Você está na página 1de 31

1

DIREITO TRIBUTÁRIO I
PROFESSOR GIORDANO

1. BREVES NOÇÕES DE TEORIA GERAL DO ESTADO E DE INTRODUÇÃO AO


ESTUDO DO DIREITO: há cerca de cem mil anos, surgimos como raça, formando os
primeiros grupos. Éramos nômades. Esses grupos eram organizados pela relação de
força. Há cinquenta mil anos, nossa cognição se altera (revolução cognitiva). Surge a
linguagem e, como consequência, a religião (tradução dos questionamentos típicos da
racionalidade e da transcendência). Rapidamente, os fundamentos religiosos passam
a ser utilizados como meio de coerção social. Há cerca de dez mil anos, o homem
domina a agricultura e a agropecuária. As sociedades evoluem e crescem, a exemplo
de Roma e da Grécia. Surge a Era Cristão, que, utilizada por Roma, espalha-se pelo
ocidente. O Direito continua sendo pautado na divindade, até século XV, quando
ocorre uma ruptura entre o público e o divino (Reforma Protestante, que inicia o fim do
estado teocêntrico). O estado passa a ser legicêntrico, bebendo das águas do
princípio da legalidade, que surgiu em 1215, com a Magna Carta (Ingraterra). Em
1648/1649, surge uma nova configuração de organização social, o Estado (com inicial
maiúscula), através da Paz de Westfália. Nessa ocasião, vieram os requisitos para a
formação do Estado, a saber, o território, o povo e o governo soberano. Começam,
assim, as revoluções libertárias (França e Estados Unidos da América). Montesquieu
desenvolve a Teoria Aristotélica da separação das funções do Estado (Executivo,
Legislativo e Judiciário). Paralelamente a essa ideia, acontece a revolução americana
(1776/1777), surgindo a Teoria da Federação. Ocorre, desse modo, o fortalecimento
do contratualismo (contrato social). Já no século XX, o Direito, já muito desenvolvido,
passa por uma virada valorativa. A legalidade estrita cede espaço, com base na
dignidade humana, a uma norma jurídica plástica, a principiologia.

2. NOÇÕES DE ATIVIDADE FINANCEIRA E TRIBUTÁRIA: a relação jurídica tributária


é pautada na supremacia e na indisponibilidade do interesse público. O Estado é o
gestor do interesse público, ou seja, é o gestor do contrato social; ocupa uma posição
hierarquicamente superior aos administrados. O Estado possui despesas e necessita
de receitas para supri-las. Essas receitas são adquiridas pelo Estado através da
atividade financeira. Portanto, ora atua com poder de império, ora atua como agente
privado. Os tributos são uma forma de receita (receita tributária). Há uma relação
cíclica entre o Estado e os administrados. O Estado, para suprir as despesas, adquire,
2

perante os administrados, receitas. Receita é um conceito genérico (dinheiro), que tem


como espécies as receitas de natureza privada (Estado atuando como ente particular)
e as receitas tributárias (Estado retirando, compulsoriamente, valores por meio de
tributos).

Onde e como atuam o Direito Financeiro e o Direito Tributário? O Direito


Financeiro consiste no conjunto de normas que regulamenta o modo pelo qual o
Estado irá gastar (empenhar) as receitas obtidas, suprindo as despesas públicas.
Regulamenta três assuntos: os orçamentos, as receitas e as despesas. De outro
lado, o Direito Tributário é o conjunto de normas que regulamenta o modo pelo
qual o Estado adquire receita tributária.

3. HISTÓRICO DO DIREITO TRIBUTÁRIO: a partir do momento em que as sociedades


necessitam de uma receita regular e permanente, diferente da expropriação, nascem
normas jurídicas que regulamentam essa obtenção de receita. A tributação se acentua
excessivamente até as revoluções libertárias do século XVIII, onde nascem as
limitações ao poder de tributar.

4. ESPÉCIES DE RECEITAS PÚBLICAS:

Originárias: são as receitas públicas de natureza privada. Decorrem da atividade


do Estado como ente particular ou da exploração do próprio patrimônio (ex. art.
173 da CRFB/88).

Derivadas: é a receita pública de natureza tributária (compulsória), que decorrem


do poder de imperium.

Transferidas: decorrem da repartição constitucional das receitas tributárias, com


previsão nos artigos 157 a 162 da CRFB.

5. CONCEITO DE TRIBUTO: artigo 3º do Código Tributário Nacional. É toda prestação


pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não
constitua sanção por ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade
administrativa plenamente vinculada.
3

Toda prestação pecuniária compulsória: tributo é uma receita pecuniária


(financeira); é valor econômico. A compulsoriedade consiste na obrigatoriedade de
pagamento do tributo por todas as pessoas, naturais ou jurídicas, capazes ou
incapazes, ou seja, todos são sujeito passivo da relação jurídica tributária. Ela
expressa a ideia de supremacia do interesse público.

Em moeda ou em cujo valor nela possa se exprimir: o tributo deve ser pago em
dinheiro ou em título conversível em dinheiro, pois é o bem de maior liquidez.

É possível o pagamento de tributo por meio de prestação de serviço


(tributo in labore/in natura)? Segundo o STF, a relação de
obrigatoriedade do tributo e de superioridade do Estado daria
consequência a uma redução à condição análoga a de escravo.

É possível o pagamento de tributo por meio de bens móveis? Não,


pois o artigo 156, inciso XI, do Código Tributário, que trata da dação em
pagamento somente abrange bens imóveis.

6. ESPÉCIES DE TRIBUTO: tributo é um gênero que possui espécies tributárias.

1ª corrente: defende a teoria tripartite/tripartida (art. 5º, CTN).


São tributos: impostos, taxas e contribuição de melhorias.

2ª corrente: defende a teoria pentapartite/pentapartida (arts. 145, 148 e149,


CRFB). Essa é a majoritária.
São tributos: impostos, taxas, contribuição de melhorias, empréstimos
compulsórios e contribuições especiais.

7. ELEMENTOS DOS TRIBUTOS: essa classificação procura responder a seguinte


indagação: do que são compostos os tributos?

Fato gerador ou imponível: para saber o que é fato gerador, é necessário saber
o conceito de hipótese de incidência. Hipótese de incidência é aquela que, não
fazendo parte dos elementos do tributo, é a previsão legal abstrata de um fato
capaz de impulsionar a cobrança de um tributo (exemplo: propriedade territorial
4

urbana gera IPTU). Assim, o fato gerador, previsto no artigo 114 do CTN, é a
concretização da hipótese de incidência. É, pois, a prática do fato abstrato previsto
em lei (ex.: Fabiano passa a ser proprietário de um imóvel urbano).

