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Pastoral

e Educação
Estudo e reflexão sobre pastoral escolar
1º. Edição
Curitiba — 2016
Dados Internacionais para Catalogação na Publicação (CIP)
(Maria Teresa A. Gonzati / CRB 9-1584 / Curitiba, PR, Brasil)

P293 Pastoral e educação : estudo e reflexão sobre pastoral escolar / Sérgio


Junqueira, Sonia de Itoz, José Alves de Melo Neto (Org.) ; ilustrações Marcelo
Bittencourt. – Curitiba : Piá, 2016.
: il.

ISBN 978-85-64474-61-1

1. Religião – Estudo e ensino. I. Junqueira, Sérgio. II. Itoz, Sonia. III. Melo
Neto, José Alves de. IV. Bittencourt, Marcelo. V. Título.

CDD 377.1

ENSINO RELIGIOSO
© capa: Marcelo Bittencourt
© Projeto gráfico: Marcelo Bittencourt
Direitos de publicação
© 2016 Editora Piá Ltda.

Diretor-Superintendente Ruben Formighieri


Diretor-Geral Emerson Walter dos Santos
Diretor Editorial Joseph Razouk Junior
Gerente Editorial Maria Elenice Costa Dantas
Gerente de Arte e Iconografia Cláudio Espósito Godoy
Autoria Sérgio Junqueira, Sonia de Itoz e José
Alves de Melo Neto (Org.), Andréia
Cristina Serrato, César Leandro Ribeiro,
Claudia Regina Kluck, Edile Maria Fra-
caro Rodrigues, Fernando Guidini, Isabel
Cristina Piccinelli Dissenha, João Ferreira
Santiago, Lurdes Caron, Raquel de
Fátima Colet, Terezinha Sueli de Jesus
Rocha e Valéria Andrade Leal
Edição de texto Pamela da Conceição e Melanie Baretta
Supervisão de Arte Karina Hollanda
Edição de Arte Marcelo Bittencourt
Editoração eletrônica Flávia Vianna
Revisão Fernanda Marques Rodrigues
e Mariana Bordignon
Supervisão de Iconografia Janine Perucci
Pesquisa iconográfica Junior Guilherme Madalosso
e Juliana Câmara
Ilustrações Marcelo Bittencourt
Projeto gráfico Marcelo Bittencourt
Produção gráfica Solange Szabelski Druszcz

Todos os direitos reservados à Impressão e acabamento


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81310-000 – Curitiba – PR Rua Senador Accioly Filho, 500
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Impresso no Brasil
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2016
Organizadores:
Sérgio Junqueira | Sonia de Itoz | José Alves de Melo Neto

Pastoral
e Educação
Estudo e reflexão sobre pastoral escolar
Apresentação

Educação & evangelização:


desafios e linguagens própriass
César Leandro Ribeiro

As três linguagens do amor concreto: a linguagem da cabeça, a lingua-


gem do coração e a linguagem das mãos. Tem que haver harmonia entre
as três, de tal maneira que você pense o que sente e o que faz, sinta o
que pensa e o que faz e faça o que sente e o que pensa. Isto é o con-
creto. Ficar somente no virtual é como viver numa cabeça sem corpo.
Papa Francisco

A aproximação entre os âmbitos da educação e da evangeliza-


ção é um desafio próprio de nosso tempo. A sua pertinência justi-
fica-se na medida em que a formação integral torna-se critério para
se estabelecer um caminho autêntico rumo à plenitude do viver.
Apresento a você, leitor, esta publicação, que tem o objetivo de
oferecer ferramentas necessárias para o desenvolvimento de uma
sadia e contextualizada ação evangelizadora no âmbito da educação.
Apoiando-se no estilo pasto-
ral do Papa Francisco, o conteú- O termo coração, aqui, deve
do aqui reunido está organizado ser compreendido no con-
buscando evidenciar três grandes texto teológico. É o equiva-
lente à ideia de consciência,
linguagens: a linguagem da ca- conforme proposto no do-
beça, a linguagem do coração e a cumento Gaudium et Spes,
16. Reúne também as ques-
linguagem das mãos. No processo
tões volitivas e emocionais.
educacional, de modo geral, os co-
nhecimentos são apreendidos cog-
nitivamente. Teriam pouca eficácia

