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C o p y rig h t © 1991 by B asil B lack w ell L im ited , E n g lan d

T ítu lo o rig in a l e m in glês: N e w P ersp ectiv es o n H isto ric a l W ritin g


C o p y rig h t © 1992 d a tra d u ç ã o brasileira:
E d ito ra U n e sp , d a F u n d a çã o p a ra o D e se n v o lv im e n to
d a U n iv e rsid a d e E sta d u al P a u lista (F U N D U N E SP )

PETER BURKE (O rg.) P raça d a S é , 108


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A ESCRITA DA HISTÓRIA
D a d o s In te rn a c io n a is d e C a ta lo g a ç ã o n a P u b lic a ç ã o (C IP )

NOVAS PERSPECTIVAS (C â m a r a B rasileira d o L ivro, SP, B rasil)

A Escrita a história: novas perspectivas / Peter Burke (org.); tradução de


M agda Lopes. - São Paulo: Editora da U niversidade Estadual Paulista,
1992. - (Biblioteca básica)

dISBN: 85-7139-027-4

1. Historiografia 1. Burke, Peter. II. Série.

92-1978 CDD-907.2
T rad u ção de
ín d ic e s p ara c a tá lo g o sistem á tico :
M agda Lopes
1. Escola dos Annales: Historiografia 907.2 o
2. Historiografia 907.2
3. N ova história: Historiografia 907.2

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Asociaclón de Edltoriales Unlversltarlas Associação Brasileira de


de América Latina y el Caribe Editoras Universitárias
328 PETER BURKE

U m segundo ataque à história dos acontecim entos ocorreu no


início do século vinte. N a G rã-Bretanha, Lewis N am ier e R .H .
Tawney, que concordavam em algo m ais, sugeriram quase ao
m esm o tem po que o historiador, em vez de narrar os acontecim en-
tos, deveria analisar as estruturas. N a França, a rejeição do que era
pejorativam ente cham ado de “história dos acontecim entos” (histoi-
re événementielle), em prol da história das estruturas, era um a
prancha im portante n a plataform a da cham ada “ escola dos Arma-
les” , de Lucien Febvre a Fernand Braudel, que, da m esm a form a
A HISTÓRIA DOS ACONTECIMENTOS que M illar, encaravam os acontecim entos com o a superfície do
E O RENASCIMENTO DA NARRATIVA oceano da história, significativos apenas por aquilo que podiam
revelar das correntes m ais profu ndas.3 Se a história popular
Peter Burke* perm anecesse fiel à tradição da narrativa, a história acadêm ica
tornar-se-ia cada vez m ais preocupada com os problem as e com as
estruturas. O filósofo francês Paul Ricoeur certamente tem razão,
q u an d o fala do “ eclipse” d a narrativa histórica em n o sso tem po.4

Narrativa versus estrutura Ricoeur prossegue declarando que toda a história escrita,
incluindo a cham ada história “ estrutural” associada a Braudel,
A historiografia, com o a história, parece se repetir - com necessariam ente assum e algum tipo de form a narrativa. D e um
variações.1 M uito antes do n o sso tem po, na época do Ilum inism o, m od o sim ilar, Jean-François Lyotard descreveu algum as interpreta-
já se atacava a hipótese de que a história escrita deveria ser um a ções da história, especialm ente aquela dos m arxistas, com o “ gran-
narrativa d o s acontecim entos. O s críticos incluíam V oltaire e o des narrativas” .5 O problem a de tais caracterizações, pelo m enos
teórico social escocês Jo h n M illar, que escreveu sobre a “ superfície para m im , é que elas diluem o conceito da narrativa, até que ela
do s acontecim entos que prende a atenção do historiador com u m ” . corra o risco de se tornar indistinguível da descrição e d a análise.
D esse pon to de vista, a cham ada “ Revolução C op érn ica” liderada
Entretando, não vou tratar desse assunto aqui, preferindo
na historiografia por Leopold von Ranke n o início d o século
concentrar-me n a questão m ais concreta das diferenças, n o que
dezenove, parece m uito m ais um a contra-revolução, no sentido de
poderia ser cham ado de o grau de narrativa, entre algum as obras
que trouxe os acontecim entos de volta ao centro do palco.2
contem porâneas de história e outras. D e alguns an os para cá tem
havido sinais de que a narrativa histórica, em um sentido bem
* Docente de H istória C ultural d a U niversidade de C am bridge e m em bro d o E m m anuel
College.
1. E ste artigo originou-se de u m a conferência e a presente versão deve m uito aos 3. F . B rau del, The Mediterranean, 2 ed. rev., trad. S . R eynolds, Lon dres, 1972-3,
co m entários de vários ouvintes, d e C am b rid g e a C a m p in a s, de T el Ayiv a T ó q u io . prefácio.
M eu s agradecim entos pessoais a C ario G inzburg, M ichael H olly, Ian Kershaw , 4 . P. R icoeur, Time and Narrative, trad. de K . M cLau gh lin e D . D ellauer, 3 v., C h icago,
D o m in ick L a C a p ra e M ark Phillips. 1984-8, l . p . 138f.
2. T e n to apoiar este argum ento em “ R an ke T h e Reactionary” , Syracuse Scholar, 9, 5. J.-F. Lyotard, L a condition post moderne, Paris, 1 97 9; The Post-Modern Condition, trad.
p. 25-30, 1988. de C . B en n in gton e B. M acru m i, M anchester, 1984.
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330 PETER BURKE