Observação: segundo o artigo 4º do Código Tributário Nacional, a


natureza jurídica do tributo (impostos, taxas, contribuições de melhoria,
empréstimos compulsórios e contribuições especiais) é determinada pelo
fato gerador da obrigação, sendo irrelevantes a denominação e as
características e a destinação das receitas obtidas.

Base de cálculo: todo tributo é prestação pecuniária. Para se calcular o tributo, é


tomada como base uma grandeza econômica abstrata, um valor de base, sobre o
qual incidirão as alíquotas. Por exemplo, para cálculo do IPTU, será considerado o
valor venal do imóvel.

Alíquotas: são os percentuais que incidem sobre a base de cálculo. No caso do


IPTU, por exemplo, varia de 2% a 5% do valor venal do imóvel, de acordo com a
legislação municipal.

Sujeitos:
Sujeito ativo: é a administração tributária, ou seja, os entes federativos.
Sujeito passivo: depende, pois pode ser o contribuinte (aquele que
praticou o fato gerador e, ao mesmo tempo, suporta o pagamento do
tributo) ou o responsável tributário (aquele que não praticou o fato gerador,
mas será responsável pelo pagamento do tributo).

8. FUNÇÕES DOS TRIBUTOS:

Função fiscal: é a regra do Direito Tributário. Os tributos têm a função genérica


de “encher” os cofres públicos. Não há, em regra, uma vinculação entre a
atividade prestada pelo Estado e o tributo. Não há, também, em regra, vinculação
das receitas obtidas a uma contraprestação específica. Todos os impostos são
fiscais.
5

Função extrafiscal: alguns tributos servem, devido a necessidades


mercadológicas urgentes, como instrumentos de intervenção no domínio
econômico, suprindo falhas de mercado. Os seguintes tributos têm essa função:
imposto de importação (II), imposto exportação (IE), imposto sobre operações
financeiras (IOF), imposto sobre produtos industrializados (IPI), imposto sobre a
circulação de mercadorias e serviços monofásico sobre combustíveis (ICMS-
Combustíveis) e contribuição de intervenção no domínio econômico sobre
combustíveis (CIDE-Combustíveis). Exemplos: a) o mercado de veículos tem uma
queda nas vendas e está em crise, de modo que, assim, o chefe do Poder
Executivo zera a alíquota do IPI e b) o governo federal tem a necessidade de obter
mais recursos do sistema bancário, razão pela qual se aumenta a alíquota do IOF.

Função parafiscal: para sabermos o que é parafiscalidade, é necessário saber


diferenciar dois institutos, quais sejam competência tributária e capacidade
tributária ativa. Competência tributária é o poder indelegável (ius imperium)
conferido pela Constituição aos entes federativos para criar e majorar tributos. De
outro lado, capacidade tributária ativa é a atribuição delegável de cobrar os
tributos. Quando ocorre essa delegação de forma total ocorre a parafiscalidade.
Exemplos: a) até 2008, as contribuições da previdência social eram cobradas pelo
INSS, b) as contribuições de conselhos de classe, exceto a OAB e c) as
contribuições cobradas da indústria e do comércio pelo Sistema “S”.

9. RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA: toda relação jurídica é composta pelos


seguintes elementos: a) sujeitos (ativo e passivo), b) objeto e c) vínculo.

Sujeitos:
Sujeito ativo: é a administração tributária, titular do crédito tributário.
Sujeito passivo: são os administrados, devedores da obrigação tributária.

Objeto: é o tributo.

Vínculo: é a legislação tributária.

10. LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA: é o vínculo da relação jurídica tributária.


6

Sistema Tributário Nacional: é o conjunto de regras e princípios que


regulamenta a ação estatal de exigir tributos. Essas normas estão contidas na
Constituição Federal, no Código Tributário Nacional e na legislação extravagante.

Constituição Federal: a CRFB/88 não criou nem previu tributos novos,


mas, apenas, apontou cinco diretrizes, a saber:

1 - Traçou a norma matriz sobre a competência tributária (poder de


criar e majorar tributos).

2 - Classificou os tributos em espécies e em subespécies.

3 - Trouxe as regras básicas para identificação das espécies


tributárias.

4 - Previu as limitações constitucionais ao poder de tributar


(princípios e imunidades tributárias).

5 - Previu a repartição constitucional das receitas tributárias (arts.


157 a 162 da CRFB/88).

# A quem compete legislar sobre Direito Tributário? O artigo 24,


inciso I, da Constituição aponta a existência de competência
concorrente entre a União, os Estados e o Distrito Federal. No
âmbito da competência concorrente, a União edita normas gerais, e
os demais entes editam normas complementares. O Município não
tem competência legislativa sobre Direito Tributário, mas ele tem
competência tributária.

# De quais assuntos a Constituição tratou?

1 - Tributos em espécie.

2 - Competência dos impostos, já que a competência dos


demais tributos está prevista no Código Tributário Nacional.
7

3 - Princípios e imunidades, que são as limitações


constitucionais ao poder de tributar.

Código Tributário Nacional: é a Lei 5.172/66, que nasceu como lei


ordinária, mas foi recepcionada pela Constituição como lei complementar.
É dividido em duas partes, a saber, a Parte Geral (arts. 1º a 95, que tratam
do Sistema Tributário Nacional, mesclando as suas previsões com a
Constituição) e Parte Especial (arts. 96 a 218, que preveem as regras de
Direito Tributário).

Observação 1: nos termos do artigo 2º do Código Tributário


Nacional, o Sistema Tributário Nacional é regido pela Constituição,
por leis complementares, por resoluções do Senado Federal e por
leis estaduais e municipais.

Observação 2: o Código Tributário Nacional trata dos seguintes


assuntos:

1 - Competência tributária.
# A CRFB/88 trata da competência dos impostos.
2 - Impostos em espécie.
3 - Taxas.
4 - Contribuições de melhoria.
5 - Legislação tributária.
6- Obrigação tributária.
7- Crédito tributário.
8 - Administração tributária.

Legislação: são vários os instrumentos normativos regulamentadores.


