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Relig D'Ag Bees oa S Reto 18 ‘eopodgatreoesgea -swszlognguedres com 209 pone “io ria dn 208) ae eee ‘Tran: Mel ers ein ip: Cat Cha Vaconcln ore ftpmais Vesa Bsc — mek "Si Se (© Regio D'Apan tres, Mio 2010 oi mrcoen | cms ns oh Sipps Filosofia Chime Caputo da Histra do Mundo as Principas Obras Citadss Criagdio e Salvagio |. Os profetas desaparecem cedo da historia do Ocidente. E verdade que no & possivel entender o judaismo sem a do nabi, se os livros proféticos ocupam na Brblia um ‘central em todos os sentidos, nfo € menos verdade que, 0 interior do judafsmo, operam precocemente forgas que ‘A Timitar 0 profetismo no exercicio € no tempo. Atra- rabinica tende assim a encerrar o profetismo num pas- ‘deal que se conclui com a primeira destruigo do Tem- fem 587 aC. «Depois da morte dos iltimos profetas, . Zacarias ¢ Malaquias, 0 sopro sagrado ,ensinam 0s ra- 5, wafastou-se de Israel; todavia as mensagens celestes game através da at Kol» (literalmente «a filha da voz>, € a tradigfo oral ¢ o trabalho de comentério e de inter- 40 da Torah). No mesmo sentido, o crstianismo reco- Ihece a fungao essencial da profecia e consti até a relagéo “entre 0 Antigo e o Novo Testamento em termos proféticos. ‘Mas, precisamente uma vez que © messias apareceu na Terra © cumpriu a promessa, o profeta jé no tem razio de ser € Paulo, Pedro ¢ os seus companheiros apresentam-se como ‘apstolos (isto é «enviados») e nunca como profetas. Por is- So, na tradigfo crista, aquele que assume a figura do profeta 6 pode ser olhado com suspeita pela ortodoxia, Também ne- Ta, aquele que de algum modo quer associar-se & profecia s6 10 Giorgio Agamben 6 pode fazer através da interpretagio das Escrituras, lendo-as fm termos novos ou resttuindo-thes a significagdo original perdida. Como no judaismo, a hermenéutiea tomou igual- ‘mente no cristianismo o lugar do profetismo,¢ a profecia s6 sob a forma da interpretagao pode ser exercida NNaturalmenteo profeta nem por isso desapareceu por com- pleto da cultura ocidental. Sob disfarces de varias especies, continua diseretamenteo seu trabalho talvez também fora do | Ambito hermenéutico em sentido estrito. Assim Aby Warburg classificava Nietzsche ¢ Jakob Burckhardt como dois tipos ‘opostos de nabi,o primeiro virado para o futuro e o segundo ppara o pasado; ¢ Michel Foucault, na ligdo de 1 de Fever 10 no Collége de France, distinguia quatro figuras da veridi cidade no Mundo Antigo: 0 profeta,o sabio, 0 técnico eo par- resiasta,¢, na ligGo seguinte, convidava-nos a retragar a sua ddescendéncia na histéria da filosofia moderna, Resta, todavia, ‘que, pelo menos em termos gerais, ninguém se sentria hoje iclinado a reivindicar para si no sentido imediato a posigio do profeta, 2 sabido que, no Isto, o rofetadeserpenha uma fun- 0 se possivel ainda mais essencial. No 86.08 proftas bi blicos em sentido estito, mas também Abraio, Moise Je- sus sto profetas caractrizados.E, todavia, também aqui 0 profeta por exccléncia, Muhammad, &«o sclo da profecia», aguele que enceradefinitivamente com o seu livro a histria do profetismo (que também aqui seeretamente permanece através do comentérioe da interpretagio do Corio), contudo signfiatvo que a tradgioislimca gue indis- soluvelmente a figura e a fungéo do profes a wma das duas obras ou aegdes de Deus. Segundo esta doutin ha em Deus , a sua «contemporaneidade» em relago ao pre~ sente, numa desconexio ¢ num desfasamento. Aquele que pertence deveras ao seu tempo, que & deveras contemporneo 6 alguém que nao coincide perfeitamente com ele nem se ‘adapta as suas exigéncias ¢ 6 por isso, nesse sentido, inactual: ‘mas, precisamente por isso, precisamente através do seu dis- tanclamento ¢ do Seu anacronismo, é capaz de perceber captar o seu tempo melhor do que outros. Esta ndo-coincidéncia, esta diseronia, ndo significa, natu- ralmente, que o contemporineo seja aquele que vive num ou- {to tempo, um nostélgico que se sinta mais em casa na Atenas de Péricles ou na Paris de Robespierre e do Marqués de Sade do que na cidade e no tempo em que Ihe foi dado viver. Um hhomem inteligente pode odiar o seu tempo, mas sabe em to- do 0 caso que Ihe pertence irrevogavelmente, sabe que no pode fugir ao seu tempo. ‘A.contemporaneidade 6, assim, uma relago singular com 0 nosso proprio tempo, que a ele adere e dele se distancia em simultneo; mais precisamente, ¢ essa relagdo com o tempo ‘que a ele adere através de wm desfasamento e de wm anacro- nismo. Os que coincidem demasiado plenamente com a 6po- «2, que condizem em todos os pontos perfeitamente com ela, no sio contemporineos, porque, precisamente por isso, nfo ‘conseguem vé-la, nfo podem fixar 0 olhar sobre ela, a . Em 1923, Osip