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BRONISLAW MALINOWSKI

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UMA TEORIA
11

CIENTÍFICA DA CULTURA ío Científica


3 Humanista
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13
17
24
43
do . . . 49
amento Or-
57
70
Tradução de 77 -
turais . 86
JosK Auto jturais . 91
pdas . 117
[Humana . 128
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141
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157
163
166
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Je Frazer 177
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a Teoria
• • . 183
ZAHAR EDITORES leciais . 191
• . . -.204"
BIO DE JANEIRO
Título original:
A SCIENTIFIC THEORY OF CÜLTURE AND OTHER ESSAYS

Publicado nos Estados Unidos pela


The Universiti/ of North Carolina Press
^ÍBL/OT£ca
Q;?
Pp'-'
Aí r.
índice
Prefácio (de Huntington Cairns) .
uma TEOEIA CIENTlnoA DA CUETÜHA (mi) 7

CjAPTTTTT<-k
Capítulo r
T t. ' 11
I Capítulo
'Capítulo
II - Definição MínimS da §a •""íg*''?»" Científica 13
Capítulo
III • ConceiU « Métodos ° Humanista 17

Capítulo
IV
V
• Que é Cultura? Antropologia . . . 24
43
Capítulo VI .
49
Capítulo VII
ganizado . . Comportamento Or-
57
Capítulo VIII
Capítulo IX
Oue e Natureza Humana?
Que . ." '■ '■ '■ *■
da Cultura 70
77
Capítulo X
86
Capítulo XI ■ A Natureza das Np Culturais . . 91
Capítulo XII ■
iSf. 117
Capítulo XIII - A Seqüência Vital Tnifn, ~ Humana . 128
mentada . . . ^nstrumentalmente, Imple-
O A teoria funcional (1939) 133

Capítulo '' — ^ 141


Capítulo tÍ ~ ®°?briologia e Obstètrica . ■ ■ 143
Capítulo
Capítulo 146
. I 150
Capítulo V;
V - MuJsSi'
As Unrd^ T ° f™«onalismo-.
Capítulo
Capítulo
VI - A ESrílr.^^S^^^T
VH - O J
^a Análise
Instituição .
Cultural
153
155
157
Capítulo VIII _ a Tpp n a Função, . . .
Capítulo. IX ~ ConclusL ^^'^«''sidades . . 163
166
1*9 6 2 SIR JAMES GEORGE FRAZER (1942) 170

Introdução . . - • 173
Direitos para a língua portuguêsa adquiridos por
Zahar Editôres Capítulo II I Posdçlfde^ÃLÍT 175

Rua México, 31 — Rio de Janeiro ç. , ■ Etnológica Desenvolvimento da Teoria 177

que se reservam os direitos desta traduçãc -SÍ:Í^ÀS^f^.t^Jeorias Especiais 183


191 -

Impresso no Brasil
PREFÁCIO

. STE VOluTTlB é ÜO TílBSTIÍlO teUVpO UÍU TC^SíMYlO Q UÍYICI tefOT-


mulação da teoria funcional de cultuiu do Professor Bronislaiw
Malinowski. Algumas de suas idéias podem ser encontradas
em estado embrionário na primeira página de seu primeiro
liuro, publicado há mais de trinta anos; outras, pelo menos em
sua evolução, são novas. Em conjunto, o trabalho apresenta
as opiniões amadurecidas, num campo de grande importância,
de um dos mais brilhantes e influentes antropólogos surgidos
na história dessa matéria. Essas idéias, da maneira que são •
aqui expostas, constituem o resultado de urrui acesa contro
vérsia. A sorte que tiveram foi, por conseguinte, a mais
feliz que pode sóbrevir às idéias: foram submetidas ao
crutínio minucioso de peritos encastelados em posições rivais.
Que tenham resistido, exceto por modificações de pouca
monta, à análise a que foram submetidas, é uma prova de
sua vitalidade.
Bronislaw Malinowski nasceu na Cracóvia, Polônia, a
7 de abril de 1884. Estudou a princípio Matemática e Ciências
Físicas; os resultados dêsse estudo evidenciam-se no seu do
mínio seguro dos elementos básicos do método científico. Ao
mesmo tempo êle permaneceu livre do dogmatismo geral
mente associado ao estudo das Ciências Exatas. Sua curiosi
dade foi desviada para a Antropologia Cultural por Wilhehn
Wundt. Embora o seu trabalho-de-campo básico tenha sido
feito na Nova Guiné e na Melanesia Norte Ocidental, parti-
cubirnuente nas Ilhas Trobriand, também conviveu, em in
tervalos mais breves, com algumas tribos australianas, os Hopi
do Arizona, os Bemba e Chagga da África Oriental e os
Zapotecas do Mérir-n n.
Hohhome, Frazer, Ellis ~ rms if>i,\ Westernwrck,
rosmnente de acôrdo com Ts rigo- ^^J^^eritJa be]tfu£^f\q^Z'ttum
^""'êenvoconhecmmvtomMoí^
^dm Sm absorto dTZÍT/^ doe Mhos^.que cessitando' cmtinZvtt-
J^ovàvelmente tõTocZpSa TJZ ^ fenômenos culturais to ertt rL de que os
investigação de qualquer uiventivid^ ou simples enZétTo^^^^^Z <'"Prichosa
^i nto de métodos modernos que £ uproveita- necessidades básicas e poSZdp' T '^^^^uados por
^ linguagem e contrôles n^ form^d T ""^^nhecimento conceito fundamental sustetnl n / 'utisfazé-laqí Êsse
tàdm ae declarações de caráfZ t i '^'Í^''^Ções reais para nedade e diferenciação assim ri responsável por va-
Dessa preocupação com a vida doTZr dos mtivos.
fu a grande série de vol^s ti 'de Trabriand sur- comum de variedadtTiste ZlumZfa %
é desortta em tôda a sua conZpLlS formulou dessa idéia. ultima elaboração que
yJ> ^ qmlquer^^linowski,
ramo de êle ctZt^ Segundo assinalou^mpiríco pedit dtsrT BrtltutiZl"'^'' f de 1942 A
U de fatos que observava, o que IhJl distinguir, na série
•O
impresso. FelizZtZt^ZtZr^^ ^
/ i//Zt^ de suas opiniões ufirrZ qtP^m ^ ^ uni.à iZTZ « onginal
imitei minhas datütttto
emendas ^Z''"'
a frrÍTtínt u- ® ^uia
^V i^\ ,r. ^^nos sociológicos seraí quanto
baspndn ' tôda a gama de iénô obvios. A aboi-dagem básica dn p e outros enganos
cwnalmente esclarecida S ^''^iuowski é adi-
^ssas conclusões tivessem S Z ^/^^'"^'■'^uada
^ amA, cberATé t^^ ™
^
V «SnoSr^f"?
" ''•^íSYtLt '"hath, <fe
f êle algo da Washington, D.C. Huntington Caibns
/ admtraçao de Platão pellbeltJ^ Possuía i5 de fevereiro de I944
fome independente da meíte"' at Satisfazia aquela
^^cimento. Êle também vta
twos, nao somente como um ■ Z aspectos nrá
trabaJJiador de campo TatZttT^Z Z-^tlvTo
dcrno
de sentido
insistir que/alógico,
grandecomo uSZ
necessiâadT no mo-
^^^u
a^lise teórica, particularmente análT
real com os nativos. Nesse a^eTafP ^
que possibilitava a investia^^ f ^ instrumento
^^jptes
■ <■ apalpadela lue ,2
« guü. mUp^Aa a. traJ^ZZZpTZ
'1
UMA TEORIA CIENTÍFICA

DA CULTURA

f
CAPÍTULO I

Cultura como Objeto de


Investigação Científica

O_ Estudo do Homem" é certamente um rótulo de alfmm


modo pretensioso para não dizer absurdo, quando apHcad™
Vtmas disciplinas antigas e recentes, veneráveis e novas, tam-
fríballio
abalho ríTn ' e das relações"«toeaa
manual humano entre os humana, do
sêres huma
nos. Podem reivindicar, tôdas elas, ser consideradas como
ramos do legitimo Estudo do Homem. As mais velhas certa
mente, são as contribuições à filosofia mora" à teoí^g? à
istória mais ou menos legendária e às interpretações de velhas
t?X2Tn.afd"" " P'"" ae «ais'oon,íbu5e
ate culturas que ainda perpetuam a Idade da Pedra- elas nn
velhas
Indm. da Asia Ocidental e do civilizações
Egito. da China
A Economia e da
e a Turis-
prudência, a Ciência Política e a Estética, a Lingüística a Ar
queologia e o estudo comparativo das rei giões constituam um
acréscimo mais recente ao humanismo. ®S Srca de do^
sccnloa a Paicologia - o caindo da monte - e Z,tdt n
acrescentadas a lista dos estudos acadêmicos oficiais.
A Antropologia, como a ciência do homem em ?era] e
"uma^mrnão
uxismeraaas como tais, foi a última a anarecer Tínlii.
vmcnlar anaa reivindicações, o melhor Jue pudesse, tjnanio
13
I

ao raio de ação, ao sujeito e ao método. Absorveu o que Neste ensaio procurarei demonstrar que o ponto de en
sobrou e teve mesmo de invadir alguns territórios mais velhos. contro real de todos.os ramos da Antropologia é o estudo
Compreende agora estudos tais como os da pré-história, do científico da cultura./Tão logo o antropólogo físico reconheça
folclore, da Antropologia Física e da Antropologia Cultural. que "a raça é o que a raça faz" terá também de admitir que
Esses territórios confinam perigosamente com outros campos quaisquer medidas, classificações ou descrições de tipo físico
legítimos das Ciências Sociais e Naturais: a Psicologia, a His não têm nenhuma relevância a menos e até que pudermos
tória, a Arqueologia, a Sociologia e a Anatomia. correlacionar o tipo físico com o poder de criação cultural de
/a nova ciência nasceu sob a esti-êla do evolucionismo en-
uma raça./ A tarefa do investigador pré-histórico e do arqueó
logo é reconstruü- a plena realidade viva de uma cultura pas
tusiástico, dos métodos antropométricos e de reveladoras des- sada da prova parcial limitada a remanescentes materiais. O
cobertas em pré-história. Não admira que o seu interêsse
■9 •j) inicial se concentrasse em tômo da reconstrução dos primór-
dios do homem, na procura do "elo faltante" e nas, investiga
etnólogo, por sua vez, que usa a evidência de culturas primi
tivas atuais e mais adiantadas, a fim de reconstruir a história
humana em têrmos seja de evolução ou difusão, pode basear
V ções dos paralelos entre os achados pré-históricos e elementos seus argumentos em elementos científicos exatos apenas se
etnográficos. Remontando às realizações do último século, I compreender o que é realmente cultura. Finalmente, o traba-
podíamos, na pior das hipóteses, ver nelas pouco mais do que lhador de campo etnográfico não pode observar a menos que
uma coleção de peças e objetos de antiquário, abrangendo s^ba o que é relevante e essencial e esteja, dêsse modo, capa
erudição etnográfica, medição e contagem de crânios e citado a desprezar os acontecimentos estranhos e fortuitos.
ossos e reunião de elementos sensacionais a respeito de nossos Em conseqüência, a cota científica em todo trabalho antro-
ancestrais semi-humanos/ Essa estimativa, contudo, certamente pologioo consiste da teoria de cultura, com referência ao
omitiria as melhores contribuições de estudiosos pioneiros em método de observação de campo e ã significação de cultura
culturas humanas comparadas, do calibre de Herbert Spencer como processo e produto.
ys e Adolf Bastian, E. B. Tylor e L. H. Morgan, General Pitt- Em segundo lugar, penso que se a Antropologia puder
Rivers e Frederick Ratzel, W. G. Sumner e R. S. Steinmetz, contribuir para uma perspectiva mais científica de sen Ip.gTHmn
É. Durkheim e A. G. Keller. Todos êsses pensadores, assim obj^, ou seja, a cultura, ela prestará um serviço inestimável
como alguns de seus sucessores, elaboraram gradualmente às outras humamHãdésT; A cultura, como o mais amplo con
uma teoria científica de comportamento eeonômico, no sentido texto de comportamento humano, é tão importante para o
de uma melhor compreensão da natureza, da sociedade e psicólogo como para o estudante de Ciências Sociais, tão im
cultura humanas. portante para o historiador como para o lingüista. Acredito
que a lin^ística do futuro, especialmente no tocante à ciência
Em conseqüência, ao escrever a respeito da abordagem do significado, tornar-se-a o estudo de linguagem no con
científica do Estudo do Homem, o antropólogo tem uma texto da cultura. Por sua vez, a Economia como uma inves-
tarefa que, embora talvez não seja fácil, é de alguma impor tigação_ da riqueza e do bem-estar, como meio de troca e
tância. É seu dever definir em que relação realmente se produção, pode achar útil no futuro não apreciar o homem
situam de um para outro os vários ramos da Antropologia. eTOnômico completamente isolado de outras emprêsas e con
Ele tem de determinar o lugar que a Antropologia deve ocupar siderações, mas basear seus princípios e argumentos no pctn^ln
no conjunto mais amplo dos estudos humanísticos. Tem ainda dQ_liomein como êle realmente é. movendo-se no meio dos
de reabrir a velha questão, em que sentido o humanismo interesses culturais complexos e pluridimensionais. Na verdade,
pode ser científico. a maioria das modernas tendências em Economia, quer rotu-
14
25

I
ladas "institucionais", "psicológicas" ou "históricas", estão CAPITULO II
suplementando as velhas teorias, puramente econômicas, por
situar o homem econômico dentro do contexto de seus múl
tiplos impulsos, interêsses e hábitos, isto é, o homem como êle
é, modelado pelo seu complexo ambiente cultural, parcialmente
racional e parcialmente ■ emocional.
A Jurisprudência, por seu lado, tende gradualmente a
considerar a lei não como um universo de raciocínio contido Definição Mínima da Ciência
em si mesmo, mas como um dos vários sistemas de contrôle
Para o Humanista
social no qual os conceitos de intenção, valor, coação moral
e fôrça do hábito têm de ser levados em consideração, além
da engrenagem puramente formal do código, do tribunal e
da polícia. Dessa maneira, não apenas a Antropologia, mas
o Estudo do Homem em geral, compreendendo tôdas as
Ciências Sociais, tôdas as novas disciplinas psicològicamente R ESTA agora definir mais especificamente por que e de que
ou sociològicamente orientadas, podem e devem cooperar na maneira a Antropologia, entre todos os estudos sociais, pode
construção de uma base científica comum, a qual forçosamente pretender colaborar diretamente para tornar o Estudo do
terá de ser idêntica para tôdas as diversas objetivações do Homem mais científico. /Gostaria de dizer inicialmente que
humanismo. a abordagem científica não é, de modo claro, o único interêsse
ou inspiração no domínio do humanismo. Os pontos de vista
morais ou filosóficos, estéticos e humanitários, ou o zêlo e a
inspiração teológicos, o desejo de conhecer o que era o passado
porque o passado apela para os nossos sentimentos de uma ma
neira que não carece ser justifieada, mas não pode ser negada
— tudo isso são motivações humanas legítimas. A ciência, con
tudo, como um instrumento pelo menos, como um meio para
um fim, é indispensável. //
Como tentarei demonstrar, o método científico genuíno
tem sido inerente a todo trabalho histórico, a tôda narração
cronológica, a tôda argumentação usada em Jurisprudên
cia e Lingüística. Não existe a descrição destituída de
teoria. Quer se reconstruam cenas históricas, se leve a cabo
uma investigação de campo numa tribo selvagem ou numa
comunidade civilizada, se analisem estatísticas ou se tirem
deduções de um monumento arqueológico ou de um achado
pré-histórico — tôda declaração e tôda argumentação têm de.
ser feitas èm pãlavrasTTsfo é, em conceitos. Cada conceito,!
por sua vez, é o resultado de uma teoria que declara que\

16
fatores detemunamrelevantes e outros acidentais, que alguns
o curso dos acontecimentos e outros são Um dos ofícios primitivos mais simples e mais funda
dTvT /ci manual
da habibdade fazer fogo. Nêle uma
de artífice, encontramos, muito Icima"
teoria científica con
terTal do arbTnr' Personalidades e mediações ma- substanciada em cada ação de acender o fogo e na ladicãn
as Scinlir
dwciplmas nomoteticas produziram.
e ideográficasA éusual
um distinção entre
desnistamento tabal dela decorrente. Essa tradição tinha de definir em gSd
Hosoftco que uma simples considfraçãe do que sSeíS? ou seja, de uma maneira abstrata o materi;,! To r® ® ^ '

fato
ato de
de o,
que ar°-maiorra
A causa
dos de tôda a perplexidade
princípios, está noe
das generalizações
teonas estavam implícitos na"^ reconstrução Io Storiadoí e
oTstorÍdor^^tScr' sistemáticosgastam
u mstoriador típico e muitos antropólogos em sua natureza,
a maior nar-
\
ém re£Z'°T cspistemoE
O conceito de lei científica no processo cultifral s5EíEüS1i|S."sv
zXdZ jrs^ZndoZur'
sãsnczzzrq- fôsse realizado por dlclaractferãT'' simbolismo primitivo
ou por consid^ável acãn t P®Ios gestos significativos
encoVrar e como deve ter esbcb'eíZ ^ sôbre onde
qZtr -TaçãTttumÍ êsse simbolismo
vi em ação em meu trabJho StcanZ Tio! T ■PlT» °
V ■J" e assim porque o resulfarío fínal • F ^ liferir que
sistemas filcsófiJou eJtZÔlógíZéX^q^^^ efa"»m°çl nunca seria possível a menos que?s''dístin^-°'^"^^°-
ao material, atividade e coordLacãn re quanto

cTna? do'
Trí
°° comportleutZ
carreira^de criar, construir e desenvolver
«íe estava iniciando
a cultura sua
Tome-se
qualquer arte ou ofício primitivo, um daqueles" com J^e
a cultura provàvelmente teve comêço, que é desenvolviHn %o;mrçã: &utLtfdfper e""'- h
origL^^^llirte^d^^l^^
rigens. a arte de fazer fogo, Çrmaneceu
de construir em suas próprias
utensílios
deira ou pedra, de erguer abrigos rudimentares, ou de usar
de ma
os quais trabalham p cna teórieos sôbre
ernas para viver. Que suposições temos de fazer no tocante
ao comportamento radonal do homem, a perZÚente facôr
pelvaloro' objet^dtno Zs rrdIf"sa?
de sua cultura P alap. Este objetivo é um
uma de suas necessidades lital^^É
ÍiS?°de r,? '""'""ai na tradição e a fide-
de seus anceslrSr®'" '®°'="™nfo tradicional herdado de própria exiaténda,. &,e aenao de vlrconmr,t:-
IS
m«ua ZX
'^omo ao -t"
conhecunento A *"'o
atitude» '""Made
científica,
19
corporificada em tôda a tecnologia primitiva e também na or quais estabelecem sua permanente recorrência. A constante
ganização de empresas econômicas e instituição sociais pri verificação empírica, assim como o fundamento originário da
mitivas, de que a confiança na experiência passada com vista teoria e experiência científicas, é parte evidente da própria
à execução futura, é um fator global que se deve presumir 6ssência da ciência. A teoria que falha deve ser emendada
ter estado em ação desde os primórdios da humanidade, desde pela descoberta de por que falhou. A incessante fertilização
que a espécie começou sua carreira como homo faber, como pelo intercâmbio de experiência e princípios é indispensável,
homo sapiens e oomo homo politicus. Se se extinguissem a por conseguinte. A ciência realmente começa quando os prin
atitude científica e a estimativa dela mesmo por uma geração, cípios gerais são submetidos à prova dos fatos, e quando os
numa comunidade primitiva, tal comunidade descairia para o problemas práticos e as relações teóricas de fatôres relevantes
estado animal ou, mais provàvelmente, extinguir-se-ia.
| são usados para manipular a realidade na ação humana. A
Assim, da substância inicial dos fatores ambientes, das definição mínima de ciência, por conseguinte, implica invaria-
adaptações causais e experiências, o homem primitivo, na sua velmente a existência de leis gerais, um campo para expe
abordagem científica, tinha de isolar os fatores relevantes e rimento ou observação por fim, mas nem por isso menos im
corporificá-los em sistemas de relações e fatores determinantes. portante, o contrôle de raciocínio acadêmico pela aplicação
O motivo ou fôrça decisiva em tudo isso era antes de tudo prática.
a sobrevivência biológica. A chama do fogo era necessária É neste ponto que as pretensões da Antropologia podiam
para aquecer e cozinhar, para dar segurança e luz. Os uten ser aceitas. Êsté estudo, por vários motivos, teve de convergir
sílios de pedra, as madeiras trabalhadas e aparelhadas, as
esteiras e utensílios, também tinham de ser construídas a fim
,sôbre o assunto central no mais amplo de todos os objetivos
de que o homem vivesse. Todas essas atividades tecnológicas
/ humanistas, isto é, a cultura. Além disso, a Antropologia,
produtivas eram baseadas numa teoria em que os fatores rele
especialmente em seus modernos aspectos, tem a seu crédito
vantes eram isolados, em que o valor da exatidão teórica era o fato de que a maioria dos que a ela se dedicam são obri
apreciado, em que a previsão na realização era baseada em gados ao trabalho de campo etnográfico, ou seja, um tipo
experiências do passado, cuidadosamente formuladas. l empírico de pesquisa. ^ A Antropologia foi talvez a primeira '
,de tôdas as Ciências Sociais a criar o seu laboratório, lado a
ponto principal que eu estou tentando salientar aqui lado com a sua oficina teórica O etnólogo estuda as realidades
não é tanto que o homem primitivo tem sua ciência, mas antes, da cultura sob a maior variedade de condições ambientes,
em primeiro lugar, que a atitude científica é tão velha quanto raciais e psicológicas. Êle deve ser ao mesmo tempo perito
a cultura e, em segundo lugar, que a definição mínima de na arte de observação, isto é, no trabalho etnológico de campo, /
ciência é derivada de qualquer execução pragmática.^ Se fôs e ^r, ric cultura
na teoria da Em geu Ixabalho de campo e na sua '
semos verificar essas conclusões quanto à natureza da ciência, i/\ análise comparativa da cultura, aprendeu que nenhum dêsses
extraídas de nossa análise das descobertas, invenções e teorias : dois objetivos têm qualquer valor a menos que sejam exe-
do homem primitivo, pelo progresso da moderna Ciência
Física desde Copémico, Gaüleu, Newton ou Faraday, encon Ky ^''cutados conjuntamente. Observar significa selecionar, classi-
I ficar, isolar na base da teoria. Elaborar uma teoria é resumir
traríamos os mesmos fatôres diferenciais que distinguem o * a relevância de observações passadas e prever a confirmação
científico de outros modos do pensamento e comportamento ou refutação empírica dos problemas teóricos apresentados.
humanos. Em tôda parte encontramos, em primeiro lugar e ü
principalmente, o isolamento dos fatôres reais e relevantes ^Assim, em têrmos de estudos históricos, o antropólogo
num determinado processo. A realidade e a relevância dêsses teve de agir simultâneamente como seu próprio cronista e
fatôres são descobertas por observação ou experimentos, os como o manipulador das fontes por êle mesmo produzidas^
20 21
Em têrmos da Sociologia moderna, o etnólogo, por meio de de certà maneira imoral, no sentido pragmático. A História
sua tarefa muito mais simples, é capaz de visualizar as culturas e a Sociologia, assim oomo a Economia e a Jurisprudência,
como um todo e observá-las integralmente por contato pes devem assentar seus alicerces cuidadosamente, conscientemente
soal. Dêsse modo, êle forneceu a maior parte da inspiração e deliberadamente nas bases sólidas do método científico. A
no sentido das tendências realmente científicas da Sociologia Ciência Social também deve transformar-se no poder espiritual
moderna, a análise dos modernos fenômenos culturais e da usado para o contrôle do poder mecânico. O humanismo
observação direta convincente, e não intuitiva, das revelações jamais deixará de ter seus elementos artísticos, sentimentais
de pura elucubração. Em têrmos de Jurisprudência, Economia, e morais. Mas a própria essência dos princípios éticos exige
política ou teoria da religião, o antropólogo elabora a mais sua fôrça, e isso apenas pode ser atingido se o princípio é tão
ampla prova indutiva para comparação e discriminação. verdadeiro ao fato quanto indispensável ao sentimento.
Em conseqüência, não é tão fútil, estéril e presunçoso, Outro motivo pelo qual tratei tão explicitamente da defi
como podia de início parecer, discutir a abordagem científica nição mínima de ciência é que, num campo inteiramente nôvo
do Estudo do Homem como a contribuição real da Antro de investigação como a cultura, é perigoso pedir emprestado
\ pologia moderna e futura ao humanismo como um todo. Neces os processos de uma das disciplinas mais velhas e melhor
sitamos uma teoria de cultura, de seus processos e produtos, reputadas. Os símiles orgânicos e as metáforas mecânicas,
do seu determinismo específico, de sua relação com os fatos convicção de que contar e medir define a linha divisória entre
básicos da psicologia humana e dos acontecimentos orgânicos, a ciência e a conversa fiada — tudo isso e muitos outros arti
dentro do corpo humano, e da dependência da sociedade do fícios usados para tomar empréstimos ou depender de outra
ambiente. Essa teoria não é, de modo algum, monopólio do disciplina têm feito mais mal que bem à Sociologia. Nossa
antropólogo. Êle tem, contudo, uma contribuição especial definição mínima implica que o papel fundamental de tôda
a fazer, e isso podia provocar esforços correspondentes por ciência é delimitar o seu legítimo campo de ação. Ela tem
parte dos historiadores de mentalidade empírica, e dos psi de empregar métodos de verdadeira identificação ou isola
cólogos e estudantes de atividades típicas específicas, no mento dos fatôres relevantes de seu processo. Isto não é
campo jurídico, econômico ou educacional. nada mais do que o estabelecimento de leis gerais e de con
ceitos que consubstanciam tais leis. Isto implica, naturalmente,
Esta discussão, mais ou menos pedante, sôbre a cota cien que cada princípio teórico deve sempre ser traduzível num
tífica nos estudos sociais, não precisa de justificativa. Não método de observação, e ainda que na observação acompa
há dúvida que na presente crise de nossa civilização eleva- nhemos cuidadosamente as linhas de nossa análise conceptual.
mo-nos a alturas vertiginosas nas Ciências Mecânicas e Quí Finalmente, em tudo isto a inspiração aurida dos problemas
micas, puras e aplicadas, e na teoria materialista e engenharia práticos — tais como política colonial, trabalho missionário, as
mecânica. Mas não temos fé nem respeito pelas conclusões dificuldades de contato de cultura e a transculturação — pro
de argumentos humanistas, nem ainda na validade das teorias blemas que legitimamente pertencem à Antropologia, é um in
sociais. Presentemente temos muita necessidade de estabelecer variável corretivo das teorias gerais.
o equilíbrio entre a influência hipertrofiada da Ciência Natural
e suas aplicações, de um lado, e o atraso da Ciência Social,
com a constante impotência da engenharia social, de outro. A
despreocupada volubilidade de muito humanista e historiador
no tocante à natureza científica de suas pesquisas não é sim
plesmente desprezível do ponto-de-vista epistemológico, mas.
22 23
CAPITULO III a cultura como um todo pela comparação de suas variedades.
Montesquieu e Oliver Goldsmith foram talvez os primeiros que
tentaram uma compreensão crítica mais profunda da cultura
que os cercava pela comparação com civilizações exóticas.
/ A moderna* Antropologia começou com um ponto-de-vista
evolutivo. Era nisso amplamente inspirada pelos grandes
êxitos das interpretações darwinistas do desenvolvimento bio
Conceitos e Métodos da Antropologia lógico e pelo desejo de efetuar uma aproximação entre as
descobertas pré-históricas e os elementos etnográficos. O evo-
lucionismo, no momento, está um tanto fora de moda. Não
obstante, suas principais premissas não somente são válidas,
mas também são indispensáveis ao trabalhador-de-campo assim
oomo também ao estudioso da teoria. O conceito de ori
\ M.
[esmo uma breve história das realizações antropológicas gens podia ser interpretado de maneira mais prosaica e cien
estaria deslocada neste ensaio. Um relato completo e adequado tífica, mas nosso interêsse em remontar a tôda e qualquer
de todos os interêsses, pesquisas e teorias acêrca de povos manifestação de vida. humana nas suas foimas mais simples
exóticos e culturas remotas está ainda para ser escrito 1. continua tão legítimo e tão indispensável à plena compre
Não há dúvida que numa tal história grande número de fontes ensão da cultura quanto o fôra no tempo de Boucher de
científicas de inspiração, assim como antiqualhas e sensaciona- Perthes e J. C. Prichard. Acredito que em última análise
lismos, seriam descobertas nos trabalhos de Heródoto e Tácito, aceitaremos a opinião de que "origens" nada mais são que a
nos relatos de Marco Pólo e dos viajantes portugueses e natureza essencial de uma instituição como casamento ou
espanhóis e, mais tarde, nos dos descobridores e missionários nação, famíliA ou Estado, congregação religiosa ou organização
dos séculos XVII e XVIII. A influência desse horizonte hu de bruxaria/
manista em expansão sobre alguns dos Enciclopedistas fran ^ O conceito de "etapas" continua tão válido quanto o de
ceses merece menção especial. origens. jQualquer esquema evolutivo de sucessivas camadas
As narrativas de Bougainville e de algüns dos jesuítas fran de aperfeiçoamento teria de ser ou muito geral ou válido
ceses influenciaram a teoria do Nobre Selvagem e inspiraram apenas para certas regiões e sob certas condições/Não obstante,]
Rousseau e Montesquieu, em cujos escritos já encontramos duas o princípio geral de análise evolutiva permanece. Certas/
fontes de inspiração antropológica: o uso da vida primitiva formas definitivamente precedem outras; uma etapa tecnoló
como um modêlo para o homem civilizado, bem como uma gica tal como exprimida em termos como "Idade da Pedra",
crítica da civilização por paralelos com a selvajaria. Nêles "Idade do Bronze", "Idade do Ferro" ou os níveis de orga
encontramos também o desejo mais científico de compreender nização em clã ou gentio, de grupos numèricamente pequenos
em escassa disseminação contra concentrações urbanas ou semi-
urbanas, tem de ser considerada do ponto-de-vista evolucio-
(1) O livro History of Anihropology (Londres, 1934), de A.C. nista como a exata descrição de um tipo especial de cultura
Haddon, é conciso, mas até agora o melhor. A Hundred Years of da mesma forma que em qualquer tentativa de comparação
Anthropology (Londres, 1935), de T. K. Penniman, é mais completo, ou representação em mapa./
mas de algum modo pouco inspirado. The History of Ethnological
Theory (Nova York, 1938), de R. H. Lowie, é divertido, coloquial, O evolucionismo experimentou um eclipse temporário sob
confessadamente partidário e nem sempre exato. o ataque das escolas do extremo difusionista, também cha-

