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Nesta edição:

A fundação do Clube 3
Imagens destes dois anos 4
O primeiro editorial no Facebook 5
A primeira sessão: Tricentenário de Leibniz 7
As sessões de debate nos últimos dois anos 9
Colaboração com outras atividades 11
Liberalismo de Nozick 13
Participação cívica 15
Manipulação e propaganda—Ephemera 16
Desenvolvimento sustentável 21
Mas isto é arte? 23
A revolução soviética de 1917 25
Debater perspetivas interculturais 29
Debate—Princípios orientadores 33

FICHA TÉCNICA
Artigos de debate:
Editor: Joaquim Narciso.
 Eutanásia Autores: Alfredo Afonso, Beatriz
Figueiredo, Beatriz Letras, Catarina
 A mente Magalhães, Daniel Narciso, Diogo
Vitorino, Fátima Correia, Joaquim
 Legalização das drogas Narciso, José Gomes, José Guerreiro,
Maria Macau, Miriam Ribeiro, Pedro
 Igualdade de género Parrado.
Fotos: Fortunata Beatriz, Aurora Santos,
 A orgulhosa comunidade LGBT Matilde Picante, Alzira Esteves, Joaquim
e Daniel Narciso.
 A beleza masculina Membros dinamizadores/organizadores
de sessões não referidos como autores:
 A liberdade de expressão Luís Braga, Eugénio Alves, Ângela
Abias, Bruna de Sousa, Gonçalo Costa,
 O ensino português Miguel Santos, Pedro Amaral.
Design: Atelier Gráfico do AESA (Rosário
 A palavra do autor não é lei Santos; Carlos Franco)

 A guerra colonial e a democracia ANO I—Número 1—28 de Maio 2018


Revista Anual
 A unilateralidade da Técnica ISSN 2184-2442
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A fundação do Clube

O Clube foi proposto, pela primeira vez, em 11 de outubro de 2016, tentando recuperar
a experiência das sessões de debate do entretanto extinto Clube de Filosofia, através,
sobretudo, de dois dos membros daquele Clube, Eugénio Alves e Joaquim Narciso, que
pretendiam estender a experiência ao conjunto da escola, dos grupos disciplinares e das
temáticas mais diversificadas.
A primeira reunião realizou-se, na Biblioteca da ESSA, a 9 de novembro de 2016, con-
tando com a presença dos cinco fundadores: Fátima Correia, Luís Braga, Alfredo Afonso,
Eugénio Alves e Joaquim Narciso.
Apesar de se tratarem apenas de professores, já se sabia, nessa altura, do interesse
de diversos alunos que bem poderiam figurar também como fundadores. Ficaram fixados,
desde logo, os princípios orientadores e alguns projetos que, inclusivamente, só encon-
traram a sua realização neste segundo ano, nomeadamente a sessão especial sobre pro-
paganda e manipulação levada a cabo por Pacheco Pereira e esta revista, na altura ainda
pensada ancorada num concurso entretanto anulado.
Entre os princípios orientadores, destacou-se a firme determinação de não deixar que
a política partidária dominasse o Clube, centrando a discussão em temáticas gerais e
nunca em instituições ou pessoas que fossem atualmente objeto de atenção. Até poderi-
am surgir a título de exemplo, mas nunca como temática central.
No conjunto, muito embora não se tenha cumprido tudo o que foi projetado, o Clube
realizou plenamente o que se pretendia que fosse a sua essência.

Os cinco fundadores numa sessão especial de


2016/17, dinamizada pelo professor de Artes:
Fátima Correia, Alfredo Afonso, Luís Braga; Joa-
quim Narciso e Eugénio Alves. (Fotos do Clube de
Fotografia—Fortunata Beatriz).
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Imagens destes dois anos

Alguns membros à espera do debate sobre a homossexuali- No debate sobre a ameaça nuclear dinamizado pela Ângela
dade em 16/17, o debate regular que teve maior participa- Abias, Pedro Parrado, Fábio Ramos, José Guerreiro e Beatriz
ção do ano. Não dispomos de fotos do próprio debate. Letras.

Pormenor da 1ª sessão sobre o feminismo em 16/17, sessão Os dinamizadores do debate sobre o assédio sexual, com a
muito frequentada, ao contrário do que parece nas fotos, Miriam Ribeiro ao lado.
pois o fotógrafo não se queria mexer muito.

Sessão sobre o aborto, dinamizada por Bruna de Sousa. Se uns parecem extremamente atentos, outros nem por isso… Gostos...
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O professor José Gomes foi, juntamente com José Guerreiro, Momento de descontração já após o recente debate sobre a
um dos mais ativos intervenientes na recente sessão sobre as mudança de sexo. À esquerda, Miguel Santos, dinamizador
touradas. do debate sobre os limites a que devem (ou não) estar sujei-
tos os jogos de computador.

O primeiro editorial no Facebook


Joaquim Narciso

19/11/2016 – Ontem como hoje, houve sempre no meio da gente, do coletivo em que se insere, da
quem pensasse, pouco ou muito, por si mesmo. sua sociedade, da sua fação, do seu partido, da sua
Ontem como hoje, quem o fez, mesmo que medi- religião, da sua ciência, sempre se conformando
ocremente, sempre foi a exceção e não a regra. aos ditames dos tutores do seu coletivo e procu-
Ontem como hoje, quem dominou cada época, rando, desesperadamente, nada pensar que não se
embora não quem a fez verdadeiramente progre- encaixe no paradigma que o tutela. "Existência
dir, sempre foram as mentalidades dominantes, inautêntica" chamava-lhe um pensador famoso (e
precisadas ou não através de organizações e ideo- também famoso por se
logias. Se se olhar para as atitudes em vez dos ter envolvido com um
conteúdos específicos, nada há de novo na socie- dos coletivos menos
dade humana. Aliás, os conteúdos pouco impor- recomendáveis da his-
tam para a maioria. Aquilo que há alguns anos ou tória). Em todos os
décadas causava escândalo e provocava reações tempos, a maioria, de
de aversão que se julgava sempre totalmente justi- forma mais ou menos
ficada, é agora defendido como padrão, por vezes, violenta, reagiu sem-
até pelas mesmas pessoas, tomando como alvo pre da mesma forma a
comportamentos opostos que, igualmente, julgam quem questionava como Sócrates, marginalizan-
como mortalmente ofensivos. O que é comum é a do, banindo, obliterando a possibilidade de qual-
maioria procurar sempre estar no meio da onda, quer dúvida. As bandeiras utilizadas são relativa-
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mente irrelevantes: a verdade sagrada da revela- um seu lugar em qualquer classificação, com o
ção, a moral e os bons costumes burgueses, a ver- único objetivo de conseguir adesões irracionais à
dade definitiva e inquestionável da ciência, a ver- massa a que pertencem,
dade revolucionária da vanguarda da classe ope- mas de diálogo entre pers-
rária, etc. O objetivo é sempre o mesmo: eliminar petivas diferentes aberto à
qualquer possibilidade de discurso alternativo, possibilidade de compreen-
eliminar qualquer visibilidade de uma posição são do outro e de aprendi-
diversa, eliminar, se possível, até a possibilidade zagem com o outro, admitindo a possibilidade de
de surgir a mínima dúvida em qualquer mente. entendimento racional quer por as divergências se
Talvez isso seja inevitável, talvez o sonho ilumi- prenderem mais com a forma do que com o con-
nista de tornar todos os homens filósofos estives- teúdo, quer por resultarem de diferentes perspeti-
se condenado à partida pela própria natureza hu- vas não necessariamente incompatíveis, mas não
mana, talvez seja querer demais, querer que os deixando de reconhecer oposições insanáveis
homens deixem de ser arrastados emotivamente quando existam, com o respeito que sempre se
pelas falácias mais básicas e pela argumentação mantém entre verdadeiros seres racionais. Por
mais defeituosa, mesmo quando têm instrução sinal, fez esta semana três séculos que faleceu um
mais do que suficiente para lhes resistir, em vez filósofo que fez da sua vida um constante teste-
de examinar as razões de outrem e apresentar as munho dessa atitude de diálogo e de abertura ao
suas próprias razões. outro, sempre procurando entendimentos por mais
Confesso estar farto de gente, mas gosto ainda que estes se revelassem, ao menos na época, ina-
de me relacionar com pessoas, tingíveis, sempre lutando para fundar cada vez
as substâncias individuais de mais instituições dedicadas à procura do saber,
natureza racional da definição sempre almejando a melhoria da espécie humana
de Boécio em vez dos agrega- através da investigação, da argumentação e da
dos coletivos de natureza iras- discussão de pontos de vista diversos. Trata-se de
civa que sempre dominaram a opinião pública, Gottfried Wilhelm Leibniz e este Clube também
qualquer que ela fosse. Por isso, julgo que ainda deveria constituir uma homenagem ao significado
vale a pena um Clube de Debate, não da sua vida, não esquecendo esse ideal
dessa vociferação que se faz nas tele- de progresso que lhe era tão caro e
visões em que representantes de fa- bem mais profundo do que hoje é nor-
ções destilam ódio uns contra os ou- malmente entendido. Ontem como ho-
tros, percorrendo todo o elenco das je, pode-se dizer, com Leibniz, que "o
classificações das falácias e argumen- espírito de seita é naturalmente contrá-
tos defeituosos, desde a primitiva de rio ao progresso" (GP, III, 49). Ontem
Aristóteles até às mais recentes, pas- como hoje, é possível resistir às impo-
sando por simples manifestações de sições do meio. Ontem como hoje, é
rufias que nem conseguem encontrar possível argumentar.
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A primeira sessão do Clube:


Tricentenário do funeral de Leibniz—
14/12/1716—14/12/2016

A primeira sessão foi dedicada a um tema mui- ponder-se com todas as figuras intelectuais da
to específico, o Eterno Retorno, inspirado em tex- época, sejam os maiores filósofos e teólogos, se-
tos de Leibniz, mas foi antecedida da seguinte jam os especialistas das mais diversas áreas cien-
homenagem a esta figura tutelar para o nosso tíficas e técnicas, incluindo até empresários em-
Clube: preendedores. Com todos, procurou aprender,
sem deixar de apresentar os seus pontos de vista,
Toda a vida de Leibniz foi um esforço para num contínuo esforço de adaptação ao outro, pro-
estabelecer pontes de diálogo entre as mais diver- curando incorporar o que lhe parecia melhor e
sas fações, quer filosóficas, quer científicas, quer apresentar os seus próprios argumentos da manei-
políticas, quer religiosas, entre os mais diversos ra que o outro melhor os pudesse aceitar. Diver-
Estados e entre as mais diversas pessoas. Durante sas das suas correspondências são verdadeiras
quase meio século, desenvolveu iniciativas para obras primas filosóficas, teológicas e científicas
aproximar, reconciliar e do diálogo e da argumenta-
reunir as confissões religi- ção: assim acontece com
osas cristãs, sobretudo, Arnauld, Malebranche,
católicos, luteranos, calvi- Huygens, De Volder, Bay-
nistas e anglicanos, cuja Clube de Debate le, Burnet, Hartsoeker, La-
oposição tinha banhado em dy Masham, Tournemine,
sangue a Europa, mas não Agrupamento de Escolas de Santo André Des Bosses, Wolff, Clarke,
14 de Dezembro de 2016
deixando de acompanhar o 1ª sessão com alunos etc.
mais próximo que lhe era No meio da imensidade das
possível o que se passava suas ocupações, parece só
na Rússia e na China, privilegiando sempre a bus- ter sido capaz de dar forma à sua filosofia em diá-
ca de pontos de entendimento. No âmbito políti- logo com outros pensadores: O Discurso de Me-
co, sempre procurou criar uma estrutura mais sóli- tafísica é feito para Arnauld, os Novos Ensaios
da para o Império, através do equilíbrio de pode- para Locke e a Teodiceia responde aos argumen-
res e uma política conjunta que o protegesse dos tos de Bayle. Até mesmo essas grandes sínteses
inimigos externos e das dissensões internas, polí- que foram a Monadologia e os Princípios da Na-
ticas ou religiosas, de forma a salvaguardar a paz. tureza e da Graça foram solicitadas por amigos e
Mas foi no âmbito filosófico e científico que a correspondentes (Nicolas Rémond e o príncipe
sua propensão para o diálogo atingiu a sua dimen- Eugénio de Saboia). Só o já referido chegava para
são máxima. Correspondeu-se ou tentou corres- fazer todo o sentido torná-lo um verdadeiro patro-
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no deste Clube. Mas também a imensa variedade


de áreas a que se dedicou é motivo de inspiração. “Ordinariamente, nos combates entre pessoas
Leibniz foi jurista, teórico da moral e da juris- de reconhecido mérito, a razão está quer de um
prudência, diplomata, político, bibliotecário, geó- lado, quer do outro, mas em diferentes pontos e
logo, paleontólogo, historiador, linguista, filólo- mais nas defesas que nos ataques, muito embora a
go, teólogo, físico, engenheiro, matemático, lógi- malignidade natural do coração humano torne,
co, poeta, metafísico, etc., para lá da atenção dada vulgarmente, os ataques mais agradáveis ao leitor
a áreas como a alquimia, a química, a astronomia, do que as defesas.” (GP, VI, 46)
a microbiologia, a botânica, a medicina, as artes, “Se se omitir as coisas duras que as fações di-
zem umas das outras, há usualmen-
te muito que é bom e verdadeiro
nos textos dos mais distintos anti-
gos e modernos, muito que merece
ser trazido à luz e considerado co-
mo tesouro público. Bom seria que
as pessoas escolhessem fazer isto,
em vez de perder tempo a censurar,
o que apenas satisfaz a sua vaida-
de.” (GM, VI, 235-6)
“A maior parte das Seitas têm razão
numa boa parte daquilo que avan-
çam, mas não tanto no que elas ne-
Foto tirada já após o fim da primeira sessão com alguns dos participantes que fica- gam.” (GP, III, 607)
ram para a conversa. Da esquerda para a direita: Fátima Correia, Mauro Duarte,
Gonçalo Costa, José Guerreiro, Daniela Vespeira, Diogo Santiago, Sandra Alves, “Raramente se guarda um justo
Eugénio Alves.
meio nas obras que o interesse de
a economia, etc. Aquele que foi, por diversas ve- partido faz apresentar ao público.” (GP, VI, 339)
zes, considerado o último génio universal, fundou “Todos aqueles que se enfileiram absoluta-
ou procurou fundar diversas Academias e Socie- mente nos sentimentos de algum autor, entregam-
dades de Ciências por toda a Europa e sempre se à escravatura e tornam-se suspeitos de erro
mostrou uma confiança inabalável no progresso (…). De facto, este apego não pertence senão a
do espírito humano, aquele que considerava o pequenos espíritos que não têm a força ou a dis-
verdadeiro progresso, privilegiando, para tal, não ponibilidade para meditar por eles próprios ou
apenas o diálogo, mas também o combate ao es- que não estão para ter tal trabalho.” (GP, IV, 297)
pírito sectário.
Por curiosidade, a data de morte de Leibniz é
Citações leibnizianas a propósito (a edição 14/11/1716. O funeral só se realizou um mês de-
Gerhard é a referida): pois.
9

As sessões de debate nos últimos dois anos


Ao longo dos últimos dois anos, apetites (textos de Platão);
realizaram-se 50 sessões do Clube de Justiça das penas eternas;
Debate, dividindo-se em 40 sessões Europa à luz do projeto kan-
regulares (embora uma tivesse sido Prós e contras na última sessão
dinamizada por um ex-aluno), 7 ses- no ano letivo 16/17. O José Guer-
reiro exibe um provocatório boné
sões extraordinárias (com presença “Make America great again”.

de turmas inteiras), 4 das quais com


dinamizadores convidados externos à Escola, e 2 tiano da paz
sessões projetadas fora do Clube de Debate, mas perpétua; O
às quais o Clube se associou, ambas com convida- que é a homos-
dos externos. sexualidade?;
No que respeita à evolução da dinâmica das Tendências
sessões, a grande diferença das sessões do 2º ano recentes do
residiu num muito maior empenho na participação feminismo (3 sessões—Utilização de textos de
dos alunos, resultante de a maioria (à justa) das Irigaray, Femenías e Butler); Têm os animais di-
sessões ordinárias temáticas ter sido dinamizada reitos?; A pena de morte; Em que é que a religio-
sidade de Fátima é cristã?; O que é o populismo?;
Fátima (encerramento do centenário das apari-
ções); Jogos de computador e educação; A mente;
A morte (abordagem inspirada em Heidegger);
Centenário da revolução de Outubro (2 sessões);
Liberdade de expressão/tolerância; Igualdade de
género; Liberdade na Internet; A ameaça nuclear;
A ditadura da felicidade; Assédio sexual; Multi-
culturalismo e interculturalismo (a partir de tex-

Apesar de não parecer, trata-se da sessão sobre a morte, já


neste ano letivo.

pelos alunos. Para lá de 3 sessões que não tiveram


tema fornecido à partida e 2 sessões de prepara-
ção e balanço de sessões especiais, os temas trata-
dos, nas sessões ordinárias, ao longo destes dois
anos foram os seguintes: Comemoração do tricen-
tenário da morte de Leibniz: Eterno Retorno ou
Progresso (textos de Leibniz); A democracia e os Pormenor da sessão dinamizada pelo professor Alfredo Afon-
so sobre o 25 de abril.
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tos do Papalagui); Associação da beleza a posi-


ções políticas; Limites para os jogos de computa-
dor; Racismo (a partir do filme Detroit); A men-
talidade técnica (1,5 sessões); Aborto (Dia da mu-
lher); Eutanásia; Os valores fundamentais do pro-
cesso revolucionário de 25 de abril de 1974; Mu-
dança de sexo; Bicentenário do nascimento de
Karl Marx; O referendo e os direitos (feminismo, Debate sobre a liberdade na internet dinamizado pelo Gonça-
LGBT); As touradas. lo Costa, embora seja o Daniel que esteja muito argumentati-
vo na imagem.

sessões, sobretudo no segundo ano, os seguintes


alunos: Gonçalo Costa, Daniel Narciso, Catarina
Magalhães, José Guerreiro, Beatriz Figueiredo,
Pedro Parrado, Ângela Abias, Beatriz Letras, Mi-
guel Santos e Bruna de Sousa.

Debate sobre a ameaça nuclear dinamizado pela Ângela


Abias.

