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JET GROUTING.

UMA TÉCNICA EM DESENVOLVIMENTO

JET GROUTING. A DEVELOPING TECHNIQUE

Carreto, Joana Rodrigues; Eng.ª Civil (MSc U.N.L.) - COBA, S.A,

RESUMO

A mais recente técnica de melhoria de solos por injecção – jet grouting – tem sofrido nos últimos anos
um rápido desenvolvimento, sendo utilizada em diversas situações, incluindo obras provisórias e
definitivas, nomeadamente, escavações, reforço de fundações, cortinas impermeáveis e túneis. A
utilização crescente desta técnica foi acompanhada de um importante desenvolvimento ao nível dos
sistemas de injecção, carecendo, todavia, de regras de dimensionamento e de controlo da qualidade.

Na presente comunicação são identificados os principais parâmetros intervenientes no mecanismo


físico do jet grouting e a respectiva influência sobre as características finais do material tratado, no que
respeita às dimensões do corpo consolidado, resistência mecânica, deformabilidade e permeabilidade.
Por último sugerem-se alguns estudos a realizar no futuro que permitirão basear regras de
dimensionamento e de controlo da qualidade.

ABSTRACT

In the last years, the most recent soil improvement technique by grouting - jet grouting - has been
subject to rapid development. It is used in the most diversified situations, including provisional and
definitive works, namely in excavations, in underpinning, in the execution of cut-off and in tunnels.
The increasing use of this technique has been followed by the development of injection method.
Anyway, design and execution control procedures need to be much improved.

In this paper are identified the principal parameters of the jet grouting technique, their influence on the
geometry of the consolidated body and on the final characteristics of the treated material – strength,
deformability and permeability – and the major conclusions about this subject from numerous studies.
At last, several studies aiming the development, in the future, of the technique designing rules and the
quality control are proposed.

1- INTRODUÇÃO

O jet grouting é uma técnica de melhoria de solos realizada directamente no interior do terreno sem
escavação prévia, utilizando para tal um ou mais jactos horizontais de grande velocidade (cerca de
250 m/s) que aplicam a sua elevada energia cinética na desagregação da estrutura do terreno natural e
na mistura de calda de cimento com as partículas de solo desagregado, dando origem a um material de
melhores características mecânicas do que o inicial e de menor permeabilidade.

A sua origem e desenvolvimento, a partir de 1970, deveu-se à necessidade de colmatar a lacuna


deixada pelas técnicas de injecção de terrenos no que se refere ao tratamento de solos de reduzidas
características mecânicas e de elevada permeabilidade ou heterogéneos em determinadas condições,
como por exemplo, as que se verificam em zonas urbanas, para as quais a limitação das perturbações
causadas e respectivo controlo são condições obrigatórias.

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VII Congresso Nacional de Geotecnia

O processo físico da técnica de jet grouting envolve as seguintes etapas:

• Corte: a estrutura inicial ou nativa do solo é quebrada e as partículas de solo ou fragmentos do


solo são dispersos pela acção de um ou mais jactos horizontais de elevada velocidade.
• Mistura e substituição parcial: uma parte das partículas ou fragmentos do solo é substituída e a
outra parte é misturada intimamente com a calda injectada a partir dos bicos de injecção.
• Cimentação: as partículas ou fragmentos de solo são aglutinadas entre si pela acção auto -
endurecedora da calda, formando um corpo consolidado.

No que se refere ao procedimento de jet grouting, representado esquematicamente na Fig. 1, este é


iniciado pela colocação da sonda em posição nivelada, com o eixo da vara coincidente com o eixo da
coluna, no caso de se pretender obter um corpo cilíndrico, ou então coincidente com uma das
extremidades do painel. Em seguida, a vara é introduzida no terreno através de um movimento
rotacional e com a ajuda de um jacto de água vertical, até atingir a profundidade à qual os bicos se
encontram ao nível que limita inferiormente o tratamento. Finalizada a furação obtura-se a saída de
água inferior através de uma válvula.

A etapa seguinte difere de acordo com o tipo de geometria pretendida. Assim, no caso de se pretender
obter um corpo cilíndrico, imprime-se à vara um movimento rotacional e inicia-se a bombagem de
calda no seu interior, ao mesmo tempo que a vara é elevada através do furo com uma velocidade
constante, por forma a que a cada período de tempo corresponda uma ascensão da vara de um
comprimento fixo, designado por passo vertical. Concluída a execução do corpo cilíndrico retira-se a
vara do furo, preenchendo aquele de calda por gravidade até ao seu topo. No caso de se pretender
realizar um corpo de geometria plana (painel) o processo é idêntico ao descrito, mas com uma
diferença que consiste na ascensão da vara sem movimento rotacional.