24 25
madas "históricas". Para uma visão justa e equilibrada eu A essas duas, acrescenta-se às vêzes, no momento, a escola
recomendaria ao leitor o verbete sôbre o assunto na Encij- funcional, pela qual o autor é freqüentemente apontado como
clopaedia of the Social Scieinces, escrito por A. A. Goldenweiser. sendo o maior responsável. Na realidade, todavia, e sob a
O evolucionismo é agora o credo antropológico totalmente lente de aumento de um exame mais acurado, podíamos apurar
aceito na União Soviética, numa forma, naturalmente, que j uma variedade muito maior de tendências, teorias e métodos;
deixa de ser científica, e foi ressuscitado nos Estados Unidos cada um dêles caracterizado por uma concepção definitiva
de maneira racional por várias jovens, notadamente A. Lesser do que é o princípio real de interpretação e tendo uma abor
e L. White. dagem específica por meio da qual atingir a compreensão de
um processo ou produto cultural; indo cada um dêles ao tra
A outra tendência dominante da Antropologia mais velha balho de campo com uma série de algum modo diferente de
punha ênfase fundamentalmente na difusão, isto é, no processo \ compartimentos intelectuais nos quais reunir e distribuir as
de adoção ou empréstimo, por uma cultura de vários artefatos, provas.^Assim, há um método comparativo, no qual o
^ irriplementos, instituições e erenças de outra. A difusão como estudioso se interessa fundamentalmente em reunir ampla
\ processo cultural é tão real e inatacável como a evolução. Pa documentação cultural, tal como vimos no The Golãen Bough,
rece exato que nenhuma distinção pode ser feita entre os dois de Prazer, ou em Primitive Culture, de Tylor, ou nos volumes
processos. 0's partidários de uma ou outra das escolas, contudo, de Westermarcic sôbre o casamento e a moral. Nesses trabalhos,
a despeito da atitude de algum modo intransigente e hostil com os autores se interessam fundamentalmente em pôr a nu a
que se enfrentam mutuamente, têm abordado o problema de natureza essencial de erença animista ou rito mágico de uma
creseimento da cultura de ângulos diferentes e contribuído de fase da cultura humana ou um tipo de organização essencial.
maneira independente para o seu esclarecimento. O mérito real .t> E claro que o conjimto dessa abordagem pressupõe uma defi
da escola difusionista consiste no seu maior sentido do con nição realmente científica das realidades comparadas. A me
creto, maior sentido histórico e, acima de tudo, na sua con nos que alinhemos, em nossos imensos inventários, fenômenos
cepção das influências ambientes e geográficas^. Quer to realmente comparáveis, e não formos jamais iludidos por simi
memos o trabalho de Ritter ou Ratzel, que provavelmente laridades de superfície ou analogias fictícias, uma grande parte
podiam ser considerados pioneiros dêsse movimento, verifioa- do trabalho pode induzir a conclusões incorretas. Lembre- ^
mos que a correção do evolucionismo mais antigo consiste mo-nos também de que o método comparativo deve perma
em considerar o processo histórico dentro do contexto do necer como base de qualquer generalização, de qualquer
globo. O ponto-de-vista antropogeográfico implica, por outro princípio teórico, ou de qualquer lei universal aplicável ao
lado, a estimativa de cada cultura dentro de seu ambiente mesmo campo de ação.
natural. Como método, também exige a apresentação de pro Outro artifício epistemológico às vêzes utilizado exclusi
blemas culturais com referência a um mapa, e a um mapa da vamente, às vêzes completamente rejeitado, é a interpretação
distribuição das culturas em têrmos de suas partes compo psicológica de costume, crença, ou idéia. Dêsse modo, a "de-
nentes. Na medida em que a eiêneia sempre ganha por movi ^ finição mínima" de religião, de Tylor, e todo o seu conceito
mentar-se em outros sistemas de deteiminantes, êste movimento teórieo de animismo como a essência da fé e filosofia primitiva,
prestou grandes serviços à Antropologia. são fundamentalmente psicológicos. Uma série de autores, tais
A brecha entre o evolucionismo e o difusionismo — e como Wundt e Cravzley, Westermarck e Lamg, Prazer e Preud,
cada um dêles, naturalmente, contém uma série de escolas A abordaram problemas fundamentais como as origens da magia
parciais e opiniões divergentes — ainda aparece como o prin e da religião, da moral e do totemismo, do tabu e da mana,
cipal divisor de águas no método e na formulação conceptual. propondo exclusivamente soluções psicológicas. As vêzes o
26 27
S^gabSetío repensar em termos de filosofia cassos, e geralmente permitem, na melhor das hipóteses recons
ou iS sol?
n?ncn . condições,
pensado truçoes parciais tão inteligentes e esclarecedoras quanto as
pensamentos ou sentimentos, um e costume,^
como, porumaforça
cLcade tais
ou ^e encontomos nos trabalhos de Taine, Lamprecht ou Max
Weber. Uma vez mais, como em nossa crítica dos métodos
r^r^f o primeiro a insistir clara
So ™„t"ôLTÕ? »°> IM"» 's discussões.
™ dos mais completos e inspirados sistemas de Sociologia quanto eu possa perceber, drfinidos satisfatòriamente

tafíSci?" por certos preconceitos me^ naa nSS


poeira rcotfosííC®®"' ^ 'Antropologia
e confusão de um museu teórica
etnográfico. nasceram
Os resultados
em sido, em conjunto, um tanto perniciosos. Os objetos ma
de especulaçôes^„l^tHS %'SSfc^^^^
rrnit^r'
Sdirãri
W"Wr:;c«it™hí
maneiras, todavia, Durlcheim pode ser con-
em cuÍt?r°S?°'' papel de
cultoa. Tomar um artefato como modêlo muito
um específico
elemento

ÍiTin
especifica
° representantes mais seguros dessas
alma de iudo
fenômeno ^£Spp££f5S3S
Uma ou duas tendências ou atitudes específicas ainda têm
de ser mencionadas. As palavras "história" e "históriio" têm
10 freqüentemente usadas neste ensaio. Estou usando estas
?erÍr?'
geral quer'''' qualquer processo
possa ser reconstruído de umaoumaneira
desenvolvimento
mais nu
"í^^d de ser admitido como uma /
çe.W„.esig„it,caJ™e^':Ltrr^^^^^^^ mente aceitável. tendência essencial-

na Kistóda CS
^ r„'5ÍL? mortos cofecio^dos Tum "mi^iL^ 'foTT^'"'"
europeia por sobre o espaço de uns quinhentos anos' fôsse Arqueologia e da pré-histórS derivado da
possível, alem disso, demonstrar em cada etapa como essas nárío ambieíte d? tof No caso, porém, o próprio ce-
a estratificaçS Agfca relação , com
indubitàve?^ ocorreram e como foram determinadas, podíamos freqüentemente fão sf ifmu/ vestígios materiais
edespojes
taCémdereífqCratSdlTT'^"'
seres humano "n apenas a artefatos, mas contêm
° ^ ■»»«<'.
influência da Arouonlnn-' vitais — tudo isso tornou a
gente oir. . ^^y"®ologia sempre mais estimulante e conver
2S
St„r e coCntCCC''
concentia em torno dos princípios sobreinTZt-
os quais
29
ou"todW«®° P»<i« reconstruir lotalidadss culturais de despejos Minha convicção quanto a sua fertilidade é devida ao fato de
cíff "S£r;i«iÉ que os psicanalistas estãos empenhados em procurar impulsos
orgânicos como deteiminantes de cultura — uma posição que
me foi favorita desde o início de meu trabalho em Antropo
logia 6 que estudei exaustivamente no meu verbete "Cultura",
ia iTrtAtoT"''"'^''"'.'"''''
êSuZlri r"
9" Pe„n'tem rÂT
"■"» 'écuica a um objetivo
na Encyclopaedia of the Social Sciemces. Ademais, a Psica
nálise nunca será capaz de desprezar a relação orgânica dos
vital dolomeTo d"™
crrí OU de um grupo
» "■g""»" necessidade
humano. A arqueologia
elementos culturais consubstanciados aos agrupamentos sociais.
americana, especialmente a da íegião do SudoesS^ Mando Esse tipo de Psicologia se ocupa de fatôres tais como autori
dade ou uso da força, o desdobramento dos desejos orgânicos
e sua tiansformação em valores, o estudo de normas como
meios de repressão. Tudo isto já encaminhou muitos parti-
tereu-;: ^dt' ° — dárms de Freud na direção de um tipo de análise institucional
mais ou menos sistemática, dentro da qual êles colocaram
Recentemente a escola piscanalítica trouxg para o Estudo processos mentais.
do Homem um ponto-de-vista específico, tSvez unilatSal
porem importante. O antropólogo é talvez mais reservado A aprovaçao da Psicanálise não desmerece de maneira
a guma a grande importância que o behaviorismo promete
oÍS.tZ-TafZr" ''°=e"o'onte-, "libido", "complexo de
reai da Rsicanalise é a sua insistência sobre a formação de /
adquirir como Psicologia básica para o estudo dos processos
ria T Pdcânáir i™ "''"í oontribuição sociais e culturais. Por behaviorismo quero designar os mais
atitudes inentais isto é, também sociológicas,= durite ^01? novos desenvolvimentos da psicologia dg estímulo-e-resposta
elaborada pelo Professor C. Hull na Universidade de Yale
Sa'a Ti5f ^
dÜ f ^/^íuencias
1° contexto da instituição doméstL, Thomdike na de Columbia ou H. S. Liddell na de Cornell O
da autoridade paternaculturais
g certos tais comoprimários
impuEos a educação, o uso
associados va or do behaviorismo é devido, em primeiro lugar, ao fato
com sexo, nutrjão e evacuação. Na verdade, Sigmund Frld e que seus métodos sao idênticos, no tocante às limitações
e vantagens, aos do trabalho-de-campo antropológico Tra
triz
a respeito T ' indecências", deo nosso
de varias forma tabu ocidental
que qualquer tando com gente de uma cultura diferente é sempre perigoso
pessoa que empregue jargão psicanalítico pode agora Lco^rer
sobre quaisquer assuntos relacionados com a parte inferTor do adivinhar o que a outra pessoa podia ter pensado ou sentido
orpo humano, a qual previamente estava desterrada não ape-
nas da sala de visitas mas também da aula acadêmica. Mrtito ■^mbT"^'°Í™u
também o do behaviorista, étrabalhador-de-campo, assime So
que as idéias, emoções como
taço^ nunca prosseguem a conduzir uma existência críptica
psiSS? um Z °
sSrt f ^
norte-americano da confraria
superênfase,
oculta dentro das profundezas inexploráveis da ment^S
ciente ou inconsciente. Toda Psicologia experimental ^u seia
veitosa ÍntT?Am
veitosa entre a Antropologia e o estudo docolaboração pro2
inconsciente. Psicologia pura, podg lidar apenas com observações de ooii-
servaSí
servações aà ttaquigrafia da^mti^retaçãó
«er útilintrospectivar
relacionar tais ob
York,^ W39? de^TSnÍr~e?^ZíÍton!^'''^ é
ciênc?a"^'^°S^^'!f "gons-
, realidades espirituais", "pensamentos", "idéias",
30

31
crenças e valores' como realidades subjetivas na mente de
outras pessoas é essenciamente metafísico. Não vejo razão e princípios a fim de executar êsses programas, aperfeiçoaram
ainda por que tais exjpressões diretamente referentes à minha uma estrutura respeitável, embora não totalmente harmoniosa.
própria experiência não devam ser introduzidas, contanto que Alguns trabalhos, como o livro A.nci&nt SocÍ0ty de L. H.^Mor-
em cada caso sejam definidas em têrmos de comportamento gan a mais completa e intransigente exposição das tendências
aberto, observável, fisicamente verificável. Na realidade, tôda evoíucionistas; o ChÜdren of the Sun, de W. J. Perry uma
Xi a teoria de simbolismo que será resumidamente delineada aqui exposição erudita e ambiciosa do difusionismo extremado; os
consiste na definição de um símbolo ou idéia como algo que sete volumes da Võlkerpsijchologie, de Wundt; o magnífico
pode ser fisicamente testemunhado, descrito ou definido. As conjunto da obra comparativa de Prazer, The Gólden Bough,
ideias, pensamentos e emoções têm de ser tratados com The History of Human Marriage, de Westermarck — todas
todos os outros aspectos da cultura, tanto funcionalmente essas obras merecem nosso respeito e admiração.
como formalmente.'-|A abordagem funcional permite-nos de Neste contexto, todavia, estamos acima de tudo mteres-
terminar o contexto pragmático de um símbolo e provar que sados nos alicerces do edifício, ou seja na contribuição real
na realidade cultural um ato verbal ou outro simbólico se mente científica contida nesses vários trabalhos. E aqui tería
toma real somente por meio do efeito que produz.! A abor- mos provàvelmente de realizar uma obra em parte inspirada
A dagem formal é a base para a nossa convicção e prova disso pela profissão de demolidor de casas, uma obra certamente
porque em trabalho-de-campo sociológico e etnográfico é pos na qual inúmeros pontos fundamentais teriam de ser postos
sível definir as idéias, as crenças, as cristalizações emocionais em dúvida e apontados um ou dois erros persistentes do
de uma cultura completamente diferente - com um alto grau método. Do lado positivo, daríamos provàvelmente crédito
de precisão e objetividade. a um trabalhador como L. H. Morgan em primeiro lugar pela
descoberta do sistema de classificação de parentesco e pela
Neste tôsco e rápido levantamento das várias abordagens sua resoluta persistência em estudar os fundamentos das rela
à interpretação antropológica, de compreensão e de doeumen- ções primitivas por casamento, por sangue e por afinidade.^
teção, nos ocupamos de várias categorias de exposição e eríticá. 'Y
'Na obra de Tylor selecionaríamos sua tentativa pioneira de
E necessário distinguir claramente entre o programa," a ins- fornecer uma definição mínima de religião, seu método de
pnaçao e o interêsse principal de um evolucionista em opo relacionar casualmente os fatores de organização humana e
sição aos de um difusionista, um psicanalista ou uma. toupeira sua capacidade de distinguir na maior parte de seu trabalho
de museu. As realizações de cada escola podiam e devem a delimitação relevante das instituições humanas. Westermarck
ser em grande parte medidas pelo que elas se propuseram contribuiu mais para o nosso conhecimento do casamento hu
íazer. Ademais, e numa etapa posterior, um estudioso inte mano e da família pela correta apreciação de tais relações e
ressado na historia do pensamento antropológico será capaz de da vitalidade da instituição doméstica, e por sua penetrante
por ordem nessas realizações, delimitar as'legítimas reivin percepção intuitiva quanto ao papel puramente cerimonial de
dicações do difusionismo em comparação com a interpretação vários ritos nupciais, do que por sua vinculação evolucionista
evolucionista; da unilateralidade sociológica de um Durlcheim do casamento humano com o acasalamento de macacos, pás
contra as análises mtrospectivas de um Wundt. Por agora saros e répteis. As contribuições específicas e permanentes
podemos permitir-nos adotar uma perspectiva universaí e mes de Robertson Smith, Durkheim, Freud e seus discípulos já
mo eclética e admitir que as escolas e tendências da Antropolo foram registradas.
gia, ao seguirem em parte seus próprios programas mai^ ou Uma escola até agora não mencionada recebeu de um
menos ambiciosos, e ao elaborarem, em parte, métodos, teorias modo geral menos apreciação do que realmente merece, talvez
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l\
apenas por causa da modéstia e limitação científica de seu
programa. Quero referir-me à escola de R. S. Steinmetz e seus Em tudo isso podemos ver que não foi dada suficiente
discípulos, que talvez mais consistentemente do que qualquer atenção até agora àquela atividade científica que descrevemos
outra satisfez-se com análises científicas de fatos sociais e num capítulo anterior, e que consiste em definir e relacionar
culturais e não com ambiciosos esquemas reconstrutivos ou claramente os fatòres relevantes que agem em fatos culturais
reinterpretativos.
tais como a magia, o totemismo, o sistema de clãs e a insti
tuição doméstica. É necessário demonstrar, em primeiro lugar,
~ Onde encontramos^as principais deficiências das várias que um fenômeno que desejamos comparar em várias culturas,-
escolas clássicas de Antropologia? Na minha opinião, elas que desejamos delinear em sua evolução ou acompanhar em
sempre se concentram em torno da questão de se, ao construir sua difusão, é uma legítima unidade de observação e de
um sistema de etapas evolucionistas ou ao delinear a difusão exposição teórica. É necessário definir clara e precisamente
deste ou daquele fenômeno cultural, o estudioso dedicou sufi onde os determinantes materiais, as ações humanas, as crenças
ciente atenção à análise plena e clara da realidade cultural e idéias, ou seja as realizações simbólicas, entram em tal uni
que examina.\ Aqui seria possível mostrar que através de dade, ou realidade de cultura, como atuam umas sôbre as
várias dezenas ou centenas de livros e artigos dedicados ao outras e como adquirem êsse caráter de relação permanente,
casamento primitivo, aos clãs e relações por parentesco, de necessário a cada uma delas.
Bachofen, McLennan e Morgan, escritos da escola alemã, seja É óbvio que essa deficiência inicial em análise teórica tem
socialista ou jurídica, até aos pretensiosos três volumes de também uma influência má sôbre o trabalho-de-campo. O
Robert Briffault, dificilmente pode ser encontrada uma única observador, quer seja lendo hvros de instrução e orientação
análise clara do que se quer dizer por uma instituição domés como Notes and Queries (Observações e Interrogações), quer
tica, ou relações por parentesco. Na verdade, foi aqui que inspirado pelas inúmeras e freqüentemente divergentes teorias,
opositores da teoria de promiscuidade primitiva, tais como coletou elementos isolados em vez de investigar relações na
Starcke, Westermarck, Grosse e Crawley, realizaram trabalho turais, intrínsecas e que se repetem incessantemente. Seria
muito melhor no tocante à abordagem científica real, e seus insuficiente dizer que as relações entre fatos e fôrças são tão
pontos-de-vista são agora quase universalmente aceitos por importantes quanto os elementos isolados que existem nessas
todos os modernos antropólogos competentes. Além disso, a relações opostos uns aos outros. Em ciência real o fato con
principal crítica que pode ser dirigida contra a valiosa análise siste na afinidade, contanto que esta seja realmente determi
de magia de Frazer é que êle concentrou sua atenção em nada, universal e cientificamente definível.
primeiro lugar sobre o rito e a fórmula, e não se deu c|onta
suficientementa de que a magia é o que a magia faz. Por êste
\Há um ponto, todavia, sôbre o qual as várias escolas mais
velhas cometeram o pecado de ação em vez de omissão. Êste
motivo, a execução ritual não pode ser plenamente entendida é o conceito indiscriminado e às vêzes mesmo anticientífico
exceto com relação à execução utilitarista pragmática em que dos "pesos-mortos" ou fósseis culturais na cultura humana.
está baseada, e à qual está intrinsecamente relacionada. A Por isto eu quero referir o princípio de que as culturas
análise de Tylor do animismo ressente-se do fato de que êle dão abrigo, em medida considerável e em posições de impor
considerava o homem primitivo como um filósofo raciocinante, tância estratégica, a idéias, crenças, instituições, costumes e
esquecendo que a religião, primitiva ou civilizada, é um esforço objetos que realmente não pertencem ao seu contexto. Nas
ativo organizado para permanecer em contato com podêres teorias evolucionistas, êsses pesps-mortos aparecem sob a deno
sobrenaturais, para influenciá-los, e obedecer-lhes os manda minação de "sobrevivências"^ O difusionista denomina-as
mentos. "traços de empréstimo" ou "complexos de traços".
34
35

/(■
No tocante à sobrevivência, cito a definição dada por A. a.artifícios e instituições mais importantes e mesmo nacionais,
A. Goldenweiser, que certamente não era um partidário das poderíamos mencionar a lareira aberta ainda existente na In
doutrinas evolucionistas. Uma sobrevivência é "um aspecto glaterra e em certas partes da França, em oposição à calefa-
cultural que não se ajusta no seu meio cultural. Ela persiste ção central. Nisso, contudo, se levarmos em consideração,
mais exatamente do que atua, e sua função de algum modo plenamente, os hábitos, atitudes e tipo de vida esportiva in-
não se harmoniza com a cultura circundante". Esta é, talvez, glêses, e o apêgo à função e prestígio de uma lareira na
a melhor definição do conceito e seu autor acrescenta; "Sa convivência de uma família, teremos simplesmente de declarar
bemos, naturalmente, que sobrevivências existem. Elas repre que ela desempenha um papel definido numa casa inglêsa ou
sentam, de fato, um aspecto constante e onipresente de tôdas num apartamento em Nova York.
as culturas". Tenho de discordar desta opinião. Seria melhor
discutir o conceito com referência a nossa própria cultura, que dano real feito pelo conceito de sobrevivência em An
indubitàvelmente dá mais oportunidade para a ocorrência de tropologia consiste em que êle funciona, por um lado, como um
sobrevivências, devido à vertiginosa velocidade do progresso artifício metodológico espúrio na reconstrução de séries evo
\ nos nossos dias, do que podíamos encontrar em qualquer outra lucionistas; e, pior do que isso, é um meio eficiente de fazer
situação histórica. Onde encontraríamos sobrevivências? No observação de cmrto-circuito em trabalho-de-campo. Tome-se,
desenvolvimento tecnológico, o veículo a motor substituiu o por exemplo, a memorável descoberta de Morgan dos sistemas
que era puxado a cavalo. Uma carroça puxada a cavalo, ou de classificação de parentesco. Êle os considerava como sobre
mesmo — e ainda mais — um cabriolé, não se "adaptam" às vivências de uma etapa evolucionista anterior. Considerando
ruas de Londres e Nova York. Essas sobrevivências, todavia, que êle foi capaz de observar a relação extraordinàriamente
ocorrem. O cabriolé aparece em certas horas do dia ou da próxima entre o modo de dar nome a parentes e a organização
noite, e em certos lugares. Será uma sobrevivência? Sim da instituição doméstica, parece quase incrível que ainda tenha
e não. Se o fôssemos considerar como o melhor e o mais afirmado que as duas estavam em discordância. Pois, no sis
O
rápido ou o mais barato meio de locomoção, naturalmente tema de Morgan, verificamos que a nomenclatura de classifi
êle seria tanto um anacronismo como uma sobrevivência. Mas cação sempre cômodamente sobrevive na mais elevada etapa
é óbvio que êle mudou de função. Deixa sua função de seguinte, sem dúvida a fim de dar ao antropólogo a pista
harmonizar-se com as condições atuais? É claro que não. Um para a reconstrução da etapa anterior. Isso, todavia, significa
meio de locomoção tão antiquado é usado por sensibilidade na realidade que para aquêles sêres humanos sempre mal re
retrospectiva, como "uma incursão ao passado"; freqüentemente, presentados em relação uns aos outros e ao mundo em geral
temo dizer, êle se movimenta quando os passageiros estão as condições reais de parentesco os circundam. Em tôda
ligeiramente de pileque ou com inclinações românticas. sociedade nativa os parentes eram falsamente, ou pelo menos
inadequadamente, classificados. A velha nomenclatura sobre
Não há dúvida que a sobrevivência persiste porque adqui viveu enquanto novas condições já haviam surgido. Êjste
riu uma nova significação, uma nova função, mas a menos exemplo de uma sobrevivência mostra, em primeiro lugar, que
adotássemos alguma atitude definitivamente moral ou de ava nenhuma compreensão clara do papel da linguagem pode ser
liação estimativa, em vez de estudar o fenômeno como êle obtida enquanto continuarmos o nosso dormitar dogmático
agora se desenrola, faríamos simplesmente uma descrição in no cômodo sofá da teoria de sobrevivência. Em segundo lugar,
correta de seus usos e sua significação. Os modelos antiquados tal conceito sempre permaneceria no caminho de qualquer tra
de automóveis não são usados simplesmente porque sobrevi balho-de-campo circunstanciado e meticuloso visando à ob
veram, mas porque as pessoas não têm meios para comprar servação de como a ação lingüística de dar nome é realmente
um carro mais nôvo. A função é econômica. Se passássemos relacionada a outras atividades e interêsses que constituem a
36 37
relação entre pais e filhos, irmãos e irmãs, parentes e membros Graebner, o representante máximo da escola difusionista, sustenta
de clãs. ^ nue tôdas as régularidades do processo cultural são "leis da vida mental"
\0 conceito se revelou igualmente destrutivo no tratamento e aue "seu estudo científico e metodológico é possível apenas do
nonto de vista psicológico" (Graebner, pág. 582, 1923), ao passo que
das cerimônias de casamento, como sobrevivências de uma Pater Schmidt, Wissler, Lowie e Rivers usam constantemente mterpretaçoes
etapa mais antiga, na qual o simbolismo da captura ou psicológicas. Em conseqüência, nenhum antropólogo hoje em dia deseja
certas liberdades tomadas com relação à noiva foram conce pUminar completamente o estudo do processo mental, mas tanto aqueles
que aplicam explicações psicológicas desde o principio como os que
bidos como sobrevivências de modos reais, anteriores, de casar. desejam usá-las depois que a cultura foi Hstoricamente analisacm
No caso, esse conceito também retardou demasiado nossa esquecem que a interpretação da cultura em termos de psicologia indi
compreensão gradual de que o chamado preço da noiva nunca vidual é tão inútil quanto a simples análise histórica; e que dissociar
é uma transação comercial mas um artifício legal com funções os estudos da mente, sociedade e cultura e antecipar os resultados.
complexas, porém perfeitamente claras e plenamente óbvias, Tão influente e unilateral quanto a tendência psicológica é a
no terreno econômico, jurídico e religioso. Tome-se qualquer interpretação de similaridades e analogias de cultura pelo princípio de
transmissão mecânica. De início energicamente proposto pcu Ratzel
exemplo de "sobrevivências". Verificar-se-á, acima de tudo, como o principal problema de Etnologia, o estudo da distribuição e
\ que o caráter sobrevivente do chamado "remanescente" cultural difusão foi continuado por Frobenius, Ankermann, Graebner, Pater W.
é devido fundamentalmente a uma análise incompleta dos Schmidt, Pater Koppers e subseqüentemente pelo falecido Dr. Rivers.
fatos. Verificar-se-á também que a maioria das sobrevivências, Se as doutrinas recentemente propostas pelo Professor EUiot Smth
principalmente aquelas que têm sido afirmadas a respeito de e Mr. Perry a respeito da universal disseminação de cultura por^ irra
diação do Egito terão de ser classificadas ao lado de outras hipóteses
importantes instituições, elementos fundamentais ou costumes, desprezadas, ou se contêm uma contribuição permanente para a história
têm gradual e progressivamente desaparecido da teoria antro da cultura, é o que ainda está para ser visto. Seu emprêgo de ele
pológica. O prejuízo real efetuado por êste conceito foi re mentos antropológicos não é satisfatório 3 e sua argumentação real
tardar o trabalho-de-campo eficaz. Em vez de pesquisar em mente pertence ao domínio da Arqueologia, campo em que suas opiniões
se defrontaram com crítica contrária Um ou dois antropologos
benefício da função atual de qualquer fato cultural, o obser competentes, todavia, deram forte apoio a essas teorias (Rivers, C. E.
vador se satisfazia simplesmente com atingir uma entidade Fox).
rígida, contida em si mesma.\^ O mérito do difusionismo antropológico moderado está mais em
Uma crítica adversa semelhante deve ser aplicada ao con suas contribuições geográficas do que históricas. Como um levanta
mento de fatos correlacionados aos seus substratos geográficos, é um
ceito fundamental da maioria das escolas difusionistas, aquêle método valioso de pôr à vista a influência do habitai físico assim como
do traço e do complexo de traço. Em difusão, como em qual as possibüidades de transmissão cultural. As distribuições cartografadas
quer outra pesquisa comparativa, em primeiro lugar o problema para os Estados Unidos por Boas, Spinden, Lowie, Wissler, Kroeber,
Rivet e Nordenskiõld; o levantamento das culturas melanésias feito por
de identidade tem de ser enfrentado e resolvido. O crédito Graebner; o das províncias austrahanas reahzado por W. Schmidt; o
por havê-lo enfrentado pertence pioneiramente a F. Graebner, da África preparado por Ankermann, possuirão vafor duradouro.
um alemão, etnólogo de museu, que no início de sua carreira
especializou-se em História e criou os famosos e freqüentemen
(3) A. A. Goldenweiser, Early Cwilization, pág. 311; R. H. Lowie,
te repetidos critérios de forma e quantidade na sua obra de American Anthropology, págs. 86-90 (1924); B. Malinowski, Nature (11
desbravador: Methode der Ethnologie (1911). Impugnei de março de 1924).
êsse artifício metodológico como fundamentalmente anticien- (4) O. G. S. Crawford, Edinhurgh Review, págs. 101-116 (1924);
tífico, e eomo fundamentador de tôda a disciplina do difusio- T. D. Kendrick, Axe Age, págs. 64 e seguintes (1925); J. L. Myres,
nismo em alicerce anticientífico, no verbete "Anthropology" Geographical Teacher, n.° 71, págs. 3-38 (1925); Discurso do Presi
dente, Folk-Lore, XXXVI, 1925, pág. 16; Fhnders Petrie, Ancient Egypt,
na décima-terceira edição da Encydopmdia Briiannica, da págs. 78-84 (1923); T. E. Peet, Journal of Egyptian Archaeology, vol.
maneira que se segue: 10, pág. 63 (1924); A. M. Blaclõnan, ibid., págs. 201-209.

38 39
As hipóteses históricas de Frobenius, Rivers, Schmidt e Graebner,
as grandiosas identificações dos "complexos de cultura" por sobre todo porque tantos dêles têm surgido tantas vêzes, em todos os
o globo, não serão tão fàcihnente aprovadas. Elas se ressentem de domínios da cultura e por tôda parte, e ocorrido por vêzes
uma visão de cultura sem vida e inorgânica e tratam-na como uma dissociados, muito embora noutras épocas e noutros lugares
coisa que pode ser conservada em frigorífico durante séculos, trans apareçam freqüentemente ou mesmo preponderantemente
portada através de oceanos e continentes, mecânicamente desmontada associados — que se torna lógico inferir, até demonstração
e recomposta. As reconstruções históricas dentro de áreas limitadas,
tais como têm sido feitas sobre material norte-americano, por exemplo, em contrário, que todos êles podem ocorrer independente
ate o ponto ern que elas são baseadas em elementos definitivos ou em mente uns dos outros. 7 Essa, de qualquer modo, parece
provas arqueológicas, dão resultados que podem ser empiricamente ve ser a suposição implícita de todos os antropólogos da última
rificados e por êste motivo podem ter valor científico. O estudo do
Dr. B. Laufer sobre a roda do oleiro e certas contribuições à história geração, com exceção dos poucos sobreviventes da escola "evo-
da cultura americana (T. A. Joyce, A. V. Kidder, N. C. Nelson, H. J. lucionista" de Tylor-Morgan-Frazer, e possivelmente do grupo
Spinden, L. Spier) são metodològicamente aceitáveis, embora perten de funcionalistas. 8 Se, em conseqüência, estamos em erro
çam mais a Arqueologia do que à ciência das raças e crJturas vivas. neste ponto, acreditamos que nove décimos da Antropologia e
Essas obras sólidas devem ser claramente diferençadas das pro
\ duções em que uma história conjetural é inventada ad hoc a fim da história da cultura praticados hoje em dia estão também
de substituir fatos reais e observáveis, nos quais, por conseguinte, o em erro numa suposição geral por via de regra não expressa;
conhecido e empírico é "explicado" pelo imaginário e desconhecível. 5 e neste caso está na ordem do dia uma investigação geral
Muito recentemente, ocorreu na Universidade da Cali sobre êste ponto."
fórnia uma nova e inteligente ressurreição da análise de traços. Estou profundamente convencido de que há uma incom
O Professor A. L. Kroeber, líder dessa investigação, reconhece preensão fundamental em qualquer tentativa de isolamento de
positivamente que a análise de traços e a caraterização de traços separados. Na verdade, a contribuição positiva deste
cultura por traços ou complexos de traços dependem da ques ensaio mostrará até onde e sob que condições podemos isolar
tão de se êles podem ser isolados como realidades e, em conse realidades relevantes, e onde o tratamento de traços ou de
qüência, ser comparados em observação e teoria. Citarei a complexos de traços é inadmissível. Esta não será obviamente
argumentação relevante: uma tentativa para substituir uma palavra ou frase por outra.
"São os nossos elementos ou fatores, os traços culturais, Aquêles que preferem empregar expressões tais como traços
independentes uns dos outros? Embora não estejamos pre ou complexos de traços, em vez de falar de instituições, grupos
parados para responder categoricamente a essa pergunta, acre organizados, artefatos em uso, ou crenças e idéias na medida
ditamos que os traços de cultura são principalmente, se não em que elas afetam pragmàticamente o comportamento huma
absolutamente, independentes em todos os casos. 6 Isto no, são positivamente convidados de bom grado a conservarem
quaisquer rótulos ou usos verbais. O único ponto que importa
(5) Citado com permissão dos editores: Encyclopaedia Britan- é se êles são capazes de isolar uma série aparentada de fenô
nica, Inc. menos na base de uma análise realmente científica, ou sob
(6) Dentro dos limites da lógica ordinária ou bom senso. As uma mera suposição arbitrária. E ademais, o ponto verdadeiro
partes essenciais de um traço não podem, naturalmente, ser contadas é, segundo Graebner, se damos o máximo valor às caracterís-
como traços separados: a pôpa de uma canoa, a corda de um arco etc.
Mesmo o arco e a flecha são um único traço até que surja a questão
de um arco sem flecha. Neste caso, temos dois traços: o arco de funda
e o arco de flecha. Similarmente, enquanto a amarração de um arco (7) Assim, o batismo ocorre sem confissão em certas seitas ou
pode ocorrer por si mesma, legitimamente distinguimos arcos simples denominações cristãs.
de arcos amarrados; e do mesmo modo, arcos de uma única curva de (8) A suposição parece estar subentendida na obra de estudiosos
arcos recurvos, arcos radicalmente e tangencialmente empenachados, com tão diversos em seus métodos quanto Boas, Ratzel, Rivers, EIliot Smith,
pôpas rombudas, arredondadas ou agudas etc. Wissier, Graebner, Schmidt, Lowie, Dixon, Rivet etc.