As sessões especiais foram dedicadas aos se-


guintes temas: Mas isto é arte? (2 sessões); A fi-
losofia política de Robert Nozick; Participação
cívica; Multiculturalismo e interculturalismo;
Discurso, propaganda e manipulação; O desen-
Já a 28ª Sessão: as touradas.
volvimento sustentável. As sessões a que o Clube
se associou foram dedicadas a “O Estado Novo e
a repressão política – colonização e resistência” e
a “O Urbanismo e os Afetos”. Entre os convida-
dos que dinamizaram sessões contaram-se Alice
Samara, Jorge Miguel Teixeira, Tiago Sousa San-
tos, Helena Roseta, José Pacheco Pereira e Pedro
Amaral (visto já não ser nosso aluno).
Internamente, sem contar com o coordenador,
houve sessões dinamizadas por vários professo-
Sessão sobre o etnocentrismo e a interculturalidade dinami-
res: Luís Braga, José Gomes, Fátima Correia e zada pela professora Fátima Correia. Depois de ler passagens
do Papalagui, desencadeou-se o debate. Já agora, alguém
Alfredo Afonso. Entre os alunos, dinamizaram reparou na professora Graça Bernardino?
11

Colaboração com outras atividades

O Clube associou-se à organização de dois


colóquios da iniciativa do nosso membro, o pro-
fessor Alfredo Afonso. O primeiro decorreu no
dia 19 de Janeiro de 2017 e foi dinamizado pela
professora doutora Alice Samara, subordinado
ao tema "O Estado Novo e a repressão política –
colonização e resistência". O segundo decorreu
no dia 17 de janeiro de 2018 e foi dedicado ao
urbanismo. A arquiteta Helena Roseta, vulto,
aliás, da nossa política parlamentar e autárquica
desde os tempos da Assembleia Constituinte,
associou o urbanismo a uma temática muito re-
corrente nos últimos anos e não só pelo seu uso
presidencial: os afetos. Ambos os colóquios
contaram com grande adesão de alunos e pro-
fessores que, aliás, participaram muito ativa-
mente nas partes dedicadas às intervenções do
público, para lá da atenção dedicada às exposi-
ções e que as fotos documentam. O auditório
esteve, aliás, quase cheio, especialmente no se-
gundo colóquio em que quase esgotou a lotação.
Colóquio “O Estado Novo e a repressão política—colonização e
resistência” dinamizado pela professora doutora Alice Samara.

A arquiteta Helena Roseta durante a sua exposição.


12

Diversos momentos do colóquio “A Cidade dos Afetos”


levado a cabo pela arquiteta Helena Roseta. Para lá
dela, na primeira foto, podemos ver a nossa Diretora,
Arlete Cruz, Alfredo Afonso e Eugénio Alves, ambos
membros deste Clube.

Nesta foto, a designer da nossa revista, Rosário Santos, jun-


to com Dulce Ferreira.
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O Liberalismo de Nozick (2016/2017)


A sessão especial do Clube de Debate, dinami- Estado de funcionários públicos para que exista
zada por Jorge Teixeira, realizada na Biblioteca da mais Estado para os privados, através de contra-
ESSA no dia 10 de maio e dedi- tos, protocolos, parcerias, contra-
cada à filosofia política de Ro- tos de associação, etc., o que di-
bert Nozick, foi centrada na te- ficilmente se poderá considerar o
mática da liberdade. A sessão resultado do livre funcionamento
contou com a participação de 56 do mercado. Apesar desta estra-
alunos e 4 professores. nha dependência nacional do Es-
A sessão chegou a estar marcada tado, ao ponto de não haver mo-
para o dia 26 de Abril, proposita- vimentos políticos significativos
damente para provocar o debate no país que advoguem um verda-
entre a noção de liberdade asso- deiro Estado mínimo, a discus-
ciada ao Estado social, constan- são em torno do liberalismo tem-
temente interventivo na econo- se vindo a desenvolver internaci-
mia e até mesmo tutelador dos onalmente e o colapso patente do
costumes, e a liberdade do verdadeiro liberalismo, Ocidente e, sobretudo, da Europa tornará cada
assim adjetivado por serem constantes os insultos vez mais prementes as alternativas políticas. Por
sem nexo de liberal, ultraliberal e neoliberal a muito que tal debate escandalize certas consciên-
quem, na melhor das hipóteses, defende menos cias, essa atitude que quase interdita a discussão
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de verdadeiras alternativas políticas pode, de fac-


to, conseguir proibir o exame das alternativas ra-
cionais, mas fá-lo dogmaticamente sem nada re-
solver dos problemas políticos e económicos que

zamento social do Ocidente que muito contribuiu


para a sua decadência, dever-se-á discordar muito
mais da cegueira quer ideológica, quer comodista.
tornam urgente o debate e que se irão agravando
até a barreira dogmática ser rompida pelos movi-
mentos violentos e irracionais que se avolumam
um pouco por toda a parte e que intervirão pela

força onde a razão não foi permitida. Mesmo que


se discorde do liberalismo e seja considerado co-
mo mais um sintoma da desagregação e desenrai-

Fotos do Clube de Fotografia (Aurora Santos e Matilde Pi-


cante), de Alzira Esteves (mãe do conferencista e professo-
ra de Filosofia) e de Joaquim Narciso.
Aliás, nada de bom pode provir de qualquer dog-
matismo ou indiferença ao debate.
15

Participação cívica (2016/2017)

Realizou-se no dia 17 de Maio, no auditório da


ESSA, a 16ª sessão do Clube de Debate subordina-
do ao tema da Participação Cívica, dinamizada por
Tiago Sousa Santos. A sessão contou com a presen-
ça de 63 alunos e dois professores, tendo sido clara
a adesão dos alunos nas partes mais coloquiais. Pe-
na foi não ter podido durar um pouco mais, visto o
tempo não ter chegado para o Tiago explanar a sua
intervenção. Mesmo assim, foi possível sensibilizar
os jovens para a importância de participar na vida
social e política aos mais diversos níveis, desde o
nível do condomínio ao nível mundial, passando
pelo bairro, a autarquia, o país e a União Europeia.

Fotografar os
fotógrafos
16

Manipulação e propaganda—Ephemera

Cartaz da professora Rosário Santos.


17

Ao fim de cerca de um ano e meio, lá o Clube clandestina. Foi professor do ensino secundário e
terminou a sua demanda, na qual todos os mem- universitário, nomeadamente no Liceu Infanta D.
bros fundadores participaram. Mas o nosso Ga- Maria, no ISCTE e na Universidade Autónoma de
lahad acabou por ser a professora Fátima Correia Lisboa. A biografia de José Pacheco Pereira é
que mostrou uma perseverança a todos os títulos
notável. Desde a primeira reunião que ficou deci-
dido este convite, na medida em que o trabalho de
José Pacheco Pereira corporizava os próprios
objetivos do Clube. No dia 21 de março de 2018,
alcançámos o nosso Santo Graal.

uma das mais ricas da história política portuguesa


das últimas décadas, desde o ativismo maoísta
dos anos 70, passando, nos anos 80, pelo Comis-
são de Honra do MASP e, nos anos 90, pela lide-
rança do grupo parlamentar e da distrital de Lis-
boa de um dos dois maiores partidos portugueses,
o PSD, para lá da vice-presidência do mesmo par-
tido, até à vice-presidência, na viragem do milé-
nio, do próprio Parlamento Europeu. Depois de
uma longa presença em lugares de destaque no
PSD e como representante do país em organismos
internacionais ou de cooperação internacional, foi
eleito, pela última vez, até ao momento, deputado

José Álvaro Machado Pacheco Pereira é um


portuense nascido em 1949, cuja formação acadé-
mica começou pela Faculdade de Direito de Lis-
boa, mas foi concluída na Faculdade de Letras do
Porto, onde se formou em Filosofia (bacharelato
em 1971; licenciatura em 1978). No final do Esta-
do Novo, passou por um período de vida política
18

em 2009, na altura da liderança de Manuela Fer- Sombra. Estudo sobre a Clandestinidade Comu-
reira Leite. É atualmente membro do Conselho de nista (1993); Álvaro Cunhal - Uma Biografia Po-
Administração da Fundação Serralves. lítica em 4 volumes (1999-2005); O paradoxo do
Porém, a maior razão que levou a que o Clube ornitorrinco (2007); "O um dividiu-se em dois":
Origens e enquadramento internacional dos movi-
mentos pró-chineses e albaneses nos países oci-
dentais e em Portugal (1960–1965) (2008); As
Armas de Papel. Publicações periódicas clandes-
tinas e do exílio ligadas a movimentos radicais de
esquerda cultural e política (1963–1974) (2013);
Crónicas dos dias do lixo (2013). Na altura em

de Debate procurasse, desde a sua fundação no


final de 2016, trazer a este Agrupamento José Pa-
checo Pereira foi, sobretudo, o trabalho de inves-
tigação que há muito o ocupa, na sequência de
uma longa bibliografia dedicada à história política
portuguesa, incluindo estudos sobre os conflitos
laborais em Portugal, sobre a história dos movi-
mentos comunistas, sobre o seu próprio partido
ou sobre a situação recente do país. Da extensa que se pensou, pela primeira vez, convidá-lo para
bibliografia, destacam-se, a título de exemplo, As vir partilhar algumas ideias e experiências sobre
Lutas Operárias Contra a Carestia da Vida em as formas de manipulação e propaganda que têm
Portugal – A Gre- vindo a suceder-se
ve Geral de No- na história política
vembro de 1918 contemporânea, Pa-
(1971); Questões checo Pereira acaba-
Sobre o Movimen- va de voltar da reco-
to Operário Portu- lha de material da
guês e a Revolução campanha presiden-
Russa de 1917 cial norte-americana
(1971); Os Confli- que forneceu a base
tos Sociais nos para a exposição so-
Campos do Sul de bre “A propaganda
Portugal (1983); A nas eleições presi-
19

denciais dos EUA – 2016” que estava, na altura os objetivos do Clube de Debate, permitindo
desta sessão do Clube, em exibição na Biblioteca identificar as finalidades prosseguidas pelo dis-
Municipal de Torres Vedras. Entretanto, após inú- curso da política concreta e defendendo-nos, de
meros contributos para a comunicação social, em alguma forma, dos aspetos mais nefastos da ma-
nipulação política. O Clube não podia, assim, es-
tar mais honrado por receber uma das figuras
mais desafiantes do panorama político português
e um dos intelectuais do nosso tempo mais dedi-
cado à promoção do debate político e à crítica das
formas menos honestas de demagogia quer na
política propriamente dita, quer nessa outra políti-
ca a que chamamos comunicação social.
Tendo vindo no quadro da Semana da Leitura,
promovida pelas nossas Bibliotecas, o Dr. José
jornais, revistas, internet, rádio e televisão, come- Pacheco Pereira não só veio falar de manipulação
çando logo pela direção de um jornal estudantil no e propaganda, mas também, aliás em concordân-
secundário e assumindo muitos papéis desde edi-
tor ou autor a cronista ou comentador, iniciou em
novembro de 2017, na TVI, um programa dedica-
do ao seu arquivo relativo a todo e qualquer mate-
rial de relevância política a que denominou
“Ephemera”. Recentemente, parte desse espólio
foi transferida da vila da Marmeleira para o Bar-

cia com esse tema, do seu projeto bibliotecário


"Ephemera" e do espaço com que já conta no pró-
prio Barreiro. Foi uma sessão que só pecou por
não ser tão extensa quanto desejávamos, o que
inibiu alguma participação nomeadamente dos
professores que preferiram que os alunos puses-
reiro, assim como já tinha acontecido com outra sem as suas questões no pouco tempo disponível.
instalação em Lisboa. Trazer até ao nosso Agrupa- De resto, cumpriu exatamente o que esperávamos
mento alguém tão dedicado ao estudo das formas dela. De forma simples e acessível, Pacheco Pe-
de propaganda pode contribuir decisivamente para reira abriu perspetivas para o atual mundo da ma-
20

nipulação informativa no jornalismo tradicional e Porém, o comportamento da esmagadora maioria


dos alunos foi extremamente atento, atenção que
se pôde, aliás, verificar nas conversas posteriores
com os alunos.

na internet. A sessão contou com cerca de 190


participantes. Isso significa que mais alguns
alunos interessados poderiam ter vindo, ao pas-
so que, como infelizmente tem sido habitual,
alguns poucos bem poderiam ter levado os tele-
Elementos discentes do Clube de Debate que ficaram para
móveis, as conversas e a indiferença para outro um fotografia final com o candidato. Infelizmente, nem todos
os membros presentes esperaram...
lado, dando lugar a pessoas mais interessadas.

Oferta final de um brunch que, confessamos, se deveu ao Dia da Poesia e não a esta iniciativa—mas, como diz o
povo, juntou-se o útil ao agradável...
21

O desenvolvimento sustentável
No dia 18 de maio, realizou-se no Auditório do ticipantes, tendo sido a maior até agora. Francisco
AESA mais uma sessão especial do Clube de De- Ferreira não nos fez uma apresentação idêntica a
bate dedicada, desta vez, ao desenvolvimento sus- outras que tenha feito, mas pegou no tema do nos-
tentável. O dinamizador convidado, por iniciativa
e persistência do professor Eugénio Alves, foi o
Professor Doutor Francisco Ferreira que ficou fa-

moso na sua liderança da Quercus e pelo lança-


mento e desenvolvimento do "Minuto Verde" na
RTP. Porém, destaca-se, igualmente, como pro-
fessor no Departamento de Ciências e Engenharia
do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnolo-
Cartaz do professor Carlos Franco.
gia da Universidade Nova de Lisboa e como
membro do Centro de Investigação em Ambiente so projeto educativo “Os cinco sentidos e o desen-
e Sustentabilidade (CENSE). Dentro das suas pre- volvimento sustentável” e articulou os dois temas
ocupações ambientais, nomeadamente as relativas de forma inteiramente original que surpreendeu
à qualidade do ar e às alterações climáticas, tem boa parte dos presentes. Além disso, foi também
uma extensa obra publicada em revistas científi- notório o esforço de articulação com a filosofia.
cas. Para lá da coordenação de diversos projetos De resto, sublinhou diversos temas familiares a
nacionais e internacionais, foi, ainda, membro do quem se dedica a estes assuntos: a insustentabili-
Conselho Nacional da Água e do dade dos níveis de consumo mun-
Conselho Nacional de Ambiente e dial, a necessidade de se evoluir
Desenvolvimento Sustentá- para economias de circuito fecha-
vel. Hoje lidera a nova associação do, a evolução da qualidade do ar,
Zero mas os seus objetivos man- o aquecimento global e conse-
têm-se os mesmos. quentes alterações climáticas. Um
A sessão contou com 225 par- apontamento interessante acerca
22

da economia circular foi o seu sublinhado de co- tentável apenas deveria encarar a reciclagem co-
mo é enganosa a ideia de que esta exigência se mo uma fase terminal, antecedida de muitas outras
reduza à reciclagem (e, poder-se-ia acrescentar, fases, integradas na própria produção, de reapro-
que até esta se deva reduzir à maior ou menor veitamento e reutilização.
propensão ética das pessoas a colocar os resíduos Os alertas de Francisco Ferreira poderiam ter
sido muito mais desenvolvidos e, certamente, en-
contrariam interessados entre os presentes. Infeliz-
mente, o tempo não era muito e nem houve tempo
para muitas questões. A última questão, porém, da
aluna Ana Rita Pita, sintetizou muitas outras: “O
que podemos fazer?“ Naturalmente, no pouco
tempo que tinha o Professor não pôde dar uma
resposta minimamente completa, mas apontou pis-
tas bastante significativas. Muitos foram os alunos
que saíram da sessão agradavelmente impressio-
nados, muito embora nunca se possa agradar a to-
dos.

no ecoponto). De facto, a reestruturação económi-


ca (e política) necessária para uma economia sus-
23

Mas isto é arte? (2016/2017)


Que faz de uma sessões, 25 de janei-
obra de arte, uma ro e 22 de fevereiro,
obra de arte? Se a com 93 presentes na
questão sempre foi primeira e 76 na se-
difícil, que dizer gunda, os partici-
neste tempo de ins- pantes foram desafi-
talações precárias e ados a confrontar-se
efémeras tantas ve- com diversas obras e
zes realizadas com a decidir se eram
materiais residuais arte ou não. Mais
ou mesmo simples difícil foi, certamen-
lixo? Esta foi a te, a segunda parte
questão com que o da provocação, ou
nosso professor Lu- seja, dizer porquê.
ís Braga resolveu Não deixou de ser
provocar, em pri- interessante, porém,
meiro lugar, o Clu- ouvir respostas mais
be de Debate e, em conservadoras exa-
segundo, todos os tamente por parte de
nossos alunos e até alunos de… artes.
professores. Será o que se con-
Ao longo de duas sidera arte uma

O cartaz
também é
da autoria
do profes-
sor Luís
Braga.
24

uma forma de nos pro-


vocar, uma forma de
despertar a atenção do
nosso olhar até para o
inusitado aspeto do
objeto mais banal
construção social? E isso significará que é transfigurado pela sim-
convencional e arbitrária? Poderá haver um ples recomposição do
juízo estético objetivo? Ou o valor das artista?
obras de arte é determinado exclusivamente Muito embora a 2ª
pelo mercado? E o que move o mercado? A sessão não tenha con-
vaidade humana? Poderá a arte ser medida tado com tantos parti-
apenas pela excelência de um desempenho cipantes quanto a pri-
técnico? Ou será a arte, como a sessão promovi- meira abordagem do tema, as diversas intervenções
da por Luís Braga, um forma de nos interpelar, mostraram, na maioria dos casos, uma maior consis-
tência e consolidação das perspeti-
vas que, muito embora possa não ter
atingido algum entusiasmo da ses-
são original, acabou por levar a bom
termo o debate que, da primeira vez,
se sentia inacabado.
Fotos de Fortunata Beatriz, com exceção
da única foto da 2ª sessão, onde figuram
os membros do Clube Cláudia Santos,
Sandra Alves, Mauro Duarte e, semiocul-
to, Gonçalo Costa, assim como as profes-
soras Teresa Miranda, Rosário Santos,
Piedade Taborda e Isabel Tostão. Na foto
à esquerda, os membros docentes do
Clube Fátima Correia e Alfredo Afonso.
25

A Revolução Soviética de 1917 - breve


contextualização histórica
José Gomes
Professor de História

Cumpridos cem anos sobre este acontecimento, Vladimir Ilyich Ulyanov (1870-1924), líder da revolução soviéti-
ca de Outubro de 1917.
lançou-nos o Clube de Debate da ESSA o desafio
de fazer uma avaliação do movimento revolucio- maioria da população continuava a viver num
nário que implantou no antigo Império Russo um meio rural (o que acontecia, em dados de 1911, a
regime político radicalmente novo. cerca de 118 dos então 140 milhões de habitantes
Realizaram-se duas sessões de cerca de uma do Império), em condições materiais geralmente
hora, das quais a primeira foi dedicada essencial- difíceis. A grande parte da propriedade estava na
mente à contextualização política, económica e
social da Rússia desde a segunda metade do sécu-
lo XIX até ao seu envolvimento na I Guerra Mun-
dial, coincidindo em boa parte com o governo au-
tocrático personificado no czar Nicolau II.
Sem pretensões de exaustividade, foram evi-
denciados alguns factos. Cerca de 1900, o Império
Russo respondia por cerca de 24% dos europeus.
Registava-se aí um atraso sociológico com evi-
dências e números esclarecedores: a esmagadora
26

mão de uma minoria de aristocratas e do próprio muitos casos, estavam animados de intenções polí-
Estado, que tinham na sua dependência milhões ticas contrárias ao regime vigente e tentavam mo-
de mujiques (camponeses-servos) aos quais a li- bilizar "massa crítica" para os seus desideratos re-
berdade total só chegaria, legalmente falando, formistas ou revolucionários.
com as reformas introduzidas no tempo do czar Abordou-se o início da industrialização da Rús-
Alexandre II, entre 1861 e 1866. Calcula-se em 38 sia, bastante centrado nas cidades principais, Mos-
milhões o número daqueles que atingiram então a
liberdade, o que corresponderia - no mínimo - a
1/3 da população total da Rússia desse período.
Apesar disto, a situação "de facto" de muitos cam-
poneses não se alterou significativamente em ter-
mos de condições materiais. Em 1897, o analfabe-
tismo ultrapassaria os 75% na globalidade dessa
população, ultrapassando os 80% nas populações
rurais, largamente maioritárias. Mesmo a alfabeti-
zação existente repousava principalmente na Igre-
ja Ortodoxa, bem como em voluntários que, em O professor José Gomes na sessão sobre o 25 de abril dina-
mizada pelo professor Alfredo Afonso.

