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C lm, UNLJUí

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CAMPUS SANTA ROSA - CESTRO DE FSTUDOS MISSIONEIPOS
Santa Rosa, de 24 a 27 wtubro 1995
Rua Santa Rosa. 536 - Caixa Postal 82 - Fax (055) 512-571"
Sada Rosa , Rio Gran& do Sul

Catalogação na Fonte

S6J2a Sir«jsio Nacional de E•AudosMissioneiros(J l. : 1995;


v.1-2 Santa Rosa)
Anais do décimo prirrziro Simpósio Nacional de Estudos
Missi0Eiros : Missões : a questü) indígena, Santa Rosa, 24 a
27 outubro de 1995/ (cc»rd.) de Teresa N. S. (Xri.stensen;
Regional do Norcrste do Estado do Rio Grande
SUL-- Santa Rosa : Centro de Estudos Missioneiros : Ed.
UNIJUí, 1997. iL
ISBN 85-85866-29-2
-História 2.Rio Grande do Sul 3.Missões 4Simpósio Na-
cional de Estudos Missioneiros (11.: 1995, Santa Rosa)
I.otristensen, Teresa N. S. II.Título III.Título: Missões : a ques-
tü) indígena.
CDU: 981.65
HISTÓRIA E ICONOGRAFIA:
DOCUMENTOS SOBRE A MISSÃO DE SÃO
JOÃO BATISTA I

Professor-doutor Arno Alvarez Kern*

1. INTRODUÇÃO

A implantação recente do Mercosul e os esforços desenvolvidos para a


integraçãodos países da região do Rio da Prata nos fazem repensar a idéia de
fronteira em relação aos povos que ocupam atualmente a região oriental da bacia
do Rio da Prata. Ultrapassamos o momento histórico de uma fronteira em armas,
com seus limites pretensamentenaturais impostos por tratados e passamos a
concebê-la como um espaço de contatos, de trocas, de experiências e vivências
comuns. Sob este aspecto, tocamos naquilo que é essencial à idéia de fronteira.
Ao contrário dos limites de origem política e estabelecidos por convenções po-
líticas podemos e devemos conceber a fronteira como um espaço, como um fato
econômico e como um fato cultural. As fronteiras não são apenas espaços de
oposição mas igualmentede continuidade, "no sentido em que se filtram as in-
fluências, se amortecem os impactos. "2
Na época colonial, a fronteira platina foi uma imensa área intermediária,
uma "terra de ninguém "onde se realizaram as miscigenações e as sínteses cultu-
rais que geraram as populações argentinas, uruguaias, paraguaias, brasileiras
etc, a partir de uma origem histórica comum, ibérico-indígena.

* Arqueólogo e Historiador. professor dos cursos de Graduação e Pós-Graduação em His-


