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CONTEÚDO PROGRAMÁTICO1

MÓDULO I – TEORIA GERAL DO PROCESSO ................................................................................................ 4


1. NOÇÕES GERAIS SOBRE DIREITO: ............................................................................................... 4
2. TEORIA GERAL DO PROCESSO (Intróito)........................................................................................ 4
3. PRINCÍPIOS INFORMATIVOS OU DIRETORES DO PROCESSO ............................................................ 5
4. JURISDIÇÃO .............................................................................................................................. 7
5. ORGANIZAÇÃO DO PODER JUDICIÁRIO BRASILEIRO ..................................................................... 11
6. COMPETÊNCIA: MEDIDA DA JURISDIÇÃO (TEORIA GERAL): ........................................................... 12
7. AÇÃO...................................................................................................................................... 17
MÓDULO II – PROCESSO E PROCESSO DE CONHECIMENTO ...................................................................... 20
1. PROCESSO .............................................................................................................................. 20
2. LITISCONSÓRCIO ..................................................................................................................... 23
3. ASSISTÊNCIA .......................................................................................................................... 23
4. DAS MODALIDADES DE INTERVENÇÃO DE TERCEIROS .................................................................. 24
5. ATOS PROCESSUAIS ................................................................................................................. 26
6. PRAZOS PROCESSUAIS........................................................................................................................28
7. PROCESSO E PROCEDIMENTO .................................................................................................... 29
8. PETIÇÃO INICIAL...................................................................................................................... 31
9. COMUNICAÇÃO DOS ATOS PROCESSUAIS ................................................................................... 36
10. DEFESA DO RÉU.......................................................................................................................39
11. REVELIA ................................................................................................................................ 42
12. PROVIDÊNCIAS PRELIMINARES ................................................................................................ 43
13. JULGAMENTO CONFORME O ESTADO DO PROCESSO ................................................................... 44
14. PROVAS ................................................................................................................................ 45
15. AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO ..................................................................................................... 51
16. SENTENÇA (com redação dada pela Lei n° 11.232/05) ................................................................. 52
17. COISA JULGADA ..................................................................................................................... 55
18. DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO OBRIGATÓRIO ............................................................................. 56
MÓDULO III – SISTEMA RECURSAL .......................................................................................................... 57
DOS RECURSOS ........................................................................................................................... 57
MÓDULO IV – AÇÃO RESCISÓRIA ............................................................................................................. 88
AÇÃO RESCISÓRIA ....................................................................................................................... 89
MÓDULO V – PROCESSO DE EXECUÇÃO E CUMPRIMENTO DE SENTENÇA................................................... 91
1. INTRÓITO................................................................................................................................ 91
2. PRINCÍPIOS INFORMATIVOS DO PROCESSO DE EXECUÇÃO: .......................................................... 93

1
O conteúdo desta obra não é de autoria deste professor, mas sim uma compilação sistematizada da legislação, doutrina e
jurisprudência pátrias, bem como a roteiros e outros esquemas de aula.

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3. REQUISITOS PARA REALIZAR QUALQUER EXECUÇÃO: ................................................................... 94


4. EXECUÇÃO DEFINITIVA E PROVISÓRIA: ...................................................................................... 99
5. LIQUIDAÇÃO DE SENTENÇA ......................................................................................................101
6. RESPONSABILIDADE PATRIMONIAL ...........................................................................................104
7. DAS DIVERSAS ESPÉCIES DE EXECUÇÃO....................................................................................106
8. DEFESA DO EXECUTADO ..........................................................................................................122
9. SUSPENSÃO DO PROCESSO DE EXECUÇÃO .................................................................................128
10. EXTINÇÃO DO PROCESSO DE EXECUÇÃO ..................................................................................129
11. EXECUÇÃO FISCAL (LEI Nº 6.830/80).......................................................................................129
MÓDULO VI – PROCESSO CAUTELAR..................................................................................................... 1366
1. INTRÓITO...............................................................................................................................136
2. MEDIDA (PROVIDÊNCIA) CAUTELAR X PROCESSO CAUTELAR ........................................................137
3. OBJETO..................................................................................................................................137
4. TUTELA CAUTELAR X TUTELA ANTECIPADA .................................................................................137
5. CARACTERÍSTICAS ..................................................................................................................137
6. CLASSIFICAÇÃO ......................................................................................................................138
7. REQUISITOS DA TUTELA CAUTELAR ......................................................................................... 1388
8. PODER GERAL DE CAUTELA ......................................................................................................139
9. RELAÇÃO PROCESSUAL CAUTELAR: ...........................................................................................140
10. DAS CAUTELARES TÍPICAS: ....................................................................................................143
MÓDULO VII – PROCEDIMENTOS ESPECIAIS .......................................................................................... 150
1. AÇÃO DE CONSIGNAÇÃO EM PAGAMENTO ..................................................................................151
2. AÇÃO DE DEPÓSITO ................................................................................................................153
3. AÇÃO DE ANULAÇÃO E SUBSTITUIÇÃO DE TÍTULOS AO PORTADOR ...............................................154
4. AÇÃO DE PRESTAÇÃO DE CONTAS .............................................................................................154
5. AÇÕES POSSESSÓRIAS ............................................................................................................156
6. AÇÃO DE NUNCIAÇÃO DE OBRA NOVA .......................................................................................157
7. AÇÃO DE USUCAPIÃO DE TERRAS PARTICULARES .......................................................................158
8. INVENTÁRIO E PARTILHA .........................................................................................................160
9. EMBARGOS DE TERCEIRO (OU EMBARGOS DE SEPARAÇÃO) .........................................................162
10. PROCEDIMENTO MONITÓRIO (PROCEDIMENTO POR INJUNÇÃO) ..................................................163
MÓDULO VIII – DA AÇÃO DE ALIMENTOS e DOS ALIMENTOS PROVISIONAIS ........................................ 164
1. BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE ALIMENTOS (DIREITO MATERIAL)..............................................164
2. DISTINÇÕES ACERCA DOS ALIMENTOS PROVISIONAIS E PROVISÓRIOS (DIREITO INSTRUMENTAL).. 166
3. AÇÃO DE ALIMENTOS (LEI N° 5.478/68 – LA) .............................................................................167
4. ALIMENTOS PROVISIONAIS (ARTS. 852 A 854 DO CPC) ...............................................................171
5. EXECUÇÃO DE ALIMENTOS (LEI N° 5.478/68 – LA; E ARTS. 732 A 735 DO CPC)..............................171
MÓDULO IX – MANDADO DE SEGURANÇA ............................................................................................... 174
MANDADO DE SEGURANÇA, INDIVIDUAL E COLETIVO (LEI N° 12.016/09) ..........................................174
MÓDULO X – QUADROS COMPARATIVOS DAS RECENTES ALTERAÇÕES PROCESSUAIS............................ 180

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REFERÊNCIAS E SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................209


1. TGP .......................................................................................................................................210
2. PROCESSO DE CONHECIMENTO ................................................................................................210
3. PROCESSO DE EXECUÇÃO ........................................................................................................211
4. PROCESSO CAUTELAR..............................................................................................................211
5. PROCEDIMENTOS ESPECIAIS ....................................................................................................211
6. OUTROS PONTOS DE RELEVÂNCIA.............................................................................................211
7. REFORMAS PROCESSUAIS ........................................................................................................213

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MÓDULO I – TEORIA GERAL DO PROCESSO

1. NOÇÕES GERAIS SOBRE DIREITO:


1.1 Direito Objetivo (norma agendi) x Direito Subjetivo (facultas agendi);
1.2 Direito Público x Direito Privado;
1.3 Direito Material x Direito Instrumental;
Direito processual x direito material – dessa distinção resulta a autonomia do direito processual
civil, até então considerado simples modo de manifestar-se do direito material (direito civil,
direito penal, direito do trabalho, direito tributário).
1.3.1 As normas de direito processual são, resumidamente, técnicas de solução imperativa de conflitos
(o processo é o único caminho civilizado e permitido para se chegar à solução de conflitos de
interesses).
1.3.2 O Direito processual é eminentemente formal, no sentido de que define e impõe a forma como o
juiz exerce a jurisdição, como o autor exercerá a ação, e como o réu poderá se defender do
sujeito que o trouxe ao processo.
1.3.3 O direito processual estabelece a forma do ato processual, mas nunca o seu conteúdo ou
substância. As normas que fixam critérios capazes de definir a substância do ato, ou seja, qual
dos litigantes tem direito ao bem da vida2 pretendido, são as normas de direito substancial ou
material3.
1.4. Direito Processual.
Definição – é o ramo da ciência jurídica que trata do complexo de normas e princípios
reguladores do exercício da jurisdição, ou seja, o exercício conjugado da jurisdição pelo Estado-
juiz, da ação pelo demandante e da defesa pelo demandado. Nada diz sobre o bem da vida que é
objeto de interesse das pessoas. É apenas instrumento a serviço do direito material.

2. TEORIA GERAL DO PROCESSO (Intróito)


2.1 Objeto – “a Teoria Geral do Processo serve para preparar os alunos para o estudo dos diversos
ramos do direito processual mediante o estudo de seus conceitos mais gerais, colocando-se,
assim, como uma disciplina propedêutica destinada a introduzir o estudante nos cursos que se
seguirão sobre os diferentes direitos processuais.”
2.2 Interesse – conflito de interesses “ocorre quando duas ou mais pessoas têm interesse pelo
mesmo bem, que a uma só possa satisfazer, dar-se-á um conflito intersubjetivo de interesses ou
simplesmente um conflito de interesses”. Esses conflitos se resolvem, normalmente, pela
subordinação dos seus sujeitos às normas do ordenamento jurídico vigente. A composição
normal dos conflitos é a espontânea submissão dos interesses ao que diz a ordem jurídica. Às
vezes, entretanto, as partes não compõem espontaneamente esses conflitos de interesses, o que
pode ocasionar uma imposição, por parte de um dos sujeitos, do seu interesse em prejuízo do
interesse do outro.
2.3 Pretensão – “É a exigência da subordinação de um interesse de outrem ao próprio”, ou ainda,
quando o conflito dá lugar à manifestação da vontade de um dos sujeitos, de exigir a
subordinação do interesse do outro ao próprio.
2.4 Pretensão resistida – o sujeito do interesse oposto pode conformar-se com a subordinação,
compondo, neste caso, o conflito pacificamente. Ou ele pode resistir à pretensão do outro e

2
Bens da vida são todas as coisas, situações ou mesmo pessoas que de algum modo possam ser objetos de aspirações e de direitos.
3
É o corpo de normas que se destinam a disciplinar diretamente as relações jurídicas referentes a bens e utilidades da vida.

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então o conflito se dinamiza. A pretensão do sujeito de um interesse se opõe a resistência do


sujeito de outro interesse, configurando o que a doutrina chama de lide ou litígio.
2.5 Lide – “É o conflito de interesses qualificado pela pretensão de um dos interessados e pela
resistência do outro. Ou ainda, o conflito de interesses qualificado por uma pretensão resistida”.
2.6 Composição dos conflitos – autotutela (permitida só em alguns casos), autocomposição
(desistência = renúncia à pretensão; submissão = renúncia à resistência oferecida à pretensão;
transação = concessões recíprocas), arbitragem, e jurisdição.
2.7 Jurisdição – “É instrumento por meio do qual os órgãos jurisdicionais atuam para pacificar as
pessoas conflitantes, eliminando os conflitos e fazendo cumprir o preceito jurídico pertinente a
cada caso que lhes é apresentando em busca de solução”. A jurisdição se exerce através do
processo.
2.8 Ação – não basta que o titular de um interesse pretenda subordinar o interesse de outrem ao
próprio e que este outro oponha resistência. Será necessário, para que a jurisdição se exerça,
que o primeiro manifeste por meio de um ato (ação) a vontade de exigir do obrigado aquela
subordinação, isto é, de tornar efetivo o seu direito subjetivo. “A ação é o direito de invocar o
exercício da função jurisdicional”.
2.9 Processo – “É o meio ou instrumento de composição da lide”.
2.10 Jurisdição, ação e processo – “Trinômio que compõe o fenômeno da resolução dos conflitos de
interesses: a ação provoca a jurisdição, que se exerce através de um complexo de atos, que é o
processo”.

3. PRINCÍPIOS INFORMATIVOS OU DIRETORES DO PROCESSO


3.1 Conceito de princípio – “Noção primeira que comanda um conjunto de regras” (George Ripert).
“Proposição de caráter geral que informa determinado ramo do conhecimento” (Vicente Greco
Filho). São as pilastras do edifício.
3.2 Princípios fundamentais do processo – conforme alerta Humberto Theodoro Júnior, existem
diversos princípios específicos que inspiram a legislação processual de nossos dias e que devem
ser levados em consideração pelos intérpretes das normas processuais em suas aplicações
práticas. Esses são os princípios do direito processual civil.
3.3 Classificação dos princípios processuais segundo o modo de atuação – dividem-se em princípios
informativos ou deontológicos e princípios fundamentais ou epistemológicos:
3.3.1 Princípios informativos ou deontológicos – conforme Arruda Alvim, “são regras
predominantemente técnicas e pois, desligados de maior conotação ideológica, sendo, por esta
razão, quase universais”. “Normas ideais as quais representam uma aspiração de melhoria do
aparelho processual e que, dotados de forte conteúdo ético, não se limitam ao campo da
deontologia e perpassam toda a dogmática jurídica, apresentando-se ao estudioso do direito nas
suas projeções sobre o espírito e conformação do direito positivo”. São quase axiomas4. São
exemplos:
a) Princípio lógico – a estruturação do processo tem de ser lógica. Os atos processuais devem se
desencadear ordenadamente para atender um objetivo, a obtenção da sentença. Há, pois, na
própria estrutura do sistema processual (entre as alegações e tipos de decisões possíveis), uma
ordenação lógico-positivo-juridica das questões preliminares e de fundo. É a ordenação racional
do processo em razão da finalidade de todos os atos voltada à solução dos conflitos de interesses
(CPC, arts. 267 e 301).

4
Premissa imediatamente evidente que se admite como universalmente verdadeira sem exigência de demonstração.

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b) Princípio jurídico – pelo princípio jurídico, o processo tem de se submeter a um ordenamento


preexistente, e, se este se alterar, estando em curso o processo, os atos já realizados devem ser
respeitados (CPC, art. 1.211, segunda parte).
c) Princípio político – postulados políticos embasam qualquer sistema processual tornando-o eficaz
(p. ex.: sistema da unidade de jurisdição; art.5°, XXXV, CF).
d) Princípio econômico – evidencia-se a postura do legislador no sentido de que com o mínimo de
atividade desenvolvida se consiga o máximo de rendimento, respeitada sempre a incolumidade
do direito à ação e à defesa e, pois, do direito material que, eventualmente, esteja subjacente. É
o mínimo de atividade com máximo de rendimento (CPC, arts. 125, II; e 330, II; CPP, arts. 566
e 567; bem como na CF, arts. 24, X, e 98, I). Princípio da economia processual.
e) Princípio ético (da lealdade processual) – dever das partes de se conduzirem com lealdade e
dignidade (CPC, arts. 14 e 18).
3.3.2 Princípios fundamentais ou epistemológicos – “São diretrizes nitidamente inspiradas por
características políticas, trazendo em si carga ideológica significativa, e, por isto, válidos para os
sistemas ideologicamente afeiçoados aos princípios fundamentais que lhes correspondam”. Não
são comuns a todos os ordenamentos jurídicos; há substrato ideológico neles, e por isto,
admitem princípios antagônicos. Os mais importantes princípios fundamentais ou
epistemológicos são:
a) Princípio da igualdade processual – “as partes e os procuradores devem merecer tratamento
igualitário, para que tenham as mesmas oportunidades de fazer valer em juízo as suas razões”
(CPC, art. 125, inciso I). Consiste em tratar os iguais igualmente e desiguais desigualmente,
justamente para que, supridas as diferenças, se atinja a igualdade substancial. Exceções:
prerrogativas conferidas à alguns entes públicos (art. 188, além dos arts. 27, 511 e 816, I, do
CPC; bem como atenuações favor rei no CPP, art. 386, inc. VI “absolvição por insuficiência de
provas”; arts. 607 e 609 “recursos privativos da defesa”)5;
b) Princípio da imparcialidade do juiz – o juiz não deve ter interesse pessoal em relação às partes
em litígio, nem retirar proveito econômico dele. O juiz coloca-se entre as partes e acima delas. É
uma garantia de justiça para as partes (CF, art. 95; bem como, art. 5º, XXXVII).
c) Princípio da demanda (ou princípio da ação) – indica a atribuição à parte da iniciativa de
provocar o exercício da função jurisdicional. Como a jurisdição é inerte, ela depende da iniciativa
das partes para sua movimentação (CPC, arts. 2°, 128, 262, 294, e 460; CPP, arts. 24, 28 e
30). Existem exceções: na execução trabalhista, art. 878 da CLT; em matéria falimentar, art.
162 da Lei de Falências. Não se confunde com o princípio dispositivo.
d) Princípio do impulso oficial – “é o principio pelo qual compete ao juiz, uma vez instaurada a
relação processual (através da provocação da jurisdição pelas partes, principio da demanda),
mover o procedimento de fase em fase, até exaurir a função jurisdicional.” Este principio garante
a continuidade dos atos procedimentais e seu avanço em direção a decisão definitiva. Uma vez
instaurado o processo, este não fica à mercê das partes. Inspira-se na idéia de que o Estado tem
interesse na rápida solução das causas. Não resulta de um único artigo, mas da conjugação de
vários (CPC, arts. 125, II; 130 e art. 235);
e) Princípio do contraditório e da ampla defesa – o princípio do contraditório, também conhecido no
processo civil como princípio da audiência bilateral, deve ser entendido, de um lado, pela
necessidade de dar-se conhecimento da existência da ação e de todos os atos do processo às
partes, e, de outro, a possibilidade das partes reagirem aos atos que lhe sejam desfavoráveis.
“Em síntese, o contraditório é constituído por dois elementos: a) informação; b) reação (esta,
meramente possibilitada nos casos de direitos disponíveis)”. Este princípio, para o processo
penal, significa contraditório efetivo, real, substancial (tanto que se exige defesa técnica

5
Outras situações a doutrina vem considerando inconstitucionais: é o caso dos honorários advocatícios, que podem ser fixados em
percentagem inferior a 10%, quando for vencida a Fazenda Pública (CPC, art. 20, § 4º); do duplo grau de jurisdição obrigatório
(CPC, art. 475); da desigualdade no processo de execução civil, em detrimento do devedor (CPC, art. 601).

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substancial para o réu, ainda que revel - CPP, arts. 261 e 263). No entanto, no processo civil, o
contraditório não tem essa amplitude, pois a possibilidade que se dá ao réu de manifestar-se no
processo atende ao postulado do contraditório, não sendo necessário que de fato deduza
resposta ou outra manifestação positiva diante do pedido do autor (CPC, art. 319 ss). Apesar da
CF/88 ter previsto o contraditório e a ampla defesa num único dispositivo, art. 5°, inciso LV, é
possível fazer uma distinção entre eles.
f) Princípio dispositivo (verdade formal e verdade real) – “consiste na regra de que o juiz depende,
na instrução da causa, da iniciativa das partes quanto às provas e as alegações em que se
fundamentará a decisão”. Esse princípio reserva-se para a regra da iniciativa probatória da
parte. O juiz deve decidir segundo o alegado e provado pelas partes. Princípio contrário:
princípio da livre investigação das provas. Estão intimamente relacionados com a busca da
verdade formal e verdade real (fática). Sustentava-se que o processo penal trabalha com a
verdade substancial (CPP, art. 197), ao passo que o processo civil satisfazia-se com a verdade
formal. Passou a interessar mais a forma pela qual a verdade era obtida do que se este produto
final efetivamente representava a verdade. Há uma tendência moderna de abandonar o rigor do
princípio dispositivo, permitindo ao juiz participar da colheita de provas necessárias ao completo
esclarecimento da verdade6 (CPC, arts. 125, 130, 131, 330, 342 e 440; CLT, art. 765);
g) Princípio da publicidade – consiste na necessidade de tornar público todos os atos processuais,
mesmo para quem não seja parte no processo (liberdade de manuseio de autos e direito de
assistir a audiências e sessões de julgamento. Justificativa: transparência no exercício da função
jurisdicional. É a fiscalização popular sobre a obra dos magistrados, promotores e advogados. É
um princípio constitucional: art. 5°, inciso LX, e art.93, inciso IX, da CF), somente admitindo
limitações às partes ou aos seus procuradores, quando o interesse público o exigir: são os casos
de segredo de justiça7 (CPC, art. 155; CPP, art. 792; CLT, art. 770).
h) Princípio da motivação das decisões judiciais – está previsto constitucionalmente no art.93,
inciso IX; no CPC, art.165 c/c 458; no CPP, art. 381; e na CLT, art. 832. Também está voltado
como o da publicidade ao controle popular sobre o exercício da função jurisdicional.
i) Princípio do duplo grau de jurisdição – “funda-se na possibilidade de a decisão de primeiro grau
ser injusta ou errada, daí decorrendo a necessidade de permitir sua reforma em grau de
recurso”. Este princípio não é garantido constitucionalmente de modo expresso, mas a própria
CF incumbe-se de atribuir competência recursal a vários órgãos jurisdicionais, que são os
tribunais (CF, art.102). Ver, ainda, art. 475 do CPC; 574 e 746 do CPP.

4. JURISDIÇÃO
4.1 Conceito – Juris dictio = dicção do direito – “a jurisdição, portanto, é uma das funções da
soberania do Estado. Função de poder, do Poder Judiciário. Consiste no poder de atuar o direito
objetivo, que o próprio Estado elaborou, compondo os conflitos de interesses e dessa forma
resguardando a ordem jurídica e a autoridade da lei”. Para Chiovenda, “o Estado moderno
considera, pois, como sua função essencial à administração da justiça; somente ele tem o poder
de aplicar a lei ao caso concreto, poder que se denomina jurisdição”. Ainda sobre o tema, “a
jurisdição é, ao mesmo tempo, poder, função e atividade. Como poder é manifestação do poder
estatal, conceituado como capacidade de decidir imperativamente e impor decisões. Como
função, expressa o encargo que têm os órgãos estatais de promover a pacificação de conflitos
interindividuais, mediante a realização do direito justo e através do processo. E como atividade
ela é o complexo de atos do juiz no processo, exercendo o poder e cumprindo a função que a lei
lhe compete”.
4.2 Características:

6
Não há lugar, na moderna cultura do processo civil de resultados, para o juiz – para atos que só observa e não interfere, nem para
o juiz mudo, obstinadamente cuidadoso de não se desgastar e obcecado pelo temor de anunciar prejulgamentos.
7
Obs: o CPC de 1973 estaria restringindo o direito de consultar os autos às partes e a seus procuradores no parágrafo único do art.
155, parágrafo único? Este parágrafo deverá ser reavaliado em face da norma constitucional.

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a) a jurisdição como “atividade provocada” – não há jurisdição sem ação. É o principio da inércia
inicial do Judiciário, previsto no arts. 2° e 262 do CPC. “Os juízes não saem em busca das lides
para resolvê-las, mas aguardam que os interessados - frustradas eventuais tratativas amigáveis
- busquem espontaneamente a intervenção estatal, propondo demanda”. Exceções: caso da
declaração judicial de falência; a previsão de que o juiz inicie de oficio o inventário (CPC, art.
989); execução trabalhista;
b) a jurisdição como “atividade pública” – monopólio do Poder Judiciário. É defeso ao cidadão
exercer a autotutela. Requisito formal da jurisdição é a existência de um órgão integrante do
Poder Judiciário;
c) a jurisdição como “atividade substitutiva” – “se os que deveriam afirmar ou realizar determinada
vontade concreta da lei negam-se a fazê-lo ou permanecem omissos, a atividade jurisdicional
fará realizar, em caráter substitutivo, o mandamento legal”. Para alguns doutrinadores, não é
tanto o caráter de substitutividade, defendida por Chiovenda, que define a jurisdição, mas seu
caráter de imparcialidade.
d) a jurisdição como “atividade indeclinável”, a ser exercida pelo “juiz natural” – sendo indeclinável
a jurisdição, não poderá o juiz delegar suas atribuições ou eximir-se de julgar (art. 126 do CPC).
O judicium é atividade absolutamente obrigatória;
e) a coisa julgada como atributo específico da jurisdição – a eficácia vinculativa plena só é
produzida pela atividade jurisdicional. As decisões administrativas não adquirem a imutabilidade
decorrente da coisa julgada, pois a matéria poderá ser objeto de reexame pelo Poder Judiciário.
A coisa julgada “é a imutabilidade dos efeitos de uma sentença, em virtude da qual nem as
partes podem repropor a mesma demanda em juízo ou comportar-se de modo diferente daquele
preceituado, nem os juízes podem voltar a decidir a respeito, nem o próprio legislador pode
emitir preceitos que contrariem, para as partes, o que já ficou definitivamente julgado”. A última
palavra cabe ao Poder Judiciário.
4.3 Princípios inerentes à jurisdição:
4.3.1 Princípio da investidura – corresponde à idéia de que a jurisdição só será exercida por quem
tenha sido regularmente investido na autoridade de juiz. Juiz aposentado não pratica ato
processual válido ou existente.
4.3.2 Princípio do juiz natural (denominado pelos alemães de princípio do juiz legal) – assegura que
ninguém pode ser privado de julgamento por juiz independente e imparcial, indicado pelas
normas constitucionais e legais. São proibidos os chamados juízes ou Tribunais de exceção
(aqueles criados ex post facto, instituídos ad hoc, como encomenda para favorecer ou prejudicar
determinadas pessoas ou interesses). Este princípio é composto pelos incisos XXXVII, e LIII do
art. 5°, CF. A proibição da existência e criação de tribunais de exceção é o complemento do
princípio do juiz natural (Nelson Nery Junior). Este princípio se aplica indistintamente ao
processo civil, ao penal e ao administrativo8.
4.3.3 Princípio da indelegabilidade – é vedado a qualquer dos Poderes delegar atribuições, e não pode
juiz algum, segundo seu próprio critério, delegar funções a outro órgão. Resulta de construção
doutrinária.
4.3.4 Princípio da inafastabilidade – garante a todos o acesso ao Poder Judiciário, o qual não pode
deixar de atender a quem venha a juízo deduzir uma pretensão fundada no direito e pedir
solução para ela (art. 5°, inciso XXXV).
4.3.5 Princípio da inevitabilidade – significa que a autoridade dos órgãos jurisdicionais, sendo uma
emanação do próprio poder estatal soberano, impõe-se por si mesma, independentemente da
vontade das partes.

8
Obs: a proibição da existência de tribunais de exceção não abrange as justiças especializadas (Justiça do Trabalho, Justiça
Eleitoral), pois estas são previstas, antecedentemente, na Constituição, de forma abstrata e geral, para julgar matéria específica
prevista em Lei.

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4.4 Distinção entre o ato jurisdicional e o ato legislativo – “Enquanto no desempenho da função
legislativa o Estado elabora as leis, normas gerais e abstratas de coexistência social, no exercício
da jurisdição atua a lei aos casos concretos, isto é, aos conflitos de interesses ocorrentes”. O
legislador cria o direito objetivo, a jurisdição o aplica às hipóteses ocorrentes.
4.5 Distinção entre o ato jurisdicional e o ato administrativo – esta distinção é mais difícil de ser
verificada, uma vez que tanto uma como a outra aplicam o direito preexistente a casos
concretos. Mas existem alguns elementos que permitem discernir entre o ato jurisdicional e o ato
administrativo:
ATO JURISDICIONAL ATO ADMINISTRATIVO
Depende de iniciativa das partes. É executado de ofício.
O objetivo da jurisdição é a aplicação da lei ao caso A Administração deve agir “em conformidade com a
concreto. lei”, tendo como o objetivo à promoção do bem
comum.
A atividade jurisdicional pressupõe como causa um A atividade administrativa não tem por pressuposto
litígio, lide. a existência de uma lide entre as partes, visa
apenas satisfazer necessidades individuais ou
coletivas.
A jurisdição é uma atividade de substituição. A atividade administrativa é originária, primária.
A jurisdição atua sempre processualmente. A Administração geralmente age informalmente.
O ato jurisdicional se reveste da autoridade da coisa As decisões administrativas podem ser
julgada. reexaminadas pelo Poder Judiciário.

4.6 Limites:
4.6.1 Limites espaciais – a jurisdição é exercida nos limites territoriais do respectivo país, para decisão
de litígios de alguma forma vinculados ao seu território. A jurisdição civil dos nossos Tribunais é
exercida de acordo com o preceituado no arts. 88 e 89 do CPC. É possível que a lei brasileira
admita a concorrência de jurisdições, mas, em outros casos, a jurisdição se afirma com
exclusividade (art. 89, CPC). Essas limitações decorrem dos princípios da efetividade da decisão
(possibilidade de executá-la) e da submissão.
4.6.2 Limites subjetivos – a jurisdição brasileira impõe-se a todas as pessoas que se encontrem em
território nacional, brasileiros ou estrangeiros. Entretanto, no âmbito civil, gozam de imunidades
jurisdicionais os Estados estrangeiros, os chefes de Estado estrangeiros e os agentes
diplomáticos, e até algumas organizações internacionais, como a ONU. Cessa a imunidade, no
entanto, quando:
a) há renuncia válida a ela (principio da submissão);
b) quando o seu beneficiário é autor;
c) quando se trata de demanda fundada em direito real sobre imóvel situado no país.
4.7 Classificação da jurisdição
4.7.1 Unidade da jurisdição – A jurisdição, como expressão do poder soberano do Estado, é una e
homogênea, “qualquer que seja a natureza jurídica do conflito que deva resolver” (Frederico
Marques, Instituições), e, a rigor, não comporta divisões, não podendo ser classificada em
espécies. No entanto, a doutrina faz uma classificação da jurisdição em várias espécies tendo em
vista a utilidade didática que esta divisão oferece, bem como por serem elementos úteis para o
entendimento de vários problemas processuais, como a competência de cada órgão, graus de
jurisdição, etc.
4.7.2 Diversos critérios para classificações:

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a) Pelo modo como o juiz se comporta diante do conflito: jurisdição contenciosa e voluntária –
tanto a doutrina como o direito positivo, distinguem a jurisdição contenciosa e a jurisdição
voluntária. Alguns dizem que a jurisdição voluntária nem seria jurisdição e nem voluntária, pois
ao contrário da jurisdição contenciosa, naquela não haveria processo, mas simples
procedimento; não haveria partes, mas apenas interessados; não existiria litígio (conflito de
interesses), mas apenas uma insatisfação, um negócio ou um ato jurídico que necessitaria da
intervenção do Judiciário para se realizar; a sentença da “jurisdição voluntária”, não produziria a
coisa julgada material, podendo ser posteriormente modificada, em face de circunstancias
supervenientes. Tendo em vista todas essas características, para grande parte da doutrina, a
jurisdição voluntária não seria verdadeira jurisdição, e sim, apenas, uma atividade de índole
meramente administrativa (seria a administração pública dos interesses privados), confiada aos
órgãos do Poder Judiciário por razões de tradição e confiança. No entanto, para uma outra parte
da doutrina (entre eles Salvatore Satta, Rafael de Pina, Amílcar de Castro), “a jurisdição
voluntária é jurisdição, pois a justiça não existe somente quando há litígio, direito em conflito.
Toda vez que o Poder Judiciário se manifesta, acerca do que lhe é levado à apreciação, está
fazendo justiça àqueles que lhe submeteram o problema, quer litigioso ou não”. (AJURIS,
18:90).
b) Pelo critério de seu objeto – jurisdição penal e jurisdição civil; é comum dividir-se o exercício da
jurisdição entre os juízes tendo em vista a natureza da pretensão a ser solucionada. Desta
forma, fala-se em jurisdição penal, que é exercida quando o titular da ação penal (Ministério
Público ou querelante) pretende a aplicação de sanções de natureza punitiva; e em jurisdição
civil, que é exercida em face de pretensões não-penais (isto é, matérias de direito civil,
administrativo, constitucional, tributário, comercial, agrário, etc.), com finalidade reparatória.
Esta distinção, que é levada em conta pelas leis de organização judiciária ao fixarem a
competência de varas cíveis ou criminais ou ao dividirem os tribunais em seções, atende apenas
a uma conveniência de trabalho, pois na realidade não é possível isolar completamente uma
relação jurídica da outra, não sendo conveniente atribuir competência civil a determinados juízes
e penal a outros, sem deixar nenhum elo de união entre eles. Segundo CINTRA, GRINOVER,
DINAMARCO, dentre as justiças, só a Justiça do Trabalho não tem competência penal alguma; e
só as Justiças Militares (da União e dos Estados) não têm qualquer competência civil. Fora disso,
as Justiças exercem igualmente competência civil e criminal (Justiça Eleitoral, Federal, Estadual);
c) Pelo critério da posição hierárquica do órgão julgador – jurisdição inferior e superior; a jurisdição
inferior (ou de primeira instância, juízo a quo) é aquela exercida pelos juízes de primeiro grau,
ou seja, por aqueles que ordinariamente processam e julgam as causas originariamente, sem
terem competência recursal alguma; é exercida pelos juízes de direito estaduais, pelos juízes
federais e pelos juízes da jurisdição especial. Já a jurisdição superior (ou de segunda instância,
juízo ad quem) é exercida por órgãos a que cabem os recursos contra as decisões proferidas
pelos juízes inferiores. Desdobra-se em vários níveis: Tribunais de Justiça de cada Estado ou os
Regionais Federais, STJ, STF e Tribunais Superiores de cada jurisdição especial. Obs.: em regra,
os juízos de 1° grau da justiça comum são monocráticos (isto é, o julgamento é feito por um só
juiz) e colegiados os órgãos superiores (tribunais), mas existem exceções: órgãos colegiados na
jurisdição inferior: juntas eleitorais, conselhos de Justiça Militar, Tribunal do Júri.
d) Pelo critério dos organismos judiciários que a exercem – jurisdição especial e comum; a doutrina
costuma, levando em conta as regras de competência estabelecidas na própria Constituição,
distinguir entre jurisdição especial e jurisdição comum. Alguns órgãos são considerados da
jurisdição especial justamente porque cabe a tais justiças a apreciação de litígios fundados em
ramos específicos do direito material, ao contrário das justiças comuns, que conhecem de
qualquer matéria não contida na competência especialmente reservada às primeiras. A
competência das jurisdições especiais é definida expressa e taxativamente na CF, não podendo
uma lei ordinária restringir, nem ampliar tal competência. Fazem parte da chamada jurisdição
especial: Jurisdição trabalhista, jurisdição eleitoral, jurisdição militar. Já no âmbito da jurisdição
comum estão a Justiça Federal e as justiças estaduais ordinárias. No entanto, apesar da divisão,
estas “jurisdições”, não são completamente indiferentes umas às outras, pois há circunstâncias
em que atos processuais realizados perante uma Justiça são aproveitados em outra, como no

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caso de remessa dos autos à Justiça competente, permanecendo com eficácia todos os atos já
praticados na justiça incompetente (CPC, art. 113, § 2°);

5. ORGANIZAÇÃO DO PODER JUDICIÁRIO BRASILEIRO9


Tendo em vista as classificações apresentadas, a organização do Poder Judiciário pode ser assim
disposta:
5.1 Jurisdição especial:
5.1.1 Jurisdição Trabalhista – a CF deixa a critério do legislador ordinário a fixação da competência
(art. 113), mas o art. 114 diz que compete à Justiça do Trabalho conciliar e julgar os dissídios
individuais e coletivos entre trabalhadores e empregadores, tendo também competência para
reclamações trabalhistas contra entes de direito público externo e da administração pública
direita e indireta dos municípios, dos Estados, do Distrito Federal e da União. Com a EC/45 sua
competência foi ampliada, passando a englobar, inclusive, as repercussões patrimoniais e morais
ocasionadas por acidentes de trabalho. Os órgãos e suas composições estão disciplinados nos
art. 111, 112, 115 e 116 da CF. A divisão judiciária trabalhista é por regiões, e a CF determina
que haverá pelo menos um TRT em cada Estado (art. 112). Pela Emenda Constitucional n°
24/99, os órgãos jurisdicionais de 1° grau passam a ser as varas do trabalho, ocupadas por um
juiz singular (suprimidas as antigas Juntas de Conciliação e Julgamento e consequentemente os
juízes classistas);
5.1.2 Jurisdição Eleitoral – art. 118 a 121 da CF. Compete atribuições administrativas relativamente à
organização e realização de pleitos eleitorais, bem como o julgamento de lides cíveis e criminais
previstas em lei complementar. Sua disciplina básica é dada pela CF e pelo Código Eleitoral e leis
que o complementam. A justiça Eleitoral brasileira é composta do Tribunal Superior Eleitoral
(TSE, órgão de cúpula, com sede em Brasília, cabendo o exame, em última instância, das
questões eleitorais), os Tribunais Regionais Eleitorais (cada Estado tem um, com competência
originária e recursal, referindo-se esta aos processos já julgados pelos juízes e juntas eleitorais,
2° grau), dos juízes eleitorais (são os próprios juízes de direito estaduais, que exercem
jurisdição nas zonas eleitorais, que é a unidade de divisão judiciária eleitoral, tendo competência
eleitoral civil e penal) e das juntas eleitorais (tem como missão a apuração do pleito,
competência predominantemente administrativa, e é composta durante as eleições e integradas
por um juiz de direito e mais dois a quatro cidadãos de notória idoneidade);
5.1.3 Jurisdição Militar – art. 122 a 124 da CF. A esta justiça pertence o julgamento dos crimes
militares definidos em lei, lei esta que é o Código Penal Militar (causas penais fundadas no
direito penal militar e na Lei de Segurança Nacional). Atua no âmbito federal (através do STM e
dos Conselhos de Justiça Militar), e é exercida por juízes militares estaduais (através dos
Conselhos de Justiça e dos Tribunais de Justiça Militar). Nos Estados em que o efetivo da Polícia
Militar não supere vinte mil integrantes, inexiste o Tribunal de Justiça Militar (que é o caso do
Estado de Pernambuco), cabendo os julgamentos de segunda instância ao Tribunal de Justiça de
cada Estado. A Justiça Militar do Estado de Pernambuco é exercida pelo auditor e Conselho de
Justiça, na 1ª instância, e pelo Tribunal de Justiça, na 2ª instância (art. 133 do Código de
Organização Judiciária do Estado de Pernambuco).
5.2 Jurisdição Comum – são consideradas comuns porque conhecem de qualquer matéria não
contida na competência especialmente reservada às Justiças Especiais (acima detalhadas). Neste
âmbito se encontram:
5.2.1 Justiça Federal – art. 106 a 110 da CF. É composta pelos juízes federais de 1° grau (para efeito
de 1° grau, o território brasileiro é divido em seções judiciárias, que são agrupadas em cinco
regiões, e correspondem a cada um dos TRF’s) e pelos Tribunais Regionais Federais (1ª Região:
Brasília, 2ª Região: Rio de Janeiro, 3ª Região: São Paulo, 4ª Região: Porto Alegre e 5ª Região:
Recife). Competência originária (art. 108, I, CF), e competência recursal (art. 108, II, da CF);

9
Ver “Organograma do Poder Judiciário Brasileiro”.

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5.2.2 Justiça Estadual ordinária – art. 125 a 126 da CF, Códigos de Organização Judiciária e
Constituições Estaduais. É formada pelos juízes estaduais (também conhecidos como Juízes de
Direito) e pelos Tribunais de Justiça, sendo um deles o Tribunal de Justiça de Pernambuco. A
Justiça Estadual é responsável pelo julgamento de processos envolvendo questões de
propriedade, de família, de acidentes de trânsito, de consumo, de sucessões, de falências e
concordatas, relativas à infância e juventude, e ainda, matérias criminais, dentre outras. Na
Justiça Estadual a maioria dos processos são propostos na 1ª Instância, onde as ações são
decididas unicamente por um Juiz de Direito. Em caso de recurso, as ações são decididas na 2ª
Instância, por desembargadores do Tribunal de Justiça. Os desembargadores e os juízes fazem
parte da mesma classe: a dos magistrados.
5.3 Superior Tribunal de Justiça – art. 104 a 105 da CF. É um órgão que exerce a chamada
jurisdição comum, uma vez que somente lhe cabem causas regidas pelo direto comum e não as
regidas por ramos jurídicos especiais. Pela competência que a CF lhe dá, apresenta-se como
defensor da lei federal e unificador do direito (questões federais infraconstitucionais).
5.4 Supremo Tribunal Federal – art. 101 a 103 da CF. Tem sede em Brasília, representa o ápice da
estrutura judiciária nacional e se relaciona tanto com a Justiça comum como com as especiais. É
a máxima instância de superposição em relação a todos os órgãos da jurisdição: compete-lhe a
última palavra na solução das causas que lhe são submetidas. Exerce, principalmente, a guarda
da Constituição.

6. COMPETÊNCIA: MEDIDA DA JURISDIÇÃO (TEORIA GERAL):


6.1 Conceito – a definição tradicional de competência é de que esta é “a medida da jurisdição”, isto
é, “é o conjunto das atribuições jurisdicionais de cada órgão ou grupo de órgãos, estabelecidas
pela Constituição e pela lei”. (DINAMARCO, Cândido. Instituições, p. 11). Liebman conceitua
competência como sendo “a quantidade de jurisdição cujo exercício é atribuído a um órgão ou
grupo de órgãos”.
6.2 Fontes das normas sobre competência – as normas de determinação de competência encontram-
se na Constituição Federal, em Constituições Estaduais, no CPC, em leis federais não codificadas,
nos Códigos de Organização Judiciária estaduais e nos Regimentos Internos dos Tribunais. Na CF
está taxativamente prevista a competência dos Tribunais de superposição (STF e STJ), das
Justiças Especiais e da Justiça Federal. Nas Constituições Estaduais e nos Códigos de
Organização Judiciária Estaduais está disciplinada a competência dos órgãos jurisdicionais
estaduais (como a competência originária dos tribunais locais e as regras sobre competência de
juízo - varas especializadas, etc). No CPC (arts. 86 a 124) está a maior parte das normas de
competência, principalmente as pertinentes à competência territorial (regras sobre o foro -
comarcas- competentes).
6.3 A determinação da competência – problemas a resolver: qual o caminho mental a ser feito para
se buscar o órgão Jurisdicional competente para processar e julgar uma Ação de Indenização por
danos morais e materiais advindos de acidente de trabalho que aconteceu numa empresa
localizada em Olinda-PE? A determinação da competência em cada causa segue um caminho
complexo, constituindo o que Calamandrei chamava de “concretização da jurisdição”. Faz-se
necessário, para tanto, responder às seguintes indagações (DINAMARCO, Cândido. Instituições,
p. 419):
I- Para a causa hipotética em exame é originariamente competente algum dos Tribunais de
superposição (STF, STJ) ou uma das Justiças?
II - Não sendo originariamente competentes os tribunais de superposição, de qual das Justiças será
a competência?
III - No âmbito da Justiça competente, a competência é originariamente de seus Tribunais (órgãos de
jurisdição superior) ou dos órgãos inferiores (juízos, varas)?

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IV - Sendo competentes os órgãos inferiores, em qual lugar do território nacional situa-se o órgão
perante o qual a causa deve ser processada - ou seja, em qual foro?
V- Se a competência for de um foro em que existam varas especializadas (varas cíveis, da família,
da Fazenda Pública), qual delas será a competente?
6.4 Critérios para fixação da competência:
6.4.1 Competência em razão da matéria – pela natureza da causa, a competência para processar e
julgar uma determinada matéria pode ser atribuída a uma justiça especializada ou a uma justiça
comum (federal ou estadual). Exemplo: matéria trabalhista é da competência material da Justiça
Especial Trabalhista, CF, art. 114. Trata-se de competência absoluta.
6.4.2 Competência em razão da pessoa – vincula-se a atributo pessoal do litigante. Leva-se em
consideração a condição da pessoa que está no litígio. Exemplo: as causas em que for parte o
Estado, ou autarquia estadual, cabem, na comarca da capital, às varas privativas da Fazenda
Pública. Trata-se de competência absoluta.
6.4.3 Competência em razão do valor da causa – compete aos Juizados Especiais Cíveis processar e
julgar causas cíveis cujo valor sejam de até 40 salários mínimos. Já na área federal, compete ao
Juizado Especial Federal Cível processar, conciliar e julgar causas de competência da Justiça
Federal até o valor de sessenta salários mínimos, bem como executar as suas sentenças. As
causas cujo valor seja maior do que os acima explicitados, a competência para processar e
julgar as ações é da justiça comum, federal ou estadual, dependendo da matéria.
6.4.4 Competência funcional – “quando a lei a determina automaticamente, a partir do simples fato de
algum órgão jurisdicional ter oficiado em determinado processo com atividade que de alguma
forma esteja interligada com essa para a qual se procura estabelecer qual o juiz competente”.
(Dinamarco, Candido. Instituições, p. 433). É a competência decorrente do prévio exercício da
jurisdição por determinado órgão. Leva-se em consideração a função já exercida num processo
por um determinado juízo. Opera tanto no plano vertical como no horizontal. Por exemplo, é
competente para processar a ação de execução de titulo judicial (sentença) o juízo que prolatou
a sentença condenatória no processo de conhecimento. Trata-se de competência absoluta.
6.4.5 Competência territorial ou de foro – arts. 94 a 100 do CPC. Lembrando que foro é a base
territorial a cargo de cada órgão judiciário de qualquer grau, expressando sempre a idéia
geográfica de território. Comarca é o foro das Justiças Estaduais, em primeiro grau de jurisdição.
Já seção judiciária é o foro das Justiças Federais. Trata-se de competência relativa.
6.5 Competência Absoluta e Relativa:
6.5.1 Conceito – as regras que visam fixar ou determinar a competência de um órgão jurisdicional
podem atender primordialmente aos interesses das partes, cabendo a estas escolherem ou
manifestar a sua aceitação ou recusa do foro onde deve tramitar a causa, ou podem atender ao
interesse público, sendo, portanto uma norma de ordem pública, de caráter cogente para as
partes. Tendo em vista a “disponibilidade” ou não dessas normas, pode-se distinguir regras de
competência absoluta (indisponível e não modificável por vontade das partes, pois prevalece o
interesse público) e de competência relativa (disponível e modificável por vontade das partes,
tendo em vista o interesse particular dos litigantes, quer para facilitar ao autor o acesso ao
Judiciário, quer propiciando ao réu melhores oportunidades de defesa). Segundo Dinamarco
(Instituições, p. 605), a ausência de dispositividade nas normas que fixam a competência
absoluta associa-se intimamente às razões de ordem pública que motivaram sua edição - no
caso, a conveniência da correta distribuição da Justiça, pelos critérios que sensibilizaram o
constituinte e o legislador, levando-os a editar tais normas. A competência será absoluta quando
fixada em razão da matéria ou da hierarquia e relativa, quando relacionada com o território ou o
valor da causa (art. 111 do CPC).
6.5.2 Modo como o sistema jurídico trata a competência absoluta e a relativa:
a) Segundo Cândido Dinamarco (Instituições, p. 606), por ser da natureza das normas cogentes, as
que ditam competências absolutas são insuscetíveis de alterações, ressalvas ou parciais

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derrogações por qualquer ato de vontade das partes, consensual ou unilateral, por conexidade,
ou por ausência de argüição. O caráter absoluto da competência consiste na imunidade a
prorrogações. Já a competência relativa, tendo em vista a natureza disponível das suas normas
fixadoras, poderá ser modificada por vontade das partes, por força da garantia constitucional da
liberdade das partes, que poderá escolher o foro que desejar ser processado ou ajuizar ações;
b) Modos de arguição:
b.1) a incompetência absoluta (art. 113, CPC) poderá ser reconhecida e declarada de ofício pelo juiz,
desde o primeiro momento que toma contato com a causa até ao momento em que se dispõe a
sentenciar, uma vez que deverá controlar espontaneamente as normas que tratam da
competência absoluta, por serem de ordem pública. Com ou sem alegação das partes, o juiz
deverá pronunciar a incompetência absoluta sempre que dela se aperceber, mandando remeter
os autos ao juízo competente. No entanto, caso haja omissão do juiz, a parte também poderá
alegar a incompetência absoluta: o réu deverá argüí-la nos próprios autos da causa,
precisamente nas preliminares da contestação (prazo de 15 dias), antes mesmo de atacar
diretamente o mérito da causa. Essa argüição não provoca nenhum incidente e nem suspende o
processo, ao contrário da argüição de incompetência relativa;
b.2) regra de ouro da incompetência relativa resume-se ao seguinte enunciado: é vedado ao juiz
conhecer de ofício a incompetência relativa (Súmula n° 33 do STJ), isto é, cabe necessariamente
ao réu alegar a incompetência relativa, por meio de exceção, sob pena de não poder ser
conhecida pelo juiz e sob pena de ser prorrogada definitivamente a competência do juízo no qual
foi ajuizada a causa originariamente10. A exceção é um incidente ritual do processo, que se
instaura exclusivamente mediante iniciativa da parte ré, é autuada em apenso aos autos deste,
está sujeita ao prazo (de 15 dias, art. 297 e 305 do CPC) e tem o efeito prático, que a mera
argüição de incompetência absoluta, nas preliminares da contestação não tem, de determinar a
suspensão do processo ate que seja julgada (art. 306, CPC).
c) Conseqüências do reconhecimento da incompetência:
c.1) no caso da incompetência absoluta, o juiz, ao reconhecê-la, mandará remeter os autos ao juiz
competente para julgar a causa, e serão considerados nulos todos os atos decisórios praticados
pelo juiz reconhecido absolutamente incompetente;
c.2) no caso de incompetência relativa, caso esta seja argüida pelo réu, será instaurado um incidente
processual, chamado de exceção de incompetência, que suspenderá o processo principal, e que
seguirá o rito previsto nos arts. 307 ao 311 do CPC, e uma vez reconhecida, o juiz remeterá os
autos para o juízo declinado pelo réu, sendo considerado válidos todos os atos até então
praticados.
6.6 Princípio da “Perpetuatio Jurisdictionis” ou da perpetuação da competência – o art. 87 do CPC diz
que a competência é determinada no momento em que a ação é proposta, não sendo mais
alterada, ainda que se modifiquem os dados de fato ou de direito, em função dos quais se
operou tal determinação. Assim, uma vez sendo ajuizada uma ação em Recife, porque o réu lá
era domiciliado, é irrelevante que este venha a se transferir para São Paulo, pois o processo
continuará sendo processado no juízo de Recife, pois já se perpetuou a competência. Desta
forma, a causa permanecerá perante o juízo a que houver sido atribuída, ainda que o réu altere
seu domicílio (art. 94 do CPC). As mudanças de domicílio do réu, depois de ajuizada a demanda,
não alteram a competência, já estabilizada com a propositura da ação. No entanto, o princípio da
perpetuação da jurisdição admite exceção nas hipóteses de competência absoluta (material ou

10
Antiga exceção - respaldada pela própria jurisprudência do STJ - a Súmula n° 33, restou positivada com a Lei n° 11.280/06 que
inseriu o parágrafo único no art. 112 do CPC, que assim dispõe: “A nulidade da cláusula de eleição de foro, em contrato de adesão,
pode ser declarada de ofício pelo juiz, que declinará de competência para o juízo de domicílio do réu”. Com efeito, observe o
seguinte aresto transcrito: “É possível ao juiz, considerando abusiva a cláusula de eleição de foro quando resultar manifesta
dificuldade para a defesa do réu, notadamente nas avenças regidas pelo Código de Defesa do Consumidor, reconhecer não só a
nulidade da referida cláusula eletiva de foro, como também, de ofício, declinar de sua competência” (STJ, 2ª Seção, CC 22.252, j.
12.08.98, rel. Min. Barros Monteiro, DJU 05.10.98).

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funcional), isto é, é admissível a modificação posterior da competência nos casos em que ela for
absoluta.
6.7 Prevenção – “É a fixação da competência de um entre os juízes igualmente competentes para
dada causa, com exclusão dos demais” (Dinamarco, Instituições, p. 621). Pela prevenção,
apenas um dos muitos juízos abstratamente competentes terá a competência concretizada,
excluindo-se os demais. Prae-venire significa chegar primeiro. A regra geral é que a citação
válida é que torna prevento o juízo (art. 219, CPC), mas, se causas conexas correm perante
juízes com a mesma competência territorial, considera-se prevento aquele que despachou
positivamente em primeiro lugar (art. 106, do CPC).
6.8 Causas de prorrogação da competência:
6.8.1 Prorrogação legal (conexão e continência) – existem alguns casos em que é admitida a
prorrogação da competência em decorrência de disposição da própria lei, tendo em vista motivos
de ordem pública. O CPC diz que haverá prorrogação legal da competência nos casos em que,
entre duas ações, haja relação de conexidade ou continência (CPC, arts. 102-104), devendo as
duas causas ser julgadas por um único juízo, de modo a evitar decisões contraditórias em dois
processos distintos e para atender ao princípio da economia processual.
a) Conexão – são consideras conexas (art. 103 do CPC) duas ou mais ações quando lhes for
comum o objeto (ex: existe um bem que é objeto de dois conflitos de interesses diferentes) ou a
causa de pedir (as duas ações baseiam-se nos mesmos argumentos ou fundamentos, tendo, no
entanto, objetos diferentes)11.
b) Continência – dá-se a continência quando entre duas ou mais ações há identidade quanto as
partes e a causa de pedir, mas o objeto de uma, por ser mais amplo, abrange o das outras (art.
104, CPC).
6.8.2 Prorrogação convencional – a prorrogação voluntária da competência se dá por vontade das
partes, que poderá ser:
a) tácita – quando o réu não alegar a incompetência relativa no prazo de 15 dias através de
exceção de incompetência (art. 305, CPC), o que demonstra que aceitou o foro em que foi
originariamente proposta a ação (art. 114 do CPC – com nova redação dada pela Lei n°
11.280/06);
b) expressa – as partes, através de acordo expressamente formulado pelos titulares da relação
jurídica, antes da instauração do processo, concordam em eleger um foro, trata-se da cláusula
de eleição de foro (art. 111, CPC).
6.9 Regras especiais de competência:
6.9.1 Causas em que for parte a União ou os Estados
a) União – as causas em que a União for autora serão aforadas perante a Justiça Federal, na seção
judiciária onde tiver domicílio a outra parte; se a União for ré, poderá ser demandada ou no
Distrito Federal ou onde for domiciliado o autor, ou ainda, na seção judiciária onde tiver ocorrido
o ato ou fato que deu origem à demanda ou onde estiver situada a coisa litigiosa (CF, art. 109,
§§ 1° e 2°). Se a União intervir como assistente ou opoente (ou outra forma de intervenção de
terceiro) em demanda que esteja correndo em primeira instância perante a Justiça comum, o
processo passa à competência da Justiça Federal (competência absoluta em razão da pessoa), e

11
Súmula 235 do STJ (Conexão após a sentença): “A conexão não determina a reunião dos processos, se um deles já foi
julgado”. Ementa: “PROCESSO CIVIL. CONFLITO POSITIVO DE COMPETÊNCIA. CONEXÃO ENTRE AÇÕES. SENTENÇA PROFERIDA EM
UM DOS FEITOS. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 235/STJ. 1. Existindo conexão entre duas ações que tramitam perante juízos diversos,
configurada pela identidade do objeto ou da causa de pedir, impõe-se a reunião dos processos, a fim de evitar julgamentos
incompatíveis entre si. Não se justifica, porém, a reunião quando um dos processos já se encontra sentenciado, pois neste esgotou-
se a função jurisdicional do magistrado anteriormente prevento. Incidência da Súmula n. 235/STJ. 2. Conflito conhecido, declarando-
se competente o Juízo de Direito da 1ª Vara Cível de Amparo/SP”. (STJ, 1ª Seção, CC 47611/SP, rel. Min. Teori Albino Zavascki, j.
13.04.05, conheceram e declararam competente a 1ª Vara do Cível de Amparo/SP, v.u., DJ 02.05.05, p. 148).

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os autos serão remetidos ao juiz federal respectivo (Súmula 250 do STF, CPC, art. 99, parágrafo
único), a quem compete decidir nos termos da Súmula 150 do STJ.
a.1) Súmula 150 do STJ – “Compete à Justiça Federal decidir sobre a existência de interesse jurídico
que justifique a presença, no processo, da União, suas autarquias ou empresas públicas”.
a.2) Súmula 224 do STJ – “Excluído do feito o ente federal, cuja presença levará o juiz estadual a
declinar da competência, deve o juiz federal restituir os autos e não suscitar o conflito”.
a.3) Súmula 254 do STJ – “A decisão do Juízo Federal que exclui da relação processual ente federal
não pode ser reexaminada no Juízo Estadual”.
b) Estados – os Estados não possuem foro privilegiado, mas juízo privativo (varas especializadas).
Assim, nas causas que devem correr na comarca da Capital, quando a Fazenda for autora, ré, ou
interveniente, deverá a ação ser remetida à vara especializada – Vara da Fazenda Pública
Estadual (caso exista na Lei de Organização Judiciária local). Entretanto, caso a demanda seja
proposta em local diverso da capital, e nesta comarca não exista vara especializada, não
ocorrerá deslocamento da competência12.
6.9.2 Mandado de segurança, ação civil pública e ação popular
a) Mandado de segurança – as regras de competência se encontram na Constituição Federal, nas
Constituições estaduais, nos Códigos de Organização Judiciária, e nos Regimentos Internos dos
Tribunais. Assentam-se tais regras, fundamentalmente, não na natureza da lide ou da pretensão
deduzida no writ, mas sim em função da qualificação da autoridade coatora, se autoridade de
nível federal, estadual ou municipal e, ainda em função da hierarquia de tal autoridade.
b) Ação civil pública – como dispõe o art. 2° da Lei n° 7.347/85, devem ser propostas no foro do
local onde ocorrer o dano, ou onde se teme que venha a ocorrer. Com efeito, o STJ editou a
Súmula 183: “Compete ao Juiz Estadual, nas comarcas que não sejam sede de vara da Justiça
Federal, processar e julgar ação civil pública, ainda que a União figure no processo”. Acontece
que no julgamento do Conflito de Competência n° 27.676 (STJ, 1ª Seção, Emb. de Decl. No CC
27.676, j. 08.11.2000, rel. Min. José Delgado, DJU 27.11.2000, p. 195), o STJ CANCELOU a
Súmula 183, e passou a entender que caso a União intervenha no processo, o feito deverá se
deslocar para a Seção Judiciária Federal mais próxima.
c) Ação popular – nos termos do art. 5° da Lei n° 4.717/65, deve-se buscar a “origem do ato
impugnado” para determinar qual o juízo competente para processar e julgar a ação popular.
Assim, se o ato impugnado emana de órgão ou autoridade da União, de autarquia ou entidade
mantida pela União, competente será a Justiça Federal, correndo a demanda no juízo federal da
seção judiciária onde o ato foi praticado ou foram produzidos os efeitos danosos.
6.9.3 Súmulas mais recentes sobre competência
a) Súmula 349 do STJ: Compete à Justiça Federal ou aos juízes com competência delegada o
julgamento das execuções fiscais de contribuições devidas pelo empregador ao FGTS.
b) Súmula 363 do STJ: Compete à Justiça estadual processar e julgar a ação de cobrança ajuizada
por profissional liberal contra cliente.
c) Súmula 365 do STJ: A intervenção da União como sucessora da Rede Ferroviária Federal S/A
(RFFSA) desloca a competência para a Justiça Federal ainda que a sentença tenha sido proferida
por Juízo estadual.
d) Súmula 367 do STJ: A competência estabelecida pela EC n. 45/2004 não alcança os processos já
sentenciados.
e) Súmula 368 do STJ: Compete à Justiça comum estadual processar e julgar os pedidos de
retificação de dados cadastrais da Justiça Eleitoral.

12
Súmula 206 do STJ: “a existência de vara privativa, instituída por lei estadual, não altera a competência territorial resultante
das leis de processo”.

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f) Súmula 374 do STJ: Compete à Justiça Eleitoral processar e julgar a ação para anular
débito decorrente de multa eleitoral.
g) Súmula 376 do STJ: Compete a turma recursal processar e julgar o mandado de segurança
contra ato de juizado especial.
h) Súmula 383 do STJ: A competência para processar e julgar ações conexas de interesse de menor
é, em princípio, do foro do domicílio do detentor de sua guarda.
i) Súmula 428 do STJ: Compete ao Tribunal Regional Federal decidir os conflitos de competência
entre juizado especial federal e juízo federal da mesma seção judiciária.
j) Súmula Vinculante n° 22 do STF: “A Justiça do Trabalho é competente para processar e julgar as
ações de indenização por danos morais e patrimoniais decorrentes de acidente de trabalho
propostas por empregado contra empregador, inclusive aquelas que ainda não possuíam
sentença de mérito em primeiro grau quando da promulgação da Emenda Constitucional nº
45/04”.
l) Súmula Vinculante n° 23 do STF: “A Justiça do Trabalho é competente para processar e julgar
ação possessória ajuizada em decorrência do exercício do direito de greve pelos trabalhadores
da iniciativa privada”.
6.9.4 Súmulas mais recentes alteradas/canceladas
a) A Corte Especial cancelou o enunciado n. 348 de sua Súmula em razão da decisão do Supremo
Tribunal Federal (STF) no RE 590.409-RS, DJe 29/10/2009, no qual o STF entendeu que
compete ao Tribunal Regional Federal processar e julgar o conflito de competência instaurado
entre juizado especial federal e juízo federal da mesma seção judiciária. Considerou-se o fato de
competir ao STF a palavra final sobre competência, matéria tipicamente constitucional (art. 114
da CF/1988). Logo em seguida, a Corte Especial aprovou a Súmula n° 428-STJ, condizente com
esse novo entendimento. CC 107.635-PR, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 17/3/2010.13
b) Súmula 366 do STJ: (*) - Julgando o CC 101.977-SP, na sessão de 16/09/2009, a Corte Especial
deliberou pelo CANCELAMENTO da Súmula n. 366: “Compete à Justiça estadual processar e
julgar ação indenizatória proposta por viúva e filhos de empregado falecido em acidente de
trabalho”.

7. AÇÃO
7.1 Ação
a) Conceito – conforme Humberto Theodoro Jr. “a ação é o direito a um pronunciamento estatal
que solucione o litígio, fazendo desaparecer a incerteza ou a insegurança gerada pelo conflito de
interesses, pouco importando qual seja a solução a ser dada pelo juiz”.
b) Condições da ação – no nosso ordenamento jurídico, as condições da ação são três:
possibilidade jurídica do pedido, legitimidade das partes e interesse de agir:
b.1) Possibilidade jurídica do pedido – é a admissibilidade em abstrato do provimento pedido, isto é,
pelo fato de incluir-se este entre aqueles que a autoridade judiciária pode emitir, não sendo
expressamente proibido. Ou melhor, conforme Moniz de Aragão, “a possibilidade jurídica não

13
Súmula 348 do STJ: “Compete ao Superior Tribunal de Justiça decidir os conflitos de competência entre juizado especial federal e
juízo federal, ainda que da mesma seção judiciária”. Pleno do STF - Ementa: “CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. JUIZADO
ESPECIAL E JUÍZO FEDERAL DE PRIMEIRA INSTÂNCIA, PERTENCENTES À MESMA SEÇÃO JUDICIÁRIA. JULGAMENTO AFETO AO
RESPECTIVO TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL. JULGAMENTO PELO STJ. INADMISSIBILIDADE. RE CONHECIDO E PROVIDO. I. A
questão central do presente recurso extraordinário consiste em saber a que órgão jurisdicional cabe dirimir conflitos de competência
entre um Juizado Especial e um Juízo de primeiro grau, se ao respectivo Tribunal Regional Federal ou ao Superior Tribunal de
Justiça. II - A competência STJ para julgar conflitos dessa natureza circunscreve-se àqueles em que estão envolvidos tribunais
distintos ou juízes vinculados a tribunais diversos (art. 105, I, d, da CF). III - Os juízes de primeira instância, tal como aqueles
que integram os Juizados Especiais estão vinculados ao respectivo Tribunal Regional Federal, ao qual cabe dirimir os
conflitos de competência que surjam entre eles. IV - Recurso extraordinário conhecido e provido” (STF-Pleno, RE 509490-RJ,
rel. Min. Ricardo Lewandowski, j. 26.08.09, deram provimento, v.u., DJe 28.10.09).

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deve ser conceituada, como se tem feito com vistas à existência de uma previsão no
ordenamento jurídico, que torne o pedido viável em tese, mas, isto sim, com vistas à
inexistência no ordenamento jurídico, de uma previsão que o tornei inviável. Se a lei contiver um
tal veto, será caso de impossibilidade jurídica do pedido”.
b.2) Legitimidade das partes (ou legitimidade para agir) – para Liebman, a legitimação para agir é a
titularidade (ativa e passiva) da ação. Quando existe coincidência entre a legitimidade do direito
material que se quer discutir em juízo e a titularidade do direito de ação, diz-se que se trata de
legitimação ordinária para a causa, que é a regra geral (art. 3° e 6° do CPC): aquele que se
afirma titular do direito material tem legitimidade para discutí-lo em juízo. É a pertinência
subjetiva da ação. A ninguém é dado pleitear, em nome próprio, direito alheio. No entanto, há
casos em que o sistema jurídico autoriza, excepcionalmente, alguém a pleitear, em nome
próprio, direito alheio, isto é, quando aquele que tem legitimidade para estar no processo como
parte não é o que se afirma titular do direito material discutido em juízo: são os casos de
legitimação extraordinária (ou substituição processual). Exemplo: marido na defesa dos bens
dotais da mulher; Ministério Público para ajuizar ação de investigação de paternidade (art. 2°, §
4° da LIP); ação de sindicatos na defesa dos seus associados que os autorizaram para tanto (art.
5°, XXI, CF);
b.3) Interesse de agir ou interesse processual – conforme ensinamentos de Nelson Nery Júnior,
“existe interesse processual quando a parte tem necessidade de ir a juízo para alcançar a tutela
pretendida e, ainda, quando essa tutela jurisdicional pode trazer-lhe alguma utilidade do ponto
de vista prático. Movendo a ação errada ou utilizando-se do procedimento incorreto, o
provimento jurisdicional não lhe será útil, razão pela qual a inadequação procedimental acarreta
a inexistência de interesse processual.” Corroborando tal entendimento, diz Humberto Theodoro
que “o interesse processual, a um só tempo, haverá de traduzir-se numa relação de necessidade
e também numa relação de adequação do provimento postulado, diante de um conflito de direito
material trazido à solução judicial.” É, portanto, a necessidade do processo + adequação do
procedimento e do provimento judicial desejado (art. 267, I e VI e 295, V, CPC).
c) Individualização das ações – deve-se coibir a pendência de ações iguais. Segundo o nosso CPC,
art. 301, § 2°: “Uma ação é idêntica à outra quando tem as mesmas partes, a mesma causa de
pedir e o mesmo pedido”.
c.1) litispendência (ação em curso) – há litispendência quando se repete ação, que está em curso
(art. 301, §3°). Ajuizada ação idêntica à outra que se encontra pendente – (onde já ocorreu à
citação - art. 219, CPC - assim, ao deduzi-la dever-se-á prová-la por meio de certidão da citação
do réu na primeira demanda, proposta no mesmo ou em outro juízo) – deve esta segunda ser
extinta sem julgamento do mérito (art. 267, V);
c.2) coisa julgada (ação finda) – há coisa julgada quando se repete ação que já foi decidida por
sentença e que não caiba mais recurso (art. 301, §3°). Não pode lide já julgada, por sentença de
mérito transitada em julgado, ser novamente submetida ao exame do Poder Judiciário, cabendo
ao réu alegar, em preliminar da contestação, a coisa julgada, que, uma vez acolhida, extingue o
processo sem julgamento do mérito (art. 267, V).
d) Elementos da ação:
d.1) Partes – duas partes não querem significar que só possam existir duas pessoas num conflito de
interesses, pois pode haver litisconsórcio:
d.1.1) pólo ativo (um autor ou mais, em litisconsórcio) – o autor é aquele que pede;
d.1.2) pólo passivo (um réu ou mais, em litisconsórcio) – o réu é aquele em face de quem se pede o
provimento jurisdicional.
d.2) Objeto:
d.2.1) Pedido – o pedido é a revelação da pretensão que o autor espera ver acolhida e que, por isso, é
deduzida em juízo. Exprime tudo aquilo que o autor pretende do Estado frente ao réu. Tem
dupla finalidade: obter a tutela jurisdicional do Estado (uma condenação, uma declaração, etc.)

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e fazer valer um direito subjetivo frente ao réu (Humberto Theodoro Jr.). Pede-se a prolação de
uma sentença (imediato) que garanta ao autor o bem da vida pretendido (mediato).
d.2.1.1) Pedido imediato/contra o Estado – tipo de providência, tutela jurisdicional pleiteada (=
provimento jurisdicional). Põe a parte em contato direito com o direito processual. Exemplo:
tutela cautelar, tutela de execução, tutela cognitiva;
d.2.1.2) Pedido mediato/contra o réu – o próprio bem jurídico reclamado. Põe a parte em contato direito
com o direito material. Exemplo: posse, propriedade, alimentos, indenização.
d.2.2 Causa de pedir – é o porquê do pedido, que o autor deverá indicar; é a sua fundamentação. A
causa de pedir situa-se no elemento fático (fato jurídico) e em sua repercussão jurídica. Ela será
formalizada na parte da petição inicial em que são narrados os fatos e os fundamentos jurídicos
do pedido (art. 282, III, CPC).
d.2.2.1) causa de pedir remota – é o fato jurídico; o fato gerador de direito postular; o fato em si. Na
petição inicial, é a parte em que o autor descreve clara e precisamente o acontecimento que foi
a razão de ser da demanda. Exemplo de fato jurídico: sociedade conjugal, locação, parentesco;
d.2.2.2) causa de pedir próxima – o fundamento jurídico propriamente dito; a repercussão jurídica do
fato; são os efeitos ou conseqüências do fato jurídico. Exemplo: para a sociedade conjugal,
temos as seguintes conseqüências: os deveres de fidelidade conjugal e deveres de coabitação;
para a locação: dever de pagamento dos aluguéis e dever de servir-se do imóvel para o uso
convencionado no contrato;
e) Classificação das ações – quanto à tutela jurisdicional invocada/à natureza do provimento
jurisdicional pleiteado:
e.1) Ação de cognição ou de conhecimento (CPC, arts. 1º/565) – se a lide é de pretensão contestada
e há necessidade de definir a vontade concreta da lei para solucioná-la, a ação será de
conhecimento. Acerta-se a efetiva situação jurídica das partes (Humberto Theodoro Jr.). Busca a
prolação de uma sentença que declare quem tem razão e a que gera o processo de
conhecimento. Pode se desdobrar em:
e.1.1) ação declaratória – arts. 4º, 5º, 325, CPC, podendo ser principal ou incidental. Apenas certifica a
existência ou não do direito, sem o fim de preparar a consecução de qualquer bem. Visa a
certeza jurídica. Limita-se simplesmente a declarar a vontade da lei. Exemplo: ação declaratória
de inexistência de débito fiscal;
e.1.2) ação constitutiva (positiva = constitutiva propriamente dita; ou negativa = desconstitutiva) –
“além da declaração do direito da parte, visa criar, modificar ou extinguir um estado ou uma
relação jurídica material”. Exemplo: ação de separação judicial dos cônjuges; ação de rescisão
de contrato;
e.1.3) ação condenatória – “busca não somente a declaração do direito subjetivo material do autor,
mas também a formulação de um comando que imponha uma prestação a ser cumprida pelo
réu. Tende à formação de um título executivo”. Exemplo: ação de cobrança de alugueis
atrasados.
e.2) Ação de execução – gera o processo de execução (CPC, arts. 566/795). Visa realizar
efetivamente a situação jurídica declarada e afirmada no processo de conhecimento. Tem como
objetivo obter, coativamente, o resultado prático que deveria ter se realizado espontaneamente
pelo réu. Exemplo: execução de título extrajudicial ou judicial.
e.3) Ação cautelar – gera o processo cautelar (CPC, arts. 796/889). Visa apenas prevenir, em caráter
emergencial e provisório, a situação da lide contra as alterações de fato ou de direito que
possam ocorrer antes da solução de mérito prestada no processo de conhecimento ou da solução
coativa de realização do direito, no processo de execução. Tem o objetivo de garantir o eficaz
desenvolvimento do resultado das outras duas funções: cognição e execução. Exemplo: ação
cautelar de produção antecipada de provas; ação cautelar de arresto de bens.

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MÓDULO II – PROCESSO E PROCESSO DE CONHECIMENTO

1. PROCESSO
1.1 Conceito – é o meio de que se vale o Estado para exercer sua função jurisdicional, isto é, para
resolução das lides e, em conseqüência, das pretensões. Processo é o instrumento para o
exercício da jurisdição.
1.2 Finalidade – obter a composição da lide, da relação jurídica substancial disputada entre as
partes;
a) Visão dinâmica (conjunto de atos) – como operação, o processo se desenvolve numa série de
atos: atos do juiz, atos dos sujeitos da lide e até mesmo de terceiras pessoas desinteressadas. O
processo é, pois, um complexo de atos coordenados, tendentes à atuação da vontade da lei às
lides ocorrentes, por meio, normalmente, da sentença;
b) Visão estática (relação jurídica) – é uma série de atos que resultam de uma relação jurídica de
direito público entre sujeitos processuais, juiz, autor e réu, compreendendo direitos e obrigações
entre o juiz e as partes.
1.3 Relação jurídica processual:
1.3.1 Breve evolução histórica:
a) os romanos deram ao processo uma natureza contratual (a submissão ao que fosse decidido
correspondia a um contrato judicial entre as partes);
b) depois, Savigny, considerando que o contrato resulta de vontade livre, diversa do processo, que
não resulta de uma tal vontade, afirmava que este produzia efeitos como se fora um contrato,
atribuindo-lhe natureza de um quase contrato;
c) Bülow (1868), em obra clássica, Teoria das Exceções e dos Pressupostos Processuais, focalizou,
nos atos que se realizam no processo, direitos e deveres das partes e do juiz, que se coordenam
e se cooperam tendo em vista a atuação da vontade da lei pelo órgão jurisdicional. Assim,
segundo Bülow, a relação jurídica processual é um complexo de direitos e deveres, das partes e
do juiz, que se objetivam em atos, que se sucedem até a sentença, formando o processo.
1.3.2 Características da relação processual:
a) autonomia da relação processual – a relação processual é absolutamente distinta da relação
jurídica substancial, sobre a qual se controvertem as partes (lide, mérito). O processo não
depende da existência do direito substancial da parte que invoca;
b) complexidade – porque não compreende um único direito ou uma única obrigação, mas um
conjunto de direitos e deveres, poderes e ônus, coordenados para um mesmo fim;
c) dinamicidade – consiste numa relação em constante movimento, isto é, se realiza em atos
sucessivos;
d) unidade – os atos processuais se prendem uns aos outros pelo fim comum a que todos visam,
tratando-se, portanto, de uma relação una, que permanece a mesma do principio ao fim;
e) natureza pública – pois envolve um sujeito de direito público, que é órgão judicial e serve à
realização de uma função pública do Estado.
1.3.3 Formação – a relação processual estabelece-se, inicialmente, entre o autor e o juiz. É apenas
bilateral nessa fase. Com a citação do réu, este passa também a integrá-la, tornando-se

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completa e angular/trilateral. Sobre a relação processual, existem três grandes teorias que
procuram estabelecer suas características:
a) Teoria linear de Kohler – os direitos e deveres do processo se estabeleceriam entre autor e réu
sem a presença do juiz (corrente privatística). Seria a relação material tornada litigiosa e é
representada da seguinte forma:

AUTOR RÉU

b) Teoria triangular de Adolf Wach – o processo é uma relação de direito público sendo que “Wach a
definiu como uma relação jurídica triangular, contendo direitos deveres não só entre as partes,
mas também entre estas e o juiz”. A sua representação pode ser feita através do gráfico abaixo:

JUIZ

AUTOR RÉU

c) Teoria angular de Hellwig – o vínculo das partes, autor e réu, não é estabelecido entre si, mas
entre elas e o juiz. Os direitos da parte se exercem perante o juiz e nunca perante a outra parte,
tendo, portanto, a relação processual a forma angular, representada pelo gráfico abaixo:

JUIZ

AUTOR RÉU
1.3.4 Em resumo:
a) a propositura da ação vincula autor e juiz à relação processual por meio do exercício do direito
de ação (art. 263, CPC);
b) a citação amplia a relação e nela integra o réu para lhe assegurar o exercício do direito de defesa
(art. 219, CPC);
c) estando completa a relação, assegurado estará ao Estado o exercício pleno do poder
jurisdicional.
1.4 Sujeitos do processo – o processo é atividade de três pessoas: iudicium est actus trium
personarum. As partes têm direito à tutela jurisdicional e o juiz tem o dever de prestá-la, o que
leva ao estabelecimento de uma autêntica relação jurídica entre eles, corporificada no processo.
Podemos afirmar, portanto, que existem:
1.4.1 Sujeitos principais – são as partes e o juiz (que é a coluna vertebral do processo, sendo o sujeito
principal deste);
1.4.2 Patrono das partes – os advogados das partes;
1.4.3 Ministério Público – ora atuando como parte (art. 81, CPC), p. ex. na ação civil pública; ora
atuando como fiscal da lei (art. 82, CPC), p. ex. nos processos em que incapazes são
interessados;
1.4.4 Sujeitos secundários – auxiliares de justiça e terceiros desinteressados (testemunhas).