Mandelstam escreve um poema que se “«O Século» (mas a palavra russa vek também sign xépoce»). O poema contém niio uma reflexdo sobre 0 sé- Jo, mas sobre a relagio entre o poeta e o seu tempo, isto € 4 contemporaneidade. Nao se trata do «século», mas, Meu século, minha fea, quem poderd othar-te no fundo dos othos soldar com o seu sangue 1s vértebras de dois séculos? poeta, que pagaria com a vida a sua contemporaneidade, ue deve fixar o seu olhar nos olhos do seu século- soldar com 0 seu sangue a coluna despedagada do tem- (0s dois séculos, os dois tempos, nZo so somente, como ve quem sugerisse, 0s séculos x1X e XX, mas também e so- do 0 tempo da vida de cada um (lembremos que o termo -Saeculum significa originalmente o tempo da vida) e o @ hist6rico colectivo, a que chamamos, neste caso, 0 s6- jo Xx, cuja coluna — como aprendemos na tltima estrofe Poema — foi quebrada. © poeta, enquanto contempor’- 9» € esta fractura, é aquilo que impede o tempo de se com- of €, 20 mesmo tempo, o sangue que deve suturar a ruptura ;paralelismo entre o tempo — e as vértebras — da criatura ¢ eas vértebras — do século consttui um dos te- essenciais do poema: Enquanto vive @criatura deve carregar as suas vértebras, 1s vagas brincam ‘com a invistvelcoluna vertebral Como uma tenra cartilagem ifarit 60 séeulo recém-nascido da terra 2 Giorgio Agamben (© outro grande tema — também ele, como 0 precedente, ‘uma imagem da contemporaneidade — & 0 das vértebras que- bradas do século e da sua sutura, que € obra de cada um (nes- te aso, do poeta) ara libertaro século acorrentado para dar inicio ao nove mundo é necessdrio reunir com a flauta (0s joethos nodosos dos dias. Que estamos diante de uma tarefa inexequivel — ou, seja ‘como for, paradoxal —, prova-o a iltima estrofe, que remata ‘© poema, Nio s6 a época-fera tem as vértebras quebradas, co- ‘mo 0 século, vek, recém-nascido, por meio de um gesto im- ppossivel para quem tem quebrada a coluna, quer voltar-se pa- ‘1 tris, contemplar 0 Seu proprio rasto e, assim, mostra 0 seu rosto demente: ‘Mas tens partida a coluna ‘meu pobre século formidével Com um sorriso insensato ‘como uma fera outrora flexivel volias-te para trds,fracoe cruel, ‘acontemplaro teu rasto. 3.0 poeta — o contemporineo — deve fixar 0 olhar no seu tempo. Mas que vé quem vé o seu tempo, o sorrso demente do seu século? Chegado a este ponto, gostaria de vos propor uma segunda definigio da contemporaneidade: contemporiineo alguém que fixao olhar no seu tempo, para perceber ndo as suas Iuzes, mas o seu escuro, Todos os tempos sZo, para quem expe- rimenta a sua contemporaneidade, tempos obscuros. O contem- porlneo é, precisamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, ‘que 6 caps de escrever mergulhando 0 aparo na treva do pre- sente, Mas que significa «ver uma teva», «perceber 0 escuro»? a "Via primeira resposta 6-n0s sugerida pela neuofisiologia Aja Que acontece quando nos ackamos num lugar sem wis goto fechamos osolos?O que € 0 esc que en ‘Gunbs? Os neurofisilogistas dizem-nos que a auséncia I desinibe uma sri de c6lulas periféricas da retina, as previsamente,ofcells, que enram em actividad essa expécie particular de visio aque chamamos (O escuro nlo €, portant, um conceit privatvo, a rauséncia de lz, qualquer cosa como uma nio-islo, 1 resultado da actvidade das of-cels, um produto da retina O qu signifi, se volarmos agora nossa tse { esctro da contemporaneidade, que peoeber esse es- ‘nfo € uma forma de inécia ou de passividade, mas im- tua actividade e uma aptido patculares, qv, n0 nos- Seaso, equivalem a netralizar as luzes que provém da ara Jescobira sua teva, o su escuro especial, que todavia, separivel das referidas luzes. pode dizer-se contemporaneo quem no se deixa cegar Tures do século © consegue apreendernelas a parte da bra sua obscuridade intima. Mas com isto no respon- mos anda a nossa perguna, Porque devera interessar-nos euitmos perecber as trevas que provém da época? NSo orventurao escuro uma experiéncia anima e por de- Tmpenetrvel, qualquer cosa que no se dirge ands pode, portato, dize-n0s respeito? elo contri, © porineo 6 aguele que pecebe 0 escuo do se tempo o qualquer coisa que Ihe diz respeitoenio para de qualquer coisa que, mais do que toda a lz, se ende- a dircotaesingularmente a cle. E contemporineo quem - em pleno rosto 0 fixe de treva que provém do seu 4. No firmamento que olhamos & noite, as estrelasfulguram ‘eireundadas de uma treva densa. Uma ver que no universo hi ‘um nimero infinito de galsxias e de corpos Tuminosos, 0 ¢s- Giorgio Agamben ‘euro que vemos no e&u € qualquer coisa que, segundo os cien- tists, necessita de uma explicagio. E precisamente da expl cago que a astrofisica contemporinea dé deste escuro que {gostaria agora de vos falar. No universo em expansio, as ga- léxias mais distantes afastam-se de nds a uma Velocidade tio forte, que a sua luz nio consegue alcangar-nos. Aquilo que Percebemos como 0 escuro do céu esta luz que viaja velo- cfssima direita a nds ¢ todavia nio pode alcangar-nos, porque as galdxias de onde provém se afastam a uma velocidade su- perior a da luz Pereeber no escuro do presente esta luz que procura al- cangar-nos e no pode fazé-Io, eis o que significa sermos con- temporineos. E por isso que os contemporiineos slo raros. 