40 41
ücas de um traço ou à composição de um complexo, na medida
m que elas sao extrmsecas e irrelevantes, ou se, pelo contrário CAPITULO IV

vehTfTZ
pelas ® atuantes. A segunda
forças culturais realmente determinadas'
é, a nosso
ser realmente científica da cultura. A
primeira, que diretamente se opõe a ela, não pode por con-
SoSo
promisso, e nao ha meio-termo. P°^to não pode haver com Que é Cultura?

, De inicio será acertado olhar o panorama da cultura em


odas as suas manifestações, a vôo de pássaro. Êle é obvia
mente, o todo global consistente de implementos e bens de
socTar a"""''"'e ofícios humanos,
^ciais, de ideias paradeos crenças
vários agrupamentos
e costumes
Quer consideremos uma cultura muito simples ou primXa
ou uma extremamente complexa e desenvolvida, deparamo-nos
com uma vasta aparelhagem, em parte material, em parte
humana, em parte espiritual, com a ajuda da qual o homem
e capaz de hdar com os problemas concretos, específicos com
que se defronta. Êstes problemas surgem do fato de que
o homem tem um corpo sujeito a várias necessidades orgânicas
S e é tamb® para o seu trabalho ma-
_ Nesta formulação despreocupada e certamente desureten
siosa, que será elaborada peça por peca em T
oomideramos Implícito que a teoria da cuítura deve lill"sÇa'
Lédê
■ aP j animal"■ sujeitos a condiçõeshumanos são uma
elementares aue

apSdáJos o r„^ ° P"" produai-los e


POVO
nôvo foi dito ate agora, e definições
fo- ia ambientesemelhantes
secundário.deNada
cultum
de
42

43
têm sido proferidas e aperfeiçoadas. Tiraremos, todavia, uma novas necesidades culturais e essas novas necessidades impõem
ou duas conclusões adicionais. ao homem e à sociedade um tipo secundário de determinismo.
Em primeiro lugar, é claro que a satisfação das necessi Seremos capazes de fazer a distinção entre imperativos instru
dades orgânicas ou básicas do homem e da raça é uma mentais — emergentes de tipos de atividades econômicas, nor
mativas, educacionais e políticas — e imperativos integrativos.
série mínima de condições impostas a cada cultura. Os No caso, enumeraremos conhecimento, religião e magia. Po
problemas apresentados pelas necessidades nutritivas, reprodu deremos ligar diretamente as atividades artísticas e recreativas
tivas e higiênicas do homem devem ser resolvidos. Êles são a certas caraterístícas fisiológicas do organismo humano, e
solucionados pela construção de lun novo ambiente, secundário também demonstrar sua influência e dependência em modos
ou artificial. Êste ambiente, que não é mais nem menos do de ação conjunta, de magia, atividade industrial ou convicção
que a cultura propriamente dita, tem de ser permanentemente religiosa.
reproduzido, mantido e administrado. Isto cria o que podia
ser descrito, no sentido mai^ amplo da expressão, como um Se uma tal análise nos revela que tomando uma cultura
nôvo padrão de vida, que depende do nível cultural da comu individual como um todo coerente podemos definir uma série
\ nidade, do ambiente e da eficiência do grupo. Um padrão de determinantes gerais aos quais ela se tem de conformar,
de vida cultural, contudo, significa que novas necessidades seremos capazes de fazer uma série de declarações proféticas
surgem novos imperativos ou determinantes são inculcados como orientação para pesquisa de campo, como medidas p^ra
tratamento comparativo e como"medidas comuns no processo
no comportamento humano. A tradição cultural, é claro, tem de adaptação e modificação culturais. Dêste ponto-de-vista
de ser transmitida de cada geração para a geração seguinte. a cultura não nos parecerá uma "colcha de retalhos de tiras
Os métodos e mecanismos de caráter educacional devem existir
e farrapos", como tem sido descrita até muito recentemente
em toda cultura. A ordem e a lei têm de ser mantidas, uma pbr um ou" dois antropólogos competentes. Seremos capazes
vez que a cooperação é a essência de tôda realização cultural. de rejeitar a opinião de que "nenhuma medida comum dos
Em tôda comunidade devem existir disposições para a sanção fenômenos culturais pode ser encontrada" ou que "as leis do
de costumes, ética e leis. O substrato material de cultura tem processo cultural são vagas, insípidas e inúteis".
de ser renovado. e mantido em condições de funeionamento. ^A análise científica da cultura, contudo, pode apontar para
Por isso, algumas formas de organização eeonômica são indis outro sistema de realidades que também se adajpta às leis
pensáveis, mesmo nas culturas mais primitivas. gerais, e pode assim ser usada como um guia para trabalho-
Por conseguinte, o homem tem de satisfazer, acima de de-campo, como um meio de identificação de realidades cul
tudo, as necessidades de seu organismo. Tem de criar con turais e.como uma base de engenharia social./A análise apenas
dições e trabalhar para alimentar-se, aquecer-se, abrigar-se, esboçada, na qual tentamos definir a relação entre uma rea
vestir-se ou proteger-se do frio, do vento e das intempéries. lização culturaLenuna necessidade humana, básica ou derivada,
Tem de proteger-se e organizar esta proteção contra inimigos pode ser denominada funcional. Pois função não pode ser
e perigos externos, físicos, animais ou humanos. Todos êstes definida de nenhuma outra maneira senão como a satisfação de
problemas fundamentais dos sêres humanos são solucionados uma necessidade por uma atividade na qual os sêres humanos
para o indivíduo por utensílios, organização em grupos coope cooperam, usam artefatos e consomem mercadorias. Não obs
rativos e também pelo.aperfeiçoamento do conhecimento: um tante, esta mesma definição implica outro princípio com
sentido de valor e étiea. Tentaremos demonstrar que pode o qual podemos concretamente integrar qualquer fase de
ser desenvolvida uma teoria na qual as necessidades básicas comportamento cultural. O conceito essencial, no caso, é
o de organização. A fim de realizar qualquer objetivo, atingir
e suas satisfações culturais podem ser vinculadas à deriva de
44 45
qualquer fim, os seres humanos têm de se organizar. Como alguma necessidade ou valor altamente especializado. Tais
demonstraremos, a organização implica um esquema ou estru fenômenos como a caça de cabeças, os extravagantes rituais
tura muito definido, do qual os principais fatores são univer de morte ou maneiras de sepultar, e práticas de magia,^ podem
sais, porquanto são aplicáveis a todos os grupos organizados, ser melhor entendidos como requintes locais de tendências e
os quais ainda, na sua forma típica, são universais de um idéias essencialmente humanas mas acentuadamente hipertro
extremo ao outro da humanidade.^ fiadas.
Proponho chamar tal unidade de organização humana pela Nossos dois tipos de análise, funcional e institucional,
velha expressão usada, mas nem sempre clara e consistente- nos permitirão definir cultura mais concretamente, mais precisa
mente definida: instituição. Êste conceito implica uma con e exaustivamente. A cultura é um amálgama global de ins
cordância sobre uma série de valores tradicionais por força tituições em parte autônomas, em parte coordenadas. Ela se
dos quais os homens se reúnem. Êle implica também que integra numa série de princípios tais como a comunhão de
esses seres humanos se situam em relação definida uns sangue por meio da procriação; a contigüidade em espaço
com Os outros e em relação a uma específica parte física de relacionada com a cooperação; a especialização em atividades;
\ seu ambiente, natural e artificial. Sob a constituição de seus e, último na ordem mas não menor em importância, o uso
objetivos ou mandato tradicional, obedecendo às normas espe ^ do poder na organização política. Cada cultura deve sua
cíficas de sua associação, operando por meio do apai^elho integridade e sua auto-suficiência ao fato de que satisfaz tôda
material que manipulam, os sêres humanos agem em conjunto a gama de necessidades básicas, instrumentais e integrativas.
0 assim satisfazem alguns de seus desejos, imprimindo tam Sugerir, por conseguinte, como tem sido feito recentemente,
bém, ao mesmo tempo, uma marca em seu ambiente. Esta que cada cultura abrange apenas uma pequena área de sua
definição preliminar terá de ser tornada mais precisa, mais periferia potencial é, pelo menos num sentido, radicalmente
concreta e mais convincente. Mas no caso, novamente, desejo errado. , i ; ; j"''i
antes de tudo insistir em que a menos que o antropólogo Fôssemos nós descrever tôdas as manifestações de cada
e seus colegas humanistas concordem sobre o que é a unidade cultura no mundo, encontraríamos obviamente elementos tais
definida na realidade cultural concreta, jamais haverá qualquer como o canibalismo, a caça. de cabeças, a "couvade',1 o
ciência de civilização. E no caso também, se chegarmos a "potlatch",2 a "kula",3 a cremação, a mumificação e um
uma tal concordância, se pudermos criar alguns princípios uni vasto rol de minuciosas execentricidades periféricas. Dêste
versalmente válidos de ação institucional, lançaremos uma vez ponto-de-vista é claro que nenhuma cultura abrange todos os
mais o alicerce científico para as nossas investigações empíricas caprichos e exentricidades catalogados de muitas outras. Acre
e teóricas. dito, todavia, que essa abordagem é essencialmente anticien-
tífica. Deixa, em primeiro lugar, de definir, de acôrdo com
Nenhum dêstes dois esquemas de análise, obviamente, im os princípios de relevância, os elementos de uma cultura que
plica que todas as culturas são idênticas, riem ainda que
o estudioso da cultura deva estar mais interessado em identi
dades ou similaridades do que em diferenças. Eu sugiro,
(1) Costume primitivo de acôrdo com o qual quando nascia
todavia, que a fim de compreender divergências é indispensá uma criança o pai cuidava dela ou se submetia a resguardo. (N. do T.)
vel uma medida de comparação clara e comum. Seria possível (2) Cerimonial de distribuição de presentes entre peles-vermelhas.
demonstrar, além disso, que a maioria das divergências que (N. do T.)
são freqüentemente atribuídas à índole nacional ou tribal es (3) Economia de troca de presentes (a mais atrasada do mundo
pecíficas — e isto não somente na teoria do nacional-socialismo atual) dos nativos das Ilhas de Trobriand, descrita por Malinowski
em seu livro sòbre as culturas da Melanésia. (N. do T.)
— são a razão para as instituições organizadas em tômo de
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46
podem ser considerados reais e de significação. Deixa tam CAPITULO V
bém de nos dar qualquer pista para os costumes ou disposições
culturais em outras sociedades, ao comparar estas "unidades"
aparentemente exóticas. Na verdade, devemos ser capazes de
demonstrar que algumas realidades que parecem estranhas à
primeira vista são essencialmente aparentadas aos elementos
culturais humanos verdadeiramente universais e fundamentais;
e o próprio reconhecimento disto permitirá a explicação, ou Teoria do Comporiamento Organizado
seja a descrição, em termos comuns, de costumes exóticos.
Será também necessário, naturalmente, levar em conside
ração o elemento tempo, isto é, o elemento de mudança. Ten
taremos demonstrar que todos os processos evolucionários ou
de difusão acontecem, em primeiro lugar, na forma de modi
\
ficação institucional. Quer na forma de invenção ou como O FATO essencial da cultura, como o vivemos e experimen
tamos, como o podemos observar cientificamente, é a organiza
um ato de difusão, um nôvo apetrecho técnico se incorpora ção dos seres humanos em agrupamentos permanentes. Êstes
a um sistema já estabelecido de comportamento organizado grupos se relacionam por algum acordo, alguma lei ou costume
e gera gradualmente uma completa reforma dessa instituição. tradicional, algo que corresponde ao contrat social de Rousseau.
Ademais, nos têrmos de nossa análise funcional, demonstra Sempre os vemos cooperando dentro de um meio ambiente
remos que nenhuma invenção, nenhuma revolução, nem modi determinado: um ambiente restrito reservado para seu uso, uma
ficação social ou intelectual, jamais ocorre, exceto quando são abundância de ferramentas e artefatos, uma porção de ri
criadas novas necessidades; e em conseqüência novos artifícios queza que é sua por direito. Na sua cooperação eles obedecem
de técnica, de conhecimento ou de crença são adaptados ao às regras técnicas de seu estado ou ofício, às regras sociais
processo ou a uma instituição cultural. de etiqueta, considerações de hábito assim como também os
Êste breve enunciado, que é realmente um esbôço para costumes legais, religiosos e morais que formam o seu com
a nossa análise subseqüente, mais completa, indica que a portamento. É sempre possível, também, definir e determinar
Antropologia científica consiste de uma teoria de instituição, sociologicamente que efeito as atividades de um agnipamento
ou seja de uma análise concreta do tipo de unidades de uma humano assim organizado produzem, que necessidades satis
organização. Como uma teoria de necessidades básicas e uma fazem, que serviços prestam a si mesmos e à comunidade como
derivação de imperativos instrumentais e integrativos, a Antro um todo.
pologia científica nos dá a análise funcional, que nos permite Será justo estabelecer esta definição geral plausível por
definir a forma, assim como a significação, de uma idéia meio de uma breve referência empírica. Examinemos de
habitual ou intenção comum. Pode ser fàcilmente percebido início sob que condições a iniciativa privada se toma um fato
que tal abordagem científica de maneira alguma ultrapassa ou cultural. A invenção de um nôvo método tecnológico, a des
nega a validade das pesquisas históricas ou evolucionárias. Ela coberta de um nôvo princípio ou a formulação de uma nova
simplesmente as suplementa com uma base científica. idéia, uma revelação no sentido religioso ou um movimento es
tético e moral, continuam culturalmente irrelevantes a menos e
ate que sejam traduzidos numa série organizada de atividades
de cooperação. O inventor tem de registrar uma patente e
organizar uma companhia para a produção de seu nôvo in-
48
" 49
vento. Tem, por conseguinte e acima de tudo, de convèncèr Coughlin, veríamos que em todos êles podemos encontrar
algumas pessoas de que seu invento vale a pena ser industria uma certa concordância sobre ^ afirmação de um fim cornum
lizado, e em conseqüência outros terão de ser convencidos de sob o aspecto da filiação ao movimento. Teríamos^ também
que vale a pena comprar o artigo resultante. Uma companhia de estudar a organização de tal movimento com relação à lide
tem de ser organizada e registrada, o seu capital tem de ser rança direitos de propriedade, divisão de funções e atividades,
agenciado, a técnica tem de ser aperfeiçoada, e em seguida direitos e benefícios auferidos. Teríamos de registrar os regu
a campanha industrial é lançada. Esta consiste de atividades lamentos legais ou estatutos técnicos, éticos e cienttficos orien
de produção, comerciais e de publicidade que podem ter êxito tadores do comportamento do grupo; seria desejável cotejar
ou não; em outras palavras, podem preencher uma função tais regulamentos com as realizações reais das pessoas. Final
econômica definida, satisfazendo uma nova necessidade depois mente, teríamos de estimar a posição dêsse grupo com relação
de ter sido esta criada, como é o caso do rádio, ou de outro à comunidade como um todo, ou seja definir sua função.
modo satisfazer com mais sucesso irma velha necessidade, como
a de numerosos produtos tais como a sêda artificial, nylon, Fiéis aos nossos princípios, começamos a partir de nossa
os cosméticos mais eficazes ou uma nova marca de uísque. própria civilização, convencidos de que a Antropologia bem
Da mesma maneira uma nova revelação, tal como a que
poderia ter início em casa. Começamos também por analisar
ocorreu a. Mrs. Mary ou a Mrs. Aimée Semple MacPherson ou
se qualquer idéia, princípio, artifício, revelação religiosa ou
princípio moral tem qualquer relevância social ou cultural sem
Joseph Smith ou Franh Buchman, tem de ser em primeiro ser organizado. Nossa resposta foi claramente negativa. Um
lugar provada perante um grupo de pessoas. Elas então se ponto-de-vista, um movimento ético, a maior descoberta indus
organizam, ou seja, se equipam materialmente, e adotam uma trial, são culturalmente inexistentes enquanto estiverem confi
série de regras de condições e regras de execuções, com as nados à cabeça de uma só pessoa. Tivesse Hitler aperfeiçoado
quais desempenham suas atividades rituais e praticam os seus tôdas as suas doutrinas raciais, tôdas as suas visões de uma
princípios dogmáticos e morais. Dêste modo, satisfazem uma Alemanha nazificada e de um mundo escravizado aos seus legí
série de necessidades espirituais, menos básicas sem dúvida timos donos, os nazistas alemães; tivesse êle massacrado
do que as relacionadas a tecidos de sêda artificial ou a uma todo o povo judeu, polonês, holandês ou britânico e efetuado
marca de uísque, mas, não obstante, reais. Uma descoberta a conquista do mundo — tivesse êle feito tudo isso apenas na
científica tem igualmente de ser consubstanciada e documen sua cachola, o mundo teria sido mais feliz e a ciência da
tada por meio da aparelhagem de um laboratório, referência cultura e da selvajaria teria sido privada de um dos seus mais
de observação ou documentação estatística, assim como de monstruosos exemplos, se bem que o mais revelador de como
palavra escrita. Xem de ser aplicada pràticamente ou pelo a iniciativa privada, caindo em solo fértil, pode conduzir ao
menos relacionada a outros ramos do conhecimento, e depois desastre universal e ao derramamento de sangue, à fome e à
pode-se dizer ter preenchido a função específica científica de corrupção em escala mundial. Poderíamos fazer afirmações
haver aumentado o nosso conhecimento. Se fôssemos examinar semelhantes, nurn tom diferente, a respeito das descobertas de
dêste ponto-de-vista qualquer movimento, tais como a proi Isaac Newton, das peças de Shakespeare, das idéias de Maomé
bição (de bebidas alcoólicas, nos E.U.A.) ou o contrôle de ou São Francisco, ou do próprio fundador da cristandade. Ném^
natalidade, o fundamentalismo ou o nudismo, uma comissão a História nem a Antropologia tem nada a ver com o que fica
para a melhoria de relações raciais, ou uma organização como dentro do cérebro de um indivíduo, por mais que nêle se
o Bund,1 a Ku Klux Klan, ou a Ação Social do Padre contenha de gênio, visão, inspiração ou malignidade. Daí,
o princípio geral aqui desenvolvido de que a ciência do com
(1) Confederação judaica. (N. do T.) portamento humano começa com a organização. ^
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50
Há tipos, todavia, de atividades combinadas que não são
devidos à execução da iniciativa individual dentro do movi com algum negócio comercial ou industrial, com uma,escola
mento historico em que ocorrem. Tôda criatura humana ou instituição religiosa, com uma associação política ou orga
nasce dentro de uma família, uma religião, um sistema de nização recreativa da qual êle é dirigente ou empregado. Se
conhecimento, e freqüentemente dentro de uma estratificação fôssemos investigar o comportamento diário de qualquer indi
social e urna constituição política, instituições que, tendo muitas víduo, masculino ou feminino, môço ou velho, sadio ou doente,
vezes existido durante séculos, não mudaram ou foram afetadas verificaríamos que tôdas as fases de sua vida devem estar
durante sua vida. Completemos, por conseguinte, a nossa relacionadas a um ou outro dos sistemas de atividades orga
^áhse anterior e^ olhemos a nossa volta, acompanhando de nizadas nos quais nossa cultura pode ser subdividida e que
tato os nossos proprios destinos num dia de trabalho ou na em seu conglomerado realmente constituem nossa cultura. No
história de uma vida. Verificaremos novamente que por tôda lar e no escritório, na residência e no hospital, no clube e na
parte e em cada ação efetiva o indivíduo pode satisfazer escola, no diretório político e na igreja, em tôda parte encon
seus interesses ou necessidades e levar a cabo tôda e qualquer tramos um lugar, um gnipo, uma série de estatutos e regras de
açao efetiva apenas dentro de grupos organizados ou por meio técnica, e também uma lei orgânica e uma função.
a organização de atividades. Considere sua própria exis- Uma análise mais completa demonstraria, além disso, que
tencia ou a de qualquer um de seus amigos ou conhecidos. em cada caso temos um fundamento objetivo muito definido
O indivíduo vai dormir e acorda em sua casa, numa hospe para nosso exame, no estudo do meio ambiente com os objetos
daria, num acampamento, ou em alguma "instituição", seja espectficos a êle pertencentes — os edifícios, o equipamento e
ela a prisão de Sing Sing, um mosteiro ou um colégio resi- o capital empregado numa instituição. Verificaríamos também
dencial. Cada uma dessas instituições representa um sistema que para compreender um clube atlético ou um laboratório
de atividades coordenadas e organizadas, nas quais um ser científico, uma igreja ou um museu, teríamos de nos familiarizar
viço e dado ou tomado, nas quais um abrigo material com com os regulamentos legais, técnicos e administrativos que co
o mmuno de conforto, ou o máximo, é fornecido, e que são ordenam as atividades dos membros. O pessoal que administrà~l
admmistradas com uma certa despesa e pagas pelos seus qualquer das instituições acima mencionadas tem de ser ana-
serviços e _ que empregam um gnipo organizado de pessoas lisado como um grupo organizado. Isto significa que teríamos
que as dirigem e que estabelecem uma série de regras de definir a hierarquia, a divisão de funções, e a situação legal
ou menos codacadas, que os internos têm de obedecer. de cada membro, assim como também suas relações com os
A organizaçao „de tôdas e cada uma dessas instituições, outros. Os regulamentos ou normas, todavia, invariàvelmente
sao redigidos de forma a definir o comportamento ideal O
quer sejam domesticas, residenciais ou correcionais, é baseada cotejo deste ideal com referência à ação real é uma das mais -
, numa lei constitucional, numa série de valores e acô/rdos.
I Cada ^a delas também satisfaz uma série de necessidades antropólogo ou sociólogo empenhado
os internos e de uma sociedade em conjunto, e assim pre- em habalho-de-campo científico. Por este motivo, em nossa
anahse, disünguiriamos sempre, clara e exphcitamente, os
Lenche uma função. A menos que lidemos com um mosteiro regulamentos ou normas das atividades.
ou Smg Sing, o indivíduo, depois que despertou, perfaz as J
indispensáveis atividades sanitárias e abluções, toma a sua re ò implica a 'ie
também cada umde dêsses
aceitação certos sistemas
valores edeleis
atividades
funda
feição matmal e sai. Dirige-se então a um centro de atividades mentais. E sempre a organização de pessoas para um fim
ou por outra faz algumas compras ou apregoa suas mercadorias determinado, aceito por elas, e reconhecido pela comunidade.
u ideias, exercendo de algum modo a arte de vender. Em Mesmo se fossemos considerar uma quadrilha de criminosos,
cada caso suas atividades são determinadas por sua ligação riamos que ela também tem sua própria carta institu-
52
53
da lei e ria nrri' nos seus orgãos encarregados inspiração individual apenas se pode tornar inteiramente uma
4tr„;rp»tr realidade cultural se puder captar a opinião pública de um
dicada e punida Assfm ^"'""f "«'^550 oJoerra-
'^^^^oberta, oX grupo, equipar a inspiração com meios de sua expressão e
ou seja, ^ ° assim consubstanciar-se numa instituição. '
efeito integral das atividadpç t° §™P°' ® ^ função, isto é, o O economista, por outro lado, às vêzcs é capaz de subes-
rençados. O estatuto é a fri4- ® ^^"'í^anamente dife- timar o fato de que embora os sistemas de produção e pro
n^antida por Sus lembro. /f- priedade deterrninem mdubitàvelmente tôda a gama de mani
função é^o pane] P®^^ comunidade. A festações de vida humana, êles por sua vez são deteiminados
por ^stemas de conhecimento e de ética. Em outras palavras
I .t-£a%=r„Sr-- a exteemada posição marxista, que consideraria a orgLização'
econômica de um sistema como o determinante final de cuí
tura, parece subesümar dois pontos cardeais na análise aoui
Srnerí' r ° ^^^^a institudo-
denpn? T
Jpende do conhecimento, do qualquer
padrão desistema de produção
vida defiddo Lr
de qualquer cultura «m j ^ nielno descrição toda a sene de fatores culturais e de sistema de leis e noLr
sistl el ro ona; e analZ',?; pohtico; em segundo lugar, o conceito de função pelo oual
eaaa oultea estó o°ga„feãdf »■» »-
9"^ vemos que a distribuição e consumo são tanto LHeS
dentes do carater global de uma cultura quanto da organiza
çao produtiva em si mesma. Em outras oalaL? Tf"
aqui proposta exigiria definitivamente que dentro de^^cada

Sãlpi^: aa^aLe„;~ itlÍp:s^s£T,s


ar nipostase e pesquisar causas primeiras ou verdadeiras.

e política do''pai9'E''st,^ «^S^^zação econômica


de acomLnL^ Estudando uma tribo australiana, teríamos
quais as famílias°9^^"^°°^ família, as hordas nas
|aus de TZZ Z casamentos, os
poSSct da"/ írStaÍ oraTc^çfSSa'-,-''"'"?'»"
freqüentemente negligenciado o fatoiqne qnalqieíSrZdc"
uma dessas umAítrl totemicos. Uma descrição de cada
preensível apenl sreÍabT"''' ^ to^^aria oom-
social com o^Su meio
'pín ambigi^;
l se fossemos
íelaçãod^qrganiz^ão
capazes de cap-
54

55
tar o codigo de preceitos em uso dentro de cada ffruno p
novamente, demonstrar que êste teve sua origem para os CAPITULO VT

umaTscpíd'^^™!' gerais que invariàveliAeL têm


pr^ceSe ee° primeva.
precedente nr ° Ao correlacionar
mitológica de Perais
os tipos revelação
dp
SÍtimar a fnnctT'
e assim dínfn ^r
^ capazes
e assim demonstrar como em conjuntoatividades organizadas
êles fornecem aos As Unidades Concretas do
tac^liTte:
cSai?, er^ narmoma
hlrr^n
sistersiroriem
pessoas se
Comportamento Organizado
estudioso ?
de civilizaçõescommais
o destino
elevadasgeral de suas
e mais vidas da
primitivas O
graade península asíátíca da índia analisaria o SS t
.E
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aldeias^deMÍ'"^-
bramanismo e os mosteiros originados dos
de oomlidad»
de ofícios, mercados e empreendimento d"
industrial êle
A Fm de tomar a análise precedente mais definida e mais
Chegana gradualmenie a compreeíder e a ser oa^ dTLt
car como êsses nativos oblinham de seu me?o aSte ?emrsínt4 1^™numa iforma, diagramática,
representa-la ® para dar definições
melhor
recursos para viver. luiuienre
claras de vários aspectos que dela derivaram e para suple
mentá-la com uma lista o mais completa possível de tirios
Em conseqüência, tanto nas comunidades primitivas como
nas civilizadas, verificamos que em primeiro £gS tôda acío vZdTf^r i"'' orgamzado
vendo e o de um sistema ^ estivemosintencionais.
de atividades desenvol
humana efeüva conduz ao comportamento organfzado. Come- Declaramos, em primeiro lugar, que os sêres humanos nascem
S^íbietidol comportamento
ser submetido a um esquema analítico definido.organizado pode
Provàvelmente modo à vezes
modo, às ™ eles organizam
tradicionais já formados.
ou instituem Ou, de outro
tais grupos. De-
mirei como o estatuto de uma instituição o sistema dg valores
portímeX organizado, apresenta
portamento instituições,
certasousimilaridades
unidades de com
fun
damentais através da ampla escala da variedade cultural Po '
demos agora, por conseguinte, prosseguir numa explícita ouac pessoal
nSoal ded uma mstituiçao como ojágrupo
a organizações organizado
existentes. à baseo
Definirei
diagramatica,
^ penso, definição
a legitima unidadedo daconceito
análisedecultural.
instituição ^que é Smo defimdos de autoridade, divisão de atribuições
e distribuição de privilégios e deveres. Os regulamentS ou
riS^os instituição são as habilidades técnicas adqui-
acPÜn. ^ as normas legais, os preceitos éticos que são
talvez auítLT '«V a.êles impostos. Já está claro,
dos rl^n W? ^ organizaçao do pessoal como a natureza
a^estat^to^ cumpridos são definidamente relacionados
mpnfn! sao
- .1derivados
® o
e dêle dependentes. oomo OS rcgula-
lise- importante foi registrado através de nossa aná-
assoclada
ai com o meio« ambiente
invariàvelmente baseada Nenhuma
circundaute. e intimamente
ins-
56

57
tituição está suspensa no ar ou flutuando no vazio, de maneira' uma maneira de relacionar, de forma condensada, os resul
indefinida, através do espaço. Tôdas têm um substrato ma tados da presente análise e de imprimir na mente e na me
terial, ou seja, uma porção reservada ao equipamento circun- mória a relação entre os vários pontos que colocamos à parte
dante em riqueza, em instrumentos e também uma porção na presente análise. Êle pretende demonstrar, de modo posi
dos lucros decorrentes de atividades combinadas. Organizado tivamente claro, que todo tipo de atividade efetiva tem de
em estatuto, atuando por meio de sua cooperação social e ser organizado de uma maneira e somente de uma maneira,
organizada, cumprindo os regulamentos de sua ocupação espe por meio da qual ela se torna culturalmente estabilizada, ou
cífica, usando o aparelhamento material à sua disposição, o seja, incorporada à herança cultural de um grupo.
grupo empenha-se nas atividades para as quais foi organizado. Os resultados de nossa análise, todavia, da forma con
A distinção entre atividades e regulamentos é clara e substanciada no diagrama, são definitivamente ambiciosos. O
precisa. As atividades dependem da capacidade, poder, diagrama representa as proposições que se seguem. Cada '
honestidade e boa vontade de seus membros. Elas afas instituição, ou seja, tipo organizado de atividade, tem uma
tam-se invariàvelmente dos regulamentos, que representam o estrutura definida. A fim de observar, compreender, descrever
ideal de ação e não necessàriamente sua realidade. As ativi e raciocinar teoricamente sôbre uma instituição, é necessário
dades, além disso, estão consubstanciadas no comportamento analisá-la da maneira aqui indicada, e somente dessa maneira.
real; os regulamentos, muito freqüentemente em preceitos, Isto se aplica ao trabalho-de-campo e a quaisquer estudos com
textos e leis. Finalmente, apresentamos o conceito de função, parativos entre diferentes culturas, aos problemas de Antropo
isto é, o resultado integral de atividades organizadas, naquilo logia e Sociologia aplicadas, e, na verdade, a qualquer abor
em que se distinguem do estatuto, ou seja, a finalidade, o dagem científica em matérias em que a cultura é o principal
objetivo tradicional ou nôvo a ser alcançado. A distinção é assunto. Nenhum elemento; "traço", costume ou idéia é defi-,
essencial. nido ou pode ser definido exceto colocando-o dentro de seu
ambiente institucional real e relevante. Estamos assim insis-^
ESTATUTO tindo em que tal análise institucional é não somente possível
mas indispensável. É sustentado, no caso, que a instituição
é a unidade real da análise cultural. Sustenta-se também que
PESSOAL NORMAS qualquer outro tipo de discussão ou demonstração em termos
de traços isolados ou complexos de traços, diferentes daqueles
/ que obedeceriam à integração institucional, devem ser incor
retos.
APARELHAGEM MATERIAL
Contudo, a fim de demonstrar ainda mais cabalmente que
a estrutura institucional é universal através de tôdas as cul
ATIVIDADES turas, e dentro de qualquer manifestação cultural, será melhor
fazer primeiro uma outra generalização ampla porém impor
I tante. Parece-me que embora mesmo instituições tais como
FUNÇÃO a família, o Estado, o grupo de idade ou a. congregação
religiosa variem de uma cultura para a outra e, em alguns
O diagrama acima apresentado dá uma ilustração concreta, casos, dentro da mesma cultura, é possível elaborar uma lista
mnemônica, deste argumento. Não é para ser considerado dos tipos ou classes representativos de qualquer e de tôdas
como um eidos místico ou umi talismã mágico. Ê simplesmente as culturas. Em outras palavras, eu sustentaria que a família