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1.5 Tipos de processo – correspondem às tutelas jurisdicionais a que visam, isto é, conforme a
tutela, tal será o processo. Daí o processo desempenhar, ordinariamente, três funções distintas:
art. 270, CPC.
1.5.1 Processo de conhecimento – verifica a efetiva situação jurídica das partes, declarando-se a
vontade concreta de lei ao caso concreto. Desenvolve-se entre dois termos: a petição inicial e a
sentença.
1.5.2 Processo de execução – realiza efetivamente, de forma coercitiva, a situação jurídica apurada
num titulo executivo, que pode ser judicial (sentença) ou extrajudicial (cheques).
1.5.3 Processo cautelar (ou preventivo) – previne, em caráter emergencial e provisório, a situação da
lide contra as alterações de fato ou de direito que possam ocorrer antes que a solução de mérito
seja prestada no processo principal. Ex.: processo cautelar de produção antecipada de provas.
1.5.4 Quanto ao rito, no processo de conhecimento:
a) Comum (CPC, art. 272) – é o que se aplica a todas as causas para as quais a lei processual não
haja instituído um rito específico:
a.1) Ordinário – CPC, art. 274;
a.2) Sumário – CPC, arts. 275/281;
b) Especial (CPC, arts. 890/1102) – são os ritos próprios para o processamento de determinadas
causas selecionadas pelo legislador.
1.5.5 Pressupostos processuais – a moderna e autorizada doutrina brasileira aponta a existência dos
seguintes pressupostos processuais:
a) Um órgão estatal investido de jurisdição (pressuposto de existência) – só existe processo se o
mesmo se desenvolve perante órgão do Estado apto ao exercício da função jurisdicional14.
b) Partes capazes (pressuposto de validade):
b.1) Capacidade de direito (capacidade de ser parte) – é possuída por todo aquele que tiver aptidão
para adquirir direito e contrair obrigações. Assim, o menor, interditado e o louco têm capacidade
de direito. Assim, quem possui a capacidade de direito, tem a capacidade de ser parte,
significando a aptidão para ser autor, réu ou interveniente em ação judicial.
b.2) Capacidade de exercício (capacidade de estar em juízo) – é aquela possuída pela pessoa física ou
jurídica, que tenha a aptidão para a prática de atos da vida civil. Há pessoas que têm a sua
capacidade de exercício limitada, devendo ser assistidos por pais ou representantes. Outras não
têm essa capacidade, como os menores, e devem ser representados, por pais, tutores ou
curadores. Dessa forma, quem possui capacidade de exercício, possui capacidade processual,
que assim como a capacidade de direito, é pressuposto de validade do processo. Assim, os
absolutamente e relativamente incapazes podem ser partes, mas não podem praticar atos
processuais.
b.3) Capacidade postulatória – é a aptidão para atuar em juízo. Somente o advogado regularmente
inscrito na OAB é que possui tal capacidade, da mesma forma os representantes do MP15.
c) Uma demanda regularmente formulada (pressuposto de validade) – é o ato que se pratica
através de apresentação, em juízo, de uma petição inicial. A petição inicial além de preencher os

14
Quanto a este pressuposto, faz-se necessária uma observação. O processo jurisdicional existe mesmo antes da citação do
demandado, bastando para sua existência que o autor já tenha formulado sua demanda. Apesar disso, existência de um
demandado, pessoa diversa do demandante, se faz necessária para que o processo possa se instaurar. Assim, a propositura da
demanda sem a indicação do réu, ou em face de réu já falecido (para citar dois exemplos), leva à conclusão de que estará diante de
processo inexistente. Havendo réu, porém, haverá processo, mesmo antes de sua integração à relação processual, tanto assim que,
em sendo indeferida a petição inicial antes da citação, estará o juiz “extinguindo o processo” (art. 267, I do CPC), e não haveria
sentido em se prever a extinção de algo que não existe.
15
Com efeito, existem exceções legalmente previstas, como no caso de ajuizamento de queixas nos Juizados Especiais, de até 20
salários mínimos, a reclamação na Justiça do Trabalho e a impetração do habeas corpus.

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requisitos formais da demanda - previstos no art. 282 do CPC - deve conter três elementos
essenciais, chamados genericamente elementos identificadores da demanda, e que são:
c.1) partes – autor (demandante) e réu (demandado);
c.2) causar de pedir – são os fatos que fundamentam a pretensão manifestada pelo demandante;
c.3) pedido ou objeto – que consiste na manifestação em juízo da pretensão do demandante.

2. LITISCONSÓRCIO
2.1 Conceito – caracteriza-se o litisconsórcio pela presença de duas ou mais pessoas no pólo ativo
ou passivo, seja no nascedouro da relação processual, seja no seu curso. O artigo 46 do CPC
traz definição sobre litisconsórcio.
2.2 Modalidades:
a) ativo (quando houver pluralidade de autores); ou passivo (quando houver pluralidade de réus).
b) necessário (o que não pode ser dispensado, mesmo em face de acordo entre os litigantes; p.
ex.: ações reais imobiliárias, de usucapião, de divisão e insolvência civil) ou facultativo (o que se
estabelece por vontade das partes; exemplo: ações movidas por servidores públicos)16.
c) unitário (a decisão há de ser uniforme para todas as partes envolvidas no feito; exemplos: ações
pauliana, nulidade e anulação de casamento); ou simples (quando a decisão pode ser diversa).
2.3 Procedimento – nas hipóteses de litisconsórcio necessário, o juiz ordenará que o autor promova
a citação de todos os litisconsortes, sob pena de extinção do processo sem resolução de mérito
(CPC, art. 47, parágrafo único).
2.4 Características e efeitos – os litisconsortes, em suas relações com a parte adversa, serão
considerados litigantes distintos, de modo que, em regra, os atos e omissões de um não
prejudicarão nem beneficiarão os outros (CPC, art. 48)17. Relevante notar, ainda, que cada
litisconsorte tem o direito de promover o andamento do processo e todos devem ser intimados
dos respectivos atos (CPC, art. 49).
2.5 Casos legais de litisconsórcio – CPC, art. 46.
2.6 Prazos – quando os litisconsortes tiverem diferentes procuradores, ser-lhes-ão contados em
dobro os prazos processuais (CPC, art. 191)18. Observe-se, ainda, que existindo o litisconsórcio
começa a correr o prazo da data da juntada aos autos do último aviso de recebimento ou
mandado citatório cumprido (CPC, art. 241, III)19.

3. ASSISTÊNCIA
3.1 Conceito – pendendo uma causa entre duas ou mais pessoas, o terceiro, que tiver interesse
jurídico em que a sentença seja favorável a uma delas, poderá intervir no processo para assisti-
la (CPC, art. 50). O assistente, portanto, não é parte da relação processual e nisso se distingue
do litisconsorte. Sua posição é de terceiro que tenta, apenas, ajudar uma das partes a obter
vitória no processo.

16
Assim, é certo que o juiz, neste tipo de litisconsórcio, poderá limitar o número de litigantes em prol da rápida solução da
demanda.
17
Vale ressaltar, porém, que em matéria recursal o inconformismo interposto por um dos litisconsortes a todos aproveita, no limite
da unitariedade (art. 509).
18
Súmula 641 do STF: “Não se conta em dobro o prazo para recorrer, quando só um dos litisconsortes haja sucumbido”.
19
Não se aplica esse dispositivo ao prazo para oferecimento dos embargos à execução (CPC, art. 738, § 1°: Quando houver mais
de um executado, o prazo para cada um deles embargar conta-se a partir da juntada do respectivo mandado citatório,
salvo tratando-se de cônjuges). Assim, efetivada a citação do co-executado, cabe-lhe opor-se à execução, através de embargos,
independentemente da citação dos demais devedores. Não deve aguardar a citação dos demais executados.

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3.2 Cabimento – a assistência tem lugar em qualquer dos tipos de procedimento e em todos os
graus da jurisdição20; mas o assistente recebe o processo no estado em que se encontra (CPC,
art. 50, parágrafo único).
3.3 Procedimento – não havendo impugnação dentro de cinco dias, o pedido do assistente será
deferido21.
3.4 Características e efeitos – o assistente atuará como auxiliar da parte principal, exercerá os
mesmos poderes e sujeitar-se-á aos mesmos ônus processuais que o assistido. Sendo revel o
assistido, o assistente será considerado seu gestor de negócios (CPC, art. 52). A assistência não
obsta a que a parte principal reconheça a procedência do pedido, desista da ação ou transija
sobre direitos controvertidos; casos em que, terminando o processo, cessa a intervenção do
assistente (CPC, art. 53)22. Transitada em julgado a sentença, na causa em que interveio o
assistente, este não poderá, em processo posterior, discutir a justiça da decisão, salvo se alegar
e provar que: I - pelo estado em que recebera o processo, ou pelas declarações e atos do
assistido, fora impedido de produzir provas suscetíveis de influir na sentença; II - desconhecia a
existência de alegações ou de provas, de que o assistido, por dolo ou culpa, não se valeu (CPC,
art. 55)23.

4. DAS MODALIDADES DE INTERVENÇÃO DE TERCEIROS


4.1 Conceito – ocorre o fenômeno processual chamado intervenção de terceiro quando alguém
ingressa voluntariamente, como parte ou coadjuvante da parte, em processo pendente entre
duas partes.
4.2 Modalidades – os casos de intervenção de terceiros catalogados pelo Código de Processo Civil
são os seguintes: oposição; nomeação à autoria; denunciação à lide; e chamamento ao
processo.
a) Oposição – consiste a oposição na ação de terceiro para excluir tanto o autor como o réu. Com
essa intervenção no processo alheio, o terceiro visa a defender o que é seu e está sendo
disputado em juízo por outrem. Deve ser oposta até a sentença24. É medida de livre iniciativa do
terceiro, simples faculdade sua, visto que nenhum prejuízo jurídico pode lhe causar a sentença
num processo em que não figura como parte. O conhecimento da oposição compete ao juiz da
causa principal, segundo se depreende do enunciado do artigo 109, do CPC25.

JUIZ JUIZ
+
A B C AeB
(Autor) (Réu) (Opoente) (Opostos)
b) Nomeação a autoria – consiste a nomeação à autoria no incidente pelo qual o mero detentor,
quando demandado, indica aquele que é o proprietário ou o possuidor da coisa litigiosa, visando
a transferir-lhe a posição de réu. Cabe, também, nas ações de indenização, quando o réu,
causador do dano, alega que praticou o ato por ordem, ou em cumprimento de instruções de

20
“Admissível a assistência em todos os graus de jurisdição, inclusive no STJ, caso a lide nele se encontre para a apreciação do
recurso especial” (RSTJ 145/416).
21
Se qualquer das partes alegar, no entanto, que falece ao assistente interesse jurídico para intervir a bem do assistido, o juiz: I -
determinará, sem suspensão do processo, o desentranhamento da petição e da impugnação, a fim de serem autuadas em apenso; II
- autorizará a produção de provas; III - decidirá, dentro de cinco dias, o incidente (art. 51). Dessa decisão, cabe agravo.
22
Observe-se que se considera litisconsorte da parte principal o assistente, toda vez que a sentença houver de influir na relação
jurídica entre ele e o adversário do assistido (CPC, art. 54). É o que doutrinariamente se chama de assistência litisconsorcial, na qual
a posição do interveniente passará a ser de litisconsorte e não de simples assistente, como ocorre na assistência simples.
23
Esta disposição aplica-se, apenas, à assistência simples.
24
Não cabe oposição após a sentença (RTJ 131/971).
25
O procedimento da oposição está previsto nos artigos 57 a 61, do CPC.

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terceiro (CPC, art. 63). A nomeação à autoria no sistema do Código não é uma faculdade, mas
sim um dever do demandado, de cuja inobservância resulta a responsabilidade por perdas e
danos (CPC, art. 69, I). Igual sanção se aplica, também, ao caso em que o réu nomeia pessoa
diversa em cujo nome detém a coisa demandada (CPC, art. 69, II)26.

JUIZ C JUIZ

A B A C
(Autor) (Réu - Nomeante) (Autor) (Terceiro - Nomeado)
c) Denunciação a lide – consiste a denunciação à lide em chamar o terceiro (denunciado), que
mantém um vínculo de direito com a parte (denunciante), para vir responder pela garantia do
negócio jurídico, caso o denunciante saia vencido no processo. Pode ser ofertada tanto pelo
autor (na inicial), quanto pelo réu (no prazo de resposta). Os casos em que tem cabimento
obrigatório à denunciação da lide estão previstos no art. 70 do CPC27. Para a doutrina, a
obrigatoriedade da denunciação decorre do direito material, logo ela só se torna obrigatória no
primeiro caso (garantia da evicção), conforme art. 456 do Código Civil28.

Pólo passivo: JUIZ JUIZ


+
A B B C
(Autor) (Réu - Denunciante) (Denunciante) (Terceiro - Denunciado)

Pólo ativo: JUIZ JUIZ


+
A B A C
(Autor - Denunciante) (Réu) (Denunciante) (Terceiro - Denunciado)
d) Chamamento ao processo – consiste o chamamento ao processo no incidente pelo qual o
devedor demandado chama para integrar a lide os coobrigados pela dívida, de modo a fazê-los

26
O procedimento da nomeação à autoria está previsto nos artigos 64 a 69, do CPC, sendo relevante destacar que fica sem efeito a
nomeação se o nomeado recusar a qualidade que lhe é atribuída, ou a parte contrária recusar o nomeado. Ementa: “Nomeação à
autoria. Indeferimento pelo juiz. Reabertura de prazo para a defesa. Pode o juiz, se considerar que não estão presentes os
pressupostos dos arts. 62 e 63 do CPC, indeferir o pedido de nomeação à autoria, mas, em tal caso, respeitando o sistema acolhido
pelo art. 67 do mesmo Código, deve assinar ao nomeante novo prazo para contestar” (STJ-3ª Turma, REsp 257.091/RO, rel. Min.
Carlos Alberto Menezes Direito, j. 21.08.01, deram provimento, v.u., DJU 08.04.02, p. 209). Este novo prazo deve ser concedido
íntegro e completo (RSTJ 45/284). O nomeante deve ser intimado para contestar, porque não basta a sua simples intimação do
despacho de indeferimento (STJ-4ª Turma, REsp. 33.071-7/RJ, rel. Min. Ruy Rosado, j. 25.10.94, deram provimento parcial, v.u.,
DJU 21.11.94, p. 31.770). Ainda que o nomeante, quando da nomeação à autoria, já tenha apresentado a contestação; isso porque,
“após o indeferimento do pedido, constata-se nova situação jurídica para o nomeante que a partir daí será considerado,
efetivamente, parte legítima no processo” (RSTJ 143/332).
27
Ementa: “A denunciação da lide torna-se obrigatória na hipótese de perda do direito de regresso prevista nos incisos I e II do art.
70 do CPC, não se fazendo presente essa obrigatoriedade no caso do inciso III do mesmo dispositivo, onde tal direito permanece
íntegro” (STJ-2ª Turma, REsp 38.792/SP, rel. Min. Peçanha Martins, j. 13.12.96, negaram provimento, maioria, DJU 28.04.97, p.
15.835). Ementa: “O entendimento desta Corte encontra-se pacificado no sentido de que a denunciação da lide torna-se obrigatória
na hipótese de perda do direito de regresso, que ocorre nos incisos I e II do art. 70 do CPC, sendo desnecessária no caso do inciso
III do referido dispositivo legal. Precedentes: REsp nº 528.551/SP, Rel. Min. CARLOS ALBERTO MENEZES DIREITO, DJ de
29/03/2004; EREsp nº 313.886/RN, Rel. Min. ELIANA CALMON, DJ de 22/03/2004 e REsp nº 150.310/SP, Rel. Min. CASTRO FILHO,
DJ de 25/11/2002”. (STJ-1ª Turma, AgRg no REsp 384402/PR, rel. Min. Francisco Falcão, j. 15.02.05, negaram provimento, v.u, DJ
14.03.05, p. 196).
28
O procedimento da denunciação está previsto nos artigos 71 a 76, sendo relevante notar que, ordenada à citação do denunciado,
ficará suspenso o processo principal e o juiz, na sentença, julgará duas relações: a principal, existente entre o denunciante e a parte
adversa; e a segunda, existente entre denunciante e denunciado.

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também responsáveis pelo resultado do feito. Com essa providência, o réu obtém sentença que
pode ser executada contra o devedor principal ou os co-devedores, se tiver de pagar o débito. O
chamamento ao processo é uma faculdade e não uma obrigação do devedor demandado29.

JUIZ C JUIZ

A B A BeC
(Autor) (Réu - Chamante) (Autor) (Chamante e Chamado)

5. ATOS PROCESSUAIS
a) Conceito – é toda manifestação de vontade humana que tem por fim criar, modificar, conservar
ou extinguir a relação jurídica processual.
b) Forma – atualmente, a finalidade do processo é a solução da lide, e não o culto a forma. Com
efeito, prega-se o princípio da instrumentalidade das formas, o qual representa um intermediário
entre o rigor absoluto e a liberdade total. Expressa-se no artigo 154 do CPC, ao prescrever que
os atos e termos não dependem de forma determinada, senão quando a lei exigir30, reputando
válidos os que preencherem a finalidade essencial31.
c) Publicidade dos atos – em regra, os atos processuais são públicos, correndo, todavia, em
segredo de justiça os processos em que o interesse público exigir ou que dizem respeito a
casamento, filiação, separação, conversão desta em divórcio, alimentos e guarda de menores
(CPC, art. 155).
d) Espécies – para o Código, que adotou a classificação subjetiva, os atos processuais são divididos
em: atos das partes (CPC, arts. 158/161); atos do juiz (CPC, arts. 162/165); atos do escrivão ou
do chefe de secretaria (CPC, arts. 166/171)32.
d.1) Atos da parte – são aqueles praticados pelo autor ou réu, pelos terceiros intervenientes ou pelo
Ministério Público33, no exercício de direitos ou poderes processuais, ou para cumprimento de
ônus, obrigações ou deveres decorrentes da relação processual. Subdividem-se em:
d.1.1) atos de obtenção – visam obter a satisfação do pedido, buscando alcançar um resultado
favorável com a atividade jurisdicional. Podem ser:
d.1.1.1) postulatórios – são praticados quando existe um conteúdo de manifestação de vontade dirigida
ao juiz, requerendo ao magistrado uma providência certa.
d.1.1.2) de evento físico – não há pedido expresso, mas o próprio ato tende à satisfação da pretensão (p.
ex. pagamento de custas, a caução, o depósito prévio, etc.).
d.1.1.3) instrutórios – visam a comprovação dos fatos alegados, podendo ser praticado pelas partes (p.
ex.: depoimento pessoal, ou por terceiros, como na ouvida testemunhal ou esclarecimentos do
perito).
d.1.2) atos dispositivos – subdividem-se em:
d.1.2.1) submissivos – representam a sucumbência de uma parte ao postulado pela outra, como ocorre
no reconhecimento da procedência do pedido, ou na renúncia ao direito em que se funda a ação.

29
O procedimento do chamamento ao processo acha-se previsto nos artigos 78 a 80, do CPC.
30
Por exemplo, existe um princípio absoluto que obriga a utilização do vernáculo, não se admitindo o uso de idioma estrangeiro
(CPC, art. 156). Observe-se que as expressões latinas não se incluem em tais vedações.
31
A Lei n° 11.419/07 – que regulamentou o uso de meio eletrônico na tramitação de processos judiciais, comunicação de atos e
transmissão de peças processuais – inseriu na sistemática processual civil brasileira a possibilidade de todos os atos e termos do
processo poder ser produzidos, transmitidos, armazenados e assinados por meio eletrônico (CPC, art. 154, § 2°).
32
Tal divisão não deve ser considerada exaustiva, pois dentro do conceito de agentes da jurisdição devem-se entender também os
auxiliares da justiça, como o oficial de justiça, o contador, o distribuidor e o perito.
33
Exceto quando atua como fiscal da lei (custos legis).

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d.1.2.2) de desistência – ocorrem quando a parte deixa de cumprir com seu ônus processual de forma
omissiva (p. ex.: deixa de arrolar testemunhas), ou comissiva (p. ex.: quando expressa o desejo
de não recorrer).
d.1.2.3) negócios jurídicos processuais – são atos bilaterais de vontade, praticados em conjunto, visando
à concordância sobre um ponto que convencionaram não mais controverter (p. ex.: conciliação
ou na suspensão convencional do processo).
d.2) Atos do juiz – o juiz é o representante estatal na condução da marcha processual, cabendo-lhe a
função precípua de solucionar a lide que lhe for proposta. Com certeza, é o juiz quem mais
pratica atos processuais, pois a ele compete o impulso oficial do processo, até que se chegue ao
pronunciamento definitivo sobre a lide. O artigo 162 do CPC listou os atos processuais praticados
pelo juiz. Com efeito, consistem em sentenças, decisões interlocutórias e despachos34.
d.2.1) Sentença – é o ato pelo qual o juiz põe termo ao processo, decidindo ou não o mérito da causa,
recebendo a denominação de acórdão o julgamento proferido pelos Tribunais (CPC, art. 163).
d.2.2) Decisão interlocutória – é o ato pelo qual o juiz, no curso do processo, resolve questão incidente.
d.2.3) Despachos – são todos os atos praticados pelo juiz, que visam apenas impulsionar o processo35.
É de ser ressaltado que os atos meramente ordinatórios, como a juntada e a vista obrigatória
independem de despacho, devendo ser praticados de ofício pelo servidor e revistos pelo juiz
quando necessários (CPC, art. 162, § 4°).
d.3) Atos do escrivão ou do chefe de secretaria – restringem-se, em regra, à autuação e termos
processuais, sendo os mais comuns os de juntada, vista, conclusão e recebimento (CPC, arts.
166/171). A doutrina os classifica da seguinte forma:
d.3.1) atos de documentação – são os atos pelos quais o escrivão transfere para um suporte as
declarações emitidas pelos sujeitos processuais, reproduzindo as idéias dele emitidas (p. ex.
termo de audiência).
d.3.2) atos de comunicação – são atos destinados a dar ciência de outros praticados (p. ex. expedição
do mandado de intimação a ser cumprido pelo oficial de justiça).
d.3.3) atos de logística – são atos que significam verdadeira assessoria ao juiz, visando a tutela
jurisdicional (p. ex. a organização interna da vara: setor de expedição de mandado, processos
aguardando publicação, etc.).
e) Do tempo – os atos processuais realizam-se em dias úteis, das seis às vinte horas. Serão,
todavia, concluídos, depois das vinte horas, os atos iniciados antes, quando o adiamento
prejudicar a diligência ou causar grave dano. A citação e a penhora poderão, em casos
excepcionais, e mediante autorização expressa do juiz, realizar-se em domingos e feriados, ou
nos dias úteis, fora do horário estabelecido no CPC, observando o disposto no art. 5º, inciso XI,
da Constituição Federal. Quando o ato tiver que ser praticado em determinado prazo, por meio
de petição, esta deverá ser apresentada no protocolo, dentro do horário de expediente, nos
termos da lei de organização judiciária local (CPC, art. 172).
f) Suspensão – durante as férias e nos feriados não se praticarão atos processuais. Excetuam-se: I
- a produção antecipada de provas; II - a citação, a fim de evitar o perecimento de direito; e
bem assim o arresto, o seqüestro, a penhora, a arrecadação, a busca e apreensão, o depósito, a
prisão, a separação de corpos, a abertura de testamento, os embargos de terceiro, a nunciação
de obra nova e outros atos análogos. O prazo para a resposta do réu só começará a correr no
primeiro dia útil seguinte ao feriado ou às férias (CPC, art. 173)36.

34
A doutrina critica essa listagem, porquanto não ser ela exaustiva. O juiz pratica outros atos como a audiência, a inspeção judicial,
prestação de informações em agravo de instrumento, etc.
35
As sentenças devem ser atacadas pelo recurso de apelação. As decisões interlocutórias pelo agravo de instrumento, enquanto os
despachos são irrecorríveis.
36
Processam-se durante as férias e não se suspendem pela superveniência delas: I - os atos de jurisdição voluntária bem como os
necessários à conservação de direitos, quando possam ser prejudicados pelo adiamento; II - as causas de alimentos provisionais, de

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g) Lugar – ordinariamente os atos processuais são praticados na sede do juízo. No entanto, três
ordens de razões justificam a prática do ato em outro local. São eles:
g.1) deferência – em razão do cargo (CPC, art. 411);
g.2) interesse da justiça – nos casos do art. 442 do CPC;
g.3) obstáculo argüido pelo interessado e acolhido pelo juiz – nos casos do art. 410, III do CPC.

6. PRAZOS PROCESSUAIS
a) Conceito – prazo é o espaço de tempo para serem realizados os atos processuais, e entenda-se
por termo o momento processual fixado no tempo a fim de designar:
a.1) o instante da prática do ato;
a.2) o momento inicial (dies a quo) ou o momento final (dies ad quem).
b) Espécies – podem ser divididos em:
b.1) Comuns e particulares:
b.1.1) prazo comum – é o que corre simultaneamente contra ambas as partes (p. ex. prazo para apelar
de sentença com sucumbência recíproca). No curso desse prazo, os autos não podem sair do
cartório; exceto em conjunto, ou sob acordo prévio entre as partes;
b.1.2) prazo particular – é aquele que corre somente contra uma das partes (p. ex. o prazo para se
defender, cabe apenas ao réu – art. 297 do CPC).
b.2) Próprios e impróprios:
b.2.1) prazo próprio – é o que uma vez não observado, acarreta conseqüências processuais ao
interessado (p. ex.: são os aplicados as partes);
b.2.2) prazo impróprio – é o que não acarreta conseqüências processuais, podendo gerar, apenas,
efeitos disciplinares e/ou administrativos (p. ex.: ocorrem contra o juiz e seus auxiliares)37.
b.3) Legais e judiciais:
b.3.1) prazo legal – são aqueles definidos em lei, e a respeito dos quais, nem as partes, nem o juiz, em
princípio, tem disponibilidade (CPC, art. 177);
b.3.2) prazo judicial – são os fixados pelo próprio juiz, supletivamente nos casos em que a lei não
prevê (p. ex. data para a audiência, CPC, art. 331).
b.4) Dilatórios e peremptórios:
b.4.1) prazo dilatório – são aqueles que podem ser alterados pela vontade das partes e também pelo
juiz (CPC, art. 181);
b.4.2) prazo peremptório – são inalteráveis, seja pelas partes, seja pelo juiz (p. ex. prazo de
contestação). Conforme CPC, art. 182.
c) Contagem dos prazos – em regra, os prazos são contados em dias, havendo, contudo, contagens
que são feitas em minutos (p. ex. prazos para debates orais em audiência), em horas (p. ex.
prazo da citação em execução por quantia certa contra devedor solvente), etc38. Salvo disposição
em contrário, computar-se-ão os prazos, excluindo o dia do começo e incluindo o do vencimento
(CPC, art. 184). Assim podemos dizer:

dação ou remoção de tutores e curadores, bem como as mencionadas no art. 275; III - todas as causas que a lei federal determinar
(CPC, art. 174).
37
Observar arts. 198/199 do CPC.
38
Quanto ao horário, conforme art. 172 do CPC, os atos processuais devem ser realizados em dias úteis (entende-se por dias úteis
os que ocorrem expediente forense, assim devem ser excetuados os sábados e domingos, que normalmente não ocorre expediente
– art. 173 do CPC), de 6 às 20 horas (observar exceções nos §§ do art. 172).

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c.1) Termo inicial (dies a quo) – os prazos somente começam a correr a partir do primeiro dia útil
após a citação/intimação (CPC, art. 184 e 240, parágrafo único). Observe-se que o prazo,
estabelecido pela lei ou pelo juiz, é contínuo, não se interrompendo nos feriados.
c.2) Termo final (dies ad quem) – considera-se prorrogado o prazo até o primeiro dia útil se o
vencimento cair em feriado ou em dia em que: I - for determinado o fechamento do fórum; II -
o expediente forense for encerrado antes da hora normal.
c.3) Suspensão – a superveniência de férias suspenderá o curso do prazo; o que lhe sobejar
recomeçará a correr do primeiro dia útil seguinte ao termo das férias. Suspende-se também o
curso do prazo por obstáculo criado pela parte ou ocorrendo qualquer das hipóteses do art. 265,
I e III do CPC; casos em que o prazo será restituído por tempo igual ao que faltava para a sua
complementação.
c.4) Quanto ao prazo para as partes, não havendo preceito legal nem assinação pelo juiz, será de
cinco dias o prazo para a prática de ato processual a cargo da parte (CPC, art. 185)39.
c.5) Quanto ao prazo para o juiz, proferirá: I - os despachos de expediente, no prazo de dois dias; II
- as decisões, no prazo de dez dias (CPC, art. 189).
c.6) Quanto ao escrivão e chefe de secretaria os prazos estão narrados no art. 190 do CPC40.
d) Penalidade pelo descumprimento dos prazos – decorrido o prazo, extingui-se,
independentemente de declaração judicial, o direito de praticar o ato. Daí se falar no fenômeno
da preclusão.
d.1) preclusão temporal – consiste na perda de uma faculdade ou direito pelo não exercício no
momento oportuno;
d.2) preclusão consumativa – ocorre quando o ato processual é realizado, não podendo o repetir;
d.3) preclusão lógica – ocorre quando o ato processual praticado é incompatível com aquele que
deveria se realizar no prazo respectivo41.

7. PROCESSO E PROCEDIMENTO
a) Distinções – enquanto o processo é uma unidade, como relação processual em busca da
prestação jurisdicional, o procedimento é a exteriorização dessa relação e, por isso, pode
assumir diversas feições ou modos de ser. Em outras palavras, podemos dizer que o
procedimento se caracteriza pela forma por que se move o processo.
b) Espécies – em matéria de processo de conhecimento, o nosso Código prevê duas formas de
procedimento: o comum (ordinário e sumário) e os especiais (de jurisdição contenciosa e de
jurisdição voluntária).
b.1) Procedimento comum – é o que se aplica para todas as causas para as quais a lei processual não
prevê um procedimento especial. Isto é, onde não houver previsão legal de um procedimento
especial, aplica-se, por exclusão, o procedimento comum42.

39
Computar-se-á em quádruplo o prazo para contestar e em dobro para recorrer quando a parte for a Fazenda Pública ou o
Ministério Público (CPC, art. 188). Quando os litisconsortes tiverem diferentes procuradores (CPC, art. 191), ser-lhes-ão contados
em dobro os prazos para contestar, para recorrer e, de modo geral, para falar nos autos (réplica, falar sobre documento, etc.).
40
Caso o serventuário não cumpra os prazos, deverão ser obedecidas as previsões dos arts. 193 e 194 do CPC.
41
Observe-se que essas duas últimas espécies de preclusão não são efeitos da perda do prazo processual. Com efeito, foram
abordadas apenas para esclarecimento do ponto.
42
Observe-se que o procedimento comum não é uno. Divide-se em dois ritos procedimentais distintos: o ordinário e o sumário. Este
último aplica-se apenas nas hipóteses arroladas pelo artigo 275, restando ao procedimento ordinário regular as demais causas para
as quais não esteja previsto um procedimento especial. Assim, apenas o procedimento ordinário é regulado de forma completa e
exaustiva. O sumário e os especiais são abordados pelo legislador apenas naqueles pontos em que afastada se acha a aplicação do
procedimento ordinário, de sorte que este se aplica subsidiariamente a todos os ritos (CPC, art. 272, parágrafo único).

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b.1.1) Procedimento ordinário – é o mais completo e o mais apto à perfeita realização do processo de
conhecimento, pela amplitude com que permite às partes e ao juiz pesquisar a verdade real e
encontrar a justa composição da lide. Em regra, pode assim ser esquematizado:
b.1.1.1) Fase de postulação – é a que dura da propositura da ação (petição inicial) à defesa do réu
(exceção, contestação, reconvenção) e, ocasionalmente, adentrando nas providências
preliminares (réplica, ação declaratória incidental, etc.);
b.1.1.2) Fase de saneamento – desde o recebimento da petição inicial até o início da fase instrutória
(demonstra-se através da extinção do processo, do julgamento antecipado da lide, da audiência
preliminar, etc);
b.1.1.3) Fase instrutória – destina-se à coleta do material probatório, que servirá de suporte à decisão do
mérito (p. ex. a perícia, audiência de instrução, etc.);
b.1.1.4) Fase decisória – é a que se destina à prolação da sentença de mérito. Realiza-se após o
encerramento da instrução que, de ordinário, ocorre dentro da própria audiência, quando o juiz
encerra a coleta das provas orais e permite às partes produzir suas alegações finais (CPC, art.
456). Há, contudo, a possibilidade da antecipação da fase decisória, como na hipótese do
julgamento antecipado da lide.
b.1.2) Procedimento sumário – com o intuito de dar maior celeridade a prestação jurisdicional, o
legislador previu um procedimento que deve ser realizado em no máximo duas audiências.
Observar-se-á o procedimento sumário nas hipóteses previstas no art. 275 do CPC43. Este
procedimento não será observado nas ações relativas ao estado (separação, divórcio) e à
capacidade das pessoas (tutela, curatela, interdição).
b.1.2.1) Procedimento – no procedimento sumário, quase nem se nota a distinção entre as fases
processuais, pois, à exceção da petição inicial, praticamente tudo - defesa, provas e julgamento
deve realizar-se no máximo em duas audiências, uma de conciliação e resposta e outra de
instrução e julgamento, na qual deverá ser proferida sentença.
b.1.2.2) Peculiaridades no rito:
I) Petição inicial – além dos requisitos dos arts. 282, 283 e 39 do CPC, o autor em sua petição
inicial apresentará o rol de testemunhas e, se requerer perícia, formulará quesitos, podendo
indicar assistente técnico. Há preclusão se o autor não arrola suas testemunhas quando do
ajuizamento da causa.
II) Achando em ordem a petição inicial, o juiz designará a audiência de conciliação a ser realizada
no prazo de trinta dias, citando-se o réu com a antecedência mínima de dez dias e sob a
advertência prevista no §2º do art. 277 do CPC, determinando o comparecimento das partes44.
III) Audiência de conciliação (ou preliminar) – na audiência, primeiramente, o juiz tenta conciliar as
partes. Feita a conciliação, será esta reduzida a termo e homologada por sentença, podendo o
juiz ser auxiliado por conciliador. Deixando injustificadamente o réu de comparecer à audiência,
reputar-se-ão verdadeiros os fatos alegados na petição inicial (CPC, art. 319), salvo se o
contrário resultar da prova dos autos, proferindo o juiz, desde logo, a sentença. As partes
comparecerão pessoalmente à audiência, podendo fazer-se representar por preposto com
poderes para transigir45. O juiz, na audiência, decidirá de plano a impugnação ao valor da causa

43
Com efeito: I - nas causas, cujo valor não exceder sessenta vezes o maior salário mínimo vigente no País (alteração da Lei nº
10.444/02); II - nas causas, qualquer que seja o valor: a) de arrendamento rural e de parceria agrícola; b) de cobrança ao
condômino de quaisquer quantias devidas ao condomínio; c) de ressarcimento por danos em prédio urbano ou rústico; d) de
ressarcimento por danos causados em acidente de veículo de via terrestre; e) de cobrança de seguro, relativamente aos danos
causados em acidente de veículo, ressalvados os casos de processo de execução; f) de cobrança de honorários dos profissionais
liberais, ressalvado o disposto em legislação especial; g) nos demais casos previstos em lei.
44
Sendo ré a Fazenda Pública, os prazos contar-se-ão em dobro (não o prazo de 30 dias, que é impróprio, mas sim o prazo de
antecedência mínima de 10 dias, ou seja, sendo a Fazenda Pública ou litisconsortes com diferentes procuradores, o prazo será de 20
dias). Esse prazo é contado ao inverso. A doutrina majoritária afirma que o prazo começa a correr da juntada aos autos da
comprovação da citação, apesar de Alexandre Câmara entender que passa a correr da efetiva ciência.
45
Muito se discute quando da ausência do réu a audiência, sem se fazer representar por preposto. In casu, ficaria apenas
prejudicada a tentativa de conciliação (caso o advogado por ele constituído não possua tais poderes), mas, não implicaria

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ou a controvérsia sobre a natureza da demanda, determinando, se for o caso, a conversão do


procedimento sumário em ordinário. A conversão também ocorrerá quando houver necessidade
de prova técnica de maior complexidade. Não obtida a conciliação, oferecerá o réu, na própria
audiência, resposta escrita ou oral, acompanhada de documentos e rol de testemunhas e, se
requerer perícia, formulará seus quesitos desde logo, podendo indicar assistente técnico. A
contestação, portanto, é o momento para o réu juntar documentos, arrolar testemunhas, indicar
assistente técnico e formular quesitos. É lícito ao réu, na contestação, formular pedido em seu
favor, desde que fundado nos mesmos fatos referidos na inicial. Vale dizer: as ações de
procedimento sumário são consideradas dúplices, pelo que não comportam reconvenção.
IV) Havendo necessidade de produção de prova oral e não ocorrendo qualquer das hipóteses
previstas nos arts. 329 e 330, I e II do CPC, será designada audiência de instrução e julgamento
para data próxima, não excedente de trinta dias, salvo se houver determinação de perícia46.
V) Sentença – findos a instrução e os debates orais, o juiz proferirá sentença na própria audiência
ou no prazo de dez dias. A sentença deverá preencher os elementos do art. 458 do CPC47.
VI) Alterações dada pela Lei 12.122/09 – o art. 275, II do CPC teve acréscimo das alíneas: g) que
versem sobre revogação de doação; h) nos demais casos previstos em lei.
b.2) Procedimentos especiais
b.2.1) Espécies – os procedimentos especiais podem ser de jurisdição contenciosa ou de jurisdição
voluntária. Os primeiros se referem à solução de litígios e os últimos apenas à administração de
interesses privados não litigiosos.
b.2.2) Os procedimentos especiais acham-se previstos no Livro IV do Código, sendo que os de
jurisdição contenciosa acham-se regulados pelo Título I (ação de consignação em pagamento,
ação de depósito, ação de anulação e substituição de títulos ao portador, ação de prestação de
contas, ações possessórias, ação de usucapião de terras particulares, dentre outras) e os de
jurisdição voluntária acham-se regulados pelo Título II (alienações judiciais, separação
consensual, testamentos e codicilos, dentre outras).

8. PETIÇÃO INICIAL
a) Conceito – o direito de agir, que é geral e abstrato, e que consiste no direito de invocar a tutela
jurisdicional do Estado para decidir sobre uma pretensão, manifesta-se em concreto por meio de
uma petição escrita do autor ao juiz. Assim, é a manifestação formal da demanda, que revela ao
juiz a lide e contém o pedido da providência jurisdicional, frente ao réu, que o autor julga
necessária para compor o litígio. Nela o autor faz duas manifestações: a.1) a demanda da tutela
jurisdicional do Estado, que causará a instauração do processo, com a convocação do réu; a.2) o
pedido de uma providência contra o réu, que será objeto do julgamento final da sentença de
mérito.
b) Requisitos – a petição inicial, que só pode ser elaborada por escrito e que, salvo a exceção do
art. 36 do CPC, há de ser firmada por advogado legalmente habilitado, deverá conter os
seguintes requisitos (CPC, art. 282):
b.1) o juiz ou tribunal, a que é dirigida – é o cabeçalho ou endereço da petição. Indica-se o órgão
judiciário e não o nome da pessoa física do juiz;

necessariamente na revelia, porquanto comparecendo seu advogado, e este apresentando defesa, não ocorreria à contumácia do réu
(que tecnicamente se dá com a ausência de sua contestação). Essa posição não é pacífica na doutrina.
46
No procedimento sumário não são admissíveis a ação declaratória incidental, nem a intervenção de terceiro, salvo a assistência, o
recurso de terceiro prejudicado e a intervenção fundada em contrato de seguro (art. 280 do CPC, alterado pela Lei nº 10.444/02).
47
Nos termos da Lei n° 11.232/05: “Nos processos sob o procedimento comum sumário, referidos no art. 275, II, alíneas ‘d’ e ‘e’, é
defesa a sentença ilíquida, cumprindo ao juiz, se for o caso, fixar de plano, a seu prudente critério, o valor devido” (art. 475-A, §
3°).

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b.2) os nomes, prenomes, estado civil, profissão, domicílio e residência do autor e do réu – ou seja,
os dados relativos à qualificação das partes, pois são necessários para a perfeita individualização
dos sujeitos da relação processual e para a prática dos atos de comunicação que a marcha do
processo reclama (citações e intimações);
b.3) o fato e os fundamentos jurídicos do pedido – o autor tem de indicar o direito subjetivo que
pretende exercitar contra o réu, e apontar o fato de onde ele provém (princípio da
substanciação)48.
b.4) o pedido, com suas especificações – é a revelação do objeto da ação e do processo. Em outras
palavras, o autor pede ao juiz duas medidas: 1) um pedido imediato (sentença condenatória,
constitutiva, declaratória, etc.); e 2) um pedido mediato (o bem jurídico violado ou ameaçado).
O pedido é o núcleo da petição inicial, pois exprime aquilo que o autor pretende do Estado em
frente do réu.
b.4.1) requisitos do pedido – deve o pedido ser certo ou determinado (CPC, art. 286)49. Entende-se por
certo o pedido expresso, pois não se admite que possa o pedido do autor ficar apenas implícito.
Já a determinação se refere aos limites da pretensão. O autor deve ser claro e preciso naquilo
que espera obter da pretensão jurisdicional. Além de certo e determinado, o pedido deve ser
concludente, isto é, deve estar de acordo com o fato e o direito exposto pelo autor, que são a
causa de pedir. Quando não há conexidade entre a causa de pedir e o pedido, a petição inicial
torna-se inepta e deve ser liminarmente indeferida (CPC, art. 295, parágrafo único, II).
b.4.2) espécies – o pedido pode ainda ser:
b.4.2.1) pedido genérico – o objeto imediato do pedido nunca pode ser genérico e há de ser determinado
(uma condenação, uma constituição, uma declaração, uma execução, um acautelamento, etc.).
Mas o pedido mediato (a utilidade prática visada pelo autor), este pode ser genérico nos
seguintes casos: 1) nas ações universais, se não puder o autor individuar na petição inicial os
bens demandados; 2) quando não for possível determinar, de modo definitivo, as conseqüências
do ato ou do fato ilícito; 3) quando a determinação do valor da condenação depender de ato que
deva ser praticado pelo réu (CPC, art. 286)50. Atente-se que a jurisprudência admite o pedido
genérico relativo a dano moral51.
b.4.2.2) pedido cominatório – quando se tratar de obrigações de fazer e não fazer, bem como nas
obrigações de dar (entrega de coisa)52, uma forma indireta de fazer o réu devedor cumprir a
obrigação é o pedido cominatório. Com efeito, consiste o pedido no requerimento ao magistrado
para que, caso o devedor não cumpra sua obrigação, aplique pena pecuniária (astreinte) pelo
descumprimento. Dessa forma se estaria indiretamente forçando, sem a utilização de força
física, o devedor a cumprir com sua obrigação. Atualmente, mesmo que a parte não requeira,

48
Observe-se que não é obrigatória ou imprescindível a menção do texto legal que garanta o pretenso direito subjetivo material que
o autor opõe ao réu. Mesmo a invocação errônea de norma legal não impede que o juiz aprecie a pretensão do autor à luz do
preceito adequado. O importante é a revelação da lide através da exata exposição do fato e da conseqüência jurídica que o autor
pretende atingir. Ao juiz incumbe solucionar a pendência, segundo o direito aplicável à espécie: iura novit curia. “O nosso direito
prestigiou os princípios do ‘juri novit curia’ (o juiz conhece o direito) e do ‘da mihi factum, dabo tibi jus’ (dá-me o fato, que te darei o
direito). Isso significa que a qualificação jurídica dada aos fatos narrados pelo autor não é essencial para o sucesso da ação. Tanto
que o juiz pode conferir aos fatos qualificação jurídica diversa da atribuída pelo autor” (RSTJ 111/139 e 140/587). “A natureza
jurídica da tutela jurisdicional não está vinculada à nominação dada pelo autor à ação, e sim ao pedido” (STJ-4ª Turma, REsp
184.648-RO, rel. Min. Aldir Passarinho, j. 16.08.01, não conheceram, v.u., DJU 04.02.02, p. 368). “Reivindicatória. A lide há de ser
julgada consoante à causa de pedir e o pedido, não relevando o rótulo dado pelo autor. Se esse pretende a posse com base no
domínio o pleito é petitório, ainda que indevidamente qualificado de possessório” (RSTJ 97/174).
49
Observe que a partícula “ou” deve ser entendida com “e”.
50
Quando o pedido for genérico, e não for possível ao juiz, durante a instrução do processo, obter elementos para proferir uma
sentença líquida, o vencedor terá de promover o procedimento de liquidação da sentença, antes da respectiva execução.
51
Ementa: “Admite-se o pedido genérico na ação de indenização por dano moral” (STJ-3ª Turma, REsp 125.417-RJ, rel. Min.
Eduardo Ribeiro, j. 26.06.97, não conheceram, v.u., DJU 18.08.97, p. 37.867). Ementa: “Desnecessária, na ação por danos, o
pedido certo na inicial, uma vez que mormente do dano moral, o valor é abstrato. Multifários precedentes jurisprudenciais. (STJ-1ª
Turma, REsp 167.132-RJ, rel. Min. Milton Luiz Pereira, j. 06.12.01, negaram provimento, por maioria, DJ 05.08.02, p. 203). Súmula
326 do STJ (Sucumbência recíproca em dano moral): Na ação de indenização por dano moral, a condenação em montante
inferior ao postulado na inicial não implica sucumbência recíproca.
52
Tendo em vista o advento da Lei n° 10.444/02.

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está o juiz autorizado a incluir a multa como meio de coerção nas decisões definitivas, bem como
nas que concedem a antecipações de tutela (arts. 461 e 461-A do CPC).
b.4.2.3) pedido alternativo – será lícito quando pela natureza da obrigação puder o devedor cumprir a
obrigação por mais de um modo (CPC, art. 288). Ou seja, o autor estará satisfeito com a
prestação de qualquer um dos pedidos53.
b.4.2.4) pedidos sucessivos – é lícito ao autor formular mais de um pedido em ordem sucessiva, a fim de
que o juiz conheça do posterior, em não podendo acolher o anterior (CPC, art. 289). Não se trata
de simples cumulação de pedidos, mas há um pedido principal e um ou vários subsidiários, que
só serão examinados na eventualidade de rejeição do primeiro54.
b.4.2.5) pedido de prestações periódicas – há casos em que a obrigação se desdobra em várias
prestações periódicas (p. ex.: aluguéis, juros, etc.). Quando isso ocorre, mesmo sem menção
expressa do autor na petição inicial, o CPC considera incluídas no pedido as prestações de
vencimento posterior ao ajuizamento da demanda. Trata-se de pedido implícito55.
b.4.2.6) pedido de prestação indivisível – quando vários credores são titulares, em conjunto, de uma
relação jurídica que representa obrigação indivisível, isto é, não podendo ser dividida,
fracionada, qualquer um dos credores é parte legítima para pedir a prestação por inteiro. Não
obstante, aquele credor que não tiver movido a ação também receberá sua parte, devendo,
porém, reembolsar ao autor as despesas feitas no processo, na proporção de sua parcela do
crédito (CPC, art. 291).
b.4.2.7) pedidos cumulados – os pedidos podem ser cumulados, como uma verdadeira cumulação de
ações, desde que respeitado os seguintes parâmetros traçados no art. 292 do CPC: 1) os
pedidos devem ser compatíveis entre si; 2) o juiz deve ser competente para todos eles; 3) o tipo
de procedimento deve ser adequado para todos os pedidos56.
b.4.3) interpretação do pedido – consoante artigo 293 do CPC, os pedidos são interpretados
restritivamente. Isto que dizer que o critério interpretativo não pode ser o ampliativo ou
extensivo. Integra o pedido tão-somente o que nele expressamente estiver contido, com as
ressalvas do artigo 290 do CPC, sob pena do juiz julgar ultra ou extra petita57.
b.4.4) aditamento do pedido – antes da citação, o autor poderá aditar o pedido, correndo à sua conta
as custas acrescidas em razão dessa iniciativa (CPC, art. 294). Após a citação, o autor poderá
modificar o pedido, desde que haja consentimento do réu. Finalmente, após o saneador, nem
mesmo com o assentimento do réu é admissível a modificação da lide.
b.5) o valor da causa – o autor deve a toda causa atribuir um valor certo, conforme CPC, art. 25858.
No artigo seguinte, 259 do CPC, o legislador assim dispôs:
b.5.1) na ação de cobrança de dívida, o valor da causa é a soma do principal, da pena e dos juros
vencidos até a propositura da ação;

53
P. ex.: o autor requer ao juiz que condene o réu na entrega de um bem ou seu equivalente em dinheiro.
54
P. ex.: é lícito ao autor pedir a rescisão do contrato, ou se não configurada razão para tanto, a condenação do réu para pagar
prestação vencida.
55
Também pode o magistrado condenar o réu no pagamento das prestações vincendas, ou seja, nas prestações que só vencerão
após a sentença, respeitado o art. 572 do CPC.
56
Pode, excepcionalmente, ocorrer cumulação de pedidos com ritos diferentes (rito ordinário + rito especial). In casu, o rito
ordinário por ser mais amplo e completo será o adotado. Outrossim, não pode haver cumulação de processos numa mesma petição
inicial (p. ex.: processo de conhecimento + processo de execução).
57
Existem ressalvas a essa nulidade como, por exemplo, a correção monetária que deve ser aplicada automaticamente às decisões
judiciais, bem como o ressarcimento das custas e honorários advocatícios, em virtude da sucumbência, independentemente de
pedido expresso.
58
Atente-se que o valor da causa não corresponde necessariamente ao valor do objeto mediato material ou imaterial, em jogo no
processo, ou sobre o qual versa a pretensão do autor perante o réu. Versa sim sobre a relação jurídica que se afirma existir sobre tal
objeto. Determina-se, portanto, o valor da causa apurando-se a expressão econômica da relação jurídica material que o autor que
opor ao réu. O valor do objeto imediato pode influir nessa estimativa, mas nem sempre será decisivo. Há, outrossim, aquelas causas
que não versam sobre bens ou valores econômicos, e ainda os que, mesmo cogitando de valores patrimoniais, não oferecem
condições para imediata prefixação do valor. Em todos esses casos, haverá de atribuir-se, por simples estimativa, um valor à causa,
já que em nenhuma hipótese, a parte é dispensada do encargo de atribuir um valor à demanda.

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b.5.2) se houver cumulação de pedidos, o valor da causa será a quantia correspondente à soma dos
valores de todos eles;
b.5.3) sendo alternativos os pedidos, será o do de maior valor;
b.5.4) se houver também pedido subsidiário, o valor da causa será do pedido principal;
b.5.5) quando o litígio tiver por objeto a existência, validade, cumprimento, modificação ou rescisão do
negócio jurídico, o valor da causa será o do contrato;
b.5.6) na ação de alimentos, será o valor de 12 prestações mensais, pedidas pelo autor59;
b.5.7) na ação de divisão, de demarcação e de reivindicação, a estimativa oficial para lançamento do
imposto60.
b.6) as provas com que o autor pretende demonstrar a verdade dos fatos alegados – incumbe ao
autor indicar na petição inicial as espécies de provas que pretende produzir (perícia, depoimento
pessoas, ouvida de testemunhas, etc.). Deverão ser juntados à inicial os documentos
indispensáveis a propositura da ação (CPC, art. 283), bem como todas as provas documentais
que o autor possua (CPC, art. 396).
b.7) o requerimento para a citação do réu – cabe ao autor, ao propor a ação perante o juiz, requerer
a citação do demandado, pois este é o meio de forçar, juridicamente, seu ingresso no
processo61.
c) Procedimento inicial do juiz em face da petição inicial:
c.1) despacho de deferimento da citação – se a petição estiver em termos, o juiz a despachará,
ordenando a citação do réu para responder (CPC, art. 285);
c.2) despacho de saneamento da petição – quando a petição inicial apresentar-se com lacunas,
imperfeições ou omissões, mas esses vícios forem sanáveis, o juiz não indeferirá de plano.
Determinará que o autor a emende, ou a complete, no prazo de 10 dias (CPC, art. 284);
c.3) sentença de indeferimento da petição – do exame da inicial - caso se observe a existência de
vício insanável, ou o não cumprimento da diligência saneadora por parte do autor (CPC, art. 284,
parágrafo único) - o juiz deverá proferir sentença de extinção do feito. Em regra, tal sentença
não julga o mérito, podendo o autor propor novamente a demanda, obviamente sanando os
vícios que a extinguiram. Entretanto, poderá o juiz extinguir o feito julgando o mérito, caso
verifique a decadência ou a prescrição do direito não patrimonial (CPC, art. 295, IV, ou na
hipótese do parágrafo único, II, do mesmo artigo)62. São hipóteses de indeferimento da inicial:
c.3.1) quando for inepta – entende-se por inepta:
c.3.1.1) lhe faltar pedido ou causa de pedir;
c.3.1.2) da narração dos fatos não decorrer logicamente a conclusão;
c.3.1.3) o pedido for juridicamente impossível;
c.3.1.4) contiver pedidos incompatíveis entre si.
c.3.2) quando a parte for manifestamente ilegítima;
c.3.3) quando o autor carecer de interesse processual;

59
Esta regra também se aplica as ações de despejo, consignação de alugueis, revisional de aluguel e renovatória de locação (Lei n°
8.245/91). Nos casos de retomada de imóvel ocupado pelo locatário em razão de contrato de trabalho, o valor será equivalente a
três salários mínimos vigentes por ocasião do ajuizamento da causa (Lei n° 8.245/01, art. 58, III).
60
Observar ainda disposição do art. 260 do CPC.
61
Deverá, ainda, ser juntada procuração do advogado, porquanto nela estará o endereço em que receberá as intimações do
processo (CPC, art. 39, I), bem como pode o autor requerer o pedido liminar de antecipação de tutela, conforme art. 273 do CPC.
62
Havendo o indeferimento liminar da petição inicial, e o autor interpondo apelação, poderá o juiz se retratar da decisão no prazo de
48 horas (art. 296 do CPC). Não havendo a reforma, os autos serão remetidos imediatamente ao tribunal sem a necessidade de
intimação do réu, posto que a relação processual ainda não foi formada. Não obstante, poderá o réu contra-razoar caso entenda
necessário.

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c.3.4) quando o juiz verificar, desde logo, a decadência ou a prescrição (CPC, art. 219, § 5° - com nova
redação dada pela Lei n° 11.280/06);
c.3.5) quando o tipo e o procedimento, escolhido pelo autor, não corresponder à natureza da causa ou
ao valor da ação;
c.3.6) quando não atendidas as prescrições dos arts. 39, parágrafo único, primeira parte, e 284 do
CPC63;
c.4) Apelação – contra essa sentença cabe apelação, e conforme dispõe o art. 296 do CPC, fica
facultado ao juiz – no prazo de quarenta e oito horas (48h) – retratar-se da decisão.
c.5) Sentença de improcedência64 em demandas repetitivas – a Lei n° 11.277/06 introduziu no CPC o
art. 285-A. Tal instituto, nas palavras de Marinoni, busca eliminar a possibilidade da propositura
de ações que objetivem pronunciamentos sobre temas pacificados em decisões reiteradas do
próprio juiz singular ou dos tribunais, tomadas em ‘casos idênticos’.
c.5.1) Cabimento – conforme dispõe o caput do art. 285-A: Quando a matéria controvertida for
unicamente de direito e no juízo já houver sido proferida sentença de total improcedência em
outros casos idênticos, poderá ser dispensada a citação e proferida sentença, reproduzindo-se o
teor da anteriormente prolatada. Como alerta Marinoni, depreende-se que o dispositivo confere
ao juiz o poder de proferir sentença ante a mera apresentação da petição inicial, dispensando a
citação, quando já houver sido proferida sentença de improcedência em outros casos idênticos.
Obviamente que isto somente é possível quando a matéria controvertida for unicamente de
direito. Isto porque, envolvendo questão de fato, as particularidades do caso concreto poderão
importar soluções diferentes, de modo que a conclusão lançada em um processo pode não servir
para o outro.
c.5.2) Juízo de retratação – o § 1o do art. 285-A dispõe: Se o autor apelar, é facultado ao juiz decidir,
no prazo de 5 (cinco) dias, não manter a sentença e determinar o prosseguimento da ação.
c.5.3) Juízo de admissibilidade positivo – caso a apelação seja conhecida, o § 2o do art. 285-A afirma:
Caso seja mantida a sentença, será ordenada a citação65 do réu para responder ao recurso.
c.6) Desistência da ação, propositura de nova ação e necessidade de distribuição ao mesmo juiz –
como ensina Marinoni: como os juízes podem ter entendimentos diferentes a respeito de
situações de direito, a prática passou a assistir a um fenômeno curioso: após a distribuição da
petição inicial a um juiz não favorável à sua pretensão, o autor deixava de pagar as custas do
processo – e assim permitia a extinção do processo – ou desistia da ação, para então propor
novamente a ação e ter a oportunidade de vê-la distribuída a outro juiz. Para evitar essa prática,
o legislador fez várias modificações no teor do art. 253 do CPC, que atualmente possui a
seguinte redação: Distribuir-se-ão por dependência as causas de qualquer natureza66: I - quando
se relacionarem, por conexão ou continência, com outra já ajuizada67; II - quando, tendo sido
extinto o processo, sem julgamento de mérito, for reiterado o pedido, ainda que em
litisconsórcio com outros autores ou que sejam parcialmente alterados os réus da demanda68; III
- quando houver ajuizamento de ações idênticas, ao juízo prevento69. Parágrafo único. Havendo
reconvenção ou intervenção de terceiro, o juiz, de ofício, mandará proceder à respectiva
anotação pelo distribuidor. O objetivo dessa norma foi exatamente o de impedir ao autor desistir
da ação e, após, ver a mesma ação distribuída a outro juiz, mesmo que ao lado do primitivo

63
Outrossim, observe que pode haver indeferimento total ou parcial da petição inicial. Será parcial quando, sendo vários os pedidos
manifestados pelo autor, o despacho negativo relacionar-se apenas com um ou alguns deles, de modo a admitir o prosseguimento
do processo com relação aos demais. Será total quando o indeferimento trancar o processo no nascedouro, impedindo a subsistência
da relação processual. Assim, no primeiro caso se trata de decisão interlocutória, e no segundo, sentença terminativa.
64
Trata-se de sentença de mérito fundada no art. 269, I do CPC que produz coisa julgada material, impedindo, portanto, a
repropositura da ação.
65
Citado porquanto o réu não faz parte do processo.
66
Redação dada pela Lei n° 10.358/01.
67
Redação dada pela Lei n° 10.358/01.
68
Redação dada pela Lei n° 11.280/06.
69
Redação dada pela Lei n° 11.280/06.

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autor se coloque uma outra parte com pretensão idêntica. Do mesmo modo, e por conseqüência,
pretendeu-se eliminar a possibilidade de o advogado escolher um juiz favorável e, depois,
requerer o ingresso de outras partes em litisconsórcio.

9. COMUNICAÇÃO DOS ATOS PROCESSUAIS70


9.1 Das cartas – é a comunicação dos atos entre órgãos jurisdicionais. Tal comunicação funda-se nas
regras de cooperação dos órgãos do Poder judiciário. Assim, se o juiz da causa não pode
executar determinado ato, porque lhe falta competência para tal, ou porque é mais conveniente
que outro faça, deve o mesmo solicitar que o ato seja realizado pelo órgão jurisdicional que lhe
pareça apto. Podem ser classificadas como:
a) Cartas de ordem – corresponde ao comando expedido por autoridade judiciária superior
hierarquicamente, a fim de que o ato processual seja praticado por juiz a ele subordinado (p.
ex.: carta expedida por desembargador do TJ, endereçada a Juiz de Direito de 1ª instância), cfe.
CPC, art. 201.
b) Carta rogatória – é uma súplica feita por autoridade judiciária brasileira a outra autoridade de
país diverso (CPC, art. 201). O país requerido não está obrigado a atender à solicitação da
autoridade judiciária brasileira. Se, por outro lado, o destinatário da carta for autoridade
judiciária brasileira, cabe ao STJ conceder a ordem de execução, possibilitando seu cumprimento
por juiz federal (CPC, arts. 210 e 211).
c) Carta precatória – trata-se de uma solicitação de uma autoridade judiciária a outra, de igual
hierarquia, pleiteando uma providência a ser adotada (p. ex: carta precatória expedida por Juiz
da Comarca do Recife para um Juiz da Comarca de Caruaru, solicitando a citação do réu lá
residente), cfe. CPC, art. 201.
c.1) Requisitos – os requisitos gerais das cartas estão dispostos nos arts. 202 a 204 do CPC.
c.2) Peculiaridades – havendo urgência, a carta de ordem e precatória poderão ser transmitidas por
telegrama, radiograma ou telefone (CPC, art. 205). Para tanto, deverão ser respeitados os
procedimentos constantes nos arts. 206 e 207 do CPC.
d) Inovações da Lei n° 11.280/06 – conforme dispõe a nova redação do art. 338 do CPC, “A carta
precatória e a carta rogatória suspenderão71 o processo, no caso previsto na alínea b do inciso IV
do art. 265 desta Lei, quando, tendo sido requeridas antes da decisão de saneamento, a prova
nelas solicitada apresentar-se imprescindível”.
e) Carta eletrônica – a Lei n° 11.419/06 inseriu no ordenamento brasileiro a possibilidade de
expedição de carta de ordem, carta precatória ou carta rogatória por meio eletrônico. Nesta
situação, a assinatura do juiz deverá ser eletrônica, na forma da Lei (CPC, art. 202, § 3°).
9.2 Citação:
a) Conceito – citação é o ato pelo qual se chama a juízo o réu ou o interessado a fim de se
defender (CPC, art. 213). Para a validade do processo é indispensável a citação inicial do réu,
mas o comparecimento espontâneo deste supre a falta de citação (princípio da instrumentalidade
das formas)72.
b) Legitimidade para receber a citação – far-se-á a citação pessoalmente ao réu, ao seu
representante legal ou ao procurador legalmente autorizado. Estando o réu ausente, a citação
far-se-á na pessoa de seu mandatário, administrador, feitor ou gerente, quando a ação se

70
O Código de 1939 tratava de três espécies de atos de comunicação processual: citação, intimação e notificação. O Código atual
eliminou a distinção entre intimação e notificação e só conhece, de ordinário, como atos de comunicação processual, a citação e a
intimação. A denominação notificação ficou reservada para o procedimento integrante das medidas cautelares, como medida
conservativa de direitos, regulada nos artigos 867 a 873 do CPC.
71
Na redação anterior, ela não suspendia.
72
Caso o réu compareça apenas para argüir a nulidade, e sendo esta decretada, considerar-se-á feita a citação na data em que ele
ou seu advogado for intimado da decisão.

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originar de atos por eles praticados. A citação também poderá ser feita na pessoa do advogado,
desde que o mesmo tenha recebido poderes especiais para tanto.
c) Local para realização – a citação efetuar-se-á em qualquer lugar em que se encontre o réu. O
militar, em serviço ativo, será citado na unidade em que estiver servindo se não for conhecida a
sua residência ou nela não for encontrado73 e 74.
d) Efeitos – a citação válida torna prevento o juízo, induz litispendência e faz litigiosa a coisa; e,
ainda quando ordenada por juiz incompetente, constitui em mora o devedor e interrompe a
prescrição. A interrupção da prescrição retroagirá à data da propositura da ação.
e) Ônus – incumbe à parte promover a citação do réu nos dez dias subseqüentes ao despacho que
a ordenar, não ficando prejudicada pela demora imputável exclusivamente ao serviço judiciário.
Não sendo citado o réu, o juiz prorrogará o prazo até o máximo de noventa dias. Não se
efetuando a citação em tais prazos, haver-se-á por não interrompida a prescrição75.
f) Modalidades – a citação far-se-á: I - pelo correio; II - por oficial de justiça; III - por edital; IV -
por meio eletrônico (e-mail)76.
f.1) Citação pelo correio – a citação será feita pelo correio, para qualquer comarca do País, exceto
nas hipóteses do artigo 222: I - nas ações de estado (casamento, separação, divórcio); II -
quando for ré pessoa incapaz; III - quando for ré pessoa de direito público; IV - nos processos
de execução; V - quando o réu residir em local não atendido pela entrega domiciliar de
correspondência; VI - quando o autor a requerer de outra forma.
f.1.1) Procedimento na secretaria – deferida a citação pelo correio, o escrivão ou chefe da secretaria
remeterá ao citando cópias da petição inicial e do despacho do juiz, expressamente consignada
em seu inteiro teor a advertência a que se refere o art. 285 do CPC, segunda parte,
comunicando, ainda, o prazo para a resposta e o juízo e cartório, com o respectivo endereço.
f.1.2) Procedimento quanto ao carteiro – a carta será registrada para entrega ao citando, exigindo-lhe
o carteiro, ao fazer a entrega, que assine o recibo77. Sendo o réu pessoa jurídica, será válida a
entrega a pessoa com poderes de gerência geral ou de administração78.
f.2) Citação por oficial de justiça – far-se-á a citação por meio de oficial de justiça nos casos
ressalvados no art. 222 do CPC, ou quando frustrada a citação pelo correio.
f.2.1) Requisitos do mandado – o mandado, que o oficial de justiça tiver de cumprir, deverá conter: I -
os nomes do autor e do réu, bem como os respectivos domicílios ou residências; II - o fim da
citação, com todas as especificações constantes da petição inicial, bem como a advertência a que

73
Não se fará, porém, a citação, salvo para evitar o perecimento do direito (hipóteses impeditivas de citação): I - a quem estiver
assistindo a qualquer ato de culto religioso; II - ao cônjuge ou a qualquer parente do morto, consangüíneo ou afim, em linha reta,
ou na linha colateral em segundo grau, no dia do falecimento e nos sete dias seguintes; III - aos noivos, nos três primeiros dias de
bodas; IV - aos doentes, enquanto grave o seu estado.
74
Também não se fará citação, quando se verificar que o réu é demente ou está impossibilitado de recebê-la. O oficial de justiça
passará certidão, descrevendo minuciosamente a ocorrência. O juiz nomeará um médico, a fim de examinar o citando. O laudo será
apresentado em cinco dias. Reconhecida a impossibilidade, o juiz dará ao citando um curador, observando, quanto à sua escolha, a
preferência estabelecida na lei civil. A nomeação é restrita à causa. A citação será feita na pessoa do curador, a quem incumbirá à
defesa do réu.
75
O art. 202, I, do Código Civil estabelece que o simples despacho do juiz interrompe a prescrição.
76
Modalidade introduzido pela Lei n° 11.419/06.
77
Ementa: “PROCESSUAL CIVIL - AÇÃO ORDINÁRIA DE COBRANÇA - CITAÇÃO VIA CORREIO - AVISO DE RECEBIMENTO - PESSOA
FÍSICA - NECESSIDADE DE ENTREGA DIRETA AO DESTINATÁRIO - EXIGÊNCIA LEGAL - INTELIGÊNCIA DO ARTIGO 223, PARÁGRAFO
ÚNICO DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL - DESCUMPRIMENTO - NULIDADE - RECURSO PROVIDO. 1 - Na linha da orientação
adotada por este Tribunal, para a validade da citação de pessoa física pelo correio, é necessária a entrega da correspondência
registrada diretamente ao destinatário, de quem deve ser colhida a assinatura no recibo, não bastando, pois, que a carta apenas se
faça chegar no endereço do citando. 2 - Recurso provido para anular o feito a partir da citação, determinando sua regular
realização”. (STJ-4ª Turma, REsp 810934-RS, rel. Min. Jorge Scartezzini, j. 04.04.06, deram provimento, v.u., DJ 17.04.06, p. 205).
78
Ementa: “No que diz respeito à citação de pessoa jurídica, este eg. Superior Tribunal de Justiça já firmou entendimento a respeito
da "teoria da aparência", sustentando como válida a citação realizada na pessoa de quem, na sede do estabelecimento, a receba
sem qualquer ressalva a respeito da falta de poderes para tanto. Precedentes: EREsp nº 156.970/MG, Rel. Min. VICENTE LEAL, DJ
de 22/10/01, REsp nº 241.701/SP, Rel. Min. FRANCISCO PEÇANHA MARTINS, DJ de 10/02/03”. (STJ-1ª Turma, REsp 817284-MG,
rel. Min. Francisco Falcão, j. 21.03.06, negaram provimento, v.u., DJ 10.04.06, p. 164).

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se refere o art. 285 do CPC, segunda parte, se o litígio versar sobre direitos disponíveis; III - a
cominação, se houver; IV - o dia, hora e lugar do comparecimento; V - a cópia do despacho; VI
- o prazo para defesa; VII - a assinatura do escrivão e a declaração de que subscreve por ordem
do juiz.
f.2.2) Procedimento – incumbe ao oficial de justiça procurar o réu e, onde o encontrar, citá-lo: I -
lendo-lhe o mandado e entregando-lhe a contrafé; II - portando por fé se recebeu ou recusou a
contrafé; III - obtendo a nota de ciente, ou certificando que o réu não a após no mandado.
f.2.3) Peculiaridades – quando, por três vezes, o oficial de justiça houver procurado o réu em seu
domicílio ou residência, sem o encontrar, deverá, havendo suspeita de ocultação, intimar a
qualquer pessoa da família, ou em sua falta a qualquer vizinho, que, no dia imediato, voltará, a
fim de efetuar a citação, na hora que designar. No dia e hora designados, o oficial de justiça,
independentemente de novo despacho, comparecerá ao domicílio ou residência do citando, a fim
de realizar a diligência (citação por hora certa). Se o citando não estiver presente, o oficial de
justiça procurará informar-se das razões da ausência, dando por feita a citação, ainda que o
citando se tenha ocultado em outra comarca. Da certidão da ocorrência, o oficial de justiça
deixará contrafé com pessoa da família ou com qualquer vizinho, conforme o caso, declarando-
lhe o nome. Outrossim, atente-se que nas comarcas contíguas, de fácil comunicação, e nas que
se situem na mesma região metropolitana, o oficial de justiça poderá efetuar citações ou
intimações em qualquer delas.
f.3) Citação por edital – far-se-á a citação por edital: I - quando desconhecido ou incerto o réu; II -
quando ignorado, incerto ou inacessível o lugar em que se encontrar; III - nos casos expressos
em lei. Os requisitos desta última modalidade de citação estão previstos no artigo 232, do CPC.
f.4) Citação por e-mail – a Lei n° 11.419/06 introduziu no ordenamento brasileiro a possibilidade da
citação ser realizada por meio eletrônico (CPC, art. 221, IV).
9.3 Intimação
a) Conceito – intimação é o ato pelo qual se dá ciência a alguém dos atos e termos do processo,
para que faça ou deixe de fazer alguma coisa.
b) Procedimento – no Distrito Federal e nas Capitais dos Estados e dos Territórios, consideram-se
feitas as intimações somente pela publicação dos atos no órgão oficial. É indispensável, sob pena
de nulidade, que da publicação constem os nomes das partes e de seus advogados, suficientes
para sua identificação. A intimação do Ministério Público, em qualquer caso, será feita
pessoalmente. Nas demais comarcas, as intimações serão feitas pela imprensa oficial, se houver
órgão de publicação dos atos oficiais; não o havendo, competirá ao escrivão intimar, de todos os
atos do processo, os advogados das partes: I - pessoalmente, tendo domicílio na sede do juízo;
II - por carta registrada, com aviso de recebimento quando domiciliado fora do juízo.
c) Contagem do prazo – salvo disposição em contrário, os prazos para as partes, para a Fazenda
Pública e para o Ministério Público contar-se-ão da intimação. As intimações consideram-se
realizadas no primeiro dia útil seguinte, se tiverem ocorrido em dia em que não tenha havido
expediente forense.
c.1) Começa a correr o prazo:
I- quando a citação ou intimação for pelo correio, da data da juntada aos autos do aviso de
recebimento;
II - quando a citação ou intimação for por oficial de justiça, da data da juntada aos autos do
mandado cumprido;
III - quando houver vários réus, da data da juntada aos autos do último aviso de recebimento ou
mandado citatório cumprido;
IV - quando o ato se realizar em cumprimento de carta de ordem, precatória ou rogatória, da data de
sua juntada aos autos devidamente cumprida;

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V- quando a citação for por edital, finda a dilação assinada pelo juiz.
c.2) O prazo para a interposição de recurso conta-se da data, em que os advogados são intimados da
decisão, da sentença ou do acórdão, que normalmente se dá pela imprensa oficial. Reputam-se
intimados na audiência, quando nesta é publicada a decisão ou a sentença.
d) Inovação da Lei n° 11.280/06 – nos termos do parágrafo único inserido no art. 154 do CPC: “Os
tribunais, no âmbito da respectiva jurisdição, poderão disciplinar a prática e a comunicação
oficial dos atos processuais por meios eletrônicos, atendidos os requisitos de autenticidade,
integridade, validade jurídica e interoperabilidade da Infra-Estrutura de Chaves Públicas
Brasileira - ICP – Brasil.”79.
e) Manutenção do endereço atualizado – a Lei n° 11.382/06 inseriu no art. 238 do CPC um
parágrafo único que exige das partes que mantenham seus endereços de comunicação sempre
atualizados, porquanto presumem-se válidas as comunicações e intimações dirigidas ao
endereço residencial ou profissional declinado na inicial, contestação ou embargos, cumprindo às
partes atualizar o respectivo endereço sempre que houver modificação temporária ou definitiva.