estrito, está realizando outro retom o. M esm o alguns historiadores


D o m esrtio m odo, é difícil não perceber a tristeza de Stone
associados aos A nnales estão se m ovim entando n essa direção -
diante d o que ele cham a de “a m udan ça ... do m odo analítico para
G eorges Duby, por exem plo, que publicou um estudo da batalha
o descritivo” d a escrita d a história. O título de seu artigo, assim
de Bouvines, e Em m anuel Le Roy Ladurie, cujo Carnival trata dos
com o seus argum entos, têm sido influentes. Ele tem contribuído
acontecim entos que ocorrem n a pequena cidade de R om ans
para transform ar a narrativa histórica em u m tem a de debate.10
durante 1579 e 1 5 8 0 .6 A atitude explícita desses dois historiadores
M ais exatam ente, a narrativa histórica tornou-se o tem a de pelo
não está m uito distante daquela de Braudel. D uby e Le Roy Ladurie
m en os dois debates, que têm ocorrido independentem ente, apesar
não focalizam os acontecim entos particulares por si sós, m as pelo
da relevância de um para o outro. V in cular os dois é o objetivo
que revelam sobre a cultura em que ocorreram . D o m esm o m odo,
principal deste capítulo.11 Em prim eiro lugar, há a conhecida e
o fato de dedicarem livros inteiros a acontecim entos particulares
longa cam pan ha de oposição àqueles que afirm am , com o Braudel,
sugere u m a certa distância da posição de Braudel, e seja com o for,
que os historiadores deveriam considerar as estruturas m ais seria-
Le Roy Ladurie já discutiu alhures a im portância do que ele cham a
m ente que os acontecim entos, e aqueles que continuam a acreditar
de “ acontecim ento criador” (événement matrice), que destrói as
que a função d o historiador é contar u m a história. N esta cam pa-
estruturas tradicionais e as substitui por n ovas.7
nha, am bos os lados estão agora entrincheirados em suas posições,
A nova tendência, que com eçou a afetar outras disciplinas, m as cada um deles tem feito algum as observações im portantes à
especialm ente a antropologia social, foi discutida pelo historiador custa do ou tro.12
britânico Lawrence Stone em um artigo sobre ‘ The Revival of D e um lado, os historiadores estruturais m ostraram que a
Narrative’ , que atraiu m uita atenção.8 Stone dizia não estar fazendo
narrativa tradicional passa por cim a de aspectos im portantes do
m ais do que “ tentar m apear as m udanças observadas de m aneira
passado, que ela sim plesm ente é incapaz de conciliar, .desde a
histórica” , em vez de realizar julgam entos de valor. A esse respeito,
estrutura econôm ica e social até à experiência e os m od os de pen sar
algum as obras históricas m ais conhecidas, que surgiram nos anos
das p essoas c o m u n s.13 Em outras palavras, a narrativa não é m ais
80, confirm aram suas observações. Citizens de Sim on Scham a, por
inocente na historiografia d o que o é n a ficção. N o caso de um a
exem plo, é u m estudo da Revolução Francesa, publicado em 1989
narrativa de acontecim entos políticos, é difícil evitar enfatizar os
que descreve a si m esm o com o um retorno “ à form a das crônicas
atos e as decisões dos líderes, que proporcion am um a linha clara
do século dezenove” .9
à história, à custa dos fatores que escaparam ao seu controle. N o
caso das entidades coletivas - a A lem anh a, a Igreja, o Partido
C on servador, o Povo etc. - o historiador narrativo é forçado a
6. G . D uby, The Legend of Bouvines, trad. d e C . Tihanyi, C am b rid ge, 1 990; E. Le Roy
Ladurie, C arnival, trad. de M . Fenney, Lon dres, 1980.
10. C f. B. Bailyn, “T h e C h allen ge o f M o d e m H istoriograph y” , American Historical
7. E. Le Roy Ladurie, “ Event and Long-Term in Social H istory” , trad. de B . e S . Reynolds
Revieiv, 8 7 , p. 1-24, 1982.
em seu Terricory ofthe Historian, H asso cks, 1979, p. 111-32.
11. C f. Ricoeur; M . Phillips, “ O n H istoriograph y and N arrative” , University of Toronto
8. L. Ston e, “T h e Revival o f N arrative” , Pasc and Present, 85, p. 3-24, 1979; cf. E.].
Quarterly, 5 3 , p. 14 9-6 5,19 8 3 -4; e H . Kellner, Language and Historical Representation,
H o b sb aw m , “ S o m e C o m m e n ts", Past and Present, 8 5 , p. 3 -8 ,1 9 8 0 . C f. ]. B o o n , The
M ad iso n , 1 9 8 9, esp. capítulo 12.
Anthropological Romance o f Bali, C am b rid ge, 1977 e E .M . B runer, ‘“Ethnography as
12. Para u m a d iscu ssão de pon tos de vista diferentes, ver Theorie uncl Erzühlung in der
N arrative” em The Anthropology o f Experience, ed. V . T u rn er e E. B runer, U rb a n a e
Geschicfite, ed. J. K ocka e T . N ipperdey, M u n iqu e, 1979.
C h icago , 1 9 8 6 , capitulo 6.
13. A últim a qu estão está bem observada em E. A uerbach , Mimesis, trad. W .R . T rask,
9. S. Sch am a, Citizens, N o v a Y ork, 1 989, p. xv.
Princeton, 1 9 53 , capítulos 2 e 3 (discutindo T acitus e A m m ian u s M arcellinus).
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A ESCRITA DA H ISTÓRIA 331