covo e S. Petersburgo. Destacou-se o impacto da


Guerra Russo-Japonesa de 1904-5, cujo desenlace
foi francamente desfavorável aos russos, traduzin-
do-se mesmo na perda, por parte destes, de alguns
territórios insulares no Pacífico. Contribuiu tam-
bém para o enfraquecimento da confiança que o
povo russo depositava nos seus dirigentes e pela
mesma data deu-se a manifestação e petição popu-
lar ao czar que entretanto foi reprimida com dure-
za no chamado "Domingo Sangrento". Entretanto,
sucedem-se levantamentos e tentativas falhadas de
revolução, ainda em 1905. Pressionado, o czar au-
toriza a formação de uma assembleia, a Duma, na
qual estiveram representados membros de várias
correntes políticas, incluindo o Partido Operário
Social-Democrata Russo. Este órgão, concebido
com intenções consultivas, acabou por ter vida in-
termitente e por nunca conseguir autonomizar-se
Tudo em família: o rei inglês e o czar russo. Em 1918, Nico-
lau II conheceria um destino bem diverso do seu primo. verdadeiramente, tendo estado sujeito a duas dis-
27

ral-burguesa, embora de origem aristocrática, o


príncipe Lvov e depois por um socialista modera-
do, o menchevique Kerensky. Nenhum dos dois
revelou interesse ou capacidade para retirar a Rús-
sia da guerra, como reclamavam o povo e o exérci-
to de forma crescente. A quebra da disciplina mili-
tar e o golpe revolucionário dos bolcheviques do
soviete de Petrogrado, dirigidos por Lenine
(adversário político de Kerensky na disputa pela
liderança do Partido Operário Social-Democrata
russo) na Revolução de Outubro (novembro, no
calendário ocidental) inaugurou um processo revo-
lucionário radical, na medida em que se propôs
levar à prática um novo tipo de regime e de conce-

Alexander Kerenky (1881-1970). Governou uns intensos três


meses e meio, intentando reformas democráticas que, em
alguns casos, segundo o que muitos pensam, ainda hoje
estão por realizar plenamente na sua Rússia.

soluções por parte do czar. As suas propostas tam-


bém não condicionaram as medidas políticas to- ção do Estado, moldado pelas teorias de Karl Marx
madas pelo governo, o que se traduziu em maior e Friedrich Engels tal como se encontravam expos-
radicalização das posições políticas dos partidos tas no Manifesto do Partido Comunista e em O
moderados e esquerdistas. Capital, entretanto interpretadas e complementa-
A participação na I Guerra Mundial contribuiu
decisivamente para a degradação das condições
socioeconómicas da Rússia: O recrutamento maci-
ço de homens para o exército, o aumento brutal
das despesas e o insucesso da guerra contra os ale-
mães, traduzido em milhões de mortos, criaram as
condições para o derrube do governo e a abdica-
ção do czar. Em Fevereiro de 1917, a situação pa-
recia encaminhar-se para o estabelecimento de um
regime de estilo demoliberal, com a constituição
de um governo provisório onde a liderança foi as-
Pormenor da segunda sessão sobre a revolução de Outubro.
sumida primeiro por um político de tradição libe- Na foto, Miriam Ribeiro, Catarina Magalhães e o autor.
28

Lev Davidovitch Bronstein (Trotsky) e Iossif Vissarionovitch Dugashvili (Stalin), foram dois colaboradores próximos de Lenin que
eram vistos como candidatos à sua sucessão. Stalin manobrou influências e levou a melhor sobre o seu camarada e adversário,
vindo a dirigir a URSS como Secretário-Geral de Partido Comunista entre 1922 e 1953, ano da sua morte. Trotsky foi assassinado
a mando de Stalin durante o seu exílio no México.

das pela produção teórica do próprio Lenine. os partidários do bolchevismo triunfante, dirigidos
O que se seguiu foi o estabelecimento de um - entre outros - por Lenine e Trotsky, aos seus ad-
regime totalitário, no qual se tentaram concretizar versários monárquicos, conservadores e liberais
os princípios marxistas-leninistas de abolição da que sonhavam, uns, com a restauração do regime
propriedade privada, de sociedade sem classes e czarista, outros, com o estabelecimento de um re-
de "ditadura do proletariado", alicerçada nos ope- gime democrático de tipo europeu ocidental ou
rários urbanos e em parte das forças militares do norte-americano, colhendo assim o apoio logístico
país, convenientemente enquadradas por intelectu- e financeiro dos países ocidentais, que viam no
ais que, embora apostados em destruir a sociedade triunfo do bolchevismo-comunismo uma ameaça e
burguesa, eram em boa parte oriundos da burgue- um exemplo pernicioso para as classes trabalhado-
sia. Esta "vanguarda do povo" revolucionária seria ras dos seus próprios estados, parte das quais já
em si mesma pouco representativa do ponto de eram representadas por movimentos socialistas ou
vista demográfico, uma vez que, embora com ex- socializantes (casos da Inglaterra, Alemanha, Fran-
ceções, deixava de parte o campesinato, largamen- ça, Itália, Hungria). O desfecho da guerra civil é
te maioritário no país. Este acabou por ser a prin- bem conhecido: os bolcheviques triunfaram e, com
cipal vítima da guerra civil que se instalou e opôs alterações pontuais, instauraram um regime que se
prolongaria na Rússia por 70 anos.
As suas realizações, apreciadas criticamente,
poderão ser tema para uma reflexão que poderá ser
feita mais tarde.
29

Debater perspetivas interculturais


Fátima Correia
Professora de Português
O seguinte artigo refere-se às sessões que de-
correram em janeiro, na ESSA, dinamizadas pela
professora Fátima Correia e dedicadas ao tema
“Etnocentrismo e Multiculturalismo”.

Parece consensual a ideia de que o debate so-


bre a interculturalidade é importante na escola,
sobretudo se pensarmos no desafio que é educar
para os valores (igualdade, tolerância, liberdade,
etc.) no contexto atual em que acolhemos um nú-
mero crescente de estudantes de culturas diferen-
tes.
A biblioteca ocupa um lugar privilegiado para
variadas atividades, designadamente promover a
leitura e participar nos debates que animam a es-
cola. A colaboração nas iniciativas do Clube de
Debate tem permitido explorar estas duas verten-
tes. Não sendo “especialista” no assunto, propus a
reflexão em torno de questões da interculturalida-
de a fim de interrogarmos as nossas perspetivas Cartaz da professora Rosário Santos.

epistemológicas e os nossos processos identitá- Deste modo, partimos da leitura de excertos do


rios, entendendo a interculturalidade como um livro, Papalagui, termo samoano que designa
bom exemplo de uma matéria interdisciplinar e "homem branco". Escrito entre 1914 e 1915, mas
transversal. publicado em 1920, contém um conjunto de textos
30

reunidos pelo alemão Erich Sheurmann, retratan-


do várias conversas com o chefe de uma tribo da
Polinésia, Tuiavii, que viajou pela Europa do sé-
culo XVII, e a retrata ironicamente em 17 capítu-
los. Os alunos leram excertos do capítulo III, “do
metal redondo e do papel forte”, que retrata o po-
der e as consequências que o dinheiro exerce na
mentalidade dos “homens brancos” e na discre-
pância (capitalista) entre classes ricas e explora-
doras versus os mais pobres e explorados que lu-
tam para sobreviver. Selecionámos ainda um ex-
certo do capítulo V, “O Papalagui nunca tem tem- e afasta-se do real e da natureza - mas fá‑lo de for-
po”, tendo alguns alunos reconhecido que as críti- ma maniqueísta, constituindo um bom exemplo de
etnocentrismo, pois o que não está de acordo com
os padrões culturais do chefe samoano é mau ou
errado! Nós, europeus, que nos consideramos
avançados e progressistas, tendo levado a
“civilização” aos indígenas somos, entretanto, vis-
tos como “selvagens”. Aliás, os trechos encerram
advertências aos samoanos para se manterem fiéis
à sua cultura se quiserem evitar os erros do
“Papalagui”, que pretende convertê-los através da
missionação.
cas tecidas à nossa sociedade podem servir para O debate permitiu-nos alertar os alunos para a
revermos as nossas prioridades na vida e ajudar- tradição literária secular em que a obra se insere,
nos a ver os nossos comportamentos, já que o dando voz aos eternos “descontentes da civiliza-
olhar do(s) outro(s) completa-nos. Portanto, ler ção” e promovendo o sonho nostálgico do “paraíso
este livro faz-nos ter uma perspetiva mais crítica
do nosso mundo.
Mas se podemos desenvolver a nossa consci-
ência sobre quem somos e como agimos, os jo-
vens também constataram que estamos perante
uma visão etnocêntrica sobre os nossos costumes
e crenças. Tuiavii retrata o Homem ocidental co-
mo não tendo nada de bom - vive obcecado pelos
bens materiais, mas é pobre em sentimentos e
emoções, preza a vida fictícia do cinema e dos
jornais (hoje seria da televisão e do computador)
31

terrestre”. Neste caso, o paraíso são os mares do “roubo” porque nessa cultura não existe a noção
Pacífico que começaram a ser explorados siste- de “bens pessoais”, ora isto são imprecisões para
maticamente no século XVII e que correspondem não dizer erros que antropólogos e linguistas pro-
ao mundo ideal: um clima agradável, uma nature- varam. O mesmo se passa com as críticas às pro-
fissões, em que nos especializamos e tornamos
alienados. O chefe Tuiavii nem sequer contempla
a hipótese de algum europeu gostar de trabalhar e
as comparações entre a nossa cultura e a samoana
tornam-se inválidas pois não têm em conta as di-
ferenças no desenvolvimento técnico e material.
O chefe vai mais longe e aponta os media - ci-
nema, jornais, livros, hoje incluiria a internet –
como uma forma de escape à realidade e estende a
crítica aos perigos de estarmos demasiado infor-
za generosa onde o «bom selvagem» de Rousseau mados já que podemos ser manipulados. De tal
(sobre)vive, inocente e feliz, livre de pressões e
sem necessidade de trabalhar. Apontaram-se con-
tradições: há estudos que mostram que a foto do
suposto chefe é falsa e em princípio os seus dis-
cursos serão uma mera camuflagem para as teori-
as de Erich Sheurmann. Outro exemplo: a descri-
ção das enormes casas em que os europeus vivi-
am quando, à época, a maioria não viveria, de
certeza, nesse tipo de moradias. Ou ainda no ca-
pítulo VI, “O Papalagui tornou Deus mais pobre”,
em que Sheurmann explica que na língua samoa- modo, que o livro termina com a última doença do
na não há pronomes possessivos nem a ideia de Papalagui “estar sempre a pensar”, manifestando
uma certa hostilidade em relação a qualquer forma
de educação e conhecimento científico e chegando
ao ponto de achar que os samoanos nunca pensam
e não são influenciados pelas ideias dos outros,
sendo, portanto, mais razoáveis (e mais felizes) do
que nós. Tal ideia é desconstruída quando, na In-
trodução, se diz que Tuiavii estava “sempre em
busca de mais luz, e se deixava ficar deitado sobre
a esteira da sua casa, de olhos semicerrados numa
espécie de devaneio” e que “dominava de longe os
32

seus semelhantes, porque tinha a consciência de rios?


ser, essa força interior que nos distingue das tri- Houve ainda tempo para debater a opção in-
bos primitivas”. terculturalista, apontada por muitos como a mais
O autor deste livro não sabe ou esquece que os razoável; contudo,
“deturpada” uma dúvida pode levantar‑se:
da religi-
qualislâmica
ão o impacto e as de
a fim consequências a longo prazo
do interculturalismo?
não alimentar a xeno-O permanente diálogo inter-
cultural e a constante troca de informação entre
fobia.
culturas, estas
Por fim, não correm o sério risco de deixa-
a animado-
remdadesessão
ra ser originais?
lançou De
a certo modo, é já isso que
já está a acontecer
questão da recenteem alguns lugares: culturas
campanha publicitária
da marca sueca H&M
que provocou uma
grande polémica. Pro-
valores humanos são relativos e históricos. Os moção do choque en-
alunos descobriram que é fácil recusar o etnocen- tre culturas ou simples
trismo o que nos levou, de seguida, a discutir o inépcia dos publicitá-
relativismo cultural, pois as culturas não são
comparáveis, não sendo por isso possível hierar-
quizá-las. Porém, o relativismo cultural, apesar
de aparentemente ser uma teoria atraente e mais ancestrais estão a desaparecer para dar lugar a
defensável quando comparada com o etnocentris- uma cultura global à escala planetária, em que os
mo, também revela fragilidades, como sermos hábitos e as tradições se vão perdendo e todos nos
tolerantes com os intolerantes ou tornarmo-nos parecemos/ocidentalizamos.
conformistas. Debateram-se os casos recentes de Esta é uma perspetiva recente – antes, a ten-
dência era para, à semelhança do “Papalagui”,
cada sociedade avaliar os padrões culturais dos
outros grupos em função dos seus próprios valo-
res, desvalorizando-os e considerando-se a si pró-
prios como modelos, uma outra resposta para os
desafios atuais.

aceitação de casamentos poligâmicos, em França,


ou a implementação de “dispositivos de censura”
à imprensa, no Reino Unido, para não divulgar
conteúdos que apresentem uma imagem
33

Artigos de opinião e debate—Princípios


orientadores
Este será um espaço de liberdade de expressão, responsabilidade dos autores, não implicando
tal como o foram as sessões de debate. A única qualquer aprovação dos restantes membros do
diferença é que não haverá contraditório. Porém, Clube ou do seu coordenador. Pelo contrário, po-
a generalidade dos artigos corresponde a temas dem ter a certeza que, em relação à generalidade
tratados nas sessões do Clube. Tal qual essas ses- das teses aqui explanadas, houve discordâncias
sões, tentou-se restringir a discussão a temáticas muito significativas. Se se quer um verdadeiro
gerais, mesmo que se pudessem usar exemplos de ambiente de debate, devem-se dar garantias de
pessoas ou de instituições da atualidade (por livre expressão, em vez de meras alternativas con-
exemplo, no final do ano passa- dicionadas por qualquer ideologia
Os artigos das pági-
do, discutiu-se, numa sessão de vaga, seja o politicamente correto,
nas seguintes são da
debate, o populismo e não Do- seja a moral e os bons costumes,
inteira responsabili-
nald Trump—mas não será difícil seja o que se considera moderno e
dade dos autores.
imaginar que ele veio à baila). Se progressista. A verdadeira dinâmi-
os temas não deveriam incidir sobre pessoas ou ca do debate é a adversativa, é o “mas…”, é a in-
instituições atuais, ainda menos deveriam conter terrogativa crítica, a interrogativa negativa, é o
insultos explícitos, até porque um insulto puro “porque não?...” Este não é um espaço para quem
nada acrescenta a uma tese e nunca é um argu- não quer pensar fora da caixa, fora do ´”já dado”,
mento. Só no caso de algum texto conter alguma do “já dito”, do “já pensado”. Este não é um espa-
expressão estritamente insultuosa ou que lese o ço para quem só quer ver espelhado o que já pen-
bom nome de alguma pessoa ou instituição é que sa ou o que ouve dizer por aí, o que lhe dizem,
o editor deve intervir. implicitamente, que deve dizer. Este é um espaço
De resto, os seguintes artigos são da inteira de provocação e de desafio. Este é um espaço de
debate.

Aqui está a prova que os nossos ex-alunos também partici-


param no Clube. Pedro Amaral na dinamização do debate
Bicentenário de Marx—26ª sessão.
sobre mudança de sexo.
34

Eutanásia – o direito à última opção

Maria Macau
Aluna do 11º C (embora fosse do 10º C quando o fez)

“O pior não é morrer, mas ter de desejar a morte e não O Presidente da República, Marcelo Rebelo de
conseguir obtê-la.” Sousa, defende esta mesma discussão.
Na petição, constata-se que a morte assistida é
-Sófocles
um dos direitos do doente, tendo sido esta entregue
a 26 de abril de 2016 e assinada por cerca de 8 mil
“Vincent Humbert, um jovem de 20 anos,
pessoas. Na mesma, solicita-se "despenalização e
teve um grave acidente de automóvel em 2000,
regulamentação da morte assistida como uma ex-
do qual resultou um coma que durou nove me-
pressão concreta dos direitos individuais à autono-
ses. De seguida, foi-lhe diagnosticado que se
mia, à liberdade religiosa e à liberdade de convic-
encontrava tetraplégico, cego e surdo, sendo o
ção e consciência, direitos inscritos na Constitui-
único movimento corporal o seu polegar direi-
ção".
to, com o qual comunicava. Deste modo, solici-
tava aos médicos a prática da eutanásia. No en-
tanto foi-lhe recusada, pois na França a eutaná-
sia é ilegal. Vincent pede ajuda à mãe para o
matar, com o auxílio do médico. Após a situa-
ção, a mãe de Vincent acaba por ser presa. Vin-
cent escreve um livro com o seu polegar, de
188 páginas, intitulado “Eu peço-vos o direito
de morrer”.
Jacqueline Araújo,
https://pt.slideshare.net/jacquelinearaujo359/eut
ansia-14723063, publicada 14/10/2012 Maria Macau à direita numa apresentação no final do ano letivo
anterior.
Como certamente já perceberam, para este texto
Assistimos, recentemente, a 1 de Fevereiro
argumentativo escolhi o tema da eutanásia. Trata-
[2017] à discussão da eutanásia no parlamento,
se de um tema controverso e bastante atual, levan-
iniciada devido aos projetos de regulamentação da
tando acesas discussões em torno de si quando
mesma, apresentados pelo BE (Bloco de Esquer-
abordado.
da) e pelo PAN (Pessoas-Animais-Natureza), em
Antes de mais, importa esclarecer, em traços
sequência de uma petição do movimento cívico
gerais, o conceito de Eutanásia.
“Direito a morrer com dignidade” a favor da Eu-
É assim necessário fazer uma distinção entre os
tanásia, pedindo que a Assembleia da República
vários tipos de Eutanásia, podendo esta ser classi-
legisle nesse sentido.
ficada quanto ao tipo da ação e ao consentimento
35

