Você está na página 1de 5

PRINCÍPIOS DE MOBILIZAÇÃO

Fazer

a partir

do ser

Como desenvolver-se de tal maneira que aquilo que você faz surge daquilo que você é

FOCO NA PESSOA 13

www.foconapessoa.org.br

Por Dr. Berndt D. Wolter

FOCO NA PESSOA 13

www.foconapessoa.org.br

Fazer

a partir

do ser

Como desenvolver-se de tal maneira que aquilo que você faz surge daquilo que você é

Por Dr. Berndt D. Wolter

Então vamos abordar o nosso tema: O que é esse ser? Como de nir e
Então vamos abordar o nosso tema: O que é esse
ser? Como de nir e delimitar o meu ser? Como de nir
e conhecer o ser de outros? Como esse ser se desen-
volve? Qual é a nalidade de desenvolver o ser? Temos
enfatizado o desenvolvimento de nosso ser de volta à
imagem e semelhança de Deus? E o ser de outros?
O ser é aquilo que nos diferencia de outras pes-
soas, de outro ser. Claro que nossa aparência, nossa
personalidade, nossa história pessoal e nosso jeito
de ser, dão a marca distintiva para o que somos. Mas
o ser é marcado principalmente por características
interiores, veja Mt. 5; Gl. 5:22-23; 1 Co. 13. As marcas
que distinguem nosso ser são a forma como amamos,
onde estamos na escala de desenvolvimento da humil-
dade, nossa habilidade de praticarmos bondade, etc.
Bem no início Deus fez Adão do pó da terra (cf.
Gn. 2:7). Esse boneco de barro não teria nada que o
diferenciasse de outro, que porventura Deus zesse,
a não ser o formato. Deus decidiu colocar nesse bo-
neco um conteúdo. Esse conteúdo somado à parte
física desse boneco é o ser.
De maneira maravilhosa Deus lhe deu vida (fôlego
de vida em hebraico é RUAH) e esse boneco de barro
passou a ser alma vivente. Essa alma vivente, de
repente, tinha tudo: inteligência, emoções, vontade,
espiritualidade, habilidade de se relacionar e de se so-
cializar, livre arbítrio, capacidades e potenciais. 1 Num
milagre Deus fez de um boneco de barro um ser vivo.
Alguns versículos antes (cf. Gn. 1:28), quando a
Bíblia se concentra na sequência da criação, Deus diz
aos primeiros humanos: “Sede fecundos,multiplicai-
-vos”. As duas palavras (rabah e parah) tem a ver

C omo a boca fala daquilo que o coração está cheio (cf. Mt. 12:34), as nossas mãos ine- vitavelmente irão fazer aquilo que o nosso

coração pede (cf. Ap. 20:13) e os nossos pés nos levarão aos lugares que o nosso coração deseja (cf. Pv. 6:18). Se o coração está buscando o que é bom, as nossas ações serão semelhantes a essa busca. Na verdade o fruto vai sempre mostrar qual a qua-

(cf. Mt. 7:16).

lidade da árvore, como diz a Bíblia: “pelos frutos os

conhecereis

A realidade é que inevitavelmente aquilo que faze- mos ui a partir daquilo que somos, mesmo que sai- bamos disfarçar bem e saibamos dar a impressão de que somos aquilo que estamos falando ou fazendo.

A

mais alto do que aquilo que falamos ou fazemos.

mensagem daquilo que somos sempre fala muito

O Ser Em nossa cultura brasileira, avaliamos as pessoas pelo que elas têm ou pelo seu desempenho. Somos conhecidos e valorizados por aquilo que temos ou

fazemos, e não por aquilo que de fato somos. É até esquisito falar de nosso ser. Quando nos apresentamos para alguém, normal- mente falamos o nosso nome e o que fazemos. Ima- gine se eu me apresentasse assim: “Olá, meu nome

é

Fulano, o propósito de Deus para a minha vida é

ajudar pessoas a conhecê-lo. Sou humilde e paciente, mas tenho di culdades em ter paz no coração. Meus dons são de evangelismo e de aconselhamento. Mui-

to

o

prazer!” Não é muito estranho para nós expormos

nosso ser dessa maneira?

FOCO NA PESSOA 14

www.foconapessoa.org.br

com a reprodução de indivíduos em quantidade e ser ou tornar-se grande. O sentido secundário dessa dupla de palavras é de ampliar, alargar, aumentar,

dar frutos. Parece que, apesar de dar ênfase sobre a multiplicação numérica, nesse versículo há também

a dimensão de se desenvolver, se ampliar interior- mente. Mas, o que precisa se desenvolver?

