Quando
ficávamos sobre esse retângulo, possuíamos os pais ideais. A pergunta é:
qual é a sensação?
Depois, ficávamos sobre o segundo retângulo. Ele representava os piores
pais que podem existir. Também aqui a pergunta foi: qual é a sensação? No
terceiro retângulo, olhávamos para os nossos pais da forma que são. A
pergunta: qual é a sensação?
E qual foi o resultado? Qual era a sensação? A sensação era a mesma em
todos os retângulos. Ou seja, todos têm as mesmas chances se as desejarem.
Muitos que estiveram em orfanatos ou crianças que foram adotadas,
sentem-se destinados a fazer acusações contra outros. Apresentam-se como
vítimas para exigir compaixão. Contudo, quando alguém diz: "Meus pais
foram assim e concordo com eles da maneira como são. Recebi tudo de que
preciso. Outros me ajudaram e agora farei algo com isso”, essa pessoa é
livre e olha para frente.

VOU LEVÁ-LO AO SEU PAI


H ELLINGER : V OU continuar com o trabalho. Vocês são uma família?
Venham até aqui. Quem de vocês é o problema?
M ULHER : Depois do que escutei aqui, estou achando difícil saber quem de
nós é realmente o problema.
H ELLINGER : Está claro que o problema está em você. Seu filho, coitado,
tem que suportar.
Para o grupo: Viram como ela colocou a culpa nele? Ao invés de olhar
para mim, olhou para ele.
Para a mulher: Você tem mais de um filho?
M ULHER : Sim.
H ELLINGER : Quantos?
M ULHER : Três.
H ELLINGER : Você foi casada antes?
M ULHER : Sim.
H ELLINGER : De que casamento ele é? Ou ainda tem mais história?
M ULHER : Tem mais história. Foi entre meus dois casamentos.
H ELLINGER : Então ele veio entre os dois. Você tem filhos do primeiro
casamento?
M ULHER : Sim.
H ELLINGER : Quantos?
M ULHER : Um.
H ELLINGER : Depois vem ele, e você ainda tem mais um filho?
M ULHER : Tenho ainda um filho com meu marido atual.
H ELLINGER : E este aqui é o marido atual? Certo. O que houve com o pai
desse rapaz?
M ULHER : Não faço ideia.
H ELLINGER : O que significa "não faço ideia”?
M ULHER : Não sei o que houve com ele, o que está fazendo. Ele se foi.
H ELLINGER : Você tem raiva dele?
M ULHER : Não mais.
H ELLINGER : Ouvimos em sua voz que você tem raiva dele.
M ULHER : Pelo menos conscientemente não tenho raiva dele.
H ELLINGER : Se você tem ou teve raiva dele, seja como for, você tem raiva
daquilo que seu filho tem dele. Sabe quem tem um lugar aqui no meu
coração?
M ULHER : Não faço ideia.
H ELLINGER : O pai dele tem um lugar no meu coração. É por isso que seu
filho gosta de mim.
É realizada uma constelação na qual esse filho é colocado diante de um
representante do seu pai.
H ELLINGER para o filho: Olhe para ele. Eu não sou importante, ele é
importante. Diga-lhe: "Por favor, olhe para mim."
F ILHO : Por favor, olhe para mim.
H ELLINGER : "S OU seu filho."
F ILHO : S OU seu filho.
H ELLINGER : Olhe para a mãe e diga: "Olhe para ele, por favor."
F ILHO : Olhe para ele, por favor.
H ELLINGER : "Ele é meu pai."
F ILHO : Ele é meu pai.
H ELLINGER ao ver que a mulher deseja ir para mais perto do pai do filho:
Siga o seu movimento.
A mulher vai em sua direção lentamente.
H ELLINGER : Diga-lhe: "Eu te amei."
M ULHER : EU te amei.
H ELLINGER : Chegue mais perto.
H ELLINGER : Diga a ele: Fiquei com muita raiva de você.”
M ULHER : Fiquei com muita raiva de você.
H ELLINGER ao ver que o filho quer se mover: Siga o movimento do seu
corpo. O filho começa a vacilar.
H ELLINGER para o filho: Caia no chão, caia no chão.
O filho cai no chão.
H ELLINGER : É esse o efeito de uma maldição de mãe: joga o filho no chão.
Para a mulher: Só há uma coisa que pode ajudar o garoto. Você deve dizer
a ele: "Vou levá-lo ao seu pai.”
M ULHER : VOU levá-lo ao seu pai.
H ELLINGER para o grupo: Vou contar-lhes uma pequena história. Uma
psicanalista tinha dois filhos com seu marido. Eles se separaram, e ela
disse: "Ele não cuida nem um pouco dos filhos." Perguntei a ela: "Você o
respeita?" Ela disse: "Não." Eu disse: "Exato, por isso ele não cuida dos
filhos.”
Dois anos depois, encontrei-a novamente e perguntei: "Como estão as
coisas?" Ela disse: "Ele saiu de férias com as crianças." Esse é o começo
da solução. Voltar ao primeiro amor, dar-lhe espaço novamente,
independente do que tenha havido. Só assim a criança pode ficar bem.
O pai rejeitado é uma grande perda para o filho, uma grande perda. Ela
jogou o filho para o chão aqui. Vimos que o filho foi para trás, porque a
mãe foi para trás ao invés de ir para frente.
Quero dizer mais uma coisa à mãe. Quando alguém está com raiva, às
vezes, faço a pessoa dizer a seguinte frase: "O que fiz com você para ter
tanta raiva de você?" Muitas vezes as coisas são exatamente o contrário do
que se mostra. A reação dela aqui deixou óbvio. O pai dele estava muito
mexido e cheio de amor.
Vou parar por aqui. Acho que trouxe à tona o essencial.
H ELLINGER para o filho: Você pode dizer à mãe: Nem todo o amor que
você tem pelo meu padrasto é capaz de substituir esse amor. Porém, seu
padrasto sempre se preocupou com você, isso está claro. Por isso, dê a ele
um lugar em seu coração, ao lado do seu pai. Ele, naturalmente, tem um
grande lugar em seu coração.
M EDITAÇÃO
H ELLINGER para o grupo: Vou fazer um pequeno exercício com vocês.
Podem fechar os olhos. Agora passem por suas vidas e imaginem as pessoas
de quem vocês têm raiva. Estão todas lado a lado: aquelas que fizeram algo
a vocês, assim como aquelas a quem vocês fizeram algo. Então vocês vão
até cada uma delas. Vocês olham cada um nos olhos e dizem: "Sou como
você, exatamente como você." Sintam o que acontece em suas almas ao
dizer isso. Então, vão até o próximo: "Sou como você, você é como eu.” E
então para o próximo. Vocês o olham nos olhos e abrem seus corações.
"Sou como você, você é como eu."
Quando tiverem feito isso com todos, vocês se viram com eles para o
horizonte. Ainda está escuro e a luz está oculta. Vocês se curvam junto com
eles diante dessa luz oculta.
Vou contar-lhes mais uma história. Há 17 dias viajei até o mar da Galileia,
em Israel. Foi nesse local que Jesus proferiu o Sermão da Montanha. Um
lugar maravilhoso, muito tranquilo e cheio de paz.
Lá, Jesus disse: "Bem-aventurados os defensores da paz, porque serão
chamados filhos de Deus.” E falou: "Amai a vossos inimigos. Fazei bem
aos que vos odeiam, porque meu Pai que está no céu também faz com que
o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e
injustos." Todos conhecemos isso.
Na viagem de volta, fiquei imaginando: o que acontece em uma alma que
se abre para isso? O que isso significa exatamente? O que sentimos dentro
da alma, quando atingimos isso? O que deve ocorrer?
Então me veio uma frase: amar significa reconhecer que todos os outros
são iguais a mim diante de algo maior.
Humildade significa o mesmo. Perdoar e esquecer também. Reconhecer
que todos os outros são iguais a mim diante de algo maior. Isso foi um
complemento a essa constelação. Tudo de bom para vocês.
OS EDUCADORES
Gostaria de dizer algo com relação aos educadores que atuam em um
orfanato. Quando ajudam demais, a criança fica com raiva. Os educadores
ajudam com distância. Ajudam, principalmente, substituindo os pais. É
importante que os educadores se coloquem abaixo dos pais. Quando se
colocam acima deles, como se fossem melhores que os pais, os filhos ficam
com raiva.
Hoje de manhã, isso pôde ser visto de maneira muito bela em uma
constelação. O pai da criança havia se colocado atrás do orfanato. Por um
lado, havia se esquivado de suas responsabilidades. Por outro, estava
posicionado atrás do orfanato. O orfanato podia se apoiar nele. Isso foi útil
e belo. Se a ajuda é dada às crianças de orfanatos nesse sentido,
tranquilamente e em sintonia com os pais, e se as crianças podem tornar -se
como os pais, elas se sentem seguras. As crianças desejam tornar-se como
os pais.
Quando alguém diz a elas: "Seu pai era um bêbado!" - ou algo parecido -
"Não seja como seu pai." - a criança se tornará exatamente como seu pai,
por fidelidade a ele. É esse o efeito na alma desse tipo de influência vinda
de fora. Não, a criança quer se tornar como seu pai. O filho diz a seu pai:
"Quero me tornar como você." Então o pai olha para ele com amor e diz:
"Você também pode fazer as coisas um pouco diferente de mim." Isso
libera a criança para se desenvolver fora da influência dos seus pais.
Aqui também vale a mesma coisa. Refleti sobre o que torna uma pessoa
grande. Tudo aquilo que o torna igual aos outros o torna grande. Tudo
aquilo que o desvia da igualdade perante os outros o torna menor. Essa
grandeza é uma grandeza humilde. Com ela, podemos nos movimentar
tranquilamente em meio a todos. Quando alguém se faz maior, os outros
não o querem. Fazer-se maior gera agressão, assim como fazer-se menor.
Aquele que age como igual em meio a iguais é bem-visto em todos os
lugares a que chega.
EU POR VOCÊ
H ELLINGER : Ok, agora continuaremos com o trabalho. Quem gostaria?
Para uma moça de um orfanato, já maior de idade: Quer vir agora?
H ELLINGER após ela dizer que sim: Conhece seus pais?
M OÇA : Sim, ambos. Meu pai e minha mãe.
H ELLINGER: São de onde?
M OÇA : Meu pai é dos EUA, Alabama, e minha mãe é alemã.
H ELLINGER : Como é a relação dos seus pais?
M OÇA : Na verdade, muito boa.
H ELLINGER : Que bom. Estão juntos?
M OÇA : Sim.
H ELLINGER : Por que você foi para o orfanato?
M OÇA : Porque não me entendia com meu pai.
H ELLINGER : Você brigou com ele?
M OÇA : Sim. Eu não via outra opção.
H ELLINGER : Quem mais estava com raiva dele?
M OÇA : Como assim com raiva?
H ELLINGER : Estou apenas perguntando.
M OÇA : Não me entendia com meu pai. Não sei o motivo.
H ELLINGER: Você tem irmãos?
M OÇA : Sim, uma irmã.
H ELLINGER : Mais velha ou mais nova?
M OÇA : Mais velha.
H ELLINGER : Algum de seus pais teve outro relacionamento antes?
M OÇA : Meu pai já foi casado.
H ELLINGER : Essa outra mulher, como ela é?
M OÇA : Não a conheci.
H ELLINGER : Quem é ela? O que falam sobre ela?
M OÇA : Que ela é tailandesa.
H ELLINGER : Era tailandesa? Seu pai viaja pelo mundo?
M OÇA : Não, ele foi soldado no Vietnã. Passou férias ou serviu em outros
lugares também. Não sei direito.
H ELLINGER : Ok. Vamos ver o que podemos fazer por você. Vou colocar
duas pessoas. Você já tem ideia de quem eu vou colocar? Estou sempre
conectado àqueles que são excluídos. Quem é o excluído aqui?
M OÇA : Não faço ideia.
H ELLINGER : A tailandesa é a excluída. Imagino que ela tenha raiva do seu
pai. Você a representa. Por isso você brigou com seu pai. Não porque você
tenha algo contra ele, mas porque a tailandesa tem algo contra ele. Você se
identificou com ela. Esta é a imagem que tenho. Naturalmente, preciso
checar isso.
Além da moça, Hellinger escolhe um homem como representante de seu pai
e uma mulher como representante da tailandesa.
Para os representantes. Confio completamente em vocês: que irão seguir
exatamente aquilo que se passa em suas almas.
Começa a constelação.
H ELLINGER para a moça como reação ao que foi mostrado na constelação:
Seu pai não é muito amável em relação a ela. Sabe o que isso significa, o
que vemos na constelação? Ele a estrangulou.
H ELLINGER para o grupo: A tailandesa se esconde atrás dela, e a cliente
assume suas agressões. Vemos isso em seus punhos fechados. Ela assume
aquilo que a primeira mulher reprime.
H ELLINGER após um instante, para a moça: Diga a ela: "Vou me vingar por
você.”
M OÇA : V OU me vingar por você.
H ELLINGER : "E U SOU a grande aqui."
M OÇA : E U SOU a grande aqui.
H ELLINGER : "E você é apenas a pequena."
M OÇA : E você é apenas a pequena.
H ELLINGER : "Sua pobre tailandesinha.”
M OÇA : Sua pobre tailandesinha.
H ELLINGER : "V OU consertar isso.”
M OÇA : V OU consertar isso.
H ELLINGER após um instante: Ajoelhe-se agora e diga a ela: “Você é a
grande aqui.”
M OÇA : Você é a grande aqui.
H ELLINGER : "E eu a pequena."
M OÇA : E eu a pequena.
Hellinger escolhe uma representante para a mãe da moça e a coloca na
constelação.
H ELLINGER para a moça: Diga a seu pai: “Ela é minha mãe."
M OÇA : Ela é minha mãe.
H ELLINGER : "Ela é a única certa para mim.”
M OÇA : Ela é a única certa para mim.
H ELLINGER : "Não tenho nada a ver com suas outras mulheres.”
M OÇA : Não tenho nada a ver com suas outras mulheres.
H ELLINGER : "S OU apenas a criança aqui."
M OÇA : S OU apenas a criança aqui.
H ELLINGER : "Por favor, olhe para mim como sua filha."
M OÇA : Por favor, olhe para mim como sua filha.
H ELLINGER : "E me tome como sua criança."
M OÇA : E me tome como sua criança.
H ELLINGER : Diga isso à mãe também.
M OÇA para a representante de sua mãe: Olhe para mim como sua filha e
me tome como sua criança.
H ELLINGER após alguns instantes, escolhe três homens: Vou pegar vocês
três. Deitem-se aqui no chão, com a cabeça nessa direção, um pouco mais
longe.
Para o grupo: Esses são os vietnamitas da guerra.
Para a moça: Olhe para eles.
H ELLINGER após um instante, para a moça: Vá para baixo até os mortos.
Vá para baixo, vá para baixo até os mortos.
H ELLINGER após um instante, para o pai da moça: Diga-lhe: "Eu assumo
isso." P AI DA MOÇA : Eu assumo isso.
H ELLINGER : "Você não tem nada a ver com isso."
P AI DA MOÇA : Você não tem nada a ver com isso.
H ELLINGER após um instante, para o pai: Deite-se junto.
Para a moça: Levante-se, e a mãe também. Curvem-se as duas.
H ELLINGER para a moça: Diga-lhe: "Querido papai."
M OÇA : Querido papai.
H ELLINGER : "Por favor, seja amável se eu continuar viva."
M OÇA : Por favor, seja amável se eu continuar viva.
H ELLINGER após um instante: Como é para o pai?
O pai demonstra que não pode mais ser amável.
H ELLINGER para o pai: Diga à sua filha: "Não consigo mais."
P AI : Não consigo mais.
H ELLINGER : "A culpa é grande demais.”
P AI : A culpa é grande demais.
H ELLINGER : "Mas quero que você viva."
P AI : Mas quero que você viva.
H ELLINGER para a moça: Agora vire-se, a mãe também, virem-se ambas.
H ELLINGER : Como está agora?
M OÇA : Tento ir em frente, porque vejo que minha mãe é exatamente como
meu pai.
H ELLINGER para a moça: Deite-se junto também, de costas.
Após um instante: É melhor ou pior?
M OÇA : Melhor.
H ELLINGER : I SSO . Levante-se agora, olhe para o seu pai e diga a ele: "Eu
morro para que você viva."
M OÇA : E U morro para que você viva.
H ELLINGER : "V OU carregar isso para você."
M OÇA : V OU carregar isso para você.
H ELLINGER após um instante: Como é isso para o pai?
P AI : I SSO está errado.
H ELLINGER : Diga-lhe; “Isso não é da sua conta."
P AI : I SSO não é da sua conta. O que eu faço é problema meu.
H ELLINGER : Diga-lhe: "Suma daqui."
P AI : Suma daqui.
H ELLINGER para a moça: Agora pode ir para frente.
Após um instante: Ok, pare. Já é suficiente.
H ELLINGER para a moça: Como você está agora?
M OÇA : Um pouco melhor.
H ELLINGER para os representantes: Os mortos devem se levantar agora, a
tailandesa também. Fiquem atrás dela, um atrás do outro.
Para a moça: Apoie-se nela, isso. Feche os olhos e respire fundo. A bênção
vem daí, e agora também do seu pai.
H ELLINGER após um instante, para a moça: Como você está agora?
C LIENTE : Melhor.
H ELLINGER : Ok, isso é tudo. Obrigado a todos.
Para o representante do pai: E principalmente a você. Agora vou lhe
mostrar como você pode se tornar você mesmo de novo. Imagine o pai dela
e curve-se bem levemente diante dele. Depois vire-se para o outro lado.
Ok, muito bom.
Para o grupo: Este foi um bom exemplo de que todos somos iguais. Agora
chegamos à grande política mundial. Deixem passar mais uma vez por suas
almas aquilo que disse sobre a diferenciação entre bom e mau, ou melhor,
sobre a não diferenciação entre bom e mau. Todos são vinculados a algo
do qual não podem escapar. É o que eu disse sobre o amor das crian ças.
Isso ficou claro aqui e pode ser visto muito frequentemente em famílias em
que o pai esteve na guerra ou esteve vinculado à guerra: as vítimas também
pertencem à família.
Vou dar um exemplo:
Havia um rapaz nos EUA, um tipo meio malandro. Disse que seu pai havia
sido um herói. Havia ajudado a conquistar a ilha de Iwo Jima. Estava na
companhia que fincou a bandeira americana lá, após duras perdas.
Coloquei os companheiros do pai mortos em combate. Também Coloquei
cinco representantes das vítimas de Iwo Jima, vítimas dos americanos. Ele
foi atraído por eles. O pai permaneceu completamente rígido, mas o filho
foi fortemente atraído para os companheiros mortos de seu pai. Não
consegui ajudá-lo. Então Coloquei o filho de frente para o pai e fiz com
que dissesse a ele: "Vou até eles. O que você fizer não me importa." Ele
disse. Estava fortemente ligado aos mortos de seu pai. O pai só amoleceu
depois de olhar o filho nos olhos e ver o que lhe havia causado com sua
rigidez perante os mortos. Então pôde respeitar os mortos e, junto com seu
filho, se afastar deles. Vimos algo parecido aqui.
Para a moça: Seu coração não pertence à tailandesa, mas aos mortos. Você
os representa na família, mas eles devem ir até seu pai e seu pai até eles.
Você é pequena demais aqui.
Gostaria de dizer mais uma coisa nesse contexto: a consciência familiar
segue a lei segundo a qual todos que pertencem têm o direito de pertencer.
É por isso que, nessa consciência, não há distinção entre bom e mau.
Aqui também vale uma outra lei: os que vieram primeiro têm precedência
em relação aos que vieram depois. Quem vem depois nunca deve se
envolver em algo feito por quem veio antes. Quando alguém faz isso,
fracassa. O que quer que você faça, se você se matar por expiação pelo seu
pai, o que quer que você faça é à toa. Não ajuda ninguém. Mas você tem a
sensação de que é grande e inocente. Todo herói que fracassa tem a
sensação de ser grande, mas depois estará entre os mortos, assassinado. O
que adiantou toda a sua grandeza?
Você sabe um pouco de inglês. Na obra de Shakespeare existe o Falstaff, o
gordo, um personagem estranho. Ele deveria ir para a guerra, mas ficou
para trás. Era um covarde e por isso sobreviveu. Um grande guerreiro, que
lutou destemidamente, morreu e foi enterrado.
Falstaff disse: "Assim termina o herói, mas eu, covarde, sobrevivo.” Ele
era esperto. Não era corajoso, mas era esperto. Então, você pode morrer
corajosa ou viver covarde. Falando mais precisamente: você pode viver
culpada ou morrer inocente. Se você morrer pelo seu pai, se sentirá
inocente. Se permanecer viva, talvez se sinta um pouco culpada. Só
conseguimos sobreviver com culpa. Consegui deixar claro? Ok, então viva.

CONSCIÊNCIA LEVE
P ARTICIPANTE : Por que devemos perdoar o inimigo?
H ELLINGER : Não o perdoamos.
P ARTICIPANTE : O senhor não disse isso hoje de manhã?
H ELLINGER : Tornamo-nos como ele.
P ARTICIPANTE : O que isso significa?
H ELLINGER : Tornamo-nos como ele e, então, não precisamos perdoá-lo.
Reconhecemos que somos iguais.
B OM E MAU
Talvez possa explicar algo sobre bom e mau nesse contexto. Isso é algo
com que você se preocupa: o bom e o mau.
A pergunta é: existe algo bom? Existe algo mau? Não, não existe. Mas
utilizamos essa distinção entre bom e mau em nossa vida diária para nos
orientar. A distinção entre bom e mau vem ao mundo através de nossa
consciência. Quando temos a consciência leve, dizemos que fizemos algo
bom. Quando temos a consciência pesada, dizemos que fizemos algo mau.
Nesse contexto, bom e mau significam apenas: bom é aquilo que me ajuda
a pertencer à minha família. Mau é aquilo que ameaça meu pertencimento
à minha família. Ou seja, a consciência nos ajuda a distinguir o que
devemos fazer e não fazer para que pertençamos. Essa é a função da
consciência. Apenas nesse contexto existe a distinção entre bom e mau.
Todas as famílias são diferentes. O que é considerado bom em uma família
é considerado mau em outra e vice-versa. Por isso, membros de outras
famílias fazem com consciência leve aquilo que, para minha família, é
considerado mau. É por isso também que crianças de orfanatos apresentam,
com consciência leve, comportamentos considerados como "inadmissíveis"
nesses locais.
Por isso, não conseguimos intervir de forma alguma em suas consciências.
Não serve para nada. A não ser que saibamos o que é considerado bom em
suas famílias. Então podemos intervir em suas consciências familiares. Isso
ajuda. Essa é a diferença.
Existem coisas más. Por exemplo, quando alguém mata uma pessoa. Claro
que isso é mau. Ou o que acontece na guerra: isso tudo é mau. Mas apenas
do nosso ponto de vista, a partir de nossa distinção entre bom e mau.
Entretanto, também transmitimos para Deus nossa consciência e a distinção
feita pela nossa consciência entre bom e mau. Acreditamos que
Deus decide entre o céu e o inferno de acordo com a nossa consciência. É
a nossa suposição. É por isso que, para os americanos, os terroristas que
atacaram o World Trade Center serão enviados ao inferno por Deus. Eles
também ajudam para que isso aconteça.
Por outro lado, os terroristas têm a mesma visão com relação aos
americanos. Querem que Deus os envie para o inferno e também ajudam
para que isso aconteça. Ambos estão presos a suas consciências. Assim,
não podemos julgar conforme a nossa consciência aquilo que é encenado
pelo destino ou por algo maior. O que Vivenciamos como perigoso,
desagradável, desprezível ou digno de rejeição, fazemos apenas de acordo
com a nossa consciência. Perante a um poder superior, serve para outros
fins.
Um velho amigo meu que morreu há muito tempo - já havia morrido 600
anos antes de Cristo - disse: A guerra é o pai de todas as coisas. Sem
conflitos não há progresso. Imaginem que não houvesse mais nada "mau".
Ficaríamos sentados criando barriga e não faríamos mais nada. Seria
horrível.
O que se passa em certas guerras atualmente, mesmo sendo terrível para os
atingidos, é uma bênção para o mundo. Todos têm de se reorientar.
Precisam fechar novas alianças, ir mais em direção ao outro que antes.
Mesmo quando tomamos partido, a favor de um lado e contra o outro,
descobrimos, depois de um tempo, que tudo serve a uma causa maior. E o
poder que comanda isso não é piedoso: ele nos desafia.
Por isso, também devemos ver os agressores a serviço de um outro poder.
Todos os agressores são conscientes. Seus tios mataram alguém
conscientemente. E aqueles que executaram seus tios o fizeram com
consciência limpa. Todos agiram com consciência limpa. Por isso, é difícil
fazer a distinção.
No final, somos todos iguais diante de algo maior e podemos esquecer essa
diferença entre bom e mau. Somente quando estamos prontos para olhar
para esse contexto maior podemos instituir a paz e compreender os outros.
Principalmente, podemos compreender as crianças na maneira especial
como se comportam. Nós as confiamos a esse poder maior. Essa é uma
possibilidade de lidar com elas.
O israelita sobre quem falei hoje de manhã, cuja irmã foi atingida, não
conseguiu se desvencilhar da irmã internamente. Ainda se encontrava no
estado de choque da ocasião, e havia o risco de que seguisse sua irmã. Fiz
um exercício com ele e, no final, ele tomou sua irmã morta nos braços e
olhou-a com amor. Ele a coloca, por assim dizer, nos braços de Deus.
Depois retorna e a deixa lá. Também podemos fazer isso com os maus. Isso
se chama amor ao inimigo. É completamente diferente de um mandamento,
é a compreensão de que, no final, somos todos iguais.

AJUDA A UMA IRMÃ AUTISTA


H ELLINGER para três irmãs: Agora vou trabalhar com vocês três. Venham
aqui. Qual é o problema?
P RIMEIRA IRMÃ : Somos três de cinco irmãs. Nossa irmã caçula é autista e
mora em um orfanato desde os sete anos. Sentimos que foi rejeitada e isso
nos incomoda.
S EGUNDA IRMÃ : Também temos problemas com nossos pais.
H ELLINGER : Sim, eu sei. Já estava querendo colocá-los.
Hellinger escolhe representantes para os pais, para a irmã autista, para a
irmã que não está lá e inclui as três irmãs que estão lá pessoalmente na
constelação. Ele pede para a irmã mais velha posicionar. Na constelação,
a mãe olha para fora e para o chão.
H ELLINGER após um instante: Há algo claro na constelação: a mãe está
olhando para uma morta.
Ele escolhe uma mulher como representante dessa morta e pede que se
deite de costas diante da mãe.
H ELLINGER após um instante, para a irmã autista: Vá com o seu
movimento, do jeito que vier.
A irmã autista vacila e, em seguida, deita-se no chão ao lado do pai.
H ELLINGER : Vá com o movimento, pode ir para o chão.
H ELLINGER para a primeira irmã: Sabe quem é a morta diante da mãe?
P RIMEIRA IRMÃ : Minha mãe tem duas irmãs mortas: gêmeas que morreram
no parto.
Hellinger escolhe mais uma mulher e a coloca deitada ao lado da primeira
morta. A mãe se ajoelha diante delas. Depois, Hellinger pede à irmã
autista que se deite do lado dessas mortas. Enquanto isso, o pai se vira
para as mortas no chão e para a criança autista. Após alguns i nstantes, a
criança autista se levanta.
H ELLINGER após um instante, para a mãe: Diga à sua filha autista:
"Minhas duas irmãs têm um lugar em meu coração."
M ÃE : Minhas duas irmãs têm um lugar em meu coração.
H ELLINGER : "Agora elas têm um lugar.”
M ÃE : Agora elas têm um lugar.
Hellinger pede que as três irmãs se movam para o lado, ao lado do pai,
que também se posicionou mais distante. Todos olham para a mãe e para
as mortas. A irmã autista se levantou. Uma das irmãs da mãe quer
acariciá-la, mas a criança autista balança a cabeça.
Após alguns instantes, Hellinger pede à mãe que se deite ao lado das
mortas. Ele pede à irmã que, primeiro, se posicione em frente ao pai e,
depois, vá para junto das irmãs. Depois, coloca o pai diante de suas cinco
filhas. Elas estão posicionadas conforme a sequência de idade.
Após um instante, Hellinger escolhe uma mulher como representante do
orfanato e a posiciona à direita do pai, a uma certa distância.
O orfanato se aproxima lentamente da irmã autista. De repente, essa irmã
segura a cabeça com as duas mãos e grita alto. Depois, deixa as mãos
caírem.
H ELLINGER : Esse foi o escape do autismo.
Para a primeira irmã: Ainda há alguma coisa na família. Isso não basta.
Você sabe o que é?
P RIMEIRA IRMÃ : O irmão do pai morreu com um ano e meio, durante a
fuga da Pomerânia. Ele morreu de fome.
H ELLINGER : O irmão do pai?
P RIMEIRA IRMÃ : Sim.
Hellinger escolhe um representante para esse irmão do pai e o coloca à
sua direita. O pai toma o irmão cuidadosamente nos braços. Em seguida,
Hellinger pede à irmã autista para ir também até o irmão morto do pai.
Ela vai até ele lentamente, toma-o nos braços e o segura. Primeiro ele
desaba. Depois se endireita. A irmã autista segura suas mãos e olha -o nos
olhos.
Após um instante, Hellinger leva a irmã autista para o lado de suas irmãs.
O irmão do pai, morto precocemente, se vira para ele. Os dois se olham
com carinho.
Hellinger posiciona a família na ordem: o irmão morto do pai ao seu lado,
a mãe com suas irmãs mortas à esquerda de seu marido, as irmãs em ordem
de idade diante dos pais. Ele pede que a representante do orfanato se sente.
H ELLINGER para a irmã autista: Como está agora?
I RMÃ AUTISTA : Melhor, mas ainda tenho muita pressão no peito. Não estou
mais tão confusa.
H ELLINGER para as irmãs: Façam um círculo e se abracem. Todas.
Elas se abraçam intimamente, com as cabeças se tocando e, após um
instante, começam a rir alto, principalmente a irmã, até então autista.
H ELLINGER após um instante: Cinco irmãs! Ok, isso é tudo. *
H ELLINGER para o grupo: É engraçado o que acontece no fundo e como
progredimos pouco quando olhamos só para o primeiro plano. Mas uma
constelação familiar traz isso à tona, passo a passo.
O importante, naturalmente, é que o olhar se amplie quando lidamos com
algo assim. Ou seja, não olhar para o que está imediatamente próximo, mas
para o que se encontra por trás: quão forte ainda é seu efeito e quão vivos
estão os mortos.
P ERGUNTAS
P ARTICIPANTE : N O momento do grito, você disse que havia sido a saída do
autismo. Isso significa que a criança poderia tornar-se saudável?
H ELLINGER : É preciso ouvir exatamente o que digo. Eu disse: esse foi o
escape do autismo. Pudemos ver isso. Eu não sei o que realmente
acontecerá. Quando perguntamos: o que você fez agora, irá realmente
ajudar? O que se passa em sua alma? Você está em sintonia, ou a sintonia
foi interrompida?
P ARTICIPANTE : Quando faço perguntas não estou em sintonia.
H ELLINGER : Exato. Contudo, a pergunta não atua somente na sua alma. Ela
também atua dentro do sistema. Perguntas curiosas interferem nos
movimentos da alma. Por isso é importante a discrição, a discrição total.
Eu também gostaria de saber como ela está, pois a tive em meu coração.
Contudo, não me atrevo a fazer isso.
Sempre que desejamos alcançar algo específico, na psicoterapia, no
trabalho social ou nos orfanatos, no momento em que um objetivo
específico é definido as coisas dão errado. Sempre dá errado porque me
coloco no lugar de um movimento maior, querendo passar em sua frente ou
forçar-lhe algo. Nesse instante, perco o contato.
Aquilo que nos comanda, essa alma maior, visa a propósitos maiores do
que nós. Quando confiamos nela, alcançamos algo bem maior.
P LANOS
Imaginem que eu tivesse feito planos sobre tudo o que pretendo fazer hoje.
O que teria atingido? Nada, nada mesmo. Isso só funciona a partir da
sintonia. Por isso foi importante você ter feito essa pergunta: para que
pudéssemos discorrer sobre o que é provocado por essas pequenas coisas
que consideramos tão triviais, como por exemplo perguntar. Na
psicoterapia e nos orfanatos, muitos perguntam: o que acabou de
acontecer? Por que isso ou aquilo? Essas perguntas atrapalham os
movimentos da alma. Enquanto que, quando simplesmente estamos lá, em
sintonia, isso é emanado imediatamente. Há uma força tremenda nisso. Os
chineses chamam isso de atuar sem agir.
Eu sempre me distancio. De repente, após me distanciar, me vem uma frase
ou o próximo passo. Então digo ou faço isso, sem saber para onde isso leva.
Depois espero mais um pouco. Assim, as coisas vão se desenvolvendo
passo a passo. Nunca podemos prever o que vai acontecer.
Você deve imaginar o seguinte: da mesma forma que os representantes aqui
sentem de maneira direta o que acontece na família, a família sente de
maneira direta o que se processa aqui. As soluções que encontramos aqui
atuam sobre a família.
A CURIOSIDADE
Há uma história de Colônia, uma cidade alemã. Havia duendes por lá. Eles
trabalhavam maravilhosamente bem em silêncio, até que uma mulher quis
saber o que eles eram. Aí tudo acabou. É um belo exemplo. É a mesma
coisa aqui. Essa discrição externa é cheia de respeito. Esse respeito inspira
algo na alma. Abre um espaço. Enquanto que, em uma pergunta, a alma se
contrai e pergunta: o que ele quer de mim agora? Mas ninguém pergunta o
que o Sol quer de nós. Ele simplesmente brilha. Então deixo que ele brilhe
sobre mim.

FILHA COM TENDÊNCIAS SUICIDAS


H ELLINGER : A O meu lado está uma família de Berlim. Os pais são
poloneses. Vieram por causa da filha. Entretanto, não trabalharei com a
filha, trabalharei primeiro com a mãe. Depois vou ver. Já falei com ela
antes: Ela me contou algumas coisas.
Existe um santo famoso chamado Vicente de Paulo. Ele fundou a Caritas e
ajudou muita gente. Uma vez, disse a um amigo: "Se alguém quiser lhe
ajudar, tome cuidado." Muitas vezes enfraquecemos uma pessoa quando
queremos ajudá-la. Sua filha é uma menina forte, já percebi isso. Ela é
teimosa. Ok, vamos deixá-la por enquanto. Trabalharei com a mãe.
Ela me disse que dois tios lutaram contra os comunistas. Dizem que eles
mataram um homem e foram executados depois.
A pergunta é: quem a sua filha está copiando? A imagem que tenho é o
homem assassinado pelos tios. Vou checar isso agora. Precisamos de dois
representantes para os tios, irei colocá-los aqui. Primeiro não farei nada e
verei o que acontece.
Os representantes dos assassinos olham para o chão e se inclinam para
trás, como se quisessem ir embora. Hellinger escolhe mais um homem e o
coloca deitado de costas em frente aos dois assassinos.
Os representantes dos assassinos ficam inquietos e são atraídos para o
homem assassinado. Um deles se ajoelha, sem chegar mais perto, e
continua olhando para o chão. O outro olha demoradamente para o rosto
do homem assassinado e se ajoelha junto a ele.
Após um instante, Hellinger escolhe uma representante para a filha e a
posiciona junto aos outros. Ela se curva lentamente na direção do homem
assassinado. Hellinger pede a ela que se deite ao lado dele. Ela se deita e
olha para ele.
O segundo assassino se deita junto ao assassinado. O primeiro assassino
se levanta e toca o assassinado com uma mão.
H ELLINGER após um instante: Agora o morto fechou os olhos.
Para a representante da filha: Levante-se agora.
H ELLINGER : Como você se sentiu ao se deitar, melhor ou pior?
R EPRESENTANTE DA FILHA : Melhor. Eu queria olhar para o assassinado,
mas ele não olhou para mim.
H ELLINGER : O S outros é que eram importantes.
Para a filha: Vou dizer algo sobre a dinâmica. O morto está excluído na
família. Entretanto, ele pertence à família. A família não o reconheceu. É
por isso que você tem tendências suicidas. Você diz internamente: "Vou
morrer em seu lugar." É essa a dinâmica. O que me diz sobre isso?
F ILHA : Não acho que queira morrer no lugar da minha mãe, mas o mundo
não me agrada. Esse é o motivo.
H ELLINGER para a representante da filha: Pode se sentar.
Para os outros representantes: Levantem-se.
H ELLINGER para o assassinado: O que você sentiu?
O ASSASSINADO : Tive, algumas vezes, a sensação de querer chorar.
H ELLINGER : Exato, é isso mesmo. Eles lhe mataram e ninguém olhou para
você. Nenhum deles olhou para você, você sentiu isso certo. Você fez isso
bem, desde o começo. Nesse tipo de constelação, os representantes se
sentem como as pessoas de verdade. É esse o segredo aqui.
H ELLINGER para um dos assassinos: Como você se sentiu?
P RIMEIRO ASSASSINO : Frio, estava duro e frio.
H ELLINGER para o grupo: Ele ainda não está redimido, ainda não dá para
fazer nada com ele.
H ELLINGER para o segundo assassino: E você?
S EGUNDO ASSASSINO : Estava tremendo muito no começo, mas tinha de
olhar para ele o tempo todo. Também queria ir em sua direção, mas tive a
sensação de estar com blocos de cimento presos aos pés. Consegui ir em
sua direção bem devagar e, quando ele me olhou, me acalmei bastante.
Porém, quando me curvei sobre ele e ele desviou o olhar, a sensação de
desamparo voltou. Quando a mulher veio, concentrei-me nela. Aí voltei a
me acalmar.
H ELLINGER : A O fazê-lo, embora sem direito, a filha retirou isso dele.
Hellinger posiciona o primeiro assassino atrás do segundo. Ele coloca o
assassinado à direita do segundo assassino. Posiciona a filha com as
costas viradas para o assassinado e o segundo assassino e pede a eles que
se apoiem nela.
H ELLINGER para afilha: Feche os olhos.
Para o assassinado e o segundo assassino: Coloquem a mão sobre os
ombros dela.
Para a filha: Deixe a energia dos assassinos e do assassinado fluir em você
formando uma unidade. Feche os olhos e tome o tempo que precisar.
Para o grupo: Vocês podem ver que ela se identifica com a vítima. A
inclinação da cabeça mostra isso. Ela precisa tomar os assassinos como
pessoas em sua alma, a vítima e os assassinos.
Para a filha: Respire fundo com a boca aberta: assim ficará mais fácil para
você.
Para os representantes dos assassinos e do assassinado: Enquanto isso,
olhem uns para os outros. Isso irá ajudá-la: o fato de os assassinos terem
lugar no coração da vítima e da vítima ter lugar no coração dos assassinos,
de pessoa para pessoa.
H ELLINGER após um instante para a filha: Vire-se agora para eles e os
abrace, e vocês a abracem. E respirem fundo.
H ELLINGER para os assassinos: Imaginem que o assassinado os abençoe,
com todos os bons votos para que vocês fiquem bem.
H ELLINGER após um instante para afilha: Afaste-se agora um pouco e olhe
para eles. Olhe para eles e curve-se levemente. Agora olhe para eles e diga:
"Todos vocês têm um lugar em minha alma."
F ILHA : Todos vocês têm um lugar em minha alma.
H ELLINGER : Olhe para eles.
F ILHA : Todos vocês têm um lugar em minha alma.
H ELLINGER após um instante para a vítima: Como está se sentindo?
O ASSASSINADO : Bem.
H ELLINGER para afilha: Agora você pode se virar para o outro lado.
Ela se vira e olha para frente.
H ELLINGER : Você sabe o que há na frente?
F ILHA : Não.
H ELLINGER : A vida. À sua frente está a vida. Dê um passo para a frente,
mais um, mais um...
Ela abaixa a cabeça. Hellinger a segura pelo pescoço e endireita sua
cabeça. Ele a segura assim por muito tempo.
H ELLINGER : Provavelmente a vítima foi enforcada.
Para a filha: Agora você pode retirar suavemente a cabeça do laço e olhar
para a frente. Ok, vou deixar assim. Obrigado a todos.

CRIANÇAS ADOTADAS
H ELLINGER para Viola: Agora continuarei trabalhando com você. Posso?
Ok. Você já viu o bastante para acreditar que eu sempre lido
cuidadosamente com tudo.
Hellinger coloca representantes para seus pais.
Para Viola: Feche os olhos.
Após um instante: Abra os olhos.
Diga à sua mãe: "Mamãe, eu deixo você partir."
V IOLA : Mamãe, eu deixo você partir.
H ELLINGER : "Agora eu deixo você partir."
V IOLA : Agora eu deixo você partir.
H ELLINGER : "Você se desfez de mim para sempre.”
V IOLA : Você se desfez de mim para sempre.
H ELLINGER : "Agora concordo com isso."
V IOLA : Agora concordo com isso.
H ELLINGER : "Agora renuncio a você para sempre."
V IOLA : Agora renuncio a você para sempre.
H ELLINGER : "Mas obrigada pela vida."
V IOLA : Mas obrigada pela vida.
H ELLINGER : "Obrigada por ter me tocado."
V IOLA : Obrigada por ter me tocado.
H ELLINGER : Diga a ela: "Sou a pequena aqui.”
V IOLA : Sou a pequena aqui.
H ELLINGER : "E você a grande.”
V IOLA : E você a grande.
H ELLINGER : "Continuarei sendo a pequena."
V IOLA : Continuarei sendo a pequena.
H ELLINGER após um instante: Olhe para o pai e diga-lhe: "Você me
abandonou.”
V IOLA : Você me abandonou.
H ELLINGER : "Agora renuncio a você para sempre."
V IOLA : Agora renuncio a você para sempre.
H ELLINGER : "Outras pessoas me mantiveram viva."
V IOLA : Outras pessoas me mantiveram viva.
H ELLINGER : "Agora me volto para elas."
V IOLA : Agora me volto para elas.
H ELLINGER : "Mas obrigada pela vida."
V IOLA : Mas obrigada pela vida.
H ELLINGER : "Obrigada por ter me tocado."
V IOLA: Obrigada por ter me tocado.
H ELLINGER após um instante: Como se sente?
V IOLA : Melhor.
H ELLINGER : É uma dor grande, mas agora você prossegue fortalecida a
partir dela.
Para os representantes dos pais: Obrigado a vocês dois.
H ELLINGER para o grupo: A informação que eu tinha era que ela foi
adotada e não conhece os pais.
Para Viola: Isso é verdade?
V IOLA : É sim.
O QUE DEVE SER CONSIDERADO EM RELAÇÃO À ADOÇÃO?
H ELLINGER : Fui informado de que vários participantes aqui são de juizados
de menores. Talvez deva dizer algo sobre a adoção e a nossa forma de lidar
com a questão.
O primeiro quesito: Não, ter compaixão pelos pais. É o primeiro quesito.
Não ter compaixão pela pobre mãe, mesmo se ela tiver só 14 anos, mas sim
pela criança. É o primeiro quesito. Não inverter a situação de forma que os
grandes façam o papel de pequenos e que os pequenos, que não podem se
defender, tenham de suportar tudo. Então o ajudante se fortalece e tem a
ordem certa no coração.
O segundo quesito é: algumas pessoas imaginam que seja possível fazer
algum bem à criança posteriormente. Como se a criança pudesse retornar a
seus pais e estes as acolhessem. A criança tem essa esperança com
frequência. Os pais não irão fazê-lo.
Imaginem só: os pais entregaram a criança para adoção. Queriam se ver
livres dela, para sempre. Como reagirão se a criança for até eles? Com
culpa, naturalmente. Não há mais acesso. Isso não pode ser consertado.
Desfazer-se de uma criança não é algo que possa ser consertado.
Para a criança, o que importa é concordar como foi. Os pais se desfizeram
dela, para sempre. A adoção é como um aborto, podemos comparar os dois.
Por isso, a criança deve dizer: Sim, eu concordo e renuncio a vocês para
sempre. Isso é doloroso. Então a criança ganha força.
Para Viola: Mesmo assim, você obteve a vida deles. Devem ter sido belos
pais. Você tem tudo, você tem o essencial. Porém, você só pôde permanecer
viva com a ajuda dos pais adotivos e pode se vincular a eles, realmente com
amor. Eles a mantiveram viva.
R AIVA DOS PAIS
Mais uma coisa importante: essas crianças sentem raiva dos pais
verdadeiros, pois eles a abandonaram. Por dentro, sentem raiva deles.
Muitas, vezes essa raiva é deslocada para os pais adotivos. A criança quer
proteger os pais, e os pais adotivos recebem o que era destinado aos pais.
Para Viola: Foi assim com você? Então você ainda pode fazer algo de bom
e dizer a eles que você toma tudo o que eles lhe deram e como é grande o
que fizeram por você. Então eles se alegram e dizem: "Que bom, demos
isso a você com prazer.”
Isso é algo que devemos observar. Por isso, não adianta nada tentar levar a
criança até seus pais. Todavia, é importante para a criança ter visto seus
pais. Seria bom, se isso for possível.
EXEMPLO
Existem situações em que várias coisas devem ser consideradas. Vo u dar
um exemplo.
Um padre me escreveu sobre uma mulher que havia se tornado
esquizofrênica. Sua filha teve de ser entregue a uma família. Depois, a mãe
se curou e queria a filha de volta. Sua pergunta era que conselho dar à mãe
nessa situação. Disse a ele: "A filha deve permanecer com os pais adotivos,
mas a mãe pode dizer a ela: "Agora estou aqui de novo e você pode vir até
mim quando quiser. Mas vou deixá-la com seus pais adotivos, que
cuidaram de você enquanto estive doente." Aí a criança poderá transit ar
entre a mãe e os pais adotivos. Entretanto, a mãe não pode tomá -la deles.
Isso seria a ordem aqui.
J UIZADOS DE MENORES
P ARTICIPANTE : Tenho pensado em algo relacionado ao meu trabalho. Os
juizados têm de retirar crianças de suas famílias quando ocorrem s ituações
de emergência. Crianças pequenas vão para famílias de acolhimento.
Geralmente, trata-se primeiro de um acolhimento provisório. Muitas vezes,
não é possível motivar os pais para continuar lutando após a criança ter ido
embora. A mesma coisa seria aplicável aqui neste caso?
H ELLINGER : Sim.
P ARTICIPANTE : I SSO significa que, se a situação não melhorar dentro de
alguns meses, deveríamos procurar uma família definitiva?
H ELLINGER : Sim.
Uma vez trabalhei com um caso assim. Dei um curso para mães de vilas
infantis. Uma dessas mães havia sido entregue para adoção quando criança.
Tinha em seu grupo uma criança que havia sido entregue pela mãe na vila
infantil. Agora a mãe queria pegar a criança de volta. A pergunta era qual
seria a solução boa aqui.
Constelamos isso e deixamos essa mãe da vila infantil representar a
criança. De um lado estava a mãe da vila infantil e, do outro, uma
representante da mãe biológica. A criança ficou no meio.
Houve uma briga tremenda na alma da criança: para um lado ou para o
outro? Ela ficou dividida por um longo tempo. Depois, se colocou ao lado
da mãe da vila infantil. Esse era o lugar certo.
P ARTICIPANTE : Você disse que, ao intermediar uma adoção, não devemos
ter compaixão pelos pais que estão entregando a criança. Trabalho como
agente de adoção. Por outro lado, você disse que crianças adotivas não
podem ser felizes se não existir um certo respeito pelos pais biológicos por
parte dos pais adotivos. Como isso é possível? Posso ter respeito se não
tenho compaixão? Não preciso ter um pouco de compaixão também para
poder transmitir respeito?
H ELLINGER : Onde está o respeito, na rigidez ou na compaixão?
P ARTICIPANTE : Na compaixão.
H ELLINGER : Onde está o respeito?
P ARTICIPANTE : Na compreensão da situação.
H ELLINGER : Se você tiver compreensão e compaixão, você os transforma
em crianças. Ao ser rígido, transformo-os em adultos. Onde está o respeito
aqui?
P ARTICIPANTE : Não sei. Não há uma contradição aqui?
H ELLINGER : Muitos terapeutas agem como se fossem amaciantes. Não
incentivam o indivíduo a assumir a vida com todas as suas consequências.
Por exemplo: todo cachorro sabe como deve viver como cachorro. Há
pessoas que não julgamos serem capazes de saber viver como pessoas, com
todas as consequências. Isso as faz amolecer, por causa da nossa
compaixão. O amor é forte, não é mole.
C RIANÇAS DE ORFANATOS
P ARTICIPANTE : Isso também significa que, para crianças que estão há muito
tempo no orfanato, não existe caminho de volta para seus pais, devido à
culpa?
H ELLINGER : N O caso de orfanatos, não estou bem certo. Às vezes, isso é
bom, pois a criança é aliviada e pode então voltar. Em orfanatos, a situação
é diferente.
P ARTICIPANTE : Depende do lugar?
H ELLINGER : Depende da situação toda. Hoje em dia existe muita gente que
acha que um orfanato é algo ruim. Eu também estive por cinco anos em um
internato e me senti liberado. Os orfanatos devem se orgulhar do que
fazem.
Q UE PAIS ADOTIVOS ?
P ARTICIPANTE : Tenho uma pergunta com relação à escolha dos pais
adotivos. Em casos em que as crianças se tornam órfãs de repente e os avós
se oferecem para a adoção, deve-se dar preferência a eles? Ou devemos
procurar os melhores pais adotivos para as crianças?
H ELLINGER : Deixamos a criança em sua família, esse é o princípio. Aqui
vêm, em primeiro lugar, os avós. Não há ninguém que possa atender melhor
a criança. Primeiro os avós. Depois vêm os tios e tias. Somente se ninguém
da família estiver disposto, devemos procurar outras pessoas. Esse é o
princípio: sempre que possível, deixar a criança na família, no clã.
P ARTICIPANTE : Mesmo se esses avós estiverem, de alguma forma,
envolvidos com a morte, por exemplo, da mãe?
H ELLINGER : O que quer dizer com envolvidos?
P ARTICIPANTE : Se não tiverem fortalecido o filho o suficiente para a vida
e, por isso, ele não tiver conseguido permanecer vivo.
H ELLINGER : Essas são interpretações da pior espécie. Nunca devemos
insinuar algo assim. Se os avós desejarem assumir a criança, este é o melhor
lugar para ela. Temos que saber que uma criança possui uma profunda
lealdade para com sua família e deseja permanecer nela. Quer permanecer
junto com maus pais, com pais que batem nela. A criança quer ficar com
eles. Se a tomamos dos pais e acreditamos que estará melhor em outro
lugar, a criança se pune. Devemos ser extremamente cuidadosos e ir com a
alma da criança. Devemos respeitar sua lealdade e seu amor. Quando
fazemos isso, ela pode se desenvolver. Quando tiramos a criança de sua
família partindo de uma perspectiva externa, é ruim.
É muito ruim quando um casal adota crianças de países distantes. É mel hor
para a criança morrer lá. Muitas vezes, é melhor para a criança morrer lá.
Ela permanece vinculada a seu destino. Muitos acreditam poder intervir no
destino de uma criança, como se isso fosse melhor para ela. Devemos ter
cuidado nesse aspecto. Há exceções, não quero generalizar.
Ao escolher pais adotivos, aqueles que têm filhos próprios são melhores
que os que não têm filhos. Os juizados de menores sabem disso, não preciso
dizer. Porque senão a criança será um substituto, e isso não é bom.
Entretanto, quando os pais adotivos são movidos de coração porque
desejam ajudar uma criança, isso é bom. Porém, se querem a criança só
porque não podem ter filhos próprios, não é bom. Todavia, mesmo pais
assim podem desejar fazer algo pela criança, aí é outra coisa. I sso
desempenha um papel importante aqui.
P AIS E PAIS ADOTIVOS ?
P ARTICIPANTE : Você poderia dizer mais alguma coisa sobre uma postura
benéfica dos pais adotivos em relação aos pais verdadeiros?
H ELLINGER : Os pais adotivos devem se ver como substitutos dos pais
biológicos. Devem respeitá-los. Somente ao respeitar os pais, podem
respeitar a criança. Devem amar os pais da forma que são. Então podem
amar também a criança. Se eles se colocarem acima dos pais biológicos, a
criança se vinga, dizendo: "Vocês não são melhores que meus pais."
Há muitos anos, fiz um curso de análise transacional nos Estados Unidos.
A coordenadora do curso era uma pastora. Tinha quatro filhos adotados e
vários filhos próprios. Uma das crianças havia sido adotada já com seis ou
sete anos de idade. Ela não parava de dar trabalho à família. Era, como se
diz, um psicopata, uma denominação horrível. Era uma pobre criança.
Depois de muitos anos, ela disse à criança: "Pode fazer o que quiser,
continuarei sendo sua mãe." Aí a criança desabou e disse: "Mamãe, durante
muito tempo quis que você se tornasse como a minha mãe. Agora eu
desisto.” A mãe dele era esquizofrênica. Eis a intensidade da lealdade
dessas crianças.
Tudo de bom para você e mande lembranças minhas aos seus pais
adotivos.