5 € por eso que sermoscontemporineos é, anes do mas luma questo de coragem: porque significa sermos capazx ‘los de iar oolhar no ecu da epoca, mas tanbem de pereeber nesse escuro uma luz que, dirigindo-se a nds, se afasta infinitamente de n6s. Quer dizer ainda: sermos pon- tus num enconto que s6 pe aha Por isso que o presente que a contemporaneidade perce- be tam as venebratquebradas.O nosso tompo,o preene no € $6, com efeito,o mais longinguo: mas em caso nenhum pode alcangar-nos. A sua coluna esté partida e nés ocupamos ‘exactamente ponto da fractura. Por isso somos, apesar de ‘tudo, seus contemporineos. Entendamos bem que 0 encontro {que esté em questo na contemporaneidade nao tem lugar simplesmente no tempo cronol6gico: 6, no tempo cronolégi- 0, qualquer coisa que urge dentro dele e o transforma. E es- ta.urgéncia é a intempestividade, o anacronismo que nos per- ‘mite captar 0 nosso tempo sob a forma de um «demasiado cedo» que é, também, um «demasiado tarde» de um «jé» que também, um «ainda no». E,em simultineo, reconhecer na treva do presente a luz que, sem nunca poder alcangar-nos, «std perenemente em viagem para ns. ‘A moda 6 um bom exemplo dest especial experiénia do po a que charmamos a contemporaneidade. © que define a Ida é o facto de la introduzir no tempo uma descontinuida- peculiar que o divide segundo a sua actalidade ou ina Made, © seu Ser ou 0 seu nio-ser-j-na moda (na moda € o simplesmente de moda, que se refere apenas 4s coist), ‘cesta, apesar de subtil, 6 clara, no sentido em que aque- Mave devem percebé-la a pereebem sem falta, precisa: esse modo, atestam o seu ser na moda; mas quando objectivécla¢ fixé-la no tempo cronolégico,re- se incaptivel, Antes do mais 0 «agora» da moda, 0 ins tin que ela chega a ser, no 6 identificével por meio de metro algum. Este «agora ¢ talvez 0 momento em que sta concebe o trago, o cambiante que definiré 0 novo da pega de roupa? Ou 0 momento em que o confia 20 nador e depois ao atelier de costura que confeccionaré o 0? Ou, antes, o momento da passagem de modelos, 6 peca de roupa é envergada pelas inicas pessoas que 0 sempre e s6 na moda, as mexieos, que, no entanto,pre- te por isso, nunca o esto deveras? Porque, em sitima cia, ¢ estar na moda do «olde» ou da «lina» depen- ri do facto de as pessoas de came eoss0, diferentes das mo- os — essas vitimas sacrifiiais de um deus sem rosto —, 0 conhecerem como tal e dele fazerem a roupa que vestem. “O tempo da moda 6, deste modo, constituivamente um mpo que se antecipa a si proprio e, precisamente por iss0, também sempre atrasado, tem sempre a forma de um i- fr incaptavel entre um «ainda no» © um «jé nfo>. E pro- 1 que, como sugerem os tedlogos, tal depend do facto de ‘moda, pelo menos na nossa cultura, ser uma marca teol6g :daroupa, que deriva da circunstancia de a primeira pega de upa ter sido confeccionada por Adio e Eva depois do peca- “do original, sob a forma de uma tanga vegetal entretecida {60m fothas de figueira(precisemos que as pegas de roupa que Yestimos derivam nio desta tanga vegetal, mas das tunicae 26 Giorgio Agamben pelliceae, das pesas de roupa feitas da pele de animais que Deus, segundo Gen. 3, 21, faz. com que 08 nossos progenito- res enverguem, como simbolo tangivel do pecado e da morte, ‘no momento em que os expulsa do Paraiso). Em todo 0 caso, seja qual for a razio, 0 «agora», kairos da moda é incapti- vel: a frase «neste instante eu estou na moda» é contraditéria, porque no momento em que o sujeito a pronuncia, est jé fo- ra de moda. Por isso, o estar na moda, como a contempora- neidade, comporta uma certa «folga», um certo desfasamen- to, em que a sua actualidade inclui dentro de si uma pequena parte do seu exterior, uma tonalidade de démodé, De uma mu- Ther elegante dizia-se na Paris do século x1x, neste sentido: Elle est contemporaine de tout le monde, Mas a temporalidade da moda tem um outro carécter que a aparenta a contemporaneidade. No proprio gesto em que 0 seu presente divide o tempo segundo um «jf nfo» e um «ain- {da nao, institui com estes «outros tempos» — decerto com 0 ppassado e, talvez, também, com o futuro — uma relagdo par- cular. Ou seja, pode «citar» e, desse