58 59
- L

e o tipo de atividade baseado num contrato de casamento como é bem conhecido, como a entre a descendência matri-
permanente, no qual a reprodução, a educação e a corporação linear e a patrílinear, o casamento matrilocal e patrilocal, o
doméstica são os interêsses dominantes, podem ser catalogados sistema dual, o sistema da coabitação múltipla dos clãs etc.
como um fato cultural universal. Tentemos organizar esta A despeito das várias controvérsias quanto às "origens" do
lista. Isto podia ser concebido como um artifício útil para casamento e da família, acêrca da real significação do sistema
qualquer trabalhador-de-campo que se dirigisse a alguma zona de organização em clã e das manifestações lingüísticas e outras
selvagem ou civilizada prèviamente não estudada, e intentasse dos sistemas de grupos aparentados de classificação, permanece
identificar, observar e registrar todos os tipos relevantes de o fato de que nenhum pesquisador-de-campo competente pode j
comportamento organizado. Essa lista seria também uma estudar uma tribo sem estar perfeitamente familiarizado com
medida útil na pesquisa comparativa, quer orientada sobre a teoria geral da vida de família primitiva, a lei de descen
linhas evolucionistas, difusionistas ou históricas. Constituiria dência e parentesco, e a formação dos grupos ampliados de
também prova de que, num certo sentido, toda cultura tem parentes. Poderíamos observar, por conseguinte, de maneira
de realizar o trabalho fundamental de constituir associações muito resumida que, sob o princípio reprodutivo de integração
intencionais de sêres humanos organizadas e com fins deter social, a lei do casamento,~déscen"dência e parentesco, com
minados, unidos em grupos de atividade estável. tôdas as suas conseqüências para a estrutura social, tem de
A fim de organizar essa lista talvez fôsse melhor consi ser estudada. ,1/9^'
derar os princípios gerais que unem os sêres humanos e os Outrp princípio geral de agrupamento é o da propinqüi-
integram em grupos permanentes. Temos, naturalmente e em dade e contigüídade. A essência da vida social é a cooperação.
primeiro lugar, a reprodução; Em tôdas as sociedades humanas, As pessoas somente podem trocar serviços, trabalhar juntas,
a reprodução, isto é, a relação entre marido e mulher, e pais fiar-se em se ajudar umas às outras no tocante a tarefas
e filhos, resulta na formação de grupos pequenos mas extre e capacidade de executá-las, quando estão ao alcance umas
mamente importantes. Podemos falar, por conseguinte, do das outras. E inversamente, as pessoas em vizinhança próxima
pr^cípio reprodutivo .de—integração ou o princípioJde-paren- devem chegar a alguma concordância sôbre tôda uma série
tesçp., isto é, relação de sangue e relação de parentesco. Sob de pontos. Devem delimitar os seus direitos dé residência,
esse título teríamos de relacionar instituições tais como a famí seu uso de objetos de interêsse e utilidade gerais. Têm de
lia, incluindo o contrato de casamento, ordem de descendência às vêzes agir conjuntamente quando algum perigo, calamidade
e leis de organização doméstica. Os vínculos de parentesco, ou negócio premente os convoca à ação. Obviamente, o menor
ou seja, a relação recíproca entre pais e filhos, são sempre grupo de vizinhança é a família, de forma que esta série se
dilatados e resultam ma formação de grupos aparentados am inicia com a mesma instituição, como a que discutimos acima.
pliados. Estes ou consistem em aglomerações das famílias sob Ainda que invariàvelmente tenhamos também algumas formas
a autoridade de um patriarca ou uma matriarca, ou na forma de organização que abrangem um agregado de famílias e
ção dos chamados grupos aparentados de classificação, outras unidades aparentadas. O grupo local podia consistir
geralmente denominados por expressões como clã, sipe, 1 de uma horda nômade, uma aldeia sedentária, uma pequena
"gens"2 ou fratria. Há um grande número de distinções. municipalidade ou distrito, ou ser simplesmente a organização
de povoados ou domicílios dispersos. Todavia, uma vez que
(1) Divisão exógama de uma tribo, descendente de um ancestral existem, como foi observado acima, vantagens definidas na
comum em linha reta e constituindo a principal unidade de uma socie organização, embora a falta de organização seja impossível,
dade tribal. (N. do T.)
(2) Um clã abrangendo as famílias do mesmo sangue na linha porque deixaria sem solução uma série de questões can-
masculina. (N. do T.) dentes, é sempre possível determinar a instituição que podía-
60 61

\-U
o«"ârdeiífasiSSò;
T'/ "O smlido mais amplo da expres.
Í?isex°a^la|^f^t tarem, virtualmente segregados da vida tribal comum em sua
plenitude. Em algumas culturas, as anormalidades físicas e
mentais, tais como a inversão sexual, ou a epilepsia, ou as ten
dências para a história, formam a base de uma organização
de grupo, as vezes vinculada ao xamanismo, às vêzes cons-
log™om:?ÍHSS: P°Sn"' SS! tituindo uma. casta parcialmente proscrita,
/ . Qpor
tario JjjgÇÍplo de individual,
iniciativa associação, ou
deveseja,serdedistinguido
agrupamento
dosvnlnn.
prin-
StmS. ° pó'""''"'. >«><=» de serviços e comoT cpios ja enumerados. A filiação a sociedades secretS-
tarí íl ST"''"""' """»• '«'"'. ■» 'eoiido ™í. clubes e grupos recreativos e artísticos depende dêsse prin-
Outro .princípio natural de disHnção e de intetrracão A o cipio. Nesse caso, também temos um tipo de fenômeno ins
vmgihd^a^ e a anatoL titucional que pode ser descoberto, pelo menos em suas forcas
seres humaims diferem no tocante a sexo idade" e fato de rudimentares, mesmo entre os povos mais primitivos eTue
percorre todas as etapas evolucionárias, senão tão a£ntuS
SSSs™ ISStaS Snd°r-^ ' SsTCas! em nossa cultura quanto entre os polinésios e os ^ da
SSetSS^"?'"
nalizados ' Isto pp
p- 'ST«
institucio-
ftr sistema d^g^s
dade aema descrito, temos muito freqüentemente po?
um sistema
í vêl. freqüentemente um entreato econômiSi
ssiíít3^£F^^
muito -
raramente, como por exemp^ím^!gS^asTribosISa'
e ^ às vêzes osteS
-5:iaiiiatq_pi^'pig_JeJaiteg^^^^ de grande importância
tot?m' divisão perfeitamente clara em clãs .da^._frçm^ejitp.^e.^preferêncm^paeionais—Ê^^
evolução da humanidade, é o da capaci-
zaçao de acordo com o sexo se Mas freqüentemente
relaciona a ort-
a outros sistemas mente,_e um tipo muito menos esp^dfíóóTpór causa das
?n?,pí g™P°« por idade ouT gríS £ istinçoes quanto a ocupação e treinamento, e as diferenciações
de atividades típicas variam mais de cultura para euW do
certo sentido, e universal. É universal
certo^sentido a partir
largamente da mais
distribuído nri
e, num
rEs 'NitTo^ de reprodução ou territo
que^^certi^fasS^^""''/
que certas tases da vida civilização ocidental, pm-
humana são delimitadas p pcpo
etapas correspondem a períodos de completa dependência do
as cultura '• Í^^.^'.®"^°"d"ariamos mvariàvelmente em todas
meio social como na infância e até certo ponto ^a mSce
período de educação e aprendizagem; o período da adoles'
cencia, como entre a maturidade Íxúal e o Ssamento õ
Sé^r
se da seniMrde'''?
senilidade. Esta pode""ou ser associada &alment,;,
a grande ina veneração dos antepassados, e a tribo como um todo e su^
fluencia na vida tribal ou nos negócios nacionais, pL a n£l
uma palavra etnográfica - gerontocracia - foi cunhada ou qüentireíte
por outra,, significa que aos velhos e velhas se permite vege- Pnincc TV £• °oT fe t°
feiticeiros dmndade
e feiticeirasda estão
natureza. Muito fre-
organizados em
rtiba™ realidade ou na crença tradicional

63
/>

a imdade de tal grupo geogràficamente definido consiste


na homogeneidade de cultura. Dentro das fronteiras da tribo
»atst t:"^sz a lei da mesma cultura coixe de extremo a extremo Os
membros da tribo falam todos êles a mesma língua e por isto
tradidoíat ZLte terTSoteaf"'""'
humanidade. Porém ela está ínnnrr, a ° mesmo da
aceitam a mesma tradição em mitologia e direito consuetu-
local, na associação dos companh^orde f g™PO dináno, em valores economicos e em princípios morais Pa-
ralela a isto corre uma similaridade de técnicas e implementos
de gostos e de mercadorias de consumo. Êles comLtem ca
çam, pescam e lavram o solo com o mesmo tipo de implementos
snrri»"
'r"?oireL'^^d?>'eSS:- de matnmonio e linhagem. acôrdo com a mesma lei tribal
Por isto, os membros de tal
gupo podem comunicar-se pela palavra; podem fazer inter
câmbio de serviços e podem ser mobilizados para um empre
endimento comum. Saber se podemos consFderar Tal gCò
Í5SSSS=^ eu turalmente unificado - o qual, de fato, é o protótipTou
antecedente de uma nação, no sentido moderno - comTuma
instituição, e questão que deixamos aberta. É provàvelmente
melhor descrever a nação, primitiva ou civilizada como um
pendentes. Neste sentido,
1 institaiçoes nacionalidade
parcialmente signifFca
autônomas, unidTS
porém de
interde-

ÓS? mÍ aíí tido Quero refenr-meprincípio


üdo. de integração
ao ^princípio até agora omi-
de autnridpri^
oo„,„.s cí senüdo da expressão. AutoridSdi%iirdSS^;i^^^^^^^^
SjaFôSo eTaTb f ou
£Eè
do Sadão e £■-¥
Soa°g,SaU aTéltVonr„a? vit
autoridade Vr ™ ° ^essência da organização
§T^ÍT^.^P£PPE1 ^ A
social -pvr
conseqüência ela não podTiifSF^ÍIiéHfrdi-iiSlídSã" orga
n zaçao social isolada. Há instituições, não obstantrque fãõ
tamaçoes raciais e contramedidas em noL própSa loSe- ndamentalmente totalizadas no emprêgo positivo da fôrca
Podíamos defini-las como instituiçõeí pohticas ou fali nõ
_ Se fossemos agora investigar como e com base em nne
prmcipios essas várias instituições são integradas em coniuntos 2oST faLília,^munSpaSadf
teriemonstrana
rdrsdZd" ,7 f díss
rena oe ser teita. Um levantamento etnográfico do mnnrln
reTl dês^Tl^-^^^^ econômma ou religiosa.
das orgaTizTcT P
A importâLa
« desenvolvimento
que em cada continente há fronteiras bem defi- e defesl A f ® emprêgo para agressão
menf-e ' t unidade cultural existiu provàvel-
turais au^
que nX^"^^
nós antropólogos chamamos tribos.ou Neste
unidades sentido
entidades cul oípio dT fô V organizada sob o prin-
Ks como ofvedas, os pigmeus da África,
a^ustral ianos ouda Terra
os nativos Lre
64

65
do Fogo e das Ilhas Andamão, não podemos falar de orga
Pizaçao política da tribo, uma vez que esta não existe Em 3. ;FisioIógica Grupos sexuais totêmicos primi
tivos."
desenvolvidas (Distinções devidas a sexo, Organizações baseadas em dis
polS iZ' língua
° S jP° político, OU O protótipo de Estado é em
idade e estigmas ou sintomas
corporais.)
tinções sexuais fisiológicas ou ana
tômicas.
_ Organizações devidas à divi
N„íl fase mais avançada,
Numa associação
lemoscom a subdivisão
as duas da tribo
unidades em coin- são de funções e atividades se
xuais.
Grupos e graus de idade, na
de ^n^r-ETar"""''- P«««P° medida em que são organizados.
Organizações em sociedades
en.erti>ro3u,^?;nS^^^^^^ primitivas dos anormais, os men
talmente desequilibrados, os epi-
lépüeos (freqüentemente ligadas
de instituição que tem de ser' aoflnavamenle
definida em todos uZ foml
os pontos a idéias mágicas ou religiosas);
em nível mais elevado, institui
dentro dos quais analisamos o conceito, e que estão represen ções para os doentes, os loucos
tados em nosso diagrama. E seria sempre^importaní?tSSr os defeituosos inatos.
4' ■ Associações Voluntárias
Sociedades secretas primitivas,
iCcSSr p""'" '■« "'""''o O" o clubes, equipes recreativas, socie
dades artísticas.
Será conveniente condensar essa análise numa breve lista: Em níveis mais elevados, os
clubes, as sociedades de ajuda
mutua e de beneficência, as lojas,
LISTA DE TIPOS INSTITUCIONAIS UNIVERSAIS as associações voluntárias para
Princípio de integração recreação, melhoria de nível de
Tipos de instituição vida ou a realização de um ob
1. ^Reprodução A família, como grupo domés jetivo comum.
5. Ooupacional e Profissional Num nível primitívo, funda
(Laços de sangue definidos tico de pais e filhos. .(A organização de sêres hu
por um contrato legal de ca Organização da corte. manos por. suas atividades
mentalmente de mágicos, feiti
samento e ampliados por um A definição legal e organização ceiros, xamãs e . sacerdotes; tam
principio especificamente de do casamento como um contrato
especializadas para fim de bém grêmios de artífices e equi
finido de linhagem no esque iríteresse comum e mais plena pes econômicas.
vinculando dois indivíduos e apa execução de suas capacidades A medida que a civilização se
ma genealôgico.) rentando dois grupos. especiais.)
O grupo doméstico ampliado e desenvolve, as incontáveis ofici
sua organização legal, econômica nas, corporações e emprêsas,
e religiosa. grupos de interêsse econômico, e
O clã, matrilinear e patrilinear. associações de trabalhadores pro
O sistema de clãs aparentados. fissionais em medicina, leis, en
2'. Territorial
sino e no atendimento de neces
.O gP"po de vizinhança de mu- sidades religiosas.
(Comunidade de interêsses nipalidades, tais como a horda Também unidades específicas
devidos a propinqüidade, con- o bando local errante, para o exercício organizado do
tigüidade e possibilidade de a aldeia, o aglomerado de pe- ensino (escolas, colégios, univer
cooperação.) queiias povoações ou domicílios, sidades); para pesquisa (labora
a cidade, a metrópole. tórios, academias, institutos);
O distrito, a província, a tribo para defesa e agressão (exército,
(Cf. 7). , marinha, fôrça aérea); para re
ligião (paróquias, seitas, igrejas).
66

^7
e Condição Estados e ordens de nobreza,
clero, burgueses, camponeses, ser de homogepidade cultoal e poder político é essencial nara
vo^ escravos. O sistema de casta.
Esbatificação por etnia, isto é o nosso conhcipiento de uma comunidade. Os assentamemís
por distinções sejam raciais ou ao Jad_o esquerp enumeram uma série de problemas universais
culturais em níveis primitivos e
7; Assimilação
(A integração por comuni-
desenvolvidos.
A tribo como unidade cultural
fzrpzardírpi^s^isttrCeJf
clade de cultura ou por po
der político)
correspondendo à nacionalidade
v^vZ!" :r£I!
detolnanle fpa|M|t^'caL'sSde o'pSp£ t^
O subgrupo cultural no sentido
regional ou no sentido de peque ritonal e formal, indicando aue dndns • iT a "
nos encraves (minorias estran a seremperieguidos em comum,'um ambiente rânícSÍ? "
geiras, o gueto, os ciganos).
A unidade política que pode
stóo porque, fundamentalmen.;, í^peSoa! tfrdí
abranger parte da tribo ou sua
^cance umas das outras a fim de
totaüdade ou ainda incluir várias estudar maircõmpléfámènte, por consegfÃTte n
subdivisões culturais. A distinção vitais que vinculam um' conseguinte, os interêsses
enfre tribo-nação e tribo-Estado
e lundamental como organização
tambdí de™mS^e„der®mr ™ ''""""a
política.
esses interêsses ocupacionais específicas surgem
fs™ e £ St
de senso comum, indicando qué certeUno? ní'''-
nização são encontrados em tôda cuWa Dr? . 1
de nSSt^r-drnSSSerbS'''"^" T''
interêsses culturais e dns d^t
• derivação dos
de organização etnográfica tal lista t^ Do ponto-de-vista técnicos drVnd^ determinantes ambientes, sociais e
para o estudioso pôrauri forcf„ t, ™ ™""°ador cooperativo. SôLSeTntf dr'" «"'atívo e
dêstes problemas na aual n n ™^^^®cussão mais ampla
Lact^aç.;i— eado, seremos capazes de voltar à preLnte Ííta^°f
mais convincentemente rme ec lista e fundamentar
tânda teóifcTdêSStf^H' ""a"® a impor-' são arbitrários ou fictfcios ma institucionais não
mente definíveis. ^-epresentam realidades clara-

"SrapameSo te^rm^l
que anunciamos em nosso conceito de instítuicãíí—FÉT
também afirma que as associações voWÍilfíS^^^f

qual o grupo cooperativo mais amplo é inle^grado no píSc^t


68

69

L
CAPITULO VII
além dos seus dotes animais e orgânicos - essa cultura
tudo isto e por meio de tudo isto, deve ser compreendida
como um meio para um fim, isto é, instrumentalmpintp r», fyjj
Çionalmente, Por isto, se estamos corretos em ambas as afir
matívas, uma definição mais clara do conceito de forma e
de função e de suas relações deve ser dada.
A Análise Funcional da Cultura
modifica o ambiente afísico
nossa análise, vimos que o homem
em que vive. Afiimamos que
nenhum sistema organizado de atividades é possível sem uma-
base física e sem o equipamento de artefatos. Seria possível
demonstrar que nenhuma fase diferencial em qualquer atT- '
£j CL^o que se desejarmos conformar-nos com nossa defí dade humana ocorre sem o uso de objetos materiaisTrtefatos'
mçao .de ciência será necessário responder a"série de mercadonas de consumo - em suma, sem a incidência de
perguntas antes feitas do que respondidas pela nossa Tnálií elementos de cultura material. Ao mesmo tempo, não há aS A
anterror. No conceito de instituição" assim c^mo na Srlt" vidade humana, planejada em conjunto ou individual que
de que cada cultura especial pode ser decomposta em insti- ^ssamos considerar coino puramente fisiológica, ou seja,' "L- /
^ também que tôdas as culturas têm como seu prin- oTiíÍb«T
trabalho° das
d"" secreções internas,
Mesmoaatividades
digestão ecomo respirar
a circulLão
Sjá St— tipos institucionais
esta mplicito um conjunto de generalizações ou leis cien
acontecem dentro do ^biente artificial de condições cultural-
tificas de processo e produto. v i. uu leis cien
ente determinadas. Os processos fisiológicos dentro do corpo J
humano sao afetados pela ventilação, pela rotina e pela grn
Fica mnda por esclarecer qual é a relação entre forma daçao dos processos nutritivos, pelas condições de segurança
e unçao. Jemos msistido em que cada teoria científica deve ou perigo, de satisfação ou ansiedade, de mêdo ou esp™
Por sua vez processos tais como respiração, excreção, digestão
ÍÍiTk e^deve
'"V . Bduhva observação e conduzir
ser verificável pela àexperiência.
observação. EmDeve ser
outrS e as glândulas de secreção interna afetam a cultura mais ou
^ '•ü
©■ ?e Tf'' referir-se a experiências humanas que podem SntPs
entes a^ alma humana,
® à feitiçaria,
surgimentooua asistemas
sistemasculturais refe-
metafísicos^
Zá í^to é. acessíveis^ a todo e Ha uma constante mteração entre o organismo a o meio secun-
gadasTde °^®®rvador,
generalizaçõesa que são recorrentes,
indutivas, e por isto carre
ou seja, preditivas. Tudo J,
dano em que êle ele existe, ou seja,V. auigcuusino ao meio sec
cultura. 'Em ......
suma °os
^°álise final, toda proposição de Antro- seres humanos vivem por normas, costumes, tradições e regras
pologia cientifica tem de se referir a fenômenos que pod^ que sao o resultado de uma interação entre processos orgânicos
Spreíão TeTn ® recomposição de seu ambiente pelo homem.!
reahdadp'^"''lJ^°'i ®®°®®g^^°í®' «"tro componente cardeal da
r.o trabalho
f, tempo,
manual do também
homem indicamos
e como o que
meioa pelo
cultura,
qualcomo
êle b;fr% n.u mos, tradição popular
® chamemos
ou uso,norma
pouco ou costume,Terei]
importa. há-
tange seus fins — um meio que lhe permite viver estabelecer désíT/ costume, por amor à simplicidade, para
Queíhf'^' confôrtocriar
que lhe da poder e lhe permite e pfosperidadeí
mercadorias eumvalores
meio nizadTrJ ® tradicionalmente reguladas e padro-
êste corporal.
neeito, de modo a tomar clara Como podemos
sua forma, e emdefinir
con-
70

71

r
SafoirSÍJE? """-'o»" con^ovérsias da Historia, da Sociologia ou da Antropologia
Nesta ultima ciência, há uma escola cujos membros baseiam
a maioria de suas pesquisas sôbre o conceito e em tômo do
à oblrvalrâS è oSrr'""'",'"'"Sivois. inacessíveis conceito da ^ra_hgliolítica Aquêles que rejeitam essas
muito evidentes Falarrins • ^ ^orma nem a função são teorias negariain redondamente que a cultura heliolítica é uma
de idéSTÍaloms a r^n ™®"°^volúve]niente acêrca realidade que bem pode ser identificada em todo o glok)
cutimos motivo em'narrativas ® crenças; dis-
^máticas na análise de magia ou'reS ® ^
podemos falar de forma t § que sentido
Deus, ou o coneeitoTS ou a°t T'
'
animismo, do pré-animismo ou do totemímo?
logos recorrem à hináf-ísc» rins'^oremismot' Alguns soció-
tizam a Sociedade c4io "o ser^rS^obSí ^ÍPOsta-
vontade sôbre seus membros". É claro todariT
como a enfnrio j- £ '• lutcgraçao e fenômenos tais
ficáveis por uma da de WoiSLas e reaS''po?o?rra ""pÍsÍ"
sK°di^Srárf sâi.™
«ni?
conclusão e seu crtrSro uel?. ' suposição ou
que não podemos obviamente ^ observação, uma vez
áe um seiagSn 'ou nesTe Eroçesso^me^^
Defrontamo-nos por conseLinte nma l
de definir a abordagem obietiva d^ ^ ~

palavras desafiou os que escrevem sôbre este fenômenn


estamos defrontanX no ^So^^^e feSSd"^"^ ° Problema que
gência e com um eSo csfAree ? ^ili-
vesbgam suas cripn,^ ,e„ desenvotafe "rdSusãV"
mesmo de pedanteria é ui ^ Perfeccionismo, talvez tratar o totemismo
tatar^o'^totp°^- ° como uma® "alegítima
exposiçãounidade.
teórica ^podernos
,.^i.i o es^SleSnt!, / tantt^^"™! estabelecer os critérios de identificação

rSoitan sr:vir
em dúvida
viaa por auem m p que estejadificilmente
quem quer familiarizadoserácom
posto
as
blema d^
lugar f?xa
esta questão a partir do pro-
Quando êle, em primLo
72
Pprlendercatainf'''''
nder, catalogar e ^ ° ao mundo em geral,
apresentar ^^sejaòbvia-
com-
73
mente sè defronta com a questão do que quer dizer iden satisfações de necessidades humanas elementares são muito
tificar um fato cultural. Porque, claramente, identificar é relevantes para todo o comportamento organizado.
o mesmo que compreender. Compreendemos o comporta
mento de outra pessoa quando podemos aquilatar seus mo Seria fácil demonstrar que o historiador também usa inva-
tivos, seus impulsos, seus costumes, isto é, sua reação total riàvelmente como base de sua reconstrução a argumentação
às condições em que ela se encontra. Quer usemos a psico fisiológica de que todos os sêres hunianos não vivem apenas
logia introspectiva e digamos que compreensão significa iden- pelo pão, mas em primeiro lugar do pão; que todo exército
marcha com o estômago, assim como também, provàvelmente,
"fificação dos processos mentais, ou quer, como behavioristas, a maioria das organizações em larga escala; que em suma,
afirmemos que sua reação ao estímulo integral da situação como na frase famosa, a história pode ser condensada na
segue linhas que para nós são familiares na base de nossas declaração: "Êles viveram, êles amaram, êles morreram".
^próprias experiências, isto não modifica a argumentação pro Primwn vivere, deinde philosophari: o princípio de que o
fundamente. Em última análise e como um princípio de povo pode ser conservado calmo pela sábia administração de
método em pesquisa-de-campo, eu insistiria na abordagem pão e circos; a concepção segundo a qual há um sistema de
behaviorista, porque ela nos permite descrever os fatos que necessidades, algumas fundamentais, outras talvez artificial
podemos observar. Continua certo, contudo, que na prática mente criadas, mas todas clamando por satisfação — tôdas
corrente e intuitiva reagimos e respondemos ao comportamento essas frases e princípios pertencem ao estoque da reconstrução
de outros por meio do mecanismo de nossa própria intros- discreta, ainda que intuitiva, do historiador. Ê claro, julgo eu7
pecção. que qualquer teoria da cultura tem de começar a partir das
E, no caso, um princípio muito simples, mas freqüente necessidades orgânicas do homem, e se ela consegue relacionar
mente negligenciado, ocorre imediatamente. As ações, arranjos as necessidades mais complexas, indiretas, mas talvez plena
materiais e os meios de comunicação que são mais diretamente
mente imperativas, tais como as dos tipos que chamamos
espirituais, ou econômicas, ou sociais, ela nos fornecerá uma
significativos e compreensíveis são os que se ligam às neces série de leis gerais como as que necessitamos numa teoria
sidades orgânicas do homem, com as emoções e com os científica segura.
métodos práticos de satistazê^as. Quando as pessoas comem Quando é que o pesquisador-de-campo em Antropologia,
ou repousam, quando elas se aquecem ao fogo, dormem sobre o teórico erudito, o sociólogo e o historiador sentem que é
um catre, quando elas buscam alimento e água para preparar necessário dar uma explicação por hipótese, por ambiciosa
uma refeição, nós não nos surpreendemos, não temos dificul reconstrução ou por suposição psicológica? Òbviamente,
dade em fazer um relato claro ou revelar a membros de uma quando o comportamento humano começa a parecer estranho
cultura diferente, em nosso país, o que está realmente acon ou não relacionado às nossas próprias necessidades ou cos
tecendo. O resultado desastroso desse fato básico é que os tumes, onde, em suma, os sêres humanos cessam de compor
antropólogos têm imitado seus despreparados precursores e tar-se como todos os sêres humanos se comportariam, e rèa-
negligenciam de algum modo essas fases elementares da exis lizam práticas de "couvade", de caça de cabeças, de escalpa-
tência humana, exatamente porque elas parecem ser óbvias e mento, de adoração de um totem, um ancestral ou um deus
geralmente humanas, destituídas do sensacional e do proble estranho. É caraterístico que muitos dêstes costumes per
mático. E além do mais é claro que a seleção feita sob o tencem ao reino da magia, da religião, e que êles são devidos,
princípio do exótico, do sensacional ou de divergências bizarras ou parecem ser, a deficiências no conhecimento ou na razão
do modo de comportamento universalmente humano não é primitivas. Quanto menos diretamente orgânica a necessidade
em si mesma uma seleção científica, porque as mais ordinárias à qual o comportamento humano se refere, tanto mais pro-
74 75.
''vavelmente ela gerará êsses fenômenos que têm fornecido a
CAPITULO VIU
M?s°'istrrvtrdL^^
comer
mer, Lanrnl
^ especulação antropológica.
^esmoe decadência
quanto ao sexo e quanto ao crescimento quanto ao^
do corpo humano, existe uma multidão de ttoos de comT^
e ^rtah?™ ® estranhos. O canibaliLo
Que é N' atureza Humana?
(Fundamentos Biológicos da Cultura)
grande corno ^ idéias escatológicas formam um outro
b<;r\ s\íí!:= T.EMOS de basear nossa teoria da cultura no fato de aue
nno f • IX ^ morte, e mvanavelmente cercado de nerturha
hnmc inumanos pertencem a uma espécie animal O
sómíT lhe assegurem
soinente o^g^iiismosobrevivência,
deve existir sob
mas condições
também Ib^quenossi
não
bibtem um metabolismo sadio e normal. Nenhuma cultura
desejamos abordar as dificuldade! e complexidaSíde'^ m
° reabastecido contínua e
aSs"'^ mo progressiva adocultura,
através da morte grupo.obviamente, perecerá
Certas condições
dÍT^"^^ conseqüência, impostas a todos os grupos
do grSo XT'' ® °^g^°ísmos individuais denÇo
Içultuâ ° coordenadas pela aparelhagem dé com o feto
tato ãl
de T°\ í os thomens têm 'natureza
que todos de comer humana"
têm dp
r^pirar, de dormir, de procriar e de eliminar os XpScS
que S
Lque seja oX^deíX"'-"'''^' ™^
o tipo de civilização que pratiquem.
S;7e™í' r" ''o -"PccícnStormanfCé
ppo^^nZatr^â^^:':
^^o^ecifico de toda cultura, especialmente a lingíSgSJ
nismcT-r-^"^^'' humana, portanto, exprimimos o determi-
iSd 1?"® ™P°® ^ tôda civilfeação e a toX os
ÍSa. lodivia, se relere diretamente ao problema Pirar dn ^ ^ reabzaçao de funções corporais tais como res-
Víamos colocado ou seia n rio ri„í- • yoe ja na- -Ss díf!''-í..^®P''^'^^'.""trir-se, excretar e reproduzir. Po-'
^um objeto, de um gesto, de~íim som Í£lSo^quS Xd - de necessidades báíicas como ás
^^jVela^nados à teoria geral de necessidX^ e^^a para
a sob
e biológicas que devem ser preenchidas
do indivíduo e do grupo. Na realidade
de saúdTr'^^^ manutenção
ude e energia vital necessárias de um
à realização das mínimo'
tarefas
76

77
culturais e dos números mínimos necessários à prevenção de Seqüências Vitais Permanentes Existentes
gradual despovoação.
Em Todas as Culturas
Já indicamos que o conceito de necessidade é simples-
I mente a primeira abordagem para a compreensão do compor- (B) Ato (C) Satisfação
(A) Impulso
Ltamento humano organizado. Tem-se afirmado que nem\
mesmo a necessidade mais simples, nem ainda a função fisio Necessidade de respirar; inspiração de eliminação de CO3
lógica mais independente de influências ambientes, pode ser aspiração de ar oxigênio dos tecidos

considerada completamente intocada pela cultiura. Não obs- / fome ingestão de alimento saciedade
tante, há certas atividades determinadas biològicamente pela
física do ambiente e pela anatomia humana, que são invarià- sêde absorção de líquido saciedade
velmente incorporadas em cada tipo de civilização. apetite sexual conjugação desintumescência
Apresentemos isto em uma forma diagramática. Na ta
fadiga repouso restauração da
bela adiante uma série de seqüências vitais são enumeradas. energia museular
Cada uma delas foi anahsada numa concatenação de fases e nervosa

tríplices. Há um impulso que é fundamentalmente determi


desassossêgo atividade satisfação de
nado pelo estado fisiológico do organismo. Encontramos ali, fadiga
por exemplo, um estado do organismo que ocorreria se a res
piração fôsse temporàriamente impedida. Sabemos todos nós sonolência sono despertar com
o que é essa sensação por experiência pessoal. O fisiólogo energia restaurada
pode defini-la em têrmos de processos bioquímicos nos tecidos, pressão da bexiga micção remoção de tensão
em têrmos da função da circulação, da construção dos pulmões
e de processos de oxidação e monóxido de carbônio. O impulso pressão do intestino excreção relaxamento abdoiiiinal
ou apetite ligado ao processo digestivo pode também ser medo fuga do perigo relaxamento
definido em têrmos de psicologia humana formulada por in-
trospecção ou experiência pessoal. Objetivamente, todavia, dor evitação por volta ao estado
ato efetivo normal
para sua definição científica, isso é da alçada do fisiólogo,
ou mais especificamente do especialista em dietética e pro
cessos digestivos. Um compêndio sôbre a fisiologia do sexo Na segunda coluna enumeramos a ação fisiológica corres
pode definir o apetite dêsse instinto por referência à anatomia pondente a cada impulso. Talvez seja ela a que menos varia
humana e à fisiologia da reprodução. O mesmo òbviamenté na série, no que se relaciona com quaisquer influências ou
ocorre com a fadiga, que é o impulso para parar a atividade motivações culturais. A ingestão real de alimento e aspiração
muscular e nervosa; com a pressão da bexiga e do intestino, de ar; ó ato de conjugação; sono, repouso, micção ou excreção
e também talvez com a sonolência, e com o impulso para são fenômenos que podem ser descritos em têrmos de Ana
mover-se, de forma a exercitar músculos e nervos, e com o tomia, Fisiologia, Bioquímica e Física. Mais corretamente,
impulso para evitar perigos orgânicos diretos, tais como um talvez, pudéssemos dizer que uma definição mínima, em têrmos
choque ou uma queda de um precipício ou de uma elevação. anatômicos e fisiológicos objetivos, pode ser dada para cada
Evitar a dor é talvez o impulso geral. relacionado com o processo, embora mesmo aqui ocorram certas modificações
evitar o perigo. culturais.