Fig. 1 – Diagrama esquemático da técnica de melhoria de solos - jet grouting

2- APLICAÇÕES DE JET GROUTING

A aplicação da técnica de jet grouting em obras geotécnicas é actualmente ponderada como uma das
soluções possíveis, em particular nos países com um desenvolvimento significativo na área dos túneis
em zonas urbanas, ou na construção de estruturas em zonas densamente habitadas, ou ainda naqueles
em que reabilitação das edificações em zonas históricas tem sofrido um acréscimo considerável nos
últimos anos.

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Melhoramento de Solos

A versatilidade do jet grouting no que respeita ao tipo de solos passíveis de serem tratados por esta
técnica, à geometria do tratamento e, ainda, aos locais a partir dos quais a técnica pode ser implemen-
tada, traduz-se por um aumento progressivo da sua utilização desde a sua origem até aos dias de hoje.

No Quadro 1 faz-se a síntese do tipo de aplicações mais comuns de jet grouting e situações em que a
sua utilização poderá constituir uma solução técnica e económica mais vantajosa relativamente às
soluções convencionais. Para além das aplicações referidas no quadro, refere-se ainda a selagem de
depósitos de materiais contaminantes, a execução de ancoragens, o aumento da resistência ao
carregamento de aterros de estradas ou ferrovias, entre outras.

3– SISTEMAS DE JET GROUTING

A técnica de jet grouting subdivide-se, essencialmente, em três métodos que se baseiam no mesmo
processo físico e que se representam na Fig. 2. São designados por sistema de jacto simples ou JET1,
sistema de jacto duplo, ou JET2, e sistema de jacto triplo, ou JET3.

Fig. 2 - Representação esquemática dos sistemas de jet grouting

Com o sistema de jacto simples são utilizados um ou mais jactos horizontais de calda de cimento, a
grande velocidade, para simultaneamente desagregar e misturar com as partículas de solo.

O seu campo de aplicação - JET1 - encontra-se restringido aos solos coesivos com valores do ensaio
SPT inferiores a 5 a 10 pancadas e a solos incoerentes com valores de SPT inferiores a 20. Esta
restrição é explicável pela resistência oposta pelos solos de maior consistência ou mais densos à acção
do jacto. Efectivamente, na desagregação/corte dos terrenos é necessário empregar um esforço
energético que é demasiado elevado em terrenos que não se enquadram nos limites anteriores,
tornando o processo pouco eficiente e demasiado dispendioso.

O sistema JET2 difere do simples pela utilização de ar comprimido a envolver o jacto de calda. A
acção desagregadora e de mistura / aglutinação é de igual forma exercida pelo jacto de calda de ele-
vada velocidade, sendo a envolvente de ar comprimido responsável pelo aumento do alcance do jacto.

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VII Congresso Nacional de Geotecnia

Quadro 1 - Aplicações da técnica de jet grouting

Aplicações Potenciais situações de aplicação Esquema


da técnica de jet grouting
Túneis • Construção em zonas urbanas de túneis de reduzido recobri-
mento em terrenos de características mecânicas medíocres.
• Consolidação de abóbodas de túneis a partir do seu interior ou a
partir da superfície (para profundidades inferiores a 20 m).
• Consolidação de frentes de túneis em terrenos constituídos por
solos moles e saturados.
• Criação de lajes estanques na soleira e impermeabilização de
hasteais e da abóbada.
• Consolidação da entrada e saída de tuneladoras com escudo.
• Tratamento de camadas muito permeáveis com níveis de água
confinados, intersectadas pelo traçado do túnel e que podem
originar carreamentos de solo devido às suas elevadas pressões.
Escavações • Construção de lajes de fundo com função de contraventamento
e/ou de impermeabilização.
• Contenções laterais de escavações que também podem funcio-
nar como cortinas de estanqueidade (em particular em terrenos
com obstáculos inultrapassáveis por estacas prancha ou por
paredes moldadas).
• Reforço de cortinas com descontinuidades e passagens de água
para o interior da escavação.