escolher entre omiti-los com pletam ente ou personificá-los, e eu encontre espaço, tanto para os acontecim entos quanto para as
concordaria com H uizinga em que a personificação é um a figura estruturas, freqüentem ente tem sido observado que o autor pouco
de retórica que os historiadores deveriam tentar evitar.14 Ela faz para sugerir que aquilo que une poderia estar entre as três
obscurece as distinções entre os líderes e os seguidores, além de escalas de tem po que ele utiliza: o longo, o m édio e o curto prazo.
encorajar os leitores sem grande im aginação a suporem o con sen so Seja com o for, o M editerranean de Braudel não é um exem plo
de grupos que estavam freqüentem ente em conflito. extrem o de história estrutural.17 A pesar de suas observações n o
prefácio sobre a superficialidade dos acontecim entos, ele prosse-
N o caso da história m ilitar em particular, Jo h n Keegan obser-
guiu dedicando-lhes várias centenas de páginas n a terceira parte de
vou que a narrativa tradicional da batalha está levando a conclusões
seu estudo. O s seguidores de Braudel, entretanto, têm-se inclinado
erradas, com seu “ alto foco sobre a liderança” e sua “ redução dos
a reduzir seu projeto (e não apenas n o sentido geográfico) enquanto
soldad os a peões” , e necessita ser ab an d on ad a.15 A dificuldade de
o im itam . O atual form ato clássico de um estudo regional à m aneira
se fazer isso pode ser ilustrada pelo caso do conhecido estudo de
do s Annales inclui um a divisão em duas partes, estrutura e conjun-
C orn eliu s Ryan sobre o D ia-D .16 Ryan pôs-se a escrever sobre a
tura (em outras palavras, tendências gerais), com pouco espaço para
guerra d o soldado, em vez daquela do general. Su a história é um a
os acontecim entos no estrito senso.
extensão de seu trabalho com o correspondente de guerra: suas
fontes são sobretudo orais. Seu livro transm ite m uito bem o O s historiadores desses dois cam pos: estrutural e narrativo,
“ sentim ento” da batalha de am bos os lados. E vivo e dram ático - diferem, não apenas na escolha d o que consideram significativo
na verdade, com o um dram a clássico, é organizado em torno de n o p assado , m as tam bém em seus m odos preferidos de explicação
três “ u n id ades” : de lugar (a N orm andia), de tem po (6 de ju n h o de histórica. O s historiadores da narrativa tradicional tendem - e isto
1944) e de ação. Por outro lado, o livro é fragm entado em discretos não é exatam ente contingente - a exprim ir suas explicações em
episódios. A s experiências dos diferentes participantes não têm term os de caráter e intenção individuais; explicações do tipo “ as
coerência. A única m aneira de torná-las coerentes parece ser im por ordens chegaram tarde de M adri, porque Felipe II n ão conseguia
um esq u em a provindo de “ cim a” e assim retom ar à guerra dos decidir o que fazer” , em outras palavras, com o diriam os filósofos:
generais de que o autor estava tentando escapar. O livro de Ryan “ a jan ela quebrou porque Brow n atirou nela um a pedra” . O s
ilustra o problem a m ais claram ente que a m aioria, m as o problem a historiadores estruturais, p o r outro lado, preferem explicações que
n ão é apenas dele. E sse tipo de tendência pode ser inerente à tom am a form a: “ a janela quebrou porque o vidro era frágil” ou
organização da narrativa. (citando o fam oso exem plo de Braudel) “ as ordens chegaram tarde
Por outro lado, os defensores da narrativa observaram que a de M adri porque os navios do século dezesseis dem oravam várias
análise d as estruturas é estática e, assim , em certo sentido, não-his- sem an as para cruzar o M editerrâneo” . C o m o observa Stone, o
tórica. A o se tom ar o m ais fam oso exem plo de história estrutural cham ado renascim ento d a narrativa tem m uito a ver com um a
crescente desconfiança do segundo m od o de explicação histórica,
de n o sso tem po, em bora o Mediterranean (1949) de Braudel
freqüentem ente criticado com o reducionista e determ inista. M ais
um a vez, o recente livro de Sch am a oferece um bom exem plo da
14. J. H uizinga, “Tw o W restlers with the A n gel” em seu Men and Idfias, trad. d e J.S .
H olm es e H . van M arle, Lon dres, 1 9 60 . C o n trastar a defesa d a personificação em
K ellner (esp. capítulo 5 sob re Michelet).
17. R icoeur (1 9 8 3 ) vai adiante para afirm ar qu e é um a narrativa histórica com u m “ q u ase
15. J. K eegan, The Face of Battle, 1 9 7 6 : H arm on dsw orth, 1 9 7 8 ed. p. 61f.
1 6. C . Ryan, The Longest Day, Lon dres, 1959. en red o ” , p. 2 9 8 ff.
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tendência. O autor explica que “ escolheu para apresentar estes m aneira m uito vaga, referindo-nos, não som ente a eventos que
argum entos na form a de u m a narrativa” , tendo em vista que a duraram poucas horas, com o a batalha de W aterloo, m as tam bém
Revolução Francesa foi “ m uito m ais o produto da atuação h um an a a ocorrências com o a Revolução Francesa, um processo desenrolado
do que de condicionam ento estrutural” .18 durante vários anos. Pode ser útil empregar os termos “ acontecimen-
Esta prolongada guetra de trincheiras entre os historiadores to” e “ estrutura” para se referir aos dois extremos de todo um espectro
narrativos e os estruturais foi longe dem ais. A lgum a idéia do preço de possibilidades, m as não deveríamos esquecer a existência do
do conflito, a perda d o entendim ento histórico potencial qu e ele centro do espectro. A s razões para a chegada tardia das ordens de
envolve, pode ser sentida ao se com pararem dois estudos da ín d ia M adri não necessitam estar limitadas à estrutura das comunicações
do século dezenove, que foram publicados em 1978 e focalizam o n o Mediterrâneo, ou ao fato de Felipe II não conseguir se decidir
que se costum ava cham ar de Motim Indiano de 1857, agora em um a determ inada ocasião. O rei pode ter sido cronicamente
conhecido com o a Grande Rebelião.19 C hristopher H ibbert produ - indeciso, e a estrutura do governo, por conselho, poderia ter
ziu um a narrativa tradicional, um a história dividida em partes em retardado m ais ainda o processo de tom ada de decisão.
grande estilo, com capítulos intitulados “ M otim em M eerut” , “ O D evido a essa im precisão de definição, deveríam os fazer o que
M otim se E spalh a” , “O C erco de Lucknow” , “ O A taque” , e assim M ark Phillips sugeriu e “ pen sar nas variedades de m od os de
p o r diante. Seu livro é colorido, n a verdade prende a atenção, m as narrativa e de não-narrativa, existentes ao longo de um a série
é tam bém superficial, n o sentido de não dar ao leitor m uita idéia contínua” .20 T am bém não deveríam os n os esquecer de questionar
do porquê os acontecim entos ocorreram (talvez por ser escrito do a relação entre acontecim entos e estruturas. T rab alh an do nesta
ponto de vista dos britânicos, que foram tom ados de surpresa). Por área central, pode ser possível ir além das duas posições opostas
outro lado, Eric Stokes apresenta um a cuidadosa análise d a geogra- para alcançar u m a síntese.
fia e d a sociologia da revolta, suas variações regionais e seus
contextos locais, m as .se exim e de um a síntese final. Len do os dois
livros, um im ediatam ente após o outro, pode-se ficar assom brado, Narrativa tradicional versus narrativa moderna
com o eu fiquei, pelo fantasm a de um potencial terceiro livro, que
pudesse integrar a narrativa e a análise e relacionar m ais intim a- V isan d o a esta síntese, as opiniões expressas no segundo
m ente os acontecim entos locais às m udanças estruturais na socie- debate podem proporcionar u m a contribuição útil. Este segundo
dade. debate teve início n os Estados U n id o s n os an os 60, e ain da n ão
C h ego u o m om en to de se investigar a possibilidade de encon- foi levado tão a sério qu an to m erece pelos historiadores de outras
trar u m m od o d e escapar a este confronto entre narradores e partes d o m undo, talvez por parecer “ m eram ente” literário. N ão
analistas. U m b o m com eço poderia ser criticar am bos os lados, está preocupado com a questão de escrever ou n ão escrever a
por um a su p o sição falsa do que eles têm em com um , a suposição narrativa, m as com o problem a d o tipo de narrativa a ser escrita.
de qu e distinguir o s acontecim entos das estruturas seja um a O historiador de cinem a Siegfried K racauer parece ter sido o
questão fácil. T en d em o s a utilizar o term o “ acontecim ento” de um a prim eiro a sugerir que a ficção m oderna, m ais especialm ente a
“ decom posição da continuidade tem poral” em Joyce, Proust e
18. Sch am a, 1 989, p. xv.
19. C . H ibbert, The G reat Mutiny, Londres, 1 978; E. Stokes, The Peasant and the Raj,
C am b rid g e, 1978. 20. P hillips, “ O n H istoriograph y” , 1983-4, p. 157.
A ESCRITA DA HISTÓRIA 335 336 PETER BURKE