do paciente. sua morte, ou morrer rapidamente e de maneira


Atendendo à vontade do paciente, classifica-se digna. Ao respeitar-se a vontade do paciente, con-
como voluntária, enquanto que, se a mesma é fei- fere-se-lhe respeito. Afinal, que sentido tem pro-
ta contra a vontade do paciente, denomina-se in- longar a vida de um paciente que não tem qualida-
voluntária. Se a pessoa a quem se retira a vida de nem prazer em viver?
está impossibilitada de escolher entre a vida e a
morte, encontrando-se incapacitada, por exemplo, Agora tratarei de alguns argumentos usados fre-
a eutanásia é não voluntária. quentemente contra a Eutanásia. Estes assentam
O Suicídio Assistido é outro tipo de eutanásia, essencialmente em pressupostos éticos e religiosos.
sendo em vez desta, efetivado pelo próprio paci-
ente, que é ajudado nesse sentido por alguém, Um dos argumentos reside no facto de, ao se
fornecendo-lhe esse alguém meios para isso. tirar a vida a uma pessoa, estar-se a usurpar o valor
Como já referi, este é um tema que gera sem- da vida humana, sendo que muitos consideram que
pre muita discussão e a que ninguém consegue Deus a originou a assim é o único que pode tirá-la.
ficar indiferente. Apesar de a morte ser inevitável
O Senhor é o que tira a vida e a dá; faz descer à sepul-
para todos nós, esta significa sofrimento tanto
tura e faz tornar a subir dela. (1 Samuel 2:6)
para os que partem como para os que ficam, inde-
"Nunca é lícito matar o outro: ainda que ele o quisesse,
pendentemente de serem ateus ou de professarem
um qualquer credo religioso. mesmo se ele o pedisse (...) nem é lícito sequer quando o
Quanto a mim, defendo o direito à regulamen- doente já não estivesse em condições de sobreviver”.
tação da morte assistida pois, numa situação em (Santo Agostinho in Epistula 204,5: CSEL 57,320)
que já não é possível evitá-la, o doente está em Tendo em conta o juramento de Hipócrates, di-
sofrimento e, quando este assim o deseja, é prefe- tando este aos médicos que devem respeitar o dom
rível dar-lhe o direito de opção. supremo da vida e em situação alguma deixar de
Muito se tem escrito e falado sobre este tema ajudar os seus pacientes e facilitar a sua morte, for-
e os argumentos que vou utilizar já o foram certa- necendo-lhe sempre todos e quaisquer meios para a
mente por outros. De qualquer forma, os argu- sua sobrevivência, é inconcebível, desse ponto de
mentos em que fundamento a minha opção são os vista, desrespeitar a vida e praticar a Eutanásia.
que a seguir se explicitam.
Outro argumento contra centra-se no facto de o
Primeiramente, considero impensável e desu- código penal prever pena para quem tira a vida a
mano que se deixe um ser humano, num estado outra pessoa, independentemente dos fatores que a
terminal sem qualquer hipótese de recuperação motivam. Por isso, a Eutanásia continua a ser con-
ou melhora, em sofrimento, à espera da morte. siderada um crime nos países sem legislação criada
Penso que esta atitude viola os Direitos do Ho- nesse sentido.
mem, no sentido em que o está a impedir de esco-
lher entre sofrer até ao momento imprevisível da Se se considerasse estes argumentos e então
36

nunca se praticasse a Eutanásia, os pacientes teri- serão boas, mas para um doente em agonia, na
am de esperar pela sua morte, enquanto sofriam minha opinião, não advirá qualquer benefício des-
ou sujeitos a cuidados paliativos. Muitos desses ses cuidados.
pacientes encontram-se em estado vegetativo ou,
pelo menos, em grande sofrimento, fazendo isto Concluo o meu texto argumentativo com a
com que não tenham nenhum prazer em viver, ideia de que a Eutanásia deveria ser um direito a
não estabelecendo qualquer convivência social e utilizar em casos extremos, e que, para além dis-
estando impedidos de realizar as suas funções so, deveria estar regulamentada por uma lei e su-
mais básicas por si sós. Nos cuidados paliativos, jeita à verificação de uma entidade fiscalizadora,
são administradas muitas vezes grandes doses de garantindo que tudo respeitasse a integridade e a
sedativos e/ou anestesiantes para que seja aliviado vontade do doente.
o sofrimento do paciente. Penso que as intenções

A mente
Catarina Magalhães
Aluna do 10ºB

Quase todos vivem constantemente a pensar no sente é separado da mente, não pode fazer parte
passado ou no futuro, não conseguem viver no do tempo pois o tempo só existe devido à comple-
momento presente. A menos que vás para além da xidade da mente humana.
mente, irás continuar a sonhar acordado. Porque a
mente não existe no momento presente, só pode
existir no passado ou futuro. Estar presente é estar
sem a presença da mente.
No momento que houver silêncio, quando ne-
nhum pensamento se cruzar com o teu ser ou
quando a tua consciência estiver sem nuvens, de
repente estarás no presente. Esse é o momento
real. Sem passado ou futuro, apenas este momen-
to.
Normalmente, o tempo é dividido da seguinte Catarina junto com Miriam Ribeiro na 4ª sessão.

maneira: passado, presente e futuro. Contudo, está Analisa os pensamentos. Com essa análise ve-
incorreto. Passado é o que já passou e o futuro é o rás que não passa de experiências do passado. A
que ainda não aconteceu. Ambos vêm da mente. mente guarda o passado na sua totalidade. A men-
O presente não é nada mais que a própria vida, te é nada mais que o passado.
separado da mente. Logo, se a pessoa não estiver Se a realidade da mente é apenas o passado,
presente, não estará a viver a sua vida. Se o pre- então o que ela pode fazer? Talvez reviver o pas-
37

sado constantemente. Novamente e novamente a COMO CONTROLAR A MENTE?


pensar no passado, nos momentos bonitos e ale-
gres. Se quiseres silenciar a mente, não a forces a
Mas tu não ficas a vida toda a pensar no passa- acalmar. Sê uma testemunha, assim como alguém
do pois isso é inútil. Logo, a mente cria outra ati- sentado ao lado de um rio a observar o rio passar.
vidade mas que tem utilidade, que é sonhar acor- Senta-te ao lado da tua mente e observa da mesma
dado sobre o futuro. A mente diz: Sim, o passado maneira como alguém observa as nuvens em mo-
foi bom mas está acabado, nada pode ser feito a vimento. Não faças nada, não interfiras, não ten-
seu respeito, porém, algo pode ser feito acerca do tes parar ou reprimir. Se vier um pensamento, não
futuro porque ainda não aconteceu. Por isso, co- o pares. Se não vier nenhum, não tentes forçá-lo a
meças a pensar e a querer repetir algumas das ex- vir. Sê simplesmente um observador.
periencias anteriores ou realizar algo que viste no Nessa simples observação, tu verás e experi-
passado. Pensar no futuro é nada mais que o pas- mentarás que os pensamentos e o teu ser estão
sado mas modificado, mais decorado e agradável, separados. Porque poderás ver que aquele que es-
menos doloroso e melancólico. tá a observar os pensamentos é separado deles. No
Isto é o que a mente continua a fazer pois ela é momento que tiveres consciência disso, uma es-
o mestre, ela controla-te de uma maneira que faz tranha paz irá envolver-te porque não terás mais
com que pareça que tu é que és o mestre. É como preocupações. Tu perceberás que estás no meio de
se estivesses numa prisão mas pensasses que estás todo o tipo de preocupações mas as preocupações
livre. No entanto, se tentares não pensar, irás sa- não são tuas.
ber quem é que está no comando. A mente é algo Se te tornares consciente que os pensamentos
útil mas perigosa se te controlar. Se fores o mes- não são teus, a vida deles começará a enfraquecer,
tre, poderás pensar no passado ou futuro quando eles começarão a ficar cada vez mais sem vida. O
quiseres, quando for útil. poder que os pensamentos têm sobre ti está no
Se alguém te perguntar onde vives, o número fato de achares que eles são teus. Nenhum pensa-
do teu telemóvel ou se estiveres prestes a cometer mento é teu, tu és apenas uma testemunha para
um erro do qual já sofreste no passado, é útil usar eles. Os pensamentos são como nuvens e o espaço
a mente para poderes responder ou não cometer o entre as nuvens são os momentos em que não
mesmo erro duas vezes. Contudo, se estiveres a existe nenhum pensamento, em que não existe a
passear num parque e começares a pensar numa mente. Neste momento, esse espaço quase não
discussão que ocorreu há horas atrás ou estiveres existe mas se começares a observá-los sem te
a pensar que quando chegares a casa vais ter que identificares, sem lhes dares qualquer importân-
fazer isto ou aquilo, para além de ser completa- cia, seja bom ou mau, o poder que eles têm sobre
mente inútil, estarás a perder a beleza do parque. ti começa a desaparecer e o espaço entre as nu-
Usar a mente quando não é necessário é desperdi- vens começa a ficar cada vez maior, até que, num
çar o momento presente e, por consequência, a momento, não irão existir mais nuvens e tu pró-
vida. prio as criarás quando forem úteis.
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A legalização das drogas


Miriam Ribeiro
Aluna do 10º E

Olá, hoje vim falar dum assunto muito impor- fácil dar apoio médico às pessoas viciadas e que
tante para o Mundo, a legalização das drogas, pois possivelmente estejam a passar por uma fase difí-
possivelmente em alguns países algumas drogas cil por causa destas substâncias.
serão legalizadas. Mas pensando bem sobre este Por outro lado, nos pontos negativos, as vio-
assunto devíamos verificar quais são os pontos
positivos e negativos desta legalização.
Há bastantes pontos positivos quanto à legali-
zação das drogas mas escolhi os que achei mais
importantes. Com a legalização das drogas, haverá
mais espaço nas prisões para criminosos realmen-
te perigosos pois os presos apenas por uso de dro-
gas não existirão mais. Também muitos dos gastos
Miriam ao centro na 20ª sessão.
para se combater as drogas poderiam ser usados
em outros lugares, como, por exemplo, nas guer- lentas disputas com os traficantes não terminari-
ras como a da Síria onde são necessários biliões am pois estes não terão empregos e muito menos
continuarão os seus estudos, continuando, então, a
vender drogas. Com esta legalização, poderá ha-
ver uma grande subida no número de dependen-
tes. No caso de as drogas serem legalizadas, mui-
to dos agricultores quererão produzir plantações
de papoila (ópio) e de cannabis pois seria mais
lucrativo, o que faria com que a produção de ali-
mentos diminuísse e o seu preço aumentasse no
mercado, afetando as populações mais pobres.
Outro ponto negativo seria que grandes indústrias
Miriam à esquerda na 28ª sessão
poderão distribuir drogas e incentivar cada vez
de dólares para ajudar os civis que passam fome, mais o seu consumo como nas bebidas e no taba-
sede e muitas vezes estão gravemente feridos. Ou- co. Por fim, a legalização das drogas acabaria
tro ponto, com esta legalização poder-se-ia con- com muitas vidas, pois pessoas mais jovens que-
trolar a qualidades das drogas e restringir melhor a rerão experimentar, acabando por se viciar e fa-
produção e o consumo destas. Grande parte da zendo com que a sua vida seja destruída.
violência e corrupção acabaria, reduzindo muito As drogas podem parecer libertadoras mas fa-
os traficantes existentes. E outra razão, seria mais zem o contrário: acabam por nos aprisionar numa
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grande bolha onde a maioria do espaço é ocupado ceberemos que não há uma resposta ao certo pois
pelas drogas e cada vez que tentamos sair dessa vamos perceber que pode fazer tanto bem como
bolha não conseguimos, pois estas substâncias já mal, tanto pode ajudar os feridos de guerra como
fazem parte da nossa vida, acabando por não con- destruir vidas.
seguirmos viver sem elas. Há drogas que podem
fazer bem mas também há outras que podem aca- E tu alguma vez pensaste nisto? O que pensas
bar com a nossa vida. sobre a legalização das drogas? Deve ser um pro-
Se pensarmos neste assunto com cuidado, per- cesso que deve continuar ou não?

A igualdade de género
Beatriz Figueiredo
Aluna do 11º A
A igualdade de género é um assunto muito de- defender a igualdade de género é libertarmo-nos
batido hoje em dia. Mas, quando se fala ou se es- dos estereótipos construídos à volta de cada um
creve sobre este tópico, muitas vezes são somente deles. Defender a igualdade de género é defender
mencionadas as discriminações contra as mulhe-
res. Tal é compreensível, uma vez que as mulhe-
res são frequentemente o alvo da discriminação: é
às mulheres que está associada uma maior taxa de
desemprego, menores salários, cargos mais baixos
nas empresas, maior dificuldade de acesso à edu-
cação e a cuidados de saúde, etc.
Contudo, ao eliminarmos todos os outros géne-
ros e principalmente os homens da ideia de que
todas as pessoas, independentemente do género
com que se identifiquem, devem ter os mesmos Pormenor (com alguma tensão?) do debate sobre igualdade
de género entre os dinamizadores, Beatriz Figueiredo e Pedro
direitos e os mesmos deveres, fica a ideia de que Parrado, e outros membros, dinamizadores de outras ses-
sões (José Guerreiro e Bruna de Sousa).
só as mulheres têm a ganhar com esta mudança, o
que não é de todo verdade. O homem, assim como que qualquer pessoa deve ter a mesma oportunida-
a mulher, também é pressionado pela sociedade a de de chegar ao topo da empresa em que trabalha,
preencher o estereótipo da masculinidade: o ho- é defender que qualquer pessoa pode vestir a rou-
mem não deve expor os seus sentimentos, só se pa que quiser, é defender que qualquer pessoa po-
deve vestir de determinada forma, só pode gostar de demonstrar os seus sentimentos, pode expres-
de determinadas cores, os meninos só devem brin- sar-se através daquilo que faz e daquilo que usa, é
car com os brinquedos x e y, e por aí em diante. defender que qualquer pessoa pode aceder à edu-
A desigualdade existe em qualquer género e cação e a cuidados de saúde.
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Ainda há um longo caminho a percorrer para lheres à volta do globo têm que lutar para poder ir
chegarmos a esse ideal. Apesar de haver muita à escola ou para poder trabalhar, basta pensar que
gente que tenta argumentar que as desigualdades um homem que diga que foi violado não tem mui-
tas hipóteses de ser levado a sério, basta pensar
que ainda há quem acredite que as mulheres ser-
vem para limpar a casa e cuidar dos filhos en-
quanto os homens servem para trabalhar e susten-
tar a família. Estas ideias há muito inseridas na
sociedade são difíceis de demolir, principalmente
porque há quem ganhe muito com elas.
Mas apenas poderemos ter igualdade se todas
as pessoas, independentemente do género, inde-
pendentemente de se sentirem mais ou menos dis-
Beatriz ao centro na 25ª sessão criminadas, perceberem que essa discriminação
associadas ao género não existem porque não as existe de facto e que a eliminação dela traria be-
sentem à sua volta, basta uma pequena pesquisa nefícios a todos.
na internet para perceber aquilo que muitas mu-

Reflexões sobre a orgulhosa comunidade


LGBTQRSTUV+”
Pedro Parrado
Aluno do 11º A

A minha indignação com o assunto começa te – Como se isto afetasse as suas personalidades
pelo nome. Nem tanto a sigla, que, diga-se de pas- (talvez serem homossexuais os torne mais receti-
sagem, é interminável. Parece que todos os dias vos a matar pessoas ou a salvar o mundo, sei lá).
são identificados novas formas de género e de se-
xualidade, algo que a mim é-me completamente
alheio. Fica para a minha imaginação a decifração
da sua sigla: LGBTQIP2SAA. (quiçá agora mai-
or…)
Tal como em outras minorias, o uso da palavra
“comunidade” é, para mim, neste caso, motivo de
incómodo. Isto porque a palavra define uma iden-
tidade e eu saber que há pessoas que pensam que a
sexualidade é uma característica que os define co-
Pedro ao centro na 13ª sessão
mo pessoa, como “eu” e/ou ser-pensante, é só tris-
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Aqui entram os estereótipos que, a cada dia que muito tempo. Aliás, espera-se sem razão, porque
passa na minha vida, fazem com que a minha toda a “cultura” (cultura é muito bom!) que nos é
ideia de que as próprias pessoas “vítimas” da cria- apresentada, a nós que não pertencemos à
ção dos estereótipos são as suas criadoras, aumen- “comunidade”, é uma cultura que advém da so-
te e seja reforçada (por exemplo, pelos bre-exploração da sexualidade.
“influencers” das redes sociais) – Ou, pelo menos, Hipoteticamente, uma reivindicação calma e
estas pessoas são as maiores incentivadoras da centrada na luta dos direitos soa bem… mas para
propagação destas generalizações que são igno- quê isso quando podemos chocar as pessoas que
rantes (quase tanto como as pessoas que as incen- não nos aceitam, mostrando, literalmente, aquilo
tivam). Tanto é que hoje em dia ser-se gay é giro que elas criticam em nós? Sim, porque é mesmo
– o que para mim demonstra uma ânsia por uma isto que parece que as pessoas que são frequenta-
irreverência vazia. Mais, a palavra “comunidade” doras destas paradas gay pensam.
em si passa a ideia de agregação e alienação. Jun- Posso até compreender que este comportamen-
to – um tanto animalesco e primitivo – advém da
repressão e rejeição que estas pessoas puderam
outrora ter sentido, mas ao ponto que isto chegou,
agora que todo este assunto tomou as proporções
que tomou – quase toda a gente conhece “a cau-
sa” – é-me difícil acreditar que muitas dessas pes-
soas frequentadoras - que se esfregam em outras,
fazem sexo em público e andam nuas em mar-
chas, juntamente com crianças* - não chegaram já
à conclusão de que isso que fazem não é benéfico
Pedro Parrado ao centro na 12ª sessão. (para ninguém!).

tando isto ao facto de que a dita “comunidade”


alega lutar pela igualdade de direitos e pela inclu-
são, parece que há aqui qualquer coisa que não
encaixa.
Toda a minha revolta atinge o nível máximo
quando são postas em prática as suas reivindica-
ções – onde, ironicamente, a exclusão também
atinge o seu máximo nível. Pior ainda, essa exclu-
são é celebrada com “orgulho”!
Pedro Parrado junto a José Guerreiro na 7ª sessão.
Se se espera um ajuntamento simpático, calmo,
talvez umas coreografias, manifestações e umas *N. Ed..: O autor confirmou estar a referir-se às marchas
quantas bandeiras coloridas, espera-se durante gay em vários países e não estritamente no nosso.
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A Beleza Masculina

Beatriz Letras
Aluno do 11º A
José Guerreiro
Aluno do 12º F

O Ideal Masculino, tal como o feminino, tem Porém, foi no séc. XX que os padrões de bele-
evoluído ao longo da história. Infelizmente para za se foram alterando, primeiro ligeiramente e de-
as mulheres, durante centenas de anos, a aprecia- pois num ritmo muito frenético, com tendências
ção deste mesmo ideal foi de certo modo comple- cada vez mais definidas de lugares para lugares e
tamente impensável, devido aos casamentos ar- principalmente de anos para anos.
ranjados que fomos sendo forçadas a aceitar. No
entanto, o séc. XXI trouxe-nos algo delicioso, e  Inicialmente, os anos 50 viram muito o
refiro-me precisamente ao direito a ter opinião. estilo americano de fatos de algodão e tweed em
Sendo assim, não haverá altura mais ideal do que tons sóbrios, com que todos pareciam iguais; Mas
o presente para dissecar com atenção este concei- a década de 50 acabou por ser eternizada pela pre-
to do Ideal Masculino.

O que torna alguém atraente, nomeadamente


um homem, não tem resposta universal ou intem-
poral visto carecer de critérios objetivos e basear-
se maioritariamente no gosto pessoal de cada uma
de nós (ou de cada um). Mas é de facto possível
fazer um apanhado geral das preferências ao lon-
go do tempo e lá chegaremos.