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se não fossem concretizados em ações. E se chegassem a ser con-
cretizados, como poderíamos saber se as ações são aquelas que
transformam a vida para melhor, com sustentável perenidade? A
ponte entre o conhecimento e a ação é a vontade. Em outras pala-
vras, a ponte entre a cabeça e as mãos é o coração. E o “coração”,
entendido aqui como o vínculo de consciência com Deus, sendo
alimentado adequadamente, ilumina o saber e impulsiona para es-
colhas corretas. Portanto, a preocupação maior nesse modelo de
educar consiste na necessária valorização do ser humano em sua
integralidade e na consideração da espiritualidade como elemento
fundamental.

No fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não


se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre
o está a chamar ao amor do bem e fuga do mal, soa no momento opor-
tuno, na intimidade do seu coração: faze isto, evita aquilo. O homem
tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está
em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado. A consciência é o centro
mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com
Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser. Graças à consciên-
cia, revela-se de modo admirável aquela lei que se realiza no amor de
Deus e do próximo. Pela fidelidade à voz da consciência, os cristãos
estão unidos aos demais homens, no dever de buscar a verdade e de
nela resolver tantos problemas morais que surgem na vida individual e
social. Quanto mais, portanto, prevalecer a reta consciência, tanto mais
as pessoas e os grupos estarão longe da arbitrariedade cega e procura-
rão conformar-se com as normas objetivas da moralidade.
(CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Gaudium et Spes, 16, 2007)

No campo da ação pastoral realizada nas escolas, que elemen-


tos precisam ser conhecidos? Como o coração precisa ser alimen-
tado, cuidado e valorizado? E como as mãos devem se portar para
que o conhecido e amado se torne ação concreta? As páginas desta
publicação tentam responder a essas questões. Como motivação
ao estudo, na terceira parte desta apresentação, é oferecida uma
breve reflexão sobre tal metodologia.
A forma de compreender a ação educativa católica conforme
abordada nesta publicação está em sintonia com os princípios e
documentos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil que

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Apresentação

tratam o tema da educação. A Pastoral da Educação, em âmbito


nacional, ligada à Comissão Episcopal Pastoral para a Cultura e
a Educação (CNBB), em comunhão com a Associação Nacional de
Educação Católica do Brasil (ANEC), está profundamente interessa-
da e empenhada na formação de educadores e gestores capazes de
atuar no mundo da educação, seja formal ou informal, com compe-
tência e espírito de serviço à missão evangelizadora. Acredito que
esta publicação possa ajudar muito nessa intenção. Obviamente,
este texto não trará todas as respostas de que necessitamos, mas,
certamente, faz emergir perguntas essenciais que serão utilizadas
para a formação de pastoralistas. Dessa forma, espero que essas
páginas cumpram seu papel de servir ao propósito do Reino.
Considerando essas motivações iniciais e em sintonia com a
intenção de promover a difusão do conteúdo desta obra, gosta-
ria ainda de sugerir três pontos de reflexão que podem funcionar
como lentes de ampliação para melhor aproveitamento das ideias
centrais presentes neste conteúdo:
a) O reencontro entre educação e evangelização;
b) As instituições confessionais de educação, sua missão e al-
guns desafios;
c) Uma proposta de educação com base na realidade da fé.
Abordando esses pontos, pretendo fortalecer a convicção de
que a evangelização é necessária e urgente para os processos edu-
cativos nos dias de hoje. É necessário, no entanto, ter neste hori-
zonte as devidas “purificações” de mentalidade, com a finalidade
de derrubar os muros dos preconceitos, das superficialidades e
dos fundamentalismos. Ao mesmo tempo, pretendo tornar perti-
nente a ideia de que nesse processo de aproximação entre evange-
lho e educação, as instituições confessionais de ensino têm uma
missão imprescindível: a identidade e a missão que trazem em
seu próprio “ser” constituem uma riqueza para estabelecer pontes
sólidas e úteis com as culturas diversas. Por fim, enfocar que há
um princípio que rege a ação evangelizadora – a ação pastoral que
reúne em si cuidado e sistematização, sendo, acima de tudo, uma
proposição de vida a partir da fé. Fé que passa pela razão e traduz-
-se em obras.