modo, reactualizar qualquer momento do passado (0s anos 20, 0s anos 70, mas também a moda Império ou neo-cléssica). Ou seja, pode por cm relaglo aquilo que inexoravelmente dividiu, reclamar,re- evocar e revitalizar aquilo que, todavia, declarara morto, 6. Esta relagio especial com o passado tem ainda outro as- Pecto. A contemporaneidade inscreve-se, de facto, no presen- te assinalando-o acima de tudo como arcaico e s6 quem per- ceebe no mais modemo e recente os indicios e as marcas do arcaico pode ser seu contemporaneo. Arcaico significa: pré- ximo da arché, isto € da origem. Mas a origem nao se situa ‘somente num passado cronol6gico: & contemporsinea do devir histérico e nio para de operar neste, como 0 embrido conti- ‘nua a agir nos tecidos do organismo maduro e a crianga na vi- dda psiquica do adulto. O afastamento — e, em simultineo, a — que definem a contemporaneidade tém 0 seu a meio ets provided rgem, que em nxn tro ponto pulsa com mais forga do que no presente. Quem ‘pela primeira vez, o chegar por mar ao romper do dia, 0s unha-céus de Nova Torque, pereebeu subitamente esta fa- arcaica do presente, esta contiguidade com a ruina que as temporais do 11 de Setembro tomaram evidente pa- historiadores da literatura e da arte sabem que entre 0 sco © 0 moderno hi um encontro secreto, nfo tanto por- Drecisamente as formas mais arcaicas parecem exercer ‘0 presente um fascinio particular, como porque a chave p modemo ests escondida no imemoral e no pré-histrico. ‘© mundo antigo no seu termo voltase, para se reen- pra os priméndios; a vanguarda, que se perdeu no po, poe-se no rato do primitivo edo arcaico.E neste sen- ‘que se pode dizer que avin de acesso a0 presente tem ne~ forma de uma arqueologia. Que nao regride na direegdo de um passado remoto, mas na daquilo ‘no presente em caso algum podemos viver e que, perma- no vivido, 6 incessantemente sorvido de novo na o da origem, sem nunca poder aleangé-la. Porque © ido 6 mais do que a parte de no vivido de todo 0 vi doe aquilo que impede o acesso ao presente & precisamen- a massa do que, por qualquer razio (0 seu carter traumé- 3. sua excessiva vizinhanga), nele nfo conseguimos ver. A atengdo a este nfo-vivido && vida do contemporineo. Sermos contemporsineos significa neste sentido, tomarmos ‘um presente em que nunca estivemnos | 7-Aqueles que procuraram pensar a contemporaneidade, s6 ‘Puderam fazé-Io na condi de a cindirem em varios tempos, “de introduzirem no tempo uma des-homegeneidade essencial. Quem pode dizer «0 mew tempo» divide 0 tempo, inscreve niele uma cesura e uma descontinuidade; e, todavia, precisa- ‘mente através desta cesura, desta interpolago do presente na a) Giorgio Agamben hhomogeneidade inerte do tempo linear, © contemporsineo pde «em acgio uma relagio especial entre os tempos. Se, como. ‘mos, foi o contemporineo que quebrou as vértebras do seu tempo (ou, em todo o caso, percebew a sua falha ou ponto de ruptura), faz desta fractura © lugar de um encontro e de um confronto entre os tempos e as geragdes. Nada mais exem- plar, neste sentido, do que 0 gesto de Paulo, no ponto em que ‘experimenta e anuncia aos seus irméos essa contemporanc ‘dade por exceléncia que & o tempo messifinico, © serem con- temporineos dos messias, a que chama precisamente o stempo-de-agora» (ho nyn kairos). Este tempo nio s6 € ct0- nologicamente indeterminado (a parusia,o regresso do Cris- to que assinala o fim esté sem divida préximo, mas incal- culével) como tem a capacidade singular de pér em relagdo consigo cada instante do passado, de fazer de cada momento ou episédio da narrativa brblica uma profecia ou uma prefi- {guracdo (typos, «figura», & 0 termo que Paulo privilegia) do presente (assim Adio, através do qual a humanidade recebeu ‘a morte e 0 pecado, € «tipo» ou figura do messias, que leva ‘0s homens & redengdo e & vida), (© que significa que 0 contemporinco nio é somente aque- le que, percebendo o escuro do presente, capta a sua luz in- vendavel; 6 também alguém que, dividindo e interpolando o tempo, esté em condigdes de o transformar e de o pdr em re- Jago com os outros tempos, de ler de modo inédito a sua his- ‘tia, de a «citar» segundo uma necessidade que néo provém ‘de modo algum do seu arbitrio, mas de uma exigéncia & qual ‘ele néio pode responder. E como se essa indivisivel luz que é ‘o-escuro do presente projectasse a sua sombra sobre 0 passa- do e este, tocado por esse feixe de sombra, adquirisse a caps ‘cidade de responder as trevas da hora. Michel Foucault devia ter em mente qualquer coisa do género quando escrevia que as suas indagagdes historicas sobre 0 passado so apenas a sombra projectada pela sua interrogaglo tedrica do presente, E Walter Benjamin, quando escrevia que a