10. DEFESA DO RÉU


a) Intróito – após a propositura da ação, o réu é citado para vir responder ao pedido de tutela
jurisdicional formulado pelo autor. Com efeito, depois de citado, o réu poderá: se defender;
permanecer inerte; ou reconhecer a procedência do pedido. Caso deseje se defender, o réu
poderá oferecer, no prazo de quinze dias, em petição escrita, subscrita por advogado, dirigida ao
juiz da causa: contestação, exceção e reconvenção (CPC, art. 297)80.
Nas formas de defesa, supramencionadas, o réu poderá utilizar-se de duas estratégias: fazer
defesa contra o processo ou contra o mérito. Na defesa contra o processo, o réu impede ou
dilata a prolação da sentença definitiva; na defesa contra o mérito, o réu objetiva uma sentença
que rejeite a pretensão do autor, ou seja, que o pedido seja ao final julgado improcedente.
b) Procedimento comum – a contestação e a reconvenção serão oferecidas simultaneamente, em
peças autônomas; a exceção será processada em apenso aos autos principais81.
10.1 Contestação
a) Conceito – é o instrumento processual utilizado pelo réu para opor-se, formal ou materialmente,
à pretensão deduzida em juízo pelo autor.
b) Conteúdo e forma – é oferecida em petição escrita82 endereçada ao juiz da causa. Nela, o réu
pode alegar toda a matéria de defesa, expondo as razões de fato e de direito, com que impugna
o pedido do autor e especificando as provas que pretende produzir (CPC, art. 330). O ônus de
argüir na contestação toda a matéria de defesa é a consagração do princípio da eventualidade
(ou concentração da defesa). Assim, se alguma argüição de defesa for omitida nessa fase,
ocorrerá preclusão, e não poderá o réu deduzir novas alegações em fases ulteriores do
procedimento (princípio da eventualidade). Não obstante, essa regra não é absoluta, e possui
exceções previstas no art. 303 do CPC.

79
Conseqüência dessa possibilidade foi o advento da Lei n° 11.419/06, que, dentre outras providências dispôs que as intimações
podem ser feitas de forma eletrônica.
80
Quanto à contagem do prazo, obedecerá às regras comuns já estudadas. Observe-se que quando forem citados para a ação vários
réus, o prazo para responder ser-lhes-á comum, salvo o disposto no art. 191, isto é quando tiverem procuradores diferentes. In
casu, o início do prazo de resposta só se verifica após a juntada do mandado de citação do último litisconsorte (CPC, art. 241, III).
Se o autor desistir da ação quanto a algum réu ainda não citado, o prazo para a resposta correrá da intimação do despacho que
defere a desistência.
81
Quanto a peças referentes à contestação e a reconvenção, estas necessitam ser interpostas simultaneamente (CPC, art. 299). Se
o réu antecipou a contestação e a ofereceu no 14º dia, não poderá no dia seguinte reconvir. Operou-se, no caso, a chamada
preclusão consumativa.
82
No procedimento sumário poderá ser oral (CPC, art. 278).

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c) Ônus da impugnação específica – além de carregar o ônus da defesa, o réu ainda tem que se
manifestar precisamente sobre os fatos narrados na petição inicial, sob pena de presumirem-se
verdadeiros os fatos não impugnados (CPC, art. 302). Assim, não pode o réu contestar de forma
geral, se limitando a expressões do tipo: “não são verdadeiros os fatos aduzidos pelo autor”.
Entretanto não carregam esse ônus: o advogado dativo (p. ex.: procurador da Assistência
Judiciária), o curador especial (cfe. art. 9° do CPC), e ao órgão do MP83.
d) Preliminares da contestação – no nosso sistema, a contestação além de forma de defesa de
ordem material ou substancial, poderá ser utilizada para as alegações de ordem processual.
Essas alegações se revestem de caráter prejudicial84, devendo ser analisadas pelo juiz antes do
mérito da lide. Por isso, dispõe o artigo 301 do CPC: compete ao contestante, antes de discutir o
mérito, alegar, preliminarmente:
I- inexistência ou nulidade da citação;
II - incompetência absoluta (em razão da matéria ou da hierarquia);
III - inépcia da petição inicial (hipóteses elencadas no parágrafo único do artigo 295);
IV - perempção (quando o autor der, por três vezes, motivo à extinção do processo por abandono de
causa);
V- litispendência (quando se repete ação, que está em curso);
VI - coisa julgada (quando se repete ação que já foi decidida por sentença, de que não caiba
recurso);
VII - conexão (identidade de causa de pedir ou objeto) ou continência (mesma causa de pedir,
mesmas partes, mas o objeto de uma ação, por ser mais amplo, abrange o da outra);
VIII - incapacidade da parte, defeito de representação (vício voltado para o instrumento de mandato,
contrato social ou estatuto social) ou falta de autorização (ex: marido que ingressa com uma
ação real imobiliária sem a prévia outorga uxória da mulher);
IX - convenção de arbitragem;
X- carência de ação (quando faltar qualquer das condições da ação);
XI - falta de caução ou de outra prestação, que a lei exige como preliminar.
d.1) Inexistência de preclusão – com exceção da convenção de arbitragem, o juiz conhecerá de ofício
todas as alegações constantes do artigo 301.
d.2) Réplica – se o réu alegar qualquer das matérias acima enumeradas (preliminares do artigo 301),
o juiz mandará ouvir o autor, no prazo de 10 dias, permitindo-lhe a produção de prova
documental (art. 327). Também ouvirá o autor, no prazo de 10 dias, se o réu suscitar algum fato
modificativo, impeditivo ou extintivo.
e) Mérito da contestação – cabe também ao réu manifestar-se precisamente sobre os fatos
narrados na petição inicial. Presumem-se verdadeiros os fatos não impugnados, salvo:
e.1) se não for admissível, a seu respeito, a confissão;
e.2) se a petição inicial não estiver acompanhada do instrumento público que a lei considerar da
substância do ato;
e.3) se estiverem em contradição com a defesa, considerada em seu conjunto.

83
Também não se aplica a necessidade de impugnação específica a Fazenda Pública (RTJ 84/163).
84
A doutrina distingue preliminares de questões prejudiciais. As primeiras dizem respeito aos pressupostos processuais e às
condições da ação, enquanto estas últimas se referem a fatos anteriores relacionados ao litígio (v.g., paternidade em ação de
alimentos) e que poderiam, por si sós, ser objeto de um processo autônomo. Para essa parte da doutrina, a contestação deve ser
dividida em: preliminares (art. 301 do CPC), prejudiciais de mérito (v.g., paternidade em ação de alimentos) e mérito (questão
substancial controvertida). Uma segunda corrente, alheia a tal distinção, divide a contestação em: preliminares (art. 301 do CPC),
preliminares de mérito (prescrição e decadência) e mérito (questão substancial controvertida).

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f) Eventualidade – conforme acima exposto, em face do princípio da eventualidade, depois da


contestação, só é lícito deduzir novas alegações quando (CPC, art. 303):
f.1) relativas a direito superveniente;
f.2) competir ao juiz conhecer delas de ofício;
f.3) por expressa autorização legal, puderem ser formuladas em qualquer tempo e juízo.
10.2 Exceções
a) Conceito – é matéria de defesa processual dilatória, que não se volta propriamente contra o
outro litigante, mas sim contra o órgão jurisdicional ou seu titular, pondo em crise sua
capacidade de exercer a jurisdição frente ao caso sub iudice.
b) Espécies – é lícito a qualquer das partes argüir, por meio de exceção, a incompetência (CPC, art.
112), o impedimento (CPC, art. 134) ou a suspeição (CPC, art. 135)85.
c) Prazo – este direito pode ser exercido em qualquer tempo, ou grau de jurisdição, cabendo à
parte oferecer exceção, no prazo de quinze dias, contado do fato que ocasionou a
incompetência, o impedimento ou a suspeição.
d) Efeito – recebida a exceção, o processo ficará suspenso (art. 265, III) até que seja
definitivamente julgada86.
10.2.1 Exceção de incompetência do juízo – o excipiente (que poderá apresentar a petição da exceção
tanto no juízo em que corre o processo, como no seu domicílio – caso seja diverso – CPC, art.
305, parágrafo único inserido pela Lei n° 11.280/06) argüirá a incompetência em petição
fundamentada e devidamente instruída, indicando o juízo para o qual declina. Conclusos os
autos, o juiz mandará processar a exceção, ouvindo o excepto dentro de dez dias e decidindo em
igual prazo. Havendo necessidade de prova testemunhal, o juiz designará audiência de instrução,
decidindo dentro de dez dias. O juiz indeferirá a petição inicial da exceção, quando
manifestamente improcedente. Julgada procedente a exceção, os autos serão remetidos ao juiz
competente (CPC, arts. 307 a 311). Como visto no início desse item, a Lei 11.280/06
acrescentou ao procedimento da exceção uma nova possibilidade. Conforme reza o parágrafo
único inserido no art. 305 do CPC: “Na exceção de incompetência (art. 112 desta Lei), a petição
pode ser protocolizada no juízo de domicílio do réu, com requerimento de sua imediata remessa
ao juízo que determinou a citação.”
10.2.2 Exceção de impedimento ou suspeição – a parte oferecerá a exceção de impedimento ou de
suspeição, especificando o motivo da recusa (CPC, arts. 134 e 135). A petição, dirigida ao juiz da
causa, poderá ser instruída com documentos em que o excipiente fundar a alegação e conterá o
rol de testemunhas. Despachando a petição, o juiz, se reconhecer o impedimento ou a
suspeição, ordenará a remessa dos autos ao seu substituto legal; em caso contrário, dentro de
dez dias, dará as suas razões, acompanhadas de documentos e de rol de testemunhas, se
houver, ordenando a remessa dos autos ao tribunal. Verificando que a exceção não tem
fundamento legal, o tribunal determinará o seu arquivamento; no caso contrário condenará o
juiz nas custas, mandando remeter os autos ao seu substituto legal. Nesta última hipótese, o
juiz tem legitimidade e interesse para recorrer da condenação imposta (CPC, arts. 312 a 314).
10.3 Reconvenção
a) Conceito – é a ação do réu contra o autor, proposta no mesmo feito em que está sendo
demandado. Ao contrário da contestação, que é simples resistência à pretensão do autor, a
reconvenção é um contra-ataque, uma verdadeira ação ajuizada pelo réu (reconvinte) em face
do autor (reconvindo), no mesmo feito em que está sendo demandado. Observe-se que a
reconvenção é uma faculdade, diferentemente da contestação que é um ônus.

85
Observe-se que quando o assunto for argüição de competência, apenas a incompetência relativa constitui matéria de exceção. A
incompetência absoluta será objeto de preliminar de contestação.
86
Por ser decisão interlocutória, cabe agravo da decisão que julga, em primeiro grau de jurisdição, a exceção.

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b) Cabimento – só o réu é legitimado ativo para ajuizar a reconvenção; e apenas o autor pode ser
reconvindo. Além dessa legitimidade, as ações têm que ser conexas. Assim, pode o réu reconvir
ao autor no mesmo processo, toda vez que a reconvenção seja conexa com a ação principal ou
com o fundamento da defesa. Não pode o réu, em seu próprio nome, reconvir ao autor, quando
este demandar em nome de outrem (substituição processual)87.
c) Procedimento – a reconvenção deverá ser dirigida ao juiz da causa por meio de petição que
atenda aos requisitos previstos no artigo 282, do CPC. Oferecida a reconvenção, o autor
reconvindo será intimado, na pessoa do seu procurador, para contestá-la no prazo de quinze
dias. Se indeferir liminarmente a reconvenção, o juiz estará pondo termo a respectiva ação, e
não ao processo, razão pela qual tal decisão há de desafiar o recurso de agravo.
d) Efeitos – a reconvenção não suspende o processo, bem como a desistência da ação, ou a
existência de qualquer causa que a extinga, não obsta ao prosseguimento da reconvenção (CPC,
art. 317).
e) Julgamento – julgar-se-ão na mesma sentença a ação e a reconvenção. Será citra petita, e,
portanto nula, a sentença que deixar de decidir também a reconvenção88.

11. REVELIA89
a) Intróito – a relação jurídica processual impõe às partes numerosos ônus, que consistem
naquelas atividades cuja realização reverterá em proveito delas próprias, e cujo descumprimento
implicará vantagens para o adversário. Com efeito, um dos ônus mais importantes que tem o
réu no processo é o de responder à ação90. Assim, se o réu não contestar a ação, poderão ser
reputados como verdadeiros os fatos afirmados pelo autor (CPC, art. 319).
b) Conceito – denomina-se revelia a ausência de resposta do réu. Revel é aquele que, citado,
permanece inerte, que não se contrapõe ao pedido formulado pelo autor91. Não se deve
confundir revelia (que é a ausência de contestação no prazo legal) com os efeitos que podem ser
gerados pela revelia. Assim, há casos em que o réu, apesar de revel, não sofrerá os efeitos da
revelia (p. ex: ser reputados como verdadeiros os fatos narrados pelo autor); como há outros,
em que mesmo contestando, o réu poderá sofrer com a presunção de veracidade, porquanto não
tenha impugnado especificamente todas as pretensões do autor (CPC, art. 302).
c) Efeitos – podem ser divididos em efeitos formais (processuais) e materiais (substanciais):
c.1) formal (processual) – contra o revel que não tenha patrono nos autos, correrão os prazos
independentemente de intimação, a partir da publicação de cada ato decisório92 (CPC, art. 322
com redação da pela Lei n° 11.280/06). O revel, no entanto, poderá intervir no processo em
qualquer fase, recebendo-o no estado em que se encontrar. Observe-se que essa ‘punição’ é

87
Outrossim, não cabe reconvenção nas ações dúplices (possessórias, sumárias, juizados especiais, etc), nos processos executivo e
cautelar (conclusão nº 13 do VI Encontro Nacional dos Tribunais de Alçada) e nos procedimentos especiais de jurisdição voluntária
(REsp. 33457-7-SP).
88
A reconvenção, embora prevista para ser produzida no prazo da contestação, não está obrigatoriamente subordinada a conjunta
apresentação desta. Mesmo se omitindo quanto a contestação, pode o demandado, que não tem defesa contra a ação, ou que não
deseje simplesmente resisti-la, ter matéria para reconvir. Nesse caso será revel na ação principal.
89
Contumácia consiste no fato do não-comparecimento da parte em juízo. A contumácia pode ser do autor, ou do réu, ou de ambos.
A contumácia do autor é mais grave (porquanto foi ele quem invocou a prestação jurisdicional do Estado), e por isso sua
observância gerará um ônus maior. Com efeito, produz efeitos de ordem processual e material (quanto àqueles, p. ex., os arts. 13,
I; 265, § 2°; 267, III, §§ 1° e 2°; 453, § 2°; e quanto aos materiais: 219, § 4°; 268, parágrafo único; 806 e 808 do CPC, etc.). Já a
contumácia do réu, quando este não comparece a juízo para se defender, denomina-se revelia.
90
O autor, na petição inicial, faz uma série de afirmações; o réu, citado, tem o ônus de a responder, tornando-as controvertidas. É
por meio de resposta que resiste às pretensões do autor. Com isso forma-se uma dialética entre as partes; o juiz ouve a versão dos
fatos trazida pelo autor e pelo réu e determina a produção de provas necessárias para a apuração da veracidade de uns e outros.
Somente haverá necessidade de provas sobre aqueles fatos que se tenham tornado controvertidos. Os incontroversos as dispensam.
91
Entenda-se por citado, as formas de citação real, pois o réu citado presumidamente (citação ficta, seja por edital ou por hora
certa) não sofrerá os efeitos da revelia, porquanto a existência de um curador especial dado pelo juiz (CPC, art. 9°).
92
Esta inovação trazida pela Lei n° 11.280/06 que modificou a redação do art. 322 do CPC confirma antiga jurisprudência do STJ
sobre o tema. Só não deverá ser intimado o revel que não constitui advogado nos autos (ou seja, até escoado o prazo de resposta
não tiver juntado instrumento de procuração).

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transitória, porquanto basta o revel ingressar nos autos que deverá passar a ser intimado de
qualquer ato futuro93.
c.2) material (substancial) – presumir-se-ão como verdadeiros, os fatos alegados pelo autor.
d) Procedimento após a revelia – ocorrendo a revelia, o juiz poderá julgar antecipadamente a lide
(art. 330, II).
e) Exceções aos efeitos substanciais da revelia – a revelia não induz, contudo, ao efeito do artigo
319 do CPC nos casos narrados no art. 320 do CPC, que são eles:
e.1) se, havendo pluralidade de réus, algum deles contestar a ação (litisconsórcio passivo)94;
e.2) se o litígio versar sobre direitos indisponíveis (personalíssimos, tais como os relativos aos
direitos fundamentais: liberdade, educação, cultura, segurança, honra, nome, intimidade,
alimentos);
e.3) se a petição inicial não estiver acompanhada do instrumento público, que a lei considere
indispensável à prova do ato (ex: reivindicatória não acompanhada do instrumento público de
compra e venda devidamente transcrito no registro imobiliário).
f) Impossibilidade de modificação da petição inicial – ainda que ocorra revelia, o autor não poderá
alterar o pedido, ou a causa de pedir, nem demandar declaração incidente, salvo promovendo
nova citação do réu, a quem será assegurado o direito de responder no prazo de quinze dias.
g) Distinção entre revelia e reconhecimento jurídico do pedido – como se viu, os efeitos da revelia
não incidem sobre o direito da parte, mas tão somente quanto à matéria de fato. Assim, o que o
juiz presume é a verdade dos fatos, mas nem por isso ele está obrigado a retirar deles a
conseqüência jurídica pretendida pelo autor95. O réu revel, confessa todos os fatos alegados pelo
autor, pois não os contraditou. Outrossim, como adverte Barbosa Moreira, o reconhecimento do
pedido não se confunde com a confissão, que é apenas meio de prova e que se refere a um ou
alguns fatos arrolados pela parte contrária. O reconhecimento tem por objeto o próprio pedido
do autor, como um todo, isto é, com todos os seus consectários jurídicos. É verdadeira adesão
do réu ao pedido do autor, ensejando autocomposição do litígio e dispensando o juiz de dar sua
própria solução ao mérito. No reconhecimento o juiz apenas encerra o processo, reconhecendo
que a lide se extinguiu por eliminação da resistência do réu à pretensão do autor. Assim,
desaparecida a lide, não há mais tutela jurisdicional a ser dispensada às partes, o que, todavia,
não exime o juiz de proferir sentença que reconheça esse fato jurídico e que ponha fim
definitivamente ao processo (CPC, art. 269, II).

12. PROVIDÊNCIAS PRELIMINARES


Terminado o prazo de reposta, determina a lei que o escrivão faça a conclusão dos autos ao juiz
para que ele, em dez dias, determine as providências preliminares para que o processo siga
adiante. Então, após a contestação ou sem ela, o juiz adotará, conforme o caso, as seguintes
providências preliminares:
a) determinará que o autor especifique as provas que pretende produzir em audiência, nos casos
do artigo 320;

93
Súmula 231 do STF: “O revel, em processo cível, pode produzir provas, desde que compareça em tempo oportuno”. Assim, se ele
comparece a audiência, e a prova a ser colhida seja testemunhal, poderá o revel participar da ouvida da testemunha, formulando
contraditas e reperguntas.
94
Esse fenômeno apenas ocorre no litisconsórcio unitário; ou excepcionalmente no simples, caso um dos litisconsortes conteste
fatos que sejam comuns aos demais.
95
“A falta de contestação conduz a que se tenham como verdadeiros os fatos alegados pelo autor. Não, entretanto, a que
necessariamente deve ser julgada procedente a ação. Isso pode não ocorrer, seja em virtude de os fatos não conduzirem às
conseqüências jurídicas pretendidas, seja por evidenciar-se existir algum, não cogitado na inicial, a obstar que aqueles se
verifiquem.” (STJ, 3ª Turma, REsp 14.987-CE, rel. Min. Eduardo Ribeiro).

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b) proferirá sentença incidente se o julgamento da lide depender, no todo ou em parte, da


declaração da existência ou inexistência da relação jurídica;
c) intimará o autor para falar, no prazo de 10 dias, sobre as preliminares ou fatos modificativos,
impeditivos ou extintivos suscitados pelo réu.
12.1 Ação declaratória incidental – na contestação, pode o réu impugnar o direito que constitui
fundamento do pedido do autor, o que quer dizer, suscitar uma relação jurídica prejudicial
daquele direito. Poderá aquela atitude do réu consistir apenas numa alegação, destinada a ser
conhecida e considerada pelo juiz, visando à declaração de improcedência da ação. Mas tal
atitude do réu poderá ser completada com o pedido para que o juiz decida no tocante ao mérito
dessa prejudicial. No segundo caso, é o próprio réu quem promove ação declaratória incidente;
no primeiro caso, a questão de direito, alegada pelo réu, poderá provocar ação declaratória
incidente promovida pelo autor.
Em ambos os casos, o juiz teria que considerar e decidir sobre a questão prejudicial, com a
diferença de que, sendo apenas alegada, dita questão será decidida incidentemente (incidenter
tantum), como motivo ou fundamento da sentença quanto ao pedido objeto da ação, enquanto
que, sendo reclamada decisão sobre a referida questão, que passa a ser objeto de ação
declaratória incidental, o juiz terá que formalmente julgá-la com força de sentença. A decisão
incidenter tantum da aludida questão tem natureza e força de motivo da sentença sobre o
pedido formulado na ação (CPC, art. 469, III); a decisão, da mesma questão, provocada por
ação declaratória incidental, provenha esta do autor ou do réu, tem natureza e força de sentença
que transitada em julgado faz coisa julgada material (CPC, art. 470).
Observe-se que a declaratória não aumenta o campo de matérias que o juiz deva conhecer, mas
o da incidência da coisa julgada. Aquela questão que teria de ser decidida pelo juiz, sem força de
coisa julgada (incidenter tantum), passará a ser apreciada em caráter definitivo, não mais como
questão incidente, mas como de mérito, agora revestida da autoridade da coisa julgada material.
12.2 Réplica – por força do princípio constitucional do contraditório, o juiz dará ao autor oportunidade
para manifestar-se sobre a contestação sempre que estiverem presentes as hipóteses dos arts.
326 e 327 do CPC. Observe-se que a matéria a ser alegada pelo autor na réplica é restrita àquilo
que o réu tenha argüido em sua contestação, como preliminar ou fato extintivo, impeditivo ou
modificativo do direito do autor. Outrossim, com a réplica pode o autor apresentar novos
documentos, sobre os quais o juiz ouvirá a parte contrária. Não há previsão, no nosso
ordenamento jurídico, de apresentação de tréplica, isto é, de nova manifestação do réu, agora
sobre a réplica juntada pelo autor. Mas o juiz dará oportunidade para que aquele se manifeste
sobre os documentos juntados (CPC, art. 398).

13. JULGAMENTO CONFORME O ESTADO DO PROCESSO


Após a adoção das providências preliminares (CPC, arts. 323 a 327) ou não havendo
necessidade delas, o juiz proferirá o julgamento conforme o estado do processo. Nesta fase, o
juiz poderá: extinguir o processo (CPC, art. 329); julgar antecipadamente a lide (CPC, art. 330);
ou sanear o processo (CPC, art. 331 e seguintes).
13.1 Extinção do processo - ocorrendo qualquer das hipóteses previstas nos arts. 267 e 269 (que teve
a redação do caput alterada pela Lei n° 11.232/05), o juiz declarará extinto o processo. Caso
adote uma das hipóteses previstas no art. 267 do CPC, o juiz extinguirá o feito sem a resolução
do mérito96. Já as do art. 269 implicarão na extinção do processo com resolução do mérito.

96
Dentre as diversas hipóteses de extinção do processo sem resolução de mérito, atentem-se as hipóteses dos incisos II e III
(abandono das partes pelo período de um ano; e abandono autor por mais trinta dias). Com efeito, na primeira hipótese, o juiz
poderá decretar a extinção de ofício (cumprida a formalidade de intimação pessoal das partes para no prazo de 48h dar andamento
ao feito - §1° do art. 267). Já na segunda, conforme Súmula n° 240 do STJ “a extinção do processo, por abandono da causa pelo
autor, depende de requerimento do réu”. Só após esse requerimento é que o juiz fará a intimação pessoal do autor para em 48h dar
andamento ao processo.

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13.2 Julgamento antecipado da lide – no momento do julgamento conforme o estado do processo, o


juiz examinará o pedido e proferirá sentença contendo sua própria solução para a lide, sem
passar pela audiência de instrução e julgamento. São casos em que o juiz conhecerá
diretamente do pedido, proferindo sentença:
a) quando a questão de mérito for unicamente de direito, ou, sendo de direito e de fato, não
houver necessidade de produzir prova em audiência;
b) quando ocorrer à revelia (art. 319)97.
13.3 Saneamento do processo – se não ocorrer qualquer das hipóteses previstas nas seções
precedentes, e versar a causa sobre direitos que admitam transação, o juiz designará audiência
preliminar, a se realizar no prazo máximo de 30 (trinta) dias, para a qual serão as partes
intimadas a comparecer, podendo fazer-se representar por procurador ou preposto, com poderes
para transigir (CPC, art. 331)98.
13.3.1 Audiência preliminar – segundo a tradição do direito luso-brasileiro, o saneamento do processo
deveria dar-se em decisão interlocutória escrita, após o encerramento da fase postulatória. O
sistema germânico adotava, porém, a audiência preliminar, destinada a preparar o feito para
ingressar na fase instrutória, depois de resolvidas oralmente às questões preliminares. A Lei n°
8.952/94, procurando incentivar a autocomposição dos litígios, instituiu a obrigatoriedade de
uma audiência preliminar, em que se tentará a conciliação das partes, antes de se dar início a
fase específica da instrução processual, audiência essa que, porém, não se restringe apenas à
busca da solução negocial para o conflito, já que será nela que o juiz completará a tarefa
saneadora. Com efeito, esse deverá ser o procedimento do magistrado:
a) Caso seja obtida a conciliação, será reduzida a termo e homologada por sentença.
b) Se, por qualquer motivo, não for obtida a conciliação, o juiz fixará os pontos controvertidos,
decidirá as questões processuais pendentes e determinará as provas a serem produzidas,
designando audiência de instrução e julgamento, se necessário99.
13.3.2 Despacho saneador – na sistemática do Código atual, não pode mais o juiz relegar questões
formais ou preliminares, como os pressupostos processuais e as condições da ação, para exame
na sentença final. Incumbe-lhe decidi-las no “julgamento conforme o estado do processo” de
sorte que o despacho saneador (CPC, art. 331, §2°), é tão-somente uma eventual declaração de
regularidade do processo100. Observe-se que com a instituição da audiência preliminar (antiga
audiência de conciliação – Lei n° 8.952/94), o saneador poderá, em princípio, ser proferido
oralmente pelo juiz, ficando o seu teor consignado na ata daquela audiência. Se, porém, o juiz
preferir, poderá determinar conclusão dos autos para redigir, posteriormente, sua decisão.

14. PROVAS
a) Conceito – é o conjunto de meios produtores da certeza jurídica ou o conjunto de meios
utilizados para demonstrar a existência de fatos relevantes para o processo. Noutro critério, é a
própria convicção que se forma no espírito do julgador a respeito da existência ou inexistência
de fatos alegados no processo.

97
Reitere-se que na verdade não é a revelia em si que conduz ao julgamento antecipado da lide, mas sim a produção dos seus
efeitos. Deste modo, nas hipóteses do artigo 320 não há lugar para o julgamento antecipado da lide.
98
Observe-se que o art. 331 foi alterado pela Lei nº 10.444/02.
99
A audiência do artigo 331 não se destina apenas à tentativa de conciliação, mas também à fixação dos pontos controvertidos, à
solução das questões processuais pendentes e à determinação das provas a serem produzidas. Outrossim, a Lei nº 10.444/02 ainda
acrescentou o §3º, do seguinte teor: “Se o direito em litígio não admitir transação, ou se as circunstâncias da causa evidenciarem
ser improvável sua obtenção, o juiz poderá, desde logo, sanear o processo e ordenar a produção da prova, nos termos do §2º”.
100
A jurisprudência tem entendido que o “simples despacho do juiz designando a audiência de instrução e julgamento, importa em
declarar o processo implicitamente saneado” e repelidas, também de forma implícita, as preliminares argüidas.

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b) Objeto – são exclusivamente os fatos. O direito não se prova, deve ser de conhecimento do juiz
(quando muito ele pode exigir que a parte prove a vigência de direito municipal, estadual,
estrangeiro, ou consuetudinário, CPC, art. 337).
c) Provas admissíveis – todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não
especificados no Código, são hábeis para provar a verdade dos fatos, em que se funda a ação ou
a defesa (CPC, art. 332)101.
d) Ônus da prova – o ônus de provar incumbe (CPC, art. 333):
d.1) ao autor, quanto ao fato constitutivo do seu direito;
d.2) ao réu, quanto à existência de fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor102.
e) Dispensa – não dependem de prova os fatos (CPC, art. 334):
e.1) notórios;
e.2) afirmados por uma parte e confessados pela parte contrária;
e.3) admitidos, no processo, como incontroversos;
e.4) em cujo favor milita presunção legal de existência ou de veracidade.
f) Momento para produção – salvo disposição especial em contrário, as provas devem ser
produzidas em audiência. A prova documental, contudo, deve instruir a inicial ou a defesa (CPC,
art. 336):
f.1) Quando a parte, ou a testemunha, por enfermidade, ou por outro motivo relevante, estiver
impossibilitada de comparecer à audiência, mas não de prestar depoimento, o juiz designará,
conforme as circunstâncias, dia, hora e lugar para inquiri-la.
f.2) A parte, que alegar direito municipal, estadual, estrangeiro ou consuetudinário, provar-lhe-á o
teor e a vigência, se assim o determinar o juiz.
14.1 Depoimento pessoal
a) Objeto – o juiz pode, de ofício, em qualquer estado do processo, determinar o comparecimento
pessoal das partes, a fim de interrogá-las sobre os fatos da causa (CPC, art. 342).
b) Requerimento – quando o juiz não o determinar de ofício, compete a cada parte requerer o
depoimento pessoal da outra, a fim de interrogá-la na audiência de instrução e julgamento (CPC,
343).
c) Procedimento – a parte será intimada pessoalmente, constando do mandado que se presumirão
confessados os fatos contra ela alegados, caso não compareça ou, comparecendo, se recuse a
depor. Se a parte intimada não comparecer, ou comparecendo, se recusar a depor, o juiz lhe
aplicará a pena de confissão. A parte será interrogada na forma prescrita para a inquirição de
testemunhas, isto é, antes de depor a parte deve ser qualificada e novamente advertida de que
sua recusa em depor implica o reconhecimento da pena de confesso. A ouvida de cada parte
deve ser feita separada e sucessivamente, sem que uma ouça o depoimento da outra. Pela
ordem, deve o juiz ouvir o depoimento do autor, depois o do réu. A parte não é obrigada a depor
de fatos (art. 347 do CPC):
c.1) criminosos ou torpes, que lhe forem imputados;
c.2) a cujo respeito, por estado ou profissão, deva guardar sigilo103.
14.2 Confissão

101
Na seara do Processo Civil, não se admite prova obtida por meio ilícito. Outrossim, a prova emprestada pode ser utilizada, desde
que tenha sido garantido o contraditório no processo em que ela foi produzida.
102
Nas relações de consumo, admite-se a inversão do ônus da prova.
103
Esta disposição não se aplica às ações de filiação, de separação judicial e de anulação de casamento. Ademais o art. 229 do
Código Civil acrescentou outras hipóteses nas quais a parte poderá recusar-se a depor.

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a) Conceito – há confissão, quando a parte admite a verdade de um fato, contrário ao seu interesse
e favorável ao adversário (CPC, art. 348). Observe que a confissão não se confunde com o
reconhecimento da procedência do pedido. Enquanto aquela pode ser levada a efeito tanto pelo
autor quanto pelo réu, o reconhecimento da procedência do pedido é exclusivo do réu.
b) Espécies – a confissão é judicial (em juízo) ou extrajudicial (fora do juízo). A confissão judicial
pode ser espontânea ou provocada. A confissão espontânea pode ser feita pela própria parte ou
por mandatário com poderes especiais. A confissão judicial faz prova contra o confitente, não
prejudicando, todavia, os litisconsortes. Nas ações que versarem sobre bens imóveis ou direitos
sobre imóveis alheios, a confissão de um cônjuge não valerá sem a do outro. Não vale como
confissão à admissão, em juízo, de fatos relativos a direitos indisponíveis. Outrossim, a confissão
é, de regra, indivisível, não podendo a parte, que a quiser invocar como prova, aceitá-la no
tópico que a beneficiar e rejeitá-la no que lhe for desfavorável. Cindir-se-á, todavia, quando o
confitente lhe aduzir fatos novos, suscetíveis de constituir fundamento de defesa de direito
material ou de reconvenção.
c) Revogação – a confissão, quando emanar de erro, dolo ou coação, pode ser revogada:
c.1) por ação anulatória, se pendente o processo em que foi feita;
c.2) por ação rescisória, depois de transitada em julgado a sentença, da qual constituir o único
fundamento104.
14.3 Exibição de documento ou coisa
a) Conceito – o juiz pode ordenar que a parte exiba documento ou coisa, que se ache em seu
poder. A exibição ora funciona como medida cautelar preparatória, ora como modalidade de
prova produzida no curso do processo. A urgência do pedido será determinante para opção de
uma ou outra via (CPC, art. 355).
b) Procedimento do pedido – o pedido formulado pela parte conterá (CPC, art. 356):
b.1) a individuação, tão completa quanto possível, do documento ou da coisa;
b.2) a finalidade da prova, indicando os fatos que se relacionam com o documento ou a coisa;
b.3) as circunstâncias em que se funda o requerente para afirmar que o documento ou a coisa existe
e se acha em poder da parte contrária.
b.4) Preenchido esses requisitos, o requerido dará a sua resposta nos cinco dias subseqüentes à sua
intimação. Se afirmar que não possui o documento ou a coisa, o juiz permitirá que o requerente
prove, por qualquer meio, que a declaração não corresponde à verdade. Ademais, quando o
documento ou a coisa estiver em poder de terceiro, o juiz mandará citá-lo para responder no
prazo de dez dias.
c) Possibilidade de recusa na exibição – à parte e o terceiro se escusam de exibir, em juízo, o
documento ou a coisa:
c.1) se concernente a negócios da própria vida da família;
c.2) se a sua apresentação puder violar dever de honra;
c.3) se a publicidade do documento redundar em desonra à parte ou ao terceiro, bem como a seus
parentes consangüíneos ou afins até o terceiro grau ou lhes representar perigo de ação penal;
c.4) se a exibição acarretar a divulgação de fatos, a cujo respeito, por estado ou profissão, devam
guardar segredo;
c.5) se subsistirem outros motivos graves que, segundo o prudente arbítrio do juiz, justifiquem a
recusa da exibição.
d) Impossibilidade de recusa da exibição – o juiz não admitirá a recusa:

104
Cabe ao confitente o direito de propor a ação, nos casos acima; mas, uma vez iniciada, passa aos seus herdeiros.

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d.1) se o requerido tiver obrigação legal de exibir;


d.2) se o requerido aludiu ao documento ou à coisa, no processo, com o intuito de constituir prova;
d.3) se o documento, por seu conteúdo, for comum às partes.
e) Efeitos – ao decidir o pedido, o juiz admitirá como verdadeiros os fatos que, por meio do
documento ou da coisa, a parte pretendia provar:
e.1) se o requerido não efetuar a exibição, nem fizer qualquer declaração no prazo do art. 357;
e.2) se a recusa for havida por ilegítima.
14.4 Prova documental – a prova documental preexiste à lide e deve vir acompanhando a inicial (CPC,
art. 283) ou a contestação (CPC, art. 297) se for indispensável à propositura da ação ou à
defesa do réu (CPC, art. 396). Depois, pode a parte fazer a juntada de documentos novos (CPC,
art. 397) e o autor contrapor com prova documental as preliminares opostas (CPC, art. 327).
Sempre que há a juntada de documentos novos, a parte adversária deve ser ouvida (CPC, art.
398)105. A Lei n° 11.382/06 generalizou a sistemática já existente na parte final do art. 544, §
1°, possibilitando ao advogado declarar como autênticas cópias de peças do processo (art. 365,
IV).
14.5 Prova testemunhal
a) Admissibilidade e o valor da prova testemunhal – a prova testemunhal é sempre admissível, não
dispondo a lei de modo diverso (CPC, art. 400).
b) Dispensa da prova testemunhal – o juiz indeferirá a inquirição de testemunhas sobre fatos:
b.1) já provados por documento ou confissão da parte;
b.2) que só por documento ou por exame pericial puderem ser provados.
c) Capacidade – podem depor como testemunhas todas as pessoas, exceto as incapazes, impedidas
ou suspeitas (CPC, art. 405):
c.1) São incapazes:
c.1.1) o interdito por demência;
c.1.2) o que, acometido por enfermidade, ou debilidade mental, ao tempo em que ocorreram os fatos,
não podia discerni-los; ou, ao tempo em que deve depor, não está habilitado a transmitir as
percepções;
c.1.3) o menor de dezesseis anos;
c.1.4) o cego e o surdo, quando a ciência do fato depender dos sentidos que lhes faltam.
c.2) São impedidos:
c.2.1) o cônjuge, bem como o ascendente e o descendente em qualquer grau, ou colateral, até o
terceiro grau, de alguma das partes, por consangüinidade ou afinidade, salvo se o exigir o
interesse público, ou, tratando-se de causa relativa ao estado da pessoa, não se puder obter de
outro modo a prova, que o juiz repute necessária ao julgamento do mérito;
c.2.2) o que é parte na causa;

105
Tendo a parte convicção da falsidade de determinado documento, poderá argüir a sua falsidade (CPC, art. 390). O incidente de
falsidade tem lugar em qualquer tempo e grau de jurisdição, incumbindo à parte, contra quem foi produzido o documento, suscitá-lo
na contestação ou no prazo de dez dias, contados da intimação da sua juntada aos autos. Quando o documento for oferecido antes
de encerrada a instrução, a parte o argüirá de falso, em petição dirigida ao juiz da causa, expondo os motivos em que funda a sua
pretensão e os meios com que provará o alegado. Intimada à parte, que produziu o documento, a responder no prazo de dez dias, o
juiz ordenará o exame pericial. Não se procederá ao exame pericial, se à parte, que produziu o documento, concordar em retirá-lo e
a parte contrária não se opuser ao desentranhamento. Depois de encerrada a instrução, o incidente de falsidade correrá em apenso
aos autos principais; no tribunal processar-se-á perante o relator. Logo que for suscitado o incidente de falsidade, o juiz suspenderá
o processo principal. A sentença, que resolver o incidente, declarará a falsidade ou autenticidade do documento.

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c.2.3) o que intervém em nome de uma parte, como o tutor na causa do menor, o representante legal
da pessoa jurídica, o juiz, o advogado e outros, que assistam ou tenham assistido as partes.
c.3) São suspeitos:
c.3.1) o condenado por crime de falso testemunho, havendo transitado em julgado a sentença;
c.3.2) o que, por seus costumes, não for digno de fé;
c.3.3) o inimigo capital da parte, ou o seu amigo íntimo;
c.3.4) o que tiver interesse no litígio.
d) Recusa – a testemunha não é obrigada a depor de fatos (art. 406 do CPC):
d.1) que lhe acarretem grave dano, bem como ao seu cônjuge e aos seus parentes consangüíneos ou
afins, em linha reta, ou na colateral em segundo grau;
d.2) a cujo respeito, por estado ou profissão, deva guardar sigilo106.
e) A produção da prova testemunhal – incumbem as partes, no prazo que o juiz fixar ao designar a
data da audiência, depositar em cartório o rol de testemunhas107, precisando-lhes o nome, a
profissão, a residência e o local de trabalho. Omitindo-se o juiz, o rol será apresentado até 10
dias antes da audiência (art. 407, do CPC) 108.
e.1) Número de testemunhas – é lícito a cada parte oferecer, no máximo, dez testemunhas; quando
qualquer das partes oferecer mais de três testemunhas para a prova de cada fato, o juiz poderá
dispensar as restantes (CPC, art. 407).
e.2) Substituição – depois de apresentado o rol, a parte só pode substituir a testemunha (CPC, art.
408):
e.2.1) que falecer;
e.2.2) que, por enfermidade, não estiver em condições de depor;
e.2.3) que, tendo mudado de residência, não for encontrada pelo oficial de justiça.
e.3) Local do testemunho – as testemunhas depõem, na audiência de instrução, perante o juiz da
causa, exceto:
e.3.1) as que prestam depoimento antecipadamente;
e.3.2) as que são inquiridas por carta;
e.3.3) as que, por doença, ou outro motivo relevante, estão impossibilitadas de comparecer em juízo
(art. 336, parágrafo único);
e.3.4) as designadas no artigo 411109.
e.4) Intimação – a testemunha é intimada a comparecer à audiência, constando do mandado dia,
hora e local, bem como os nomes das partes e a natureza da causa. Se a testemunha deixar de
comparecer, sem motivo justificado, será conduzida, respondendo pelas despesas do adiamento.
e.5) Procedimento do juiz quanto a ouvida – o juiz inquirirá as testemunhas separada e
sucessivamente; primeiro as do autor e depois as do réu, providenciando de modo que uma não
ouça o depoimento das outras. Antes de depor, a testemunha será qualificada, declarando o
nome por inteiro, a profissão, a residência e o estado civil, bem como se tem relações de
parentesco com a parte, ou interesse no objeto do processo. É lícito a parte contraditar a
testemunha, argüindo-lhe a incapacidade, o impedimento ou a suspeição. Ao início da inquirição,
a testemunha prestará o compromisso de dizer a verdade do que souber e lhe for perguntado. O
juiz interrogará a testemunha sobre os fatos articulados, cabendo primeiro a parte que a arrolou,

106
O art. 229 do Código Civil acrescentou outras hipóteses nas quais a testemunha poderá recusar-se a depor.
107
No procedimento comum sumário, o respectivo rol deve acompanhar a inicial.
108
Com a nova redação dada pela Lei nº 10.358/2001.
109
Com efeito, são inquiridos em sua residência, ou onde exercem a sua função, as pessoas arroladas no artigo 411.

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e depois à parte contrária, formular perguntas tendentes a esclarecer ou completar o


depoimento. As partes devem tratar as testemunhas com urbanidade, não lhes fazendo
perguntas ou considerações impertinentes, capciosas ou vexatórias. As perguntas que o juiz
indeferir serão obrigatoriamente transcritas no termo, se à parte o requerer.
14.6 A prova pericial
a) Conceito – a prova pericial consiste em exame, vistoria ou avaliação (CPC, art. 420).
b) Dispensa – o juiz indeferirá a perícia quando:
b.1) a prova do fato não depender do conhecimento especial de técnicos;
b.2) for desnecessária em vista de outras provas produzidas110;
b.3) a verificação for impraticável.
c) Procedimento – o juiz nomeará o perito. Incumbem as partes, dentro em cinco dias, contados da
intimação do despacho de nomeação do perito:
c.1) indicar o assistente técnico;
c.2) apresentar quesitos111.
d) Procedimento do perito – o perito cumprirá escrupulosamente o encargo que lhe foi cometido,
independentemente de termo de compromisso. Os assistentes técnicos são de confiança da
parte, não sujeitos a impedimento ou suspeição. O perito pode escusar-se (CPC, art. 146), ou
ser recusado por impedimento ou suspeição (CPC, art. 138, III); ao aceitar a escusa ou julgar
procedente a impugnação, o juiz nomeará novo perito. O perito ou assistente pode ser
substituído quando:
d.1) carecer de conhecimento técnico ou científico;
d.2) sem motivo legítimo, deixar de cumprir o encargo no prazo que lhe foi assinado.
e) Quesitos suplementares – poderão as partes apresentar, durante a diligência, quesitos
suplementares. Da juntada dos quesitos aos autos dará o escrivão ciência à parte contrária. Com
efeito, compete ao juiz:
e.1) indeferir quesitos impertinentes;
e.2) formular os que entender necessários ao esclarecimento da causa.
f) Prazo – será estabelecido pelo juiz (CPC, art. 433). Se o perito, por motivo justificado, não puder
apresentar o laudo dentro do prazo, o juiz conceder-lhe-á, por uma vez, prorrogação, segundo o
seu prudente arbítrio.
g) Apresentação – o perito apresentará o laudo em cartório, no prazo fixado pelo Juiz, pelo menos
vinte dias antes da audiência de instrução e julgamento. Os assistentes técnicos oferecerão seus
pareceres no prazo comum de dez dias, após intimadas as partes da apresentação do laudo
(parágrafo único do art. 433 do CPC)112.
h) Esclarecimentos – a parte que desejar esclarecimento do perito e do assistente técnico,
requererá ao juiz que mande intimá-lo a comparecer à audiência, formulando desde logo as
perguntas, sob forma de quesitos. O perito e o assistente técnico só estarão obrigados a prestar
os esclarecimentos, quando intimados cinco dias antes da audiência.
i) Valor da prova pericial – o juiz não está adstrito ao laudo pericial, podendo formar a sua
convicção com outros elementos ou fatos provados nos autos.

110
Observe-se que o juiz poderá dispensar prova pericial quando as partes, na inicial e na contestação, apresentarem sobre as
questões de fato pareceres técnicos ou documentos elucidativos que considerar suficientes.
111
No procedimento comum sumário, a inicial e a contestação constituem os momentos oportunos para a indicação de assistente
técnico e formulação de quesitos.
112
Com a nova redação dada pela Lei nº 10.358/2001.

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j) Nova perícia – o juiz poderá determinar, de ofício ou a requerimento da parte, a realização de


nova perícia, quando a matéria não lhe parecer suficientemente esclarecida. A segunda perícia
tem por objeto os mesmos fatos sobre que recaiu a primeira e destina-se a corrigir eventual
omissão ou inexatidão dos resultados a que esta conduziu. A segunda perícia não substitui a
primeira, cabendo ao juiz apreciar livremente o valor de uma e outra.
14.7 Inspeção judicial
a) Conceito – o juiz, de ofício ou a requerimento da parte, pode, em qualquer fase do processo,
inspecionar pessoas ou coisas, a fim de se esclarecer sobre fato que interesse à decisão da causa
(CPC, art. 440).
b) Procedimento do juiz – ao realizar a inspeção direta, o juiz poderá ser assistido de um ou mais
peritos. O juiz irá ao local, onde se encontre a pessoa ou coisa, quando:
b.1) julgar necessário para a melhor verificação ou interpretação dos fatos que deva observar;
b.2) a coisa não puder ser apresentada em juízo, sem consideráveis despesas ou graves dificuldades;
b.3) determinar a reconstituição dos fatos.
c) Procedimento das partes – as partes têm sempre direito a assistir à inspeção, prestando
esclarecimentos e fazendo observações que reputem de interesse para a causa.
d) Prova final – concluída a diligência, o juiz mandará lavrar auto circunstanciado, mencionando
nele tudo quanto for útil ao julgamento da causa. O auto poderá ser instruído com desenho,
gráfico ou fotografia.

15. AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO


a) Princípio da publicidade – a audiência será pública (CPC, art. 444). Entretanto, nos casos de que
trata o art. 155 do CPC, realizar-se-á a portas fechadas.
b) Poder de polícia do juiz durante a audiência – o juiz exerce o poder de polícia, competindo-lhe:
b.1) manter a ordem e o decoro na audiência;
b.2) ordenar que se retirem da sala da audiência os que se comportarem inconvenientemente;
b.3) requisitar, quando necessário, a força policial.
b.4) Compete ao juiz em especial:
b.4.1) dirigir os trabalhos da audiência;
b.4.2) proceder direta e pessoalmente à colheita das provas;
b.4.3) exortar os advogados e o órgão do Ministério Público a que discutam a causa com elevação e
urbanidade. Enquanto depuserem as parte, o perito, os assistentes técnicos e as testemunhas,
os advogados não podem intervir ou apartar, sem licença do juiz.
c) Conciliação – quando o litígio versar sobre direitos patrimoniais de caráter privado, o juiz, de
ofício, determinará o comparecimento das partes ao início da audiência de instrução e
julgamento (CPC, art. 447). Em causas relativas à família, terá lugar igualmente a conciliação,
nos casos e para os fins em que a lei consente a transação. Antes de iniciar a instrução, o juiz
tentará conciliar as partes. Chegando a acordo, o juiz mandará tomá-lo por termo. O termo de
conciliação, assinado pelas partes e homologado pelo juiz, terá valor de sentença113.
d) Instrução e julgamento – no dia e hora designados, o juiz declarará aberta a audiência,
mandando apregoar as partes e os seus respectivos advogados (CPC, 450). Ao iniciar a
instrução, o juiz, ouvidas as partes, fixará os pontos controvertidos sobre que incidirá a prova.

113
Esta tentativa de conciliação não se confunde com a audiência preliminar prevista no artigo 331, do CPC, a ser realizada pelo juiz
quando não for caso de extinção do processo (CPC, art. 329) ou de julgamento antecipado da lide (CPC, art. 330).

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e) Ordem – as provas serão produzidas na audiência nesta ordem (CPC, art. 452):
e.1) o perito e os assistentes técnicos responderão aos quesitos de esclarecimentos requeridos no
prazo e na forma do art. 435 do CPC114;
e.2) o juiz tomará os depoimentos pessoais, primeiro do autor e depois do réu;
e.3) finalmente, serão inquiridas as testemunhas arroladas pelo autor e pelo réu.
f) Adiamento – a audiência poderá ser adiada (CPC, art. 453):
f.1) por convenção das partes, caso em que só será admissível uma vez;
f.2) se não puderem comparecer, por motivo justificado, o perito, as partes, as testemunhas ou os
advogados115.
g) Dispensa – pode ser dispensada pelo juiz a produção das provas requeridas pela parte cujo
advogado não compareceu à audiência.
h) Debates orais e alegações (razões) finais – finda a instrução, o juiz dará a palavra ao advogado
do autor e ao do réu, bem como ao órgão do Ministério Público, sucessivamente, pelo prazo de
vinte minutos para cada um, prorrogável por dez, a critério do juiz. Quando a causa apresentar
questões complexas de fato ou de direito, o debate oral poderá ser substituído por memoriais,
caso em que o juiz designará dia e hora para o seu oferecimento (CPC, art. 454).
i) Prorrogação – a audiência é una e contínua. Não sendo possível concluir, num só dia, a
instrução, o debate e o julgamento, o juiz marcará o seu prosseguimento para dia próximo (CPC,
art. 455).
j) Sentença – encerrado o debate ou oferecidos os memoriais, o juiz proferirá a sentença desde
logo ou no prazo de dez dias (CPC, art. 456).

16. SENTENÇA (com redação dada pela Lei n° 11.232/05)


a) Conceito – o vigente CPC conta, em seu art. 162, § 1°, com uma nova definição de sentença,
segundo a qual esta seria “o ato do juiz que implica algumas das situações previstas nos arts.
267 e 269 do CPC”. A nova definição visa adequar o conceito ao sincretismo do cumprimento da
sentença. A antiga definição de sentença (ato pelo qual o juiz iria por termo ao processo) nunca
foi das mais precisas, por quanto a sentença não era capaz de extinguir o processo de
conhecimento, eis que é possível a interposição de recursos contra ela. Entretanto, como
esclarece Alexandre Câmara, pode-se definir sentença como provimento judicial que põe termo
ao ofício de julgar do magistrado, resolvendo ou não o objeto do processo.
b) Classificações – as sentenças podem ser assim classificadas:
b.1) Sentença terminativa x sentença definitiva – diz-se terminativa a sentença quando não enfrenta
o mérito (CPC, art. 267). Quando enfrenta o mérito (CPC, art. 269), a sentença é chamada
definitiva ou de mérito (não porque não possa sujeitar-se a eventual recurso, mas porque definiu
o mérito).
b.2) Sentenças condenatórias, constitutivas ou declaratórias – as sentenças de mérito, quando
procedentes as pretensões ajuizadas, podem ser condenatórias, constitutivas ou declaratórias.
Quando improcedentes os pedidos, são apenas declaratórias.
b.2.1) Sentenças condenatórias – certificando a existência do direito, o juiz atribui a parte vencedora
um título executivo gerando uma obrigação positiva ou negativa em face do sucumbente,

114
Quanto à prova pericial, conforme já dito, o perito deverá apresentar o seu laudo no prazo fixado pelo juiz, pelo menos vinte dias
antes da audiência de instrução e julgamento. Os assistentes técnicos oferecerão seus pareceres, no prazo comum de dez dias após
a intimação das partes.
115
Incumbe ao advogado provar o impedimento até a abertura da audiência; não o fazendo, o juiz procederá à instrução.

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possibilitando ao vencedor o cumprimento da sentença, caso o vencido não cumpra a prestação


a que foi condenado.
b.2.2) Sentenças declaratórias – nelas o juiz apenas declara a certeza da existência ou da inexistência
da relação jurídica, ou da autenticidade ou falsidade de documento (CPC, art. 4º). Se o vencedor
quiser valer o crédito ou direito declarado contra o vencido, exigindo o respectivo pagamento,
terá que propor outra ação contra o devedor, esta de natureza condenatória.
b.2.3) Sentença constitutiva – sem se limitar à mera declaração do direito da parte e sem estatuir a
condenação do vencido ao cumprimento de qualquer prestação, cria, modifica ou extingue um
estado ou relação jurídica116.
b.3) Sentença extra petita, citra petita e ultra petita: tendo vista a adstrição do juiz ao pedido
(princípio da congruência), os seguintes vícios podem atingir a sentença:
b.3.1) Sentença extra petita – ocorrerá quando decidir matéria estranha ao pedido ou admitir contra o
autor matéria não alegada pelo réu e que este caberia argüir (não enquadrável, portanto, no
elenco do artigo 301 e 267, §3º, do CPC). Em regra, a sentença extra petita é nula.
b.3.2) Sentença citra petita – será quando não examina todas as questões propostas pelas partes. Aqui
o vício poderá ser suprido por meio de embargos de declaração ou até mesmo pelo efeito
devolutivo da apelação (art. 515, §1º, do CPC).
b.3.3) Sentença ultra petita – ocorre quando decidir além do pedido. Aqui, o juiz decide o pedido, mas
vai além dele, dando ao autor mais do que fora pleiteado (CPC, art. 460). O Tribunal, no
julgamento do recurso de apelação, deverá extirpar da sentença tão somente aquilo que
ultrapassou o pedido117.
b.4) Sentença líquida x sentença ilíquida – a sentença será ilíquida quando não determinar o valor ou
não individuar o objeto da condenação, devendo-se, em caráter antecedente à execução,
proceder a liquidação118.
c) Elementos119 da sentença – são elementos essenciais da sentença:
c.1) Relatório – na definição de Amaral Santos, “é a síntese do processo”. Essa parte da sentença
conterá os nomes das partes, a suma do pedido e da resposta do réu, bem como o registro das
principais ocorrências havidas no andamento do processo. A exigência do relatório está,
obviamente, ligada à necessidade de que o juiz, ao sentenciar, conheça bem o processo que
estará sendo decidido, ou seja, que o juiz o examinou. A inexistência de relatório implicará em
nulidade absoluta da sentença120;
c.2) Fundamentos (ou motivação) – nessa parte da sentença, o juiz apresentará suas razões de
decidir. Nela o juiz analisará as questões de fato (exposição dos fatos relevantes para a solução
do litígio) e de direito (exposição das razões jurídicas do julgamento). A fundamentação da
sentença tem como uma de suas principais finalidades ser o instrumento destinado a servir de
conexão entre a sentença e sua impugnação, servindo, assim, às partes, que conhecendo as

116
Alguns autores contemplam duas outras categorias de sentença: a mandamental e a executiva “lato sensu”, que se distinguem
das demais por não se sujeitarem ao processo de execução “stricto sensu”. A rigor, tais sentenças são cumpridas, efetivadas e não
executadas.
117
Há casos legais em que o juiz pode deferir pretensão não requerida pela parte (ex: art. 461).
118
É vedado ao juiz proferir sentença ilíquida, se a parte formular pedido certo. Excepcionalmente, caso o magistrado não possa
obter a mensuração exata do fato, pode-se admitir a prolação de uma sentença ilíquida Ementa: “A recomendação contida no art.
459, parágrafo único do CPC não é uma camisa de força para o magistrado que, à vista do caso concreto, pode remeter as partes à
liquidação, quando tiver dúvida quanto ao valor estabelecido adredemente”. (STJ-2ª Turma, REsp 59209/PR, rel. Min. Eliana
Calmon, j. 15.08.00, negaram provimento, v.u., DJU 20.11.00, p. 284). Com efeito, quanto à impugnação desse ato decisório,
recentemente o STJ aprovou a Súmula 318 que possui o seguinte teor: “Formulado pedido certo e determinado, somente o autor
tem interesse recursal em argüir o vício da sentença ilíquida”.
119
Observe-se que o texto da lei (CPC, art. 458) não os chama de elementos e sim de requisitos. Esta terminologia empregada é
bastante criticada pela doutrina, pois a palavra “requisito”, empregada no artigo citado, designa algo que deve ser preexistente, algo
que deve existir antes da sentença, como um seu pressuposto. Não é disso, porém, que trata o artigo, o qual, em verdade, enumera
os diversos componentes da sentença, suas partes integrantes, daí ser preferível falar em elementos da sentença.
120
O relatório será dispensado nas sentenças proferidas nos juizados especiais (Lei n° 9.099/95, art. 38).

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razões da sentença, podem decidir se vão ou não impugná-la, e com que fundamentos, além de
servir ao juízo superior, que apreciará a impugnação, e que poderá exercer melhor seu trabalho
se conhecer as razões que levaram a sentença recorrida a ser proferida. A inexistência de
fundamentação, também implicará em nulidade absoluta da sentença121;
c.3) Dispositivo – é o elemento essencial da sentença. É nele em que o juiz apresentará sua
conclusão, dizendo se põe termo ao seu ofício de julgar resolvendo ou não o mérito da causa;
declarando o autor carecedor de ação; decretando o despejo; anulando o contrato; condenando
o réu a pagar quantia exigida; julgando improcedente o pedido do autor; ou qualquer outro
resultado possível. Ou seja, resolverá as questões, que as partes lhe submeteram. É no
dispositivo que se encontra o comando contido na sentença, e que a caracteriza. O dispositivo é,
pois, o elemento mais importante da sentença, na medida em que é aí que se encontrará a
decisão judicial, e, por conseguinte, a manifestação do poder de império estatal. Com efeito, a
falta de dispositivo implica inexistência jurídica da sentença, porquanto a sua ausência torna o
ato “decisório” irreconhecível como sentença, visto que o mesmo não conteria decisão122.
d) Tutela específica – na ação que tiver o cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer, o juiz
concederá a tutela específica da obrigação ou, se procedente o pedido, determinará providências
que assegurem o resultado prático equivalente ao do adimplemento (CPC, art. 461). Nesta
hipótese, inclusive, admite-se a concessão de medida liminar (CPC, art. 461, § 3°). A Lei n°
10.444/02 acrescentou o art. 461-A, estendendo o mesmo tratamento do CPC, art. 461 à
sentença que tenha por objeto a entrega de coisa.
e) Fatos supervenientes – se, depois da propositura da ação, algum fato constitutivo, modificativo
ou extintivo do direito influir no julgamento da lide, caberá ao juiz tomá-lo em consideração, de
ofício ou a requerimento da parte, no momento de proferir a sentença123.
f) Irretratabilidade e efeitos da publicação da sentença de mérito – ao publicar a sentença de
mérito, o juiz só poderá alterá-la (art. 463 do CPC, com nova redação dada pela Lei n°
11.232/2005):
f.1) Para lhe corrigir, de ofício ou a requerimento da parte, inexatidões materiais, ou lhe retificar
erros de cálculo;
f.2) Por meio de embargos de declaração124.
f.3) A Lei n° 11.232 de 22.12.2005 inseriu na Seção I – Dos Requisitos e dos Efeitos da Sentença,
três novos artigos a seguir transcritos:
f.3.1) Art. 466-A: Condenado o devedor a emitir declaração de vontade, a sentença, uma vez
transitada em julgado, produzirá todos os efeitos da declaração não emitida.
f.3.2) Art. 466-B: Se aquele que se comprometeu a concluir um contrato não cumprir a obrigação, a
outra parte, sendo isso possível e não excluído pelo título, poderá obter uma sentença que
produza o mesmo efeito do contrato a ser firmado.
f.3.3) Art. 466-C: Tratando-se de contrato que tenha por objeto a transferência da propriedade de
coisa determinada, ou de outro direito, a ação não será acolhida se a parte que a intentou não
cumprir a sua prestação, nem a oferecer, nos casos e formas legais, salvo se ainda não exigível.
f.4) Sentença de improcedência125 em demandas repetitivas – como visto anteriormente, ainda no
estudo da petição inicial, a Lei n° 11.277 de 07.02.2006 inseriu o art. 285-A que assim dispõe:
“Quando a matéria controvertida for unicamente de direito e no juízo já houver sido proferida

121
Todas as sentenças têm que ser fundamentadas, mas as sentenças terminativas podem ter motivação concisa (CPC, art. 459).
122
Considera-se também inexistente a sentença não assinada pelo juiz. Assim, deve a sentença ainda ser datada e assinada (CPC,
art. 164). Na hipótese de falta de assinatura, o relator poderá determinar diligência para que o juiz sentenciante autentique ou não a
sentença lançada nos autos, sanando assim a irregularidade.
123
O direito superveniente também deverá ser levado em consideração pelo magistrado.
124
A sentença ainda produz um efeito secundário: hipoteca judiciária (CPC, art. 466).
125
Trata-se de sentença de mérito fundada no art. 269, I do CPC que produz coisa julgada material, impedindo, portanto, a
repropositura da ação.

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sentença de total improcedência em outros casos idênticos, poderá ser dispensada a citação e
proferida sentença, reproduzindo-se o teor da anteriormente prolatada. § 1o Se o autor apelar, é
facultado ao juiz decidir, no prazo de 5 (cinco) dias, não manter a sentença e determinar o
prosseguimento da ação. § 2o Caso seja mantida a sentença, será ordenada a citação do réu
para responder ao recurso”.
f.5) Tutela antecipada na sentença – objetivando celeridade e efetividade processual, doutrina e a
jurisprudência confirmaram a possibilidade de concessão de tutela antecipada dentro da
sentença. Tal procedimento tem por objetivo retirar o efeito suspensivo de uma futura apelação
porventura interposta pelo sucumbente (art. 520, VII do CPC)126.

17. COISA JULGADA


17.1 Intróito – ao se esgotarem os recursos porventura admissíveis ou transcorrido o prazo sem que
o recurso cabível tivesse sido interposto, tornar-se-á irrecorrível a decisão judicial. Neste
momento ocorrerá seu trânsito em julgado, surgindo, assim, a coisa julgada, fenômeno que se
passa a analisar.
17.2 Conceito – conforme Liebman, a coisa julgada é uma qualidade da sentença representada pela
imutabilidade do julgado e de seus efeitos. Ou como bem ensina Alexandre Câmara, a coisa
julgada é a situação jurídica consistente na imutabilidade e indiscutibilidade da sentença (coisa
julgada formal) e de seu conteúdo (coisa julgada substancial), quando tal provimento
jurisdicional não está mais sujeito a qualquer recurso.
17.3 Espécies – coisa julgada formal x coisa julgada material (substancial):
a) Coisa julgada formal – ocorre quer pelo transcurso do prazo recursal in albis, quer pelo
esgotamento da via recursal. Diz-se coisa julgada formal quando da imutabilidade da sentença. É
assim comum a todas as sentenças.
b) Coisa julgada material – é a eficácia, que torna imutável e indiscutível a sentença, não mais
sujeita a recurso ordinário ou extraordinário127. Diz-se coisa julgada material quando da
imutabilidade dos seus efeitos. É comum apenas às sentenças de mérito.
c) Distinções – na verdade, a diferença entre coisa julgada material, e a formal, é apenas de grau
de um mesmo fenômeno. Ambas decorrem da impossibilidade de interposição de recurso contra
a sentença. Assim, a coisa julgada material pressupõe a coisa julgada formal. Em outras
palavras, todas as sentenças transitam em julgado (coisa julgada formal), mas apenas as
sentenças definitivas alcançam a autoridade da coisa julgada (coisa julgada material)128.
17.4 Limites objetivos – o que se busca aqui é saber o que transitou em julgado. Inicialmente se diz
que “o que não tiver sido objeto do pedido, por não integrar o objeto do processo, não será
alcançado pelo manto da coisa julgada”. Em outras palavras, apenas aquilo que foi deduzido no
processo e, por conseguinte, objeto de cognição judicial, é alcançado pela autoridade da coisa
julgada (CPC, arts. 468, 469 e 470). Ademais, dirimindo polêmica existente no sistema anterior,
o código atual houve por bem sujeitar apenas o dispositivo da sentença aos limites da coisa
julgada material. Portanto, não fazem coisa julgada:

126
Ementa: “PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. ANTECIPAÇÃO DE TUTELA. DEFERIMENTO NA SENTENÇA. POSSIBILIDADE.
APELAÇÃO. EFEITOS. - A antecipação da tutela pode ser deferida quando da prolação da sentença. Precedentes. - Ainda que a
antecipação da tutela seja deferida na própria sentença, a apelação contra esta interposta deverá ser recebida apenas no efeito
devolutivo quanto à parte em que foi concedida a tutela. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, provido”. (STJ-2ª
Seção, REsp 648886/SP, rel. Min. Nancy Andrighi, j. 25.08.04, deram provimento parcial, v.u., DJ 06.09.04, p. 162).
127
Como esclarece Barbosa Moreira, não são os efeitos da sentença que se tornam imutáveis com a coisa julgada material, mas sim
o seu conteúdo. É este conteúdo, ou seja, é o ato judicial consistente na fixação da norma reguladora do caso concreto, que se torna
imutável e indiscutível quando da formação da coisa julgada. Não é, pois, a eficácia da sentença que se torna imutável, mas a
própria sentença.
128
Observe-se que não produzem coisa julgada material: os despachos, as decisões interlocutórias, as sentenças terminativas, as
sentenças proferidas em processos especiais de jurisdição voluntária, nos processos cautelares (ressalvado o artigo 810, segunda
parte), as sentenças meramente homologatórias, as inexistentes e as nulas de pleno direito.

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a) os motivos, ainda que importantes para determinar o alcance da parte dispositiva da sentença;
b) a verdade dos fatos, estabelecida como fundamento da sentença;
c) a apreciação da questão prejudicial, decidida incidentemente no processo129.
17.5 Limites subjetivos – assim como tem limites objetivos, a coisa julgada tem também limites
subjetivos. Trata do tema o art. 472 do CPC, estabelecendo quais são as pessoas atingidas pela
coisa julgada. Somente as partes da relação jurídica processual são alcançadas pela autoridade
da res iudicata. Com efeito, diz o artigo 472: “A sentença faz coisa julgada às partes entre as
quais é dada, não beneficiando, nem prejudicando terceiros. Nas causas relativas ao estado de
pessoa, se houverem sido citados no processo, em litisconsórcio necessário, todos os
interessados, a sentença produz coisa julgada em relação a terceiros”130.

18. DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO OBRIGATÓRIO


18.1 Cabimento – está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito senão depois de
confirmada pelo tribunal, a sentença que (CPC, art. 475):
a) proferida contra a União, o Estado, o Município, as Autarquias e as Fundações131;
b) que julgar procedentes no todo ou em parte os embargos à execução de dívida ativa da Fazenda
Pública132 (CPC, art. 585, VI)133.
18.2 Procedimento – nos casos acima previstos, o juiz ordenará a remessa dos autos ao tribunal, haja
ou não apelação voluntária da parte vencida; não o fazendo, poderá o presidente do tribunal
avocá-los (§1º, do art. 475)134.
18.3 Impossibilidade de agravamento – conforme enunciado da Súmula n° 45 do STJ, no reexame
necessário, é defeso, ao Tribunal, agravar a condenação imposta à Fazenda Pública.
18.4 Devolutividade amplíssima – conforme enunciado da Súmula n° 325 do STJ, a remessa oficial
devolve ao Tribunal o reexame de todas as parcelas da condenação suportadas pela Fazenda
Pública, inclusive dos honorários de advogado135.
18.5 Dispensa – não ocorrerá o reexame obrigatório sempre que a condenação, ou o direito
controvertido, for de valor certo não excedente a 60 (sessenta) salários mínimos, bem como no
caso de procedência dos embargos do devedor na execução de dívida ativa do mesmo valor
(CPC, art. 475, § 2°).
18.6 Embargos infringentes – Súmula 390 do STJ: “Nas decisões por maioria, em reexame
necessário, não se admitem embargos infringentes”.

129
As questões prejudiciais, em regra, integram a motivação - e como tal - não fazem coisa julgada. Todavia, havendo pedido
expresso por meio de ação declaratória incidental, altera-se o quadro, ensejando-se coisa julgada (art. 470).
130
Nas ações coletivas, a sentença normalmente produz efeitos erga omnes.
131
Observe-se que: a) as sociedades de economia mista e empresas públicas não se sujeitam ao regime do duplo grau de jurisdição
obrigatório. b) O art. 475 não se aplica aos processos de competência originária do tribunal. Nesses casos, a Fazenda Pública deverá
fazer uso de recurso voluntário.
132
O reexame só ocorrerá nas sentenças de procedência dos embargos do devedor nas execuções fiscais (CPC, art. 475, II). Não
haverá, entretanto, quando a Fazenda é derrotada nos embargos por ela opostos (Execuções contra a Fazenda Pública - CPC, art.
730): Ementa: “PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO DE INSTRUMENTO CONVERTIDO EM RECURSO ESPECIAL. EMBARGOS À EXECUÇÃO.
REEXAME NECESSÁRIO. ART. 475, II, CPC. DESCABIMENTO. A sentença que julga os embargos à execução de título judicial opostos
pela Fazenda Pública não está sujeita ao reexame necessário (art. 475, II, do CPC), tendo em vista que a remessa ex officio, in
casu, é devida apenas em processo cognitivo, não sendo aplicável em sede de execução de sentença, por prevalecer a disposição
contida no art. 520, V, do CPC. Precedentes da Corte Especial. Agravo regimental desprovido”. (STJ-5ª Turma, AgRg no AI n°
808057/DF, rel. Min. Felix Fischer, j. 27.02.07, negaram provimento, v.u., DJ 02.04.07, p. 302).
133
Nova redação dada pela Lei 10.352/2001, que reduziu as hipóteses do duplo grau de jurisdição obrigatório.
134
Súmula 423 do STF (Recurso ‘ex officio’ não interposto): “Não transita em julgado a sentença por haver omitido o recurso
‘ex offcio’, que se considera interposto ‘ex lege’”. No mesmo sentido RSTJ 105/438.
135
“O princípio ‘tantum devolutum quantum appellatum’ não inibe a apreciação de demais questões quando o processo sobe ao
órgão ‘ad quem’ por força, inclusive, de remessa ‘ex officio’ que, indubitavelmente, não é recurso e, sim, obrigatoriedade imposta ao
magistrado de submeter ao duplo grau de jurisdição o ‘decisum’ proferido” (RSTJ 6/59).

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MÓDULO III – SISTEMA RECURSAL

1. DOS RECURSOS
1.1 Conceito de recurso – a palavra recurso (do latim recursus) dá a idéia de repetição de um
caminho já utilizado. O CPC não estabeleceu um conceito de recursos, limitando-se apenas a
enumerar quais são os recursos existentes no nosso sistema (art. 496). Mas a doutrina se
encarregou de conceituá-lo: “É o meio processual que a lei coloca à disposição das partes, do
Ministério Público e de um terceiro, a viabilizar, dentro da mesma relação jurídica processual, a
anulação, a reforma, a integração ou aclaramento da decisão judicial impugnada”136. Nas
palavras de Moacyr Amaral, recurso é, pois, o poder de provocar o reexame de uma decisão,
pela mesma autoridade judiciária, ou por outra hierarquicamente superior, visando a obter a sua
reforma ou modificação. Os recursos traduzem uma tendência inata do homem de não se
contentar com uma decisão desfavorável aos seus interesses.
1.2 Fundamentos da existência dos recursos e sua importância constitucional – conforme ressalta
Arruda Alvim, a instituição dos recursos funda-se essencialmente: a) na possibilidade de erros
nas decisões judiciárias; b) no interesse correlato do Estado na realização correta dos direitos
subjetivos e objetivos materiais e do próprio direito processual; c) na uniformização da aplicação
do direito (especialmente nos casos dos chamados recursos de direito ou recursos de
fundamentação vinculada, quais sejam, o recurso especial e o recurso extraordinário). Nesses
casos, o litigante, por via do recurso, procura satisfazer à sua pretensão e o Estado, por seu
turno, procura melhor cumprir sua atividade jurisdicional.
1.3 Natureza jurídica – são duas as principais correntes existentes:
1.3.1 Recurso como ação constitutiva autônoma (Tese de Emilio Betti e Gilles) – entende que o
recurso é uma ação autônoma de impugnação das decisões judiciais, com a finalidade de
modificá-la (natureza desconstitutiva), quer para anular a decisão formalmente inválida, quer
para reformar decisão injusta;
1.3.2 Recurso como modalidade do direito de ação (Tese de Rocco) – essa é a doutrina dominante.
Entende que o recurso é uma continuação do procedimento, funcionando como uma modalidade
do direito de ação, exercido no segundo grau de jurisdição. Rocco, seu maior defensor, afirma
que o direito de impugnar está compreendido no direito de ação;
1.3.3 Distinções – a principal diferença entre os recursos e as ações de impugnação de decisão é que o
recurso é exercitado dentro do mesmo processo, quando ainda não tiver ocorrido o trânsito em
julgado da decisão que se pretende impugnar; enquanto que a ação autônoma de impugnação
se exercita em outra relação jurídica processual e, normalmente, contra decisão já transitada em
julgado;
1.3.4 Conclusão – conforme Nelson Nery Jr., deve-se adotar que o recurso é um prolongamento,
dentro do mesmo processo (não necessariamente dos mesmos autos, como no caso do agravo
de instrumento), do direito de ação.
1.4 Sistema Recursal – CPC, arts. 496 a 565 e outros dispositivos; ação rescisória. Reclamação
perante o STF e STJ. Declaração de Inconstitucionalidade.
1.5 Alterações recentes – Lei n° 10.352, de 26.12.2001; Lei n° 11.187, de 19 de outubro de 2005;
Lei n° 11.276 de 07.02.2006; e Lei n° 11.277 de 07.02.2006; e Lei n° 11.341 de 07.08.2006.
1.6 Recursos admissíveis no CPC – art. 496 (rol taxativo).
1.7 Atos processuais sujeitos a recurso – só os atos do juiz são passíveis de recursos. O CPC elenca
os atos do juiz no art. 162, mas estes não são todos os atos do juiz que existem no processo

136
Nelson Nery Jr. Teoria geral dos recursos. 6ªed. São Paulo : RT, 2004, p. 212.

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(ex: interrogatório da parte em depoimento pessoal). O art. 162 dos pronunciamentos judiciais,
isto é, os decisórios (exceto o despacho, que não tem nenhum conteúdo decisório). Existe uma
correlação entre os pronunciamentos judiciais e os recursos, de modo que a cada ato judicial
impugnável corresponde um determinado recurso.

Pronunciamentos judiciais Recurso possível


Despacho Não cabe recurso (art. 504 do CPC).
Juiz de Agravo retido (AR), excepcionalmente agravo de instrumento (AI), e
Interlocutória
1° Grau Decisão embargos de declaração (EDcl).
Sentença Apelação, embargos de declaração (EDcl).

Despacho Não cabe recurso (art. 504, CPC).


Singular ou Agravo legal (inominado, recurso de agravo, etc.); agravo interno
monocrática (regimental, agravinho, etc.), e embargos de declaração (EDcl).
Tribunal
Decisão Embargos infringentes (EI), recurso ordinário (RO), recurso especial
Acórdão (REsp), recurso extraordinário (RE), embargos de divergência (EDiv), e
embargos de declaração (EDcl).