Serão abordados de forma mais aprofundada a Lei 6.830/80 (Lei de
Execuções Fiscais) e a Lei Complementar 101 / 00 ( Lei de
Responsabilidade Fiscal). Cada imposto tem uma lei regulamentadora
própria (assunto esse que será abordado no 10º período).
8

11. CLASSIFICAÇÃO DOS TRIBUTOS:

Tributos vinculados ou não-vinculados:

Vinculados: a sua instituição e a sua cobrança são vinculados a uma


atuação do Estado. O Estado só poderá cobrar esses tributos se exercer
alguma atividade pública. Exemplos: taxas e contribuições de melhoria.

Não-vinculados: a instituição e a cobrança não são vinculadas a uma


atuação específica do Estado. São os tributos fiscais. Exemplo: impostos.

Tributo de arrecadação vinculada ou não-vinculada:

Arrecadação vinculada: a receita obtida com o tributo é revertida para


financiar a atuação do Estado. Exemplos: taxas, contribuições de melhoria
e algumas contribuições especiais.

Arrecadação não-vinculada: as receitas obtidas enchem os cofres


públicos de maneira genérica. Exemplo: impostos.

Tributos reais ou pessoais:

Reais: não levam em consideração aspectos pessoais do sujeito passivo


(contribuinte). São tributos “neutros”, pois não se preocupam com a
progressividade. Exemplo: IPVA, pois todas as pessoas pagam o mesmo
imposto sobre mesmo automóvel.

Pessoais: levam em consideração aspectos pessoais do sujeito passivo


(contribuinte). Visam à justiça distributiva, à progressividade. Exemplo: IR,
já que, nesse imposto, quem paga mais, ganha mais, e quem ganha
menos, paga menos.

# Por que o imposto de renda é chamado de Robin Hood? Porque a


sua função é fazer com que quem ganha mais financie os serviços públicos
universais para quem ganhe menos, ou seja, instituir a justiça distributiva.
9

BASE DE CÁLCULO ALÍQUOTA PARCELA A DEDUZIR

Até R$ 1.903,98 Isenção -

De R$ 1.903,98 a R$ 2.626,25 7,5% R$142,8

De R$ 2.626,25 a R$ 3.751,05 15% R$354,8

De R$ 3.751,06 a R$ 4.644,68 22,5% R$636,13

Acima de R$ 4.664,69 27,5% R$869,36

Tributos diretos ou indiretos:

Diretos: são os tributos em que o sujeito passivo também suporta o


pagamento. Exemplo: IPVA.

Indiretos: são aqueles em que a pessoa que gera a incidência não suporta
o pagamento, pois o valor devido é transferido para outra pessoa na cadeia
de produção do bem ou do serviço. Exemplos: ICMS, ISS, IPI e IOF.

12. TRIBUTOS EM ESPÉCIE: adota-se a teoria pentapartite (impostos, taxas,


contribuições de melhoria, empréstimos compulsórios e contribuições especiais).

Impostos: têm previsão nos artigos 145, inciso I, da CRFB/88 e 16 do CTN. São
tributos não vinculados e de arrecadação não vinculada, podendo ser reais ou
pessoais. O fato gerador dos impostos é, nos termos do artigo 145, § 1º, do CTN,
a manifestação de riqueza (que é o fato gerador, de forma genérica, de todos os
impostos). A criação dos impostos é feita por meio de lei (ordinária, complementar
ou, ainda, medida provisória). A definição dos elementos (fato gerador, base de
cálculo, alíquota e sujeitos) dos impostos somente poderá ocorrer por meio de lei
complementar.

Competência dos impostos:

UNIÃO ESTADOS E DISTRITO MUNICÍPIOS


FEDERAL

Art. 153 da CRFB/88 Art. 155 da CRFB/88 Art. 156 da CRFB/88

II, IE, IOF, IPI, IR, ITR e IGF ICMS, ITCMD e IPVA IPTU, ISS e ITBI
10

Impostos Residuais Observação: cuidado com o ITR,


(art. 154, inciso I, CRFB) que é de competência da União,
mas a capacidade tributária ativa
É uma competência subsidiária, pode ser dos Municípios, que,
cabendo à União a instituição de inclusive, ficam com o produto da
impostos de novos fatos arrecadação.
geradores, ainda não previstos.
Não se cria um imposto novo (o
que demandaria Emenda
Constitucional), mas tão somente
se tributa um fato gerador não
previsto anteriormente.

Impostos Extraordinários de
Guerra
(art. 154, inciso II, CRFB)

É um imposto para financiar as


despesas típicas de um conflito
armado, podendo ter a roupagem
de qualquer imposto, seja da
União, seja dos outros entes da
fe de r a çã o ( E s ta dos / D F ou
M u n i c í pi o s ) . D e l e s po de m
decorrer os seguintes fenômenos:
bitributação ou bis in idem. É a
única possibilidade no sistema
tributário de ocorrência de
bitributação e bis in idem.

BITRIBUTAÇÃO BIS IN IDEM

São fenômenos aceiros apenas excepcionalmente, no caso do Impostos Extraordinários de Guerra.

Regra 2 2 1 Regra 1 2 1

2 entes federativos 1 ente federativo

2 tributos 2 tributos

1 fato gerador 1 fato gerador

Ex.: IPTU e Impostos Extraordinário de Guerra. Ex.: IR e Impostos Extraordinário de Guerra.

Taxas: são tributos vinculados, de arrecadação vinculada. Existem duas espécies.

Taxas decorrentes da prestação de serviços públicos específicos e


divisíveis: encontram previsão nos artigos 77 e 79 do CTN. São
traduzidos na determinação do sujeito passivo dessa relação, no recebedor
do serviço ou usuário. Os serviços públicos prestados de forma genérica
não são remunerados por taxas.

Espécies de serviços públicos:


11

Serviços universais (uti universi): são custeados por


receitas públicas, de forma genérica. Se o serviço universal
for prestado pelo Estado, será remunerado por impostos, ao
passo que, se prestado por particulares, será remunerado
por tarifa (preço público).

Serviços específicos (uti singuli): podem ser financiados


por taxas. Os serviços remunerados por essa taxa podem
ser prestados de forma efetiva ou serem de uso potencial.
Basta que o serviço esteja à disposição do usuário (uso
potencial). Ex.: taxa do lixo (essa taxa é constitucional,
segundo o STF, ainda que o usuário não utilize o serviço).
Cuidado com a Súmula 670 do STF e com a Súmula
Vinculante 41, que determinam que o serviço de iluminação
pública não pode ser remunerado por taxa.