CRIANÇA EM TUTELA
H ELLINGER para um casal: Vou trabalhar com vocês. Creio que vocês
acolheram uma criança. Venham até aqui, então permaneceremos no tema.
H ELLINGER : O que há com a criança em tutela?
M ULHER : A criança chegou ao lar com nove anos, porque o pai havia
matado a mãe. Ele foi levado para o orfanato com os irmãos. É o segundo
mais velho de quatro crianças.
H ELLINGER : Vocês também têm filhos próprios?
M ULHER : Tenho dois filhos próprios, mas não temos filhos juntos.
H ELLINGER : O que houve com o seu primeiro marido?
M ULHER : Ele se casou novamente e tem mais um filho.
H ELLINGER : Vocês se divorciaram?
M ULHER : Sim, mas meus dois filhos possuem pais diferentes.
H ELLINGER : Você foi casada várias vezes?
M ULHER : Não, só uma vez.
H ELLINGER : Não faz diferença. Se o produto é bom, as circunstâncias não
importam. Quantos anos tem a criança?
M ULHER : 19. Ele só veio para nós com 16.
H ELLINGER : E quantos anos tinha quando o pai matou a mãe?
M ULHER : Nove.
H ELLINGER : Vocês assumiram algo pesado.
M ULHER : Sinto que nos foi imposto. Foi uma tarefa que...
H ELLINGER : A criança vai se tornar um assassino. A criança vai se tornar
um assassino, a menos que encontremos uma solução.
Eu tinha um grupo de supervisão em Kassel. Havia uma mulher que dizia
que o marido de sua irmã a havia matado. Ela havia assumido as duas
crianças. Estou dizendo isso como preparação.
Então constelei isso. A representante da irmã da mulher logo foi embora,
com medo do marido. Ele simplesmente ficou lá, olhando para o chão.
Então deitei-a no chão, pois estava morta, e fiz com que o marido olhasse
para ela.
Quando há assassinos em uma constelação, observamos que eles não olham
diretamente e que respiram superficialmente. É por isso que, hoje de
manhã, precisei fazer com que você também olhasse diretamente e
respirasse fundo. Só então o sentimento pode irromper. Assim, levei esse
homem até a mulher morta, fiz com que ele a olhasse e respirasse fundo.
De repente, a dor surgiu nele: uma dor inacreditável. Ele foi até a mulher
no chão e eles se abraçaram. Assassinos e vítimas estão muitas vezes
ligados por um amor profundo.
Eles ficaram lá deitados, e as crianças permaneceram afastadas com a tia.
Uma das crianças quis ir até o pai. Eram duas meninas, a outra quis ir até
a mãe. Então deixei que as duas se deitassem lá e disse: "Uma menina se
tornará uma assassina e a outra uma vítima.” Isso é lealdade.
Então interferi: levantei as duas meninas, e o pai disse às filhas: Vão para
sua tia, ela cuidará de vocês.” Então a tia as tomou nos braços. Elas se
viraram e as duas meninas estavam aliviadas, muito aliviadas, e puderam
prosseguir.
Essa é a dinâmica em um caso assim. Agora temos que ver o que há com
essa família. Precisamos de um representante para o menino, para seu pai
e de uma representante para sua mãe.
Os representantes do pai e da mãe estão lado a lado. O representante do
filho está em frente a eles. Após um instante, ele levanta as mãos devagar,
como se quisesse pegar o pescoço de alguém.
H ELLINGER : Essa é a energia do agressor, já se pode ver que ele se tornará
um assassino.
Para a mulher: Como ele a matou?
M ULHER : Ele cortou seu pescoço. São muçulmanos.
H ELLINGER : E O que aconteceu com ele?
M ULHER : Está em uma clínica psiquiátrica.
O pai fecha os punhos e os coloca em frente ao rosto. A mãe treme. O filho
quer ir até o pai, mas Hellinger o segura.
Após um instante, Hellinger pede à mãe que se deite no chão. O pai também
vai para o chão lentamente. Após um instante, eles se abraçam. Hellinger
pede ao filho que vá até eles e abrace os dois. O pai e a mãe estão
chorando. O filho acaricia a mãe. Após um instante, Hellinger afasta o
filho deles. Ele se levanta, Hellinger o vira de costas para eles. Ele escolhe
um homem, coloca em frente ao filho e lhe diz: você representa o destino.
Hellinger: Vou escolher você. Você é o destino.
Para o filho: Curve-se diante dele.
Após um instante: Olhe mais uma vez para trás para seus pais. Você vai
levar essa imagem no seu coração. Vire-se novamente.
Hellinger pede ao destino que se coloque atrás dele.
H ELLINGER para o filho: Como você está agora?
F ILHO : Bem. Estou em paz.
Para os pais tutelares: Têm uma noção agora?
M ULHER : Sim, obrigado.
H ELLINGER : Vocês não devem dizer nada a ele. Confiem-no a seus pais, da
forma como viram aqui. Agora vocês podem olhá-los com amor e respeito.
É um destino difícil para todos. Mas que amor existe entre eles no final!
Isso é certo. Vocês não precisam separá-lo de seus pais. Ok? Certo.
H ELLINGER para o grupo: Obviamente, fico pensando em que
emaranhamento do destino o pai do menino se encontrava. O que houve em
sua família? Da mesma forma que o menino está ou estava em perigo de se
tornar um assassino, talvez ele tenha entrado nisso por causa de
emaranhamentos, sem estar livre. Vejam como é sempre difícil distinguir
entre bom e mau.
Acho que podemos parar por hoje. Foi um dia rico e precisamos deixar
atuar. É bom que vocês não falem sobre isso e simplesmente deixem isso
atuar em suas almas.
C OMPLEMENTO
H ELLINGER : Gostaria de dizer mais uma coisa sobre essas constelações.
Elas atuam através da imagem. Qualquer tentativa de explicação destrói a
imagem. Falar sobre isso retira a força da imagem. Nós a deixamos como
é. É uma imagem da alma, das profundezas da alma. Quando chegamos
com a razão e saímos interpretando tudo, a alma se retrai.
Quando relembramos tudo o que veio à tona hoje, que profundidade da
alma! Em que emaranhamentos os indivíduos estão presos! Quão grande é
cada família em suas particularidades, com tudo o que ocorreu ali! Quando
entendemos isso, nos tornamos humildes. A partir dessa humildade,
podemos lidar bem mais facilmente com destinos pesados e também com
aqueles que têm um destino pesado. Serenos, confiamos em forças maiores.
Para concluir, contarei mais uma pequena história. Não sei por que a
escolhi, mas irá servir para alguma coisa. A história é a seguinte:
H ISTÓRIA : O CAMINHO
O filho vai até o velho pai e pede: "Pai, me dê a sua bênção antes de partir."
O pai diz: "Minha benção será lhe acompanhar numa parte do caminho da
sabedoria." Na manhã seguinte, saíram para o campo e, partindo do va le
estreito, subiram uma montanha.
Quando chegaram ao alto, a tarde caía, mas a paisagem estava banhada em
luz por todos os lados, até o horizonte.
O sol se pôs, e com ele se foi o esplendor. Caiu a noite. Contudo, quando
escureceu, as estrelas luziram.

CONSEQUÊNCIAS DE UM ESTUPRO
H ELLINGER para uma mulher: Agora é a sua vez. Qual é a questão?
M ULHER : EU fui adotada. Nasci em 1947, fiquei quatro semanas com minha
mãe biológica e minha adoção foi autorizada seis meses depois. Há três
anos procurei minha mãe biológica e a encontrei. Tenho um meio-irmão e
uma meia-irmã.
Há três anos descobri, a partir dos meus arquivos, que sou fruto de um
estupro. Em meus arquivos consta que minha mãe foi estuprada por dois
policiais poloneses em abril de 1946. Ninguém nunca falou comigo sobre
meu pai. Tampouco pensei nele por quase toda a minha vida.
H ELLINGER : I SSO basta. Certa vez, alguém me disse durante um curso: "Sou
o fruto de um estupro.” Eu lhe disse: “Para você, foi uma bênção."
M ULHER : Sim.
H ELLINGER para o grupo: Devemos ver isso desta forma. Uma vez conduzi
uma constelação na Holanda. Uma pessoa disse: "Minha avó foi estuprada
por nove russos." Então Coloquei esses russos, juntamente com o avô. O
avô não olhava para a mulher. Ele olhava para longe, provavelmente pa ra
seus camaradas mortos. Sua mulher se colocou ao lado dos estupradores e
disse: "Pelo menos eles olham para mim."
H ELLINGER : Farei uma constelação simples. Preciso de dois policiais e de
representantes para ela e para sua mãe.
Hellinger posiciona a mãe da mulher diante dos dois policiais e a filha um
pouco de lado.
A mãe está de pé, de punhos fechados. Um dos policiais lhe estende a mão.
A mãe vai lentamente até ele e segura sua mão que está estendida. A filha
se coloca ao lado dela. O policial a abraça com a mão direita. Então eles
se abraçam e ela encosta a cabeça no ombro dele. Ela acaricia seu rosto
e os dois se abraçam afetuosamente. A filha recua, assim como o outro
policial A mãe se coloca atrás desse policial e ele a abraça por trás. 0
outro policial se ajoelha diante deles e chora alto.
H ELLINGER para a mulher: Como você está?
M ULHER : Bem.
H ELLINGER : Para onde vai seu olhar?
M ULHER : Para o pai.
H ELLINGER : Quem é ele?
A mulher aponta para o policial que está chorando no chão: Ele.
H ELLINGER : Ok, vou parar por aqui.
Para o grupo: Coisas estranhas vêm à tona.
Para a mulher: Como você está?
M ULHER : Estou bem.
H ELLINGER para o grupo: Quem é capaz de penetrar os segredos do amor?
É muito importante que saibamos uma coisa: a mãe que rejeita o homem
rejeita o filho.
Para a mulher: É por isso que ela se desfez de você. E como você se cura?
Tomando seu pai em seu coração. Você é uma parte dele. Tudo bem?
Podemos parar por aqui? Ok.

CRIANÇA DEFICIENTE
H ELLINGER para o grupo: Continuarei o trabalho agora.
Para a mãe de uma criança deficiente: O que há com a criança? Qual é a
sua deficiência?
M ÃE : D O ponto de vista médico, é um distúrbio metabólico congênito, com
expectativa de vida curta e sem chance de cura.
H ELLINGER : Com quantos anos está a criança?
M ÃE : Dez e meio.
H ELLINGER : É menino ou menina?
MÃE: É menino: Martin.
H ELLINGER : E O pai?
M ÃE : N ÓS nos separamos há sete anos, mas nos revezamos para cuidar do
filho, a cada fim de semana. Ele se dedica inteiramente a ele. Dá apoio total
a ele e a mim. Sempre esteve ao nosso lado durante todos esses anos.
H ELLINGER : O que lhe oprime no momento?
M ÃE : E U tenho fases de consciência pesada por ter entregado a criança ao
orfanato. Isso é recorrente. Sei que ele está bem, mas não consigo parar de
pensar nisso.
H ELLINGER : Acho que contei uma história sobre uma mãe cujo filho
deficiente estava em um orfanato em meu livro "O Essencial é Simples”. 1
Na época, isso me comoveu muito.
Vamos olhar para isso agora e eu já vou colocá-la na constelação. Fique
ali.

1 Este livro foi publicado pela Editora Atman.


Hellinger escolhe um representante para o menino deficiente e pede para
que ele se coloque diante dela.
O menino deficiente se coloca diante de sua mãe. Após um instante,
Hellinger escolhe um representante para seu pai e o inclui na constelação.
O pai olha para o menino, a mãe recua. Então, o pai dá alguns passos para
frente, aproximando-se do filho, estende sua mão direita e acaricia sua
bochecha. Depois, retira a mão, vai lentamente para o chão, estende as
mãos e olha para o chão. O menino também vai para o chão, ajoelha-se
diante do pai e faz o mesmo movimento. A mãe chora. Então o pai estende
a mão até a cabeça do menino e a acaricia longamente. Ele continua
olhando para o chão.
H ELLINGER para a mãe: Sabe o que isso significa?
M ÃE : E U não tenho nada a ver com isso.
H ELLINGER: O que houve na família do homem?
M ÃE : O avô do Martin perdeu um irmão muito cedo. Fora isso não sei de
mais nada.
H ELLINGER : Há algo poderoso atuando.
Ela balança a cabeça.
H ELLINGER : De onde vem a doença? É hereditária?
MÃE: É uma doença hereditária de ambos os lados, um defeito genético.
H ELLINGER : D O seu lado e do lado dele?
M ÃE : Sim, de ambos os lados.
Hellinger pede que ela se ajoelhe diante dos dois. O pai puxa o filho com
mais força para si. Sem erguer-se do chão com o filho, ele estende uma
mão para a mãe, que a toma. O pai puxa o filho para ainda mais perto. Ele
olha para o pai. Então a mãe também acaricia a cabeça do menino, mas
retira a mão de volta.
O pai se ajoelha. Ambos acariciam as costas do filho, enquanto se abraçam
com a outra mão.
Após alguns instantes, o homem acaricia o rosto de sua mulher com uma
das mãos e ela apoia a cabeça no filho. Todos estão ligados entre si em
um profundo amor.
H ELLINGER : Acho que posso parar por aqui.
H ELLINGER para a mãe: O amor, incorporado ao dever, a partir da
realidade, possui uma enorme grandeza e força no final. No amor
convencional não há algo tão profundo assim.
Vocês dois devem ficar juntos novamente. Os sentimentos de culpa
dificultam isso. Como sempre, sigam o caminho, e isso será bom. Tudo
bem?
Ok. Tudo de bom para vocês.
H ELLINGER para o grupo: Vou contar uma pequena história:
Um discípulo foi até o mestre e disse: "Diga-me o que é a liberdade."
"Que liberdade?" - perguntou o mestre.
A primeira liberdade é a insensatez. Ela se assemelha ao cavalo que,
relinchando, arremessa o cavaleiro, mas depois sente o seu pulso ainda
mais firme.
A segunda liberdade é o arrependimento. Ela se assemelha ao timoneiro
que, após o naufrágio, permanece nos destroços, ao invés de subir no barco
salva-vidas.
A terceira liberdade é a compreensão. Infelizmente ela vem depois da
insensatez e do arrependimento. Assemelha-se ao caule que balança ao
vento e, por ceder onde é fraco, permanece de pé.
O discípulo perguntou: "Isso é tudo?"
O mestre respondeu: “Algumas pessoas acreditam buscar elas mesmas a
verdade de suas almas. Entretanto, a grande alma pensa e procura através
delas. Assim como a natureza, ela pode permitir-se muitos erros, pois está,
sempre e sem esforço, substituindo os maus jogadores. Mas, àquele que lhe
permite pensar, concede, às vezes, certa liberdade de movimento. E, como
um rio que carrega o nadador que se deixa levar, ela o carrega até a
margem, unindo sua força à dele."

SUPERVISÕES
H ELLINGER : Agora vamos tratar de casos de supervisão. Quem tem um caso
de supervisão?
M ENINO QUEIMADO
H ELLINGER para uma educadora: Qual é a questão?
E DUCADORA : Há dez anos cuido de um menino que sofreu queimaduras
graves aos três anos. Sua mãe morreu queimada no incêndio. Ele conheceu
seu pai há apenas três anos, mas não tem nenhum contato com ele.
H ELLINGER : Por que não o conheceu antes?
E DUCADORA : O S pais viviam separados. A mãe havia expulsado o pai antes.
O menino primeiramente foi criado pelos avós, mas sofreu muitas
agressões vindas de fora. Ou seja, foi muito rejeitado devido à sua
aparência monstruosa.
H ELLINGER : Como ocorreu o incêndio?
E DUCADORA : Provavelmente foi ele quem o provocou.
H ELLINGER : O menino?
E DUCADORA : Sim, morava em uma república, na qual ninguém se
preocupava com ele. A mãe era viciada em drogas e acreditam que ele
estava brincando com fogo.
H ELLINGER : Quem provocou o incêndio?
E DUCADORA : Ele com certeza que não.
H ELLINGER : Foi a mãe, claro. Em vista das circunstâncias, não podemos
culpar o menino. Quantos anos ele tem agora?
E DUCADORA : 18.
H ELLINGER : Qual é o outro problema?
E DUCADORA : Ele vive há dez anos conosco, no orfanato. Foi ele quem
escolheu o orfanato. Ele quis ir para lá. Até agora, tem feito tudo: escola e
profissão. Mas não tem alegria de viver. É muito depressivo. Às vezes,
tenho a sensação de que essas questões mal resolvidas o sufocam.
H ELLINGER : Por que o pai nunca fez nada a respeito?
E DUCADORA : Não sabemos.
H ELLINGER : Foi feito contato com ele?
E DUCADORA : Por parte dos avós sim, mas eles controlavam isso um pouco,
para proteger o menino queimado.
H ELLINGER : Ele deve ir para o pai. Desde o começo devia ter ido para o pai
e para mais ninguém. Ok, isso seria o primeiro caso.
M ENINO QUEIMADO : CONTINUAÇÃO
H ELLINGER após um longo intervalo: Agora vou continuar trabalhando com
o caso da criança queimada. Vamos constelar a criança, a mãe, o pai e os
avós. Vou escolhê-los e você os posicionará.
A mãe fica em frente ao menino. Seus pais ficam atrás dela. O pai do
menino fica separado. O menino coloca uma mão em frente à barriga,
depois ambas as mãos em frente à boca e em frente ao pescoço. A mãe está
com ambas as mãos em frente ao peito. Sua mãe e seu pai estão com os
punhos fechados, principalmente o pai. Após um instante, Hellinger vira a
mãe para seus pais. Nesse meio tempo, o pai do menino vai até ele. Os dois
se abraçam afetuosamente.
H ELLINGER : Acho que isso é o suficiente. Há uma energia assassina aí
assumida pelo pai da mãe. Algo deve ter acontecido. Olhe para os punhos
dele. O menino deve ir para o pai. Ele não pode ir para sua mãe, pois a
energia assassina é muito forte lá.
H ELLINGER para o pai da mãe do menino: O que há com você?
P AI DA MÃE DO MENINO : Uma fúria incrível. É inexplicável. E um arrepio
gelado.
H ELLINGER : Algo aconteceu aí. É aí que está. Ok? Certo, obrigado.
Para o representante do pai da mãe do menino: Saia do papel. A melhor
forma é: curve-se brevemente diante da pessoa que você representou e
então se vire para o outro lado. Certo? Ok.
H ELLINGER após um instante para a educadora: Sabe o que você pode dizer
ao menino? É melhor ser queimado do que ser um assassino.

O PAI SONHADO
H ELLINGER para um educador: Qual é a sua questão?
E DUCADOR : Acompanhamos um caso em nossa instituição há mais de dez
anos. Trata-se de quatro irmãos que, durante a puberdade, desenvolveram-
se de formas bastante diferentes e complicadas, causando dificuldades na
família adotiva. Acreditamos que os pais adotivos não respeitaram o
sistema de origem, que se tratou mais de uma afirmação verbal.
Adicionalmente, vieram os temas derivados do sistema de origem. Há
muita morte aí. Das quatro crianças, os dois meninos já tentaram se matar,
ou seja, sempre se colocavam em risco e também tinham atitudes
criminosas. As meninas seguiram um caminho diferente, mas também não
muito saudável.
H ELLINGER : São dois meninos e duas meninas?
E DUCADOR : Sim.
H ELLINGER : E O que vocês sabem sobre a família de origem?
E DUCADOR : A mãe biológica tem ao todo seis filhos, de três pais diferentes.
Os dois primeiros, um menino e uma menina, do mesmo homem. Os três
homens já foram presos devido a álcool e violência. O que está mais óbvio
para nós é que havia 13 filhos no sistema de origem do pai dos dois filhos
mais velhos. Dez desses 13 filhos morreram. Eles morreram de fome ou em
acidentes, fugindo durante a guerra. Ele é o último desses 13 filhos que
sobreviveu.
H ELLINGER : Gostaria de olhar isso junto com vocês. Vou fazer isso de
forma separada, trabalhando cada vez com os filhos de um dos pais, uma
vez que se trata de destinos diferentes. Tomemos então o que você disse
por último: a família na qual dez filhos morreram.
H ELLINGER : Por que o pai foi preso?
E DUCADOR : Supostamente por ter deixado de pagar pensão.
H ELLINGER : Com certeza supostamente. Qual foi o motivo real?
E DUCADOR : Ninguém fala sobre isso. Isso é o que está em primeiro plano,
o que sabemos.
H ELLINGER : Por quanto tempo ficou preso?
E DUCADOR : Por mais ou menos dois anos.
H ELLINGER : Existe prisão por falta de pagamento de pensão? E por tanto
tempo? Não sei muito a esse respeito, tenho que me informar.
E DUCADOR : Tem mais uma história. A mãe estava grávida de sete meses
do segundo filho, e o homem queria que ela voltasse para ele. Eles tinham
se separado. Ele foi drogado até o apartamento da mãe, com uma arma na
mão, ameaçou-a dizendo: "Quero que você volte para mim." Nesse
momento, começaram as contrações e o filho nasceu prematuro, com sete
meses. A criança lutou para sobreviver: pesava apenas 1000 gramas. Há 20
anos isso era difícil, mas o menino conseguiu.
H ELLINGER : A filha mais velha é a irmã dele?
E DUCADOR : A filha mais velha é a irmã. Há uma diferença de um ano entre
os dois.
H ELLINGER : O que houve com o pai do pai?
E DUCADOR : O pai do pai também esteve envolvido com álcool e violência.
Houve tensões na família, mas não se sabe de mais nada.
H ELLINGER : Trata-se então da família na qual dez filhos morreram?
E DUCADOR : Sim. Esse é o pai dessas 13 crianças.
H ELLINGER : Esses dois são os filhos mais velhos da mãe?
E DUCADOR : Sim, tanto da mãe quanto do pai. Ambos eram bem jovens
quando os filhos nasceram: 19 e 20 anos.
H ELLINGER : V OU começar com o pai e a mãe.
Para o educador: Escolha os participantes e coloque-os.
Ele os escolhe e os coloca frente a frente. Não há movimento entre eles.
Hellinger escolhe uma mulher para representar a filha mais velha dessa
relação e a inclui na constelação. Após um instante, o homem vai até a
mulher e lhe estende a mão. Após hesitar um pouco, ela vai até ele e apoia
a cabeça em seu peito. Os dois olham para a menina.
H ELLINGER após um instante para essa menina: O que há com você?
M ENINA : Não consigo suportar ver os dois assim. Fico com raiva. Não
acredito no sorriso dele. Quero dizer a ele: "Não minta para mim.” Minha
cabeça está girando.
H ELLINGER para o educador: Algum dos dois teve relações anteriores?
E DUCADOR : A mãe foi abusada pelo pai.
O pai e a mãe se olham e sorriem um para o outro.
H ELLINGER : O movimento mostra que o problema não está no pai. Está
claramente na mãe.
Hellinger escolhe um representante para o pai da mãe e o coloca diante
dela, a alguma distância. O homem segura a mulher ainda mais
firmemente.
Hellinger coloca o homem de lado e a mulher diante de seu pai. A mulher
começa a tremer. Hellinger coloca a mão sobre suas costas. Ela bate com
as mãos em frente ao rosto e começa a soluçar.
H ELLINGER para a mãe: Olhe para ele.
Ela vai lentamente até seu pai e abraça seu pescoço. Eles se abraçam
fortemente por muito tempo.
H ELLINGER após um instante para a menina: O que há com você agora?
M ENINA : Ver isso me agrada.
Após um instante, a mãe e seu pai se olham. A mãe quer se afastar do pai.
H ELLINGER: Vá com o movimento.
Após um instante: O movimento vai para a outra direção. Curve sua cabeça.
Após mais um instante: Ok, agora recue.
Ela recua lentamente. Hellinger coloca sua filha ao seu lado e os dois se
abraçam de lado.
Hellinger aponta com a mão para o pai da filha.
H ELLINGER para a mãe: Diga-lhe: "Esse é seu pai."
M ÃE : Esse é seu pai.
H ELLINGER : Na imagem da mãe, o pai dela era o pai da criança e na imagem
da filha também.
Hellinger escolhe uma representante para a mãe da mãe e a posiciona a
uma certa distância de seu marido. A menina se posiciona diante dela. A
avó não olha para seu marido.
H ELLINGER : Ela não olha para seu marido.
O pai da menina vai lentamente em sua direção. Eles se abraçam
afetuosamente.
H ELLINGER : Quando olhamos para isso, vemos que se trata de
circunstâncias estranhas.
Após um instante: Vou interromper aqui. Está tudo de cabeça para baixo.
Obrigado a todos.
Para o educador e sua esposa: Vocês têm uma tarefa difícil.
E DUCADORA : Não pudemos fazer nada enquanto instituição, além de reunir
as informações. Durante as discussões do caso, os pais adotivos nunca
concordaram que examinássemos a questão. Isso não foi possível.
H ELLINGER : A S crianças não estão em boas mãos. Todavia, vocês agora
podem entender melhor a menina e aquilo em que ela está emaranhada.
P AI : Nada me separava mais da minha filha. Havia algo ameaçador da parte
da mãe, algo de ruim.
H ELLINGER : Temos que deixar isso descansar agora. Talvez a benevolência
traga algum entendimento na alma, com o qual vocês possam encontrar
outro caminho.

AGRESSORES E VÍTIMAS
E DUCADORA : Você poderia dizer algo geral sobre como lidar com
agressores e vítimas? Segundo o que tem ocorrido aqui, bom e mau
evidentemente não são como parece ser. Pode dizer mais alguma coisa
nesse contexto?
H ELLINGER : N O que diz respeito a bom e mau, geralmente é o contrário do
que se apresenta. Nessa família aqui pudemos ver: a força negativa estava
na mãe, na mãe da mãe.
E DUCADORA : Minha pergunta é voltada para o fato de termos sempre que
lidar com o agressor ou que nos envolver com os agressores. Os agressores
são sempre rejeitados, os que cometem abusos são sempre rejeitados. Isso
parece estar completamente errado. Tem de haver outros caminhos, pois,
dessa maneira, não chegamos a objetivo algum.
H ELLINGER : S Ó podemos lidar com um agressor se dermos a ele um lugar
em nosso coração. Então ele amolece, não antes. Qualquer intervenção o
endurece. Devemos ter muito cuidado. Vou dar um exemplo:
Há muitos anos, realizei um curso na Suíça. Um assistente social me disse
haver uma menina que havia sido abusada pelo avô e pelo tio. Ele queria
denunciá-los. Disse a ele para não fazer isso. É ruim para a criança quando
os agressores são denunciados.
Encontrei-me com ele alguns anos mais tarde e ele disse que os dois haviam
sido condenados. Perguntei a ele como estava a menina. Ele disse que ela
tentava pular da janela constantemente.
Ele causou isso com a denúncia. As vítimas são leais. Na verdade, são
proibidas de demonstrar isso. Vimos isso aqui. A pressão geral diz que se
trata de algo terrível e, por isso, não podem demonstrar o amor.
O pior, na verdade, não é o ato. Não quero atenuar isso, mas as ações de
certas pessoas intimidam as crianças e as impedem de mostrar seus
sentimentos de verdade. Uma coisa está clara: há um amor profundo aí.
Apenas após reconhecê-lo é possível fazer algo para retirar a criança desse
emaranhamento. Nesse sentido, isso é um passo muito importante.
Vou dar um exemplo. No México, fizemos uma constelação com uma
sobrevivente do holocausto. Ela era bastante agressiva. Coloquei
representantes para as vítimas e para os agressores e ela se colocou em
frente aos agressores, de maneira desafiadora. Um deles disse a ela:
"Enquanto você me olhar dessa forma, ficarei cada vez mais forte. Se você
for humilde, não conseguirei mais ficar de pé."
A maioria dos agressores se sente superior. Quando, no trabalho social,
alguém se sente superior a um agressor, ele também se torna um agressor.
O sentimento de superioridade faz com que nos tornemos iguais a ele.
Também temos sentimentos agressivos e o levamos à justiça. Então somos
idênticos ao agressor, ao combatê-lo dessa maneira. Precisamos ter muito
cuidado aqui. Nesses casos, sempre tenho a criança em vista. Pergunto -me
o que se passa na alma da criança. Também não estou defendendo que não
devamos levar essas questões à justiça. São duas coisas diferentes. Uma é
de responsabilidade das autoridades públicas. Contudo, quem tem a criança
em vista não deve confundir as coisas. Ele não deve, simultaneamente,
iniciar essa perseguição. Só assim podemos ajudar a criança.
E DUCADORA : Tenho mais uma pergunta sobre as pessoas que atuaram como
representantes. No caso de um abuso, quando é colocada na constelação
uma mulher que tenha vivenciado um abuso em sua própria história, el a
reage de forma diferente de alguém que não tenha vivenciado isso
pessoalmente? Isso faz diferença na constelação?
H ELLINGER : Em geral, não. Quando é assim, ela também pode resolver algo
para si vivenciando isso.
A INTERRUPÇÃO
H ELLINGER : Alguém tem mais algum caso de supervisão? Qual é a sua
questão?
E DUCADORA : Há um ano acompanho uma família. Uma família bastante
jovem, com três crianças pequenas. Ambos os pais foram criados em
orfanatos. A criança mais velha esteve há pouco tempo com uma família
tutelar. Há uma grande tensão na família, uma grande pressão. As crianças
parecem ter sido adestradas. Até o cachorro vai para o canto quando o pai
entra em casa.
H ELLINGER : Algum dos pais esteve antes em outra relação?
E DUCADORA : Não. Eles estão juntos desde muito cedo, mas há muitas
histórias de crianças entregues para adoção e ele...
H ELLINGER : Não, não. Continuo com a pergunta: houve alguma relação
anterior de algum dos dois?
E DUCADORA : Não, não se sabe de nada.
H ELLINGER : Está claro que o homem deve estar representando alguém da
família da mãe.
E DUCADORA : Talvez o irmão dela, ele está na cadeia. A mãe foi casada
cinco vezes e depois ainda teve mais dois parceiros. Os filhos dos dois
primeiros casamentos foram sujeitos à adoção forçada. Sua mãe teve dois
filhos: ela e um irmão que agora está na cadeia por causa de drogas. Aí tem
mais um filho de um...
H ELLINGER para o grupo: Quem ela não mencionou?
E DUCADORA : O pai dos dois.
H ELLINGER : Exato. E ele é o importante. Tudo que não é mencionado é
importante.
H ELLINGER : I SSO já é suficiente. Vamos colocar primeiro: o pai, a mãe, os
três filhos e um cachorro. Precisaremos, obviamente, de um representante
para o cachorro também.
A representante da mulher tampa os ouvidos fortemente com as mãos. A
criança mais nova cai no chão e fica deitada.
Hellinger escolhe um representante para o pai e o coloca diante da mulher.
Ela continua tapando os ouvidos, vira-se para o outro lado e dá alguns
passos para fora.
Hellinger escolhe uma mulher e a coloca ao lado do pai da mulher.
H ELLINGER para a mulher: Vire-se. Abra os olhos.
Ela continua com ambas as mãos na cabeça.
H ELLINGER para a educadora: Pela reação, algo de muito ruim deve ter
acontecido.
H ELLINGER para a mulher: O que você está vendo?
M ULHER : Minha cabeça. Golpes. Cabeça esmagada.
Hellinger escolhe mais uma representante e a coloca deitada de costas
entre a mulher e sua mãe e seu pai. A mulher continua segurando a cabeça
com ambas as mãos. Então, caminha para trás. Sua mãe vai em sua
direção. Ela foge, mas a mãe a persegue. Ao se aproximar de seu marido,
este a toma nos braços e a segura firme.
H ELLINGER para a mãe da mulher. Olhe para o chão, olhe para a morta no
chão à sua frente.
A mãe da mulher se vira para a morta. Então, se ajoelha e a toca. Após um
instante, a mulher tira as mãos da cabeça. Ela se acomoda junto ao seu
marido. Os dois se abraçam.
H ELLINGER após um instante para a primeira criança: O que há com você?
P RIMEIRA CRIANÇA : Quero ir embora daqui, não quero olhar. Estou
oscilando entre colapsar e me rebelar. Quero ir embora.
H ELLINGER para a educadora: Houve um assassinato na família. Pudemos
ver isso também pela reação da terceira criança, que caiu no chão. A
pergunta é apenas: onde?
E DUCADORA : Sei apenas de um aborto dela. Fora isso não sei de mais nada.
H ELLINGER: V OU interromper por aqui. Vou deixar que permaneça como
está. Obrigado aos representantes.
H ELLINGER : Como o cachorro se sentiu?
C ACHORRO : Tive compaixão pelo meu pequeno dono.
H ELLINGER para o grupo: Com relação ao procedimento, interrompi a
constelação duas vezes, sem prosseguir depois. Esse é o procedimento
correto. Quando algo não prossegue, devemos interromper. A interrupção
é uma medida terapêutica. Reconhecemos os limites que nos são impostos.
Geralmente, a interrupção ocorre no ápice da energia. Então algo entra em
movimento na alma. Não na própria alma: algo entra em movimento no
sistema. Agora devemos confiar nisso. Anteriormente, obtivemos uma
informação importante com relação à cabeça. Havia algo relacionado à
cabeça. Eu levaria isso a sério: cabeça esmagada. Aí vemos o que acontece.
Algo entra em movimento. Isso basta para começar.
Para os educadores: Sempre fico admirado com o que vocês assumem para
si.
A EDUCADORA QUE TROUXE o CASO: Tenho mais uma pergunta rápida. O
pai é muito agressivo, verbalmente agressivo. Isso pode ter algo a ver com
isso, ou será que está mais relacionado com a história dele e de sua família?
Isso foi o que ele me disse. Porque ele percebe que interrompe tudo por
toda a parte e tem medo de matar alguém e foge de autoridades o tempo
todo.
H ELLINGER : Naturalmente, isso também é algo importante nele. Mas aqui
ele foi o mais tranquilo. Também devemos ter em mente que, nas relações
de casal, existe o estranho fenômeno de que um assume algo pelo outro.
Isso chega ao ponto de um parceiro se matar no lugar do outro. Devemos
tomar cuidado aí. Porém, ficou claro para mim que tínhamos de começar
pela mãe. Geralmente é o contrário. Você queria começar com o pai, mas
geralmente é o contrário.
E DUCADORA : Ainda tenho uma pergunta sobre a constelação: como devo
proceder quando a família quiser saber o que surgiu na constelação? Eles
não vieram comigo, mas a pergunta vai surgir com certeza. Como posso
lidar com isso?
H ELLINGER : Diga exatamente o que aconteceu, sem comentários. Uma
criança caiu no chão, a outra se virou para o outro lado, uma segurou a
cabeça, exatamente isso. Apenas conte como foi sem fazer perguntas. Veja
então o que acontece.
E DUCADORA : Sem avaliar também?
H ELLINGER : Sem avaliar, isso é muito importante. Simplesmente descreva
o que se passou.

GRAVIDEZES INTERROMPIDAS
E DUCADOR : Gostaria de saber qual é o significado das interrupções de
gravidez. Trabalho no acompanhamento de conflitos de gravidez. Há
alguma diferença relacionada ao tempo decorrido? Acabei de ouvir a
pergunta: "Quando ocorreu a interrupção da gravidez?"
H ELLINGER : Quando se trata de uma interrupção tardia, ela é vivenciada
como um assassinato. Quando é mais cedo, nem sempre. Às vezes, é
vivenciado de outra maneira, mas existem contextos bastante estranhos aí .
Uma vez dei um curso na Rússia, em Moscou. Havia um casal, e eles diziam
que não podiam ter filhos, mas que gostariam muito. Perguntaram se eu
podia ajudar.
Olhei para a mulher e ela era bem engraçada. Disse-lhe que era visível que
ela não queria ter filhos. Então ficou séria. Perguntei a ela o que havia
ocorrido em sua família de origem. Sua mãe havia feito oito abortos. Então,
Coloquei no chão oito representantes para as crianças abortadas, e ela se
sentou ao lado deles. Aí ela ficou bem. Então, fiz com que todos se
levantassem e disse a essas crianças abortadas que se colocassem atrás dela.
Ela se apoiou nelas. Coloquei seu marido ao lado e, na frente, um
representante para a criança por vir.
Estava claro: ela recebia dos irmãos abortados a força e a coragem para ter
seus próprios filhos. Ou seja, eles pertenciam.
Outro exemplo: em um curso em Verona havia uma mulher que dizia ter
medo de que as suas duas crianças morressem. Coloquei-a, o marido e as
duas crianças. À sua frente, Coloquei a morte: um homem. Ele foi
imediatamente para o chão e se sentou. A morte não faz isso. Ficou claro
que esse homem representava uma criança. Então perguntei à mulher o que
havia acontecido na família de sua mãe. Ela disse que a mãe havia abortado
nove vezes e se vangloriava disso.
Colocamos as crianças abortadas e a mãe atrás. A mãe imediatamente
começou a chorar intensamente e sentou-se ao lado dos filhos abortados.
Estava claro: a morte que a mulher temia era a sua mãe. A partir daí
pudemos encontrar a solução para ela.
Os abortos provocados deixam uma marca profunda na alma, uma marca
muito profunda. Isso é frequentemente renegado, com os melhores motivos
possíveis. A alma não escuta esses bons motivos. Às vezes, dizemos que o
aborto é como um meio anticoncepcional, por exemplo, como acontece no
Japão. Isso é vivenciado pelas mulheres de lá da mesma forma que aqui.
Não há diferença. É vivenciado como uma intervenção profunda na alma.
Crianças abortadas pertencem à família e são vivenciadas assim. Quando
isso vem à tona e elas são acolhidas, o seu efeito é benéfico.

PERDOAR OU PERSEGUIR
E DUCADORA : Ainda tenho uma pergunta rápida sobre separação, no que diz
respeito a perdão ou perseguição judicial. Há uma mulher em meu trabalho
que foi enganada pelo marido após a separação e perdeu todo seu dinheiro
para ele. Ela não consegue ficar em paz, porque fica o tempo todo se
perguntando: devo processá-lo ou devo deixar isso quieto? Essa pergunta
não a deixa em paz. Não sei o que dizer a ela.
H ELLINGER : Você deve aconselhá-la a dizer: "Eu sabia que você era um
mau-caráter e agora assumo as consequências." Aí ela ficará em paz.
E DUCADORA : Mas ela jura que não sabia.
H ELLINGER : Vamos constelar isso? Ok.
Hellinger escolhe representantes para a mulher, o homem e o dinheiro.
O representante do dinheiro faz uma pose imponente, com as mãos na
cintura, e olha para o homem. A mulher recua para longe. O dinheiro olha
para o homem de maneira triunfante. O homem vacila. A mulher dá as
costas e quer ir embora. O homem e o dinheiro se colocam frente a frente,
o dinheiro ainda triunfante.
H ELLINGER para a educadora: Ok, agora você só precisa refletir: o que
aconteceria com a mulher se ela recebesse o dinheiro?
Hellinger chama a representante da mulher de volta e a coloca frente a
frente com o dinheiro. Ela se assusta e coloca as mãos em frente ao peito,
se defendendo.
H ELLINGER para a educadora: Ainda tem uma coisa importante. Eu
perguntaria a ela quem em sua família perdeu muito dinheiro. Ela é
secretamente fiel a essa pessoa.

GAROTO EM PERIGO
H ELLINGER : Há algo a acrescentar ao que houve hoje de manhã? Ok, quem
mais tem casos de supervisão? Você?
H ELLINGER : Ok, qual é a sua questão?
E DUCADORA : Há 11 anos, trabalho com um grupo que mora junto e se
assemelha a uma família. Dirijo o grupo e dou acompanhamento a quatro
crianças. Com relação à supervisão, trata-se principalmente do garoto mais
velho, de 16 anos, que tem se tornado cada vez mais agressivo. Noto que
as coisas têm se tornado cada vez mais difíceis no grupo.
H ELLINGER : Quantos anos ele tem?
E DUCADORA : 16.
H ELLINGER : O que houve com seus pais?
E DUCADORA : Ele não tem contato com os pais. Em 11 anos, por desejo
próprio, viu a mãe apenas uma vez. Falou com ela por telefone algumas
vezes, depois perderam novamente o contato.
H ELLINGER : Qual era a idade dele quando chegou ao orfanato e entrou para
esse grupo?
E DUCADORA : A S crianças foram tomadas dos pais. Ele está com dois irmãos
no grupo conosco. Mais três irmãos estavam em outro grupo que mora
junto.
H ELLINGER : Por que foram tomados dos pais?
E DUCADORA : O pai era criminoso, havia cometido diversos delitos de
roubo. Uma noite, as crianças foram tomadas dos pais em meio a sirenes
da polícia.
H ELLINGER : E a mãe?
E DUCADORA : A mãe também ficou presa por algum tempo.
H ELLINGER : Por quê?
E DUCADORA : Porque estava envolvida. Também havia violência na família,
violência corporal.
H ELLINGER : Como assim? O que aconteceu?
E DUCADORA : O Sascha apanhava e eles apagavam cigarros em suas costas.
Ele era um bode expiatório e queriam vendê-lo através de uma instituição
ilegal.
H ELLINGER : Vendê-lo para quem?
E DUCADORA : Para uma família. Ele tem um papel de vítima.
H ELLINGER : Vamos constelar: o pai, a mãe e o filho.
Hellinger posiciona o pai à frente do filho, a alguma distância, porém, ele
olha para o lado. A mãe está um pouco de lado. Após um instante,
Hellinger afasta o pai da família, na direção em que ele estava olhando.
HELLINGER para o pai: Está melhor ou pior?
P AI : Melhor.
H ELLINGER para o filho: E para você?
F ILHO : Um pouco melhor quando ele se vai. Preciso me defender. Pergunto-
me o que eles querem de mim. Tenho uma postura hostil. Não sei o que
está acontecendo.
H ELLINGER para a educadora: Você sabe o que há na família do pai?
E DUCADORA : O que há na família do pai eu não sei. No geral, há uma
situação bastante caótica na família.
H ELLINGER para a educadora: O que aconteceu? Primeiro tive o impulso
de pedir-lhe para se colocar onde acha que é o seu lugar. Onde você se
posicionaria? Siga seus sentimentos.
A educadora se coloca à direita do filho.
H ELLINGER para o pai: Volte novamente para o seu lugar.
H ELLINGER após um instante, para o filho: O que acontece quando ela fica
aí?
F ILHO : É estranho. É como se me tirassem o ar. Em primeiro lugar, me
enfraquece, apesar de também me fazer bem de uma certa maneira.
Hellinger coloca a educadora à direita do pai.
H ELLINGER para o filho: Como é isso para você?
F ILHO : É bom.
H ELLINGER para o pai: E para você?
P AI : Antes eu estava com a frase: "Não estou consciente de nenhuma
culpa." Porém, quando ela está aqui, não posso mais fugir.
H ELLINGER para o grupo: Demonstrei algo sobre ligações sistêmicas.
Aquele que ajuda é bem sucedido quando se coloca ao lado do mais
excluído e desprezado. Isso apresenta o maior efeito. Vimos isso aqui.
Acho que posso parar por aqui.
Se você mostrar ao garoto que você respeita seu pai, ele ficará melhor.
Pudemos ver que ele está ameaçado de suicidar-se. Ele tem que ir embora,
a direção é para fora. Deve haver algo muito pesado em sua família. Se eu
considero tudo isso, posso entendê-lo e respeitá-lo. O garoto muda
imediatamente. Ok, é isso.
Aquele que não é mencionado, que é demonizado, deve sempre receber um
lugar. Assim que ele recebe um lugar, o sistema é curado como um todo,
porque ele recebeu um lugar. Um excluído é novamente acolhido. Aí, todos
os outros podem orientar-se de uma nova maneira.
E DUCADORA : O fato de ele ter ido embora e se sentido bem com isso não
pode significar que ele não é o pai?
H ELLINGER : A reação do garoto mostra que ele é seu pai, senão não estaria
tão engajado. Geralmente, querer ir embora significa morte, pelo menos
uma ameaça de suicídio. Significa que ele quer desaparecer, seja qual for
o motivo.
Esse movimento surge quando alguém está numa situação aterrorizante, na
qual não pode fazer mais nada. Em sua alma, ele é o mais coitado.
E DUCADORA : Faria sentido ou seria exagerado apoiar o contato com o pai?
H ELLINGER : Diga ao garoto apenas: "Eu respeito seu pai. Quando olho para
você, acho que você tem o pai certo." Algo assim bem indireto. Mas você
não precisa nem dizer isso. Quando vocês voltarem, você estará mudada.