1.8 Defeitos das decisões – error in judicando e error in procedendo.


1.8.1 Error in judicando – vícios de juízo: erro na declaração dos efeitos jurídicos substanciais e
processuais. Não se trata de vício de forma, mas sim de fundo. Provoca a injustiça do ato
judicial.
1.8.2 Error in procedendo – vícios de atividade (p. ex.: sentença proferida por juiz absolutamente
incompetente ou impedido, sentença que ofenda a coisa julgada).
1.9 Dos princípios fundamentais dos recursos cíveis.
1.9.1 Conceito de princípio jurídico – “é o mandamento nuclear de um sistema, verdadeiro alicerce
dele, disposição fundamental que se irradia sobre diferentes normas compondo-lhes o espírito e
servindo de critério para sua exata compreensão e inteligência exatamente por definir a lógica e
a racionalidade do sistema normativo, no que lhe confere a tônica e lhe dá sentido harmônico”
(Celso Antonio Bandeira de Melo).
1.9.2 Importância do tema – os princípios gerais dos recursos cíveis são princípios fundamentais
(foram adotados pelo sistema jurídico por opção política e ideológica) que devem ser aplicados
ao sistema recursal como um todo, devendo estes suprir as ausências que, por ventura, existam
nas regras expressas, bem como orientar na aplicação e interpretação destas. Alguns desses
princípios decorrem do próprio sistema recursal do CPC e outros são previstos, expressa ou
implicitamente, em outros ordenamentos, dentre eles, a própria Constituição. Vejamos,
portanto, os mais importantes princípios que regem e orientam o sistema recursal cível:
a) Princípio do duplo grau de jurisdição – a CF/88 não garante o duplo grau de jurisdição ilimitado,
sendo implícito este princípio nos arts. 102 e 105 da CF. Pode o legislador estabelecer certas
restrições sem que isto possa ser considerado inconstitucional. Segundo Nelson Nery Jr., o duplo
grau de jurisdição consiste em estabelecer a possibilidade de a sentença ser reapreciada por
órgão de jurisdição, normalmente de hierarquia superior à daquele que proferiu, o que se faz de
ordinário pela interposição de recurso.
b) Princípio da taxatividade – consiste na exigência constitucional (art. 22, I, CF) de que os
recursos estejam previstos numerus clausus em lei federal, isto é, só é considerado recurso
aquele que tiver expressa previsão em qualquer lei federal (e não apenas no CPC). No CPC, ver
art. 496 (rol legal dos recursos é numerus clausus). Exemplo de recurso existente fora do
sistema do CPC: recurso inominado contra sentenças proferidas nos juizados especiais cíveis
(art. 41, da LJE); o agravo inominado da decisão interlocutória que suspende a eficácia da
medida liminar concedida em mandado de segurança, e em ação civil pública, a pedido da
entidade de direito público (art. 4º da Lei nº 4.348/64; e art. 12, § 1º da LACP).

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c) Princípio da singularidade – segundo Pontes de Miranda, “só pode usar de um recurso, cada
vez”. Apesar do CPC não ter consagrado expressamente este princípio, estabeleceu uma
correlação entre os pronunciamentos judiciais e os recursos cabíveis, o que dá a entender que
adotou o princípio da unirrecorribilidade dos recursos. Tanto na classificação do ato do juiz
quanto na consideração sobre sua recorribilidade é importante a aferição finalística do conteúdo
do ato (p. ex. uma decisão interlocutória pode estar - por uma imprecisão terminológica do juiz -
inserida sobre uma nomenclatura ‘despacho’! Deve-se, portanto, observar o conteúdo do
pronunciamento judicial para aferição da possibilidade de recorrer. Outrossim, deve-se também
observar a finalidade da decisão, se decidiu questão incidente sem pôr fim ao processo, é
decisão interlocutória (passível, p. ex., de agravo); se colocou fim ao processo, pouca importa se
com ou sem julgamento do mérito, é sentença (passível, p. ex., de apelação). Uma vez fixada a
natureza do pronunciamento judicial, contra este se admite apenas um tipo de meio
impugnativo. A regra da unicidade admite algumas exceções: 1) a prevista no art. 498 do CPC;
2) a possibilidade de a decisão judicial ser impugnada, a um só tempo, pelos embargos de
declaração e por outro recurso; 3) a prevista no art. 541 do CPC, que admite a interposição
simultânea do recurso extraordinário para o STF e do recurso especial para o STJ. Vale ressaltar
que em todas essas situações excepcionais, a quebra do princípio da singularidade provém de lei
e não da vontade das partes.
d) Princípio da fungibilidade – consiste na possibilidade de que, sempre que exista dúvida objetiva
(deve estar comumente contida em discussões na doutrina e na jurisprudência) a respeito de
qual o recurso cabível contra determinada decisão judicial, caso seja interposto pela parte o
recurso que o juiz ou o tribunal competente para recebê-lo entenda não ser o cabível contra
aquela decisão, seja ele recebido, processado e conhecido como se outro, entendido como o
correto, tivesse sido interposto. Trata-se do recebimento de um recurso como outro, adaptando-
se o nomen juris e o procedimento. Apesar de não ser expressamente previsto no sistema
recursal, tanto a doutrina como o próprio STF já se manifestou a respeito no sentido de que este
princípio tem plena aplicabilidade no nosso sistema recursal. São casos de aplicação concreta
deste principio: 1) recurso contra a rejeição liminar de reconvenção; 2) recurso contra decisão
que julga o incidente de falsidade, chamada de sentença pelo art. 395 do CPC.
e) Principio da voluntariedade – por este princípio, que deriva do princípio dispositivo, se exige a
iniciativa da parte interessada para a interposição do recurso, bem como se deixa para a parte a
liberdade de delimitar o âmbito do recurso, podendo impugnar total ou parcialmente a decisão
que lhe fora desfavorável. Uma das manifestações deste princípio são os arts. 501, 502 e 503 do
CPC. O juiz não pode, de ofício, interpor recurso pela parte, nem mesmo quando se tratar de lide
que envolva interesse de incapaz ou hipossuficiente de maneira geral. Este princípio não se
aplica à remessa necessária, seja porque ela não é considerada recurso, seja porque o juiz não
manifesta vontade de recorrer ao ordenar a remessa dos autos à superior instância (art. 475,
CPC).
f) Princípio da proibição da reformatio in pejus – para Cândido Rangel Dinamarco, “reputa-se
reformatio in pejus o agravamento da situação do recorrente no julgamento de seu próprio
recurso”. A proibição da reformatio in pejus tem por objetivo evitar que o tribunal destinatário
do recurso possa decidir de modo a piorar a situação do recorrente, ou porque extrapole o
âmbito da devolutividade fixado com a interposição do recurso, ou ainda, de não haver recurso
da parte contrária. Não se pode modificar a decisão impugnada para piorar a situação de quem
recorreu (ou beneficiar a de quem não recorreu). O princípio da reformatio in pejus não está
previsto expressamente no CPC, mas decorre da conjugação do princípio dispositivo, da
sucumbência como requisito de admissibilidade e, finalmente do efeito devolutivo do recurso137.
g) Princípio da consumação – consiste na impossibilidade de o vencido oferecer novo recurso, ainda
que do mesmo tipo, contra a decisão já recorrida, bem como aditar, complementar ou corrigir o
recurso já efetivamente interposto. Uma vez já exercido o direito de recorrer, consumou-se a

137
Súmula nº 45 do STJ: “No reexame necessário, é defeso, ao Tribunal, agravar a condenação imposta à Fazenda Pública”. Isto
tem fundamento: se nem mesmo por provocação do apelante poderia o tribunal reformar para pior a sentença, menos ainda se
concebe que pudesse fazê-lo sem tal provocação.

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oportunidade de fazê-lo, de sorte a impedir que o recorrente torne a impugnar o


pronunciamento judicial já impugnado. Ocorre a preclusão consumativa (mesmo que ainda não
tenha ocorrido a preclusão temporal). Não importa, se com mau ou bom êxito, não se pode
praticar um ato já realizado. Por este motivo, interposto o recurso, ainda que no 1º dia do prazo
recursal, há a consumação do direito de recorrer, sendo vedada à interposição de outro recurso.
h) Princípio da complementaridade – na sistemática do CPC, uma vez interposto o recurso,
juntamente com as razões do inconformismo, não é mais permitido o expediente de
complementar o recurso, mesmo que ainda tenha transcorrido o prazo cominado na lei para o
recurso (princípio da consumação - preclusão consumativa). No entanto, segundo o princípio da
complementaridade, é possível o recorrente complementar suas razões recursais, caso a decisão
seja modificada ou complementada, em decorrência do julgamento de embargos declaratórios.
i) Princípio da irrecorribilidade em separado das interlocutórias – recorrer em separado significa
recorrer com suspensão do processo. O que se pretende evitar com este princípio é que se
confira efeito suspensivo ao recurso previsto para atacar as decisões interlocutórias, pois, do
contrário, se a cada impugnação de decisão interlocutória proferida no curso do feito se
suspendesse a marcha do processo, este se procrastinaria indefinidamente. Em situações
excepcionais, é possível atribuir efeito suspensivo ao agravo (art. 558, CPC), mas isso não tem o
condão de suspender o curso do procedimento, e sim de apenas impedir que a decisão produza
eficácia.
1.9.3 Sucedâneos dos recursos – existem alguns recursos que, por absoluta falta de previsão legal,
não são considerados como recursos, mas, tendo em vista sua finalidade, fazem as vezes dos
recursos, e por essa razão, são reputados seus sucedâneos. Os mais importantes são:
a) Pedido de reconsideração – era um pedido alternativo, sendo deduzido na mesma petição de
interposição de agravo de instrumento. No entanto, o pedido de reconsideração, formulado em
petição própria, só pode ser utilizado para provocar o reexame de questão já decida quando o
juiz puder fazer esse reexame de ofício, ou seja, quando puder revogar ou modificar a decisão a
qualquer tempo, sem requerimento da parte.
b) Remessa necessária (ou duplo grau obrigatório) – art. 475 do CPC. Compete ao juiz prolator da
sentença sujeita ao duplo grau obrigatório ordenar a remessa dos autos ao tribunal ad quem,
declarando de ofício essa circunstância na própria sentença, independentemente de provocação
das partes, sendo, portanto, condição de eficácia da sentença. O escopo final da remessa
obrigatória é atingir a segurança de que a sentença desfavorável à Fazenda Pública haja sido
corretamente proferida138.
c) Correição parcial – é uma providência administrativa ou disciplinar destinada à correção de error
in procedendo caracterizador de abuso ou inversão tumultuária da marcha processual, quando
para o caso não existir um recurso previsto na lei processual. Nem o CPC/39 e CPC/73 admitem
a correição parcial, e muitos a consideram inconstitucional.
1.10 Juízo de Admissibilidade e Juízo de Mérito dos Recursos – sendo o recurso um prolongamento do
direito de ação, é possível fazer a seguinte correlação:
1° GRAU DE JURISDIÇÃO 2° GRAU DE JURISDIÇÃO
Condições da ação e pressupostos processuais. Juízo de admissibilidade do recurso.
Mérito da causa. Juízo de mérito do recurso.

1.10.1 Juízo de Admissibilidade:


1.10.1.1 Conceito – “atividade pela qual o juiz ou tribunal verifica se se encontram ou não presentes os
requisitos de admissibilidade, cuja ausência impossibilita o juízo de solucionar o mérito do
recurso”.

138
Observar exceções previstas nos parágrafos finais do art. 475 do CPC.

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1.10.1.2 Objetivo – destina-se a examinar a presença dos requisitos necessários para a interposição de
um recurso.
1.10.1.3 Características:
a) Antecede lógica e cronologicamente o exame de mérito;
b) A admissibilidade do recurso apenas propicia seu julgamento de mérito; não influenciando de
modo algum no julgamento de mérito do recurso;
c) Julga-se se o recurso é admissível ou inadmissível; conhece ou não conhece; admite-se ou não
se admite um recurso.
1.10.1.4 Objeto – são os requisitos necessários para que se possa legitimamente apreciar o mérito do
recurso, a fim de dar-lhe ou negar-lhe provimento. São eles:
PRESSUPOSTOS INTRÍNSECOS PRESSUPOSTOS EXTRÍNSECOS
1. cabimento 1. tempestividade
2. legitimação para recorrer 2. preparo
3. interesse de recorrer 3. regularidade formal
139
4. inexistência de fato impeditivo ou extintivo -

a) Pressupostos intrínsecos:
a.1) Cabimento do recurso;
a.1.1) Por cabimento entende-se que o recurso utilizado pelo interessado deve estar previsto em lei
federal, bem como ser o adequado para o caso – o recurso interposto deve coincidir com aquele
que a lei aponta como o adequado ao caso.
a.1.2) Concretiza o princípio da taxatividade e da singularidade (para cada tipo de ato judicial recorrível
está previsto um único tipo como o adequado).
a.1.3) O não cabimento do recurso conduz à prolação de juízo de admissibilidade negativo, salvo se for
possível a aplicação do princípio da fungibilidade recursal, quando o recurso incabível é tomado
como se fosse o correto.
a.2) Legitimação para recorrer;
a.2.1) Para que o recurso seja admissível não basta que o comporte a decisão: é necessário que o
interponha quem esteja qualificado para tal. Passa-se do plano objetivo para o plano subjetivo;
a.2.2) O rol das pessoas admitidas para, em tese, recorrer estão no art. 499, do CPC e compreende:
a.2.2.1) A parte vencida – que logicamente pode ser tanto o autor, como o réu, bem como qualquer dos
litisconsortes, ativo ou passivo, opoentes, denunciados da lide, chamados ao processo e
nomeados à autoria;
a.2.2.2) O órgão do Ministério Público:
I) O MP tem legitimidade para recorrer tanto no processo em que é parte, como naquele em que
oficiou como fiscal da lei (art. 499, § 2º, CPC).
II) Nos casos em que oficiou como fiscal da lei, não há necessidade de o Parquet haver
efetivamente funcionado nos autos como custos legis para que se legitime a recorrer140.
III) Cessada a causa que determinou a intervenção do MP no processo civil, o Parquet não mais está
legitimado para interpor recurso.
a.2.2.3) O terceiro prejudicado:

139
Existe grande divergência doutrinária se esse pressuposto seria intrínseco ou extrínseco.
140
Súmula nº 99 do STJ: “O Ministério Público tem legitimidade para recorrer no processo em que oficiou como fiscal da lei, ainda
que não haja recurso da parte”.

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I) “Terceiro é aquele que não foi parte no processo, quer porque nunca o tenha sido, quer haja
deixado de sê-lo em momento anterior àquele em que se profira a decisão”(Barbosa Moreira).
II) Deve o terceiro interessado demonstrar interesse jurídico para poder recorrer não bastando o
mero interesse de fato ou econômico.
III) Para que o recurso seja admissível necessário se faz demonstrar que a decisão recorrida afetará,
direta ou indiretamente, relação jurídica de que o terceiro é titular. Exemplo disto é o avalista
que paga o débito pode, como terceiro prejudicado, apelar da sentença que rejeita embargos à
execução desse débito141.
a.3) Interesse em recorrer;
a.3.1) Vem sempre ligado à questão relacionada ao prejuízo que a parte teve com a prolação da
decisão.
a.3.2) O requisito do interesse em recorrer guarda correlação com o interesse processual.
a.3.3) Incide também aqui o binômio: necessidade + utilidade.
a.3.4) Necessidade da via que se escolhe para obter essa providência – deve o recorrente ter
necessidade de interpor recurso, como único meio de obter, naquele processo, o que pretende
contra a decisão impugnada. Um exemplo de falta de interesse seria a interposição de agravo
contra decisão interlocutória que releva pena de deserção, pois ele poderá obter o que pretende
através da contra-razão da apelação.
a.3.5) Utilidade da providência judicial pleiteada – estão ligados os conceitos de sucumbência,
gravame, prejuízo (art. 499, CPC, fala em parte “vencida”). Há sucumbência quando a decisão
produzir efeitos desfavoráveis à parte ou ao terceiro, ou, ainda, quando a parte não obteve no
processo tudo aquilo que poderia dele ter obtido.
a.3.6) É necessário, pois, que a interposição de recurso traga alguma vantagem ou proveito, do ponto
de vista prático, ao recorrente.
a.3.7) O MP não precisa demonstrar a utilidade prática que adviria para ele do provimento do recurso,
uma vez que o motivo determinante da sua participação é sempre o interesse público.
a.3.8) Já o terceiro prejudicado precisa demonstrar o nexo de interdependência entre o seu interesse
de intervir e a relação jurídica submetida à apreciação judicial (art. 499, § 1º, do CPC).
a.4) Inexistência de fato impeditivo ou extintivo do poder de recorrer;
a.4.1) São os chamados pressupostos negativos de admissibilidade, uma vez que a presença de
qualquer deles no processo faz com que o recurso seja inadmissível.
a.4.2) Fatos extintivos do poder de recorrer são:
a.4.2.1) Renúncia ao recurso – é o ato pelo qual uma pessoa manifesta a vontade de não interpor o
recurso de que poderia valer-se contra determinada decisão. Só se renuncia a recurso ainda não
interposto. É diferente da desistência do recurso (art. 501, CPC).
a.4.2.2) Aquiescência à decisão – é a aceitação da decisão. Aquiesce quem, de alguma forma, pratica,
sem ressalvas, ato incompatível com a faculdade recursal. Ocorre a preclusão lógica. Pode ser
expressa ou tácita; total ou parcial. Exemplo: o depósito do valor da condenação implica
renúncia do direito de recorrer (art. 503, CPC).
a.4.3) Fatos impeditivos do poder de recorrer são:
a.4.3.1) Desistência do recurso ou da ação – é o ato pelo qual o recorrente manifesta ao órgão judicial a
vontade de que não seja julgado, e, portanto, não continue a ser processado, o recurso já
interposto. A desistência pressupõe recurso já interposto. Pode ser total ou parcial. Tem um

141
Obs.: em princípio, o advogado não tem legitimidade para recorrer em nome próprio, mas sim a parte por ele representada.
Todavia, na fase execução, é o advogado que tem legitimidade para recorrer, em seu nome próprio, da decisão que lese seu direito
de perceber honorários advocatícios, já assegurados no processo de conhecimento.

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limite temporal: até o instante imediatamente anterior ao julgamento do recurso (art. 501,
CPC).
a.4.3.2) Reconhecimento jurídico do pedido – é ato privativo do réu (art. 269, II, CPC). Só é válido se o
direito for disponível e se o réu tiver capacidade para estar em juízo. O réu abre mão do direito
de continuar no processo, na medida em que praticou ato incompatível com o direito de recorrer.
a.4.3.3) Renúncia ao direito sobre que se funda a ação – é ato privativo do autor (art. 269, V, CPC).
Quando o autor renunciar ao direito material objeto do litígio, não poderá interpor recurso em
virtude de existir preclusão lógica, impedindo o direito de recorrer.
b) Pressupostos extrínsecos:
b.1) Tempestividade;
b.1.1) Conceito – é a necessidade de interposição do recurso no prazo legal, sob pena de operar-se a
preclusão temporal, e, caso a decisão impugnada tenha julgado mérito da pretensão, incidir o
fenômeno da coisa julgada material.
b.1.2) Argüição – como é questão de ordem pública, deve ser averiguada ex officio pelos órgãos de
interposição e julgador, independentemente de provocação das partes.
b.1.3) Prazo recursal:
b.1.3.1) O prazo recursal pode ser comum ou particular. Comum (quando houver sucumbência
recíproca); particular (quando houver sucumbência total de uma das partes).
b.1.3.2) O MP, a União, os Estados, o Distrito Federal, os Municípios, as autarquias e as fundações
públicas tem prazo em dobro para recorrer (art. 188, CPC); mas este benefício não se estende à
apresentação da resposta ao recurso142 e nem se aplica cumulativamente com o do art. 191, CPC
(haverá contagem em dobro do prazo quando houver litisconsortes não representados pelo
mesmo advogado).
b.1.3.3) A tempestividade do recurso somente tem lugar a partir da prolação do provimento jurisdicional.
b.1.3.4) Nas decisões proferidas em audiência, o prazo para recorrer se conta da publicação do ato em
audiência, com prévia ciência dos litigantes, estejam ou não as partes presentes no ato.
b.1.3.5) A interposição do recurso é ato processual que deve ser praticado em dias úteis, das 6 às 20
horas, segundo o art. 172, caput, devendo sempre ser observado o horário de funcionamento do
protocolo do Fórum ou Tribunal, fixado pela lei de organização judiciária (que deverá ser entre 6
e 20 horas).
b.1.3.6) A tempestividade do recurso deve ser aferida tendo em conta a data do protocolo da petição
(art. 506, CPC).
b.1.3.7) Com o advento da Lei 9.800/99, passou a ser possível a interposição do recurso por meio de fac-
símile, devendo a tempestividade ser aferida tendo em conta a data da recepção da cópia da
petição recursal no órgão judiciário143.

142
Não se aplica a regra do art. 188 ao prazo para contra-razões de recurso (RTFR 121/22). Não se aplica a regra do art. 188 às
empresas públicas (STJ-2ª Turma, REsp 429.087, rel. Min. Peçanha Martins, j. 16.09.04, deram provimento, v. u., DJU 25.10.04, p.
279; JTJ 162/247).
143
Ementa: “PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL. INTERPOSIÇÃO POR FAC-SÍMILE. PRAZO PARA APRESENTAÇÃO DOS
ORIGINAIS. TERMO INICIAL. DISTINÇÃO ENTRE A SITUAÇÃO PREVISTA NO CAPUT E A PREVISTA NO PARÁGRAFO ÚNICO DO ART.
ART. 2º, DA LEI N.º 9.800/99. 1. Ao disciplinar o termo inicial do prazo para a entrega dos originais, quando o ato processual é
praticado por fac-símile, o texto normativo distinguiu duas situações, dando a cada uma delas tratamento distinto: (a) a dos atos
cuja prática está sujeita a prazo predeterminado em lei e (b) a dos atos sem prazo predeterminado. Quanto à primeira, prevista no
caput do art. 2º da Lei 9.800/99, o prazo de cinco dias para entrega dos originais tem início no dia seguinte ao do termo final do
prazo previsto em lei, ainda que o fac-símile tenha sido remetido e recebido no curso desse prazo; e quanto à segunda, disciplinada
no parágrafo único do mesmo artigo, o prazo para entrega dos originais tem início no dia seguinte ao da recepção do fac-símile pelo
órgão judiciário competente. 2. Agravo regimental conhecido, mas improvido”. (STJ-Corte Especial, AgRg no EREsp n° 640803/RS,
rel. Min. Teori Albino Zavascki, j. 19.12.07, negaram provimento, por maioria).

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b.1.3.8) Por ser peremptório, o prazo recursal não pode ser reduzido, prorrogado, suspenso ou
interrompido por acordo das partes (art. 182, CPC). Observe-se que existem situações especiais
que ora suspendem, ora interrompem o prazo do recurso. Tais exceções se encontram
discriminadas na tabela de regras de contagem do prazo recursal que será estudada logo à
frente.
b.1.4) Tabela dos principais prazos recursais:

RECURSO PRAZO LEGAL DISPOSITIVO LEGAL


Apelação
Embargos Infringentes
Recurso Ordinário
15 dias. Art. 508 do CPC
Recurso Extraordinário
Recurso Especial
Embargos de Divergência
10 dias (Quando a decisão for prolatada na
Agravo de instrumento audiência de instrução e julgamento o agravo
Art. 522 do CPC
Agravo retido retido deverá ser interposto imediatamente – art.
523, §3º).
Agravo por negativa de
10 dias Art. 544 do CPC
seguimento a REsp e/ou RE
Art. 527, II; art. 532; art. 545; e
Agravos legais; internos 5 dias.
art. 557, caput e § 1º
Embargos de Declaração 5 dias. Art. 536 do CPC.
No prazo que a parte dispõe para responder ao
Recursos Adesivos Art. 500, I e II, do CPC.
recurso principal, ou seja, 15 dias.
Recurso inominado do JE 10 dias. Art. 42, caput, LEJ.

b.1.5) Regras para contagem do prazo recursal:

PRAZO DISPOSITIVO LEGAL/OBSERVAÇÕES


Computar-se-ão os prazos, excluindo o dia do começo e
Art. 184, CPC.
incluindo o do vencimento.
Dies a quo (termo inicial): Regra especial: As intimações consideram-se
- Os prazos para as partes contar-se-ão da intimação; realizadas no 1ª dia útil seguinte, se tiverem ocorrido
- Exclui-se o dia do começo; em dia que não tenha havido expediente forense (art.
- Começam a correr do 1º dia útil após a intimação. 240, parágrafo único).
Regra especial: Considera-se prorrogado o prazo até
Dies ad quem (termo final):
o 1º dia útil se o vencimento cair em feriado ou em
- O termo final deve coincidir com dia útil;
dia em que: a) for determinado o fechamento do
- Inclui-se o dia do vencimento.
fórum; b) o expediente forense for encerrado antes
da hora normal. Art. 184, § 1º.
Suspensão do prazo: quando a fluência do prazo cessa
temporariamente, sem prejuízo do lapso já ocorrido, que é Art. 179 e 180 do CPC.
computado na contagem final do prazo.

Interrupção do prazo: acarreta a paralisação do curso do


prazo, que é posteriormente restituído por inteiro, Art. 538, caput; e art. 507 do CPC.
desconsiderando-se o lapso decorrido.

b.2) Preparo;
b.2.1) Conceito – consiste no pagamento prévio das despesas relativas ao processamento deste.
b.2.2) Pressuposto – deve ser feito sobre o valor atualizado da causa.
b.2.3) Regra do preparo imediato (art. 511, CPC) – no ato de interposição do recurso, o recorrente
comprovará o pagamento do preparo, inclusive porte de remessa e de retorno dos autos.

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b.2.4) O preparo é o ato que deve preceder a interposição do recurso, de forma a possibilitar que,
quando da interposição, seja anexada à petição recursal a guia comprobatória de seu
recolhimento.
b.2.5) Uma vez exercido o direito de recorrer sem a comprovação do preparo, terá ocorrido preclusão
consumativa relativamente ao preparo, isto é, o recorrente não mais poderá juntar a guia
comprobatória do pagamento, ainda que o prazo recursal não se tenha esgotado.
b.2.6) A falta de preparo acarreta conseqüência drástica: a deserção do recurso.
b.2.7) Deserção (verbo que indica a ação de abandonar, deixar, desertar) implica o abandono do
recurso, inviabilizando o julgamento do pedido de reexame da decisão impugnada.
b.2.8) Deve ser decretada ex officio pelo juiz a quo, sempre que o recurso se interpuser perante ele.
b.2.9) Caso o preparo seja feito de forma insuficiente, o juiz deverá promover a intimação do
recorrente para, em cinco dias, proceder à complementação necessária. Se o recorrente,
intimado, não vier a supri-lo no prazo de cinco dias ou se o pagamento ainda for insatisfatório,
deverá, então, o juiz decretar a deserção (art. 511, §2º, CPC).
b.2.10) Dispensa do preparo:
b.2.10.1)Critério objetivo – agravo retido, embargos de declaração, e embargos infringentes (caso lei
local não preveja) não estão sujeitos a preparo (arts. 522, 533 e 536, CPC).
b.2.10.2)Critério subjetivo – MP, União, os Estados, o Distrito Federal, os Municípios, autarquias (art. 511,
§ 1º, CPC) e os beneficiários da assistência judiciária (art. 3º, II e 9º da Lei nº 1060/50).
b.2.11) O juiz pode relevar a pena de deserção nas hipóteses do art. 519, CPC.
b.3) Regularidade formal;
b.3.1) Conceito – consiste na exigência de que o recurso seja apresentado de acordo com a forma
estabelecida em lei.
b.3.2) A exigência de motivação, isto é, de que o recorrente explicite as razões de seu inconformismo,
sob pena de não conhecimento do recurso é um dos pressupostos consistente na regularidade
formal.
c) Competência – normalmente, a competência para a admissibilidade do recurso é bifásica: do
órgão de interposição (decisão provisória e não vinculante para o juízo ad quem) e do órgão
julgador do recurso (decisão definitiva).
d) Exceções – agravo de instrumento e embargos declaratórios. Nestes casos, a competência para
a admissibilidade desses recursos é exclusiva do órgão a quem compete à apreciação do mérito
do recurso.
e) Forma – o juízo de admissibilidade pode ser positivo ou negativo. No primeiro caso, nem sempre
ele é explicito.

PELO ÓRGÃO DE INTERPOSIÇÃO: JUÍZO POSITIVO PELO ÓRG. INTERPOSIÇÃO: JUÍZO NEGATIVO
Efeito: franquear ao recorrente a via de acesso ao órgão Efeito: obstar ao recorrente o acesso de seu recurso
ad quem. ao juízo ad quem.
Provisório e não vinculante. Caso não haja recurso, transita em julgado.
Não comporta recursos (falta de interesse) É passível de recurso (art. 523, § 4º, CPC).
Pode e costuma ser implícito. Exceção (art. 542, § 1º do
Deverá ser ato explícito e motivado.
CPC).
A regra é a revogabilidade do juízo positivo de
-
admissibilidade (art. 518, parágrafo único, CPC).

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PELO ÓRGÃO JULGADOR DO RECURSO: JUÍZO PELO ÓRGÃO JULGADOR DO RECURSO: JUÍZO
POSITIVO NEGATIVO
Efeito: permitir a imediata passagem ao exame do
Efeito: obstar o exame de mérito.
mérito do recurso.
Conhecer de um recurso é entrar na apreciação do É proferida uma decisão de não conhecimento: diz-se
mérito deste, seja para dar-lhe provimento ou não. que não se pode pronunciar sobre o mérito do recurso.
Faz-se, finalmente coisa julgada, caso não seja
Não influencia no julgamento do mérito do recurso.
interposto outro recurso.

f) Forma de interposição dos principais recursos:

ESPÉCIE DISPOSITIVO LEGAL


Apelação Art. 514 do CPC
Agravo de instrumento Art. 524 do CPC
Embargos de declaração Art. 536 do CPC
Recursos extraordinários Art. 541 do CPC

g) O recurso deve ser composto de duas partes distintas sob o aspecto do conteúdo:
g.1) Declaração expressa sobre a insatisfação com a decisão (elemento volitivo). Essa vontade deve
ser manifestada de forma inequívoca, sob pena de não-conhecimento.
g.2) Os motivos dessa insatisfação (elemento de razão) – as razões do recurso são elementos
indispensáveis para que o tribunal, ao qual se o dirige, possa julgá-lo.
g.3) Exemplos de irregularidades formais de recursos:
g.3.1) Recurso apresentado sem razões do pedido de nova decisão.
g.3.2) Recurso interposto mediante simples cota nos autos, e não por petição.
g.3.3) Recurso em que as razões são oferecidas fora do prazo legal do recurso.
g.3.4) Recurso em que as razões são totalmente dissociadas da decisão impugnada.
g.4) Em síntese – o recurso deve ser feito por escrito e acompanhado das razões do inconformismo.
1.10.4 Juízo de Mérito – sendo positivo o juízo de admissibilidade, o órgão ad quem passará ao juízo de
mérito do recurso:
a) Conceito – chama-se juízo de mérito àquele em que se apura a existência ou inexistência de
fundamento para o que se postula, acolhendo-se ou rejeitando-se a postulação.
b) Objetivo – julgar se o recurso é procedente ou improcedente; dar provimento ou negar
provimento144.
c) Efeitos – quando o órgão ad quem julga o recurso no mérito, isto é, dele conhece, pode ocorrer:
c.1) Nega-se provimento – por entender infundada a impugnação do recorrente.
c.2) Dá-se provimento – por entender fundada a impugnação do recorrente, podendo o órgão ad
quem:
c.2.1) Reformar a decisão recorrida – ao reconhecer a presença de error in judicando (vícios de juízo
‘sentença injusta’);
c.2.2) Anular a decisão recorrida – ao reconhecer a presença de error in procedendo (vícios de
atividade ‘sentença errada’).

144
A práxis forense já identificou os dois fenômenos, restando praticamente assentado que as expressões “conheço” e “não
conheço”, “admito” ou “não admito” o recurso servem para designar o juízo de admissibilidade; e “julgar procedente” ou “julgar
improcedente”, “dar provimento” ou “negar provimento” se referem ao juízo de mérito.

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c.3) Quadro – efeitos do provimento ou do não provimento do recurso:

Error in judicando Error in procedendo

Os pronunciamentos (o inferior e o superior) versam sobre a O mérito do recurso não coincide com o mérito
mesma matéria. da causa.
Não podendo subsistir duas decisões sobre o mesmo objeto, o Dar-se-á a substituição somente no caso de ser
julgamento do órgão superior substituirá a decisão inferior, nos negado provimento ao recurso, pois, se este for
limites da impugnação (art. 512 do CPC). provido, anulará a decisão recorrida.
Mesmo quando o órgão ad quem mantém/confirma a decisão Nos casos de provimento, não há a substituição
inferior, o acórdão do tribunal substitui o julgamento a quo. da decisão do juízo a quo - há a mera cassação
desta pelo órgão ad quem.

No caso de confirmação da decisão inferior, quem transita em A decisão do órgão ad quem se limita a cassar a
julgado é a decisão do órgão ad quem. decisão, determinando que nova seja proferida.
Não há trânsito em julgado ainda.
Isso é importante para fins de interposição da ação rescisória
(contagem de prazo).

1.11 Efeitos dos recursos – a interposição de um recurso é ato processual capaz de deflagrar uma
série de efeitos jurídicos. Os principais são:
a) Ampliar, procedimentalmente, a relação processual, uma vez que se forma um novo
procedimento, denominado procedimento recursal, que se distende pelo juízo ad quem.
b) Adiar o trânsito em julgado da decisão impugnada (art. 467, CPC).
c) Prorrogar a litispendência, na medida em que o recurso desencadeia uma série de atos no
procedimento recursal, envolvendo a mesma causa petendi, o mesmo pedido e as mesmas
partes.
d) A doutrina ainda identifica mais alguns efeitos acarretados pelos recursos:
d.1) efeito devolutivo;
d.2) efeito suspensivo;
d.3) efeito translativo;
d.4) efeito substitutivo e rescindente.
1.11.1 Efeito devolutivo:
a) É a transferência ao órgão ad quem do conhecimento da matéria impugnada, com o objetivo de
reexaminar a decisão recorrida.
b) No entanto, nem sempre esse reexame da decisão impugnada se dá perante o órgão ad quem,
pois em alguns casos, a competência para o reexame é do próprio órgão emissor da decisão
atacada.
c) É indiferente a distinção hierárquica na apreciação do recurso para caracterização do efeito
devolutivo.
d) Sendo o recurso recebido apenas no efeito devolutivo, abre-se a possibilidade de manejo da
execução provisória (art. 497 c/c o art. 587 do CPC), mediante extração de carta de sentença;
e) O efeito devolutivo é manifestação do princípio dispositivo (o apelante é quem fixa os limites do
recurso, em suas razões e no pedido de nova decisão). Nesse sentido, é vedado ao tribunal, ao
julgar o recurso, decidir fora da lide recursal.
f) A proibição da reforma para pior (princípio da reformatio in pejus) tem como fundamento o
princípio dispositivo (não pode o tribunal piorar a situação processual do único recorrente,
retirando-lhe vantagem dada por sentença, sem que para tanto haja pedido expresso pela parte
contrária).

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1.11.2 Efeito suspensivo:


a) É a propriedade do recurso que leva ao adiamento da produção dos efeitos normais da decisão
hostilizada, a partir do momento em que é possível impugná-la.
b) Em razão do efeito suspensivo, o conteúdo da sentença não pode ser executado até que se
julgue o respectivo recurso; no entanto, só se suspende a eficácia da decisão naquilo que
constitua objeto de embargos.
c) O efeito suspensivo tem início com a publicação da decisão impugnável por recurso para o qual a
lei prevê efeito suspensivo, e termina com a publicação da decisão que julga o recurso.
d) A doutrina distingue o efeito suspensivo em duas modalidades – típico e atípico:
d.1) típico – quando a suspensão da eficácia da decisão impugnada decorre da sua simples
interposição. É o caso da apelação;
d.2) atípico – quando a suspensão da eficácia da decisão impugnada decorre de um pedido (art. 558,
CPC) ou da formulação de pedido cautelar.
e) A regra é que os recursos são recebidos nos efeitos suspensivo e devolutivo. Exemplo: apelação
(exceto as hipóteses do art. 520, CPC) e embargos declaratórios.
f) Já os recursos de agravo, ordinário, especial, extraordinário são recebidos apenas no efeito
devolutivo. No entanto, tem se admitido à interposição de medida cautelar inominada para
atribuir efeito suspensivo ao RE e/ou REsp, em situações excepcionais.
1.11.3 Efeito translativo:
a) Acontece quando o órgão ad quem julga “fora do que consta das razões ou contra-razões do
recurso”, sem que tal procedimento venha caracterizar julgamento extra, ultra ou infra petita.
b) Normalmente ocorre com as questões de ordem pública, que devem ser conhecidas de ofício
pelo juiz, ainda que não apreciadas pelo juízo a quo, pois com relação a elas não se opera a
preclusão (art. 301, § 4º, CPC).
c) Por essa razão, é perfeitamente lícito ao tribunal, por exemplo, extinguir o processo sem
julgamento do mérito, em julgamento de apelação contra sentença de mérito interposta apenas
pelo autor, não ocorrendo aqui a proibida reformatio in pejus.
d) Pela interpretação sistemática dos arts. 515 e 516 do CPC, é possível afirmar que serão também
transferidas ao órgão revisional as questões dispositivas suscitadas e discutidas pelas partes,
mesmo que não tenham sido apreciadas pelo juízo de 1º grau.
e) O efeito translativo está presente nos recursos ordinários, mas não nos recursos extraordinários,
porque nestes últimos há fundamentação vinculada, isto é, a inocorrência do efeito translativo
decorre do próprio texto constitucional, ao determinar serem cabíveis esses recursos de causas
decididas pelos tribunais inferiores (art. 102, III; e 105, III da CF);
1.11.4 Efeito substitutivo e rescindente:
a) O art. 512 do CPC consagra o efeito substitutivo dos recursos, que ocorrerá todas as vezes que o
recurso for conhecido (haverá a substituição da decisão recorrida pela decisão do juízo ad quem,
ainda quando essa apenas confirma a sentença recorrida)145.
b) Conhecido o recurso, pelo juízo de admissibilidade positivo, passando-se ao exame do mérito
recursal, haverá o efeito substitutivo do recurso quando:
b.1) Em qualquer hipótese (error in judicando ou in procedendo) for negado provimento ao recurso;
b.2) Em caso de error in judicando, for dado provimento ao recurso;

145
“Nos termos do CPC, art. 512, o julgamento proferido pelo tribunal substitui a decisão recorrida apenas naquilo que tiver sido
objeto de recurso, e efetivamente deliberado pelo colegiado, obtendo-se pronunciamento favorável ou desfavorável (...)” (STJ, 5ª
Turma, REsp 259963/SP, rel. Min. Edson Vidigal, j. 22.08.2000, recurso conhecido e provido, v.u., DJ 25.09.2000, p. 134)

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c) Em caso de error in procedendo, quando for dado provimento ao recurso, não ocorrerá o efeito
substitutivo, e sim o rescindente, pois o tribunal anulará a decisão recorrida, e por obvio não
poderá substituí-la. Aqui o órgão ad quem apenas se limitará a cassar a decisão, determinando
que nova seja proferida pelo juízo a quo146.
1.12 Dos recursos em espécie
1.12.1 Apelação (com alteração dada pelas Leis ns° 11.276/06 e 11.277/06):
a) Conceito – é o recurso ordinário por excelência e o de maior amplitude. A palavra apelação vem
do latim e significa o ato de socorrer-se, de recorrer. “É o meio processual que a lei coloca à
disposição das partes, do MP e de um terceiro, a viabilizar, dentro da mesma relação processual
a anulação ou a reforma da sentença que extingue o procedimento de 1º grau, que tenha ou não
resolvido o mérito da causa”.
b) Finalidade – pela interposição da apelação almeja-se a anulação ou a reforma da decisão judicial
impugnada.
c) Fundamentos – é por intermédio da apelação que o princípio do duplo grau de jurisdição é
atuado amplamente. Toda a matéria impugnada, quer seja de fato, quer de direito, ou mesmo
de fato e de direito, recebe no apelamento a possibilidade de ser revista, sem qualquer restrição.
d) Destinatário – o juízo ad quem, que terá uma atividade cognitiva plena sobre a matéria
impugnada.
e) Objeto – é cabível contra sentença terminativa ou definitiva (art. 513, este faz referência aos
arts. 267 e 269, CPC).
f) Fundamentação do recurso – os fundamentos da apelação contra sentença definitiva são
agrupáveis em duas classes: a) alegações concernentes à invalidade da sentença; b) alegações
referentes à injustiça da sentença.
g) A sistemática da apelação contra a sentença terminativa restou completamente modificada pelo
art. 515, §3° (inserido pela Lei n° 10.352/01), uma vez que permite que o tribunal, ao dar
provimento ao apelo, julgue desde logo o mérito da causa, se ela versar sobre questão
exclusivamente de direito e estiver em condições de julgamento. É a expansão do efeito
devolutivo da apelação (ou como define Nery Jr., mais uma hipótese de efeito translativo).
h) Procedimento da apelação:
h.1) Forma e conteúdo da petição – é interposto sempre por petição escrita e o seu conteúdo está
estabelecido no art. 514, CPC: I – os nomes e a qualificação das partes; II - as razões da
apelação (os fundamentos de fato e de direito), que podem constar da própria petição ou ser
oferecidas em peça anexa; III- o pedido de nova decisão.
h.2) Prazo – para interpor e responder o prazo é de 15 dias (art. 508, CPC). Trata-se de prazo
peremptório, isto é, fatal, que não comporta ampliação nem redução, mediante acordo das
partes.
h.3) Preparo – cabe ao apelante, no ato da interposição da apelação, comprovar o pagamento do
preparo, inclusive porte de remessa e de retorno dos autos. É a regra do preparo imediato (art.
511, CPC).
h.4) Relevação da deserção – é possível, desde que demonstrado que o preparo não foi feito ou o foi
indevidamente por justo impedimento (art. 183, § 1°, CPC), devendo o apelante demonstra-lo
no momento da interposição do recurso (CPC, art. 519).
h.5) Procedimento no juízo a quo – nos termos do art. 518 do CPC.

146
Vale, por oportuno, consignar a lição de José Carlos Barbosa Moreira: “Não há pensar, no sistema pátrio, que a função
substitutiva seja peculiar a determinados recursos, a função rescindente a outros. O que acontece é que um mesmo recurso – e isso
se aplica a quase todos, ora conduz à substituição, ora à simples rescisão. E continua o doutrinador: “A função substitutiva
corresponde aos casos de recurso interposto com fundamento em error in judicando; a puramente rescindente, aos casos de recurso
interposto com fundamento em error in procedendo (Comentários ao código de processo civil, v. 5, p. 400).

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h.6) Sentença de acordo com súmula do STJ e STF – a Lei n° 11.276/06 inseriu no ordenamento
brasileiro algo próximo a ‘súmula impeditiva de recursos’. Com efeito, o art. 518 do CPC ganhou
o §1° que possui a seguinte redação: “o juiz não receberá o recurso de apelação quando a
sentença estiver em conformidade com súmula do Superior Tribunal de Justiça ou do Supremo
Tribunal Federal”. Não deve ser confundido este instituto (que se assemelha a súmula impeditiva
147
de recursos) com a súmula vinculante . Esta é privativa do STF e pode de certa forma inibir o
livre convencimento do magistrado, enquanto aquela apenas evita recursos meramente
procrastinatórios. Outrossim, quando o magistrado não conhecer do recurso de apelação nos
termos do §1° do art. 518, desta decisão caberá agravo de instrumento (art. 522 do CPC, caput
– com redação dada pela Lei 11.187/05).
h.7) Juízo de admissibilidade provisório – nos termos do § 2° do art. 518 do CPC, apresentada a
resposta, é facultado ao juiz – agora no prazo de cinco (05) dias – o reexame dos pressupostos
de admissibilidade do recurso.
h.8) Juízo de retratação quanto ao mérito – trata-se de uma exceção ao art. 463, CPC e só é
permitido em dois casos:
h.8.1) Art. 296 do CPC, ou seja, se for indeferida a petição inicial. Pode o juiz, ao verificar a apelação
interposta pelo autor, reconsiderar a decisão proferida, no prazo de 48 horas, e determinar o
processamento da ação;
h.8.2) Art. 285-A do CPC (inserido pela Lei n° 11.277/06): “Quando a matéria controvertida for
unicamente de direito e no juízo já houver sido proferida sentença de total improcedência em
outros casos idênticos, poderá ser dispensada a citação e proferida sentença, reproduzindo-se o
teor da anteriormente prolatada. § 1o Se o autor apelar, é facultado ao juiz decidir, no prazo de
5 (cinco) dias, não manter a sentença e determinar o prosseguimento da ação. § 2o Caso seja
mantida a sentença, será ordenada a citação do réu para responder ao recurso”.
i) Efeitos – a apelação produz, em regra, os efeitos devolutivo e suspensivo e, por exceção, apenas
o efeito devolutivo (nos casos arrolados numerus clausus no art. 520, CPC). No entanto,
autorizada doutrina tem ampliado o leque de efeitos dos recursos, a compreender os seguintes
efeitos:
i.1) Devolutivo – a apelação é o recurso que tem o maior âmbito de devolutividade, prestando-se à
correção tantos dos errores in procedendo quanto dos errores in judicando. As conseqüências da
extensão do efeito devolutivo no recurso de apelação são as seguintes (art. 515, CPC):
i.1.1) impossibilidade de inovar a causa no juízo de apelação (proibição de modificar a causa de pedir
ou o pedido);
i.1.2) limitação da atividade cognitiva do tribunal à parte da sentença que haja sido objeto de
impugnação, exceto as hipóteses dos §§ 3º e 4° do art. 515, CPC;
i.1.3) proibição da reformatio in pejus.
i.2) Ampliação do efeito devolutivo – art. 515, § 3º, CPC. Ao dar provimento a recurso de apelação,
interposto contra sentença de extinção do processo sem conhecimento do mérito, pode o
tribunal decidir desde logo o mérito, desde que a causa verse matéria exclusivamente de direito
ou quando a causa estiver em condições de imediato julgamento.
i.3) Translativo – é amplíssima a translação do recurso de apelação. A apelação não se restringe às
questões efetivamente resolvidas na sentença. Abrange também as que nela poderiam tê-lo
sido, estando compreendidas:
i.3.1) as questões examináveis de ofício, a cujo respeito o órgão a quo não se manifestou;
i.3.2) as questões que, não sendo examináveis de ofício, deixaram de ser apreciadas, a despeito de
haverem sido suscitadas e discutidas pelas partes (art. 515, § 1º, CPC).

147
Esta, inclusive, que recentemente foi regulamentada pela Lei n° 11.417 de 19.12.2006.

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i.3.3) Recentemente, a Lei 11.276/06 fez inserir no art. 515 do CPC o §4°: “Constatando a ocorrência
de nulidade sanável, o tribunal poderá determinar a realização ou renovação do ato processual,
intimadas as partes; cumprida a diligência, sempre que possível prosseguirá o julgamento da
apelação”148.
i.4) Suspensivo – é a regra. Esse efeito leva ao adiamento da produção dos efeitos normais da
decisão hostilizada, a partir do momento em que é possível impugna-la. Fica impedida a
execução da decisão impugnada até que se julgue o recurso contra ela interposto. Em se
tratando de apelação parcial, é possível a execução definitiva da parte não impugnada, pois esta
já transitou em julgado.
i.5) Substitutivo – somente haverá substituição se o recurso for conhecido. O julgamento do mérito
da apelação substitui a decisão recorrida. Ainda que o acórdão “confirme” a sentença recorrida,
haverá a substituição integral desta por aquele.
1.12.2 Recurso adesivo:
a) Deparando-se com uma decisão que seja reciprocamente prejudicial ao autor e ao réu, abrem-se
para a parte duas possibilidades:
a.1) Recorrer desde logo, por meio de recurso principal e independente, da sentença no que lhe foi
desfavorável, ou:
a.2) Inclinar-se a aceitar o julgado caso o adversário, de seu turno, também o faça. Do contrário,
recorrer caso a outra parte também recorra.
b) O recurso adesivo nada mais é do que o recurso contraposto ao da parte adversa, por aquela
que se dispunha a não impugnar a decisão, e só veio a impugná-la porque o fizera o outro
litigante.
c) Conceito – “é o recurso interposto pelo recorrido contra o recorrente principal, após a fluência do
prazo comum, com a finalidade de obter o reexame, pela superior instância, da parte da decisão
que lhe seja desfavorável”.
d) Natureza jurídica – é indiscutível o caráter recursal do recurso adesivo. Observe-se que não se
trata de um recurso novo, mas de simples modalidade de processamento dos recursos
existentes.
e) Requisitos de admissibilidade – o recurso adesivo está sujeito aos pressupostos de
admissibilidade exigidos para qualquer recurso (art. 500, parágrafo único, CPC), bem como a
certos requisitos peculiares à via adesiva, quais sejam:
e.1) Subordinação ao recurso principal – o recurso adesivo é um recurso subordinado (art. 500, III).
Não será conhecido, se houver desistência do recurso principal, ou se for ele declarado
inadmissível ou deserto. Essa subordinação, no entanto, diz respeito apenas à admissibilidade do
recurso principal: jamais no concernente ao mérito ou a matéria impugnada pela parte adversa
no recurso principal;
e.2) Existência de sucumbência recíproca – nenhuma das partes logra êxito total na ação proposta; o
réu vence naquilo que o autor perde, e o autor sai vencedor na parte em que o réu perdeu;
e.3) Só tem cabimento nos recursos de apelação, embargos infringentes, recurso especial e recurso
extraordinário (art. 500, II, CPC).
f) Objeto – será sempre limitado à parte da decisão que foi desfavorável ao recorrente, ainda que
em pequena proporção. Qualquer matéria pode ser deduzida, desde que, evidentemente, tenha
o recorrente adesivo sucumbido quanto a ela.
g) Procedimento:

148
Este novo dispositivo poderá acelerar o procedimento da apelação nos tribunais, haja vista a possibilidade do próprio órgão ad
quem sanar a irregularidade, ao invés de – como atualmente ocorre – determinar ao juízo a quo a realização da necessária
diligência.

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g.1) É interposto perante a própria autoridade judiciária competente para admitir o recurso principal
(CPC, art. 500, I);
g.2) A petição inicial deve ser deduzida em peça independente da petição de contra-razões do recurso
principal, por dois motivos:
g.2.1) porque nas contra-razões a discussão se limita a impugnar o recurso da parte contrária;
g.2.2) porque as contra-razões não comportam pagamento de preparo, enquanto o recurso adesivo
sim.
h) Prazo – é o de que a parte dispõe para responder, isto é, 15 dias (CPC, art. 508). Não se exige
que a petição de adesão e a resposta ao recurso principal sejam apresentadas simultaneamente.
Basta que ambas o sejam na quinzena.
i) Preparo – revela-se como um dos requisitos para a sua admissão. O preparo efetuado por um,
ao outro não aproveita; bem como não aproveita ao recorrente adesivo a circunstância de o
recurso principal estar isento de preparo.
j) Julgamento – ambos são julgados numa única sessão, só que o tribunal só passa ao exame do
recurso adesivo após o juízo de admissibilidade positivo do recurso principal.
l) O fato de negar-se provimento ao recurso principal não exclui que se possa conhecer do adesivo,
desde que satisfeitos os respectivos requisitos de admissibilidade.
m) Impossibilidade de recurso adesivo quando já interposto o recurso principal – o recurso adesivo
não se destina à complementação do recurso principal anteriormente interposto pela mesma
parte, sendo facultado, apenas e tão-somente, ao litigante que não recorreu.
1.12.3 Embargos de declaração:
a) Conceito – “é um remédio jurídico que a lei coloca à disposição das partes, do MP e de terceiro, a
viabilizar, dentro da mesma relação jurídica processual, a impugnação de qualquer decisão
judicial que contenha o vício da obscuridade, contradição ou omissão, objetivando novo
pronunciamento perante o mesmo juízo prolator da decisão embargada, a fim de complementa-
la ou esclarecê-la”.
b) Finalidade – completar a decisão omissa ou, ainda, aclará-la, eliminando obscuridades ou
contradições. Visa aperfeiçoar a forma através da qual a vontade do juiz se exteriorizou, mas a
decisão permanece imutável quanto ao conteúdo.
c) Fundamentos – a obscuridade, a contradição ou a omissão. A obscuridade e a contradição geram
a incerteza relativamente à declaração do direito invocado pelas partes; já a omissão significa a
falta de declaração judicial sobre ponto fático ou jurídico da lide ou do processo:
c.1) Obscuridade – a sentença deverá ser clara e precisa. A obscuridade quer dizer falta de clareza
nas idéias, nas expressões, na redação da decisão, tornando difícil a sua verdadeira inteligência
ou exata interpretação.
c.2) Contradição – verifica-se quando na decisão se incluem proposições entre si inconciliáveis.
Exemplo: reconhece-se como fundada alguma defesa bastante para tolher a pretensão do autor,
e, no entanto se julga procedente o pedido.
c.3) Omissão – decisão omissa é a que deixa de dizer alguma coisa que deveria dizer. É aquela que
deixou de analisar questões de fato e de direito ou que deixou de resolver as questões que as
partes suscitaram ou que deveriam ser apreciadas de oficio (CPC, art. 458, II e III). Os
embargos devem se referir a ponto omisso ou obscuro da decisão e não a fatos ou argumentos
mencionados pelas partes.
d) Em regra, erros ou inexatidões materiais não comportam embargos de declaração, pois a
correção pode ser efetuada de plano pelo juiz ou relator (CPC, art. 463). Esses erros podem ser
corrigidos a qualquer tempo, ainda que tenha a sentença transitada em julgado.

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e) Destinatário – somente o juiz prolator da decisão embargada é que pode e deve aclara-la. No
entanto, se o juiz que proferiu a decisão não mais tem exercício na vara (hipóteses do art. 132,
CPC), os embargos haverão de ser decididos pelo magistrado que naquele juízo esteja exercendo
jurisdição.
f) Objeto – qualquer decisão judicial comporta embargos de declaração: tudo em homenagem ao
princípio da motivação. É cabível, portanto, para atacar sentença, acórdão e decisão
interlocutória (apesar do art. 535, I, não fazer menção expressa quanto às decisões
interlocutórias).
g) Procedimento dos embargos:
g.1) Prazo – devem ser opostos dentro do prazo de cinco dias, contados da intimação do acórdão
embargado (CPC, art. 536).
g.2) Forma de oposição – por petição acompanhada de fundamentação e de pedido de nova decisão
integrativa ou aclaradora. O art. 536 diz que deve o embargante indicar, na petição, o ponto
obscuro, contraditório ou omisso.
g.3) Segundo Pontes de Miranda – “nos embargos de declaração não se pede que se redecida, pede-
se que se reexprima”.
g.4) Contraditório – tradicionalmente eles são processados sem oportunidade de resposta pelo
embargado (CPC, art. 537), até porque se consideram destinados a mero aperfeiçoamento na
forma de expressão do julgado, sem a menor possibilidade de alterar-lhe o conteúdo.
g.5) Preparo – os embargos de declaração não estão sujeitos a preparo, por expressa disposição legal
(CPC, art. 536). Logo, não há cogitar de deserção nos embargos.
h) Efeitos:
h.1) Devolutivo – neste caso a devolutividade não permite a revisão da decisão recorrida, mas
unicamente seu esclarecimento ou integração e se faz ao mesmo órgão que prolatou a decisão
recorrida, e não a um órgão superior.
h.2) Suspensivo – a oposição dos embargos não permite que se proceda à execução provisória da
decisão.
h.3) Interruptivo – a oposição dos embargos interrompe o prazo para interposição de outros recursos
cabíveis contra a mesma decisão, beneficiando qualquer das partes do processo e não somente o
embargante (CPC, art. 538). Ademais, observem-se as seguintes peculiaridades:
h.3.1) a interrupção do prazo não está condicionada ao conhecimento dos embargos. Apenas não se
gera o efeito interruptivo do prazo se o recurso for intempestivo;
h.3.2) os embargos declaratórios opostos pelos autores interrompem o prazo para que o réu possa opor
também os seus embargos contra aquele mesmo aresto.
i) Embargos de declaração com caráter infringente (modificativo) do julgado:
i.1) Em regra, os embargos declaratórios não se prestam à alteração substancial do julgado.
i.2) Nas hipóteses de obscuridade, os embargos se restringem apenas a esclarecer o ponto obscuro
da decisão impugnada, não havendo, portanto, caráter inovador neste novo pronunciamento.
i.3) No entanto, com relação aos vícios da contradição e da omissão, é possível, em alguns casos
excepcionais, que os embargos tenham a natureza infringente, ou seja, podem ter efeitos
modificativos do julgado impugnado.
i.4) Contradição – ao adaptar ou eliminar alguns dos elementos constantes da parte decisória, pode
a nova decisão alterar, em certo aspecto, a decisão anterior.
i.5) Omissão – corrige-se a omissão, complementando a decisão, isto é, agregando-lhe,
acrescentado-lhe um novo elemento e, portanto, modificando-a.

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i.6) Tratando-se de embargos declaratórios com possível caráter modificativo, deve o juiz ou o
tribunal, antes de decidi-los, abrir vista à parte contrária, em respeito ao contraditório, pois
desses embargos poderá resultar uma nova decisão da causa.
j) Embargos protelatórios:
j.1) A dispensa de preparo e a interrupção do prazo para a interposição de outros recursos
contribuíram para a má e abusiva utilização dos embargos declaratórios.
j.2) Nestes casos em que os embargos tenham caráter manifestamente protelatório, deve o juiz ou o
tribunal aplicar a multa prevista no art. 538, parágrafo único, CPC. O embargante será
condenado a pagar ao embargado multa não excedente de 1% sobre o valor da causa.
j.3) No entanto, para que seja aplicada a multa prevista no art. 538, é indispensável que haja
expressa declaração do juiz ou do tribunal explicitando os motivos que levaram a reputar
procrastinatórios os embargos de declaração, sob pena de exclusão da pena.
j.4) Em caso de reiteração de embargos protelatórios, a multa poderá ser elevada para até 10% do
valor da causa, não podendo a parte interpor qualquer outro recurso sem a comprovação do seu
pagamento.
j.5) Os embargos declaratórios, ainda que protelatórios, interrompem o prazo para outros recursos
no Direito vigente.
1.12.4 Agravo (com alteração dada pela Lei n° 11.187/05):
a) O agravo é o recurso cabível contra todas as decisões interlocutórias de 1° grau (CPC, art. 522).
b) O agravo pode caber no processo de conhecimento, no processo de execução, no processo
cautelar, bem como nos procedimentos regidos por leis extravagantes, salvo quando a disciplina
específica repila a incidência supletiva do CPC.
c) Inovações da Lei n° 11.187/05 – anteriormente, a opção pelo regime do agravo – retido ou por
instrumento – competia ao agravante, excepcionando-se alguns casos (antigo e revogado § 4°
do art. 523, CPC). Atualmente, entretanto, a redação do art. 522 do CPC passou a ter a seguinte
redação: “Das decisões interlocutórias caberá agravo, no prazo de 10 (dez) dias, na forma
retida, salvo quando se tratar de decisão suscetível de causar à parte lesão grave e de difícil
reparação, bem como nos casos de inadmissão da apelação e nos relativos aos efeitos em que a
apelação é recebida, quando será admitida a sua interposição por instrumento”. Com efeito,
pode-se afirmar que a obrigatoriedade atual para impugnação das decisões interlocutórias é a do
agravo retido, sendo aceito excepcionalmente – nos casos de quando se tratar de decisão
suscetível de causar a parte lesão grave e de difícil reparação (o que deveria ser compreendido
como - urgência) e nos já anteriormente previstos – a utilização do agravo de instrumento.
d) Com a interposição do recurso não pode a parte pretender inverter a opção escolhida, pois os
regimes têm pressupostos e características distintos, diferenciando-se, inclusive, na forma de
sua interposição, apresentando procedimentos totalmente diferenciados. Não é possível aplicar o
princípio da fungibilidade.
e) O pedido de reconsideração não suspende nem interrompe o prazo para interposição do recurso
próprio. E não se pode transformar mero pedido de reconsideração em agravo.
1.12.4.1 Agravo retido:
a) Conceito – diz-se retido o agravo quando a parte, ao invés de se dirigir diretamente ao tribunal
para provocar o imediato julgamento do recurso, volta-se para o juiz da causa, autor do
decisório impugnado, e apresenta recurso, pedindo que permaneça no bojo dos autos, para que
dele conheça o tribunal, preliminarmente, por ocasião do julgamento da apelação. Tem o nomen
juris de agravo retido porque fica preso nos próprios autos.
b) Finalidade – é impedir a preclusão da faculdade de impugnar-se a decisão interlocutória.
c) Vantagens:

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c.1) Não propicia nenhum gasto de tempo, pois fica encartado nos autos, sem que se forme
instrumento e sem que seja remetido de imediato ao tribunal.
c.2) Não propicia nenhum gasto de dinheiro, pois está isento de preparo (CPC, art. 522).
d) Características – o agravo retido - atual regra de impugnação das decisões interlocutórias (art.
522 do CPC, com redação dada pela Lei n° 11.187/2005) - não constitui um recurso autônomo,
pois se acopla à apelação, sendo julgado como preliminar da mesma, desde que expressamente
requerido na oportunidade da interposição do apelo.
e) Procedimento:
e.1) Pode ser escrito, através de petição (observando os requisitos do art. 524 do CPC) no prazo de
10 (dez) dias a contar da data da intimação ou da ciência inequívoca da decisão; ou
imediatamente, de forma oral (ou ainda escrita – como alerta Marinoni), quando a decisão for
prolatada em audiência de instrução e julgamento (art. 523, § 3° do CPC, com redação dada
pela Lei n° 11.187/2005). Na primeira hipótese a parte contrária terá o prazo de 10 dias para
oferecer contra-razões; já na segunda à contra-razão, em simetria à nova sistemática de
interposição, também deverá ser oferecida imediatamente e oralmente na audiência.
e.2) Juízo de retratação no juízo a quo – uma das características do agravo é facultar ao juiz a
retratação da decisão agravada (efetivando o princípio da economia processual). O art. 523, §
2°, CPC, concede expressamente ao juiz a possibilidade de retratar-se da decisão agravada,
após ouvir a parte contrária.
e.3) O agravo retido será conhecido se presentes os seus pressupostos de admissibilidade, desde que
atenda às seguintes condições:
e.3.1) haja apelação própria ou de outrem, ou recurso adesivo;
e.3.2) que a apelação seja conhecida;
e.3.3) que seja expressamente pedida sua apreciação, nas razões ou contra-razões (exceto quando as
questões versarem sobre matéria de ordem pública, conforme o art. 523, § 1° do CPC).
e.4) A não reiteração de agravo retido no momento das razões ou contra-razões da apelação
configura a desistência tácita, o que enseja o seu não conhecimento pelo Tribunal.
e.5) Nos casos de remessa necessária, o agravo retido haverá de ser apreciado, como preliminar da
revisão ex officio, mesmo que não haja reiteração.
e.6) Agravo oral – apenas o agravo retido comporta a via oral. Das decisões interlocutórias proferidas
em audiência passa a ser obrigatória a interposição oral imediata (reitere-se, ou ainda escrita –
como alerta Marinoni) do agravo retido, que será transcrito no respectivo termo de audiência,
expostas sucintamente às razões que justifiquem o pedido de nova decisão (art. 523, § 3° do
CPC, com redação dada pela Lei n° 11.187/2005).
e.7) Agravo retido posterior à apelação – a previsão do § 4° do art. 523 do CPC perdeu parcialmente
seu objeto com o advento da Lei n° 11.187/2005, que tornou obrigatório o uso do agravo retido
para a impugnação das decisões interlocutórias. As ressalvas lá previstas foram inseridas no
inciso II do art. 527 do CPC (com redação dada pela Lei n° 11.187/2005).
1.12.4.2 Agravo de instrumento:
a) Conceito – é o recurso excepcionalmente cabível contra decisão interlocutória, sendo interposto
diretamente no tribunal, através de instrumento formado pelo agravante.
b) Vantagens – a parte poderá optar pelo agravo de instrumento quando a decisão interlocutória
causar dano irreparável e de difícil reparação (bem como nos casos de inadmissão da apelação e
nos relativos aos efeitos em que a apelação é recebida) e, por isso, deverá ser reexaminada
imediatamente pelo juízo ad quem.

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c) Interposição no tribunal – o agravo de instrumento deve ser interposto diretamente no tribunal,


no prazo de 10 dias, contados da publicidade da decisão, acompanhado das razões de recurso e
das peças obrigatórias e facultativas
d) Petição do agravo – regularidade formal
d.1) Deve conter os elementos alinhados no art. 524, CPC: I- a exposição do fato e do direito; II- as
razões do pedido de reforma da decisão; III- o nome e o endereço completo dos advogados,
constantes do processo.
d.2) Peças obrigatórias e facultativas – é dever do agravante formar o instrumento do agravo. O art.
525 dispõe que o AI deve ser instruído:
d.2.1) obrigatoriamente, com a cópia da decisão agravada, da certidão da respectiva intimação e das
procurações outorgadas aos advogados do agravante e do agravado;
d.2.2) facultativamente, com outras peças que o agravante entender úteis.
d.3) A ausência das peças obrigatórias e das peças facultativas (que o tribunal entenda importante
para o deslinde da questão) acarreta o não conhecimento do recurso por falta de regularidade
formal.
d.4) É vedado ao agravante juntar, posteriormente à interposição do agravo, razões ou as peças
obrigatórias e facultativas.
d.5) As cópias das peças do processo poderão ser declaradas autenticas pelo próprio advogado, sob
sua responsabilidade pessoal; mas a lei não exige sejam autenticados os documentos.
e) Interposição – pode ocorrer por três meios:
e.1) Com o protocolo da petição, razões e documentos juntos ao tribunal ad quem.
e.2) Com a postagem nos correios, mediante registro e aviso de recebimento.
e.3) Por outro meio indicado na lei estadual.
f) Do processamento do agravo de instrumento – art. 527, CPC “Recebido o agravo de instrumento
no tribunal, e distribuído incontinenti, o relator:
f.1) Negar-lhe-á seguimento, liminarmente, nos casos do art. 557 do CPC – o relator deverá, antes
de tomar as providências previstas nos demais incisos do art. 557, realizar um juízo de
prelibação, atuando como uma espécie de porta-voz do órgão colegiado, devendo realizar o juízo
prévio de admissibilidade do recurso, bem como negar seguimento ao recurso se for
manifestamente improcedente. Como o juízo definitivo é do órgão colegiado, desta decisão
liminar do relator cabe agravo interno, em cinco dias (art. 557, § 1º, CPC). Vale salientar que o
§ 1º-A do art. 557, CPC, ampliou os poderes do relator, sendo permitido a este prover o recurso
se a decisão recorrida estiver em manifesto confronto com súmula ou com jurisprudência
dominante do STF ou de tribunal superior.
f.2) Conversão do agravo – com o advento da Lei 11.187/2005 o agravo retido passou a ser
considerado o recurso-regra. Com efeito, excepcionalmente poderá ser utilizado o agravo de
instrumento conforme dispõe a segunda parte do art. 522 do CPC. Nesse sentido, cabe ao relator
a análise das exceções processuais e a possibilidade ou não, v.g., da decisão ser suscetível de
causar à parte lesão grave e de difícil reparação. Nessa análise, caberá ao relator converter o
agravo de instrumento em agravo retido (art. 527, II do CPC, com redação dada pela Lei n°
11.187/2005). Esta decisão, na atual sistemática, é irrecorrível.
f.3) Poderá atribuir efeito suspensivo ao recurso (art. 558), ou deferir, em antecipação de tutela,
total ou parcialmente, a pretensão recursal, comunicando ao juiz sua decisão – em regra geral, o
agravo é recebido no efeito apenas devolutivo, e a devolução restringe-se à questão incidente
objeto da decisão agravada, na medida da impugnação, podendo, portanto, ser total ou parcial.
Deste modo, o agravo não tem efeito suspensivo, salvo nas taxativas e excepcionais hipóteses
do art. 558, CPC, que possibilitou ao agravante requerer ao relator do agravo a suspensão da

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execução da medida até o pronunciamento definitivo do órgão colegiado. Assim, hoje o agravo
de instrumento tem a propriedade de suspender toda decisão que possa, ante a relevância dos
fundamentos, causar lesão grave e de difícil reparação à parte. Mas esse efeito suspensivo só
pode ser atribuído ao agravo nos casos autorizados pelo art. 558 e mediante requerimento do
agravante, sendo vedado ao relator concedê-lo de ofício. Concedida à suspensão, deve o relator
comunicar o fato ao juiz a quo.
f.4) Outra inovação do CPC é a possibilidade do relator conceder efeito ativo ao agravo – é, na
verdade, a antecipação do resultado do mérito do agravo de instrumento. Isso é possível nos
casos em que a decisão agravada tiver conteúdo negativo, como por exemplo, no caso de o juiz
de 1º grau indeferir pedido de liminar. Assim, entendendo o autor que o juízo de 1º grau não
apreciou corretamente os pressupostos necessários à concessão de uma liminar, por exemplo,
poderá submeter, por intermédio do agravo de instrumento, a sua pretensão de liminar ao
tribunal, que, verificando estarem presentes os pressupostos necessários a esta concessão, deve
conceder liminar. Este acórdão que conceder a liminar substituirá a decisão denegatória de
liminar proferida pelo juízo a quo.149
f.5) Poderá requisitar informações ao juiz da causa, que as prestará no prazo de 10 dias – o relator
tem a faculdade de requisitar informações do juiz a quo, a fim de poder examinar se é ou não
caso de conceder efeito suspensivo ao recurso, mas pode conceder tal efeito independentemente
dessa requisição. A falta dessas informações, quando requisitadas pelo relator, não acarreta per
se o provimento do agravo, e este seguirá normalmente no tribunal.
f.6) Mandará intimar o agravado, na mesma oportunidade, por ofício dirigido ao seu advogado, sob
registro e com aviso de recebimento, para que responda no prazo de 10 dias, facultando-lhe
juntar cópias das peças que entender convenientes. Nas comarcas sede de tribunal e naquelas
cujo expediente forense for divulgado no diário oficial, a intimação far-se-á mediante publicação
no órgão oficial. Se o agravado for réu revel, não há necessidade de sua intimação.
f.7) Ultimadas as providências referidas nos incisos III a V, mandará ouvir o Ministério Público, se for
o caso, para que se pronuncie no prazo de 10 dias – quando for o caso de intervenção nos autos
(art. 127 e 129 da CF; e art. 81 e 82 do CPC), o MP se manifestará depois das partes, no prazo
de 10 dias (art. 83, I, CPC).
f.8) A Lei n° 11.187/2005 deu nova redação ao parágrafo único do art. 527 do CPC. Com efeito,
passa este a ter a seguinte redação: “A decisão liminar, proferida nos casos dos incisos II e III
do caput deste artigo, somente é passível de reforma no momento do julgamento do agravo,
salvo se o próprio relator a reconsiderar”150.
g) Julgamento do agravo de instrumento (art. 528, CPC) – pedir dia significa incluir o agravo na
pauta de julgamento, sob pena de violação ao princípio da publicidade dos julgamentos. Julgado
o agravo, o juízo de origem deverá ser comunicado do teor da decisão do tribunal, por ofício
acompanhado do acórdão. Nos termos do art. 554, CPC, não se admite sustentação oral quando
do julgamento do agravo de instrumento.
h) Peculiaridades:
h.1) Obrigatoriedade da comunicação ao juízo a quo (art. 526, CPC).
h.2) O objetivo da norma é dar condições para que o juízo a quo tome ciência da interposição do
agravo e possa, querendo, proferir juízo de retratação.
h.3) Não requerida a juntada dos documentos no prazo de 3 dias, e desde que argüido e provado
pelo agravado, será declarada a inadmissibilidade do agravo.

149
Obs: concedendo efeito suspensivo ao agravo ou a tutela antecipada, o relator deverá comunicar essa decisão ao juízo a quo, a
fim de que possa fazer cumprir a decisão superior.
150
Apesar de ser um anseio geral a diminuição das hipóteses recursais, preocupa-se a doutrina com a futura e possível interpretação
da jurisprudência sobre esse novo dispositivo legal. A atual redação do parágrafo pode dar margem à interpretação de absoluta
irrecorribilidade da decisão liminar do relator que converter o agravo de instrumento em retido; e que conceder efeito suspensivo ao
recurso ou deferir antecipação de tutela, impossibilitando a utilização do agravo contra decisão monocrática de relator. Caso isso
ocorra, poderá se estar ressuscitando a utilização do mandado de segurança na sistemática do agravo.

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i) Juízo de retratação no juízo a quo – o juízo de retratação é da índole do agravo de instrumento e


pode ocorrer a qualquer tempo, desde que o seja até o julgamento do recurso pelo tribunal.
Havendo retratação, essa nova decisão deve ser comunicada ao relator do agravo, que o
considerará prejudicado, em face da perda do interesse recursal (o agravo fica sem objeto, art.
529, CPC).
j) Preparo – a regra do preparo imediato é válida para o agravo. Os estados federados podem
isentar de preparo o recurso de agravo de instrumento (exemplo: Estado de São Paulo). Em
Pernambuco, não há isenção de preparo.
k) Vinculação do relator na hipótese de conversão do agravo de instrumento em agravo retido
(inovação da Lei n° 11.187/2005) – Nas palavras de nosso Mestre Frederico Neves, ponto
interessante que, outrossim, está a merecer uma consideração especial, consiste em saber se o
relator que determinar a conversão do agravo de instrumento em agravo retido ficará vinculado
ao futuro recurso de apelação, em cuja sede, como preliminar, desde que haja reiteração
explícita, será enfrentada a matéria posta no agravo retido.
A resposta deve ser afirmativa. Isso porque, com a simples distribuição do agravo de
instrumento, perpetua-se a competência do órgão jurisdicional superior para conhecer (se for o
caso), processar e julgar o recurso. A circunstância de o relator – para o qual foi distribuído -
haver convertido o agravo de instrumento em agravo retido, não o desvincula do recurso,
porquanto, ao optar pela conversão, apenas protraiu ou diferiu o reexame da decisão
interlocutória submetida ao voluntário crivo da revisão.
Nunca é demais relembrar, para concluir, que, de acordo com o comando contido no artigo 70 do
Regimento interno do Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco, a distribuição vinculará ao
feito o relator sorteado, tornando prevento, de conseguinte, para o julgamento da apelação,
como é de evidência palmar, o órgão colegiado fracionário a que pertence. Aliter se o agravante
não reiterar, às expressas, nas razões ou na resposta da apelação, na forma preconizada no § 1º
do artigo 523 do Código de Processo Civil151, o julgamento do agravo transmudado em retido
pelo Tribunal, caso em que a distribuição do apelo será feita aleatoriamente.152
1.12.4.3 Agravo interno (variações terminológicas – agravo interno (mais adequado), agravo regimental,
agravo inominado, agravinho, entre outros):
a) Conceito – é o recurso cabível contra decisão monocrática proferida por relator, de natureza
terminativa ou definitiva, no âmbito dos tribunais.
b) Finalidade – atacar decisão monocrática interna proferida por magistrado de tribunal (ao
contrário dos agravos retidos e de instrumento, que agridem decisão externa ao tribunal). Essas
decisões monocráticas desempenham o mesmo papel do acórdão, e se não for interposto o
agravo interno, produzirá todos os efeitos atribuídos por lei ao julgamento colegiado;
c) Hipóteses de cabimento:
c.1) O agravo interno é cabível somente contra decisão singular de relator de tribunal, seja ele de 2°
grau ou superior, não cabendo contra acórdão proferido por órgão colegiado de tribunal.
c.2) O art. 557, CPC, prevê recurso de agravo interno contra ato decisório, singular, do relator, de
inadmissibilidade, provimento ou improvimento de qualquer recurso.
d) Procedimento:
d.1) Interposição – por petição apresentada ao relator, a quem não é dado indeferir o recurso. Não
dá ensejo à formação de instrumento, sendo a petição recursal juntada aos próprios autos do
processo em que proferida a decisão agravada.