tória da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

261
O fenomeno histórico das Missões Jesuítico-Guaranis é um exemplo típi-
co inserido neste contexto, a nos ensinar ainda hoje como a integração é possí-
vel, mesmo quando existem disparidades culturais muito grandes entre as popu-
lações. Não podemos ignorar que a fronteira cultural que separava na época
colonial os guaranis (emergindo da Pré-História) e os jesuítas (em pleno Barro-
co) era bem maior do que as diferenças que nos separam das demais populações
platinas. Atualmente, a revalorização dos episódios comuns desta história de
longa duração apenas nos faz compreender melhor a importância de episódios
como o das Missões Jesuítico-Guaranis. Sua valorização como património his-
tórico e cultural comum a todos os povos da região se impõe com toda a impor-
tância histórica que merecem. Mais do que uma referência histórica para as
atuais populações missioneiras, esses "pueblos de índios" coloniais são um sím-
bolo para a integração cultural de toda a região.
O presente trabalho tem como finalidade examinar essa problemática da
fronteira cultural e de como ela pode ser compreendida a partir de documentos
iconográficos originais do século XVIII. Uma série de mapas, gravuras e dese-
nhos em cores encontrados em arquivos europeus nos evidencia importantes
informações sobre os espaços missioneiros, constituindo verdadeiros planos ur-
banísticos. A observação e a análise desses documentos nos permite desvelar as
sínteses culturais ocorridas entre o mundo ibérico e o indígena, bem corno a
complexidade das integrações que ali ocorreram. Três desses documentos
iconográficos têm como temática a Redução de São João Batista, na fronteira
entre às áreas coloniais dos impérios ibéricos no Rio da Prata. São semelhantes
e provavelmente da mesma autoria, mas apresentam algumas diferenças impor-
tantes. O primeiro deles, uma gravura em metal, vem sendo publicado regular-
mente em preto e branco desde os anos 60, nas obras sobre a temática missioneira.
Os outros dois são desenhos em cores e se encontram respectivamente no Ar-
quivo de Simancas (Espanha) e na Biblioteca Nacional em Paris (França). O
documento espanhol em cores é relativamente pouco explorado. Neste trabalho
pretendemos analisar muitos de seus detalhes. O documento francês é inédito,
está sendo publicado pela primeira vez em nosso mei03e encontra-se ainda em
processo de reprodução e análise nos quadros do projeto "Arqueologia Históri-
ca Missioneira". São obras de arte elaboradas com um desenho preciso e objeti-
vo, ornados com maravilhosas cores. Sua riqueza iconográfica é excepcional à
medida que nos dão precisas informações históricas sobre o cotidiano nesses
"pueblos de índios", bem como os processos de transculturação ali ocorridos.
Os documentos citados serão aqui examinados como exemplificação da temática
proposta e apresentados como evidências que justificam as interpretações
sugeridas. Através deles podemos constatar a importância dos documentos
iconográficos como fonte de informações, e não apenas como mera ilustração
dos textos com base em documentos escritos.

262
2. O PLANO URBANÍSTICO DAS MISSÕES
JESUÍTICO-GUARANIS: FONTES HISTÓRICAS 4

Desde a Antigüidade Clássica o planejamentourbano está associado aos


projetos de fundação de cidades, principalmentedas novas cidades gregas fun-
dadas como colônias de metrópoles com base no território da Hélade. Um fenô-
meno semelhante ocorreu no mundo romano, onde os acampamentos militares
romanos ("castros") eram organizados racionalmente e deram muitas vezes ori-
gem a cidades surgidas a partir desse projeto militar de organização do espaço.
No mundo medieval, principalmentenas fronteiras em guerra do sul da França,
foram criadas novas cidades, planejadaspara ocuparem territórios ainda insufi-
cientementepovoados, originando as "bastides", cuja regularidade do plano ur-
banístico contrasta com a irregularidade do traçado das cidades medievais tradi-
cionais. Os planos racionalistase geométricos que caracterizam
essas novas ci-
dades são ciosos da ordem e da centralização social. A
construção arquitetônica
da nova cidade soma-se à organização da nova sociedade.
Esse planejamento
urbano regular passou a constar nos projetos das cidades
imaginadas nas obras
dos utopistas desde o Renascimento.
No século XVIII, a partir da obra de Charlevoix,5
passou-se a afirmar
que os primeiros jesuítas a penetrar na região do Rio
da Prata para fundar redu-
ções teriam estabelecido planos completos, aprovados pelo
monarca espanhol.
Chegou-se mesmo a afirmar que a partir das primeiras
fundações, iniciativas dos
padres Cataldino e Maceta, todos os povoados missioneiros
guaranis passaram a
parecer-se uns com os outros. Isso ocorreria da mesma maneira
que na Utopia
de Tomas More, no qual todas as cidades seguiriam o mesmo
plano urbanísti-
co e seriam uma "unidade urbano-rural rigorosamente planejada."6
Essa unifor-
midade teria sido decorrência do modelo que havia sido implantado
entre os
guaranis.
É verdade que a visão de conjunto de um povoado missioneiro jesuítico-
guarani nos impressiona pela regularidade e pela simetria, que traduzem a idéia
de ordem perfeita e definitiva. Um tabuleirode linhas retas paralelas que se
cortam em ângulos retos é a figura que descreve a malha viária. Ao centro, uma
praça ampla cercada de casas de índios. Em uma das faces dessa praça se encon-
tra a igreja, ladeada pelo cemitério e pela residência dos padres, por um lado.
Pelo outro lado ela é ladeada pelas oficinas dos artífices e pela residência dos
padres Fm volta do povoado podiam ser encontrados currais para o gado, depó-
sitos par T edução agrícola, fontes de água potável, a olaria etc.
' um projeto jesuítico, elaborado segundo alguns utopicamente
ante: concretizar em núcleo urbano real, o plano urbanístico das Missões