AÇÃO SERENA
E DUCADOR : Não tenho uma pergunta direta, mas talvez você possa me dizer
algo a esse respeito. Em nosso papel como educadores, vimos aqui as
consequências que resultam, dependendo da intensidade com que
exercemos influência ou não. Tenho um sentimento recorrente e a
pretensão de ser uma espécie de juiz, que na verdade não quero ser.
Entretanto, existe uma tarefa, uma tarefa interna, que também possuo.
H ELLINGER : Hoje ganhei um livro de presente de alguém: "Uma pequena
alma fala com Deus". Ela diz a Deus que deseja muito ser o perdão. Então,
o bom Deus pergunta: "Quem você deseja perdoar?"
Ela olha ao redor e não encontra nada. Deus diz: "Em minha criação, não
há nada a perdoar, e muito menos a julgar."
O pior é quando sentimos pena das crianças. A pena as enfraquece
enormemente. Você vê o destino e respeita o destino. Você não sabe o que
vai acontecer no final. Se você intervier, talvez intervenha de uma forma
contrária ao destino. Se você estiver lá apenas com respeito, pelos pais e
pelo grande todo, algo de bom pode se desenvolver após algum tempo.
Então você tem paz. Muitas pessoas que se engajam, acabam se esgotando.
Se você assumir a postura do respeito, não se esgotará tão facilmente. É
claro que isso existe também. Existem situações nas quais precisamos nos
esgotar, mas não como um estresse permanente.
Às vezes, assumo para mim uma postura, ao trabalhar ou ser olhado por um
cliente. Deixo que ele olhe através de mim. Seu olhar não me atinge. Ele
olha através de mim, para algo maior. Então quando trabalho com ele, deixo
o que está atrás de mim, o maior, fluir através de mim em sua direção. Às
vezes, chego para o lado, para que entrem em contato direto um com o
outro. Isso ajuda a ficarem serenos. Então podemos ver o que acontece com
as crianças com as quais temos uma tarefa quando temos essa serenidade.
A bela imagem é: deixamos o sol brilhar e, às vezes, também relampejar,
depois deixamos vir a chuva, da forma que vier.
D INÂMICA DE GRUPO APLICADA
Fui diretor de um orfanato na África do Sul, uma boarding school com 140
garotos. Tínhamos apenas um chefe para eles. E eles tinham a sua própria
administração. Isso é possível.
Uma pessoa de outra boarding school na África do Sul me contou que todos
os educadores haviam ficado doentes. Os alunos precisaram organizar tudo
sozinhos. As coisas nunca correram tão bem quanto nessa época.
Também posso contar algo assim sobre mim mesmo. Fui diretor de uma
grande escola de elite na África do Sul e era, simultaneamente, padr e de
uma grande paróquia. No recesso de Páscoa, durante a Semana Santa, uma
parte dos meninos podia ir para casa. Os outros permaneciam lá.
Eles me perguntaram se podiam passar uma parte do dia em Durban na
Quinta-Feira Santa para se divertirem. Disse que podiam, mas que
deveriam estar de volta para a missa da tarde. Como padre, precisava de
alguns deles como coroinhas e para ler. Contudo, eles só voltaram às oito
horas da noite, sob o comando dos responsáveis entre eles. Como padre,
tive de fazer tudo sozinho na Quinta-Feira Santa. Eu era diretor dessa
escola havia pouco tempo. Eles estavam me testando.
Agora vou falar para vocês um pouco sobre dinâmica de grupo aplicada.
As leis da dinâmica de grupo, com as quais já estava familiarizado há algum
tempo e que desejava aplicar nessa escola, deveriam comprovar sua
eficiência nessa situação. Como resultado, cada classe havia escolhido um
responsável e a classe superior havia escolhido cinco em toda a escola.
Juntos, haviam sido os responsáveis pelo ocorrido.
Eu e meu confrade chamamos esses responsáveis em meu escritório nessa
noite. Ficamos lá e nem ele nem nós dissemos nada. Ficamos por 15
minutos sentados, sem dizer nada. Eles não sabiam o que fazer. Esse era
um método da dinâmica de grupo.
Então eu disse: "A disciplina da escola desmoronou e não há nada que
possamos fazer. A pergunta é se meu confrade e eu ainda queremos fazer
alguma coisa, pois vocês devem nos reconquistar para que estejamos
dispostos a fazer algo por vocês. Daremos a vocês uma chance de
restabelecer a disciplina."
No dia seguinte, reuniram todos os alunos e discutiram por quatro horas
sobre como restaurar a disciplina na escola. Depois me apresentaram uma
proposta. Entretanto, ela não tinha valor. Disse a eles: "Isso não é
suficiente.” Então ficaram mais quatro horas discutindo. Depois fizeram a
seguinte proposta: "Vamos dedicar um dia inteiro das férias para colocar a
quadra esportiva novamente em ordem." Eu disse: "Ok, de acordo." Então,
um aluno disse para o outro: "Isso tudo aconteceu só porque dois de vocês
não chegaram a tempo para a missa.” Expulsei-o imediatamente da escola,
mas ele pôde matricular-se novamente quatro semanas depois.
Eles começaram a arrumar a quadra esportiva. Depois de meio dia de
trabalho eu disse: "Já basta." Nunca mais tive problemas de disciplina nessa
escola.

O OUTRO AMOR
H ELLINGER : Agora deixaremos o nível da supervisão e entraremos no nível
dos relacionamentos de casal. Aí todos acordarão imediatamente. Estaria
disposto a trabalhar ainda com algo assim, para que vocês pudessem ir para
casa com algo mais leve.
Primeiro gostaria de dizer algo sobre o outro amor.
Quando o homem encontra a mulher e a mulher encontra o homem, eles se
olham nos olhos e imediatamente fascinam-se um pelo outro. Aí há o amor
à primeira vista. Quanta força possui o amor à primeira vista?
Se medirmos a energia e a força em uma escala de 0 a 100, onde ficaria o
amor à primeira vista? Estimo algo em torno de 10%. O amor à primeira
vista é um amor sem olhar. Ainda não vemos o outro, mas sim uma imagem
que desejamos. Não quero me aprofundar nisso. Geralmente vemos a mãe
ideal. Tanto os homens quanto as mulheres veem a mãe ideal, mas isso não
é tão importante. De qualquer forma, com esse amor, não chegamos muito
longe.
Quando o homem diz à mulher: "Eu te amo", e a mulher diz ao homem:
"Eu te amo", isso tem pouca força. Esse amor não pode durar muito.
Porém, podemos dizer outra coisa. Isso seria o outro amor. O homem pode
dizer a mulher, e a mulher ao homem: "Amo você e aquilo que guia a mim
e a você.” De repente, o olhar se expande para algo maior, a que ambos
estão entregues de uma maneira especial. O significado disso aparece com
o tempo.
Pode ser que esse outro amor guie um casal pelo mesmo caminho durante
um certo tempo. Principalmente se tiverem filhos, ele os guia por muito
tempo por um caminho determinado. Após algum tempo, pode ser que algo
diferente surja em primeiro plano, por exemplo, uma criança deficiente. De
repente, surge à vista algo completamente diferente. Algo muito mais
poderoso que nunca puderam encontrar com o amor à primeira vista. Então
podem dizer um para o outro, por exemplo: "Amo você e aquilo que guia a
mim e a você." Eles olham para a criança e dizem: "Amo você e aquilo que
guia a mim e a você." Ambos dizem isso e, após algum tempo, um nível
completamente diferente se torna visível. Também pode ser que, após
algum tempo, fique claro que cada um deve distanciar-se do outro, se
desejar permanecer em sintonia com algo maior. Isso é inevitável para
ambos.
Então dizem um para o outro: "Amo você e aquilo que guia a mim e a
você.” Mesmo que seus caminhos se separem, o amor permanece.
Esse é o outro amor. Também o chamo de amor à segunda vista. A realidade
em sua plenitude entra em jogo.
Também podemos aplicar isso às crianças e aos casos tão difíceis que vocês
trouxeram hoje de seus trabalhos: "Amo você e aquilo que guia a mim e a
você."
Às vezes, percebo que não estou sendo guiado por nada que possa ajudar
alguém. Ele é guiado por algo, mas eu sou guiado para recuar, no sentido
de: permaneço parado sem intervir. Então a situação é elevada para um
contexto maior. Então pode-se permanecer naquilo que é, uma vez que o
que ocorre não é mais pessoal. O maior toma o todo a seu serviço. Então
podemos ver as coisas difíceis mais facilmente e nos posicionar diante
delas.
É bastante claro que, para um cliente, é um grande alívio quando não
intervimos em seu destino específico. Basicamente, isso é tudo que tenho
para dizer a esse respeito.
O RELACIONAMENTO DE CASAL
Agora voltemos ao relacionamento de casal. Não casamos só com uma
pessoa. O relacionamento é com a pessoa, sua família e seu destino. Ele
vai até suas fronteiras e suas possibilidades, tudo de uma só vez. O
conteúdo disso é revelado lentamente, no decorrer de um relacionamento.
Ao encararmos isso, Vivenciamos o relacionamento de casal como um
processo de morte. Algo superficial vai abaixo. Algo passado ou ilusório
vai abaixo. E após cada briga de casal, ambos sentem-se libertos de uma
ilusão.
Certa vez, ouvi uma história em que um amigo vai visitar o outro e é
recebido por ele, radiante. Ele pergunta: por que está tão radiante? O outro
diz: "Briguei com minha mulher." "E você fica radiante?" "Sim." responde
ele, "Depois é tão bom!" Isso também é verdade.
Os emaranhamentos vêm à tona somente aos poucos em um relacionamento
de casal: alguém que quer partir, porque está seguindo alguém de sua
família, ou porque quer ir embora de sua família, agindo como
representante de alguém. Além disso, as crianças também veem isso e se
emaranham nesse destino. Não há o que se fazer. Aqui é necessária essa
humildade extrema: "Amo você e aquilo que guia a mim e a você, aquilo
que nos guia de uma maneira especial.” Isso é profundo. Isso é grandeza.
Esse é o grande amor, o amor forte.
Esse amor também inclui o fato de não termos de suportar tudo como se
fosse o certo.
Diz-se, por exemplo, em relação à fidelidade: "Você deve ser fiel a mim”
ou "Devo ser fiel a você.” Isso não é verdade: devo ser fiel ao que é maior
e que guia a mim e a você.
Com a exigência por fidelidade, muitas vezes fazemos do outro nosso
prisioneiro. Nós o vinculamos a nós mesmos ao invés de vinculá -los a algo
maior.
Quando o que é maior permanece no foco, a relação permanece confiável.
Ela permanece confiável em profundidade, haja o que houver. É essa a
grande diferença.
Essas foram minhas palavras finais. Tudo de bom para vocês!

A RESSONÂNCIA
Extraído de cursos em Bad Sulza

TODAS AS CRIANÇAS SÃO BOAS, ASSIM COMO


SEUS PAIS
O AMOR OCULTO
H ELLINGER : O título desta reflexão "Todas as crianças são boas - e seus
pais também" faz algumas pessoas balançarem a cabeça. Como isso é
possível? As dimensões desse título vão muito longe. Ao mesmo tempo,
diz que nós também somos bons, que fomos bons quando crianças e que
ainda o somos. Diz que nossos pais também são bons, uma vez que já foram
crianças, que foram bons quando crianças e também o são como pais.
Longe daquela conversa superficial, gostaria de esclarecer os panos de
fundo desta frase, quando dizemos: "Mas a criança fez isso, e os pais
fizeram aquilo." Eles o fizeram. Mas por quê? Por amor.
Vou explicar isso em profundidade e fazer exercícios que os ajudarão a
sentir na alma o que significa ser bom de verdade. Naturalmente, a
conclusão é que - já vou antecipando - todos são bons da forma como são.
E são bons exatamente por serem da maneira que são. Por isso, não
precisamos nos preocupar se nossos filhos ou se nossos pais são bons ou
não. Só que, às vezes, temos a visão turva e não conseguimos enxergar
onde somos bons, onde as crianças são boas e onde seus pais são bons.
Gostaria de explicar através de uma visão geral antes de penetrarmos nisso.
O CAMPO ESPIRITUAL
As Constelações Familiares revelaram que estamos inseridos em um
sistema maior, em um sistema familiar. Não apenas os nossos pais e irmãos
pertencem a esses sistema, mas também nossos avós, bisavós e
antepassados. Outras pessoas que, de alguma forma, tenham sido
importantes também pertencem a ele, por exemplo, parceiros anteriores de
nossos pais ou avós. Nesse sistema, todos são conduzidos por uma força
conjunta que segue determinadas leis.
O sistema familiar é um campo espiritual. Dentro desse campo familiar -
como podemos experimentar nas constelações - todos estão em ressonância
com todos. Às vezes, esse campo se encontra em desordem. A desordem
no campo surge quando alguém que pertence a ele é excluído, rejeitado ou
esquecido. Essas pessoas excluídas e esquecidas estão em ressonância
conosco e se fazem notar no presente. Nesse campo vale uma lei: todos
aqueles que pertencem possuem o mesmo direito de pertencer. Ninguém
pode ser excluído.
Ninguém se perde nesse campo. Continua atuando nesse campo. Quando
alguém é excluído, seja qual for o motivo, a influência desse campo,
através da ressonância, determina um outro membro da família para
representar o excluído. Assim, esse membro da família, uma criança por
exemplo, passa a se comportar de maneira estranha. Ela se torna, por
exemplo, viciada, doente, agressiva ou uma criminosa. Pode se tornar até
mesmo uma assassina, esquizofrênica ou outra coisa. Mas por quê? Porque
olha com amor para o excluído e, através de seu comportamento, nos obriga
a olhar com amor para esse rejeitado ou excluído. Assim, o chamado mau
comportamento é o amor por alguém que foi excluído nesse campo.
Ao invés de olhar para essa criança com preocupação e tentar mudá-la, o
que, como vocês já sabem, não leva a nada, já que forças maiores estão em
ação, olhamos com essa criança para o campo ao qual pertencemos, para
esse campo espiritual, até conseguir, sob a orientação dessa criança, olhar
para o lugar onde a pessoa excluída está à espera de ser vista e acolhida de
volta em nossa alma, em nosso coração, em nossa família, em nosso grupo
e, talvez, até em nosso povo.
Portanto, todas as crianças são boas se deixarmos que sejam boas, isto é,
se ao invés de olharmos apenas para as crianças, olharmos com amor para
onde elas olham com amor.
A experiência com as Constelações Familiares mostra que, ao invés de nos
preocuparmos com essas crianças ou com outras pessoas e pensarmos sobre
elas: "Como é possível que se comportem assim?", olhamos com elas para
uma pessoa excluída e a acolhemos. Quando essa pessoa é acolhida na alma
dos pais, da família e do grupo, a criança se sente aliviada e pode,
finalmente, ficar livre do emaranhamento a outra pessoa.
Tendo consciência disso, podemos esperar até que saibamos aonde o
comportamento dessa criança nos leva, aonde ele nos leva como pais ou
como outros membros da família. Se formos até lá com as crianças e
acolhermos a outra pessoa, as crianças serão liberadas.
Quem mais será liberado? Também nós, como pais ou outros membros da
família. De repente, tornamo-nos diferentes e mais ricos, porque demos um
lugar dentro de nós a algo que antes estava excluído. Agora todos podem
se comportar de forma diferente no presente. Com mais amor, mais
benevolência, para além de nossas distinções baratas entre bom e mau, que
talvez nos façam achar que somos melhores e que os outros são piores,
embora, na verdade, aqueles que vemos como piores apenas amem de uma
forma diferente. Se olharmos junto com eles para onde amam, acabam as
distinções entre bom e mau.
Outra conclusão é, naturalmente, que nossos pais são bons e que por trás
de todas as coisas pelas quais criticamos nossos pais, atua o amor. Contudo,
esse amor não está voltado para nós, mas para outro lugar. Está voltado
para onde eles olharam quando crianças, para alguém que queriam trazer
para dentro da família. Se começarmos a dar um lugar dentro de nós para
esses excluídos, olharemos junto com os nossos pais para o lugar onde eles
amam. Então ficamos livres, e nossos pais também. De repente,
experimentamo-nos em uma situação completamente diferente e
aprendemos o que significa o amor verdadeiro.
T UDO
Antes de fazermos um exercício, lerei um pequeno texto de um livro novo
meu: "Verdade em Movimento”. Nesse livro há um breve texto que resume,
em um nível filosófico, o que acabei de explicar. O texto se chama "Tudo".
"Tudo pode apenas ser tudo porque está conectado com tudo. Portanto,
cada pessoa está conectada com tudo. Assim, nada pode ser individual.
Apenas é individual porque está conectado com tudo, porque dentro
daquilo que é individual também está presente todo o restante. Por isso,
sou tudo ao mesmo tempo. O todo não pode existir sem mim e eu não posso
existir sem o todo.
O que isso significa para a maneira como vivo, a maneira como sinto, a
maneira como sou? Vejo em cada pessoa todas as pessoas e, dessa forma,
também me vejo nela. Também sinto em mim todas as outras pessoas, cada
uma da maneira que é. Em cada pessoa, encontro todas as pessoas e nelas
também me encontro.
Então, como posso rejeitar algo nas pessoas sem também rejeitar a mim
mesmo nelas? Como posso me alegrar com elas sem também me alegrar
comigo mesmo dentro delas? Como posso desejar algo de bom a alguém
sem desejar o mesmo para mim e para todas as outras pessoas? Como posso
me amar sem também amar todas as outras pessoas?
Quem vê a todos em todos também se vê em todos, também se encontra
consigo em todos, também se acha em todos. Assim, quem prejudica o
outro também prejudica a si mesmo. Quem fere o outro fere também a si
mesmo. Quem ajuda o outro ajuda também a si mesmo. Quem priva alguém
de algo também priva a si mesmo e quem diminui alguém diminui a si
mesmo.
Quem ama verdadeiramente os outros, ama a todos. Assim, amor ao
próximo é igual a amor a tudo, incluindo o amor a si mesmo. É o amor puro
e o amor preenchido, pois tem tudo em tudo, principalmente a si mesmo."
A GRANDEZA
No final, ressonância significa: "Eu amo a todos." Se estou em discórdia
com alguém ou rejeito alguém, saio da ressonância com o todo e não posso
me desenvolver em sintonia com o todo.
Qual é a solução? Acolho em meu coração tudo aquilo que rejeito. Assim
encontro o amor a tudo. Através dele me torno grande.
O que significa grandeza aqui? Reconheço que sou igual a todas as outras
pessoas e que elas são iguais a mim. Assim, estou ligado ao todo e, através
do todo, sou grande.
MEDITAÇÃO 1:
P ARA QUEM OLHA A NOSSA DOENÇA ?
Agora fechem os olhos. Farei uma pequena meditação com vocês, na qual
poderão sentir o que significa ressonância e como ela atua em nós.
Vão para dentro de seus corpos e sintam onde algo dói, onde algo está
doente, onde algo não está funcionando. Aquilo que dói ou não funciona
está claramente em dissonância com o nosso corpo. Deitamo-nos
interiormente ao lado dessa dor, ao lado dessa doença, ao lado desse órgão
e sentimos com a doença, com esse órgão, com essa dor, para onde estão
olhando. Com o que está em ressonância essa doença? Com que pessoa,
que talvez tenha sido rejeitada, ou esquecida, ou demonizada, ou julgada?
Esperamos até podermos entrar nesse movimento, até vibrarmos com ele e,
talvez, de repente, vejamos para onde essa doença olha. Por exemplo, para
uma criança que morreu precocemente, ou nasceu morta, ou foi abortada
ou entregue a outros. Ou para alguém que tenhamos julgado criminoso,
com quem nós e nossa família não queiramos ter mais nada a ver. Olhamos
para essa pessoa como um de nós e dizemos internamente a ela, junto com
a doença: "Agora eu vejo você. Eu sou como você. Você é igual a mim.
Agora lhe dou um lugar em minha alma e em nossa família. Agora você
está conosco novamente, é um de nós. Você não é melhor e nem pior
perante uma força maior, para a qual somos todos peças de xadrez com as
quais ela joga de diversas maneiras. Reconhecemos que você é igual a nós,
e nós iguais a você."
Talvez também possamos ir até outras pessoas que tenhamos rejeitado, de
quem tenhamos raiva, diante das quais tenhamos nos tornado culpados ou
que tenham se tornado culpadas diante de nós e dizer a cada uma delas:
"Sim."
Sentimos o que muda em nosso corpo, em nossa alma e em nosso amor.
MEDITAÇÃO 2:
P ARA QUEM OLHÁVAMOS QUANDO ÉRAMOS CRIANÇAS ?
Esse foi um primeiro passo para sentirmos o que significa ressonância.
Como ela atua em nós e como podemos vivenciar algo completamente
diferente através da ressonância: algo diante do qual estávamos fechados.
Agora algumas conclusões. Com elas poderemos prosseguir com o
exercício. Fechem novamente os olhos.
Olhem para vocês quando eram crianças e para como se comportavam. Às
vezes, nos comportávamos de uma forma que preocupava nossos pais.
Talvez pensassem: "Há algo de errado com essa criança. Como ela pode se
comportar dessa maneira? Como é que ela pode, por exemplo, se retrair,
ter medo, ficar com raiva, ser impaciente, não querer aprender, desistir,
como se tivesse perdido as esperanças?"
Seja como for, agora vocês olham para essa criança que foram um dia e
sintam: "Para onde vocês olhavam quando crianças, quando se sentiam e
se comportavam dessa maneira? Para onde se dirigia o amor secreto? Com
quem estávamos em ressonância profunda? Que pessoa desejava tornar -se
visível através de vocês, para ser finalmente olhada e amada?
Vocês podem dizer ao pai, à mãe, a ambos ou a outras pessoas: "Por favor,
olhem comigo para lá com amor.” Então vocês podem reconhecer o quanto
amávamos quando crianças. Talvez de uma maneira diferente da esperada,
mas em conexão profunda com alguém que não pôde pertencer. Vocês
sentem como eram bons e como ainda são.
Ok, esse foi o segundo passo.
MEDITAÇÃO 3:
P ARA QUEM NOSSOS PAIS OLHAVAM QUANDO ERAM CRIANÇAS ?
Agora daremos mais um passo. Vocês ainda dão conta? Isso vai fundo. Mas
nos torna ricos e amplos. Fechem os olhos de novo.
Agora olhamos para nossos pais da forma como eram. Talvez algumas
coisas nos tenham incomodado neles, quando éramos crianças e
desejávamos que tivessem sido diferentes. Agora olhamos para eles, como
eram como crianças e para onde olhavam. Para que pessoa excluída ou
esquecida eles olhavam? Com quem estavam em ressonância e talvez ainda
o estejam? Como se tornaram o que são a partir dessa ressonância, desse
amor secreto profundo? Junto com eles e o seu amor olhamos para essa ou
essas pessoas e as amamos assim como nossos pais as amaram quando
crianças, mesmo que talvez o tenham feito inconscientemente. Esse
movimento profundo foi em direção a alguém para incluí-lo. Permitimos a
essas pessoas se fazerem notar em nós também. Olhamos para elas e lhes
dizemos: "Sim. Eu vejo você. Eu também lhe dou um lugar em meu
coração, com amor."
MEDITAÇÃO 4:
P ARA QUEM NOSSO PARCEIRO OLHAVA QUANDO CRIANÇA ?
Agora daremos mais um passo, da mesma maneira. Se quiserem, fechem
novamente os olhos e olhem para seu parceiro ou para outra pessoa próxima
com quem vocês têm um vínculo que querem manter. Talvez algo dessa
pessoa os incomode.
Agora, permitam-se olhar para o lugar para onde ela olha com seu
comportamento. Para que pessoa excluída e talvez rejeitada e condenada?
Junto com ela, vocês olham para lá com amor.
Tudo isso é um exercício para o amor em relação a tudo e todos. Vocês
sentem como algo se modifica em nossa alma? O quanto crescemos quando
nos deixamos levar por esse movimento?
MEDITAÇÃO 5:
P ARA QUEM OLHAM NOSSOS PRÓPRIOS FILHOS ?
Agora daremos mais um passo. Fechem novamente os olhos.
Olhem para seus filhos ou, se não tiverem filhos, para os filhos de parentes.
Principalmente para aqueles que lhes causam preocupação, que estão
doentes ou que têm um comportamento frio e reservado. Junto com eles
olhem para onde eles olham com esse comportamento ou com essa doença.
Que pessoa deseja ser trazida à lembrança através deles? Com quem estão
amorosamente em ressonância? Junto com eles olhem para lá até que vocês
tenham em seu campo de visão a pessoa ou as pessoas de quem se trata.
Talvez as vejamos de repente, como se tivéssemos acordado de um sonho
profundo.
O AMOR A TUDO E A TODOS
Alguém ainda tem dúvidas de que todas as crianças são boas? Nós como crianças? Nossos
pais como crianças? Nossos parceiros como crianças? E nossas crianças também? Todos
são bons.
Isto é o amor a tudo e a todos. Expressa-se em algo completamente simples: olhando
para todos e dando-lhes um lugar em nosso coração.
Há uma postura interna relacionada a isso. Jesus uma vez a e xpressou em uma frase. É
uma bela frase: "Sejam misericordiosos como meu Pai celestial. Ele faz raiar o seu sol
sobre maus e bons e chover sobre justos e injustos." Por quê? Ele está em ressonância
com todos.

A ALMA FAMILIAR
A nova compreensão que vem à tona através desse trabalho é que todos nós
estamos conectados a uma alma maior, a uma alma familiar. Então, falamos
também de um campo espiritual, embora essa expressão tenha pouca
serventia em nosso contexto. Em outro contexto sim.
O campo espiritual é um campo no qual algo é consciente. Ele é ciente.
Nesse campo existe um movimento no qual aquilo que está separado deseja
ser unido. É um movimento consciente. Esse campo possui o objetivo claro
de trazer algo à consciência. Por isso, prefiro falar aqui de uma grande
alma, de uma alma em comum a qual nos sentimos conectados a todos que
pertencem.
Quando um movimento nos traz à consciência de que ainda há algo para o
qual devemos olhar, algo entra em ordem no campo. Entra em ordem
porque excluídos ou esquecidos vêm para a consciência. Assim, na alma
do indivíduo, algo é colocado em ordem, algo que quer conectar o que está
separado.
Esses movimentos são movimentos do amor. Muitos tipos de
comportamento de crianças que nos preocupam são comportamentos do
amor, movimentos muito profundos do amor que desejam unir algo.
Quando os pais compreendem e colocam isso em ordem também em suas
almas, a alma familiar em sua totalidade penetra em uma outra força. O
principal é que ninguém mais precisa trazer algo esquecido ou ex cluído à
consciência através de seu comportamento. Todos ganham uma liberdade
maior dos emaranhamentos.
T RAZENDO À TONA O AMOR OCULTO
O que é trazido à tona em crianças através de seus comportamentos, embora
angustiante, revela-se como algo para o qual os outros se recusam a olhar
por si próprios, embora isso seja necessário no sistema. A criança assume
isso para si. Ela olha com amor para os excluídos. Por trás desse
comportamento atua um amor oculto. Por isso, ao trabalhar com crianças
difíceis, não olhamos tanto para a criança, mas sim para onde a criança
olha. Então entra em ação um movimento curativo que liberta a criança,
porque os outros também olham para onde devem olhar. A criança não
precisa mais olhar para lá no lugar deles e se comportar de forma
correspondente. Esse é o procedimento fundamental em nossos esforços
para ajudar as crianças.
Se considerarmos o que acontece com muitas crianças, quando são tratadas
e recebem medicamentos como se algo não estivesse certo com elas,
ignoramos seu amor. Através de seu comportamento, estão fazendo algo
para os outros, para os adultos. Por isso, esse tipo de ajuda que podemos
vivenciar aqui é revolucionário para as crianças e abre novas
possibilidades. No entanto, a criança fica aliviada apenas quando não
olhamos predominantemente para ela, mas para onde é atraída e para o que
deseja fazer pelos adultos. Desta forma fica liberada.
Os pais e todos aqueles envolvidos devem mudar. Devem dirigir o olhar
àquilo para que, até então, ainda não o dirigiram. Assim, um
desenvolvimento de crescimento inicia-se primeiro nos pais. Somente
assim as crianças estão livres.
A ORDEM
Essa é a Pedagogia Sistêmica, uma pedagogia completamente diferente.
Esse é o segredo deste trabalho. Trata-se de ajuda para a vida de uma forma
especial. Aqui, ajudo crianças a sair de um emaranhamento e algo é
colocado em ordem em um sistema familiar.
A desordem em uma família é sempre a mesma: membros que pertencem
são excluídos. A uma família pertencem também as suas vítimas. Se
alguém da família tiver se envolvido na morte de alguém, talvez de maneira
culposa, esses mortos pertencem ao sistema. Estão presentes, atuam, se
fazem notar frequentemente através de uma criança. Essa criança então
olha em direção a eles. Se os outros não olharem para lá, o comportamento
da criança permanece inexplicável para eles. Aqueles aos quais isso
realmente diz respeito devem olhar para lá. Então a desordem entra
novamente em ordem.
Ordem significa sempre que o excluído é reintegrado. É nisso que foco
acima de tudo em meu trabalho, agora e sempre. Isso é ajuda para a vida
de uma forma abrangente. Ela abre a visão para outras conexões. Com isso
fica mais fácil ajudar as crianças e seus pais.
O AMOR SAPIENTE
Um dos panos de fundo que trazem dificuldade às crianças é achar que são
capazes ou que é permitido a elas assumir algo pelos seus pais ou
antepassados. Isso gera infinitos problemas para os filhos e seus pais. Para
entender isso, devemos saber algo sobre a diferença entre as diversas
consciências.
C ONSCIÊNCIA LEVE E CONSCIÊNCIA PESADA
Sentimos nossa consciência como consciência leve e como consciência
pesada, como culpa e inocência. Muitos acreditam que isso tem a ver com
bom e mau, mas não tem. Tem a ver com ligação à família e separação
desta. Através da consciência, todos sabem, instintivamente, o que devem
fazer para pertencer. Uma criança sabe instintivamente o que deve fazer
para pertencer. Ao se comportar de maneira correspondente, tem a
consciência limpa. Assim, consciência limpa significa: sinto que tenho
direito de pertencer.
Quando a criança age de outra maneira ou quando nós agimos de outra
maneira, temos medo de perder o pertencimento. Esse medo é a consciência
pesada. Consciência pesada significa: tenho medo de ter perdido o direito
ao pertencimento.
Essa consciência varia de grupo para grupo. Ela varia até mesmo de pessoa
para pessoa. Por isso, temos consciências diferentes perante o pai e perante
a mãe e consciências diferentes no trabalho e em casa. Ou seja, a
consciência se modifica constantemente, pois a percepção do que temos
que fazer para pertencer também é variável.
Através da consciência, distinguimos aqueles que pertencem a nós daqueles
que não pertencem a nós. Ao nos vincular à nossa família, a consciência
nos separa de outros grupos e nos fortalece para nos separarmos dos outros.
É por isso que a consciência nos faz ter sentimentos de rejeição perante
outras pessoas e grupos: porque esses sentimentos têm a ver com
pertencimento e não com bom e mau.
Essa é uma das consciências, a consciência que sentimos. Através dessa
consciência, distinguimos entre bom e mau, mas sempre em relação a um
determinado grupo.
O EMARANHAMENTO
Há também uma consciência oculta, uma consciência arcaica coletiva. Essa
consciência segue leis diferentes da consciência que sentimos. Essa
consciência é a consciência do grupo. Essa consciência faz com que tudo
no grupo e na família, no sentido amplo, tenha sua ordem.
A essa ordem pertence, em primeiro lugar, o fato de que todos aqueles que
pertencem têm o mesmo direito de pertencer. Essa é a lei fundamental.
Entretanto, através da consciência que sentimos, excluímos algumas
pessoas da família. Aqueles que pensamos ser maus, mas também aqueles
de quem temos medo. Nós os excluímos porque achamos que são perigosos
para nós.
Aquilo que fazemos de consciência limpa através da consciência que
sentimos é condenado por essa outra consciência. Essa outra consciência
não tolera que alguém seja excluído. Então, sob a influência dessa
consciência, alguém é levado a imitar o excluído, sem estar consciente
disso. Isso é um emaranhamento.
A partir daí, podemos perceber que muitas crianças cujo comportamento
achamos estranho, que estão sob ameaça de suicídio, que são viciadas ou
seja lá o que for estão conectadas a um excluído. Estão emaranhadas com
ele. Assim, não podemos ajudá-las até que outras pessoas na família
também olhem para esse excluído e o acolham de volta na família e no
próprio coração. Assim, as crianças ficam livres desse emaranhamento.
Para ajudar essas crianças, os outros na família que estão desviando o olhar
devem, finalmente, direcioná-lo. Aqueles que têm raiva ou rejeitam alguém
devem se virar para essa pessoa com amor e acolhê-la na família.
Esse é o pano de fundo de muitas dificuldades vivenciadas por crianças e
das preocupações que os pais têm em relação aos filhos.
O AMOR CEGO
Entretanto, há mais uma lei nessa consciência. Ela também gera
dificuldades para as crianças. Segundo essa lei, aqueles que pertenceram à
família primeiro têm precedência em relação aos que vieram depois, ou
seja existe uma ordem entre eles. Essa ordem deve ser preservada.
Muitas crianças ousam assumir para si algo dos pais para ajudá-los. Ao
fazer isso, violam essa ordem. A criança diz ao pai ou à mãe, sob a
influência dessa consciência, frases internas como: "Assumo isso por
você", “Expio por você”, "Morro por você", "Fico doente por você". Tudo
isso por amor, um amor cego, todavia. Isso leva a comportamentos como
vício, risco de suicídio e agressividade. Essas formas de comportamento e
a colocação em risco de si mesmo têm a ver com a tentativa de assumir
para si algo pelos pais. Assim, a ordem é desrespeitada e a ordem do amor
é perturbada.
O RDENS RESTABELECIDAS
Quando sabemos sobre essas ordens, nós as restabelecemos. Ou seja, os
pais, ou quem quer que seja, assumem as consequências de suas ações.
Então a criança está livre. Não precisa assumir mais nada por ninguém.
A violação dessa ordem original é punida por essa lei. Isso significa que
toda criança fracassa ao tentar assumir algo para seus pais ou para outras
pessoas que já vieram antes delas. Nenhuma tentativa de assumir algo para
os pais é bem-sucedida. Ela está fadada ao fracasso, para todos. Devemos
saber disso. Por isso, conduzimos as crianças para fora dessa situação.
Primeiro olhamos para os pais e deixamos os pais resolverem o problema.
Aí as crianças ficam liberadas. Assim que os pais o resolvem para si, os
filhos ficam em paz e se sentem acolhidos.
Essas são as leis fundamentais que devemos ter em mente e compreender
internamente se quisermos ajudar crianças difíceis.
O DESTINO
Gostaria de dizer algo sobre a culpa nesse contexto. Não no sentido moral,
longe disso! Entretanto, muitas vezes nos sentimos culpados pelo fato de
alguém ter sido prejudicado por nossa causa. Também no caso de um aborto
provocado, os pais têm um sentimento de culpa. Ou uma mãe tem
sentimentos de culpa porque uma criança foi prejudicada devido a um parto
difícil.
Há duas formas de lidar com essa culpa. A primeira é o sentimento de
culpa. O sentimento de culpa significa que não olho para a pessoa perante
a qual me tornei culpado. No sentimento de culpa, olho para mim.
Arrependo-me de algo e penso que deveria ter agido diferente. Então tenho
sentimentos de culpa.
O sentimento de culpa é um substituto da ação. Quem se sente culpado não
faz nada. Permanece passivo. Outros agem em seu lugar: a criança, por
exemplo.
Existe uma boa forma de lidar com a culpa. Olhamos para o que aconteceu,
da forma que aconteceu, e dizemos: "Concordo com a maneira como foi.
Concordo com as consequências, com todas as consequências que venham
a resultar disso.” Nesse momento, deixamos de ter sentimentos de culpa.
Obtemos a força para fazer algo, a força para fazer algo de bom. Através
dessa atitude, a culpa é anulada de uma boa maneira.
Quando nos sentimos culpados, ainda há algo para refletir. Há uma
arrogância por trás disso. Acreditamos ter sido livres para fazer algo de
uma ou outra forma.
Agora olhamos para além dos mortos por cujas mortes nos sentimos
culpados. Imaginamos que estão deitados diante de nós. Então, olhamos
para além deles, em direção a seus destinos, que são maiores que nós.
Pedimos ao destino para encarregar-se deles e encarregar-se de nós
também. Percebemos a diferença?
Então esses mortos têm um ponto de referência no qual encontram a paz.
Então, todos são acolhidos, igualmente.
M EDITAÇÃO : PARA ALÉM DO BOM E DO MAU
H ELLINGER para uma mulher cuja irmã e o pai são esquizofrênicos: Feche
os olhos. Agora olhe para Deus. Mas não para aquele temido por muitos.
Olhe para o maior, para essa força maior que conduz tudo em direção ao
bem quando a reconhecemos. Isso quer dizer que tomamos cuidado para
não nos colocarmos no seu lugar. Olhe persistentemente nessa direção, sem
se deixar distrair pelos esquizofrênicos. Olhe persistentemente para essa
força com amor, sem se mover.
Se os esquizofrênicos olharem para você, isso não os ajuda em nada, pois
você olha sempre na mesma direção. De repente, passam a olhar também
na mesma direção que você.
HELLINGER: Como se sente?
MULHER: Estou sentindo bastante o coração.
HELLINGER: Ok. Tudo de bom para você.
Para o grupo: Também podemos ajudar assim, de uma forma bem simples,
indo para um movimento interno. O exercício que fiz com ela supera o
medo amplamente difundido de que existem forças boas e forças más. De
que as forças de um tipo estejam em conflito com as do outro tipo e de que
devamos nos proteger contra as forças más. Nós nos protegemos olhando
para além delas, em direção à força que toma tudo igualmente a seu serviço.
Quando olhamos sempre nessa direção, sem nos deixar perturbar pelo que
é atribuído às forças más, pelo que elas dizem ou fazem ou pelo que é dito
sobre elas, é gerado um efeito atrativo. De repente, elas também passam a
olhar nessa direção e respiram aliviadas.

O OUTRO JEITO DE FALAR


Extraído de um curso em Duisburg para pessoas com distúrbios de
fala

DISTÚRBIOS DE FALA
Por trás de muitos distúrbios de fala está um conflito não solucionado na
família, por exemplo, que alguém não podia estar presente nela ou não teve
a palavra, porque foi mantido em segredo ou dado para adoção. Ou porque
numa família, duas pessoas estavam uma perante a outra de forma
irreconciliável, por exemplo, um agressor e sua vítima. Como
consequência, muitas vezes um descendente representa os dois
simultaneamente e, por isso, não pode deixar que nenhum dos dois tenha a
palavra sozinho. Então começa a gaguejar.
A gagueira frequentemente tem um pano de fundo sistêmico similar ao da
esquizofrenia. Enquanto que em relação à esquizofrenia o conflito não
solucionado se torna visível na confusão, no gago se mostra na fala. Por
isso, a solução para o gago é frequentemente a mesma de um
esquizofrênico. Aqueles que não estão reconciliados na família são
colocados um em frente ao outro até que ambos se reconheçam e se
reconciliem mutuamente. Quando vem à luz onde está o conflito real, as
pessoas com distúrbios de fala ou os esquizofrênicos podem deixá-lo no
lugar onde ele pertence, libertando-se dessa forma.
Contudo, a gagueira ainda pode ter outros panos de fundo. Frequentemente
pode se observar que um gago, antes de começar a gaguejar, olha primeiro
para o lado. Isso significa que olha para uma imagem interna, falando mais
explicitamente: para uma pessoa interiorizada, da qual tem medo e perante
a qual começa a gaguejar. Quando, numa constelação, o gago pode
encontrar essa pessoa de forma aberta, prestando- lhe homenagem, até que
ela também o acolha e lhe mostre o seu amor, o gago pode olhar para ela,
nos olhos, e dizer claramente o que sente e o que deseja.
Algumas vezes esconde-se um segredo por trás da gagueira e outros
distúrbios de fala. Um segredo que quer vir à luz e que, ao mesmo tempo,
provoca medo na família, por exemplo, uma criança que foi mantida em
segredo. Quando esse segredo é revelado e olhado através das Constelações
Familiares, não existe mais nada que obstrua o caminho de uma fala clara.

A PALAVRA CERTA
Gostaria de dizer algo sobre a fala. O que acontece quando dizemos algo?
Qual o efeito que tem falar a palavra certa? Quando uma criança fala pe la
primeira vez "mamãe”, vocês percebem o que isso significa? Vocês
percebem a diferença para com o que era antes? Qual é o efeito que essa
palavra tem na mãe? Ela se transforma. Algo nela fica diferente porque a
criança diz "mamãe" para ela. E também na criança algo se transforma
quando consegue pronunciar essa palavra pela primeira vez. A relação
entre a mãe e a criança e da criança com a mãe se transforma. Essa palavra
é criativa. Uma nova forma e tipo de relação se realiza nessa palavra.
Também quando alguém diz para uma outra pessoa pela primeira vez:
"você”, algo se transformou.
E o que acontece com as coisas quando as denominamos de forma correta?
Frequentemente, refletimos durante muito tempo sobre uma conexão e não
conseguimos compreendê-la. Mas, logo que a percebemos, ela se concentra
e se condensa numa verdade que será expressa numa palavra. Somente
aquilo que é compreendido pode ser expresso e tem um efeito especial.
Transforma algo. Essa é a diferença em relação ao falatório. Aqui as
palavras não transformam nada. Pelo contrário, desviam da compreensão
real. Entretanto, a pessoa que compreendeu algo pode expressar isso. Uma
palavra assim tem força.
Nas Constelações Familiares, muito frequentemente uma palavra ou uma
frase tem que ser expressa. Algumas vezes, apenas uma palavra ou uma
frase. E essa palavra ou frase transforma. Somente quando o ajudante
alcança a palavra que dá uma guinada na necessidade e, por assim dizer, a
coloca na boca do cliente, de forma que ele possa dizer isso, algo se
transforma. Essa palavra é criativa.
As grandes palavras surgem do silêncio. Precisam de tempo até que fiquem
maduras e caiam da árvore do conhecimento como fruta madura. São
palavras que surgem da compreensão.
Se alguém tem um entrave na relação com outros, principalmente - essa é
a minha imagem - tem também um entrave em relação à mãe e ao pai. Se é
assim e em que medida é assim, não sabemos ainda. Vamos ver o que vai
se mostrar aqui.
Ainda existe algo que devemos considerar. Uma coisa que não é
denominada corretamente, não atinge a sua plenitude. Peguemos uma
palavra bem simples, por exemplo, a palavra "rosa”. Quando a
compreendemos e a expressamos, a rosa tem um efeito diferente. Ela não é
a mesma que era antes. Portanto, na palavra, algo inconcluído, uma relação
inconcluída, uma situação inconcluída se eleva em direção a algo maior.
Damos-lhe alma através da palavra que usamos.
Se deixarmos que isso atue em nós, seremos cautelosos ao falar.
Se considerarmos isso, iremos prestar atenção ao efeito que uma palavra
terá, verificando, antes de pronunciá-la, qual o efeito terá - na própria alma
e na alma dos outros.
Muitas vezes quando trabalho com alguém, não permito que ele ou ela fale.
Eu interrompo a necessidade de falar algo. Então qual é o efeito? A palavra
certa e a fala essencial se preparam.
Talvez ainda uma diferenciação importante. Palavras sobre problemas:
qual o efeito que tem? E palavras direcionadas à ação ou a uma solução ou
a uma reconciliação: de que forma são diferentes? Se permitirmos que
alguém fale sobre seu problema, frequentemente impedimos a palavra
liberadora.