151
Art. 523 § 1° - “Não se conhecerá do agravo se a parte não requerer expressamente, nas razões ou na resposta da apelação, sua
apreciação pelo Tribunal”.
152
Se, porventura, o apelo for distribuído ao relator vinculado sem que tenha havido pedido expresso do agravante para a
apreciação do agravo retido pelo Tribunal, o relator, deixando consignada a ausência de reiteração, determinará a redistribuição
aleatória do feito recursal.

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d.2) Prazo – 5 dias (art. 557, CPC).


d.3) Resposta do agravado – interposto o agravo interno, deve ser intimada a parte contrária, para
que apresente resposta ao agravo, em atenção ao contraditório.
e) Preparo – tendo em vista a similitude que guarda com o agravo retido, deve-se aplicar, por
analogia, o art. 522, CPC, que reza: “o agravo retido independe de preparo”.
f) Competência para julgar o agravo – deve ser julgado pelo órgão colegiado do tribunal
competente para conhecer e julgar o recurso indeferido, provido ou improvido pelo relator.
g) Julgamento:
g.1) Caso o relator não haja se retratado (§ 1°, art. 557), deverá o agravo ser apresentado desde
logo em mesa para julgamento por parte do órgão coletivo do próprio tribunal.
g.2) Mesmo sendo o agravo interno diretamente levado a julgamento, deverá ser incluído na pauta,
disso sendo intimada a parte para que, querendo possa assistir do julgamento.
g.3) Não há sustentação oral em agravo interno.
g.4) Negado provimento ao agravo interno, fica mantida a decisão do relator que indeferiu o recurso.
g.5) Provido o agravo, a conseqüência será a determinação do processamento do recurso indeferido
pelo relator.
g.6) Em qualquer caso, a decisão do agravo substituirá a decisão indeferitória agravada (efeito
substitutivo).
h) Multa – art. 557, § 2°, CPC. O agravante que interpuser agravo interno de modo temerário, isto
é, manifestamente inadmissível ou infundado, ficará sujeito à pena de multa, de 1 a 10% do
valor corrigido da causa, que reverterá em favor do agravado. Essa pena somente poderá ser
imposta pelo órgão colegiado, quando do julgamento do mérito do agravo interno. O agravante
somente poderá interpor outro recurso, nos mesmos autos, se pagar a multa a que tiver sido
condenado.
i) Efeitos – “O agravo regimental não terá efeito suspensivo”, art. 317, § 4°, do RISTF.
j) Peculiaridades – a jurisprudência dos nossos tribunais não tem admitido a interposição de agravo
interno contra a decisão do relator que concede ou não efeito suspensivo ao recurso de agravo
de instrumento.
l) Fundamentação:
l.1) A apreciação dos requisitos para a outorga de efeito suspensivo ao recurso de agravo de
instrumento é da competência exclusiva do relator, e não do órgão colegiado.
l.2) porque a lei processual não previu o cabimento de recurso contra essa decisão do relator de
atribuir ou não efeito suspensivo ao agravo de instrumento.
1.12.5 Embargos infringentes (dispositivos legais, arts. 530 a 534 do CPC):
a) Conceito – é um segundo tempo da apelação.
b) Cabimento – são cabíveis apenas dos acórdãos não unânimes que reformarem (total ou
parcialmente) a sentença de mérito ou que julgarem procedente o pedido em ação rescisória.
São cabíveis quando o dispositivo do voto vencido for diverso do resultado majoritário.
b.1) Somente nos casos de reforma da sentença, isto é, de provimento da apelação para correção do
error in iudicando (aplicação incorreta do direito à espécie), por acórdão não unânime. As
decisões não unânimes de natureza processual não são impugnáveis por embargos infringentes.

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b.2) São inadmissíveis embargos infringentes no processo de mandado de segurança (Súmula 169 do
STJ)153.
c) Finalidade – o pedido de modificação do acórdão tem como objetivo fazer prevalecer o voto
vencido, que deve ser obrigatoriamente declarado.
d) Divergência – apura-se a divergência no julgamento quanto à conclusão do voto e não quanto à
fundamentação nele invocadas. São cabíveis quando o dispositivo do voto vencido for diverso do
resultado majoritário. A divergência tem de ser sobre matéria de direito, não simplesmente em
tema processual.
e) Efeitos – tem sempre efeito devolutivo e suspensivo. O âmbito da devolutividade dos embargos
é restrito à matéria objeto da divergência. A parte unânime do acórdão não enseja embargos
infringentes. Deve-se aguardar o julgamento dos EI para poder-se interpor RE e REsp da parte
unânime do acórdão. As questões de ordem pública, como não são suscetíveis de preclusão,
ficam transferidas ao exame do tribunal, mesmo que não tenham sido objeto da divergência.
f) Forma – os embargos devem ser opostos por petição, acompanhada das razões do
inconformismo e do pedido de nova decisão. O embargado deverá ser intimado para apresentar
as contra-razões aos embargos infringentes.
g) Prazo – o prazo para a oposição do recurso, bem como para responder, é de 15 dias (art. 508 do
CPC).
h) Preparo – a necessidade de realização de preparo em embargos infringentes depende da
existência na “legislação pertinente”. Estando o encargo previsto na legislação de regência (v.g.,
lei de custas, regimento interno), o embargante deve comprovar o depósito do preparo no ato
de oposição dos embargos, sob pena de deserção154.
i) Juízo de admissibilidade – o relator do acórdão embargado tem o juízo de admissibilidade
provisório dos embargos infringentes, cumprindo-lhe apreciar o cabimento do recurso155.
j) Procedimento dos embargos – caso profira juízo positivo de admissibilidade, segue-se o
procedimento determinado pelo regimento interno do tribunal respectivo:
j.1) A petição do recurso é endereçada ao relator do acórdão embargado.
j.2) Cabe agravo (inominado), da decisão que não recebe os embargos (art. 532 do CPC), ou os
rejeita liminarmente.
j.3) No julgamento, o órgão ad quem não fica adstrito às razões invocadas pelo voto vencido, salvo
no caso já apontado, de cumulação de ações, por formulado pedido com fundamento em mais de
uma causa de pedir.

153
PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ORDINÁRIO EM MANDADO DE SEGURANÇA. EMBARGOS INFRINGENTES. CABIMENTO. ARTIGO
530, DO CPC. SÚMULA Nº 169, DO STJ. - O nosso sistema de normas processuais dispõe expressamente ser os embargos
infringentes o recurso cabível para atacar decisão não unânime proferida em sede de apelação e ação rescisória, sendo vedada a sua
interposição contra acórdão tomado por maioria de votos nos autos de recurso ordinário em mandado de segurança, prestigiado o
comando contido na Súmula nº 169, do STJ. - Agravo desprovido. (STJ-6ª Turma, AgRg no EI no RMS 7065/SE, rel. Min. Luiz
Vicente Cernicchiaro, j. 07.10.99, negaram provimento, v.u., DJ 16.11.99, p. 226)
154
Por fim, a teor do art. 500, II do CPC, os embargos infringentes podem ser opostos pela via independente, bem como pela
adesiva. Estando o recurso principal sujeito ao preparo ex vi da legislação de regência, a petição do adesivo também deve ser
instruída com a guia de recolhimento, conforme disposto no parágrafo único do art. 500 do CPC.
155
Observe-se a seguinte ementa transcrita: “R.C.P opôs Embargos Infringente da decisão que, na Apelação Cível 0076255-0, por
maioria de votos, manteve, em sua integralidade, a sentença de mérito, exarada no processo originário (Ação Ordinária de
Indenização por Danos Materiais e Morais, Proc. n° 001.1999.618913-1 – 13ª VC), que julgou improcedentes os pedidos contidos na
peça inaugural. Pretende o Embargante, reexaminar a questão diante da divergência de votos referente ao provimento ou não do
apelo. Foram oportunizadas vistas à parte Embargada, na forma do art. 531 do CPC. Em análise aos requisitos de admissibilidade do
recurso, verifico que este não se coaduna com as hipóteses de cabimento previstas no art. 530, do CPC, conforme a redação
determinada pela Lei n° 10.352/2001. É que, embora a decisão atacada tenha sido discrepante, a sentença que enfrentou o mérito
no 1° grau de jurisdição não foi modificada. Com efeito, no resultado do julgamento, a maioria chegou à conclusão de que era
improcedente a pretensão perseguida pelo Apelante/Embargante e manteve a decisão apelada, restando vencido o voto do eminente
Desembargador Revisor, que dava provimento do apelo. Em face dessas considerações, não vejo como admitir os Embargos
Infringentes. Publique-se. Intime-se.” (TJPE, Decisão Terminativa em EI opostos à AP n° 001.0076255-0, rel. Des. Nelson Santiago
Reis, j. 11.03.04, não conheceu do recurso, DJEPE 16.03.04).

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j.4) Não tem fundamentação vinculada, mas está adstrito aos limites da divergência;
k) Embargos infringentes e mérito:
k.1) A Lei 10.352, de 26.12.2001, alterou o artigo 53 do CPC, que passou a ter a seguinte redação:
“Cabem embargos infringentes quando o acórdão não unânime houver reformado, em grau de
apelação, a sentença de mérito, ou houver julgado procedente ação rescisória. Se o desacordo
for parcial, os embargos serão restritos a matéria objeto da divergência.”
k.2) Não cabem, pois, embargos de divergência das apelações interpostas de sentenças terminativas,
quais sejam, das sentenças meramente processuais e das sentenças de carência de ação.
k.3) A restrição às sentenças de mérito certamente atendeu às críticas dos que se perturbam com o
alto percentual de questões processuais, discutidas nos tribunais.
l) Remessa necessária – Súmula 390 do STJ: “Nas decisões por maioria, em reexame necessário,
não se admitem embargos infringentes”.
1.12.6 Recurso ordinário (dispositivos legais, no STF - art. 102, II, a da CF; no STJ - art. 105, II, b, e c
da CF):
a) Cabimento – esse recurso, ao contrário do que se passa nos extraordinários e especiais, a
devolução ao Tribunal ad quem é o mais ampla possível. Abrange tanto a matéria fática como a
de direito, ensejando, por isso, uma completa revisão, em todos os níveis, do que se decidiu no
tribunal inferior156:
a.1) No STF – as ações de mandado de segurança, habeas data, e mandado de injunção, quando
julgadas em única instância pelos Tribunais Superiores (STJ, TST e TSE) desafiam normalmente
recurso extraordinário para o STF, se atendidos os requisitos do art. 102, III, da CF. Se, porém,
forem denegadas, haverá possibilidade de recurso ordinário para a Suprema Corte (CF, art. 102,
II).
a.1.1) Requisitos – são os comuns a qualquer recurso, e não àqueles especiais exigidos para o recurso
extraordinário. Serão aplicadas as regras pertinentes à apelação e ao agravo (art. 540 do CPC).
a.1.2) Processamento – já na instância superior, observar-se-ão as normas dos regimentos internos do
STF e do STJ, conforme for o caso. Só as decisões coletivas dos Tribunais, e não as singulares de
relatores e presidentes, desafiam recurso ordinário. Observe-se que não interessa a natureza da
questão jurídica discutida no acórdão (se é constitucional ou infraconstitucional). Se se trata de
decisão enquadrada no art. 102, II da CF, será hipótese de recurso ordinário e não
extraordinário.
a.2) No STJ – as ações de mandado de segurança, denegados157 em julgamento em única instância
pelos TRF’s ou pelos TJ’s (art. 105, II, b da CF). Nas causas, julgadas em primeiro grau pela
Justiça Federal, em que forem partes estado estrangeiro ou organismo internacional, de um
lado, e, de outro, Município ou pessoa residente ou domiciliada no País. (CF, art. 105, II, c)158.
a.2.1) Requisitos – são os comuns a qualquer recurso. Assim como no recurso ordinário para o STF,
serão aplicadas as regras pertinentes à apelação e ao agravo (art. 540 do CPC).

156
“O recurso ordinário devolve ao STF ou ao STJ, a exemplo da apelação, o conhecimento de toda a matéria impugnada, que pode
abranger todas as questões suscitadas e discutidas no processo de natureza constitucional ou não, e ainda que a sentença não as
tenha julgado por inteiro” (RTJ 131/115).
157
Apesar da CF utilizar a expressão “quando denegatória a decisão”, deve-se interpretá-la no sentindo amplo, sendo cabível o
recurso ordinário ainda que o mandado de segurança, o hábeas data, ou o mandado de injunção seja indeferido liminarmente ou por
qualquer motivo extinto sem apreciação do mérito (RTJ 132/718).
158
Nas causas referidas na letra b do inciso II do art. 105 da CF – quando não se tratar de decisão final, mas de decisão
interlocutória, será cabível o recurso de agravo, também dirigido ao STJ, que nessas hipóteses, bem como nas decisões finais, o STJ
funciona como órgão de segundo grau de jurisdição, ainda que se trate de decisão proferida por juiz de primeiro grau de jurisdição,
uma vez que, de acordo com o disposto no art. 109, II da CF, as “causas em que forem partes, de um lado, Estado estrangeiro ou
organismo internacional e, de outro lado, Município ou pessoa residente ou domiciliada no País” são de competência, em primeiro
grau de jurisdição, dos juízes federais.

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a.2.2) Processamento – Já na instância superior, observar-se-ão as normas dos regimentos internos do


STJ.
b) Prazo – o prazo para a interposição do recurso ordinário, bem como para responder, é de 15 dias
(art. 508 do CPC).
c) Efeitos – como todos os recursos, o RO gera efeito devolutivo. Outrossim, não gera efeito
suspensivo, porque em regra não o necessita. Com efeito, o RO é cabível contra acórdão que
denega mandado de segurança - decisão essa de caráter declaratório negativo - insuscetível,
portanto, de ter esses efeitos negativos suspensos. Denegado o writ, não subsiste a liminar,
escoando a necessidade do efeito suspensivo.
d) Inaplicabilidade do princípio da fungibilidade – conforme se depreende da Súmula 272 do STF:
“Não se admite como recurso ordinário, recurso extraordinário de decisão denegatória de
mandado de segurança”. Nesse mesmo sentido: “Da decisão proferida em mandado de
segurança por tribunal de segundo grau de jurisdição, em única instância, cabe recurso
ordinário, constituindo erro inescusável a sua substituição por recurso especial – inaplicabilidade
do princípio da fungibilidade dos recursos” (RSTJ 75/153).
e) Prequestionamento – o prequestionamento não é requisito de admissibilidade do recurso
ordinário (STF, RT 712/307).
1.12.7 Recurso extraordinário (dispositivo legal, art. 102, III da CF)159:
a) Conceito – trata-se de recurso excepcional, admissível apenas em hipóteses restritas, previstas
na Constituição com o fito específico de tutelar a autoridade e aplicação da Carta Magna. Dessas
características é que adveio a denominação de “recurso extraordinário”, adotado inicialmente no
Regimento Interno do STF, e posteriormente consagrado em diversas Constituições, a partir de
1934.
b) Características – o recurso extraordinário, bem como o recurso especial (seu desdobramento),
possuem as seguintes características comuns:
b.1) prévio exaurimento das instâncias ordinárias – enquanto couber, nas instâncias ordinárias ou na
instância única, originária, alguma possibilidade de impugnação, não será possível o manejo do
RE ou do REsp (CF, arts. 102, III; e 105, III)160;
b.2) não visam à correção da injustiça da decisão recorrida – é dizer, no elucidativo exemplo de
Rodolfo de Camargo Mancuso: se o recorrente alega que certa disposição legal em matéria de
licitação é injustificadamente restritiva e o alijou da competição, afrontando a garantia
constitucional da igualdade e bem assim os princípios que regem a atividade econômica no País
(CF, arts. 1° e 170), e se o STF provê o recurso, significa: a) que a decisão recorrida
efetivamente afastou-se das diretrizes constitucionais, na medida em que não se apercebeu que
a inabilitação ou desclassificação do licitante em causa fundara-se em texto afrontoso à CF; b)
que, em decorrência, a situação jurídica individual lamentada pelo recorrente fica reparada,
restituindo-se as coisas ao status quo ante. Ou seja, não foi pela consideração de que a decisão
recorrida fora injusta que o recurso acabou provido; e sim porque ela, principaliter, feria a CF;
b.3) não servem para a mera revisão da matéria de fato - os recursos excepcionais não devolvem ao
STF ou ao STJ a integralidade da matéria decidida. Limitam-se a verificar a legalidade do

159
Passa-se, agora, a tratar dos recursos excepcionais. Com efeito, alguns recursos têm uma forma menos rígida; são dirigidos a
tribunais locais ou regionais; não apresentam exigências específicas quanto à sua admissibilidade; comportam discussão de matéria
de fato e de direito; e a mera sucumbência (= o fato objetivo da derrota) basta para deflagrar o interesse na sua interposição. A
esses podemos chamar “comuns”, “normais”, ou “ordinários”, conforme a terminologia que se prefira. Naturalmente, os outros
recursos que, ao contrário desses, apresentam uma rigidez formal de procedibilidade, são restritos as quaestiones júris; dirigem-se
aos tribunais da cúpula judiciária; não são vocacionados à correção da mera “injustiça” da decisão e apresentam, como diz
Frederico Marques, a particularidade de exigirem “a sucumbência e um plus que a lei processual determina e especifica”, esses ficam
bem sob a rubrica de “especiais”, “excepcionais”, ou “extraordinários”. Em suma, “são ordinários os recursos a comportar exame de
fato e de direito, nas plataformas do duplo grau de jurisdição, e excepcionais os recursos em questão de direito (extraordinário e
especial), exclusivamente, a projetar a causa para fora da dupla instância, quando for o caso”.
160
Súmula 281 do STF: “É inadmissível o recurso extraordinário quando couber, na Justiça de origem, recurso ordinário da decisão
impugnada”.

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julgado, no âmbito da legislação federal constitucional (RE) ou infraconstitucional (REsp). Mais


precisamente, a norma individual gerada com o referido parâmetro161;
b.4) apresentam juízo de admissibilidade desdobrado – a competência para o juízo de admissibilidade
do RE e do REsp é bipartido: o juízo ou o tribunal a quo recebe o recurso excepcional, e lhe dá
seguimento ou não; caso o recurso excepcional seja admitido, ou seja, o juízo de admissibilidade
seja positivo, não cabe nenhum recurso; todavia, essa decisão não vincula o tribunal ad quem,
que poderá ou não conhecer do recurso; caso o juízo de admissibilidade seja negativo, dessa
denegação cabe recurso de agravo de instrumento, no prazo de 10 dias, para o STF ou para o
STJ, conforme se trate de RE ou de REsp (CPC, art. 544)162;
b.5) possuem fundamentos de natureza constitucional – consoante prevê o art. 102, III e 105, III, da
CF, que tratam pela ordem do RE e do REsp. Outrossim, no CPC, arts. 541 ao 545, revela a
parte procedimental dos referidos recursos. Assim, no que tange ao mérito do RE ou do REsp, as
leis processuais se calam, porque os tribunais superiores é que verificaram esses aspectos, à luz
dos permissivos constitucionais;
b.6) a execução que se faça na sua pendência é provisória – no concernente aos recursos
excepcionais, a execução que se faça na sua pendência é provisória, porquanto os recursos
deverão ser recebidos apenas no efeito devolutivo (CPC, art. 497).
c) Cabimento – está previsto no art. 102, III, a, b, c, e d da CF: admite nas causas julgadas por
outros tribunais, em única ou última instância, quando a decisão recorrida:
c.1) contrariar dispositivo da Constituição Federal;
c.2) declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal;
c.3) julgar válida lei ou ato do governo local contestado em face da constituição163.
c.4) julgar válida lei local contestada em face da lei federal164.

161
Com efeito, Súmula 279 do STF: “Para simples reexame de prova não cabe recurso extraordinário”.
162
Observe-se que na admissibilidade do recurso excepcional, o presidente ou o vice-presidente do tribunal de origem não se limita
a certificar a presença dos requisitos intrínsecos e extrínsecos da admissibilidade. Com efeito, o órgão a quo também examina a
ocorrência dos pressupostos constitucionais de cabimento do RE. Isso acaba por levar o presidente ou o vice-presidente do tribunal
de origem a analisar o próprio mérito do RE. Apesar de diversas críticas da doutrina, este vem sendo o entendimento maciço dos
tribunais superiores, principalmente em virtude do excesso de recursos excepcionais. Observar sobre o ponto a Súmula 123 do
STJ.
163
Além desses pressupostos de cabimento específicos (constitucionais), outros os são exigidos, quais sejam: a) prequestionamento
(é assaz encontradiço na doutrina e na jurisprudência o entendimento consoante o qual o prequestionamento das questões
constitucionais e federais constitui requisito essencial e pressuposto específico de admissibilidade dos recursos extraordinário e
especial. Prequestionar seria evidenciar ao tribunal superior a certeza que a decisão havia sido efetivamente decidida no acórdão
recorrido. Assim, por vezes, uma determinada questão infratora da norma constitucional/federal não foi expressamente falada no
acórdão recorrido. Nesses casos é indispensável à utilização dos embargos de declaração para que o órgão a quo expressamente fale
sobre o ponto, sob pena de descabimento do recurso excepcional. Observe-se que não fogem a essa regra as questões de ordem
pública, vale dizer, nem mesmo as questões envolvendo condições da ação, pressupostos processuais, entre outras podem ser
levantadas perante os tribunais superiores, se no julgado a quo não tiver expressamente disposto sobre elas. Caso o juízo ou
tribunal de origem não se tenha pronunciado sobre a matéria de ordem pública, não terá “decidido” essa matéria, sendo
inadmissível RE ou REsp sobre questão não decidida. Nesse sentido são os seguintes arestos: I- “O recurso especial não se presta à
apreciação de matéria de ordem pública que não tenha sido objeto de exame na instância originária” – STJ, 5ª Turma, REsp n°
30.615-6-SP, rel. Min. Edson Vidgal, RP, 89/266; II- “A argüição de incompetência, mesmo absoluta, necessita ter sido discutida e
apreciada na instância a quo. Se isto não ocorreu, não é admissível o RE” – STF, 2ª Turma, AgRgAI n° 135.644-8-DF, rel. Min.
Carlos Velloso, RT 687/220. Finalmente, observe que, mesmo se a questão constitucional ou federal foi suscitada anteriormente,
mas sobre ela não se manifestou o tribunal, cumpre ao recorrente provoca-lo mediante embargos de declaração para sanar o vício
da omissão. Com efeito, enuncia a Súmula 356 do STF: “O ponto omisso da decisão, sobre o qual não foram opostos embargos
declaratórios, não podem ser objeto de RE, por faltar o requisito do prequestionamento”.); b) a indicação expressa do preceito da
Lei Maior tido por violado; c) a impugnação de todos os fundamentos legais autônomos da decisão recorrida (Súmula 283 do STF:
“É inadmissível o RE, quando a decisão recorrida assenta em mais de um fundamento suficiente e o recurso não abrange todos
eles”); d) a interposição do recurso especial, quando a decisão recorrida tiver fundamento infraconstitucional autônomo (Súmula
126 do STJ: “É inadmissível REsp, quando o acórdão recorrido assenta em fundamentos constitucional e infraconstitucional,
qualquer deles suficiente, por si só, para mantê-lo, e a parte vencida não manifesta o RE”. Assim, se a decisão hostilizada reputou
desnecessária a prova pericial – art. 420, II, do CPC – e, ao mesmo tempo, julgou antecipadamente a lide em maltrato direto ao
inciso LV do art. 5° da CF, cabe à parte interpor simultaneamente RE e REsp. Inexistente este, aquele não poderá ser conhecido e
vice-versa.); e) a fundamentação recursal apenas em matéria de direito constitucional – excluída a discussão fática e de direito
federal.

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d) Finalidade – manter, dentro do sistema federal e da descentralização do Poder Judiciário, a


autoridade e a unidade da Constituição.
e) Forma – o recurso extraordinário deve ser interposto por petição, com a exposição do fato e do
direito; a demonstração de cabimento do recurso interposto; e das razões do pedido de reforma
da decisão recorrida (art. 541 do CPC).
f) Prazo – o prazo para a interposição do recurso, bem como para responder, é de 15 dias (art. 508
do CPC).
g) Preparo – existe muita discussão se o RE deveria comportar preparo. Outrossim, dispõe o art.
511 do CPC; o artigo 65 do RISTF; bem como o art. 41-B da Lei n° 8.038/90, acrescentado pela
Lei n° 9.756/98, que na petição do RE deverá o recorrente comprovar a guia de recolhimento
recursal.
h) Interposição – a petição do recurso é endereçada ao Presidente ou Vice-Presidente do Tribunal
onde se pronunciou o acórdão recorrido.
h.1) Juízo de admissibilidade – após ensejada oportunidade ao recorrido de produzir suas contra-
razões, a autoridade competente deferirá ou indeferirá o processamento do recurso. O recurso
extraordinário e o especial serão recebidos apenas no efeito devolutivo (art. 542, § 2º do
CPC)165.
h.2) Se o despacho é positivo, os autos serão remetidos ao STF, onde se processará o recurso
segundo o disposto em seu Regimento Interno. Caso ocorra inadmissão, caberá agravo NOS
PRÓPRIOS AUTOS166, no prazo de 10 dias, para a Suprema Corte (art. 544 do CPC), sendo esse
agravo, excepcionalmente, dirigido ao Presidente do tribunal de origem (CPC, 544, § 2°). O
agravado será intimado, de imediato, para no prazo de 10 (dez) dias oferecer resposta (CPC,
art. 544, § 3º)167.
h.3) Inovações trazidas pela Lei 12.322/10 – antes da reforma o agravo por negativa de seguimento
de RE o REsp era denominado de agravo de instrumento. Após a reforma o recurso passa a ser
chamado apenas de “agravo”. A grande novidade, entretanto, não é a nova nomenclatura, mas a
desnecessidade de formação do instrumento, ou seja, o agravo passa a subir nos próprios autos
(não há necessidade de se extrair cópias do processo para formação de um novo auto
processual).
i) Recurso extraordinário retido – após intensos debates doutrinários e jurisprudenciais sobre o
cabimento de RE ou REsp contra acórdãos oriundos de decisões de agravo de instrumento
(serviçais do combate à decisões interlocutórias), dispôs expressamente o art. 542, § 3° do CPC,
após a reforma dada pela Lei n° 9.756/98: “O RE, ou REsp, quando interposto contra decisão

164
Acrescido pela EC n° 45/2004. A referida Emenda ainda acrescentou no mesmo art. 102 o § 3° que reza: “No recurso
extraordinário o recorrente deverá demonstrar a repercussão geral das questões constitucionais discutidas no caso, nos termos da
lei, a fim de que o Tribunal examine a admissão do recurso, somente podendo recusá-lo pela manifestação de dois terços de seus
membros”.
165
É pacífico o entendimento da possibilidade de proposição de ação cautelar incidente para gerar efeito suspensivo ao RE e ao
REsp. Com efeito, quanto ao órgão competente para análise e concessão de tais efeitos, deverão ser respeitadas as Súmulas 634 e
635 do STF. Súmula 634 do STF: “Não compete ao STF conceder medida cautelar para dar efeito suspensivo a RE que ainda não
foi objeto de juízo de admissibilidade na origem”. Súmula 635 do STF: “Cabe ao Presidente do Tribunal de origem decidir o pedido
de medida cautelar em RE ainda pendente do seu juízo de admissibilidade”.
166
Art. 544 do CPC, com redação dada pela Lei nº 12.322/10.
167
Chegando os autos do agravo ao Supremo, não será o recurso desde logo submetido ao julgamento coletivo. Caberá, de início, ao
Relator sorteado proferir decisão singular, provendo ou improvendo o recurso (art. 544, § 2º do CPC). Em seguida, os autos serão
remetidos à superior instância, observando-se o disposto no art. 543 deste Código e, no que couber, na Lei no11.672, de 8 de maio
de 2008. No Supremo Tribunal Federal e no Superior Tribunal de Justiça, o julgamento do agravo obedecerá ao disposto no
respectivo regimento interno, podendo o relator: I - não conhecer do agravo manifestamente inadmissível ou que não tenha atacado
especificamente os fundamentos da decisão agravada; II - conhecer do agravo para: a) negar-lhe provimento, se correta a decisão
que não admitiu o recurso; b) negar seguimento ao recurso manifestamente inadmissível, prejudicado ou em confronto com súmula
ou jurisprudência dominante no tribunal; c) dar provimento ao recurso, se o acórdão recorrido estiver em confronto com súmula ou
jurisprudência dominante no tribunal. Da decisão do relator que não conhecer do agravo, negar-lhe provimento ou decidir, desde
logo, o recurso não admitido na origem, caberá agravo, no prazo de 5 (cinco) dias, ao órgão competente, observado o disposto nos
§§ 1o e 2o do art. 557 (CPC, art. 545).

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interlocutória em processo de conhecimento, cautelar, ou embargos à execução ficará retido nos


autos e somente será processado se o reiterar a parte, no prazo para a interposição do recurso
contra a decisão final, ou para as contra-razões168”.
j) Repercussão geral – a Emenda Constitucional n° 45/04 - buscando fazer uma triagem entre os
recursos extraordinários, para só permitir a subida de recursos que tenham relevância para
coletividades - inseriu na sistemática brasileira a repercussão geral como requisito de
admissibilidade169 do recurso extraordinário. Recentemente, tal pressuposto recursal foi
regulamentado pela Lei n° 11.418/06. Com efeito, compreendeu-se como repercussão geral: I-
a existência, ou não, de questões relevantes do ponto de vista econômico, político, social ou
jurídico, que ultrapassem os interesses subjetivos da causa (art. 543-A, § 1°); ou II - sempre
que o recurso impugnar decisão contrária a súmula ou jurisprudência dominante do Tribunal
(art. 543-A, § 3°)170.
j.1) Procedimento – conforme dispõe o § 2° do art. 543-A do CPC, o recorrente deverá demonstrar,
em preliminar do recurso, para apreciação exclusiva do Supremo Tribunal Federal, a existência
da repercussão geral. Se a Turma decidir pela existência da repercussão geral por, no mínimo, 4
(quatro) votos, ficará dispensada a remessa do recurso ao Plenário (CPC, art. 543-A, § 4°).
Negada a existência da repercussão geral, a decisão valerá para todos os recursos sobre matéria
idêntica, que serão indeferidos liminarmente, salvo revisão da tese, tudo nos termos do
Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal (CPC, art. 543-A, § 5°). A Súmula da decisão
sobre a repercussão geral constará de ata, que será publicada no Diário Oficial e valerá como
acórdão (CPC, art. 543-A, § 7°).
j.2) Terceiros – o § 6o do art. 543-A permite ao Relator admitir, na análise da repercussão geral, a
manifestação de terceiros, subscrita por procurador habilitado, nos termos do Regimento Interno
do Supremo Tribunal Federal (a semelhança de um amicus curiae).
j.3) Incidência – o requisito da repercussão geral incide em todos os recursos extraordinários ainda
não julgados, ainda que interpostos antes da vigência da Lei 11.418/07 em 03.05.2007.
Conseqüentemente centenas de RE’s estão sendo devolvidos aos tribunais de origem para
complementação do requisito e/ou sobrestamento171.
j.4) Multiplicidade de recursos – quando houver multiplicidade de recursos com fundamento em
idêntica controvérsia, a análise da repercussão geral será processada nos termos do Regimento
Interno do Supremo Tribunal Federal (CPC, art. 543-B). Com efeito, caberá ao Tribunal de
origem selecionar um ou mais recursos representativos da controvérsia e encaminhá-los ao
Supremo Tribunal Federal, sobrestando os demais até o pronunciamento definitivo da Corte.
Negada a existência de repercussão geral, os recursos sobrestados considerar-se-ão
automaticamente não admitidos. Julgado o mérito do recurso extraordinário, os recursos
sobrestados serão apreciados pelos Tribunais, Turmas de Uniformização ou Turmas Recursais,

168
Como pressuposto de cabimento, deverá o recorrente exaurir todos os recursos possíveis contra a decisão interlocutória (ser
decisão final), antes da interposição do recuso excepcional retido.
169
O Supremo Tribunal Federal, em decisão irrecorrível, não conhecerá do recurso extraordinário, quando a questão constitucional
nele versada não oferecer repercussão geral, nos termos deste artigo (art. 543-A, caput).
170
A essência da repercussão geral é diminuir a subida de recursos extraordinários que gerem repercussão apenas para as partes
envolvidas. Atualmente, e infelizmente, o STF se vê sobrecarregado no controle difuso realizado com o julgamento dos recursos
extraordinários. Visando tornar este controle – inclusive após a regulamentação da súmula vinculante (Lei n° 11.417/06) – um
mecanismo de diminuição de demandas e de celeridade processual (assim como o faz no controle concentrado), o STF passa a exigir
a repercussão geral como pressuposto de admissibilidade recursal. Consiste, em linhas gerais, na exigência ao recorrente que este
demonstre que a inconstitucionalidade contida na decisão recorrida não apenas o afeta, mas ultrapassa o seu mero interesse
subjetivo e alcançam diversas outras demandas por ventura conexas à mesma inconstitucionalidade. Como são poucos ministros no
STF, infelizmente e racionalmente, estes deveriam se preocupar com as causas de relevância nacional e não com aquelas de menor
complexidade e/ou gravame social.
171
Ementa: “RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL DO TEMA. RECONHECIMENTO PELO PLENÁRIO. RECURSO
INTERPOSTO CONTRA ACÓRDÃO PUBLICADO ANTES DE 3.5.2007. IRRELEVÂNCIA. DEVOLUÇÃO DOS AUTOS AO TRIBUNAL DE
ORIGEM. APLICAÇÃO DO ART. 543-B DO CPC. Precedentes (AI nº 715.423-RS-QO, Rel. Min. ELLEN GRACIE, e RE n° 540.410-QO-
RS, Rel. Min. CEZAR PELUSO, j. em 20.8.2008). Aplica-se o disposto no art. 543-B do Código de Processo Civil aos recursos cujos
temas constitucionais apresentem repercussão geral reconhecida pelo Plenário, ainda que interpostos contra acórdãos publicados
antes de 3.5.2007”. (STF-2ª Turma, RE 294322-PR, rel. Min. Cezar Peluso, j. 02.09.08, v.u., DJe 182, 26.09.08)

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que poderão declará-los prejudicados ou retratar-se. Mantida a decisão e admitido o recurso,


poderá o Supremo Tribunal Federal, nos termos do Regimento Interno, cassar ou reformar,
liminarmente, o acórdão contrário à orientação firmada (CPC, art. 543-B, §§ 1° ao 4°).

1.12.8 Recurso especial (dispositivo legal, art. 105, III da CF):


a) Conceito – caberá recurso especial nas causas decididas em única ou última instância pelos TRF’s
ou pelos TJ’s, e nas três hipóteses do art. 105, III da CF.
b) Cabimento – está previsto no art. 105, III da CF:
b.1) contrariar tratado ou lei federal, ou negar-lhe vigência;
b.2) julgar válido ato de governo local contestado em face de lei federal172;
b.3) der à lei federal interpretação divergente da que lhe haja atribuído outro tribunal.
c) Finalidade – manutenção da autoridade e unidade da lei federal, tendo em vista que na
Federação existem múltiplos organismos judiciários encarregados de aplicar o direito positivo
elaborado pela União. Em outras palavras, só poderá ser usado o recurso especial (terá
cabimento) para resolver uma questão federal controvertida (através dele não se suscitam
questões de fato nem questões de direito local).
d) Forma – o recurso especial deve ser interposto por petição, com a exposição do fato e do direito;
a demonstração de cabimento do recurso interposto; e das razões do pedido de reforma da
decisão recorrida (art. 541 do CPC).
e) Prazo – o prazo para a interposição do recurso especial, bem como para responder, é de 15 dias
(art. 508 do CPC)173.
f) Preparo – com o advento da Lei n° 11.636/08, que dispôs sobre as custas judiciais devidas no
âmbito do Superior Tribunal de Justiça, o recurso especial passou a ter recolhimento de custas e
porte de remessa e de retorno dos autos.
g) Interposição – submete-se a mesma tramitação do RE, seja na instância de origem, seja da de
destino (art. 541 a 545 do CPC)174.
g.1) Concomitância na interposição do REsp e do RE – um só acórdão local pode incorrer tanto nas
hipóteses do recuso extraordinário como nas do recurso especial.
g.1.1) Quando isto se der, o prazo de quinze dias será comum para a interposição de ambos os
recursos, mas a parte terá de elaborar duas petições distintas (art. 541 e 543 do CPC).
g.1.2) Mesmo procedimento se dará quanto às contra-razões, e conseqüentemente, o Presidente ou
Vice-Presidente examinará separadamente os pressupostos de admissibilidade de cada
recurso175.
g.1.3) Admitidos ambos, os autos subirão primeiro ao STJ, para o julgamento do especial. Após
decidido este, é que haverá a remessa dos autos ao STF, para a apreciação do extraordinário,
salvo se este não estiver prejudicado pela solução do recurso especial.
g.1.4) O Relator do STJ pode entender que a matéria do recurso extraordinário seja prejudicial ao
especial. Permite-se, em tal conjuntura, o sobrestamento do recurso a cargo do STJ, com a
remessa dos autos ao STF, invertendo-se então a ordem de apreciação dos recursos (art. 543, §
2º do CPC). O Relator do STF não está subordinado a essa decisão (art. 543, § 3º do CPC).

172
Com redação dada pela EC/45.
173
Súmula 418 do STJ: “É inadmissível o recurso especial interposto antes da publicação do acórdão dos embargos de declaração,
sem posterior ratificação”.
174
No caso de REsp fundado em dissídio jurisprudencial, impõe o parágrafo único do art. 541 ao recorrente a necessidade de provar
a divergência, instruindo sua petição com certidão ou cópia autenticada, ou ainda utilizando citação de repositório de jurisprudência,
oficial ou credenciado, em que tiver sido publicada a decisão divergente, tudo seguido de menção as circunstâncias “que
identifiquem ou assemelhem os casos confrontados”.
175
Se ambos forem denegados, caberão agravo de instrumento, igualmente distintos, no prazo comum de dez dias, sendo um para
o STF e o outro para o STJ (art. 544 do CPC).

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g.2) Concomitância de embargos infringentes com a interposição do REsp e do RE – Deve ser


observado que nas hipóteses dos recursos destinados ao STJ e STF, deverão ser eles recursos de
última instância. Ou seja, se ainda há a possibilidade na instância de origem de algum recurso
ordinário (p. ex. embargos infringentes), não se pode manejar, por enquanto, o recurso
extraordinário ou o especial. Ocorre que em algumas hipóteses num só decisório podem coexistir
um julgamento final e outro não (art. 498 e 530 do CPC). Assim, p. ex. quanto à parte não
unânime terá a parte primeiro que manejar os embargos infringentes (somente após o
julgamento destes ter-se-á a decisão em última instância capaz de legitimar a utilização do RE e
do REsp)176.
h) REsp retido – segue a mesma disposição quanto ao RE retido (CPC, art. 542, § 3°).
i) REsp “por seleção”, “por amostragem” ou sobrestamento de recursos especiais em face da
multiplicidade de demandas (inovações da Lei n° 11.672/08) – quando houver multiplicidade de
recursos com fundamento em idêntica questão de direito, o recurso especial será processado nos
termos do art. 543-C177:
i.1) Seleção dos recursos especiais – ocorrendo a multiplicidade, caberá ao presidente ou vice-
presidente178 do tribunal de origem admitir um ou mais recursos representativos da controvérsia,
os quais serão encaminhados ao Superior Tribunal de Justiça, ficando suspensos os demais
recursos especiais até o pronunciamento definitivo do Superior Tribunal de Justiça (CPC, art.
543-C, § 1º). Caso não adotada a providência descrita, o relator no Superior Tribunal de Justiça,
ao identificar que sobre a controvérsia já existe jurisprudência dominante ou que a matéria já
está afeta ao colegiado, poderá determinar a suspensão, nos tribunais de segunda instância, dos
recursos nos quais a controvérsia esteja estabelecida (CPC, art. 543-C, § 2º)179.
i.2) Informações – o relator poderá solicitar informações, a serem prestadas no prazo de quinze dias,
aos tribunais federais ou estaduais a respeito da controvérsia (CPC, art. 543-C, § 3º).
i.3) Intervenção de terceiro ou amicus curiae – o relator, conforme dispuser o regimento interno do
Superior Tribunal de Justiça e considerando a relevância da matéria, poderá admitir
manifestação de pessoas, órgãos ou entidades com interesse na controvérsia180 (CPC, art. 543-
C, § 4°).

176
Quanto à contagem do prazo nessas hipóteses: a) o prazo para o extraordinário e o especial contra a parte não unânime do
acórdão local será sobrestado no tribunal a quo, até que se julguem os embargos infringentes contra a parte não unânime; b) o
sobrestamento durará até que sejam julgados os embargos e intimados as partes (art. 498, caput); c) o dies a quo para manejo do
especial ou extraordinário contra a parte unânime do primeiro acórdão se dá no momento em que o vencido for intimado do acórdão
dos embargos infringentes; d) se o vencido não embargar a parte não unânime, terá direito de contar o prazo para interpor o
especial ou o extraordinário contra a parte unânime a partir do trânsito em julgado do aresto tomado por maioria dos votos (CPC,
art. 498, parágrafo único). Aqui não haverá intimação para efeito de início de contagem de prazo recursal. Ocorrido o trânsito em
julgado da parte não unânime, automaticamente começará a contar o prazo do RE e do REsp contra a parte unânime. Esse recurso
que se permite fora do prazo normal somente pode se referir à parte unânime do acórdão local, porquanto em relação ao mais não
terá havido decisão final, ou em última instância, por falta dos infringentes, e assim incorrerá um dos requisitos constitucionais da
recorribilidade extrema.
177
Consiste em mecanismo similar ao que já se havia estabelecido antes no âmbito do STF, inicialmente apenas para os recursos
extraordinários contra decisões dos Juizados Especiais (Emenda 12/2003 ao Regimento Interno do STF) e depois para a
generalidade desses recursos (Lei n° 11.418/2006, que acrescentou o art. 543-B ao CPC).
178
Artigo 1° da Resolução n° 08 de 07 de agosto de 2008 do Superior Tribunal de Justiça.
179
Resolução n° 08/08 do STJ: Serão selecionados pelo menos um processo de cada Relator e, dentre esses, os que contiverem
maior diversidade de fundamentos no acórdão e de argumentos no recurso especial. O agrupamento de recursos repetitivos levará
em consideração apenas a questão central discutida, sempre que o exame desta possa tornar prejudicada a análise de outras
questões argüidas no mesmo recurso. A suspensão será certificada nos autos. A decisão do Relator será comunicada aos demais
Ministros e ao Presidente dos Tribunais de Justiça e dos Tribunais Regionais Federais, conforme o caso, para suspender os recursos
que versem sobre a mesma controvérsia.
180
Conforme lições de Eduardo Talamini, essa regra é de todo justificável quando se considera que o julgamento do recurso amostra
é apto a ter relevância que vai além do processo em que realizado. A lei não especifica qual o requisito para a participação dos
terceiros. Uma possível interpretação é no sentido de que tal regra equivalha àquela que, nos processos e incidentes de controle
direto de constitucionalidade, permite a manifestação de terceiros que demonstrem uma especial legitimidade e qualificação para
colaborar com subsídios na definição da questão, como amicus curiae (Lei 9.868/1999, art. 7º, § 2º; Lei 11.417/2006, art. 3º, § 2º;
CPC, art. 482, § 3º). Outra exegese, mais calcada na literalidade do art. 543-C, § 4º, é no sentido de que basta à “pessoa, órgão ou
entidade” demonstrar seu “interesse na controvérsia”. A solução mais adequada parece ser intermediária entre essas duas
concepções. Por um lado, a aferição da aptidão para intervir não pode ser tão objetiva, fundada estritamente na qualidade da

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i.4) Ministério Público – recebidas as informações e, se for o caso, após cumprido o disposto no § 4º,
terá vista o Ministério Público pelo prazo de quinze dias (CPC, art. 543-C, § 5º).
i.5) Procedimento – transcorrido o prazo para o Ministério Público e remetida cópia do relatório aos
demais Ministros, o processo será incluído em pauta na seção ou na Corte Especial, devendo ser
julgado com preferência sobre os demais feitos, ressalvados os que envolvam réu preso e os
pedidos de habeas corpus (CPC, art. 543-C, § 6º).
i.5.1) Denegação das causas múltiplas – publicado o acórdão do Superior Tribunal de Justiça, os
recursos especiais sobrestados na origem terão seguimento denegado na hipótese de o acórdão
recorrido coincidir com a orientação do Superior Tribunal de Justiça (CPC, art. 543-C, § 7º, I)181;
i.5.2 Retratação do juízo a quo – serão novamente examinados pelo tribunal de origem na hipótese de
o acórdão recorrido divergir da orientação do Superior Tribunal de Justiça (CPC, art. 543-C, § 7º,
II). Caso mantida a decisão divergente pelo tribunal de origem, far-se-á o exame de
admissibilidade do recurso especial (CPC, art. 543-C, § 8º)182.
i.6) Regulamentação – o Superior Tribunal de Justiça e os tribunais de segunda instância
regulamentarão, no âmbito de suas competências, os procedimentos relativos ao processamento
e julgamento do recurso especial nos casos previstos neste artigo (CPC, art. 543-C, § 9º).
1.12.8 Embargos admitidos perante o STJ e STF:
a) Aplicação – diante de acórdãos do STJ ou do STF, é possível, conforme o caso, manejarem-se
três tipos de embargos, a saber:
a.1) embargos de divergência (dispositivo legal, art. 546 do CPC)183;
a.2) embargos infringentes (Regimento interno, art. 260);
a.3) embargos de declaração (Regimento interno, art. 263).
b) Objeto – nos dois últimos, tem-se o mesmo objetivo comum já estudado. O primeiro cumpre
tarefa similar à uniformização da jurisprudência184.

MÓDULO IV – AÇÃO RESCISÓRIA

contribuição que o terceiro está potencialmente apto a dar, como ocorre nos processos e incidentes de controle de
constitucionalidade. Mas, por outro, também não parece viável admitir no processo, como amicus curiae, todo aquele que apenas
demonstre ser parte em outro processo em que há recurso sobre a mesma questão. Assim, em princípio, aqueles que comprovarem
essa condição de parte em outros processos podem ser admitidos como colaboradores de Corte, desde que demonstrem que têm
algum argumento útil, algum subsídio relevante para acrescentar à discussão já instaurada.
181
Resolução n° 08/08 do STJ: Art. 5º Publicado o acórdão do julgamento do recurso especial pela Seção ou pela Corte Especial, os
demais recursos especiais fundados em idêntica controvérsia: I – se já distribuídos, serão julgados pelo relator, nos termos do art.
557 do Código de Processo Civil; II – se ainda não distribuídos, serão julgados pela Presidência, nos termos da Resolução n. 3, de 17
de abril de 2008.
182
Resolução n° 08/08 do STJ: Art. 7º O procedimento estabelecido nesta Resolução aplica-se, no que couber, aos agravos de
instrumento interpostos contra decisão que não admitir recurso especial.
183
Súmula 168 do STJ: “Não cabem embargos de divergência, quando a jurisprudência do Tribunal se firmou no mesmo sentido do
acórdão embargado”. Súmula 315 do STJ: “Não cabem embargos de divergência no âmbito do agravo de instrumento que não
admite recurso especial”. Súmula 316 do STJ: “Cabem embargos de divergência contra acórdão que, em agravo regimental,
decide recurso especial”. A Súmula 599 do STF foi CANCELADA (STF-Pleno, AgRg no EDv no EDcl no AgRg no RE 285093, rel. Min.
Marco Aurélio, j. 26.04.07) que rezava: “São incabíveis embargos de divergência de decisão de turma, em agravo regimental”. Com
isso observa-se uma uniformização do entendimento do STF com o do STJ consoante a Súmula 316. Súmula 420 do STJ:
“Incabível, em embargos de divergência, discutir o valor de indenização por danos morais”.
184
A Lei n° 11.341/06 deu nova redação ao parágrafo único do art. 541 do CPC, permitindo a comprovação da divergência através
de decisões obtidas pela internet: “Art. 541. (...) Parágrafo único. Quando o recurso fundar-se em dissídio jurisprudencial, o
recorrente fará a prova da divergência mediante certidão, cópia autenticada ou pela citação do repositório de jurisprudência, oficial
ou credenciado, inclusive em mídia eletrônica, em que tiver sido publicada a decisão divergente, ou ainda pela reprodução de
julgado disponível na Internet, com indicação da respectiva fonte, mencionando, em qualquer caso, as circunstâncias que
identifiquem ou assemelhem os casos confrontados”.

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1. AÇÃO RESCISÓRIA
1.1 Intróito – a sentença pode ser atacada por dois remédios processuais distintos: pelos recursos e
pela ação rescisória. O que caracteriza o recurso é ser uma impugnação dentro da mesma
relação jurídica processual, só cabendo recurso enquanto não transita em julgado a sentença.
Operada a coisa julgada a sentença torna-se imutável e indiscutível para as partes do processo
(CPC, art. 467). Entretanto, quando ocorrer nulidade, por uma das razões qualificadas em lei,
concede-se ao interessado ação para pleitear a ‘declaração’ de nulidade. Surge a ação rescisória
para atacar, diferentemente do recurso, a res iudicata.
1.2 Conceito – é a ação por meio da qual se pedem a desconstituição de sentença185 trânsita em
julgado, com eventual rejulgamento, a seguir, da matéria nela julgada.
1.3 Natureza jurídica da sentença e da ação – não se trata de sentença nula ou anulável, pois está
válida e plenamente eficaz em face do manto da coisa julgada. Mas sim de sentença passível de
ser rescindida. Quanto à ação, é pacífico na doutrina e na jurisprudência que a ação rescisória é
ação de conhecimento, constitutiva negativa, ou seja, típica ação desconstitutiva, em face da
decisão que visa rescindir.
1.4 Pressupostos e cabimento – além dos pressupostos comuns a qualquer ação, a rescisória para
ser admitida pressupõe dois fatos básicos indispensáveis:
a) uma sentença de mérito transitada em julgado;
b) a invocação de algum dos motivos de rescindibilidade dos julgados taxativamente previstos no
art. 485 do CPC (por sentença de mérito entenda as enumeradas no art. 269 do CPC,
observando sempre, quanto a outros casos, o conteúdo da decisão)186. São hipóteses de
cabimento da ação rescisória (CPC, art. 485):
b.1) se verificar que foi dada por prevaricação, concussão ou corrupção do juiz187;
b.2) proferida por juiz impedido ou absolutamente incompetente;
b.3) resultar de dolo da parte vencedora em detrimento da parte vencida, ou de colusão entre as
partes, a fim de fraudar a lei;
b.4) ofender a coisa julgada188;
b.5) violar literal disposição de lei189;

185
Conquanto o art. 485 se refira “a ‘sentença de mérito’, é ponto pacífico na doutrina e jurisprudência que a expressão ‘sentença’ aí
utilizada tem sentido amplo, de modo a abranger os ‘acórdãos’” (RSTJ 6/55).
186
Observe-se que não existe necessidade de esgotamento da esfera recursal. Com efeito, não é óbice para cabimento da ação
rescisória que a parte, por qualquer motivo, não tenha esgotado todos os recursos eventualmente cabíveis da decisão que pretende
rescindir. Nesse sentido a Súmula 514 do STF: “Admite-se ação rescisória contra sentença transitada em julgado, ainda que contra
ela não se tenham esgotados todos os recursos”.
187
A doutrina e a jurisprudência são uníssonas quanto à desnecessidade de se aguardar eventuais persecuções criminais para o
ajuizamento da ação rescisória. Independentemente, pois, da declaração judicial de que o juiz cometeu qualquer um daqueles
crimes, tem cabimento à ação rescisória. O deslinde penal não é questão prejudicial da rescisória, portanto.
188
Embora a lei e o sistema processual tenham sido cuidadosos a respeito do tema, pode ocorrer que uma segunda ação que
reproduz ação em curso venha a ser julgada em primeiro lugar. É dizer: ação idêntica a outra é ajuizada e, por qualquer motivo,
acaba recebendo julgamento de mérito em primeiro lugar. Pela não interposição de recursos ou porque interpostos todos os
cabíveis, transita em julgado. Assim, qual sentença será passível da rescisão à luz do dispositivo em tela? Dada à proteção
constitucional da coisa julgada (CF, art. 5°, XXXVI), parece mais acertada a corrente que sustenta o prevalecimento da primeira
coisa julgada, independentemente de ela decorrer do julgamento de mérito da ação proposta em primeiro ou em segundo lugar.
189
Doutrina e jurisprudência não divergem quanto à ampla abrangência que deve ser dada ao termo lei referido no inciso V do art.
485 do CPC. Lei, tal qual empregada no dispositivo, é sinônimo de norma jurídica, independente de seu escalão. Isto é, tanto pode
se conceber a rescisória para impugnar decisão que violou a Constituição, leis propriamente ditas (incluindo as medidas provisórias,
que têm força de lei), bem assim atos infralegais como decretos e regulamentos. O que será indispensável compreender é o
significado de violação literal. Com efeito, esclarecedora é a Súmula 343 do STF: “Não cabe ação rescisória contra ofensa a literal
dispositivo de lei, quando a decisão rescindenda se tiver baseado em texto legal de interpretação controvertida nos tribunais”.
Assim, para fins de rescisória, ainda hoje, prevalece o entendimento consagrado na jurisprudência do STF. É dizer: desde que, à
época do julgamento que se pretende rescindir, havia controvérsia nos tribunais acerca da correta interpretação da norma jurídica
que embasa a decisão, a rescisória deve ser afastada. A única ressalva de aplicação da precitada Súmula 343 do STF diz respeito à

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b.6) se fundar em prova, cuja falsidade tenha sido apurada em processo criminal ou seja provada na
própria ação rescisória;
b.7) depois da sentença, o autor obtiver documento novo, cuja existência ignorava, ou de que não
pode fazer uso, capaz, por si só, de lhe assegurar pronunciamento favorável;
b.8) houver fundamento para invalidar confissão, desistência ou transação, em que se baseou a
sentença;
b.9) fundada em erro de fato, resultante de atos ou de documentos da causa190.
1.5 Legitimação – são partes legítimas para propor a rescisória:
a) quem foi parte no processo ou seu sucessor a título universal ou singular;
b) o terceiro juridicamente interessado;
c) O MP, nos casos de omissão de sua audiência, quando era obrigatória sua intervenção, e quando
a sentença é o efeito de colusão das partes, a fim de fraudar a lei (art. 487 do CPC)191.
1.6 Processamento:
a) Petição inicial – deve satisfazer às exigências comuns de toda petição inicial (art. 282 do CPC), e
será endereçada conforme a origem da decisão que se pretende rescindir. Os tribunais em regra
possuem a competência originária para rescindir seus próprios julgados. Observe-se que, no
caso de sentença de juiz de 1º grau, a ação rescisória será endereçada ao tribunal de 2° grau
competente. Outrossim, o art 488 do CPC exige ainda:
a.1) cumular ao pedido de rescisão, se for o caso, o de novo julgamento da causa (hipóteses do art.
485, I e II)192;
a.2) depositar a importância de 5% sobre o valor da causa, a título de multa, caso a ação seja, por
unanimidade de votos, declarada inadmissível ou improcedente193. Verificada essa situação, a
multa se reverterá em favor do réu. Sendo procedente, ou não unânime, terá o direito de
reembolso (art. 494 do CPC).
b) Defesa – estando a petição inicial em ordem, será o réu citado para se defender (o prazo de
resposta do réu é fixado pelo relator, mas não poderá ser inferior a 15 dias nem superior a 30
dias – art. 491 do CPC)194.
c) Rito – o rito da ação será o ordinário.
d) Provas – quanto a produção de provas fáticas, será limitada ao disposto no art. 492 do CPC.
e) Decisões – excetuado o saneador, que ocorram no processo deverão ser submetidas ao
colegiado. A disposição sobre as sessões de julgamento, em regra, encontram-se nos regimentos
internos de cada tribunal (CPC, art. 493, II).

divergência de interpretação de normas constitucionais. Nesses casos, a jurisprudência majoritária, inclusive dos Tribunais
Superiores, é no sentido de não-aplicação da Súmula, admitindo-se, pois, a rescisória sempre que o fundamento de seu ajuizamento
diga respeito à escorreita aplicação da norma constitucional (Súmula 63 do TRF da 4ª Região: “Não é aplicável a Súmula 343 do STF
nas ações rescisórias versando matéria constitucional”).
190
Há erro, quando a sentença admitir um fato inexistente, ou quando considerar inexistente um fato efetivamente ocorrido. É
indispensável, num como noutro caso, que não tenha havido controvérsia, nem pronunciamento judicial sobre o fato.
191
Não obstante a aparente rigidez do art. 487, III, o MP tem legitimidade para a rescisória para a tutela de qualquer direito ou
interesse indisponível, mercê de sua finalidade institucional garantida no art. 127, caput, da CF.
192
Os pedidos poderão ser: judicium rescindens (juízo rescindendo) e judicium rescissorium (juízo rescisório). Assim, é possível que
na ação rescisória sejam cumulados dois pedidos sucessivamente: o de desconstituição (anulação) da decisão trânsita em julgado
(juízo rescindendo) e, superada esta fase, do proferimento de nova decisão (juízo rescisório). Outrossim, o juízo rescisório nem
sempre poderá ser cumulado, haja vista, por exemplo, as hipóteses dos incisos IV; e da parte final do inciso II, ambas do art. 485
do CPC.
193
A União, os Estados ou os Municípios, bem como ao MP e os beneficiários da justiça gratuita não estão sujeitos a esse depósito. A
tendência da jurisprudência é também estender esses efeitos as autarquias e fundações públicas.
194
Mesmo no silêncio da lei, o MP deverá ser ouvido.

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1.7 Prazo – dois anos, contados do trânsito em julgado da decisão rescindenda (art. 495 do CPC)195.
Trata-se de prazo decadencial e, portanto, não se suspende, nem se prorroga. Assim, se o prazo
se encerrar em dia que não há expediente forense, mister que o ajuizamento da ação rescisória
seja antecipado, sob pena de ser intempestiva.
1.8 Execução da sentença rescindenda – a proposição da rescisória não gera nenhuma conseqüência
sobre a exeqüibilidade da sentença impugnada (CPC, art. 489). Vem-se, contudo, admitindo nos
casos de gravidade acentuada a antecipação de tutela para suspender a sentença impugnada, ou
proposição de ação cautelar inominada para a produção do efeito suspensivo. Com efeito, esse
entendimento restou-se consolidado com a nova redação do art. 489 do CPC, dado pela Lei n°
11.280/06: “O ajuizamento da ação rescisória não impede o cumprimento da sentença ou
acórdão rescindendo, ressalvada a concessão, caso imprescindíveis e sob os pressupostos
previstos em lei, de medidas de natureza cautelar ou antecipatória de tutela.”
1.9 A rescisória e os direitos adquiridos por terceiro de boa-fé – se o bem ou o direito a restituir já
não mais se encontra na titularidade da parte do negócio anulado, mas foi transferido a terceiro
de boa-fé, a rescisão se resolve em perdas e danos.
1.10 Ação rescisória de ação rescisória – o sistema processual brasileiro admite o ajuizamento de
nova ação rescisória promovida com o objetivo de desconstituir decisão proferida no julgamento
de outra ação rescisória. A via excepcional da rescisão do julgamento, contudo, não pode ser
utilizada com o propósito de reintroduzir, no âmbito de nova ação rescisória, a mesma discussão
já apreciada, definitivamente, em anterior processo rescisório196.

MÓDULO V – PROCESSO DE EXECUÇÃO E CUMPRIMENTO DE


SENTENÇA

1. INTRÓITO
Com o advento da Lei n° 11.232/05 e em seguida a Lei n° 11.382/06 restou-se profundamente
modificado o sistema executivo brasileiro.
a) Cumprimento da sentença (Lei n° 11.232/05) – quando se tratar de sentença (título executivo
judicial), a sistemática sincrética que já existia nas obrigações de fazer; não fazer; e entrega de
coisa (arts. 461 e 461-A do CPC), também será aplicada nas obrigações de pagar quantia certa.
Assim, em vez de se falar em um novo processo de execução (independente do processo de
conhecimento, com necessidade de nova citação), passa-se a falar do cumprimento de sentença.
Este consistiria num ato contínuo da tutela jurisdicional (sem a necessidade de uma nova
citação, mas apenas uma intimação do devedor para cumprir a sentença), pois a tutela
jurisdicional só se encerra com a efetiva realização do direito (medida executada) e não com a
prolação da sentença de mérito197.
b) Execução de título extrajudicial (Lei n° 11.382/06) – a execução fundada em título executivo
extrajudicial teve sua sistemática aperfeiçoada em diversos pontos após o advento da Lei n°
11.382/06. Dentre eles podem-se citar: a) aumento dos poderes do oficial de justiça (arts. 143,
V; 652 § 1° e 680); b) reconhecimento ao advogado de poderes para declarar a autenticidade de
cópias reprográficas de peças do processo (art. 365, IV), já objeto da Lei 10.352/01; c)
possibilidade de o exeqüente mandar averbar no cartório competente a existência do processo
de execução, para se lhe dê ampla publicidade, evitando futuras alegações de aquisição de boa-
fé dos bens do executado (art. 615-A); d) acréscimo de nova modalidade de expropriação dos

195
Súmula 401 do STJ (Prazo): “O prazo decadencial da ação rescisória só se inicia quando não for cabível qualquer recurso do
último pronunciamento judicial”.
196
STF – Pleno, AR 1.279-8-PR-Edcl, rel. Min. Celso de Mello, j. 20.02.02, negaram provimento, v.u., DJU 13.09.02, p. 63.
197
Observar nova redação dada pela Lei n° 11.232/05 aos arts. 162, § 1° e 269 do CPC.

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bens do executado, qual seja a alienação por iniciativa particular (art. 647, II); e) modificação
da ordem de efetivação da penhora, fazendo expressa referência a penhora de percentual de
faturamento da empresa devedora (art. 655, VII); f) atualização da ordem de preferência dos
bens que se submetem à penhora (art. 655); g) instituição da penhora on-line (art. 655-A,
caput, § 1°), que possibilitará ao juiz requisitar ao Banco Central informações sobre a existência
de ativos em nome do executado, podendo, no mesmo ato, determinar sua indisponibilidade até
o valor indicado na execução; h) modificação das regras referentes à penhora e faturamento de
empresas (art. 655-A, § 3°), dispondo que será nomeado depositário com a atribuição de
submeter à aprovação judicial a forma de efetivação da constrição, bem como de prestar contas
mensalmente, entregando ao exeqüente as quantias recebidas, a fim de serem imputadas no
pagamento da dívida; i) consagração da adjudicação e da alienação por iniciativa particular,
como formas preferenciais de expropriação dos bens do devedor (art. 686, caput), em
contraposição ao sistema atual, em que a hasta pública é a forma preferencial de expropriação;
j) possibilidade de substituição do procedimento de alienação em hasta pública por alienação
pela rede mundial de computadores (internet), a ser regulamentada pelos tribunais e pelo
Conselho da Justiça Federal (art. 689-A); l) estabelecimento de nova disciplina para os embargos
à execução (arts. 736, 738, 739, 739-A, 740, 745 e 745-A), dispensada a garantia de juízo para
seu manejo, quando o executado não tenha bens penhoráveis, retirando o efeito suspensivo dos
embargos como regra geral; e m) criação de uma espécie de injunção (monitória), autorizando o
executado a depositar 30% (trinta por cento) do valor da execução e a requerer o seu
parcelamento do restante em até 06 (seis) prestações mensais, quando houver reconhecimento
do crédito constante do título executivo (art. 745-A, caput)198. Todos esses temas serão
pormenorizados nos tópicos que se seguem.
1.1 Processo de conhecimento x processo de execução:
a) Finalidades – enquanto no processo de conhecimento o juiz examina a lide para descobrir e
formular a regra jurídica que deve regular o caso; no processo de execução o juiz providencia as
operações necessárias para efetivar o comando daquela regra formulada no processo de
conhecimento.
b) Diferenças – o processo de conhecimento visa pesquisar o direito dos litigantes, ao passo que o
processo de execução parte justamente da certeza do direito do credor, atestada pelo título
executivo.
c) Conseqüências:
c.1) o processo de conhecimento é um processo de sentença. Nele o juiz julga;
c.2) o processo de execução é um processo de coação. Nele o juiz executa (realiza o direito contido
do título executivo);
c.3) a doutrina afirma que não há decisão de mérito na ação de execução, e que o processo de
execução não é contraditório.
1.2 Execução forçada x execução voluntária – somente quando o obrigado não cumpre
voluntariamente a obrigação (execução voluntária = adimplemento199), é que cabe ao Estado
promover, em substituição ao devedor, a satisfação da prestação a que tem direito o credor,
mesmo sem a colaboração do devedor e até contra sua vontade (execução forçada, art.566,
CPC).
1.3 Autonomia do Processo (tutela) de Execução – não se pode afirmar que o processo (tutela) de
execução é uma conseqüência necessária do processo de conhecimento, porque:
a) nem todo processo que se inicia com tutela de conhecimento tem como conseqüência uma
execução forçada;

198
CARREIRA ALVIN, J. E.; CABRAL, Luciana G. Carreira Alvin. Nova execução de título extrajudicial. Curitiba : Juruá, 2007, p. 09-
10.
199
Observe-se prazo estabelecido no art. 475-J do CPC.

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b) nem toda execução forçada tem como pressuposto uma sentença condenatória obtida em
anterior processo de conhecimento (p. ex.: títulos extrajudiciais, conforme art. 585 do CPC);
c) as tutelas de cognição e execução podem correr ao mesmo tempo, paralelamente, como se
passa na hipótese de execução provisória (art. 475-O, CPC).
1.4 Das várias formas de execução – a execução realiza-se segundo diversos procedimentos,
variando de acordo com a natureza da prestação assegurada ao credor pelo título executivo,
quais sejam:
a) execução para entrega de coisa fundada em título judicial (art. 461-A do CPC); ou em título
extrajudicial, com ritos especiais para prestação de coisa certa (arts. 621 a 628 do CPC) e de
coisa incerta (arts. 629 a 631 do CPC);
b) execução das obrigações de fazer e não fazer fundada em título judicial (art. 461 do CPC); ou
em fundada em título extrajudicial (fazer - arts. 632 a 638, e 645 do CPC; e não fazer - arts.
642 a 643, e 645 do CPC);
c) execução por quantia certa fundada em título judicial (arts. 475-J e seguintes); e fundada em
título extrajudicial (art. 646 e seguintes do CPC), com destaque para a execução contra a
Fazenda Pública (art. 730 e 731 do CPC) e execução de prestações de alimentos (arts. 732 a 735
do CPC);
d) execução coletiva (ou chamada de “insolvência/falência civil”);
e) execução fiscal.

2. PRINCÍPIOS INFORMATIVOS DO PROCESSO DE EXECUÇÃO:


Importância do tema – os princípios gerais da prestação jurisdicional executiva são princípios
fundamentais (pois foram adotados pelo sistema jurídico por opção política e ideológica) que
devem ser aplicados ao processo de execução como um todo, devendo estes suprir as ausências
que, por ventura, existam nas regras expressas, bem como orientar na aplicação e interpretação
destas. Vejamos, portanto, os que a doutrina costuma apontar como sendo os princípios
informativos da execução forçada.
a) Toda execução é real – a atividade jurisdicional executiva incide, direta e exclusivamente, sobre
o patrimônio e não sobre a pessoa do devedor (salvo os casos excepcionais da prisão do devedor
de alimentos e do depositário infiel, art. 5°, LXVII da CF e art. 591 do CPC). Em decorrência
disso, deve ser suspenso o processo de execução quando o devedor não dispõe de bens
patrimoniais exeqüíveis (art. 791, III, do CPC).
b) A execução tende apenas à satisfação do direito do credor – a atividade jurisdicional executiva
deve incidir não sobre todos os bens do devedor, mas apenas sobre porção indispensável para a
realização do direito do credor, ou seja, para o pagamento do principal, juros, custas e
honorários advocatícios (art. 659 e 692, parágrafo único do CPC).
c) Princípio da utilidade da execução – a execução deve ser útil ao credor, não se permitindo a sua
transformação em mero instrumento de castigo ou sacrifício do devedor. Conseqüências: arts.
659, § 2° e 692 do CPC.
d) Princípio da economia da execução – toda execução deve ser econômica, isto é, deve ser
realizada da forma que, satisfazendo do direito do credor, seja o menos prejudicial possível ao
devedor (art. 620 do CPC).
e) Princípio da especificidade da execução – a execução deve ser específica, isto é, deve propiciar
ao credor, na medida do possível, precisamente aquilo que obteria se a obrigação tivesse sido
cumprida pessoalmente e espontaneamente pelo devedor. No caso de impossibilidade, ver arts.
627 e 633 do CPC.

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f) Princípio do ônus da execução – a execução deve ocorrer às expensas do devedor, ou seja, todas
as despesas da execução forçada são encargos do devedor, de sorte que este só se libertará da
obrigação se reparar, além da dívida principal, todos os prejuízos que a sua mora houver
acarretado ao credor, compreendidos nestes os juros, atualização monetária e honorários
advocatícios (arts. 651 e 659 do CPC).
g) Princípio do respeito à dignidade humana – a execução não deve levar o executado a uma
situação incompatível com a dignidade humana. Neste sentido, instituiu o CPC a
impenhorabilidade de certos bens como provisões de alimentos, salários, instrumentos de
trabalho, pensões, seguro de vida (art. 649 do CPC).
h) Princípio da disponibilidade da execução – o credor tem a livre disponibilidade do processo de
execução, tendo este a faculdade de desistir de toda a execução ou de apenas algumas medidas
executivas, sem qualquer dependência de anuência da parte executada (art. 569 do CPC). Com
a desistência, o credor assume o ônus das custas e, se houver embargos, também os honorários
advocatícios. No entanto, devem ser observadas algumas regras:
h.1) enquanto não embargada a execução, é o exeqüente senhor do seu crédito, e dele pode desistir,
parcial ou totalmente, sem depender da anuência do devedor;
h.2) pode alterar o pedido, sem anuência do devedor, mesmo depois da citação;
h.3) se vários são os co-executados, cabe ao credor o poder de desistir, a qualquer tempo, em
relação a um ou a alguns deles;
h.4) com relação ao destino dos embargos do devedor, após a desistência da execução, observar o
que dispõe o art. 569 do CPC:
h.4.1) serão extintos os embargos que versarem apenas sobre questões processuais, pagando o credor
às custas e os honorários advocatícios;
h.4.2) nos demais casos, a extinção dependerá da concordância do embargante.

3. REQUISITOS PARA REALIZAR QUALQUER EXECUÇÃO:


3.1 Pressupostos processuais e condições da ação executiva – sendo a execução forçada de título
extrajudicial uma forma de ação, o seu exercício sofre subordinação aos pressupostos
processuais e às condições da ação. Com relação aos pressupostos processuais da execução, se
reclamam a capacidade das partes, a regular representação nos autos por advogado, a
competência do órgão judicial e o procedimento legal compatível com o tipo de pretensão
executiva. Já com relação às condições da ação, para a execução forçada prevalecem as mesmas
condições genéricas de todas as ações. Além disso, podemos dizer que a execução forçada exige
alguns pressupostos e condições específicas, ou seja, a conjugação de dois requisitos básicos e
indispensáveis para o processo de execução e que são:
a) o formal – que é a existência do título executivo, pelo qual se extrai o atestado de certeza e
liquidez da dívida (CPC, art. 580200);
b) o prático – que é a atitude ilícita do devedor, consistente no inadimplemento da obrigação, que
comprova a exigibilidade da dívida (CPC, art. 580).
3.2 O título executivo e sua função – em toda a doutrina e na maioria dos textos dos Códigos está
expresso a regra fundamental da nulla executio sine titulo, isto é, nenhuma execução forçada é
cabível sem o título executivo que lhe sirva de base (CPC, art. 580). Em conseqüência dessa
regra, o título executivo assume, no processo de execução, uma tríplice função (Rosenberg),
quais sejam:
a) a de autorizar a execução – porque não é admissível execução que não se baseie em título
executivo;

200
O caput do art. 580 teve sua redação alterada pela Lei n° 11.382/06; que também revogou o art. 583 do CPC.

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b) a de definir o fim da execução – porque é ele que revela qual foi a obrigação contraída pelo
devedor e qual a sanção que corresponde a seu inadimplemento, apontando o fim a ser
alcançado no procedimento executivo;
c) a de fixar os limites da execução – assim, o conteúdo da obrigação, o seu valor ou seu objeto, os
seus acessórios, quem responde pela dívida, quem pode exigi-la, tudo isto há de se definir pelo
título executivo.
3.3 Efeito prático do título executivo – representa o “acertamento de um crédito”, do qual promana a
certeza necessária para autorizar o Estado a desenvolver o processo onde a sanção se
concretiza, em beneficio do credor e a expensas do devedor.
3.4 Requisitos do título executivo – certeza, liquidez e exigibilidade (art. 586, CPC):
a) certeza – ocorre quando, em face do título, não há controvérsia sobre sua existência. Decorre
normalmente da perfeição formal em face da lei que o instituiu e da ausência de reservas à sua
plena eficácia. A certeza é resultante de documento judicial ou de outros documentos que a lei
equipare à sentença condenatória (títulos executivos extrajudiciais). Toda fonte de convicção ou
certeza deve se concentrar no título executivo;
b) liquidez – ocorre quando é determinada a importância da prestação (quantum);
c) exigibilidade – ocorre quando o seu pagamento não depende de termo ou condição, nem está
sujeito a outras limitações.
3.5 Formas dos títulos executivos – sob o aspecto formal, os títulos podem ser assim classificados:
a) Títulos executivos judiciais – o original da sentença contido no bojo dos autos da ação de
conhecimento (tanto na condenação como na homologação de acordos), onde também se
desenvolverá a atividade executiva (cumprimento da sentença), no caso de execução definitiva
(art. 475-I, § 1° do CPC). A enumeração taxativa do art. 475-N do CPC, dispõe quais são os
títulos executivos classificados como judiciais, tendo todos eles uma característica comum, que é
a autoridade da coisa julgada, e por isso limita muito o campo da eventual impugnação
(somente as matérias elencadas no art. 475-L do CPC) e são eles:
a.1) a sentença proferida no processo civil que reconheça a existência de obrigação de fazer, não
fazer, entregar coisa ou pagar quantia;
a.2) a sentença penal condenatória transitada em julgado;
a.3) a sentença homologatória de conciliação ou de transação, ainda que inclua matéria não posta em
juízo;
a.4) a sentença arbitral;
a.5) o acordo extrajudicial, de qualquer natureza, homologado judicialmente201;
a.6) a sentença estrangeira, homologada pelo Superior Tribunal de Justiça;
a.7) o formal e a certidão de partilha, exclusivamente em relação ao inventariante, aos herdeiros e
aos sucessores a título singular ou universal202.
b) Títulos executivos extrajudiciais – documentos extrajudiciais públicos ou particulares, sempre
sob a forma escrita, a que a lei reconhecer a eficácia executiva. Somente os documentos
descritos em lei é que tem força executiva. A enumeração taxativa do art. 585 do CPC dispõe
que são títulos executivos extrajudiciais:
b.1) a letra de câmbio, a nota promissória, a duplicata, a debênture e o cheque;

201
Inovação da Lei n° 11.232/05, o dispositivo denota a preocupação em estimular e prestigiar as modalidades de autocomposição.
Emprestam-se ao negócio dos interessados o valor e a dignidade da sentença judiciária. Quanto ao conteúdo do ‘acordo’, conforme
esclarece Araken de Assis, é o mais largo e variável possível. Admite-se a transação, renúncia ou outro conteúdo. Mas, a eficácia
executiva dependerá da circunstância de um dos figurantes assumir o dever de prestar ao outro.
202
Conforme dispõe o parágrafo único do art. 475-N, nos casos das letras a.2; a.4 e a.6, o mandado inicial (art. 475-J) incluirá a
ordem de citação do devedor, no juízo cível, para liquidação ou execução, conforme o caso.