263
tem uma origem histórica bastante complexa e muito anterior à própria fundação
da Companhia de Jesus. Em primeiro lugar é necessário destacar a origem mc-
dieval de parte desse plano urbano. Os beneditinos elaboraram plantas-tipo para
seus mosteiros, nos quais a igreja era flanqueada pelo cemitério, por um lado, e
pelo claustro e a residência dos monges, pelo outro. O claustro era um espaço
retangular fechado, em torno do qual os monges tinham possibilidade de levar
uma vida reclusa. Havia uma clausura dentro da qual se localizavam as células
individuais (dos monges) e os dormitórios coletivos (dos noviços), o refeitório,
a cozinha, a biblioteca, uma capela etc. Havia ainda um setor de atividades
artesanais, uma padaria, um hospital ou uma enfermaria, um pomar e uma horta,
um setor para acolher os hóspedes, viajantes ou peregrinos ("tambo"). Nesse
conjunto a localização da igreja, com o claustro e o cemitério se estendendo
paralelamente à nave da igreja, é uma constante. Esses monastérios eram quase
sempre localizados sobre as alturas das encostas de um vale ou de uma monta-
nha, mas sempre servidos de água fornecida por vertentes ou riachos. Mais para
o final da Idade Média franciscanos e dominicanos seguiram esse traçado geral
dos monastérios beneditinos. Quando no século XVI, na América recentemente
descoberta, se iniciou a implantação de povoados indígenas separados das cida-
des dos espanhóis, é natural que o plano urbanístico desses "pueblos de índios
"levassem em conta a disposição das edificações relacionadas com a vida dos
missionários, a partir dos modelos europeus já consagrados depois de séculos.
O Renascimento provocou uma retomada do antigo projeto grego de ci-
dade planejada. Desde a fase helenística, as cidades que Alexandre fundou em
seu império seguiam um padrão: ruas perpendiculares que se cortam em ângulos
retos, como se formassem uma grade ou grelha, demarcando quadras ou quartei-
rões,7 nas quais se instalam conjuntos de casas. Esse mesmo plano foi retomado
nas "bastides" francesas do final da Idade Média e principalmente nas cidades
planejadas dos inícios da Idade Moderna. Foi esse plano em "damero" (tabulei-
ro de damas) o adotado por espanhóis para a fundação das suas novas cidades no
novo mundo ibero-americano. Nessas o quarteirão (denominado de "manzana")
é um espaço quadrado de terreno com casas ou sem elas, mas sempre circunscri-
to por ruas nos seus quatro lados. Um dos quarteirões, entretanto, seria substitu-
ído por uma grande praça, a "plaza mayoB', em torno da qual se distribuiriam os
edifícios principais: igreja, cabildo, residência das autoridades (governadores
ou bispos, padres ou caciques). As calçadas eram protegidas pelo avanço do
primeiro andar dos edifícios e por arcos redondos que compunham uma decora-
ção para o conjunto da praça, como na Espanha renascentista. Nas "Leyes de Ín-
dias", importante legislação colonial espanhola, foram estabelecidosrigorosamen-
te esse plano urbanístico e a distribuição das estruturas arquitetônicas bem como
os detalhes da localização da cidade ou do povoado na paisagem. O "pueblo"
deveria estar, por exemplo, longe das baixadas inundadas onde o ameaçam as