Reforço de • Reforço de qualquer tipo de fundações com excepção daquelas


fundações que têm elevada sensibilidade a assentamentos e cuja carga é
transmitida às colunas antes destas atingirem a resistência de
projecto.
• Reforço de fundações a partir do interior da própria estrutura.
• Reforço de fundações constituídas por estacas de madeira
deterioradas.

Cortinas de • Escavações a cotas inferiores ao nível freático.


estanqueidade • Cortinas de estanqueidade em barragens ou outras estruturas.
• Cortinas de estanqueidade em terrenos com cavidades cársticas
preenchidas com siltes.
• Cortinas de estanqueidade em terrenos que incluem blocos ou
obstáculos de grandes dimensões.
• Cortinas de estanqueidade em terrenos com camadas alternadas
de solos argilosos com solos arenosos.

Estabilização • Estabilização por atravessamento da massa de solo potencial-


de taludes mente instável.

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Melhoramento de Solos

O procedimento é em tudo idêntico ao do sistema de jacto simples, utilizando-se porém duas varas
coaxiais. Na fase de injecção, a calda de cimento circula pela vara interior a elevada pressão e o ar
comprimido, gerado por um compressor, passa pelo espaço anelar definido pelas duas varas. Na saída
do bico comum ocorre o envolvimento do jacto de calda por ar comprimido, aumentando
significativamente o seu alcance. Durante a fase de perfuração a água circula pelo tubo interno e o ar
comprimido é mantido com um reduzido caudal para evitar a ocorrência de obstruções.

O método de jacto duplo pode ser utilizado em vários tipos de terrenos, desde argilas, a areias e a solos
com cascalho. No entanto, em solos coesivos, é habitual limitar a sua utilização aos terrenos com
valores de SPT inferiores a 10.

O princípio básico do método de jacto triplo consiste na separação das acções de erosão e de
preenchimento e/ou mistura com o solo desagregado. Assim, o sistema triplo é constituído por três
jactos com as funções que se indicam subsequentemente.

• Jacto de água: é utilizado para destruir a estrutura do terreno. Parte da água injectada sai através
do furo trazendo algum do solo erodido.
• Jacto de ar: o ar é injectado através do mesmo bico de injecção de água envolvendo-a e
aumentando o efeito desagregador daquela. O jacto de ar também provoca a emulsão da mistura
água – solo erodido, reduzindo a sua densidade e facilitando a sua saída para o exterior.
• Jacto de calda: a calda, injectada através de um segundo bico posicionado abaixo do bico de
injecção de água e ar, mistura-se com o terreno que permanece na cavidade após a passagem do
jacto de água e ar, dando origem a um corpo solidificado.

Para o efeito são utilizadas três varas coaxiais que separam a água, o ar e a calda. O método pode ser
aplicado sem restrições em qualquer tipo de solo, no entanto, em solos coesivos a sua aplicação tem
sido feita, na generalidade dos casos, a solos com valores de SPT inferiores a 15.

No Quadro 2 apresentam-se as principais características dos sistemas referidos.

Quadro 2 – Principais características dos sistemas de jet grouting

Método Origem Princípios básicos Principais etapas do procedimento Limites de Diâm.


aplicação colunas
Jacto No Japão Utiliza um ou mais jactos hori- 1) Furação: execução de um furo de 150 mm de diâmetro, Solos coesivos 0,3 m a
simples em 1970 zontais de calda de cimento, a até à profundidade desejada com o auxílio de um jacto com NSPT < 5 a 1,2 m
grande velocidade, para desa- de água vertical. 10
gregar e misturar com as partí- 2) Injecção: terminada a furação inicia-se a bombagem de
culas de solo desagregadas. calda que é injectada através de um ou mais bicos Solos
localizados na parte inferior da vara, ao mesmo tempo incoerentes
que a vara é elevada ao longo do furo com um movi- com NSPT < 20
mento rotacional.
Jacto No Japão Utiliza um ou mais jactos hori- 1) Furação: execução de um furo de 150 mm de diâmetro Solos coesivos 0,6 m a
duplo em 1972 zontais de calda de cimento até à profundidade desejada com o auxílio de um jacto com NSPT < 10 2,0 m
envolvidos por ar comprimido, de água vertical.
a grande velocidade, para desa- 2) Injecção: terminada a furação inicia-se a bombagem de Solos
gregar e misturar-se com as calda envolvida por ar que é injectada através de um ou incoerentes
partículas de solo desagre- mais bicos localizados na parte inferior da vara, ao com NSPT < 50
gadas. mesmo tempo que a vara é elevada ao longo do furo com
um movimento rotacional.
Jacto No Japão Utiliza um jacto horizontal de 1) Furação: execução de um furo de pequeno diâmetro até à Solos coesivos 0,8 m a
triplo em 1975 água envolvido por ar compri- profundidade desejada com o auxílio de um jacto de com NSPT < 15 3,0 m
mido para desagregar o terreno. água vertical.
A substituição do material 2) Injecção: terminada a furação inicia-se a injecção de Solos
desagregado é efectuada por água envolvida por ar através do bico superior. No bico incoerentes
um jacto de calda que também inferior é feita a injecção de calda. À medida que a vara com NSPT < 50
promove alguma mistura com é elevada com movimento rotacional o jacto de água vai
parte das partículas de solo desagregando o solo, enquanto o jacto de calda, inferior,
desagregadas que permanecem substitui e mistura-se com algum do material
no furo. desagregado que permanece na cavidade.