Observação: há outros tributos, que não são taxas,


mas que são vinculados à prestação de serviços
públicos.

Serviço de iluminação pública:

É possível a cobrança de um imposto ou de uma taxa


em relação a esses serviços? Não é possível cobrar
imposto, pois imposto é tributo não vinculado. Até o ano de
2002, foi cobrada taxa de iluminação pública, porém, como a
natureza desse serviço é universal, conclui-se que esse
serviço também não poderia ser remunerado por taxa. Por
isso, em 2002, foi criada uma contribuição para remunerar
esse tipo de serviço, prevista no artigo 149-A da CRFB/88
( COSIP/ CIP), solucionando o problema, pois as
contribuições remuneram serviços públicos com uma
finalidade especial.
12

Taxas decorrentes do exercício do poder de polícia:

Conceito: artigo 78 do CTN.

Hely Lopes Meirelles: é uma limitação a direitos em nome


da supremacia do interesse público.

Celso Antônio Bandeira de Melo: é a compatibilização do


interesse público com o particular.

É necessária a existência de um órgão para a cobrança dessa


taxa? Não é necessária a existência, basta o uso efetivo.

Exemplo: a taxa de incêndio. O STF entende que ela é


constitucional (RE 508.931). Até 24/05/17, elas eram cobradas
pelos Municípios. Nesta data (RE 643.247), determinou-se que a
prevenção e o combate a incêndio compete ao Corpo de
Bombeiros, que é órgão de segurança do Estado, sendo, portanto,
de competência estadual para cobrança.

Base de cálculo das taxas: é o custo da atuação do Estado, prestando o


serviço público ou exercendo o poder de polícia.

# É possível uma taxa usar base de cálculo de imposto? Essa


pergunta surge por conta da taxa do lixo, que era cobrada com
base no metro quadrado do imóvel, um dos elementos da base de
cálculo do IPTU. O STF pacifica as divergências sobre o tema,
editando a Súmula Vinculante 29, entendendo que não é possível
que uma taxa utilize a base de cálculo de outro imposto. Ela pode
se utilizar de um dos elementos componentes da base de cálculo,
mas não sua identidade integral.

Diferença entre taxa e preço público/tarifa:


13

TAXA TARIFA

Remunera um serviço público específico e divisível Remunera a prestação de serviços públicos por
ou o exercício do poder de polícia. particulares.

Há uma relação vertical (decorre do poder de Há uma relação horizontal (decorre de uma relação
império). contratual).

Trata-se de receita tributária; logo, derivada. Trata-se de receita não-tributária; logo, não
tributária.

É tributo. É submetida ao sistema constitucional Não se submete ao sistema constitucional tributário,


tributário, aos princípios e às imunidades tributárias. vez que não é tributo. É regida pelas normas do
direito dos contratos (Código Civil e Lei 8.666/93)
(contratos administrativos).

# Pedágios: traduzem uma limitação à liberdade de ir e vir prevista


no artigo 150, inciso V, da CRFB/88.

Natureza jurídica:

Até 2014: era considerado taxa (receita pública -


parte vai para o Estado) quando o uso da via era
obrigatória (único caminho possível de passagem) e
tarifa (não sendo receita pública - não há parte ao
Estado) quando não o era.

A partir de 2014: com a ADI 800, todos os pedágios


no Brasil têm natureza de preço público, ou seja,
tarifa.

A cobrança de pedágios é constitucional? Sim.

# Natureza jurídica da receita dos serviços notariais: são


particulares que atuam por colaboração com o Estado. O que é
obrigatório de ser registrado, pela Lei de Registros Públicos, terá
natureza de taxa e, portanto, tributária.

Observação: nos autos da ADI 3089, o STF decidiu que é


possível cobrar ISS de serviço notarial, pois o serviço
cartorário tem natureza particular.
14

Contribuições de melhoria: estão previstas no artigo 145, inciso III, da CRFB/88


e nos artigos 81 e 83 do CTN. São tributos vinculados e de arrecadação vinculada
a uma obra pública que gere valorização imobiliária.

Competência para instituir contribuições de melhoria: todos os entes


da federação. Exemplo: município realiza obra de saneamento,
asfaltamento e urbanização do bairro. Nesse caso, os imóveis ganham
valorização.

Fato gerador: a partir da valorização imobiliária, surge o fato gerador para


instituição da contribuição da melhoria.

Base de cálculo: o quanto de valorização que os imóveis receberam.

Observação: a valorização deve ser individualizada, pois, sempre


que possível, os tributos devem ter caráter pessoal e devem ser
graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte.

Sujeito passivo: os proprietários residentes na zona de valorização.

Momento da cobrança: após o término da obra.

Limite de cobrança: é o quanto de valorização individual, limitado ao


custo total da obra (art. 81 do CTN e art. 4º do Dec.-Lei 195/67).

Observação: é possível a cobrança antes do término total da obra,


em relação à parte da zona de valorização, desde que a obra,
nessa parte, esteja completa.

Empréstimos compulsórios: encontram previsão no artigo 148 da CRFB/88 e no


artigo 15 do CTN. É um tributo vinculado, de competência exclusiva da União, que
pode instituí-los para suprir necessidades excepcionais. É um tributo instituído por
meio de lei complementar. O objetivo do empréstimo é financiar a necessidade
excepcional, finda a qual desaparecerá o empréstimo compulsório e, como
consequência, nasce para o sujeito passivo o direito à restituição do valor cobrado.
15

Hipóteses que autorizam a instituição de empréstimos compulsórios:

- Calamidade pública.

- Guerra externa ou sua iminência.

- Investimento público de caráter urgente e relevante.

Como é feita a restituição? Será em dinheiro, no que a lei complementar


que instituiu o empréstimo determinar.

Cuida do com o artigo 15 do CTN: esse artigo prevê três hipóteses de


cabimento (guerra externa ou sua iminência, calamidade pública ou
conjuntura que exija absorção de poder econômico/aquisitivo).

Observação: o inciso III do artigo 15 do CTN justificou o Plano


Collor. Por isso, o STF considerou como não recepcionado tal
inciso.

Contribuições especiais: é um tributo vinculado a uma finalidade especial.


Cuidado com a nomenclatura, já que prevalece que devem ser chamadas de
contribuições especiais, como gênero. Elas são instituídas por lei ordinária,
cabendo, inclusive, medida provisória; porém, excepcionalmente, a Constituição
reserva à lei complementar as contribuições sociais residuais (art. 195, § 4º, da
CRFB/88). A Constituição adota a teoria tripartite das contribuições (arts. 149, 149-
A e 195, da CRFB/88).