264
doenças, cm árcag ventiladas c com "buenos aire/' , Em conumhn-
e os estavam já gcndo fundadag povoaçócs rniggíoncíras fran-
essas normas
cia cogn dominicanos, mcrccdáriog c do Ordem dc Santo António, em pleno L
ciscanas, da chegada dog primeiros jesuítas na América.
XVI, muito antes podonto,
colo
Índios" amcricanog, entretanto , uma concessão foi feita
Nos "pueblos de
padrões de habitação indígena: ag ruas não gcparavam quarteirões dc cacas e
aos comunais igoladag.Conhecemos hoje muito bern o pa-
solares,mas sim casas
das aldcias indígenas amazónicas c cm especial o das aldeias
(Irãoconstrutivo
Tupiguaranis. As aldeias ou tabas (do tupi "tawa"), nada mais são do que um
dos
cm tupi) quase sempre elípticas. As ocas
conjuntode grandes casas ("okas", al-
parcntcg próximos muito unidos, formadas por
abrigamfamílias cxtcnsas dc
geralmente por pai, mác e dois
gumas pequenas famílias nuclcarcs compostas
um grandc espaço central circular ( a
filhos. As ocas sc distribuem cm torno dc
cerimoniais e aos encontros
"okara", em tupi) de uso colctivo c destinado aos
povoados indígenas missioneiros
sociais dos componentes da taba ou aldeia. Nos
ou tabuleiro de
as ruas que se organizam segundo o plano cm grade (grelha
isoladas e não quar-
damas) do Renascimento separam grandes casas indígenas
conquistadores,
teirões de casas, como nos povoados dos brancos europeus
conseqúên-
A resultante dessa tríplice influência cultural é portanto uma
um plano saído já
cia da História e de seus complexos processos culturais, e não
a funda-
pronto da cabeça dc algum jesuíta. Roque Gonzales descreve em 1613
distribuição
ção de um "pueblo de índios", onde sc caracteriza muito bem essa
grandes qua-
espacial com as grandes casas de índios isoladas, distribuídas em
dras quadradas, do tamanho da praça maior: "Está, pues, el pueblo en nueve
cuadras: Ia una sirve de plaza, cada cuadra seis casas de cien pies y cada casa
tiene cinco lances de a viente pies y en cada lance de estos vive un índio con su
chusma 8"

Já em 1697,quando o jesuíta Antônio Sepp funda o povoado reducional


de São João Batista, no sul do Brasil, sua descrição testemunhal evidencia essas
múltiplas influências históricas: "Daí tracei algumas linhas paralelas que seriam
as ruas nas quais se deviam edificar casas para cada família, de sorte que a igreja
"9
seria o centro de todo o Povo, o término de todas as ruas.
Resta-nos, agora, encaminhar a abordagem desta problemática à análise
da documentação iconográfica disponível, explorando as informações ali evi-
denciadas e visando a testar as interpretações propostas.

265
266 Figura


-'Pueblo

de

San

Juan

Bautista"

Arquivo

de

Simancas


Espanha)•
3. O PLANO URBANÍSTICO DE SÃO JOÃO BATISTA:
DOCUMENTAÇÃO ICONOGRÁFICA

No Arquivo da monarquia dos Burbon,em Simancas (Espanha), e na


Biblioteca Nacional de Paris (França) encontram-se planos do povoado de São
João Batista datados do século XVIII; magníficosdesenhos coloridos suave-
mente.Neles se evidenciam as origens históricasreferidasanteriormente,bem
como se pode perceber claramente a disposição a que se refere o Padre António
Sepp. A praça central ("plaza mayor") ocupa o centro da composição, bem de
acordo com o cânone renascentista. Na parte superior do desenho, correspondendo
ao seu lado sul, se encontra o conjunto de edificações relacionadas às atividades
religiosas e artesanais, correspondendo ao padrão medieval das abadias
beneditinas. A igreja é ladeada à direita pela cemitério e à esquerda pelo claus-
tro. Ambos espaços centrais do cemitério e do claustro são envolvidos interna-
mente por alpendres e fechados por muros. O acesso aos dois recintos se dá por
pórticos que se destacam nos muros e que compõem com a fachada da igreja um
cenário extraordinário. Ao fundo do cemitério percebe-se uma capela, onde são
velados os mortos. Dentro do claustro, junto à igreja mas separada delas ao estilo
italiano, uma torre hexagonal se ergue sobre quatro fortes colunas, e mostra seus
sinos protegidos por um telhado de telhas planas. Ao fundo do claustro, a resi-
dência dos padres se estende a leste e a oeste, sobre uma plataforma à qual se
tem acesso por intermédio de duas escadarias ornadas de corrimão. À esquerda
do claustro vê-se o pátio dos artífices, com as edificações onde se encontravam
as oficinas artesanais. Ao fundo, encontra-sedelimitadapor grossos muros a
tradicional "quinta", composta por hortas e pomares, onde se plantam arvores
frutíferas, plantam-se ervas medicinais e cultivam-se tanto as espécies nativas
como européias. Quatro casas alongadas, prováveis depósitos, e um curral com
gado domesticado completam o desenho na sua parte superior.