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O reencontro entre educação e evangelização
Situar-se no mundo, adequar-se às situações e encontrar sen-
tido para o que faz são anseios do ser humano. Essa realidade se
expressa nas diversas culturas em forma de ethos, ou seja, jeitos
de ser, pensar, agir, decidir, costumes, leis, regras e normas. Ele,
o ethos, molda o ser das pessoas, e estas, por sua vez, o recons-
troem permanentemente. Esse processo pode dar-se de forma au-
tomatizada, quando simplesmente se reproduz o dado cultural
preestabelecido, ou de forma intencional, quando a reflexão so-
bre a ação gera permanente transformação. Nesse segundo caso,
encontra-se a educação como meio fundamental para reinventar
a vida, evoluir. Ao lado dela, na cultura ocidental, sempre esteve
a evangelização. Em alguns momentos na história de forma mais
próxima; em outros, mantendo consideráveis distâncias. Após
longa jornada, atualmente, os caminhos de ambas voltam a se
cruzar de forma pertinente; não definitivamente, mas em movi-
mentos dialógicos. Esses movimentos, no entanto, só podem ser
bem avaliados à luz dos possíveis “erros e acertos” consolidados
ao longo dos séculos.
Dois grandes filósofos, “pais” de muitos pensadores, há mais de
22 séculos, estabeleceram critérios fundamentais que até os dias de
hoje são pressupostos para o desenvolvimento do agir educacional
e da relação deste com o transcendente. Um, Platão; outro, Aristóte-
les. O primeiro entende o “saber” como o voltar-se, pela contempla-
ção, para o dado real já estabelecido de antemão como ideal, perfei-
to. Para ele, à medida que apreendemos esse dado, mais sábios nos
tornamos e, como consequência, melhor nos situamos no mundo.
Aristóteles, ao contrário, entende o saber como apreensão da reali-
dade e da construção, baseado na capacidade de analisar o objeto,
dos inteligíveis constituintes de cada coisa. “Fala” da “ciência” que
desnuda a realidade presente em cada ente, e não no plano ideal.
Nos dois casos, o ato de educar consiste no fato de perscrutar um
dado já estabelecido, seja a verdade presente nas ideias ou a lógica
da natureza presente em cada coisa. Esses metafísicos colocaram
as bases da educação no dado que transcende a natureza; ou seja,
numa causa que está, antes de tudo, no ser das coisas.

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Apresentação

De alguma forma, esses dois pensadores ganharam asas no


pensamento de Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino. Ecoando
princípios consolidados na filosofia platônica, o primeiro teologi-
zou, no bom sentido da palavra, a filosofia das ideias, considerando-
-as marcas de Deus presentes na realidade, sobretudo no coração
de cada ser humano, em formas inteligíveis. O segundo, ecoando
o pensamento aristotélico, considerou que a graça de Deus pres-
supõe a natureza e, por isso, todo o saber científico é o caminho
para se chegar à verdade de Deus. Educar, nesse contexto, significa
também um voltar-se ao saber maior, compreendido culturalmente
como estabelecido de antemão, agora presente na proposta cristã.
Essa forma de pensar sustentou durante séculos a constituição
do ethos no Ocidente, que desenvolveu uma forma predominante
de educar: encontrar-se com a verdade e aprender por meio dela a
bem viver. De alguma forma, ela, a verdade, já estava lá. Esse hori-
zonte de compreensão, no final da Idade Média, no entanto, sofreu
uma profunda transformação. Foi bastante questionado com a tão
conhecida virada cartesiana.
Pensadores modernos, como René Descartes e Immanuel Kant,
instauraram um processo de crítica ao pensamento religioso de
seu tempo e consolidaram a racionalidade como “único” caminho
“razoável” de acesso à verdade, relegando o transcendente ao cam-
po da crença relativa e pessoal simplesmente. Colaboraram de for-
ma decisiva para o advento da “autonomia” do ser humano como
imperativo na constituição dos saberes e das relações sociais. Edu-
car, nesse contexto, deixou de ser somente uma busca da verdade
preestabelecida, mas um exercício de dúvida dos saberes cons-
tituídos até então e de construção das potencialidades infinitas
presentes no ser humano. Perscrutar o ser humano e suas relações
de interação com o mundo passou a ser o supremo ato educacio-
nal. Nesse terreno fértil, as ciências floresceram como um jardim
de possibilidades e aprofundar-se em cada ciência passou a ser,
para muitos, desde então, a função prioritária da educação.
Essa “autonomia” humana, no entanto, sofreu um golpe violen-
to ainda na modernidade; fato que, para muitos, abriu as portas
para o que se costuma chamar de “pós-modernidade”. Pensadores