7S 79
dadeífislSnl^c alinhamos os resultados finais das ativi- cultura, e que sua eoncatenação é tão permanente e invariável
caso uma relaçao com o impulso inicial. No como e a natureza fisiológica mínima de cada fase Cada
en^í^erSs na™oknaT"'°' ^«^^dadcs uma dessas seqüências vitais tríplices é indispensável à
sobrevivência do organismo, e, no tocante à coniug?çãrsÍu£Ü '
e a gravidez, indispensável à continuação > da côiluSS É
mos de Lfiní comportamento observável tería-
claro
claro que
que os
os aspeáos auatómicos. SSó^cos ^"™™aae.
aspectos nTif,tAmm.oc. fistos dêssesE
yividades crônicas T' ^ pêoouuaç.0
da cpkura. É necessário, todavia, para^ e3So°dí da'euTtoí
dar enfase a essa base essencialmente fisiolómna dp
rs Por moüvos teoricos e práticos,-r:nffpp315|5-^551^^
psicólogos e fisíólogos como dclô°t„|eScS° da cultura, deve estabelecer uma coopLção atuante mSs
intima com essas Ciências Naturais que nos podem fornecer
a resposta específica aos nossos problemas. Assim por exem
?ÍH3FSl-?r£=aj: plo,_no estuj) dos vários sistemas econômicos ligados à pro
dução distnbuição e consumo de alimento o probleLa ?om
0 qual o nutricionista ou o fisiólogo da AutriS eS vZ
S¥££Hrâ?S-3 SXteo O especialista em dietética
poló^co. vinculadopode
ao definir
trabalhoo anteo-
ótimo
Z'nôr^Ír|LTs£fT^^^^^^ biológic"^™ qZ e uma dieta em termos de proteínas, hidrates de carbônio
sais mmerais e vitaminas necessários à manutenção do nro-a'
uuuuj humano boa saóde. Bsre ótúuo °„uS,
n Af ° referencia a uma determinada cultura Porque
~'E trabalho, muscular e definível
® nervoso, àcom relação à quantidade
complexidade das tarefas de
às
classificado como um determinante biológico de cultUra.^ No tensões e esforços potenciais exigidos de seus membmf nt
^fón^^í^Xí"^? f configuração cultural. Ao mesmo tempo

oT™—r.ro.sírsa-■'™ • estivfSdol^" resumindo o tipo de pesquisa com o qual


Esta argumentação visa estabelecer a significação d. tíraciofí
ternacional1 do InstitutoV
de Línguas e Culturas Africanas. Quando a mL-
pressão "natureza humana". Mostramos oup n dT ■ ■ de-obra afncana é contratada por uma emprêsa euroS
biológico força sôbre o oomporta™SrU" „„ cíS^S"
Cias invariáveis, que devem ser incorporadas em tAda
T
1 e minas, plantações ou fábricas, verifica-se geralmente
q e os trabalhadores estão subnutridos em relação afs esforços
?±„f
tamos o'fr"!?
fato de que tódaa as"-"PlSn'
três fases ocoLm m óâTa
R problemaFirth
. iviargaret Head, Raymond foram feitos Hailey.
e Lord pelos Drs. A. I. Ri-
80

81

r
que têm de empregar em suas atividades. Descobriu-se tam satisfação de um impulso, ou como diriam alguns behavio-
bém, por meio de trabalho especializado entre as várias trilms ristas, o reforço de um ímpeto, é uma constante psicológica
africanas, que sob as novas tensões decorrentes da modifica i e um fator fisiológico que controlam o comportamento humano
ção de cultura em geral seu suprimento de alimento,^ sufi , através de uma vasta ordem de atividades tradicionalmente
ciente no passado, torna-se inadequado. Em conseqüência, determinadas. Seremos capazes de ver claramente que o con
mesmo em Antropologia prática e_apliça^, a análise aqui sub junto de vastas áreas de atividades culturais altamente com
metida passou da fase de mero desiderato para uma etapa plicadas e diferençadas são uma e tôdas mais ou menos dire
de pesquisa real. tamente aparentadas às seqüências vitais aqui enumeradas.
Isto, naturalmente, não é uma idéia nova. Na verdade, um
Contudo, a importância do problema conduziria a uma ou dois dos sistemas mais influentes de filosofia cultural ou
alternação ligeiramente diferente de pergunta e resposta entre de interpretação geral do comportamento humano em têrmos
o biólogo e o estudioso de culturau- Seria da maior impor de um princípio dominante escolheram uma ou outra de
tância para o nosso estudo comparativo do comportamento nossas seqüências vitais e tentaram demonstrar que ela é o
humano organizado se pudéssemos aprender com os que principal motor da humanidade como um todo. O sistema
estudam anatomia e fisiologia humanas comparativas, e o marxista implica que a série fome—)-alimentação—)-saciedade
cenário ambiente destas, quais são os limites dentro dos ~e a bãie final de toda motivação humana. A interpretação
quais Os organismos humanos podiam permanecer em sa materialista da história salienta parcialmente a necessidade
tisfatórias condições de funcionamento em termos de in fundamental de nutrição, parcialmente a importância da cultura
gestão de alimento, suprimento de oxigênio, escala de tem material, ou seja, riqueza, especialmente em sua fase pro
peratura, quantidade de umidade no ar ou diretamente dutiva. Sigmund Freud e seus discípulos ampliaram o impulso
atingido a pele — isto é, as condições mínimas de am que nós modestamente enumeramos como apetite sexual no
biente físico compatíveis com o crescimento, o metabo- conceito, de certo modo metafísico da libido, e tentaram su
hsmo, proteção contra microrganismos e suficiente repro bordinar a maioria das fases de organização social, ideologia
dução. Neste último ponto, por exemplo, o grande problema ou mesmo de interêsses econômicos a fixações infantis de
de despovoação, o mais ou menos rápido deperecimento de .impulsos libidinosos. Nesse processo êles também incluíram
algumas raças e culturas primitivas e a sobrevivência de as atividades dos intestinos e da bexiga, e assim relegaram
outras, é uma questão da qual a Antropologia científica não os principais impulsionadores da humanidade a zonas e pro
, pode fugir. Aqui, provàvelmente, os simples estudos gine- cessos que ocorrem exatamente abaixo da cintura humana.
cológicos ou mesníp uma teoria puramente fisiológica de Permanece contudo o fato de que o organismo hrnnano é
reprodução não seriam suficientes. As relações entre todo anatômica e fisiològicamente diferençado, e a autonomia dos
o organismo e especialmente os eventos dentro do sistema impulsos tem de ser sustentada. Cada impulso comanda um
nervoso e o "desejo de viver e o desejo de reproduzir sao tipo específico de ação, e cada seqüência vital é em grande
uma questão que foi aberta por estudiosos tais como G. H. parte independente das outras.
Lane-Fox Pitt-Rivers e uns poucos antropólogos físicos, mas
que ainda aguarda solução. Quanto ao problema de forma e função, será possível mos
No tocante à presente análise, todavia, precisamos apenas trar que neste nível da análise, já podemos definir a ambos.
declarar que as seqüências vitais resumidas em nossa tabela Cada uma de nossas seqüências vitais tem sua forma definida.
têm de ser definidas biològicamente em primeiro lugar. ^ Elas Cada uma delas pode ser descrita em têrmos de Anatomia,
são relacionadas à cultura fundamentalmente por meio da Fisiologia e Física. E a definição mínima do que tem de sér
definição dos impulsos, e também através do fato de que ^ comportamento efetivo, induzido por um impulso e condu-

83
82
zindo a uma satisfação, é uma declaração feita em termos de racionais. É impossível omitir qualquer dos dois na análise
Ciência Natural, é uma definição da forma , dessa seqüência do comportamento humano como ele e expresso em qualquer
vital. No tocante à função é para o fisiólogo fundamental uma das seqüências vitais enumeradas em nossa tabela.
mente a relação entre as condições do organismo antes do O anti-opólogo, que estuda os impulsos não em sua defi
ato, a modificação trazida por êle, propiciadora do estado nição mínima suprida pela Física e pela Biologia, mas como
normal de repouso e satisfação. fases de uih comportamento orgânico incorporado à cultura,
A função, no seu aspecto mais simples e mais básico do tem de redefinir os dois conceitos de forma e função, e para
comportamento humano, pode ser definida como a satisfação êle ambos assumem uma complexidade adicional e também
[ de um impulso orgânico pelo ato adequado. A forma e a um valor e utilidade menos evidentes por si mesmos.
função, obviamente, são inextricàvelmente relacionadas uma
com a outra. É impossível discutir uma sem levar a outra
em consideração. Em respirar por exemplo, a "forma", no
• tocante ao corpo humano, podia parecer a aspiração de ar.
Mas se a atmosfera eircundante tem uma insuficiência de
oxigênio, ou está cheia de monóxido ou algum outro gás ve
nenoso, o efeito seria muito diferente da aspiração de ar puro.
Poderíamos dizer que a mesma forma apresenta uma função
diferente? É claro que não. Em nossa definição de forma
incluímos não apenas o ato eentral da seqüência vital, mas
também- a condição inicial do organismo, o cenário ambiente
e o resultado final do ato,, em têrmos do que acontece ao
organismo em sua interação com os fatores ambientes.!
Quando algum gás venenoso atinge os pulmões a forma do
processo mierofisiológico é claramente diferente da de oxi-
dação. Em outras palavras, teríamos aqui uma diferença de
função, porque a forma do processo, como um todo, mudou.
A forma aqui, em têrmos de comportamento aberto, represen
taria não o organismp respirando por algum tempo e depois
chegando ao estado normal de satisfação devida à renovação
de oxigênio nos tecidos, mas ao estado de colapso, radical
mente diferente no tocante à atividade total e à condição dos
!' tecidos. Poderíamos dizer que a abordagem formal corresponde
ao método de observação e documentação na definição de
uma seqüência vital, ao passo que a função e a redefinição
do que aconteceu em têrmos de princípios científicos tirados
da Física, da Bioquímica e da Anatomia, ou seja, uma analise
jcompleta dos acontecimentos orgânicos e ambientes. É le
gítimo distinguir os dois conceitos, uma vez que eles corres
pondem a métodos diferentes de observação e artifícios ope-
85
84
CAPÍTULO IX nha, Itália e Rússia. Outra complicação neste simples im
pulso de inalação de ar para encher os pulmões é devida
ao fato de que os órgãos de respiração são também, em
grande parte, os órgãos da palavra. Um acôrdo, um ajusta
mento dà respiração profunda às atividades de oratória pú
blica, recitação de fórmulas mágicas e canto constituem outro
A Derivação das Necessidades Culturais domínio ém que a respiração cultural difere do mero ato
fisiológico. A interação entre crenças, mágicas e religiosas,
e práticas relativas à etíquêta, e respiração, forneceria outro
co-determinante àquele da Fisiologia em culturas onde a exa-
lação de respiração, especialmente junto de outrem, é con
agora aprendemos que a natureza humana impõe sôbre siderada perigosa, grosseira, ou prejudicial, ao passo que a
tôdas as formas de comportamento, por mais complexas e inalação de ar, profunda e ruidosa, é um sinal de respeito ou
altamente organizadas, um certo determinismo. Estas con submissão.
sistem de uma série de seqüência^ vitais, indispensáveis ao
funcionamento sadio do organismo e da comunidade como A determinação cultural é um fato familiar no tocante à
um todo, e que devem ser incorporadas a todo sistema tra fome ou ao apetite, em suma, à disposição para comer. As
dicional de comportamento organizado. Estas seqüências limitações do que é considerado saboroso, admissível, ético;
vitais constituem pontos de cristalização para uma série de os tabus mágicos, religiosos, higiênicos e sociais sôbre a quan
processos, produtos e complexos arranjos culturais que são tidade, a matéria-prima e a preparação de alimento; a habi
construídos em torno de cada seqüência. Estávamos tam tual rotina de esÇabelecer o horária e o tipo de apetite — tudo
bém a ponto de ver que os .conceitos de forma e funoãn já isto podia ser exemplificado dentro de nossa própria civili
têm sido definidos com referência a uma seqüência vital zação com os regulamentos e princípios do judaísmo ou do
como uma mera ação orgânica. islamismo, do bramanismo ou do xintoísmo, assim como tam
Consideremos agora como os impulsos, atividades e sa bém de tôda cultura primitiva. O apetite sexual, persistente
tisfações realmente ocorrem dentro de um ambiente cultural. e invariàvelmente permitido dentro de limites, é também
Quanto ao impulso, é claro que em tôda sociedade humana cercado das mais rigorosas proibições, como no incesto, nas
é transformado pela tradição. Ele aparece ainda em sua for- abstinências temporárias, e votos de castidade, temporâneos
ma~dinâmica como um ímpeto, mas como um ímpeto mo ou permanentes. O celibato òbviamente elimina — pelo menos
dificado, modelado e determinado pela tradição. No caso de como uma exigência ideal — as relações sexuais de certas
respirar, isto ocorre dentro de espaços fechados, uma casa, minorias dentro de uma cultura. Como uma regra perma
uma caverna, uma mina ou uma fábrica. Poderíamos dizer nente, êle claramente jamais ocorre numa comunidade como
que há um compromisso entre a necessidade de oxigênio nos um todo. A forma específica na qual o impulso sexual pode
pulmões e a necessidade de integral proteção durante o sono, ocorrer é profundamente modificada por intervenções ana
o trabalho ou a reunião social. As necessidades de tempera tômicas (circuncisão, infibulação, clitoridectomia,'" lacerações
tura e de ventilação têm de ser atendidas por artifícios cul no peito, nos pés e na face)i; a atratividade de um objeto
turais. Nisto ocorre um certo ajustamento tradicional ort sexual é afetada por situação e posição econômicas; e a inte
hábito do organismo. É um fato bem conhecido que mesmo gração do impulso sexual envolve a atratividade pessoal de
nas culturas européias, a predominância de ar puro contra um macho como indivíduo e como membro de um grupo.
o nível de temperatura não é idêntica na Inglaterra, Alema- Seria igualmente fácil mostrar que a fadiga, a sonolência, a
87
86
sede e a inquietação são determinados por fatores culturais ou nervosas, dormir, e a satisfação da insônia, invariàvelmente
tais como um chamamento ao dever, a urgência de uma ta exigem um ambiente específico, uma aparelhagem física de
refa, o ritmo estabelecido de atividades. Fatores semelhantes objetos, e condições organizadas e permitidas pela comuni
obviamente também afetam a pressão da bexiga e/do intes dade. Nas civilizações mais simples, assim como nas mais
tino, e mipulsos de dor e medo. Quanto à dor, em verdade, complexas, a micção e a excreção são realizadas sob condi
pareceria que a maioria dos invariáveis elementares de his ções muito especiais e cercadas por um rígido sistema de
tória cultural e dádos etnográficos provam que a resistência regras. Muitos povos primitivos, por motivos de magia e
a ela e a capacidade de suportá-la podem quase indefinida por mêdo à feitiçaria, assim como também por suas idéias
mente ser aumentadas por modificações no sistema central de perigos emanantes do excremento humano, impõem regras
conseguidas por meio de entusiasmo rebgioso, heroísmo de mais rigorosas de recolhimento e isolamento do que encon
um patriota ou a modelar determinação de um puritano. tramos mesmo na Europa civilizada. Em tudo isto, estamos
Em suma, seria ocioso menosprezar o fato de que o impul demonstrando como o ato em si mesmo, ou seja, o núcleo de
so que conduz à mais simples ação fisiológica é tão altamente uma seqüência vital, é também regulado, definido e em con
plástico e determinado pela tradição, no fim de contas tão seqüência modificado pela cultura.
inelutável, porque é determinado por necessidades fisioló Òbviamente, o mesmo se refere à terceira fase numa
gicas. Vemos também por que impulsos fisiológicos sim- seqüência vital — a da satisfação. Esta, uma vez mais, não
ples não podgm_existir_ sob cõndiçõéF~di cultura. O res- pode ser definida simplesmente em têrmos de Fisiologia, em
pixar tem às vezes de ser combinado com ações vocais, bora a Fisiologia nos forneça a definição mínima. A socie
com o confinamento, dentro do mesmo espaço, de várias
dade é Jndubitàvelmente uma condição do organismo humano.
pessoas, e atividades nas quais o ar é afetado por gases
Mas um aborígine australiano que tivesse, por engano, sa
prejudiciais ou venenosos. O comer, sob condições de cultura,
tisfeito sua fome comendo o seu animal totêmico, um judeu
não é o mero recurso a suprimentos ambientes, mas algo no
que os seres humanos partilham de comida preparada que, ortodoxo que, por desgraça, tivesse comido porco até empan-
via de regra, foi por algum tempo acumulada e armazenada, turrar-se, um brâmane forçado a comer carne de vaca, teriam
e que invariàvelmente é o resultado de uma atividade organi todos êles apresentado sintomas de natureza fisiológica —
zada diferencial de um grupo, mesmo quando isto ocorre na vômitos, perturbações digestivas, sintomas de doença — que
forma mais simples de colher. Comer em comum implica acreditariam ser especificamente o castigo no caso de viola
condições no tocante à quantidade, hábito e maneira e disto ção. A satisfação alcançada por um ato sexual no qual o
deriva uma série de'regras de comensalismo. A. conjugação tabu do incesto é rompido, ou o adultério cometido, ou os
na espécie humana não é um ato para ser realizado em qual sagrados votos de castidade desafiados, produz uma vez mais
quer parte, de qualquer maneira, sem consideração pelos um efeito orgânico determinado por valores culturais Isto
sentimentos ou reações dos outros. A conjugação em pú prova que em comportamento cultural não devemos esquecer
blico é, com efeito, extremamente rara, e ocorre ou como a Biologia, mas não podemos ficar satisfeitos apenas com o
um desvio direto das normas da sociedade como uma for determinismo biológico. No tocante a respirar, poderíamos
ma de perversão sexual, ou, muito raramente, como parte mencionar a muito disseminada crença nos "maus eflúvios",
de um complexo mágico ou cerimônia mística. Em tais ou atmosfera perigosa, tipificada na expressão italiana mal
casos, torna-se antes o jiso cultural de um fato fisiológico aria, a qual se refere, via de regra, não a substâncias voláteis
do que uma satisfação biològicamente determinada por um realmente perigosas, mas a categorias culturalmente deter
mero impulso. O ato de repousar de atividades musculares minadas, que produzem, não obstante, resultados patológicos.

88 89
/ I vvyv*">'w í'vyNy (5 ' li

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CAPITULO X
C„d: r"'' -^o ^
So°w''f? ™TOrTS conií^êfcultoS"ÊS pS
zado oomÒ mSÔ ™ S7r"'° ™ ®"'"'
Necessidades Básicas e Respostas Cultunats

A
raia pela trivididade. ToLl 3li enunciação
deternilnada onltara."TOTofiT "f" ■'«■"o de uma Xta'^^'r descreveremos cada XLteVais^Cm
conceito dêaao mínimo fSá^S ditm ?aS
cada um l
dosfornecendo desta maneira uma definição nara
dísticos resumidos.

ÍÍSÈ?S~?« (A)

NECESSIDADES BASICAS
(B)

ÊreLe°sírn6''°'' ^ "eoefSiar 1. Metabolismo


2. Reprodução
RESPOSTAS CULTURAIS
1. Aprovisionamento
2. Parentesco
3. Confortos corporais 3. Abrigo
W- nVÍSní 4.
5.
Segurança
Movimento
4. Proteção
5. Atividades > !l
6. Crescimento
a^Xe^S^d^SoT/'"
por P™
conseguinte, é a série Iim°lâS'X'&tM™°Os'1ilSf'^''' 7. Saúde
6. Treinamento
7. Higiene
Assim, o verbete metabolismo significa que os processos
:5nSM;em tar"^ ' «í-°~:
mitam ser satisfeitas as neeessidadrbLi""' ' são rSacimado^ dêT = '■*'«ão de matéria inútil
interrcão 11I maneiras a fatores ambientes e a
o3 m j o^g^^^smo e o mundo exterior, uma intera
Temos, dêsse modo, conden-
a nossa taberdell,„1sol oorr^ponda dal! 1em nossa tabela
damente impulsos que foram
anterior. enunciados separa
O suprimento dT 3"
90
mentos sobdos, de líquidos e de oxigênio é todo êle determi-
I' 1

91
nado pelo processo metabólico, e do mesmo modo são os condições gerais sob as quais um grupo de pessoas vive e
processos de excreção, nos quais o indivíduo uma vez mais se coopera, e sob as quais a maioria dos membros, em qualquer
vale do ambiente. Neste contexto, ademais, não referimos ocasião,' e todos os membros em alguma oportunidade, têm
tanto ao impulso de fome, ao de inalação de ar ou à sen de obter algum raio de ação para exercício e iniciativa. O
sação de sede. O que nos preocupa aqui é que, no tocante à verbete crescimento, que foi discutido em nossa lista de im
comunidade como um todo, cada organismo em geral requer pulsos, mas não podia ser colocado ali, tem aqui uma posição
certas condições que garantam o suprimento de material fí legítima. Êle declara que uma vez que os sêres humanos
sico, as condições em que o processo digestivo pode ser são dependentes na infância, uma vez que o amadurecimento
efetuado e ser feita a disposição sanitária do processo final'. é um processo longo e gradual, e uma vez que a velhice, mais
Do mesmo modo, quando abordamos a reprodução, não no' homem do que em quaisquer outras espécies animais,
estamos preocupados com o arrebatamento ou impulso sexual deixa os indivíduos indefesos, os fatos de çreseimento, ama
individual e sua realização em algum caso particular. Aqui durecimento e envelhecimento impõem certas condições ge
estamos declarando que a reprodução deve prosseguir de uma rais, porém muito definidas, sobre a cultura. Em outras pa
maneira extensiva, suficiente numèricamente para reabastecer lavras, nenhum grupo podia sobreviver nem sua cultura
a população da comunidade. resistir se os recém-nascidos, imediatamente depois do nasci
mento, fossem abandonados às suas próprias aptidões, como
A breve declaração confortos corporais refere-se à gra- no caso de muitas espécies animais. \
dação de temperatura, percentagem de umidade e ausência de Finalmente, acrescentamos saúde, aqui, como uma neces
matérias nocivas em contato com o corpo, que possibilitam sidade biológica geral. É duvidoso, todavia, que êste verbete
processos fisiológicos, tais como circulação, digestão, secreções possa ser mantido. Obviamente, saúde se refere a todos os
internas e metabolismo, continuarem no sentido puramente outros verbetes, com exclusãOj talvez, do segundo, e mesmo
físico. Provàvelmente a gradação de temperatura é o ele neste caso a proteção do processo reprodutivo'de possíveis
mento mais significativo, uma vez que a exposição ao vento perigos externos é parte de um processo higiênico. Na ver
e ao tempo, à chuva, à neve ou à contínua umidade age sobre dade, se definíssemos saúde em têrmos gerais e positivos, isto
o organismo, em grande parte, por intermédio de elementos eqüivaleria à manutenção do organismo em condições nor
de temperatura.
mais no tocante à sua aptidão para a indispensáverprodução
A segurança refere-se a danos corporais por acidente de~ energia. A única justificativa para incluir um verbete
mecânico, ataque por parte de animais ou outros sêres hu separado referir-se-ia à saúde na medida em que ela esti
manos. No caso, está claro, estávamos interessados em termos vesse prejudicada ou para ser recuperada. Uma vez que
de impulso, na nossa discussão anterior, em tipos individuais todos os "ííossos verbetes são positivos, "doença" não seria
aproximados de comportamento-reação ao perigo ou à dor. adequado, mna vez que doença não é uma necessidade bio
Aqui estamos registrando que sob condições em que a maioria lógica determinada pelo seu contrário. Nosso verbete, se diz
dos organismos não estejam protegidos contra danos corporais "alívio ou eliminação de doença ou males patológicos", pro-
a cultura e seu grupo não' sobreviverão. vàv^níéhte se justifica embora isto imponha~üertas condições
O verbete movimento estabelece, no caso, que a atividade restritivas sobre as sociedades humanas, e faz surgir certas
é tão necessária ao organismo como é indispensável à cultura. reações organizadas.
A diferença entre o nosso tratamento'anterior do impulso Na verdade, tôda a nossa dupla lista tem de ser lida com
muscular e nervoso e a definição de necessidade, como ela cada par de verbetes horizontais, considerados como vincula
aqui aparece, é clara. Estamos agora interessados nas dos inseparàvelmente. A compreensão real de nosso conceito
92 93
de necesidade implica sua direta correlação com a resposta têm também de criar técnicas, isto é. um corpo regulado
que êle recebe da cultura. Quando examinamos qualquer de níõvimentos. valores e formas de organização social. Será
cultura que não está a ponto de colapso ou de romper-se melhor analisar, provàvelmente, uma depois da outra, as vá
completamente, mas que está funcionando normalmente, veri rias respostas culturais enumeradas na segunda coluna, e
ficamos que a necessidade e a resposta estão diretamente verificar o que são elas em detalhes de organização e de
relacionadas e afinadas uma com a outra. As necessidades estrutura cultural.
de alimento, bebida e oxigênio nunca são forças'isoladas, pro
pulsoras, que mandem o organismo individual ou um grupo 1. Aprovnskmamento. Começando aqui com a satisfação'
como um todo a uma procura cega de alimento, água e oxi direta de necessidades alimentares, verificaríamos que os sêres
gênio, nem as pessoas carregam consigo suas necessidàdes humanos não comem e bebem por recurso direto à natureza,
para conforto corporal, para movimento ou para segurança. nem ainda em isolamento, nem ainda em têrmos de mera
Os sêres humanos, sob suas condições de cultura, despertam ação anatômica ou fisiológica. Se nos fôssemos voltar para
com um apetite matinal, e também com o desjejum esperando os primitivos mais baixos, para uma tribo aborígine aus--
por êles ou prestes a ser preparado. Tanto o apetite como traliana, para um pequeno grupo de habitantes da Terra do
sua satisfação ocorrem simultaneamente, como questão de Fogo, ou para uma altamente civilizada comunidade européia'
rotina. Excetuados os acidentes, o organismo mantém o ou americana, defrontar-nos-íamos com fatos de comensahs-
necessário grau de temperatura com as roupas pelas quais HK). As pessoas freqüentemente comem juntas "sSbre uma
está protegido, pela sala aquecida ou pela fogueira acesa esteira ou pedaço de teixeno comum reservado para êste fini,
no abrigo, ou ainda pelo necessário movimento ao andar, ou em tôrno de uma lareira, de uma mesa ou num bar. Em
correr ou trabalhar. É claro que o organismo se torna ajus tudo isto, verificaríamos que o alimento já havia sido pré^
tado, de forma que dentro do domínio de cada necessidade parado, ou seja, selecionado, comido, assado é temperado.'
são criados hábitos específicos; e, na organização de respostas Algum utensílio físico é usado para comer, são observadas
culturais, êstes hábitos de rotina se defrontam com satisfações maneiras à mesa, e as condições sociais do ato são cui
organizadas de rotina. ' dadosamente observ^as. Seria possível, na verdade, mos
É êste o ponto em que o estudo do comportamento hu trar que em tôda sociedade humana e no que respeita a
mano inicia um afastamento definido do mero determinismo qualquer indivíduo em qualquer sociedade, o ato de comer
biológico. Já esclarecemos isto ao apontar que dentro de ocorre dentro de mna instituição definida: pode ser o lar, pode
tôda seqüência vital o impulso é transformado ou co-determi- ser um estabelecimento cornercial ou uma hosipedaria. Ê
nado por influências culturais. Como antropólogos, estamos sempre um lugar fixo, com uma organização para o forne
inicialmente interessados na maneira pela qual, sob o impulso cimento de alimento ou sua preparação, e para as oportuni
orgânico primário, as respostas condicionadas de gosto e ape dades de consumi-lo. Às ■ vêzes a cozinha é administrada
tite específicos, atração de sexo, meios de gôzo de confôrto separadamente, mesmo em comunidades primitivas, como
corporal, são desenvolvidas. quando o alimento é preparado em casa e enviado para con
Estamos também interessados na maneira pela qual as sumo nos clubes de homens ou de mulheres. As vêzes o
várias respostas culturais são organizadas. 'Veremos aqui que lugar em que o alimento está armazenado é um estabeleci
estas de maneira alguma são simples. A fim de fornecer o mento comercial ou comunal. Mas mesmo a transferência
fluxo constante de gêneros, alimentícios, artigos, roupas, ma de alimento já produzido para o consumidor final é invarià-
teriais de construção, estrutimas, armas e feiTamentas, as cul velimente feita por uma série dê sistemas organizados de
turas humanas não têm apenas de produzir artefatos, mas atividades mais ou menos complicados, ou^seja, instituições.
94 95

:\
Em nossa própria cultura, o cozimento pode ter lugar a mi
lhares de quilômetros de distância, como quando o salmão também afetaria as satisfações de nutrição. Assim fMo.
e cozido e enlatado no Alasca, ou a lagosta na África do Sul,
ou o caranguejo no Japão, e depois transportado através dos da cadeia tornam-se depende
ãTcS^- tão necessárias,- na verdadedesimpedido
d funcionamento tad?
vários elos da. vasta seqüência comercial até o consumidor,
que pode abrir a lata num piquenique e comer o seu con
teúdo ate sozinho. Ainda assim, êste ato foi possibiHtado e a 4Lão. ^ - -g««tão
por, e está definitivamente vinculado à, complicadíssima ca- comunidade em que a densidade de população
deia das empresas preparadoras e distribuidoras de alimentos. -canpu um ponto que toma indispensável um sistema muito
/I sua disWbuiçãodifícil mostrar que
são sistemas a produção de organizado,
de comportamento alimento e fa°tSquídeÍr®"^^
tatores que determinamorganizado de abastecimento,
o funcionamento efetivo dêstetodos
abasteos
1 e que fazem parte do aprovisionamento tribal ou nacional.' cimento sao Igualmente importantes para o efeito final Numa
Muito freqüentemente a tribo ou o Estado entram neste pro- ribo Pnmhiva que vive uma existência da mão para a bôca
ce^o, na medida em que uma grande emprêsa é controlada, a complexidade e menor mas a estreiteza de recursos positi'
tabutada e eventualmente mesmo organizada pelo Estado! vãmente tão grande, se não maior, porque no c^o não há
Por outoo lado, existem eondições em que a produção, a excedentes, nao há dependências em ajuda substitutiva e a
disWbuição, a preparação e o consumo de alimentos são efe margem cultural^ deve funcionar consistentemente e persis
tuados dentro de uma mesma instituição, ou seja, o lar. Isto tentemente, isto e, com o pleno determinismo de seus fatôres
ocorre, mesmo nas culturas mais adiantadas, quando un^a ^ ela provê
posta cultural, o próprio fato de que efidêneTa dfS
eriaturas hu
fazenda agrícola situada em lugar remoto tem de depender
fundamentalmente de sua própria produção da maior parte
dos artigos imprescindíveis, pelo menos no que se relaciona
com alimentos. É bastante notar que isso é menos verda
deiro a proposito da maioria das comunidades agrícolas pri Sôbr^ n novas limitações e exigências
mitivas, onde o apoio mútuo e a troca de serviços e mer
cadorias são freqüentemente necessários, exatamente por causa
das técnicas algo rotineiras que são usadas.
Já vemos que.a resposta cultural à necessidade ou neces
sidades culturais impostas pelo metabolismo consiste de uma
s rie de instituições. Poucas das instituições aqui enumeradas
^estão preocupadas apenas com nutrição. . Ao mesmo tempo,
a própria eonstituição da família e do lar torna indispensável
para este grupo ser o eeriario predominante para qs processos
de consumo, e, via de regra, para a preparação de alimento.
Se refletíssemos sobre estes fatos, é claro que sob eondições
em que a nutrição dependa do funeionamento efetivo de tôda
uma cadeia de atividades preparatórias e instituições vincula
das, todo fator que perturbasse a cadeia em qualquer ponto as atividades de produção e fornecimento de alimentos. ^
96
7
97