A RECUSA
HELLINGER para um cliente-. De que se trata?
CLIENTE: De minha filha.
HELLINGER: O que há com ela?
CLIENTE: Ela não fala bem. Gostaria que ela falasse melhor.
HELLINGER: Qual é a idade dela?
CLIENTE: Seis anos. Ela tem um ótimo...
HELLINGER interrompe o cliente: Não. O que vou fazer agora? O que
você imagina que vou fazer?
CLIENTE: Constelar a mãe dela e ela.
HELLINGER: Exatamente. Você aprendeu depressa. Nós vamos
experimentar. Nós não sabemos ainda. Mas, vou começar com isso.
Hellinger deixa o participante escolher a representante para a mãe.
Hellinger escolhe a representante para afilha e a coloca em frente à mãe.
O participante diz que a sua mulher também está presente. Hellinger pede
que ela se sente ao lado do marido.
Depois de um certo tempo, Hellinger vira a mãe.
HELLINGER para a representante da mãe: Como é, melhor ou pior?
REPRESENTANTE DA MÃE: Melhor.
Hellinger pede à mulher, a mãe real, para se sentar ao seu lado.
HELLINGER para a mãe: Portanto, onde está o problema?
Ela acena com a cabeça em direção à filha.
HELLINGER: Onde, podemos ver isso aqui na constelação.
MÃE: Eu não vejo dessa forma.
HELLINGER: Então vou interromper.
Para as representantes: Vocês podem sentar-se novamente.
Para o grupo: Aqui ganhamos um outro conhecimento importante sobre os
distúrbios de fala. Não é possível ajudar a criança quando a pessoa pela
qual a criança faz isso se recusa.
A INTERRUPÇÃO
PARTICIPANTE: A minha questão é se a interrupção na constelação
anterior foi uma intervenção e o início de uma mudança no entendimento?
HELLINGER: Você viu isso corretamente. A interrupção é apenas a
superfície. Foi algo que encaminhou para uma mudança.
HELLINGER para o grupo: Isso aqui é trabalho duro. Exige uma alta
concentração, de vocês também. Talvez até uma mudança de pensamento.
C ONTINUAÇÃO
HELLINGER para a cliente, a mulher do homem, a mãe da filha: Vou
continuar com você.
Para o grupo: Antes, quando virei a representante dela, a filha começou a
tremer. Ela tem medo de que algo aconteça à mãe.
Para a cliente: Ela não é um boa filha?
A cliente enxuga as lágrimas.
HELLINGER para o grupo: Está bem claro que o problema da filha não
tem nada a ver com a sua relação com a mãe. Talvez tenha algo a ve r com
a sua família de origem.
Para a cliente: Você sabe qual é o medo da filha?
A cliente sacode a cabeça.
HELLINGER: Que você se mate.
CLIENTE: Por quem?
Ela começa a chorar e faz um movimento de defesa com a mão.
HELLINGER para o grupo: A palavra que disse alcançou a sua alma?
após um certo tempo para a cliente: Eu acho que ainda preciso esperar
até que possamos continuar trabalhando. Ok?
Ela concorda com a cabeça.
HELLINGER para o grupo: Agora cavei um pouco a terra e espero
novamente até que a plantinha continue a crescer.
A SOLUÇÃO
HELLINGER para a cliente: Agora vou trabalhar novamente com você. É
a última chance.
Hellinger pede para ela se sentar, juntamente com o marido, ao seu lado.
HELLINGER para o grupo: Quando um casal é separado violentamente,
isso também leva a distúrbios.
Para a cliente: O que eu disse para você hoje de manhã? O que a filha
receia e por que treme?
CLIENTE: Porque eu quero partir. Mas eu não quero partir.
HELLINGER: Porque ela tem medo que você se suicide. Essa é a seriedade.
O que aconteceu na sua família de origem?
CLIENTE: Não aconteceu nada na minha família de origem.
HELLINGER: Claro. Nada. Não existiu nem mesmo uma criança.
A cliente ri e então começa a chorar.
HELLINGER para o casal: Um de vocês dois já foi casado anteriormente?
A mulher nega, o marido diz que sim.
HELLINGER para o marido: Existem filhos desse relacionamento?
O marido nega.
HELLINGER: Então existe algo na família dela.
Para o grupo: Vou fazer um teste simples para descobrir se está na
linhagem da mãe ou do pai dela.
Hellinger escolhe um homem e uma mulher como representantes para o
pai e para a mãe da mãe e os posiciona.
O pai desvia o olhar, a mãe olha para a frente. Hellinger observa os dois
representantes e diz: "Está na linhagem da mãe.” Quando ele diz isso, a
cliente fica muito tocada.
HELLINGER: O que houve na família de sua mãe?
CLIENTE respira pesadamente e suspira: Sei que a minha mãe teve um
aborto espontâneo antes de mim. Mas naquele época ainda não tinha
nenhum relacionamento com o meu pai. Ela teve um grande amor, mas não
lhe foi permitido se casar com ele. Ainda hoje fala que fica de pernas
bambas quando o vê. De certa forma a minha mãe nunca esteve presente.
HELLINGER: Isso ainda é superficial. O que aconteceu na família dela?
CLIENTE: Sei muito pouco sobre a família de minha mãe. Ela tem uma
meia-irmã que só foi apresentada à família quando foi se casar. Ela é a irmã
mais velha. São três irmãs, minha mãe é a do meio, se formos acrescentar
a meia-irmã. A meia-irmã surgiu de um caso de meu avô. Essa meia -irmã
da minha mãe deu um bebê para ser adotado por uma família nos Estados
Unidos. Isso é o que sei da família de minha mãe.
HELLINGER: É muita coisa. Quem quer se suicidar nessa família? Em
primeiro lugar, o avô, em segundo lugar a meia-irmã e em terceiro lugar, a
criança que foi dada.
A cliente chora.
CLIENTE: Eu sempre tive a sensação de não ter lugar.
HELLINGER: Exatamente. A meia-irmã de sua mãe não tem lugar, a
criança dela não tem lugar, e naturalmente também a mãe da meia-irmã.
Todas elas não têm lugar nesta família.
CLIENTE: A mãe de minha meia-irmã também não está presente,
realmente.
HELLINGER para o grupo: Agora vou começar bem de trás, totalmente
independente dela.
Hellinger escolhe representantes para o avô, para a avó, a mãe da meia -
irmã, a meia-irmã e para a criança dela que foi dada, provavelmente uma
filha. Ele os posiciona um ao lado do outro.
Hellinger pede para a cliente posicionar os representantes. Quando ela
hesita, ele lhe pede para esperar um pouco. Então ele coloca o avô de lado.
HELLINGER para o avô: Agora você está melhor ou pior?
AVÔ: Agora estou melhor.
HELLINGER: Exatamente.
Para a cliente: Esse é o primeiro que está em perigo de se suicidar.
A cliente começa a posicionar os representantes.
Quando a cliente posicionou a avó e o avô, Hellinger conduziu a avó na
direção em que estava olhando. Ele a posiciona bem longe.
HELLINGER para a avó: Como você se sente aqui, melhor ou pior?
AVÓ: Melhor.
HELLINGER para a cliente: Essa é a segunda que se encontra em perigo
de se suicidar.
Hellinger conduz a avó novamente para o seu lugar na constelação. Agora
a cliente posiciona os outros também. A primeira mulher do avô e a meia -
irmã em frente ao avô, a avó atrás dele, mas com o olhar bem distante dele.
A criança que foi dada bem longe com o olhar para fora.
Agora Hellinger coloca uma representante para a filha da cliente e a
própria cliente. Ambas estão uma em frente a outra. A cliente olha para o
chão. Hellinger pede para uma mulher se deitar no chão, de costas, em
frente à cliente. Ela representa a criança morta.
CLIENTE: Antes que ela se sentasse, queria me enrolar e ficar bem
pequenininha.
HELLINGER para o grupo: Vocês perceberam que ela tirou de si mesma
a própria força e seriedade com o seu falatório?
A cliente concorda com a cabeça.
HELLINGER para a cliente: Essa é uma criança morta — a sua.
CLIENTE vira-se para Hellinger: Sim, existe uma.
HELLINGER: Exatamente, e ela está aí.
HELLINGER após uns instantes para afilha: Deite-se ao lado da criança.
HELLINGER para a filha: Como você se sente aí, melhor ou pior?
FILHA: Melhor.
HELLINGER para o grupo: Pudemos ver como ela respirou aliviada
quando se deitou.
Para a filha: Olhe para a mãe e diga-lhe: "Eu morro por você."
FILHA: Eu morro por você.
Após alguns instantes, a mãe se ajoelha entre as duas crianças e chora.
Ela pega as duas crianças pela mão. Hellinger interfere e pede para a filha
se levantar. A mãe afaga a criança morta, abraça-a e a puxa para si. As
duas se abraçam afetuosamente.
HELLINGER para a filha: Como você se sente agora?
FILHA: Muito bem.
HELLINGER: Exatamente. Agora você não precisa mais entrar no meio.
A mãe continua abraçando afilha afetuosamente.
HELLINGER após um certo tempo, para afilha: Como você se sente
agora?
FILHA: Ainda muito bem.
HELLINGER: Você está fora disso.
Para a cliente e representantes: Podemos deixar por aqui.
Para o grupo: O que aconteceu antes não é tão importante agora. Algo mais
recente se tornou importante. Embora o outro acontecimento tivesse
significado também. Contudo, isso aqui exige toda a energia.
Para a cliente: Posso deixar assim?
CLIENTE obviamente aliviada: Sim.
HELLINGER: Ok. Foi isso então.
HELLINGER para o grupo: Nas Constelações Familiares, recebemos as
indicações importantes imediatamente, quando prestamos atenção ao que
está acontecendo. Quando a filha entrou na constelação ela olhou
brevemente para o chão.
Para a cliente: Quando Coloquei você, você não olhou para os outros, mas
diretamente para o chão. Com isso ficou claro que ali estava o decisivo.
Para o grupo: Não precisamos pesquisar o que aconteceu, o que foi que
aconteceu realmente. Para quê? Não é da nossa conta. Eu queria encontrar
uma solução para a filha.
Para a cliente: Ok?
Ela concorda com a cabeça.
HELLINGER para o grupo: É claro que agora existe o grande perigo de
que alguns irão até a cliente para lhe perguntar o que foi, ou vão querer
consolá-la. Esses são os ajudantes fracos, os mais fracos, podemos dizer
assim também. O estranho é que, se fizerem isso, vão se sentir melhor.
Melhor do que eu, por exemplo, e melhor do que o cliente.
Entretanto, quanta responsabilidade tomam para si? Nenhuma. Eles se
alimentam dos outros através de seu consolo. É um tipo de vampirismo. Se
considerarmos assim, é vampirismo. Só que os dentes estão ocultos.

“VOCÊ É LOUCO?”
HELLINGER para um jovem: Vou trabalhar com você.
O jovem está de boné de tricô. Ele se senta ao lado de Hellinger, curva -se
para a frente e olha para o chão.
HELLINGER após um certo tempo: Você é louco?
O jovem olha para Hellinger e diz: não. Então olha novamente para o
chão. Após um certo tempo, movimenta seus olhos para a direita e para a
esquerda, brincando nervosamente com seus dedos. Então um sorriso de
contentamento passa pela sua face. Ele olha breve para Hellinger e desvia
o olhar.
Risadas no grupo.
O jovem continua sorrindo e sacode a cabeça.
HELLINGER após um certo tempo para o grupo: Ele é louco.
Quando o grupo ri, Hellinger solicita, com a mão, para o grupo parar.
HELLINGER sério: É claro que ele é louco.
O cliente também fica sério novamente.
HELLINGER para o jovem: Quantas pessoas e quantos ajudantes você já
enganou?
O jovem olha de soslaio ao seu redor e sorri novamente. Hellinger também
sorri.
HELLINGER para o cliente: Vou deixar por aqui no momento. Ok?
O jovem volta ao seu lugar.
HELLINGER para o grupo: O que fiz agora? Eu tirei o seu poder.
O jovem ri, como se tivesse sido pego. O grupo ri junto.
“EU SOU UM DE VOCÊS”
O cliente vem sem o seu bonezinho.
HELLINGER para o grupo: Hoje ele abandonou o seu bonezinho bobo.
Mas, isso é maravilhoso!
HELLINGER para o cliente: Você fez bem. Sente-se ereto. Mais ereto
ainda. O jovem que antes estava sentado inclinado bem para frente,
endireita-se.
HELLINGER: Você fica bem assim.
Para o grupo: Ainda vou educá-lo um pouquinho.
O jovem ri.
HELLINGER para a organizadora: Eu havia pedido a você que se
informasse se ele é adotado.
ORGANIZADORA: Ele é uma criança que ficou sob tutela desde o terceiro
ano de vida.
HELLINGER para o jovem: O que aconteceu com seus pais?
JOVEM gagueja: Naquela época os meus pais eram alcoólatras. O que há
com eles hoje, eu não sei.
HELLINGER: Você sabe onde eles estão?
JOVEM: Não.
HELLINGER para o grupo: Portanto, apenas para vocês como exercício.
Se ele está com os seus tutores e quer ir para os seus pais e amá-los: qual
é a reação?
Para o cliente: Você teria a coragem para isso?
Ele reflete por longo tempo e sacode a cabeça.
HELLINGER: Exatamente. Não.
Para o grupo: Ele fica então em conflito, de um lado, os seus tutores e, de
outro, seus pais. O que lhe resta senão gaguejar?
Para o cliente: Você pode entender o que digo? Vamos então ao assunto?
Ele concorda com a cabeça.
Hellinger escolhe representantes para os tutores e representantes para
seus pais e os posiciona uns em frente aos outros. Ele coloca o jovem no
meio deles. Ele olha para ao chão.
HELLINGER para o grupo: Do jeito que ele está lá, é como se tivesse
consciência de sua culpa.
Para o jovem: Talvez você pense que trouxe infelicidade para seus pais. O
que eles deveriam fazer com você?
Ele continua olhando para o chão. Hellinger o conduz para seus pais. Ele
fica perante seus pais, de punhos cerrados, mas não olha para eles.
HELLINGER para o grupo: Olhem para as mãos dele. Aí vocês estão
vendo a agressividade. Então, o que acontece com uma criança que é tirada
de seus pais aos três anos de idade? Fica zangada.
O jovem dá um passo para trás.
HELLINGER: Vou lhe pedir que fale uma frase difícil.
Ele concorda com a cabeça.
HELLINGER: "Abro espaço, por amor a vocês." Olhe para eles ao dizer
isso.
JOVEM fluentemente, com voz clara, sem gaguejar: Abro espaço, por amor
a vocês.
HELLINGER para o grupo: Não é que ele pode dizer isso sem gaguejar?
Para o cliente: Diga novamente.
JOVEM: Abro espaço, por amor a vocês.
Ele continua se afastando lentamente. Então olha para o chão.
HELLINGER Olhe novamente para os seus pais e diga: "Vocês sempre
serão meus pais.”
JOVEM sem gaguejar: Vocês sempre serão meus pais.
HELLINGER: "Eu os levo no meu coração."
JOVEM: Eu os levo no meu coração.
O jovem continua olhando para o chão.
HELLINGER após um certo tempo: Olhe para eles ainda uma vez e diga:
"Mas, vocês me fazem muita falta.”
JOVEM: Mas, vocês me fazem muita falta.
Ele pronunciou todas essas frases sem gaguejar, de forma clara e fluente.
O jovem cerra os punhos novamente, curva a sua cabeça ainda mais
profundamente e olha para o chão.
HELLINGER Diga-lhes: "Eu sou apenas uma criança."
JOVEM: Eu sou apenas uma criança.
HELLINGER: "Sem culpa.”
JOVEM: Sem culpa.
HELLINGER: "Vocês são os pais.”
JOVEM: Vocês são os pais.
HELLINGER: Olhe para eles.
Ele olha para eles. Então inclina a cabeça novamente e olha para o chão.
HELLINGER Olhe para eles e diga: "Por favor."
JOVEM: Por favor.
HELLINGER: Siga o seu movimento. Está bem.
Ele se dirige lentamente para eles e se pendura no pescoço do pai. Os dois
se abraçam afetuosamente. Entretanto, ele continua de punhos cerrados.
Então, se coloca ao lado do pai e olha novamente para o chão.
HELLINGER: Olhe para os seus tutores e diga-lhes: "Aqui é o meu lugar."
JOVEM: Aqui é o meu lugar.
HELLINGER: "Não importa o que isso me custe."
JOVEM: Não importa o que isso me custe.
HELLINGER: "Aqui é o meu lugar."
JOVEM: Aqui é o meu lugar.
HELLINGER após um certo tempo, para o pai e para a mãe: Agora digam
para eles: "Obrigado."
PAI: Obrigado.
MÃE: Obrigada.
O cliente olha novamente para o chão. Então coloca-se atrás de seus pais.
Hellinger escolhe uma mulher e pede que se deite de costas em frente aos
pais.
A mãe olha para trás em direção ao filho, desviando o olhar da morta.
Então olha para seu marido. Os dois se seguram as mãos. A mãe coloca a
cabeça no ombro do marido e soluça. O pai olha para a morta. O jovem,
que ainda estava de punhos cerrados, os solta.
HELLINGER após um certo tempo para a mãe: Diga ao filho: "Você é
inocente.”
MÃE olha para trás, para o filho: Você é inocente.
HELLINGER: "Eu sou culpada."
MÃE muito comovida, com voz fraca: Eu sou culpada.
Ela olha para o filho. Este se dirige lentamente para ela e a abraça. O pai
abraça ambos.
O jovem encosta a cabeça nos pais, nos seus ombros e os abraça longa e
afetuosamente. Após um certo tempo, Hellinger solta-o de seus pais,
pedindo para se afastar e se ajoelhar diante deles.
HELLINGER: Olhe para eles e diga: "Aqui sou apenas a criança."
JOVEM: Aqui sou apenas a criança.
HELLINGER: "E permaneço sendo a criança."
JOVEM: E permaneço sendo a criança.
HELLINGER para o grupo: Quando estava se dirigindo aos pais, ele se
comportou como se fosse o grande. Ele assumiu duplamente algo por eles.
Por um lado, a culpa. Isso se mostrou nessa agressividade nos punhos. Ao
mesmo tempo, também está conectado com a vítima. Essa é a dinâmica na
esquizofrenia, estar conectado simultaneamente com o agressor e a vítima.
Para o jovem: Agora saia disso. Você é apenas a criança, e a culpa fica lá
onde ela pertence.
Ele olha novamente para o chão.
HELLINGER para o grupo: Ele olha para a vítima, no lugar da mãe. Ele
conduziu o todo, e confiei nele. Ele sabia disso. Ele tomou a direção.
Para o jovem: Alô.
O jovem ri.
HELLINGER: Agora saia disso e endireite-se.
Hellinger o conduz para a frente da vítima, passando pelos pais. Ele pede
para os pais se virarem.
HELLINGER para o jovem: E agora vire-se.
Hellinger vira-o, afastando-o da vítima, em direção ao público.
HELLINGER: Olhe para as pessoas.
Ele olha e continua sério.
HELLINGER para o grupo: É como se ele estivesse numa prisão, não
tendo coragem de sair daí ainda totalmente.
A sua fisionomia se aclara e ele ri.
HELLINGER: Diga para eles: "Eu sou um de vocês.”
JOVEM: Eu sou um de vocês.
Risadas estrondosas e aplausos do grupo.
HELLINGER quando ele continua olhando para o chão: Olhe para cima.
Ele se endireita e olha para frente.
HELLINGER: Exatamente. Ok, foi isso então.
Para os representantes: Agradeço a todos vocês.
Para a representante da mulher morta, que continua ainda deitada no
chão: Como você está?
ESTA REPRESENTANTE: Eu morri.
Ela se levanta lentamente.
HELLINGER para o grupo: A pessoa morta é obviamente uma filha dos
pais.
HELLINGER para o cliente: Uma irmã sua. Dê-lhe um lugar em seu
coração.
D ESVIOS DA AJUDA
HELLINGER: Faz parte das ordens da ajuda que nos retiremos da posição
da identificação, que não tomemos partido de uma pessoa melhor ou de
uma pior ou de um agressor ou sua vítima, e que não nos elevemos em
relação aos pais.
O jovem se encontrava perante seus pais nessa posição arrogante.
Internamente dizia para eles: "Eu assumo no lugar de vocês." Eu o
reconduzi à posição de criança. Isso tem um efeito especial na alma.
Frequentemente uma pessoa se sente culpada, quando deixa a culpa com o
culpado, isto é, quando volta à posição de criança, saindo de uma posição
superior de querer fazer algo pelos pais.
O ajudante precisa fazer o mesmo. Ele não deve querer ajudar os pais como
se fossem crianças. Se procuramos, incondicionalmente, por soluções,
entraremos nessa postura arrogante.
O que digo aqui é algo revolucionário, se pensarmos nos desvios que
poderemos seguir algumas vezes, acreditando que precisamos e devemos
ajudar dessa forma.
Um dia, ouvi uma frase que atinge o ponto: "Quem tem pena, acusa Deus."

O SEGREDO
HELLINGER para a cliente: De que se trata?
CLIENTE: Que dois de meus filhos possam aprender a falar certo e mais
claramente.
HELLINGER: Qual é a idade dos filhos?
CLIENTE: Três anos e meio e quatro anos e meio.
HELLINGER: Qual é a dificuldade?
CLIENTE: Eles não falam certo e claramente. Eles engolem as letras.
HELLINGER para o grupo: Eu tenho dificuldades para entendê-la. Vocês
também tiveram?
Para a cliente: Então, quem deve falar mais claramente?
CLIENTE: Eu.
Os dois se olham longamente. Então ela olha para frente para o chão.
HELLINGER quando ela quer dizer algo: Fique assim. Você já está dentro
da cena. Continue olhando assim.
quando ela quer se virar para ele: Fique assim. Suporte isso.
Ela começa a chorar.
HELLINGER após um certo tempo: E agora diga o que acontece na cena,
de forma clara.
CLIENTE sem falar claro: Eu gostaria de poder dizer o que é.
HELLINGER: Não entendi nada.
Para o grupo: Vocês entenderam algo?
Para a cliente: Diga isso com raiva.
CLIENTE: Eu gostaria de dizer o que é na realidade.
HELLINGER: Diga a realidade.
CLIENTE chorando: Deixem-me falar! Escutem-me!
HELLINGER: Você ainda não está no ponto de poder dizer com clareza.
Vou interromper aqui. Ok?
Ela concorda com a cabeça.
HELLINGER para o grupo: Em todo o caso, as crianças estão liberadas.
São impressionantes as novas visões que o procedimento sistêmico abre.
Para o grupo: Antigamente, quando ainda era jovem, procurava por
soluções. Já desisti disso há muito tempo. Eu apenas trago algo à luz. Isso
é tudo. Então posso me recostar tranquilamente e deixar as coisas seguirem
o seu rumo.
C ONTINUAÇÃO
HELLINGER para a cliente: Vou retomar com você. Ficou claro para você
qual é a situação?
CLIENTE de forma ininteligível: Trata-se de meus pais e meu avô, o pai
de minha mãe.
HELLINGER: Você pode falar de uma forma mais clara?
Ambos riem.
CLIENTE: Sim. Trata-se de meus pais e do pai de minha mãe. É isso.
HELLINGER: O que há com eles?
CLIENTE de forma ininteligível: É essa discórdia.
HELLINGER: Infelizmente não consigo entendê-la.
Ambos riem novamente.
CLIENTE: É essa discórdia, não existe união. Trabalhavam uns contra os
outros.
HELLINGER para o grupo: Se isso fosse certo, ela teria falado
nitidamente.
Hellinger olha para ela. Ela olha para o chão.
HELLINGER: Qual é o segredo inexprimível?
Ela continua olhando para o chão.
HELLINGER: Permaneça assim, exatamente assim.
Hellinger pede a uma mulher que se deite no chão em frente à cliente, para
onde o seu olhar se dirige. A cliente ainda está sentada ao lado de
Hellinger. A cliente olha fixamente para essa pessoa morta, sem se mover.
HELLINGER: Seus dois filhos: são meninos ou meninas?
CLIENTE: Uma menina e um menino.
HELLINGER: O filho mais velho é?
CLIENTE: Um menino.
Hellinger escolhe representantes para o menino e para a menina e os
coloca em frente à pessoa morta.
Os filhos olham constantemente para a pessoa morta.
HELLINGER para a cliente: Parece que a pessoa morta é uma irmã.
A cliente não diz nada e continua olhando fixamente para a morta. O filho
se dirige até a pessoa morta e se ajoelha diante dela. Então levanta -se e
ajoelha-se um pouco mais distante.
HELLINGER para a cliente quando vê que ela está querendo se mover:
Siga o movimento.
Ela ajoelha-se junto à morta, que está gemendo, inclina-se para ela,
abraça -a, olha então para os filhos e chora. Ela inclina-se novamente
para a morta, endireita-se e olha para os filhos. A filha se afastou bem
para longe e se vira. O filho se aproxima mais da morta e segura
firmemente o braço da mãe. A filha deixou o palco, como se quisesse
desaparecer totalmente.
HELLINGER: Eu interrompo aqui.
A cliente senta-se novamente ao lado de Hellinger.
HELLINGER para a cliente: Você sabe quem é a pessoa morta?
CLIENTE: É talvez a criança que perdi?
HELLINGER: Você perdeu uma criança?
CLIENTE: Tive um aborto espontâneo.
HELLINGER: Deve ser algo mais. Aqui houve uma transferência estranha.
O filho de repente se comporta como se fosse o pai da criança.
A cliente chora e fica olhando para o chão.
HELLINGER para o grupo: Podemos observar isso pelo seu modo de olhar
para lá. Ela vê a cena de forma bem exata. A alma olha para lá. Algo assim
é sempre um assassinato.
Longo silêncio.
HELLINGER: Onde está o assassinato?
CLIENTE: Eu vejo o meu avô.
HELLINGER: O que houve?
CLIENTE: Eu vejo o meu avô e uma irmã, minha irmã. Eu vejo essa irmã...
Eu não a conheço.
HELLINGER para o grupo: Ela falou agora de maneira bem clara. É
surpreendente.
Para a cliente: Você acessou algo.
Ela chora, olhando sempre para um ponto.
CLIENTE: Minha mãe teve uma criança, que seria minha meia-irmã, e meu
avô a matou.
HELLINGER: Matou?
CLIENTE: Ele a asfixiou, assim o vejo.
HELLINGER: É isso. O segredo inexprimível.
A cliente soluça alto.
Hellinger solicita à representante da criança morta, agora a meia -irmã
morta da cliente, para se levantar. Ele a coloca em frente à cliente.
A cliente dá um passo em direção à meia-irmã morta e abre os braços de
modo convidativo. A meia-irmã olha para o lado e se esquiva dela. A
cliente dá mais um passo em sua direção. A meia-irmã se vira para o lado.
HELLINGER para a cliente, quando ela quer se aproximar mais: Espere.
Hellinger escolhe um representante para o avô e o posiciona em frente à
meia-irmã morta.
Logo que o avô fica em frente a ela, a meia-irmã se esquiva dele soluçando,
se afasta e se vira. Ela coloca as mãos em suas faces, se ajoelha soluçando
alto e se inclina para frente, colocando ambas as mãos nos antebraços. A
cliente continua se afastando.
Hellinger escolhe uma representante para a mãe da meia-irmã e a coloca.
A meia-irmã se torce, enquanto se ajoelha. A mãe quer tocá-la, mas treme
de medo. A mãe se afasta um pouco, coloca as mãos sobre o rosto e se vira
lentamente. A criança treme e se contorce ininterruptamente. Ela olha
para o avô. Ele está impassível.
Hellinger pede para a cliente se sentar novamente.
A criança se acalma um pouco. Ela olha suplicante para o avô, que
continua impassível, começa a soluçar. Vira-se para ele ajoelhada e
levanta as mãos, suplicando. Nesse ínterim, a mãe se virou totalmente.
Hellinger pede à cliente para se ajoelhar ao lado de sua meia-irmã e olhar
com ela para o avô.
A cliente coloca o braço ao redor da meia-irmã. Esta pega a sua mão e se
acalma.
Hellinger pede para os dois filhos da cliente se ajoelharem ao lado da mãe.
Em seguida o avô recua um pouco.
A mãe coloca o seu braço em torno da meia-irmã. Ela segura os filhos com
a mão direita. A meia-irmã se acalmou, nesse ínterim. Todos juntos olham
para o avô.
HELLINGER para a cliente: Diga para o avô: "Foi você.”
CLIENTE com voz nítida e alta: Foi você.
HELLINGER: Isso foi nítido.
A cliente respira fundo. Ela coloca o braço direito ao redor de seus filhos,
a filha coloca o braço em torno dela. Todos os quatro se abraçam
fortemente. Agora, Hellinger coloca a mãe ao lado do avô.
HELLINGER para a mãe: Você precisa olhar.
A cliente e a sua meia-irmã olham uma para a outra com carinho. Então,
a cliente olha para seus filhos com carinho.
HELLINGER após um certo tempo, para o grupo: Agora está tudo claro.
Não precisamos solucionar o assunto do avô com a sua mãe. Está claro para
você?
A cliente concorda com a cabeça.
HELLINGER: Ok. Bom.
A cliente senta-se ao lado de Hellinger e comovida dá-lhe a mão.
HELLINGER para o grupo: Qual é agora o próximo passo para ela? E para
o ajudante? Como isso deve continuar? Ela e o ajudante precisam colocar
o avô e a mãe dessa criança nos seus corações.
A cliente concorda com a cabeça.
HELLINGER: E ao mesmo tempo, deixá-los com essa criança. Ambas as
coisas. Esse é um passo difícil.
Hellinger chama o representante do avô e o posiciona.
HELLINGER para esse representante: Em sua imaginação faça uma
reverência respeitosa ao avô real.
Ele se curva lentamente.
HELLINGER: E agora endireite-se novamente, vire-se e volte a ser você
mesmo.
O representante se vira e ri aliviado.
HELLINGER para o grupo: Quando alguém teve que representar um papel
pesado, devemos tirá-lo dessa situação. Isso foi necessário aqui. Para os
outros que não tiveram que representar papéis tão pesados, não é tão
necessário.
A JUDA COMO FRAQUEZA - A JUDA COMO FORÇA
HELLINGER: Gostaria ainda de dizer algo sobre o amor. Amor demasiado
é fraqueza. Muitos amam porque não conseguem suportar algo, porque não
conseguem suportar o outro e seu destino. Por isso se tornam ajudantes.
Uma criança pequena não consegue suportar o que acontece na família: o
que acontece com a mãe, com o pai, com o destino deles e com a culpa
deles. Por isso quer ajudar. Então assume algo pelo pai, pela mãe, por
outros da família - por fraqueza. Ele se torna ajudante por amor, mas por
fraqueza.
Muitos ajudantes adultos ajudam segundo o modelo de uma criança assim.
Eles não conseguem suportar algo e tentam mudar algo - mas não porque o
outro precise disso. Assumem algo por ele, sem respeito pela sua grandeza
e seu destino e talvez também pela sua culpa.
A criança cresce, quando aprende a amar de outra forma - com respeito
pela grandeza que conduz os pais e que conduz os outros também.
Assim, o ajudante também ajuda de outra forma, quando adquire força. Ele
suporta o destino dos outros. Então apoia o outro de uma forma que ele
possa ficar sobre os seus próprios pés. E frequentemente também de uma
forma que o outro desiste de ajudar por fraqueza. Esse seria o outro amor.

AJUDA EM SINTONIA
Eu gostaria ainda de dizer algo sobre a ajuda. Posso comparar a maneira
como procedo aqui com a de um jardineiro. Ele espera pela época certa.
Faz o que é necessário no momento. Depois disso deixa crescer, sem
interferir. O que faço aqui é dar com o cliente os passos necessários que
ajudam o seu crescimento. Tenho respeito pelas leis do crescimento e do
desenvolvimento.
Se vocês compararem isso com uma outra postura quando alguém diz: "Eu
soluciono por você”, estão vendo que ele se comporta mais como um
artesão que lida com uma matéria morta, ficando somente satisfeito quando
foi consertada. Essa postura tem pouca conexão com as leis da alma.
Eu tento seguir as leis da alma. A característica principal do jardineiro é
que espera com paciência pela época certa da fruta.

RECONCILIAR OS OPOSTOS
Ainda vou dizer algo sobre a loucura. Louco é alguém que não consegue
reunir algo. Via de regra, são pessoas opostas. O louco precisa conseguir
lidar com os dois, mas não consegue porque essas duas pessoas estão em
conflito uma com a outra. Existe algo insolúvel entre eles, como, por
exemplo, entre agressores e vítimas. Isso significa normalmente que ele se
torna esquizofrênico.
Em relação aos distúrbios da fala talvez exista algo similar. Por enquanto,
isso é apenas uma hipótese. Alguém tem distúrbios da fala, especialmente
quando gagueja, porque dentro dele duas pessoas opostas querem ter a
palavra simultaneamente. Um está contra o outro. Um deles quer dizer algo
e não deve dizer. Uma pessoa quer algo e a outra está do contra. Então isso
leva à gagueira ou a alguma espécie de distúrbio de fala.
Essa imagem me surgiu, quando estava trabalhando aqui, que os distúrbi os
da fala, algumas vezes, têm algo de louco e que pode ser solucionado,
quando aqueles que se opõem na alma podem ser reunidos e se reconciliam.
Então, as palavras também podem se reconciliar e se mostrarem como um
todo, como uma unidade.
A premissa é que aconteça algo similar também com o ajudante. Ele
também precisa reunir os opostos em sua alma.

CRIANÇAS DE RUA
Extraído de um curso no México

A VIDA REAL
Muitas vezes, ficamos imaginando como seria uma infância realmente feliz
e o que nos prepararia melhor para a vida. Ou seja, pais amorosos,
infalíveis, compreensivos, sempre ao nosso lado, ajudando-nos em todos
os aspectos e protegendo-nos contra todos os males. O que acontece com
essas crianças mais tarde na vida? O que sabem das dificuldades da v ida e
dos desafios que ela nos impõe? Quão corajosas serão? No que diz respeito
à capacidade de sobreviver também diante de grandes dificuldades, estão
em desvantagem em comparação com as crianças que tiveram uma infância
difícil.
Às vezes, comparo os estudantes universitários na Alemanha com as
crianças de seis ou sete anos que vendem jornais na América Latina. Quão
fortes já são! Quão independentes! Como podem, tão jovens, assumir a
responsabilidade pelo sustento da família e contribuir de forma natural p ara
ele? Quanta vivacidade e prontidão e que força interna!
Tenho o mais profundo respeito por elas. Elas sabem das durezas da vida e
o que, em última instância, ela exige de nós.

EXEMPLO: “POR FAVOR”


Hellinger pede que um garoto de aproximadamente 13 anos se sente ao seu
lado. Ele vem com as mãos no bolso e senta-se, tímido e desajeitado, ao
lado de Hellinger.
H ELLINGER para esse garoto: Você ainda não está acostumado com isso.
O garoto está muito mexido e olha para o chão.
H ELLINGER : Olhe para mim.
O garoto está sentado, curvado, com o tronco inclinado para o lado oposto
ao de Hellinger e olha para ele de baixo para cima. Depois olha de novo
para o chão.
H ELLINGER : Para mim está bom assim. Simplesmente olhe para mim.
Hellinger pousa a mão sobre o joelho do garoto.
H ELLINGER : Quando olho para você, vejo que desistiu de confiar em outras
pessoas. Parece que passou por muitas dificuldades.
O garoto acena com a cabeça.
H ELLINGER : Eu vejo isso.
O garoto olha novamente para o chão.
H ELLINGER : À S vezes, em uma noite escura, as pessoas esperam
ansiosamente pelo nascer do sol. É bom ver o sol brilhar novamente depois
de uma noite escura. Às vezes, também é assim na vida. Também na vida
o dia nasce depois de uma noite escura. Vamos procurar a luz? A luz para
você?
O garoto olha para o chão o tempo todo.
H ELLINGER : Olhe para mim de novo.
O garoto sorri para Hellinger.
H ELLINGER : Vejo que você está mais esperançoso. Conte-me algo de sua
vida.
O garoto suspira fundo e começa a chorar. Hellinger o envolve com o
braço, puxa-o em sua direção e o conforta demoradamente. O garoto pousa
a cabeça sobre o peito de Hellinger. Após um instante, quando Hellinger
solta o garoto, este olha para o outro lado e para baixo. Hellinger o puxa
novamente para si. O garoto pousa sua cabeça novamente, de forma
espontânea, sobre o peito de Hellinger.
Após um instante, o garoto se solta. Ele olha de novo para o lado e para o
chão.
H ELLINGER : Conte-me algo sobre seu pai e sua mãe.
G AROTO : O que devo dizer?
H ELLINGER : Algo sobre o que você viveu com seu pai e com sua mãe.
G AROTO : EU não tinha uma boa relação com meus pais.
H ELLINGER : O que aconteceu?
G AROTO : EU fugi de casa porque não aguentava mais.
H ELLINGER : Qual era a sua idade?
G AROTO : Dez.
H ELLINGER : Para onde você foi?
G AROTO : Para a rua.
Hellinger espera um longo tempo. Durante todo esse tempo, ele mantém a
mão direita entre os ombros do garoto. O garoto continua olhando para o
chão.
H ELLINGER : Então você sabe sobreviver sozinho.
Há outra pausa longa.
H ELLINGER : Você visita seus pais, às vezes?
G AROTO : Sim, às vezes.
H ELLINGER : Quer dizer algo sobre isso?
G AROTO : Não.
H ELLINGER : V OU fazer um pequeno exercício com você. Feche os olhos.
Imagine seus pais quando olharam para você logo que você nasceu. Como
lhe tomaram como filho. Alimentaram você. Eles lhe ajudaram e você pôde
morar com eles. Eles tinham poucos recursos, mas fizeram o melhor que
puderam.
Quando pequeno, você olhava para eles com amor. Eles eram os únicos
com quem você contava. Aí você cresceu. Viu como era difícil para seus
pais. Talvez tenha visto que eles não tinham possibilidades de alimentar
você também. Então, talvez tenha dito internamente: "Não quero ser um
peso para vocês. Vou cuidar de mim sozinho agora. Aí será mais fácil para
vocês." Então foi embora. No entanto, você às vezes visita seus pais. Você
diz a eles: "Eu dei conta sozinho. Fui forte o suficiente para dar conta
sozinho, mas sinto muita falta de vocês. Olhem para mim com amor."
Após um instante, Hellinger tira a mão do garoto. O garoto permanece na
mesma posição e olha para o chão. Então, Hellinger coloca a mão sobre a
mão do garoto. Eles permanecem assim por muito tempo.
H ELLINGER após um instante: Como você se sente agora?
O garoto olha para Hellinger.
G AROTO : Bem.
H ELLINGER : V OU fazer mais algo para você, Ok?
O garoto acena com a cabeça.
Hellinger escolhe representantes para o pai e a mãe do garoto e os
posiciona lado a lado, a mãe à esquerda do pai. Ao ver isso, o garoto
tampa os olhos com a mão. Hellinger o coloca em frente aos pais.
H ELLINGER para o garoto: Imagine que você está voltando da rua e indo
para casa. Olhe para eles.
Todos permanecem por muito tempo sem se mover. Então a mãe dá um
pequeno passo, se afastando do pai. Depois, dá mais um pequeno passo e,
em seguida, mais um. Ela olha para o chão o tempo todo.
Após um instante, Hellinger escolhe um representante para um morto e
pede a ele que se deite em frente à mãe, com as costas voltadas para o
chão. Quando ele se deita, a mãe dá um pequeno passo para trás, mas fica
olhando o tempo todo para o morto. Depois dá mais um pequeno passo
para trás. O morto olha continuamente para ela. Depois olha para o
garoto. A mãe olha brevemente para o pai, mas ele não se mexe e olha
sempre para a frente.
Após um instante, a mãe vai para o chão e olha para o morto. Este olha,
alternadamente, para ela e para o garoto. Ele estende uma mão para o
garoto, mas a recolhe em seguida, segura a cabeça com as duas mãos e
começa a soluçar alto. A mãe se levanta de novo e dá vários passos para
trás. Ela pousa a mão esquerda sobre o coração. O pai continua sem se
mover.
H ELLINGER após um instante para o garoto: Você sabe quem poderia ser
essa pessoa no chão?
G AROTO : EU .
H ELLINGER : É uma pessoa morta com a qual sua mãe tem uma ligação.
Quem poderia ser?
G AROTO : Minha tia.
H ELLINGER : O que houve com ela?
G AROTO : Não sei.
H ELLINGER : Sua mãe estava olhando para o chão antes. Isso mostra que
estava olhando para um morto. Pode ser que o morto seja um filho da sua
mãe. Você sabe de algo a esse respeito?
G AROTO : Não.
No meio tempo, a mãe coloca ambas as mãos sobre o coração.
H ELLINGER : Podemos ver algo claramente aqui. Sua mãe não estava
disponível para você. Ela se sentia atraída por uma outra pessoa. Dessa
forma, você só pode contar com seu pai.
Hellinger o coloca mais perto do pai. O garoto se coloca à direita do pai.
Este o envolve com o braço direito e pousa a mão esquerda sobre seu
ombro. O garoto olha para o chão e coloca as mãos no bolso. Ficam assim
por muito tempo. De vez em quando, o garoto levanta levemente a cabeça,
mas a abaixa logo em seguida e olha para o chão.
H ELLINGER após um instante, para o garoto: Você também está olhando
para um morto? Talvez para um amigo?
G AROTO : Para um amigo.
Após um instante, Hellinger escolhe um representante para esse amigo e o
coloca deitado em frente ao garoto, com as costas para o chão.
O outro morto se vira para o lado. A mãe recua ainda mais.
H ELLINGER para o garoto: Vá até ele.
O garoto se ajoelha junto ao morto e chora.
H ELLINGER para o garoto: Siga o seu movimento.
Após um instante, para esse morto: O que se passa em você?
E SSE MORTO : Sinto o mesmo que ele. Também estou olhando para um
morto.
O garoto e o morto se olham. Hellinger coloca a mão do garoto sobre a
barriga do morto.
H ELLINGER após um instante para o garoto: O que se passa com você?
G AROTO : Estou triste.
H ELLINGER : Diga a ele: "Penso em você com amor.”
G AROTO : Penso em você com amor.
Após um instante, Hellinger faz com que o garoto se levante e se vire para
seu pai.
H ELLINGER : Olhe para seu pai e diga a ele: "Sou seu filho."
G AROTO : SOU seu filho.
H ELLINGER : “Olhe para mim como seu filho."
G AROTO : Olhe para mim como seu filho.
H ELLINGER : "Tome-me como seu filho.”
G AROTO : Tome-me como seu filho.
H ELLINGER : "Por favor."
G AROTO : Por favor.
O pai abraça o garoto. Ele ainda está com as mãos nos bolsos. Hellinger
o ajuda a abraçar o pai. Pai e filho permanecem assim por um longo tempo.
O pai o beija e acaricia sua cabeça. O filho mantém o tempo todo a cabeça
virada para o lado contrário ao do pai. O pai acaricia novamente sua
cabeça e suas costas. Após um instante, eles se separam.
H ELLINGER para o garoto: Como você está agora?
G AROTO : Bem.
H ELLINGER : Vou parar por aqui. Tudo de bom para você.
EXEMPLO: O AMOR
H ELLINGER para um rapaz de aproximadamente 18 anos, morador de rua:
Qual é a sua questão?
R APAZ : Sou muito agressivo e, muitas vezes, sinto-me muito sozinho.
H ELLINGER : O que você faz quando fica agressivo?
R APAZ : Perco a consciência. Não consigo mais me controlar.
H ELLINGER : Quem mais em sua família era agressivo?
R APAZ : Na família do meu pai e também na da minha mãe.
H ELLINGER : O que houve?
R APAZ : D O lado do meu pai, o pai dele era bastante agressivo. Tinha ainda
uma outra mulher. Na família da minha mãe, tem um tio cujo filho se
matou. Esse tio matou o namorado de sua irmã.
H ELLINGER : Quem é agressivo da forma como você é, está identificado com
alguém de sua família. Provavelmente você se identifica com esse tio, que
matou o namorado da irmã. Por isso, vamos olhar para isso. Talvez
encontremos uma forma que lhe permita soltar-se disso. Ok?
R APAZ : Sim.
Hellinger escolhe representantes para o tio que matou o namorado de sua
irmã e para o filho do tio que se matou. Depois escolhe uma representante
para a irmã do tio e um representante para o namorado da irmã que foi
assassinado.
Hellinger posiciona o namorado assassinado da irmã do tio em frente a
ele e a irmã ao lado do namorado. O filho do tio é posicionado bem mais
para trás, lateralmente, atrás da irmã do tio.
O assassinado cai imediatamente para trás no chão. Ele fica deitado de
costas e abre ambos os braços. Em seguida, o tio também cai para trás no
chão, com um alto estampido, e estica os braços e pernas.
Ao ver isso, o rapaz começa a soluçar. Hellinger o abraça. Ele apoia a
cabeça sobre o peito de Hellinger e respira pesadamente.
Então, o filho do tio também vai para o chão. Ele se deita do seu lado
direito e olha para o pai. A irmã do tio permanece em pé imóvel ao lado
do seu namorado, deitado no chão.
O rapaz soluça alto no peito de Hellinger.
H ELLINGER para o grupo: Quem é o culpado aqui? Ele aponta com o dedo
para a irmã do tio. A irmã do tio é a culpada.
Ela permanece em pé, inabalada.
H ELLINGER : Quem pagou por essa culpa?
Ele aponta para o filho do tio que se matou. Ele pagou por isso.
O rapaz continua soluçando com os olhos fechados.
H ELLINGER para o rapaz: Agora vá até o namorado assassinado da irmã do
tio e o abrace.
Hellinger o conduz até o assassinado, que está deitado no chão, e o faz
ajoelhar-se ao lado dele. O rapaz olha para o assassinado e soluça alto.
Contudo, não se atreve a tocá-lo. A irmã do tio continua inabalada.
H ELLINGER para o rapaz: Diga a ele "Dou-lhe um lugar no meu coração,”
R APAZ soluçando alto: Dou-lhe um lugar no meu coração.
H ELLINGER após um instante: Toque nele. Está tudo bem. Toque nele.
Ele o toca com bastante cuidado e pousa uma mão sobre seu peito. A irmã
do tio virou a cabeça e está olhando para baixo em direção aos dois. O
rapaz fica mais calmo. Ele para de soluçar.
Hellinger o levanta e o conduz até seu tio, o assassino. Lá ele começa
novamente a soluçar. Hellinger pede que ele se ajoelhe diante do tio. Ele
se ajoelha e soluça alto.
H ELLINGER após um instante: Toque nele também.
Ele coloca uma mão no seu peito e soluça alto.
H ELLINGER após um instante: Olhe para ele e diga: "Dou-lhe um lugar no
meu coração."
R APAZ soluçando alto: Dou-lhe um lugar no meu coração.
Ele continua soluçando alto. Após um instante, Hellinger o coloca de pé.
Então, Hellinger coloca a irmã do tio diante do seu namorado assassinado.
H ELLINGER para a irmã do tio: Olhe para ele.
O rapaz está ao lado de Hellinger e se apoia nele. Hellinger o envolve com
um dos braços, enquanto ele ainda soluça alto.
H ELLINGER para a irmã do tio: Vá para junto do seu namorado no chão.
Ela se ajoelha junto a ele, coloca uma mão sobre seu peito, cu rva-se até
ele, abraça-o e soluça. Ela acaricia seu rosto. Ele fecha os olhos.
H ELLINGER para o grupo-. Ele fechou os olhos. Agora está em paz.
Hellinger conduz o rapaz até o filho do seu tio que cometera suicídio. Ele
fica à sua frente e olha para baixo em sua direção.
H ELLINGER diga a ele: “Dou-lhe um lugar no meu coração."
R APAZ soluçando alto: Dou-lhe um lugar no meu coração.
H ELLINGER : Abaixe-se até ele.
O rapaz se abaixa até ele e soluça alto.
H ELLINGER : Toque nele.
Ele pousa uma mão sobre seu peito e se acalma. O filho, contudo, fica
olhando para seu pai.
Hellinger coloca o tio de pé e o leva até seu filho.
H ELLINGER para o tio: Abaixe-se até ele.
Ele se ajoelha diante do filho. Este estende a mão até o pai. O pai toma
sua mão. O filho fecha os olhos.
H ELLINGER para o grupo: Agora ele também fechou os olhos. Ele expiou
por seu pai. Ele pagou por isso.
O tio deita-se ao lado do filho e também fecha os olhos.
Hellinger faz com que o rapaz fique de pé e se vire para o grupo.
H ELLINGER : Agora olhe para frente. Olhe para o mundo. Diga a todos aqui:
"Agora estou a serviço da paz."
R APAZ respira fundo: Agora estou a serviço da paz.
H ELLINGER : Olhe para todos eles. Diga a eles: "Agora estou a serviço do
amor e da paz.”
R APAZ : Agora estou a serviço do amor e da paz.
Ele respira fundo. Hellinger o pega pela mão.
H ELLINGER : Agora suas mãos estão muito macias.
Ele continua respirando fundo.
H ELLINGER : Ninguém mais precisa ter medo de você.
R APAZ : Sim.
H ELLINGER : Ok. Tudo de bom para você.
R APAZ : Obrigado.
Os dois se abraçam e se dão as mãos.

A ESCOLA
Extraído de cursos de Pedagogia Sistêmica, no México

PEDAGOGIA SISTÊMICA
H ELLINGER : Gostaria de dizer algo sobre a Pedagogia Sistêmica. O que
significa Pedagogia Sistêmica? Significa que não vemos apenas o aluno,
mas também os pais do aluno nele. Uma professora me falou certa vez que,
quando está diante de uma classe com 20 alunos, não vê apenas 20 pessoas,
mas sim 60, pois os pais também estão incluídos. Quando o professor
também vê os pais dos alunos por trás deles, ele os entende. Ao mesmo
tempo, sente por trás de si seus próprios pais e ancestrais.
Entretanto, na sociedade ocidental existe uma ideia dos pais ideais. Isso
não faz sentido para mim. Meus pais não foram ideais, mas foram muito
bons. A meu ver - e esta é uma afirmação revolucionária - todas as crianças
são boas, assim como seus pais.
R ESPEITO AOS PAIS COMO ELES SÃO
Esse respeito aos pais, aos próprios pais e aos pais dos alunos com que
trabalhamos, é a base de uma boa educação. Uma vez resumi isso de forma
breve, escrevendo uma carta para a minha mãe. Ela já está morta há muito
tempo, mas eu escrevi a carta:
"Querida mamãe,
Você é uma mulher comum, como milhões de outras mulheres. Como uma
mulher comum, você me concebeu e carregou no seu ventre. Depois, você
me deu à luz, alimentou, cuidou de mim por muitos anos, como uma mulher
comum. Como uma mulher comum, você foi para mim a melhor mãe que
eu pude ter. Assim, amo você como a uma mulher comum. Libero você de
minhas expectativas, que vão além daquilo que posso esperar de uma
mulher comum. Aquilo que você me deu vai muito além do que eu poderia
esperar sendo uma criança comum."
Se olharmos para nossos pais, para todos os pais e para os pais de nossos
alunos, então eles fizeram tudo certo. Na transmissão da vida, fizeram tudo
certo. Nesse sentido, todos os pais são perfeitos. Se eu os tiver no coração,
alguém pode me dizer o que quiser sobre seus pais: eu os respeito.
O CAMPO ESPIRITUAL
Todo indivíduo está integrado em um sistema. A esse sistema pertencem,
além de seus pais, também seus avós e antepassados. Nesse sistema, muitas
coisas já aconteceram, tanto boas quanto más. Esse passado atua no
presente.
Rupert Sheldrake fala de uma mente ampliada. Trata-se de um campo em
que se encontram todos os nossos antepassados, assim como tudo aquilo
que já ocorreu. Nesse campo, todos estão em ressonância com todos. Somos
influenciados por ele.
Qual é o resultado? Ninguém pode ser diferente do que é. Nossos pais não
poderiam ter sido diferentes do que foram. Nós não podemos ser diferentes
do que somos e nossos alunos não podem ser diferentes do que são.
Quando olhamos para os alunos que causam problemas na escola, sabemos
que eles não podem ser diferentes do que são. Quando olhamos para seus
pais e para o sistema do qual eles vêm, compreendemos por que são como
são.
R ESSONÂNCIA COM OS EXCLUÍDOS
Aqui há um aspecto que deve ser especialmente observado. Um sistema é
perturbado quando alguém foi excluído, mesmo muitas gerações atrás.
Quando uma criança se comporta de uma forma diferente da que
desejávamos, está olhando, em seu sistema, para uma pessoa que foi
excluída. Assim, a criança se comporta de uma forma diferente, por amor.
Ao trabalhar com essa criança, podemos olhar com ela para essa pessoa
excluída. Podemos falar com seus pais sobre isso e talvez descobrir quem
é essa pessoa excluída. Se olharmos e respeitarmos essa pessoa junto com
os pais, nós a integramos à família. Então, a criança pode mudar. Porém,
não é só a criança quem muda, a família também muda. Dessa forma,
quando um professor age assim e conhece os contextos sistêmicos, ele atua
também na família. Por isso, a Pedagogia Sistêmica atua, através da escola,
também nas famílias e na sociedade.
Alguns professores que olham apenas para os alunos se deprimem, pois
percebem que não fazem progresso. Experimentam um burn-out. Existem
remédios simples contra esses burn-outs. Olhamos através das crianças
para seus pais com amor e damos a eles um lugar em nosso coração. De
repente, já não estamos mais sozinhos. Podemos dividir com os pais aquilo
que carregamos sobre os ombros como se fôssemos os únicos responsáveis
pela criança e irmos com mais alegria para o trabalho.
Vou mostrar, através de exemplos concretos, como trabalhar com crianças
difíceis e olhar para as soluções existentes. Os professores apresentarão
casos em que têm dificuldades com uma criança e eu olharei junto com eles
para uma possível solução.