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como Marx e Freud, para citar alguns, trouxeram à tona as relações
de interdependência do ser humano ao afirmar a dependência que
tem com o contexto social no qual está inserido, na relação que
tem consigo mesmo numa fonte inesgotável de mistério incons-
ciente e também em relação às demais pessoas. Um ser humano
que não tem a si mesmo nas mãos, mas que é parte de um todo
complexo. Pensadores posteriores, como Einstein e Edgar Morin,
solidificaram ainda mais a questão da “relatividade” da vida e de
sua interdependência em relação às diversas forças que compõem
o mosaico da existência. Educar, nesse âmbito, passou a ser o de-
safio maior de buscar a unidade do saber e da vida em relação ao
rizoma que entrelaça as diversas dimensões e especificações da
realidade. Os saberes e suas diversas áreas passaram a ser convi-
dados a compor a orquestra da vida, em sintonia. Nesse contexto,
educar e religar passaram a ser caminhos distantes que aos poucos
se encontram em pontos nevrálgicos da existência humana. Pontos
estes que pedem sentido profundo. Aqui, educação e religião vol-
tam a se visitar, após longos anos de separação, mas agora num
contexto rico de aprendizagem das potencialidades e dos limites
que a metafísica ofereceu na história. E com essa maturidade pró-
pria dos séculos, o cristianismo vê-se, nesse cenário, convidado a
servir à sociedade e à educação, tendo em vista a constituição do
ser humano íntegro, ser este que é apresentado nos evangelhos.
Considerando esses contextos, ao olhar para o tempo atual, tor-
na-se evidente um mundo plural, crítico, que valoriza a autonomia,
mas reconhece a interdependência; que busca sentido na unidade
de questões de pauta comum e exercita o respeito nas diferenças.
Complexidade e diversidade geram éticas e culturas. Feridas his-
tóricas de fundamentalismos religiosos, erros de absolutização de
questões teoricamente transcendentes, como o dogmatismo e o
“institucionalismo”, têm forçado os seres humanos a procurar as
respostas para as grandes questões existenciais, e também para
as menores, no campo do consenso. As religiões, e com elas tam-
bém a evangelização, passam pelo critério e filtro da ética para
serem aceitas como elementos constitutivos do favorecimento da
dignidade humana e, consequentemente, de qualquer processo

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Apresentação

educacional autêntico, multicultural. Nesse cenário, as ciências,


sobretudo sob a luz do exercício da bioética, e as questões ecoló-
gicas passam a possibilitar a ligação religião/evangelização com
sociedade, cultura e educação. Nesse “solo sagrado” das ciências,
as religiões são convidadas a se purificar dos preconceitos para
serem aceitas como molas propulsoras da busca sincera e plena do
conhecimento. Nessa relação saudável, dá-se, também, o reencon-
tro definitivo entre evangelização e educação. Fora dele, no tempo
atual, há polarizações. Esse contexto exige um “exorcismo” de nós
mesmos em relação ao fundamentalismo religioso, por um lado, e
à antiga ciência positiva e autocéfala, por outro. Ao mesmo tempo,
convida-nos à unidade no voo do saber alicerçado pelas duas asas
que rumam à verdade – a da razão e a da fé.
A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas
quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade. Foi
Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a
verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhe-
cendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre
si próprio.
(JOÃO PAULO II. Fides et Ratio, 1998.
cf. Êxodo 33, 18; Salmo 27/26, 8-9; 63/62, 2-3; João 14, 8; 1 João 3, 2)