Regras importantes:

# As contribuições especiais se submetem ao sistema


constitucional-tributário (arts. 149, 195, § 6º, e 150, incisos I e III, da
CRFB/88).
16

# As contribuições especiais se submetem ao CTN, muito embora


não estejam previstas no CTN (apesar de o CTN adotar a teoria
tripartite).

Contribuições em espécie: é uma classificação, sendo, pois, subjetiva, ou


seja, não existem um entendimento uníssono sobre as contribuições.
Portanto, há outras classificações. Nem o STF foi capaz de sedimentar
essa questão.

Contribuições de competência exclusiva da União:

Contribuições sociais:

Contribuições sociais de financiamento da


seguridade social (saúde, previdência e
assistência): têm previsão no artigo 195 da CRFB/
88.

Contribuições sociais residuais: têm previsão no


artigo 195, § 4º, da CRFB/88.

Contribuições sociais para fins de aposentadoria:


há autores que não colocam esse tópico como
espécie de contribuição social.

Contribuição de intervenção no domínio econômico


(CIDE): tem previsão no artigo 177, § 4º, do CRFB.

Contribuição de intervenção de categoria profissional:


tem previsão no artigo 149 da CRFB/88.

Contribuições de competência concorrente da União, dos


Estados e do Distrito Federal:
17

Contribuições previdenciárias de seus servidores: artigo


149, § 1º, da CRFB/88.

Contribuição de competência exclusiva dos Municípios:

Contribuição financiamento do serviço de iluminação


pública (CIP/COSIP): artigo 149-A, da CRFB/88.

Observações:

# Ler o artigo 195 da CRFB/88, que traz as fontes de financiamento


das contribuições sociais da seguridade.

# São exemplos de contribuições sociais:

PIS: Programa de Integração Social (Lei Complementar


7/1970).

PASEP: Programa de Formação do Patrimônio do Servidor


Público (Lei Complementar 8/1970).

COFINS: Contribuição para Financiamento da Seguridade


Social (Lei 10.833/2003). Existe, também, a CONFINS-
Importação (Lei 10.863/2004).

CSLL: Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (Lei


7.689/88).

CST: Contribuição Social do Trabalhador (Lei 8.212/91).

# CPMF: Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira.


Surgiu em 1994 e vigorou até 1997. Depois, retornou no final do
ano 2000. Em 2008, houve uma tentativa de retorno dessa
contribuição.
18

13. LIMITAÇÕES CONSTITUCIONAIS AO PODER DE TRIBUTAR: surgem com os


movimentos libertários do século XVIII, em especial na França, que era dividida em
três estamentos/estados (clero, nobreza/monarquia e plebe/burguesia). Nessa
relação, somente a burguesia pagava tributos, e de modo excessivo. Em seguida,
surge o movimento da revolução, que eclode em 1789, com a queda da bastilha. A
burguesia financia a revolução, e um de seus objetivos era limitar o poder de tributar
do Estado. As limitações ao poder de tributar beneficiam o contribuinte e prejudicam a
administração tributária.

Competência tributária: possui duas faces.

Positivas: são poder de criar e de modificar tributos.

Negativas: são as limitações ao poder de tributar. São expressas por:

Princípios tributários: subdividem-se em gerais e em específicos.

Imunidades tributárias.

Princípios tributários gerais:

Segurança jurídica: a segurança é um fundamento do Estado do Direito;


um subprincípio decorrente do artigo 1º da Constituição. Além disso, é um
sobreprincípio jurídico (postulado normativo-interpretativo). Toda aplicação
do Direito deve buscar estabilizar as relações. A relação-jurídica tributária
deve buscar: 1) a certeza do direito, 2) a preservação da intangibilidade
jurídica expressa no direito adquirido e no ato jurídico perfeito (art. 5 º da
CRFB/88 e LINDB), 3) a promoção da imutabilidade das relações através dos
institutos da coisa julgada, da prescrição e da decadência, 4) a preservação da e
a promoção da boa-fé das relações e 5) a preservação e a promoção do devido
processo legal.

Isonomia/igualdade: é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e


aos Municípios dar tratamento desigual a contribuintes que estejam em
situação de equivalência (art. 150, inciso II, da CRFB/88). É a igualdade
19

formal, excetuada pela igualdade material. É possível tratamento desigual


a pessoas que estão em situação de desigualdade. Exemplo: artigo 184, §
4º, da CRFB/88 (proprietário de imóvel urbano que descumpre a função
social pode receber IPTU progressivo).

Capacidade contributiva: o artigo 145, § 1º, da CRFB/88 determina que,


sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados
segundo a capacidade econômica do contribuinte. A Constituição diz,
literalmente, impostos, mas o STF entende que, na verdade, essa previsão
atinge todos os tributos, e não apenas os impostos. A capacidade
contributiva visa a, dentro do possível, individualizar a cobrança tributária
ou, ao menos, a determinar grupos tributáveis. Ela se expressa pelas
chamadas técnicas de incidência de alíquotas, que são três:

Progressividade: essa técnica propõe aplicar a máxima de que


tem mais, paga mais, e quem tem menos, paga menos. Para isso,
utiliza a seguinte fórmula: as alíquotas são variáveis, e a base de
cálculo também é variável. Exemplos: IR, ITR e IPTU.

Proporcionalidade: essa técnica visa a aplicar a máxima da


técnica anterior (progressividade), porém de forma menos
agressiva. Para isso, utiliza a seguinte fórmula: as alíquotas são
fixas, e a base de cálculo, variável. Exemplos: ICMS, IPI, ITBI etc.

Seletividade: nessa técnica, as alíquotas variam na razão inversa


da essencialidade do bem. Quanto mais essencial, menor a
incidência; quanto mais supérfluo, maior a incidência. Exemplos:
ICMS e IPI.

Capacidade de colaboração: somente será sujeito passivo na relação


tributária as pessoas ligadas ao fato gerador (contribuinte [art. 128 do CTN]
ou responsável tributário [art. 134 do CTN]).
20

Praticabilidade da tributação: a tributação é regida pelo princípio da


eficiência (art. 37, caput, da CRFB/88). Para tal, existem diversos
instrumentos de fiscalização, como quebra de sigilo de dados.