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4– PRINCIPAIS PARÂMETROS INTERVENIENTES NO MECANISMO FÍSICO DE JET


GROUTING

4.1 - Descrição dos parâmetros

O método de melhoria de terrenos – jet grouting – é regido por uma série de parâmetros que variam
consoante o sistema escolhido para a realização do tratamento. Da escolha correcta de cada um dos
valores a atribuir aos parâmetros depende a eficiência do processo, a geometria do corpo de solo
consolidado, a sua resistência, deformabilidade e permeabilidade. Os parâmetros comuns aos três
métodos são a i) pressão do fluído aglutinante; ii) caudal do fluído aglutinante; iii) número de bicos de
injecção; iv) diâmetros dos bicos de injecção; v) relação água / cimento do fluído aglutinante; vi)
velocidade de subida da vara e vii) velocidade de rotação da vara.

Alguns dos parâmetros anteriores são função do tipo de equipamento pertença da empresa que executa
o trabalho, estando, portanto, condicionados pelas capacidades e/ou características desse equipamento.
Nesta situação incluem-se o número de bicos de injecção e respectivo diâmetro, a pressão e caudal do
fluído.

A realização do tratamento através de JET2 obriga à definição de parâmetros suplementares


relacionados com a utilização de um jacto de ar a envolver o jacto de calda. Assim, para além dos
parâmetros anteriores deverão ser definidos a pressão e caudal do ar comprimido, que são condi-
cionados pelas características do equipamento, designadamente das do compressor de ar comprimido.

No que respeita ao método de jacto triplo, há que definir os parâmetros relacionados com o jacto de
fluído que tem como função a erosão do terreno constituído por água e ar. Assim, para além dos
parâmetros indicados anteriormente, para o método de jacto duplo, dever-se-ão definir a pressão e o
caudal da água, o número e diâmetro dos bicos de injecção.

Em algumas situações particulares, o tratamento é efectuado em duas fases, sendo a primeira de pré –
furação, mediante a utilização de um jacto de água a elevada pressão com movimento ascendente e
rotacional, seguindo-se o procedimento normal de jet grouting, que poderá ser realizado através de
qualquer um dos sistemas – jacto simples, duplo ou triplo. Neste caso específico, é necessário definir
os parâmetros da pré – furação que incluem o número de bicos e o respectivo diâmetro, assim como o
caudal e a pressão de injecção da água.

No que concerne aos valores usualmente adoptados, indicam-se no Quadro 3, os limites máximos e
mínimos daqueles parâmetros, de acordo com o sistema utilizado no tratamento e que resultaram da
compilação dos valores indicados na bibliografia da especialidade.

Quadro 3 – Valores limite dos parâmetros intervenientes na técnica de jet grouting.