As instituições confessionais de educação, sua


missão e alguns desafios
Uma instituição confessional tem razão e sentido próprios: ser
instância de vivência e perpetuação de um carisma. Há muitas con-
fessionalidades possíveis, em sentido amplo. Comumente, o termo
é aplicado para referir-se a instituições que têm, cada qual, deter-

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minada confissão religiosa. Entre as confissões religiosas, há diver-
sas expressões, construídas com base em formas diversificadas de
se vivenciar a relação humano-mistério. Nessas várias expressões,
há a religião cristã. O Cristianismo, por sua vez, embora confesse
a mesma fonte originária de fé, institui-se culturalmente por ra-
mificações diversas, como é o caso da vertente católica romana,
católica ortodoxa, ortodoxa autocéfala, Protestantismo tradicional
– Luteranismo, Calvinismo, Anglicanismo, entre outros.
Todas essas expressões confessionais têm um duplo dinamismo:
alimentam-se na fonte de um carisma fundante e empenham-se por
perpetuá-lo no tempo e no espaço. O carisma fundante de cada ins-
tituição confessional (religiosa) nasce de uma experiência humana,
contextualizada socialmente, vivida intensamente à luz da fé. É uma
experiência religiosa, que surge com base na realidade concreta. É
uma experiência concreta significada na fé. No caso do Cristianismo,
essa experiência é a de Cristo Jesus e da comunidade por ele atingida.
No Cristianismo, a figura de Cristo é central, referencial, indis-
pensável, pois, de outra forma, a própria instituição que o confessa
deixaria de “ser”. A identidade do Cristianismo é o Cristo. A ins-
tituição cristã, portanto, o conhece, o celebra (atualiza a memória
constantemente) e o vivencia em suas práticas. Dessa forma, per-
petua a experiência fundacional. Essa confessionalidade é explíci-
ta. As pessoas que a ela aderem o fazem em sua liberdade, uma
vez que a confissão é individual, única e intransferível. A institui-
ção, portanto, cria condições para que esse carisma se manifeste e
para que as pessoas possam vivenciá-lo por livre adesão. Há aqui
uma dimensão explícita de anúncio do carisma, da fé objetiva e de
condições para a vivência da práxis cristã. O anúncio explícito no
Cristianismo é para todos e vivenciado numa comunidade (institu-
cionalizada). Muitos aderem a esse anúncio e procuram fazer parte
da comunidade para buscar vivenciá-lo; outros optam por outras
formas de confessionalidades ou mesmo por não confessar nenhu-
ma fé. Olhando de dentro da instituição cristã, há aqueles que se
dizem cristãos e há muitos outros que seguem outras confissões.
Olhando de fora da comunidade cristã, veem-se muitas confissões
religiosas, entre estas, a dos cristãos.

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Apresentação

Entre as instituições confessionais, muitas são voltadas ao ser-


viço da educação. Comumente, estão à frente de instâncias formais,
como escolas, colégios ou universidades. Essas instituições têm em
sua identidade o DNA da educação, ou seja, são em primeiro lugar
multiplicadoras da arte de educar, e nisso se assemelham às de-
mais instituições de mesma natureza que não confessam explici-
tamente alguma pertença religiosa. Ao mesmo tempo, compondo
essa mesma identidade, encontram-se os elementos fundamentais
da fé que professam. Esses elementos são multiplicadores da ação
educativa e dão a essas instituições uma entonação própria, per-
ceptível em valores e comportamentos mensuráveis ou não pre-
sentes no dia a dia da comunidade educativa, bem como nas prio-
ridades e decisões tomadas.
Há que se considerar que nem sempre é simples harmonizar con-
fessionalidade e responsabilidade educacional, na dimensão mais
técnica. Em meio à pluralidade cultural e religiosa, é possível iden-
tificar facilmente tensões e dualismos que se intensificam: entre ca-
risma e instituição; missão e sustentabilidade; confessionalidade e
pluralidade. A relação entre significado e significante a respeito de
questões religiosas “fora do templo” é sempre ponto de atenção que
merece tratamentos especiais, pois é comum que seja erroneamente
estereotipada.
Esses dualismos podem ser identificados numa instituição edu-
cacional escolar, por exemplo, em um isolamento e certa “eman-
cipação” das áreas pedagógicas e administrativas em relação à
dimensão evangelizadora. Essa última fica geralmente relegada
a projetos periféricos de “pastoral” ou a eventos comunitários
pontuais. A superação desses dualismos implica uma segurança
identitária e uma saudável tradução dessa mesma realidade na
transversalidade dos processos educativos, abrangendo os âm-
bitos comunitário, administrativo, pedagógico e pastoral. Nesse
movimento, é justamente a afirmação da identidade o elemento
que sustenta um processo saudável de diálogo cultural. Na consti-
tuição dessa comunidade educativa, as relações morais e os prin-
cípios éticos que a regem se tornam elementos de critério para a
veracidade, credibilidade e competência da proposta confessional,