Composição do ser Nosso ser é integral, inseparável e as partes que iremos delimitar são aqui separadas didaticamente apenas para facilitar a explicação, pois dentro de nós não há partes nem separações, é um todo. Como ser integral é que precisamos crescer: men-

A mente é composta por emoções, razão e vontade.

A razão é onde os pensamentos acontecem.

É composta por lógica, raciocínio, criatividade, con-

centração, memória, associação de ideias, etc. As emoções são os movimentos internos que, em grande medida, dão significado para a nossa

vida. Avaliamos muito daquilo que nos confrontamos diariamente pelas emoções que sentimos. Antipatias

e simpatias por pessoas são muitas vezes

estabelecidas com base nas emoções. As emoções básicas segundo a ciência psicológica são: cul- pa, ódio, vergonha, medo e amor. Há ainda outras emoções como alegria, tranquilidade, satisfação, equilíbrio, etc. Toda a nossa saúde psicológica vem da nos- sa habilidade de lidar com a realidade das nossas

as nossas decisões. A o A e imensuráveis.
as nossas decisões.
A
o
A
e imensuráveis.

te, corpo e espírito, 2 como Deus nos criou, tudo inter- ligado, tudo in uenciando tudo. Nada se desenvolve sozinho. Apesar de prestarmos atenção nas partes,

é

há ninguém que se desenvolva bem mentalmente e seja saudável se não se dedicar ao desenvolvimento do corpo. Vamos ver como isso funciona. Podemos analisar um quadro pintado, delimitar- mos moldura, o pano sobre qual a pintura é feita e

no todo que o ser se desenvolve. Por exemplo, não

emoções e de vivê-las conscientemente. A interação adequada da razão com as emoções possibilita à nossa estrutura psicológica um estado saudável e reações que estão de acordo com a realidade. As emoções também são, somadas à razão, a base para

vontade é uma interação entre emoções e ra-

as diferentes tintas utilizadas. Tudo acaba sendo um quadro só e não faria sentido se tivéssemos apenas partes separadas. Assim podemos também estudar

zão, a qual é difícil de ser exatamente delimitada. Há momentos que fazemos as nossas decisões quase que inteiramente baseadas nas emoções e outras vezes gastamos tempo para re etir e tomar uma de- cisão estudada, com compreensão das consequên- cias, baseada na razão. Ellen White escreve: “Este é o poder que governa a natureza do homem,o poder da decisão ou de escolha. Tudo depende da reta ação da vontade. O poder da escolha deu-o Deus ao homem; a ele compete exercê-lo” 4 . Exercer essa característica da mente com sabedoria e emoções sadias, que não traiam a escolha inteligente, é talvez

composição do nosso ser apesar de ser um todo

inseparável. Veja as partes:

O corpo é o físico: ossos, músculos, pelos, ór- gãos, etc. O corpo tem certa lógica de funcionamento, há certas leis que o regem. Se desconhecermos ou negligenciarmos o funcionamento do nosso corpo, o trataremos de maneira inadequada e, consequente- mente, ele será prejudicado. Não iremos entrar em detalhes aqui, mas o corpo precisa ser tratado adequadamente com alimento de qualidade, água, descanso, exercício, sol, ar puro, etc. Qualquer uma dessas características, se negligenciada, pode ser a origem de doenças e enfraquecimento do corpo. Quando utilizadas com equilíbrio, o corpo desen- volverá força, resistência, persistência e longevidade. O

a

que mais pode determinar o rumo de uma vida.

espiritualidade, por sua vez, segue uma lógica

diferente dessas duas dimensões anteriores do ser. Ela é regida por aquilo que não vemos e que não podemos medir pelos nossos sentidos (cf. 2 Co. 4:18). Em seu primeiro sermão, Jesus mostra o que é

esporte é imprescindível para que o corpo esteja em sua melhor conformação. O trabalho útil é o que parece mais promover a interação do físico, mental e o espi- ritual, dando força ao conjunto. Nas palavras de Ellen White: “a ocupação da mente e do corpo num trabalho útil é essencial como salvaguarda contra a tentação” 3 .

essencial para o ser humano se desenvolver na dire- ção de Deus e apresenta os elementos básicos que compõem a espiritualidade: humildade, mansidão,

simplicidade, justiça, limpeza de coração, misericór- dia, paz, etc. Todas essas qualidades são invisíveis