indicaglo histéri- -contida nas imagens do passado mostra que estas s6 ace- Mt legiilidade num determinadlo momento da sua hist6- iE da nossa capacidade de darmos ouvidos a essa exi ‘@ a essa sombra, de sermos contemporineos ndo s6 do ‘séeulo ¢ do «agora, mas também das suas figuras nos se documentos do pussado, que dependerio 0 éxito ou 0 {do nosso seminar. K. 1. Kalumniator fo processo romano, no qual a acusagio publica tinha limitado, a ealdnia representava para a admini ida justiga uma ameaga tio grave, que 0 falso acusa- ppunido pela marcagao na sua fronte da letra K (ini- ‘kalumniator). Cabe a Davide Stimilli o mérito de ter ‘a importincia deste facto para a interpretagio do de Kafka, que o incipit apresenta sem reservas co- pprocesso calunioso («Alguém devia ter caluniado KK. porque, sem que ele tivesse feito coisa alguma de ‘certa manhi foi detido»). K., sugere Stimili, lembran- Kafka estudara hist6ria do Direito Romano quando wva para exercer uma profissio jurfdica, nfo signi segundo a opiniio comum que remonta a Max Brod, i;mas calinia. 2. Que a calinia represente a chave do romance — ¢, tal~ 2, de todo o universo kafkiano, tio potentemente marcado ppoténcias miticas do direito — torna-se, contudo, ainda is esclarecedor se observarmos que, a partir do momento ue a letra K. ndo substitu simplesmente kalumnia, mas ‘Se refere ao kaluniniator, isto 6, ao falso acusador, tal s6 po- Pe Giorgio Agamben ‘de significar que 0 falso acusador € o prdprio protagonista do romance, © qual, por assim dizer, intentou um processo calu- nioso contra si préprio. O «alguém» (jemand) que, com a sua calinia, deu inicio ao processo, € 0 proprio Josef K. Mas tal é precisamente o que uma leitura atenta do ro- ‘mance mostra para além de qualquer divida. Embora, com feito, K. saiba desde o inicio que nfo é de facto certo que o tribunal o tenha acusado («Ndo sei se vocé foi acusado», diz-he jéna primeira conversa 0 inspector) € que em todo 6 caso a sua condigio de «acusado» nio implica mudanga al- guma na sua vida, ele procura por todos os meios penetrar nos edificios do tribunal (que nao o so, mas se encontram «em s6tios, em arrecadagGes ou casas de lavar — que, talvez, 6.0 seu olhar transforma em tribunais) e provocar um peo- cesso que os juizes nio parecem ter qualquer intengdo de Iniciar. Que nao se trata, de resto, de um verdadeiro proces- 50, mas que o processo s6 existe na medida em que ele 0 re- conhece, € 0 que 0 proprio K. concede temerariamente 20 Juiz de instrugio durante o primeiro interrogatério. E, toda- via, ndio hesita em dirigir-se ao tribunal ainda que néo tendo sido convocado e, precisamente nessa ocasio, admite sem nevessidade a condigao de acusado. Tal como, durante a conversa com a Menina Buster, nfo hesitara em sugerit- -lhe que 0 acusasse falsamente de agressio (assim, de certo ‘modo, se autocaluniando). E é isso mesmo que, em iltima analise, 0 capelio da prisio dé a entender a K. no final da sua longa conversa na catedral: «O tribunal nada quer de ti aceita-te quando vens, deixa-te ir embora quando te vais». Ou seja: «O tribunal néo te acusa, no faz mais do que aco- Ther a acusagdo que te fazes ati préprion. 3. Cada homem intenta um processo calunioso contra si proprio. E este 0 ponto de partida de Kafka. Por isso 0 seu luniverso nio pode ser trégico, mas somente cémico: a culpa no existe — ou, antes, a dnica culpa é a autocalinia, que 33 no acusarse de uma culpa inexistente (isto é, da sua mnocéncia,e€ este 0 gesto c6mico por excelencia). a ancora com o principio, enunciado noutro lugar por exundo o qual «o pecado original, «antiga injustica mahomem cometeu, consste na acusagio que faze da qual secate, de Ihe ter sido feita uma injustica, de 0 pecado Her sido cometido conta ele. Também aqui, como na fr eulpa no é a causa da acusaglo, mas identifica i ealinia, com efeito, se 0 acusadorestiver convent Mocéncia do acusado, se acusar sem que haja uma cul- demonstrat. No caso’ da autocalnia, esta convicgdo se a0 mesmo tempo necesséria e impossivel. O acusa- “pla em que se autocalunia, sabe perfeitamente es- mente, mas, na medida em que se acusa, sabe igual- ‘bem ser eulpado de caltnia, merecero seu labéu. Tal € wo kafkiana por exceléncia. Mas porque é que K. — que cada homem — se autocalnia, se acusa flsa- 2 A calinia era percebida pelos juristas romanos como ‘cormupgio (usavam 0 termo temeritas, de temere, «is ce- 9 acaso», etimologicamente aparentado com treva) da fio. Mommsen observava que 0 verbo accusare no pa- ‘ser na origem um termo técnico do direito e, nos teste mais antigos (por exemplo em Plauto e Teréncio), & is usado em sentido moral do que juridico. Mas preciss- nesta sua fungéo nos confins do dreito, a acusagio re- ‘asua