V irgínia W oolf, oferece um desafio e u m a oportunidade aos Em contra'ste com W hite e G o ssm an , n ão estou afirm ando que
narradores históricos.21 U m exem plo ain da m ais nítido dessa os historiadores sejam obrigados a se engajar em experiências
decom posição, incidentalm ente, é Eyeless in G aza (1936), de literárias, sim plesm ente por viverem n o século vinte, ou a im itar
A ld ou s Huxley, novela com posta de curtos verbetes datados para determ inados escritores, devido suas técnicas serem revolucioná-
o período de 1902-34, .em um a ordem que, em bora lógica, é rias. O objetivo de buscarm os um a nova form a literária é certamen-
determ inadam ente não-cronológica. te a consciência de que as velhas form as são inadequadas aos
H ayden W hite atraiu, m ais atenção que Kracauer, q u an d o n o sso s propósitos.
acusou a profissão histórica de negligenciar as reflexões literárias A lgum as inovações são provavelmente m ais bem evitadas pelos
de su a própria época (incluindo um sentido de descontinuidade historiadores. N este grupo eu incluiria a invenção do fluxo de
entre os acontecim entos n o m undo exterior e sua representação consciência, por m ais útil que pudesse ser, pelas m esm as razões
sob a form a narrativa) e de continuar a viver n o século dezenove, que levaram os historiadores a rejeitarem o fam oso expediente
a época áurea do “ realism o” literário.22 E m um a tônica sim ilar, clássico do discurso inventado. O utras experiências, n o entanto,
Lionel G o ssm an queixou-se de que “ não é fácil, para n ós hoje em in spiradas por um a variedade bem m aior de escritores m odernos
dia, perceber quem é, com o escritor, o Joyce ou o Kafka da do que já tem sido m encionado, podem apresentar soluções para
historiografia m oderna” .23 Talvez. M esm o assim , o historiador problem as com que os historiadores há m uito vêm lutando, três
G o lo M an n parece ter apren dido algo d a prática narrativa de seu problem as em particular.
pai novelista. N ão é inteiram ente fantasioso com parar-se a inter-
Em prim eiro lugar, poderia ser possível to m ar as guerras civis
pretação de G o lo M an n dos pen sam en tos do idoso W allenstein
e outros conflitos m ais inteligíveis, seguindo-se o m odelo dos
com o célebre capítulo de Lotte in Weimar que evoca o fluxo de
rom ancistas que contam suas histórias, partindo de m ais- de um
consciência de G oethe, aparentem ente u m a tentativa de superar
ponto de vista. E estranho que esse expediente, tão eficaz nas m ãos
Joyce. E m seu estudo, que ele cham a de “u m a novela excessiva-
de Huxley, W illiam Faulkner em The Sound and the Fury (1931),
m ente verdadeira” , G o lo M an n segue as regras da evidência
e Lawrence D urrel em The Alexandria Quartet (1957-60) - sem
histórica e deixa claro que está apresentando um a reconstrução
m encionar as novelas epistolares d o século dezoito - não tenha
hipotética. A o contrário d a m aioria dos rom ancistas, ele não
sid o levado m uito a sério pelos historiadores, em bora pudesse ser
pretende ler a m ente de seu herói, apenas su as cartas.24
útil modificá-lo, para lidar com pontos de vista coletivos e tam bém
individuais. T al expediente perm itiria um a interpretação d o con-
21. S . K racauer, H istory: the Last Tfiings be/ore the Last, N o v a Y ork, 1 9 6 9, p. 178f.
2 2. H .V . W h ite, “T h e B u rd en o f H istory” , History and Theory, 5, 1 966 , republicado em
flito em term os de um conflito de interpretações. Para perm itir que
seu Tropics of Discourse, Baltim ore, 1 983, p. 27-50. Para u m a defesa filosófica da as “vozes variadas e o p o stas” da m orte sejam novam ente ouvidas,
co n tin u id ad e entre as narrativas e o s acontecim entos qu e eles relatam , ver D . C arr, o historiador necessita, com o o rom ancista, praticar a heteroglossia
“ N arrative an d the R eal W orld : an A rgum ent for C ontinu ity” , History and Theory,
(ver anteriorm ente, p. 15).25
2 5 , p. 1 1 7 -3 1 ,1 9 8 6 .
23. L. G o ssm a n , “ H istory an d Literature” em The Writing of History, ed. R .H . C an ary e
H . Kozicki, M ad iso n , 1 9 78, p. 3-39. , 25. C f. G . W ilso n , “ Plots an d M otives in ]a p a n ’s M iji Restoration” , Comparatiue Studies
2 4 . G . M a n n , Wallenstein, Frankfurt, 1 971, p. 98 4f.: 99 3ff.; T . M an n , Lotte in Weimar, in Society and History, 2 5, p. 407-27, 1 983, qu e faz u so d a term inologia de H ayden
1 939, capítulo 7. C f. G . M an n , “Pládoyer fü r d ie h istorische E rzàhlung” em Kocka W hite, m as está essencialm ente vinculada à m ultiplicidade d o s p on tos de vista d o s
e N ipperdey, 1 9 79, p. 40-56, especialm ente su a declaração de qu e a narrativa histórica atores. N . H am p so n , The Life and Opinions ofM axim ilian Robespiene, Lon dres, 1 976,
n ão exclui o conhecim ento d a teoria. apresen ta um diálogo entre diversas interpretações m od ern as d a R evolução Francesa.
A ESCRITA DA HISTÓRIA 337 338 PETER BURKE