“QUERIDA MAMÃE”
H ELLINGER para um professor: Qual é o seu caso?
P ROFESSOR : Trata-se de um aluno do primeiro semestre. Ele é muito ruim
na escola. Há pouco tempo, provocou tanto que a professora bateu nele.
Outra coisa que me vem à mente é que ele acha difícil falar diante de muitas
pessoas. Ele fala baixinho. Na escola, o apelido dele é "mudo".
H ELLINGER : Qual é a idade dele?
P ROFESSOR : 15 anos.
H ELLINGER : Vejamos o que podemos fazer.
Hellinger escolhe um representante para o garoto e o posiciona. Ele olha
imediatamente para o chão.
H ELLINGER para o professor: Você sabe algo sobre a mãe dele?
P ROFESSOR : Muito pouco.
H ELLINGER : O garoto está olhando para um morto. Quando alguém olha
para o chão, está olhando para um morto.
Hellinger escolhe uma mulher como representante de uma morta e a coloca
deitada de costas em frente ao representante do garoto. A mulher olha para
cima, em direção ao garoto. Ele está bastante mexido e ajoelha-se devagar
junto a ela. Após um instante, senta-se sobre os calcanhares e curva-se
sobre ela. A mulher o pega pelo braço e o acaricia. Ele se endireita e lhe
estende a mão. Em seguida, coloca a mão dela sobre seus olhos.
Hellinger coloca uma representante atrás dele. Ela se vira de costas para
os dois.
H ELLINGER para o grupo: A morta está olhando através do garoto.
A outra mulher está inquieta e movimenta o tronco para frente e para trás.
Hellinger coloca o representante do garoto de pé e o conduz para o lado,
mas deforma que tenha ambas as mulheres em seu campo de visão.
H ELLINGER para o representante do garoto: Como está agora, melhor ou
pior?
R EPRESENTANTE DO GAROTO : Melhor.
H ELLINGER para o grupo: O problema está com as duas mulheres. Ele não
tem nada com isso.
A outra mulher se virou para a morta, que olha para ela continuamente e
lhe estende a mão. A mulher se contorce e vai para o chão soluçando.
Lentamente, ela se arrasta até a morta, toca sua mão, deita-se no chão e,
depois, fica de bruços. A morta a envolve com os braços. As duas se
abraçam afetuosamente.
H ELLINGER para o grupo: A imagem é a seguinte: a outra mulher é a mãe
dele, a morta é a mãe dela. Provavelmente, a mãe dele perdeu a mãe muito
cedo. Ela não se atreve a ir até ela. Agora o garoto pode dizer uma palavra
que até agora ainda não disse.
Para o garoto Diga à sua mãe: “Querida mamãe."
R EPRESENTANTE DO GAROTO : Querida mamãe.
Hellinger o conduz para mais perto das duas mulheres. A representante da
mãe do rapaz se levanta e envolve o filho com os braços. Eles ficam assim
por muito tempo.
A morta no chão deita-se de costas e fecha os olhos.
H ELLINGER para o grupo: A morta fechou os olhos e está em paz. Ela é
reconhecida e amada. Agora pode fechar os olhos.
Para os representantes: Obrigado a todos.
Para o professor. Como você está?
P ROFESSOR : Bem.
H ELLINGER : Agora você pode compreender o aluno. Seria bom que
visitasse a mãe e contasse a ela o que se passou aqui. O aluno não deve
estar presente. Fale apenas com a mãe.
P ROFESSOR : A mãe está no grupo.
H ELLINGER : Excelente.
Para o professor: Isso é tudo.

QUEM PERTENCE AO SISTEMA FAMILIAR?


H ELLINGER : Gostaria de dizer mais uma coisa sobre sistemas, sobre o nosso
sistema. Quando trabalhamos de forma sistêmica e falamos de um sistema,
ele se refere às pessoas que influenciam o presente, cujos destinos são
capazes de nos influenciar no presente. Por esse motivo, nem todos os
nossos parentes fazem parte desse sistema. Devemos fazer distinção nesse
aspecto. Por isso vou enumerá-los.
Pertencem ao sistema, no nível mais baixo, as crianças, todas as crianças,
mesmo as natimortas. Ao contrário do que escrevi em meus primeiros
livros, também as crianças abortadas. Ou seja, todas as crianças.
No nível seguinte, pertencem ao sistema os pais e seus irmãos. Isto é, além
dos pais, os tios e tias, mas não os seus parceiros. Os primos e primas
também não. Apenas os pais e seus irmãos. Na próxima instância estão os
avós, mas sem seus irmãos. Apenas os avós. Existem exceções em que os
irmãos dos avós também são incluídos, quando têm um destino pesado, mas
geralmente são apenas os avós. Algumas vezes, também alguns dos
bisavós, mas isso é raro. Esses são os parentes consanguíneos.
Também pertencem ao sistema pessoas que não são parentes
consanguíneos. Dentre os não parentes, estão os parceiros dos pais e dos
avós, incluindo parceiros anteriores. Pertencem ao sistema todos aqueles
que cederam lugar a integrantes do sistema. Isto é, se o pai ou a mãe tiverem
sido casados antes e o parceiro tiver morrido ou nossos pais tiverem se
separado deles, isso significa que temos nossos pais ou avós porque os
parceiros anteriores cederam lugar a eles. Eles pertencem ao sistema.
E MARANHAMENTOS
Por que digo isso? O que ocorre é que os filhos de um segundo casamento
imitam os parceiros anteriores. Estão emaranhados com eles. Por exemplo,
no caso de um pai que ama muito a sua filha que, contudo, está sempre com
raiva dele. Ele se pergunta: "O que fiz de errado?"
O que ele fez de errado? Ele se separou da primeira mulher. Não que isso
sempre esteja errado, mas a filha representa a ex-mulher com seus
sentimentos. Essa mulher é excluída. Talvez até falem mal dela.
Em um sistema, ninguém pode ser excluído. Quem é excluído é
representado.
Qual seria a solução aqui? Que o pai respeitasse a primeira mulher. Por
exemplo, dizendo a ela: "Eu te amei muito. Sinto muito que tenhamos nos
separado, sejam quais tenham sido os motivos. Então, pode dizer a ela:
"Por favor, olhe com carinho para a minha segunda esposa e para os meus
filhos." Quando a parceira anterior é estimada, torna-se amável. Ela é
acolhida no sistema. Então, a filha não precisa mais representá-la.
Através desse exemplo, também expliquei o que é um emaranhame nto.
Alguém de uma geração posterior deve representar alguém de uma geração
anterior que foi excluído ou esquecido. Aqueles que o representam tornam-
se os alunos difíceis. Assim, precisamos colocar o sistema em ordem.
Onde começa a ordem? Na própria alma. Ou seja, no momento em que o
professor acolhe em seu coração todo o sistema do aluno.
Por exemplo, existem pessoas que se queixam. Existem até mesmo alunos
que se queixam de seus pais. Ou pais que se queixam de seus pais ou os
xingam. O que faz o professor? Ele acolhe em seu coração exatamente
aqueles que são excluídos. Ele coloca o sistema em ordem em sua alma.
Então pode ajudar os outros.
Q UEM PERTENCE AO SISTEMA FAMILIAR - CONTINUAÇÃO
Vou repetir mais uma vez. Pertencem ao sistema: os filhos, os pais e s eus
irmãos, os avós, às vezes, alguns dos bisavós e parceiros anteriores dos
pais e avós.
Ainda há outros que pertencem: todos aqueles de cujo dano obtivemos uma
vantagem. Já vi isso em famílias ricas, por exemplo, que atuaram em
atividades de exploração de petróleo ou construção de trens em que
funcionários perderam a vida. Sua riqueza baseia-se também na morte de
outrem. Portanto, eles pertencem. Isso se mostra quando, posteriormente,
o herdeiro de uma empresa assim deixa-a ir por água abaixo. Ele se
identifica com esses mortos. Em famílias que tiveram escravos, membros
de gerações futuras se comportam como escravos. Identificam-se com os
escravos e comportam-se como tal.
EXERCÍCIO : DISSONÂNCIA E RESSONÂNCIA
Agora farei um pequeno exercício com vocês. Fechem os olhos. Vão para
dentro de seus corpos e prestem atenção ao que dói em seus corpos.
Que órgão dói? Que músculo? Que osso? Esse órgão está em dissonância
com o corpo. Entretanto, assim mostra minha experiência, talvez ele esteja
olhando para uma pessoa na família que foi excluída. Esse órgão está em
ressonância com uma pessoa excluída. Através da dor, volta a atenção para
a pessoa excluída.
Então, vamos para dentro desse órgão e olhamos com ele para a pessoa
excluída. Dizemos a essa pessoa: “Agora vejo você. Agora amo você.
Agora acolho você em meu coração."
Quando a acolhemos assim no coração, a doença pode cessar. Nós nos
tornamos saudáveis acolhendo a pessoa excluída.
Vou um pouco mais adiante. Imaginem-se entrando em um grande
corredor, como em uma catedral. Lá existem estátuas de todos os
integrantes do seu sistema. Alguns estão na frente, alguns no fundo, no
escuro. Vamos até cada pessoa, cada estátua. De repente, a estátua fica viva
para nós. Olhamos nos olhos dessa pessoa, curvamo-nos diante dela e
dizemos: "Obrigado."
Vamos até as estátuas que estão mais no escuro. Esperamos até que se
tornem vivas. Então nos curvamos e dizemos: "Agora eu vejo você. Agora
também acolho você em meu coração, seja qual tenha sido o seu destino ou
a sua culpa.”
Sentimos o que se passa em nós quando as acolhemos em nossa alma, a
forma como o coração se amplia. Sentimos como crescemos, como nos
tornamos inteiros, finalmente conectados a todos de nossa família.
Da mesma forma, olhamos para os alunos. Principalmente para os que são
difíceis e que nos preocupam. Olhamos com eles para as pessoas que
trazem à consciência através de seu comportamento e as acolhemos em
nosso coração. Essas pessoas nos ajudam a ajudar esses alunos.
Talvez agora possamos entender melhor o que significa Pedagogia
Sistêmica. O quanto ela fica mais bela do que quando olhamos apenas para
os alunos.

ALUNO COM DIFICULDADES DE APRENDIZADO


H ELLINGER para uma professora: Qual é a questão?
P ROFESSORA : Tenho um aluno da terceira série que vai mal em várias
matérias. Não sabemos o que fazer.
H ELLINGER para o grupo: Tenho poucas informações. Porém, neste
trabalho podemos descobrir qual é a questão através de uma constelação.
Vou escolher um representante para o garoto. Veremos o que está
acontecendo.
Hellinger escolhe um representante e o posiciona.
H ELLINGER para o representante: Concentre-se e siga o que se passar em
sua alma. Olharemos para isso.
O representante do garoto olha para o chão e tem os punhos cerrados.
Está com a cabeça bastante curvada, vira-se lentamente, senta-se no chão
e curva-se para baixo.
Hellinger escolhe um representante para um morto e o coloca deitado de
costas em frente ao representante do garoto.
O representante do garoto move os punhos intensamente e bate no chão.
Hellinger escolhe mais um representante e o posiciona em frente ao garoto,
de maneira que o morto fique entre os dois.
H ELLINGER para o grupo: Há um morto no chão. Agora ele tocou a cabeça
do garoto com a mão. A pergunta é: quem esse aluno está representando?
Ele está representando um assassino. Mas não se trata do aluno em pessoa.
Ele está representando alguém do sistema.
O garoto está mais calmo. O terceiro representante ajoelhou-se diante do
morto e se curva para ele. Aparentemente, está representando um
agressor.
Hellinger faz o representante do garoto se levantar e o conduz um pouco
para o lado.
H ELLINGER : Como está agora?
R EPRESENTANTE DO GAROTO : Estou aliviado.
Nesse meio tempo, o outro representante se curva para baixo até o morto,
quase na mesma posição em que o representante do menino estava antes.
H ELLINGER aponta para o representante: O problema está aqui.
Ele aponta para o representante do garoto: Ele é inocente, mas se
identifica com o assassino.
O representante do garoto treme e recua cada vez mais. Depois dá as
costas. O outro representante se deitou ao lado do morto. Eles estão de
mãos dadas.
H ELLINGER para o grupo: Agora começa a reconciliação entre o assassino
e sua vítima. Eles estão de mãos dadas. Agora o assassino está chorando.
Agora estão reconciliados.
Para o representante do garoto: Vire-se de novo. Olhe e curve-se. Depois
se endireite e vire-se para o outro lado.
Depois de algum tempo: Como está agora?
R EPRESENTANTE DO GAROTO : "Bem melhor."
H ELLINGER para os representantes: Obrigado.
Após um instante, para a professora: Esse garoto é esquizofrênico, não é?
P ROFESSORA : Pode ser.
OS PANOS DE FUNDO DA ESQUIZOFRENIA
H ELLINGER : O que acabamos de ver aqui é a dinâmica fundamental de uma
esquizofrenia. A esquizofrenia não é uma doença. É algo sistêmico. Em
casos de esquizofrenia, existe um assassinato na família, às vezes, várias
gerações atrás. Os dois, a vítima e o assassino, são excluídos do sistema:
principalmente o assassino, mas frequentemente também a vítima. Isso
causa medo nesse sistema. Uma dinâmica fundamental em um sistema é:
quando alguém é excluído, essa pessoa é posteriormente representada por
outro membro da família. Assim, será preciso que um membro da família
represente tanto o assassino quanto a vítima, no futuro. Entretanto, esses
dois não estão reconciliados. Por isso, o representante sente essa oposição
entre o assassino e a vítima e fica confuso.
O que leva à cura nesse caso? Voltamos ao lugar onde ocorreu o assassinato
e reunimos a vítima e o assassino até que eles se reconciliem. Aqui
pudemos ver como essa reconciliação ocorreu.
Em casos em que isso tenha ocorrido várias gerações atrás, há
esquizofrenia em todas as gerações que se seguem. O sistema é
esquizofrênico, pois carrega em si algo não conciliado. Um membro da
família deve assumir esse aspecto não conciliado, geralmente o membro
que possui o maior amor. Isso atravessa diversas gerações, até o presente.
Porém, uma vez que, em um sistema como esse, todos estão em ressonância
com todos, podemos colocar em ordem algo que se encontra muitas
gerações atrás, como neste caso. Então, o esclarecimento atravessa todas
as gerações e chega ao presente.
Para a professora: Agora esse garoto está livre. Agora ele está melhor. A
família também está melhor. A pergunta é: o que fazer agora? Você deve
ir até os pais, dizer a eles o que aconteceu aqui e depois ir embora. Então,
esperaremos que isso exerça um bom efeito na família.
Para o grupo: Temos que considerar aqui que os representantes em uma
constelação percebem de forma exata o que se passa na família. Contudo,
essa percepção não é apenas de lá para cá, mas também daqui para lá. Ou
seja, essa constelação tem imediatamente um efeito sobre o garoto.
Há pouco tempo, fiz uma constelação parecida na Alemanha. Um professor
falou de um aluno que era tão agressivo que queriam tirá-lo da escola.
Constelamos isso. Na mesma noite, o garoto que estava em casa se
transformou. Três meses depois, ele estava completamente transformado.
Então houve uma recaída. É preciso que todos da família olhem para o
sistema e acolham todos no coração. Não apenas o menino: o pai do menino
também deve fazer isso.
Para a professora: Às vezes, é preciso um trabalho posterior. Ok? Tudo de
bom para você e para o aluno.

ALUNA COM ANOREXIA


H ELLINGER para uma professora: Qual é a questão?
P ROFESSORA : Uma aluna do primeiro ano do nível secundário.
H ELLINGER : Quantos anos?
P ROFESSORA : 12 anos. Ela está nesta sala com seus pais. Sempre foi muito
doente.
H ELLINGER : Qual é a doença dela?
P ROFESSORA : Ela tem depressão e distúrbios alimentares.
H ELLINGER : O que quer dizer com distúrbios alimentares?
P ROFESSORA : Concretamente, trata-se de anorexia.
H ELLINGER : Isso basta.
Hellinger escolhe uma representante para a aluna e representantes para o
pai e a mãe. Depois pede à professora para posicioná-los um em relação
ao outro.
Ela posiciona o pai olhando para longe, através de sua mulher. A mulher
se encontra à sua frente, ligeiramente à esquerda, e também olha através
dele. A filha se encontra atrás do pai, ligeiramente à direita, virada para
ele.
H ELLINGER para o grupo: Quando olhamos para isso, vemos qual é a
dinâmica na família. Ela é bem clara.
Hellinger leva o pai na direção em que este estava olhando, afastando -o
da família.
H ELLINGER para o pai: Como você se sente aqui, melhor ou pior?
R EPRESENTANTE DO PAI : Igual.
H ELLINGER para o representante do pai: Você não está concentrado o
bastante. Vou precisar trocá-lo.
Hellinger o troca por outro representante.
H ELLINGER para o grupo: Por que o troquei? Quando ele veio, primeiro
estava com as mãos cruzadas em frente à barriga e, depois, atrás das costas.
Perguntei à Angélica: "Ele tem experiência?" Ela disse que sim, mas fiquei
em dúvida. Quando alguém diz: "Minha sensação é a mesma", não está em
contato. A sensação não pode ser a mesma. Precisei trocá-lo para ajudar a
aluna.
Hellinger afasta da família o outro representante.
H ELLINGER para esse representante: Como se sente aqui, melhor ou pior?
R EPRESENTANTE DO PAI : Pior.
H ELLINGER : Como a mãe se sente quando o marido sai?
R EPRESENTANTE DA MÃE : Não quero olhar diretamente para ele, mas
gostaria de senti-lo perto de mim.
Hellinger leva a filha para trás do pai.
H ELLINGER para a filha: Como se sente aqui, melhor ou pior?
R EPRESENTANTE DA FILHA : Aqui o vejo.
H ELLINGER : Sente-se melhor ou pior?
R EPRESENTANTE DA FILHA : Melhor.
H ELLINGER para o grupo: Qual é a dinâmica aqui? Quando se trata de
anorexia, é sempre a mesma, com raras exceções. O pai quer deixar a
família. Pudemos ver isso quando foi posicionado. O pai olha para fora. E
a filha? Ela diz a ele: "Melhor eu do que você." O pai não quer apenas
partir, ele também quer morrer. E a filha diz: "Eu morro no seu lugar." É
essa a dinâmica que se mostra aqui.
Quem é o cliente aqui? Com quem devo trabalhar? Com o pai.
Para a professora: Você sabe algo sobre a família do pai?
P ROFESSORA : O avô morreu. O pai da aluna tem diabetes.
H ELLINGER : Qual era a idade do pai quando seu pai morreu?
P ROFESSORA : Não sei.
H ELLINGER para o grupo: Diabetes é uma doença grave. A filha tem medo
que o pai morra. Então ela diz: "É melhor eu morrer do que você."
A pergunta é: qual seria a solução?
Hellinger vai até o representante do pai e o vira para sua filha.
H ELLINGER para o pai: Olhe para a filha e diga: "Vou ficar enquanto
puder."
R EPRESENTANTE DO PAI : Vou ficar enquanto puder.
Os dois se olham longamente. A filha está bastante mexida.
H ELLINGER após um instante para o grupo: Estão vendo o amor da filha?
E o medo dela?
Para o representante do pai: Agora olhe para a sua mulher e diga: "Vou
ficar enquanto puder."
R EPRESENTANTE DO PAI : Vou ficar enquanto puder.
A mãe toma a mão de sua filha e de seu marido. Ela encosta a cabeça sobre
o peito dele. Os três se abraçam afetuosamente.
H ELLINGER após um instante: Ok, obrigado.
Para a professora: Agora você entende melhor a aluna?
P ROFESSORA : Sim.
H ELLINGER : É bom que ela esteja aqui e possa ver isso.
Ok, então, tudo de bom para você.
P ROFESSORA : Obrigada.
OS FILHOS FAZEM DE TUDO PARA SALVAR SEUS PAIS
H ELLINGER : Gostaria de dizer algo sobre essa dinâmica. Ela traz algo mais
à luz. Ela traz à luz o motivo pelo qual alguns alunos são difíceis.
Aqui não há um emaranhamento, como nos outros casos. Demonstra -se
uma dinâmica fundamental nas famílias. Os filhos fazem de tudo para
salvar seus pais. O amor do filho é tão grande que está pronto para morrer ,
pois imagina que, se morrer, estará ajudando seus pais. Os professores
devem considerar isso.
Existe uma concepção amplamente difundida - por trás dela atua um
pensamento mágico - de que podemos obter a bênção de Deus ou do destino
através de um sacrifício.
Há pouco tempo ouvi uma história sobre uma família italiana. O navio do
avô foi pego por uma tempestade perto de Nápoles. Então prometeu a Deus
que, caso se salvasse, ofereceria um filho a Ele. Isso é muito comum. Isso
existe em muitas famílias. Esperam, por exemplo, que um filho vá para o
mosteiro, para que a família fique bem. A ideia é de que, quando
sacrificamos algo a Deus, Ele tem obrigação de nos ajudar. É uma ideia
amplamente difundida. Nessa família, o filho do avô recusou-se a se tornar
padre. Entretanto, o neto virou padre. Quero dizer, ele queria se tornar
padre, mas abandonou pouco antes de ser ordenado. Ele disse a seu pai: Se
eu tiver que virar padre, me mato.” Seu pai voltou à razão e disse a ele: Por
mim, você pode viver.”
Isso tem um pouco a ver com as dinâmicas na própria alma e em
relacionamentos. Peguem, por exemplo, o homem e a mulher. O homem dá
algo à mulher e a mulher se alegra com isso. Contudo, fica com a
consciência pesada. Ela pensa: "Agora também tenho que dar algo a ele."
Ela também dá algo a ele e, porque o ama, dá a ele um pouco mais. Então
ele também se sente em dívida. Também dá algo a ela e, por amor, dá um
pouco mais.
Quer dizer, temos uma necessidade de compensação. Quando damos algo,
esperamos receber algo em troca. Isso é bom para as relações pessoais.
Entretanto, transferimos essa experiência para o destino e para Deus.
Achamos que, quando fazemos uma promessa ao destino, ele deve nos
ajudar. Nesse caso, a menina diz: "Eu morro em seu lugar." Ela espera que,
se morrer, o destino deixará o pai viver. Essa ideia é amplamente difundida,
principalmente dentre as crianças. Devemos saber disso. Ou seja, trata -se
da dinâmica: "Eu no seu lugar."
Existe ainda uma outra dinâmica, que também deve ser considerada, mas
falaremos dela depois. Quis dar uma explicação com base nessa
constelação.

PROFESSORES E PAIS
Primeiro gostaria de dizer algo geral. Também já fui professor e dirigi uma
grande escola na África do Sul. Por isso, sei o que se passa com os
professores, o que se passa com os alunos e o que se passa com aqueles que
têm de dirigir uma escola.
Um professor se acrescenta a outros. Antes dele, vieram os pais. Eles deram
a vida a seus filhos. Esse é o maior serviço que alguém pode prestar. O
professor apoia os pais. Quando vê os alunos, vê seus pais por trás deles.
Acolhe seus pais no coração, seja como eles forem, pois todos os pais são
perfeitos. Como pais, são perfeitos. Fizeram tudo certo ao passarem a vida
adiante. Não retiveram nada, assim como não puderam acrescentar nad a.
Transmitiram o que receberam. Desse ponto de vista, só existem pais
perfeitos.
Alguns pais têm dificuldades para criar os filhos porque também vieram de
uma família na qual houve dificuldades. Mesmo assim, todo filho que deixa
a sua família e constitui sua própria família vem de uma família que fez
tudo certo. Talvez essa família tenha feito algo diferente do que outra
família fez, pois as famílias são diferentes. Mas todas estão certas. Por isso,
quando um professor se depara com uma criança, irá honrar a
particularidade de sua família, sem a ideia de que ela deveria ser diferente.
Quando olhamos para a vida, vemos sua diversidade. Além de cada pessoa
ser diferente das outras, cada família é diferente das outras. Entretanto,
toda família transmite algo especial aos filhos.
Às vezes, existe a ideia de que existe uma família ideal e de que as outras
famílias deveriam segui-la. No entanto, em uma família que talvez
consideremos difícil e na qual os filhos vivenciem coisas pesadas, o difícil
e o pesado dão às crianças uma força especial: uma força que as crianças
provenientes de uma família ideal não possuem. Por isso, a atitude
fundamental que mais serve à vida é aquela com a qual concordamos com
tudo como é, sem precisar modificar nada.
Quando vou ao encontro de alguém com essa postura, ele não precisa ter
medo de mim. Por exemplo, medo de que eu queira mudar algo em sua
família ou critique algo nela. Pelo contrário: pode ficar de igual para igual
diante de mim. Então surgem novas possibilidades para ambos.
Agora gostaria de mostrar na prática como se pode lidar com uma família
que diz ter dificuldades com uma criança. Depois falarei mais sobre isso.

MAMÃE, VOU MORRER EM SEU LUGAR


Hellinger pede aos pais de um garoto que diz que não quer mais estudar,
que se sentem ao seu lado.
H ELLINGER para o grupo: Já conversei com esses pais antes. Eles me
disseram que são separados. Ali está o filho deles, com quem dizem ter
dificuldades. Mas crianças nunca são difíceis, sabiam? Não existem
crianças difíceis. Aquilo que parece ser difícil por fora é, na verdade, um
amor especial na criança. A criança que causa problemas está ligada a
alguém que não tem lugar na família. É por isso que não olho para a criança.
É por isso que eu o deixei sentado em seu lugar. Primeiro quero falar com
os pais, para descobrir quem o filho ama ocultamente. Então os pais podem
ver o filho de outra maneira, e a criança também pode se ver de outra
maneira.
Os pais concordam com a cabeça.
H ELLINGER para os pais: Gostei dele assim que o vi.
Os pais ficam radiantes. O pai olha para o filho e bate no peito.
H ELLINGER : Também gostei do pai. E a mãe? Ela tem dificuldades. De que
tipo não sabemos.
Para o grupo: Vou demonstrar como podemos proceder aqui.
Hellinger escolhe uma representante para a mãe e a posiciona.
H ELLINGER para essa representante: Você representa a mãe. Siga o
movimento de seu corpo. Vamos apenas olhar.
A representante da mãe tem uma respiração pesada. Ela pousa uma das
mãos sobre o peito e começa a tremer. Ela olha para o chão.
Hellinger escolhe outra representante e a pede para se deitar de costas em
frente à representante da mãe.
A representante da mãe fecha os punhos.
H ELLINGER para o grupo: Olhem para as mãos dela.
A representante da mãe segura o peito, como se estivesse sentindo dores
intensas.
Hellinger chama o garoto e pede que se deite ao lado da pessoa que está
no chão. A representante da mãe dá vários passos para trás. Ela relaxa os
punhos, mas continua segurando o peito, como se sentisse dores fortes.
Tem uma respiração pesada e está curvada.
H ELLINGER para a representante da mãe: Você está melhor ou pior desde
que seu filho se deitou ali?
REPRESENTANTE DA MÃE mal consegue falar: Estou sentindo dores.
H ELLINGER quando ela quer dizer algo: Não diga nada. Chegue mais perto.
Ela vai curvada e sentindo muitas dores até a mulher que está no chão.
H ELLINGER : Olhe para ela.
A representante da mãe se contorce, sob intensas dores, e recua
lentamente. Depois se endireita um pouco.
H ELLINGER para o filho no chão: Como você se sente aqui?
F ILHO : Estou bem.
A representante da mãe continua com as mãos sobre o peito e sente dores
intensas.
Hellinger pede ao filho que se levante e se posicione diante da mãe, com a
mulher deitada no chão entre os dois. Esta olha para a representante da
mãe. A representante da mãe se endireita e se acalma.
H ELLINGER para o grupo: A mulher no chão é uma morta. Ela está olhando
para a representante da mãe. Ela quer algo dela. Porém, não sabemos quem
ela é.
Após um instante, Hellinger coloca a mãe no lugar de sua represen tante.
Ela permanece parada por muito tempo. Depois faz movimentos
desamparados com as mãos.
H ELLINGER após um instante para a mãe: Essa morta é sua. É um filho
morto.
M ÃE : É O meu filho mais velho, que está muito longe de mim.
H ELLINGER para o grupo: Falar geralmente consome a energia. Vemos tudo
o que importa nos movimentos das pessoas posicionadas. Minha visão, a
partir de tudo o que está acontecendo aqui, é a de uma criança abortada.
A mulher concorda com a cabeça.
H ELLINGER : Sim, olhe.
A mãe respira fundo e começa a soluçar.
H ELLINGER para o grupo: O filho dela ama essa criança. Ele quer que essa
criança seja lembrada.
O pai é tocado e concorda com a cabeça. Ele também respira fundo.
H ELLINGER para o grupo: Não vou explorar mais isso. Apenas trouxe à luz.
Agora podemos compreender melhor o que há de errado com a criança.
Vou explicar brevemente a dinâmica. A mãe quer morrer. Ela quer seguir
a criança. O filho diz a ela: "Querida mamãe, vou morrer em seu lugar."
Por isso, ele não tem mais o que fazer na escola. Não há motivo. Se quer
morrer, não precisa mais fazer nada.
Hellinger coloca o pai diante do filho.
H ELLINGER para o pai: Espere mais um pouco. Vá para dentro do seu
sentimento e olhe para seu filho.
Os dois se olham longamente. O pai sorri para o filho. Hellinger empurra
o filho mais para perto do pai. O pai vai em sua direção e os dois se
abraçam longamente. Em seguida, Hellinger faz com que o garoto se vire
e o conduz a alguns passos para frente.
H ELLINGER para o filho: Como se sente aqui, melhor ou pior?
F ILHO : Pior.
Hellinger pede ao pai que se sente novamente.
H ELLINGER para o grupo: O filho sente-se melhor lá. Pudemos ver isso.
Ele sente-se melhor lá que junto do pai. Ele não tem suporte junto ao pai.
Vou parar por aqui. Obrigado aos representantes.
Os pais e o garoto sentam-se ao lado de Hellinger.
A JUDA EM SINTONIA COM O DESTINO DE UMA CRIANÇA
H ELLINGER para o grupo: Como professores, às vezes vocês são
confrontados com situações assim. Aparece uma criança que é difícil. Ela
não apresenta rendimento nenhum na escola e vocês pensam que talvez
possam receber alguma ajuda dos pais. Às vezes, porém, não vem nenhuma
ajuda deles, como é o caso aqui. A pergunta é o que podemos fazer aí. Vejo
em seus rostos que essa é uma pergunta difícil para vocês, pois são
confrontados frequentemente com essa situação.
Para os diretores da escola: Vou fazer um exercício com vocês.
Hellinger coloca os dois diretores da escola lado a lado e põe o garoto
diante deles. Atrás do garoto, numa posição afastada, ele posicion a um
representante do destino desse garoto.
H ELLINGER para os diretores da escola: Ao invés de olhar para o garoto,
olhem para o destino dele.
Após um instante a diretora se inclina e ergue novamente o olhar.
H ELLINGER para os diretores da escola: Como se sentem agora?
P RIMEIRO DIRETOR : Melhor.
S EGUNDO DIRETOR : Melhor.
H ELLINGER para o grupo: Se olharmos para o garoto agora, como ele está?
Está melhor.
Para os representantes: Obrigado.
Para o grupo: Como ajudantes, temos a ideia de que devemos, a qualquer
preço, manter uma pessoa viva e ajudá-la a ter uma vida feliz. Entretanto,
ela está entregue a outras forças, diante das quais nossos esforços
fracassam. Ao invés de nos vermos apenas diante da pessoa que busca ou
necessita da nossa ajuda, olhamos para além dela. De repente, sentimos que
há outras forças em ação, que são maiores que nós. Então nos acal mamos.
Muitas vezes, também conseguimos olhar de outra maneira para a criança,
sem preocupações.
Os diretores sorriem e concordam com a cabeça.
HELLINGER: Esse é o alívio. Agora fiz algo especialmente para os
professores.
S EM PREOCUPAÇÕES
H ELLINGER para o grupo: Quando ocorre algo como no caso aqui, em que
ambos os pais estão emaranhados em algo e permanecem no
emaranhamento por algum tempo, não precisamos nos preocupar.
Para os pais: Não me preocupo com a mãe e não me preocupo com o pai.
Agora veio à luz algo que colocou em movimento alguma coisa em sua
alma. Esse movimento continua. Ele precisa de tempo. Então vocês se
surpreendem, após algumas semanas ou meses, que algo está diferente.
Continuem se surpreendendo! Ok? Tudo de bom para vocês.
Os dois agradecem.
H ELLINGER para o pai: Seu filho precisa do pai. Dê a ele um lugar em seu
coração.

PIERCING
H ELLINGER para o grupo: Existem sinais para os quais devemos estar
atentos também em um aluno. Aqueles que fazem piercings deixaram de
lado o respeito pela própria vida. Esse garoto, por exemplo.
Vocês fariam isso com uma pessoa que amam? Fariam isso com ela? Eles
fazem isso com o próprio corpo? Desistiram da vida. Isso é um sinal e
devemos levá-lo a sério.
É claro que dá pra remover o piercing depois.
Para o garoto: Ok?
Ele concorda com a cabeça.

CRIANÇAS DIFÍCEIS
H ELLINGER para o grupo: Gostaria de dizer algo sobre doenças. Talvez
vocês achem que isso não tem nada a ver com o que se passa aqui. Eu
percebi que, quando alguém tem uma determinada doença, principalmente
quando se trata de uma doença com risco de morte ou de um sintoma
corporal em especial, aquilo que dói, aquilo que o torna doente, está em
ressonância com outra pessoa. Está em ressonância com uma pessoa que
foi excluída da família ou que foi esquecida nela. Embora a doença não
olhe para nós, ela olha para outra pessoa e quer direcionar o nosso olhar
para ela. Se honrarmos essa pessoa, se a acolhermos em nosso coração, a
doença pode ir embora. Muitas vezes, ela pode simplesmente ir embora.
Ela cumpriu sua missão.
O mesmo acontece no caso de uma criança difícil. A criança difícil está em
ressonância com outra pessoa. Como ele, por exemplo: estava em
ressonância com a criança abortada. Então, ao invés de querer corrigir o
problema, por exemplo, através de advertências que de nada adiantam,
olhamos com a criança para a pessoa em sua família que quer ser acolhida.
Essa ideia já nos alivia e alivia a criança também. Ela já não é "tratada”
por nós, vamos com ela por um certo caminho. Nesse caminho, ela se sente
segura conosco.

O AMOR OCULTO
H ELLINGER um garoto de aproximadamente 16 anos: Ouvi falar que você
é meio agitado na escola. É verdade?
G AROTO : É.
H ELLINGER : O que você faz quando está agitado?
G AROTO : EU me comporto mal, chamando a atenção de todos na aula.
H ELLINGER : O que você faz, quando tem esse comportamento?
G AROTO : Fico explosivo.
H ELLINGER : Você tem uma energia bem grande.
G AROTO : Sim.
H ELLINGER : Quando uma pessoa não consegue fazer nada direito com essa
energia, acaba tendo que fazer algo assim.
G AROTO : Sim.
H ELLINGER : Quem mais em sua família tem energia assim?
G AROTO : Ninguém.
H ELLINGER : Você é o único?
G AROTO : Sim.
H ELLINGER : Seus pais ainda estão juntos?
G AROTO : Não.
H ELLINGER : O que houve?
G AROTO : Eles se separaram há 10 anos.
H ELLINGER : Com quem você mora agora?
G AROTO : Com o meu pai.
H ELLINGER : Você gosta muito dele.
G AROTO : Sim.
O garoto está muito mexido e concorda com a cabeça.
H ELLINGER : Estou vendo.
O garoto se alegra e concorda com a cabeça.
H ELLINGER : Como vai o seu pai?
G AROTO : Mal.
H ELLINGER : O que há com ele?
G AROTO : Está com a saúde muito ruim.
H ELLINGER : O que ele tem?
G AROTO suspira: Tem um edema pulmonar e insuficiência renal. Tem
outros problemas também que eu não sei direito.
H ELLINGER : Ok. Vou trabalhar com você e com seu pai. Pode ser?
G AROTO : Sim.
Hellinger escolhe um representante para o pai e o posiciona.
H ELLINGER para esse representante: Agora você vai acolher o pai do
menino em seu coração. Preste atenção ao que se passa em seu corpo e
siga-o. Então, procuraremos uma solução boa para todos.
O representante fica parado por muito tempo, sem se mover.
H ELLINGER para o garoto: Aconteceu algo em particular na família do seu
pai?
G AROTO : Por exemplo, o quê?
H ELLINGER : Houve alguém que morreu cedo?
G AROTO : Sim.
H ELLINGER : Quem?
G AROTO : O pai dele.
H ELLINGER : Quantos anos tinha o seu pai quando o pai dele morreu?
G AROTO : 19 anos.
H ELLINGER : De que o pai dele morreu?
G AROTO : Nem eu sei.
H ELLINGER : Tem alguém da família aqui?
G AROTO : Sim, minha mãe.
Hellinger chama a mãe e pede a ela que se sente ao seu lado.
H ELLINGER para a mãe: O que aconteceu na família do pai dele?
M ÃE : O pai do pai dele morreu aos 45 anos, durante uma cirurgia de úlcera.
Hellinger escolhe um representante e o coloca deitado de costas em frente
ao pai.
H ELLINGER para o grupo: O representante do pai olhou para o chão. É por
isso que coloquei uma pessoa no chão em frente a ele. Não sei quem é, mas
talvez seja seu pai.
Após um instante, Hellinger coloca o garoto diante de seu pai, de maneira
que o morto fique entre os dois.
H ELLINGER para o garoto: Diga a seu pai: "Por favor, fique."
G AROTO : Por favor, fique.
H ELLINGER após um instante: Diga mais uma vez.
G AROTO : Por favor, fique.
Ele diz isso de forma agressiva e fecha os punhos.
H ELLINGER após um instante: Diga bem alto.
G AROTO : Por favor, fique.
Ele grita, com um movimento profundo, e chora. Hellinger o faz repetir
diversas vezes. Então o garoto começa a soluçar.
Hellinger o conduz até seu pai.
H ELLINGER para o garoto que está diante do pai: Diga: "Por favor, fique."
G AROTO : Por favor, fique.
H ELLINGER : "Por favor."
G AROTO : Por favor, fique.
H ELLINGER : "Por favor.”
G AROTO : Por favor, fique.
H ELLINGER : “Por favor.”
G AROTO : Por favor.
Ele ainda está com os punhos fechados. O pai não se mexe.
H ELLINGER para o pai: Diga a ele: "Vou morrer."
Pai: Vou morrer.
H ELLINGER para o garoto: Diga: "Por favor, fique."
G AROTO : Por favor, fique.
H ELLINGER para o pai: Diga: "Vou morrer."
P AI : V OU morrer.
H ELLINGER : "Estou doente, vou morrer.”
P AI : Estou doente, vou morrer.
H ELLINGER : "Assim como meu pai."
P AI com voz clara: Assim como meu pai.
Pai e filho se olham longamente. O garoto respira fundo e ainda está com
os punhos fechados. Então abaixa a cabeça e relaxa os punhos.
H ELLINGER para o garoto: Diga: "Querido papai."
G AROTO : Querido papai.
H ELLINGER : Olhe para ele e diga: "Por favor, fique.”
G AROTO : Por favor, fique.
H ELLINGER para o pai: Diga-lhe: "Mesmo se eu morrer, você continuará
sendo meu filho.”
P AI : Mesmo se eu morrer, você continuará sendo meu filho.
Hellinger conduz o garoto para perto de seu pai. Eles se abraçam de forma
afetuosa por muito tempo. O pai segura o filho e acaricia suas costas.
Quando eles se separam, o pai pousa uma mão sobre o ombro do filho.
Eles ficam se olhando por muito tempo. O garoto respira fundo. Quando o
pai dá um passo para trás, Hellinger pede que ele se deite no chão ao lado
do representante do seu pai e olhe para ele. Ele vira o garoto e o faz olh ar
para seu pai e seu avô no chão.
O pai e o avô se olham e se dão as mãos.
H ELLINGER após um instante para o garoto: Diga a seu pai e a seu avô:
"Vocês continuam vivos em mim."
G AROTO : Vocês continuam vivos em mim.
H ELLINGER : "V OU continuar vivo, em sua memória."
G AROTO : VOU continuar vivo, em sua memória.
H ELLINGER : “Farei algo grande em minha vida, em sua memória.”
G AROTO : Farei algo grande em minha vida, em sua memória.
O garoto está bastante comovido. Ele respira fundo e fecha novamente os
punhos.
H ELLINGER após um instante para o garoto: Deite-se ao lado deles.
Ele se deita no chão, ao lado de seu pai e olha para ele. Porém, o pai não
olha para o filho.
H ELLINGER para o garoto: Como você se sente aí, melhor ou pior?
G AROTO : Pior.
H ELLINGER para o pai: Como se sente com seu filho deitado ao seu lado?
P AI : Sinto-me desconfortável quando ele se deita ao meu lado.
H ELLINGER : Diga a seu filho: "Vá!"
P AI : Vá!
Hellinger sinaliza ao filho que se levante. Ele se levanta e se vira para o
outro lado.
H ELLINGER : Como você está agora?
G AROTO : Estou zangado.
Hellinger o vira novamente para o pai e o avô e o coloca de frente para
um representante da morte, posicionado do outro lado.
H ELLINGER para o garoto: Esta é a morte.
O garoto fecha os punhos, mas a morte não se mexe. O garoto respira
fundo e olha novamente para seu pai no chão. Ele respira cada vez mais
rápido e parece estar com muita raiva.
H ELLINGER após um instante para o garoto: Diga à morte: "Vou vencer
você."
G AROTO com voz agressiva: Vou vencer você.
H ELLINGER : Alto.
G AROTO gritando alto e agressivamente: Vou vencer você.
Ele olha longamente para a morte, de forma agressiva.
H ELLINGER : “Vou vencer você."
G AROTO : Vou vencer você.
H ELLINGER : “Mesmo que isso me custe a vida.”
G AROTO de forma desafiadora e agressiva: Mesmo que isso me custe a
vida.
Ele ainda está com os punhos fechados. A morte permanece imóvel e olha
para os mortos.
H ELLINGER para o garoto: A morte não está olhando para você. É como se
você nem existisse para ela.
O garoto olha novamente para o pai e o avô no chão. Após um instante,
respira fundo e começa a chorar. Está tremendo de tanto chorar. Ele olha
para a morte e abaixa a cabeça. Depois limpa as lágrimas do rosto. Luta
consigo mesmo por muito tempo e relaxa os punhos.
H ELLINGER para o garoto: Diga a seu pai e a seu avô: "Vou ficar mais um
pouco."
G AROTO : VOU ficar mais um pouco.
H ELLINGER : "Depois morrerei também.”
G AROTO : Depois morrerei também.
H ELLINGER para o grupo: Agora ele relaxou as mãos. Agora não há mais
agressão.
Para o garoto: Agora você está junto com a verdade. Agora você é grande.
Só as crianças é que sentem raiva. Ok?
G AROTO : Sim.
H ELLINGER para os representantes-. Obrigado a todos.
O garoto senta-se novamente ao lado de Hellinger.
H ELLINGER para a mãe: Como você está?
M ÃE suspira: Melhor.
H ELLINGER : Você tem um grande filho, não é mesmo?
M ÃE : Sim, um grande filho.
H ELLINGER : Ele tem muito amor.
O filho respira fundo.
M ÃE : Sim.
H ELLINGER : Exato.
O garoto olha tranquilo para Hellinger, que lhe dá uma pancada com o
punho entre os ombros.
H ELLINGER : Essa foi sua ordenação como cavaleiro.
O garoto ri e o grupo ri com ele. Hellinger e o garoto dão-se as mãos.
H ELLINGER : Ok, tudo de bom pra você.
O grupo bate palmas.
H ELLINGER para o grupo: O que acabei de fazer, a pancada, é apenas um
dos lados. Quando algo essencial muda em alguém, a pessoa deve receber
uma pancada, não necessariamente tão forte quanto a minha. Só então a
mudança é registrada no sistema nervoso.
Para os professores presentes: Agora os professores vão ficar felizes
quando ele voltar à aula. Todas as crianças são amáveis. Só é preciso
descobrir onde seu amor se esconde. Aqui veio à luz de maneira
maravilhosa onde ele estava escondido.
O NIPOTÊNCIA E IMPOTÊNCIA
Ainda há algo importante a ser observado aqui. Muitos creem poder tomar
a vida nas mãos, como se tivessem o poder sobre a vida e a morte.
Principalmente as crianças pensam assim. Por isso, muitas vezes, as
crianças têm na alma a ideia de que seus pais estarão melhores se
assumirem um sofrimento no lugar deles. Como se tivessem o poder de
absolver seus pais através de um sacrifício. Então, às vezes, dizem em suas
almas: “É melhor que eu morra em vez de você.” Então, têm sentimentos
de onipotência.
Como nos tornamos adultos? Quando percebemos o quanto nosso poder é
limitado. É preciso lutar bastante para chegar nesse estágio. Muitos adultos
ainda acreditam poder absolver outros de seus destinos. Alguns professores
também acreditam que podem mudar algo em seus alunos. Alguns creem
até mesmo poderem mudar o mundo, mas também acabam percebendo que
isso não é possível. No exemplo desse garoto pudemos ver como é dura
essa luta e como é difícil essa renúncia. Que luta! Mas ele conseguiu.