importincia decisiva (© pprocesso romano tem inicio, com efeito, com a nominis “delatio, a inscrigio, a cargo do acusador, do nome do denun- Kado na lista dos acusados. Accusare deriva etimologiea- “mente de causa ¢ significa «por em causa». Mas causa é,em ‘certo sentido, o termo juridico fundamental, porque nomeia Tmplicagio de qualquer coisa no direito (como res significa @ si Giorgio Agamben implicagdo de qualquer coisa na linguagem), 0 facto de qual- {quer coisa ser fundamento de uma situacdo juridica. Nesta perspectiva, é instrutiva a relagdo entre causa e res, que, em latim, significa «coisa, assunto». Ambas pertencem 80 voca- bbuldrio do dreito e designam o que esté em questio num pro- ccesso (ou numa relagdo juridica). Mas, nas linguas neolatinas, ‘causa substitui-se progressivamente a res e, depois de ter de- signado na terminologia algébrica a ineégnita (do mesmo ‘modo que res, em francés, sobrevive somente na forma rien, ‘«nada»), df lugar a0 termo «coisa» (chose em francés). A «coisa», essa palavra tio neutra e genérica, nomeia, na reali- dade, «o que esté em cause», aquilo de que se trata n0 direi- to (ena linguagem), A gravidade da calinia 6, assim, Fungo do seu repor em {questi 0 préprio principio do processo: 0 momento da acu- sagdo. Porque nao so a culpa (que no direito arcaico nio é necesséria) nem a pena que definem o processo, mas sim @ acusagio. Mais ainda, a acusagio € talvez a «categoria juri- dca por exceléncia (kategoria significa cm grego «acusa- lo»), aquela sem a qual todo 0 edificio do direito faltaria: 0 orem causa do ser no direito. Ou seja, 0 direito é,na sua es- séncia, acusagio, «categoria». E 0 ser, posto em causa, «acu- ssado no direito, perde a sua inocéneia, torna-se «coisa», is- to 6, causa, objecto de litigio (para os romanos, causa, res © lis eram, neste sentido, sinénimos).. 5. A autocalinia faz parte da estratégia de Kafka no seu in- ‘cessante corpo a corpo com a lei. Pde acima de tudo em ques- tio a culpa, 0 principio segundo o qual nfo hé pena sem cul- pa. E, com ela, também a acusaglo, que se funda na culpa (a acrescentar & lista das tolices brodianas: Kafka no se ocupa {da graga, mas do seu contro, a acusaglo). «Como pode em ‘geral ser culpado?, pergunta Josef K. ao capeléo da prisio. E.0 capelio parece dar-lhe de certo modo razio ao dizer que rio ha sentenca, mas que « préprio proceso se transforma 35 ‘a pouco em sentenga». Um jursta modemo escreve, sentido, que, no mistério do processo,o prinespio ;poena sine iudcio se invertenesse Outro, mais tenebro~ {6 qual nao hé juizo sem pena, porque toda a pe- no juizo, «Estarse num processo semelhante>, diz. 0 itura a K., «significa té-o jé perdido» Eevidente na autocalinia e, em geral, no processo ca 1-0 processo calunioso uma causa na qual nada hé ja em causa, em que & a prépria causa a ser posta em {sto € a acusagdo como tal. E onde a culpa consiste no ‘a0 processo, a sentenca no pode ser Sendo 0 pr 880. sm da calinia, os juristas romanos conheciam outras. temeritates ou obnubilagbes da acusagio: a praevari- {sto é a colusdo entre acusador e acusado, simetr ‘oposta & caltinia, e a tergiversatio, a desisténcia da (para os romanos, que viam uma analogia entre @ ‘© 0 processo, a desisténcia da acusagio era uma for- desergao — tergiversare significa originalmente «vi- costas»). K. € culpado das trés: porque se calunia, porque, na fem que se autocalunia, se colude consigo proprio € io 6 solidério com a sua propria acusagao (neste sen- stergiversa», procura escapatGrias ¢ faz perder tempo). |. Compreende-se, entio, a subtileza da autocalinia como {gue tende a desactivare a tomar ociosa a acusaglo, em causa que o diteito enderega a0 ser, Porque se a acu- fas e se, por outro lado, acusador e acusado coinci eno é a propria implicagao fundamental do homem no ito que & posta em questio. O inico modo de alguém afi ‘a sua propria inocéncia frente & lei (e as forgas que a re- ta: o pai, 0 casamento) &, neste sentido, acusar-se fal- ‘ai Giorgio Agamben Que a caltinia pode ser uma arma de defesa na luta com 4s autoridades, di-lo claramente o outro K., 0 protagonista de O Castelo: «Seria um meio de defesa relativamente ino- Cente, mas afinal insuficiente». Com efeito, Kafka esté ple- ‘namente consciente da insuficiéncia de uma tal estratégia, ‘Uma vez. que o direito responde transformando em crime o Proprio por em causa e fazendo da autocalinia o seu funda. ‘mento. Ou seja,o diteito ndo s6 pronuncia a condenagiio no preciso momento em que reconhece o infundado da acusa- ‘920, como transforma também 0 subterfigio do autocalu- niador na sua propria justficagio eterna, Uma vez que os homens nao param de se caluniar a si pr6prios e a0s outros, nto 0 diteito (isto € 0 processo) é necessério para apreciar uais s20 as acusagdes fundadas e quais o nao sio. Deste modo, 0 direito pode justifiear-se a si préprio, apre- sentando-se como um baluarte contra o delirio auto-acu- Sat6rio dos homens (e, em certa medida, agiu realmente co ‘mo tal, por exemplo relativamente a teligifo). E ainda que © homem fosse sempre inocente, se nenhum homem em ge- ral pudesse ser declarado culpado, subsistria sempre como pecado original a autocaldnia, a acusago sem fundamento ue ele ditige a si prépri. 