A praça é cercada de importantes edificações, para a vida do povoado. A


oeste da praça se vê um edifício retangular, com pequeno pátio interno, segundo
o padrão da casa espanhola, denominado de "cotiguaçu". Nela se recolhiam as
viúvas e os órfãos. Ao norte da praça, duas longas casas terminam em forma de
edificações altas, junto à entrada principal do povoado. São duas capelas que
formam com o cenário da igreja e os pórticos do cemitérioe do claustro,ao
fundo, uma perspectiva de rara simplicidadee beleza, típica do barroco. A
edificação que completa a capela à esquerda, é o local onde se reúne o Cabildo
Municipal, ou seja, o Conselho que dirige a administração da cidade. Em volta
da praça distribuem-se casas longas e separadas por espaços de circulação, nas
quais moram as famílias extensas indígenas, da qual cada família nuclear ocupa

267
um aposento da casa, Uma parcialidade indígena, oriundo de uma aldeioorigi.
nal, ocupa diversas dessas casas, lideradas por seu cacique, Uma dcggagcagasdo
povoado, não especificadas nesse desenho, deveria ser a pongada, destinado aos
visitantes ou simplesmente aos viajantes de passagem, pouso ou albergue
era denominado de "tambo" (do quíchua 'Tompu"), uma cxprcgnnomuito utili-
zada no espanhol do Rio da Prata. Deveria igualmente haver uma enfermaria ou
um hospital, mas que não é indicado no plano.
Na parte inferior do desenho encontra-se a entrada do povoado, assinala.
da pelos caminhos que chegam e por uma larga rua, que tem início cm uma
imensa cruz de pedra trabalhada, e se dirige em direçáo à praça maior c à igreja,
Pomares e um curral completam os detalhes da cena, Em volta do conjunto do
povoado podem ser observados currais, casas isoladas que parecem depósitos,
alguns açudes de água e áreas de plantio (pomares e hortas), Algumas vertentcg
de água em torno do povoado foram mclhoradas com a construção de pequcnag
cisternas quadradas, definidas por muros de pedras, e nas quais sc pode obter
água de ótima qualidade. Um pouco mais abaixo da fonte, espaços retangularcs
foram delimitados para conter as águas dos riachos, de maneira a favorecer o
banho das comunidades indígenasdo povoado.
Uma outra fonte iconográfica importante é o desenho colorido da Missão
de São João Batista que tive a oportunidade de manusear c estudar recentemente
na Biblioteca Nacional de Paris. Muito semelhante à iconografia de Simancas,
esse desenho apresenta algumas características muito especiais, que deverão ainda
ser fruto de análises mais intensas e profundas.10Dentre elas podemos destacar
em primeiro lugar a importânciadada ao entorno. Em nenhum outro documento
se percebe com tantos detalhes a importânciado meio geográfico e a série dc
rios e arroios que envolve o povoado missioneiro e a sua utilização para as ativi-
dades do cotidiano.
A vegetação em torno dos cursos de água está mais sugerida do que retra-
tada, em sua exuberância natural. Duas pontes facilitam a passagem dos rios, no
caminho para São Miguel (canto superior direito) e no para Santo Ângelo (canto
inferior esquerdo). As vertentes, transformadas em fontes dc água, estão todas
assinaladas. À leste do povoado, duas índias parecem vir de uma dessas fontes,
transportandorecipientes cerâmicos na cabeça, possivelmente com água. À sua
frente caminha um indiozinho com duas moringas, uma em cada mão. Junto à
fonte outras índias aparecem, em posições diversas. Bosques plantados com ár-
vores frutíferas, tanto na quinta como no entorno do povoado, complementam
esse cenário ambiental.
As atividades de pesca, coleta e caça estão perfeitamente caracterizadas
na cena que se encontra à esquerda, na qual se vê dois índios pescando em uma
canoa monóxila, enquanto dois jacarés nadam pelo rio. Pássaros, possivelmente
tucanos,voam em meio à vegetação.