A VIDA CURTA
H ELLINGER para um garoto de aproximadamente 15 anos que se apresenta
para trabalhar com ele: O que você anda aprontando?
G AROTO : O que você quer dizer?
H ELLINGER : Você anda causando problemas a algumas pessoas?
G AROTO : Sim.
H ELLINGER : Que tipo de problema?
G AROTO : Não estou me dedicando na escola.
H ELLINGER : Você é preguiçoso? Eu também era, mas só quando pequeno.
Eles sorriem um para o outro.
H ELLINGER : Você não acredita?
G AROTO : Não.
H ELLINGER : Para algumas pessoas, não vale a pena se dedicar na escola.
O garoto olha para Hellinger, curioso.
H ELLINGER : Principalmente para aqueles que acham que não vão ficar
velhos.
O garoto fica sério e concorda com a cabeça.
H ELLINGER : Por que deveriam se esforçar?
Os dois se olham. Depois o garoto olha para o chão, pensativo.
H ELLINGER : Quero lhe dizer uma coisa. Para morrer não é preciso ir à
escola. Todos são capazes disso sem ter ido à escola.
O garoto concorda com a cabeça.
H ELLINGER : Já no caso da vida, é diferente.
Os dois se olham. O garoto concorda com a cabeça.
H ELLINGER : Feche os olhos. Imagine-se de volta à sua infância. Então você
vai subindo a escada da vida. Cada degrau dessa escada é um ano. Você
sobe até chegar ao degrau de agora.
Após um instante: Quantos degraus ainda vê à sua frente?
O garoto fica sério.
G AROTO : 10.
H ELLINGER : I SSO é pouco.
O garoto balança a cabeça.
H ELLINGER : 10 degraus é pouco. Para isso não valem os esforços na escola.
O garoto fica muito sério.
H ELLINGER : Vamos fazer uma coisa, nós dois?
O garoto concorda.
H ELLINGER : Mesmo?
Hellinger estende a mão ao garoto, que a toma.
H ELLINGER : De acordo?
O garoto diz que sim com a cabeça.
H ELLINGER : Ok, então vou fazer algo com você. Diga-me algo sobre sua
família. Seus pais ainda estão juntos?
G AROTO : Sim.
H ELLINGER : Você tem irmãos?
G AROTO : Sim, uma irmã mais velha.
H ELLINGER : Algum dos seus pais teve um relacionamento anterior?
G AROTO : Não sei.
O garoto diz que seus pais também estão na sala. Hellinger pede que eles
se sentem ao seu lado.
H ELLINGER para o pai: Aconteceu algo em particular na sua família de
origem?
P AI : Houve um assassinato.
H ELLINGER : Quem foi assassinado?
P AI : O pai da minha mãe.
H ELLINGER : Por quem?
P AI : Por um assassino desconhecido.
H ELLINGER : Quantos anos tinha seu avô?
P AI : Uns 40.
Hellinger escolhe um representante para o avô assassinado e o posiciona.
Após um instante, o avô olha a seu redor e dá várias voltas em torno de si
mesmo. Depois olha para o chão, como se estivesse olhando para vários
mortos.
H ELLINGER para o pai: O avô esteve na guerra ou em algum outro tipo de
conflito?
P AI : Ele era boxeador.
H ELLINGER : Houve alguma morte durante uma luta de boxe?
PAI: Não.
H ELLINGER : Ele está olhando para muitos mortos.
P AI : Eu não sei se ele já matou alguém.
H ELLINGER : Não estou dizendo que ele tenha matado alguém. Mas está
olhando para muitos mortos.
P AI : Muitos dos seus filhos morreram cedo. Minha mãe tem 60 anos. Desde
os 48 anos tem várias doenças estranhas.
H ELLINGER : Vou tentar uma coisa.
Hellinger escolhe seis mulheres e as coloca deitadas no chão em frente ao
avô. Após um instante, ele pede ao garoto que se deite junto com elas.
O avô se ajoelha e quer tocar as mulheres, uma após a outra. Mas elas
desviam dele.
H ELLINGER para o grupo: Vocês podem ver como essas mulheres têm medo
dele.
O avô se ajoelha diante da próxima mulher. Ele quer tocá-la, mas hesita.
H ELLINGER para o grupo: O avô está com medo de tocá-la.
Após um instante para o garoto: Como você se sente aqui?
G AROTO : Não faz diferença para mim.
H ELLINGER : Exato. Para quem encerrou a vida, não faz diferença.
O avô continua se deslocando até a sexta mulher. Hellinger pede ao garoto
que se levante e se sente ao seu lado.
H ELLINGER para a mãe: Aconteceu algo em particular na sua família?
MÃE: Não.
Hellinger pede ao avô que se deite ao lado das mulheres mortas.
H ELLINGER para o avô: Você está melhor ou pior aqui?
Avô: Estou um pouco mais calmo.
H ELLINGER para os representantes: Podem se sentar, obrigado.
Em seguida, Hellinger posiciona o pai e uma mulher à sua frente.
H ELLINGER para essa mulher: Você é o segredo dessa família.
Após um instante, o segredo se vira e dá as costas para o pai. O pai dá um
passo para trás, depois mais um.
H ELLINGER para o pai: Você sabe o que é o segredo?
P AI : Acho que é minha mãe.
H ELLINGER : O que aconteceu com ela?
P AI : Acho que ela não tem vontade de viver.
H ELLINGER : Sei.
Hellinger conduz o pai para diante do segredo, sua mãe.
H ELLINGER para o pai: Olhe para ela e diga: "Por favor, fique."
O pai está bastante comovido e hesita. Depois olha para o chão.
H ELLINGER após um instante: Diga.
P AI : Por favor, fique.
Ele e a mãe se olham longamente. Após um instante, Hellinger leva a mãe
para o lado, afastando-a do filho.
H ELLINGER para a mãe: Como você está aqui?
M ÃE : Melhor.
Hellinger pede ao pai e à representante de sua mãe que se sentem.
H ELLINGER para o garoto: O que há com você agora?
G AROTO : Estou me perguntando o mesmo.
H ELLINGER para o grupo: Não podemos avançar. Existe um segredo.
Para o garoto: Vou lhe propor uma coisa. Aja como se tivesse apenas 10
anos para viver.
G AROTO : Como?
H ELLINGER : Você e quem sabe como. 10 anos. Você já pode começar.
G AROTO : O que significa isso?
H ELLINGER : Aja como se você tivesse apenas mais 10 anos.
O garoto pensa, longamente, e fica inquieto.
H ELLINGER após um instante para o garoto: Olhe para seus pais e diga a
eles: "Vou viver por pelo menos mais 10 anos."
G AROTO olha para seus pais: Vou viver por pelo menos mais 10 anos.
H ELLINGER : "V OU me comportar como se tivesse pelo menos mais 10
anos."
G AROTO : VOU me comportar como se tivesse pelo menos mais 10 anos.
O garoto e seus pais se olham longamente. Depois o garoto desvia o olhar
deles.
H ELLINGER para o garoto: Olhe mais uma vez para eles e diga: "Vocês não
precisam se preocupar.”
G AROTO : Vocês não precisam se preocupar.
H ELLINGER : "Por pelo menos 10 anos ainda estarei fazendo alguma coisa."
G AROTO : Por pelo menos 10 anos ainda estarei fazendo alguma coisa.
H ELLINGER : "Talvez até algo com o que vocês possam se alegrar.”
Quando começa a falar, o garoto para de repente e começa a rir. Seus pais
também riem.
H ELLINGER : Ok. Vou parar por aqui.
Para o garoto: Tudo de bom.
A BENÇOE - ME , SE EU CONTINUAR VIVO
H ELLINGER para o grupo: Gostaria de fazer mais um comentário geral.
Quando olhamos para o que Vivenciamos hoje, vemos que, por trás daquilo
que superficialmente parece ser importante, atua algo completamente
diferente, ao qual o indivíduo está entregue. Quando, por exemplo, um
aluno se comporta de maneira estranha na escola, algumas pessoas dizem:
"Ele poderia mudar, só precisa de boa vontade." Porém, não é assim. Há
outras forças em ação as quais o atingido não compreende.
Falei mais uma vez com o pai e também obtive retornos. Repassei todo o
processo mais uma vez, mentalmente. Quando, por exemplo, o avô foi
constelado, algumas mulheres do grupo ficaram assustadas. Sentiram- se
ameaçadas. Também com base no que vimos na constelação, fica claro que
algo de ruim deve ter acontecido.
Para o pai: Então constelei o segredo, e você disse que era sua mãe. Foi
demonstrado que sua mãe quer morrer. Como assim ela quer morrer? Ela
quer ir até os mortos do avô.
Quando você disse: "É minha mãe", você sorriu. Você sabe que há mais
coisas escondidas por trás. Minha suposição é que você esteja dizen do em
seu coração para a sua mãe: "É melhor eu ir do que você." Seu filho sente
isso. Ele diz a você, seu pai, com um amor profundo: "É melhor eu ir do
que você."
Durante a pausa, disse a ele algo que talvez o ajude. Ele deve ir até esses
mortos e até o avô e dizer: "Abençoe-me, se eu continuar vivo." E deve ir
até sua mãe e dizer a ela internamente: "Abençoe-me, se eu continuar vivo".
E deve dizer internamente a você e a seu pai: "Querido papai, abençoe-me,
se eu continuar vivo. "
Para o pai: Você fará isso, é claro que fará.
O pai está bastante comovido e concorda com a cabeça.
P AI : Vou fazer isso com o coração.
H ELLINGER : Exato. Faça isso com o coração.
P AI : Obrigado.
O EMARANHAMENTO
H ELLINGER para o grupo: Estamos vinculados aos destinos de nossa
família ao longo de várias gerações passadas. Quando nos deparamos com
pessoas que, de acordo com a nossa compreensão, comportam-se de
maneira estranha ou fazem coisas ruins, sabemos que estão vinculadas a
algo que não compreendem. Então olhamos para além deles e, sem intervir,
respeitamos seu destino especial. Quando respeitamos esse destino sem
querer fazer nada, eles ganham força.
Muitas vezes, temos a ideia do livre arbítrio humano. Possuímos livre
arbítrio, mas apenas limitado. No que diz respeito às coisas grandes, como
vida e morte, são outras forças que regem. O que podemos fazer então?
Nós nos entregamos a essas forças, também com relação ao nosso destino.
Depois de entregarmo-nos a essas forças, às vezes podemos ajudar outras
pessoas, mas em sintonia com elas.
Então, diminui o trabalho dos professores, o trabalho dos pais, e as crianças
se sentem melhor. Por trás de tudo está uma grande confiança de que, no
final, tudo se una e de que as distinções que fazemos entre bem e mal se
desfaçam no final. Não há mais bons nem maus: apenas pessoas.

AMEI MUITO SEU PAI


H ELLINGER : Tem mais alguém que queira trabalhar comigo?
Uma professora chama uma garota de aparentemente 16 anos, que se senta
ao lado de Hellinger. A garota olha rapidamente para Hellinger, sorri e
olha para o chão.
H ELLINGER para o grupo: Quando vocês olham para ela, quantos anos ela
tem em sua alma e em seu sentimento? Três anos. Algo aconteceu quando
ela tinha três anos.
Para a garota: O que aconteceu?
Ela balança a cabeça e olha para a mãe no meio do grupo. Hellinger
chama a mãe. Ela se senta ao lado dele.
H ELLINGER para a mãe: O que aconteceu quando sua filha tinha três anos?
M ÃE : N ÓS nos mudamos para a casa do meu marido atual.
A garota começa a chorar e soluça.
H ELLINGER : O que houve com o pai dela?
M ÃE : O pai dela nos abandonou. Foi embora com outra mulher.
H ELLINGER : Ela sente falta do pai, logo vemos isso. Ela sente falta do pai.
Hellinger olha para ela. Ela balança a cabeça intensamente.
H ELLINGER para o grupo: Ela está balançando a cabeça. Sabem por quê?
Tem medo de admitir na frente da mãe.
Hellinger olha para a mãe.
H ELLINGER para a mãe: Diga a ela: "Amei muito seu pai."
M ÃE : Amei muito seu pai.
H ELLINGER : Diga com amor.
Quando ela vai responder rapidamente: Devagar. Lembre-se de como você
o amou. Então diga a ela a partir de sua alma.
Ela dá um suspiro profundo.
H ELLINGER : Olhe para ela.
M ÃE : Amei muito seu pai.
A mãe está muito mexida. A garota chora.
Hellinger pede à mãe que se sente ao lado da filha e a tome nos braços.
Ela abraça, beija e acaricia a filha. Depois as duas se sentam de mãos
dadas.
H ELLINGER para o grupo: Isso é tudo o que preciso fazer.
Para a mãe: Tudo de bom para vocês.
A MBOS OS PAIS
H ELLINGER para o grupo: Gostaria de dizer mais uma coisa. Toda criança
tem dois pais. Para uma criança, é preciso poder amar ambos os pais. Uma
criança não compreende por que seus pais se separam. Ela ama ambos da
mesma maneira. Entretanto, quando os pais se separam e a criança fica com
a mãe, às vezes ela se torna dependente da mãe em todos os aspectos. Às
vezes, tem medo de mostrar que ama o pai da mesma maneira. Ela tem
medo de que a mãe fique com raiva e de que, além do pai, acabe perdendo
também a mãe. Contudo, secretamente, ela sempre ama o pai. Quando
escuta a mãe dizer que amou muito o pai, pode mostrar à mãe que também
ama o pai. Então a criança se sente aliviada.
A mãe aqui entendeu isso bem. Agora a filha pode facilmente dizer que
ama o pai. Ela também sabe que pode ir até o pai. Lá ela se sentirá bem.
Agora ela fica feliz.
Para a garota: Pode mostrar à vontade. A mãe também fica feliz.
Mãe e filha sorriem uma para a outra. A mãe envolve a filha com o braço
e a beija.
HELLINGER para o grupo: Ainda estava faltando isso.

MAMÃE, POR VOCÊ EU FAÇO TUDO


Um garoto de aparentemente 14 anos senta-se ao lado de Hellinger.
H ELLINGER para esse garoto: Olá. Quer trabalhar comigo?
G AROTO : Sim.
H ELLINGER para o grupo: Ele diz isso cheio de força.
Para o garoto: Gosto disso. Você está com algum problema?
G AROTO : Sim.
H ELLINGER : De que tipo?
G AROTO : Na escola e em casa.
H ELLINGER : O que está acontecendo em casa?
G AROTO : Eu fico nervoso com meu pai muito rápido.
H ELLINGER : Quem mais fica nervoso com seu pai?
G AROTO : SÓ eu.
H ELLINGER : E U sei quem mais fica nervoso. Sua mãe, obviamente. Sabe
como posso ver isso? Você é o filhinho da mamãe.
O garoto olha para Hellinger e fica pensativo.
H ELLINGER : O que aconteceria se sua mãe dissesse: "Eu respeito seu pai."
O que aconteceria?
G AROTO : Para mim? Acho que eu ficaria feliz.
H ELLINGER : É? Então vamos experimentar para ver, pode ser?
G AROTO : Sim.
H ELLINGER para o grupo: Como vocês sabem, posso me enganar muitas
vezes, mas uma constelação nunca erra.
Hellinger escolhe como representante o garoto da constelação "A vida
curta”.
H ELLINGER para esse garoto: Posso confiar em você?
O garoto diz que sim com a cabeça.
H ELLINGER : Você é o pai dele.
Em seguida, Hellinger toma como representante a garota da constelação
anterior "Amei muito seu pai". Ela representa a mãe.
H ELLINGER para esses representantes: Prestem atenção ao que acontece
em seus corpos e em suas almas e ajam de acordo com isso.
A representante da mãe olha para o chão. Ela tenta se virar para o outro
lado, mas vacila.
Hellinger pede a uma mulher que se deite diante da mãe de costas. Após
um instante, a mãe dá vários passos para trás. A morta está muito inquieta.
Hellinger coloca o garoto em frente à representante de sua mãe.
H ELLINGER para o garoto: Diga à sua mãe: "Mamãe, por você eu faço tudo.
G AROTO : Mamãe, por você eu faço tudo.
H ELLINGER : Diga de coração e devagar.
G AROTO : Mamãe, por você eu faço tudo.
Os dois se olham longamente. A mãe fecha os punhos.
H ELLINGER para a mãe: Diga-lhe: "Estou com raiva.
MÃE: Estou com raiva.
H ELLINGER após um instante para o garoto: Diga a ela novamente. Mamãe,
por você eu faço tudo."
G AROTO : Mamãe, por você eu faço tudo.
H ELLINGER para a mãe: Diga-lhe: "Estou com raiva."
M ÃE : Estou com raiva.
Os dois se olham longamente mais uma vez. Hellinger leva o garoto para
o lado, de forma que a mãe fique diretamente à frente da morta.
H ELLINGER para a mãe: Diga à morta: Estou com raiva.
M ÃE : Estou com raiva.
H ELLINGER : "Não quero você."
M ÃE : Não quero você.
H ELLINGER : "Suma daqui!"
M ÃE : Suma daqui!
H ELLINGER : Diga alto.
MÃE em voz alta: Suma daqui!
Ela fecha os punhos ao dizer. Ela dá mais alguns passos para trás. A morta
se virou para ela.
H ELLINGER para a mãe: Diga novamente bem alto.
M ÃE : Suma daqui!
Hellinger leva o garoto até o representante do seu pai. Eles se olham por
muito tempo.
H ELLINGER para o garoto: Diga a seu pai: "Querido papai, olhe para mim
como seu filho."
G AROTO : Querido papai, olhe para mim como seu filho.
H ELLINGER : "Aqui você é grande e eu pequeno.”
G AROTO : Aqui você é grande e eu pequeno.
H ELLINGER : "Sou apenas uma criança."
G AROTO : SOU apenas uma criança.
H ELLINGER para o grupo: Quando o escutam, percebem que ele fala como
se fosse o grande.
O garoto olha para Hellinger e sorri.
H ELLINGER . Diga mais uma vez: "Querido papai, por favor olhe para mim
como seu filho."
G AROTO . Querido papai, por favor, olhe para mim como seu filho.
Novamente ele fala de forma arrogante. O grupo ri.
H ELLINGER para o garoto: Agora, ajoelhe-se diante dele, olhe para ele e
diga: "Querido papai, agora eu o respeito como meu pai."
G AROTO : Querido papai, agora eu o respeito como meu pai.
Novamente, ele fala deforma arrogante. O pai fica em pé imóvel.
Hellinger conduz a mãe para o campo de visão da morta, que lhe estende
a mão. Ela dá novamente alguns passos para trás. Hellinger a conduz
novamente para perto da morta.
H ELLINGER para a mãe: Diga-lhe: "Agora olho para você.'
M ÃE : Agora olho para você.
H ELLINGER : "Como minha filha.”
M ÃE : Como minha filha.
H ELLINGER para a mãe: Chegue mais perto.
Ela se aproxima lentamente, até que a mão estendida da morta possa tocar
seus pés, e fica parada.
Hellinger vai novamente até o garoto.
H ELLINGER para o garoto: Diga a seu pai: "Por favor, olhe para mim como
seu filho.”
G AROTO de novo com voz arrogante: Por favor, olhe para mim como seu
filho.
H ELLINGER para o pai: Diga-lhe: "Ainda não."
P AI : Ainda não.
H ELLINGER para o filho: Vá com seu movimento, da maneira que o sentir.
O garoto se levanta.
H ELLINGER para o grupo: Não era esse o movimento. Pudemos ver qual
era o movimento. Quem tem raiva do pai perdeu-o.
Para o garoto: Diga-lhe novamente: "Por favor, olhe para mim como seu
filho."
Ele diz novamente com voz arrogante.
H ELLINGER para o grupo: Ele perdeu seu pai. Pobre garoto. Não tem força.
Sem o pai não há força.
Após um instante para o garoto: Agora diga ao seu pai: "Me salve."
G AROTO : Me salve.
H ELLINGER para o grupo: Não tem jeito, ele perdeu seu pai e sua mãe
também.
A mãe também não havia se movido mais.
H ELLINGER : V OU interromper por aqui.
Aos representantes: Obrigado a todos.
Aos representantes do pai e da mãe: Vocês dois foram representantes muito
bons. Pude confiar em vocês.
Para o grupo: O pai não pode fazer nada para se aproximar do filho. Se o
filho o despreza, o pai não pode fazer mais nada para se aproximar dele. O
representante do pai mostrou isso bem.
Qual é a dinâmica aqui? A mãe se sente culpada pela morte de uma
criança. Ela não quer a criança. Ela tem raiva.
Para o garoto: Ela quer morrer. E você diz a ela: "Por você eu faço tudo,
até morrer."
Após um instante: Só uma pessoa pode salvá-lo: seu pai. Mas só se você o
respeitar.
O garoto está sério.
H ELLINGER : Deixe isso atuar em sua alma. Talvez você encontre o
caminho. Mas somente se você se tornar pequeno, pequeno diante do seu
pai. Somos sempre pequenos diante de nossos pais.
Para o grupo: Quem se eleva acima dos pais acaba por perdê-los. Tem de
agir como grande sem ser grande.
Para o garoto: Acho que você entendeu agora. Tudo de bom.
Eles se dão as mãos.
H ELLINGER para os professores: Esses dois representantes não foram
excelentes? Foram completamente puros. Ambos foram muito bons. Isso
mostra que também podemos fazer constelações com jovens, até com
crianças. Muitas vezes, mais coisas vêm à luz do que quando trabalhamos
com adultos. Sempre podemos confiar no bem que há na alma de uma
criança.

A PEDAGOGIA HELLINGER
A Pedagogia Hellinger é uma Pedagogia Sistêmica. Qual é o seu efeito na
escola?
O presidente e diretor do CUDEC, Alfonso Malpica Cárdenas, declarou sua
profunda gratidão a Bert Hellinger, uma vez que sua visão sistêmica
contribuiu imensamente no sentido de reconquistar a confiança dos pais na
escola.
Essa foi a terceira visita de Bert Hellinger à instituição. Em 2001 e 2003
ele já havia sido convidado pelo CUDEC para ajudar pais, professores e
alunos através das Constelações Familiares. Nesse congresso, foi recebido
como convidado especial, sob enorme aplauso dos presentes.
De certo modo, essa recepção foi uma forma de reconhecimento ao seu
trabalho das Constelações sistêmico-fenomenológicas, uma vez que se trata
do fundamento para o desenvolvimento da Pedagogia Sistêmica, praticada
há muitos anos no CUDEC. Bert salientou, no entanto, que esse sucesso só
fora possível devido ao trabalho pioneiro realizado por Angélica e Alfonso
Malpica nos anos anteriores.
Através de supervisões e mediante a presença de alunos e pais, Bert
trabalhou com as Constelações Familiares para abordar problemas como:
dificuldades de concentração, hiperatividade, dislexia, além de depressão,
psicose, uso de drogas e álcool. Ao serem confrontados com tais problemas,
os professores, muitas vezes, não são capazes de transmitir os conteúdos
de aprendizado de forma adequada.
Surge a pergunta com relação aos culpados. Quem é o responsável pela
falta de sucesso do aluno? Os pais, os professores, a escola? Em vez de
tentar encontrar culpados, Bert Hellinger encontrou soluções na história de
família dos alunos.
Os participantes puderam observar, de maneira marcante, o amor com que
as crianças são vinculadas a seus sistemas familiares e como a lealdade a
um membro da família é capaz de influenciar o comportamento de
aprendizado do aluno. Nas constelações, tornou-se claro que o professor
perde força ao olhar apenas para o problema. Por outro lado, quando olha
para o aluno, enxerga seus pais por trás dele e respeita a sua história
familiar, bem como as condições sob as quais a criança cresceu, está em
sintonia com o destino da criança e de sua família. Ao mesmo tempo, é
capaz de sentir seus próprios pais atrás de si e respeitá-los. Dessa forma,
também está conectado à sua força. Assim, o professor se mantém em sua
própria tarefa e obtém a confiança necessária dos pais. Apenas dessa
maneira se torna possível para ele ensinar aos alunos. Ele deixa o aluno e
seus pais com sua dignidade e assume sua própria dignidade em um lugar
adequado como professor.
A ORDEM
A Pedagogia Sistêmica também requer que a escola seja conduzida de
maneira sistêmico-fenomenológica. Alguns diretores trouxeram seus
problemas com os professores e Bert Hellinger mostrou uma forma de
trabalho em rodadas, na qual o diretor pode dar a palavra a todos e, em
seguida, tomar uma decisão adequada a todos.
Também mostrou a importância da coesão entre os professores e o próximo
nível na hierarquia, os diretores. Um professor que trabalha contra o diretor
se torna insuportável para a escola. O mesmo ocorre quando um professor
se junta com os alunos para agir contra outro professor.
O sistema de ensino está submetido a certas ordens. Em primeiro lugar vem
o diretor, depois os professores, que são iguais entre si, com a diferença
que, aqueles que chegaram à escola primeiro como professores, têm
precedência sobre os que vieram depois. Muitas vezes, os novos
professores querem mostrar aos antigos como as coisas devem ser feitas, e
então já começa o problema. É importante reconhecer as capacidades e a
competência do outro, pois neste aspecto são todos diferentes.
Se reconhecermos que todos são bons à sua maneira, mas que todos
ensinam de sua forma especial, pode haver harmonia entre todos.
Para poder combater a temida Síndrome de Burnout, afirma Hellinger, o
professor deve assumir seu lugar adequado como tutor.
Em primeiro lugar vêm sempre os pais, depois os alunos e, depois os
professores. O lugar mais seguro a partir do qual um professor pode ensinar
é o mais embaixo. Lá, o professor possui a maior força. Lá, o destino e a
sintonia colocam-se a seu lado e, assim, ele obtém a força para seu
trabalho."
O fundamento necessário para o ensino só é estabelecido quando o
professor se vê como o último na sequência aluno - pais - professor. Assim,
o professor não se sente mais sozinho: ele divide a carga e pode dar um
passo para trás e fazer seu trabalho com alegria. "O respeito mútuo é o
fundamento de uma boa educação."

AJUDA MEDIAL
Cursos em Bolzano e Milão 2013
♦ CURSO EM BOLZANO, 2013

INTRODUÇÃO
HELLINGER: Estou feliz por estar aqui e por ter um tradutor tão bom ao
meu lado.
O tema deste curso é: sucesso na vida, sucesso na profissão. O que vem
primeiro? Primeiro vem o sucesso na vida, depois o sucesso na profis são.
Sucesso para quem?
Além dos que estão sentados aqui, muitos outros estão presentes conosco.
Milhares, que esperam pelo nosso sucesso. Muitas pessoas que fizeram
parte do nosso passado, de nossas vidas anteriores, pessoas de nossas
famílias, que talvez tenham sido esquecidas, rejeitadas ou julgadas.
Pessoas que esperam por uma absolvição, por uma liberdade que as leve a
um outro nível, a um outro nível do amor junto conosco. Vocês concordam
em penetrarmos nessa amplidão?
Acontece que os fracassos não são apenas nossos fracassos e que as nossas
queixas não são apenas nossas. Há outros que se expressam em nossos
sintomas corporais, e eles nos dizem: Por favor.
M EDITAÇÃO : A CONFIANÇA
Fechem os olhos. Vamos penetrar em nosso corpo e nos tornar amplos
internamente. Olhamos para muitos de nossa família, para muitos de nosso
passado. Dizemos a todos: Sim, sim. Você pertence a mim e eu pertenço a
você.
Sentimos o que muda em nós, o que é curado em nós. De repente, nossos
desejos vão para o pano de fundo - também aquilo que nos propusemos
para este curso - e nos sentimos levados e carregados por outras forças.
Olhamos de forma confiante para o que nos espera aqui, para aquilo que
nos espera aqui, finalmente.
O que fizemos agora? Demos o primeiro grande passo em direção ao
sucesso: a um grande sucesso.

DEMONSTRAÇÃO: A LUZ
Vou começar com uma demonstração. Quem se coloca diante desse
movimento? Quem ousa seguir esse caminho? Olho ao meu redor e me vejo
movido por uma outra força. Então escolho alguém. Quem de vocês deseja?
Hellinger escolhe um homem com um ferimento grave na perna. Ele o
cumprimenta e pede que se sente ao seu lado.
H ELLINGER para esse homem: Feche os olhos.
Após um instante: Embaixo, à nossa frente, estão muitos mortos. Estão com
os olhos abertos. Estão olhando para você e para mim. Digo a eles:
“Conheço vocês. Muitos dos mortos da minha família estão entre vocês."
Vocês se olham entre si e dizem: “O que estamos fazendo aqui? Temos
algo a resolver aqui? Ou será que nos levantamos, nos viramos para o outro
lado e vemos uma luz eterna diante de nós?” De repente, nos sabemos
vivos, vivos de outra forma, finalmente em casa.
Agora olhamos, seguindo o olhar deles, para a mesma luz brilhante. Nós
nos levantamos e damos os primeiros passos para dentro dessa luz. De
repente nos sentimos leves, levados e carregados por forças maiores.
Ficamos afundados nessa luz.
Após um instante, para o homem: Como você está?
H OMEM : Sinto-me amplo e firme ao mesmo tempo.
Hellinger bate em seu ombro: Vou fazer um exercício com você.
Hellinger escolhe uma mulher como representante e a coloca em frente ao
homem a uma certa distância.
H ELLINGER para essa mulher: Olhe para ele.
Para o homem: A ajuda vem dela.
Para a mulher: Você se deixa mover da maneira como for guiada, sem
intenção, apenas presente.
Após um instante, a mulher se agacha e se senta.
H ELLINGER para o homem: Ao lado dela e atrás dela estão muitos outros.
A mulher se deita de costas.
H ELLINGER para a primeira fileira de participantes do grupo, cerca de 15
pessoas: Vocês são esses outros.
Esses representantes se deslocam lentamente em direção à mulher deitada
no chão. Ela se afasta deles o máximo que consegue. Quando uma das
mortas a toca com o pé, ela grita. Mesmo assim, a morta não a deixa. Os
outros mortos se distribuem. Uma vai para fora e olha para longe. A
maioria dos mortos se espremem ao redor da mulher no chão. Vários se
ajoelham diante da mulher no chão e a acariciam. Outros olham para o
homem, que se encontra no palco. Ele está bastante mexido. Uma das
mortas se ajoelha diante dele e acaricia sua perna ferida. Então se levanta:
uma outra está de pé a seu lado. As duas olham para o homem. Elas se
aproximam dele, uma acaricia seu rosto.
H ELLINGER após um instante: Vou parar por aqui. Obrigado aos
representantes.
Para o homem: Você pode ver que não está sozinho. Tudo de bom.
Para o grupo: Como vocês estão? Foram juntos no caminho para o
sucesso? Juntos com muitos à direita, à esquerda e atrás de vocês? E alguns
vão à frente?
L EVADOS
Fechem novamente os olhos. Olhamos para nossa vida da forma que foi até
agora. Solitária talvez, voltada para nós mesmos. Mesmo assim
caminhamos em uma grande procissão. Há muitas pessoas à nossa direita
e esquerda. Estendemos as mãos para a direita e para a esquerda e nos
sentimos subitamente levados como um entre muitos, ao mesmo tempo.
Imaginamos que damos alguns passos para frente. A cada passo deixamos
algo para trás. Mais alguns passos à frente e, novamente, deixamos algo
para trás. Mais um passo à frente, mais um.
Começa uma subida. Vamos juntos, lentamente, passo a passo, com o olhar
voltado para cima e ficamos leves, cada vez mais leves. Nós nos
perguntamos: como é que carregamos isso tudo? Apenas como peso morto?
Agora isso sai de nossas costas. Respiramos fundo, damos mais um pass o
à frente e para cima, em direção a uma altura longínqua.
EXERCÍCIO : TROCA DE EXPERIÊNCIAS
Agora faremos pequenos grupos de quatro ou cinco pessoas próximas.
Trocaremos as experiências que tivemos. Não precisa ser por muito tempo:
apenas alguns minutos.
Após o exercício: Como se sentem? Podemos continuar? Ok.

DEMONSTRAÇÃO: O AVANÇO
Farei mais uma constelação sobre o sucesso na vida e na profissão. Algum
voluntário?
H ELLINGER para um participante: Se você não estivesse escrevendo, eu o
escolheria. Quem escreve não está em contato com outras forças. O coração
está em outro lugar, não no papel. Então, quem gostaria?
Hellinger escolhe uma mulher e a coloca sentada ao seu lado.
Para a mulher: Feche os olhos e diga a alguém internamente: "Acabou."
Após um instante: E agora diga a essa pessoa internamente: “Eu te odeio.”
A mulher contorce o rosto, grita e chora alto.
H ELLINGER : Este é o outro lado do ódio. O sentimento verdadeiro é
diferente. Todo aquele que se apresenta como vítima e espera piedade dos
outros...
- a mulher bate com os pés no chão -
...tem o outro sentimento, deseja matar alguém. Todo o resto é um jogo.
A mulher permanece sentada com os dentes cerrados e o rosto contorcido.
H ELLINGER : O que mais faz uma pessoa assim? Ela se mata.
A mulher continua batendo forte com os pés no chão. Após um instante, ela
se acalma e respira fundo.
H ELLINGER para o grupo: Fechem os olhos. Vamos verificar em nós
mesmos. Diante de quem nos comportamos como se fôssemos pobres
coitados e vítimas? Qual é o desejo secreto? Onde está o desejo de morte
para os outros e para nós mesmos?
A mulher se acalmou e respira fundo.
H ELLINGER : Como você está agora? Olhe para mim.
M ULHER após vacilar um pouco: Não encontro o caminho.
H ELLINGER : Mostrei-o para você. E vou deixar assim.
Após um instante: De quantos você já riu internamente com esses
sentimentos?
M ULHER : De muitos.
H ELLINGER : Exato. Esse foi o primeiro passo para o sucesso. Tudo de bom.
A mulher sorri, tranquila.
H ELLINGER para o grupo: Parece que estamos no caminho para o sucesso.
O sucesso é leve.

O NÚMERO DO SUCESSO
Gostaria de levá-los juntos em um movimento em direção ao sucesso na
vida. Vou dizer algo sobre isso, ou seja, dar uma pequena palestra. Se
quiserem, podem fechar os olhos ou olhar para mim. É a mesma coisa.
O grande número do sucesso, o número secreto criador para o sucesso é o
dois. O dois quer a unidade. Isso seria o um. Mas o caminho para o um
passa pelo dois. O sucesso começa com o dois. Aqui sentam-se dois que se
dão as mãos. Esse é o caminho para o sucesso.
Imaginamos que, à nossa esquerda, esteja a nossa mãe e, à nossa direita, o
nosso pai. Ficamos no meio. Nossos pais eram dois. Em nós, se tornam um.
Esse um entre o pai e a mãe é o maior sucesso imaginável. Não há sucesso
maior que um filho.
O filho é um a partir de dois. Contudo, o filho, quando nasce, por um lado
é um, pois une o pai e a mãe em si, em uma unidade. Entretanto, embora o
filho seja um, ele nasce como a metade de um dois: como um menino ou
uma menina.
O que acontece depois? Após algum tempo, o menino procura a menina e
a menina procura o menino. Como homem e mulher, desejam se tornar um.
Conseguem isso através de um filho.
Agora talvez estejam pensando: "Aonde ele quer chegar com essas
reflexões?" Estamos em um curso sobre sucesso na vida e na profissão.
O sucesso na vida começa, para o homem, com uma mulher e, para a
mulher, com um homem.
NOSSO SUCESSO
Fechem os olhos. Verificaremos em nós onde está o pai em nosso caminho
para o sucesso na vida? Onde está a mulher, para o homem? Onde está o
homem, para a mulher?
Imaginamos que estamos no meio, com a mãe à nossa esquerda e o pai à
nossa direita. Com a mãe à esquerda e o pai à direita, damos um passo à
frente. Damos as mãos à mãe e ao pai, de forma igual para os dois. Em nós,
eles são sempre um.
A pergunta é: onde ficou a mãe em nosso caminho para o sucesso? Onde
ficou o pai em nosso caminho para o sucesso? Aonde chegamos? A que
fracasso chegamos, talvez, devido à falta da mãe ou do pai?
Agora seguramos a mão de ambos e olhamos para uma meta, lá onde o
futuro nos espera. Dando as mãos a ambos, a mãe à esquerda e o pai à
direita, vamos em direção ao nosso sucesso, seguros em sua direção.
O sucesso é simples assim, da mesma forma que a raiz do fracasso. Os
movimentos fundamentais da vida são sempre com dois.
O três é um número sagrado: nós no meio, entre o pai e a mãe.
Vamos prosseguir. Como se sentem após o que foi feito aqui? Estão no
caminho do sucesso? Estão no caminho da felicidade?
Vou prosseguir da maneira que começamos. Vou demonstrar algo de uma
maneira em que todos são levados juntos em um movimento. Gostaria de
fazer a ponte para o sucesso na profissão. Quem aqui tem uma questão
relacionada à profissão?

DEMONSTRAÇÃO: NOSSA PROFISSÃO


Hellinger escolhe um homem, pede que ele se posicione e olhe para frente.
À sua frente, ele coloca uma mulher como representante da profissão.
H ELLINGER para os posicionados: Deixem-se movimentar sem intenção
própria.
O homem vai em direção à profissão, com passos pequenos. Após um
instante, Hellinger escolhe outro homem como representante e pede a ele
que se deite de costas em frente à mulher que representa o sucesso.
O homem e a representante da profissão olham para o morto que se
encontra entre eles. A profissão dá alguns passos para trás. O homem
agora está próximo ao morto.
Hellinger escolhe outra mulher como representante e pede que ela se
posicione do lado direito da profissão. As duas ficam bem próximas uma
da outra. A representante mais nova fecha os punhos e olha para o morto.
Embora estejam bem próximas, as duas mulheres não se olham.
H ELLINGER : Ela é alguém que tem raiva do morto. Está com os punhos
cerrados.
O homem passa pelos pés do morto e quer ir até essa representante. De
repente, ele para, abre os braços e volta para trás. A profissão recua um
pouco, apoia a parte de trás da cabeça na segunda mulher e olha na
direção oposta a ela, que, por sua vez, olha para longe, ainda com os
punhos cerrados. O morto está com a cabeça voltada para longe dos
outros.
Hellinger escolhe mais um homem como representante e pede que ele se
posicione no lugar para onde o morto está olhando.
O homem em questão se afasta do morto. Ele levanta os ombros e vai para
mais perto da mulher com os punhos cerrados. Esta se afasta da profissão
e se posiciona perto desse homem. Ela gira em círculos, assim como o
homem, que tem os ombros erguidos. Após um instante, ele dá as costas
para a situação.
O segundo homem permanece em frente ao morto e lhe dá as costas. A
segunda mulher estende os dois braços para trás e segura a profissão. A
profissão vai lentamente para o chão e, com ela, a outra mulher. A
profissão se curva bastante para frente. A outra mulher coloca uma mão
sobre ela. O homem em questão permanece ao lado.
Hellinger escolhe mais um homem e o coloca em frente ao segundo homem.
Este se encontrava, antes, sobre o morto, com as pernas abertas. Os dois
homens vão em direção um ao outro. O homem que chegou depois estica
ambas as mãos em direção a este homem, de maneira convidativa. Este
olha para trás para o morto.
Após um instante, esses homens ficam juntos, o homem que chegou depois
fica atrás do anterior. No meio tempo, o morto deu as costas a eles.
O homem em questão se ajoelha em frente à profissão. A profissão se afasta
dele. A segunda mulher está deitada no chão e olha para o homem. A
profissão se afasta totalmente.
H ELLINGER : V OU parar por aqui. Obrigado aos representantes.
Hellinger chama até si o homem em questão. Pede a ele que se sente ao
seu lado.
H ELLINGER : Como se sente?
H OMEM : Sinto-me forte. Sinto que se trata de um sistema que não me
pertence.
H ELLINGER : Exato.
Para o grupo: O que ficou visível aqui? Algo do passado que não pertence
a ele está atuando aqui. Quando atua algo que se encontra muito atrás, em
outra dimensão, todos os nossos esforços para que algo dê certo em nossa
profissão ou em nossa empresa são em vão.
Para o homem: Está claro que houve um assassinato.
O homem diz que sim com a cabeça e faz um movimento com a mão para
trás.
H ELLINGER : Isso se encontra distante no passado. O assassino quer ir, quer
ir para outro lugar. Isso faz sentido para você?
H OMEM : Sim.
H ELLINGER : Está no passado distante, mas está presente. Uma frase
estranha me vem como solução: mude de profissão.
O homem reflete. Ele se vira para Hellinger e sorri para ele.
H ELLINGER : Estou vendo em seu rosto: esse é o futuro.
Eles sorriem um para o outro.
H ELLINGER : Tudo de bom para você.
Eles apertam as mãos.
R EFLEXÃO
Fechem novamente os olhos. Olharemos para as nossas profissões e
empresas, com as quais garantimos o nosso sustento. Para onde elas se
movem? Vêm em nossa direção? Afastam-se de nós? O que fazem com as
mãos? Estão abertas? Estão fechadas ou talvez fechadas em punho? O que
se encontra no chão entre elas e nós? Quem mais está incluído? Quem está
querendo algo de nossa empresa? Está querendo algo diferente de nós?
Experimentamos internamente: para onde isso nos atrai? Para que luz? Para
que força? Para que serviço na vida? Para que alegria?
Após um instante: Vocês encontraram uma direção?
Vou contar-lhes um segredo sobre o sucesso. Querem saber? É um segredo
bem profundo: o grande sucesso é leve.
Não há sucessos pesados. Tudo aquilo que é pesado dá errado. Assim como
o amor: o amor leve é amplo - e feliz.
Faremos novamente pequenos grupos e compartilharemos os nossos
sucessos até agora neste curso.
Após um instante: Como vocês estão no caminho para o sucesso? Quando
olho para seus rostos, vejo que muitos seguiram esse caminho - rumo ao
sucesso leve.

DEMONSTRAÇÃO: SUCESSO COM UM


PARCEIRO
Gostaria de prosseguir e olhar para algo relacionado ao sucesso em um
relacionamento. O grande sucesso é sempre o sucesso com um parceiro. A
grande felicidade obviamente também.
Quem gostaria de olhar para algo nesse sentido sobre o sucesso com um
parceiro?
Uma mulher se apresenta.
H ELLINGER para essa mulher: Primeiro farei algumas perguntas.
Você é casada?
M ULHER : Sim.
H ELLINGER : Tem filhos?
M ULHER : Sim.
H ELLINGER : Quantos?
M ULHER : Juntos temos quatro. Eu tenho dois.
H ELLINGER : E O seu parceiro?
M ULHER : Tem dois.
H ELLINGER : Existe uma parceira anterior ao seu marido? Existe um
parceiro seu anterior?
M ULHER : Sim. Ele já morreu.
H ELLINGER : Feche os olhos. Imagine-se dando a mão esquerda ao parceiro
antigo e a mão direita ao parceiro atual. A que parceiro pertencem seus
filhos, ao antigo ou ao atual?
M ULHER : AO antigo.
Hellinger escolhe representantes para o parceiro anterior da mulher e uma
mulher. Ele a posiciona a uma certa distância, em frente ao parceiro
anterior.
H ELLINGER para a mulher: Os filhos são meninos ou meninas?
M ULHER : Um menino e uma menina.
H ELLINGER : Qual é o mais velho?
M ULHER : O menino.
Hellinger escolhe um homem para o filho mais velho e uma mulher para a
mais nova.
H ELLINGER para esses representantes: Procurem um lugar para vocês.
O marido anterior dá alguns passos na direção da mulher. Depois vai para
o lado. Os dois filhos colocam-se ao seu lado, a menina à direita e o
menino à esquerda. Então o menino dá um passo à frente.
H ELLINGER : De que o homem morreu?
M ULHER : De esclerose múltipla.
O menino se coloca à direita de sua irmã. O marido anterior se ajoelha. A
mulher olha para a esquerda, sua mão esquerda está tremendo. A mulher
dá mais alguns passos para a esquerda. O marido antigo se deita sobre as
costas. Ambos os seus braços estão esticados. A mulher coloca ambas as
mãos sobre o rosto e chora alto. Ela se afasta. Enquanto isso, olha para o
marido morto. Ela treme bastante e grita alto.
A mulher em questão vai até sua representante, toma-a nos braços e a
segura. No meio tempo, o filho desce até o pai morto, ajoelha-se diante
dele e segura seu braço.
H ELLINGER : Preciso de mais uma mulher.
Ele escolhe uma mulher e deixa que ela se posicione. Ela fica de fora.
H ELLINGER para a mulher: Você é a morte dele.
A representante da mulher está mais calma. A mulher e sua representante
olham-se nos olhos. Hellinger pede à mulher em questão que se sente a seu
lado.
O garoto está ao lado de seu pai. A filha se virou para a morte e vai em
sua direção.
A representante da mulher está inquieta. Ela se move lentamente em
direção ao marido morto. O filho sentou-se. Afilha continua olhando para
a morte. Então, desvia o olhar e olha para fora.
A mulher passa pelo marido morto e vai em direção à sua filha. Ela a
abraça por trás e segura. A filha se livra dela e dá um passo para o lado.
A mãe quer estender a mão para ela.
H ELLINGER : Vou parar por aqui.
Após um instante para o grupo: Onde estaria o sucesso aqui?
Para a mulher: Você tem que voltar. Senão seus filhos morrerão.
Os dois se olham longamente. A mulher se levanta e volta para seu lugar.
H ELLINGER após um instante para o grupo: O que podemos ver aqui?
Somos livres em nossas decisões? O caminho para a felicidade está aberto
para nós da forma que desejamos? Ou há outras forças atuando aí?
Alguém pode morrer em nosso lugar? Ficamos livres então? Ou será que
cada um tem sua própria morte? Podemos morrer por uma pessoa, para que
ela permaneça viva?
A SUPERAÇÃO
Fechem novamente os olhos. Vamos imaginar que, à nossa frente, estejam
diversas pessoas a uma certa distância de nós. Cada uma dessas pessoas
representa a morte de uma outra pessoa. Olhamos para todas essas pessoas.
O que acontece quando simplesmente olhamos para elas? Quando as
olhamos concentrados em nosso interior e levados pela nossa vida aqui? O
que acontece com os representantes da morte de outras pessoas? Eles
podem permanecer? Ficam fracos? Querem desaparecer? O que acontece
então conosco? Nós nos afastamos deles internamente, guiados por outra
força, proveniente do nosso coração, por outro amor. Nós os seguimos com
leveza para outra luz.
Alegria, mais belo fulgor divino,
Filha de Eliseu,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste.
Após um instante: Como? Com sucesso.
Ok, essa foi a nossa manhã. Felicidades para vocês.

À TARDE

O CÉU NA TERRA
H ELLINGER : Algo se encontra acima de tudo no caminho do sucesso. Algo
se encontra acima de tudo no caminho da felicidade. Algo sagrado se
encontra em seu caminho. Conhecemos esse algo sagrado como
consciência. É inacreditável que, até o dia em que eu descobri o contrário,
todo o Ocidente a tenha visto como a voz de Deus em nossa alma.
Se olharmos bem, para onde leva a consciência? Ela leva sempre a uma
guerra. Sentimos em nós o que acontece quando seguimos nossa
consciência limpa. Quem segue sua consciência limpa sempre rejeita
alguém. Está sempre com raiva de alguém. Vocês conseguem sentir isso?
Conheci um índio no Canadá. Ele me disse que em sua língua não existe
uma palavra para justiça. Não há consciência nessa tribo. Eles vivem sem
consciência. Isso é inacreditável. Perguntei a ele: "O que vocês fazem
quando alguém mata uma pessoa?” O que faríamos nós, por exemplo?
Clamaríamos por justiça. Ou seja, queremos matar o outro.
Ele me disse: "A família da vítima adota o assassino." Não existe vingança!
Eles se movem em outro nível da consciência, para além da consciência
limpa ou pesada.
Posso dizer mais uma coisa sobre a consciência?
A consciência tem uma função. Ela nos vincula ao nosso grupo. Aquele
que segue sua consciência limpa tem a sensação de que pode pertencer a
seu grupo. Com a consciência limpa, adquirimos o direito ao
pertencimento. Esse é o sentido e o objetivo da consciência limpa: ela nos
vincula a nosso grupo. Ela nos vincula, por exemplo, à nossa família, assim
como ao nosso povo e à nossa religião. Ao mesmo tempo, obriga -nos a
rejeitar outras pessoas. Por isso, todo conflito, todo conflito sangrento, é
uma guerra entre duas consciências diferentes.
O outro grupo também tem a consciência limpa, só que diferente da nossa.
Por isso, rejeitam-nos com consciência limpa, guerreiam contra nós de
consciência limpa.
Vou dizer mais uma coisa sobre a consciência limpa: toda consciência
segue um Deus, um Deus que recompensa a uns com o céu e manda outros
para o inferno.
E o Deus cristão? Ele é o produto da nossa consciência. Quando
conseguimos encontrar um amor abrangente, além de nossa consciência,
não há mais nenhum Deus, nenhum Deus que escolhe e nenhum Deus que
condena.
Qual foi o tema do nosso curso? Ah, sim: o sucesso. O sucesso na vida, o
sucesso em nossa profissão. O que significa sucesso? Somos ligados a
muitas pessoas pelo amor. E também - devo dizer de forma tão dura assim
- ligados a elas com uma consciência pesada.
Quis dizer isso como introdução. Já pudemos ver o efeito da consciência
limpa na constelação de hoje.
Isto aqui - erguendo o punho fechado - é o efeito da consciência limpa. E
isso aqui - abrindo os braços - só é possível com consciência pesada, só
deixando o nosso grupo. Nunca, porém, contra o nosso grupo, mas em
sintonia com muitos grupos ao mesmo tempo. Quando conseguimos, como
chamamos isso? Chamamos de céu na Terra. Onde está esse céu? Embaixo,
bem embaixo.