8.£ importante distinguirmos entre autocalnia e confissdo. ‘Quando Leni procura induzi-lo a confessar,sugerindo-Ihe que 6 quando se confessou a culpa «se tem a possibilidade de es- capa», K. declina rapidamente o convite, E contudo, em cer- to sentido, todo o processo visa produzir a confissio, que, jé 0 romano, vale como uma espécie de autoconde- nag. Aquele que confessou, reza um adégio juridico, ja est Julgado (confessus pro iudicato)¢ & equivaléncia entre contis- ‘io © autocondenagio & alirmada sem reservas por um dos -autorizados juristas romanos: quem confessa condena-se Por assim dizer a si proprio (quodammodo sua sententia dam. rnatur). Mas aquele que se acusou falsamente, esté por isso 3 cnquantoacuado ma impossibilidade de cones, £0 rs pe conden io como atnadr se renhect inootncncome ssa. A enti dK. poe sr dfn, reste serio, com recto, como a tentatva falda de fora impossivel process, ras a confissto, De resto, ama um fg: Me 1920, sconesar ppiaelpa e meni 530 & ‘ois. Mentese pra se poder confess. Kafka pa Hmsoreverse, asim, nua tig gue contro fvor de ‘la gora na calor judico-cis, ret ecitiamente Aono e Ce te a ni como eee igo» (pis et pertcosa, Pos ie seo Macsnsatiscce ene eves a) 9. Na histria da cons, ¢ particularmentesignficativa Tiago com a tru, & gual Kafka no poiadcxar de Sensivel Enquano, no dneito da poca republican, a sso ea admit com reserva eserviaem princi i ‘para defender 0 acusado, na época imperial, sobretudo no de crimes contra o pode (conju, ago, conspragio, lade contra o principe), mas também nos casos de adul- de maga eadvinhago ita, 0 proceso petal imp aa tortura do acusad € dos eux esravos tendo em vst irhhes a confseo, «Arrancar a verdade» (eratem fruere a dvisa da nova racionalidae judicial que igando fsteltamenteconfisioc verdad, fz da tortura, estendeno- Sts sino cho de safe, o nano ‘de prova por exceléncia, Dai o nome de quaestio que a de- Signa nas fone juries: a tora € inguerito sobre aver A (quaesto vers) e& nesses termos qe serdretomada Intuit rediva Spenco ta ce wien ncaa stn pi tong, Dp ax rie eis 0 gos, ainda pone go initava a declararaeiocene, Ges fala plats vorara.O acta er liad Ge coms 38 Giorgio Agamben ‘em cima de um eavalete (eculeus, «pequeno cavalo» — o ter- ‘mo alemio para tortura, Foiter, deriva por isso de Fohlen, « aay Pi cdma cena, com K. estendido em cina © Pr a posi muito Frsada ¢ improvavel>, € mals an os a eto do que uma execugao capi F Wt eral da coldnin penal nfo consegue encontay 2 ade que ela buscava, assim iguslmente 2 20° ar Vnis parce um homo do que 8 conclaio de Be ocario veritas, No final com efit, fan Me ero que sabia ser © seu dever: ), deixar coer a fraqueza que, como registaré a 3 de Fevereiro, :teve até agora afastado tanto da loucura como da ascen- — Auftieg, de novo aideia de um movimento para cima) ‘uma teologia postica (a nova cabala oposta ao sionismo, a igae complexa heranga gndstico-messfinica contra a psi jogia ea supericalidade da wesyldische Zeit em que vi ia). Mas torna-se ainda mais deeisiva quando referida 20 ro- mance que Kafka estava a escrevere ao seu protagonista, 0 fagrimensor K. (kardo, «o que Vai na direcgao da junta do £64»). A escola da profissdo (que & 0 proprio K. a atrbui se, ninguém 0 encarregou do seu trabalho, do qual, como 0 egedor lhe fz notar, a aldeiando tem a mais pequena neces- Sidade) é, portato, ao mesmo tempo uma decarago de guer- ‘ae uma estratégia, Nao foi das extremas entre 0s quinais & as casas da aldia (que, nas palavras do regedor, eto jé «de- mareados ¢ registados como deve ser») que ele veio ocupar- -se, Mas antes, «partir do momento em que a vida na aldeia 6,narealidade,iteiamente determinada pelos confins que a separam do easteloe, 0 mesmo tempo, a mantm abragada a ele, sio sobretudo esses limites que © agrimensor pe em questi. © . Passaram-se quinze anos desde a data deste diapndstcoim- placivel, edigido por quem tinha toda a competéncia eauto- Fidade para 0 fazer, e cua exactido ninguém (nem mesmo enre of que, autarcas,arquitectos ou ministos,entio como hoje tveram etém, nas palavrs de Tafuri.awindectncia» de continua a enfetar ea vender o cadaver) podria de boa fé orem divida,O que significa, condo, vendo