/
' temos
ocorre Snfao e^Sravér^lruDoT
aqui um outro elemento - n orpnizadas, ^ quer cultura e constitui o quarto imperativo instrumental
comportamento, e sanções em f ° regras mínimas de I alem dos mecanismos de educação, economia e justiça.
j costume tribais que têm dp f e da lei e
j fim de conservar funcionando^Tpm^^ ® mantidas a 2. Parentesco. Sob êste rótulo breve condensamos o
i de atividades. Toda a ativídart™^^ ^ processo de procnaçao que, nas culturas humanas Síres
fornecimento de alimentos desd processo de
captura da caça até o mnrrlp ^ ^ P^ntação da semente, a
a normas e regulamentos. As reSí^df^J
rentes à tecnologia em cada comportamento refe- I aTlfdarde'°:Í!5dííi1™^^^^^^
definindo a prfpriSde Tfn
regras concernentes ao ritmo dTalff ®cntribmção, e as
do produto preparado e as mm? • P j®' dmsao eqüitativa
são de novo, tão indíspensávmc • alimento, Sf;xtrqS'o!t:
funções materiais. S^v^de ,s'd q^^í^liTas »df ■
radas uma da outra. Um obfeto ™ i

cozinhar ou um pau para cavir ' panela para bngr^elS':'pofL't/^ d. SanTa^TrTm 1 , ,^


de ser manipulado destra levál""^ lareira, tem cuidados e preocupações incorridos. '"""dMos dos
que muito freqüentemente' uma vez
"oiogia, íambér pL 'p™-' p®
Uma outra dimensão, a §o estabe?éctoe„m do™™ cicIo'rêpro'taÍTOhá'miSrLm"'d^^^ correspondentes ao
nidades,^ côrt^em S rn^smí™ ' das comu-
realizada como parte de uma instituição, ou ainda é
perfeito fanoionamento dentrõ % todTg^^o " culturas priStívS tets
clube ou casa dos homens solteiros os ®°mo o
casadouras, ambos com regras definida?T^°^°d
poãlamentrS^WmãdÔ'
cariamos nêle dois processos- o <£ ? ''"f °verifi-
® mantido, com autoridade ou supervisão intem?
peciais no tocante a dormir eem
comunal,
^^S^l^^nentos es-
ridade. Assim, os sistema ® o de auto- iuntas. Em combinaçãoTm EtTL^T"-"
por habilitações especializadas ^ gradual individuais e namoros entre mno ' c^ s pnra encontros
e princípios éticos devem exisH ecunento, os costumes de comportamento muito bem definidn™°^^P códigos I
namento, a equipê trabalhador^ dTtM com referêneia a um casal nti à i ® l™ites a liberdades/
Ção não pode ser coX—ff " ^"^1"®^ «stitui- Todo êste compoXm®'^gtlSTdTV"'®
os elementos mais velhos sãn p i , ^ rnedida que tado no sentido de um potencial r^r, f ®^™^^^^ente orien-
incapacidade para cooperar, e têm S f'
novos organismos. A imposição d«
e?'^®
substituídos por
dois companheiros. Os fovens sÍ rnnh '^® ®^®^mento entrJ
mento propulsor por trás d r®gms, assim como o ele- de, medir sua mútua eapacidad f™' «Portunidade
element? iè comii? ou" utiWe dadas de companEsmo Tm >
como a dimemão política, que nunca eslí t"enlo^S^qS?" cS's:especiais
iTõStrurL?
98
"..aes cntrl^jSíLTsf:;^^-^^^^^
99
de um sistema institucional específico ou comn i,Tr,o
geralmente são sancionadas por convicções referentes ao bem
íemSasT
isto vPrif?« í®
h"" festividades
organLdos,e quermesses.
dcovitarSs T aldT
Em tudo'' estar do nôvo organismo que está por vir, e uma vez que
toda a comunidade, principalmente os parentes, masculinos e
rs femminos, estão interessados no fato do nascimento e no
acréscimo a família, os costumes proléptioos e a ética da gra- ^
videz e as fases miciais da patemidad^ maternidade são
matéria de preocupaçaq_pú^. \
ss-ra/ Nao precisamos^ entrar aqui na extensão da paternidade''
e maternida^ em vmçulo^deriva^dos de parentesco. E dam
que estes sao por um lado, resulfidos e conseqüências do
prqoesso biológico fundamental de reproduçãã Põr-õíítfõ-
lado eles sao altamente redefinidos em termos do sistema
egal de descenderia, mitologia ancestral e conceitos legais
dades, maneiras de comportamento e submissão à LSridade definmdo tais unidades como a família ampliada, o gripo
A intimidade da vida conjugai tem semnre d^ aparentado e o da. As reinteipretações tradicionais do pró
msote detoitada. A cooSso tZ7Z'X, prio processo fisiológico de gravidez e parto, reinterpretações
estâwec do °NNum
estabelecido. ^" caso""
ou ™ «"isiderável
no oufro, o nôvoacréscimo ao já
pequeno eruno L^mortlT
mortos, r fisiológicas
do ambiente, da mteração vindasmembros
de outros do mundo
da
pe1a °analise
^eeleodedeseu
umaambiente
nova instituição quemodo
físico, do tem de
deser defnida
viver e da cia rtrnmade em poderosos
da^pTermdld^"" T" vínculos de solidariedade sociale
maternidade
muito distantes, por meio de treinamento e apreSSdr
relaçao entre os recém-casados e suas resr)ecHvn« fa n-
e suas posições legal, econômica e sSll. ^
O nôvo grupo, claramente, mesmo antes que comece a vez ma s de relacionar fisiologia
TOz ° estudioso da cultura
e psicologia tem uma ^
de reprodução
reprodução não fica isolado, mas em relação íntímrS.m as r\ Z pmcet;'Tba? -Itu/coloca^e confiní o cS
duas casas paternas, com a comunidade local e ainda ccr^ mo base econômica da côrte, conjugação casa /
.mbienle tribal mms amplo. A cerimôniiTo oasltt^ assta
omo o estado de connubium, são assuntos de interesse pú
Patemidade-matemidade é indispensável laL;Srl"
mento ce
' ^ transformada em coubeS-'
rs:ir™ r' '"S"'- M-mo esta
sunto ?e infe imediatamente um as-
nianifestaçõe^PrSSnd^^^^^
^ retos consuetudmário e de convicção pessoal, ScaTSigr detoem grandes áreas do proeesso ea,nô^$sH~®
Com o proceso de gravidez e parto, o casamento é trans-
rmado em paternidade e maternidade. Aqui uma vez mais
o processo nunca permanece puramenJe.fisioMgi^SS
torna "
I torna coIporSCot X°íi^?n|igíS^-í-í=' ——^—,, --'-a
deseendl.re
ucsueiiuencia e
rormulados, onde funcionam sem im-
pedimento ou ainda dao surgimento a dificuldades e compi:
CE^üTBAÍ=. bAAAoJj CÇtJÃj.épvtvv!),koM-^Iü,ciJ ■
BíBLIOTE C90^5i\£0 qIj 101

LK%r^ j,Q-
/
cações a a maneira pela qual são sancionados por meio de
compulsão ou crença. Que esse elemento educacional entre um tecido, quando precisam proteção. Tôdas estas utilidades
muito profündamente nas relações de patemidade-matemidade físicas são usadas como uma parte rotineira da vida organi
ó coisa tão óbvia que nenhuma argumentação extensiva é zada. Abrigo, calor, disposições para limpeza podem ser en
^necessária. Em suma, podemos dizer em primeiro lugar que contrados dentro de casa. O vestuário, por mais elementar
a compreensão das respostas culturais à necessidade de pro ou complexo, é produzido dentro do grupo doméstico, sob a
pagação exige uma análise consecutiva, considerável, de suas mais rigorosa economia caseira; ou numa comunidade em que
instituições componentes, da corte à mais extensiva diferen-
existe uma divisão de funções, por oficinas ou fábricas orga
\ciação de parentesco da tribo. Uma vez que tôdas estas ins nizadas. As instituições sanitárias podem ser particulares ou
tituições são relacionadas, nenhum relato etnográfico delas nem públicas e assim fazem parte de uma unidade familiar ou
lima entidade pública integral dentro de uma municipalidade,
ainda um tratamento teórico pode ser satisfatório, a menos
que a relação, assim como também cada instituição parcial, grupo local, ou uma horda. Em tôda parte verificaríamos que
seja plenamente descr^^e analisada. Mostramos, além disso, temos de investigar a produção organizada, a incorporação ^de
que nos_d£termiinãnfès~de Biologia — em sua forma mínima a certos objetos materiais dentro de uma instituição, as regras
seqüência vital de atração, conjugação, fecundação, gestação do decôro, limpeza, propriedade e tabus mágico-religiosos;
e parto — entram, com plena fôrça de inelutável determinismo
investigar o tipo de treinamento efetuado por inn grupo orga
cuitmal, os elementos de determinismo econômico, educacio
nizado, no qual tais hábitos são implantados e mantidos. E, CX)

nal, legar~ilqioJ5^ Também apontamos, embora conjieí- como por tôda parte, verificaríamos aqui que, tratando-se
do comportamento em que a regulamentação social e tradi-
turalmente, que os elementos de tradição tribal, no tocante a cioiial visa refrear, ou pelo menos modificar e padronizar,
conhecimento, crença e valor moral, aparecem também como o impulso natural, e as leis da propriedade impõem uma limi
fatôres compulsórios, sem os quais o sistema de parentesco tação de uso, alguma autoridade deve estar ali para impor o
não pode ser compreendido porque tais fatôres psicológicos sanções, punir as infrações e deste modo manter a ordem e
ou simbólicos desempenham uma parte vital na constituição o füncionamento sem impedimento do comportamento orga
do sistema.
nizado. 1
3. Abrigo como resposta a confortos corporais. Fôs 4. Proteção. A organização da defesa contra o perigo
semos nós pensar nos simples fatôres usados por seres hu natural ou cataclismo, contra o ataque animal ou violência hu
manos para assegurar o ótimo de temperatura corporal, como mana, envolve òbviamente instituições tais como o lar, a muni
no uso de roupa, fogo e espaços fechados; ou de limpeza cipalidade, o clã, o grupo por idade e a tribo. Aqui cabem
corporal, como na abiução com água, lugares remotos e reser duas considerações importantes. A proteção muito freqüente
vados para excreção, ou os mais complexos solventes químicos, mente consiste no exercício de previsão e planejamento. A
tais como as substâncias alcalinas — ficaríamos de algrun construção de casas sôbre estacas, plantadas seja em terreno
modo perplexos ao encontrar, sob este título, novas respostas sólido ou numa lagoa rasa ou num lago; o levantamento de
institucionalizadas. Ainda aqui, uma vez mais, precisamos paliçadas ou paredes; a própria seleção do local de modo a
apenas lembrar que os seres humanos não procuram abrigo evitar o perigo de um macaréu, uma erupção vulcânica ou
de maneira acidental quando um pé de vento traz um agua- Um terremoto — tôda essa proteção preventiva teria de ser
ceiro, quando a temperatura repentinamente se eleva ou cai, correlacionada com a necessidade biológica de segurança, e
ou quando um homem, ensopado em água ou por chuva, aque suas respostas culturais de proteção. Aqui, uma vez mais,
ce-se numa caverna ou numa casa.. Nem os sêres humanos, o fator econômico nos princípios organizados, tècnicamente
primitivos ou civilizados, agarram-se a uma pele, um couro. planejados e executados cooperativamente, de seleção, cons-
103
priaJade, de aaforldade, são cW °'°" P'"" geral impôsto pela natureza humana sôbre a civilização A
que a geração em crescimento tem de „ dignifica saüsfaçao desta necessidade í i j civilização. A
recida e aconselhada. preparada, escla- ' determinada peirfato d ' ^ essencialmente

mais perigoSs,^ temor^r^traí humanos ou ani- a economia, a organização oolífio^ i ^ ugaaos com
faz oLmem,iorrafe prSíií^'^' principal motivo que
. fôrças armadas de resistência e agressão toh' """f o contato ■com ToZmSentrdS
a tensões musculares individuais e seus exccdcnLe i •
Iwbitat ou sob condições de v,vta tipos, de
adensidadedepooulacão^ 1 - ™o primitivas,
necessidade de OTganização^^a^^ad'^^T'^'^"° ® onde a
limitada, via de retrra nn f f j armada é insignificante. É
instrumentos elementares par^a se p^^ homem tem alguns
ou efetuá-lo. De tôdas as prova precaver de ataque armado
ssíSsi^ShIIí'
provável que o elemento pdítico' £o°f ^ '
ponto-de-vista pessoal nelo ° ™Por o
direta é muito pouco intee-rad violência corporal
sivo. Em nosa7erSnX£ d° ® ^ absolutamente eLn-
reside fundamentalmlnte
■mento de instituiçSs mihta^™^°
n.®te n™ ^2^0 ItfosSt "tf'™
^ ^ptorid^ pojí-
como a família o clã ou d o- ™ pequenas instituições tais
° desenvolvi- SSHSsIli
que estamos interessados aquf é em
organização de proteção seia na fn
uaturais e animais ou sêres hLaZ% '
titucionalizado.
de Em outrS
estudar o ambiente nS.?.
materL
lugar, que a
^ í^rças
1 « invariavelmente ins- '
- o èmT^°\
mFÊMM^
raçao para ofícios econômicos especializados e tamW°

outado ãsde''artístiSs%toc3ã'^''''" 1"® fd^Ms


o sistema de regras a or(ran,Va ~ ®'í"^Pii™ento em artefatos,
ie tais grupos Sfadl®
autopreservação e as témfo
<'. "
^ necessidade biológica de
®ossarrr;-n;r.tneÍrdSerSt„lSS^ ^
nais'a powLs IpreSto tnral compíeS°SÍ'têim°s'dÍSr'°'''°°
■Je aju/a. assim ooSf o mMo 2^"' - teoria deailifica, dwe projetar táX''a° gmrY"*" ''''
reinterpretados pela tradição o • -t." ^ sao geralmente
em têimos de conhecimento ® civilizada, em parte
parte em têrmos de crença mitdóS''° estabelecido, em A , classe, casf■ oü noícão de "f"' a"®™?' '«^'c
sentativos. A maioria dos' indivíduos repre-
descrição de vS^faserta ^á íma
-„^r^ra'^'„.oi:r*^Ze''rr-1. e um imperativo muito maturidade e a velhice O ^
insEtiria em lidar não
m iiaar nao tento
^ mfancia, a meninice, a
cientEico,
tanto com a descrição contudo,
generalizada de
.104

105
cada fase, mas antes còm a maneira pela qual o indivíduo é de perigos, de acidentes, assim como também a limitada po
gradualmente treinado em ofícios especializados, ensinado a rém nunca ausente série de remédios caseiros. Nas culturas
úsãr a linguagem e outros ai^ícíos simbólicos de sua cultura, mais primitivas, todavia, êste aspecto de resposta culturál é
"Sbrigadõ^a entrar numa série dê"instituições sempre mais am fundamentalmente dominado por crenças em bruxedos e fei-
plas, das quais êle se toma membro efetivo quando atinge tiçarias, ou seja, o poder mágico de certas pessoas ou .fôrças
plena maturidade ou assume sua parcela de cidadania tribal. para infligir danos corporais ao homem. Discutiremos isto
Tôda a série de problemas agora elaborados sob o título de mais cuidadosamente quando chegarmos a analisar a forma
cultura e personalidade obviamente entra aqui. ção de tais crenças.
Uma vez mais insistimos que aqui teríamos o lugar mais Voltando à argumentação contida neste capítulo, verifi
adequado para o tratamento de todos os sistemas de educar camos em primeiro lugar que ao comparar os dois verbetes
e tornar social a tribo, e que o estudo dêste problema con necessidades biológicas e respostas culturais, não estávamos
sistiria em grande parte de uma apreciação detalhada e apro
fundada de como o organismo em crescimento—é—absorvido
construindo qualquer hipótese ou antecipandõ"quaisquer argu
por uma instituição~dêp^ois da outra. Isto demonstraria o mentos teóricos, fictícios ou mesmo construtivos. Apenas^
fãfõ^ de quê a maioria do treinamento é diferenciado de con recapitulamos duas séries de' fatos empíricos; colocamo-los
formidade com a instituição. As bases de todo conhecimento em justaposição; e tiramos umas poucas inferencias rigo
simbólico, os primeiros elementos, a saber de perspectiva rosamente indutivas e outra vez empíricas. As necessidades
científica, de apreciação de costumes, autoridade e ética são biológicas são, em nossa análise, fatos claros de Ciência
recebidas dentro da família. Mais tarde, a criança em cres Natural. Definimo-los com referência direta ao nosso con
cimento entra no grupõ~dõs seus companheiros de folguedos, ceito de seqüência vital, ou seja, do mínimo de deter
onde, uma vez mais, é exercitada no sentido do conlormismo, minismo fisiológico e ação que tem de ser incorporado
da obediência aos costumes e à etiqueta. A aprendizagem em cada cultura. A incorporação das seqüências vitais
econômica específica lhe é dada quando ela se toma membro nas atividades de todos os indivíduos, no tocante à maio
cooperador de uma equipe econômica ou de uma sociedade ria dêles e à reprodução de número suficiente para con
militar, um grupo. ?íão há dúvida que as mais dramáticas servar a densidade normal de população, nós a definimos
^ fases da educação são as vezes incorporadas nas cerimônias como uma necessidade biológica. As necessidades biológicas
de iniciação. Mas a gradual, sempre crescente e cada vez podem òbviamente ser definidas em têrmos de fatos fisioló
j mais complexa aprendizagem da vida tribal é um processo
, contínuo, um conheoimento do qual nos dá a chave de muitos gicos e ecológicos sòmente com referência à comunidade e sua
■j problemas fundamentais de organização humana, tecnologia, cultura como um todo. A definição de que sob qualquer
L conhecimento e crença. sistema de organização e equipamento cultural as necessidades
biológicas têm de ser satisfeitas significa que não importa em
7. Higiene. No tocante a este problema, teríamos pri que ambiente, áfHco ou tropical, deserto ou estepe, pequena
meiro que ligá-lo a tudo o_ que se refere ao bem-estar orgâ ilha ou floresta impenetrável, os sêres humanos devem ser,
nico nos outros verbetes. Desse modo, as disposições sani
tárias anteriormente discutidas podiam ser analisadas aqui protegidos contra influências físicas que lhes prejudicariam
do ponto-de-vista das crenças nativas quanto a saúde e perigos permanentemente o corpo ou que cada vez mais solapassem
naturais. Além dessas considerações, o etnógrafo teria de suas energias; que os sêres humanos devem manter-se dentro
registrar aqui o mínimo senso comum elementar, regras a de um limite definido de temperatura, devem ter ar para res
respeito de exposição a intempéries, extrema fadiga, evitação pirar, alimento para se nutrir e água para matar a sêde.

106 107
Em nossa lista e em nossa definição de respostas culturais mática de estrutura institucional, vemos que além de estatuto,
novamente recapitulamos apenas a prova etnogrjdFica em atividades e função, aparecem três posições principais, con
'termos de fato observado. O inquérito indutivo de com cretas e tangívèis, em nosso diagrama: pessoal, normas e
portamento cultural, do mais primitivo ao mais superiormente aparelhagem material. Se estamos certos em nossa análise,
desenvolvido, mostra-nos que todos os processos fisiológicos então òbviamente a manutenção assim como a operação da
são padronizados, isto é, moldados com referência a certos aparelhagem material, as regras de propriedades e as técnicas
fins; que êlcs são associados com um equipamento relacionado de produção e manuseio devem ser uma concomitante cole-
diretamente com a fisiologia anatômica humana e os objetivos teral de todos êstes sistemas de atividades colaterais. Ê igual
das atividades humanas. Vimos também que tôdas estas res mente claro que o pessoal deve ser tão renovado e substituído
postas são executadas coletivamente e obedecem a uma série como o corpo de implementos. Por isso, o treinamento nas
de regras tradicionais. "formas de orientação fisiológica, instrução geral ou aprendi
Ao examinar o caráter das respostas culturais a cada neces zagem é um processo subentendido pela própria estrutura de
sidade biológica, descobrimos que não encontramos uma apa uma instituição. O conceito de normas subentende também
relhagem cultural simples ou exclusivamente orientada, vi codificação, assim como fatôres de compulsão que induzem
sando à satisfação de fome oü exclusivamente relacionada à as pessoas a respeitarem as normas e evitarem desvios. ©
reprodução, ou segmrança ou manutenção da saúde. O que) conceito essencial de organização e sanção é o de autoridade,
ocorre realmente é uma série encadeada de instituições rela assim como o de diferenciação em serviços e prerrogativas.
cionadas entre si dentro de cada cadeia, mas também tôdas Por isso, a estrutura política é também um fato que podia
elas aparecendo virtualmente sob cada título isolado. Esta ser deduzido da análise de nosso diagrama.
mos satisfeitos por sermos uma vez mais conduzidos à con No tocante a estatuto e função, não temos ainda os
clusão de que nosso conceito de instituição nos fornece uma elementos necessários para construir êste conceito. Entretanto,
.legítima unidade de análise concreta. Ainda assim, o problema òbviamente, é uma peça do direito consuetudinário, apoiada por
deste múltiplo aparecimento de instituições e a ausência de elementos retrospectivos mitológicos na tradição. Descrevemos l
uma correlação ponto por ponto entre necessidade biológica estatuto como a distribuição, pelo grupo, do valor, fim e
e resposta institucionalizada requererá umas poucas palavras importância da instituição na qual êles estão organizados. Por/
de discussão adicional. conseguinte, a formulação do estatuto, assim como a codi
Chegamos, todavia, a uín conceito diferente no curso de ficação de normas, implica uma completa compreensão do
nossa análise. Verificamos que as atividades humanas podem papel do simbolismo na cultura, um ponto ao qual teremos
também ser classificadas de acôrdo com o tipo, o assunto e de voltar em breve. No tocante a função, temo-la definido
o fim específico. Encontramos em tôda parte um elemento como a satisfação de necessidades"! Ãtéagora, apenas anali
de interêsse e organização econômica, de influência educa samos completamente as necessidades biológicas ou básicas,
cional, de severidade costumeira ou legal e de autoridade e apontamos a inevitabilidade dos imperativos derivados,
^política. Estas quatro necessidades instrumentais aparecem secundários ou instrumentais, ou necessidades culturais. É
oomo quatro grandes tipos principais de atividades distri claro, todavia, que êste conceito se refere antes ao tipo de
buídas dentro da família, grau de idade, clã, equipe coope análise científica, o outro tipo a comportamento humano,
rativa ou sociedade secreta. especialmente quando o aplicamos a uma instituição oomo um
todo.
Não seria difícil, todavia, mostrar que os dois tipos de
análise — funcional e institucional — são intimamente apa Isto nos conduz à questão anteriormente apontada, isto
rentados. Voltando a nossa discussão e representação diagra- é, ao fato de que instituição alguma pode ser funcionalmente

108 109
relacionada com uma necessidade básica nem =.• a
uma regra para uma necessidade culturd simnTes "t ? preceitos morais tais como as abstinências màgicamente san
mente não .precisa preocunar-nn. simples. Isto real- cionadas, como contra o incesto e o adultério
fmais de perto A culhim ' - considerarmos os fatos
em têrmos de" respostas esneníP ^ pode ser uma réplica
específicas. O próprio fato necessidades biológieas
'téSi uma série
S FmplTTZ rnuV"''° ^^'-SaTl^^tr^entl"^
«lisfação integral de uma sérS°df"e™ rTdIdêá.
ran,os"°a taffia ""FuTdame f Auside-
relacioná-la com a neceÍSfí™®'' teríamos sempre de
Ainda assim pela sSÍ ^.®/®P^°duÇão da comunidade,
bebê bum.úon\r&?fS«f8S í °
social micial p nnua j ia pcuoente ae seu meio
cbegarlamoa à conclusão de S°ô emnõ IV
homem e mulher nup co p ^ ® P natural bissexual de
dução terá tambén? de se conjunção e repro- ■
dado e proteção da orole TI prolongado eui-
estas atIvidS UolSÍ' *tua,
mente em coSato uE °° biológicas óbvia-
Sen*;SSeitSi
sempre integrada na reproduçãoSS' do'^"'S
propinqüidade - tôda uma série de neSsMadP.^:^'"'''^^•

passo que o proSss? dHrPí autoridade, ao


plesmente um outro lado do nm ° 1°^®™ orçmismo é sim-
r^ãSifS=
sTdade°'^''''''í° «bofdármos guSqu^^e^c^
«dade especAca, por outro lado, encontraremos^invariàvd-
sidades básicas do bebê nmt satisfazer as neces- quais pode sSaSr e 1 organizados, nenhum dos
fisiológicas inieiais É imS T° ® g"iando suas fases saúde mim^? ®^olusivamente
comunidade, esta necessidade. A
vizinhL orZLSos «r g™P® está aos cuidados de
juntamente interessado nos as^SorXÍ í coZ a^^Ss^' e enfermeiros, que podiam ser classificados
especialmente no c,ue dia respito à 06.!"; man2nçS dicina cSíf
fx os praticantes
. ™^dica organizada sobre o estatuto da me-
-^^oCiência
obstante, temos
no
lé. da Cristã, os também
osteopata;a Stlls,
cura nela

111
ôs psicanalistas, os aeroterapistas e os liidroterapistas, os parti como beneficiárias das funções e como pessoas jurídicas cujo
dários dos alimentos crus ou os unitários da luz solar, geralmen dever é instituir, custear e organizar tais atividades.
te prontos para tratar cada doença pelo seu único específico.
^ Vemos, deste modo, que embora à primeira vista nossas
Quer isto dizer que a função de uma instituição não definições possam parecer "vagas, insípidas e inúteis", na
pode ser absolutamente definida? De modo algum. É sempre realidade são fórmulas condensadas que contêm conselhos
necessário, na definição global de função, quando chegamos gerais para a organização de perspectiva em trabalho-de-^
a um sistema de atividades organizado e estabelecido, deter campo. E isto realmente é a marca de contraste da definição
minar sua natureza essencial, e relacioná-la a outras funções científica. Ela deve principalmente ser um chamamento para
subsidiárias. A família, por exemplo, como temos salientado a observação cientificamente esquematizada e orientada do
repetidamente, é uma unidade reprodutora. A reprodução fato empírico. Ela deveria também definir sucintamente o
cultural, todavia, inclui o treinamento dos jovens, para o que máximo divisor comum de fenômenos que podem ser encon
a base econômica, assim como a base física, é fornecida no trados em cada área de observação. Desta maneira, também,
lar organizado. Podemos declarar, por conseguinte, que a estas definições funcionalmente concebidas, cada uma con
produção, o desenvolvimento ontogênico e cultural dos jovens, tendo por conseguinte o máximo de irrefutabilidade e deter
e seu preparo para a vida tribal com posição regular e ape- minismo, são úteis igualmente no tratamento comparativo dos
trechos materiais, é função da instituição doméstica. Podia-, fatos etnográficos e sua descoberta. A irrefutabilidade da
mos repetir a frase com mais brevidade ainda: a família \ abordagem funcional consiste no fato de que ela não simula
transforma a matéria-prima dos novos organismos em cidadãos prever exatamente como um problema colocado para uma
completos, no sentido tribal ou nacional. Esta definição é t"cultura será resolvido. Ela -declara, todavia, que o problema,
adequada a todas as sociedades humanas. Ela exige, quando uma vez que é derivado de necessidade biológica, de con
aplicada a trabalho-de-campo, uma resposta em termos de dições ambientes e da natureza da resposta cultural, é igual
fato observado e fornece uma base de comparação para qual mente universal e categórico.
quer investigação de cruzamentos culturais.
Poderíamos declarar que a função da tribo como unidade
A função integral da municipalidade consiste na organi política é a de organização da força para policiamento, defesa
zação de um núcleo de vizinhos para controle conjunto e é agressão. No caso, òbviamente, a palavra "policiamento"
cooperativo, exploração e defesa da povoação e território. No implica um mínimo de funções judiciárias, uma autoridade
caso, òbviamente, nossa definição subentende uma análise em ou autoridades tribais que compõem um tribunal e uma orga
termos de uma clara definição de fronteiras, uma declaração nização social para a aplicação dos regulamentos. A função
de posse da terra, ãncluindo uma descrição da classificação dos grupos por idade é a de coordenadores de características
ecológica e cultural das terras, e das atividades a elas refe fisiológicas e anatômicas à medida que elas se desenvolvem
rentes. Por conseguinte, teríamos de estudar as principais no processo de crescimento, e sua transformação em cate
atividades produtoras de alimentos, tais como coletá-los, ca gorias sociais. A função das associações é implementar
çar, pescar, plantar e criar animais domesticados. A defini um fim, interesse ou ideal específico por uma organização
ção, se explicitamente analisada em termos de fato observado, ad hoc na qual as instrumentalidades e atividades específicas
também abrangeria a' distribuição de autoridade, a definição são orientadas para o objetivo comum. Nos grupos ocupa-
de lei municipal até o ponto em que ela coordena e delimita cionais vemos que a execução de ofícios, técnicas e atividades
as atividades dos domicüios componentes. Teríamos também tais como educação, justiça e poder constituem a função
de estudar as mitologias locais e a coordenação de festivi integral do grupo. Uma vez mais, apenas um antropólogo
dades de magia, religião, folguedos e produções artísticas ou sociólogo superficial e pouco instruído veria, nestas defi-
112 113
ções, fórmulas tão gerais e vagas que são "inúteis". Sua uti predominante numa cultura, deriva do ardente desejo pré-
lidade, claramente, depende da tradução de cada termo geral científico de primeiras causas ou "verdadeiras causas". Estas
em problemas concretos, uma tradução que exemplificamos podem ser mais prontamente vistas na persistente pesquisa
no caso de nossa definição de municipalidade, e que todo das "origens" e "causas históricas", nos nebulosos reinos do
etnólogo pode efetuar em cada uma das outras instâncias. passado histórico não-documentado e não-registrado, ou nos
Também é claro provàvelmente, para o leitor familiari albores evolucionistas de um povo que nem tinha história
zado ao mesmo tempo com estudos culturais e com princípios nem deixou quaisquer traços de sua evolução anterior. O
científicos, que o conceito de função é fundamentalmente fato é que História, conforme insistimos várias vêzes, nada
descritivo. Poderíamos dizer que ao apresentar êste conceito explica a não ser que possa ser mostrado que um aconteci
estamos fornecendo um novo princípio heurístico ao dar ên mento histórico teve uma determinação científica plena, e
fase à absoluta necessidade de um tipo adicional de pesquisa. se possa demonstrar esta determinação na base de elementos
Esta consiste fundamentalmente na consideração de como bem documentados. Em Etnologia ou História, e nas duas
certos inventos, formas de organização, costumes ou idéias freqüentemente, a caça pela "verdadeira causa" ficou comple
alargam o horizonte das potencialidades humanas, por um tamente indeterminada por causa dos reinos não-cartografados
lado, e impõem certas restrições ao comportamento humano, da hipótese, onde a especulação pode vagar livremente, não
por outro. Em suma, o funcionalismo é um princípio determi- estorvada pelo fato.
j nante, em termos do acréscimo que fornece ao padrão de Tomemos o nosso exemplo do garfo como o instrumento
I vida individual e coletivo. para levar do prato à boca um pedaço de alimento sóhdo.
Isto liquidaria, talvez, com a crítica freqüentemente re É claro que uma vez que definimos sua função dentro do
petida de que a função de um fenômeno cultural sempre domínio de culturas observáveis, atingimos de jacto o má
consiste em mostrar como êle funciona. Como uma decla ximo de prova no tocante a suas "primeiras origens". Êste
ração de fato esta definição é absolutamente correta. Como ato importante na história humana — pois os historiadores e
acusação metodológica ela simplesmente revela o baixo nível evolucionistas ficam de um modo geral profundamente entu
de inteligência epistemológica entre os antropólogos. O fun- siasmados sobre exatamente quais sejam as origens de trivia-
cionalista, para dar um exemplo simples, insistiria em que lidades tais como o garfo' ou um tambor ou um instrumento
ao descrever um garfo ou uma colher nós também devemos para coçar as costas — surgiu sob o determinismo de muitís
fornecer a informação sobre como êles são usados, como se simas das mesmas fôrças que conservam o instrumento, seus
relacionam com as maneiras à mesa, os banquetes, natu usos e sua função vivos nas culturas atuantes de hoje. Uma
reza das viandas e pratos e a disposição de aparelhagem vez que jua forma, sua função__e_seu contexto geral dentro.
de comensalismo, tais como mesas, pratos, toalhas e guarda- da comensalidãde, como um fenômeno cultural, pode-se de
napos. Quando um antifuncionalista objeta que, afinal de monstrar ser substancialmente os mesmos onde quer que os
contas, há culturas em que nem colheres, nem garfos, nem encontremos, a única hipótese inteligente quanto a sua origem
facas são usados, e que, por conseguinte, a função não explica é que as origens do garfo são a execução das tarefas mínimas
coisa alguma, nós simplesmente temos de observar que a ex que o instrumento pode desempenhar. E de nôvo, se fôsse
plicação para o pensador científico não é nada mais do que mos estudar sua difusão ou quaisquer outras aventuras his
a mais adequada descrição de um fato complexo. O tipo de tóricas, teríamos aqui de fazer a suposição absurda de que
crítica levantado contra o funcionalismo acusando que êle um garfo pode ser usado sob condições que fazem seu em-
jamais pode provar por que uma forma específica de tambor prôgo completamente inadequado, ou seja, não relacionado a
ou trombeta, de utensílio de mesa ou conceito teológico, é quaisquer necessidades, individuais ou coletivas, ou até po-