Bastante curiosam ente, q u an d o este en saio estava prestes a ir A q u i m ais um a vez o novo livro de Price apresenta um a possível
para o prelo, foi publicado um trabalho histórico desse tipo. solução para o problem a, rotulando su a própria contribuição com o
Richard Price apresenta seu estudo do Surinam e do séculodezoito, u m a “voz” entre outras. Soluções alternativas tam bém são dignas
n a form a de u m a narrativa com quatro “vozes” (sim bolizadas por de consideração. O s teóricos literários têm, ultim am ente, discutido
quatro padrões tipográficos); aquela dos escravos negros (transm i- o expediente ficcional do “ narrador nada confiável de prim eira
tida por seus descendentes, os Saram akas); a dos adm inistradores p esso a” .29 T al expediente pode ser de algum u so tam bém para os
holan deses; a dos m ission ários m oravianos; e, finalmente, aquela historiadores, contanto que a não-confiabilidade seja explicitada.
do próprio historiador.26 O objetivo do exercício é precisam ente M ais um a vez, H ayden W hite sugeriu que as narrativas históricas
m ostrar, e tam bém estabelecer, as diferenças de pontos de vista sigam quatro planos básicos: com édia, tragédia, sátira e rom ance.
entre o p assad o e o presente, a Igreja e o Estado, o negro e o branco, Ranke, por exem plo, escolheu (consciente ou inconscientem ente)
os desentendim entos e a luta para im por definições particulares da escrever história “com enredos de com édia” , em outras palavras,
situaçãq. Será difícil im itar este towr de force de reconstrução seguindo um “m ovim ento ternário ... a partir de u m a condição de
histórica, m as Price merece inspirar toda um a estante de estudos. paz aparente, através da revelação do conflito, até a resolução do
conflito n o estabelecim ento de um a ordem social genuinam ente
Em segundo lugar, cada vez m ais historiadores estão com eçan-
pacífica” .30 Se o m od o com o a narrativa term ina ajuda a determ inar
do a perceber que seu trabalho não reproduz “ o que realmente
a interpretação do leitor, então pode ser valioso seguir o exem plo
aconteceu” , tanto quanto o representa de u m ponto de vista
de alguns rom ancistas, com o Jo h n Fowles, e proporcionar finais
particular. Para com unicar essa consciência aos leitores de história,
alternativos. U m a história narrativa da Prim eira G uerra M undial,
as form as tradicionais de narrativa são inadequadas. O s narradores
históricos necessitam encontrar um m od o de se tornarem visíveis por exem plo, vai n os dar u m a im pressão, se a narrativa term inar
em V ersailles em 1919, outra, se a narrativa se estender até 1933
em sua narrativa, não de auto-indulgência, m as advertindo o leitor
de que eles não são oniscientes ou im parciais e que outras ou 193 9 . A ssim sendo, fechos alternativos tornam a obra m ais
interpretações, além das suas, são possíveis.27 Em um a peça notável “ aberta” , n o sentido de encorajar os leitores a chegarem às suas
de autocrítica, G o lo M an n declarou que um historiador necessita próprias con clusões.31
“ tentar fazer duas coisas sim ultaneam ente, nadar com a corrente E m terceiro lugar - e este é o tem a principal deste capítulo -
dos acontecim entos” e “ analisar esses acontecim entos da posição u m novo tipo de narrativa poderia, m elhor que as antigas, fazer
de um observador posterior, m ais bem in form ado” , com bin an do frente às dem andas dos historiadores estruturais, ao m esm o tem po
os dois m étodos “ para produzir um a aparência de hom ogeneidade, em que apresenta um sentido m elhor d o fluxo do tem po d o que
sem qu e a narrativa fique de lado” .28 em geral o fazem suas análises.

26. R. Price, A lab i’s World, Baltim ore, 1990.


27. O problem a já foi d iscu tido p o r Thierry e M ichelet. V er G . Pom ata, “O vert and 2 9 . W . R iggan, Pícaros, Madmen, N aifs and Clowns: the Unreliable Firts-Person Narrator,
C ov ert N arrators in N ineteenth-Century H istoriograph y” , History Workshop, 27, N o rm an , 1981.
p . 1 -1 7 ,1 9 8 9 . 3 0 . H . W h ite, Metahistory, Baltim ore, 1973, p. 176f.
2 8 . Prefácio p ara a tradução inglesa de seu Wallenstein, de autoria de C . K essler, Lon dres, 31. C f. M . T orgovnick, Closure in the Novel, Princeton, 1 9 8 1 , e U . Eco, “T h e Poetics o f
1 9 7 6. M an n co n fessa qu e “a prim eira abordagem prevalece” em seu pró prio livro. the O p e n W o rk ” em seu The Role o f the Reader, L on dres, 1 9 81 , capítulo 1. U m
O u tro b o m exem plo d o q u e M a n n defencle pod e ser encontrado em T .H . Breen, m ovim ento n a direção de u m a narrativa h istórica m ais aberta é prevista p o r Phillips,
Imagining the Past: E ast Hampton Histories, R eadin g, M ass., 1989. “ O n H istoriograph y” , p. 153.
A ESCRITA DA HISTÓRIA 339
340 PETER BURKE

Densificando a narrativa ocidental é Be/ore the Dawn (1932-6), de Shim akazi T o so n .33 A
palavra “ despertar” - n o título, “ dow n” - é a m odernização
H á alguns an os atrás, o antropólogo C lifford Geertz inventou
(industrialização, ocidentalização) do Japão, e o livro lida com os
a expressão “ descrição d en sa” para um a técnica que interpreta um a
an os im ediatam ente anteriores e subseqüentes à restauração im pe-
cultura alienígena, através da descrição precisa e concreta de rial de 1868, q u an d o não estava de m od o algum claro que cam inho
práticas ou acontecim entos particulares, em seu caso, a descrição o país iria seguir. O rom ance m ostra em brilhantes detalhes com o
das brigas de galo em B ali (cf. G iovanni Levi, p. 134).32 A ssim “ O s efeitos da abertura do Japão para o m u n d o estavam se fazendo
com o a descrição, a narrativa poderia ser caracterizada com o m ais sentir nas vidas de cada indivíduo” .34 Para fazer isso, o autor
ou m en os “ fluida” ou “ den sa” . N o final fluido do espectro, tem os escolheu u m indivíduo, A oyam a Hanzo, que é o vigia de um posto
a observação crua em um volum e dos anais com o a C rôn ica
dos correios em um a aldeia da principal rodovia entre Q uioto e
A nglo-Saxônica de que “ N este ano C eolw ulf foi destituído de seu
T óqu io. Seu trabalho m antém H anzo em contato com os aconte-
rein ado” . N o outro extremo, encontram os narrativas (raríssim as cim entos, m as ele não se limita a observá-los. E m em bro do
até agora) que foram deliberadam ente construídas para suportar
m ovim ento de Instrução N acional, em penhado em um a solução
um volum e pesado de interpretações. autenticam ente japon esa para os problem as do Japão. O enredo
O problem a que eu gostaria de discutir aqui é aquele de se d o rom ance é em grande extensão narrativa do im pacto da
fazer um a narrativa den sa o bastante, para lidar não apenas com m u dan ça social em um indivíduo e em sua família, ponto enfati-
a seqüência dos acontecim entos e das intenções conscientes zado pela interrupção de T o so n de sua narrativa, de tem pos em
do s atores nesses acontecim entos, m as tam bém com as estruturas tem pos, para relatar os principais acontecim entos da história
- instituições, m od os de pen sar etc. - e se elas atuam com o um japo n esa de 1853 a 1886.
freio ou u m acelerador para os acontecim entos. C o m o seria um a
E provável que os historiadores po ssam aprender algo, a partir
narrativa desse tipo?
das técnicas narrativas de rom ancistas com o T olstoi e Shim azaki
Estas questões, em bora vinculadas à retórica, não são em si T o so n , m as não o bastante para resolver todos os seus problem as
retóricas. É possível discuti-las tendo-se com o base textos e narra- literários. Pois os historiadores não são livres para inventar seus
tivas produzidos por rom ancistas ou por historiadores. N ão é difícil personagens, ou m esm o as palavras e os pensam entos de seus
encontrar rom ances históricos que abordem esses problem as. personagens, além de ser improvável que sejam capazes de con-
Poderíam os com eçar com W ar and Peace, pois pode-se dizer que den sar os problem as de um a época n a narrativa sobre u m a família,
T olsto i com partilhou a opin ião de Braudel sobre a futilidade dos com o freqüentem ente o fizeram os rom ancistas. Poder-se-ia esperar
acontecim entos, m as de fato m uitos rom ances fam osos estão que o cham ado “ rom ance de não-ficção” pudesse ter tido algo a
vinculados a im portantes m udanças estruturais em u m a determ i- oferecer aos historiadores, desde In C old Blood (1965) de T ru m an
n ada sociedade, encarando-as em term os d o seu im pacto nas vidas C apote, até Schindler’s Ark (1982) de T h o m as Keneally, que
de alguns indivíduos. U m exem plo de destaque externo à cultura declaram “ usar a textura e os expedientes de um rom ance para
contar u m a história verdadeira” . Entretanto, esses autores não