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visto que se constituem nos elementos capazes de gerar unidade
na diversidade, ou seja, os elementos comuns a todas as “culturas”
e diversidades ali presentes.
Entre todos os meios de educação, tem especial importância a escola,
que, em virtude da sua missão, enquanto cultiva atentamente as faculda-
des intelectuais, desenvolve a capacidade de julgar retamente, introduz
no patrimônio cultural adquirido pelas gerações passadas, promove o
sentido dos valores, prepara a vida profissional, e criando entre alunos de
índole e condição diferentes um convívio amigável, favorece a disposição
à compreensão mútua; além disso, constitui como que um centro em cuja
operosidade e progresso devem tomar parte, juntamente, as famílias, os
professores, os vários agrupamentos que promovem a vida cultural, cívica
e religiosa, a sociedade civil e toda a comunidade humana.
(CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Gaudium et Spes, 5, 2007)

Considerando esse cenário, espera-se que essas instituições se-


jam capazes de harmonizar confessionalidade e ciência/educação;
fé com ciências, culturas e formas diversas de vida. Por essa sa-
lutar aproximação, é possível deduzir uma relação mais fecunda
e coerente dessas mesmas instituições em meio à sociedade: po-
dem “funcionar” como um compasso que, em uma de suas pontas,
oferece estabilidade, pelos valores estáveis que consolidam a vida
humana – a ponta da agulha, os valores cristãos –; na outra, gera
agilidade, diálogo e criação de novas formas de atuar no mundo – a
ponta do lápis, a mobilidade e a renovação cultural.
Desta forma, essas instituições têm também um papel social,
cidadão, pertinente à comunidade humana e à busca da verdade,
mas ao mesmo tempo um papel profético, libertador, crítico, focado
na busca de sentidos, integral e integrador, digno e humano. Nesse
itinerário, mais uma vez, pode-se afirmar que a ética, mais precisa-
mente por meio da bioética, pode ser o elo indispensável e oportu-
no entre essas duas realidades (confessional e científica) ao interior
dessas instituições, chegando mesmo a ser considerada filtro e cata-
lizador nesse processo das boas práticas.
Essa ética, como critério de confessionalidade, é caminho tam-
bém para tornar a identidade (religiosa e científica) dessas institui-
ções algo integrado em todos os processos educativos, tornando a
fé não somente um elemento “terceirizado” e relegado à “sacristia”
da vida. Ao contrário, colocando-a no centro, como força que po-