268
Etn meio à praça, um desfile
ras e artnns de fogo. Grupos militar se desloca, com cavaleiros, bandei-
a cavalo e à pé aguardam a sua vez para participar
do desfile. Alguns são
tropas uniformizadas, outros parecem indígenas. Pelo
espaço existente entre o
cemitério e o "cotiguaçu", onde se inicia o caminho para
a Missão de Sao Miguel, um grupo
aprox ima, através da entrada de cavaleiros penetra na praça. Outro se
principal, ponto de chegada do caminho para Santo
Ângelo.
Utn pequeno conjunto
musical toca em frente ao pórtico do claustro. Um
grupo de coroinhas e um padre,
a igreja. vestidos de branco e vermelho, dirigem-se para

As laterais da igreja evidenciam


janelas e portas, com madeiras e grades
extraordinariatnente bem-trabalhadas.
A fachada da igreja, entretanto,
nos deixa espantados. Os três grandes
arcos estão representados mais amplos
do que no documento de Simancas, per-
mitindo uma melhor visão do decorativismoexuberante,das cores vivas
diversificadas, bem como dos trabalhos em e
torno das aberturas das três janelas e
das três portas.
O conjunto urbanístico que esses documentos
nos evidenciamé resulta-
do de decênios de trabalho comunitário, e pode ser
tomado como o padrão das
Missões no estágio de desenvolvimento em que se
encontravamno século de-
zoito. Não podemos esquecer que as primeirasmissões dos
franciscanos,
dominicanos e mesmo dos jesuítas, não passaram de simples capelas
instaladas
precariamente em meio às casas (ocas) indígenasde uma aldeia (taba).
Assim,
para compreendermos esse complexo fenômeno que são as missões
religiosas
coloniais, devemos imaginar um duplo processo histórico em desenvolvimento.
O primeiro nos mostra o plano urbanístico com a sua tríplice influência:
medie-
val, renascentista e indígena. O segundo nos levaria a tentar compreender
as
transformações históricas gradativas pelas quais passaramesses povoados,des-
de a etapa das singelas capelas dos século dezessete, até as magníficas igrejas
maneiristas do século dezoito.
A partir da terceira década da colonização ibero-americana,ainda no iní-
cio do século dezesseis, o plano geral da cidade hispano-americanae de seus
povoados de índios cristianizados e aculturados adquiriu suas formas
institucionais. Os planos então adotados foram postos em prática em todas as
colônias espanholas da América. A legislação sugeria o tamanho da praça cen-
tral, a orientação das ruas, a localização dos edifícios públicos, a divisão das ca-
sas, o uso dos terrenos, entre outros detalhes. Essas normas podem ser acompa-
nhadas nos títulos 5 e 7 do Livro IV da "Recopilaciónde Leyes de Indias", da
monarquia espanhola. É portanto dupla a origem desse projeto urbanístico

269
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I!

Figura 2 - "Pueblo de San Juan Bautista"(Biblioteca Nacional de Paris, Seção


de Cartas e Planos).

270
missioneiro, junto aos indígenas conversos.
Em
ao aspecto formal ou externo, relacionado à primeiro lugar, européia, quanto
instalação na paisagem, à
ção dos edifícios públicos e ao traçado das disposi-
ruas. Em segundo
indígena, sobretudo na organização social das lugar, é igualmente
grandes ("okas"), agora não
mais elípticas mas retangulares, e que continuam
a abrigar as grandes famílias
tensas, gradualmente subdividida com mais ex-
intensidade em famílias nucleares.
Esse plano urbanístico não coincide
com o de nenhumadas utopias sem-
pre relacionadas aos jesuítas missioneiros. E isso
nem poderia acontecer, pois é
característico da imaginação utópica a busca de
soluções ideais alternativas. Essas
não poderiam ter produzido o plano urbanístico
das missões, como este de São
João, pois os planos urbanísticos utópicos não podem
evidentementeser os já
existentes, profundamente impregnados pelas culturas
das sociedadeseuropéia
e indígena no seio das quais se engendraram.