Princípios tributários específicos:

Legalidade: aqui, o critério seguido é o da subordinação à lei. A legalidade


é o fundamento maior do Estado de direito, prevista no artigo 150, inciso I,
da CRFB/88 e no artigo 97 do CTN. A instituição dos tributos necessita de
lei (lei ordinária, lei complementar, lei delegada e medida provisória).

Observação 1: excepcionalmente, não será exigida lei para:


modificação de alíquota dos tributos extrafiscais (II, IE, IPI, IOF,
CIDE-Combustíveis), pois, nesses casos, basta decreto do chefe do
Poder Executivo (arts. 153, § 1º, e 177, § 4º, inciso I, alínea “d”,
ambos da CRFB/88). No caso do ICMS-Combustíveis, basta
convênio interestadual (art. 155, § 4º, inciso IV, alínea “c”, da CRFB/
88).

Observação 2: a Constituição reserva à lei complementar os


seguintes tributos: empréstimos compulsórios, imposto sobre
grandes furtunas, impostos residuais, contribuições previdenciárias
(residuais).

Observação 3: a legalidade é dispensada no caso de:


regulamentação de prazos, atualização monetária de base de
cálculo e regulamentação de multas (a instituição de multa depende
de lei).

Anterioridade tributária (art. 150, inciso II, alíneas “b"e “c”, CRFB/88):
determina que não existe tributo sem lei anterior que o defina, ou seja,
entre a publicação da lei e a sua eficácia, deve, em regra, haver um prazo.
Publicada a lei deverá observar o prazo mínimo de 90 dias (anterioridade
nonagesimal) para iniciar a cobrança do tributo e deverá também esperar o
exercício/ano seguinte. O tributo, após a publicação da lei, deve respeitar:
21

1 - O exercício/ano seguinte à publicação da lei que o instituiu ou o


majorou (anterioridade de exercício).

2 - Prazo mínimo de noventa dias entre a publicação e a cobrança


(anterioridade nonagesimal ou noventena).

Exemplos: lei publicada em setembro de 2017, com cobrança em


1º de janeiro de 2018. Lei publicada em novembro de 2017, com
cobrança em fevereiro de 2018.

Exceção: existem três casos.

EXCEÇÕES AO PRINCÍPIO DA ANTERIORIDADE TRIBUTÁRIA

Exigência imediata do tributo. Exigência respeitando apenas a Exigência respeitando somente o


Não respeita o exercício seguinte noventena. Não respeita o exercício seguinte. Não respeita a
nem noventena. exercício seguinte. noventena.

II, IE, IOF (impostos extrafiscais) IPI (extrafiscal) Empréstimo Compulsório (com
Empréstimo Compulsório de CIDE-Combustível caráter urgente e relevante para
Guerra e Calamidade ICMS-Combustível investimento público)
Imposto Extraordinário de Guerra Contribuição previdenciária Imposto de Renda
Mudança de base de cálculo de
IPTU e IPVA

Tributos criados por Medida Provisória: se for imposto, será


cobrado a partir da conversão em lei. Os demais tributos serão
cobrados a partir da publicação da Medida Provisória. Os tributos
reservados à lei complementar (princípio da legalidade) não
poderão ser disciplinados por Medida Provisória.

Revogação de isenção tributária: segundo o Código Tributário


Nacional, os impostos sobre patrimônio e renda respeitarão a
anterioridade. Os demais tributos, segundo o STF, não respeitam a
anterioridade. Ver Súmula Vinculante 50 (norma legal que altera o
prazo de recolhimento de obrigação tributária não se sujeita ao
princípio da anterioridade).
22

Princípio da irretroatividade tributária (art. 150, inciso III, alínea “a”, da


CRFB/88): a lei tributária que institui ou majore tributos terá vigência
prospectiva, ou seja, não retroage.

Exceção: a lei tributária será retroativa no caso do artigo 106 do


Código Tributário Nacional.

INÍCIO DA MATÉRIA DA P2

Vedação do tributo com efeito confiscatório (art. 150, inciso IV, CRFB/
88): é vedada a instituição de tributos que reduzam potencialmente o
sujeito passivo à miserabilidade. Tributo não pode ter efeito de confisco.
Afirmar-se que o tributo pode ser confiscatório é paradoxal, já que o tributo
decorre da legalidade. O STF entende que que essa vedação também é
aplicada às multas, ou seja, as penalidades também não poderão ter efeito
confiscatório. Para saber se um tributo tem efeito de confisco, o STF
determina que deve ser observada a carga tributária global.

Observação: a carga tributária global brasileira, considerando


tributos diretos e indiretos, gira em torno de 80% do poder
econômico do sujeito passivo. O Brasil, até o mês de abril/2018 já
arrecadou cerca de setecentos bilhões de reais em tributos. Ao final
do ano, o Estado brasileiro terá arrecadado certa de cinco trilhões
de reais em tributos.

Imunidades tributárias: previstas no artigo 150, inciso VI, da CRFB/88, são,


também, face da delimitação negativa da competência tributária. As imunidades
incidem somente sobre os impostos, ou seja, elas não atingem todos os tributos.
As imunidades surgem na Constituição como meio de proteção a algum valor
essencial para a manutenção da república e da democracia (vetor axiológico). São
conhecidas também como zona de intributabilidade, zona de não incidência
tributária. Trazem campos de incompetência tributária.
23

Diferença entre imunidade, isenção e anistia:

IMUNIDADE ISENÇÃO ANISTIA

É prevista apenas na CRFB/88. São previstas na lei São previstas na lei

Atinge impostos. Atinge tributos. Atinge penalidade (multas e juros


de mora).

Não incidência tributária. Causa de exclusão do crédito tributário.

Observações:

1) Em regra, as imunidades são previstas no artigo 150,


inciso VI, da CRFB/88.

2) Existem imunidades fora do artigo 150, inciso VI. Ver


artigos 5º, inciso XXIV, e 149, § 2º.

3) Há dois casos na CRFB/88 chamados atecnicamente de


isenção, mas que, na verdade, são imunidades: artigos 184,
§ 5º, e 185, parágrafo único.

Imunidades em espécie:

Imunidade recíproca (artigo 150, inciso VI, alínea “a”, da CRFB/


88): o vetor axiológico dessa imunidade é a manutenção do pacto
federativo. É vedado aos entes da federação cobrar impostos sobre
patrimônio, rendas e serviços uns dos outros. Essa imunidade
atinge a administração direta e a indireta de direito público e de
direito privado, quando prestando serviços públicos. O STF, na ADI
3089, entendeu que os serviços notariais não gozam de imunidade
recíproca.