Parâmetros do procedimento Jacto simples Jacto duplo Jacto triplo


CALDA (MPA) 20 a 60 20 a 55 0,5 a 27,6
PRESSÃO AR (MPA) - 0,7 a 1,7 0,5 a 1,7
ÁGUA (MPA) PF PF 20 a 60
CALDA (l/min) 30 a 180 60 a 150 60 a 250
CAUDAL AR (m3/min) - 1 a 9,8 0,33 a 6
ÁGUA (l/min) PF PF 30 a 150
DIÂMETRO CALDA (mm) 1,2 a 5 2,4 a 3,4 2a8
DOS BICOS ÁGUA (mm) PF PF 1a3
NÚMERO DE CALDA 1a6 1a2 1
BICOS ÁGUA PF PF 1a2
RELAÇÃO ÁGUA - CIMENTO 1:0,5 a 1:1,25 1:0,5 a 1:1,25 1:0,5 a 1:1,25
VELOCIDADE DE SUBIDA DA VARA (m/min) 0,1 a 0,8 0.07 a 0.3 0,04 a 0,5
VELOCIDADE DE ROTAÇÃO DA VARA (rpm) 6 a 30 6 a 30 3 a 20
PF – Pré – furação

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Melhoramento de Solos

Os valores constantes da bibliografia da especialidade são bastante variáveis. As diferenças detectadas


são explicadas pelas investigações empreendidas em cada país ou por cada empresa especializada na
técnica, com vista à optimização do procedimento e que conduziram a alterações do método original.

4.2 - Correlação entre parâmetros

Os parâmetros do procedimento são dependentes entre si. Da pressão de injecção e da secção dos bicos
de injecção, função do número de bicos e do respectivo diâmetro, depende o valor máximo de caudal
de fluído injectado. No que respeita à velocidade de rotação (Vr), esta deve ser definida a partir do
passo, do número mínimo de rotações da vara em cada passo (em geral duas por passo para um só bico
de injecção) e do tempo gasto na injecção em cada passo. Assim:

2
Vr = (rpm) (1)
1
× passo
Vs
em que: Vs é a velocidade de subida da vara (m/min).

O passo é definido de acordo com o tipo de solo. Em terrenos incoerentes o jacto tende a dispersar-se
desagregando as partículas numa área de influência superior. Em solos coesivos o jacto tende a
concentrar-se, devendo por esse motivo reduzir-se o passo, evitando desta forma que porções de argila
permaneçam incorporadas na coluna. Em solos argilosos é habitual considerar para o passo valores da
ordem de 4 cm. No que respeita a solos arenosos, este valor pode ser superior, da ordem de 8 cm.

Relativamente à relação dos parâmetros referidos com outras variáveis do tratamento, é possível
indicar as seguintes:

PRESSÃO DE INJECÇÃO
IMPACTO DINÂMICO
DIÂMETRO DO BICO

PRESSÃO DE INJECÇÃO
CAUDAL ENERGIA DE INJECÇÃO
VELOCIDADE DE SUBIDA

VELOCIDADE DE SUBIDA
CAUDAL CONSUMO DE CIMENTO
RELAÇÃO ÁGUA / CIMENTO

O impacto dinâmico é um dos factores que intervém no mecanismo físico do jacto sendo expresso pela
seguinte fórmula (Hachich et al, 1996):

π × D 02
I = 2× ×P (2)
4
em que:D0 é o diâmetro do bico de injecção (m);
P é a pressão de injecção (MPa).

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VII Congresso Nacional de Geotecnia

A energia despendida na injecção é fornecida pela seguinte expressão:

P×Q
E= (MJ/m) (3)
Vs
em que:P é a pressão de injecção (MPa);
Q é o caudal do fluído (m3/min);
Vs é a velocidade de subida da vara (m/min).

No que respeita ao consumo de cimento, a sua quantificação pode ser efectuada através da seguinte
expressão:
Q × (1/Vs )× γ calda
C= (kg/m) (4)
1+ a c
em que:Q é o caudal do fluído (m3/min);
Vs é a velocidade de subida da vara (m/min);
γcalda é o peso específico da calda (kg/m3);
a/c é a relação água / cimento da calda.

O peso específico da calda é fornecido pela seguinte expressão, função dos pesos específicos do
cimento e da água e da relação água / cimento da calda:

1
γ c × (1 + )
ac
γ calda = (kN/m3) (5)
γ ×a c
1+ c
γw

em que:γc é o peso específico do cimento (kN/m3);


γw é o peso específico da água (kN/m3);
a/c é a relação água / cimento da calda.

5– INFLUÊNCIA DOS PARÂMETROS SOBRE AS CARACTERÍSTICAS FINAIS DO


MATERIAL TRATADO

Actualmente, o maior constrangimento à integração da técnica de jet grouting em estudos de projecto


consiste na dificuldade em conhecer, com alguma precisão, as características finais do solo tratado,
quer em termos de resistência à compressão e deformabilidade, quer em termos de resistência ao corte,
quer ainda no que respeita à redução da permeabilidade do terreno tratado por este processo.