Retomando a ideia inicial do tempo dos casa-


mentos arranjados, a verdade é que mesmo quan- tensão ao ar de jovem rebelde sem causa e
do não decidíamos quem seria o nosso esposo, em “rocker”, sendo uma época que ficou marcada pe-
segredo sempre tivemos poder de escolha em re- lo penteado pompadour, Elvis Presley e James
lação aos nossos amantes. O homem galanteador Dean, for sure.
e elegantemente arranjado da velha guarda seria o  Os anos 60, quando se afastaram das influ-
tipo de sujeito que nos conseguiria conquistar, ou ências de Elvis, foram marcados pela onda hippie,
seja, quem fizesse lembrar Don Juan (O Arquéti- e o visual do homem era predominantemente o de
po do Homem romântico) e mais tarde os galãs de cabelo longo e roupas largas com estampas colori-
Casablanca. das. Valorizava-se o “espírito livre”.
 Nos anos 70, o visual mais descontraído de
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Harrison Ford (Ator que faz de “Han Solo” na sa- seja, indivíduos que apresentam um alto nível de
ga Star Wars) dominou a década; tornou-se popu- masculinidade, confiança e poder continuam a ser
lar o uso dos bigodes e cabelos despenteados por- o tipo de sujeitos escolhidos pelo maior número
que se achava que quantos mais pelos tivesse o de mulheres, por todo o mundo, quando confron-
homem, mais másculo seria e houve o primeiro tadas com a pergunta de quem para si são os ho-
pico de moda unisex, com o surgir do macacão mens mais bonitos.
para homem.
 Por volta das décadas de 80 e 90,
existiram oscilações entre o estilo mais
sombrio e minimalista e a generalização do
men’s sportswear, estilo muito ligado às
influências musicais e de rua, sendo quase
uma competição quem conseguia fazer
mais referências loucas à música através de
penteados, comportamentos e obviamente
José Guerreiro, Beatriz Letras, Pedro Parrado e Beatriz Figueiredo.
dos seus visuais. Mais tarde, quase na vira-
gem de século, a explosão de Hollywood fez che-
gar uma nova onda de beleza clássica que foi re- Em suma, apesar do ideal de beleza masculina
cuperar os antigos ideais do homem polido e galã. ter evoluído de formas notórias ao longo dos sé-
Atores como Johnny Depp e George Clooney, culos, é indiscutível que características relaciona-
deste período de tempo, tiveram um espaço muito das com a masculinidade sempre estiveram pre-
significativo no coração e mente de milhões de sentes e com lugar de destaque aquando da deter-
mulheres pelo mundo fora e até hoje, devido às minação do belo. No entanto, isso tem-se vindo a
suas atitudes e feições claramente distintas e bem alterar, como já fomos capazes de reparar, sendo
apessoadas. que muitas pessoas se têm vindo a afastar da
 Atualmente (e abrangendo todos os anos ‘tradicional’ aparência de masculino e procuram
desde 2000), os critérios do ideal de beleza mas- no parceiro mais traços como sensibilidade e ro-
culino são mais relativos e as mulheres parecem mantismo. Será então o ideal masculino algo que
mais indecisas no estilo de homem que as atrai, esteve definido desde os primórdios das socieda-
tendo sido generalizada a utilização de man buns e des? Ou será apenas uma mera projeção dos dese-
maquilhagem pelos homens, bem como outros jos das mulheres e que tem vindo a evoluir lado a
comportamentos anteriormente considerados mais lado connosco? Tendo em conta esta análise do
femininos. Contudo, o estilo “bad boy” de homens ideal de beleza masculino, cheguem às vossas
como Chris Hemsworth (Ator que faz da persona- conclusões…
gem “Thor” no Universo da Marvel), Channing
Tatum (Ator de Magic Mike), Ryan Reynolds Afinal... porque não?
(Ator que faz de “Deadpool”) e Zé Gostoso, ou
44

Liberdade de expressão é essencial

José Guerreiro
Aluno do 12º F

pletamente ridículo devido à seguinte questão:


“Intolerance of others’ views (no matter how “Quem é que define “discurso ofensivo” e quem é
ignorant or incoherent they may be) is not sim- que o regula?”.
ply wrong; in a world where there is no right or O termo “ofensivo” é completamente subjetivo,
wrong, it is worse: it is a sign you are embar- o que te ofende a ti pode não ser o mesmo que me
rassingly unsophisticated or, possibly, dange- ofenda a mim e vice-versa. Como por exemplo, a
rous.”– Jordan Peterson frase “o feminismo atual além de desnecessário é
contra produtivo para a sociedade” pode ser extre-
Eu não acredito que as pessoas devam viver mamente ofensiva para alguns mas para mim é
numa realidade própria, protegidas de ideias dife- apenas um facto.
rentes, de modo a sentirem-se sempre confortá- Repudio o politicamente correto, porque o vejo
veis nas suas próprias bolhas de pensamento úni- como uma arma para silenciar certos tipo de dis-
co, “safe spaces”, com medo que outras opiniões cursos (muitas vezes usando a justificação de se-
as ofendam. rem ofensivos), e para mim uma pessoa que tente
Eu considero que todas as pessoas devem ser silenciar a oposição é uma pessoa com medo, uma
confrontadas com todo o tipo de ideologias e opi- pessoa com medo que as ideias da oposição pos-
niões, especialmente nas escolas e universidades, sam ser superiores às dela.
Não me interessa se és um socialista ou um co-
munista, apesar dessa filosofia política ser respon-
sável por mais sofrimento do que qualquer outra
filosofia política na história da humanidade, eu
não quero saber se és um anarquista ou um fascis-
ta. Eu acredito que toda a gente deva poder ex-
pressar as suas opiniões por mais nobres ou ridícu-
las que sejam.
Considero por isso que a melhor forma de ven-
cer más ideias não é silenciá-las mas sim apresen-
O autor com Miguel Santos e Gonçalo Costa na 8ª sessão.
tar ideias melhores.
pois as mesmas não devem servir apenas para Na minha opinião, a liberdade de expressão
transmitir habilidades mas também para alargar apenas deve ser limitada em casos que a intenção
os nossos horizontes. não é de transmitir uma ideia, uma opinião ou um
A meu ver proibir “discurso ofensivo” é com- ponto de vista, mas onde apenas tem um objetivo
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malicioso. Como por exemplo: a fraude, difama-


ção, ameaças de violência física, incentivo de vio-
lência, violação de direitos autorais e outras ações
do género.
Em suma, eu acredito que a liberdade de ex-
pressão é um dos pilares fundamentais da nossa
civilização ocidental e que qualquer supressão do
mesmo em nome de proteger as pessoas de ideias
“ofensivas” é desnecessária e perigosa.
E vocês no que é que acreditam?

O Ensino Português

Diogo Vitorino
Aluno do 11º D

Hoje em dia, a escola e os nossos métodos de melhor maneira de começar a vida social da sua
ensino são pouco contestados na praça pública, criança, seja, na maior parte das vezes, por moti-
vistos como algo que acaba por ser inevitável, vos profissionais ou até mesmo por opção própria.
uma espécie de come e cala, mas será que estamos Talvez até não seja a pior, porém todos nos esque-
a ser ensinados da melhor maneira? Será que este cemos que com isso obrigamos os filhos desde
é o caminho indicado para formar bons profissio- cedo a viverem uma espécie de vida de trabalha-
nais mas acima de tudo bons seres humanos? dor. Se sou contra os infantários? Não, claramente
Atualmente, logo por volta dos 3/4 anos, os que não. Mas talvez comece um pouco demasiado
nossos pais são levados a crer que o infantário é a cedo a nossa “mecanização”. Porém, este nem é o
ponto que quero focar mais, quero apenas que sir-
va de pequena lembrança para o que vem a seguir.
Bem, começando no que realmente interessa e
no que me quero focar, o ensino do 1º ao 12º ano.
Mais ou menos por volta dos 6 anos começamos,
obrigatoriamente, a nossa vida escolar. Vamos
para a escola e começamos a aprender o abecedá-
rio, a ler, a escrever, a fazer contas, a conhecermo-
nos a nós próprios. Em suma, começamos a adqui-
rir aquilo a que chamamos de bases. Até aqui tudo
bem. O problema é quando nos deparamos com a
maneira como são introduzidas essas bases. De
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uma maneira rápida e muitas das vezes pouco cui- de um grande dia, talvez um dos dias mais impor-
dada. Se lhes falta capacidades cognitivas para tantes da vida desse ser humano. O dia do exame.
aprenderem essas matérias? Não. Se lhes falta ca- O dia que te define, que define se entras na facul-
pacidades cognitivas para aprenderem as matérias dade que queres, no curso que queres (ou então
à velocidade a que têm de ser dadas? Sim. Do que que te dizem que queres). Ou seja, passamos 2 a 3
serve cumprir o programa todo até ao fim, ou seja, anos a levar com matéria que muitas das vezes
dar todas as “bases” ditas necessárias para o que nem nos interessa para tudo se resumir a uma ma-
vem a seguir, se não são de facto aprendidas. São nhã. “Stora, porque damos isto?” “Porque sai to-
apenas dadas. E será que as bases estão até bem dos os anos no exame.” “Oh stor, isto é importan-
definidas? Será que tudo com que se ocupam a dar te.” “Claro, está na matriz do exame.” “Para que é
na primária não se poderia dar posteriormente? que eu quero saber disto?” “Porque é essencial
Muitas das vezes, nem há tempo para essa mesma para o exame”. Ou seja, a resposta é sempre a
matéria ser consolidada. Maiores consequências mesma. O exame. Engoles os livros e no dia dos
disto? Não são aprendidas como deve de ser as testes/exame vomita-los. E o que aprendeste no
“verdadeiras” bases. E isto é um efeito bola de meio disto tudo? Aprendeste a decorar. Boa, ago-
neve. ra és um bom decorador. Estás apto para orador.
Vamos agora saltar já para o secundário. Sim, Talvez este seja o emprego ideal para todos nós.
o tempo escolar onde de facto tudo começa a con- Depois disto, será que o método de entrada pa-
tar para aquilo que será o nosso futuro. A altura ra as faculdades é o mais indicado para formar
onde se escolhe para onde se quer ir, definir a pri- bons profissionais?
ori um objetivo que nos vai guiar até à entrada Deixo ao vosso critério.
para a faculdade. Maior demonstração que isto
tudo falha? As centenas de pessoas que desistem
do curso logo no primeiro ano porque percebem
que aquilo não é para eles. Culpa do ensino? Em
grande parte, sim. E porquê culpa do ensino? Por-
que o ensino atualmente ocupa-se exclusivamente
em despejar toneladas de matéria obrigatória, em
vez de cumprir uma das suas missões, que era gui-
ar o aluno até á sua vida adulta. Em vez de desco-
brir e potenciar as capacidades de um dado aluno,
enchem-no de grandes quantidades de matéria es-
tereotipada que é levado a crer ser necessária para
o seu trabalho futuro, um trabalho que talvez nem
sequer seja descoberto, mas sim incutido, como se
fôssemos máquinas prestes a serem colocadas na
sua nova fábrica. E o porquê disto tudo? Por causa
47

A palavra do autor não é lei

Daniel Narciso
Aluno do 11º H

Eu, um dia, estava a ver um vídeo sobre uma verso de um outro livro do mesmo autor. Um bom
teoria do Harry Potter. Ela propunha que o Dum- exemplo é do nosso amigo Sonic the Hedgehog
bledore teria criado um horcrux. Agora, não se que teve tantos "reboots" que é difícil discernir se
preocupem, não vou estar a explicá-la, mas vou todos os jogos fazem parte da mesma história
dizer que estava muito bem construída ao ponto (que, já agora, não fazem). No entanto, eu sinto
de achar difícil não ter sido intencional. No entan- que focando-se tanto se algo é "cannon" ou não
to, J.K Rowling, a autora do livro, quando lhe foi pode tornar a nossa perceção de arte muito fecha-
apresentada esta teoria, mostrou "grande descon- da e inflexível.
forto" e declarou que não tinha sido de todo inten- Contextualizando esta opinião, eu sou um alu-
cional da parte dela as pessoas chegarem a essa no de Literatura Portuguesa e obviamente já ana-
conclusão. Quando tomaram nota disto, os criado-
res desse vídeo basicamente admitiram derrota e
mandaram a teoria para o lixo.
Quando descobri isto, fiquei com um sabor
amargo na minha boca para dizer o mínimo. Aos
meus olhos, a teoria fazia completo sentido, sob
quase todos os ângulos. Claro que haveria algu-
mas incongruências, mas há coisas, nessa mesma
história, que são consideradas "aprovadas" pela
O autor com Diogo Santiago na sessão sobre Igualdade de
autora e que até têm mais falhas. género.

Quão mais ruminava sobre isto na minha cabe-


ça, mais eu me perguntava, porque que a palavra lisei algumas obras, mesmo se muito levemente.
do autor é vista como palavra de Deus? Que, se E se há algo que posso dizer com a absoluta certe-
ele disse que era assim, então tem de ser assim, za é que a maioria da análise que nós fazemos
sem espaço para dúvidas? nessa disciplina e que muitos críticos fazem tam-
Aposto que muitos iriam concordar com essa bém não corresponde nem de perto nem de longe
conclusão. Hoje em dia, é muito propagado a va- à intenção do autor. Nós, humanos, gostamos
lorização do "cannon", tanto que algo que saia muito de arranjar respostas para tudo, tanto que
dessa designação pode ser menosprezado imedia- até chegamos a ideias que o próprio autor nem
tamente. Para ser claro, eu acho que essa referên- tinha pensado em primeiro lugar.
cia pode ser útil, como, por exemplo, para perce- Um bom exemplo é Hideaki Anno, o criador
ber se uma nova história se insere no mesmo uni- de uma das séries de anime mais aclamadas e in-
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fluenciadoras, Neon Genesis Evangelion. Ele ex- cessariamente inferior, neste caso, à do autor, é só
plicitou em entrevistas que a grande maioria da diferente.
série não tinha sentido e que era inútil tentar en- É como... parkour! Uma cidade não foi feita
contrar algo nela. Mas essa noção, para mim e para ser saltada por todo o lado, nem para as suas
muitas outras pessoas, é quase impossível de acei- paredes serem obstáculos para escalar, ela foi fei-
tar. Evangelion está repleto de simbolismo ta para acomodar cidadãos numa sociedade e para
(maioritariamente cristão) e significado nas suas outras razões pouco importantes agora. No entan-
cenas, personagens, etc, etc... Muitos autores di- to, eu ouço de várias pessoas que isto pode ser
zem coisas parecidas às dele, pois a escrita deles considerado uma arte, algo para ser valorizado.
vem "do coração" ou qualquer outra razão pareci- Então eles deviam parar por não ser o plano origi-
da, e não pensam no que escrevem, pelo menos nal da cidade? Não, pois ela é pública, eles podem
não metódica e planeadamente. Muitas vezes até arranjar a sua forma de utilizar o que tem da for-
só escrevem para eles próprios, sem pensar no que ma como eles veem melhor. É a mesma coisa que
podem transmitir aos leitores. alguém fazer uma teoria num livro que eles pos-
sam comprar e perceber sem lhes ser imposto por
leis.
Mas se tivesse de dizer a maior razão para não
gostar da ideia que a palavra do autor é a lei é
porque desvaloriza aquilo que eu aprecio mais na
arte, a forma como ela toca nas pessoas de formas
tão diversas. Ver como alguém se apaixona por
Daniel com Fábio Pires e Pedro Amaral no debate sobre um livro, música, filme ou qualquer outra forma
mudança de sexo.
de arte, enquanto eu posso nem ter prestado aten-
Se nem pensaram na forma de como demons- ção à mesma coisa, ou perceber como um amigo
travam o que escreviam, então porque é que nós meu gosta do mesmo programa que eu gosto por
temos de tentar pensar na perspetiva deles? Por- razões completamente diferentes fascina-me. Eu
que é que não podemos chegar às nossas conclu- diria que é, de algum modo, a magia da arte.
sões que vem do nosso "coração", da nossa Depois disto tudo, é um pouco fácil perceber
"alma", como eles mesmo fizeram? Se a perspeti- que, infelizmente, não sou o melhor a argumentar
va deles era suposto ser a única que pode ser vista e se tu não concordares comigo não faz mal, por-
como a verdadeira, eu perguntaria porque é que que o meu motivo para escrever este artigo é para
publicaram o seu trabalho no primeiro lugar. instigar debate, não mudar a opinião de alguém
Quando um autor publica e partilha uma obra, ela (isso é muito mais difícil). Se há algo que eu gos-
vai ser lida por imensas pessoas que tiveram expe- taria que tirasses disto tudo é que pensasses no
riências completamente diferentes, parando de ser, assunto, falasses com pessoas sobre ele e chegas-
no processo, a propriedade do autor, para se tornar ses às tuas próprias conclusões. No entanto, não te
do público (que compre o produto obviamente). A vou forçar a fazeres isso, porque seria muito iró-
forma como um leitor interpreta a obra não é ne- nico depois de ter escrito isto tudo, não achas?
49

A guerra colonial, o fator decisivo para a


conquista da democracia

Alfredo Afonso
Professor de História

A partir dos anos 60,com as organizações dos


movimentos de libertação participando na luta ar-
mada, iniciou-se a guerra em Angola, em Moçam-
bique e na Guiné. É facto que a ONU mantinha
uma colaboração significativa nas negociações
que diziam respeito à descolonização, mas quando
a Metrópole também foi convidada para nelas
participar, houve um silêncio sepulcral por parte
do governo de Lisboa assim como uma forte re-
pressão política, com maior relevância nas coló-
nias portuguesas, onde a PIDE assumia um papel
de destaque, com o objetivo de reprimir tanto os
militares portugueses, que já tinham consciência
da injustiça da guerra, como os movimentos de
libertação. Nas vésperas do 25 de abril de 1974,
Marcelo Caetano foi convidado pelo MPLA e pe-
lo PAIGC, a fim de negociar acerca das colónias
portuguesas em África. Estas negociações decor-
reram em Londres e em Roma, mas as tentativas
bloquearam logo que foi colocada a questão do
direito à independência. Algumas notícias desses
encontros podem induzir em erro, deixando a

O professor Alfredo Afonso na sessão sobre o 25 de abril. Ao


lado, sempre interventivo, no colóquio com a arquiteta Helena
Roseta.
50

e nos vários teatros de operações, decidiu pôr termo


à guerra, no dia 25/04/74, com a adesão espontânea
da população. Este movimento constituiu a génese
da democracia, porque, quando o governo transitou
do poder militar para o civil, assistiu-se às primeiras
eleições livres em 1976, tendo por base a legitimi-
dade do voto para a Assembleia Constituinte. Ter-
mino este breve artigo, fazendo menção ao facto de
que tivemos uma revolução atípica, praticamente
sem derramamento de sangue. O 25 de abril, ao
romper as cadeias da censura e ao abrir as portas à
liberdade, deu azo a que os temas da guerra coloni-
al e da descolonização se revelassem como preo-
cupações fundamentais dos portugueses. Portugal
encontrava condições para entrar, finalmente, no
processo tão desejado.

ideia de que, afinal, a abertura das portas da ne-


gociação estava já em marcha com o marcelis-
mo e que teria sido o 25 de abril que a inviabili-
zara, mas a verdade é exatamente o contrário.
Essas tentativas surgiram tardiamente, pressio-
nadas pela deterioração da situação militar, pela
crescente agitação na Metrópole e pela própria
emergência do Movimento das Forças Armadas
(MFA). A partir dos anos 70, assiste-se à cons-
ciencialização de largos setores da população,
perante as consequências da guerra. Por seu tur-
no, os soldados perderam o ânimo para comba-
ter contra os movimentos de libertação, apeli-
dados de «terroristas». As mães manifestavam a
sua preocupação acerca do possível retorno dos
seus filhos, as namoradas cansavam-se de espe-
rar... Um grupo de 400 oficiais dos três ramos
das Forças Armadas, com funções na Metrópole Três expressivas fotos da professora Fortunata Beatriz na pri-
meira sessão dinamizada no ano passado pelo professor Luís
Braga.
51