Imunidade dos templos (artigo 150, inciso VI, alínea “b”, da


CRFB/88): o vetor axiológico é a liberdade de culto, que é um
direito fundamental. A Constituição de 1891 adotou o modelo laico
(não-confessional). A laicidade (é diferente de laicismo) tem uma
dupla dimensão: o Estado não pode interferir nas religiões e o
24

Estado deve proteger as religiões. O artigo 150, § 4º, da CRFB/88,


determina que não será cobrado imposto sobre o patrimônio, a
renda e os serviços dos templos de qualquer culto, desde que
esses (patrimônio, renda e serviços) estejam vinculados ao fim
essencial da entidade religiosa (correspondência fática). Além
disso, o STF determina como condição à imunidade que a atividade
não prejudique a livre concorrência.

Observações: se a igreja é inquilina de um imóvel, não


existe imunidade. Se a igreja for proprietária de imóvel que
venha a ser alugada, haverá imunidade se o valor obtido for
revertido à atividade fim. Se a igreja possuir muitos imóveis,
não haverá imunidade (caso conhecido como “capa da fé”,
julgado pelo STF). No caso das lanchonetes da igreja, deve
haver correspondência fática e não pode prejudicar a livre
concorrência.

Cemitérios: em regra, são públicos, administrados pelos


Municípios, porém o particular pode ter cemitério e, dentre
esses particulares, estão as igrejas, que seguem, em
relação à imunidade, o seguinte regime: se é para enterro
exclusivo dos fiéis, haverá imunidade; se existe venda de
jazigo perpétuo, seguirá a regra anterior, ou seja, a da
correspondência fática.

Lojas Maçônicas: segundo o STF, não goza de imunidade,


pois não é templo, e sim, prática exotérica.

Imunidade dos partidos políticos e suas fundações, entidades


sindicais de trabalhadores, instituições de educação,
instituições de assistência social (artigo 150, inciso VI, alínea
“c”, da CRFB/88): essa imunidade incide sobre o patrimônio, a
renda e os serviços (correspondência fática somada ao respeito à
livre concorrência). Ademais, essa imunidade é condicionada ao
artigo 14 do CTN. Para haver imunidade, é necessário o seguinte:
25

não distribuição dos lucros aos mantenedores, não haver remessa


fraudulenta de lucros para o exterior e manter a contabilidade em
dia.

Observação 1: para haver imunidade, essas instituições


deverão ser sem fins lucrativos. Não significa que a
instituição não possa ter lucro, pois ela pode. O que não é
possível é a sua constituição com a finalidade de lucro para
fins de repartição de receitas.

Observação 2: não, desde que a remuneração seja usual


do mercado.

Observação 3: ver Súmula Vinculante 52 e Súmula 724 do


STF.

Imunidade dos livros, periódicos e papéis para a sua produção


(artigo 150, alínea VI, alínea “d”, da CRFB/88): o seu vetor
axiológico é a promoção da cultura e da liberdade de expressão.
Essa imunidade incide sobre impostos reais; logo, os pessoais
incidirão.

Exemplos da jurisprudência: Playboy, lista telefônica,


álbum de figurinha, revista em quadrinho, plástico filme da
folha das revistas.

E-books: antes de 2017, havia duas correntes. A primeira


delas, se divulga a cultura, terá imunidade. A segunda
corrente afirma que não haveria imunidade, pois, para tanto,
teria que ser volume físico (RE 330.817, Rel. Dias Tóffoli).
Depois de 2017, o STF reformulou o seu posicionamento, de
mo que os livros digitais e as plataformas de suporta serão
abraçados pela imunidade (informativo 753, de 17 de
março).
26

Imunidade sobre a produção musical nacional (artigo 150,


inciso VI, alínea “e”, da CRFB/88, EC 75/2013.

14. COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA: poder de criar e majorar tributos, decorrentes do


poder de império do Estado. Possui uma dupla face: uma positiva, e outra negativa
(limitações ao poder de tributar). A competência tributária é indelegável, pois é ato
administrativo de competência absoluta.

Capacidade tributária ativa: é a delegação total dos atos materiais da


competência tributária (atos de cobrar, arrecadar e fiscalizar). Quando há a
delegação total da capacidade tributária ativa, surge o fenômeno da
parafiscalidade (ex.: possibilidade de delegação do ITR aos Municípios).

Distribuição da competência tributária:

Competência exclusiva: é indelegável.

UNIÃO ESTADOS MUNICÍPIOS

II, IE, IOF, IPI, IR, ITR e IGF IPVA, ITCMD e ICMS ISS, IPTU e ITBI

Contribuições Especiais Contribuições Previdenciárias Contribuições Previdenciárias


Contribuições Previdenciárias dos Servidores dos Servidores
dos Servidores COSIP/CIP

Empréstimos Compulsórios - -

Competência comum: União, Estados, DF e Municípios têm competência


para a instituição de taxas e de contribuição de melhoria.

Competências cumulativas: o DF cumula as competências estaduais e


municipais. A União pode instituir tributos estaduais e municipais nos
territórios.

15. RELAÇÃO JURÍDICA TRIBUTÁRIA: é composta por um sujeito ativo (administração


tributária), por um objeto (crédito tributário), por um sujeito passivo (administrado), por
uma obrigação (tributos) e por um vínculo (legislação tributária).
27

15.1. OBRIGAÇÃO TRIBUTÁRIA: é a obrigação do sujeito passivo da relação jurídica


tributária de sofrer com a cobrança do tributo, decorrente da prática do fato gerador
por ele ou por outrem. É prevista nos artigos 113 a 138 do CTN.

Classificação jurídica tributária:

Principal: é o dever patrimonial. Tributo é prestação pecuniária. É


sinônimo do pagamento do tributo. Essa obrigação decorre da lei e
da prática do fato gerador.

Acessória: é dever instrumental. Auxilia na fiscalização da


atividade tributária. É, pois, um dever complementar. Ela pode
decorrer da legislação tributária (é um conceito mais amplo do que
o de lei). Exemplos: a emissão de nota fiscal auxilia a administração
tributária na fiscalização dos tributos. De outro modo, a manutenção
dos livros contábeis é uma obrigação acessória. A declaração do
Imposto de Renda.

Sujeitos passivos: a classificação depende da espécie de obrigação.

Sujeito passivo da obrigação acessória: é qualquer pessoa


natural ou jurídica com a responsabilidade (dever instrumental)
prevista na legislação.