DEMONSTRAÇÃO: A FELICIDADE
H ELLINGER escolhe um homem e pede que ele se sente ao seu lado: Pelo
que já conheço de você até agora, você olha de soslaio para a felicidade.
H OMEM ri e acena com a cabeça: É verdade.
H ELLINGER : Agora vamos olhar para a felicidade.
Quando o homem fica inquieto: Espere. Você pode tomar todo o tempo
necessário.
Quando penso em tudo de que você é capaz, em tudo que aprendeu, no que
aplicou com êxito e, depois, no fracasso, meus olhos se enchem de
lágrimas.
Feche os olhos. Estou vendo sua felicidade à sua esquerda: uma mulher.
Para o grupo: Preciso de uma mulher como representante.
Hellinger escolhe uma mulher e pede a ela que se posicione alguns passos
à esquerda desse homem.
A mulher oscila para trás e para frente, inclina-se para frente e olha para
o chão. Ela faz um movimento de repulsa com a mão esquerda. Depois se
endireita, vira-se para trás e vai embora, mantendo os olhos fechados.
H ELLINGER para o homem: Levante-se e siga o movimento de seu corpo.
O homem se move lentamente em direção à mulher. Ela dá alguns passos
para trás, lentamente. Ele estende uma mão em sua direção e a solta
depois. A mulher vira a cabeça para ele. Os dois se olham. Depois ela
recua alguns passos, mas eles ficam se olhando.
Hellinger escolhe um representante e diz a ele: Você é a morte.
O homem estica os braços e depois os solta. Ele se aproxima da mulher
com passos pequenos. Ela o olha nos olhos. A morte permanece em pé do
lado de fora.
Hellinger escolhe um homem como representante, pede que venha até o
palco e se deite de costas, a alguns metros do homem que olha para a
mulher, desviando o olhar do novo representante.
O morto está com ambos os braços esticados, para a direita e para a
esquerda. Após alguns instantes, o homem e a mulher olham para o morto.
O homem vai em direção ao morto com passos pequenos, curva-se sobre
ele e pega sua mão estendida. O morto o abraça e deita-se novamente, com
os braços esticados. A mulher colocou-se ao lado do homem e lhe estende
uma das mãos, coloca-a sobre sua cabeça e o puxa para si. Ele repousa a
cabeça sobre sua barriga. Ela o acaricia.
A morte permanece de fora e mantém os braços abertos. O homem estica
novamente a mão em direção ao morto, mas este havia virado a cabeça em
direção à morte. Ele dá as costas para o homem.
H ELLINGER : Ok, obrigado a todos.
Ele pede ao homem que se sente novamente ao seu lado.
H ELLINGER : Está bem assim?
O homem acena com a cabeça, mas de forma hesitante.
H ELLINGER : Feche os olhos. Imagine mais uma vez que você está com a
cabeça repousada sobre a barriga da felicidade.
O homem sorri contente.
H ELLINGER : Esse é o movimento, o único movimento. Pode esquecer todo
o resto. Está bem assim?
O homem acena com a cabeça.
H ELLINGER : Tudo de bom.
C ONSTELAÇÕES F AMILIARES M EDIAIS
Há pouco tempo escrevi um livro sobre as Constelações Familiares
Mediais. Neste curso, mostrei o que é isso. Elas ocorrem de forma
inconsciente, inconsciente de minha parte, diretamente em direção à
inspiração de uma outra consciência. Sem intenção, sem imagem, guiada a
partir de outro lugar. A pergunta é: o que ainda é considerado das
Constelações Familiares antigas? Mas todos vocês acompanharam, a
maioria de vocês acompanhou. Vocês experimentaram pessoalmente o que
significa ser guiado de forma completa e direta a partir de outra dimensão,
sem conhecimentos prévios.
Nessa dimensão não há tempo, não há preparação. Vivemos no aqui e no
agora. Damos espaço para outras forças, para forças maiores.
O que faremos agora? Ainda não sei. Preciso me deixar guiar novamente.
M EDITAÇÃO : O PRÓXIMO PASSO
Fechem os olhos. Agora vamos verificar em nossa alma e, em especial, em
nosso coração e em nosso sentimento profundo, qual seria o próximo passo.
Tomaremos o tempo que for preciso. A compreensão sobre o próximo passo
vem de repente, de forma inesperada. Essa compreensão é ampla,
infinitamente ampla, sem preparação. O resultado é leve como uma brisa.
O sentimento é diretamente no corpo. E é embaixo.
P ERGUNTAS
O FIM
Como vocês estão? Alguma pergunta a esse respeito? Quem tiver uma
pergunta levante a mão.
Uma mulher se apresenta e senta-se ao seu lado.
H ELLINGER : Qual é a pergunta?
M ULHER : Durante a meditação, senti-me completamente bloqueada em
todas as direções.
H ELLINGER : Qual é a pergunta?
M ULHER : EU não encontro o caminho. A pergunta é: como encontrar o
caminho?
H ELLINGER : Preciso de uma mulher.
Uma mulher se apresenta e vai até o palco. Hellinger pede à mulher que
fez a pergunta para se colocar diante dessa mulher.
A mulher (cliente) oscila. Depois vai para o chão e se deita com os braços
abertos diante da outra mulher. Ela bate com as mãos no chão, fazendo
um barulho alto.
H ELLINGER para o grupo: Qual é o nome disso? Chamo isso de fim.
Após um instante: Vou parar por aqui.
Para a representante: Obrigado.
A mulher que fez a pergunta se levanta e vai.
A CONSCIÊNCIA
H ELLINGER : Agora não tenho mais coragem de perguntar se alguém tem
alguma pergunta. Mesmo assim, alguém ainda tem alguma pergunta?
Uma mulher se apresenta e senta-se ao lado de Hellinger.
M ULHER : EU não entendo, ou não sei, quando a consciência leve ou pesada
fica ativa em mim.
H ELLINGER : Na pergunta anterior, a consciência leve ficou ativa. A
consciência leve proíbe.
Quando a mulher que fez a pergunta quer falar, Hellinger balança a
cabeça. HELLINGER : E a consciência leve nos faz feliz.
A mulher que fez a pergunta balança a cabeça.
H ELLINGER : E faz os outros infelizes.
A mulher acena com a cabeça.
H ELLINGER : Ok, vou parar por aqui.
Para o grupo: Está ficando cada vez mais perigoso fazer perguntas.
Após um instante: Vou chamar novamente a ajuda das grandes forças para
uma constelação.
DEMONSTRAÇÃO: A QUESTÃO
H ELLINGER : Quem tem uma questão relacionada ao sucesso na vida e na
profissão perante a qual deseja expor-se através de uma constelação?
Ele escolhe uma mulher que se senta ao seu lado. Escolhe outra mulher
como representante e a chama para o palco.
H ELLINGER para essa representante: Posicione-se: você é a questão dela.
A representante olha para o lado. Hellinger escolhe um representante, um
homem, e pede que se posicione diante da mulher a uma certa distância,
mas não no lugar para onde ela havia olhado.
A mulher desvia o olhar e olha para o homem, oscilando para frente e para
trás. O homem estende a mão direita para ela e vai em sua direção com
pequenos passos. A mulher começa, hesitante, a lhe estender a mão direita.
Após chegar mais perto, o homem lhe estende a mão. Após um instante,
coloca a mão sobre o ombro dela, repousa a cabeça sobre a dela, enquanto
ela mantém a mão direita estendida, sem acolher o homem.
H ELLINGER : Ok. Obrigado aos representantes.
Após um instante para a mulher. O que pudemos ver? Tanta felicidade
possível em vão.
Para o grupo: A felicidade pela qual esperamos passa por nós.
NOSSO PASSO
Fechem os olhos. Agora olharemos para uma felicidade pela qual
esperamos por muito tempo sem nos aproximarmos dela.
Após um instante: Agora esperamos por alguém que se encontra atrás de
nós e de quem vem a força para nosso passo.
Após um instante: Ok.

A PÓS UMA PAUSA


MEUS LIVROS
Eu não compreendia como escrevo livros. Isso só ficou claro para mim nos
últimos tempos.
Quando escrevo livros, sou um meio. Sou pego por um outro movimento.
Acordo de manhã, por exemplo, e uma palavra me vem à mente de repente.
Então sei que vou escrever um texto sobre essa palavra. Sento- me e
escrevo essa palavra como título. Então minha mão é guiada, palavra por
palavra. Não sei aonde isso me levará. No fim vem a conclusão, que
também me é dada.
Dez minutos depois, já me esqueci do que escrevi. Se não tivesse escrito,
não poderia dizer. Esqueço-me até mesmo do título.
E assim vai surgindo cada livro. Não são meus livros. Sou apenas uma
ferramenta.
Por que contei isso? São movimentos: eles vêm de outra consciência e
conduzem a uma outra consciência.
Neste curso já demos alguns passos para dentro dessa outra consciência. E
assim continuaremos.

DEMONSTRAÇÃO: EM VÃO
H ELLINGER : Quem quer olhar para algo relacionado ao sucesso na vida e
na profissão?
Uma mulher se apresenta e senta-se ao lado de Hellinger.
Hellinger se concentra.
H ELLINGER : Uma frase me vem à mente.
Para a mulher: Para você. Feche os olhos. Vou lhe dizer a frase e você
deixa que ela atue.
A frase é: Em vão.
H ELLINGER após um instante: Preciso de uma mulher.
Ele escolhe uma mulher e pede a ela que se deite de costas em frente à
outra mulher.
Ele escolhe mais uma mulher e pede que fique em frente à outra mulher,
de forma que a pessoa morta fique entre as duas. Após hesitar um pouco,
essa representante se ajoelha em frente à mulher morta.
Hellinger escolhe um homem e pede que se coloque em frente à morta, a
cerca de um metro de distância, com o olhar voltado para a cabeça dela.
O homem se ajoelha lentamente, toma a cabeça da morta nas mãos e pousa
sua cabeça ao lado da cabeça dela.
Nesse meio tempo, a primeira representante se deitou de costas ao lado da
morta.
Hellinger pede à mulher em questão para se posicionar. Ela se coloca
entre a morta e a outra mulher que está deitada ao seu lado. O homem
fecha os punhos, bate no chão e chora alto.
A mulher em questão segura seu punho. Ela pousa a outra mão sobre o
ombro da mulher que está deitada ao lado da morta.
Essa mulher fica inquieta e quer se virar para o outro lado e se libertar.
Quando consegue, primeiro se vira para o outro lado e depois se vira de
volta, mas a dois passos de distância. O homem soluça alto. Ele se
endireita, toca a mão da mulher com uma das mãos e segura a morta com
a outra.
A segunda representante que tinha sido incluída está sentada. O homem
continua soluçando. A mulher o envolve em seus braços e o segura. Ele
continua segurando a morta. Depois se endireita e envolve a mulher com
os braços. A representante que estava primeiro ao lado da morta está
sentada ao lado do homem. Ele também a toma nos braços e acaricia os
cabelos da morta. Ele junta as cabeças das duas mulheres e coloca a sua
entre elas. Depois olha para o céu.
H ELLINGER : Ok. Obrigado aos representantes.
Para a mulher, quando ela se senta novamente ao seu lado: Foi em vão.
Para você foi em vão.
Os dois se olham longamente.
A PRÓPRIA FORÇA
H ELLINGER para o grupo: Fechem os olhos.
Vou fazer uma meditação com vocês, em especial com aqueles que utilizam
as Constelações Familiares e que já procuraram ajuda através delas. A
pergunta é: o que foi em vão?
Após uma longa pausa: Agora penetramos na nossa própria força, apenas
na nossa própria força, e deixamos os outros em suas forças. Olhamos para
além de nossa vida em direção a um vazio infinito e ficamos parados.
O que acontece conosco? Diante desse vazio, ficamos parados.
O que acontece com os nossos pés? Sentimos a terra sob nossos pés.
O que acontece com os nossos pés após um instante? Onde obtêm a firmeza
enquanto olhamos para esse vazio? Só embaixo ficamos firmes. E nós,
entre eles, somos levados para algo infinito.
Após um instante: Ok.
Como se sentem?
O VAZIO
Vou fazer mais uma meditação com vocês. Vou explicar primeiro.
Imaginem que estão diante de vários mortos do seu passado. Aqueles que
já fomos um dia. As diversas vidas que já vivemos estão diante de nós.
Agora fechem os olhos. Enquanto esses mortos estão à nossa frente, estão,
ao mesmo tempo, dentro de nós, em nós, assim como diante de nós.
O que acontece conosco? Tornamo-nos menos? Tornamo-nos pequenos?
Tornamo-nos insignificantes? Nossas ideias se tornam ridículas?
Agora olhamos para além deles em direção a um vazio infinito.
Esquecemo-nos daqueles que estiveram diante de nós e que procuraram um
lugar e ajuda em nosso corpo e em nosso espírito.
Enquanto olhamos para esse vazio infinito e nos expomos a ele de forma
persistente, sem olhar para a direita, para a esquerda ou para trás, todos
aqueles que estavam conectados conosco se voltam para esse vazio. Eles
se movem em direção a esse vazio e nós ficamos atrás no lugar em que
estamos agora, encontrando a nova liberdade.

♦ CURSO EM MILÃO, 2013

TERAPIAS CURTAS MEDIAIS


I NTRODUÇÃO
Sejam bem-vindos a este curso, que possui o estranho título de:
Constelações Familiares Mediais. Irei demonstrar isso. Começarei a
demonstrar para que vocês tenham uma imagem e sejam levados para essa
dimensão. De acordo?
Na ficha de inscrição encontra-se um subtítulo para o primeiro dia:
Terapias Curtas Mediais. Isso significa que irei demonstrar a cura através
de outra dimensão.
Há alguém aqui que deseja trabalhar comigo dessa maneira? Levantem a
mão para que eu possa escolher algumas pessoas.
Hellinger escolhe três pessoas e pede que elas se sentem ao seu lado.

PRIMEIRA DEMONSTRAÇÃO, UMA MULHER:


AGORA JÁ BASTA
H ELLINGER : Feche os olhos e diga a alguém internamente: agora já basta.
Após um instante, quando a mulher olha para ele: Sente-se de volta.
Para o grupo: Não pude fazer mais que isso.
Quando digo algo assim a alguém, não preciso de informações. Recebo de
outro lugar uma indicação sobre o que está pendente. Eu disse isso a el a.
Ao mesmo tempo, disse isso a todos aqui. Vocês podem acompanhar
quando digo algo assim. Podem sentir se estão ou não abertos para isso. Se
podem confiar em uma força espiritual ou se vocês se movem em uma
região na qual algo é feito por nós, como nas Constelações Familiares
convencionais. Nas Constelações Familiares convencionais, alguém vem a
mim e me pede que faça algo para ele da forma que ele deseja.
Então, a serviço de quem estou? Estou conectado a uma dimensão
espiritual? Aqui eu me movo em um outro nível.
O fato de ela não ter reagido ajudou. Foi uma lição para todos. Nesse
sentido, uma outra força atuou por trás dela. Ela atuou de forma prestativa
para muitos de nós. Ao mesmo tempo, vocês estão avisados: movemos- nos
em um outro nível aqui.

SEGUNDA DEMONSTRAÇÃO, UMA MULHER:


AGORA VOU PARAR
H ELLINGER : Qual é a questão?
M ULHER : Dificuldades: uma dificuldade desencadeia a outra na área da
saúde e do trabalho.
H ELLINGER : Onde está o seu amor?
A mulher acena com a cabeça, pensativa.
H ELLINGER : Feche os olhos. Vou lhe dizer uma frase. Diga-a internamente,
da forma que é.
Para o grupo: Vocês também podem fazer isso.
A frase é: Agora vou parar.
A mulher respira fundo. Então, começa a chorar. Abre os olhos e os fecha
novamente.
H ELLINGER quando ela abre os olhos: Fique de olhos fechados.
Para o grupo: Farei uma pergunta a ela e a todos vocês. Ela não precisa
responder a pergunta. Não para mim.
Para quantas pessoas essa frase fez bem? Quantas pessoas foram liberadas?
A mulher acena com a cabeça.
H ELLINGER : Tudo bem?
M ULHER : Obrigado.
S OBRE O PROCEDIMENTO
H ELLINGER para o grupo: Qual é o meu procedimento?
Não preciso olhar para as pessoas. Quando me concentro, estou em sintonia
com elas através de outra força, uma força curativa, uma força criadora.
Nessa dimensão espiritual não há vencedores que desejem ganhar algo para
seu eu. Aqui, o amor vai igualmente para todos. Essa força atua
diretamente. Nesse nível não há brincadeiras.
Fechem os olhos. O que em vocês e em suas relações esperam que vocês
os deixem ir - para sempre?
Gostaria de dizer algo mais a esse respeito. Os sintomas e problemas que
muitos possuem vêm de uma ocupação. Ou seja, outros espíritos os
ocupam: os espíritos de antepassados, talvez de nossas vidas anteriores,
porque algo não foi concluído. Agora eles nos ocupam, por exemplo através
de um sintoma.
Sintam em vocês que sintoma se encontra em primeiro plano. Perguntem a
esse sintoma ou peçam a ele: "Por favor, diga-me quem você é.” Esperamos
pela resposta e perguntamos ao sintoma: "O que o liberta?"
Ao invés de olhar para essa pessoa ou para esse sintoma, esperamos até
sermos levados para outro nível, no qual a pessoa que está falando através
do nosso sintoma encontre a paz e a cura. Depois, chegamos a um outro
centramento, a uma força centrada.
Então, o que acontece em nós? Encontramos uma saúde, uma saúde
universal que nos conecta a muitas pessoas. Nesse nível, olhamos juntos
com muitas pessoas para muito além de nós e de nosso mundo. Olhamos
saudáveis para além.
Olhamos impotentes para essa outra força, para além de nossos desejos,
iguais a todos os outros. Iguais a todos os outros sem o eu.
Como se sentem ao fazer isso? Vocês foram levados para esse outro nível?
Para um nível feliz?

TERCEIRA DEMONSTRAÇÃO, UMA MULHER:


VOCÊ É MELHOR - AGORA SOMOS IGUAIS
H ELLINGER para a mulher que está sentada ao seu lado: Qual e a sua
questão?
M ULHER : Minha relação com meu parceiro já não funciona mais.
H ELLINGER : Ok, feche os olhos. Vou lhe dar uma frase que você pode dizer
a ele. Quando eu disser a frase, diga-a também internamente para ele, de
imediato.
Para o grupo: Vocês também podem participar, de preferência abertos, sem
cruzar os braços ou as pernas e sem deixar os olhos abertos, com medo do
que possa acontecer ou do que possa ser perdido. Fechem os olhos também.
Para a mulher: A frase que me veio é: Você é melhor.
Após um instante: Se tiver tido sucesso com essa frase, apenas se tiver tido
sucesso, diga a ele uma segunda frase. A frase é: Agora somos iguais.
Após um instante: Tudo bem?
M ULHER : Tudo bem.
H ELLINGER para o grupo: Isso foi uma prévia do assunto com o qual
trabalharemos o dia todo amanhã, o tema principal na vida de qualquer um:
homens e mulheres.
Como se sentem com as Constelações Familiares Mediais? Não constelei
nenhuma família. Nesse nível isso não é mais necessário. Entretanto, onde
for aplicável, demonstrarei também através de constelações.
C ONSTELAÇÕES F AMILIARES A NTIGAS E M EDIAIS
Direi mais algo sobre essa dimensão. As Constelações Familiares
começaram pela observação de que, em uma constelação familiar que diz
respeito diretamente a uma família, ou seja, aos pais e filhos, os
representantes se conectam diretamente a eles, sem saber nada sobre eles.
Eu também me conectei aos indivíduos aqui, às vezes sem perguntar.
Entretanto, naquela época, essa conexão também era clara. Pois, de que
outra forma os representantes em uma constelação poderiam saber
diretamente algo sobre a família e se comportar e sentir de forma
correspondente? Eles se conectavam a um outro nível da consciência, ou
seja, a uma consciência muito além de nossos conhecimentos e capacidades
normais.
No início das Constelações Familiares, muitos consteladores intervinham
nos movimentos. Eu também fazia isso, porque não tinha consciência do
alcance dessa experiência.
Assim, muitos consteladores se comportavam como psicoterapeutas:
"Diga-me seu problema e irei procurar uma solução." Isso resultava em
uma relação entre você e eu, como ocorre na psicoterapia. Aí havia
determinadas ideias sobre certo ou errado. Reuni essas ideias em meu
primeiro grande livro: Ordens do Amor. Muitas coisas que estão nesse livro
são úteis até hoje.
Aqui, não precisei recorrer a essas ordens. Com isso que fiz aqui, não
precisei recorrer a elas. Nas Constelações Familiares Espirituais, ou, mais
precisamente, nas Constelações Familiares Mediais, movo-me para além
dessas ordens, para outro nível. Isso amedronta muitos daqueles que
estavam acostumados com as Constelações Familiares antigas. Amedronta
muitos daqueles que fazem uma formação como consteladores familiares,
que recorrem às Constelações Familiares antigas e se movem dentro delas.
Mesmo assim, as Constelações Familiares antigas são úteis. É útil conhecê-
la e experimentá-la. Nesse sentido, a formação que oferecemos nesse
âmbito ainda tem seu lugar, um lugar provisório. Aqui vou além desse
nível.
Devo dizer algo mais sobre isso? Muitos daqueles que estão vinculados às
Constelações Familiares antigas são tomados por um medo profundo
quando ouvem falar desse movimento para outro nível. Contudo, não
podem evitar esse movimento, o futuro está em outro lugar. Levarei comigo
para esse nível aqueles dentre vocês que participaram ou estão participando
de uma formação. Os outros, que ainda não ouviram falar nada sobre isso,
também levarei da mesma forma, diretamente.
P ARTILHA EM PEQUENOS GRUPOS
Sugiro que agora formemos pequenos grupos. Sentem-se juntos em grupos
de quatro ou cinco pessoas e partilhem uns com os outros aquilo que
experimentaram em si mesmos. Então estaremos todos no mesmo nível. O
fim desse movimento é o mesmo nível para todos.
P ERGUNTAS
H ELLINGER após essa partilha: Há alguma pergunta com relação ao que
vocês vivenciaram até agora?
Para uma mulher que havia feito uma pergunta (a mesma com a qual havia
trabalhado no começo): Qual era o seu problema? Por que você tinha se
apresentado?
M ULHER : Pelo que ouvimos falar das Constelações Familiares Mediais,
significa que as constelações estão indo por um caminho completamente
novo?
H ELLINGER : Sim, mas minha pergunta foi: "Qual era a sua questão quando
você chegou aqui?”
M ULHER : Vim aqui porque queria olhar para a minha relação com a minha
família.
H ELLINGER : Para quê?
M ULHER : Na verdade, tinha a ver com o trabalho com minha família.
H ELLINGER : Posicione-se ali.
Ela se posiciona a alguma distância, no semicírculo vazio em meio ao
grupo. Hellinger escolhe uma representante e pede que se posicione diante
da mulher que fez a pergunta, a uma certa distância. A mulher que fez a
pergunta permanece imóvel por muito tempo diante da outra mulher.
H ELLINGER para o grupo: O que pudemos ver? Não houve movimento.
Qual foi a frase que dei a ela no começo? A frase foi: Agora já basta. Ficou
demonstrado que agora já basta aqui também. Mostrei tudo a ela.
Há mais alguma pergunta sobre o que aconteceu até agora?
M ULHER : A pergunta não está bem clara. Gostaria de saber se, com essas
novas Constelações Familiares, a constelação individual deixa de ser
aplicada.
H ELLINGER : Acabei de utilizá-la.
M ULHER : Isso quer dizer que tudo continua valendo?
H ELLINGER : Nem tudo. Aquilo que é decisivo se mostra sempre de
imediato. Aqui, tudo se mostrou imediatamente. A frase que disse a ela
continha tudo. Ok?
Ela acena com a cabeça.
H ELLINGER : Parece que não há mais perguntas. Faremos um intervalo de
meia hora.
H ISTÓRIA : A HONRA
H ELLINGER após o intervalo: Há muitos anos, ouvi uma história. Na época,
não entendi suas dimensões. Posso contá-la a vocês?
Duas pessoas que estavam sentadas juntas fizeram-se a seguinte pergunta:
Como Jesus teria reagido se, ao ordenar a um doente: "Levanta, pegue a
sua cama e vá para casa", o doente tivesse respondido: "Mas eu não quero"?
Após alguns instantes, um dos dois disse: "Provavelmente, Jesus teria se
calado primeiro. Em seguida, diria a seus discípulos: ele honra a Deus mais
que eu."
Ok, prossigamos então com as terapias curtas mediais. Quem se habilita?
Hellinger escolhe três pessoas e as coloca sentadas ao seu lado.
QUARTA DEMONSTRAÇÃO, UMA MULHER:
EU MERECI
H ELLINGER : O que há com você?
M ULHER : Minha questão é que não consigo ganhar dinheiro suficiente para
me sustentar.
H ELLINGER : Feche os olhos e diga internamente: Eu mereci.
Após um instante: Vou deixar assim. Pode sentar-se.
Para o grupo: Isso foi uma brincadeira da parte dela. Da minha parte
também. Nesse nível, a brincadeira para.

QUINTA DEMONSTRAÇÃO:
UMA MULHER
H ELLINGER : Qual é a sua questão?
M ULHER : Tenho um problema nas mãos.
H ELLINGER : Que tipo de problema?
M ULHER : Tenho um tipo especial de deformação nos dedos e também
artrose nos dedos.
H ELLINGER : Feche os olhos.
Após um instante: Não me vem nenhuma frase. Vou respeitar essa
instrução. Pode sentar-se.
Para o tradutor: Entretanto, tive uma resposta para mim: Você fez bem.
Risadas no grupo.
Sim, recebemos respostas além de todas as brincadeiras.
SEXTA DEMONSTRAÇÃO, UMA MULHER:
A SERIEDADE
H ELLINGER : Qual é a sua questão?
M ULHER : O seminário em Bozano há duas semanas desencadeou
movimentos muito profundos em mim. Isso provocou dores muito fortes
nas minhas costas e pernas.
H ELLINGER para o grupo: Como ela falou comigo? Ela levou a sério? Ela
não levou a sério. Brincou comigo. Riu ao falar. Por isso, vou deixar como
está.
Acompanhar esse movimento espiritual só permite a seriedade e o
comprometimento total, a prontidão total para seguir outro caminho. Ela
exige de mim e também de vocês, se desejarem penetrar aí, há reverência.
A quê? À vida e à morte.
Quem mais se habilita? Foi útil podermos vivenciar isto aqui. Por isso,
também nos torna mais cuidadosos. Então paramos com o "Faça isso por
mim".
Quem está pronto para se expor a isso?
Três participantes se apresentam e sentam-se ao lado de Hellinger.

SÉTIMA DEMONSTRAÇÃO, UM HOMEM:


AH, QUE PENA QUE EU TENHA TE RECONHECIDO TÃO
TARDE!
H ELLINGER para esse homem: Feche os olhos. Está vindo para mim uma
frase bem simples. Todos vocês podem acompanhá-la. A frase é: "Ah, que
pena que eu tenha te reconhecido tão tarde!”
O participante chora.
H ELLINGER após um instante: Ok?
Quando verifico essa frase internamente, também em minha vida, meus
olhos se enchem de água.

OITAVA DEMONSTRAÇÃO, UMA MULHER:


AGORA ACABOU
H ELLINGER para uma mulher: Concentre-se. Imagine que você pisa no chão
com força e grita para alguém: Agora acabou. No entanto, você o faz sem
dizer. A ação já basta. Ok.
Para o grupo: O espiritual é forte sem ser mal.

NONA DEMONSTRAÇÃO, UM HOMEM:


O ESPIRITUAL
H ELLINGER: Qual é a sua questão?
H OMEM : Está ligada exatamente a isso. Por um lado, sinto-me atraído para
isso, para o lado espiritual...
Quando ele quer continuar falando, Hellinger o interrompe.
Feche os olhos e diga para esse lado: Estou me lixando para você.
Como se sente?
H OMEM : Diferente, sinto-me diferente.
H ELLINGER : Diferente é bom. Tudo de bom para você.
Para o grupo: O espiritual, o nível do espírito, é mundano.
P ERGUNTAS
H ELLINGER : Alguma pergunta sobre o que aconteceu até agora?
Uma mulher senta-se ao seu lado.
H ELLINGER : Feche os olhos e diga a alguém: Vou parar.
Após um instante: Ok. Sua pergunta está respondida?
Ela ri.
S UBGRUPOS
Formaremos subgrupos novamente e compartilharemos nossas
experiências pessoais.
Após um instante: Vamos prosseguir.
O QUE SIGNIFICA “MEDIAL”?
Quero dizer mais uma coisa sobre a palavra medial. A palavra medial não
pode ser traduzida para o italiano. Por isso, propus outro termo, que
também soa bem em alemão: "Guiado por um outro nível". Dessa forma,
deixamos o nível das Constelações Familiares convencionais. Gostaria
agora de demonstrar as Constelações Familiares Mediais, ou seja,
associada às terapias curtas mediais. Trata-se aqui de terapias, ou seja,
especialmente de doenças.
Quem quer trabalhar comigo dessa forma?

DÉCIMA DEMONSTRAÇÃO, UMA MULHER:


SINTOMA DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO
H ELLINGER para uma mulher que se apresentou: Qual é a questão?
M ULHER : Trata-se de um sintoma de estresse pós-traumático.
H ELLINGER : Não sei o que é isso, mas vou constelar.
Hellinger escolhe uma representante para a mulher e uma representante à
qual pede para se deitar de costas em frente à mulher.
A mulher quer ir até a morta. A morta rola no chão, várias vezes,
afastando-se dela e mantém as mãos em frente ao rosto.
H ELLINGER : Pare. Tudo se revelou.
Todos voltam aos seus lugares.
H ELLINGER : OS dois representantes estavam conectados a um outro nível,
sem saber do que se tratava. Mas a mulher sabia do que se tratava. Isso
basta.

DÉCIMA PRIMEIRA DEMONSTRAÇÃO, UM HOMEM:


O LADO DIREITO
H ELLINGER : Mais alguém quer vivenciar essa Constelação Familiar Medial
e se expor a ela?
Um homem se apresenta e senta-se ao lado de Hellinger.
H ELLINGER para esse homem: O que em sua vida o bloqueia?
H OMEM : O lado direito. A parte direita.
H ELLINGER : Ok, posicione-se ali então.
Hellinger escolhe um representante e pede que se posicione diante dele.
H ELLINGER para esse representante: Você é o lado direito dele.
O representante anda um pouco para o lado e vira as costas para o homem.
O homem fica inquieto e dá alguns passos para trás.
H ELLINGER : O lado direito tem algum futuro? Não, desviou-se dele. Ok,
isso é tudo.
Hellinger pede ao homem que se sente novamente ao seu lado.
H ELLINGER : Você tem filhos?
H OMEM : Não.
H ELLINGER : Aconteceu o mesmo movimento.
Quando ele quer se virar para Hellinger: Não precisa dizer nada. Mas há
um contexto aí. Posso deixar como está?
H OMEM : Sim, isso basta.
H ELLINGER para o grupo: Isso o tocou. Dessa forma, algo entrou em
movimento nele e isso atinge o objetivo.
Para o grupo: Como se sentem com as terapias curtas mediais? O que isso
requer de vocês? Requer apenas uma coisa: ir na direção. Isso é tudo.
DÉCIMA SEGUNDA DEMONSTRAÇÃO, UMA MULHER:
SEU CANALHA
H ELLINGER : Mais alguém quer fazer algo comigo?
Uma mulher se apresenta e senta-se ao seu lado.
H ELLINGER para essa mulher: Feche os olhos e diga a alguém
internamente, apenas internamente, mas alto, internamente: Seu canalha.
A mulher olha para cima, fecha os olhos e está mexida.
H ELLINGER após um instante: Ok.
EXERCÍCIO : A PALAVRA DECISIVA
H ELLINGER para o grupo: Farei mais um exercício com vocês.
Fechem os olhos e olhem para aqueles nos grupos que pertencem a vocês.
Vocês descobrirão alguém que espera por uma palavra de vocês. Talvez
seja uma criança. Direi a vocês a palavra pela qual essa pessoa espera, e
vocês a dirão a essa pessoa, partindo do fundo de vocês. A palavra é: Sim.

HOMEM E MULHER:
PASSADO E PRESENTE
Seminário aberto em Milão, 2013

HISTÓRIA INTRODUTÓRIA:
DOIS TIPOS DE FELICIDADE
H ELLINGER : Buongiorno. Sei um pouquinho de italiano. Mas falo pelos
olhos. E, às vezes, conto histórias. Histórias sobre homens e mulheres,
talvez vocês possam constatar algo nelas para seus próprios
relacionamentos.
Experimentamos a grande felicidade em uma relação de casal. A felicidade
para o homem é a mulher, e a felicidade para a mulher, assim espero, é o
homem. Naturalmente, existem diversas dificuldades entre eles. Hoje
abordarei essas dificuldades e procuraremos juntos por uma boa solução.
A história que vou contar se chama: Dois tipos de felicidade. A primeira
felicidade é a felicidade entre o homem e a mulher, de uma forma especial.
A segunda parte também, mas com certas diferenças. Posso começar a
contar? Estão ouvindo? Ok.
Na antiguidade, quando os deuses ainda pareciam estar bem próximos dos
homens, viviam em uma pequena cidade dois cantores, ambos chamados
Orfeu. Um deles era o grande. Ele havia inventado a citara, um antecessor
da guitarra, e quando tocava as cordas e cantava, encantava a natureza à
sua volta. Animais selvagens deitavam-se mansos a seus pés. Árvores
altíssimas curvavam-se diante dele. Nada podia resistir à sua música.
Por ser tão grande, cortejava a mulher mais bela. É o que ocorre com os
grandes. Então, ergueu o copo cheio, a mulher era o copo cheio, e levou -o
à boca para beber. No entanto, enquanto erguia o copo, este se quebrou.
Enquanto ainda desfrutava de seu casamento com a bela Eurídice, ela
morreu, e a grande felicidade se foi. Todavia, a morte não foi um obstáculo
para o grande Orfeu. Auxiliado pela sua arte sublime, encontrou o caminho
para o mundo inferior, penetrou o reino das sombras, atravessou o rio do
esquecimento, passou pelo cão do inferno, chegou vivo ao trono do deus
dos mortos e o apaziguou com sua canção. A morte libertou Eurídice, mas
sob uma condição: no caminho de volta; ele não poderia olhar para trás.
Orfeu ficou tão feliz que não percebeu a malícia por trás dessa graça.
Iniciou o caminho de volta e ouviu, por trás de si, os passos da mulher
amada. Passaram ilesos pelo cão do inferno, atravessaram o ri o do
esquecimento e começaram a subir em direção à luz. Viam-na de longe.
Então, Orfeu ouviu um grito. Assustado, virou-se para trás e viu as sombras
caindo na noite: estava sozinho.
Desorientado de dor, cantou a canção de despedida: "Ai de mim, eu a perdi,
toda a minha felicidade se foi."
Ele próprio voltou à luz, mas sua vida permanecera junto aos mortos. Ao
ser chamado por mulheres embriagadas para a festa do novo vinho, se
recusou, e elas o despedaçaram vivo.
Tão grande sua infelicidade, tão vã a sua arte.
No entanto, o mundo inteiro o conhece! Esta foi a primeira história.
O outro Orfeu era o pequeno. Cantava apenas baladas, apresentando-se em
pequenas festas, para pessoas simples, mas se divertia. Uma vez que não
conseguia viver da própria arte, tinha outra profissão como seu ganha-pão.
Casou-se com uma mulher comum, teve filhos comuns, cometia uns
pecados de vez em quando e morreu velho e satisfeito com a vida.
Mas ninguém o conhece - além de mim.
Duas histórias de vida. Fico mais com a segunda.
Agora vou começar com o curso. É uma honra recebê-los. Trata-se de um
grupo grande que se inscreveu somente para hoje. Vocês sabem que estão
inseridos em um seminário que começou ontem e continua amanhã. Hoje
teremos um tema especial, conhecido de vocês, o velho tema: homem e
mulher. Aqui com o complemento: passado e futuro.

O UM A PARTIR DE DOIS
Temos a primeira experiência entre homem e mulher com nossos pais.
Fechem os olhos.
Vamos imaginar que nossa mãe está à nossa esquerda e nosso pai à nossa
direita. Estamos no meio e damos as mãos a eles.
Em nós, o pai e a mãe se tornaram "um". Cada um de nós é, através de seus
pais, tanto homem quanto mulher. O masculino e o feminino estão ligados
inseparavelmente em nós.
Então nascemos. Embora o masculino e o feminino tenham se tornado "um"
em nós, de forma inseparável, nascemos como homem, menino, ou como
mulher, menina. Ou seja, a unidade original é mais uma vez separada. No
entanto, uma vez que originalmente somos "um”, tanto homem quanto
mulher, buscamos restabelecer a unidade original. É por isso que o homem
busca uma mulher para si e a mulher, um homem para si. Eles se tornam
"um” na união sexual. O resultado é uma criança. Na criança, tornam-se
novamente "um”.
A união entre homem e mulher é o elemento decisivo na vida. Nada é
maior. Nada é mais frutífero! Nada é mais divino!
Na Bíblia há uma história sobre a criação do homem. Ela diz que "Deus
criou o homem à sua imagem." Depois há uma explicação sobre o que é
essa imagem. "Ele a criou como homem e mulher.” Para Deus, o homem e
a mulher juntos são uma imagem. Esse é o fundamento.
A REALIDADE
Como é isso na prática? Quantos homens se colocam contra as mulheres?
Quantos homens, no passado, oprimiram, subjugaram e dominaram as
mulheres? Aonde foi parar a unidade? Onde está ela hoje?
Na relação entre homem e mulher, o que importa é a unidade em todos os
sentidos. Essa unidade é o serviço divino decisivo. Nada é mais religioso.
Nada nos conecta de maneira mais intensa com o poder oculto da criação,
do qual vem todo o amor.
Essa foi, por assim dizer, minha introdução. Sabemos quantos desafios
existem para restabelecer a unidade e vivenciá-la felizes.

A PRÁTICA
Agora gostaria de demonstrar, através das Constelações Familiares, como
essa unidade pode ser reencontrada e vivenciada. A maneira mais simples
seria trabalhar com um casal, se houver um marido e uma esposa juntos
aqui. Então poderão olhar juntos para aquilo que serve à sua unidade.
Vocês estão de acordo?
Se houver um casal aqui que queira trabalhar comigo, levante as mãos.
Onde está a esposa? Ah sim, os dois. Já há casais suficientes, assim já terei
bastante o que fazer. Começarei com vocês. Venham cá.
Hellinger escolhe um casal que havia se apresentado e pede que eles se
sentem ao seu lado.
Para o grupo: Este curso trata das Constelações Familiares Mediais. Trata-
se de uma forma que se restringe ao necessário, e não preciso saber nada
sobre eles. Tudo o que é decisivo vem à tona através do trabalho.
Para o casal: Estão de acordo se eu fizer desse jeito?
C ASAL : Sim.
Para o grupo: Dessa forma eles também ficam protegidos. A área pessoal
é protegida.
Hellinger escolhe um representante para o homem e uma representante
para a mulher. Ele pede que fiquem um em frente ao outro.
Para os representantes: Deixem-se mover da forma como são movidos
internamente, sem palavras.
A mulher coloca a mão direita em frente ao peito e respira fundo. Ela
segura a cabeça com a mão e coloca as duas mãos nas bochechas.
O homem abre os braços de maneira convidativa e vai em direção à
mulher, cambaleando. Ela estende uma mão para ele, depois ambas, e as
abaixa novamente. O homem continua indo em sua direção. Eles se olham
nos olhos, mas ficam parados. Depois se dão as mãos com cuidado e
continuam a olhar-se intensamente nos olhos.
Hellinger inclui mais uma mulher e pede que se posicione. Ela fica a
alguma distância.
O homem olha para ela. Sua esposa se coloca ao seu lado esquerdo. Ambos
olham para a outra mulher.
O homem ainda está com os braços abertos. Sua mulher o envolve com o
braço por trás. Depois recua um pouco. O homem vai com os braços
levemente abertos em direção à outra mulher. Eles sorriem um para o
outro. A outra mulher se vira após um instante e retorna.
Marido e mulher ficam novamente frente a frente. Após um instante, o
homem olha para além de sua mulher. Ela se afasta dele lentamente.
H ELLINGER : Ok, obrigado.
Após um instante para a mulher: Como se sente?
M ULHER ri: Não muito bem.
H ELLINGER para o homem: E você?
H OMEM : Estou tocado.
H ELLINGER para o casal: Continuem por aqui.
Para o grupo: Como se sentem ao olhar para isso?
O PASSADO
Toda vida tem um passado. Uma das compreensões mais importantes que
já tive foi que, com o primeiro contato sexual, é estabelecido um vínculo
para a vida toda. Isso também vale para o chamado abuso. Quando há uma
ligação sexual no início da vida, por exemplo entre a filha pequena e o pai
ou o menino pequeno e a mãe, surge um vínculo para a vida toda. Isso
também vale, é claro, para quando já somos maiores e entramos em contato
com alguém do outro sexo. Se houver a consumação do ato sexual, surge
um vínculo para a vida inteira.
Isso mostra a forma elementar como a consumação do ato sexual determina
a nossa vida. Ficamos vinculados ao primeiro parceiro por toda a vida.
Nessa constelação, pudemos ver que havia algo que se colocava no
caminho do relacionamento atual.
Ainda estão me escutando? Trata-se de um tema que diz respeito a todos
nós. A pergunta é para onde ir a partir daí. Há uma solução para isso?
A solução é possível quando reconhecemos o vínculo, os vínculos
anteriores como parte de nós. Isso vale principalmente para a primeira
relação sexual, ou seja, para o chamado incesto.
Estou cometendo uma gafe aqui e me expondo a muita hostilidade. Quando
constelo isso, fica claro que existe um amor profundo original. Aqui não
importa se a primeira relação foi violenta. A solução é reconhecer a
existência desse amor profundo. Nem sempre é uma ligação emocional,
mas uma ligação fundamental: a primeira na qual homem e mulher se
tornam um. A partir daí, permanecem por toda a vida vinculados entre si.
Quem combate ou demoniza isso aniquila o futuro da pessoa em questão,
cujos relacionamentos posteriores têm pouco ou nenhum futuro. Quando,
por outro lado, reconhecemos que isso também se tratou de uma realizaçã o
de vida que se apossou não só do espírito, mas também do corpo, eles ou
nós, podemos nos soltar dessa primeira relação, ao levá-la junto para uma
relação posterior. Ou seja, o conceito de casamento único é completamente
alheio à vida real. A realidade é diferente e a felicidade também.
NOSSOS VÍNCULOS ANTERIORES
Farei um exercício com vocês agora. Fechem os olhos.
Voltamos à nossa vida, à nossa primeira ligação sexual. Seja como tenha
sido, nós a tomamos em nosso coração, exatamente como foi. Sentimos
como ela continua a atuar em nosso corpo e em nossa alma.
Após a termos tomado dessa forma em nosso coração e em nosso corpo,
vamos para a próxima relação sexual, seja como tenha sido, e a tomamos
em nosso coração. Crescemos nela como homem ou mulher. Ela con tinua
atuando em nós. Tornamo-nos mais maduros através dela, mais homem e
mais mulher.
E vamos à próxima, à próxima e à próxima, até a nossa ligação atual como
homem e mulher.
O que muda quando o passado pode vir junto? Mas sem contar nada sobre
isso ao parceiro! Exceto aspectos públicos, ou seja, uma união pública
como homem e mulher, por exemplo, um casamento anterior. Mas,
também, nesses casos, sem dizer coisas íntimas ao outro e sem perguntar
ao outro sobre esse tipo de coisa. Permanece algo "pessoal" e algo
"sagrado".
Para o casai. Ok, agora vocês podem voltar.
Para o grupo: Como estão vocês? O que se passou agora? Devo dizer? Foi
um serviço divino?
As C ONSTELAÇÕES F AMILIARES M EDIAIS
Ainda há algo sobre o que refletir. Aqui, também se trata das Constela ções
Familiares Mediais. A vida que vivemos aqui é uma de muitas. Houve vidas
anteriores, provavelmente muitas, naturalmente também com relações que
continuam atuando em nós, até hoje.
Quando, em uma relação, existe algo diante do qual sacudimos a cabeça,
algo das vidas anteriores está atuando. Se sabemos disso, podemos ser mais
cuidadosos.
Vocês ainda conseguem me escutar? Devemos prosseguir?
A DUPLA TRANSFERÊNCIA
Uma experiência importante que tive, ou seja, o pano de fundo de muitas
brigas entre homem e mulher, tem a ver com algo que se passou antes na
família.
Às vezes, notamos que os casais têm brigas de repente que não podem ser
compreendidas por quem está de fora. É sempre a mesma briga. Ela tem a
ver com algo que se passou na família. Vou dar um exemplo. Participei de
um curso com Jirina Prekop. Ela demonstrou a "Festhaltetherapie" [Terapia
da Contenção) e também quis demonstrar a "Festhaltetherapie” entre
casais. 2
Um casal estava deitado no chão, homem e mulher. De repente, o rosto da
mulher se modificou. Ela parecia uma mulher de 80 anos. Eu pedi que ela
mantivesse essa expressão facial e perguntei de quem havia assumido
aquele rosto. Ela disse que era o rosto de sua avó. Perguntei o que havia

2 NR: o termo "festhalten" em alemão significa segurar firme, conter com firmeza.
acontecido com ela.
O avô possuía um restaurante junto com essa mulher. Às vezes, arrastava
a mulher pelos cabelos no restaurante na frente dos clientes. Terrível!
Vocês conseguem imaginar os sentimentos dessa mulher? Ela poderia
expressar tais sentimentos algum dia? Não! Mas esses sentimentos estão lá
e querem ser mostrados. E agora a neta, essa mulher, assumiu os
sentimentos de sua avó. Trata-se de uma transferência. Isso é uma
transferência. Da avó para a neta. Agora ela tem que expressar esses
sentimentos.
Ela os expressa diante de seu marido. Ele é completamente inocente, mas,
uma vez que a ama, aceita isso. Isso também é uma transferência, da mulher
para o homem.
Esta é a dinâmica da dupla transferência. Sempre que vocês conhecerem
um casal que briga continuamente em relação a mesma coisa - talvez vocês
mesmos sejam assim, que isso ocorra em seus relacionamentos e vocês
conhecem essa dinâmica - deve haver uma separação. Ou seja, a mulher
deve se soltar de sua avó. Ao invés de tentar se vingar em seu nome, deixa
esse sentimento com a avó. Senão, está se colocando acima da avó. Então,
ela deixa a infelicidade antiga com a avó. Então, olha para seu marido, não
para o avô, só para o marido. Então a relação dos dois como casal pode dar
certo.
Ainda tenho muito a dizer e mostrar sobre como resolver algo assim, sobre
como a felicidade volta a surgir a partir da infelicidade.

UM CASAL HOMOSSEXUAL
H ELLINGER : Vamos continuar. Este curso trata também das Constelações
Familiares. Gostaria agora de trabalhar mais uma vez com um casal e
demonstrar isso. Também tenho muito a dizer ainda sobre o que aconteceu
há pouco. Por exemplo, sobre o exercício do poder em uma relação de
casal. Especialmente sobre o exercício do poder entre homens e mulheres
e sobre como podemos superar isso de uma boa maneira. Tem algum casal
aqui que gostaria de trabalhar comigo? Levantem as mãos para que eu possa
escolher alguém.
Dois homens se apresentam.
H ELLINGER : Vocês são um casal?
P RIMEIRO HOMEM : Sim!
H ELLINGER : Há quanto tempo?
P RIMEIRO HOMEM : Há um ano e meio.
H ELLINGER : I SSO também é uma relação de casal. Podemos olhar o que isso
significa.
Hellinger escolhe dois homens.
Para esses representantes: Fiquem um em frente ao outro e vamos ver o
que acontece.
Um dos homens vai lentamente em direção ao outro. Depois volta para
trás, vira-se para o lado e olha para o chão.
H ELLINGER : Preciso de uma mulher.
Ele escolhe uma mulher e pede que se deite de costas em frente a esse
homem.
O homem vai lentamente em sua direção. A mulher coloca uma mão sobre
o peito e a segunda no pescoço. Depois estende uma mão para ele e segura
seu pé. Depois também segura seu outro pé brevemente. Após um instante,
ela recolhe as mãos.
H ELLINGER : Preciso de mais uma mulher.
Ele escolhe outra mulher e pede a ela que se deite de costas em frente ao
outro homem.
A outra mulher, no chão, contorce as mãos e olha para o lado, para longe
do homem.
A segunda mulher também contorce as mãos.
A primeira mulher estica a mão até o pé do homem e o empurra. O homem
se ajoelha diante dela.
Enquanto isso, o segundo homem também se ajoelhou diante da mulher que
está no chão diante dele. Ela abre os braços, como se estivesse procurando
algo. Depois segura o pescoço com uma das mãos.
A primeira mulher também segura o pescoço com uma das mãos e, depois,
coloca as duas mãos na cabeça. O segundo homem se deita ao lado da
mulher no chão à sua frente. Ela se vira para o outro lado e estende a mão
para o lado esquerdo, como se buscasse alguém.
Agora o primeiro homem se ajoelha diante da mulher no chão. Após um
instante, ela bate na perna dele. Ele recua e vai de joelhos em direção à
outra mulher e ao outro homem. O outro homem lhe dá as costas e se vira
para a mulher no chão. Ela acaricia sua cabeça, mas se afasta dele e olha
para o outro lado. Entretanto, continua a tocá-lo com uma das mãos. Ele
se aproxima dela e toma sua mão.
Enquanto isso, a primeira mulher no chão rastejou até a segunda. Elas se
tocam e se dão as mãos.
H ELLINGER : Acho que posso parar por aqui. Obrigado aos representantes.
Para o primeiro homem: Como está você?
PRIMEIRO HOMEM: Estou acabado.
H ELLINGER para o segundo homem: E você?
S EGUNDO HOMEM : Sinto muito movimento em minha barriga.
H ELLINGER : Nunca havia feito algo assim antes. Também não tenho
nenhuma imagem. Mas sem mulheres não é possível, sem as mulheres
mortas, é claro! Elas desempenham um papel. Precisam de um lugar em
seus corações, independente do que tenha acontecido no passado. Aí algo
em suas vidas poderá se mover, seja para onde for. Fomos conduzidos aqui
por uma outra dimensão. Tudo de bom para vocês.
A MBOS OS HOMENS : Obrigado.
H ELLINGER : Podem voltar agora.
O AVANÇO
H ELLINGER : Tenho uma imagem estranha. Vou falar da forma como me
veio. A homossexualidade está avançando, independente do que o
indivíduo queira ou não queira. É um movimento global, independente do
que o indivíduo deseje. São tomados a serviço por outras forças.
A imagem que vimos aqui é de que são atraídos em direção a mulheres
mortas. As mulheres assumem um lugar central.
Não sei se devo dizer tudo. Um novo horizonte se abre para mim. Não
pensei sobre isso e não tenho nenhuma imagem, mas esse movimento
medial nos leva para outro lugar. A imagem que me veio agora é de que os
homossexuais são atraídos por mulheres mortas, por mulheres contra as
quais algo foi feito.
Se temos isso em nosso campo de visão, o que nos vem primeiro à mente?
A mim me vêm as mulheres oprimidas, de muito tempo atrás. Creio que
vou parar por aqui. Algo entrou em movimento com essa constelação aqui
neste grupo.
Para os dois homens: Sou grato a vocês por terem tido a coragem de se
posicionar diante disso. É uma ajuda para muitos, também para mim foi
uma grande ajuda.