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b.2) a escritura pública ou outro documento público assinado pelo devedor, o documento particular
assinado pelo devedor e por duas testemunhas, o instrumento de transação referendado pelo
MP, pela Defensoria Pública ou pelos advogados dos transatores;
b.3) os contratos garantidos por hipoteca, penhor, anticrese e caução, bem como os de seguro de
vida203;
b.4) o crédito decorrente de foro e laudêmio;
b.5) o crédito, documentalmente comprovado, decorrente de aluguel de imóvel, bem como de
encargos acessórios, tais como taxas e despesas de condomínio204;
b.6) o crédito de serventuário de justiça, de perito, de intérprete, ou de tradutor, quando as custas,
emolumentos ou honorários forem aprovados por decisão judicial205;
b.7) a certidão de dívida ativa da Fazenda Pública da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos
Territórios e dos Municípios, correspondente aos créditos inscritos na forma da lei206;
b.8) todos os demais títulos a que, por disposição expressa, a lei atribuir força executiva207.
c) Certidão da sentença – quando a execução é provisória, isto é, quando a sentença que julga a
ação de conhecimento for impugnada mediante recurso, recebido só no efeito devolutivo, caso
este em que a execução correrá nos autos suplementares (o que se conhecia pela antiga práxis
de ‘carta de sentença’ - arts. 475-I, §1° e 475-O do CPC);
3.6 O inadimplemento do devedor – a situação de fato que dá lugar à execução consiste sempre na
falta de cumprimento de uma obrigação por parte do obrigado. Considera-se inadimplente o
devedor que não cumpriu, na forma e no tempo devidos, o que lhe competia segundo a
obrigação pactuada. Relaciona-se a idéia de inadimplemento com a de exigibilidade da
prestação, de maneira que, enquanto não vencido o débito, não se pode falar em
descumprimento da obrigação do devedor. Para os títulos judiciais, só se pode falar em
inadimplemento após o trânsito em julgado e a liquidação da condenação, se for o caso. Já para
os títulos extrajudiciais, não se tratando de obrigação à vista, o inadimplemento se dá após a
ultrapassagem do termo ou verificação da condição suspensiva.
3.7 Das partes na execução – as partes ativas e passivas são chamadas tradicionalmente no
processo de execução (ou no cumprimento da sentença) de exeqüente (credor) e executado
(devedor). O CPC, no entanto, prefere denominá-las simplesmente de credor e devedor, o que,
todavia, não importa banir da linguagem doutrinária e forense as expressões tradicionais de
exeqüente e de executado, mesmo porque mais significativas do que aquelas eleitas pela
nomenclatura legal:
a) sujeitos ativos – o CPC cuida da legitimação para propor a execução forçada em seus arts. 566 e
567:
a.1) Legitimação ativa originária do credor – no art. 566, I do CPC, tem-se a legitimação originária,
ou seja, aquele que decorre do conteúdo do próprio título executivo e compreende o credor a
quem a lei confere título executivo. Com efeito, a legitimação das partes será extraída, quase
sempre, do próprio conteúdo do título. Assim, no título judicial, credor ou exeqüente será o

203
Como alerta Carreira Alvin (p. 22), a Lei n° 11.382/06 ao alterar a redação do inciso III do art. 585 deixou de contemplar o
seguro de acidentes pessoais (o que andou mal) e suprimiu a restrição relativa ao resultado morte ou incapacidade (o que andou
bem), mas veio a dar o tratamento de título executivo apenas ao seguro de vida, o que também não se justifica, na medida em que
as apólices de seguro, sendo documentos escritos, oferecem a necessária segurança, qualquer que seja o seu objeto, pelo que
poderiam todas ser consideradas como título executivo.
204
Com a Lei n° 11.382/06, o antigo inciso IV foi desmembrado em dois incisos (atuais incisos IV e V do CPC). A alteração que
recebeu o atual inciso V não representa nenhuma mudança significativa quanto ao seu conteúdo.
205
Este preceito – em face da Lei n° 11.382/06 – apenas mudou de lugar.
206
Também no inciso VII houve somente mudança de lugar (era o antigo inciso VI).
207
Assim como nos anteriores, este inciso teve apenas alterada sua localização.

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vencedor da causa, como tal apontado na sentença. E, no título extrajudicial, será a pessoa em
favor de quem se contraiu a obrigação208;
a.2) Legitimação extraordinária do Ministério Público (art. 566, II do CPC) – para os casos prescritos
em lei. Atente-se que o MP ora funciona como órgão agente (art. 81 do CPC), ora como órgão
interveniente (art. 82 do CPC). No processo executivo (ou no cumprimento da sentença), sua
legitimação ativa ocorrerá em regra nas hipóteses em que figure como órgão agente (art. 81 do
CPC).
a.3) Legitimação derivada (superveniente) – o art. 567 do CPC completa o elenco das pessoas
legitimadas ativamente para a execução forçada, arrolando os casos em que estranhos à
formação do título executivo tornaram-se, posteriormente, sucessores do credor, assumindo, por
isso, a posição que lhe competia no vinculo obrigacional primitivo. Assim, a legitimação derivada
ou superveniente compreende:
a.3.1) o espólio209, os herdeiros210 ou os sucessores211 do credor, sempre que, por morte212;
a.3.2) o cessionário213, quando o direito resultante do título executivo lhe foi transferido por ato entre
vivos;
a.3.2) o sub-rogado214, nos casos de sub-rogação legal ou convencional.
b) sujeitos passivos – dentro da sistemática do art. 568 do CPC, a legitimação passiva pode ser
dividida em: devedores originários; sucessores do devedor originário; e os apenas responsáveis.
b.1) devedores215 originários – o devedor, reconhecido como tal no título executivo. Se se trata de
execução de sentença, o executado será o vencido no processo de conhecimento e sua
identificação far-se-á pela simples leitura do decisório exeqüendo. Convém lembrar, todavia, que
não apenas o réu pode ser vencido, pois também o autor, quando decai de seu pedido, é
condenado aos efeitos da sucumbência (custas e honorários advocatícios), assumindo a posição
de vencido e sujeitando-se à execução forçada. Também serão considerados devedores
originários o opoente, o denunciado, o nomeado à autoria, o chamado ao processo, desde que
integrados à relação processual e vencidos. Da mesma forma, se a execução for de título

208
Excepcionalmente, pode a lei admitir modificação ou substituição da figura do credor, sem que o título reflita diretamente a
mutação. É o que ocorre, por exemplo, no caso da Lei n° 8.906/94, que legitima o advogado a executar, em nome próprio, a
sentença proferida em favor de seu constituinte, na parte que condenou o adversário ao ressarcimento dos gastos de honorários
advocatícios.
209
Designa-se espólio o patrimônio deixado pelo falecido, enquanto não ultimada a partilha entre os sucessores. É representado,
normalmente, pelo inventariante, ou excepcionalmente pela totalidade dos herdeiros – no caso de inventariante dativo (art. 12, V, §
1° do CPC). Conclui-se que, enquanto não partilhada a herança, a representação do espólio é ordinariamente feita pelo
inventariante; mas os herdeiros, como condôminos, podem agir em juízo objetivando o benefício da comunhão. Com efeito, a
omissão do inventariante não impede que qualquer herdeiro tome a iniciativa da defesa dos direitos do espólio em juízo, de sorte
que se o representante legal da massa hereditária não propõe a execução, o herdeiro, como comunheiro dos bens, pode tomar a
iniciativa da ação.
210
Por herdeiro deve-se entender quem sucede ao autor da herança, a título universal, ou seja, recebendo toda a massa patrimonial
do de cujus, ou uma quota ideal dela, de modo a compreender todas as relações econômicas deixadas, tanto ativas como passivas.
211
Por sucessor tem-se o legatário, que sucede o de cujus a título singular, sendo contemplado, no testamento, com um ou alguns
bens especificados e individuados.
212
Apesar do CPC ser omisso quanto a situação da massa falida, do condomínio, e da herança jacente ou vacante, no processo
executivo, limitando-se a arrolar o espólio como universalidade capaz de promover e sofrer a execução forçada – por óbvio se deve
considera-las como partes ativas no processo de execução. Assim, quanto à massa falida, essa será representada pelo síndico (CPC,
art. 12, III); o condomínio pelo administrador ou síndico (CPC, art. 12, IX); e a herança jacente ou vacante pelo curador (CPC, art.
12, IV).
213
Considera-se cessionário o beneficiário da transferência negocial de um crédito por ato inter vivos, oneroso ou gratuito.
Outrossim, para que haja a transferência negocial do crédito é preciso que a isso não se oponham a natureza da obrigação, a lei, ou
a convenção entre as partes (CC, art. 286).
214
Diz-se credor sub-rogado aquele que paga a dívida de outrem, assumindo todos os direitos, ações, privilégios e garantias do
primitivo credor contra o devedor principal e seus fiadores (CC, art. 349).
215
Convém desde já diferenciar duas figuras: o devedor (quem deve) e o responsável (quem tem apenas a responsabilidade).
Relembre-se que a relação obrigacional é composta pela dívida “Schuld” (caráter pessoal), e pela responsabilidade “Haftung”
(caráter de sujeição patrimonial). Normalmente esses dois elementos estão presentes no pólo passivo da atividade executiva
(quando o executado é o próprio devedor), mas poderá ocorrer de apenas o segundo elemento se fazer presente (quando o
executado for apenas um garante e não aquele que contraiu a dívida).

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executivo extrajudicial, será sempre legitimado passivo aquele que figurar no documento
negocial como devedor.
b.2) sucessores do devedor originário:
b.2.1) o espólio, os herdeiros ou os sucessores do devedor – atente-se que o patrimônio do espólio não
se confunde com o patrimônio pessoal dos herdeiros. O patrimônio do terceiro não está sujeito à
execução (princípio do benefício do inventário). Outrossim, após efetuada a partilha, desaparece
o espólio, e nesse caso poderá responder o herdeiro e/ou sucessor pelas dívidas do finado “na
proporção da parte que na herança lhe coube” (CPC, art. 597);
b.2.2) o novo devedor, que assumiu, com o consentimento do credor, a obrigação resultante do título
executivo – trata-se de hipótese de cessão de débito, o que no ordenamento brasileiro só é
aceito com expressa anuência do credor.
b.3) Apenas responsáveis – nessas hipóteses, figuram no pólo passivo da execução - não os
devedores originários -, mas as pessoas que se responsabilizaram pelo adimplemento da dívida
que não contraíram. São típicas hipóteses de caução fidejussória (pessoal):
b.3.1) o fiador judicial – esse responde pela execução sem ser o obrigado pela dívida, e a execução
contra ele não depende de figurar o seu nome na sentença condenatória. Outrossim, em todos
os casos de execução contra fiador, este, solvendo a dívida ajuizada, terá ação regressiva contra
o devedor, sub-rogando-se nos direitos do credor e legitimando-se ao manejo da execução
forçada contra o afiançado (CC, art. 832) que poderá se dar nos mesmos autos (CPC, art. 595,
parágrafo único). Atente-se que, ao fiador, seja convencional ou judicial, é assegurado o
benefício da ordem, isto é, a faculdade de nomear a penhora bens livres e desembargados do
devedor (CPC, art. 595). Assim, a execução incidirá, primeiro, sobre bens do afiançado, e só se
estes não forem suficientes é que recairá sobre o patrimônio do fiador;
b.3.2) o fiador extrajudicial – caso esse figure no título executivo extrajudicial (e a este nada se
oponha), será parte legítima passiva da execução. Mas, caso assim não ocorra, não se admite
que a sentença condenatória (título executivo judicial) obtida apenas contra o devedor afiançado
seja também executada contra o fiador. No caso, o título executivo é a sentença e não o
contrato de fiança e, na sentença, figura como vencido (devedor) apenas o demandado. Se foi
necessário uma sentença, é porque o contrato não era, por si só, um título executivo.
b.3.2) o responsável tributário, assim definido na legislação própria (Lei n° 5.172/66 - CTN) –
considera-se responsável tributário “a pessoa obrigada ao pagamento do tributo ou penalidade
pecuniária” (CTN, art. 121, caput). Que poderá ser o contribuinte (quando tenha relação pessoal
e direta com a situação que constitua o respectivo fato gerador – CTN, art. 121, parágrafo único,
I) ou o responsável (quando, sem revestir a condição de contribuinte, sua obrigação decorra de
disposição expressa da lei – CTN, art. 121, parágrafo único, II).
3.8 Litisconsórcio – há consenso em torno da inexistência, em princípio, do litisconsórcio necessário,
mormente ativo, no processo de execução, seja fundado em título executivo judicial ou
extrajudicial. Já do lado passivo, são freqüentes os casos de litisconsórcio necessário, como o de
marido e mulher, quando a penhora atinge bem imóvel (CPC, art. 669, parágrafo único)216.
Quanto ao litisconsórcio facultativo, não existem grandes restrições.
3.9 Assistência e intervenção de terceiro – em face da inexistência de fase adequada, e pelas
próprias características do processo de execução217 (inexistência de lide), doutrina e
jurisprudência comumente não admitem a assistência e as espécies de intervenções de terceiros

216
Em tais circunstâncias a ausência de participação de um dos cônjuges, na formação da relação processual executiva, é causa de
nulidade visceral de todo o processo.
217
A execução é procedimento do tipo de contraditório eventual, isto é, em que a impugnação pelo executado não é considerada
como fase integrante do processo, mas oposta de forma incidental através dos embargos (que é ação). Não sendo, portanto, a
execução um procedimento preordenado ao contraditório, porque nasce do pressuposto de liquidez e certeza do direito do credor,
não há que se falar em sentença de mérito no dito processo. Não existindo mérito a resolver, difícil aceitar a possibilidade da
assistência bem como de qualquer intervenção de terceiros.

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(oposição, nomeação a autoria, denunciação a lide, e chamamento ao processo) no iter do


processo executivo.
3.10 Cumulação de execuções extrajudiciais – na execução forçada, não importa a diversidade de
títulos para que o credor se valha de um só processo. Todos eles serão utilizados para um só
fim: a realização da sanção a que se acha sujeito o devedor. Não obstam à cumulação, nem a
desigualdade de valores, nem a diversidade da natureza dos títulos218. Outrossim, para a
admissibilidade da unificação das execuções, exigem-se os seguintes requisitos:
a) Identidade do credor nos diversos títulos – atente-se que o código não permite reunião numa só
execução de credores diversos com base em títulos diferentes, a não ser na execução de
devedor insolvente.
b) Identidade de devedor – as execuções reunidas terão obrigatoriamente que se dirigir contra o
mesmo devedor (CPC, art. 573).
c) Competência do mesmo juiz para todas as execuções – o juiz tem que ser o competente para
ambas as execuções que estão facultativamente cumuladas.
d) Identidade da forma do processo – não se admite cumulação, por exemplo, de execução de
obrigação de obrigação de dar com a de fazer.
3.11 Competência – as regras do CPC sobre competência, em matéria de execução, têm conteúdo
diverso, conforme o título seja judicial ou extrajudicial; e, mesmo em se tratando de títulos
judiciais, há variações de competência, de acordo com o tipo de sentença a executar.
a) Competência para execução de sentença – assim dispõe o art. 475-P do CPC: o cumprimento da
sentença efetuar-se-á perante:
a.1) os tribunais, nas causas de sua competência originária219;
a.2) o juízo que processou a causa no primeiro grau de jurisdição220;
a.3) o juízo cível competente, quando se tratar de sentença penal condenatória221, de sentença
arbitral ou de sentença estrangeira.
b) Competência para execução de títulos extrajudiciais – determina-se à competência, em caso de
execução de título extrajudicial, segundo as regras comuns do processo de conhecimento.
Prevalece, ordinariamente, o critério do foro do domicilio do devedor. Deve-se observar,
contudo, que há regras especiais nos artigos 111 e 100, IV, d, do CPC, onde se estabelece a
prevalência do foro de eleição e do lugar de pagamento, sempre que tais previsões constarem do
título a executar222.
c) Competência para a execução fiscal – a competência para processar e julgar a execução da
Dívida Ativa da Fazenda Pública exclui a de qualquer outro juízo, inclusive o da falência, da
concordata, da liquidação, da insolvência ou do inventário.
d) Competência para execução de sentença estrangeira – a sentença estrangeira não pode ser
direta e imediatamente executada no Brasil. Em face de regras pertinentes à soberania nacional,
a eficácia da sentença estrangeira em nosso território depende de sua prévia homologação pelo

218
Súmula 27 do STJ: “Pode a execução fundar-se em mais de um título extrajudicial relativos ao mesmo negócio”.
219
A competência dos tribunais pode ser recursal (quando exerce a revisão das decisões prolatadas por órgãos hierarquicamente
inferiores), ou originária (quando é responsável pelo conhecimento direto e originário da causa – que se inicia e finda já na instância
superior, v.g., nas ações rescisórias).
220
Nesse caso, a Lei n° 11.232/05 criou uma boa opção. O parágrafo único do artigo assim dispõe: o exeqüente poderá optar pelo
juízo do local onde se encontram bens sujeitos à expropriação ou pelo atual domicílio do executado, casos em que a remessa dos
autos do processo será solicitada ao juízo de origem.
221
A sentença penal condenatória torna certo o dever de reparar, civilmente, o dano provocado pelo delito. Por isso, não há
interesse em propor a ação civil indenizatória contra o réu condenado na esfera penal. A vítima ou seus dependentes, i.é., os
lesados pelo crime, podem utilizar a sentença penal, diretamente, como título executivo civil, para fins indenizatórios. Terão,
apenas, que promover a liquidação do quantum a indenizar (CPC, art. 603).
222
Há de se observar a seguinte ordem de preferência: 1° foro de eleição; 2° lugar de pagamento (querable ou portable); e 3°
domicílio do devedor.

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STJ (EC/45). Após, serão obedecidos os procedimentos executivos previstos no art. 190, X da CF
(competência da Justiça Federal de 1° grau).

4. EXECUÇÃO DEFINITIVA E PROVISÓRIA:


4.1 Conceito – o art. 587 do CPC admite que a execução possa ser definitiva ou provisória. A
execução definitiva é aquela em que credor tem sua situação reconhecida de modo imutável,
decorrente da própria natureza do título em que se funda a execução. É a regra e baseia-se em
título extrajudicial ou em sentença transitada em julgado. Já a execução provisória, que só pode
ocorrer em casos de títulos executivos judiciais, é a que se passa, nas hipóteses previstas em lei,
quando a situação do credor é passível de posteriores alterações, pela razão de que a sentença
que reconheceu seu direito não transitou ainda em julgado. A grande diferença entre a execução
definitiva e a execução provisória é que nessa ultima é vedada à prática de ato que importe em
alienação do domínio, nem permite, sem caução idônea, o levantamento de depósito em
dinheiro, à luz do art. 475-O do CPC.
4.2 Fundamentos da execução provisória – é certo que a sentença para ser executada deve ter
transitado em julgado (art. 467 e 468 do CPC). No entanto, em casos excepcionais, a lei confere
eficácia a determinadas decisões, mesmo antes de se tornarem imutáveis (pois é possível fazer
uma distinção entre eficácia e imutabilidade da sentença). É o que se passa quando o recurso
interposto é recebido apenas no efeito devolutivo (três são os recursos que, excepcionalmente,
podem ter efeito apenas devolutivo: apelação, nos casos dos incisos do art. 520 do CPC, o
recurso especial e o recurso extraordinário, em todos os casos).
4.3 Procedimento da execução definitiva e da execução provisória – a execução definitiva corre nos
autos principais. Se se tratar de execução de sentença, o processamento se dá, normalmente,
no bojo dos autos da própria ação de cognição. Se o caso for de título extrajudicial, o
processamento se fará em autuação própria, como feito originário. Já a execução provisória deve
ser processada nos autos suplementares, onde os houver, ou por carta de sentença, extraída do
processo pelo escrivão e assinada pelo juiz contendo: I- autuação; II- petição inicial e
procuração das partes; III- contestação; IV- sentença ou acórdão exeqüendo; V- certidão de
recebimento do recurso não dotado de efeito suspensivo (CPC, art. 475-O, § 3°).
4.4 Normas básicas da execução provisória – o procedimento que orienta a execução provisória é o
mesmo da definitiva (art. 475-O do CPC), mas devem observar algumas normas peculiares ao
caráter provisório da execução:
a) corre por conta e responsabilidade do credor, que prestará caução, obrigando-se a reparar os
danos causados ao devedor – o credor está obrigado a reparar os prejuízos que o executado
houver sofrido, restituindo os bens e valores expropriados executivamente, além dos prejuízos
ocorridos pela privação deles durante o tempo em que prevaleceu o efeito da execução
provisória. Mas se estes bens tiverem sido transferidos a terceiros, transforma-se em dever de
indenização total dos bens e demais perdas acarretados ao executado.
b) não abrange os atos que importem alienação do domínio, nem permite, sem caução idônea, o
levantamento de depósito em dinheiro – a caução, que pode ser real ou fidejussória, tem de ser
idônea e deve ser prestada no momento que antecede a ordem judicial de levantamento do
depósito de dinheiro ou o ato que importe a alienação de domínio (arrematação, adjudicação). A
caução será ainda exigível em todas as situações em que, mesmo não havendo transferência de
domínio, o ato executivo possa representar um “grave dano” para o sujeito passivo da execução
(ex.: na demolição de obras de vulto, na interdição da atividade econômica).
c) dispensa – as prestações de natureza alimentar podem ser executadas provisoriamente com
dispensa de caução, quando preenchidos dois requisitos:
c.1) o valor não ultrapassar o limite de 60 vezes o salário mínimo;
c.2) o exeqüente deve encontrar-se em estado de necessidade.

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c.3) A Lei n° 11.232/05 inseriu uma nova possibilidade de dispensa da caução. Reza o II, do § 2° do
art. 475-O: a caução será dispensada (...) “nos casos de execução provisória em que penda
agravo de instrumento junto ao STF ou ao STJ (art. 544), salvo quando da dispensa possa
manifestamente resultar risco de grave dano, de difícil ou incerta reparação”.
c.4) Inovações já trazidas pela Lei n° 10.444/02 – com a reforma promovida pela Lei n° 10.444/02,
não há mais necessidade da prestação de caução para dar-se início à execução provisória,
sendo esta somente exigível para o levantamento da importância depositada, de alienação do
domínio ou, ainda de prática de atos dos quais possa resultar grave dano ao executado (tal
sistemática foi mantida pela na Lei n° 11.232/05).
d) fica sem efeito, sobrevindo sentença que modifique ou anule a que foi objeto da execução,
restituindo-se as partes no estado anterior – a provisoriedade se passa entre as partes do
processo e não atinge terceiros que legitimamente tenham adquirido a propriedade dos bens
excutidos, ou seja, se os bens foram transmitidos ao credor, este terá que restituí-los in natura.
No entanto, se foram transferidos por arrematação a terceiro, não será possível o credor restituí-
los ao executado, devendo o exeqüente arcar com a responsabilidade de reembolsá-lo de todos
os prejuízos ocasionados pela perda definitiva dos bens expropriados. Vale ressaltar que a
responsabilidade do credor nesta reposição é objetiva, isto é, independe de culpa ou dolo, pois
decorre da vontade expressa da lei.
f) eventuais prejuízos serão liquidados no mesmo processo (art. 475-O, II do CPC).
4.5 Após o trânsito em julgado da sentença executada provisoriamente – ocorrendo modificação ou
anulação apenas parcial da sentença ou acórdão, a execução provisória ficará sem efeito tão
somente na parte afetada pelo acolhimento do recurso (art. 475-O, II do CPC), restituindo-se as
partes ao estado anterior e liquidados eventuais prejuízos nos mesmos autos, por arbitramento.
Confirmada a sentença no grau de recurso, a execução provisória transmuda-se,
automaticamente, em definitiva.
4.6 Execução embargada de título extrajudicial – em sua essência, a execução do título extrajudicial
é definitiva porque o título que a fundamenta não está, de início, pendente de julgamento que o
possa alterar ou cassar. No entanto, uma vez opostos embargos do devedor, o título
extrajudicial torna-se litigioso, o que, para alguns juristas, ensejaria o prosseguimento da
execução de forma provisória. O STF já se pronunciou acerca desta controvérsia e decidiu que o
credor de título extrajudicial pode prosseguir, na pendência do recurso de apelação sem efeito
suspensivo, com a execução em caráter definitivo, e não provisório (RE n° 95.583/84). Assim
também recentemente sumulou o STJ: “Súmula n° 317 – É definitiva a execução de título
extrajudicial, ainda que pendente apelação contra sentença que julgue improcedentes os
embargos”. A Lei n° 11.382/06 comungou em parte com esse entendimento e imprimiu ao art.
587 do CPC a seguinte redação: “É definitiva a execução fundada em título extrajudicial; é
provisória enquanto pendente apelação da sentença de improcedência dos embargos do
executado, quando recebidos com efeito suspensivo”.
4.7 Sentença parcialmente procedente. Parte não impugnada: Execução definitiva ou provisória? –
grande maioria da doutrina afirma que sendo apenas parcial a impugnação do apelante, ainda
que recebido o recurso em ambos os efeitos, poderá a parte não impugnada da sentença ser
executada de forma definitiva, desde que seja possível separa-la da parte impugnada, uma vez
que a parte não-recorrida não pode deixar de ser tida como sentença transitada em julgado e
ainda mais que o recurso interposto somente pode melhorar a situação da recorrente.

5. LIQUIDAÇÃO DE SENTENÇA
O título executivo tem que ser certo, líquido e exigível. Ocorre que há situações em que o título
judicial, embora represente direito certo, não apresenta a liquidez do crédito. Em outros termos,
há hipóteses em que o título judicial apresenta todos os elementos identificadores do direito: 1°
o an debeatur (ou seja, a existência da dívida – certeza); 2° o quid debeatur (ou seja, o objeto
da prestação – espécie de execução); mas não revela o quantum debeatur (ou seja, a

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quantidade devida). Estar-se-á, nestes casos, diante da chamada condenação genérica. Lembre-
se que a condenação genérica deve ser uma exceção (o juiz está adstrito ao pedido – princípio
da congruência – que deve ser certo e determinado)223. Mas, extraordinariamente, lícito é ao
autor formular pedido genérico como nas hipóteses do art. 286, I-III, do CPC. Com efeito, caso o
juiz não possa liquidar o pedido ilíquido formulado ainda durante o processo de conhecimento,
permitido será a prolação de sentença ilíquida, que, conforme os requisitos da executividade, só
poderá ser exigido após passar pelo procedimento de liquidação de sentença.
5.1 Conceito – a liquidação, na nova sistemática da Lei n° 11.232/05 (confirmando antigo anseio
doutrinário) é um incidente cognitivo, que visa completar a sentença, sendo, portanto, incidente
final do processo de conhecimento.
5.2 Natureza jurídica da decisão – muito se controverte sobre a natureza jurídica da decisão que
julga a liquidação. Na nova sistemática, o legislador apontou por ser decisão interlocutória
(porquanto impugnável por agravo – art. 475-H). Araken de Assis, quanto à liquidação por
artigos, defende que esta permanece necessitando de petição inicial, processamento próprio, e
conseqüentemente de sentença224.
5.3 Objeto – nos dizeres de Humberto Theodoro, ilíquida é a sentença que não fixa o valor da
condenação ou não lhe individua o objeto. Esse tipo de decisório que estará submetido ao
procedimento de liquidação. Atente-se que na liquidação de sentença a pretensão é de
acertamento do quantum debeatur, e a atividade cognitiva deverá incidir sobre esta questão.
Não se pode admitir, no incidente da liquidação, qualquer discussão sobre a existência ou não do
direito do credor. Em outras palavras, é defeso, na liquidação, discutir de novo a lide, ou
modificar a sentença, que a julgou (CPC, art. 475-G).
5.4 Espécies – a liquidação pode se dar por arbitramento ou por artigos. A Lei n° 8.898/94,
resultante de um dos projetos destinados à reforma do CPC, teve por um de seus objetivos
principais ELIMINAR a modalidade de liquidação por cálculo do contador, buscando prestigiar os
princípios da celeridade e da economia. Atualmente (confirmado na Lei n° 11.232/05), quando a
determinação do valor da condenação depender apenas de cálculos aritméticos, o credor
procederá à sua execução na forma do art. 475-J e seguintes do CPC, instruindo o pedido com a
memória discriminada e atualizada do cálculo (art. 475-B do CPC) 225.
a) Arbitramento – far-se-á a liquidação por arbitramento quando (CPC, art. 475-C):
a.1) determinado pela sentença226 ou convencionado pelas partes;
a.2) o exigir a natureza do objeto da liquidação227.
b) Artigo – far-se-á a liquidação por artigos, quando, para determinar o valor da condenação,
houver necessidade de alegar e provar fato novo (CPC, art. 475-E)228.
c) Escolha – o ponto de partida para a escolha entre os diversos ritos está na análise do grau de
imprecisão da sentença liquidanda, já que será esse o dado que irá permitir a adoção de um dos

223
Conforme determina o art. 475-A, § 3°; nos processos sob procedimento comum sumário, referidos no art. 275, II, alíneas ‘d’ e
‘e’ desta Lei, é defesa a sentença ilíquida, cumprindo ao juiz, se for o caso, fixar de plano, a seu prudente critério, o valor devido.
224
ASSIS, Araken de. Cumprimento da sentença. Rio de Janeiro : Forense, 2006, p. 128-129.
225
Fica fora deste estudo, por ser estranha ao CPC, a sentença condenatória genérica do CDC, proferida em ‘ação coletiva’ e que
permite a liquidação e execução individuais, devendo-se na liquidação da sentença, demonstrar a condição de lesado e a extensão
do dano.
226
Súmula 344 do STJ (Liquidação): “A liquidação por forma diversa estabelecida na sentença não ofende a coisa julgada”.
227
É a realizada por perito. Reclama-se nesta os conhecimentos técnicos dos árbitros (peritos) para estimar-se o montante da
condenação. São exemplos de arbitramento: estimativa de desvalorização de veículos acidentados; estimativa de lucros cessantes
por inatividade de pessoa ou serviço; de perda parcial da capacidade laboral etc.
228
O fato novo significa toda e qualquer ocorrência que se tenha dado depois da propositura da ação ou depois da realização de
determinado ato processual. Por exemplo, determinada empresa de construção civil é condenada a ressarcir os danos decorrentes
da ruptura de uma barragem que, numa fazenda, servia de bebedouro de uma grande quantidade de animais (gado). Toda a
instrução, no processo de conhecimento, terá girado em torno de se provar a ruptura da barragem. A sentença condenou ao
ressarcimento dos danos causados pela ruptura. Na liquidação, como prova de fato novo, provar-se-á o número de animais que
morreram em razão do acidente com a barragem.

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caminhos autorizados pela lei, ou seja, o cálculo do próprio credor, a liquidação por arbitramento
ou a liquidação por artigo.
5.5 Procedimento:
a) Na liquidação por arbitramento – requerida à liquidação por arbitramento, o juiz nomeará o
perito e fixará o prazo para a entrega do laudo. Apresentado o laudo, sobre o qual poderão as
partes manifestar-se no prazo de dez dias, o juiz proferirá decisão interlocutória229 ou designará
audiência de instrução e julgamento, se necessário (CPC, art. 475-D)230.
b) Na liquidação por artigos (CPC, art. 475-F) – muito se controverteu sobre o rito dessa liquidação.
Doutrina e jurisprudência têm se pacificado no sentido de que o rito da liquidação seguirá o rito
da ação de conhecimento antecedente. Assim, será ordinário ou sumário conforme tenha sido o
rito da ação cognitiva. Quando o procedimento anterior tiver seguido o rito especial, deverá ser
observado se ocorreu sua conversão ao rito ordinário. Caso não, observar-se-á o valor fixado
para a liquidação (p. ex.: abaixo ou igual a sessenta salários mínimos seguirá o rito sumário).
c) Defesa – após o advento da Lei n° 11.232/05 (a impugnação deixou de ser um processo e
passou a ser simples incidente), não é mais necessário a citação do réu. Mas, em face do
conteúdo cognitivo, ainda é obrigatória a intimação da parte na pessoa do seu advogado
constituído nos autos (CPC, art. 475-A, § 1°)231. Conforme acima advertido, Araken de Assis, por
defender que a liquidação por artigos continua sendo um processo e não simples incidente,
argumenta que nesse caso indispensável será a nova citação (também na pessoa do advogado,
conforme sistemática anterior).
d) Decisão interlocutória – com as ressalvas supras, a decisão que julga a liquidação é
interlocutória. Julgada a liquidação, a parte promoverá a execução nos termos do art. 475-J do
CPC.
e) Recursos – da decisão da liquidação caberá agravo de instrumento (CPC, art. 475-H).
f) Coisa julgada – conforme o entendimento de Araken de Assis232, nos casos de liquidação por
artigo, que deverá ser decidida por sentença (impugnável, portanto, através de apelação), esta
fará coisa julgada material, nos precisos termos do art. 467 e 468 do CPC. Entretanto, caso a
liquidação se frustre por erro processual, v.g., procedimento errado (autor ajuíza liquidação por
artigos ao invés da por arbitramento), a sentença será terminativa (sem resolução de mérito),
possibilitando novo processo de liquidação.
5.6 Incidentes a “liquidação” por cálculos – mesmo não mais existindo no ordenamento – porquanto
cabe ao credor exeqüente apresentar junto à petição inicial a respectiva planilha detalhada dos
cálculos aritméticos – poderá ocorrer (conforme se observava os parágrafos acrescentados pela
Lei n° 10.444/02 e confirmados na Lei n° 11.232/05) os seguintes incidentes:
a) Dados existentes no poder do devedor – quando a elaboração da memória do cálculo depender
de dados existentes em poder do devedor ou de terceiro, o juiz, a requerimento do credor,
poderá requisitá-los, fixando prazo de até 30 (trinta) dias para o cumprimento da diligência; se
os dados não forem, injustificadamente, apresentados pelo devedor, reputar-se-ão corretos os
cálculos apresentados pelo credor e a resistência do terceiro será considerada desobediência
(CPC, art. 475-B, § 1° e 2°);
b) Visível excesso de execução e beneficiários da assistência judiciária – poderá o juiz, antes de
determinar a citação, valer-se do contador do juízo quando a memória apresentada pelo credor
aparentemente exceder os limites da decisão exeqüenda e, ainda, nos casos de assistência

229
Com o advento da Lei n° 11.232/05, a decisão que julga a liquidação deixa de ser sentença e passa a ser decisão interlocutória,
impugnável via agravo de instrumento.
230
Apesar da omissão legal, certo é a possibilidade das partes nomearem assistentes técnicos no prazo comum de 5 (cinco) dias, os
quais poderão apresentar quesitos (aplicação analógica do art. 421, § 1° do CPC).
231
Far-se-á, contudo, a intimação pessoal do réu quando o processo antecedente tenha corrido a sua revelia; quando tiver revogado
o mandato de seu advogado; ou este tenha renunciado ao patrocínio.
232
ASSIS, Araken de. Cumprimento da sentença. Rio de Janeiro : Forense, 2006, p. 128-129.

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judiciária233. Na primeira hipótese, se o credor não concordar com esse demonstrativo, far-se-á a
execução pelo valor originariamente pretendido, mas a penhora terá por base o valor encontrado
pelo contador (CPC, art. 475-B, § 3° e 4°)234.
5.7 Liquidação que conclui pelo ‘valor zero’ – muito se discute sobre a possibilidade da decisão
interlocutória (ou sentença conforme entendimento supramencionado) da liquidação apontar
resultado ‘valor zero’, ou seja, por exemplo, por inexistência de provas, não se provar o fato
novo. Não restará ao juiz, in casu, outra solução a não ser julgar improcedente a demanda,
inclusive com os efeitos da coisa julgada material.
5.8 Liquidez parcial da sentença – pode ocorrer que uma só sentença condene o vencido a uma
parcela líquida e outra ilíquida, como é comum acontecer nas reparações do dano provocado em
colisão de automóveis, onde quase sempre se determina o ressarcimento do valor exato das
despesas de oficina e mais os prejuízos da paralisação do automóvel a serem estimados em
liquidação do julgado. Em tais hipóteses, é direito do credor, desde logo, executar a parte líquida
da sentença. Poderá, também, facultativamente, propor em paralelo (através de carta de
sentença) a liquidação da parte ilíquida (CPC, art. 475-I, § 2°).
5.9 Liquidação na pendência de recurso – conforme determina o art. 475-A, § 2°, a liquidação
poderá ser requerida na pendência de recurso, processando-se em autos apartados, no juízo de
origem, cumprindo ao liquidante instruir o pedido com cópias das peças processuais pertinentes.

6. RESPONSABILIDADE PATRIMONIAL
A responsabilidade patrimonial está disciplinada pelos arts. 591 a 597 do CPC.
6.1 Conceito – é a situação meramente potencial, caracterizada pela sujeitabilidade do patrimônio de
alguém às medidas executivas destinadas à atuação da vontade concreta do direito material.
6.2 Objeto – responde o devedor para o cumprimento de suas obrigações, com todos os seus bens,
presentes e futuros salvo as restrições estabelecidas em lei (CPC, arts. 649 e 650)235. Atente-se
que o artigo 649 do CPC traz bens absolutamente impenhoráveis, enquanto o artigo 650 trata
dos bens relativamente impenhoráveis, ou seja, na ausência de outros bens, eles podem ser
penhorados.
Nada obstante, não só o devedor pode figurar no pólo passivo da demanda executiva. Vimos
anteriormente que outras pessoas, mesmo não contraindo a dívida, sujeitam seu patrimônio ao
cumprimento da obrigação (haftung). Com efeito, podem estar sujeitos à execução os bens
descritos no art. 592 do CPC, quais sejam:
a) do sucessor a título singular, tratando-se de execução fundada em direito real ou obrigação
reipersecutória 236;

233
Nem sempre o defensor público ou o advogado que patrocine seus interesses terá condições de elaborar a planilha de cálculos
necessária ao desenvolvimento da execução. Neste caso, incube ao Estado – que tem o dever de prestar assistência judiciária
integral – prover as condições para que o exeqüente possa apresentar o cálculo. A conta elaborada pelo contador judicial, todavia,
deverá ser recebida como cálculo elaborado pelo exeqüente, e não pelo juízo.
234
Trata-se de verdadeira tutela antecipada em favor do devedor executado. Outrossim, feita à penhora de bens capazes a garantir
a execução daquele valor obtido pelo contador judicial e não aceitos pelo exeqüente, poderá o executado oferecer sua impugnação
alegando excesso de execução (e não excesso de penhora). Mas caso o executado não ofereça a impugnação, aludindo excesso de
execução, dever-se-á ampliar a penhora, a fim de que esta alcance bens capazes de garantir o pagamento do valor pretendido pelo
exeqüente.
235
A leitura inicial dos citados artigos sugere que os benefícios lá instituídos referem-se exclusivamente ao devedor pessoa física,
não podendo a pessoa jurídica valer-se dos favores da lei. Essa não é a melhor doutrina. Assim, é comum a extensão de alguns
daqueles benefícios a uma pessoa jurídica.
236
Inicialmente entenda: a obrigação se diz reipersecutória quando o credor pode perseguir o bem, que se acha fora do seu
patrimônio, caso não seja ela satisfeita. Esclarecido esse ponto, como adverte Carreira Alvin, a reforma do preceito constante no inc.
I do art. 592 impressa pela Lei n° 11.382/06 se fez necessária porque a anterior disposição aludia a “execução de sentença proferida
em ação fundada em direito real”, e a nova sistemática acabara com a execução de sentença, que passou a sujeitar-se a
cumprimento (art. 475-I), forma de execução sincretizada no próprio processo de conhecimento, independentemente de processo de

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b) do sócio, nos termos da lei237;


c) do devedor, quando em poder de terceiros238;
d) do cônjuge, nos casos em que os seus bens próprios, reservados ou de sua meação respondem
pela dívida239 e 240;
e) alienados ou gravados com ônus real em fraude de execução.
6.3 Distinção entre fraude a credores; fraude a execução; e alienação de bem penhorado241 – a
priori, alerta-se que o estudo agora terá como ponto nevrálgico a seguinte situação: para saber
se houve regularidade na transferência patrimonial de bem do devedor para um terceiro, terá
que se fazer sempre inicialmente a seguinte pergunta: após a dita transferência, o devedor
ainda possui bens suficientes para honrar suas dívidas? Em outras palavras, a questão reside
num ponto de equilíbrio entre a disponibilidade patrimonial e o valor do débito que está sendo
exigido em relação à pessoa do devedor. Restando demonstrado que tem bens para atender a
todas as suas dívidas, não há que se falar em fraude de credores ou fraude de execução. Com
efeito, a alienação ou transferência gratuita de bens do devedor não pode reduzi-lo à
insolvência, que se qualifica como estado jurídico próximo da falência comercial, ou seja, quando
as dívidas da pessoa executada são superiores ao seu patrimônio disponível.

execução, como antigamente. Outrossim, atente-se que aqui a responsabilidade só atinge o próprio bem que foi objeto da decisão.
Se a coisa pereceu sem culpa do adquirente, ou se foi transmitida a outrem, não subsiste a responsabilidade questionada.
237
A regra geral continua sendo a de distinção entre o patrimônio da empresa e dos seus sócios. Outrossim, nos casos de sócios
naturalmente solidários é que se dará a responsabilidade executiva secundária, na forma do art. 592, II, do CPC, cuja atuação é
direta e ocorre sem necessidade de condenação do terceiro responsável em sentença própria. A responsabilidade extraordinária,
como proveniente de abuso de gestão, violação de contrato, dolo, etc., depende de prévio procedimento de cognição e só pode dar
lugar à execução quando apoiada em sentença condenatória contra o sócio faltoso. Nem mesmo a desconsideração da personalidade
jurídica - positivada recentemente no CC, art. 50, e que a jurisprudência agasalha - desautoriza a autonomia existente entre o
patrimônio da sociedade e a do sócio. Com efeito, a responsabilidade da sociedade é sempre principal e a dos sócios, quando existir,
subsidiária, ainda que solidária. Poderá assim o sócio se valer do benefício de ordem (CPC, art. 596, § 1°), sub-rogando-se caso
salde o débito (CPC, art. 596, § 2°). Já nas sociedades de fato e nas irregulares, não há distinção entre o patrimônio da sociedade e
de seus sócios.
238
Naturalmente se o terceiro desfruta de posse natural legítima, como no caso de locação, está terá eficácia perante o adquirente.
Assim, a execução contra o locador que atingir o bem arrendado não excluirá a continuidade do exercício dos direitos do locatário
até o final do contrato. O adquirente ficará sub-rogado na posição do antigo credor.
239
Como regra geral, pelos títulos de dívida de qualquer natureza, firmados por um só dos cônjuges, ainda que casados pelo regime
de comunhão universal, somente responderão os bens particulares do signatário e os comuns até o limite de sua meação.
Outrossim, a incomunicabilidade das dívidas assumidas por um só dos cônjuges deixa de ocorrer, entre outros casos, quando as
obrigações foram contraídas em benefício da família (CC, art. 1.644).
240
Também se deve atentar para a impenhorabilidade do bem de família prevista na Lei 8.009/90, com a interpretação dada pela
Súmula 205 do STJ. Esta lei consagra exceções à impenhorabilidade do bem de família (art. 3º). Lei n° 8.009/90 (Bem de Família):
Art. 1º O imóvel residencial próprio do casal, ou da entidade familiar, é impenhorável e não responderá por qualquer tipo de dívida
civil, comercial, fiscal, previdenciária ou de outra natureza, contraída pelos cônjuges ou pelos pais ou filhos que sejam seus
proprietários e nele residam, salvo nas hipóteses previstas nesta lei. Parágrafo único. A impenhorabilidade compreende o imóvel
sobre o qual se assentam a construção, as plantações, as benfeitorias de qualquer natureza e todos os equipamentos, inclusive os
de uso profissional, ou móveis que guarnecem a casa, desde que quitados. (...) Art. 3º A impenhorabilidade é oponível em qualquer
processo de execução civil, fiscal, previdenciária, trabalhista ou de outra natureza, salvo se movido: I – em razão dos créditos de
trabalhadores da própria residência e das respectivas contribuições previdenciárias; II – pelo titular do crédito decorrente do
financiamento destinado à construção ou à aquisição do imóvel, no limite dos créditos e acréscimos constituídos em função do
respectivo contrato; III – pelo credor de pensão alimentícia; IV – para cobrança de impostos, predial ou territorial, taxas e
contribuições devidas em função do imóvel familiar; V – para execução de hipoteca sobre o imóvel, oferecido como garantia real
pelo casal ou pela entidade familiar; VI – por ter sido adquirido com produto de crime ou para execução de sentença penal
condenatória a ressarcimento, indenização ou perdimento de bens; VII – por obrigação decorrente de fiança concedida em contrato
de locação (...). Observe-se ainda que o STJ estende o benefício da impenhorabilidade a pessoa solteira conforme o
enunciado da Súmula 364 do STJ: “O conceito de impenhorabilidade de bem de família abrange também o imóvel pertencente a
pessoas solteiras, separadas e viúvas”. Ementa: “PROCESSUAL – EXECUÇÃO - IMPENHORABILIDADE – IMÓVEL - RESIDÊNCIA –
DEVEDOR SOLTEIRO E SOLITÁRIO – LEI 8.009/90. - A interpretação teleológica do Art. 1º, da Lei 8.009/90, revela que a norma não
se limita ao resguardo da família. Seu escopo definitivo é a proteção de um direito fundamental da pessoa humana: o direito à
moradia. Se assim ocorre, não faz sentido proteger quem vive em grupo e abandonar o indivíduo que sofre o mais doloroso dos
sentimentos: a solidão. - É impenhorável, por efeito do preceito contido no Art. 1º da Lei 8.009/90, o imóvel em que reside, sozinho,
o devedor celibatário”. (STJ-Corte Especial, EREsp n° 182223-SP, rel. Min. Humberto Gomes de Barros, j. 06.02.02, por maioria, DJ
07.04.2003 p. 209; RBDF vol. 18 p. 103; REVJUR vol. 306 p. 83; RSTJ vol. 173 p. 40; RT vol. 818 p. 158.
241
Há, entre as três espécies, uma gradação, sendo a primeira a menos grave, e a última a mais grave das alienações fraudulentas.
Conseqüência disto é o tratamento diferenciado, inclusive na determinação dos requisitos e das conseqüências de cada uma das
modalidades.

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a) Fraude contra credores – consiste no deslocamento do patrimônio do devedor ao terceiro antes


da ocorrência da citação no processo de conhecimento ou no processo de execução, antevendo o
devedor que o patrimônio pode ser atingido no âmbito da ação de execução por vir. Para ser
caracterizada precisa ter: eventus damni (prejuízo para o credor); consilium fraudis (ciência de
que o ato de transferência está sendo realizado com o intuito de prejudicar o credor). Necessita
de uma ação específica para ser caracterizada – ação pauliana ou revocatória. Observe-se que a
fraude contra credores não é causa de anulabilidade, mas sim de inoponibilidade do ato jurídico.
O ato é válido, mas ineficaz em relação ao credor.
b) Fraude a execução – instituto peculiar ao Direito brasileiro, não encontrando similar no Direito
Comparado, a fraude de execução é uma segunda modalidade de fraude na alienação ou
oneração de bens. Ocorre fraude de execução nas hipóteses previstas no art. 593 do CPC.
b.1) quando sobre eles pender ação fundada em direito real;
b.2) quando, ao tempo de alienação ou oneração, corria contra o devedor demanda capaz de reduzi-
lo à insolvência;
b.3) nos demais casos expressos em lei.
Há, entre todas estas situações, elementos comuns. O mais importante destes, sem dúvida, é a
dispensa do consilium fraudis, ou seja, dispensa do requisito subjetivo, consistente no concerto
entre os sujeitos que praticam o ato, como elemento essencial para caracterização da fraude.
Aqui não se necessita de uma ação específica de conhecimento para se declarar a fraude (v.g.,
ação pauliana/revocatória). A fraude de execução será levantada por simples petição, e que após
realizado o contraditório, será julgada pelo juiz. Esta decisão terá natureza de interlocutória,
sendo impugnável, portanto, através de agravo242. Atente-se que só se pode falar em fraude de
execução se o devedor já tiver sido citado num processo, seja ele de conhecimento, de
execução, ou cautelar. Quanto aos efeitos da decisão, a alienação será considerada válida, mas
ineficaz perante o credor.
b.4) Recentemente o STJ editou súmula sobre a caracterização da fraude. A Súmula 375 do STJ tem
o seguinte teor: “O reconhecimento da fraude à execução depende do registro da penhora do
bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro adquirente”.
c) Alienação de bem penhorado – terceira, e mais grave das modalidades de alienação fraudulenta
de bens, é a que se opera quando é alienado um bem penhorado. Aqui, não existe qualquer
referência à situação econômica em que se coloque o devedor. Assim sendo, pouco importa se o
devedor torna-se ou não insolvente com a alienação do bem penhorado. Este ato será
fraudulento ainda que o devedor mantenha em seu patrimônio bens suficientes para satisfazer o
crédito exeqüendo. Outrossim, atente-se que assim como nos anteriores, a alienação do bem
penhorado é válida, mas inoponível ao exeqüente.
6.4 Direito de retenção – conforme dispõe o art. 594 do CPC, o credor, que estiver, por direito de
retenção, na posse de coisa pertencente ao devedor, não poderá promover a execução sobre
outros bens senão depois de executada a coisa que se achar em seu poder.
6.5 Fiador – conforme reza o art. 595 do CPC, o fiador, quando executado, poderá nomear à
penhora bens livres e desembargados do devedor. Os bens do fiador ficarão, porém, sujeitos à
execução, se os do devedor forem insuficientes à satisfação do direito do credor. Atente-se que o
fiador, que pagar a dívida, poderá executar o afiançado nos autos do mesmo processo243.
6.6 Espólio – dispõe o art. 597 do CPC que o espólio responde pelas dívidas do falecido; mas, feita a
partilha, cada herdeiro responde por elas na proporção da parte que na herança lhe coube.

242
Reitera-se, então, que a fraude à execução distingue-se da fraude contra credores. A primeira pode ser reconhecida pelo juiz de
ofício em qualquer tipo de procedimento, tornando a alienação ou oneração ineficaz em relação ao credor; enquanto que a segunda
exige uma ação própria (pauliana ou revocatória), tornando a alienação ou oneração anulável (ou como outros autores sustentam:
também resultará inoponível ao credor).
243
O fiador tem apenas uma responsabilidade subsidiária, salvo se tiver renunciado ao benefício de ordem.

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7. DAS DIVERSAS ESPÉCIES DE EXECUÇÃO


A execução é gênero que se desdobra nas espécies de execução por quantia certa (contra
devedor solvente e contra devedor insolvente); execução para entrega de coisa (certa e incerta);
execução de obrigação de fazer e de não fazer. Na espécie de execução por quantia certa, temos
as subespécies de execução de prestação alimentícia; da execução contra a Fazenda Pública e da
execução fiscal. A diferença que há entre as espécies é orientada pelo objeto da execução
indicando a prestação a ser satisfeita pelo credor (pagar, entregar coisa, fazer ou não fazer). Nas
subespécies, temos regras específicas, que se originam da preocupação de serem tutelados os
interesses das partes do processo, em vista da necessidade de uma prestação jurisdicional mais
célere e efetiva (como ocorre na situação que envolve a execução alimentícia), do interesse
público revelado na lide (na execução fiscal) ou da impossibilidade de ser efetivada a penhora
em bens da parte devedora (na execução contra a Fazenda Pública).
7.1 Execução para entrega de coisa – é a procedimento próprio para as obrigações de dar.
a) Conceito – a execução para entrega de coisa corresponde às obrigações de dar em regra geral,
sendo indiferente a natureza do direito a efetivar, que tanto pode ser real como pessoal.
b) Espécies – poderá ser a execução para entrega de coisa certa ou execução para entrega de coisa
incerta:
b.1) execução para entrega de coisa certa244
b.1.1) Procedimento
b.1.1.1) Petição inicial – a execução apoiada em título executivo extrajudicial inicia-se sempre por
provocação do interessado, mediante petição inicial245. O exeqüente deverá juntar a petição
inicial o título executivo extrajudicial (CPC, art. 614, I)246. Além de exibir o título, deverá instruir
seu pedido executivo com a prova da verificação da condição ou do vencimento da dívida (CPC,
art. 614, III).
b.1.1.2) Despacho inicial247 – deferida a petição inicial, o devedor de obrigação de entrega de coisa certa,
constante de título executivo, é citado para, em dez (10) dias248:
b.1.1.2.1)Satisfazer a obrigação;
b.1.1.2.2)Ou oferecer embargos249 e 250. Caso o devedor deseje depositar a coisa, ao invés de entregar,
não pode o exeqüente levantá-la antes do julgamento dos embargos opostos (CPC, art. 623).
b.1.1.3) Cumprimento voluntário – caso o devedor entregue o bem, lavra-se o termo e encerra-se a
execução.

244
Após sucessivas modificações legislativas, a Lei n° 10.444/02 separou as execuções para entrega de coisa fundadas em títulos
judiciais e extrajudiciais. Apenas para estas destinou a atividade executiva nos moldes dos arts. 621 a 631 do CPC. Para as
sentenças condenatórias a entrega de coisa, o regime adotado é o da execução de ofício. Não há mais a ação de execução em
sucessivo processo. O sistema é o da sentença executiva lato sensu, como já anteriormente se passava com as ações de despejo e
com as possessórias. Ao julgamento do pleito segue-se a expedição de mandado de entrega da coisa perseguida pelo autor, sem
necessidade da abertura do processo de execução (CPC, art. 461-A, § 2°).
245
Os requisitos da petição inicial executiva seguem os moldes do art. 282 do CPC, acrescidos com os do art. 615 do CPC.
246
Caso a execução se funde em título executivo judicial, é claro que o credor não o juntará à petição, porquanto a execução forçada
correrá nos próprios autos em que se prolatou a decisão exeqüenda. Bastará, naturalmente, fazer referência ao decisório (título) que
já se encontra nos autos.
247
O magistrado não deve indeferir liminarmente a petição inicial, nem por defeito de forma, nem por falta de documentos
fundamentais, deve, entretanto, intimar o exeqüente a sanar o vício no prazo de dez dias. Só depois de ultrapassado esse prazo,
sem as providências do interessado, é que o juiz poderá indeferir a petição inepta (CPC, art. 616).
248
Este prazo para entrega corre da juntada do mandado cumprido aos autos.
249
Existe uma atecnia entre o art. 622 e o novo art. 738 (com redação dada pela Lei n° 11.382/06). Aquele prevê a necessidade de
depósito do bem para o oferecimento dos embargos. Este, recentemente alterado, libera os embargos da necessidade de garantia do
juízo, pois expressamente revogou os antigos incisos do art. 738 do CPC.
250
O prazo de defesa (agora 15 dias) começa a fluir da data da juntada aos autos do mandado de citação (art. 738, caput, com
redação dada pela Lei n° 11.382/06).

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b.1.1.4) Inércia do devedor – se a coisa não for entregue ou depositada, nem forem os embargos
suspensivos admitidos, expede-se mandado de imissão na posse ou busca e apreensão, caso se
trate de imóvel ou móvel.
b.1.2) Alienação do bem litigioso – se alienada a coisa quando já litigiosa - e se aprouver ao credor251 -
expedir-se-á mandado contra o terceiro adquirente. Neste caso, trata-se de fraude de execução,
de maneira que a transferência do bem se apresenta ineficaz perante o credor (CPC, art. 593,
III). Se o terceiro quiser defender sua posse ou domínio, só poderá fazê-lo após depósito da
coisa litigiosa (CPC, art. 626). Atente-se, ainda, que a responsabilidade executiva do adquirente
é, todavia, limitada exclusivamente à entrega da coisa. Se o bem, por qualquer razão, não mais
estiver em seu poder, não terá o adquirente a obrigação de indenizar o credor pelo equivalente.
A obrigação pelo equivalente é tão-somente do devedor.
b.1.3) Perecimento do bem – caso a coisa já não mais exista ou não mais puder ser entregue, a
execução será convertida em perdas e danos. Com efeito, se a sentença condenatória contiver o
valor da coisa, prevalecerá ele para a execução da ‘obrigação subsidiária’ (a execução se dará
nos moldes da execução por quantia certa). Caso contrário, o credor far-lhe-á a estimativa, que
se não for aceita pela parte contrária, causará o encaminhamento dos interessados ao processo
de liquidação, segundo rito aplicável às sentenças genéricas (CPC, art., 627, § 2°). O valor da
coisa será apurado por arbitramento (CPC, art. 627, § 1°) e o as perdas e danos pelo
procedimento que se mostrar adequado ao caso (CPC, arts. 475-A ao 475-H).
b.2) Execução para entrega de coisa incerta
b.2.1) Conceito – é a execução que recai sobre as obrigações que estão determinadas pelo gênero e
quantidade.
b.2.2) Procedimento – nos termos do art. 629 do CPC, se a execução recair sobre coisas determinadas
pelo gênero e quantidade, o devedor será citado para entregá-las individualizadas, caso lhe
caiba a escolha. Se a escolha couber ao credor, este a indicará na inicial. Caso a opção seja do
devedor, e este citado não a realize, sua omissão importa na transferência da faculdade para o
credor. Superada a fase de individualização das coisas genéricas, o procedimento da execução é
o mesmo observado na entrega da coisa certa (CPC, art. 631).
b.2.3) Possibilidade de impugnação – qualquer das partes pode, em 48 horas, impugnar a escolha feita
pela outra252, e o juiz decide de plano, ou caso necessário, ouvindo perito (CPC, art. 630).
b.3) A execução das obrigações de dar fundadas em título executivo judicial – sistemática da
sentença executiva lato sensu (Lei n° 10.444/2002).
Com o advento do art. 461-A instituído pela Lei n° 10.444/2002 (e confirmada na Lei n°
11.232/05 – art. 475-I), o que era exceção passou a regra, de modo que nenhuma sentença de
condenação em cumprimento de obrigação de entrega de coisa se submeterá ao sistema da
duplicidade de ações. Uma única relação processual proporcionará o acertamento e a realização
do direito do credor da coisa. Generalizou-se, no campo dessas obrigações, a ação executiva lato
sensu. Apenas se empregará a actio iudicati para os títulos executivos extrajudiciais. Nestes
termos, o procedimento unitário está assim disciplinado:
b.3.1) Sempre que o credor reclamar, no processo de conhecimento a entrega de coisa, o juiz lhe
concederá a tutela específica, fixando, na sentença, o prazo para cumprimento da obrigação
(CPC, art. 461-A, caput);
b.3.2) Independentemente de nova citação, aguardar-se-á o transcurso do prazo assinado na sentença,
cuja contagem será a partir dos respectivo trânsito em julgado;

251
O credor não está obrigado a buscar a coisa devida em poder de terceiros. Pode preferir executar o devedor pelo valor da coisa,
mais perdas e danos decorrentes da alienação (CPC, art. 627).
252
Relembre-se que nesta espécie de obrigação, a liberdade da escolha está limitada, pois o devedor não poderá dar a coisa pior,
nem será obrigado a prestar a melhor (CC, art. 244). Assim, está passível de impugnação a escolha realizada.

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b.3.3) Comunicado nos autos o transcurso do prazo sem que o devedor tenha cumprido a obrigação,
expedir-se-á em favor do credor mandado para sua realização compulsória por oficial de justiça:
o mandado será de busca e apreensão, se se tratar de coisa móvel; e de imissão de posse, se o
bem devido for coisa imóvel (art. 461-A, § 2°). No primeiro caso, o oficial toma fisicamente
posse da coisa e a entrega ao credor; no segundo, os ocupantes são desalojados do imóvel, para
que o credor dele se assenhoreie. A diligência, portanto, se aperfeiçoa com a colocação do
exeqüente na posse efetiva e desembaraçada do imóvel disputado.
b.4) Inovações da Lei n° 11.382/06 – com o advento da nova sistemática executiva de título
extrajudicial, foi inserido no ordenamento brasileiro – através de certidão que deverá ser
extraída no cartório após a distribuição da ação executiva – a possibilidade do exeqüente
averbar perante os registros gerais (imóveis, veículos, etc.) o processo de execução que
promove em face do executado. Tal medida visa evitar futuras fraudes à execução, bem como a
alegação de boa-fé de terceiros que porventura adquiram bens do executado. Nestes termos
reza o artigo 615-A do CPC:
b.4.1) “O exeqüente poderá, no ato da distribuição, obter certidão comprobatória do ajuizamento da
execução, com identificação das partes e valor da causa, para fins de averbação no registro de
imóveis, registro de veículos ou registro de outros bens sujeitos à penhora ou arresto”253.
b.4.2) Necessidade de comunicação ao juízo – conforme dispõe o §1° do art. 615-A “O exeqüente
deverá comunicar ao juízo as averbações efetivadas, no prazo de 10 (dez) dias de sua
concretização”254.
b.4.3) Liberação do registro – o §2° do art. 615-A do CPC dispõe “Formalizada penhora sobre bens
suficientes para cobrir o valor da dívida, será determinado o cancelamento das averbações de
que trata este artigo relativas àqueles que não tenham sido penhorados”.
b.4.4) Fraude à execução – “Presume-se em fraude à execução a alienação ou oneração de bens
efetuada após a averbação (art. 593)” (art. 615-A, § 3°)255.
b.4.5) Averbação indevida – “O exeqüente que promover averbação manifestamente indevida
indenizará a parte contrária, nos termos do § 2° do art. 18 desta Lei, processando-se o incidente
em autos apartados” (art. 615-A, § 4°)256.
b.4.6) Possibilidade de regulamentação – conforme autoriza o §5° do art. 615-A, “Os tribunais poderão
expedir instruções sobre o cumprimento deste artigo.”
7.2 Execução de obrigação de fazer e não fazer (sistemáticas de título judicial e extrajudicial) –
como tudo que foi visto até agora, na execução de obrigações de fazer e não fazer, o
procedimento irá variar de acordo com a espécie de título que fundamenta a cobrança (se
judicial ou extrajudicial). Ademais, enquanto nas obrigações de dar a prestação incide sobre
coisas, nas obrigações de fazer ou não fazer o objeto da relação jurídica é um procedimento do
devedor. Normalmente as obrigações de dar são realizáveis através de execução específica,
mesmo quando o devedor se torna inadimplente, pois a interferência do Estado é quase sempre
capaz de atingir o bem devido para entregá-lo ao credor. Já com referência às obrigações de
fazer acontece o contrário, visto que raramente se conseguirá a atuação compulsória do devedor

253
Como explica Carreira Alvin (p. 41), o que o legislador fez foi facultar ao exeqüente uma antecipação dos efeitos da penhora. Os
efeitos que se obtinham, antes da reforma, por ocasião da penhora do bem imóvel, foram antecipados para o momento da
distribuição da ação de execução, e estendidos a outros bens, dentre os quais os veículos, sujeitos igualmente à apreensão judicial,
como a penhora ou o arresto. Uma vez efetuada a averbação da distribuição da execução relativa ao bem imóvel, nos termos do art.
615-A, não tem utilidade a averbação da penhora nos termos do § 4° do art. 659.
254
Observe-se que a Lei não prevê qualquer punição ao descumprimento do ônus ou do prazo legal de comunicação ao juízo
exeqüendo.
255
Este registro antecipado não tem eficácia de alcançar negócios jurídicos já realizados (art. 466-B).
256
Como adverte Carreira Alvin (p. 44), temerária poderá se tornar a inovação legal. A averbação não deixa de ser uma forma de
constrição, e pode acontecer que alguém pretenda executar um título extrajudicial prescrito, e, como isso, venha obter a certidão
sobre a distribuição da ação de execução, fazendo averbações indevidas, com reais prejuízos para o devedor, e que só mais tarde,
quando der pela prescrição, será detectada pelo juiz. O argumento de que, quem assim proceder responderá por má-fé processual
(art. 18) não convence, porquanto a reparação do dano depende da solvabilidade do responsável, e, em tais casos, pode o suposto
credor não dispor de patrimônio que a comporte.

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faltoso para realizar a prestação a que pessoalmente se obrigou. Reitere-se novamente que aqui
- assim como quando do estudo da execução para entrega de coisa - atualmente só se utiliza à
sistemática executiva nos moldes do processo de execução, caso o título seja extrajudicial,
porquanto sendo o título judicial, o cumprimento da obrigação se dará no bojo dos autos do
próprio processo de conhecimento (CPC, arts. 461 e 644257).
a) Execução de obrigação de fazer (conceito e procedimento)
a.1) espécies
a.1.1) Judicial e extrajudicial – se judicial (cumprimento de sentença), obedecerá a sistemática do art.
461 do CPC. Quando for fundada em título executivo extrajudicial, seguirá o disposto no Livro II
do CPC (Processo de Execução).
a.1.2) Fungíveis e infungíveis – pode ser a obrigação qualificada em fungível ou infungível258. A grande
importância da distinção que ora se faz está em que, sendo fungível a prestação, poderá o
credor executá-la especificamente, ainda que contrariamente à vontade do devedor. Utilizar-se-
ão, para tanto, os serviços de terceiros e o devedor ficará responsável pelos gatos respectivos
(CPC, arts. 633 e 634). Se, porém, a obrigação for de prestação infungível, a recusa ou mora do
devedor importa sua conversão em perdas e danos, gerando a execução pela “obrigação
subsidiária”.
a.2) Procedimento da execução de obrigação de fazer fundada em título extrajudicial:
a.2.1) Petição inicial – nos moldes do processo executivo, indispensável, portanto, o preenchimento dos
requisitos do art. 282 e a juntada do título executivo.
a.2.2) Citação – conforme o art. 632 do CPC, se o objeto da execução for uma obrigação de fazer, o
devedor é citado para satisfazê-la no prazo assinalado pelo juiz, se outro já não estiver
determinado no título executivo.
a.2.3) Embargos – pode o executado embargar a execução, em 15 dias (art. 738 do CPC, conforme
redação dada pela Lei n° 11.382/06), contados da juntada do mandado de citação.
a.2.4) Silêncio do devedor – caso no prazo determinado o devedor não satisfizer a obrigação e nem
ofereça embargos, é lícito ao credor, nos próprios autos, requerer que seja executada à custa do
devedor (obrigação fungível) ou haver perdas e danos (obrigação infungível)259.
a.3) Cumprimento de sentença (título judicial) – ocorre de ofício, utilizando da mesma sistemática do
cumprimento de sentença de obrigação de entrega de coisa (CPC, art. 461-A). O art. 461
importa, em regra, prolação de sentença com natureza mandamental (que não é ‘executada’ e
sim efetivada). Para tanto, faz-se importante para o fiel cumprimento da tutela específica a
aplicação de multa (astreinte), conforme determina o art. 461 do CPC.
a.4) Astreinte – o CPC prevê, expressamente, a utilização de multa diária para compelir o devedor a
realizar a prestação de fazer ou não fazer260. Essa multa será aquela prevista na sentença
condenatória e, se omissa, a que for arbitrada pelo próprio juiz da execução (CPC, art. 644).
Atente-se que a exigência da multa se dá por meio do procedimento de execução por quantia
certa. Como a sentença que a institui é apenas genérica e subordinada a condição, tem o credor
de promover a necessária liquidação por artigos, pois haverão de ser provados fatos novos,
como a constituição em mora do devedor, o descumprimento da prestação, a data em que
ocorreu e a duração do estado de inadimplência. Caberá, em tal procedimento, o juízo de revisão

257
Com redação dada pela Lei n° 10.444/02 e confirmada pela Lei n° 11.232/05.
258
Infungíveis: a pessoa do devedor figura com relevância. O intuito personae não se funda, necessariamente, em qualidades
pessoais e objetivas do devedor, mas em condições particulares a critério do credor. Fungíveis: a pessoa do devedor não figura com
relevância (CC, art. 247 e CC de 1916, art. 878).
259
A Lei n° 11.382/06 imprimiu nova redação ao artigo 634 do CPC: “Se o fato puder ser prestado por terceiro, é lícito ao juiz, a
requerimento do exeqüente, decidir que aquele o realize à custa do executado. Parágrafo único. O exeqüente adiantará as quantias
previstas na proposta que, ouvidas as partes, o juiz houver aprovado”. Em síntese o procedimento foi simplificado com a revogação
dos sete parágrafos da redação anterior.
260
Súmula 410 do STJ (Intimação pessoal): “A prévia intimação pessoal do devedor constitui condição necessária para a
cobrança de multa pelo descumprimento de obrigação de fazer ou não fazer”.

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da multa, para reduzi-la, aumentá-la, ou fazê-la cessar, conforme o caso (CPC, arts. 461, § 6° e
645, parágrafo único)261.
a.5) Sentença que condena em declaração de vontade – a Lei n° 11.232 de 22.12.2005 inseriu na
Seção I – Dos Requisitos e dos Efeitos da Sentença, três novos artigos a seguir transcritos:
a.5.1) Art. 466-A: Condenado o devedor a emitir declaração de vontade, a sentença, uma vez
transitada em julgado, produzirá todos os efeitos da declaração não emitida.
a.5.2) Art. 466-B: Se aquele que se comprometeu a concluir um contrato não cumprir a obrigação, a
outra parte, sendo isso possível e não excluído pelo título, poderá obter uma sentença que
produza o mesmo efeito do contrato a ser firmado.
a.5.3) Art. 466-C: Tratando-se de contrato que tenha por objeto a transferência da propriedade de
coisa determinada, ou de outro direito, a ação não será acolhida se a parte que a intentou não
cumprir a sua prestação, nem a oferecer, nos casos e formas legais, salvo se ainda não exigível.
b) Execução de obrigação de não fazer
b.1) Conceito – se o devedor praticou o ato, a cuja abstenção estava obrigado pela lei ou pelo
contrato, o credor requererá ao juiz que lhe assine prazo para desfazê-lo (CPC, art. 642)262. Não
é execução de obrigação negativa. A obrigação é que é negativa. A execução é para um ato
positivo: desfazer ou pagar as perdas e danos.
b.2) Procedimento – o devedor estabelecido como tal em título executivo, será citado a abster-se. Se
praticou o ato, aplica-se, então, o art. 642 do CPC: citação para desfazer no prazo marcado pelo
juiz. Havendo recusa ou mora do devedor, o credor requererá ao juiz que mande desfazer o ato
à sua custa, respondendo o devedor por perdas e danos. Assim, converte-se em fazer,
aplicando-se os arts. 634 e 637 do CPC.
7.3 Execução por quantia certa contra devedor solvente
a) Conceito – tem por objeto expropriar bens do devedor a fim de satisfazer o direito do credor
(CPC, art. 646 e 475-J).
b) Procedimento – pode seguir dois ritos: execução de quantia certa fundada em título executivo
extrajudicial (art. 652 e seguintes do CPC); e cumprimento de sentença263 que condena ao
pagamento de quantia certa (art. 475-J e seguintes do CPC).
b.1) Execução de quantia certa fundada em título executivo extrajudicial:
b.1.1) Fase inicial da expropriação (citação e penhora) – em tal modalidade, o devedor é citado para
em 3 (três) dias efetuar o pagamento (art. 652 do CPC)264. Quanto a essa fase, podem ocorrer
as seguintes situações:
b.1.1.1) Devedor não citado – se o oficial não encontrar o devedor, arresta tantos bens quanto bastem
para satisfazer a execução (art. 653 do CPC). Nos 10 dias seguintes, procura o devedor 3 vezes
em dias distintos. Não o encontrando, certifica o ocorrido. Faz-se a citação por edital e aguarda o
prazo de dilação.
b.1.1.2) Devedor citado, não paga – se o devedor não pagar, munido da segunda via do mandado, o
oficial de justiça procederá de imediato à penhora de bens e a sua avaliação265, lavrando-se o
respectivo auto e de tais atos intimando, na mesma oportunidade, o executado (art. 652, § 1°).

261
Aqui vale lembrar a lição do Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira apud Theodoro Jr.: as astreintes do direito francês são
‘ilimitadas, podendo levar o devedor à insolvência’.
262
Observe-se que o artigo explicitado parte da idéia de que o devedor já descumpriu o preceito, ao passo que é perfeitamente
possível a ação, diante da ameaça da prática do ato proibido, para que, sob cominação de multa, deixa o devedor de fazer o que
vem reiteradamente fazendo ou que está ameaçando concretamente fazer.
263
Execuções fundadas em títulos executivos judiciais (art. 475-N), conforme Lei n° 11.232/05.
264
Observe que a Lei n° 11.382/06 dilatou o prazo para 3 dias (anteriormente eram 24 horas), e retirou uma segunda opção
facultada ao devedor (antigamente este poderia, ao invés de pagar, nomear bens a penhora).
265
Assim como ocorrera com o cumprimento de sentença (Lei n° 11.232/05), nas execuções fundadas em título extrajudicial o
mandado de citação passa a compreender não só a penhora como também a avaliação do bem penhorado (art. 143, V do CPC). A

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b.1.2) Possibilidade de indicação de bens na petição inicial – na mesma orientação da Lei n° 11.232/05
(art. 475-J, § 3°), o § 2° do art. 652 (introduzido pela Lei n° 11.382/06) dispõe que o credor
poderá, na inicial da execução, indicar bens do executado a serem penhorados, respeitando o
agora atualizado rol do art. 655 do CPC.
b.1.3) Intimação do devedor – o § 3° do art. 652 prevê que o juiz poderá, de ofício ou a requerimento
do exeqüente, determinar, a qualquer tempo, a intimação do executado266 para indicar bens
passíveis de penhora. Atente-se ainda que, conforme dispõe o inciso IV do art. 600: “Considera-
se atentatório à dignidade da Justiça o ato do executado que: (...) IV - intimado, não indica ao
juiz, em 5 (cinco) dias, quais são e onde se encontram os bens sujeitos à penhora e seus
respectivos valores.”
b.1.4) Intimação da penhora e avaliação – se não localizar o executado para intimá-lo da penhora, o
oficial certificará detalhadamente as diligências realizadas, caso em que o juiz poderá dispensar
a intimação ou determinará novas diligências (art. 652, § 5°).
b.1.5) Honorários advocatícios – o art. 652-A (Lei n° 11.382/06) criou uma nova sistemática na fixação
de honorários advocatícios nas execuções fundadas em título executivo extrajudicial. Reza o
artigo que ao despachar à inicial, o juiz fixará, de plano, os honorários de advogado a serem
pagos pelo executado (art. 20, § 4°). Atente-se, ainda que, conforme determina o parágrafo
único do mesmo artigo, no caso de integral pagamento no prazo de 3 (três) dias, a verba
honorária será reduzida pela metade267.
b.2) Cumprimento da sentença que condena ao pagamento de quantia certa (nova sistemática
executiva – art. 475-J)
b.2.1) Adimplemento voluntário – após a sentença se tornar exigível, o devedor (conforme dispõe o
caput do art. 475-J), condenado ao pagamento de quantia certa ou já fixada em liquidação, terá
o prazo de 15 (quinze) dias para efetuar a quitação da dívida.
b.2.2) Multa de 10% – conforme dispõe a parte final do caput do art. 475-J, caso o devedor não efetue
o pagamento da dívida no prazo de quinze dias, o montante da condenação será acrescido de
multa no percentual de 10% (dez por cento)268.
b.2.3) Requerimento (petição) – após a aplicação da supramencionada multa, a atividade executiva
NÃO se instaura de ofício. Necessita de requerimento do credor exeqüente. Com efeito, terá o
prazo de até seis meses para efetuar esse requerimento269, que se fará através de petição que
deverá estar acompanhada da respectiva planilha de cálculo (atualização da dívida – correção
monetária, juros, custas e honorários270).
b.2.4) Mandado de penhora e avaliação – após o requerimento, e estando esse em ordem, o juiz
determinará de imediato a expedição de mandado de penhora e avaliação. Observe-se que pela

função da avaliação é estimar o valor dos bens penhorados, ou seja, definir um valor básico para a futura adjudicação, arrematação
ou remição. A incumbência de avaliar o bem penhorado (como já ocorria nas Justiças do Trabalho e Federal) é agora do oficial de
justiça (art. 680. A avaliação será feita pelo oficial de justiça (art. 652), ressalvada a aceitação do valor estimado pelo executado
(art. 668, parágrafo único, inciso V); caso sejam necessários conhecimentos especializados, o juiz nomeará avaliador, fixando-lhe
prazo não superior a 10 (dez) dias para entrega do laudo).
266
Observe-se que o § 4° do art. 652 prevê que esta intimação far-se-á na pessoa de seu advogado; não o tendo, será intimado
pessoalmente. Adverte Carreira Alvin (p. 75) que não tem sentido que a citação do devedor, para pagamento da dívida, seja feita
pessoalmente, e a sua intimação para indicar bens passíveis de penhora seja, em princípio, feita na pessoa de seu advogado, pois
atribui a este um ônus processual que não lhe pertence. Se o advogado, uma vez intimado, não conseguir contato com o seu cliente,
para indicar bens à penhora, cuide-se de comunicar ao juiz esse fato, pedindo a citação pessoal do executado, para evitar que venha
a ser acusado de estar protelando o andamento do processo, sujeitando-se à reparação do dano.
267
Trata-se da técnica de premiação, adotada em alguns procedimentos como, v.g., na ação monitória, na ação de despejo baseada
na retomada para uso próprio, nos juizados especiais, e visam a evitar procrastinações e resistências injustificadas, protelando a
efetividade da prestação jurisdicional.
268
Observe-se que esta multa é ope legis (imposta por lei). Não cabe ao juiz reduzi-la ou majorá-la, o percentual está fixado na Lei.
Neste mesmo sentido, não se trata de uma faculdade conferida ao magistrado, mas um dever. Assim, a multa será aplicada ainda
que a sentença expressamente não a preveja.
269
Não sendo requerida a execução no prazo de seis meses, o juiz mandará arquivar os autos, sem prejuízo de seu
desarquivamento a pedido da parte (CPC, art. 475-J, § 5°).
270
Conforme requisitos do art. 614, inciso II do CPC.