A dificuldade referida resulta, principalmente, desta técnica conduzir não a uma substituição total do
solo, mas sim à mistura da substância aglutinante com o terreno. Desta forma, o resultado depende das
características iniciais do terreno e da percentagem de substituição ocorrida, assim como da
uniformidade de execução do tratamento em profundidade.

Efectivamente, a dificuldade na determinação da composição final exacta do produto constituí um


entrave à determinação das suas características. Não obstante, a já grande experiência no tratamento de
terrenos por jet grouting permite estabelecer, para cada tipo de solo, a faixa de variação de algumas
das características do material tratado. Os valores estabelecidos em projecto deverão ser aferidos e
confirmados em fase de obra através de um controlo rigoroso do procedimento.

Para além dos factores já referidos, as características finais do solo tratado dependem também dos
parâmetros do procedimento, entre os quais se distinguem a pressão e caudal do fluído de injecção, a
velocidade de subida da vara e a velocidade de rotação. Estes parâmetros são estabelecidos de acordo

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Melhoramento de Solos

com os resultados pretendidos, sendo em geral aferidos, previamente à construção, através de um gru-
po de colunas de ensaio, realizadas em condições idênticas às que ocorrem nas colunas definitivas.

No que respeita à geometria do corpo consolidado refere-se que os parâmetros que influenciam esta
característica são as condições e características iniciais do terreno, designadamente a sua compacidade
ou consistência, o tipo de sistema utilizado – jacto simples, duplo ou triplo – e os parâmetros do
procedimento, entre os quais se distinguem a pressão de injecção, o caudal do fluído que procede à
desagregação do solo e a velocidade de subida da vara.

Os diversos estudos realizados e divulgados na bibliografia da especialidade permitem retirar as


seguintes conclusões que se indicam subsequentemente no que respeita ao diâmetro das colunas.

i) O diâmetro das colunas realizadas em solos incoerentes e coesivos pelo sistema de jacto
simples é inferior ao resultante da aplicação do sistema de jacto duplo. Os maiores diâmetros
resultam da aplicação do sistema de jacto triplo.
ii) O diâmetro das colunas realizadas em solos incoerentes é superior ao das colunas efectuadas
em solos coesivos, para o mesmo valor de SPT e qualquer que seja o sistema utilizado.
iii) Os limites máximos e mínimos de variação do diâmetro das colunas com o valor de NSPT são
expressos pelos gráficos das Figuras 3 e 4 elaborados com base nos gráficos fornecidos por
diversos autores, nomeadamente Tornaghi, Miki, Botto, Nisio e JJGA.
iv) O diâmetro das colunas realizadas, quer em solos coesivos quer em solos incoerentes, cresce
com o aumento da pressão de injecção, quando se utiliza o sistema de jacto simples.
v) Com o aumento da velocidade de subida da vara decresce o valor do diâmetro, em qualquer
tipo de solo e com qualquer sistema de jet grouting.
vi) Com o aumento do diâmetro da coluna reduz-se o valor da energia por unidade de volume de
material tratado despendido na formação da coluna.
vii) A energia por unidade de volume de material tratado necessária à execução de colunas pelo
sistema triplo é superior à despendida pelo sistema duplo que, por sua vez, é superior à gasta
pelo sistema de jacto simples em colunas com o mesmo diâmetro.

SOLOS INCOERENTES

3.00 Jacto simples


Jacto duplo
2.50 Jacto triplo

2.00
Diâmetro (m)

1.50

1.00

0.50

0.00
0 10 20 30 40 50 60
NSPT

Fig. 3 – Limites máximos e mínimos do diâmetro de colunas realizadas em solos incoerentes

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VII Congresso Nacional de Geotecnia

SOLOS COESIVOS
Jacto simples

Jacto duplo
3.00
Jacto triplo
2.50
Experiência Brasileira
(JET1)
Diâmetro (m)

2.00

1.50

1.00

0.50

0.00
0 2 4 6 8 10 12 14 16
NSPT

Fig. 4 – Limites máximos e mínimos do diâmetro de colunas realizadas em solos coesivos

A resistência e deformabilidade do material tratado também são condicionadas pelas condições iniciais
do terreno, das respectivas características mecânicas e hidráulicas e pelo tipo de sistema adoptado na
realização do tratamento. Os parâmetros do procedimento que mais contribuem para o valor final
destas características incluem a velocidade de rotação, a relação água / cimento da calda, a velocidade
de subida da vara e o caudal, dos quais depende a quantidade de cimento existente no volume de
material tratado. A resistência e deformabilidade do solo tratado são as características que apresentam
maior dispersão, diferindo substancialmente de autor para autor.