14
Apresentação

tencializa os elementos culturais que geram evolução da comuni-


dade humana e socioambiental.
No caso das instituições confessionais cristãs católicas, vale ainda
ressaltar que a Conferência de Aparecida afirma que cabe à Igreja
insistir no autêntico fim de toda escola, para que se configure um
lugar privilegiado de formação e promoção integral da vida. Para tan-
to, constituem-se em pressupostos para esse desenvolvimento alguns
requisitos mínimos, comum a todas as pessoas envolvidas com a edu-
cação: a assimilação sistemática e crítica da cultura; a unidade do
conhecimento às diversas dimensões da vida, aproximando-o da sa-
bedoria acumulada pela humanidade; a consi-
deração de todas as áreas de conhecimento
Cf. Documento de Apare-
e disciplinas como saberes que devem ser cida, n. 329.
encharcados por valores e verdades con-
solidados no tempo como promotores de
vida. Dessa forma, a orientação eclesial não
pode ficar fechada nela mesma. Essa expertise, unida às demais con-
fessionalidades, é chamada a ser católica no sentido pleno do termo,
ou seja, a ser universal, a estender-se e ecoar nos âmbitos vários da
sociedade. Isso é também anúncio. Falar e fazer pastoral implica as-
sumir a identidade católica sem nenhum receio de “ensimesmamen-
to”, mas, ao contrário, como fonte de renovação permanente. Nesse
âmbito, é salutar compreender a mensagem do evangelho como ele-
mento fundante, crítico, profético, renovador e ressignificador das
culturas – uma fonte inesgotável para a educação.
Finalmente, por uma razão particular pertence à Igreja o dever de educar,
não só porque deve também ser reconhecida como sociedade huma-
na capaz de ministrar a educação, mas sobretudo porque tem o dever
de anunciar a todos os homens o caminho da salvação, de comunicar
aos crentes a vida de Cristo e ajudá-los, com a sua contínua solicitude,
a conseguir a plenitude desta vida. Portanto, a Igreja é obrigada a dar,
como mãe, a estes seus filhos aquela educação, mercê da qual toda a
sua vida seja imbuída do espírito de Cristo; ao mesmo tempo, porém,
colabora com todos os povos na promoção da perfeição integral da
pessoa humana, no bem da sociedade terrestre e na edificação dum
mundo configurado mais humanamente.
(CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II. Gaudium et Spes, 3, 2007)

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Uma proposta de educação
baseada na realidade da fé
Que lugar ocupa a dimensão da fé num processo educativo?
Essa é certamente uma questão de difícil resposta, ou, ao menos,
complexa. Podemos, no entanto, buscar apoio na tradição teológi-
co-pastoral consolidada e acrisolada na história do Cristianismo.
Trata-se de uma proposta pedagógica fundamentada na ação de
Jesus Cristo e que tem como base e objetivo o envolvimento in-
tegral da pessoa com o mistério, em vista da transformação, para
melhor, da própria vida.
Essa proposta pedagógica traz a dimensão da fé como elemento
central de qualquer processo de evolução e aprendizagem humana.
É, no entanto, realizada em três dimensões. Como ponto de partida
para sua compreensão, busquemos nos evangelhos, embora aqui
de maneira breve e objetiva, a sua fundamentação.
Na ação de Cristo, é possível identificar grande riqueza e va-
riedade pedagógica, sempre partindo do princípio da encarnação.
Sem tentar diminuir essa riqueza, estabelecemos aqui uma leitura
desse agir, considerando um tríplice dinamismo:
a) Descoberta e aceitação;
b) Entendimento de sua proposta;
c) Adesão a ele por meio do seguimento, da atitude concreta.
Esses três movimentos são necessários para que ocorra um au-
têntico encontro com Cristo. Um movimento de apaixonar-se, de co-
nhecer a pessoa amada e de adotar atitudes de amor para com ela.
Tomemos, como exemplo, o texto da “Mulher Samaritana”, pre-
sente no evangelho de João, capítulo 4. Ela se encontra com Cris-
to, compreende a sua proposta e toma a atitude de anunciá-lo.
Seguindo a mesma ordem dos fatos, ela se apaixona, compreende
e age. Vê-se envolvida em suas dimensões emocional, cognitiva e
atitudinal. Assim aconteceu com todos os que se “encontravam”
com Cristo, como Zaqueu, Lázaro, Mateus, Maria Madalena, Pau-
lo e tantos outros. Essa lógica está também presente em diversos
trechos dos evangelhos: passagem de Emaús (LUCAS 24) – “nos