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nova sistemática foi suprimido o direito do devedor executado de nomear bens. Assim, pode o
exeqüente credor, já em sua petição de requerimento, indicar bens do devedor executado
passíveis de serem penhorados (CPC, art. 475-J, § 3°). Atente-se, ainda, que o mandado
também compreenderá a avaliação do bem, ou seja, cabe agora ao oficial de justiça (e não mais
ao perito avaliador) atribuir estimativa de valor ao bem que irá ser penhorado271.
b.2.5) Juízo garantido – após o oficial de justiça cumprir a diligência e penhorar e avaliar quantos bens
se façam necessários para garantir a execução, do auto de penhora e de avaliação será de
imediato intimado272 o executado, na pessoa de seu advogado (arts. 236 e 237), ou, na falta
deste, o seu representante legal, ou pessoalmente, por mandado ou pelo correio, podendo
oferecer impugnação273, querendo, no prazo de quinze dias274 (CPC, art. 475-J, § 1°).
b.2.6) Pagamento parcial – caso seja efetuado o pagamento parcial no prazo previsto no caput do art.
475-J, a multa de dez por cento incidirá sobre o restante (CPC, art. 475-J, § 4°).
c) Penhora:
c.1) Conceito – é o ato pelo qual se apreendem bens para entregá-los, de maneira direta ou indireta,
na satisfação do crédito exeqüendo275. Com efeito, é ato essencial do procedimento da execução
por quantia certa contra devedor solvente.
c.2) Efeitos – a penhora produz efeitos de duas ordens: processuais e materiais.
c.2.1) Processuais:
c.2.1.1) Garantir o juízo;
c.2.1.2) Individualizar os bens que suportarão a atividade executiva;
c.2.1.3) Gerar para o exeqüente direito de preferência276.
c.2.2) Materiais:
c.2.2.1) Retirar do executado a posse direta do bem penhorado – estando o bem apreendido pelo Estado-
juiz, o executado perderá a posse direta da coisa, embora não fique privado da posse indireta277;
c.2.2.2) Tornar ineficazes os atos de alienação ou oneração do bem apreendido judicialmente.
c.3) Impenhorabilidade – esta pode ser absoluta, relativa e bens de residência (família):
c.3.1) Bens absolutamente impenhoráveis – os dispostos no art. 649 do CPC (com nova redação dada
pela Lei n° 11.382/06). Os bens ali arrolados não podem ser penhorados, pouco importando se
existem ou não outros bens no patrimônio do executado capazes de assegurar a realização do
direito exeqüendo. São eles:

271
Por óbvio, conforme dispõe o § 2° do art. 475-J; caso o oficial de justiça não possa proceder à avaliação, por depender de
conhecimentos especializados, o juiz, de imediato, nomeará avaliador, assinando-lhe breve prazo para a entrega do laudo.
272
Como se trata de um ato contínuo (cumprimento da sentença) e não um novo processo, desnecessário se faz a citação do
devedor. Será necessária apenas a intimação de seu advogado (pela imprensa oficial de preferência), ou caso não possua patrono, a
intimação pessoal do devedor (pessoal, por mandado, ou via postal).
273
Atente-se que não se fala mais de embargos do devedor (ação), e sim de impugnação (que no espírito da lei, tratar-se-ia de
simples incidente).
274
Finalmente, observe-se que o prazo da impugnação aumentou em relação aos embargos do devedor. Ela passa a ter prazo de
interposição de 15 (quinze) dias, enquanto os antigos embargos do devedor contra sentença tinham o prazo de dez dias.
275
Os bens penhorados serão empregados diretamente na satisfação do crédito quando forem eles entregues ao exeqüente,
passando a integrar seu patrimônio (a esta modalidade de pagamento do demandante, como se verá adiante, dá-se o nome de
adjudicação). De outro lado, os bens penhorados serão empregados por via indireta na satisfação do direito exeqüendo quando
forem expropriados e convertidos em dinheiro, devendo-se entregar ao exeqüente o numerário obtido, até o limite de seu crédito.
276
Esse direito de preferência ocorre quando recaindo mais de uma penhora sobre um determinado bem, terá preferência no
recebimento do dinheiro (em que o mesmo será convertido) aquele exeqüente que, em primeiro lugar, tiver realizado a penhora (em
seguida receberá o segundo, e assim sucessivamente). A preferência nascida da penhora não afasta a incidência de preferências
nascidas anteriormente, e que serão respeitadas, como nascidas da hipoteca, por exemplo. Atente-se ainda que, ocorrendo arresto
antecedente, a penhora retroage até a data da efetivação da medida cautelar.
277
Observe-se que, conforme dispõe o art. 666 do CPC, o executado será – via de regra – o depositário dos bens penhorados
(ressalvada a hipótese de o exeqüente não concordar com o exercício, pelo demandado, de tal função). Nesses casos – conforme
doutrina majoritária – o executado não perde a posse direta do bem.

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c.3.1.1) os bens inalienáveis e os declarados, por ato voluntário, não sujeitos à execução;
c.3.1.2) os móveis, pertences e utilidades domésticas que guarnecem a residência do executado, salvo os
de elevado valor ou que ultrapassem as necessidades comuns correspondentes a um médio
padrão de vida;
c.3.1.3) os vestuários, bem como os pertences de uso pessoal do executado, salvo se de elevado valor;
c.3.1.4) os vencimentos, subsídios, soldos, salários, remunerações, proventos de aposentadoria,
pensões, pecúlios e montepios; as quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas
ao sustento do devedor e sua família, os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de
profissional liberal, observado o disposto no § 3° deste artigo278;
c.3.1.5) os livros, as máquinas, as ferramentas, os utensílios, os instrumentos ou outros bens móveis
necessários ou úteis ao exercício de qualquer profissão;
c.3.1.6) o seguro de vida;
c.3.1.7) os materiais necessários para obras em andamento, salvo se essas forem penhoradas;
c.3.1.8) a pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que trabalhada pela família;
c.3.1.9) os recursos públicos recebidos por instituições privadas para aplicação compulsória em
educação, saúde ou assistência social;
c.3.1.10) até o limite de 40 (quarenta) salários mínimos, a quantia depositada em caderneta de
poupança279.
c.3.2) Bens relativamente impenhoráveis – após arrolar os bens absolutamente impenhoráveis, o CPC
– no art. 650 (com nova redação dada pela Lei n° 11.382/06) – dispõe que podem ser
penhorados, à falta de outros bens, os frutos e rendimentos dos bens inalienáveis, salvo se
destinados à satisfação de prestação alimentícia.
c.3.3) Bens de residência – conforme os ensinamentos de Alexandre Freitas Câmara, a última
modalidade de impenhorabilidade é a que se denomina “impenhorabilidade de bem de
residência”, que é prevista na Lei 8.009/90 (denominada Impenhorabilidade de Bens de Família).
A lei afirma ser impenhorável: Art. 1º O imóvel residencial próprio do casal, ou da entidade
familiar280, é impenhorável e não responderá por qualquer tipo de dívida civil, comercial, fiscal,
previdenciária ou de outra natureza, contraída pelos cônjuges ou pelos pais ou filhos que sejam
seus proprietários e nele residam, salvo nas hipóteses previstas nesta lei. Parágrafo único. A
impenhorabilidade compreende o imóvel sobre o qual se assentam a construção, as plantações,
as benfeitorias de qualquer natureza e todos os equipamentos, inclusive os de uso profissional,
ou móveis que guarnecem a casa, desde que quitados. (...) Art. 3º A impenhorabilidade é
oponível em qualquer processo de execução civil, fiscal, previdenciária, trabalhista ou de outra
natureza, salvo se movido: I – em razão dos créditos de trabalhadores da própria residência e
das respectivas contribuições previdenciárias; II – pelo titular do crédito decorrente do
financiamento destinado à construção ou à aquisição do imóvel, no limite dos créditos e
acréscimos constituídos em função do respectivo contrato; III – pelo credor de pensão
alimentícia; IV – para cobrança de impostos, predial ou territorial, taxas e contribuições devidas

278
Conforme dispõe o § 2° do mesmo artigo 649, a impenhorabilidade dos salários, vencimentos e afins não se aplica no caso de
penhora para pagamento de prestação alimentícia.
279
Atente-se que a impenhorabilidade não é oponível à cobrança do crédito concedido para a aquisição do próprio bem (art. 649, §
1° do CPC).
280
Observe-se ainda que o STJ estende o benefício da impenhorabilidade a pessoa solteira: Súmula 364 do STJ: “O
conceito de impenhorabilidade de bem de família abrange também o imóvel pertencente a pessoas solteiras, separadas e viúvas”.
Ementa: “PROCESSUAL – EXECUÇÃO - IMPENHORABILIDADE – IMÓVEL - RESIDÊNCIA – DEVEDOR SOLTEIRO E SOLITÁRIO – LEI
8.009/90. - A interpretação teleológica do Art. 1º, da Lei 8.009/90, revela que a norma não se limita ao resguardo da família. Seu
escopo definitivo é a proteção de um direito fundamental da pessoa humana: o direito à moradia. Se assim ocorre, não faz sentido
proteger quem vive em grupo e abandonar o indivíduo que sofre o mais doloroso dos sentimentos: a solidão. - É impenhorável, por
efeito do preceito contido no Art. 1º da Lei 8.009/90, o imóvel em que reside, sozinho, o devedor celibatário”. (STJ-Corte Especial,
EREsp n° 182223-SP, rel. Min. Humberto Gomes de Barros, j. 06.02.02, por maioria, DJ 07.04.2003 p. 209; RBDF vol. 18 p. 103;
REVJUR vol. 306 p. 83; RSTJ vol. 173 p. 40; RT vol. 818 p. 158.

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em função do imóvel familiar; V – para execução de hipoteca sobre o imóvel, oferecido como
garantia real pelo casal ou pela entidade familiar; VI – por ter sido adquirido com produto de
crime ou para execução de sentença penal condenatória a ressarcimento, indenização ou
perdimento de bens; VII – por obrigação decorrente de fiança concedida em contrato de locação
(...).
c.4) Inscrição da penhora que recai sobre imóveis – atualmente, a Lei 10.444/02 (que teve sua
redação confirmada pela Lei n° 11.382/06) impôs uma nova sistemática a esse procedimento,
dando nova redação ao art. 659, § 4° do CPC. Com efeito, dispõe o citado dispositivo: a) o ato
de penhora sobre imóvel, para o processo, se aperfeiçoa com a lavratura do respectivo auto ou
termo; b) ao credor, e não ao juízo, incube providenciar o registro do gravame processual no
Cartório Imobiliário; esse ato registral será feito mediante apresentação de certidão de inteiro
teor do ato, independentemente de mandado judicial; c) o objetivo do registro é a publicidade
erga omnes da penhora, de sorte a produzir “presunção absoluta de conhecimento por
terceiros”. Quer isto dizer que, estando registrada a penhora, o eventual adquirente do imóvel
constrito jamais poderá argüir boa-fé para se furtar aos efeitos da aquisição em fraude de
execução. A presunção estabelecida pela lei é juris et de jure; d) o registro, porém, não é
condição para que a execução tenha prosseguimento, pois, após a lavratura do auto ou termo de
penhora, dar-se-á a intimação do executado para abertura do prazo de embargos e para os
ulteriores termos do processo executivo. O dispositivo legal, portanto, dissocia completamente o
ato processual do ato registral; um para efeito interno no processo, e outro para efeito externo,
em relação a terceiros.
c.5) Escolha dos bens a penhorar – como a Lei n° 11.382/06 retirou a possibilidade de escolha dos
bens do executado (CPC, art. 652), caso o devedor não pague em 3 (três) dias (execuções de
título extrajudicial) ou em 15 (quinze) dias (cumprimento de sentença), suportará a escolha
sobre os que forem encontrados (CPC, art. 659). Além disso, deverá ser respeitada a gradação
legal do art. 655 do CPC281 (observar Súmula 417 do STJ: Na execução civil, a penhora de
dinheiro na ordem de nomeação de bens não tem caráter absoluto). Atente-se que a nomeação
pelo credor poderá ocorrer já na sua petição inicial (título extrajudicial – art. 652, § 2°), ou no
seu requerimento (cumprimento de sentença – art. 475-J, § 3°); bem como quando a nomeação
do devedor é declarada ineficaz, na forma do art. 656 do CPC.
c.6) Penhora de dinheiro depositado ou aplicado em instituição financeira (penhora on-line; penhora
eletrônica; BACEN-JUD) – conforme dispõe o art. 655-A: “Para possibilitar a penhora de dinheiro
em depósito ou aplicação financeira, o juiz, a requerimento do exeqüente, requisitará à
autoridade supervisora do sistema bancário, preferencialmente por meio eletrônico, informações
sobre a existência de ativos em nome do executado, podendo no mesmo ato determinar sua
indisponibilidade, até o valor indicado na execução. As informações limitar-se-ão à existência ou
não de depósito ou aplicação até o valor indicado na execução” (art. 655-A, § 1°).
c.6.1) Penhora sobre conta salário – compete ao executado comprovar que as quantias depositadas em
conta corrente referem-se à hipótese do inciso IV do caput do art. 649 (salários, vencimentos e
afins), ou que estão revestidas de outra forma de impenhorabilidade (art. 655-A, § 2°).
c.6.2) Penhora sobre percentual do faturamento da empresa – na penhora de percentual do
faturamento da empresa executada, será nomeado depositário, com a atribuição de submeter à
aprovação judicial a forma de efetivação da constrição, bem como de prestar contas

281
A Lei n° 11.382/06 atualizou o art. 655 do CPC, que possuía uma ordem de liquidez de bens bastante ultrapassada. Com efeito,
esta é a atual redação do dispositivo: “Art. 655. A penhora observará, preferencialmente, a seguinte ordem: I - dinheiro, em
espécie ou em depósito ou aplicação em instituição financeira; II - veículos de via terrestre; III - bens móveis em geral; IV - bens
imóveis; V - navios e aeronaves; VI - ações e quotas de sociedades empresárias; VII - percentual do faturamento de empresa
devedora; VIII - pedras e metais preciosos; IX - títulos da dívida pública da União, Estados e Distrito Federal com cotação em
mercado; X - títulos e valores mobiliários com cotação em mercado; XI - outros direitos. § 1° Na execução de crédito com garantia
hipotecária, pignoratícia ou anticrética, a penhora recairá, preferencialmente, sobre a coisa dada em garantia; se a coisa pertencer a
terceiro garantidor, será também esse intimado da penhora. § 2° Recaindo a penhora em bens imóveis, será intimado também o
cônjuge do executado.”

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mensalmente, entregando ao exeqüente as quantias recebidas, a fim de serem imputadas no


pagamento da dívida (art. 655-A, § 3°).
c.7) Penhora de bem indivisível – tratando-se de penhora em bem indivisível, a meação do cônjuge
alheio à execução recairá sobre o produto da alienação do bem (CPC, art. 655-B).
c.8) Depositário – a penhora se aperfeiçoa mediante apreensão e depósito de bens do devedor. Há
com ela, a retirada de bens da posse direta do devedor, de maneira que o depósito se apresenta
como elemento essencial do ato executivo. A escolha do depositário observará as regras do art.
666 do CPC. Apesar do CPC indicar e exigir o contrário282, na prática forense o próprio devedor
fica como depositário, porquanto a figura do depositário judicial quase não existe nas ‘justiças’ e
quando existe geralmente se encontra sobrecarregado de bens. Outrossim, observe-se que o
depositário atua como ‘auxiliar de justiça’ (art. 148 do CPC). Não se trata de um vínculo
convencional como o do contrato civil. As funções do depositário dos bens penhorados são de
direito público. O próprio devedor quando assume a função de depositário, passa a desempenhar
duplo papel no processo, figurando a um só tempo como executado e como auxiliar do juízo. A
função do depositário é guardar e conservar os bens penhorados até que cheguem o momento
de arrematação ou que ocorra algum fato extintivo da execução. Seus poderes são apenas de
administração, sendo-lhe vedado dispor dos bens, salvo nas hipóteses do art. 670 do CPC. Para
tanto, no exercício de sua função pública, o depositário assume responsabilidade civil e criminal
(CPP, arts. 168, § 1°; e 179) pelos atos praticados em detrimento da execução e de seus
objetivos. Pode ocorrer inclusive sua prisão civil, nos termos do art. 5°, LXVII da CF. A Lei n°
11.382/06 inseriu no art. 666, sobre a figura do depositário, os seguintes pontos: a) quando o
depósito recair sobre jóias, pedras e objetos preciosos, estes deverão ser depositados com
registro do valor estimado de resgate (art. 666, § 2°); b) após a recepção do Pacto de San José
o STF entendeu pela impossibilidade da prisão de depositário judicial infiel283 (art. 666, § 3°);
observar Súmula Vinculante 25 do STF: É ilícita a prisão civil de depositário infiel,
qualquer que seja a modalidade do depósito; e Súmula 419 do STJ: Descabe a prisão
civil do depositário judicial infiel.
c.9) Substituição do bem penhorado – conforme dispõe a nova redação do art. 656 do CPC (Lei n°
11.382/06), a parte poderá requerer a substituição da penhora:
c.9.1) Hipóteses de substituição:
c.9.1.1) se não obedecer à ordem legal;
c.9.1.2) se não incidir sobre os bens designados em lei, contrato ou ato judicial para o pagamento;
c.9.1.3) se, havendo bens no foro da execução, outros houver sido penhorados;
c.9.1.4) se, havendo bens livres, a penhora houver recaído sobre bens já penhorados ou objeto de
gravame;
c.9.1.5) se incidir sobre bens de baixa liquidez;
c.9.1.6) se fracassar a tentativa de alienação judicial do bem; ou
c.9.1.7) se o devedor não indicar o valor dos bens ou omitir qualquer das indicações a que se referem os
incisos I a IV do parágrafo único do art. 668 do CPC284.

282
Com a expressa anuência do exeqüente ou nos casos de difícil remoção, os bens poderão ser depositados em poder do executado
(art. 666, § 1°).
283
No julgamento do HC 92566 (DJe nº 104/2009), o Tribunal Pleno revogou expressamente a Súmula 619. Nesse sentido, veja
também os seguintes acórdãos: RE 349703 (DJe nº 104/2009), RE 466343 (DJe nº 104/2009) e HC 87585 (DJe nº 118/2009),
todos do Plenário: Súmula 619 do STF “A prisão do depositário judicial pode ser decretada no próprio processo em que se
constituiu o encargo, independentemente da propositura de ação de depósito”.
284
Atente-se que é dever do executado (art. 600), no prazo fixado pelo juiz, indicar onde se encontram os bens sujeitos à execução,
exibir a prova de sua propriedade e, se for o caso, certidão negativa de ônus, bem como abster-se de qualquer atitude que dificulte
ou embarace a realização da penhora - art. 14, parágrafo único (CPC, art. 656, § 1°).

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c.9.2) Substituição da penhora por fiança bancária – conforme autoriza o § 2° do art. 656: “A penhora
pode ser substituída por fiança bancária ou seguro garantia judicial, em valor não inferior ao do
débito constante da inicial, mais 30% (trinta por cento)”.
c.9.3) Substituição da penhora por imóvel – o § 3° do art. 656 condiciona que o executado somente
poderá oferecer bem imóvel em substituição caso o requeira com a expressa anuência do
cônjuge.
c.9.4) Substituição do bem penhorado por iniciativa do executado – dispõe a nova redação do art. 668
do CPC: o executado pode, no prazo de 10 (dez) dias após intimado da penhora, requerer a
substituição do bem penhorado, desde que comprove cabalmente que a substituição não trará
prejuízo algum ao exeqüente e será menos onerosa para ele devedor (art. 17, incisos IV e VI, e
art. 620).
c.9.5) Procedimento – a substituição do penhorado seguirá o rito previsto no art. 657 do CPC, ou seja,
ouvida em 3 (três) dias a parte contrária, se os bens inicialmente penhorados (art. 652) forem
substituídos por outros, lavrar-se-á o respectivo termo. Atente-se que o juiz decidirá de plano
quaisquer questões suscitadas (art. 657, parágrafo único).
d) Fase instrutória da expropriação285 – realizada a penhora e a avaliação dos bens, o executado
será intimado imediatamente daquele ato286. Com efeito, como os embargos do executado – via
de regra – não mais possui o efeito suspensivo, a fase seguinte da execução consistirá na
alienação do bem penhorado. Este procedimento recebeu significativas alterações com a Lei n°
11.382/06.
d.1) Avaliação287 – visa a estimar o valor dos bens penhorados, ou seja, definir um valor básico para
a futura adjudicação, arrematação ou remição. É realizada pelo oficial de justiça (art. 652),
ressalvada a aceitação do valor estimado pelo executado (art. 668, parágrafo único, IV).
Entretanto, quando depender de conhecimentos específicos, a avaliação será realizada por um
serventuário especializado (art. 680 do CPC). Em regra, uma vez feita à avaliação, ela não se
repete (CPC, art. 684)288. Cumprida esta fase o bem penhorado estará pronto para sua
expropriação.
d.2) Gradação legal – a sistemática executiva da expropriação dos bens penhorados seguirá a
seguinte gradação legal quanto ao procedimento (art. 647 do CPC): I - na adjudicação em favor
do exeqüente ou das pessoas indicadas no § 2° do art. 685-A do CPC; II - na alienação por
iniciativa particular; III - na alienação em hasta pública; IV - no usufruto de bem móvel ou
imóvel.”
d.2.1) Adjudicação – com a redação dada pela Lei n° 11.382/06, a adjudicação passa a ser a primeira
forma de pagamento do crédito ao exeqüente. Com efeito, pode o Exeqüente289, de imediato,

285
A expropriação é uma forma de o Estado-juiz adentrar o patrimônio do devedor, apreendendo seus bens para satisfação do
direito do credor (art. 646). No exercício do poder de realizar justiça, o Estado, pelos seus órgãos, transferem do patrimônio do
devedor os bens objeto da execução para, com eles ou com o produto de sua transferência a terceiro, satisfazer o crédito do
exeqüente (NEVES, Celso, apud Carreira Alvin, p. 54-55).
286
Reitere-se o conteúdo do art. 652, § 5° do CPC: “Se não localizar o executado para intimá-lo da penhora, o oficial certificará
detalhadamente as diligências realizadas, caso em que o juiz poderá dispensar a intimação ou determinará novas diligências”.
287
Relembre-se que essa fase específica só permanece nas execuções por quantia certa fundadas em título executivo extrajudicial,
porquanto no cumprimento de sentença (título judicial), cabe ao oficial de justiça fazer a avaliação (CPC, art. 475-J), sendo feita
apenas excepcionalmente por avaliador (§ 2° do art. 475-J).
288
Após a avaliação, a requerimento do interessado, e ouvida a parte contrária, poderá o juiz determinar: I - a redução da penhora
aos bens suficientes, ou a transferência para outros que bastem à execução, se o valor dos bens penhorados for consideravelmente
superior ao crédito do exeqüente; computados os acessórios; II - a ampliação da penhora ou transferência para outros mais valiosos
se o valor dos penhorados for inferior ao crédito (CPC, art. 685).
289
Idêntico direito pode ser exercido pelo credor com garantia real, pelos credores concorrentes que hajam penhorado o mesmo
bem, pelo cônjuge, pelos descendentes ou ascendentes do executado. Quanto a estes últimos (cônjuge, descendente, ou ascendente
do devedor) passam agora a ser legitimados para adjudicar o bem (art. 685-A, § 2°), pois foi extinta pela Lei n° 11.382/06 a
sistemática de remição de bens. Esta consistia em um privilégio concedido aos parentes para que – em igualdade de condições –
mantivessem o bem penhorado no patrimônio familiar. Tal direito de preferência ainda pode ser realizado, mas agora sob a forma de
adjudicação.

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receber pelo preço da avaliação, o bem como pagamento (CPC, art. 685-A)290. Trata-se de uma
forma direta de pagamento291.
d.2.2) Alienação por iniciativa particular – inova a Lei n° 11.382/06 ao colocar a alienação por iniciativa
particular como meio preferencial à alienação em hasta pública292. O procedimento, conforme
determina o art. 685-C, será: não realizada a adjudicação dos bens penhorados, o exeqüente
poderá requerer sejam eles alienados por sua própria iniciativa ou por intermédio de corretor
credenciado perante a autoridade judiciária. § 1° O juiz fixará o prazo em que a alienação deve
ser efetivada, a forma de publicidade, o preço mínimo (art. 680), as condições de pagamento e
as garantias, bem como, se for o caso, a comissão de corretagem.§ 2° A alienação será
formalizada por termo nos autos, assinado pelo juiz, pelo exeqüente, pelo adquirente e, se for
presente, pelo executado, expedindo-se carta de alienação do imóvel para o devido registro
imobiliário, ou, se bem móvel, mandado de entrega ao adquirente293.
d.2.3) Na alienação em hasta pública – passa a ser a hipótese subsidiária de expropriação. Com efeito,
apenas se o credor não adjudicar o bem, ou não promover a alienação particular é que se dará a
alienação através da hasta pública (CPC, art. 686). Consiste esta alienação na venda de bens em
leilão público, ou onde não houver, pelo porteiro dos auditórios294.
d.2.4) No usufruto de bem móvel ou imóvel (CPC, arts. 716-724) – trata-se de modalidade pouco
utilizada na prática, talvez pela complexidade do instituto (que gera uma série de controvérsias
doutrinárias), talvez pelo fato de que sua utilização levará o credor a receber seu crédito
paulatinamente, através de percepção dos frutos hauridos de um imóvel ou de uma empresa do
executado.

290
“Art. 685-A. É lícito ao exeqüente, oferecendo preço não inferior ao da avaliação, requerer lhe sejam adjudicados os bens
penhorados. § 1° Se o valor do crédito for inferior ao dos bens, o adjudicante depositará de imediato a diferença, ficando esta à
disposição do executado; se superior, a execução prosseguirá pelo saldo remanescente. § 2° Idêntico direito pode ser exercido pelo
credor com garantia real, pelos credores concorrentes que hajam penhorado o mesmo bem, pelo cônjuge, pelos descendentes ou
ascendentes do executado. § 3° Havendo mais de um pretendente, proceder-se-á entre eles à licitação; em igualdade de oferta,
terá preferência o cônjuge, descendente ou ascendente, nessa ordem. § 4° No caso de penhora de quota, procedida por exeqüente
alheio à sociedade, esta será intimada, assegurando preferência aos sócios. § 5o Decididas eventuais questões, o juiz mandará
lavrar o auto de adjudicação.
291
Existia uma divergência doutrinária sobre a possibilidade de adjudicação de bens móveis, porquanto o CPC falava apenas de
adjudicação de imóveis. A atual redação do art. 685-A (Lei n° 11.382/06) retirou qualquer discussão sobre tal possibilidade. Nesse
sentido – por não mais existir ressalva – fica clara a possibilidade de adjudicação tanto do bem imóvel quanto do bem móvel (“Art.
685-B. A adjudicação considera-se perfeita e acabada com a lavratura e assinatura do auto pelo juiz, pelo adjudicante, pelo
escrivão e, se for presente, pelo executado, expedindo-se a respectiva carta, se bem imóvel, ou mandado de entrega ao
adjudicante, se bem móvel. Parágrafo único. A carta de adjudicação conterá a descrição do imóvel, com remissão a sua matrícula e
registros, a cópia do auto de adjudicação e a prova de quitação do imposto de transmissão.”). Este, inclusive, já era o entendimento
dos nossos Tribunais Superiores, consoante o seguinte aresto transcrito: EMENTA: “PROCESSUAL CIVIL. EXECUÇÃO. ADJUDICAÇÃO.
PRAZO. BENS MÓVEIS. POSSIBILIDADE. IMPENHORABILIDADE. VERIFICAÇÃO. REEXAME DE PROVAS. I - O art. 714 do Código de
Processo Civil estipulou tão-somente o termo inicial do prazo para que o exeqüente, após a ocorrência de praça ou leilão negativos,
pleiteasse a adjudicação dos bens, não se podendo falar, assim, em intempestividade do pedido. Ademais, o Tribunal a quo afirmou
que tal solução representou uma menor onerosidade para o executado, sendo essa circunstância não-passível de revisão por força
da Súmula 7 do STJ. II - Não obstante o artigo supra refira-se à praça negativa, tem-se entendido que não há óbice à adjudicação
de bens móveis”. (STJ-5ª Turma, REsp 485962/SP, rel. Min. Felix Fischer, j. 04.03.04, não conheceram, v.u., DJ 19.04.04, p. 228)
292
Registra o legislador em sua exposição de motivos (Lei n° 11.382/06) que a alienação em hasta pública, de todo anacrônica e
formalista, além de onerosa e demorada, apresenta-se sabidamente como maneira menos eficaz de alcançar um justo preço para o
bem expropriado, pelo que se propõe, como meio expropriatório preferencial, a adjudicação pelo credor, por preço não-inferior ao da
avaliação. Se o credor não pretender adjudicar o bem penhorado, o credor poderá solicitar a sua alienação por iniciativa particular
ou através de agentes credenciados, sob a supervisão do juiz, e somente em último caso far-se-á a alienação em hasta pública,
simplificados seus trâmites, prevendo-se até o uso de meios eletrônicos.
293
Reza o § 3° do art. 685-C que os Tribunais poderão expedir provimentos detalhando o procedimento da alienação prevista neste
artigo, inclusive com o concurso de meios eletrônicos, e dispondo sobre o credenciamento dos corretores, os quais deverão estar em
exercício profissional por não menos de 5 (cinco) anos.
294
O art. 689-A do CPC, adequou a sistemática executiva aos novos rumos da sociedade moderna. Com efeito, o procedimento
previsto nos arts. 686 a 689 poderá ser substituído, a requerimento do exeqüente, por alienação realizada por meio da rede mundial
de computadores (internet), com uso de páginas virtuais criadas pelos Tribunais ou por entidades públicas ou privadas em convênio
com eles firmado. Conforme adverte o parágrafo único do mesmo artigo, o Conselho da Justiça Federal e os Tribunais de Justiça, no
âmbito das suas respectivas competências, regulamentarão esta modalidade de alienação, atendendo aos requisitos de ampla
publicidade, autenticidade e segurança, com observância das regras estabelecidas na legislação sobre certificação digital.

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d.3) Arrematação – é o ato que consuma a expropriação de bens do devedor mediante alienação por
iniciativa particular ou em hasta pública295. É precedida de um edital296, onde se fixam duas
datas para a realização da praça (imóveis) ou leilão (móveis). Na primeira, não se admite lanço
inferior ao valor da avaliação, enquanto que na segunda será arrematante o autor da melhor
oferta. A arrematação far-se-á mediante o pagamento imediato do preço pelo arrematante ou,
no prazo de até 15 (quinze) dias, mediante caução. Tratando-se de bem imóvel, quem estiver
interessado em adquiri-lo em prestações poderá apresentar por escrito sua proposta, nunca
inferior à avaliação, com oferta de pelo menos 30% (trinta por cento) à vista, sendo o restante
garantido por hipoteca sobre o próprio imóvel (CPC, art. 690)297.
e) Pagamento – há 3 formas de pagamento (art. 708 do CPC, com redação dada pela Lei n°
11.382/06): I - entrega do dinheiro; II - pela adjudicação dos bens penhorados; III - pelo
usufruto de bem móvel ou empresa.
f) remição – é a liberação do devedor da constrição executiva, parcial ou totalmente, mediante o
pagamento também total ou parcial do débito. Existiam duas espécies de remição:
f.1) remição da execução – consiste na liberação total do processo executivo, desde que o devedor
pague ou consigne, antes da arrematação ou adjudicação, a importância da dívida, mais juros,
custas e honorários advocatícios (CPC, art. 651).
f.2) remição de bens – foi extinta pela Lei n° 11.382/06. Os parentes (cônjuge, descendente, ou
ascendente, nessa ordem) do devedor passam agora a ser legitimados para adjudicar o bem
(art. 685-A, § 2°). Assim, trata-se de um privilégio concedido aos parentes para que – em
igualdade de condições – mantenham o bem penhorado no patrimônio familiar.
7.4 Execução contra a Fazenda Pública – a execução por quantia certa contra a Fazenda Pública
(União, Estados, Distrito Federal, Municípios, Autarquias e Fundações) acha-se regida pelos
artigos 730 e 731, do CPC.
a) Intróito – é peculiar aos bens públicos a condição de inalienabilidade, da qual decorre a
impenhorabilidade, qualidade que somente pode desaparecer em virtude de lei especial
expressa. Essa situação impõe que a execução por quantia contra a Fazenda tenha um
procedimento diferente, com medidas especiais, já que a expropriação de bens não é possível.
Daí o tratamento próprio dispensado nos artigos 730 e 731 do CPC.
b) Procedimento – munido do título executivo judicial298 ou extrajudicial299, o credor deverá assim
proceder:
b.1) Petição inicial – como no procedimento comum da execução por quantia certa, a petição inicial
desta espécie de execução deverá ser instruída com planilha discriminada e atualizada, em
conformidade com a regra estampada no artigo 604, do CPC.

295
É forma de transferência coativa da propriedade como ato público de império.
296
Conforme dispõe § 3° do art. 686, introduzido pela Lei n° 11.382/06, quando o valor dos bens penhorados não exceder 60
(sessenta) vezes o valor do salário mínimo vigente na data da avaliação, será dispensada a publicação de editais; nesse caso, o
preço da arrematação não será inferior ao da avaliação.
297
Não será permitida arrematação por preço vil (art. 692 do CPC). A jurisprudência tem admitido com preço vil aquele inferior a
50% do valor da avaliação. Ementa: “Consoante à jurisprudência deste Sodalício, arrematado o bem por quantia superior a
cinqüenta por cento do valor da avaliação, não se pode falar em preço vil”. (STJ-3ª Turma, REsp 555809/MG, rel. Min. Castro Filho,
j. 17.03.05, não conheceram, v.u., DJ 25.04.05, p. 334)
298
Este aresto vota pela impossibilidade de execução provisória em face da fazenda pública: “PROCESSUAL CIVIL. TRÂNSITO EM
JULGADO PARCIAL. IMPOSSIBILIDADE. LEI Nº 9.494/97. EXECUÇÃO CONTRA A FAZENDA PÚBLICA. AGRAVO INTERNO
DESPROVIDO. I - Esta eg. Corte Superior possui entendimento no sentido de que a ação é una e indivisível, não havendo que se
falar em fracionamento da sentença/acórdão, restando afastada a possibilidade do seu trânsito em julgado parcial. II - Consoante
entendimento deste Superior Tribunal de Justiça, da interpretação do art. 2º-B da Lei 9.494/97, com a redação dada pela Medida
Provisória 2180-32/2001, resulta o não cabimento de execução provisória contra a Fazenda Pública de decisão que tenha por objeto
liberação de recurso, inclusão em folha de pagamento, concessão de aumento ou extensão de vantagens a servidores públicos.
Precedentes. III - Agravo interno desprovido”. (STJ-5ª Turma, AgRg no REsp 839574/RS, rel. Min. Gilson Dipp, j. 24.04.07, negaram
provimento, v.u., DJ 11.06.07, p. 365).
299
Súmula 279 do STJ (Execução da Fazenda Pública): “É cabível execução por título extrajudicial contra a Fazenda Pública”.

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b.2) Despacho inicial de citação – o juiz despacha, ordenando a citação da Fazenda Pública. Com
efeito, sendo seus bens impenhoráveis, a Fazenda Pública é citada para opor embargos.
b.3) Embargos – citada, a Fazenda pode oferecer embargos em 30 dias300. Reitere-se que os
embargos são ofertados independentemente de penhora, pois os bens públicos são
impenhoráveis. Com o oferecimento dos embargos, deve o credor impugná-los301.
b.4) Sentença – após a impugnação, o magistrado profere de plano a sentença, ou realiza audiência
de instrução e julgamento, proferindo sentença em seguida. Dita sentença comporta recurso de
apelação para o Tribunal competente. Transitado em julgado a sentença, sendo desfavorável à
Fazenda, o juiz requisita o pagamento por meio de precatório, ao Presidente do Tribunal
competente302.
b.5) Ordem dos precatórios – o pagamento será feito na ordem de apresentação do precatório e à
conta do respectivo crédito, com exceção dos créditos de natureza alimentícia, que incluem
salários, vencimentos, proventos, pensões e suas complementações, benefícios previdenciários e
indenizações por morte ou invalidez303. Se o credor for preterido no seu direito de preferência,
mediante pagamento direto pela Fazenda a outro exeqüente, poderá requerer ao Presidente do
Tribunal que expediu a ordem de pagamento que, depois de ouvido o Chefe do Ministério Público
(Procurador-Geral da Justiça, ou equivalente), ordene o seqüestro da quantia necessária para
satisfazer o débito (CPC, art. 731). Esse seqüestro recai diretamente sobre as rendas (contas)
da Fazenda Pública infratora, em quantia suficiente para satisfazer o crédito exeqüendo (CF, art.
100, §6°)304.
b.6) Inclusão no orçamento – é obrigatória a inclusão, no orçamento das entidades de direito público,
de verba necessária ao pagamento de seus débitos oriundos de sentenças transitadas em
julgado, constantes de precatórios judiciários, apresentados até 1º de julho, fazendo-se o
pagamento até o final do exercício seguinte (CF, art. 100, §5°).
b.7) Créditos de natureza alimentar – esses créditos também serão inscritos em precatório, apenas
terão prioridade de pagamento: Súmula n° 655 do STF (Precatório de crédito alimentar):
“A exceção prevista no art. 100, "caput", da Constituição, em favor dos créditos de natureza
alimentícia, não dispensa a expedição de precatório, limitando-se a isentá-los da observância da
ordem cronológica dos precatórios decorrentes de condenações de outra natureza”. Súmula n°
144 do STJ (Preferência de crédito alimentar): “Os créditos de natureza alimenticia gozam
de preferência, desvinculados os precatórios da ordem cronologica dos créditos de natureza
diversa”.
b.7.1) Conforme dispõe §1º do art. 100 da CF, os débitos de natureza alimentícia compreendem
aqueles decorrentes de salários, vencimentos, proventos, pensões e suas complementações,
benefícios previdenciários e indenizações por morte ou por invalidez, fundadas em
responsabilidade civil, em virtude de sentença judicial transitada em julgado, e serão pagos com
preferência sobre todos os demais débitos, exceto sobre aqueles referidos no §2º do art. 100.
b.7.2) Idosos – os débitos de natureza alimentícia cujos titulares tenham 60 (sessenta) anos de idade
ou mais na data de expedição do precatório, ou sejam portadores de doença grave, definidos na
forma da lei, serão pagos com preferência sobre todos os demais débitos, até o valor equivalente
ao triplo do fixado em lei para os fins do disposto no § 3º do art. 100, admitido o

300
Em conformidade com o disposto na Medida Provisória 2.180-35/2001, que, neste ponto, alterou o artigo 730, do CPC, que prevê
o prazo de 10 (dez) dias.
301
Observe-se que a Lei n° 11.232/05 mudou a redação do art. 741 do CPC. Agora esse dispositivo trata da matéria dos embargos
do devedor oferecidos pela Fazenda Pública. Esses embargos terão cognição sumária, ou seja, a Fazenda Pública só poderá discutir
nos embargos as hipóteses taxativamente previstas no art. 741.
302
Súmula n° 311 do STJ (Processamento do precatório): “Os atos do presidente do tribunal que disponham sobre
processamento e pagamento de precatório não têm caráter jurisdicional”
303
Quanto ao pagamento dos precatórios observam-se, ainda, as seguintes regras (art. 100, da CF/88, com a redação dada pela
Emenda Constitucional n° 62/09).
304
O Presidente do Tribunal competente que, por ato comissivo ou omissivo, retardar ou tentar frustrar a liquidação regular de
precatórios incorrerá em crime de responsabilidade e responderá, também, perante o Conselho Nacional de Justiça (CF, art. 100,
§7°).

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fracionamento para essa finalidade, sendo que o restante será pago na ordem cronológica
de apresentação do precatório.
b.8) Desnecessidade de precatórios – os pagamentos de obrigações definidas em lei como de
pequeno valor poderão ser efetuados independentemente de precatório. A Lei poderá fixar
valores diferentes, atentando para as diferentes capacidades financeiras das entidades de direito
público305.
b.9) Precatório complementar – o pagamento do precatório deve ser realizado até o final do exercício
seguinte ao de sua tempestiva apresentação (§ 1° do art. 100 da CF/88). Com efeito, os
precatórios terão os seus valores atualizados monetariamente na época do pagamento; não
tendo a regra constitucional autorizado o acréscimo de juros moratórios, o pagamento dentro do
prazo marcado pelo § 1° do art. 100 da CF/88 não os incluirá. Eventual desrespeito ao termo
produzirá a mora da Fazenda e justificará a inclusão dos juros em precatório complementar, mas
sua incidência fluirá apenas a partir do final do exercício em que o pagamento deveria se
realizar306. Atente-se, ainda, que o presidente do Tribunal competente que, por ato comissivo ou
remissivo, retardar ou tentar frustrar a liquidação regular de precatório incorrerá em crime de
responsabilidade. Quanto ao procedimento desta cobrança complementar, em se tratando de
simples apuração de complemento do débito aforado, não fica obrigado o credor a promover
nova citação executiva, nem tampouco se permite à devedora manejar novos embargos à
execução. Tudo se processará como simples incidente da execução pendente, que se encerrará
por simples decisão interlocutória (e não por nova sentença). Não se há, pois, de pensar em
apelação nem em remessa ex officio. O caso desafiará, quando contrariado o interesse de
alguma das partes, recurso de agravo de instrumento307.
c) Execução provisória contra a Fazenda Pública – com a Emenda Constitucional n° 30/00, que deu
nova redação ao § 1° do art. 100 da CF/88, ficou claro que, no caso de obrigação por quantia
certa, a execução contra a Fazenda Pública, nos moldes do art. 730 do CPC, somente será
possível com base em sentença transitada em julgado, restando, pois, afastada, na espécie, a
execução provisória.
d) Execuções não embargadas – a Fazenda Pública não deve honorários nas execuções não
embargadas (art. 1°-D da Lei n° 9494/97). Entretanto, nas ações coletivas com condenação
genérica, a orientação jurisprudencial se formou no sentido contrário: Súmula 345 do STJ
(Honorários em execuções não embargadas): “São devidos honorários advocatícios pela
Fazenda Pública nas execuções individuais de sentença proferida em ações coletivas, ainda que
não embargadas”.
e) Compensação – no momento da expedição dos precatórios, independentemente de
regulamentação, deles deverá ser abatido, a título de compensação, valor correspondente aos
débitos líquidos e certos, inscritos ou não em dívida ativa e constituídos contra o credor original
pela Fazenda Pública devedora, incluídas parcelas vincendas de parcelamentos, ressalvados

305
São dívidas de pequeno valor para a União: 60 salários mínimos (Lei n° 10.259/01); dívida de pequeno valor para o INSS: R$
5.180,25 (Lei n° 10.099/00); dívida de pequeno valor para os Estados: 40 salários mínimos (EC n° 37/02); e dívida de pequeno
valor para os Municípios: 30 salários mínimos (EC n° 37/02).
306
Ementa: “PRECATÓRIO COMPLEMENTAR. JUROS MORATÓRIOS. INCIDÊNCIA. 1. Não incidem juros moratórios no período
compreendido entre a homologação da conta de liquidação e o registro do precatório. 2. Haverá incidência de juros moratórios
apenas na hipótese em que não se proceder ao pagamento do precatório complementar até o final do exercício seguinte à sua
expedição. Precedente do STF. 3. Agravo regimental não-provido”. (STJ-2ª Turma, AgRg no AI 600892/DF, rel. Min. João Otávio de
Noronha, j. 04.08.05, negaram provimento, v.u., DJ 29.08.05, p. 266). Ementa: “Não constatada a observância do prazo
constitucional estabelecido pelo artigo 100, § 2º, da Constituição Federal, no pagamento do precatório complementar, tem-se o
cabimento dos juros moratórios ante a existência de mora da Fazenda”. (STJ-1ª Turma, AgRg no AgRg no AgRg no REsp 605855/DF,
rel. Min. Francisco Falcão, j. 07.06.05, negaram provimento, v.u., DJ 29.08.05, p. 153).
307
Ementa: “EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. EXECUÇÃO CONTRA A FAZENDA PÚBLICA. PRECATÓRIO COMPLEMENTAR. NOVA
CITAÇÃO. DESNECESSIDADE. 1. Consoante entendimento pacificado pela Corte Especial deste Superior Tribunal de Justiça, na
ocasião do julgamento do Resp 354.357/RS, Rel. Min. Humberto Gomes de Barros, na execução de sentença, havendo expedição de
precatório complementar, não é necessária nova citação da Fazenda Pública, nos termos do art. 730 do Código de Processo Civil. 2.
Embargos de divergência não conhecidos - súmula 168 do Superior Tribunal de Justiça”. (STJ-Corte Especial, EREsp 401516/SP, rel.
Min. Fernando Gonçalves, j. 29.06.05, não conheceram, v.u., DJ 29.08.05, p. 136).

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aqueles cuja execução esteja suspensa em virtude de contestação administrativa ou judicial (CF,
art. 100, § 9°).
e.1) Procedimento – antes da expedição dos precatórios, o Tribunal solicitará à Fazenda Pública
devedora, para resposta em até 30 (trinta) dias, sob pena de perda do direito de abatimento,
informação sobre os débitos que preencham as condições estabelecidas no § 9º, para os fins
nele previstos (CF, art. 100, § 10).
e.2) Compra de imóveis públicos – é facultada ao credor, conforme estabelecido em lei da entidade
federativa devedora, a entrega de créditos em precatórios para compra de imóveis públicos do
respectivo ente federado (CF, art. 100, § 11).
f) Atualização monetária – a partir da promulgação desta Emenda Constitucional, a atualização de
valores de requisitórios, após sua expedição, até o efetivo pagamento, independentemente de
sua natureza, será feita pelo índice oficial de remuneração básica da caderneta de poupança, e,
para fins de compensação da mora, incidirão juros simples no mesmo percentual de juros
incidentes sobre a caderneta de poupança, ficando excluída a incidência de juros compensatórios
(CF, art. 100, § 12).
g) Cessão de crédito – o credor poderá ceder, total ou parcialmente, seus créditos em precatórios a
terceiros, independentemente da concordância do devedor, não se aplicando ao cessionário o
disposto nos §§ 2º e 3º do art. 100 da CF (CF, art. 100, § 13). A cessão de precatórios somente
produzirá efeitos após comunicação, por meio de petição protocolizada, ao tribunal de origem e à
entidade devedora (CF, art. 100, § 14).
7.5 Execução de alimentos (Lei n° 5.478/68 – LA; e arts. 732 a 735 do CPC) – esse ponto será
tratado junto ao tema ação de alimentos.

8. DEFESA DO EXECUTADO
As Leis ns° 11.232/05 e 11.382/06 modificaram profundamente as formas de defesa do
executado. Com efeito, o devedor se utilizará da impugnação (quando a execução estiver
fundada em título executivo judicial); e de embargos do executado (quando a execução se der
por título executivo extrajudicial308). Paralelamente, ainda que com desprestígio em face das
recentes alterações da Lei n° 11.382/06, continua existindo ao executado a possibilidade de se
valer da exceção de pré-executividade como outra forma de defesa.
8.1 Impugnação (Lei n° 11.232/05)
a) Conceito – é a oposição incidental do executado contra os atos executivos e a pretensão a
executar. Foi inserida no nosso ordenamento pela Lei n° 11.232/05 para ser a forma de defesa
do executado na fase de cumprimento da sentença, afastando a incidência dos embargos do
devedor (que ficam restritos às execuções fundadas em títulos extrajudiciais).
b) Natureza jurídica – atualmente muito se controverte sobre a natureza jurídica da impugnação;
se seria um simples incidente ou uma ação. No plano acadêmico não parece existir dúvida de se
tratar de uma ação (principalmente em face da possibilidade dos drásticos e extensos efeitos da
decisão que a julga). Entretanto, o espírito do legislador foi de dar a ela a natureza de incidente,
para facilitar seu processamento e evitar antigos e indesejados efeitos da oposição e
processamento dos embargos do devedor.
c) Cabimento – não é porque o título judicial está consagrado pela imutabilidade da coisa julgada
que o devedor não tem oportunidade de se defender por meio de impugnação. Assim, consagra
o art. 475-L do CPC as seguintes hipóteses de cabimento dessa defesa:
c.1) falta ou nulidade da citação, se o processo correu à revelia – o denominador comum dessas
situações reside na emissão de sentença proferida no processo civil que reconheça a existência

308
Observe-se que a defesa da Fazenda Pública, por ter características especiais, se dará através de embargos, (e não impugnação)
ainda que a execução esteja fundada em sentença transitada em julgado (CPC, art. 730).

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de obrigação de fazer, não fazer, entregar coisa ou pagar quantia (CPC, art. 475-N, I). Escapam
à incidência do inc. I do art. 475-N do CPC:
c.1.1) A sentença penal condenatória (CPC, art. 475-N, II) – pois provocaria indébita intromissão do
juízo civil na esfera privativa do juízo penal, onde tal matéria é posta sob reserva da revisão
criminal;
c.1.2) A sentença estrangeira (CPC, art. 475-N, VI) – porquanto a existência e validez da citação
integra o juízo de delibação, privativo do STJ (cfe. redação dada pela EC 45/04);
c.1.3) A sentença homologatória (CPC, art. 475-N, III e V) – cuja emissão sempre dependerá da
concordância do réu e futuro executado309;
c.2) inexigibilidade do título310;
c.3) penhora incorreta ou avaliação errônea;
c.4) ilegitimidade das partes;
c.5) excesso de execução – considera-se excesso de execução as hipóteses previstas no art. 743 do
CPC;
c.6) qualquer causa impeditiva, modificativa ou extintiva da obrigação, como pagamento, novação,
compensação, transação ou prescrição, desde que superveniente à sentença.
d) Procedimento:
d.1) Petição – incidente ou ação, deve se iniciar através de petição que será processada dentro dos
autos (e não em apenso), podendo trazer o executado as provas que pretende produzir. Quando
o executado alegar que o exeqüente, em excesso de execução, pleiteia quantia superior à
resultante da sentença, cumprir-lhe-á declarar de imediato o valor que entende correto, sob
pena de rejeição liminar dessa impugnação (art. 475-L, § 2°).
d.2) Garantia do juízo – a impugnação só pode ser interposta após garantido o juízo pela penhora
(art. 475-J, § 1°).
d.3) Inexistência de efeito suspensivo – a impugnação não terá efeito suspensivo, podendo o juiz
atribuir-lhe tal efeito desde que relevantes seus fundamentos e o prosseguimento da execução
seja manifestamente suscetível de causar ao executado grave dano de difícil ou incerta
reparação (CPC, art. 475-M, caput).
d.4) Caução para prosseguimento da execução – o § 1° do art. 475-M do CPC assim dispõe: ainda
que atribuído efeito suspensivo à impugnação, é lícito ao exeqüente requerer o prosseguimento
da execução, oferecendo e prestando caução suficiente e idônea, arbitrada pelo juiz e prestada
nos próprios autos.
d.5) Instrução – conforme dispõe o art. 475-M, § 2°, deferido efeito suspensivo, a impugnação será
instruída e decidida nos próprios autos e, caso contrário (prestada a caução e autorizado o
prosseguimento do feito), em autos apartados (por carta de sentença).
e) Decisão – a depender dos efeitos da decisão, o ato judicial poderá ser considerado uma sentença
ou uma decisão interlocutória. Daí a previsão do § 3° do art. 475-M: a decisão que resolver a
impugnação é recorrível mediante agravo de instrumento, salvo quando importar extinção da
execução, caso em que caberá apelação.

309
A sentença de partilha e o laudo arbitral, por presumirem a necessidade de citação, podem ter impugnação com base no art. 475-
L, I do CPC.
310
Para efeito do disposto no inciso II do art. 475-L do CPC, considera-se também inexigível o título judicial fundado em lei ou ato
normativo declarados inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal, ou fundado em aplicação ou interpretação da lei ou ato
normativo tidas pelo Supremo Tribunal Federal como incompatíveis com a Constituição Federal (art. 475-L, § 1°). Atente-se aqui
que não é todo o juízo de inconstitucionalidade que compromete a eficácia do título judicial. Impõe-se pronunciamento definitivo,
através de juízo difuso ou concentrado, do Supremo Tribunal Federal. E não importa o momento da pronúncia da
inconstitucionalidade, se anterior ou muito posterior ao surgimento do título executivo.

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8.2 Embargos do executado311 – devedor (defesa contra execuções fundadas em títulos executivos
extrajudiciais)
a) Conceito – são o meio de defesa do devedor, com a natureza jurídica de uma ação incidente que
tem por objeto desconstituir o título executivo ou declarar sua nulidade ou inexistência.
b) Natureza jurídica – possuem a natureza de ação, de forma que não se aplicam a eles prazos
privilegiados, como os dos arts. 188 e 191 do CPC (art. 738, § 3° com redação dada pela Lei n°
11.382/06).
c) Fase e objeto da cognição nos embargos – os embargos poderão ser opostos na primeira fase do
processo executivo (após a juntada do mandado de citação – CPC, art. 738); ou durante a
segunda fase do processo executivo (cinco dias após a adjudicação, alienação ou da arrematação
– CPC, art. 746). Quanto à cognição, os embargos312 terão cognição plenária. Ou seja, como a
execução se funda em título extrajudicial, o executado ainda não teve oportunidade de defesa na
esfera judicial. Com efeito, o art. 745, V do CPC reza que, na execução fundada em título
extrajudicial, o executado alegará quaisquer outras matérias “em que seria lícito deduzir como
defesa no processo de conhecimento”. Daí se dizer que nestes casos os embargos serão de
cognição plenária (plena).
d) Espécies – tomando por base ao acima exposto, podemos assim dividir:
d.1) Embargos à execução fundada em título extrajudicial (embargos de primeira fase, com cognição
plenária) – nos embargos à execução fundada em título extrajudicial, como o título não está
consagrado pela imutabilidade da coisa julgada, pode o devedor alegar todas as matérias
relevantes em direito e que poderiam ser apresentadas no processo de conhecimento (CPC, art.
745, V). Todas as matérias, pois, podem ser alegadas, quer de natureza processual, quer as de
natureza material.
d.1.1) Embargos de retenção por benfeitorias (embargos de primeira fase, com cognição plenária) –
com o advento da Lei n° 10.444/02 e confirmado pela Lei n° 11.382/06, essa modalidade de
embargos cabe apenas quando a execução for fundada em título extrajudicial (CPC, art. 745, §
1°). Essa modificação legislativa amparou antigo entendimento doutrinário e jurisprudencial que
indicava inexistir o direito de reter, na execução, se a respectiva exceção não foi reconhecida na
sentença condenatória. Tal decisório representa a realização do direito material controvertido, e
se à época, o suposto beneficiário das benfeitorias não teve reconhecido o seu direito material,
injusto seria reconhecê-lo nos embargos.
d.2) Embargos à arrematação e à adjudicação (embargos de segunda fase, com cognição sumária) –
faculta-se ao devedor embargar a adjudicação, alienação e a arrematação, fundadas na nulidade
da execução ou em causa extintiva da obrigação, desde que supervenientes à penhora (CPC, art.
746).
d.3) Embargos na execução por carta – não se trata de uma espécie de embargo, mas apenas uma
forma diferenciada de processamento. Muitas vezes os atos executivos não poderão ser
realizados no mesmo juízo da execução, v.g., caso os bens do executado estejam localizados em
comarca diversa. Nessas situações, o juízo da execução deverá delegar a execução de certos
atos ao outro juízo, formalizando tal solicitação através de carta precatória. Daí falar-se em
‘execução por carta’, e nos prováveis ‘embargos na execução por carta’. Nesse sentido, na
execução por carta, os embargos serão oferecidos no juízo deprecante ou no juízo deprecado,
mas a competência para julgá-lo é do juízo deprecante, salvo se versarem unicamente vícios ou
defeitos da penhora, avaliação ou alienação dos bens (CPC, art. 747). Atente-se, por fim, que o

311
Como alerta Carreira Alvin (p. 194), como a reforma operada pela lei n° 11.382/06 vem preferindo o termo “executado” em vez
de “devedor”, a expressão que melhor traduz, atualmente, essa atividade processual é embargos do executado, expressão usada,
por exemplo, pelo art. 694, pelo parágrafo único do art. 736, pelo art. 738, § 3°, e pelo art. 739-A.
312
Que na nova sistemática da Lei n° 11.232/05, serão utilizados contra execuções fundadas em título executivo extrajudicial.

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prazo dos embargos passa a correr do retorno e juntada da carta precatória ao juízo
deprecante313.
e) Pressupostos processuais da relação incidente:
e.1) Competência – o devedor pode se opor à execução fundada em título executivo extrajudicial,
mediante embargos, que serão distribuídos por dependência, autuados em apartado, e instruídos
com cópias (art. 544, § 1°) das peças processuais relevantes (CPC, art. 736, parágrafo único).
e.2) Prazo – com o advento da Lei n° 11.382/06, o prazo geral para oposição dos embargos passam
a ser de quinze (15) dias314, contados da juntada aos autos do mandado de citação315 (738 do
CPC). Excetua-se dessa diretriz, porém: a execução fiscal, e a execução contra a Fazenda
Pública, que têm prazos de trinta (30) dias para oposição dos embargos lá previstos316.
e.3) Suspensão – a Lei n° 11.382/06 inverteu a sistemática dos embargos, agora eles NÃO serão
recebidos no efeito suspensivo (art. 739-A do CPC)317.
e.3.1) Efeito suspensivo atípico – conforme dispõe o § 1° do art. 739-A: o juiz poderá, a requerimento
do embargante, atribuir efeito suspensivo aos embargos quando, sendo relevantes seus
fundamentos, o prosseguimento da execução manifestamente possa causar ao executado grave
dano de difícil ou incerta reparação, e desde que a execução já esteja garantida por penhora,
depósito ou caução suficientes.
e.3.2) Revogabilidade do efeito suspensivo – a decisão relativa aos efeitos dos embargos poderá, a
requerimento da parte, ser modificada ou revogada a qualquer tempo, em decisão
fundamentada, cessando as circunstâncias que a motivaram (CPC, art. 739-A, § 2°).
e.3.3) Embargos parciais com efeito suspensivo – quando o efeito suspensivo atribuído aos embargos
disser respeito apenas a parte do objeto da execução, essa prosseguirá quanto à parte restante
(CPC, art. 739-A, § 3°).
e.3.4) Efeito suspensivo e os litisconsortes executados – a concessão de efeito suspensivo aos
embargos oferecidos por um dos executados não suspenderá a execução contra os que não
embargaram, quando o respectivo fundamento disser respeito exclusivamente ao embargante
(art. 739-A, § 4°). Atente-se que a concessão de efeito suspensivo não impedirá a efetivação
dos atos de penhora e de avaliação dos bens (art. 739-A, § 6°).
e.4) Dispensa da segurança do juízo – a Lei n° 11.382/06 dispôs que os embargos do executado
poderão ser ofertados independentemente de seguro o juízo pela penhora (CPC, art. 736)318. A

313
Ementa: “PROCESSUAL CIVIL. EXECUÇÃO. PENHORA. CARTA PRECATÓRIA. EMBARGOS. COMPETÊNCIA DO JUÍZO DEPRECANTE.
PRAZO. TERMO INICIAL. ART. 738, I E 241, IV, DO CPC. I. Na hipótese de competência do juízo deprecante para apreciar embargos
do devedor, o qual foi intimado da penhora por carta precatória, o termo inicial do prazo para ajuizamento inicia-se da juntada da
carta respectiva aos autos da execução. Precedentes. II. Recurso especial conhecido e provido”. (STJ-4ª Turma, REsp 460232/PR,
rel. Min. Aldir Passarinho Jr., j. 07.11.02, deram provimento, v.u., DJ 24.02.03, p. 249).
314
Aqui o legislador confirma a boa iniciativa de uniformização dos prazos processuais. Assim, os embargos passam a ter o mesmo
prazo de 15 dias da impugnação (art. 475-J, § 1°).
315
Quando houver mais de um executado, o prazo para cada um deles embargar conta-se a partir da juntada do respectivo
mandado citatório, salvo tratando-se de cônjuges (CPC, art. 738, § 1°). Trata-se de exceção à regra geral de contagem de prazos
contra litisconsortes (CPC, art. 241, III). Assim, com a exceção dos cônjuges, se existirem litisconsortes executados o prazo dos
embargos deixa de ser comum e passa a ser particular (ou seja, abrirá individualmente a partir da juntada de cada mandado).
Outrossim, como nas execuções por carta precatória, a citação do executado será imediatamente comunicada pelo juiz deprecado ao
juiz deprecante, inclusive por meios eletrônicos, contando-se o prazo para embargos a partir da juntada aos autos de tal
comunicação (CPC, art. 738, § 2°). Como esclarece Carreira Alvin (pp. 200-201), como o processo é escrito nos autos, e a
comunicação feita por meio eletrônico pode estar escrita, mas na tela do computador, torna-se necessário que a comunicação
eletrônica seja copiada numa folha de papel e assim juntada aos autos do processo. É a partir dessa juntada que começa a fluir o
prazo para embargos, quando a comunicação, pelo juiz deprecado ao deprecante, for feita por meio eletrônico (CPC, art. 202, com
redação dada pela Lei n° 11.419/06).
316
Reitere-se que não se aplicam a esses prazos os privilégios/prerrogativas dos arts. 188 e 191 do CPC (art. 738, § 3°).
317
A regra constante do atual art. 739-A guarda harmonia com a constante do art. 475-M, em que a impugnação ao pedido
executório de título judicial também não tem, em regra, efeito suspensivo.
318
Como questiona Carreira Alvin (p. 197), a nova prerrogativa que confere ao executado a possibilidade de opor embargos
independentemente de garantia do juízo pode se demonstrar uma prerrogativa apenas teórica. Raciocina o citado mestre que, se o
executado pretender embargar a execução, deverá fazê-lo no prazo de 15 dias, contado da data da juntada aos autos do mandado
de citação (para pagar) devidamente cumprindo (art. 738). Ora, durante esse lapso temporal, se o executado tiver bens

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necessidade de garantia do juízo só ocorrerá caso o executado embargante deseje imprimir à


sua defesa o efeito suspensivo atípico (CPC, art. 739-A, § 1°).
e.5) Legitimidade – pode apresentar embargos o devedor, figurando como pólo passivo o credor
(podendo ser atingidos terceiros – CPC, art. 592 e ss). Tem ainda legitimidade ativa o MP e o
curador especial319.
f) Procedimento:
f.1) Petição inicial – deverá preencher os requisitos gerais do arts. 282 do CPC. A causa de pedir dos
embargos varia conforme o fato jurídico exposto na inicial. Tanto reside na inexistência do
crédito quanto na ineficácia do título. Este alcance se origina na natureza heterogênea dos
motivos arrolados no art. 745 do CPC. O valor da causa corresponderá ao valor do processo de
execução, ou excepcionalmente a parcela da execução impugnada. Quanto à indicação das
provas, os embargos seguem a linha geral do procedimento ordinário. Em geral, basta indicá-las
na inicial, exceção feita à prova documental, desde logo produzida (art. 396 do CPC).
Finalmente, atente-se que quando o excesso de execução for fundamento dos embargos, o
embargante deverá declarar na petição inicial o valor que entende correto, apresentando
memória do cálculo, sob pena de rejeição liminar dos embargos ou de não conhecimento desse
fundamento320 (art. 739-A, § 5°).
f.2) Despacho inicial de citação – estando em ordem a petição inicial, o juiz determinará que o
credor/exeqüente/embargado seja “ouvido” (na verdade deveria ter dito citado) na pessoa do
seu advogado (CPC, art. 740). Observe-se que os embargos serão autuados em apenso aos
autos principais (CPC, art. 736); e poderão ser rejeitados liminarmente pelo Juiz, porque
incabíveis ou intempestivos. Essa decisão é uma sentença e contra ela caberá apelação sem
efeito suspensivo321.
f.3) Resposta do embargado – o credor impugna os embargos322, também em 15 (quinze) dias
conforme nova sistemática da lei n° 11.382/06. Nesse prazo poderá contestar ou opor exceção.
Não serão permitidas: a reconvenção e/ou a ação declaratória incidental (salvo se forem os
embargos de cognição plenária). Também não serão permitidas as modalidades de intervenção
de terceiros, excetuando-se o chamamento ao processo (in casu, do fiador).
f.4) Audiência de conciliação, instrução e julgamento – recebida a resposta do embargo o juiz julgará
imediatamente o pedido (art. 330), ou caso se faça necessário323 designará audiência de
conciliação, instrução e julgamento, proferindo sentença no prazo de 10 (dez) dias (CPC, art.
740).
f.5) Sentença e honorários advocatícios – a sentença poderá ser terminativa ou definitiva. Tratando-
se de sentença desconstitutiva ou declaratória, conforme a hipótese de procedência ou de
improcedência dos embargos deverá o juiz arbitrar os honorários de forma eqüitativa e objetiva,
considerando os elementos do § 3° e 4° do art. 20 do CPC.

penhoráveis, tais bens já terão sido penhorados e avaliados, por força do § 1° do art. 652, pelo que jamais teria a chance de
embargar a execução independentemente de penhora, como soa o art. 736. É em face disto que defende o festejado doutrinador a
permanência de cabimento da exceção de pré-executividade. Com efeito, alega que o devedor deverá fazê-la no prazo para efetuar
o pagamento, que agora é de três dias, pedindo ao juiz que suspenda a penhora até que esse incidente processual seja resolvido,
pois, se não o fizer, o oficial de justiça procederá de imediato à penhora, se encontrar bens penhoráveis.
319
Súmula 196 do STJ (Embargos do Curador Especial): “Ao executado que, citado por edital ou por hora certa, permanecer
revel, será nomeado curador especial, com legitimidade para apresentação de embargos”.
320
Regra análoga compõe o § 2° do art. 475-L.
321
Observe-se que não é pacífica a não concessão de efeito suspensivo à apelação. Com efeito, diversos são os arestos que recebem
a apelação da sentença que julga liminarmente os embargos no duplo efeito (devolutivo e suspensivo). Tal entendimento vem
perdendo seguidores desde o advento da Lei 8.950/94 que deu nova redação ao art. 520, V do CPC.
322
Caso o credor não impugne os embargos, não se aplicará a pena de serem admitidos como verdadeiros os fatos alegados pelo
embargante, porque a lei não prevê citação com essa cominação e o credor tem a seu favor a presunção que decorre do título.
323
Esta audiência poderá ser dispensada quando versarem os embargos sobre matéria de direito ou a prova for exclusivamente
documental.

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f.6) Recursos – são cabíveis todos os recursos do art. 496 do CPC. Atente-se que a apelação que
julgar improcedentes ou rejeitar liminarmente os embargos será recebida apenas no efeito
devolutivo (CPC, art. 520, V).
f.7) Coisa julgada – inexiste qualquer motivo para desamparar tal espécie de ação, funcionalmente
cognitiva, da eficácia declaratória da coisa julgada.
g) Definitividade da execução – conforme antes comentado, e hoje já sumulado pelo STJ, “é
definitiva a execução de título extrajudicial, ainda que pendente apelação contra sentença que
julgue improcedentes os embargos” (STJ, Súmula 317).
h) Embargos protelatórios – o legislador através da Lei n° 11.382/06 mais uma vez tenta coibir a
utilização embargos pelo executado com o intuito protelatório. Com efeito, o parágrafo único do
art. 740 do CPC afirma que caso os embargos sejam manifestamente protelatórios, o juiz
imporá, em favor do exeqüente, multa ao embargante em valor não superior a 20% (vinte por
cento) do valor em execução.
i) Parcelamento da execução – a Lei n° 11.382/06 inovou ao acrescentar no ordenamento
processual civil brasileiro o art. Art. 745-A. Diz o dispositivo legal que no prazo para embargos,
reconhecendo o crédito do exeqüente e comprovando o depósito de 30% (trinta por cento) do
valor em execução, inclusive custas e honorários de advogado, poderá o executado requerer
seja admitido a pagar o restante em até 6 (seis) parcelas mensais, acrescidas de correção
monetária e juros de 1% (um por cento) ao mês324.
i.1) Procedimento – o executado deverá requerer325 o parcelamento através de petição endereçada
ao juiz da causa, peça esta que deverá estar acompanhada do comprovante de depósito (30%
do valor da execução). Sendo a proposta deferida pelo juiz, o exeqüente levantará a quantia
depositada e serão suspensos os atos executivos; caso indeferida, seguir-se-ão os atos
executivos, mantido o depósito (CPC, art. 745-A, § 1°).
i.2) Inadimplência do executado – o não pagamento de qualquer das prestações implicará, de pleno
direito, o vencimento das subseqüentes e o prosseguimento do processo, com o imediato início
dos atos executivos, imposta ao executado multa de 10% (dez por cento) sobre o valor das
prestações não pagas e vedada a oposição de embargos326 (CPC, art. 745-A, § 2°).
8.3 Exceção de pré-executividade327:
a) Previsão legal, conceito e cabimento – tem-se entendido, na doutrina e na jurisprudência
(inexiste previsão legal), que é lícito ao devedor, em casos de iliquidez, inexigibilidade ou
incerteza do título, opor-se à execução antes de seguro o juízo, através da exceção de pré-
executividade328.
b) Procedimento e objeto – deduz-se mediante simples petição formulada nos autos da execução
(não se processa em autos apartados). Entende-se que o devedor somente pode alegar, em tal
procedimento, matérias de ordem pública, como a ausência das condições da ação e
pressupostos processuais e nulidade da execução (questões de ordem pública que poderiam ser

324
Como ensina Carreira Alvin (p. 221), pode parecer um equívoco a pressa do legislador em estabelecer um percentual mínimo
(30%) para depósito e um número máximo de prestações (seis) para o pagamento do restante, mas, deve-se levar em conta que,
neste caso, a oposição do exeqüente terá pouca, ou nenhuma, eficácia, tendo sido propósito da lei, em assim agindo, dar um
mínimo de garantia ao direito do exeqüente. De outra forma, poderia o juiz, em face da situação econômica no executado, e mesmo
havendo oposição do exeqüente, vir a deferir um pagamento parcelado “a perder de vista”, em afronta ao princípio do devido
processo legal.
325
Observe-se que se o executado pretender exercer esse direito (ou faculdade) estará reconhecendo a dívida e renunciando aos
embargos, que não poderão ser mais opostos.
326
Essa impossibilidade resulta da preclusão lógica, ou seja, da incompatibilidade de um ato já praticado, qual seja, o pedido de
parcelamento, e outro que se pretende praticar, qual seja, a oposição de embargos à execução.
327
A Lei n° 11.382/06, em sua exposição de motivos, dispôs que com o sistema adotado pelo art. 736 do CPC (possibilidade de
oposição dos embargos do executado independentemente de garantia do juízo), desaparecerá qualquer motivo para oposição da
exceção de pré-executividade (construção pretoriana que tantos embaraços e demoras causa ao andamento das execuções).
Conforme citado acima em rodapés anteriores, apesar de estar em desprestígio, acredita-se que a exceção não desaparecerá da
prática forense brasileira mesmo após as recentes reformas executivas.
328
Melhor seria chamá-la de objeção de pré-executividade.

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vistas de ofício pelo juiz)329. Depreende-se não haver um prazo para oposição da exceção,
podendo ser levantada em qualquer fase do processo executivo. Atente-se, ainda, que antes de
examinar a alegação do executado – em respeito ao contraditório – o juiz mandará o credor se
manifestar, no prazo de dez dias, por analogia com o disposto no art. 327, sobre a questão de
direito e documentos porventura juntados.
c) Suspensão – a simples oposição da exceção NÃO suspende o processo330.
d) Decisão e recursos – a depender da finalidade da decisão prolatada pelo juiz quando da análise
da exceção, aquela poderá tomar duas feições:
d.1) Decisão interlocutória – quando rejeitar a exceção, o juiz estará confirmando o título executivo.
Portanto dará seguimento a execução. Não a pondo termo, tal decisório se afeiçoa a decisão
interlocutória, e deverá ser desafiado por agravo.
d.2) Sentença – outrossim, se a decisão julgar procedente a exceção, provavelmente será
desconstituído o título executivo. Nesse caso, o processo executivo será desfeito, o que torna o
ato típica sentença desconstitutiva, e impugnável mediante apelação. Com efeito, apesar de
rejeitada a exceção, ao devedor afigurar-se-á lícito alegar a matéria, outra vez, nos embargos. É
que, se caso de rejeição, só ocorrerá à preclusão, fenômeno interno ao processo executivo,
jamais a eficácia de coisa julgada (art. 467 do CPC), inexistente, sob qualquer circunstância, nos
domínios executivos.