NOTAS

1 Conferência apresentada no Simpósio Nacional de Estudos Missioneiros


(UNIJUí, santa Rosa, RS) de 24 a 27 de outubro de 1995.
2 KERN, Arno Alvarez: Missões: uma utopia política. Porto Alegre: Mercado
Aberto, 1982, p. 158.
3 Este belíssimo desenho em cores se encontra na Sessão de Cartas e Planos da
Biblioteca Nacional de Paris (França) e foi descobertodurante as pesquisas
desenvolvidas por Lizete Dias de Oliveira e este autor, em julho de 1994.No
verso se pode ler: "Pueblo de San Juan Bautista que se ha de entregar a 10s
portugueses". Este dado situa a sua elaboração na época do Tratado de Madri,
Sete Povos já
aproximadamente em 1750, quando a decisão da entrega dos
executado imediatamenteapós a assi-
fora tomada. Penso que ele deve ter sido
comissõesespanholae portuguesa
natura do Tratado, quando os trabalhos das
do tratado detiveram-se em São João Batista. Nessas comis-
de demarcação
cartógrafos, desenhistas etc. Nessa ocasião houve, inclusive,um
sões haviam
desfile militar na praça.
aqui apresentadas são idéias sugeridaspor pesquisas
4 Muitas das afirmações e recentementepublicadas
e Paris (França),
realizadas em Madri (Espanha) jesuíticas. Porto Alegre:Editora
Utopias e missões
em: KERN, Arno Alvarez.
da UFRGS, 1994.
du Paraguay. Paris: Didot, 1756.
s CHARLEVOIX, P. Histoire
271
6 MORNER, Magnus, The political and economic activities ofthe Jesuits in the
Ia Plata region. Estocolmo: Liv. Instituto. Estudos Iberoamericanos, 1953.p.
196. KERN, Arno Alvarez opus Cit, p, 208-13. A citação é de: FREITAS,
Décio. O Socialismo Missioneiro, Porto Alegre: Edit. Movimento, 1982.p.44.
7 A palavra "quadra" é polissêmica, pouco contribuindo para elucidar a questão
da distribuição espacial. Tanto pode ser uma medida linear como de superfí-
cie. Linearmente, pode ser a distância entre uma esquina e outra do mesmo
lado de uma rua. Entretanto, pode ser igualmente uma medida de superfície,
principalmenteno passado colonial, quando o termo "quadra de sesmaria"
equivalia a cinqüenta quadras quadradas, cada uma delas por sua vez com
17,424m2. O termo quarteirão, sinônimo de quadra como medida de superfí-
cie, significa um grupo de casas distribuídas em uma área quadrangular,da
qual cada um dos lados dá para uma rua. FERREIRA, Aurélio Buarque de
Holanda Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro : Nova fron-
teira, 1975,p. 11173.
8 "Calta do padre jesuíta Roque Gonzales ao primeiro provincial da Província
do Paraguai, P. Diego de Torres. KERN, Arno Alvarez Opus cit, p. 209.
FURLONG,G. Misionesy sus pueblos de Guaranies. Buenos Aires: Imp.
Balmes, 1962.p. 186.
9 KERN, Arno Alvarez Opus cit, p. 209. SEPP, Antônio. Viagens às Missões
Jesuíticas e Trabalhos apostólicos. São Paulo: Liv. Martins, 1951.
100 conjunto da iconografias missioneiras está sendo utilizado como importan-
tes fontes de informação em dois projetos distintos, desenvolvidos por Lizete
Dias de Oliveira (Doutoranda na Universidade de Paris I -Sorbonne, França)
e por Artur Franco Barcelos (Mestrando em História, PUCRS).

272