16
Apresentação

ardia o coração... partiu o pão e seus olhos se abriram”; “explicava-


-lhes as escrituras...”; “voltaram para anunciar...” –; na passagem
da multiplicação dos pães (JOÃO 6) e em tantas outras. Portanto,
não seria equivocado dizer que a pedagogia de Cristo envolvia três
toques, três linguagens: a linguagem do coração, a linguagem da
cabeça e a linguagem das mãos. A ordem dessas dimensões não é
necessariamente linear, é circular e dinâmica.
Ao longo do Cristianismo, a ação pastoral, sobretudo desde os
tempos do catecumenato, nos primeiros séculos, contemplou essas
dimensões. A fides qua, entendida como dimensão fiducial, foi ele-
mento central no processo de conversão e tantas vezes associada
a resultados de ações querigmáticas. Essas ações, segundo o Docu-
mento de Aparecida, não podem ser entendidas como uma etapa,
mas como o fio condutor de todo processo evangelizador. Ao lado
do fides qua sempre esteve o fides quae; ou seja, o passo necessário
de aprofundamento da experiência religiosa – aprofundamento que
se dá pela apreensão do conteúdo da fé. É a fé palavra, elemento
essencial do ato de fazer o evangelho viver no espaço-tempo. E, por
fim, foi sempre evidente na história eclesial uma complementação
necessária dessas dimensões descritas: a fé prática. Essa terceira
dimensão tornou-se critério para legitimação das anteriores (cf.
MATEUS, 25). Ela é de fato o elemento concreto da transformação
pessoal e social, é campo de aplicação da
Documento de Aparecida,
fé e vetor de sua multiplicação. n. 278: O kerygma não é
Portanto, essa metodologia, dinâmi- somente uma etapa, mas o
fio condutor de um proces-
ca e antropologicamente abrangente, é so que culmina na maturi-
sempre atual. Ousaria dizer: hoje muito dade do discípulo de Jesus
necessária. O encontro com Cristo, numa Cristo. Sem o kerygma,
os demais aspectos desse
linguagem mais teológica, ou o encontro processo estão condena-
com o sagrado, noutras linguagens, se dá dos à esterilidade, sem
corações verdadeiramen-
com base na harmonização entre essas
te convertidos ao Senhor.
três dimensões. Só por meio do kerygma
acontece a possibilidade
Esta obra que aqui apresento está or-
de uma iniciação cristã ver-
ganizada com a finalidade de não seguir dadeira. Por isso, a Igreja
essa metodologia, pois ela mesma não precisa tê-lo presente em
todas as suas ações.
gera as situações reais da vida, mas de

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forma que auxilie na compreensão dessas três dimensões. Na sua
primeira parte, evidencia a linguagem da cabeça, remete-se ao es-
tudo no âmbito geral da racionalidade, que envolve os princípios
da educação da Igreja e da sociedade. A segunda parte se refere
à linguagem do coração e provoca o estudo da ação pastoral na
escola católica, ao lado do ensino religioso escolar. Refere-se ao
cuidado, à paixão e ao envolvimento na missão. Na sua terceira
parte, trata da linguagem das mãos, enfocando o estudo do agir
metodológico, sobretudo destacando os códigos de trabalho com a
juventude e com os educadores, alimentados sempre pela Sagrada
Escritura.
Por fim, considerando a pertinência das temáticas reunidas nes-
te texto, bem como o envolvimento prático das pessoas que redigi-
ram o presente conteúdo, creio que temos um bom itinerário para
alimentar discussões em vista do incremento das ações pastorais
já realizadas em nossas realidades.
Que Jesus Cristo, o Divino Mestre, seja nosso guia no serviço
da educação.
César Leandro Ribeiro
Assessor Nacional para a Pastoral da Educação – CNBB

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SUMÁRIO

Educação, Igreja e sociedade .............................. 21


1. Evangelização: uma tarefa da Igreja
com espaço na educação............................................................ 23
2. Fundamentos da educação ........................................................ 43
3. Desafios da educação na sociedade contemporânea ........... 64
4. Concepção de educação para a Igreja...................................... 79

Fundamentos na educação para pastoral ............. 97


5. Conceitos fundantes .................................................................... 99
6. Escola católica: um espaço de pastoral ................................... 113
7. Um olhar de organização sobre a pastoral escolar e a
pastoral da educação ................................................................. 125
8. Ensino Religioso nos espaços escolares ................................. 144

Metodologia da pastoral....................................... 159


9. Perspectivas pedagógico-pastorais para a evangelização
juvenil na escola católica ............................................................ 161
10. Beber em sua própria fonte: espiritualidade docente ........... 181
11. Leitura orante: leitura e experiência da Palavra de
Deus na escola católica................................................................ 198

Autores ..................................................................... 215

Referências ............................................................ 218