3 2 . C . Geertz, “T h ick D escription: T o w ard s an Interpretative T h eory o f C u ltu re” , e


“ D eep Play: N otes o n the B alinese C ockfight” em The Interpretation ofCultures, N o va
33. Sh im azaki T o so n , Be/ore the Daw n, H on olu lu , 1987.
Y ork, 1973.
34. Ib id ., p. 62 1 .
A ESCRITA DA HISTÓRIA 341 342 PETER BURKE

enfrentaram o problem a das estruturas. Parece que os historiadores A redução n a escala não densifica em si a narrativa. A questão
teriam de desenvolver suas próprias “técnicas ficcionais” para suas é que os historiadores sociais voltaram-se para a narrativa, com o
“ obras factuais” .35 u m m eio de esclarecer as estruturas - as atitudes em relação à peste
Felizm ente, os autores de algum as obras recentes de h istória e às instituições para combatê-la, n o caso de C ario C ipolla, a
tam bém têm refletido sobre problem as com o estes e seus estudos estrutura da família cam pon esa do sul da França, n o caso de Natalie
esb o çam u m a resposta, ou m ais exatam ente várias respostas, das Davis, e assim por diante. M ais exatam ente, o que N atalie D avis
q u ais pode ser útil destacarem -se quatro. U m d o s m odelos está queria fazer era descrever, não tanto as próprias estruturas, m as
bem a cam in h o de se tran sform ar em m oda, en quanto os outros “ as esperanças e os sentim entos dos cam poneses; os m od os com o
três são representados por pouco m ais de um livro cada um . sentiam a relação entre m arido e m ulher, pais e filhos; os m od os
com o experim entavam as restrições e as possibilidades em suas
A prim eira resposta poderia ser descrita com o “micro-narrati- v id as” .38 O livro pode ser lido sim plesm ente com o um a boa
va” (ao longo das linhas do novo term o “m icro-história”). E a história e um a evocação viva de alguns indivíduos do passado, m as
narração de um a história sobre as pessoas com uns no local em que a autora faz deliberadas e repetidas referências aos valores da
estão instaladas. Em um certo sentido, essa técnica é lugar-comum sociedade. D iscutindo, por exem plo, porque a esp osa de M artin,
entre os rom ancistas históricos, e isso desde o tem po de Scott e Bertrande, reconheceu o intruso com o seu m arido, D avis com enta
M anzoni, cujo Betrothed (1827) foi atacado n a época (da form a que sobre a posição das m ulheres na sociedade rural francesa e sobre
a história vista de baixo e a micro-história foram atacadas m ais seu sen so de honra, reconstruindo as restrições no interior das
recentemente), por escolher com o seu tem a “ a crônica m iserável quais elas m aquinavam .
de u m a aldeia obscura” .36
Por outro lado, os com entários são deliberadam ente discretos.
Foi apenas m uito recentem ente, n o entanto, que os historia- C o m o explica a autora, “ Eu ... escolhi previam ente m eus argum en-
dores adotaram a m icronarrativa. Exem plos recentes bem-conhe- tos ... tanto pela ordenação da narrativa, escolha de detalhes, voz
cidos incluem a narrativa de C ario C ip o lla sobre o im pacto da e m etáfora literária, quanto pela análise tem ática” . O objetivo era
peste de 1 6 3 0 n a cidade de Prato, n a T oscan a, e a história de aquele de “ im plantar esta história nos valores e nos hábitos d a vida
N atalie D avis de M artin Guerre, um filho pródigo do século e das norm as de um a aldeia francesa n o século dezesseis, e
dezesseis que retornou a su a casa, n o sul da França, para utilizá-los para ajudar a com preender os elem entos centrais na
descob rir que seu lugar n a fazenda - e tam bém n a cam a de su a h istória e usar a história para comentá-los de volta” .39 A história
e sp o sa - havia sid o tom ad o por u m intruso que afirm ava ser o de M artin pode ser encarada com o u m “ dram a social” , no sentido
próp rio M artin .37 em qu e os antropólogos utilizam o term o; u m acontecim ento que
revela conflitos latentes e assim esclarece as estruturas sociais.40
35. W .R . Sieben sch u h , Fictional Techniques and Factional Works, 1 9 83 , discute com o
isso foi feito no p assad o , com referência especial à vid a de Jo h n so n , de autoria de
A m icronarrativa parece ter vindo para ficar; cada vez m ais
Bosw ell. C f. R .W . Rader, “ Literary Form in Factual N arrative: the Exam ple o f historiadores estão se voltando para essa form a. M esm o assim ,
B osw ell’s Jo h n so n ” em E ssays in Eighteenth-Century Biography, eçl. P .B . D agh lian,
Bloo m in gto n , 1 968, p. 3-42. 3 8 . D avis, M artin Guerre, p. 1.
36. C itad o em Letteratura Italiana, ed. A . A so r R osa, 5, T u rim , 1 98 6, p. 224. 3 9. N .Z. D avis, “ O n the Lam e” , American Historical Revieiv, 93, p. 5 7 5 ,5 7 3 , 1988.
3 7 . C . C ip o lla, Cristo/ano and the Plague, Lon dres, 1 973 ; N .Z. D avis, The Return of 4 0 . S o b re este conceito, V . T u rn er, Dram as, Fields and Metaphors, Ithaca, 1 9 74, cap í-
M artin Guerre, C am b rid ge, M a ss., 1973. tulo 1.
A ESCRITA DA HISTÓRIA 343 344 PETER BURKE