114 115
denamos concluir razoàvelmente que seus destinos históricos CAPÍTULO XI
podem ser cientificamente subordinados à fórmula: o garfo
vai aonde e necessitado e é transformado em forma e função
de acordo com as novas necessidades e novos locais co-de-
terminantes de cultura.

lArr- ^ e por conseguinte


lógico, pela funçãoirrelevante,
como algotem
essencialmente tauto-
de ser desmasca-
parecido à preguiça intelectual, quando exa- A Natureza das Necessidades Derivadas
min^os algumas das nossas mais complexas realizações cul-
toais. Tome-se o aviao, o submarino, ou a máquina a vapor.
Obvuamente, o homem não precisa voar, nem ainda fazer com
panhia aos peixes, e movimentar-se dentro de um meio para
o qual ele nem esta anatômicamente ajustado nem fisiològi-
camente preparado. Ao definir, por conseguinte, a função 1 EMOS agora de definir mais precisamente o que são festas
e qualquer desses aparelhos, não podemos predicar o ver- necessidades derji:adas_ffli, como continuaremos a chamá-las,
dadeiro curso de seu aparecimento em quaisquer termos de imperativos cultmaís impostos ao homem por sua própria
necessidade metafísica. Em termos de descrição e teoria amphar"sua segurança e seus confortos, a arrís^
cientifica, todavia, a única coisa que um estudioso inteligente ca^se nas dimensões de movimento, a aumentar sua veloci
da cultura pode fazer é mostrar a relação entre esses apa- dade, a preparar engenhos de destruição assim como'de pro
relhos e o estado do conhecimento humano, os objetivos, fins dução, a armar-se com colossais artifícios de proteção e cons
e atividades que são tornados possíveis por tais invenções, truir equivalentes meios de ataque. Se nosso conceito de
e as influencias desses mecanismos na ampliação dos podêres necessidade derivada ou imperativo cultural está certo, deter
corporais do homem e na estrutura e funcionamento da cul- minados tipos de comportamento estão subentendidos em
tuxa humana como um todo. Nisto o historiador verdadeiro todas as respostas culturais, as quais são tão rigorosas e ine-
e inteligente trabalharia exatamente nas linhas de abordagem lutaveis quanto cada seqüência vital por si mesma. Em outras
do funo^alista. Êle podia não se concentrar sôbre a "forma" palavras, temos de mostrar que o homem deve cooperar eco-
e negligenciar a "função". Teria de lidar com o fenômeno nomicamente, que ele deve estabelecer e manter a ordem que
integral, estimar todos os fatôres determinantes de seu apa ele deve educar o organismo nôvo e em crescimento de cada
recimento, e tôdas a^ conseqüências relevantes de seu em cidadão, e que deve de algum modo promover os meios de
prego sistemático e permanente. vigência em tôdas estas atividades. Temos de mostrar como
Estamos^ agora começando a ver a natureza das ne e onde estas atividades aparecem e como elas se ajustam,
cessidades derivadas na cultura humana. Este conceito malmente, com o objetivo de tomar claros os processos de
obviamente significa que a cultura fornece ao homem poten- envaçao e hierarquia de necessidade, temos de demonstrar
ciahdades derivadas, capacidades e podêres derivados. Isto como a Economia, a religião e o mecanismo da lei, o treina
também significa que a enorme extensão do raio de ação mento educacional e a criação artística estão diretamente ou
humana, acima das capacidades inatas do organismo nu im indiretamente relacionados com as necessidades fisiológicas
põe ao homem uma série de limitações. Em outras palavras, ou seja, as necessidades básicas. '
a_culfara mpõe um nôvo tipo de determinismo científico Comecemos com o rigor e determinismo dos imperativos
ao_comportamento humano. ~— crivados da cultura. A humanidade como um todo, e todo
116
117
indivíduo em cada sociedade, começam como organismos nus, lidação ou morte. O objeto que ele usa, sua lança, seu arco
desarmados, desprotegidos e desequipados. Os dons anatô e flecha, ou sua espingarda, deve ser tècnicamente perfeito.
micos do homem, comparados com os de outros animais, são Sua destreza e capacidade para usá-lo nao podem falhar no
algo de limitado. Êle não tem armas naturais, tais como momento cracial. Numa expedição cooperativa de caça, a
garras, presas, bòlsas com veneno. Os dentes do homem não arma, assim como também os colegas caçadores, devem estar
se prestam para serrar madeira, quebrar pedra, nem suas nos lugares exatos no momento exato e serem oportunos para
mãos para cavar o solo ou matar sua presa. Em vez disso, o. a eventualidade de evitar fraeasso. Dêste modo, o equipa
homem fabrica armas agudas e pesadas, capazes de atingir mento'material na sua produção econômica e qualidade téc
até um alvo distante. Êle inventa e aperfeiçoa instrumentos nica, a perícia baseada em treinamento, conhecimento e expe
para cavar, matar ou aprisionar a vítima no chão, no ar e na riência, as regras de cooperação e a eficiência simbólica são
água. Êle se sei^ve de peles de animais e prepara tecidos todos tão indispensáveis sob a suprema sanção do imperativo
com fibras vegetais. O fator positivo, as vantagens derivadas biológico de autopreservação quanto são quaisquer elementos
desta exploração constante e crônica do ambiente em seu ^ tão-sânente determinados fisiològicamente.
próprio benefício são tão óbvias quanto são imensas. O preço Examinemos resumidamente as conseqüências finais dó
que o homem tem de pagar em termos de determinismo adi fracasso. Quer consideremos uma tribo primitiva ou uma
cional de seu comportamento é claro, também. Êle tem de nação superiormente desenvolvida, verificamos que elas não
trabalhar pontualmente, tem de saber como fazê-lo e adap apenas dependem, para sua sobrevivência, do que o ambiente
tar-se a confiar em seus companheiros no trabalho. lhes dá para comer, vestir, e proteger sua integridade física
Podemos dizer, contudo, que a submissão a preceitos e sua saúde. Para produzir todos os objetos, elas devem
culturais é tão absoluta quanto a submissão ao determinismo obedecer a técnicas, regulamentar o comportamento coletivo,
biológico? Uma vez realizemos que a dependência da apa e conservar viva a tradição do conhecimento, da lei e da ética
relhagem cultural, por mais simples ou eomplèxa, se toma por um sistema de atividades que, em síntese, pode-se de
conditio sine qua non, verificamos imediatamente que o fra monstrar ser econômico, legal, educacional, político, cientifico,
casso na cooperação social ou a exatidão simbólica importam rmágico, religioso e ético. Um dano permanente no equipa
em imediata destruição ou desgaste final no sentido biológico mento material, na solidariedade social, no treinamento do
comum. indivíduo e aperfeiçoamento de suas capacidades, conduziria
O homem não necessita, por determinismo biológico, no fim de contas não apenas à desorganização da cultura
mas também à inanição, às moléstias em grande escala, à
caçar com lanças ou arco e flecha, usar dardos venenosos, ruína da eficiência pessoal e em conseqüência, também, ao
nem se defender comestacadas, abrigos ou armaduras. Mas despovoamento.
no momento em que êstes arttfícios foram adotados, a fim
de aumentar a adaptabilidade humana ao ambiente, êles tam Uma vez que o funcionamento coletivo e integral de
bém se tornaram condições necessárias para a sobrevivência. uma cultura, elevada ou inferior, supre os meios para a
E aqui podemos enumerar, ponto por ponto, os fatôres sôbre os satisfação de necessidades biológicas, cada aspecto da produção
quais a dependência do homem se toma tão grande quanto coletiva, no sentido mais amplo da palavra, é biològicamente
a dependência da execução de qualquer das seqüências vitais tão necessário quanto a plena e adequada execução de tôdas
biològicamente ditadas. Imagine-se qualquer situação de ação ^as seqüências vitais. Nas culturas primitivas o apêgo à tra
direta, perigosa e culturalmente inevitável. O eaçador de dição, freqüentemente descrito como conservador, servil, ou
fronta um animal mais forte, anatômicamente melhor dotado, automático, é perfeitamente compreensível através da consi
com o qual a competição sem armas deve resultar em inva- deração de que quanto mais simples são o conhecimento hu-
119
118
mano, as habilidades manuais e o equipamento material, tanto esmagamento da Noruega, foram dadas ordens traiçoeiras a
mais definitivamente devem ser mantidos no nível de funcio- unidades norueguesas por agentes alemães, estas foram or
mento eficiente. Há muito poucos aparelhos para usar"como dens simbólicas corretamente formuladas no errado, ou seja,
alternativa, c o número dos que são portadores do conheci uma posição de autoridade falsamente assumida.
mento e da tradição é limitado. Por êste motivo, o apego
ao que é conhecido e ao que pode ser eficientemente feito r Um exame mais completo de processos concretos em
tem de ser grande. todos êstes fatos mostraria que a guerra, com suas batalhas
de violência, ataque econômico e propaganda, torna-se efici
Numa cultura superiormente desenvolvida temos toda ente como meio de compulsão sòmente quando atinge final
uma série de instrumentos específicos para assegurar êste mente o nível biológico do bem-estar humano. Matar, mutilar,
apego a nossa tradição científica, a nossa organização econô expor a tremendos ruídos e dramas visuais são coisas que
mica, e à exatidão de nossa transmissão simbólica de idéias atuam sôbre o corpo e o sistema nervoso. Cònfusão tal como
e princípios. a que ocorreu nas aterrorizadas áreas da Holanda e da
Aqui, se quiséssemos pôr à prova nosso princípio de rigor França, com a completa erradicação de refugiados, as estradas
e necessidades derivadas, poderíamos muito bem referir-nos à congestionadas, as gentes expostas ao frio e à intempérie,
dramática demonstração dêle na atual situação histórica do foram, tudo isto, fatos que podiam ser descritos apenas em
mundo. As guerras mundiais globais não são desencadeadas têrmos de corpos humanos e de sofrimento físico, e de de-^
simplesmente por instrumentos de destruição. Aqui, òbvia- sordem nos movimentos humanos diretos.
mente, o objetivo final desta abordagem instrumental é tam Podemos assim ver, em primeiro lugar, que as necessi
bém biológico: a exterminação de organismos humanos. In dades derivadas têm a mesma severidade que as necessidades
diretamente, contudo, no caso, tamb&n o exército vitorioso biológicas, e que êste rigor é devido ao fato de que elas
muitas vezes realiza seus fins desorganizando e confundindo são sempre instrumentalmente relacionadas com as exigên
os oponentes, forçando-os assim a se renderem. A guerra cias do organismo. Vemos também como e onde elas pene
global, todavia, tem seus concomitantes em batalhas econô tram a estrutura do comportamento humano organizado.
micas, na guerra de nervos e na propaganda. Vemos aqui Vemos, finalmente, que até atividades^suP-ejdo.rmente deri
que se numa guerra econômica uma grande nação pode impor vadas tais como aprendizagem e pesquisa, arte e religião—di
condições de fome ou mesmo desnutrição, a rendição será
realizada pela ruptura de uma aparelhagem instrumental de reito e ética, relacionadas como são com ação organizada,
com tecnologia, e com exatidão de comunicação, são tam-
produção de alimentos ou de sua importação. Se, por meio bém definitivamente relacionadas, se bem que por vários es-
de guerra econômica,,.o suprimento de matérias-primas pode
calões, necessidade de sobreviver dos sêres humanos, de
ser cortado, destruído, ou subvertida a mão-de-obra, vemos
manter a saúde e um estado normal de eficiência orgânica.
uma vez mais como indiretamente e através de inúmeros relês
a destruição de um dispositivo instrumental de grande porte Em tudo isto, mál se toma necessário enfatizar que nossos
afetará a eficiência biológica de uma grande comunidade mo- conceitos e argumentos nunca se movimentaram fora do nível
1 dema. Por trabalho de sapa ou sabotagem da organização, empírico de análise indispensável a uma plena compreensão,
do moral e da relação simbòlicamente cimentada entre o ou seja, a uma descrição correta, objetiva e adequada dos
fatos.
povo, um Estado organizado pode, sob condições de guerra,
derrotar outro. A propaganda, por meio de táticas de Resta agora apenas tabular nossos resultados e definir
quinta-ooluna, às vêzes introduz o que podia ser chamado os verbetes clara e resumidamente. A sinopse que se segue
um simbolismo sociologicamente desorientado. Quando, no define, na primeira coluna, os imperativos instrumentais de
120 121
cultura até agora encontrados em nossa análise. Estão tam dores. Nas culturas mais adiantadas, a organização da indús
bém enumeradas em resumo as respostas culturais a êstes tria, finança, bancos, cooperativas e associações de consumi
imperativos." dores mal necessita ser mencionada como instituições eco
nômicas predominantemente típicas.
IMPERATIVOS RESPOSTAS
Ê importante, todavia, compreender que o sistema econô
1. A aparelhagem cultural de implementos 1. Economia mico de uma cultura, tomado como um conjunto, subentende
e mercadorias de consumo deve ser pro não apenas o inventário descritivo de várias instituições
duzida, usada, conservada e substituída de produção, troca e consumo de mercadorias, mas também
por nova produção. uma análise em termos de princípios gerais que controlam
.2. O comportamento hmnano, no tocante aos 2. Contrôle social a economia de uma comunidade como um todo. A riqueza
seus preceitos técnicos, legais, costumeiros difere profundamente ao longo da linha de nível evolutivo,
ou morais deve ser codificado, regula ou diferenciação ambiente, e ela depende de uma série de
mentado em ação e sanção.
preceitos ou concepções legais de valor definido pela tra
3. O material humano com o qual cada 3. Educação dição. O estudo global de todo o processo, começando com
instituição é mantida deve ser renovado, os fatôres de produção, a organização de troca e distribuição,
formado, preparado e provido com pleno e a maneira pela qual é parcialmente consumida, parcial
conhecimento da tradição tribal.
mente usada como instrumento de poder, lida com êstés prin
4. A autoridade dentro de tôda instituição 4. Organização cípios gerais que controlam tôda instituição econômica es
deve ser definida, aparelhada com po- política. pecífica denti-o de uma determinada cultura, e é adicional ao
dêres e meios de executar pela fôrça estudo de tôda instituição específica. A teoria econômica
suas ordens.
clássica tem de ser em parte posta à prova, em parte reemol-
Não há necessidade de começarmos pela primeira série durada em termos mais elásticos ao definir conceitos tais
de verbetes. Já mostramos por que devem ser considerados um como terra, mão-de-obra, capital, e a organização de empresa
nôvo tipo tão severo e majestoso de imperativos derivados em nível em que êstes têrmos não possam ser tomados por
do comportamento humano. Mostramos também o processo empréstimos de nossa própria cultura.
de derivação, e assim vinculamos o determinismo instrumental Não obstante, na minha opinião, a estrutura geral da
de atividades culturais com a fonte básica deste determi teoria clássica é aplicável, com modificações. Certamente a
nismo, ou seja, as exigências biológicas. análise de "terra", ou seja, de todos os recursos ambientes
No tocante à segunda coluna, é claro que as atividades em têrmos de direitos de propriedade, uso seletivo, e apre
econômicas sempre fazem parte de instituições mais gerais, ciação em têrmos de mitologia, magia, religião e patriotismo
tais como a família, o clã, a municipalidade, a tribo política local, é indispensável. A organização da mão-de-obra em
ou o grupo por idade. Às vezes, mesmo sôbre níveis primi relação à "terra", mas que é fundamentalmente ligada com
tivos, os seres humanos se organizam em princípio para ins a diferenciação doméstica de funções ou com o sistema de clã
tituições específicas. Uma equipe de colhedores de alimentos, ou com alguma forma de estratificação social culminando em
um grupo organizado para a caça e a pesca, um grupo de escravidão, é um problema descritivo para o pesquisador-de-
pessoas que executa conjuntamente o trabalho agrícola da campo e forneceria uma teoria geral das atitudes econômicas
comunidade são fundamentalmente instituições econômicas do homem, com valioso material comparativo. O conceito
num nível primitivo. À medida que a cultura se aperfeiçoa, de capital como um corpo de riqueza instrumental, incluindo
aparecem os grupos produtores, comercializadores e consumi talvez alimentos armazenados, é tão útil na Economia primi-

122 123
tiva como na teoria clássica. A organização da comerciali
zação e troca conduz òbviamente à questão de troca como
trados meios e maneiras pelos quais os membros se tornem
um simples símbolo de boa vontade. Um problema de algum conhecedores de suas prerrogativas e deveres; que há razões
e mecanismos propulsores que mantêm todo indivíduo, de
modo complexo surge no tocante aos mecanismos e meios um modo geral, no pleno desempenho de seu dever, e assim
de troca. Uma das principais fontes de erro em muitos assen também na adequada satisfação de seu privilégio; que em
tamentos antropológicos é o uso vago do conceito de di caso de desvio ou quebra de compromisso, há alguns meios
nheiro. Na verdade, o antropólogo podia ter prestado grande para o restabelecimento da ordem e da satisfação das rei
soma de serviço à história do desenvolvimento econômidb
e à nossa compreensão de dinheiro se tivesse analisado este vindicações não-cumpridas. A ausência de institüições legais
conceito em suas partes componentes elementares, e estudado claramente cristalizadas em algumas sociedades simples tem
o uso de certos artigos como padrões de valor, como meios ■freqüentemente levado o etnólogo á ignorar êste problema
comuns de troca e como medidas de pagamento protelado, e funcional. A maneira pela qual o formulamos aqui, todavia,
fornecido elementos para a história do desenvolvimento gra
demonstra que, para uma necessidade permanente e compul
dual e integração do dinheiro oomo um meio geral nas tran sória, embora derivada, deve ser dada uma resposta definida
sações comerciais.
e adequada. Por isso, no caso, novamente, nossa abordagem
é fundamentalmente um apêlo para uma pesquisa mais com
Não precisamos, contudo, alongaimo-nos aqui sôbre os pleta, melhor orientada e mais efetiva, no campo. O prin
tecnicismos nos métodos e .princípios da Economia primitiva. cipal ponto de orientação aqui seria que é necessário estudar
O ponto principal é que o problema da resposta funcional esta a maneira pela qual os vários preceitos são tificíTlcarlnsl no
belece uma abordagem e uma perspectiva teórica que não são indivíduo durante a duração de sua vida. Isto òbviamente
completamente abrangidas pela análise institucional concreta. faz parte do problema educacional. Mas aqui o que podia
Temos aqui uma questão funcional específica de como a ser chamado a abordagem normativa ou legal reorientaria a
cultura, como um mecanismo global, é organizada de modo atenção dos observadores para a maneira pela"qual o treina
a satisfazer os imperativos instrumentais por um sistema con mento, a partir de suas fases mais primárias até as plenas
sistente e coerente de respostas típicas. Uma tal resposta iniciações ou aprendizagem tribais, não apenas impõe geral
conteria — ou pelo menos nos conduziria — a uma definição respeito e obediência ^ tradição tribal mas também revela
mais completa do que queremos dizer por determinismo ao indivíduo as penalidades por desvio ou ruptura da mesma.
econômico, ou pela quota econômica e motivação econômica Verificaríamos, provàvelmente, que muitas vêzes o elemento
numa rede de comportamento complexo executado sob o prin de fôrça ou violência coercitiva aparece na fase de treina
cípio da motivação jnúltipla. Pessoalmente, eu definiria eco mento e disciplina, ao invés de punição pela ruptura do cos
nômico na sua forma adjetivai como êste aspecto do compor tume. A autoridade dos pais é notòriamente frouxa e branda
tamento humano que está ligado com a propriedade, isto é, o entre os chamados povos primitivos. Há, contudo, outros
uso do direito de dispor de riqueza, ou seja, bens materiais agentes de treinamento coercitivo que suplementam ou subs
especificamente particulares. É óbvio que esta definição tituem a autoridade doméstica: o grupo de companheiros de
subentende também o conceito de valor econômico, êste im
pulso e^ecífióo culturalmente determinado no s(entido da brincadeiras, a rígida disciplina dos campos de iniciação, a
posse exclusiva de certas reivindicações para usar, consumir severa aprendizagem que prepara o menino ou o rapaz para
e gozar a posse material com exclusão de outros. participar de empreendimentos econômicos ou atividades mi
litares e um sistema organizado de sanções na linha de de
No tocante ao nosso segundo verbete — contrôle social senvolvimento educacional ou biológico. Aqui, também, o
— êste declara que em cada comunidade têm de ser encon- bom pesquisador-de-campo teria de compreender mais com-
124
125
pletamente a maneira pela quaí a opinião pública exerce daríamos então como elas são gradualmente transformadas
sua pressão a partir da meninice até a maturidade. em atitudes de obediência e aquiescência limitadas e justi
ficadas, por um lado, ou até de tirania e abuso de poder,
Novamente, numa idade mais avançada, quando o indiví por outro. Òbviamente aqui a organização de violência será
duo maduro se torna membro de uma instituição, a maioria definitivamente relacionada com a posição do grupo no to
das sanções que o obrigam a desempenhar seu papel correta cante a outros que com êle vivam, seja em têrmos pacíficos
mente são devidas não ao exercício organizado de autoridade ou sob condições de guerra.
central dentro do grupo, quer êste seja o chefe de um grupo
doméstico, o líder de um clã, o dirigente de uma municipali
dade ou o chefe de uma pequena tribo. As mais rigorosas
forças coercitivas resultam da concatenação de serviço e contra-
serviço, da fôrça propulsora de uma compreensão empirica-
mente fundamentada de que um colaborador mole, incom
petente ou desonesto gradualmente debanda da instituição e
câi em ostracismo ou é expulso. Êle assim, gradualmente, \
se afunda para a posição de mais ou menos completa insig-
nificância e ineficiência, da qual só se pode erguer por uma
mais escrupulosa e adequada reassunção de seus deveres. É
num estudo minucioso, completo e inteligente do aspecto
normativo da vida primitiva que aprendemos a compre
ender a natureza real do que é geralmente descrito como
"a servil aderência dos primitivos a regra, costume e tabu".
No tocante à educação, temos de declarar aqui simplesmente,
uma vez mais, que há poucas instituições específicas, e que
os processos de treinamento, de exercício, de implantação
de atitudes e maneiras corretas são inerentes ao funcionamento
de toda instituição. „ O mais importante dêstes, obviamente,
é o grupo doméstico, mas apurar-se-á que cada instituição
organizada prevê aprendizagem específica, na qual o membro
recém-incorporado tem, em primeiro lugar, de aprender as
regras de comércio, de dever social, de etiquêta e de ética.
Nossa definição do aspecto político na organização humana
pode ser reduzida ao uso da fôrça direta por indivíduos de
tentores de autoridade sôbre os outros membros do grupo.
Começando de observações das ocasiões nas quais a violên
cia corporal realmente ocorre, das técnicas e limitações legais
das mesmas e dos motivos pelos quais são permitidas, estu-
127
126
CAPITULO XII ( Ao discutir êste problema com referência a culturas muito
simples, e em termos de "origens", usaremos uma vez mais
o processo de examinar os fenômenos culturais, tanto os sim
ples como os complexos, e identificar as implicações perma
nentes e inevitáveis que controlam cada fase do comporta
mento cultural. Assim, o conceito de origens significa para
"nós simplesmente as condições mínimas necessárias e sufi
cientes para a distinção entre atividade pré-cultural e ativi
Imperativos Integrativos da Cultura Humana dade cultural. Fôssemos considerar algumas das mais essen
ciais adaptações entre o homem e seu ambiente, tais como
abrigo, calor, vestuário, alimento ou armas, verificaríamos que
elas subentendem modificações tanto no ambiente como no
organismo. Êste princípio geral obviamente vai do nível mais
elevado ao mais baixo, e é um princípio que já demonstramos
AlTBAvés de todos os nossos argumentos temos subenten completamente. Enfrentemos por um momento a situação
dido que as regras de conduta são conhecidas, e que são imaginária de nascimento da cultura. Sustento que de nosso
transmitidas por tradição. Em nosso conceito de estatuto, que conhecimento da moderna psicologia de estímulo-resposta, de
é crucial para a nóssa análise institucional, falamos a res treinamento animal, de psicologia infantil, assim como de
peito de códigos de regras constitucionais, acêrca de idéias prova etnográfica, podemos reconstruir não o momento e a
mitológicas e a propósito de valores que alimentam e integram forma exatos em que a cultura nasceu, mas certamente as
o comportamento de um grupo organizado. condições necessárias e suficientes para a transformação do
Tudo isto ainda permanece de certo modo no ar en comportamento animal em comportamento cultural. Sabemos
quanto não podemos definir, em termos de nossa análise de ^uêTiãõ~"apenãs os ínãcãcos,~lais como os que foram usados
cultura, fenômenos tais como a linguagem, a tradição oral nos estudos de Yerkes, Kõhler e Zuckermann, mas também
ou escrita, a natureza de alguns conceitos dogmáticos domi todos os animais que representam, dos elefantes às pulgas, e
nantes, e a maneira pela qual preceitos morais sutis são in certamente os ratos, as cobaias e cachorros usados por Pavlov,
corporados no comportamento humano. Todos sabem que Bechterey e Hull, podem desenvolver hábitos muito complexos.
tudo isso é baseado originàriamente em instrução verbal ou A elasticidade e o alcance de sua aprendizagem são limitados,
textos lingüísticos, isto é, no reino global do simbolismo. Ten mas vão muito longe no sentido de demonstrar que os animais
tarei mostrar aqui que o simbolismo é um ingrediente_-ess.en:i podem inventar, ser ensinados a usar instrumentos, manejar
ciai de todo comportamento organizado: que êle deve ter aparelhos complexos, apreciar símbolos de valor e deste
slüf^o com o mais remoto aparecimento de comportamento modo satisfazer suas necessidades primárias pelo que é, com
cultural; e que é um assunto que pode ser submetido a obser efeito, uma aparelhagem cultural razoàvelmente complexa.
vação e análise teórica em termos de fato objetivo, na mesma A partir deste material já podemos enunciar uma série
extensão em que podemos observar artefatos materiais, movi de princípios gerais. Uma vez que o problema do estudioso
mentos coletivos de grupos, ou definir a forma de um cos da cultura difere profundamente do psicólogo, nosso enun
tume. A tese central aqui mantida é que o simbolismo, na ciado não estará completamente de acôrdo com a teoria geral
sua natureza essencial, é a modificação do organismo original de psicologia de estímulo-resposta, a qual está agora em
que possibilita a transformação de um impulso fisiológico num processo de gradual elaboração. O psicólogo de estímulo-
valor cultural.
m
128
Podemos assim imaginar que instrumentos, armas, abrigos
resposta está fundamentalmente interessado na analise coin- e métodos efetivos de corte podiam ser descobertos, inven
pleta do processo de aprendizagem. Para o estudioso da tados e transformados em hábitos individuais. Toda esta açao
eultura o "^ãlõT^désta pesquisa repousa principalmente na ou realização individual subentenderia para o indivíduo pré-
situação global e em todas as_fôrças da aprendizagem. Assim, cultural, como subentende para o animal, a apreciação de um
por exemplo, o psicólogo está principalmente interessado no objeto material como um implemento, de seu uso como um
seu próprio papel e desempenho, e muito freqüentemente hábito reforçado, e da integral conexão entre impulso, hábito
presume o ambiente geral do experimento. O mesmo nao e satisfação. Em outras palavras, artefato, norma e valor já
ocorre com o estudioso da cultura. estão presentes na aprendizagem' animal, e provàvelmente
A maneira pela qual nós, antropólogos, podemos projetar estavam presentes no comportamento pré-cultural dos macacos
a situação experimental do animal sobre os albores da cultura antropóides e do notorio ' elo faltante . Ainda assim, uma
■1 vez que tais hábitos tinham de ser individualmente impro
é isolando os principais fatores que devem estar presentes
se o hábito üver de ser formado. Os ancestrais pré-humanos visados e não se podiam tomar base de comportamento apren
de nossa espécie foram obviamente capazes de descobrir cer dido para todos os indivíduos de uma comunidade, não
tos artifícios para levar a cabo hábitos individuais e utilizar podemos falar ainda a respeito de cultura. A transição entre
em tal realização certas instrumentalidades. A serie essencial a.s realizações e capacidades pré-culturais de animais, e a
de fatores determinantes indispensáveis para toda essa rea organização permanente de atividades estáveis que chamamos
lização era, em primeiro lugar, a existência de um cultura, é marcada pela distinção entre hábito e costume.
pulso orgânico, tal como o provocado pela necessidade de Com esta também temos de registrar a distinção entre os
^jítriçãõTou pela necessidade reprodutiva, ou a série com instrumentos improvisados e o corpo de artefatos transmitidos
plexa que rotulamos como ^onfQrtQs_-CQrp-Qrtó. O impulso tradicionalmente; entre as formas inventadas e reinventadas
apareceria como fome, anseio sexual, dor, fuga de perigo irni- de hábito e os preceitos tradicionalmente definidos; entre a
nente, e evitação de circunstâncias e condições prejudiciais. realização esporádica e individual e o comportamento de
A equivalente aparelhagem de condicionamento deve ter sido grupo permanentemente organizado.
a ausência de satisfação direta, juntamente com certas instru Tudo isto gira em tôrno da capacidade de um grupo para
mentalidades que possibilitam ser atingido o objetivo. ^ A incorporar os princípios de realização individual na tradição
pormenorizada descrição que faz Kõhler de como os chim- que pode ser comunicada a outros membros do grupo e tam
panzés em cativeiro» eram capazes de obter alimento, eompa- bém, o que é ainda mais importante, transmitida de uma
nliia e outros fins desejáveis por uma estimativa claramente geração para outra. Isto significa que através de alguns meios
instrumental indica que, sob condições naturais, os anb-opóides ou outros cada membro da comunidade podia tomar-se côns-
mais evoluídos ou os ancestrais humanos pre-culturais seriam cio da forma, material, técnica e valor de um instrumento
técnico, de um método de obter alimento, segurança ou um
também capazes de selecionar objetos, imaginar técnicas e companheiro. Antes de investigarmos quanto aos meios exa
assim ingressar na ação instrumental ainda que pre-cultural. tos pelos quais todos êstes elementos de conheeimento, orga
Tais hábitos podiam ter sido individualmente mantidos sob nização e apreciação podiam ser padronizados, temos de
os mecanismos de reforço, ou seja, da satisfação que^ acom declarar que o processo subentende definidamente a existên
panha a ação instrumental. Em têrmos de nossa análise cul cia de um grupo e também a existência de uma permanente
tural, o refôrço não é nada mais que a conexão direta dentro relação entre seus membros. Assim, qualquer discussão de
do organismo individual entre o impulso, a instrumentalidade simbolismo sem o seu contexto sociológico é fútil, como
e sua satisfação.
"131
130
qualquer suposição de que a cultura podia ter origem sem o CAPÍTULO XIII
simultâneo aparecimento de artefatos, técnicas, organização
e simbolismb. Em outras palavras, o que já podemos declarar
é que as origens da cultura podem ser definidas como a
integração confluente ■ de várias linhas de desenvolvimento: a
capacidade de reconhecer objetos instrumientais, a avaliação
de sua eficiência técnica, e seu valor, ou seja, seu lugar ná
seqüência intencional, na formação de vínculos sociais e no A Seqüência Vital
aparecimento de simbolismo.
Instrumentalmente Implementada

/A NXJNciAMOs nossa análise funcional a partir do conceito


da seqüência vital, isto é, da relação entre impulso, sua rea
lização fisiológica, e o estado de satisfação orgânica.
| Será
útil incorporar nossa nova análise ao diagrama anteriot.
DIAGRAMA DE SEQÜÊNCIA INSTRUMENTAL

1. Objeto
Instrumental 2. Técnica
IMPULSO (1) >
3. Cooperação
Execução
4. Contexto de
situação

Realização
IMPULSO (2) ->SATISFAÇAO

Resposta-objetivo

Temos aqui, representado diagramàticamente, o equiva


lente cultural da seqüência vital. Esta representa a fase de
comportamento humano que é típica de tôda e qualquer ati
vidade ligada com a satisfação de necessidades. A diferença
132 133