FOCO NA PESSOA 15

www.foconapessoa.org.br

Paulo, em Gálatas 5:22-23, repete essas caracte- rísticas invisíveis da espiritualidade e as de ne como sendo o próprio AMOR. Ele descreve assim: “O fruto do espírito é AMOR: alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, delidade, mansidão, domí- nio próprio” 5 . Paulo também faz um paralelo poético (talvez tenha sido até um hino) ao texto anterior em 1 Co. 13 onde repete quase a mesma coisa e expande o conceito de que o centro da espiritualidade é o AMOR, descrevendo os componentes desse AMOR vindo de Deus (cf. 1 Jo. 4:19). Em outras palavras, se alguém quer aprender a amar, deve investir em aprender a viver as partes que compõem o amor. Ao crescer em alegria, paciência, bondade, a pessoa cresce em AMOR e, consequen- temente, em espiritualidade.

ser é a combinação saudável de três áreas: físico,

precisa se abrir com alguém e estar num ambiente seguro para poder tratar das feridas emocionais, caso contrário, o episódio da infância, mesmo não sendo culpa da pessoa, vai impedir sua saúde integral. Uma pessoa sem uma experiência signi cativa e relevante com Deus, que não se desenvolve espiritu- almente, pode sofrer ao longo da vida de tal maneira que o corpo e a mente (razão, emoções e vontade) sofrerão juntos. Os efeitos nunca são diretos e nem diretamente mensuráveis, mas estarão ali debilitando todo o ser. A vida ca parcialmente comprometida. Outro exemplo é o de uma pessoa que não quer se desenvolver mentalmente, ela vai ser agente e vítima de limitações que afetarão o ser todo. Uma pessoa que não instrui a razão ca não apenas desinformada, mas inconsciente de muita coisa que ocorre ao seu redor. Sem instrução, uma pessoa restringe demasiadamente seus círculos sociais e oportunidades que Deus pode-

e o
e
o

O

mental e espiritual. Existe alguma fórmula mágica para essas três áreas interagirem de maneira saudável? Há uma receita para funcionarmos perfeitamente como seres humanos? Não! Mas existem princípios gerais norteadores, que se aplicam a todos os seres huma- nos. A compreensão e a vivência deles em equilíbrio, inteligência e bom senso, bem como o constante cresci- mento e ajuste nas áreas onde percebemos debilidade, são o segredo do desenvolvimento constante do ser. Um ser doente

desenvolvimento integral do ser é chamado na

ria lhe oferecer. O potencial que Deus apresenteou para ser desenvolvido ca restrito aos impulsos que vêm de fora, produzidos por outras pessoas. Quando a pessoa não se desenvolve, os poten- ciais que Deus deu cam sem ser desenvolvidos, o serviço que a pessoa poderia exercer não é realizado

o propósito de Deus para aquela vida ca frustrado. O fazer inteligente Exagerando a cena, se tomarmos uma multidão de doentes (física, psicológica, metal, social e/ou espiritualmente) e animá-los a fazer uma obra que não estão capacitados a fazer, é possível que faça- mos mais mal do que bem. Será que o que estou querendo dizer aqui é que apenas pessoas com- pletamente ajustadas, completamente sadias física, mental e espiritualmente devem sair para trabalhar para o Senhor? Não! De nitivamente não! Sempre há dois lados de uma ação, aquele que dá e

O

Bíblia de santi cação, sem a qual ninguém verá a Deus (cf. Hb. 12:14). Precisamos aprender a desenvolver essas características da mente, do corpo e do espírito. Se Deus nos deu um ser com essa complexidade, foi para que esse ser fosse desenvolvido. Se negligen- ciarmos isso, teremos decadência e adoecimento como resultado. Muitas vezes o adoecimento em uma área é responsável pelo adoecimento de todo o ser. Por exemplo, se uma criança foi abusada quando pequena, ela foi ferida em suas emoções e, conse- quentemente, toda a sua psique está abalada. Ao estar doente psicologicamente, é possível que o seu rosto e o seu corpo mostrem esse desajuste ao longo

aquele que recebe o serviço prestado. Na ponta que re- cebe, o bem é limitado quando as pessoas que prestam

serviço de amor não estão preparadas para fazê-lo.