seria um erro encará-la com o um a panacéia. Ela não apresenta um a pequen o ijúm ero de indivíduos, especialm ente o estudioso K ang
solução para todos os problem as delineados anteriorm ente e gera Youwei, o soldado e acadêm ico Sh en C ongw en e os escritores Lu
problem as próprios, especialm ente aquele de ligar a m icro-história X u n e D in g Ling. Esses indivíduos não desem penham um papel
à macro-história, os detalhes locais às tendências gerais. E por im portante n os acontecim entos da revolução. D esse ponto de vista,
enfrentar diretam ente esse problem a im portante, que considero podem ser com parados com o que o crítico húngaro G eorg Lukács
Gate of Heavenly Peace, de Spence, um livro exem plar. cham ou de “herói m edíocre” nas novelas de Sir W alter Scott; um
Jon ath an Spence é um historiador d a C h in a que há m uito herói, cuja vulgaridade permite que o leitor enxergue m ais clara-
tem po tem se interessado pelas experiências sob form a literária. m ente a vida e os conflitos sociais da época.42 N o caso de Spence,
U m de seus prim eiros livros foi um a biografia do im perador os protagonistas foram selecionados porque, com o sugere o autor,
K ’ang-Hsi, ou antes um retrato do im perador - na verdade, um eles “ descreveram suas esperanças e tristezas com particular sensi-
tipo de auto-retrato, um a tentativa de explorar a mente de K ’ ang- bilidade” e tam bém porque as experiências pessoais “ ajudam a
H si, fazendo um a espécie de m osaico ou m ontagem de suas definir a natureza dos tem pos, através dos quais eles viveram ” . São
observações pessoais, encontradas dispersas entre os docum entos encarados m ais com o passivos que com o ativos. N a verdade, o
oficiais, dispondo-as sob títulos com o “ filhos” , “governando” ou autor fala das “ intrusões dos acontecim entos externos” sobre seus
“ envelhecendo” . O efeito não é diferente de um as Memoirs of personagens.43 Su a preocupação com indivíduos diferentes im plica
H adrian chinesas. E difícil pen sar em um estudo que m elhor um interesse em pontos de vista m últiplos ou um a m ultivocalidade,
m ereça a descrição de “ história vista de cim a” do que o auto-retrato m as - em contraste com o livro de Price, discutido anteriorm ente
de um im perador, m as Spence seguiu-o com um ensaio com ovente - esta m ultivocalidade perm anece abaixo da superfície da história.
em história vista de baixo. The Death of Woman Wang é um a peça A presentar a história da C h in a dessa m aneira suscita proble-
de m icro-história, ao estilo de C ipolla ou Davis, com quatro m as. A passagem de um indivíduo para outro corre ò risco de
histórias contadas, ou im agens descritas, para revelar as condições confundir o leitor, assim com o tam bém as m udanças para trás e
n a província de Shantung, n os anos conturbados do final do século para diante, entre o que poderia ser cham ado de tem po “ público” ,
dezessete. M ais recentemente, em The Memory Palace of Matteo o tem po dos acontecim entos com o a G ran de M archa ou a Revo-
Ricci, Spence organizou seu relato do fam oso m ission ário jesuíta lução de 1949, e o tem po “ privado” dos principais personagens.
n a C h in a, em torno de várias im agens visuais, à custa de seqüência Por outro lado, Spence com unica de u m m od o vivo e com ovente
cronológica, produzindo um efeito rem iniscente do Eyeless in G aza a experiência de vida (ou, n a verdade, de deixar de viver) durante
de Huxley. esses an os turbulentos. Entre suas passagens m ais m em oráveis está
The Gate of Heavenly Peace, po r outro lado, parece m ais um a seu relato da opinião de um a criança sobre a revolução de 1919,
peça de história convencional, um relato das origens e do desen- com o é lem brada por Sh en C ongw en; a reação de Lu X u n ao
volvim ento da Revolução C h in esa de 1895 a 1 980.41 M ais um a m assacre dos estudantes em um a passeata em Beijing em 1926; e
vez, contudo, se afirm a o interesse do autor pela biografia e pelos os ataques oficiais sobre D ing Ling em 1957, em seguida à
instantâneos históricos e seu livro é construído em torno de um su pressão do M ovim ento das “ C em Flores” .

4 1 . J. Sp en ce, Emperor of C hina, Lon dres, 1 9 7 4: The Death of Woman Wang, Lon dres,
1 9 78; The Gate o f Heavenly Peace, Lon dres, 1 9 82; The Memory Palace of Matteo Ricci, 42 . G . Lukács, The Historical Novel, trad. de H . e S. M itchell, Lon dres, 1 9 62, p. 30f.
Lon dres, 1985. 43. Spen ce, 1 98 2, p. xiii.
A ESCRITA DA HISTÓRIA 345 346 \ / PETER BURKE