A unilateralidade da mentalidade técnica

Joaquim Narciso
Professor de Filosofia
Na nossa época, para qualquer problema, pro- nos campos de extermí-
cura-se encontrar uma solução técnica, desde as nio, da ativação e limpeza
menores, como uma cirurgia estética ou uma in- das câmaras de gás, da
festação doméstica, às maiores, como medidas recolha dos despojos dos
para lidar com o aquecimento global ou com a cadáveres (cabelo, dentes
crise dos refugiados. Paradoxalmente, a maioria de ouro, etc.) e do funcio-
não parece reparar que muitos desses problemas namento dos fornos cre-
que se busca resolver com soluções técnicas fo- matórios, no holocausto
ram provocados por soluções técnicas. E a princi- judeu, como uma espécie
pal razão para nem repararem nisso é o facto de de linha de montagem da
considerarem que o conteúdo dos problemas e das morte. Poderá ter Heidegger alguma razão? Matar
soluções não é determinado pela técnica, mas pe- judeus era uma prática esporádica mas recorrente
las ideologias, posições, interesses, etc. que ape- desde a Europa medieval, mas a banalidade do
nas usaram a técnica. A técnica é encarada como mal de que fala a discípula de Heidegger, Hannah
um conjunto de meios que está à disposição do Arendt, a propósito de Eichmann, só é possível na
homem para levar a cabo os seus fins, como algo era da técnica. Muitos são
em si mesmo neutro cujas más utilizações radicam os filósofos do século XX
em grupos ou doutrinas perniciosas cuja natureza (Spengler, Jünger,
nada tem de técnico. Embora se admita que o po- Horkheimer, Adorno, Ha-
der de movimentos pérfidos possa ser potenciali- bermas, Marcuse, Gasset,
zado pela técnica, mesmo aí a responsabilização é etc.) que identificaram na
orientada para esses movimentos e suas ânsias técnica, na ciência-
ilegítimas de dominação e não propriamente para técnica, na tecnologia,
a técnica. uma estrutura de pensa-
Um dos maiores pensadores do séc. XX, Mar- mento de cariz ideológico Hannah Arendt (1906-1975)
tin Heidegger (1889-1976) foi muito criticado, mais fundamental que qualquer ideologia e aca-
especialmente tendo bando por determinar certas características que as
em conta o seu bem várias ideologias têm e não teriam não fosse esse
conhecido passado modo de pensar.
nazi, por declarar, em Além disso, a maioria dos que reagiram não
1949, logo após a entendeu, de todo, o que Heidegger pretendia di-
Guerra e a “solução zer com “ser, em essência, o mesmo”. Tal não
final”, que a produ- admira, visto a forma predominante de entender
ção de cadáveres nas da nossa época ser ela própria técnica. Heidegger
câmaras de gás e considerou que a nossa era é a era da técnica, no
campos de extermí- sentido de ser a forma como atualmente o ente se
nio seria, em essên- revela. A própria essência da técnica não é algo
cia, o mesmo que técnico, mas aquilo a que ele denominou Gestell,
uma agricultura uma palavra já dificilmente traduzível no seu sen-
transformada numa tido ordinário mas a que ele dá um outro sentido
indústria de alimenta- mais fundamental. A palavra tem o sentido de ar-
ção mecanizada mação, estrutura, moldura, esqueleto, e esse senti-
(assim como também o bloqueio de países até à do está presente no sentido heideggeriano mas
morte pela fome e a produção de bombas de hi- como uma forma coletiva de experienciar os entes
drogénio). A maioria tendeu a considerar esta como disponíveis para e pelo homem, disponíveis
abordagem como uma forma de desculpabilização para a sua “usura” (vernutzung). Tal esquematis-
de ideologias criminosas, equiparando as linhas de mo pode ser vislumbrado na logística de uma loja,
montagem da Ford à ordenação cronométrica dos nos projetos de engenharia de um empreendimen-
transportes ferroviários, da gestão de movimentos to, no organigrama de uma instituição, no merca-
52

do de valores mundial ou nas planificações de causto judeu é único, mas, infelizmente, os tempos
uma escola ou de um professor, mas as suas raí- da modernidade técnica têm-nos dado demasiados
zes são muito mais fundas e a sua origem e essên- crimes únicos que revelam uma desumanização
cia permanecem desconhecidas para os próprios que Heidegger justamente atribuía ao domínio da
técnicos, desconhecimento que é afinal uma das técnica. O’Brien mostra-nos como quer no diário
suas características. Este artigo não pretende se- de Höss (comandante de Auschwitz), quer na cor-
quer comentar a profunda análise heideggeriana respondência de engenheiros e oficiais do campo
da essência da técnica, mas apenas aflorar o sig- não há manifestações de ódio racial, afirmações
nificado do domínio da mentalidade técnica* no ideológicas ou considerações morais, tudo se con-
nosso planeta, o que se pode considerar, quanto centrando na efetivação do objetivo para que tra-
muito, um subproduto da essência da técnica. balham em termos de eficiência e produtividade. A
Um dos aspetos que levou à reação negativa à única manifestação quase moral é a do alívio ma-
declaração de Heidegger, sobretudo por parte de nifestado por Höss quando verificaram a eficácia
judeus, foi a defesa do caráter único do Holocaus- “misericordiosa” do Zyklon B: “Fomos todos sal-
to, contrariamente à banalização que julgavam
estar implícita nas palavras do filósofo. Na verda-
de, não estava. É claro que ele tentava mostrar
que a técnica dominava todo o planeta desde os
aspetos mais banais aos mais extraordinários. De
qualquer forma, quanto a efeitos destruidores,
poder-se-ia questionar até que ponto a agricultura
intensiva não acabará por ter a longo prazo efei-
tos devastadores. Claro que a ocorrência da
“solução final” é única como o são todos os cri-
mes hediondos, mas na sua diferença há outros
trágicos exemplos de crimes massivos: a matança
absurda, durante anos, de milhões de soldados na
frente francesa e flamenga da Grande Guerra para
avançar e recuar sem nexo alguns metros; a cole- vos desses banhos de sangue e as vítimas seriam
tivização forçada dos campos e as purgas estali- poupadas até ao último momento. (p. 36)” Mas,
nistas; o genocídio arménio; as terríveis fomes apesar da descrição posterior dos casos traumáti-
resultantes da incompetência maoísta; os crimes cos até à loucura e ao alcoolismo entre os militares
de Pol Pot; o genocídio tutsi, etc. O próprio Hei- das SS encarregues das anteriores matanças, perce-
degger, em correspondência com o seu antigo be-se que a principal preocupação é aqui a da efi-
aluno, Herbert Marcuse, compara o genocídio cácia. De qualquer forma, até se pode admitir que
judeu com a deportação dos alemães de leste após haja, nessas palavras, expressão de verdadeiros
a segunda guerra. Marcuse considerou a compa- sentimentos, mas subordinados a uma mentalidade
ração totalmente infeliz e a intencionalidade siste- técnica de eficácia burocrática que os torna facil-
mática da matança nazi não parece, de facto, estar mente suportáveis tendo em conta que apenas exe-
presente nessas deportações, mas a verdade é que, cutavam a sua função. Se se pode suspeitar da ho-
de várias formas, terão morrido perto de 2 mi- nestidade de Eichmann no seu julgamento, estes
lhões de pessoas nessa “recolocação”. Porém, documentos do tempo do domínio nazi não deixam
Heidegger bem poderia fazer uma comparação dúvidas quanto à banalidade do mal.
com o extermínio apenas algumas décadas ante- Ora, a dificuldade de a generalidade das pesso-
rior de tantos povos índios perpetrado pelos norte as perceber a abordagem heideggeriana reside na
-americanos, seguido de uma desculturação quase dificuldade de perceber que a mentalidade técnica
total dos restantes através de diversas práticas não é algo neutro, nem algo inevitável para fazer
verdadeiramente inumanas, tudo em nome do alguma coisa. Aristóteles colocava a τέχνη no âm-
progresso e da civilização e não de qualquer fana- bito do conhecimento “poiético” (de ποιέω, faço,
tismo religioso como o que animou as nossas his- produzo, raiz da palavra poesia) como conheci-
pânicas “Descobertas”. Ao mesmo tempo que mento das formas de transformar a realidade. As-
condenavam os nazis, os norte-americanos não se sim concebido, não tinha qualquer proeminência,
coibiam de continuar a fazer westerns que legiti- antes pelo contrário, e distinguia-se dos conheci-
mavam a sua política anterior de conquista, exter- mentos teórico (metafísica e ciências da natureza)
mínio e deportação, como se se tratasse de um e prático (ética e política). De facto, a técnica atual
empreendimento admirável e glorioso. O holo- nem abrangia todo o universo da τέχνη, onde se
53

encontrava também tudo o que hoje concebemos tivesse. É possível que também a ascensão da bur-
como belas-artes, literatura, artes liberais, despor- guesia, assim como a Reforma, como defendia
to, etc., visto ser entendida como pertencente ao Weber, estivessem na origem deste novo ideal. O
domínio da ποίησις. Porém, esta ποίησις era en- negócio antes repudiado como atividade vil e, em
tendida pelos gregos de forma bem diversa da certos domínios, restringida a grupos marginais era
moderna fabricação, como atestava Platão no a natureza da nova classe individualista e desenrai-
Banquete e como Aristóteles mostrava na sua zada, à qual se deveu, em boa medida, o domínio
conceção causal, não atribuível apenas ao domí- imperial da Europa sobre o planeta. Porém, a visão
nio da τέχνη, mas inerente à própria φύσις, através da ciência como técnica era inteiramente diversa
dos quatro modos de advir (causas material, for- de tudo o que existiu antes, tendo sido alicerçada
mal, eficiente e final) que apenas no seu conjunto na redução do mundo físico a um objeto matemáti-
desvelam o ente. Este desvelamento correspondia co de que a conceção cartesiana da res extensa foi
à produção no sentido de tornar patente o escon- a maior expressão e um momento fundamental pa-
dido, fosse pelo ato artístico, fosse pelo ato da ra todo o porvir da mentalidade técnica. A realida-
φύσις que Heidegger tanto deplorava que tenha- de física toda passou a ser concebida como um
mos deixado de compreender senão pela tradução fundo abstrato à disposição da racionalidade mate-
latina de natureza. Este desvelamento é o que os mática que podia usá-lo sob a forma de recursos e
gregos denominavam ἀλήθεια (palavra que tradu- transformá-lo como bem entendesse. Na nova ci-
zimos por verdade e que é composta por um pre- ência, mesmo na sua versão mais pura e abstrata,
fixo privativo e pela palavra que designava o es- como sublinhava Husserl em relação a Galileu, a
quecimento). Esta τέχνη que produzia no sentido busca da fórmula partia já de uma intencionalidade
de um dos modos do desvelamento, da verdade, “prática” (no sentido técnico que cada vez mais
não corresponde de todo ao entendimento moder- dominará a linguagem) implícita e prévia que se
no da técnica e ainda menos à sua essência. realizava na capacidade de previsão que, posterior-
Ora, a partir do início do séc. XVII, emerge mente, era aplicada a todos os casos possíveis.
um novo ideal de ciência. Os seus percursores Tal redução da ciência à finalidade técnica glo-
poderiam divergir em muitos aspetos: um podia bal, no novo sentido da técnica moderna como ver-
julgar a nova ciência experimental (Galileu), ou- dadeira provocação (herausfordern – Heidegger)
tro indutiva (Bacon/Hobbes), outro dedutiva da natureza, só se consolidou pela gradual rejeição
(Descartes), mas todos se inclinavam para um de toda a compreensão não operatória, não instru-
ideal de ciência técnica que permitisse mental da realidade. As tradicionais causas for-
“conquistar o mundo pelo trabalho” (Bacon, mais e finais foram banidas de toda a explicação
Novum Organum, Distributio operis) e nos tor- natural e a própria natureza foi degradada, através
nasse “senhores e possuidores da nature- do mecanicismo, a uma entidade passiva em que
za” (Descartes, Discours de la méthode, VI). Em- toda a aparente animação se deveria tentar explicar
pelas colisões diretas através de causas eficientes,
onde só cabia responder ao “como?”, deixando
para sempre por responder “o quê?”, o “para quê?”
e, sobretudo, o “porquê?”. Se Descartes libertou a
mente de tal mecanização, muito embora a redu-
zisse a um sujeito desenraizado livre, no seu indi-
vidualismo solitário, para pôr e dispor as represen-
tações geométricas a que reduziu os corpos como
entendesse, rapidamente, ainda entre os cartesia-
nos (Malebranche), tal facto foi menorizado pela
redução da clareza e distinção ao conhecimento
físico. De qualquer forma, essa liberdade cartesia-
na da vontade de dispor o mundo entendido como
René Descartes (1596-1650) conjunto de entes da res extensa pode ser conside-
rada a verdadeira raiz da essência da técnica que
bora se possa dizer que esta conceção tem origens progrediu segundo o destino da metafísica moder-
na conceção judaico-cristã do mundo, esse mun- na, passando pela autonomia da vontade de Kant e
do em que Deus cria o homem para dominar toda pela vontade de poder de Nietzsche ou, como as
a vida, dificilmente se poderia aceitar, em tal con- interpretou Heidegger, pela vontade de vontade.
ceção, que o homem alterasse toda a criação dada Tempo chegaria em que se tentaria reduzir a pró-
por Deus conforme os interesses e caprichos que pria mente ao mesmo mecanicismo da realidade
54

física, muito embora se pudesse já não ousar re- lidades primárias dos corpos (como a extensão),
duzir tudo a uma mecânica, mas não deixando de defende essa gravidade como causa de simplicida-
tudo reduzir à eficiência física. de insuperável, recusando qualquer possibilidade
Um momento decisivo para o triunfo da razão ou necessidade de explicação da mesma. Ou seja,
instrumental e, com ela, da mentalidade técnica, num rumo que se tornará bem caro à mentalidade
pouco notório porventura para um Heidegger técnica, recusa a própria questão como destituída
centrado nas grandes visões do mundo metafísi- de sentido, apesar da óbvia incompreensibilidade
cas, mas que não deixa de ser o início da realiza- de como os corpos podiam agir uns sobre os outros
ção da mais inconsciente das metafísicas na es- a distâncias gigantescas através do espaço vazio. É
sência da técnica, ocorreu a quando da publicação verdade que já antes muitos filósofos naturais se
da 2ª edição dos Principia de Newton. Estou a tinham oposto à necessidade de encontrar respos-
referir-me ao prefácio de Roger Cotes (1682- tas metafísicas sistemáticas para poder resolver
qualquer questão particular de física ou química.
Assim se pode ler em muitas passagens de Boyle e
toda a Royal Society nasce como um verdadeiro
projeto de filosofia experimental, pondo de lado as
disputas metafísicas. Mas nenhum rejeita que essas
questões possam ser postas e tenham sentido ou
que se possam construir sistemas.** O que rejei-
tam é que só se possam dar respostas particulares
na dependência de respostas metafísicas. Cotes,
porém, corta o nó górdio negando que haja questão
sequer que faça sentido e essa foi a atitude que fi-
cou para a posteridade newtoniana seguir, fazendo
lembrar a expressão que Heidegger utilizava para a
técnica moderna: “esquecimento do esquecimento
do ser”. A partir daí, tudo o que não permitisse
uma resposta operativa é renegado como sem sen-
tido, muito embora cada noção fundamental que se
utilizava tivesse um originário metafísico*** que
simplesmente era ignorado.
1716) a quem já chamei, num trabalho anterior, o Regressando ao projeto original identificado em
primeiro cientista normal newtoniano (de acordo Bacon e Descartes, à medida que se dessacralizava
com a terminologia de Kuhn) mais com base na o real, cada vez mais o homem se via como um
correspondência com Newton, onde não cessava verdadeiro Deus que tinha o conjunto da realidade
de tentar atingir maior rigor nas medições e nos à sua disposição para criá-la e recriá-la de acordo
cálculos, do que neste texto. Estava em causa o com os seus desejos. Ao contrário do que se supõe,
tema da causa da gravidade universal, tema de a revolução industrial não foi a causa mas o efeito
discussão intensíssima desde a publicação origi- desta mentalidade, muito embora a tenha tornado
nal dos Principia, mas que já fora antecedida de então cada vez mais generalizada e popular. É pro-
outras discussões e outras conceções. Nas suas vável que se possam encontrar origens anteriores
obras publicadas, Newton suspende sempre o juí- desde o aparecimento do trabalho assalariado em
zo acerca da causa da gravidade, com exceção da manufaturas italianas na Renascença, mas o traba-
hipótese etérea que avança, em clara resposta às lho regulado rigorosamente pelo tempo e produti-
polémicas com Leibniz, na 2ª ed. inglesa (ou seja, vidade será a marca distintiva da regulação técnica
3ª ed.) da Ótica. Sabe-se, porém, através de vá- da industrialização mecanizada, através da qual se
rios outros textos de Newton, que a questão sem- levará a cabo, com disciplina militar (ela própria
pre o preocupou, o estimula, após a 1ª ed. dos regulada tecnicamente nesta época), a provocação
Principia, a sustentar a gravidade na direta ação e da natureza. Como os soldados das grandes guer-
desígnio divino, acabando por admitir a possibili- ras, os trabalhadores eram vistos como meras pe-
dade referida de entidades intermediárias. Porém, ças substituíveis da engrenagem que visava tornar
nunca considerou que a busca da causa da gravi- alguns homens donos e possuidores da natureza.
dade fosse estéril ou que a gravidade fosse uma Ainda na viragem do séc. XIX para o séc. XX,
propriedade essencial dos corpos. Cotes, porém, perderam a vida nas duas tentativas de construção
antecipando o rumo da futura ciência newtoniana, do Canal do Panamá cerca de 30 mil trabalhado-
partindo da afirmação da gravidade entre as qua- res. A primeira e mais mortífera tentativa (a fran-
55