Nas palavras de Ellen White: “em vão se esforçam por cumprir uma obra para a qual estão despreparados, enquanto aquela que podem fazer continua negligen- ciada. E por causa desta falta de cooperação de sua parte, o trabalho maior é impedido ou frustrado” 6 .

do tempo. Também é provável que ela desenvolva doenças anos depois, não pelo abuso em si, mas pe- las lutas emocionais que vai ter com as lembranças, ou mesmo com o esquecimento do abuso. Os seus relacionamentos de adulto provavelmente irão sofrer e/ou carão marcados por toda a vida. Essa pessoa

Há, no entanto, o efeito re exo sobre quem se dispõe a servir: “Todo raio de luz espargido sobre outros, re etir-se-á em nosso próprio coração. Toda

FOCO NA PESSOA 16

www.foconapessoa.org.br

ensino cria descoberta ação e reação
ensino
cria
descoberta
ação e reação

A Mente Humana

percebe

Processo de

Desenvolvimento

palavra bondosa e compassiva que se dirija a um a ito,toda ação praticada para aliviar um oprimi- do,e toda dádiva que se destina a

suprir as necessidades de nossos semelhantes,dada ou feita tendo em vista a glória de Deus, resultará em bênçãos para o doador. Aqueles que assim trabalham, estão obedecendo a uma lei do Céu, e hão de receber a aprovação de Deus. [ ] O prazer de fazer bem a outros, comunica aos senti- mentos um ardor que eletriza os nervos, vivi ca a cir- culação do sangue, e produz saúde física e mental” 7 . O ponto que eu quero chegar é que quando empreendemos ações que não fazem sentido aos que nelas estão envolvidos, perde-se uma dimen- são inteira, mas quando há o mínimo de preparo, a ação é boa tanto para quem recebe como para quem a pratica, e coopera para o desenvolvimento das duas partes. Os dois lados Por um lado, vamos inevitavelmente fazer a partir daquilo que somos. Essa é uma lei invariável. Isso exige que façamos investimentos consideráveis nos

bene ciará muito mais a ponta receptora, pois não são emitidas mensagens confusas. Por outro lado, o serviço pode e deve ajudar as pessoas em seu desenvolvimento pessoal. É infantil e imaturo pressupor que todos estão prontos, capazes, dispostos e com a correta motivação. No entanto, envolver as pessoas explicando-lhes como aquele serviço vai in uenciar em seu desenvolvimento é sábio e coerente com o plano de Deus. Mais ainda, quando as pessoas entenderem que elas estão em desenvolvimento do seu ser, entenderão melhor aqueles a quem estão servindo e como aquilo que estão fazendo contribuirá para o desenvolvimento das pessoas a quem estão servindo.

Notas e Referências bibliográ cas: 1 Deus criou nossos primeiros pais com todas essas ca-
Notas e Referências bibliográ cas:
1 Deus criou nossos primeiros pais com todas essas ca-
racterísticas interiores, capacidades e potenciais com
uma estrutura básica capaz de ser desenvolvida. O ser
humano teria participação em seu crescimento e desen-
volvimento como ser.
2 Perseguimos a compreensão bíblica aqui de espírito,
não alguma invasão da loso a grega ou religião pagã.
Espírito é a centelha de vida em nós colocada por Deus
membros da igreja, para que se desenvolvam e cres-
çam. Uma percepção mágica da religião e daquilo
que Deus quer fazer está fora de lugar e não ajuda
aquele que presta o serviço, e aquele que o recebe
ca confuso.
O serviço instruído, com pessoas preparadas (não
perfeitas, já que isso não existe), que entendem o seu
crescimento e o de outros, que estão empenhadas
em seu desenvolvimento físico, mental e espiritual e
que poderão prestar um serviço muito mais elevado
e que volta a Deus quando morremos. Não defendemos
a ideia de um ser invisível e imortal que habita o corpo.
3 WHITE, Ellen Gould. Ciência do Bom Viver. Tatuí, SP:
Casa Publicadora Brasileira, 2002, p. 177.
4 WHITE, Ellen Gould. Caminho a Cristo. Tatuí, SP: Casa
Publicadora Brasileira, 2004, p. 47.
5 Ver em http://espiritualidade.numci.org/o-miolo-da-espiri-
tualidade/ a análise do texto de Gl. 5:22-23.
6 WHITE, Ellen Gould. Patriarcas e Profetas. Tatuí, SP: Casa
Publicadora Brasileira, 2003, p. 713.
7 WHITE, Ellen Gould. Serviço Cristão. Tatuí, SP: Casa
Publicadora Brasileira, 2001, pp. 270-271.
Berndt Wolter
O Pastor é Berndt Wolter é doutor em Teologia pela Andrews University e desde
2007 tem servido como professor de Teologia Aplicada do SALT UNASP.
FOCO NA PESSOA

17

www.foconapessoa.org.br