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Pode haver outras m aneiras de se relacionar m ais intim am ente do que qualquer um desses pen sadores.45 Em seus estudos dos
a estrutura aos acontecim entos do que em geral fazem os historia- encontros entre as culturas n o Pacífico, Sahlins faz duas observa-
dores. U m m étodo possível é escrever a história de frente para trás, ções diferentes, m as com plem entares.
com o fez B .H . Su m n er em su a Survey ofR ussian History (organizada Em prim eiro lugar, sugere que os acontecim entos (especial-
por tópicos) ou N orm anJD avies em sua história recente d a Polônia, m ente a chegada de C o o k n o Havaí em 1778) “ portam traços
Heart of Europe (1984), narrativa que focaliza o que o autor cham a culturais distintos” , que são “ regulados pela cultura” , nò sentido
de “ o p assad o na presente.Polônia” .44 C om eça com “ O Legado da de que os conceitos e as categorias de um a cultura particular
H um ilhação: a Polônia a partir da Segunda G uerra M un dial” e determ inam os m odos pelos quais seus m em bros percebem e
move-se para trás através de “ O Legado da D errota” , “ O Legado interpretam seja o que for que aconteça em sua época. O s havaia-
do D esen canto” (1914-39), “ O Legado do D om ínio Espiritual” nos, por exem plo, perceberam o C apitão C o o k com o um a m an i-
(1795-1918), e assim por diante. Em cada ocasião o autor sugere festação de seu deus Lono, porque ele era obviam ente poderoso e
que é im possível com preender os acontecim entos narrados em um porque chegou na época do ano associada aos aparecim entos do
capítulo, sem conhecer o que o precedeu. deus. O acontecim ento pode por isso ser estudado (com o sugeriu
Esta form a de organização tem suas dificuldades, m ais obvia- Braudel) com o u m a espécie de papel heliográfico que revela as
m ente o problem a de que em bora os capítulos sejam dispostos em estruturas da cultura.
ordem inversa, cada capítulo tem de ser lido para diante. A grande
Entretanto, Sahlins tam bém declara (ao contrário de Braudel)
vantagem da experiência, por outro lado, é permitir, ou m esm o
que há um relacionam ento dialético entre os acontecim entos e as
forçar o leitor a sentir a pressão do p assado sobre os indivíduos e
estruturas. A s categorias são postas em perigo cada vez que são
os grupos (a pressão das estruturas ou dos acontecim entos que
utilizadas para interpretar o m u n d o em m utação. N o processo de
congelaram ou, com o diria Ricoeur, se “ sedim entaram ” em estru-
incorporação d o s acontecim entos, “ a cultura é reordenada” . O fim
turas). D avies n ão explora esta vantagem tanto quanto poderia.
do sistem a dos tabus, por exem plo, foi um a das conseqüências
N ã o faz qualquer esforço sério para relacionar cada capítulo com
estruturais do contato com os britânicos. A ssim tam bém o aum en-
aquele que vem “ dep ois” . E difícil im aginar su a abordagem de
to do com ércio intercontinental. É verdade em m ais de um sentido
an dar para trás, tornando-se adaptável ao estilo da micro-história.
que C o o k não deixou o Havaí com o o havia encontrado. Sahlins
M esm o assim , esta é um a form a de narrativa digna de ser seria-
contou u m a história com um a m oral, ou talvez com duas m orais.
m ente considerada.
A m oral para os “ estruturalistas” é aquela em que eles deveriam
U m quarto tipo de análise da relação entre estruturas e
reconhecer o poder dos acontecim entos, seu lugar no processo da
acontecim entos pode ser encontrado n a obra de um antropólogo
“estruturação” . O s defensores da narrativa, por outro lado, são
social am ericano, em bora ela vá com pletar o ciclo que nos trará de
en corajados a exam inar a relação entre os acontecim entos e a
volta aos Annales. O antropólogo M arshall Sahlins, que trabalha
cultura em que eles ocorrem . Sahlins foi além da fam osa ju stapo-
n o H avaí e nas Ilhas Fuji, é extremam ente interessado no pen sa-
sição dos acontecim entos e das estruturas de Braudel. N a verdade,
m ento m oderno francês (de Saussure a Braudel, de V ourdieu a
Lévi-Strauss), m as considera m ais seriam ente os aco'ntecimentos
4 5 . M . Sah lin s, Historical Metaphors and Mythical Realities, A n n A rb o r, 1981 e lslands
o f History, C h icago , 1 98 5. C f. P. Burke, “ Les iles anth ropologiqu es et le territoire de
4 4. N . D avies, Heart of Europe: a Short History of Poland, O xford , 1984. l’h istorien” , em Philosophie et histoire, ed. C . D escam p s, Paris, 1 9 87 , p. 49-66.
A ESCRITA DA HISTÓRIA 347 348 PETER BURKE

ele virtualm ente resolveu, ou dissolveu, a oposição binária entre históricos.47* É interessante observar que Jonatham Spence u sa a
essas duas categorias. linguagem de “ m ontagem ” e que The Return of M artin Guerre
apareceu m ais ou m en os na m esm a época, com o um a história e
R esu m in do , tenho tentado argum entar que historiadores com o um filme, depois de Natalie D avis e D aniel V igne terem
com o Taw ney e N am ier, Febvre e Braudel, foram justificados em trabalhado juntos n o tem a.48 V isões retrospectivas, cortes e a
su a rebelião contra um a form a tradicional da narrativa histórica alternância entre cena e história: essas são técnicas cinem áticas (ou
qu e era m al adaptada à história estrutural que eles consideravam na verdade literárias) que podem ser utilizadas de um a m aneira
im portante. A escrita da história foi im ensam ente enriquecida superficial, antes para ofuscar do que para ilum inar, m as podem
pela ex p an são de seu tem a, e tam bém pelo ideal da “ história tam bém ajudar os historiadores em sua difícil tarefa de revelar o
total” . Entretanto, m uitos estu diosos atualm ente con sideram que relacionam ento entre os acontecim entos e as estruturas e apresen-
a escrita da história tam bém tem sid o em pobrecida pelo ab an d o - tar pontos de vista m últiplos. Desenvolvim entos desse tipo, se
n o d a narrativa, estan do em andam ento u m a b u sca de novas continuarem , podem reivindicar ser vistos, não apenas com o m ero
form as de narrativa que serão adequadas às novas histórias, que “ renascim ento” da narrativa, com o denom inou Stone, m as com o
os historiadores gostariam de contar. Estas novas form as incluem u m a form a de regeneração.
a m icronarrativa, a narrativa de frente para trás e as histórias que
se m ovim en tam para frente e para trás, entre os m u n d os público
e privado, ou apresentam os m esm os acontecim entos a partir de
p o n tos de vista m últiplos.
Se os historiadores estão procurando m odelos de narrativas
que ju stapon h am as estruturas da vida com um pelos acontecim en-
tos extraordinários, e a visão de baixo pela visão de cim a, podem
m uito bem ser aconselhados a voltar à ficção do século vinte,
incluindo o cinem a (os film es de Kurosaw a, por exem plo, ou de
Pontecorvo ou de Jancsó). Pode ser im portante que um a das
discu ssões m ais interessantes da narrativa histórica seja a obra de
um historiador do cinem a (a obra de Kracauer, já citada). O
expediente de pontos de vista m últiplos é central ao Rashomon de
K urosaw a.46 Está im plícita em The Red and the White, de Jancsó,
u m a narrativa da guerra civil ru ssa em que os dois lados se revezam
para capturar a m esm a aldeia.
Q u an to a Pontecorvo, poderia ser dito que ele transform ou o
próprio processo histórico em si n o tem a de seus film es, em vez
de sim plesm ente contar um a história sobre indivíduos em trajes

47. G . Pontecorvo, L a battaglia di Algeri, 1 96 6 ; Q ueim ada, 1969.


4 6 . A h istória original d e Akutagaw a n ão adotava este expediente. 48. N .Z. D avis, J.-C . C arrière, D . V igne, Le retour de M artin Guerre, Paris, 1982.

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