cesa) não falhou devido às baixas, mas devido à específica, por exemplo, para o discurso metafísi-
falência financeira do projeto. A desumanização co ou poético, mas que exatamente se esgotava
da industrialização (a reificação do homem e das nessa especificidade e não poderia ser considerada
suas relações) era e é sua característica essencial por todos aqueles que cuidavam do mundo. Só o
civil observável nas condições dos trabalhadores pensamento técnico tinha e tem validade absoluta,
sempre que não houve ou não há um movimento transversal a todos os domínios.
sindical suficientemente forte. Tal desumanização É verdade, como também sublinha Foucault,
considera não só a totalidade da natureza, mas que, a partir do séc. XIX, surgiram linhas de pen-
também a totalidade da humanidade, como fun- samento (com Schopenhauer, Marx, Darwin, Nie-
dos à disposição da apropriação técnica, como tzsche, Saussure e Jakobson, Freud, Lévi-Strauss,
recursos suscetíveis da “usura” global da nature- etc.) que procuraram romper a superfície das re-
za. presentações, tentando indagar as fontes pré-
representativas das próprias representações. Mas a
verdade é que, dessas linhas, as que se mantiveram
ativas acabaram por ser rapidamente transforma-
das em técnicas superficiais, como as gigantescas
(e criminosas) técnicas de engenharia social mar-
xista-leninista ou as técnicas terapêuticas psicana-
líticas rapidamente transformadas numa forma de
viciação burguesa. Os aspetos mais interessantes
dessas linhas de pensamento tendem ou a ser es-
quecidos, ou a ser banalizados, ou a ser rejeitados
por correntes mais recentes que se voltam a corres-
ponder completamente às formas mais superficiais
da mentalidade técnica. No âmbito das perturba-
Michel Foucault (1926-1984) ções psíquicas, assistiu-se a uma multiplicação de
diagnósticos muitas vezes identificadas apenas pe-
Foucault considerou que o espaço ou campo los sintomas (como tantas vezes se fazia até ao iní-
epistémico da Idade Clássica (sécs. XVII-XVIII) cio do séc. XX, multiplicando as fobias ou as ma-
era o da representação e este campo acabou por nias pelos objetos dos mesmos) ou estabelecendo
ser território especialmente fértil da mentalidade as causas da forma mais superficial que possa fa-
técnica. O que diferencia a mentalidade técnica zer lembrar a Idade Clássica, por associação
de mentalidades anteriores é o facto de conceber (quando não analogia) de representações, por
todo o tipo de realidade como uma superfície sem exemplo, estabelecendo uma associação entre uma
profundidade, onde pode recompor como enten- desordem, uma perturbação de aprendizagem ou
der as representações e as relações entre elas. Isto um comportamento e uma característica fisiológica
relaciona-se, evidentemente, com o pensamento ou até somente a presunção de uma determinação
unidimensional identificado por Marcuse, mas o genética genérica, ignorando todo o estudo etioló-
que mais impressiona ao se apreciar os exemplos gico mais aprofundado, incluindo os dados já exis-
da mentalidade técnica é a sistemática e obsessiva tentes e dificilmente contornáveis a respeito de
unilateralidade dentro desse pensamento unidi- determinações sociais, mesmo que da primeira in-
mensional. Tal unilateralidade que quase não re- fância. Ideologias políticas e interesses industriais
quer reflexão foi especialmente potencializadora parecem ser mais decisivos que a verdadeira inves-
das várias fases da industrialização, do desenvol- tigação. Nas ciências sociais e humanas, multipli-
vimento da economia de mercado, dos ideais de cam-se estudos baseados em instrumentos como
progresso civilizacional, do consumismo (efetivo inquéritos que parecem ser incapazes de se questi-
nos países industriais, desejado nos restantes) e onar até ao nível de senso comum, ignorando aqui-
das diversas formas de globalização. Em todos lo que qualquer pessoa sabe mesmo que o não di-
estes domínios e em muitos outros, a mentalidade ga, que há assuntos em que o que seria inusitado
técnica estava sempre presente para apresentar era alguém dizer a verdade. A esta falta de sentido
como indiscutíveis soluções que se apresentavam crítico, junta-se uma constante predeterminação
neutras, pragmáticas, sem ideologia. Sempre que ideológica dos resultados das investigações através
se avançava com um argumento técnico era para de pressupostos constantemente não questionados.
parar com a discussão moral, política, estética, Na maioria dos casos, porém, os envolvidos go-
filosófica, existencial, etc. Por vezes, magnani- zam de uma ignorância abençoada da intencionali-
mamente, até se podia reconhecer uma validade dade do que estão a fazer, apenas aplicando mode-
56

los fornecidos, só lhes importando é que tudo os seus pequenos puzzles e vigiava constantemen-
funcione, não vendo, aliás, grande problema, se te a ortodoxia, não tanto de doutrinas mas de práti-
se sentir a necessidade, em forjar dados, supondo cas, de forma a não tolerar qualquer consideração
que o fazem por boas razões. Quem tem consci- de qualquer pensamento inconforme às técnicas
ência da intencionalidade ideológica, beneficia da analíticas. É verdade que, sobretudo partindo de
cegueira da unilateralidade técnica para poder desenvolvimentos na lógica modal, se voltaram a
levar a cabo os seus planos e o único impedimen- tratar, na filosofia analítica, assuntos metafísicos e
to são outras intencionalidades que utilizam mais até teológicos, mas sempre tecnicamente subordi-
ou menos os mesmos procedimentos em sentido nada a uma abordagem atómica e desenraizada
diverso. Aliás, todo o mundo do mercado e do que, aliás, permitiu apresentar as mais disparatadas
consumo beneficia do banho de ingenuidade em crenças religiosas como tecnicamente racionais,
que parecem estar submergidas as consciências, um pouco como a escolástica tomista procurava
supondo tudo à partida como verdadeiro e ade- garantir a possibilidade racional das verdades de
quado, desde os rótulos dos produtos às declara- fé. Embora se considere, devido ao seu rigor técni-
ções publicitárias, mas tudo pela adesão imediata co formal, a verdadeira realização da filosofia, a
sem passar por qualquer pensamento articulado. filosofia analítica reduziu a filosofia a um conjunto
de ínfimos problemas desarticulados, perdendo
completamente o que sempre caraterizou a filoso-
fia, a investigação do todo, seja o dos entes, seja o
do conhecimento, seja o do sentido. Não deixa de
ter interesse, como muitas outras tradições técni-
cas, mas afirma como poucas uma visão desenrai-
zada do mundo, incapaz de uma verdadeira com-
preensão.
Para que se compreenda, porém, o que aqui se
entende por unilateralidade, é necessário examinar
como as soluções técnicas nunca pensam nem ad-
mitem que se pense, nem em contexto, nem em
inserção histórica, nem sequer nas consequências
previsíveis ou suscetíveis de investigação. Isolam
um qualquer problema pragmático e buscam uma
Herbert Marcuse (1898-1979) solução relativa à específica utilidade buscada. Só
Na própria filosofia, como Marcuse mostra se forem forçadas por outras abordagens técnicas é
magistralmente, a mentalidade técnica encontrou que superam a unilateralidade – porém, apenas
a sua realização na filosofia analítica. Embora o através de outras unilateralidades. Por exemplo, o
seu ataque ao neopositivismo ou empirismo lógi- primeiro telemóvel foi fabricado em 1973. Foi,
co se possa ter tornado em parte obsoleto consi- posteriormente, aperfeiçoado até se tornar possível
derando a atual filosofia analítica, as característi- a sua comercialização em série que se torna massi-
cas fundamentais que a tornam a versão técnica va nos anos 90. Porém, só já neste século se reali-
da filosofia mantêm-se. Partindo dos enunciados zaram estudos a respeito de eventuais efeitos das
vulgares, como se surgissem do nada ou num uni- suas radiações nos tecidos orgânicos. O mesmo
verso vazio, formalizaram-se esses enunciados de aliás se diga de outras fontes de radiação (micro-
forma a permitirem uma análise atómica abstrata, ondas, postes de alta tensão, etc.). Como em mi-
onde exatamente se pretendia ignorar todo o con- lhentos outros casos, o “progresso” legitima qual-
texto histórico, cultural e social, apresentando os quer inovação tecnológica e industrial em função
resultados das operações como realizações rigo- de uma muito específica vantagem utilitária (que,
rosas da racionalidade e utilizando-os, tantas ve- por vezes, nem existia antes de ser criada). Imedia-
zes, com as mesmas intenções censórias do dis- tamente, lançam-se os produtos no mercado e de-
curso técnico-científico, atirando fora para o do- pois se verá se existem consequências perniciosas.
mínio do sem sentido toda a filosofia que não se Só não se faz isso na indústria farmacêutica, ao
reduzia a uma análise semântica. Dificilmente se menos no chamado mundo desenvolvido, e apenas
encontraria um exemplo tão elucidativo não só do após diversos casos lastimáveis como o da talido-
pensamento unidimensional, mas também da uni- mida. Porém, se existe setor onde a urgência de
lateralidade antes referida, comportando, aliás, certas soluções tecnológicas é sentida é exatamen-
como todos os outros domínios técnicos, uma te este. Se a urgência é menor noutros setores, on-
hoste escolástica que, simultaneamente, resolvia de podem ocorrer efeitos análogos no seu caráter
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pernicioso, porque não se exigem os mesmos cui- que davam origem à miséria referida. Ao diminuir
dados na indústria alimentar, na indústria cosmé- os fatores de controlo natural das populações, per-
tica, na indústria de armamento, etc.? Natural- mitiu-se o aumento da população em regiões já
mente, porque os interesses do negócio se aliam à pobres, como a generalidade do Sahel, surgindo
sempre maior voracidade do consumo dos privi- verdadeiras vagas de famélicos crónicos, subnutri-
legiados do planeta. dos desde a infância, com todos os efeitos daí re-
Para tornar clara a imposição da superficiali- sultantes, incapazes de sair da sua extrema miséria,
dade da mentalidade técnica, talvez seja útil refe- sempre lutando por uma sobrevivência precária,
rir um caso por ninguém referido a este propósito por vezes de formas verdadeiramente ignóbeis.
por a generalidade das pessoas julgá-lo um bem Mude-se a área em consideração quanto se
incondicional. Desde os anos 60, foram aclama- queira. Não mudará a unilateralidade técnica. Ela
das as técnicas de transplantação de órgãos como é, também, por exemplo, evidente na prática de
passo no velho sonho da vitória definitiva contra introdução de espécies exógenas (por exemplo,
a morte. Ninguém se deteve a pensar se esse desi- entre milhentos possíveis, a Euglandina rosea para
derato último seria desejável, se a morte é de fac- combater outros caracóis)
to um mal que se deve procurar banir. E ninguém num determinado ecossiste-
se deteve a pensar porque esses desejos têm a tex- ma para combater a prolife-
tura dos sonhos, não precisando nem de contexto, ração de espécies inconveni-
nem de consequências. Mas também muitos pou- entes para as atividades hu-
cos se questionaram o que significava dar origem manas. Vezes sem conta, o
a um mercado sempre deficitário de oferta e se remédio torna-se numa praga
isso não era a receita para um inevitável e crimi- incontrolável bem previsível
noso mercado negro só acessível aos mais ricos à partida se simplesmente se
ou para outras medidas hediondas, como a colhei- pensasse, ou seja, se se ponderasse cuidadosamen-
ta chinesa de órgãos dos corpos de condenados à te todos os fatores concretamente presentes em
morte, o que, aliás, levanta suspeitas fundadas de cada caso. Têm-se renovado as esperanças de se
ser essa a razão da manutenção de tão amplas acabar com a gigantesca poluição plástica dos oce-
condenações capitais. Porém, isso era evidente, anos com a descoberta de bactérias e enzimas que
desde o início, para qualquer um que simples- destruiriam o plástico—e, logo, surge a ideia de as
mente pensasse. Mas, claro, uma tecnologia é lançar no mar para acabar com o flagelo. Será que
sempre legitimada se contribuir para afastar o es- serão estudados todos os impactos possíveis? Estu-
petro da morte com a qual a generalidade das pes- dar-se-á, por exemplo, se terá impacto no fito-
soas não se quer confrontar. De facto, as pessoas plâncton ou na cadeia alimentar? Sempre entusias-
passam a vida inteira a fugir da consciência de mados aprendizes de feiticeiro dispostos a agir e
serem mortais, buscam sistematicamente entreter- depois se verá… Mas a unilateralidade é também
se de forma a não confrontar-se, por um momen- evidente no próprio pensamento, por exemplo, po-
to, com a sua natureza, pelo que não é de admirar lítico. Tem-se tornado cada vez mais popular, en-
que encarem com terror a possibilidade derradeira tre os setores liberais, uma ideologia libertariana
que sempre evitaram enfrentar. Claro, havia sem- que se inspira em autores como Nozick que conce-
pre a possibilidade de se confrontarem com o seu bem a sociedade
ser mortal, mas isso não é possibilidade viável como um mero
para a existência inautêntica típica da mentalida- agregado de indi-
de técnica. víduos considera-
Nesta luta contra a morte, os médicos dos paí- dos como átomos
ses ditos desenvolvidos foram enviados, imensas que nada devem à
vezes, para zonas miseráveis do terceiro mundo sociedade, mas
onde levaram a cabo campanhas para irradicação que, curiosamente,
de doenças ou, pelo menos, minimização dos na sua bolsa de
efeitos de diversas doenças causadoras de elevada realidade apartada
mortalidade. Ninguém tem dúvidas acerca do ca- de tudo o resto,
ráter meritório, filantrópico dessas campanhas. antes de qualquer
Certamente, não é admissível que a mínima som- sociedade ou Esta-
bra de uma dúvida seja colocada em tal atuação do, já teriam enti-
benfeitora. Porém, em muitos desses países e re- tlements, nomea-
giões, não se alteraram em nada, ao mesmo tem- damente, direitos
po, as condições económicas, sociais e políticas de propriedade. Robert Nozick (1938-2002)
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Como é possível conceber a propriedade como nica algum tipo de totalitarismo, mas, na verdade,
um dado adquirido na natureza humana individu- a origem da mentalidade técnica encontra-se na
al, antes de qualquer reconhecimento social ou subjetividade desenraizada de tipo cartesiano e no
estatal, se não através de um pensamento que mi- individualismo burguês, mesmo que pudesse ter
litantemente deseja ser unilateral e ignorar a reali- sido, depois, adotada pelos modelos coletivistas e
dade histórica que, porém, é evocada só para não totalitários. Se se criam necessidades artificiais na
ter de verdadeiramente a considerar? moderna sociedade de consumo através de formas
Para todo o lado que alguém se vire, só não vê de manipulação massivas, a verdade é que essa
a unilateralidade se estiver oculta ou se fizer manipulação é eficaz por se corresponder à voraci-
questão de não a procurar. Fazem-se, é certo, hoje dade do sujeito desenraizado sempre disposto a
estudos de impacto ambiental para aplacar certas criar novos caprichos e, consequentemente, a satis-
sensibilidades, mas o peso parece sempre incli- fazê-los. Enchem-se as casas com mil e uma enge-
nar-se para onde se vê o maior lucro. Claro, por nhocas que reduzem a quase nada o trabalho ne-
exemplo, imagens de televisão levaram o nosso cessário para limpar, cozinhar, lavar, etc., e depois
governo a tomar medidas em relação às fábricas os privilegiados dessas casas vão para o ginásio
de celulose do Tejo, mas o Tejo estava morto na utilizar novas máquinas, ou para o hospital usar
região há mais de dois anos, em grande parte de- novas máquinas para resolver os problemas cria-
vido ao “arranjinho” com o mesmo governo que dos pelo sedentarismo e falta de atividade física,
permitiu um aumento desmesurado das descar- ou para o psiquiatra receber o novo fornecimento
gas, e nem foi preciso as câmaras se terem afasta- de soporíferos, ansiolíticos, antidepressivos, ou
do para outros assuntos, para tudo ser relativiza- para as mil e uma engenhocas eletrónicas que en-
do. Mas quando uma vantagem é travada é ape- tretêm a ansiedade, etc., e assim se vai multipli-
nas por outra vantagem também unilateral. O
imundo Trancão foi limpo devido às vantagens
que a Expo trazia para o turismo, muito embora
as populações o suportassem há décadas, e, em
geral, Lisboa está muito melhor para os turistas,
quase parecendo um parque temático, mas as po-
pulações foram atiradas para fora dela e sofrem
diariamente transportes insuportáveis. Criámos
megalópoles muito mais eficazes em termos eco-
nómicos, mas as pessoas vivem nelas desenraiza-
das, isoladas nos entretenimentos técnicos da so-
lidão de cada um, amontoadas em infindos apar-
tamentos onde quase ninguém conhece ninguém. cando o consumo dos recursos planetários que po-
Dir-se-á que o que está sempre em questão é o deria ser facilmente evitado, pelo menos em tal
negócio, é o ganho que alguns conseguem obter e escala, se as pessoas continuassem simplesmente a
que todos desejam alcançar, e não a técnica ou a trabalhar na sua casa como outrora e a redescobrir
tecnologia. Mas é isso diverso da mentalidade a dignidade inerente à autenticidade do trabalho.
técnica que, desde o séc. XVII, nos tenta Porém, não é esta sociedade de consumo e
fazer donos e senhores da natureza? esta democracia do mercado a realização
As distopias tecnológicas do séc. XX, o mais plena do sonho de tornar o homem
1984 ou o Admirável Mundo Novo, ten- dono e senhor da natureza?
dem, de forma mais ou menos explícita, a A democracia corresponde-se, aliás, par-
ver a realização desta mentalidade técnica ticularmente bem à unilateralidade antes
em regimes totalitários. A desumanização referida. Mesmo que o voto possa ser facil-
inerente à técnica parece encontrar a sua mente manipulado, só o poderá ser através
correspondência natural no totalitarismo e de recursos técnicos que utilizem uma lin-
até Heidegger não acreditava que a demo- guagem mais imediata e emotiva. Qualquer
cracia se possa corresponder aos desafios explicação ou argumentação mais elabora-
lançados pela essência da técnica. Se Mar- da é sumariamente rejeitada não apenas
cuse já vê na democracia liberal um domí- pelo poder instituído, mas sobretudo pela
nio de realização do homem unidimensio- generalidade dos cidadãos. Em qualquer
nal, é por encontrar na própria democracia consulta das redes sociais, se poderá verifi-
e, sobretudo, no capitalismo dinâmicas to- car o nível de argumentação que a generali-
talitárias. Provavelmente, é inerente à téc- dade das pessoas consegue atingir, muitas
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vezes não indo além do grunho ou do insulto. buídas mil outras utilidades mais ou menos idênti-
Mesmo aqueles que têm um nível um pouco su- cas à publicidade do cogumelo do tempo.
perior de argumentação enfileiram-se por parti-
dos, por crenças, por seitas, etc., mostrando-se
incapazes de tentar compreender o outro e o di-
verso. Os próprios políticos são meros profissio-
nais de retórica (o que também é uma técnica)
que ignoram os assuntos que tutelam. Um técnico
que apresente razões complexas a um político
perderá inevitavelmente perante um técnico que
apresenta o que tem a apresentar de forma mais
elementar. A democracia não se corresponde à
essência da técnica? A democracia é o lar onde a
técnica moderna se pode realizar mais plenamen-
te sendo aquilo que sempre foi, unilateral e unidi-
mensional. Aliás, o facto de se corresponder tão
bem à lógica apetitiva que sempre presidiu ao
desígnio técnico, não só procurando satisfazer os
apetites, mas até os criando, permite um domínio Duas das características que Heidegger atribuía
técnico mais completo sobre o mundo humano. à existência inautêntica encontram-se nas demo-
Os totalitarismos esmagavam os apetites dos indi- cracias liberais como em nenhum outro regime: a
víduos e exigiam uma conformidade absoluta aos ânsia das novidades e a nivelação. Tradições pre-
desígnios do regime. A democracia procura satis- dominantemente técnicas como a da medicina
fazer os apetites dos indivíduos para que eles nem queixam-se hoje das suas longas investigações e
pensem no regime. Nisso, há uma maior aproxi- dos seus resultados obtidos com métodos rigorosos
mação à essência da técnica no mundo de Huxley serem equiparados a qualquer charlatanice que usa
e é possível, sem qualquer grande revolução, che- associações simbólicas de tipo mágico e/ou apro-
gar a um mundo análogo. priações disparatadas de linguagem científica pro-
A forma superficial como é pensada a utilida- porcionais à ignorância completa (e. g., “cura
de e a transformação da realidade nas sociedades quântica”) para cativar os seus clientes. Mas tanto
ditas desenvolvidas é a mais plena realização da
unilateralidade da mentalidade técnica. Existe um
primado absoluto da inovação pela inovação, des-
cartando como obsoletas determinadas práticas só
por não envolverem grande tecnologia. Existem
correntes na educação que até se expressam em
vídeos populares no YouTube que considerariam
uma prática socrática como a do Clube de Debate
ultrapassada, mas já seriam mais amáveis se fosse
acompanhada da mais aborrecida apresentação
em PowerPoint, visto ser mais moderna e
“tecnológica”. A mentalidade técnica tudo trans-
forma em receitas de consumo fácil. Literatura,
ciência e filosofia são mastigadas e vomitadas em
livrinhos acessíveis a todos disponibilizados até
em hipermercados. Tradições respeitáveis como o aí se cultivou a unilateralidade, recusando toda a
budismo ou o hinduísmo foram transformados em questionação e reflexão para lá das utilidades de-
receitas de técnicas de felicidade ao alcance de terminadas, que dificilmente existirão agora razões
qualquer um, reduzidas, aliás, a um mero invólu- legítimas de queixa. Por exemplo, tanto estimula-
cro utilitário e profano que mistura um materialis- ram o uso do efeito placebo que não se podem
mo grosseiro com convicções mágicas. O yoga é queixar de outras áreas manipularem da mesma
reduzido a uma ginástica ou um desporto (como forma os seus clientes. Esta nivelação por baixo
se dizia recentemente na tv referindo-se às práti- em que tudo é relativo e tudo é aceitável é o resul-
cas da nova princesa), a meditação, a macrobióti- tado de práticas e formas de educação que torna-
ca zen ou o reiki (ou o próprio yoga) a vagas tera- ram os cidadãos incapazes de fazerem distinções
pias, e a tudo junto com outras práticas são atri- de valor.
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Hoje, veem-se muitos apoiantes, inclusive en- técnica é, exatamente, o deficit de reflexão. A uti-
tre os professores, de modelos educativos que de- lidade imediata é considerada de forma unilateral
fendem que qualquer docente, apenas partindo da uma justificação inquestionável. As consequên-
sua formação pedagógica, possa “ensinar” qual- cias, por exemplo, ambientais de inúmeras inova-
quer assunto, mesmo que não tenha qualquer for- ções técnicas eram facilmente ponderáveis, mas
mação específica no mesmo, provavelmente pre- tal reflexão foi sempre descartada. Após as inova-
parando-se para isso com consultas na internet. O ções serem implementadas, em breve se conside-
saber tornou-se irrelevante porque, como na anti- ravam imprescindíveis, mesmo que houvesse já
ga sofística, se defende que tudo é relativo e, co- provas factuais dos seus efeitos nocivos. Lembro-
mo tudo é relativo, então a única base para as es- me sempre de um caso que ocorreu num dos
colhas é a aparência, o que já para os sofistas meus primeiros anos de aulas. Na altura, discutia-
abria o caminho para a legitimação das suas técni- se a possibilidade de se vir a banir os frigoríficos
cas demagógicas. Que tais modelos sejam apoia- devido à destruição da camada de ozono pelos
dos por tantos professores só mostra que há muito CFCs. Vários alunos pronunciaram-se dizendo
o saber não era para eles prioridade, o que levanta que não podiam viver sem frigoríficos, mesmo
a questão de até que ponto estariam preparados que a alternativa fosse não poder pura e simples-
em termos de conhecimento da sua suposta área, mente viver. Chamei a atenção para o facto de
assim como a questão de se há muito, decorrente ainda há 15 anos (na altura) a maior parte do país
da própria democratização e massificação do en- não ter eletricidade. Depois, acrescentei sarcasti-
sino, o que é e era ensinado nas nossas escolas camente que qualquer dia consideravam que não
pelo professor mediano não seria uma película poderiam viver sem o creme hidratante. Imediata-
aparente de saber, sustentada no mero uso dos mente, uma aluna reagiu visivelmente conside-
manuais discentes que, para docentes, até apre- rando isso mesmo, ou seja, que não podia viver
sentam, cada vez mais, as respostas às questões e sem o creme hidratante. Presumo que o conjunto
as soluções de exercícios, o que já pressupõe im- de produtos cosméticos e para-cosméticos que
plicitamente uma ignorância confrangente por hoje serão considerados imprescindíveis terá cres-
parte dos que deveriam ser portadores do saber. cido consideravelmente. Certamente, muitos tam-
Assim, também não admira que, contrariamente bém não poderão viver sem certos alimentos pro-
ao repetidamente reafirmado nos documentos ofi- cessados, sem certas consolas de jogos, sem wi-fi,
ciais, nas escolas proliferem as receitas do espíri- sem exaustores de fumos, sem secadores de cabe-
to positivo que rejeitam qualquer espírito crítico, lo e de roupa, etc., etc., etc.
que consideram um mal que se levante qualquer Mas apesar de tudo, regressando ao início, po-
objeção ou que evitam declarada e impudente- derá ter algum sentido dizer que uma demência
mente qualquer possibilidade de debate. Isso era absoluta como o Holocausto judeu é da mesma
importante para o desenvolvimento do saber, não essência da agricultura intensiva mecanizada?
para o domínio técnico sobre a realidade, neste
caso, a realidade humana, que, naturalmente, pre-
fere, acima de tudo, o conformismo. Até se pode
“meditar”, entendendo por isso o esvaziamento de
pensamentos, de forma a mais facilmente se acei-
tar tudo com uma entrega incondicional, mas não
contra-argumentar, não considerar alternativas,
não ponderar perspetivas, não pensar.