No que concerne à resistência mecânica dos materiais tratados pela técnica de jet grouting sublinham-
se os aspectos qualitativos indicados nos itens subsequentes.

i) Em solos arenosos os maiores valores de resistência são obtidos através da aplicação do


sistema de jacto simples.
ii) Em solos coesivos os maiores valores de resistência resultam da aplicação do sistema JET3.
iii) Os materiais tratados pelo sistema de jacto duplo apresentam, em geral, menores valores de
resistência por comparação com os restantes sistemas.
iv) Os solos arenosos apresentam maior resistência relativamente aos solos coesivos tratados pelo
mesmo sistema de jet grouting.
v) Em solos coesivos, quanto maior é o teor em água natural do solo, menor é a resistência final
do solo tratado.
vi) Quanto maior é o volume de calda injectada por unidade de volume de solo tratado, maior é a
resistência à compressão não confinada do material tratado.
vii) Quanto maior é a relação água / cimento da calda, menor é a resistência do material tratado.
viii) Com o aumento do tempo de impacto, proporcional ao inverso da velocidade de subida,
aumenta a resistência do material quer se trate de solos incoerentes, quer de solos coesivos.
ix) Quanto maior é a quantidade de cimento por unidade de volume de material tratado, maior é a
sua resistência.

A compilação de elementos divulgados na bibliografia, no que se refere à resistência à compressão


simples, permitiu sintetizar no Quadro 4 alguns valores, sem particularizar o tipo de sistema utilizado.

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Melhoramento de Solos

Quadro 4 – Resistência à compressão de materiais tratados por jet grouting

Autores / A/C Tipo de solo – resistência à compressão simples (MPa)


data ARGILA ARGILA SILTE AREIA CASCALHO
ORGÂNICA
Welsh e Burke / 1991 - - 1a5 1a5 5 a 11 5 a 11
Baumann et al. / 1984 1:1,5 - - 6 a 10 10 a 14 12 a 18
1:1,0 - - 3a5 5a7 6 a 10
Paviani / 1989 - - 1a5 1a5 8 a 10 20 a 40
Teixeira et al. / 1987 - 0,5 a 2,5 1,5 a 3,5 2 a 4,5 2,5 a 8 -
JJGA / 1995 0,3 1 1a3 - -
Guatteri et al. / 1994 - - 0,5 a 4 1,5 a 5 3a8 -

Relativamente à permeabilidade, as diversas utilizações da técnica de jet grouting em cortinas de


estanqueidade, permitiram constatar que este parâmetro é condicionado pela verticalidade das colunas
e menos pela própria permeabilidade do material tratado. Um controlo ineficiente da verticalidade
poderá resultar na formação de duas colunas não secantes com passagem de água entre elas. No
entanto, este é um dos campos de aplicação do jet grouting com maiores potencialidades, em particular
quando é necessário proceder ao tratamento de solos com alternâncias argilosas e arenosas, para os
quais as técnicas tradicionais de injecção não são eficientes. Em geral, obtêm-se valores de coeficiente
da permeabilidade da ordem de 10-8 a 10-11 m/s qualquer que seja o solo objecto de tratamento.

6– ESTUDOS A EFECTUAR NO FUTURO COM VISTA AO DESENVOLVIMENTO DE


REGRAS DE DIMENSIONAMENTO E DE CONTROLO DA QUALIDADE

Durante a recolha de dados relativos à aplicação da técnica de jet grouting, foi observada uma elevada
dispersão dos valores das características dos materiais tratados que resulta, principalmente, das
diferentes condições em que os tratamentos foram realizados, uma vez que cada autor traduz,
naturalmente, a sua própria experiência na aplicação da técnica.

O estudo das características do terreno tratado deve ser efectuado individualmente para cada tipo de
sistema e para diferentes tipos de solos, tendo presente que a divisão dos tipos de solos em solos
incoerentes e solos coesivos não é suficiente. Com efeito, a influência dos diversos parâmetros
intervenientes no processo sobre os resultados obtidos não é, em princípio, idêntica para solos soltos e
solos densos ou para solos moles e solos rijos.