9. SUSPENSÃO DO PROCESSO DE EXECUÇÃO


a) Conceito – consiste a suspensão da execução numa situação jurídica provisória e temporária,
durante a qual o processo não deixa de existir e produzir seus efeitos normais, mas sofre uma
paralisação em seu curso, não se permitindo que nenhum ato processual novo seja praticado
enquanto dure a referida crise.
b) Espécies – classifica-se em:
b.1) Necessária (ou legal) – esta suspensão pode ser típica ou atípica:
b.1.1) típica – é a imposta pela lei, de forma cogente, diante de uma determinada situação processual,
como no caso da exceção (art. 306 do CPC);
b.1.2) atípica – quando da oposição de embargos o juiz conceder excepcionalmente efeitos suspensivos
(art. 739-A);
b.2) Voluntária (ou convencional) – é a que decorre de ato de vontade ou ajuste entre as partes (art.
792 do CPC).
c) Hipóteses de cabimento – as hipóteses de suspensão da execução se acham previstas no artigo
791, do CPC331:
c.1) No todo ou em parte, quando recebidos com efeito suspensivo os embargos à execução (art.
739-A) – na nova sistemática (Lei n° 11.382/06), os embargos do executado não geram efeito
suspensivo. Há, porém, como estudado anteriormente, possibilidade de os embargos

329
Súmula 393 do STJ (Exceção de pré-executividade em execução fiscal): “A exceção de pré-executividade é admissível na
execução fiscal relativamente às matérias conhecíveis de ofício que não demandem dilação probatória”. Ementa: “A possibilidade de
verificação de plano, sem necessidade de dilação probatória, delimita as matérias passíveis de serem deduzidas na exceção de pré-
executividade, independentemente da garantia do juízo. Precedentes: EResp 614272/PR, Primeira Seção, Min. Castro Meira, DJ de
06.06.2005; Resp 717250/SP, Segunda Turma, Min. Eliana Calmon, DJ de 26.04.2005; Resp 611617/RJ, Primeira Turma, Min. Teori
Albino Zavascki, DJ de 23.05.2005”. (STJ-1ª Turma, REsp 638201/BA, rel. Min. Teori Albino Zavascki, j. 09.08.05, negaram
provimento, v.u., DJ 29.08.05, p. 159).
330
Ementa: “- A oposição de exceção de pré-executividade, por si só, não suspende o processo de execução, salvo na hipótese em
que o devedor tenha ajuizado previamente ação revisional com o intuito de discutir o valor do débito cobrado. Precedentes”. (STJ-3ª
Turma, AgRg no AI 540532/PR, rel. Min. Nancy Andrighi, j. 23.03.04, negaram provimento, v.u., DJ 19.04.04, p. 192).
331
O artigo não enumera taxativamente as hipóteses de suspensão do processo executivo. Basta pensar, por exemplo, na suspensão
do processo executivo por razão de força maior; em razão da oposição de embargos de terceiro (CPC, art. 1.052); etc.

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excepcionalmente produzirem o efeito suspensivo (CPC, art. 739-A, § 1°). Atente-se que,
quando o efeito suspensivo atribuído aos embargos disser respeito apenas a parte do objeto da
execução, essa prosseguirá quanto à parte restante parciais serem parciais, ou seja, versar
apenas sobre parte do crédito sob execução (CPC, art. 739-A, § 3°);
c.2) Nas hipóteses previstas no art. 265, I a III:
c.2.1) a morte ou perda da capacidade processual de qualquer das partes, de seu representante legal
ou de seu procurador, casos em que a suspensão durará no máximo um ano (CPC, art. 265, §
5°);
c.2.2) a convenção das partes, pelo prazo máximo de seis meses (CPC, art. 265, § 3°). Na execução
forçada, todavia, o art. 792 prevê a suspensão do processo por acordo das partes, sem a
restrição de prazo desde que a conversão vise a estabelecer um prazo, determinado para
cumprimento voluntário da obrigação pelo devedor;
c.2.3) a oposição de exceção de incompetência do juízo, da câmara ou do tribunal, bem como de
suspeição ou impedimento do juiz.
c.3) Quando o devedor não possuir bens penhoráveis – o objeto da execução forçada são os bens do
devedor, dos quais se procura extrair os meios de resgatar a dívida exeqüenda. Daí porque a
falta de bens penhoráveis do devedor importa suspensão sine die da execução (CPC, art. 791,
III). Outrossim, vencido o prazo prescricional, será permitido ao devedor requerer a declaração
de prescrição e a conseqüente extinção da execução forçada, o que, naturalmente, não será feito
sem prévia audiência do credor332.

10. EXTINÇÃO DO PROCESSO DE EXECUÇÃO


A execução forçada termina normalmente com a exaustão de seus atos e com a satisfação do
seu objeto, que é o pagamento do credor. Pode, porém, encontrar termo de maneira anômala e
antecipada, como nos casos em que se extingue o próprio direito de crédito do exeqüente, por
qualquer dos meios liberatórios previstos no direito material, ainda que ocorridos fora do
processo.
a) Hipóteses de cabimento – as hipóteses de extinção da execução se acham previstas no artigo
794, do CPC.
a.1) O devedor satisfaz a obrigação - o fim da execução é a satisfação coativa do direito do credor.
Se o pagamento é obtido, seja voluntária ou forçadamente, exaurida está a missão do processo.
O pagamento, no curso da execução, quando se trata de execução por quantia certa, faz-se por
meio da remição da execução, e deve compreender o principal, juros, custas e honorários
advocatícios (art. 651 do CPC), bem como a correção monetária prevista pela Lei n° 6.899/81;
a.2) O devedor obtém por transação, ou qualquer outro meio, a remissão total da dívida – transação
é o meio liberatório que consiste em prevenir ou terminar o litígio mediante concessões mútuas
dos interessados (CC, art. 840). Remissão é forma de perdão ou liberação gratuita do devedor.
Aqui também estão compreendidas todas as demais formas de extinção de uma obrigação, quais
sejam: dação, novação, compensação, confusão, etc.;
a.3) O credor renuncia o crédito – a renúncia, em sentido lato, é o ato de abandono voluntário de um
direito. Em termos gerais já se acha compreendida no inciso (item) anterior.
b) Sentença – qualquer que seja o motivo, a extinção da execução só produz efeitos quando
declarada por sentença (art. 795 do CPC). No caso dos embargos, a declaração fica contida na
própria sentença de acolhimento da ação do devedor, que é constritiva e importa na declaração
de inexistência da ação de direito material ou da executiva. Nos demais casos a sentença é

332
Registre-se, por fim que, embora especificamente destinadas a reger a suspensão do processo executivo, as disposições aqui
examinadas são subsidiariamente aplicáveis à fase executiva dos processos mistos (em que se fundem cognição e execução),
regidos pelos arts. 461 e 461-A do CPC.

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meramente declaratória e visa apenas a produzir efeitos processuais perante a execução. Não
há, realmente, nenhum provimento de mérito, na espécie, mas apenas o reconhecimento de que
a relação processual se exauriu, nada mais havendo que realizar no processo, em termos de
execução forçada.

11. EXECUÇÃO FISCAL (LEI N° 6.830/80)


a) Dívida Ativa e Certidão da Dívida Ativa – a execução judicial para cobrança da Dívida Ativa da
União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Municípios e respectivas autarquias acha-se regida
pela Lei 6.830/80 e, subsidiariamente, pelo Código de Processo Civil. Ressalte-se, de início, que
o título executivo não é a inscrição da dívida ou do contrato, mas sim a certidão correspondente
aos créditos inscritos na forma da lei (CPC, art. 585, VII333).
a.1) Conceito – constitui Dívida Ativa da Fazenda Pública aquela definida como tributária ou não-
tributária na Lei n.º 4.320, de 17 de março de 1964, com as alterações posteriores, que estatui
normas gerais de direito financeiro para elaboração e controle dos orçamentos e balanços da
União, dos Estados, dos Municípios e do Distrito Federal.
a.2) Objeto – qualquer valor, cuja cobrança seja atribuída por lei às entidades antes referidas, será
considerado Dívida Ativa da Fazenda Pública. A Dívida Ativa da Fazenda Pública, compreendendo
a tributária e a não-tributária, abrange atualização monetária, juros e multa de mora e demais
encargos previstos em lei ou contrato.
a.3) Inscrição – a inscrição, que se constitui no ato de controle administrativo da legalidade, será
feita pelo órgão competente para apurar a liquidez e certeza do crédito e suspenderá a
prescrição, para todos os efeitos de direito, por 180 (cento e oitenta) dias ou até a distribuição
da execução fiscal, se esta ocorrer antes de findo aquele prazo.
a.3.1) Procedimento – a Dívida Ativa da União será apurada e inscrita na Procuradoria da Fazenda
Nacional. O Termo de Inscrição de Dívida Ativa deverá conter, sob pena de nulidade da inscrição
e do processo de cobrança dela decorrente:
a.3.1.1) o nome do devedor, dos co-responsáveis e, sempre que conhecido, o domicílio ou residência de
um e de outros;
a.3.1.2) o valor originário da dívida, bem como o termo inicial e a forma de calcular os juros de mora e
demais encargos previstos em lei ou contrato;
a.3.1.3) a origem, a natureza e o fundamento legal ou contratual da dívida;
a.3.1.4) a indicação, se for o caso, de estar a dívida sujeita à atualização monetária, bem como o
respectivo fundamento legal e o termo inicial para o cálculo;
a.3.1.5) a data e o número da inscrição, no Registro de Dívida Ativa; e
a.3.1.6) o número do processo administrativo ou do auto de infração, se neles estiver apurado o valor da
dívida.
a.3.2) Certidão – a Certidão de Dívida Ativa conterá os mesmos elementos do Termo de Inscrição e
será autenticada pela autoridade competente.
a.3.3) Termo – o Termo de Inscrição e a Certidão de Dívida Ativa poderão ser preparados e numerados
por processo manual, mecânico ou eletrônico.
a.4) Possibilidade de alterações – até a decisão de primeira instância, a Certidão de Dívida Ativa
poderá ser emendada ou substituída, assegurada ao executado a devolução do prazo para
embargos334.

333
Com redação dada pela Lei n° 11.382/2006.
334
Súmula 392 do STJ (Substituição da CDA): “A Fazenda Pública pode substituir a certidão de dívida ativa (CDA) até a prolação
da sentença de embargos, quando se tratar de correção de erro material ou formal, vedada a modificação do sujeito passivo da
execução.

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a.5) Liquidez e certeza – a Dívida Ativa regularmente inscrita goza da presunção de certeza e
liquidez. Esta presunção, todavia, é relativa e pode ser ilidida por prova inequívoca, a cargo do
executado ou de terceiro, a quem aproveite.
b) Legitimação passiva – a execução fiscal poderá ser promovida contra:
b.1) o devedor;
b.2) o fiador;
b.3) o espólio;
b.4) a massa;
b.5) o responsável335, nos termos da lei, por dívidas, tributárias ou não, de pessoas físicas ou pessoas
jurídicas de direito privado; e
b.6) os sucessores a qualquer título336.
c) Competência – a competência para processar e julgar a execução da Dívida Ativa da Fazenda
Pública exclui a de qualquer outro juízo337, inclusive o da falência, da concordata, da liquidação,
da insolvência ou do inventário338.
d) Procedimento:
d.1) Petição inicial – não possui os mesmos requisitos do art. 282 do CPC. A petição inicial indicará
apenas:
d.1.1) Pedidos:
d.1.1.1) o juiz a quem é dirigida;
d.1.1.2) o pedido; e
d.1.1.3) o requerimento para a citação.
d.1.2) Além disso, a petição inicial será instruída com a Certidão da Dívida Ativa, que dela fará parte
integrante, como se estivesse transcrita. A petição inicial e a Certidão de Dívida Ativa poderão
constituir um único documento, preparado inclusive por processo eletrônico.
d.1.3) A produção de provas pela Fazenda Pública independe de requerimento na petição inicial. O valor
da causa será o da dívida constante da certidão, com os encargos legais339.
d.2) Despacho inicial – o despacho do juiz (que aqui tem um alcance bem mais amplo) ao deferir a
inicial importará em ordem para:
d.2.1) Citação, pelas sucessivas modalidades previstas no art. 8º da Lei 6.830/80;
d.2.2) Penhora, se não for paga a dívida, nem garantida a execução, por meio de depósito ou fiança;
d.2.3) Arresto, se o executado não tiver domicílio ou dele se ocultar;
d.2.4) Registro da penhora ou do arresto, independentemente do pagamento de custas ou outras
despesas, observado o disposto no art. 14; e

335
Súmula 251 do STJ (Responsabilidade da mulher meeira): “A meação só responde pelo ato ilícito quando o credor, na
execução fiscal, provar que o enriquecimento dele resultante aproveitou ao casal”.
336
Ressalvado o disposto no art. 31 da citada lei, o síndico, o comissário, o liquidante, o inventariante e o administrador, nos casos
de falência, concordata, liquidação, inventário, insolvência ou concurso de credores, se, antes de garantidos os créditos da Fazenda
Pública, alienarem ou derem em garantia quaisquer dos bens administrados, respondem, solidariamente, pelo valor desses bens. Os
responsáveis, inclusive as pessoas acima indicadas, poderão nomear bens livres e desembaraçados do devedor, tantos quantos
bastem para pagar a divida. Os bens dos responsáveis ficarão, porém, sujeitos à execução, se os do devedor forem insuficientes à
satisfação da dívida.
337
Súmula 40 do TFR (Competência): “A execução fiscal da Fazenda Pública Federal será proposta perante o juiz de direito da
comarca do domicílio do devedor, desde que não seja ela sede de Vara da Justiça Federal”. A Súmula se encontra em vigor (STJ-1ª
Seção, CC n° 31.022-RS, rel. Min. Milton Luiz Pereira, j. 10.10.01, v.u., DJU 04.03.02, p. 169).
338
Súmula 58 do STJ (Perpetuação da lide): “Proposta a execução fiscal, a posterior mudança de domicílio do executado não
desloca a competência já fixada”.
339
São dispensáveis os demais requisitos previstos no art. 282, CPC.

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d.2.5) Avaliação dos bens penhorados ou arrestados.


d.3) Citação – o executado será citado para, no prazo de 5 (cinco) dias, pagar a dívida com os juros e
multa de mora e encargos indicados na Certidão de Dívida Ativa, ou garantir a execução,
observadas as seguintes normas:
d.3.1) A citação será feita pelo correio, com aviso de recepção340, se a Fazenda Pública não a requerer
por outra forma;
d.3.2) A citação pelo correio considera-se feita na data da entrega da carta no endereço do executado;
ou, se a data for omitida, no aviso de recepção, 10 (dez) dias após a entrega da carta à agência
postal;
d.3.3) Se o aviso de recepção não retornar no prazo de 15 (quinze) dias da entrega da carta à agência
postal, a citação será feita por oficial de justiça ou por edital341;
d.3.4) O edital de citação será afixado na sede do juízo, publicado uma só vez no órgão oficial,
gratuitamente, como expediente judiciário, com o prazo de 30 (trinta) dias, e conterá, apenas, a
indicação da exeqüente, o nome do devedor e dos co-responsáveis, a quantia devida, a natureza
da dívida, a data e o número da inscrição no Registro da Dívida Ativa, o prazo e o endereço da
sede do juízo342.
d.3.5) Interrupção da prescrição – o despacho do juiz, que ordenar a citação, interrompe a
prescrição343.
d.4) Garantia da Execução – em garantia da execução, pelo valor da dívida, juros e multa de mora e
encargos indicados na Certidão da Dívida Ativa, o executado poderá:
d.4.1) Efetuar depósito em dinheiro, à ordem do juízo em estabelecimento oficial de crédito, que
assegure atualização monetária;
d.4.2) Oferecer fiança bancária;
d.4.3) Nomear bens à penhora, observada a ordem do art. 11 da LEF; ou,
d.4.4) Indicar à penhora bens oferecidos por terceiros e aceitos pela Fazenda Pública344.
d.4.5) Prova do depósito – juntar-se-á aos autos a prova do depósito, da fiança bancária ou da penhora
dos bens do executado ou de terceiros.
d.4.5.1) A garantia da execução, por meio de depósito em dinheiro ou fiança bancária345, produz os
mesmos efeitos da penhora.
d.4.5.2) Somente o depósito em dinheiro, na forma do art. 32, I da Lei 6.830/80, faz cessar a
responsabilidade pela atualização monetária e juros de mora.
d.4.6) Depósito parcial – o executado poderá pagar parcela da dívida, que julgar incontroversa, e
garantir a execução do saldo devedor.
d.5) Penhora ou arresto/avaliação – não ocorrendo o pagamento, nem a garantia da execução, a
penhora poderá recair em qualquer bem do executado, exceto os que a lei declare
absolutamente impenhoráveis.
d.5.1) Gradação legal – a penhora ou arresto de bens obedecerá à seguinte ordem (art. 11)346:

340
Aqui pouco importa que o AR tenha sido recebido por pessoa diversa do citando.
341
Súmula 414 do STJ (Citação por edital): “A citação por edital na execução fiscal é cabível quando frustradas as demais
modalidades”.
342
O executado ausente do País será citado por edital, com prazo de 60 (sessenta) dias.
343
Conforme Theotônio Negrão: “De uma interpretação sistemática da LEF, art. 8°, § 2°; do CTN, art. 174, § único; do CPC, art.
219, § 4°; e do CC, art. 202, I, decorre que o despacho que ordena a citação em execução fiscal interrompe a prescrição e que a
efetivação do ato citatório faz com que os efeitos interruptivos retroajam até a data da propositura da demanda”.
344
O executado só poderá indicar e o terceiro oferecer bem imóvel à penhora com o consentimento expresso do respectivo cônjuge.
345
Que obedecerá às condições preestabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional.
346
Resta saber se a ordem do art. 11 da LEF continua a prevalece sobre a ordem geral do art. 655, CPC, atualizada após o advento
da Lei n° 11.382/06.

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d.5.1.1) Dinheiro;
d.5.1.2) Título da dívida pública, bem como titulo de crédito, que tenham cotação em bolsa;
d.5.1.3) Pedras e metais preciosos;
d.5.1.4) Imóveis;
d.5.1.5) Navios e aeronaves;
d.5.1.6) Veículos;
d.5.1.7) Móveis ou semoventes; e
d.5.1.8) Direitos e ações.
d.5.2) Estabelecimento empresarial – excepcionalmente, a penhora poderá recair sobre
estabelecimento comercial, industrial ou agrícola, bem como em plantações ou edifícios em
construção.
d.5.3) Penhora sobre dinheiro – a penhora efetuada em dinheiro será convertida no depósito de que
trata o inciso I do art. 9º, da Lei 6.830/80.
d.5.4) Depósito – o juiz ordenará a remoção do bem penhorado para depósito judicial, particular ou da
Fazenda Pública exeqüente, sempre que esta o requerer, em qualquer fase do processo.
d.5.5) Intimação do executado – na execução fiscal, far-se-á a intimação da penhora ao executado,
mediante publicação, no órgão oficial, do ato de juntada do termo ou do auto de penhora.
Contudo, far-se-á a intimação da penhora pessoalmente ao executado se, na citação feita pelo
correio, o aviso de recepção não contiver a assinatura do próprio executado, ou de seu
representante legal. Nas comarcas do interior dos Estados, a intimação poderá ser feita pela
remessa de cópia do termo ou do auto de penhora, pelo correio, na forma estabelecida no art.
8º, I e II, da Lei 6.830/80, para a citação347.
d.5.6) Averbação da penhora – o oficial de justiça entregará contrafé e cópia do termo ou do auto de
penhora ou arresto, com a ordem de registro de que trata o art. 7º, IV, da Lei 6.830/80:
d.5.6.1) No Ofício próprio, se o bem for imóvel ou a ele equiparado;
d.5.6.2) Na repartição competente para emissão de certificado de registro, se for veículo;
d.5.6.3) Na Junta Comercial, na Bolsa de Valores, e na sociedade comercial, se for em ações, debêntures,
parte beneficiária, cota ou qualquer outro titulo, crédito ou direito societário nominativo.
d.5.7) Avaliação – o termo ou auto de penhora conterá, também, a avaliação dos bens penhorados,
efetuada por quem o lavrar. Impugnada a avaliação, pelo executado, ou pela Fazenda Pública,
antes de publicado o edital de leilão, o juiz, ouvida a outra parte, nomeará avaliador oficial para
proceder à nova avaliação dos bens penhorados. Se não houver, na comarca, avaliador oficial ou
este não puder apresentar o laudo de avaliação no prazo de 15 (quinze) dias, será nomeada
pessoa ou entidade habilitada, a critério do juiz348. Apresentado o laudo, o juiz decidirá de plano
sobre a avaliação349.
d.6) Substituição e reforço da penhora – em qualquer fase do processo, será deferida pelo juiz:
d.6.1) Ao executado, a substituição da penhora por depósito em dinheiro ou fiança bancária350; e
d.6.2) À Fazenda Pública, a substituição dos bens penhorados por outros, independentemente da
ordem enumerada no art. 11, da Lei 6.830/80, bem como o reforço da penhora insuficiente.
e) Embargos à execução fiscal:

347
Se a penhora recair sobre imóvel, far-se-á a intimação ao cônjuge, observadas as normas previstas para a citação.
348
Súmula 232 do STJ (Despesas): “A Fazenda Pública, quando parte no processo, fica sujeita à exigência do depósito prévio dos
honorários do perito”.
349
Observe-se que o oficial de justiça cuida de três atribuições distintas: penhora, registro da penhora e avaliação.
350
Súmula 406 do STJ (Substituição): “A Fazenda Pública pode recusar a substituição do bem penhorado por precatórios”.

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e.1) Prazo – o executado oferecerá embargos, no prazo de 30 (trinta) dias, contados:


e.1.1) Do depósito;
e.1.2) Da juntada da prova da fiança bancária;
e.1.3) Da intimação da penhora351.
e.2) Necessidade de juízo garantido – não são admissíveis embargos do executado antes de
garantida a execução.
e.3) Procedimento – no prazo dos embargos, o executado deverá alegar toda matéria útil à defesa,
requerer provas e juntar aos autos os documentos e rol de testemunhas, até três, ou, a critério
do juiz, até o dobro desse limite. Não será admitida reconvenção, nem compensação, e as
exceções, salvo as de suspeição, incompetência e impedimentos, que serão argüidas como
matéria preliminar e serão processadas e julgadas com os embargos.
e.3.1) Intimação da Fazenda – recebidos os embargos, o juiz mandará intimar a Fazenda, para
impugná-los no prazo de 30 (trinta) dias, designando, em seguida, audiência de instrução e
julgamento. Não se realizará audiência, se os embargos versarem sobre matéria de direito ou,
sendo de direito e de fato, a prova for exclusivamente documental, caso em que o juiz proferirá
a sentença no prazo de 30 (trinta) dias.
e.3.2) Execução não embargada – caso não sejam oferecidos os embargos, a Fazenda Pública
manifestar-se-á sobre a garantia da execução.
e.3.3) Penhora sobre bens de terceiro – não sendo embargada a execução ou sendo rejeitados os
embargos, no caso de garantia prestada por terceiro, será este intimado, sob pena de contra ele
prosseguir a execução nos próprios autos, para, no prazo de 15 (quinze) dias:
e.3.3.1) Remir o bem, se a garantia for real; ou
e.3.3.2) Pagar o valor da dívida, juros e multa de mora e demais encargos, indicados na Certidão de
Dívida Ativa, pelos quais se obrigou, se a garantia for fidejussória.
e.4) Execuções por carta – na execução por carta, os embargos do executado serão oferecidos no
juízo deprecado, que os remeterá ao juízo deprecante, para instrução e julgamento. Quando os
embargos tiverem por objeto vícios ou irregularidades de atos do próprio juízo deprecado, caber-
lhe-á unicamente o julgamento dessa matéria.
f) Leilão e arrematação – a alienação de quaisquer bens penhorados será feita em leilão público, no
lugar designado pelo juiz352. Na hipótese de alienação antecipada dos bens penhorados, o
produto será depositado em garantia da execução, nos termos previstos no art. 9º, inciso I, da
citada lei. A arrematação será precedida de edital, afixado no local do costume, na sede do juízo,
e publicado, em resumo, uma só vez, gratuitamente, como expediente judiciário, no órgão
oficial. O prazo entre as datas de publicação do edital e do leilão não poderá ser superior a 30
(trinta), nem inferior a 10 (dez) dias.
f.1) Intimação para o ato – o representante judicial da Fazenda Pública será intimado, pessoalmente,
da realização do leilão, com a antecedência acima prevista. Também deve ser intimado
pessoalmente o executado353.
f.2) Leilões globais – a Fazenda Pública e o executado poderão requerer que os bens sejam leiloados
englobadamente ou em lotes que indicarem.
f.3) Cabe ao arrematante o pagamento da comissão do leiloeiro e demais despesas indicadas no
edital.

351
Aqui o prazo começa a correr da simples intimação e não da juntada do auto de penhora.
352
Observe-se que aqui o legislador não faz distinção entre a alienação de bens imóveis (praça) e móveis (leilão). A denominação é
uma só: leilão.
353
Súmula 121 do STJ (Intimação do leilão ao devedor): “Na execução fiscal o devedor será intimado, pessoalmente, do dia e
hora da realização do leilão”.

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f.4) Aplicação subsidiária do CPC – considerando a omissão da lei, aplica-se subsidiariamente o CPC.
Logo são realizados dois leilões: o primeiro por preço não inferior ao da avaliação e o segundo
pelo maior preço354.
g) Adjudicação – a Fazenda Pública poderá adjudicar os bens penhorados:
g.1) Antes do leilão, pelo preço da avaliação, se a execução não for embargada ou se rejeitados os
embargos;
g.2) Findo o leilão:
g.2.1) Se não houver licitante, pelo preço da avaliação;
g.2.2) Havendo licitantes, com preferência, em igualdade de condições com a melhor oferta, no prazo
de 30 (trinta) dias355.
h) Privilégios e prerrogativas da Fazenda Pública na execução fiscal:
h.1) Intimação pessoal – na execução fiscal, qualquer intimação ao representante judicial da Fazenda
Pública será feita pessoalmente. Esta intimação poderá ser feita mediante vista dos autos, com
imediata remessa ao representante judicial da Fazenda Pública, pelo cartório ou secretaria356.
h.2) Privilégio do crédito – a cobrança judicial da Dívida Ativa da Fazenda Pública não é sujeita a
concurso de credores ou habilitação em falência, concordata, liquidação, inventário ou
arrolamento. O concurso de preferência se verifica entre as pessoas jurídicas de direito público,
na seguinte ordem:
h.2.1) União e suas autarquias;
h.2.2) Estados, Distrito Federal e Territórios e suas autarquias, conjuntamente e pro rata;
h.2.3) Municípios e suas autarquias, conjuntamente e pro rata.
h.3) Objeto da execução – sem prejuízo dos privilégios especiais sobre determinados bens, que
sejam previstos em lei, responde pelo pagamento da Dívida Ativa da Fazenda Pública a
totalidade dos bens e das rendas, de qualquer origem ou natureza, do sujeito passivo, seu
espólio ou sua massa, inclusive os gravados por ônus real ou cláusula de inalienabilidade ou
impenhorabilidade, seja qual for a data da constituição do ônus ou da cláusula, excetuados
unicamente os bens e rendas que a lei declara absolutamente impenhoráveis.
h.4) Direito de preferência – nos processos de falência, concordata, liquidação, inventário,
arrolamento ou concurso de credores, nenhuma alienação será judicialmente autorizada sem a
prova de quitação da Dívida Ativa ou a concordância da Fazenda Pública.
h.5) Limitação da controvérsia sobre o título – a discussão judicial da Dívida Ativa da Fazenda Pública
só é admissível em execução, na forma prevista na Lei n° 6.830/80, isto é, mediante embargos,
salvo as hipóteses de mandado de segurança, ação de repetição do indébito ou ação anulatória
do ato declarativo da dívida, esta precedida do depósito preparatório do valor do débito,
monetariamente corrigido e acrescido dos juros e multa de mora e demais encargos. De
qualquer sorte, a propositura, pelo contribuinte, das ações acima previstas importará em
renúncia ao poder de recorrer na esfera administrativa e desistência do recurso acaso interposto.
h.6) Isenção – a Fazenda Pública não está sujeita ao pagamento de custas e emolumentos. A prática
dos atos judiciais de seu interesse independerá de preparo ou de prévio depósito. Se vencida, a
Fazenda Pública ressarcirá o valor das despesas feitas pela parte contrária357.

354
Súmula 128 do STJ (Segundo leilão): “Na execução fiscal haverá segundo leilão, se no primeiro não houver lanço superior à
avaliação”.
355
Se o preço da avaliação ou o valor da melhor oferta for superior ao dos créditos da Fazenda Pública, a adjudicação somente será
deferida pelo juiz, se a diferença for depositada, pela exeqüente, à ordem do juízo, no prazo de 30 (trinta) dias. Atente-se que aqui
a adjudicação pode ser antes ou depois do leilão. Procedimento similar foi implementado na execução comum com o advento da Lei
n° 11.382/06, que imprimiu nova ordem ao procedimento expropriatório (art. 647 do CPC).
356
Súmula 240 do TFR (Intimação do representante da Fazenda Pública): “A intimação do representante judicial da Fazenda
Pública, nos embargos à execução fiscal, será feita pessoalmente”.

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i) Recursos – das sentenças de primeira instância proferidas em execuções de valor igual ou


inferior a 50 (cinqüenta) Obrigações do Tesouro Nacional - OTN, só se admitirão embargos
infringentes e de declaração. Para os efeitos desta disposição, considerar-se-á o valor da dívida
monetariamente atualizado e acrescido de multa e juros de mora e demais encargos legais, na
data da distribuição.
i.1) Embargos infringentes – os embargos infringentes, instruídos, ou não, com documentos novos,
serão deduzidos, no prazo de 10 (dez) dias perante o mesmo juízo, em petição fundamentada.
Ouvido o embargado, no prazo de 10 (dez) dias, serão os autos conclusos ao juiz, que, dentro
de 20 (vinte) dias, os rejeitará ou reformará a sentença358.
i.2) Apelação – nos demais casos, o recurso cabível é o de apelação, podendo ser dispensada a
audiência de revisor nos julgamentos.
j) Suspensão do processo – o juiz suspenderá o curso da execução, enquanto não for localizado o
devedor ou encontrados bens sobre os quais possa recair a penhora, e, nesses casos, não
correrá o prazo de prescrição. Suspenso o curso da execução, será aberta vista dos autos ao
representante judicial da Fazenda Pública. Decorrido o prazo máximo de 1 (um) ano, sem que
seja localizado o devedor ou encontrados bens penhoráveis, o juiz ordenará o arquivamento dos
autos. Encontrados que sejam, a qualquer tempo, o devedor ou os bens, serão desarquivados os
autos para prosseguimento da execução359.
k) Massa falida – Súmula 400 do STJ: “O encargo de 20% previsto no DL n. 1.025/1969 é
exigível na execução fiscal proposta contra a massa falida”.
l) Prescrição – Súmula 409 do STJ: “Em execução fiscal, a prescrição ocorrida antes da
propositura da ação pode ser decretada de ofício”.

MÓDULO VI – PROCESSO CAUTELAR

1. INTRÓITO
1.1 Qual a finalidade do processo de conhecimento?360
1.2 Qual é a finalidade do processo de execução?361
1.3 Qual é a finalidade do processo cautelar?362

357
Súmula 153 do STJ (Desistência): “A desistência da execução fiscal, após o oferecimento dos embargos, não exime o
exeqüente dos encargos de sucumbência”.
358
Da sentença que julga improcedentes os embargos infringentes não cabe apelação; em tese, cabe recurso extraordinário.
359
Se o processo ficar parado por mais de 05 anos, ocorrerá a denominada prescrição intercorrente: Súmula 314 do STJ
(Prescrição intercorrente): “Em execução fiscal, não localizados bens penhoráveis, suspende-se o processo por um ano, findo o
qual se inicia o prazo da prescrição qüinqüenal intercorrente”.
360
Quando a jurisdição age, objetivando compor a lide, o critério é de cognição dos fatos, para defini-los com suas conseqüências
jurídicas, de acordo com o sistema de direito preestabelecido. Pretende o autor, por exemplo, que o juiz reconheça a existência de
seu direito de propriedade sobre o bem e o direito de possuí-lo, reclamando a respectiva posse; quem se julga credor, mas não tem
o título, quer o reconhecimento jurisdicional de seu direito e a determinação para o respectivo pagamento. Em tais hipóteses, o juiz
deve conhecer dos fatos, fazer o devido exame da prova e sentenciar, compondo o litígio. A soma dos atos que o juiz pratica com os
demais da mesma relação, para atingir tal fim, é um “processo”, e, por suas características, de “cognição”, ou, o que é mais usual,
“processo de conhecimento”.
361
Poderá acontecer do direito já estar devidamente reconhecido, sem necessidade de nenhuma perquirição. Tal reconhecimento
provém da lei que, para tanto, poderá considerar o acertamento dos particulares ou da própria atividade jurisdicional. De tal
acertamento surge o título, o qual, por poder, desde logo, provocar a realização do direito, “chama-se título executivo”. Com o título
executivo pode-se instaurar execução forçada, assumindo a jurisdição, neste caso, a mesma atividade substitutiva dos particulares,
apenas com diversidade de função, pois para alcançar o objetivo de realizar o direito, o juiz não precisa indagar dos fatos nem de
sua adequação a qualquer norma, cumprindo-lhe simplesmente dar efetivação prática ao que, no título executivo, já está revelado.
A soma de atos que se realizam, para que se atinja tal finalidade, chama-se “processo de execução”.
362
Enquanto o processo principal (de cognição ou execução) busca a composição da lide, o processo cautelar contenta-se em
outorgar situação provisória de segurança para os interesses dos litigantes. Assim, podemos dizer que o processo cautelar é o

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2. MEDIDA (PROVIDÊNCIA) CAUTELAR X PROCESSO CAUTELAR


A medida cautelar é a providência jurisdicional protetiva de um bem envolvido no processo; o
processo cautelar é a relação jurídica processual, dotada de procedimento próprio que se
instaura para concessão de medidas cautelares (procedimento individualizado).

3. OBJETO
O processo cautelar e as medidas cautelares visam à proteção provisória dos elementos jurídicos
(pessoas, provas e bens) envolvidos no processo de conhecimento ou de execução, os quais, em
face da duração ou demora do processo principal, podem enfrentar situação de risco de dano,
por conduta de um dos litigantes ou por evento ocasional. Assim, podemos dizer que a ação
cautelar (direito da parte de fazer atuar o processo) consiste no direito de assegurar que o
processo possa conseguir um resultado útil.

4. TUTELA CAUTELAR X TUTELA ANTECIPADA


A função cautelar NÃO consiste em antecipar solução da lide para satisfazer prematuramente o
direito material subjetivo em disputa no processo principal. O que se obtém no processo
cautelar, e por meio de uma medida cautelar, é apenas a prevenção contra risco de dano
imediato que afeta o interesse litigioso da parte e que compromete a eventual eficácia da tutela
definitiva a ser alcançada no processo de mérito. É por isso que se diz que o processo principal
(in casu a tutela antecipada) é de natureza “satisfativa”, porque redunda da satisfação efetiva do
direito da parte, quando essa sai vitoriosa no pleito forense. Outrossim, a tutela cautelar é
apenas de “prevenção” ou “garantia”, porque quem a obtém, mesmo ganhando a ação cautelar,
não consegue, só com ela, a satisfação de seu pretenso direito, que continua na dependência da
solução do processo principal363 e 364.

5. CARACTERÍSTICAS
O processo cautelar possui características próprias:
5.1 Acessoriedade – o processo cautelar é sempre dependente de um outro processo, já em curso ou
não, de conhecimento ou de execução (art. 796 do CPC). Como corolário disso, dispõe os arts.
806 (proposição da ação principal no prazo de 30 dias) e 807-808 do CPC (condicionamento da
eficácia da medida cautelar ao processo principal);
5.2 Provisoriedade – as medidas cautelares subsistirão até que a medida definitiva as substitua, ou
que não sejam mais necessárias, ou ainda que providências subseqüentes - exigidas por lei, pelo

instrumento natural para a produção e o deferimento de medidas cautelares (que visam assegurar a eficácia do processo principal),
mas nem todas as medidas cautelares são determinadas ou deferidas em processo cautelar.
363
Tanto a medida cautelar propriamente dita (objeto da ação cautelar) como a medida antecipatória (objeto de liminar na própria
ação principal) representam providências, de natureza emergencial, executiva e sumária, adotadas em caráter provisório. O que,
todavia, as distingue, em substância, é que a tutela cautelar apenas assegura uma pretensão, enquanto a tutela antecipatória
realiza de imediato a pretensão. Urge, pois, não confundir o regime legal das medidas cautelares (sempre não satisfativas) com as
medidas liminares de antecipação da tutela de caráter satisfativo provisório, por expressa autorização da lei. Embora haja
nitidamente uma separação entre medida cautelar e medida de antecipação de tutela, ambas pertencem ao gênero comum da tutela
de prevenção, sendo, às vezes, do ponto de vista prático, difícil identificar a medida concreta como pertencente a esta ou àquela
modalidade preventiva. Por isso, a Lei nº 10.444, de 07.05.02 instituiu a fungibilidade entre as duas tutelas, permitindo que sob o
rito da antecipação se defira medida cautelar, desde que presentes os seus pressupostos (art. 273, § 7º do CPC).
364
A antecipação da tutela serve para adiantar, no todo ou em parte, os efeitos pretendidos com a sentença de mérito a ser
proferida ao final. Já a cautelar visa a garantir o resultado útil do processo principal. Enquanto o pedido de antecipação de tutela
pode ser formulado na própria petição inicial da ação principal, a medida cautelar deve ser pleiteada em ação separada, sendo
vedada a cumulação dos pedidos principal e cautelar num único processo. (STJ, 2ª Turma, REsp 60.607-SP, rel. Min. Adhemar
Maciel, j. 04.09.97, não conheceram, v.u., DJU 06.10.97, p. 49.929).

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juiz ou pelas circunstâncias - não sejam adotadas pelo interessado no prazo (cfe. citados arts.
807 e 808 do CPC). Nas palavras de Barbosa Moreira, a provisoriedade no processo cautelar se
assemelha aos andaimes de uma construção365.
5.3 Instrumentalidade – a medida cautelar é sempre providência instrumental no sentido de que visa
a assegurar a eficácia de outra providência jurisdicional, quer cognitiva quer executória. Como
esclarece Barbosa Moreira, o processo cautelar é instrumento do instrumento366.

6. CLASSIFICAÇÃO
Utilizando-se da didática de Frederico Marques, as medidas cautelares podem ser:
6.1 Medidas típicas ou nominadas – são as que têm procedimento específico (arts. 813 a 888 do
CPC). Estas podem ser divididas quanto ao seu objeto, ou seja (observar quadro retirado do
manual de Humberto Theodoro Jr.):
a) medidas sobre bens;
b) medidas sobre provas;
c) medidas sobre pessoas;
d) medidas conservativas e outras não cautelares, e apenas submetidas ao procedimento cautelar.
6.2 Medidas cautelares atípicas ou inominadas, com procedimento comum – arts. 798 e 801 a 803
do CPC.
6.3 As medidas cautelares ainda podem ser classificadas quanto ao momento em que são deferidas
– art. 796 do CPC:
a) preventiva ou preparatória367 – instaurada antes mesmo do processo principal (art. 800 do CPC);
b) incidental – instaurado no curso do processo principal.

7. REQUISITOS DA TUTELA CAUTELAR


Além das condições gerais de admissibilidade da ação cautelar, que são as condições gerais da
ação (possibilidade jurídica do pedido, interesse processual e legitimidade das partes), o
procedimento cautelar tem como pressupostos de procedência o periculum in mora e o fumus
boni iuris. Esses requisitos são específicos e comuns a todos os procedimentos cautelares:
7.1 Fumus boni iuris (fumaça do bom direito; aparência do direito) – é a probabilidade ou
possibilidade da existência do direito invocado pelo autor da ação cautelar e que justifica a sua
proteção, ainda que em caráter hipotético. Atente-se que o fumus boni iuris não é um
prognóstico de resultado favorável no processo principal, nem uma antecipação do julgamento,
mas simplesmente um juízo de probabilidade, perspectiva essa que basta para justificar o
asseguramento do direito.
7.2 Periculum in mora (perigo da demora) – é a probabilidade de dano a uma das partes de futura
ou atual ação principal, resultante da demora no ajuizamento ou processamento e julgamento
desta e até que seja possível medida definitiva. Em outras palavras, é o fundado receio de dano,

365
Os andaimes da construção só têm utilidade enquanto não se realiza a construção definitiva. Uma vez pronta à obra retiram-se
os andaimes. Ou seja, uma vez composto de maneira definitiva o conflito; uma vez atingido o resultado satisfativo a que se visava,
já não há mais razão de ser para subsistência da medida cautelar.
366
Se todo o processo se caracteriza pela instrumentalidade, já que o processo é sempre instrumento de realização do direito
substantivo, o processo cautelar será instrumento do instrumento. Observem que essa instrumentalidade é hipotética, ou seja, para
a concessão da medida cautelar, não há a necessidade de demonstração plena do direito afirmado.
367
Inapropriada é a expressão ‘preparatória’ utilizada pelo Legislador, posto que a ação cautelar não visa preparar o processo
principal, mas assegurar sua eficácia e utilidade.

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que há de ser grave e difícil reparação, e que se tema possa ocorrer antes da solução definitiva
da lide, a ser encontrada no processo principal.

8. PODER GERAL DE CAUTELA


Como foi visto anteriormente, as medidas cautelares podem ser divididas em típicas e atípicas.
As primeiras são expressamente disciplinadas no CPC (arresto, seqüestro, das antecipações das
provas, etc.). Mas a função cautelar não fica restrita às providências típicas, porque o intuito da
lei é assegurar meio de coibir qualquer situação de perigo que possa comprometer a eficácia e
utilidade do processo principal368. Daí existir, também, a previsão de que caberá ao juiz
determinar outras medidas provisórias, além das específicas, desde que julgadas adequadas,
sempre que houver fundado receio de que uma parte, antes do julgamento da lide, cause ao
direito da outra lesão de grave e de difícil reparação (CPC, art. 798). Esse poder conferido ao
juiz de conceder medidas cautelares, fora dos casos típicos arrolados pelo legislador, chama-se
doutrinariamente poder geral de cautela (poder cautelar geral, etc.). Assim, por exemplo, após
requerida por uma das partes uma medida cautelar (não tipicamente prevista) o juiz deverá
valorar o pedido no que diz respeito à sua necessidade, como também à sua adequação ou
capacidade para eliminar o perigo evidenciado. Visto isso, poderá conceder o acautelamento
pleiteado (adequando, inclusive, a medida aos limites e objetivos da jurisdição de prevenção),
exercitando assim, seu poder geral de cautela. Observe-se que o juiz, em regra, não tem a
iniciativa da tutela cautelar (como ocorre na tutela de mérito), já que ambas só devem ser
prestadas quando requeridas pelas partes (CPC, arts. 2° e 801).
Podemos dividir, como aponta Vicente Greco Filho, o poder geral de cautela sob duas formas:
8.1 Tutela cautelar inominada – quando à parte, presente os pressupostos, requer a instauração,
preventiva ou incidental, de processo cautelar, pleiteando medida não prevista no rol legal e,
portanto, chamada inominada. São exemplos de medidas cautelares inominadas instauradas
mediante procedimento cautelar formal: suspensão de deliberações sociais; sustação de protesto
de títulos; medidas contra riscos de dilapidação de fortuna; proibição de usar nome empresarial;
exercício provisório de servidão de passagem; remoção cautelar de administradores, etc.
8.2 Tutela cautelar “ex officio” – ocorre nos próprios autos do processo de conhecimento ou de
execução, quando uma situação de emergência exige a atuação imediata do juiz
independentemente de processo cautelar e mesmo de iniciativa da parte. Assim, pode o juiz –
excepcionalmente – conceder medidas cautelares de ofício (art. 797 do CPC). São exemplos
deste procedimento os arts. 653; 588; 804; 1000, parágrafo único; 1001; e 1018, parágrafo
único. Observe-se, outrossim, que a ação da parte é a condição e o limite da jurisdição369. Esse
princípio dogmático também vigora no campo da tutela cautelar, sofrendo, contudo, um
abrandamento.
8.3 Limites ao poder geral de cautela – se o poder geral de cautela é amplo, não é, porém ilimitado
ou arbitrário. Deve manter-se nos estritos termos da essência das medidas cautelares, qual seja,
a provisoriedade, a proteção direta ou indireta a um direito que pode ser deferido no futuro
(apenas que o direito tutelado pela parte seja invocado pelas vias ordinárias), e a sua real
necessidade. Não pode, pois, o juiz, ao deferir medidas cautelares, quando da mesma natureza
do pedido principal, ultrapassar os limites máximos do próprio direito a ser hipoteticamente
concedido, nem antecipar a execução para ganhar tempo da satisfação do possível credor, nem
violar a coisa julgada. Ainda não deve o juiz pretender substituir pela providência cautelar o
cabimento de um processo de conhecimento ou executivo e também substituir por medida

368
O infinito número de hipóteses em que a demora pode gerar perigo torna impossível a previsão específica das medidas cautelares
em número fechado, sendo, portanto, indispensável um poder cautelar geral que venha a abranger situações não previstas pelo
legislador.
369
É condição porque sem ação, o juiz não atua na composição do litígio; e é limite, porque a prestação do juiz nunca pode ser
maior ou diversa daquela que a parte lhe requerer (arts. 128 e 460 do CPC).

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inominada a medida expressamente disciplinada que, por falta de requisito legal, não pode ser
concedida.

9. RELAÇÃO PROCESSUAL CAUTELAR:


9.1 Elementos subjetivos:
a) Legitimidade – são os mesmos sujeitos perante os quais deve desenvolver-se a relação
processual do juízo de mérito. Em outras palavras, são as partes - autor (requerente) e réu
(requerido) e o juiz.
b) Competência – a competência para o procedimento cautelar é o do juiz que preside a causa
principal já em andamento, ou, se ainda não foi esta proposta, é do juiz competente para
conhecer dela, futuramente. Nestes casos de medida preparatória é preciso fazer um prognóstico
quanto à competência para a ação principal (foro e matéria), e, determinada esta, por
conseqüência se determina a da cautelar (CPC, arts. 800, 108 e 796). Ainda nesses casos de
medida cautelar preparatória, esta previne a competência da ação de conhecimento ou de
execução (art. 108), a não ser nos casos de urgência, quando ela se estabelece por exceção.370
c) Competência recursal – interposto o recurso, a medida cautelar será requerida diretamente ao
tribunal (CPC, art. 800, parágrafo único). Observe-se que em caso de recursos recebidos sem
efeito suspensivo, como o agravo, não impede que o juiz de origem continue a oficiar no
processo, podendo ele deferir as medidas cautelares que se façam necessárias.
d) Intervenção de terceiros – por se referir diretamente ao mérito da causa, não cabem no
processo cautelar as hipóteses de oposição, denunciação a lide e chamamento ao processo.
Outrossim, são admitidas à nomeação a autoria e a assistência.
9.2 Elementos objetivos:
a) Objetos da tutela cautelar – pode recair sobre bens, provas e pessoas.
b) Provas – Tem duas acepções dentro do processo cautelar: como elemento do processo principal
a ser tutelado (objeto); e como elemento de convicção do juiz cautelar para apurar as condições
de deferir a tutela preventiva (instrumento de convicção).
c) Instrução – é sumária (tendo em vista a urgência do procedimento, ou seja, funda-se em
informações sumárias baseadas em critérios de mera plausibilidade).
9.3 Procedimento – a ação cautelar segue um rito parecido ao sumário, e é inacumulável com o da
ação principal371. Assim, podemos dizer que o processo cautelar tem objetivo e rito próprios.
Seja incidente ou antecedente, nominada ou inominada, a medida cautelar dá lugar a autuação
própria, devendo os respectivos autos ser apensados aos da ação principal (art. 809 do CPC).
Isto posto, o processo cautelar se inicia com a petição inicial do promovente (CPC, art. 801);
seguida de citação do promovido (CPC, art. 802); com oportunidade de contestação, instrução
probatória, e encerramento necessário por sentença (CPC, art. 803):
a) Petição inicial – seja medida antecedente (preparatória) ou incidente, a tutela cautelar será
sempre provocada mediante petição inicial que deverá conter:

370
Observe-se que entre a cautelar e a principal em regra ocorre o fenômeno da prevenção, ou seja, a que primeiro for ajuizada,
independentemente de qual seja, fixará a competência da seguinte. Exceção à regra, aceita na doutrina e na jurisprudência, é o
caso de deferimento de medida cautelar por parte do juiz do local em que se situam os bens em risco. Assim, por exemplo, se a
ação principal deve ser, pelas regras do domicílio do réu, proposta em Recife, mas a coisa a ser arrestada encontra-se em outra
comarca e a demora da expedição de precatória pode tornar ineficaz a medida, pode a medida ser requerida ao juiz da comarca em
que se encontra a coisa. Esse juiz é, naturalmente e logicamente, o único capaz de evitar o dano e eliminar, no momento
necessário, o risco concreto e atual. Deferida a medida e afastada a situação perigosa, os autos serão remetidos ao juiz da causa
principal, para julgamento final e apensamento aos autos do procedimento de mérito (art. 809 do CPC).
371
Enquanto o processo cautelar aspira à celeridade, contentando-se com notícia sumária e superficial dos fatos autorizadores da
medida preventiva, o processo principal (de conhecimento ou de execução) anseia pela ampla busca da verdade real, em
procedimento de pleno contraditório e ampla e irrestrita defesa.

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a.1) a autoridade judiciária competente;


a.2) o nome, o estado civil, a profissão e a residência do requerente e do requerido;
a.3) a lide e seu fundamento372;
a.4) a exposição sumária do direito ameaçado e o receio de lesão373;
a.5) as provas que serão produzidas374 e 375.
b) Despacho inicial e citação do requerido – recebida à petição inicial o juiz verificará se está tudo
em ordem e se cabe liminar. Sendo positivo, determinará a citação do réu para que conteste a
ação. Para tanto o réu terá o prazo de cinco (05) dias contados da juntada aos autos do
mandado:
b.1) de citação, devidamente cumprido;
b.2) da execução da medida cautelar, quando deferida liminarmente376 (com ou sem justificação
prévia)377.
c) Contestação378 – após citado, caberá ao réu contestar o pedido, indicando as provas que
pretende produzir (art. 802). Na própria contestação pode o requerido pedir a contracautela, ou
seja, medida que, imposta ao requerente, assegure que serão ressarcidos os eventuais prejuízos
decorrentes da medida cautelar inicialmente concedida ou a sê-lo. Não sendo contestado o
pedido, importará em revelia. Tal fato provocará efeitos processuais (o processo correrá sem
audiência do réu; será julgado em cinco dias independentemente de instrução ou dilação
probatória) e efeitos substanciais (presumir-se-ão aceitos pelo requerido, como verdadeiros, os
fatos alegados pelo requerente) (art. 803 do CPC).
d) Audiência de instrução e julgamento – quando houver contestação no prazo legal e a matéria
discutida for daquelas que reclamam prova oral, o juiz, necessariamente, designará a audiência
(art. 803, parágrafo único). Essa audiência será como no procedimento ordinário (tentativa de

372
Exigi-se, na petição, a designação da lide que será composta no processo principal a que vai servir a ação cautelar. Observe-se
que esse requisito não é expressar explicitamente o “nome” da futura ação principal, mas procurar demonstrar, genericamente na
sua redação, a possibilidade de ajuizamento de uma futura ação de mérito. Esse requisito não tem razão de ser quando a medida
cautelar é requerida incidentalmente no curso da ação principal (CPC, art. 801, parágrafo único).
373
A “exposição sumária do direito ameaçado” corresponde exatamente à demonstração que o autor deve fazer de que ele possui
um interesse tutelável pela ação principal e que esse interesse merece ser resguardado através de um instrumento hábil até que a
solução definitiva do litígio seja alcançada. Já o “receio de lesão” é tudo quanto, contra direito, impossibilita ou dificulta a satisfação
de um interesse garantido por lei. Se não for demonstrada a superveniência de uma lesão, não se concede medida preventiva.
374
Na medida cautelar o juiz não entra no mérito do pedido principal, apenas julga sobre meros fatos para a concessão da medida.
Assim, a prova que a parte deve fazer é sobre os fatos alegados no seu pedido cautelar e não prova sobre a ação principal, salvo se
tão entrelaçados que não possam ser separados. Ademais, pela sumariedade do rito das ações cautelares, o autor deve requerer
todas as suas provas já na petição inicial, porquanto, de ordinário, não terá outra oportunidade para fazê-lo.
375
Além, obviamente, do pedido, da citação do réu, e o valor da causa. Esse último, deve corresponder tanto quanto possível ao
valor da causa principal, de maneira que no arresto será o valor da dívida; no seqüestro, nos depósito, na busca e apreensão, no
arrolamento de bens, etc, será o valor dos bens; na caução, o valor da garantia; nos alimentos provisionais, o valor anual das
prestações, e assim por diante. Quando, no entanto, a cautela se referir apenas a parte do pedido deverá ser observado o seguinte:
o proveito econômico proporcionado pela medida cautelar é inferior àquele que se visa afinal obter na tutela de mérito. Em
conseqüência, a estimativa do valor da ação cautelar atingirá, em princípio, cifra bem menor do que a correspondente à ação
satisfativa.
376
Com a inicial, pode o requerente, também, requerer a concessão liminar da medida, sem que seja ouvida a parte contrária
(inaudita altera parte). O juiz pode, excepcionalmente, determinar medidas cautelares sem audiência da parte contrária,
liminarmente ou após justificação prévia, quando verificar que o requerido, sendo citado, poderá torná-la ineficaz. Neste caso, o juiz
poderá determinar que o requerente preste caução, real ou fidejussória, de ressarcir os danos que o requerido possa vir a sofrer
(art. 804 do CPC). Essa contracautela é de imposição ex officio pelo juiz, mas nada impede que seja provocada por requerimento do
promovido, se houver inércia do magistrado. A caução cabe tanto nas medidas típicas como nas atípicas. Quanto à avaliação da
contracautela oferecida, fica a critério do juiz a apreciação da idoneidade da caução, podendo exigir prestação de outra garantia, se
a indicada não lhe parecer adequada ou suficiente.
377
A redação do artigo sugere que o prazo passe a correr, sem que o requerido tenha sido citado! Com efeito, a jurisprudência é
farta no sentido de o prazo não passa a correr sem a citação do requerido (por isso, comumente, o meirinho cumpre
simultaneamente os dois mandados). Ou uma melhor solução: a expedição de mandado único (citação e intimação para
cumprimento da medida).
378
O réu poderá opor exceção, mas não poderá reconvir.

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conciliação, depoimentos de testemunhas, esclarecimentos periciais, etc.). Caso não haja


necessidade de dilação probatória, o juiz, sem mais diligências, proferirá a sentença.
e) Sentença – como se percebeu, a medida cautelar pode ser deferida tanto liminarmente (por
força de uma decisão interlocutória), como na decisão final (através da sentença). Com efeito,
nunca se pode encerrar a relação processual sem uma sentença que reconheça a procedência ou
improcedência do pedido, salvo é claro, nas hipóteses de extinção por deficiência ou falta de
condições de ação ou de pressupostos processuais. Tem sido admitido o julgamento conjunto,
cautelar e principal, na mesma sentença379.
e.1) Forma – será o mesmo da sentença de conhecimento, ou seja, deverá respeitar os requisitos do
art. 458 do CPC.
e.2) Limites da sentença – por se tratar a lide cautelar (lide de interesse público, pois visa tão apenas
a eficácia da própria prestação jurisdicional), pode o juiz aplicar o princípio da fungibilidade, sem
implicar tal decisão em sentença extra petita.
e.3) Despesas processuais e condenação dos honorários advocatícios – é possível a condenação das
custas e dos honorários advocatícios à parte vencida, respeitando os seguintes parâmetros:
e.3.1) se a tutela cautelar limita-se ao plano de uma simples medida cautelar, de cunho administrativo,
não há sucumbência; o requerente paga as custas e não há condenação pertinente a honorários;
e.3.2) mas se o pedido cautelar é objeto de contestação e o procedimento (seja preparatório, seja
incidental) torna-se contencioso, então o vencido terá de responder por custas e honorários de
advogado, perante o vencedor, sem ter de aguardar o resultado do processo principal, em face
da autonomia jurídica existente entre ambos380.
f) Coisa julgada – a sentença do processo cautelar não faz coisa julgada material (pois não decide
o mérito). Outrossim, fará coisa julgada formal.
g) Recursos:
g.1) Nas decisões interlocutórias – caberá agravo de instrumento381. São exemplos dessas decisões:
a que concede ou denega a medida cautelar initio litis, sem audiência da parte contrária (art.
804 do CPC); a que determina medidas cautelares ex officio (art. 797 do CPC); a que impõe
caução como contracautela (art. 804 do CPC), ou a que autoriza em substituição à outra medida
(art. 805 do CPC).
g.2) Nas decisões finais – da sentença caberá apelação. Esta apelação será recebida apenas no efeito
devolutivo (art. 520, IV do CPC)382.
g.3) Caberá ainda o recurso especial e o recurso extraordinário (esse último sofreu limitações quanto
a sua interposição, só podendo ser utilizado quando a decisão ofender a Constituição).
h) fungibilidade das medidas cautelares – a medida cautelar poderá ser substituída, de ofício ou a
requerimento de qualquer das partes, pela prestação de caução ou outra garantia menos
gravosa para o requerido, sempre que adequada e suficiente para evitar a lesão ou repara-la
integralmente (art. 805 do CPC). Os órgãos judiciais vêm entendo como caução idônea, para
esse tipo de substituição, a caução bancária. Observe-se que se uma caução, qualquer que seja
ela, tiver força para eliminar a situação de perigo que ameaça a eficácia do processo principal, o

379
Tem havido errôneo entendimento de que, concedida liminar, nada mais há a decidir, aguardando-se, apenas, o resultado do
processo definitivo. Essa posição, que já está se tornando habitual entre os juízes, é inadmissível, posto que torna o processo
latente ou suspenso sem decisão, impossibilitando, inclusive, a interposição de apelação (art. 520, IV do CPC).
380
Ementa: “1. Nos termos da pacífica jurisprudência desta Corte, é devido o pagamento da verba honorária quando a cautelar é
resistida, estabelecendo-se o contraditório. Precedentes” (STJ-5ª Turma, REsp 675395/RS, rel. Min. Laurita Vaz, j. 04.08.05,
rejeitaram os embargos, v.u., DJ 29.08.05, p. 418).
381
Mesmo após a inserção da Lei n° 11.187/05, que tornou o agravo retido recurso regra; o agravo de instrumento continuará
sendo o recurso mais apropriado para atacar decisões interlocutórias em processo cautelar, em face das típicas urgências e riscos de
graves lesões aqui presentes.
382
Caso a sentença da ação cautelar tenha sido a mesma da ação principal, sabe-se que em regra, esta última é recebida com duplo
efeito. Nesse caso, quanto à parte cautelar, a apelação não terá efeito suspensivo, ainda que o tenha quanto à parte principal.

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juiz tem de preferir essa caução à outra providência específica que tenha sido concretamente
requerida pelo promovente. A substituição reclama processo especial e será examinada e
solucionada em autos apensados aos da medida cautelar decretada383.
i) Execução das medidas cautelares – apesar de não ser regra, existem medidas cautelares que
participam da natureza das condenações, e, embora de eficácia provisória, reclamam execução.
Esta execução não é exatamente nos moldes do processo executivo. Trata-se de simples
execução da medida cautelar pleiteada e deverá ser exercida no prazo de 30 dias, contados da
decisão que a deferiu (art. 808, II, do CPC).
j) Proposição da ação principal nas cautelares antecedentes – a medida cautelar tem efeito
enquanto for idônea. Entretanto, nos casos de ação cautelar preparatória, a parte tem 30
(trinta) dias para propor a ação principal, contados da efetivação da medida cautelar. A doutrina
e a jurisprudência não são pacíficas quanto ao entendimento do termo ‘efetivação’. Alguns
defendem que o início desse prazo se conta a partir da ciência e cumprimento do mandado pelo
Requerido; outros da juntada do mandado aos autos do processo, ou da ciência do requerente
da efetivação da medida384. A jurisprudência mais recente do STJ não esclarece o que é
‘efetivação’, mas tenta uniformizar as possibilidades supramencionadas, conforme os arestos
abaixo transcritos385.
k) Extinção das medidas cautelares – além da forma normal de extinção do processo cautelar
(cumprimento do objetivo por ela visado, p. ex., transformação do arresto em penhora), o
processo cautelar pode se extinguir:
k.1) por revogação (art. 807 do CPC);
k.2) por falta de ajuizamento da ação principal em 30 dias (art. 808, I do CPC);
k.3) por falta de execução da medida deferida em trinta dias (art. 808, II do CPC);
k.4) por declaração de extinção do processo principal, com ou sem julgamento do mérito (art. 808,
III do CPC);
k.5) por desistência da ação cautelar (art. 267, VIII do CPC).
Obs.: Nas hipóteses do art. 808, não poderá a parte repetir o pedido, salvo por novo fundamento.

10. DAS CAUTELARES TÍPICAS:


10.1 Arresto
a) Conceito – é a medida cautelar de garantia da futura execução por quantia certa.

383
Não pode o juiz admiti-la sem prévia audiência da parte contrária, que poderá fazer objeções quanto à idoneidade ou suficiência,
bem como título do domínio, negativa de ônus, etc.
384
“O prazo para a propositura da ação principal deve ser contado da data em que o autor teve ciência da efetivação da medida
cautelar” (STF-RT 769/209). “Em se tratando de medida liminar concedida em ação cautelar preparatória para que o promovido se
abstenha da prática de determinados atos, a sua efetivação, para fins de contagem do prazo de que cuida o art. 806 do CPC, se dá
quando o réu toma ciência da sua prolação” (STJ-RT 724/197).
385
Ementa: “Existindo restrição ao direito do réu, desde o primeiro ato de execução, deste conta-se o prazo, não importando que a
medida compreenda outros, efetuados em dias subseqüentes. Revela, para a fluência do prazo, o momento em que efetivada
a medida e não aquele em que se juntou aos autos o mandado” (RSTJ 20/403). Ementa: “Nos termos de orientação que
veio a firmar-se na Segunda Seção, o prazo de trinta dias a que alude o art. 806, CPC, é contado a partir da data da
efetivação da medida constritiva, não merecendo abrigo à interpretação que o fixa a partir da prestação da caução ou
da ciência, pelo autor, do cumprimento da liminar” (STJ – 4ª Turma, REsp 278.477-PR, rel. Min. Sálvio de Figueiredo, j.
12.12.00, deram provimento parcial, v.u., DJU 12.03.01, p. 148). Ementa: “PROCESSUAL CIVIL. MEDIDA CAUTELAR. LIMINAR.
EFEITOS. PERDA. AÇÃO PRINCIPAL. NÃO AJUIZAMENTO NO PRAZO. C.P.C., ART. 806. I - Interpretando o artigo 806 do CPC, a Eg.
Segunda Seção do STJ firmou orientação no sentido de que o prazo de trinta dias para o ajuizamento da ação principal é contado a
partir da data da efetivação da medida liminar e não da sua ciência ao requerente da cautelar. II - A extemporaneidade no
ajuizamento da ação principal não acarreta a extinção do processo cautelar, mas sim a perda da eficácia da liminar
concedida. III - Recurso especial conhecido e parcialmente provido”. (STJ-2ª Seção, REsp 327380/RS, rel. Min. Antônio de Pádua
Ribeiro, j. 22.05.02, deram provimento parcial, por maioria, DJ 04.05.05, p. 153).

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b) Objeto – assegura a viabilidade da futura penhora. Atua, assim, ao instrumentalizar a execução


forçada, como meio de preservar a responsabilidade patrimonial a ser efetivada pela execução
por quantia certa. E isto se faz mediante “inibição (constrição) de bens suficientes para
segurança da dívida até que se decida a causa”.
c) Procedimento – é exercitado através de ação cautelar. Há casos excepcionais, porém, de arresto
ex officio, como o previsto no art. 653.
d) Pressupostos para a concessão do arresto – como requisitos gerais das medidas cautelares, são
pressupostos do arresto:
d.1) Prova literal de dívida líquida e certa – o interessado deverá demonstrar ser titular da ação
executiva, que pressupõe sempre título de obrigação líquida e certa386 (art. 814 do CPC).
d.1.1) Liquidez e certeza do título do promovente – só as dívidas que correspondam a uma soma de
dinheiro, ou que, no caso do parágrafo único do art. 814, possam converter-se em dinheiro
(obrigações equivalentes de dar e fazer) é que podem servir de motivação do arresto. Dívida
líquida é a determinada quanto ao seu montante; e certa, a não dá lugar a dúvidas quanto à sua
existência. Assim, deverá se consubstanciar em documento escrito. Outrossim, comprovação do
abrandamento desse conceito – conforme acima citado – encontra-se no parágrafo único do art.
814 do CPC.
d.1.2) Requisito da exigibilidade – apesar estar intimamente ligado à execução forçada, e
conseqüentemente, aos requisitos de formação do título executivo (certeza, liquidez e
exigibilidade), não há que se falar em exigibilidade para a concessão do arresto.
d.2) Prova documental ou justificação de algum dos casos de perigo de dano jurídico mencionados no
art. 813 – seriam o fundado receio de fuga ou insolvência do devedor, de ocultação ou
dilapidação de bens ou de outro artifício tendente a fraudar a execução e nos casos expressos
em lei. Para demonstrar tal fundado receio de dano, o autor deverá produzir:
d.2.1) prova documental (CPC, art. 814, I) – tendo em vista a sumariedade e urgência da medida
cautelar, pode a prova documental ser acolhida com maior liberalidade, admitindo-se, na
urgência, declaração de terceiros (quando não haja motivo para pôr em dúvida à autenticidade
do documento e a veracidade de seu conteúdo).
d.2.2) justificação prévia (CPC, art. 814, II) – consiste na ouvida imediata e em segredo de justiça, do
depoimento de pessoas apresentadas ao juiz pelo requerente. Tudo deve se fazer sem maior
burocracia, de plano, sem citação ou intimação da parte contrária, com simples termo de
depoimento, para juntada aos autos387. Ocorre dispensa legal da justificação prévia para o
arresto (ou seja, basta a simples alegação de um dos fatos narrados no art. 813 do CPC) quando
o pedido é formulado pela União, Estado o Município (art. 816 do CPC)388.
d.2.3) caução (CPC, art. 816, II) – admite o Código que a justificação e aprova documentação do
perigo de dano sejam dispensadas, em qualquer caso, desde que o pretendente ao arresto
preste caução, que pode ser real ou fidejussória (art. 804 do CPC) e deve ser estimada de plano,
mas sujeita à posterior revisão, à luz do contraditório389. Não se aplica a caução quando a
medida é proposta pela União, pelo Estado ou Município (art. 816, I do CPC).

386
Existe uma tendência doutrinaria e jurisprudencial de se abrandar esse requisito. Com efeito, em certos casos bastaria ao credor
dispor, não necessariamente de um título executivo perfeito e acabado, mas apenas de prova documental de dívida reconhecida pelo
devedor, ou a ele oponível com verossimilhança. Assim, poderiam ser concedidos arrestos com base em contrato sem a assinatura
das duas testemunhas, como também à luz de contas de consumo (telefônicas, luz, etc). Tal entendimento é lastreado na moderna
concepção e amplitude do poder geral de cautela do juiz.
387
As testemunhas poderão ser apresentadas até no momento, e em rigoroso segredo, não se permitindo a assistência de terceiros,
nem se dando ciência ao requerido. Se o juiz não ouvir desde logo as testemunhas, designando dia, aconselha-se intimação pessoal
do advogado, para que o segredo não seja violado.
388
Existe discussão doutrinária e jurisprudencial se esse benefício deve ser estendido às autarquias e empresas públicas.
389
Trata-se de um meio de assegurar a solução justa do litígio para ambas as partes, de maneira que, qualquer que seja a solução
do processo principal, o interesse das partes estará garantido: se procedente, o arresto transformar-se-á em penhora (CPC, art.
818); se improcedente, a caução servirá como garantia da satisfação dos prejuízos sofridos pelo réu (CPC, art. 811).

Prof. Mozart Borba 144/213


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e) Bens arrestáveis – são arrestáveis todos os bens penhoráveis, pois o arresto não tem outra
finalidade senão a de tornar viável uma futura penhora (observar arts. 649 e 650 do CPC). Além
disso, deve se observar o limite quantitativo previsto no art. 659 do CPC, ou seja, a constrição
deverá cingir-se a tantos bens do devedor quantos bastem para o pagamento do principal, juros,
custas e honorários advocatícios. Ultrapassado isto, haverá excesso de cautela que ensejará sua
redução (CPC, art. 807).
f) Legitimação – os mesmos da ação principal (ou seja, o vencedor que proporá a ação de
execução por quantia certa, ou o que obteve ganho da causa em sentença ilíquida pendente de
recurso, ou em laudo arbitral pendente de homologação, desde que nessas últimas haja
condenação do réu em pagamento de dinheiro ou prestação conversível em dinheiro).
g) Competência – conforme a regra geral do art. 800, a competência para o arresto é o do juízo da
causa principal, in casu, em regra, o foro da execução.
h) Procedimento:
h.1) Inicia-se por petição inicial, que deverá satisfazer as exigências do art. 801, e ser instruída com
prova literal do direito do autor (art. 814, I, do CPC). O valor da causa deverá ser o da própria
dívida que se quer garantir.
h.2) Após, o juiz poderá deferir a medida cautelar inaudita altera parte, em decisão interlocutória. Se
concedida, liminarmente, passa-se a correr o prazo de 30 dias para a proposição da ação
principal (contados da efetivação da medida), sob pena de extinção do processo (art. 808, II do
CPC).
h.3) Após a juntada do mandado de citação, passa-se a correr o prazo de 5 dias para que o requerido
conteste sob pena de revelia. A defesa na contestação poderá ser ampla.
h.4) Caso se faça necessária o juiz marcará audiência de instrução.
h.5) Ao final, o processo cautelar deverá receber sentença. Esta terá fins apenas instrumentais, e não
julgará o mérito da lide (alvo da ação principal), a não ser nas hipóteses de acolhimento de
prescrição ou decadência (CPC, art. 817 e 810). Julgada procedente a ação principal, o arresto
se resolve em penhora (art. 818 do CPC)390. Observe-se que a improcedência do arresto não
impedirá o ajuizamento da ação executiva, porquanto o objetivo do arresto é apenas garantir a
execução de um crédito, e não obter seu pagamento.
i) Execução do arresto – seguirá as disposições referentes à penhora.
i.1) Suspensão da execução – ocorrerá suspensão do cumprimento de mandado de arresto,
conforme art. 819 do CPC, se o devedor:
i.1.1) tanto que intimado, pagar ou depositar em juízo a importância da dívida, mais honorários
advocatícios que o juiz arbitrar, e custas;
i.1.2) dar fiador idôneo, ou prestar caução para garantir a dívida, honorários do advogado do
requerente e custas.
i.2) Efeitos do arresto:
i.2.1) restrição física à posse do dono, já que o objeto arrestado passa à guarda de depositário judicial;
i.2.2) imposição de ineficácia dos atos de transferência dominial frente ao processo em que se deu a
constrição.
j) Extinção do arresto – extingue-se conforme o art. 820 do CPC:
j.1) Pelo pagamento;
j.2) Pela novação;

390
Para tanto, é necessária a proposição da execução, e o momento processual seja o da penhora ensejador da conversão do
arresto. Caso não exista simultaneidade, o arresto permanecerá aguardando a fase da penhora.

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j.3) Pela transação391.

10.2 Seqüestro
a) Conceito – é a medida cautelar que assegura futura execução para entrega de coisa e que
consiste na apreensão de bem determinado, objeto do litígio, para lhe assegurar entrega, em
bom estado, ao que vencer a causa392.
b) Objeto – visa o desapossamento, com o escopo de conservar a integridade de uma coisa sobre
que versa a disputa judicial, preservando-a de danos, de depreciação ou deterioração.
c) Procedimento – é exercitado através de ação cautelar, aplicando-se a este, no que lhe couber, as
regras concernentes ao arresto.
d) Pressupostos para a concessão do seqüestro:
d.1) o temor de dano jurídico iminente (conforme disposto no artigo 822 do CPC);
d.2) o interesse na preservação da situação de fato, enquanto não advém a solução de mérito o que
corresponde ao fumus boni iuris, segundo a doutrina clássica.
e) Hipóteses de cabimento – as previstas no artigo 822 do CPC. Observe-se que tal dispositivo deve
ser interpretado exemplificativamente.
f) Legitimação – os mesmos da ação principal (ou seja, o vencedor que proporá a ação de
execução para entrega de coisa).
g) Competência – conforme a regra geral do art. 800, a competência para o seqüestro é o do juízo
da causa principal, in casu, em regra, o foro da execução.
h) Execução do seqüestro – seguirá as disposições dos artigos 824 e 825 do CPC.
10.3 Busca e apreensão393
a) Conceito – é a medida judicial assecuratória do êxito da execução, quando julgado procedente o
processo principal, podendo ser aplicada a pessoas ou a bens móveis ou semoventes. Pode ser
pedida desde logo, no processo cautelar, ou durante a tramitação do processo principal, ou ainda
após prolatada sentença de mérito favorável ao autor.
b) Espécies e objeto – pode recair sobre coisas (móveis394)395 ou pessoas396 (art. 839 do CPC).
c) Pressupostos – os comuns as medidas cautelares.
d) Competência – a mesma da ação principal (CPC, art. 800).

391
A enumeração do art. 820 é apenas exemplificativa. Assim, também se extingue o arresto pelas outras formas de satisfação do
crédito (remissão, confusão, dação, compensação, etc.)
392
Assim, o seqüestro atua na tutela da execução para entrega de coisa certa, enquanto o arresto garante a execução por quantia
certa. Em decorrência disto, o seqüestro sempre visa um bem especificado, qual seja o “bem litigioso”, exatamente aquele sobre
cuja posse ou domínio se trava a lide, que é objeto do processo principal. Já o arresto não se preocupa com a especificidade do
objeto. Seu escopo é preservar “um valor patrimonial” necessário para o futuro resgate de uma dívida em dinheiro. Qualquer bem
patrimonial do devedor, portanto, presta-se ao arresto.
393
Em lato sensu o arresto e o seqüestro culminam em busca e apreensão. Entretanto, trata-se aqui de medida cautelar específica
que possui objetivo diferenciado, qual seja, nas hipóteses de não cabimento de arresto ou seqüestro, aplica-se à ação de busca e
apreensão.
394
A medida de busca e apreensão não se presta a imóveis (JTJ 141/256).
395
Não se deve confundir a ação cautelar de busca e apreensão com a ação correspondente à alienação fiduciária em garantia
(Dec.–Lei nº 911/69). Tal medida é satisfativa e principal, e em nada se relaciona ao nosso estudo cautelar.
396
Tendo em vista a comum utilização do arresto e do seqüestro para acautelar coisas, a medida cautelar de busca e apreensão
comumente é utilizada sobre pessoas (p. ex. na guarda provisória de incapazes, pois a definitiva deverá ter rito ordinário), ou até
sobre coisas, como nos casos de proteção de direitos autorais, conforme Lei nº 5.988/73 (CPC, art. 842, § 3º). Sobre a situação da
guarda de menores deve-se observar o rito a ser utilizado. Com efeito, a ação que sob o nome de busca e apreensão seja ajuizada
para dirimir em definitivo o direito à posse ou guarda de incapaz deve ser processada como ação de cognição, sob rito ordinário, e
não como cautelar, de rito sumário. Portanto, o recurso interposto contra a sentença dessa ação está sujeita ao duplo efeito (RT
668/88). Assim, é carecedor de ação aquele que propõe ação cautelar de busca e apreensão com cunho satisfativo, fora dos casos
expressamente previstos em lei (RT 715/256).

Prof. Mozart Borba 146/213


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