Sujeito passivo da obrigação principal: pode ser o contribuinte


(aquele que paga o tributo, pois praticou o fato gerador) ou o
responsável tributário (é aquele que suportará o pagamento do
tributo, mesmo não tendo praticado o fato gerador, mas que a ele é
vinculado). Exemplo: João compra uma casa de Pedro, não
tomando a devida cautela quanto aos tributos devidos, de modo
que, tempos depois, é citado em execução fiscal por débitos do
IPTU.

Responsáveis tributários (artigo 128 do CTN): é a determinação legal


para que uma pessoa pague tributos, por estar ligada ao fato gerador,
28

apesar de não decorrer de sua prática. A responsabilidade se classifica na


forma abaixo.

Integral: conhecida como total, por substituição do contribuinte.

Supletiva: não há substituição da figura do contribuinte.

Solidária: não há benefício de ordem.

Subsidiária: há benefício de ordem.

Qual é o papel das convenções particulares na sujeição passiva


tributária, a exemplo do contrato de locação que atribui ao locatário o
pagamento do IPTU? A Lei 8.245/91 (lei de locações), nos artigos 22 e 25,
prevê essa possibilidade, todavia a convenção particular não modifica a
sujeição passiva da relação tributária. Além disso, a Lei 8.245/91 é lei
ordinária, e responsabilidade tributária deve ser prevista no Código
Tributário Nacional, que tem status de lei complementar. De outro modo, na
esfera cível, o contrato fundamenta direito de regresso, pois é título
executivo.

Modalidades de responsabilidade tributária:

Pela aquisição de bens imóveis e automóveis: o adquirente deve


buscar, por precaução, eventuais averbações cartorárias e
certidões negativas de débitos (tributários, trabalhistas, cíveis,
previdenciários etc.), sob pena de ser responsável pelo pagamento
dos tributos, segundo o artigo 130 do CTN, de forma pessoal e
integral. De outro lado, em relação aos automóveis, seguir-se-á a
mesma regra do IPVA, porém, em 18 de abril de 2018, a segunda
turma do STJ entendeu que o ex-proprietário não terá
responsabilidade em relação ao IPVA a partir da venda, ainda que
essa não tenha sido comunicada ou transferida.
29

Exceção: se o imóvel é adquirido em hasta pública, a


responsabilidade será limitada ao valor pago.

Na sucessão hereditária (artigo 131, incisos II e III, do CTN): são


dois momentos distintos.

Tributos devidos até a abertura da sucessão: a


responsabilidade será do espólio e o inventariante será
responsável subsidiário, muito embora o artigo 134 do CTN
fale “solidário”.

Tributos devidos entre a abertura da sucessão e a


partilha: os sucessores a qualquer t í tulo terão
responsabilidade tributária, nas forças da herança.

Responsabilidade tributária nas operações societárias: as


operações societárias são: fusão (A+B=>AB), incorporação
(A+B=>Ab), transformação (A LTDA=>A S/A) e cisão (AB=>A e B).
O artigo 132 do CTN prevê, em síntese, que a forma societária
resultante da operação será responsável tributária pelos tributos
devidos até esta data.

Responsabilidade por aquisição de estabelecimento


empresarial: estabelecimento empresarial, conhecida como fundo
de comércio ou azienda e é o complexo de bens corpóreos ou
incorpóreos da empresa. Esse contrato é conhecido como
trespasse. Segundo o artigo 133 do CTN, existem algumas
exigências para haver responsabilidade, havendo duas variações
de responsabilidade (substituição integral ou subsidiária). Os
requisitos são a aquisição do estabelecimento e continuidade da
atividade. Será responsabilidade integral por substituição de quem
adquiriu o estabelecimento, no caso de o alienante ter abandonado
a atividade empresarial ou não iniciou outra atividade empresarial,
inclusive no mesmo ramo, dentro do prazo de seis meses após a
venda. A segunda hipótese é a de responsabilidade subsidiária do
30

adquirente, de modo que o vendedor será responsável em primeiro


plano, se houver iniciado ou continuado a atividade empresarial,
antes de seis meses da venda, sendo o comprador, nesse caso,
responsável subsidiário.

Observação 1: não haverá responsabilidade tributária do


adquirente, se o estabelecimento foi adquirido em hasta
pública em processo de falência ou de recuperação.

Observação 2: não haverá o benefício mencionado


anteriormente se a aquisição em hasta pública, na falência
ou na recuperação judicial, decorrer de fraude.

Responsabilidade por ato de terceiros: semelhante à


responsabilidade civil por atos de terceiros. No Direito Tributário, a
previsão do instituto está nos artigos 134 e 135 do CTN.

15.2. CRÉDITO TRIBUTÁRIO: o sujeito ativo da relação tributária (administração


tributária) tem, por lei, um poder/dever de exercer o seu crédito tributário perante o
sujeito passivo (contribuinte ou responsável). O crédito tributário decorre da prática
do fato gerador, que impulsiona, faticamente, ao mesmo tempo, o crédito e a
obrigação tributária. A lei exige, porém, que este crédito tributário, nascido no
mundo fático, seja formalizado/constituído juridicamente. Existe um procedimento
chamado de lançamento tributário, que gera um processo administrativo tributário,
o qual dará ensejo à cobrança administrativa do tributo. Se o sujeito passivo não
cumpre a sua prestação/obrigação na esfera administrativa, nasce para o sujeito
ativo a pretensão, ou seja, o poder de exigir o crédito perante o poder judiciário,
pelo processo judicial tributário, a saber, a execução fiscal. A doutrina tributária
organiza esta sucessão de atos na chamada linha do tempo tributária.

Linha do tempo tributária (P2):

1 2 3 4 5 6
31

1 - Prática do fato gerador.


2 - Nascimento fático do crédito e da obrigação tributária.
3 - Constituição do crédito tributário (lançamento).
4 - Cobrança administrativa do tributo.
5 - Frustração do crédito.
6 - Exercício da pretensão tributária.
6.1 - Inscrição em dívida ativa.
6.2 - Emissão da Certidão de Dívida Ativa (CDA).
6.3 - Ajuizamento da ação de execução fiscal.

Observação: a administração pública terá o prazo decadencial de cinco


anos para cobrar o crédito tributário (itens 1, 2 e 3). Após isso, a
administração terá o prazo prescricional de cinco anos para exercer a
pretensão tributária.

Você também pode gostar