Naturalmente, parece absurdo que uma atividade


tão eminentemente racionalizada como a agricul-
tura mecanizada e os circuitos industriais e co-
merciais que serve possam ser considerados da
mesma essência que um crime hediondo. Aliás,
afigura-se que o conjunto dos países considerados
desenvolvidos tem uma gestão económica racio-
nal que deveria servir de modelo a todo o mundo.
Estas e outras afirmações análogas são considera-
O que é característico de toda a mentalidade das evidentes e indiscutíveis pela maioria das pes-
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soas destes países e, porventura, de todo o mundo, gar, o que fazer com os resíduos sólidos, líquidos
visto a maior parte do mundo desejar ser igual- e gasosos por elas originados? Onde está a sensa-
mente desenvolvida. De forma alguma é admissí- tez de criar um mundo de plástico descartável não
vel que a tecnologia industrial seja colocada no ou dificilmente biodegradável? Ou resíduos nu-
mesmo saco que a loucura da solução final judai- cleares aos quais não se sabe que solução dar?
ca. Onde está a sensatez de erigir uma economia
E, porém, onde está a sensatez de criar condi- mundial sobre recursos não renováveis como os
ções para a descontrolada explosão demográfica a combustíveis fósseis? Onde está a sensatez de cri-
que o planeta assiste? Onde está a sensatez de ar uma cultura de constante renovação de instru-
paulatinamente se usar todo o planeta como fundo mentos tecnológicos que implicam vastíssimos
de recursos para satisfazer um consumo sempre usos de recursos e o envenenamento ambiental
crescente? Onde está a sensatez de se destruir flo- com metais pesados quando são descartados? On-
restas e selvas por toda a parte para satisfazer não de está a sensatez de ter consciência de se estarem
só as necessidades alimentares criadas pela explo- a originar enormes mudanças climáticas e de nem
são demográfica, mas até as necessidades energé- se conseguirem tomar medidas sequer simbólicas?
ticas de uma sociedade cada vez mais urbana e Onde está a sensatez de se fazer perigar as fontes
industrial? Ou de as substituir por florestas indus- do ar que o homem precisa respirar? Onde está
triais sem biodiversidade, dispostas a pronta com- sensatez de se estar a levar a cabo esta provocação
bustão, seguida da erosão empobrecedora do so- da natureza apenas para tornar o homem suburba-
lo? Onde está a sensatez de poluir ou esgotar rios, no cada vez mais infeliz, vivendo uma existência
lagos e lençóis freáticos ou artesianos, tendo em cada vez menos autêntica, embrutecido em entre-
conta a escassez em tantas partes do mundo de tenimentos que calam o pensamento mais elemen-
água potável? Onde está a sensatez de esvaziar os tar (a “euforia na infelicidade” – Marcuse) e en-
campos e construir megalópoles sobre os mais
ricos terrenos agrícolas do planeta enquanto se
envenenam solos para conseguir extrair deles as
colheitas que se dispensaram para erigir as urbes?

charcado em drogas legais ou ilegais que lhe per-


mitem suportar a ansiedade ou o desespero que
sente, mas de que, tornados crónicos, cada vez
Onde está a sensatez de se extinguirem massiva- tem menos consciência? Onde está a sensatez de
mente espécies animais e vegetais para, em mui- uma humanidade dividida entre a insuportabilida-
tos casos, simplesmente satisfazer os caprichos do de do trabalho opressivo pela intensidade e dura-
mundo dito desenvolvido? Onde está a sensatez ção, em condições aviltantes de segurança, higie-
de se ficar satisfeito por estar a “salvar” certas ne, saúde, etc., e a
espécies enjaulando-as em menor ou maior espaço insuportabilidade da
para o entretenimento dos tempos livres? Ou enfi- preguiça consumi-
ar animais de que se é muito amigo em aparta- dora e depressiva,
mentos, castrados e impedidos de interagir natu- destilando gordura e
ralmente, para aliviar a solidão, aproveitando a flacidez, acumulan-
versão animal de síndroma de Estocolmo? Onde do doenças e trata-
está a sensatez de se multiplicarem armas de des- mentos resultantes
truição maciça? Onde está a sensatez de sonhar da inação, só para
com o american way of life por toda a parte quan- não usar os múscu-
do se todo o planeta tivesse tais níveis de consu- los que só existem
mo e desperdício há muito teria implodido? Onde para a atividade que
está a sensatez de criar estas urbes e atividades a vida privilegiada
industriais massivas sem pensar, em primeiro lu- recusa? Onde está a
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sensatez de toda a cultura tecnológica, industrial e provocação técnica. Cada inovação tecnológica,
urbana? origina tímidas resistências ou reticências por al-
Já Marcuse sublinhava o caráter racional da gum tempo e torna-se depois habitual. Em breve,
irracionalidade da civilização industrial avançada. a manipulação genética humana e não apenas ve-
Poder-se-ia dizer o inverso, a loucura da raciona- getal ou animal será um dado adquirido habitual.
lidade apartada da natureza, que a concebe como E tal ir-se-á desenvolvendo, paulatinamente, utili-
fundo à sua disposição para concretizar qualquer dade imediata isolada a utilidade imediata isolada
capricho, que a concebe como mera res extensa a (para lá do que se fará secretamente), sempre con-
explorar, usar e abusar, que a considera como al- siderando razoável cada permissão examinada
go a que não pertence e de que não depende total- atomicamente, tornada depois habitual e prepa-
mente. A loucura da “usura” é a essência da técni- rando, assim, as condições para a admissão do
ca. Hoje, diz-se que se tratam de problemas ambi- próximo uso. Esse domínio efetiva-se sempre
entais, muito embora muitos nem o sejam. Mas através da manipulação dos desejos humanos,
também isso é resultado da mentalidade técnica, a mas não tem de ter uma consciência a orientá-lo.
transformação do mundo em ambiente, um setor A mão invisível do mercado basta para impulsio-
entre muitos outros a nar o percurso descontro-
ter em conta sem ne- lado do progresso técni-
nhuma predominância Esta Europa [...] jaz hoje nas grandes tenazes co. Tudo funciona e con-
especial. O homem entre a Rússia, de um lado, e a América, do outro. tinua a funcionar até mes-
nada é verdadeiramen- Rússia e América, vistas metafisicamente, são am- mo quando se depara
te se não for no mun- bas o mesmo: o mesmo desesperado frenesim de com um abismo. Enquan-
do, o ser no mundo é- tecnologia descontrolada e de organização desen- to existir alguma engre-
lhe essencial – mas se raizada do homem mediano. Quando o mais lon- nagem que funcione, será
o planeta inteiro for gínquo canto do globo tiver sido conquistado tec- sempre com ela que se
concebido como ambi- nologicamente e possa ser explorado economica- lidará com cada abismo,
ente passa a ser mais mente; quando qualquer incidente que se queira, até existir algum abismo
uma questão a ser ale- em qualquer lugar que se queira, em qualquer altu- que devore todas as en-
gadamente resolvida ra que se queira, se tornar acessível tão rapidamen- grenagens e a existência
de forma tecnológica. te quanto se quiser; quando se puder simultanea- humana que lhe deu ori-
A mentalidade técnica mente “experienciar” uma tentativa de assassínio gem. Dizia Heidegger, na
não consegue pensar contra um rei em França e um concerto sinfónico entrevista que foi publi-
senão respostas técni- em Tóquio; quando o tempo nada for senão rapi- cada cinco dias após a
cas. Tendo a vantagem dez, instantaneidade e simultaneidade, e o tempo sua morte, que só um
da unilateralidade, com como história tiver desaparecido de toda a existên- Deus nos poderá salvar.
facilidade pensa solu- cia de todos os povos; quando um pugilista* for Admito que, perante uma
ções, visto que nunca considerado um grande homem de um povo; quan- tal loucura, só uma lou-
reflete acerca de con- do números de milhões em encontros de massas cura fanática parece ter
textos e consequências forem um triunfo; então, sim então, ainda pairará forças para criar uma
para lá dos imediatos, como um espetro sobre toda essa algazarra a ques- oposição eficaz. Porém, o
a não ser que a isso tão: para quê? para onde? e então o quê? mais certo é que tal lou-
seja obrigada por outro O declínio espiritual da terra progrediu tanto que cura ainda levasse mais
setor técnico (como o os povos estão em perigo de perder a sua derradeira rapidamente ao abismo
ambiental). Na verda- força espiritual, a força que torna possível até mes- ou que até fosse um Deus
de, isso resulta da mo ver o declínio e avaliá-lo como tal. Esta sim- tecnológico que emergis-
mentalidade técnica ples observação nada tem a ver com pessimismo se.
ser apenas um subpro- cultural – nem também com qualquer otimismo, Será possível uma técni-
duto de um domínio claro; porque o obscurecimento do mundo, a fuga ca não unilateral? Um
técnico que o homem dos deuses, a destruição da terra, a redução dos se- simulacro de tal entidade
não controla de todo e res humanos a uma massa, o ódio e a desconfiança quimérica é conseguido
ao qual se encontra de todo o criativo e livre já atingiu tais proporções pela confluência de di-
completa e inconscien- através de toda a terra que tais categorias infantis versos discursos técnicos.
temente subjugado. Ele como pessimismo e otimismo se tornaram risíveis. Poderá isso acabar por
próprio, mental e cor- dar origem a uma com-
poralmente, já não é Martin Heidegger, Einführung in die Metaphysik, 1935, trad. da
trad. ingl. de Gregory Fried e Richard Polt, pp. 40-41 (28-29). plexidade de pensamento
mais que fundo de re- que supere a mentalidade
cursos ao dispor da *Hoje, faria mais sentido futebolista. técnica tradicional? Não
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creio. A multiplicação de organigramas nos âmbi- falava Heidegger? Ao desvelar a totalidade dos
tos sociais e humanos que consideram múltiplos entes como Gestell, a técnica corresponde à mais
fatores de diversos tipos é apenas uma forma de completa ocultação de todas as possibilidades de
mostrar como se têm em consideração fatores me- desvelamento.
nos apreciados pelo mercado ou pelo domínio téc- Algures, ainda haverá um camponês, porventu-
nico, mas que imediatamente são descartados as- ra velho, que semeia o grão e confia a semente às
sim que ninguém que se importe com isso esteja a forças naturais, velando porque ela prospere.****
reparar. Não se trata apenas da atitude generaliza- Algures, ainda se respeitarão, provavelmente por
da do “deixemo-nos de filosofices”, é algo muito não terem ainda alternativa, os ciclos de vida e
mais enraizado, muito embora tenha origem no morte. Algures, ainda os regatos cantam e os ani-
desenraizamento. A unilateralidade tem origem na mais entregam-se à luta imemorial da presa e do
unidimensionalidade da técnica, na absoluta inca- predador. É apenas uma questão de duração até
pacidade de introduzir profundidade em qualquer tudo isso desaparecer engolido pela voragem do
pensamento ou vivência, na redução do existente mercado, da indústria e da planificação técnica. O
à superfície do negócio, na estimulação dos dese- destino que nos resta é o destino da loucura técni-
jos pelo espetáculo das representações sem jamais ca e deste nem um Deus nos poderá salvar.
permitir a interrogação sobre o próprio desejo pré-
representativo, na imediatez apetitiva oposta a Bibliografia minimalista (obras, de algum modo, referi-
qualquer reflexão por lhe ser inerente a inconsis- das ou utilizadas):
Platão, Συμπόσιον;
tência onírica. Alguns homens terem consciência Aristóteles, Tά Mετά τά Φυσικά;
do caráter nefasto da técnica nada alterará, pois o Aristóteles, Φυσικής Ακροάσεως;
domínio técnico excede qualquer consciência e Francis Bacon, Novum Organum, 1620;
condiciona todos os aspetos da miríade de exis- René Descartes, Discours de la méthode, 1637;
tências inautênticas que vão vivendo completa- Nicolas Malebranche, De la Recherche de la Verité, 1674-5;
Nicolas Malebranche, Meditations Chrétiennes et Métaphy-
mente absorvidas pelos seus apetites e caprichos e siques, 1683, 1707;
taras e vícios e obsessões e ódios e medos e mil Isaac Newton, Philosophiae naturalis Principia Mathemati-
outras emoções, sem sequer terem noção do que ca, 2ª ed., 1713;
seja uma reflexão que não se assemelhe a um ce- Isaac Newton, Opticks, 2nd. engl. ed., 1718;
nário de telenovela, onde se fantasia a realização Martin Heidegger, Sein und Zeit, 1927;
dos desejos de cada qual. Esse é o terreno fértil e Martin Heidegger, Einführung in die Metaphysik, 1935,
1953;
inesgotável enquanto homens existirem, onde a Edmund Husserl, Die Krisis der europäischen Wissenschaf-
técnica encontra sempre condições para proliferar. ten und die transzendentale Phänomenologie, 1936, 1954;
Quanto ao destino desse mesmo homem, como Max Horkheimer, Eclipse of Reason, 1941, 1947;
lidar com o perigo extremo que o ameaça e de que Martin Heidegger, Vorträge und Aufsätse, 1954;
Herbert Marcuse, One-Dimensional Man, 1964;
Martin Heidegger, Entrevista de 23/9/1966 in Der Spiegel,
Nr. 23 (1976), 193-219;
Michel Foucault, Les Mots et les Choses, 1966;
Jürgen Habermas, Technik und Wissenschaft als
«Ideologie», 1968;
Victor Farías, Heidegger et le Nazisme, 1987;
Luc Ferry et Alain Renaut, Heidegger et les Modernes,
1988;
Mahon O’Brien, Heidegger, History and the Holocaust,
2015.

Notas:
*Palavra que não seria provavelmente do agrado de Heideg-
ger.
**Na verdade, a filosofia natural de Newton acaba por ser,
embora num sentido mais restrito, um sistema, ao contrário
dos muitos contributos assistemáticos de Boyle e outros
autores.
***Na conceção heideggeriana, a metafísica é o simples
esquecimento do ser provocado pela redução à determina-
ção dos entes.
****Adaptação de exemplo heideggeriano contido no pri-
meiro ensaio dos Vorträge und Aufsätse.
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