No que respeita à geometria do tratamento, para cada tipo de sistema e tipo de solo, a influência da
pressão de injecção, do caudal de fluído de corte, da velocidade de subida e da energia específica, deve
ser analisada, fazendo variar o parâmetro em questão e mantendo os restantes constantes. Assim, se se
pretender determinar a forma como a pressão de injecção influencia o diâmetro da coluna, devem ser
mantidos constantes os valores do caudal, da velocidade de subida, da velocidade de rotação, etc. Este
estudo deve ser efectuado para diversos valores dos parâmetros referidos e para diferentes tipos de
solo.

Também no que se refere à resistência e à deformabilidade do material tratado, deverá empreender-se


um estudo semelhante com o objectivo de definir com maior precisão a gama de valores expectáveis
para um determinado material tratado por um qualquer sistema de jet grouting.

Os estudos a realizar também terão como finalidade estabelecer os limites de variação de um


determinado parâmetro a partir dos quais o seu aumento (ou redução) já não traduzem uma melhoria
significativa do material tratado, por comparação com o esforço despendido no seu tratamento.

Obviamente que a obtenção dos valores especificados no projecto dependem de um controlo rigoroso
da qualidade, desde a fase de projecto, através de uma campanha de prospecção geotécnica adequada
aos objectivos pretendidos, passando pela execução do tratamento e terminando no controlo das
características do material tratado. No que respeita ao controlo de execução, refere-se que a aquisição

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VII Congresso Nacional de Geotecnia

de dados contínua e em tempo real de alguns parâmetros do procedimento é já prática comum de todos
os empreiteiros especializados na técnica de jet grouting.

Relativamente às aplicações típicas do jet grouting, o desenvolvimento da técnica deve permitir que o
dimensionamento das soluções não seja feito com bases empíricas, traduzindo-se por um sobre -
dimensionamento e um aumento dispensável dos custos.

Uma referência final para a necessidade de proceder à observação das obras e à realização de ensaios
que permitam resolver as incógnitas de dimensionamento existentes. Refere-se, em particular, o caso
de reforço de fundações, ou mesmo de fundações, para os quais um adequado sistema de observação e
uma campanha de ensaios de carga poderão ajudar a esclarecer a sua interacção com o terreno e com a
superestrutura.

7– CONCLUSÃO

A síntese da informação disponível, resumida na presente comunicação e que baseou a elaboração da


tese de mestrado “Jet Grouting. A Problemática do Dimensionamento e do Controlo de Qualidade”,
permitiu identificar as áreas de estudo envolvidas pela técnica de jet grouting que devem ser alvo de
uma análise mais detalhada e aprofundada. Nestas inclui-se o estudo sistemático da influência dos
diversos parâmetros do procedimento e das características e condições iniciais do solo sobre os
resultados finais, estudo este que deve ser efectuado, individualmente, para cada tipo de sistema. No
que se refere às aplicações, poderão e deverão ser realizados estudos detalhados que permitam
esclarecer as incógnitas associadas ao dimensionamento deste tipo de soluções, em particular no que
se refere à sua interacção com o solo. Das investigações a empreender sobre a técnica de melhoria de
solos - jet grouting - e dos resultados a obter no futuro, dependerá a sua maior divulgação, em
particular no que se refere à utilização da técnica em estruturas definitivas e não apenas como solução
de reforço ou de suporte provisório.

AGRADECIMENTOS

A autora deseja agradecer ao Eng.º Rui Correia pela orientação e interesse demonstrados durante a
realização da Tese de Mestrado e à Teixeira Duarte por toda a informação gentilmente facultada.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Baumann, V.; Dupeuble, P. (1984). The jet grouting process and its utilization in some European
countries. Colectânea da Teixeira Duarte, S.A.

Carreto, J. (1999). Jet grouting. A problemática do dimensionamento e do controlo de qualidade.


Dissertação de Mestrado em Mecânica dos Solos, FCTUNL, Lisboa

Hachich et al. (1996). Fundações. Teoria e Prática. PINI, pp. 641-656

Miki, G. (1985). Soil improvement by jet grouting. 3rd International Geotechnical Seminar on Soil
Improvement Methods, Singapore, pp. 1-5

Paviani, A. (1989). Panelist Contribution. XII International Conference on Soil Mechanics and
Foundation Engineering, Rio de Janeiro, pp. 3019-3024

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