bem, que Ve- era ji nio & um cadaver, que, se de algum modo continoa a txstr nfo pode necessriamente deixar dete pasado a0 e5- tidio que se segue a mort e& decomposigao do cadaver, Tal So esto do especzo, Ouse 0 de um moro que aparece et aera manent histo, Pro vel ci Yt ccidades curopeias, apagam as suas m, eis. E por inno ee areas, tornam-nas ilegi- — € de maneira especial Venera ill Nudez 3 — parecem-se com os sonhos. No sonho, com efeito, cada visa faz sinal Aquele que a sonha, cada criatura sua exibe ‘uma marca, através da qual significa mais do que tudo 0 que (98 seus tragos, 0$ seus gestos, as suas palavras alguma vez _poderiam exprimir. No entanto, também quem tenta obstina- damente interpretar os seus sonhos, esta algures convencido de que eles nada querem dizer. Assim na cidade tudo 0 que faconteceu naquela calgada, naquela praca, naquela rua, na- {queles alicerces, naquela rua de lojas, de repente condensa-se ¢ cristaliza numa figura, ao mesmo tempo abl e exigente, "muda e amistosa, intensa e distante. Essa figura € 0 espectro, ~ 0u10 génio do lugar. Que devemos nis a0 que morreu? «O acto de amor de re- cordar um morto», escreve Kierkegaard, «é 0 acto de amor mais desinteressado, livre e fiel». Mas nio &, com certeza, 0 ‘mais facil. O morto, com efeito, nfo s6 no pergunta, mas p rece fazer tudo para ser esquecido. Mas, precisamente por is- $0, © morto talvez.seja 0 objecto de amor mais exigente, pe- rante 0 qual estamos sempre desarmados e incumpridores,em fuga e distrafdos. 6 deste modo se pode explicar a falta de amor dos vene- zianos pela sua cidade. Nao sabem nem podem amé-la, porque lamar uma morta é dificil. E mais simples fingir que esté viva, cobrir-Ihe os membros delicados e exangues com méscaras © ‘maquilhagens para se poder exibi-la contra pagamento a0s tu- ristas. Em Veneza os vendilhes nfo esto no templo, mas nas sepulturas;ultrajam ndo s6 a vida, mas, sobretudo, um cadé- Ver. Ou, antes, aquilo que, sem ousarem confesséclo, acredi- tam ser um cadaver. E €, pelo contrétio, um espectro, ou seja — se sabe s@-1o — a coisa mais aérea, subtle distante de um, ccadéver que imaginar se poss. ‘Acespectralidade é uma forma de vida. Uma vida péstuma fou complementar, que comega apenas quando tudo acabou © st Giorgio Agamben genie gabe cet pr rere ee el he rw gi rc {com nnn nse rs 1ist6rias de fantasmas, comparavs vaclos) Shion sss eal ea fase ae evasivos, que sio sempre os vivos a invadir ee “ee nt hie en hf oN reat ‘tt eataecienies ct foie hanes aro ano esa: Salo iaccio inuteseees ns in un rn ta cas Ta ar a “ron pm ann oe Joon rai mano = ou incubos, ¢ ‘hes moverem do interior os met fe ies ei deen Et ance cides ea pore ta em on rr ni ea ere ee eee tear ee perante 0 seu passado, & sua ince ert se pasado ua inepecdade des sabre con- eae Bachmann comparou uma vez a lingu: gatas ener error ae pe ingua comportam a mesma utopia ¢ a ‘mesma rut : Boo ‘e perdemo-nos na nossa cidade como na eee sraos'an ear pomareoae eo ae Cenetcarruinn = eae cei eos te a a ili Nudez pil tinua falar 6 Tid; 6 simplesmente impossvel 08 Gnu fin “ln a posigdo de um sujet, a de quem ee Aiunpn mora 6,na verde, como Venez a Bs eerie na qual no podemos falar, mas que $8 ‘maneira spec Tgcona esussurra.€ que, embors com esfordo « CO rio do diciondrio,podemos entender e defer 10 fa aa agua morta? A quem se drge o expects & ingua? PDecerto que nfo ngs; mas também nfo aos ss destinatitios pects, das quais i nlo tem recordago agua: NC Oe te tacpresiaamente por iso, € agora come © Fosse $6 pe- rarer ve a falas ess gun, de goal 0 SMSO SS Mar conta de Ihe asibuir assim uma consistencia spectral, diz aque ela fala — nto a nos. Veneza é, portanto, verdadciraments — ainda que We! seni completamente diferente do evocado por Tin 2 fi seu discus de abertura —,0 emblema da mows mal de nosso tempo nfo é novo, mas nowssino, sD st dade ear Concebe-se como Ps-histrin ¢ poe-moeerne, mo fospetar que assim se aribuia necessariamenic AST ‘Argntuma eespeta, sem imagiar que 2 video SPP Fo sso mals itxicae inacessvel que impdc 9 chat a comet ras de sber-viverinransigentes ed lit F Wancin om as suas vésperas e as Sons matinas, as stas CO pletas ¢ 0s seus oficios. a falta de rigor ede decencin das Larva ene ns hae: von todos os povose todas as lingua, todas 36 OWENS vingin as inettuigdes,0s parlamentos © os SObEraNOS, #5 Save as sinagogasosarinhos ea fogs esiartt pos Jes a jnenoraveimente,passando A condigio de arves 1, {or assim dizer, impreparados e sem atenSo doliberada. AS- Pore pecritoes escrevem mal, porque fem de fingit gM & sim gon ext viva os parlamentos legislam em vio, Ford su fi alak wma vida police 3 Larva nagao, a5 eines ae xprovides de piedade, porque jé nfo sabem sbenons ¢