PODER E CONTRAPODER
Um tema que considero importante é o poder. O exercício do poder em
diversas relações de casal. Como o poder é exercido? Como o poder se
coloca no caminho do amor? Sempre que o poder é exercido, provoca um
contrapoder. Há sempre dois poderes que se contrapõem. De maneira
explícita ou oculta. Nesse exercício do poder, o amor é destruído e se
coloca no caminho de o homem e a mulher "tornarem-se um".
Quando um casal é tomado pelo amor, os dois não são mais os mesmos.
São arrebatados. Sem poder. Os apaixonados não exercem poder. Tornam-
se "um”. Essa intimidade sofre danos tão logo o poder entra em cena.
Isso não desempenha um papel apenas entre os casais individuais, entre
homem e mulher, mas principalmente entre "as mulheres” e "os homens”.
Falei algo anteriormente sobre essa transferência em um exemplo. Isso está
em primeiro plano. As mulheres sofreram tantas injustiças e violências no
passado, que as mulheres de hoje se aliam às de antes. Assumem suas dores
e seu ódio contra os homens. Aí sentem-se fortes. Mas não para o amor:
para outra coisa.
A pergunta é: qual seria a solução? A solução não está no casal individual,
entre a mulher e o homem. A solução é global.
Devemos prosseguir? Para as mulheres, isso é especialmente importante.
A solução é que olhem para o sofrimento das mulheres de antes e para a
injustiça feita com elas. Olham para isso humildemente, com respeito. As
mulheres de antes são as grandes. Nós, que viemos depois, ficamos
embaixo.
Então as mulheres de antes podem assumir todo o seu tamanho, e as
mulheres de hoje sentem essas mulheres de antes por trás de si. Sentem sua
força e colocam-se a serviço da vida com um homem a seu lado, não
debaixo de si.
Ao seu lado! Aí acaba o exercício de poder em uma relação de casal. A
mulher não exerce poder sobre o homem, e o homem não exerce poder
sobre a mulher. Dessa maneira, deixam em paz um ao outro.
Então se unem, têm filhos e olham juntos para os filhos. Como fa zem isso?
Quando se trata de criar um filho, a mulher pode dizer ao homem: ‘‘Ficarei
feliz se nossos filhos forem como você.” E o homem pode dizer à mulher:
"Ficarei feliz se nossos filhos forem como você." Imaginem como os filhos
se sentem. Eles respiram aliviados. Então temos uma família feliz, sem
exercício de poder. Essa é uma imagem ideal.
AS CONSCIÊNCIAS DIFERENTES
O que se coloca no caminho disso? O fato de o homem e a mulher virem
de famílias diferentes. Ambos são vinculados a suas famílias,
incondicionalmente, através de suas consciências. O homem e a mulher têm
consciências diferentes. O homem quer converter a mulher à sua
consciência e a mulher quer converter o homem à sua consciência. As
brigas de casais geralmente são brigas entre duas consciências diferentes -
e entre os deuses aos quais essas consciências servem. Devo prosseguir?
Vejo que o que estou dizendo é perigoso.
Toda consciência serve a um Deus próprio. A consciência da mulher serve
ao Deus de sua família. A consciência do homem serve ao Deus de sua
família. De que o homem deve ter medo ao se desviar da consciência de
sua família? Deve ter medo de ir para o inferno. E vice-versa, naturalmente.
Seria muito mais fácil se houvesse apenas homens e mulheres, sem seus
deuses.
A relação de casal prospera com a saída dos deuses. O homem se separa do
seu Deus e do Deus de sua família. A mulher se separa do seu Deus e do
Deus de sua família. De que mais eles se separam? Eles se separam dos
membros antigos de sua família. Tornam-se livres de repente, livres um
para o outro. Isso é uma relação de casal bonita.
P ARTILHA EM PEQUENOS GRUPOS
Sugiro que façamos pequenos grupos de quatro ou cinco pessoas e que
vocês compartilhem entre si o que vimos e ouvimos aqui. Vamos tirar dez
minutos para isso.
Como foi essa partilha para vocês?
Muito bom, muito bom!
Todos no mesmo barco.
Hoje à tarde também terão a oportunidade de fazer perguntas: perguntas
que surgiram do trabalho que foi feito até agora aqui.

O CAMINHO ESPIRITUAL
Ainda tenho alguns minutos. Gostaria de dizer algo sobre uma antirrelação
de casal.
Todos que vão em direção a um chamado caminho espiritual, vão em
direção a um caminho da mulher. Qual dos grandes gurus tem uma mulher?
Para onde nos levam? Para o Deus que criou o ser humano como homem e
mulher? Reflitam sobre isso.
Onde está Deus então? Onde está o decisivo? Está em cima ou embaixo?
Está embaixo!
Palmas no grupo.

PERGUNTAS E RESPOSTAS
H ELLINGER : Estão prontos para saber mais sobre o homem e a mulher do
ponto de vista das Constelações Familiares Mediais?
Primeiro irei abrir para perguntas sobre o que aconteceu hoje de manhã.
Quem tiver perguntas pode levantar a mão.
FILHINHA DO PAPAI
M ULHER : Hoje cedo você nos deu a tarefa e nós realizamos o trabalho de
olhar para os nossos relacionamentos anteriores um após o outro. Aí
consegui determinar qual é o meu problema. A maioria dos meus
relacionamentos foi com homens casados.
H ELLINGER : Qual é a pergunta?
M ULHER : Por que não tenho um homem, um homem livre só para mim?
H ELLINGER : Você permaneceu como filhinha do papai.
M ULHER : O que preciso fazer, ou o que deveria fazer?
H ELLINGER : Nada. Quem tem o pai como marido não precisa de mais
ninguém. A relação com um parceiro só funciona mediante a separação do
pai e da mãe. A filhinha do papai, que, por assim dizer, substituiu a mãe
para o pai, não precisa de outro homem.
O mesmo vale para homens que têm a mãe como parceira. Quando a mãe
não tem uma boa relação com seu marido, um filho substitui o pai.
Mas existem algumas frases simples para a solução. Devo dizê-las? O pai
diz a você: "A mamãe é melhor”.
Para o grupo: Agora ela está me seduzindo. Mas eu tenho uma mulher
melhor. Está claro para você?
O DESEJO
M ULHER : Minha pergunta tem a ver com situações entre homem e mulher
em que ocorrem situações extremas. Posso falar de mim mesma?
Quando uma relação entre homem e mulher chega a um extremo realmente
perigoso e tenho até mesmo a impressão de que existe o perigo de eu perder
a minha vida. De que eu seja morta nessa situação.
H ELLINGER : Se você permanecer aí, está desejando isso para si.
M ULHERES HOMOSSEXUAIS
M ULHER : Hoje cedo o tema também disse respeito à homossexualidade.
Você falou de mulheres que sofreram ou que sofrem. O que acontece no
caso inverso, no caso da homossexualidade entre mulheres? O que poderi a
estar por trás disso?
H ELLINGER : Não sei. No caso dos homens homossexuais, surge um vínculo.
No caso das mulheres homossexuais, não. As mulheres homossexuais são
livres para outra coisa. No caso dos homens homossexuais, isso é difícil,
porque surge um vínculo.
M OSTRAR - SE
M ULHER : Minha pergunta é a seguinte: gostaria de saber qual a
importância, em uma relação de casal, de sermos vistos como realmente
somos.
H ELLINGER : Mais fácil seria nos mostrarmos como realmente somos.

CONSTELAÇÕES
PRIMEIRA CONSTELAÇÃO: COMPAIXÃO
H ELLINGER : Agora gostaria de prosseguir com o trabalho e constelar
novamente um casal. Há algum casal aqui que gostaria de trabalhar
comigo?
Para o casal que se apresentou e se sentou ao seu lado: Vocês são casados?
M ULHER : Não.
H ELLINGER : Há quanto tempo estão juntos?
M ULHER : Há um ano e meio.
H ELLINGER : Não vou trabalhar com vocês.
M ULHER : Ok, obrigado.
H ELLINGER : Por que não? Tive compaixão do homem.

SEGUNDA CONSTELAÇÃO
H ELLINGER : Mais algum casal se atreve? Vocês viram que não entro em
brincadeiras.
Um casal se apresenta e senta-se ao lado de Hellinger.
H ELLINGER : Vocês são casados?
H OMEM : Não.
H ELLINGER : Vocês têm filhos?
H OMEM : Em comum não, mas eu tenho. Tenho uma filha com uma parceira
anterior.
H ELLINGER : E a mulher?
M ULHER : Não.
H ELLINGER: Há quanto tempo estão juntos?
H OMEM : Há nove meses.
H ELLINGER : Ok, vamos constelar isso. Preciso de um homem para ele e de
uma mulher para ela.
Hellinger pede que eles se posicionem frente a frente, a alguma distância
um do outro.
O homem recua, se afastando dela. Ele dá as costas, bate com as mãos
contra o rosto e vai para o chão. Então fica deitado com ambas as mãos
em frente ao rosto. A mulher vai até ele e acaricia suas costas. O homem
treme intensamente e bate com os pés no chão. A mulher ainda está com
uma mão em suas costas.
H ELLINGER : Acho que posso parar por aqui. Vimos o que é decisivo e eles
também. Obrigado aos representantes.
Para o casal: Tudo de bom para vocês.
AS VIDAS PASSADAS
H ELLINGER para o grupo: Ao ver algo assim, vejo por trás da mulher outras
mulheres de suas vidas passadas, que desejam alcançar algo através dela.
Também vejo isso por trás do homem: outros homens de gerações e vidas
passadas. Isso continua agora.
Hoje de manhã já foram feitas as perguntas: "Como nos libertamos da nossa
consciência? Como nos liberamos das nossas vidas passadas quando estão
ameaçando a atual? Devo falar mais sobre isso?”
A LIBERAÇÃO
Acontece mais ou menos como a liberação de nossa consciência. Ou seja,
nos afastamos daquilo que nos prende a essa vida. Nós nos libertamos das
almas que se apossam de nós de forma que não possamos mais levar a nossa
própria vida.
C ONTINUAÇÃO DA CONSTELAÇÃO
H ELLINGER para esse homem: Venha até aqui mais uma vez e posicione-
se ali.
Hellinger escolhe oito representantes e pede que se posicionem e se deixem
mover da forma como são movidos.
Uma mulher deita-se de costas à sua frente e estica os dois braços. Um
outro representante abaixa-se até a mulher e a acaricia. Os outros também
se abaixam até ela, deitam-se a seu lado e a seguram. No fim, todos estão
deitados no chão.
Hellinger vai até o homem em questão e o leva para o lado, para fora do
grupo. Juntos, olham novamente para esse grupo. Depois ele o leva de
volta para seu lugar, ao lado de sua mulher.
Para esse homem: Como você está agora?
H OMEM : Estou melhor.
H ELLINGER : Agora olhe mais uma vez para trás rapidamente e vire-se
novamente.
Hellinger chama sua parceira e a coloca à sua frente. Após alguns
instantes, ela coloca as mãos em volta de seu pescoço e o envolve nos
braços de forma íntima.
H ELLINGER após um instante: Ok.
Para o grupo: Como vocês se sentem ao olhar para isso? Conduzi vocês de
uma consciência estreita para uma consciência ampla, em outro nível.
M EDITAÇÃO
Agora vocês podem fazer isso também como um exercício interno, como
uma meditação.
Fechem os olhos. Olhamos agora para o nosso parceiro e o colocamos a
alguma distância de nós. Então colocamos junto várias outras pessoas:
homens e mulheres. Observamos para onde ele é atraído. Como essas
pessoas se movem? O que nelas parece incompleto?
Como pudemos ver nessa constelação: quase todas essas pessoas, embora
estejam mortas, ainda querem algo. Ainda precisam de algo e, por isso, se
aderem a um vivo, nesse caso, a nós.
Agora olhamos para elas de longe, sem chegar muito perto. Depois nos
afastamos delas cada vez mais.
Depois nos viramos e olhamos para o nosso parceiro. Nós o encontramos?
Ou ele também está vinculado a várias pessoas do passado de uma forma
que o prende?
Ele começa o mesmo movimento. Olha para eles e se afasta deles
lentamente. Só depois se vira para nós. Ambos estão livres.
O PRESENTE DIVINO
Aonde cheguei agora? Uma relação de casal bem-sucedida é um presente
divino. Não basta que a queiramos. Outras forças estão em ação aqui.

PERGUNTAS E RESPOSTAS
Alguma pergunta sobre isso? Alguém tem alguma pergunta?
Várias pessoas se apresentam e sentam-se ao lado de Hellinger.
T ENHO O SUFICIENTE
H ELLINGER para uma mulher: Feche os olhos e diga a alguém
internamente: Tenho o suficiente.
Para o grupo: Vocês podem fazer junto. Podem dizer isso a alguém
também. Após um instante: Posso parar por aqui?
M ULHER : Sim, obrigado. Mas ainda gostaria de dizer algo.
H ELLINGER : Não.
Para aqueles que não estão familiarizados com isso, tratou-se de uma
terapia curta medial.
A CABOU
M ULHER : Como esse movimento dá certo? Como podemos superar aquilo
que representa um obstáculo no caminho até o próprio parceiro?
H ELLINGER : Posicione-se ali e olhe para frente nessa direção.
Hellinger escolhe outra mulher e pede a ela que se coloque de frente para
a mulher que fez a pergunta.
A mulher que fez a pergunta se afasta da outra mulher, dá as costas e bate
no rosto com as mãos.
Hellinger diz à outra mulher que ela pode sentar-se novamente. Depois
escolhe um homem e pede que se coloque diante dessa mulher.
A mulher vai lentamente em direção ao homem, com as mãos cruzadas
sobre o sexo. Ela tenta tocá-lo. Ele não olha para ela e, após um instante,
ajoelha-se. A mulher continua tentando tocá-lo, mas não consegue.
Hellinger escolhe outra mulher e pede que se deite de costas em frente ao
homem, a vários metros dele. O homem vira a cabeça para a direita,
desviando-se dela e da mulher. A mulher cruza as mãos em frente ao peito
e se afasta dele.
Ela vai lentamente até a mulher morta, que lhe estendeu uma mão, e tenta
puxá-la para si. Enquanto isso, o homem se levanta, mas ajoelha-se
novamente.
H ELLINGER : O que pudemos ver aqui sobre uma relação de casal e sobre
uma possível relação de casal para ela? Acabou! As chances acabaram. Ok,
obrigado aos representantes.
Para a mulher: Vou parar por aqui. Vimos tudo. Você viu tudo.
Para o grupo: Resumi as chances de uma relação de casal para as mulheres.
Sem mãe não há marido.
Para a primeira representante: Você foi a mãe. Você foi a mãe e também
havia uma morta. Mas não vou entrar nisso.
Para o grupo: Como se sentem com isso? Conseguem continuar
participando quando as coisas ficam sérias?
EU PARO
H ELLINGER para uma mulher: Agora você pode fazer perguntas.
M ULHER : NO começo consegui ver o que você chama de peculiaridade da
relação de casal. Ainda a sinto em mim, mas não a vejo mais, a
peculiaridade da relação de casal.
H ELLINGER : Não entendo isso.
Para o grupo: Vocês entenderam a pergunta? Não? Quando não
entendemos, existe alguma outra coisa atual.
Para a mulher: Feche os olhos e diga internamente a alguém: Eu paro. Ok?
M ULHER : Obrigada.
H ELLINGER : Parar é o primeiro passo para novos mundos.

OS FILHOS
H ELLINGER : O assunto principal deste curso são o homem e a mulher. Mas
o que são um homem e uma mulher sem filhos? Os filhos são o
preenchimento de uma relação de casal. A relação de casal é voltada para
os filhos. Sem filhos, a relação de casal é incompleta. Hoje em dia, quando
se fala de uma relação de casal, muitos pensam apenas em homem e mulher.
Antigamente era claro: um ano após o casamento vinha o primeiro filho. A
relação de casal voltava-se para o filho. Somente o filho a tornava
completa. O filho é o resultado visível de uma relação de casal.
A pergunta é o que acontece com uma relação de casal quando chega um
filho. Primeiro, os dois parceiros ficam ocupados, intensamente ocupados.
Depois a relação de casal cresce.
Agora vem a pergunta: a quem o filho pode pertencer? Um dos parceiros
atrai o filho para si e o afasta do outro parceiro? Ou o filho pode ir e vir
entre os pais? Hoje em dia, podemos ver que várias mulheres atraem o filho
para si. Ou seja, o homem fez sua obrigação e agora pode sumir. Estou
exagerando, é claro. O filho que permanece com a mãe, ou seja, que é
atraído para si pela mãe, perde a conexão com o mundo. Pobre criança!
Vocês conseguem acompanhar? É o pai que introduz o filho no mundo. O
pai o conduz para o mundo vasto para além das fronteiras da família. Por
isso, o pai deve começar desde cedo a levar o filho consigo para o mundo.
Então acontece mais uma coisa com os filhos. Algo é transmitido aos
filhos. E há a frase, a frase elementar, que podemos observar nas
Constelações Familiares. A mãe diz à criança: "Você por mim." É
principalmente a mãe que diz isso, raramente o pai. O que significa o "Você
por mim"? Significa, no final, "Morra por mim.”
Isso está relacionado aos sentimentos de culpa. Aquele que possui um
sentimento de culpa deseja punir-se. Espera que a autopunição o liberte da
culpa. Muitas doenças e casos de infelicidade resultam de um sentime nto
de culpa. Com o sentimento de culpa, a pessoa deseja ser liberta da culpa
por meio da punição, principalmente da própria morte.
Quando olhamos para o cristianismo, vemos que todo ele se baseia na ideia
de que alguém tem que morrer para que a culpa seja expiada. Primeiro
acredita-se que Jesus tenha tido que morrer na cruz para nos libertar de
nossos pecados.
Não é uma loucura? Essa ideia não é louca? Mesmo assim, muitas famílias
vivem com a ideia em que se espera: morra por mim. Aí as crianças ficam
doentes e arrogantes. Elas dizem: "Vou fazer isso, vou expiar por você. Sou
eu a grande aqui. Quando a mãe ou outra pessoa diz "Você por mim", a
criança diz, em resposta, "Eu por você."
A PREOCUPAÇÃO
Fiz observações peculiares a esse respeito. Uma mulher chega e diz: "Meu
filho está com 24 anos e estou preocupada com ele.” Agora verifiquem em
si mesmos com que crianças vocês se preocupam. Fechem os olhos.
Aí está uma criança com a qual vocês se preocupam. Agora imaginem que
essa criança morre. Como se sentem então? Melhor ou pior?
Toda preocupação é um desejo de morte. E o que ocorre com a relação de
casal? Ela acaba, é claro. Muitas vezes um parceiro diz - é principalmente
o homem que diz à mulher: "Eu por você.” E a mulher diz a ele,
secretamente, é claro: “Você por mim.” Se o homem morre, como fica a
mulher? Ela fica melhor.
D EMONSTRAÇÃO : TODOS MORTOS
Relações de casal podem ser perigosas, principalmente para os homens.
Acho que devo parar por aqui, mas quero demonstrar isso. Alguém conhece
alguma mulher que esteja preocupada com seu filho ou sua filha? Não vou
trabalhar com questões pessoais, isso é muito arriscado aqui. Deve ser
alguém que não conhecemos e que não está aqui agora.
Uma mulher se apresenta e senta-se ao seu lado.
H ELLINGER : Trata-se de uma mulher ou de um homem com preocupações?
M ULHER : Uma mulher.
H ELLINGER : O filho é menino ou menina?
M ULHER : Menino.
Hellinger escolhe representantes para a mulher e para esse garoto e os
posiciona frente a frente, a uma certa distância entre si.
A mulher primeiro estende uma das mãos e depois ambas as mãos em
direção ao filho, deforma convidativa.
H ELLINGER : I SSO se chama tentação.
O filho se ajoelha e se deita. A mulher também se ajoelha e se deita.
H ELLINGER : A Í podemos ver o outro movimento aqui. É o resultado da
preocupação: todos mortos.
Para a mulher e os representantes: Obrigado, nós vimos.

SACRIFÍCIO DOS FILHOS


Aonde fui me meter? Agora há o perigo de atribuirmos uma culpa à mulher.
Escrevi um livro há pouco tempo que foi publicado em alemão e, em abril
ou maio, sairá também em italiano. O livro se chama "As Igrejas e o seu
Deus". 3
No livro há um capítulo sobre o sacrifício dos filhos. Explorei esse assunto:
o sacrifício dos filhos. Descrevo a história dos sacrifícios de filhos.
Lembro-me que, em Israel, existe uma escavação de um templo, muito

3 Este livro foi publicado pela Editora Atman.


tempo antes de o povo judeu se estabelecer em Canaã. Lá existe um grande
altar de pedra para o sacrifício de crianças. Elas eram sacrificadas ali,
principalmente os primogênitos. A ideia é que isso traria o bem aos p ais,
ou seja, que Deus exigiria o sacrifício dos filhos.
Quando os povos israelitas se estabeleceram em Canaã, também adotaram
essa prática. Havia nas proximidades de Jerusalém um templo próprio para
sacrifícios de crianças. Eram oferecidas a um deus chamado Moloque. Os
pais iam até lá. A imagem do deus era um forno. Ele era aquecido e os pais
jogavam os filhos nele e cantavam tão alto que não ouviam os gritos das
crianças. Então esperavam que a bênção de Deus descesse sobre eles.
Estamos distantes dessa ideia? Ou no centro dela? Quantas crianças são
sacrificadas hoje em dia? Por exemplo, ao serem abortadas. São
sacrificadas para que a mãe fique bem. Isso é amplamente difundido.
No judaísmo, os profetas vociferaram contra isso, contra esse movimento,
mas foi em vão. Isso só foi parar quando Jerusalém foi conquistada pelos
babilônios e o povo judeu aprisionado.
A pergunta é: o que acontece com Jesus? Ele vai até o Monte das Oliveiras,
transpira sangue e roga a Deus: "Afasta de mim este cálice, contudo, não
seja feita a minha vontade, mas a tua." Essa vontade foi feita: Jesus morreu
na cruz.
A ideia no cristianismo é: ele morreu para obter a reconciliação com esse
Deus. Quem o pregou na cruz? Os carrascos? Ou Deus, seu chamado pai?
Hoje em dia, carregamos a cruz de Jesus junto com ele pela Via- Sacra.
Sacrificamos nossa vida para obter a reconciliação com esse Deus. Então,
muitos pais e mães, mas principalmente as mães, esperam que um filho
morra para que a bênção de Deus desça sobre eles.
Mas existem alternativas: esperam que um filho seja oferecido a Deus, por
exemplo, quando o filho se torna padre ou a menina vai para o convento,
como esposa de Jesus.
Não é uma loucura? O que se espera é que, dessa forma, a bênção de Deus
desça sobre essa família.
O mesmo movimento ocorre quando um dos pais diz a um filho: "Você por
mim."
Vou contar-lhes uma história sobre isso. Originalmente eu a escrevi, há
muitos anos, sobre sacrifícios de crianças. Atribuí esse sacrifício infantil a
Deus. Mas não é a Deus que essa criança é sacrificada. Não é Deus que
quer isso! É a mãe que quer isso, ou o pai! A pergunta é: como encontramos
o caminho através dessas ideias terríveis e das ações que as acompanham
até um outro amor?
Agora fechem os olhos e lhes contarei a história.
Por um lado, trata-se de uma história verdadeira, que está na Bíblia, mas
penetrarei em sua profundidade. A história é a seguinte:
Certa noite, um homem sonhou que ouvia a voz de Deus, que lhe dizia.
Levanta-te, toma teu filho, teu único e querido filho, leva-o à montanha
que eu lhe mostrarei e ali me oferece esse filho em sacrifício.” O filho se
chamava Isaque.
De manhã, o homem se levantou, olhou para seu filho, seu único e querido
filho, levou-o à montanha que lhe foi mostrada, construiu um altar, amarrou
as mãos do filho, puxou a faca e queria sacrificá-lo.
Mas então ouviu outra voz e sacrificou uma ovelha ao invés de seu filho.
O que mudou agora nessa família?
Como o filho olha para o pai agora?
Como o pai olha para o filho?
Como a mulher olha para o homem?
Como o homem olha para a mulher?
Como eles olham para Deus? E como Deus - se é que Ele existe - olha para
eles?
Mas quem era esse Deus? Quem é esse Deus? Apenas o pai! Apenas nós,
quando esperamos pela morte de um filho para que fiquemos bem.
Agora prosseguirei com a história, com a solução da história.
Um outro homem sonhou, à noite, que ouvia a voz de Deus, que lhe dizia:
“Levanta-te, toma teu filho, teu único e querido filho, leva-o à montanha
que eu lhe mostrarei e ali me oferece esse filho em sacrifício.” De manhã,
o homem se levantou, olhou para seu filho, seu único e querido filho, olhou
para a sua mulher, a mãe do seu filho, olhou para o seu Deus e lhe
respondeu, encarando-o: "Isso eu não faço."
Como o filho olha para o pai agora?
Como o pai olha para o filho?
Como a. mulher olha para o homem?
Como o homem olha para a mulher?
Como eles olham para Deus? E como Deus - se é que Ele existe - olha para
eles?
O sacrifício de filhos ainda não acabou e nem os pais que estão dispostos
a sacrificar seus filhos.
Alguém de nós é pessoalmente culpado? Ou nos movemos, de diversas
formas, em um campo de sacrifícios de filhos com a frase "Você por mim”?
E como os filhos concordam com a frase "Eu por você"? E então, movemo-
nos dessa maneira em um tremendo campo de batalha.
Qual é então a solução? Tomamos em nosso coração todas essas crianças
que foram sacrificadas, de forma sangrenta ou não, pois elas não estão
mortas: estão todas presentes. Dizemos uma palavra a elas "Por favor,
voltem!".
Ousei dar um grande passo para frente. Como? Com amor.
Sugiro que formemos novamente pequenos grupos e compartilhemos
nossas experiências.

O FUTURO
Como vocês estão? Filhos: essa foi a outra dimensão da relação de casal.
Quando nosso olhar está voltado para essa dimensão, podemos dar um
passo decisivo em direção a outro futuro.
Este curso, que terá continuidade amanhã, conduz a um outro nível da
consciência, para além do bem e do mal.
Bem e mal, certo e errado são inevitáveis para nós enquanto estivermos sob
a influência de nossa consciência. Nesse outro nível, essas diferenças
acabam. Então não há mais exercício de poder sobre os outros, seja sobre
um parceiro, seja sobre os filhos. Nesse outro nível, tudo pode permanecer
junto da forma que pertence.
Isso exige de nós uma mudança em todos os aspectos. Não podemos forçar
isso. Somos levados até aí quando paramos de fazer distinções entre bem e
mal. Primeiramente, em nós mesmos, no parceiro e nos filhos. Nesse outro
nível, todos juntos são um, de uma forma que vai muito além de nossas
ideias.
Gostaria ainda de contar-lhes uma história, para finalizar este curso. Depois
da história, sairemos desta sala sem falar uns com os outros, sem aplausos
ou coisa parecida. Vamos centrados para o nosso dia a dia. Como?
Transformados!
Durante um curso sobre organizações na Holanda para o qual fui
convidado, o apresentador me sugeriu que constelássemos a igreja como
uma organização. Ou seja, a iniciativa veio dele e eu concordei.
Pedi a ele que escolhesse uma representante para a igreja. Ele escolheu uma
mulher. A representante da igreja simplesmente ficou lá parada.
Deixei-me guiar e disse a ele: agora escolha um representante para Jesus.
Ele escolheu um homem, que veio até o palco. Lá estava a igreja, olhando
para frente nessa direção, e o homem que representava Jesus estava lá, sem
olhar para a igreja. Ele olhava nessa direção, para além da igreja.
Então pedi ao coordenador que escolhesse mais alguém, novamente um
homem, como representante de Deus. Ele escolheu um homem, que subiu
a escada até o palco, mas não totalmente.
Jesus deu alguns passos até Deus e depois recuou. Então Deus subiu no
palco. Nem Deus, nem Jesus olharam para a igreja. Quando Deus já estava
no palco, Jesus foi até ele em passos pequenos e eles se abraçaram de forma
afetuosa. Então Jesus soltou-se de Deus e recuou para bem longe dele.
Enquanto isso, algo aconteceu com a igreja. Ela se inclinou bem para frente
e olhou para o chão. Sabemos o que isso significa a partir das Constelações
Familiares: a igreja estava olhando para mortos.
Escolhi uma mulher para representar esses mortos e pedi a ela que se
deitasse de costas diante da igreja. Ela fez o que pedi.
Então, algo curioso aconteceu. Deus se pôs no chão ao lado desses mortos
e começou a chorar. Deus chorou. Depois se deitou ao lado dos mortos e
fechou os olhos. Ele também estava morto. Essa foi a história.

CONSIDERAÇÕES FINAIS: MOVIMENTOS DO


ESPÍRITO
O OUTRO ESPAÇO
Gostaria de dizer algo sobre o Espírito. Não sabemos o que é isso. Alguns
imaginam que o Espírito seja algo concreto, que entra em contato conosco
concretamente, de uma forma especial. Quando imagino isso, quando tento
pensar sobre isso, torna-se claro que esse Espírito criador está em contato
com todos da mesma maneira. Então digo adeus à ideia de que esteja
voltado de uma forma especial para mim. Ele está voltado para todos os
outros de forma especial.
Quando nos sentimos capturados por um movimento espiritual, assim como
vocês se sentem como representantes nas constelações, sentimos que somos
capturados por um outro movimento. Não pessoalmente, mas a serviço de
um movimento para muitos ao mesmo tempo. Em sintonia com esses
movimentos, entramos em sintonia com um outro amor, para além do nosso
eu. Não podemos relacionar isso a nós pessoalmente, quero dizer, apenas
pessoalmente: nós nos sentimos na corrente desse amor infinito.
Sentimo-nos levados para um espaço completamente diferente, para um
espaço espiritual e para uma consciência universal. Obtemos compreensões
que vão muito além do nosso pensamento. Vocês também experimentar am
isso durante os exercícios que fizemos aqui. Nesse espaço, quando somos
capturados pelos movimentos do espírito, deixamos para trás tudo aquilo
que se coloca no caminho do amor a tudo, principalmente a culpa.
B EM E MAL
Nesse lugar não cabe mais a culpa. E nos livramos de todas as tentações de
expiar por uma culpa.
Experimentamos em nós dois movimentos opostos. Não nos sentimos
apenas bem. Os movimentos do espírito causam o bem, aqui no sentido de
que servem à vida. Ao mesmo tempo, esses movimentos também são
destrutivos. Eles destroem algo para abrir espaço para o novo. Nesse
sentido, as guerras também são movimentos do espírito.
Fiquei tocado quando alguém me disse que os Astecas abrem mão de tudo
após 52 anos, para abrir espaço para o novo. Na religião judaica também
existe esse movimento: desprender-se para o novo.
O TERRÍVEL
Sentimos em nós, em nossa alma, mesmo em contato com um movimento
do espírito, algo de terrível. Então queremos superar isso, por assim dizer.
Queremos nos livrar disso. Contudo, todos nós somos levados juntos em
movimentos que causam danos, que aparentemente causam danos, pois, nos
grandes movimentos, eles auxiliam o progresso e o avanço da vida.
Quando experimentamos isso em nós, quando sentimos isso, esse elemento
agressivo, concordamos com ele como um movimento do espírito. Então o
antagonismo do bem e do mal é extinto em nossa alma, em um movimento
maior. Somente assim nos tornamos realmente um com os movimentos do
espírito. É uma experiência mística de unificação. É a mística plena na qual
tudo tem seu lugar e tudo serve ao amor no final. Assim, atingimos dessa
maneira uma postura religiosa completamente diferente. Quando a
atingimos, tornamo-nos felizes: podemos concordar com tudo da forma que
é.
E SPÍRITOS BONS E MAUS
Há mais uma coisa que me faz pensar: por exemplo, uma canção que chama
bons espíritos. Parece que existe um outro domínio, para além do humano,
no qual também há uma diversidade de seres espirituais que vêm nos ajudar
a serviço da força superior.
Também temos a ideia de anjos da guarda. Não se trata meramente de uma
ideia. Muitas pessoas já sentiram que um anjo da guarda de repente estava
lá e colocava-se ao lado deles. Ou seja, ao invés de procurar a conexão
direta com essa força espiritual, podemos deixar que bons espíritos nos
acompanhem.
A pergunta é: existem também espíritos maus? A ideia de que também há
forças más em ação é bastante difundida. Nas Constelações Familiares,
vemos que representantes de mortos querem levar pessoas vivas para a
morte consigo.
Alguns espíritos atuam de forma má. Por exemplo, levando pessoas vivas
para a morte ou à loucura.
A PAZ DOS MORTOS
O que vemos nas Constelações Familiares? Quando damos espaço para os
movimentos do Espírito, algo se modifica para esses mortos. No final,
desprendem-se dos vivos e fecham os olhos. Então deixam os vivos em paz.
E mais: tornam-se anjos da guarda para os vivos. Ou seja, há algo que deve
ser colocado em ordem para esses mortos, de nós para eles. Colocar isso
em ordem significa sempre: nós os tomamos como são em nosso coração,
mesmo os chamados criminosos. Eles são acolhidos na alma da mesma
maneira. Agora vocês percebem que se trata de um grande movimento do
Espírito, que acolhe todas as pessoas, independente de sua culpa e de seu
destino. Só alcançamos isso se unirmos o bem e o mal em nossas almas em
uma unidade mística, como um movimento do Espírito.
Não sei dizer se os bons e maus espíritos foram pessoas antes ou se há
ainda outros espíritos. Prefiro deter-me aos mortos. Então estou conectado
da forma mais íntima com esse outro mundo e com eles nessa força eterna.
AS IMAGENS DE DEUS
Esse espírito eterno, essa força divina - chamo-a de divina aqui - não é algo
que possamos compreender com os nossos conceitos de Deus.
Direi algo ousado: todas as nossas imagens de Deus, do bom Deus, do juiz,
são ofensas a Deus. Trata-se de uma ousadia sem igual. Pois esse Deus é
bom e mau. Acima de tudo, é assustador. O chamado Deus do amor é, na
verdade, um Deus assustador, do qual todos devem ter medo.
Esse espírito eterno, esse movimento espiritual, não permite imagens.
Também não permite religiões. Nem rituais. Para que serve isso? O que
queremos com rituais? Queremos influenciar Deus? Aqui também não há
casas de Deus ou intermediários. Existe a experiência de um movimento do
amor para todos.
Precisamos então ter medo? Podemos pedir a essa força que ela ajude
alguém? Podemos amar mais que essa força? Aqui termina também a
oração, os desejos e todos os medos.
Como encontramos essa força? Ela está no exterior? Ou está em nós? Algo
pode se movimentar em nós sem ter vindo dessa força?
O que é a missa? Vamos com esse movimento da vida em nós. Qual é a
postura religiosa máxima? Ficamos simplesmente presentes diante desse
espírito eterno, sem movimento próprio. Simplesmente presentes da forma
que somos. É essa a realização para todos.

ANEXO

HELLINGER SOBRE SI MESMO


O que me levou a escrever esse livro?
Em primeiro lugar, embora tenha ficado amplamente conhecido através das
Constelações Familiares, fui professor por muitos anos na África do Sul,
em escolas para nativos. Por último, fui reitor do renomado St. Francis
College, em Mariannhill, então uma das principais escolas para africanos
negros da África do Sul. Preparei-me para exercer esse cargo através de um
curso de três anos na Universidade de Natal e na University of South Africa,
o qual concluí com um University Education Diploma. Ele me qualificou
para ser professor em escolas superiores na África do Sul.
Em segundo lugar, na África do Sul, associei-me ao novo movimento da
dinâmica de grupo. Através da experiência direta, os participantes
aprenderam as leis segundo as quais um grupo se organiza de maneira que
todos os participantes sejam levados em consideração e acolhidos. Concluí
a formação em dinâmica de grupo e apliquei essas leis na escola com
sucesso. Elas me ajudaram a estabelecer um clima de confiança mútua, no
qual ninguém era deixado de fora.
Em terceiro lugar, as Constelações Familiares me forneceram
compreensões sobre as ordens fundamentais em nossas relações. Eu as
reuni sob o título de Hellinger® sciencia, pois se revelam fundamentais
para todas as relações humanas.
Pode-se observar que tanto os pais quanto seus filhos se encontram
vinculados a eventos ocorridos em gerações anteriores e ao ambiente ao
qual foram expostos. Na Pedagogia Hellinger, estes são trazidos à tona de
maneira que todos os afetados possam respirar aliviados. Um outro destino
espera por eles: próximo à vida e com confiança.
Já apresentei essas compreensões em vários cursos para pais e filhos e para
professores e alunos, alguns deles junto com a minha esposa Sophie.
Este é um livro prático, tanto para educadores em escolas e institutos
quanto para pais que buscam ajuda quando seus filhos lhes escapam. Trata-
se de uma ajuda também para outros ajudantes que estão prontos para
auxiliá-los de diversas maneiras.
HELLINGER ® SCIENCIA
A Hellinger® sciencia, escrita aqui propositalmente dessa forma, é uma
ciência do amor do Espírito. Trata-se de uma scientia universalis: a ciência
universal das ordens da convivência humana, começando pelas relações na
família, ou seja, a relação entre homem e mulher e entre pais e filhos,
incluindo a educação destes, passando pelas ordens no trabalho, na
profissão e nas organizações e chegando, finalmente, às ordens entre os
grupos abrangentes, como povos e culturas.
Ao mesmo tempo, trata-se da scientia universalis relacionada às desordens
que, na convivência humana, levam aos conflitos que separam as pessoas
umas das outras, ao invés de uni-las.
Essas ordens e desordens são transmitidas ao corpo. Desempenham um
papel importante no que diz respeito a doenças e à saúde do corpo, da alma
e do espírito.
Por que essa ciência é chamada de Hellinger® sciencia? Essas
compreensões foram obtidas e descritas por mim. Testei-as na prática
publicamente. Como resultado, muitos puderam verificar o efeito dessas
compreensões tanto em si mesmos quanto em suas relações e ações. Isso
mostra que se trata de uma ciência real.
Como ciência, a Hellinger® sciencia está em movimento. Ou seja, ela se
desenvolve continuamente, também a partir da experiência e das
compreensões de muitas outras pessoas que penetraram nela e em suas
consequências. Como ciência viva, não constitui uma escola, como se
estivesse concluída e pudesse ser transmitida e aprendida como algo
definitivo. Também não está sujeita a controles de resultados, como se
pudesse ser avaliada conforme parâmetros externos a ela e tivesse que se
justificar diante deles. Sua justificativa é seu efeito e seu sucesso. Trata -se
de uma ciência aberta em todos os sentidos.
A DIMENSÃO ESPIRITUAL
Através das compreensões diretas sobre as ordens e desordens, a
Hellinger® sciencia alcançou uma outra dimensão: uma dimensão
espiritual. A partir dela torna-se conhecido o alcance dessas compreensões.
Também, a partir dela podem ser experimentados em todas as áreas o
significado universal e as consequências que resultam dessas
compreensões.
O que é essa compreensão espiritual e quais são as suas dimensões? Essa
compreensão parte de uma observação e das consequências que resultam
dela: nada do que existe se movimenta por si só. É movimentado a partir
de fora. Mesmo quando algo se movimenta como se estivesse se
movimentando por si só, como, por exemplo, tudo aquilo que está vivo,
esse movimento possui um começo que não pode vir dele próprio. Por isso,
todo movimento, mesmo o movimento de tudo que é vivo, parte de um
movimento vindo de fora. Não apenas no começo, mas ininterruptamente,
pelo tempo em que essa vida durar.
Ainda há algo a considerar aqui: todo movimento, em especial todo
movimento vivo, é um movimento consciente. Pressupõe uma consciência
em relação à força que move tudo. Em outras palavras: todo movimento é
um movimento pensado. Entra em movimento porque é pensado por essa
força e entra em movimento da forma como é pensado.
Então, o que se encontra no começo de cada movimento? Um pensamento
que pensa tudo da forma que é.
Qual é a consequência? Não há nada que esse pensamento não queira da
forma que é e da forma que se move. Todo movimento é, no final, um
movimento desse espírito. Também por isso, para esse espírito, nada para.
Ele pensa tudo o que foi da mesma forma que nos pensa no presente e que
pensa tudo o que virá.
Uma vez que ele pensa o futuro juntamente com o passado, o passado está
relacionado em tudo com esse futuro. O passado está em movimento em
direção ao futuro e nele alcança sua realização.
Mas também o futuro se tornará passado e, como passado, também se
movimenta em direção a um futuro. Não é concebível para nós que esse
pensamento que tudo move pare. Da mesma forma que não pode haver nada
que não foi pensado por ele, também não pode haver nada depois dele.
Quem ou o que ainda pensaria depois dele?
Diante desse pensamento, cessam muitas das suposições e ideias que até
então eram importantes para nós. Por exemplo, a suposição do livre
arbítrio, a suposição da responsabilidade pessoal. Muitas das distinções e
julgamentos de mundo que sustentam a nossa cultura desaparecem.
Aqui, refiro-me especialmente à distinção entre bem e mal, entre certo e
errado, entre escolhido e descartado, entre em cima e embaixo, alto e baixo,
melhor e pior e, finalmente, entre vida e morte.
Entretanto, continuamos fazendo essas distinções e também as
Vivenciamos. Elas também não são pensadas e desejadas da forma que são
por esse espírito?
Aqui, deve-se considerar: o passado e o futuro não são o mesmo. O passado
está a caminho desse futuro. Por isso existe, para a nossa experiência, um
antes e um depois e um mais ou menos.
O que é esse menos? O que é esse mais? Trata-se de menos consciência ou
mais consciência. Encontramo-nos em um movimento de menos consciente
para mais consciente. Encontramo-nos em um movimento de menos
consciente, em sintonia com esse espírito e seu movimento abrangente,
para mais consciente, em sintonia com seu movimento. Assim, existe para
nós um movimento de mais ou menos que não é concebível para esse
Espírito. Para ele não há mais ou menos. Mesmo assim, esse movimento
está em tudo. Tudo aquilo que encontramos dentro dele é pensado por esse
Espírito. Ele é pensado dessa forma para nós por esse Espírito,
independente do que demanda de nós como experiência no caminho para
mais consciência.
Quem alcança esse mais com relação à consciência? Quem alcança esse
mais com relação à sintonia com a consciência desse Espírito? Nós
pessoalmente? Nós sozinhos nesta vida? Ou será que todas as pessoas, do
passado, presente e futuro, estão juntas nesse caminho e alcançam essa
consciência juntos com todos? Eles a alcançam juntos com todas as
experiências já vivenciadas e que ainda serão vivenciadas, por nós e por
muitos outros, nessa vida e em muitas outras? Aqui também, apenas juntos?
A LIBERDADE
É claro que nos sentimos livres sob diversos pontos de vista. É claro que
nos sentimos responsáveis pelos nossos atos e suas consequências. Ao
mesmo tempo, sabemos, entretanto, que uma outra força, um poder
espiritual capaz de mover tudo, pensou, moveu e desejou nossa liberdade,
nossa responsabilidade e nossa culpa, com todas as suas consequências, de
forma que as vivenciássemos como nossas próprias.
Então agimos diferente? Podemos agir diferente? De onde devemos tirar a
força para nos mover e agir de outra forma?
O que nos resta aqui? Continuar agindo como agimos até agora e concordar
com nossa liberdade, nossa responsabilidade, nosso passado e nossa culpa,
com todas as suas consequências, como são e como as experimentamos.
Ao mesmo tempo, entretanto, nós as Vivenciamos como um mais em
termos de sintonia consciente com esse espírito que tudo move. Também
as Vivenciamos como um mais em termos de consciência, para nós e para
todos que assumem conosco as consequências de nossa liberdade e de nossa
responsabilidade e que foram envolvidos nas consequências de nossas
ações e de nossa culpa.
Esses muitos indivíduos vivenciam o mesmo processo de outra forma. Eles
obtêm uma experiência diferente a partir do mesmo processo. Se puderem
perceber-se simultaneamente livres e não-livres, alcançam um mais em
termos de consciência, quem sabe até um mais em sintonia com esse
espírito que tudo move. Alcançam um mais em termos de consciência que
os leva e que leva muitos outros a dar mais um passo no caminho para a
consciência abrangente.
A PREOCUPAÇÃO
Nessa dimensão espiritual, a preocupação acaba. A preocupação com
relação ao futuro da Hellinger® sciencia também. Ela vem de um
movimento do espírito, da forma como foi pensada por esse espírito,
independente de alguém concordar com ela ou a rejeitar. Como uma ciência
universal, manifesta sua verdade tanto num caso quanto no outro,
simplesmente através do seu efeito.
E quanto às preocupações que temos com relação ao futuro: com relação
ao nosso futuro, ao futuro de outras pessoas e ao futuro do mundo? Elas
não acabam por revelarem-se ingênuas, como se pudéssemos mudar ou
evitar algo através delas? Seriam preocupações contrárias aos movimentos
do espírito, como se fossem independentes dele.
É diferente no caso das preocupações que possuímos em sintonia com os
movimentos desse espírito. Essas são preocupações provenientes do
cuidado a serviço do mundo, da forma como é movido por esse espírito.
Estão em sintonia com as suas preocupações e cuidados. Essas
preocupações estão em sintonia com as ordens da vida, também com o seu
início e fim.
O FUTURO
Em sintonia com o pensamento desse espírito, todo futuro para nós é agora.
Esse espírito pensa tudo agora. Na dimensão espiritual acaba a preocupação
quanto ao que está por vir. Tudo o que está por vir nos é mostrado agora,
em sintonia com esse movimento. Uma vez que há algo por vir, há um
futuro para nós, mas um futuro agora.
A Hellinger® sciencia é uma ciência para o agora. Todas as suas
compreensões atuam agora e atuam imediatamente. Todas as resistências
contra essas compreensões também atuam agora e imediatamente. Isso
demonstra que a Hellinger® sciencia é uma ciência de verdade: uma
ciência das nossas relações agora.
O AMOR
Em última instância, a Hellinger® sciencia é uma ciência do amor, uma
ciência universal do amor. É a ciência do amor que inclui tudo, da mesma
maneira.
Como esse amor prospera? Ele prospera em sintonia com o pensamento do
espírito que move tudo da forma que pensa. Ele é o amor em sintonia com
o pensamento desse espírito e é consciente do pensamento desse espírito.
Ele sabe como ama e como pode amar, pois o amor em sintonia com a
consciência do espírito torna-se consciente para ele como compreensão.
Por isso, esse amor é puro, assim como essa consciência. É puro, pois é
movido por outro pensamento. É um amor sabedor, um amor puramente
sabedor.
Dessa forma, também é um amor criador, mas criador em sintonia com o
pensamento desse Espírito. Assim, esse amor também se torna uma ciência,
uma ciência universal. Como ciência universal, atua universalmente. Atua
porque é verdadeiro.
A P EDAGOGIA H ELLINGER
A Pedagogia Hellinger é a Hellinger® sciencia aplicada. É a Hellinger®
sciencia aplicada à educação em todas as suas áreas.