-J.
entre este e o nosso diagrama anterior consiste, em primeiro maneira mais tôsca em que é freqüentemente definido, sig
lugar, na inserção da ação instrumental, que se toma um nifica que alguma coisa representa qualquer outra coisa, ou
elo essencial na série pragmática. Também duplicamos o que o sinal ou símbolo contém em si uma idéia, uma emoção,
verbete impulso e o distinguimos por índices numéricos. ou alguma outra porção da substância instrospectivamente
Isto representa o fato de que o impulso inicial que se im conhecida da "consciência". Veremos que tôdas estas defi- ^
planta para toda aprendizagem animal no comportamento nições estão contaminadas pela metafísica, e que, na reali
animal depois què o hábito foi adquirido e em tôdas as ati dade, o simbolismo é fundamentado não em uma misteriosa
vidades culturais humanas não conduz diretamente ao ob relação entre o sinal e o conteúdo da mente humana, mas entre
jetivo mas às instrumentalidades através das quais o objetivo um objeto, um gesto e uma ação e sua influência sôbre o
pode ser atingido. Não precisamos estendermo-nos a respeito organismo receptivo. Vimos como, através da extensão ins
disto, uma vez que grande parte de nossa argumentação an trumental da seqüência vital, um objeto, um gesto técnico,
terior relaciona-se com êste fato. a presença de outra pessoa e seu comportamento tomam-se
chamamentos ou incentivos à execução de uma atividade ins
O "Impulso (2)" representa o fato de que, depois que trumental. Nosso diagrama ilustra que o implemento, ou
a fase instrumental foi adequadamente realizada, q impulso técnica ou mecanismo cooperativo necessários são gradual
imediato de apetite por nutrição ou sexo, de remoção~3eHõy mente transformados num sinal pragmático da mesma ma
"ÕiT condições prejudiciais ao corpo, conduz diretamen.te_-a. neira que o alimento é um símbolo pragmático para um
ação fisiológica, quer esta seja postiva ou negativa,^ à satis- organismo faminto ou uma fêmea para um animal macho e
fãçaõ~de prazer ou à remoção de dor. Todavia, é claro que vice-versa, e a água para o sedento ou o fogo para o frio.
o reforço também se refere à situação em que o "Impulso (2)' Temos ainda de mostrar, contudo, mais completamente, como
pode ser efetivamente satisfeito. Uma vez que a ação ins o simbolismo inerente de execução instrmnental é tornado
trumental é uma parte integrante da série, o reforço, ou como público, adequado, permanente e transmissível.
os psicólogos gostam de chamá-lo, o refôrço secundário, adere
à ação instrumental como um todo e a tôdas as suas partes Antes de' chegarmos a isto, todavia, estaremos interés-
componentes: o artefato, a técnica, as regras de cooperação sados em' demonstrar que nossa análise instrumental de com
e o contexto da situação. Todos estes elementos se tomam portamento corresponde intimamente ao nosso conceito de
impregnados com o tono agradável, fisiólògicamente deter instituição e suas partes componentes. O diagrama acima
minado. Êles se tornam, de uma maneira derivada ou secun contém como uma definição de ação instrumental os itens,
dária, objetos de desejo; êles se tomam impregnados com um objetos, técnicas, a cooperação e transmissão, assim como a
tono agradável caratêrístico da execução, com êxito, de uma situação. Em análise concreta isto significa que os sêres
humanos realizam seus fins usando artefatos dentro de um
seqüência vital. O organismo, em suma, reage aos elementos
instrumentais com a mesma ou pelo menos com uma fôrça meio ambiente definido, por cooperação direta ou ainda por
apetitiva semelhante à que emprega para com objetos que o cooperação tradicional com os meios de reordenação de pro
recompensam diretamente com prazer fisiológico. Podemos cessos empíricos estabelecidos, e obviamente, em tudo isto,
definir êste forte e inevitável apêgo do organismo a certos obedecem às técnicas tradicionais aprendidas de sua cultura.
objetivos, normas ou pessoas que são instrumentais para a Comparando êste,com o diagrama anterior (pág. 122), pode
satisfação da necessidade do organismo, pelo têrmo mlor, mos ver que a aparelhagem material corresponde diretamente
no sentido mais amplo da palavra. É interessante notar que, à situação ambiente e aos objetos usados. As técnicas e
em grande parte, já havíamos prefigurado os principais ele regras de cooperação seriam colocadas sob o nosso título de
mentos do simbólico em cultura. Porque simbolismo, na normas. OI conceito de cooperação òbviamente se refere a
135
134
pessoal, e assim também o de aprendizagem tradicional, uma
vez que esta apenas pode ser obtida com o fato da i pulso. Mak completamente, uma vez que o nosso diagrama
organizaçao. ^ Onde situaríamos nossos dois conceitos de institucional se refere nao a uma única ação, mas à soma
puso( ) e Iinpulso (2) p Poderíamos acrescentar, entre total das instrumentalidades ligadas com todos os impulsos
parenteses, que a divisão de impulso em dois componentes de um certo tipo a função significaria aqui a ordem de ins-
pressuposição necessária do instrumental, asshn como tmmentahdades determinadas com referência aos impulsos
complexos e as múltiplas satisfações de uma necessidade
emos de ?lembrar
qualquer seqüência
sempre que ovital. Na érealidade,
impulso global e contudo,
que êle Para tomar, aqui, caro o nosso argumento, projetemos uma
vez ma^ a análise em um nôvo diagrama de piicologia em
suLTaÍeT^"^^
suas fases e invariàvelmente seqüência,
conduzindocontrolando
à etapa finaltôdasa da
as teimes de estimulo e resposta e, mais concretamente, df nossa
satisfaçao Nosso artifício de dividir êste conceito, todavia, gilicaçao da mesma através do conceito de seqüências vitais
ilustra o fato de que todos os elementos na ação instrumental instmmentalmente implementadas.
recebem seu valor porque as etapas iniciais do im^r^on
duzem o organismo condicionado ao cabedal instrumental IMPULSO = I, + I,
dotando-o assim, de valor cultural. O "Impulso Í2r X/ ^
baseado diretamente sÔbre o impulso orgânico e reforçado GRUPO COOPERATIVO TPCNTí^a^
E DE TREINAMENTO .
(inclusive lei, costume, ética)
"ImpuTsr(Í)".^°'' ^ üiseparàvelmente vinculados ao \
artefatos
/

"í"® °programas
tato ou seja,_ os valores, havíamos definidodecomo
e princípios esta-
comporta SÉRIE INSTRUMENTAL
mento organizado tradicionalmente estabelecidos, corríspon- I
de uma vez mais, plena e diretamente, a nosso concdto integral de satisfações
Pníeírrlo• Vf
sta °reinterpretação cultural,
® culturalmente reinter-
novamente, significa Podemos tirar rapidamente umas poucas conclusões im-
que o ^pulso opera de uma dupla maneira, prix^eirl pela portantes em qualquer análise cultural. Nossa teoria de se-
ta na execução e j
depois reaparecendo
aparelhagemcomo
e daum "Impulso
quota (2)"
instrumen- qurrconcSrT^''-''
1 _ cultural,
impulso diagramàticamente, mostra
qualquer açao simplesjamais pode ser eliminado
ou complexa. de
A razão por-^l
rlterpmSío
coSeXndííl ^"sumaçao.
ao_conduzir o ato cuialminte
Ao verbetecomo
de atividades
que um artefato, um hábito ou uma idéia ou crença se toma
conesponde claramente a série instrumental um todo
a e o ponto em que ela é observada na execução real e não
analisada em seus fatores constituintes. A diferença pia Xa fí' ^ J instrumental em i
toma-la clara uma vez mais, é que observamos na pesqSsa- denma ' ® P®™anece como parte integrante
de-campo os fatores constituintes da série em sua forma ideal um fTto^^noIía^'"
tato importante: um i;'i?
habito que nãoanimahsta nostoma-se
é reforçado ensina
^adicionalmente definida. Na execução real, estudamo-los
listo Kuhn ' desaparece. Podíamos aplicar
«onais. _ O L
sToiais conceito deif
função,
rentes,como aparece no
imperfeições nosso diagra
e fracassos oca- persisti ? Nenhum sistema decisivo de atividades pode
ma inicial, obviamente é a vinculação entre satisfação e im- rtdades h ™ hgado, direta ou indiretamente, com neces-
?£r
quer elemento' ? '"T deve
cultural satisfações.
implicar,A entre
compreensão de quala
outras coisÍ,
136

137
definição de sua. relação, instrumental ou direta, com a sa mente. Tem de ser continuada com plena eficiência, ou de
tisfação de,necessidades essenciais, quer estas sejam basicas, outra maneira o grupo cujas necessidades — e isto se refere
isto é, biológicas, ou derivadas, isto é, culturais. Quando mesmo às necessidades orgânicas básicas — não puderem ser
um ato deixa de ser recompensado, reforçado, ou seja, vital atendidas por mera subsistência animal fornecida pelo am
mente útil, êle simplesmente desaparece. Esta é, em outras biente, não sobreviveria.
palavras, nossa crítica de "sobrevivência", traços sem signifi Convém acrescentar mais uma generalização. Na evo
cação, forma irrelevante ou conceitos similares usados como lução biológica o conceito de sobrevivência dos mais .aptos
artifícios ilegítimos de argumentação na obra reconstrutiva e a luta pela existência ainda conserva süa importância fun
de certas teorias evolucionárias ou difusionistas. damental, a despeito de certas correções impostas pelos dis
Outra conclusão é que, uma vez formalmente demons cípulos de Darwin. O Príncipe Kropotkin estava positiva
trada, a série vital instrumentalmente ampliada se tonia rigo mente certo ao notar que a ajuda mutua entre indivíduos
rosa. Verificamos que a abordagem educacional ou biológica de uma comunidade cooperativa é o conceito dominante, ao
ao estudo de formação da personalidade, e o ingresso do passo que a luta entre indivíduos por sua sobrevivência não
indivíduo nos vários sistemas organizados de atividades/, é pode ser aplicada a sociedades humanas como nm todo. Sem
uma parte essencial de tôda a compreensão cultural. Esta inteligência e qualquer chance de prova documentária, po
análise podia ser, de novo, ampliada de forma a mostrar que deríamos aplicar o conceito de luta pela vida a comunidades
tôda incorporação de um organismo individual numa série primitivas, não certamente no sentido de presumir um per
instrumental conduz consigo um elemento legal. A imperfei pétuo estado de guerra, de exteminação dos grupos mais
ção da execução técnica, a desobediência às regras de coope fracos e expansão dos mais fortes as custas dos derrotados
ração e o man trato de objetos ou pessoas provêem, em suma, ou destruídos. Podemos, todavia, aplicar o conceito de valor
a punição final do organismo pelo malogro da seqüência de sobrevivência a culturas. Isto provàvelmente não se acasa
instrumental. A punição recebida pelo organismo da apa laria aqui com qualquer conceito de luta, mas antes com o
relhagem material, dentro de uma seqüência instrumental, é de competição, dentro de culturas e entre culturas. Poderíamos
provàvelmente a mais antiga e mais eficiente medida disci afirmar que o fracasso dentro de qualquer cultura no tocante
plinar fornecida por todas as atividades culturais para a regu à eficiência instrumental, artefatos, cooperação ou exatidão
lamentação do comportamento do homem. Vemos, nova simbólica,, conduziria inevitàvelmente à extinção gradual de
mente, que o prineípio econômico, em têrmos de valor rea tôda a aparelhagem cultural.
lizado através de esfôrço, assim como da circunstância de Poderíamos acrescentar que o conceito de difusão por con
que a parte instrurrtental de nossa série é a que é mais va tato é muito útil aqui. Uma cultura decadente significaria
riável, ou seja, intermutável, é uma vez mais colocada no redução no número de seus membros, uma incapacidade de
mapa de análise cultural. adaptação e um parcial retôrno do estado cultural para o
A aparelhagem, complexa, pesadona, alicerçada material estado animal. Todavia, uma vez que a cultura provàvel
assim como socialmente, constitui o meio através do qual e mente se desenvolveu simultâneamente entre vários grupos,
no qual os sêres humanos satisfazem as necessidades básicas poderíamos presumir que a decadência de uma cultura poderia
constantes. Esta aparelhagem também lhes permite desen ser remediada ou pela incorporação do grupo decadente
volver novas necessidades e, como vimos de nosso conceito numa cultura mais eficiente, ou por troca ou adoção, em
de duplo impulso, leva à criação de novos desejos e novos suma, a difusão, de certos instrumentos do nível mais elevado
impulsos. Esta aparelhagem tem de ser carregada como um para o nível mais baixo de cultura. Seja lá como fôr — e
todo para benefício daquele grupo que a exerce cõnjunta- aqui, como sempre, evitamos quaisquer visões reconstrutivas
139
138
demasiado concretas e específicas — o princípio de que certas
eficiências orgânicamente determinadas da aparelhagem cul
tural podem ser pressupostas como a base do tratamento
funcional da cultura, como o sistema gradualmente em aper
feiçoamento de adaptações adequadas do organismo humano
e de grupos humanos à satisfação de necessidades básicas
e à gradual elevação do padrão de vida dentro de um am
biente dado.

A TEORIA FUNCIONAL

140
CAPITULO I

Embriologia e Obstétrica

Io FUNCIONALISMO como método é tão velho quanto os pri


meiros movimentos de interêsse pelas culturas exótica^ por
isto supostamente consideradas selvagens ou bárbaras/ quer
o interêsse tivesse vindo de um historiador grego como Heró-
doto, de um enciclopedista francês c^o Montesquieu, ou de
um romântico alemão como Herder.^Qualquer pequena con
tribuição que eu possa ter feito consiste em ter escrito ou
colocado o rótulo de funcionalismo num corpo existente de.
doutrina, método e interêsse, e, mesmo ao fazer issojrreferi-me
em meu artigo inicial sobre o assunto a não menos de vinte
e sete precursores. Dêsse modo, talvez, tenha atuado como
parteiro e padrinho do mais jovem recém-nascido na ninhada
de escolas antropológicas e continuei a professar na maieu-
tike techne (arte obstétrica) ao treinar jovens estudiosos do
assunto pelas tradições de um grande mestre, que gostava
de descrever sua arte como a de uma parteira. Houve um
outro grande professor que forneceu o lema do funcionalismo:
"por.seus frutos vós os conhecereis".
/ O funcionalismo, pelo que tem participado da abordagem^,,
antropológica, acupa-se da compreensão clara da natureza
dos mnômenos culturais, antes que êst^ sejam submetidos
a manipulações especulativas posteriores/^ Qual é a natureza,
a realidadé cultural do casamento humano e da família, de
um sistema político, uma. emprêsa econômica ou um processo
legal? Como podem êstes fatos ser tratados indutivamente
de maneira a produzir generalizações científicas válidas? Há
143
algum esquema universal aplicável a todas as culturas hu
manas, que possa ser útil como uma orientação para o pes- acêrca de qualquer distinção: clara entre casamento, mera
quisador-de-campo e como um sistema de coordenadas em conjugação sexual e uma ligação temporária, é um outro caso
estudo comparativo, quer histórico, evolucionário ou que sim ilustrativo. A seleção de um fenômeno tal como o sistema
plesmente vise às leis gerais de correspondência? de classificação de têrmos de parentesco e seu tratamento como
Quando E. B. Tylor investigou, no começo de seu grande uma sobrevivência, um registro do que foi mas não existe
trabalho Primitive Culture, o que era religião, no sentido mais mais, mostra corno, por negligenciar a análise funcional de
amplo da expressão, ou, em suas próprias palavras, quando fenômenos lingüísticos vitais, Morgan desorientou durante
tentou uma "definição mínima" deste assunto, foi um legítimo gerações a pesquisa antropológica. Graebner, novamente, im
funcionalista. Foi-o também Robertson Smith, quando reco provisando anáhses falsas ou pueris de cultura a fim de cons
nheceu que a dimensão sociológica era indispensável para uma truir o alicerce de que ele considerava o difusionismo univer
compreensão da fé primitiva. Sumner, novamente, em suas sal à prova^ de erros, criou uma abordagem antifuncional de
tentativas de análise e classificação de normas primitivas de uma imbecilidade de primeira classe. Presume êle em pri
comportamento, simboliza um interêsse funcional inicial. A meiro lugar que é possível isolar elementos únicos de seu
discussão de Durkheim do tipo primitivo de divisão de tra contexto cultural. Define então forma como completamente
balho social, e sua análise de religião e magia, estão dentro desligada de função. Na verdade, para êle essas qualidades
da esfera de ação do método funcional. O famoso trabalho de forma num objeto isolado importam, e elas não estão li
pelo qual Tylor procurou correlacionar vários aspectos do gadas a seus usos e fins. Por isso, para Graebner, sòmente
parentesco primitivo e da vida econômica primitiva; a defi são carateristicas metodològicamente relevantes as que se de
nição de K. Bücher da economia primitiva e da relação monstrar serem culturalmente irrelevantes.^
entre trabalho e ^canção rítmica; a obra de Hutton Webster Alérn disso, ele inclui o conceito de traço complexo como
e H. Schurtz sobre graus de idade, sociedades sagradas um sortimento de itens desconexos. Afirmo que forma
e associações voluntárias de homens, a a relação destes gru é seinpre determinada por função, e que até onde não pode-
pos com a estrutura política, religiosa e econômica da comu • mos demonstrar tal determinismo, os elementos de forma não
nidade — todas estas contribuições são funcionais. Podería podem ser usados numa argumentação científica. Afirmo
mos acrescentar que os tipos mais remotos de pesquisa-de- também que o conceito de itens desconexos, num tipo de rea
campo efetiva, tais como os trabalhos de Charlevoix, Dobritz- lidade em que não podemos introduzir elementos intrinsi-
hofer, Sahagun ou Dapper, eram também funcionais porque camente relacionados um com o outro, é inútil.
continham uma apreciação não apenas de fatos isolados, mas
das,relações e vínculos essenciais.
/ Alguns princípios funcionais devem ser consubstanciados
em todo tratamento teórico de fenômenos culturais, assim como
também em tôda monografia sôbre pesquisa-de-campo. Toda-.
via, para não ser acusado de benevolência indiscriminada,
e ecletismo frouxo apresso-me a acrescentar que. tendências.
não-funcionais assim como antifuncionais existem na Antro
pologia. O pesquisador-de-campo que busca apenas o exótico
e o pitoresco é um exemplo. O evolucionista, desenvolvendo
uma teoria do casamento e da família, mas imperturbado
144
10
145
CAPITULO II
definidas uns com os outros, ou seja, são organizados, ma
nuseiam artefatos e comunicam-se entre si pela palavra ou
outro tipo de simbolismo. Os artefatos, os grupos organizados
e o simbolismo são três dimensões do processo cultural que
estão intimamente relacionadas. Qual é o tipo desta relação?
Examinando primeiro a aparelhagem material da cultura,
Axiomas Gerais do Funcionalismo podemos dizer que cada artefato é ou um implemento ou
ainda um objeto de uso mais direto, isto é, pertencente à
classe das mercadorias do consumo. Num caso ou no outro
as circunstâncias assim como a forma do objeto são determi
Ji nadas pelo seu uso. A função e a forma sao correlacionadas.
// P
/ i ABECT-ME que toda experiência no campo assim como o A relação nos conduz imediatamente ao elemento humano,
exame das manifestações realmente importantes do comporta pois artefato tein de ser comido, usado ou de outro modo
mento humano organizado demonstram a validade dos se destruído; ou então é produzido a fim de ser usado como
guintes axiomas:
uma ferramenta. O ambiente social é sempre um homem ou
um grupo manuseando seus implementos num empreendi
é essencialmente uma apaTelhaBem ínstru- mento técnico, economico; utilizando uma casa conjunta
para lidar com os problemas específicos concretos que se lhe mente, consumindo o alimento que produziram ou colheram
e prepararain. Na realidade, nenhum item isolado de cultura
material pode ser compreendido por referência a um único
nS;; mdividuo; pois onde quer que não haja cooperação, e êsses
um sistema de objetos, atividades e atitudes, no casos sao difíceis de encontrar, há pelo menos a única coope-
qual eada parte existe como um meio para um fim. consiste na continuidade da tradição. O
mdividuo tem^ de adquirir sua habilidade pessoal e reconheci
terdependentS^ mento por trás dela de um membro da comunidade já fami
liarizado com ofícios, técnicas e informação; e tem também
em tLn^^P^r ^^itudes e objetos são organizados de receber ou herdar o seu equipamento material.
rZnTf '1 o cia,
como a família, f- ™P°^t^^tes e vitais,
a comunidade local, aemtribo
instituições tais
e as equipes e que é função nas realidades socioló
gicasf tomemos uma relação de sangue, contigüidade ou
ZTãucLLr'"''''' contrato: temos no caso duas ou mais pessoas que se com
portam umas com as outras de maneira padronizada, e que
tirs de atmdade, a cultura dinâmico,
tipo ou seja, numa
pode ser analisada no tocante ao
série de ^sm procedem invariàvelmente com referência a alguma
^pectos tais como educação, controle social, economia, sis parte do ambiente culturalmente definido, e com referência
temas de conheeimento, crença e moralidade, e também modos a alguns negócios em que coisas são trocadas, objetos mani-
de expressão criadora e artística./ puados e coordenados os movimentos corporais. A forma
restaçoes,
Processo
semprecultural,
abrangeencarado em qualquer
sêres humanos de suasrelações
que mantêm mani- um sociológica não é uma ficção ou abstração. Ê
social ^ ^ompoitamento caraterístico de qualquer relação
146
147
Da mesma maneira que o físico ou o químico observam Qual é a relação entre forma e função no simbolismo?
íifi^cfir®" substâncias ou mo- Se destacássemos a mera realidade fonética da palavra, ou
qualquer outra caraterística puramente convencional de' um
==£ípS£~ símbolo material de um gesto, podia parecer que o vínculo
entre forma e função é apenas artificial; e uma vez que o
simbolismo em sua própria essência não é senão o aperfei
çoamento de atos convencionais para a cooordenação do com
^ando a«.»„oIogia do ZffdnSnt.^^d:
o tremamenlo, o ritual, assim como os asoecL Tlri„
portamento humano pactuado, a relação entre forma e função
é no caso definitivamente artificial ou convencional. O sím.<<
bolo é o estímulo condicionado, que é ligado a uma res^N.
posta em comportamento apenas pelo processo de condicio
namento. Mas em cada peça de pesquisa-de-campo êste
processo deve ser parte integrante da pesquisa válida O
contexto da situação fomativa, por outro lado, sempre revela
a relaçao entre a função de um ato simbólico, verbal ou
bioiógia ^ processos físicos ligados por causalidade
A forma no simbolismo, por conseguinte, não me parece
uma palavra arrancada de seu contexto, um gesto fotografado
A função das relações conjugais e da paternidade' rouseu, mas
d
£7?l:rs ^dado.dmamicamente revela desempenhar umum itLcomo
papel que
, um estimulo que libera respostas num reflexo encadeio, num
'd.
Na forma de uma ordem milita^
rogai é uma açao como um todo, mais especialmente o
coinportamento em resposta à ordem, o comportamento social
protegidr atógadJ^^e^oVal" cordenado como foi liberado pelo estímulo convencional

?no?00n d P® P^P®^ ® descoberta no


Slti^al. ° significaria. Isto não é realidade
TenS oaSa d° aOenoioso ooS turai°aSín7°'
turm abrangendo o substrato ^material
tot^^dadede decultura
um processo
isto é cul-
ar
de co^CortamLT''''e atos simbólicos,
7® ««F' ^odos padroniz'ados
g|S2 SaSSr— ou, por outra as
estím^loTLfle o™ ^^ganismo sobre outro por intermédio de
tárin "l f' ® "O sabemos que muito do comen-
táno colateral, não necessàriamente contido na ação e^^i ?oSnr.? 'condicionados; é uma totalidade que não
sodoWia ™^terâl,empurasi
^oc^ogia ou Imguagem como um sistema contido
148
149
CAPÍTULO III
Se nos voltássemos para outra atividade, a da produção e
manutenção do fogo, uma vez mais poderíamos referi-la aos
seus usos primários em cozinhar e conservar a temperatura do
meio ambiente, assim como um implemento em eertos proces
sos. Uma diversidade de atitudes, religiosas e seculares legais
e técnicas, que se centram em tômo do fogo, da fornalha da
chama sagrada, podem tôdas elas ser relacionadas às suas
Definição de Função principais funções biológicas.
Tomemos a moradia humana. Ê um objeto físico, uma
consti-uçao de toros ou galhos de madeira, de peles de animais
neve ou pedra. Tendo forma, todavia, a tecnologia de sua
J estrutura, assina como suas divisões, partes componentes e mó
nos permitirá definir o conceito de função com -J' veis são relaeionadas aos usos domésticos que estão ligados
^ maior precisão. É claro que temos de abordá-lo através dos ao domicilio, ao grupo familiar, seus dependentes e criados.
' de uso Ou utilidade e relação. Uma vez mais, no caso, a função global do objeto deve ser
Em tôdas as atividades verificamos que o uso de um conservada em mente ao estudar as várias fases de sua cons
- objeto como parte de um comportamento técnico, legal ou trução tecnológica assim como os elementos de sua estrutura.
ritua mente determinado leva os seres humanos à satisfação
de alguma necessidade. Os fi-utos ou raízes são apanhados .
- derivados, a .função edecoletivos,
individuais termos de parentesco,
descritivos e deprimárias
classificae
o peixe e pescado, os animais são caçados ou apanhados em' ção. Eu acredito que, neste caso, o estudo da situação inicial
armadilhas, o gado e ordenhado ou abatido, de modo a for
necer as matérias-primas para a despensa humana. Êsses ali nascido e incluindo eleocomo
pequeno grupo que rodeia o recém-
aquisição sociológica, à comu-
J
mentos sao temperados, preparados e cozidos de modo a virem nida^, revelaria que a função inicial de termos de pãrentescò
para a mesa. Tudo isto culmina numa refeição individual /A e fornecer ao recem-nascido o contrôle sõHbrógioõ^^é^üjr
ou comunal. A necessidade de nutrição controla uma mul meio ambiente através da Tala-ãrticülãdaTnístõTicidental-
tiplicidade extrema de processo, /é um lugar-comum dizer mente implica a asserção de que o contèxto de situação for-
que a humanidade progride sobre o estômago, que se pode maüva nestes símbolos lingüísticos e na linguagem humana
conservar a multidão satisfeita dando-lhe pão assim como circo, m geral é essencialmente sociológico e também individual
e que o fator materialista do suprimento satisfatório de ali As significaçoesmão-individuais ou classificatórias de têimos
mentos e ^ um dos determinantes da história © da evolução _ parentesco sao adquiridas através de uma série de exten
iiumanas.ta O funcionalista acrescenta apenas que os motivos sões consecutivas. A abordagem funcional dêste fenômeno
que confrolam as partes dêste processo e que se disseminaram
na paixao pela lavoura e pela caça, no interêsse ou cobiça
Pv-
por troca e comercialização adequadas, nos impulsos de gent aspecto simbólico de parentesco e sucessivamente elaborado
rosidade e mumficencia, devem ser totalmente analisados com será estudado recorrendo-se à lingüística, comportamento so-
referencia aq principal impulso: o da fome. A função global sTc af Xd-®'''® comportamento
de todo o processo que constitui o aprovisionamento cultural XrLX T ^.°.°™_í^í^rviços_ e^quaLqirerI.fitü5I
de ^a comunidade é a satisfação da necessidade primária ? f. , etapas no desenvolvimento de_qualquer
biológica da nutrição.| ^
®Jínnn
^r infância se torhar membro do' mais amplo
o Seria fácil mostrar (^e~
150 '
151
vários objetos materiais geralmente chamados "moeda", "di CAPITULO IV
nheiro" ou "riqueza simbólica" teriam de ser estudados também
dentro do contexto de sistemas de tiroca, produção e consumo.
E o mesmo diz respeito ao estudo de uma fórmula ou gesto
mágico, que uma vez mais não devem ser arrebatados de seu
contexto, mais relacionados a sua função.
Breve Análise do Funcionalismo

/q _ENSiiíO_persistente-da-expeHência-"dí pesquis^de-campo,
assina como qualquer neça de investigação_te.óri-ca,-comparada,-
guia e inevitàvelmente tem guiado o antropóloga_para-a-com-
preensão-de-que-os-fenômenos culturais são relacionadqs_CTtre
si.f Os^vínculos^entfé~üni~õbjetõ~e'^õs~sêres Kumãhos que o
usãfn, entre a técnica, individual e social, e a propriedade
legal, assim como também a economia da produção, a relação
entre a moradia humana e os membros da família que a
ocupam, são tão óbvios que nunca foram completamente exa
minados nem ainda claramente vistos! PoL, proverbialmente,
/ nada é mais difícil de ver do que o óbvio.^Se o funcionalismo
fosse simplesmente a tendência para considerar "coniõjSiitre-
láçãdas as atitudes mágicas e econômicas", para compreender
^ue élaT~"fazem parte da estrutura social e ^úe devemos
JcorrelaclonáJas—mais e mais seria na verdade êsse_deslize
teórico_ji.ò--totalltarismp científico do qual~êlê~ténr sidp_fr^
quentenmnte_açuxa^/ Não há dúvida também que em ciência"'
■tantS^devemos isolar como fazer relações. O funcionalismo nos
conduziria ao lodaçal de relacionar e contra-relacionar objetos
se não pudéssemos apontar alguns isolados ou unidades que
contêm os limites naturais de coordenação e correlação. Eu ■
sugiro que tais isolados naturais existem, e que êles deveriam
tomar-se o alicerce de qualquer análise cultural sadia.
A unidade funcional que chamei de Instituição difere de
complexo de cultura-ou complexo de traços, quando definido
como "composto de elementos que não se situam em qualquer
relação necessária uns para com os outros", no que êle postula
152 153
essa relação como necessária. Com efeito, a unidade funcional CAPÍTULO V
é concreta, ou seja, pode ser observada como um agrupamento
social definido. Tem uma estrutura universalmente válida
para todos os tipos de unidades, e é uma unidade real en
quanto não pudermos enumerar seus fatôres abstratos, bem
como traçar concretamente uma linha em tômo dela. '
funcionalismo não .teria a pretensão legítima de tratar da culTT 7 '
tura em seus aspectos fundamentais, como os educacionais,.. i .[
legais, econômicos ou pertinentes ao conhecimento, primitivo' j o" As Unidades Legítimas da Análise Cultural
ou adiantado, e religião, a menos que fosse capaz de analisar^
e em conseqüência definir cada um dêles, e relacioná-los àslV \
necpsidades biológicas do organismo humano.^ J
|0 funcionalismo não seria tão funcional afinal de contas,
a menos pudesse definir o conceito de função não apenas com A<L.CBEDno que se tomaimos qualquer traço da cultura mate
expressões fluentes tais como "a contribuição que uma ativi rial, ou selecionar qualquer costume, isto é, maneira de com
dade parcial faz para a atividade total da qual ela é parte", y portamento padronizado, ou qualquer idéia, podetemos' colo
mas por uma referência muito mais definida e concreta ao que / cá-lo dentro de um ou mais sistemas de atividade humana.
realmente ocorre e que pode ser observado/ Como veremos, Dêste modo, se nos deparássemos por acaso com um grupo
tal definição é fornecida por mostrar que as instituições hu de nativos fazendo fogo por fricção, êsse ato representaria o
manas, assim como as atividades parciais dentro delas, são,'''~^ de acender uma fogueira doméstica para cozinhar ou aquecer,
relacionadas com as necessidades primárias, isto é, biológicas, , ou exatamente o primeiro fogo da lareira. Num caso ou no
ou derivadas, isto é, culturais. A função sempre significa, por outro, o fogo assim acendido seria uma parte integrante da
conseguinte, a satisfação de uma necessidade, do mais simples instituição doméstica, mas poderia ser também uma fogueira
ato de comer à ação sacramentai na qual comungar está re de acampamento, parte de uma caçada ou pescaria, ou de
lacionado a todo um sistema de crenças determinado por uma uma expedição de comércio. Poderia ser também umá brin
necessidade cultural de unificação com o Deus vivo. cadeira de criança. Como um simples processo tecnológico,
fazer fogo tem também sua tradição de conhecimento, perícia,
e em muitos casos de cooperação organizada. Se fôssemos
estudá-lo ou como uma função manual, ou no processo de
ti-adicional continuidade da função, teríamos também de rela
cioná-lo a um grupo organizado de pessoas ligadas à trans
missão dêste^tipo de atividade.
Um implemento de nôvo tem um fim, uma técnica e
pode sempre ser referido ao grupo organizado, à família, ao
clã, ou à tribo, dentro do qual a técnica é cultivada e con
substanciada numa enunciação de preceitos técnicos. Uma
palavra, ou tipos de palavras, tais como uma terminologia de
parentesco, as expressões sociológicas para pôsto, autoridade
e processo legal, têm também sua matriz de organização, de
154 155
■v |\ equipamento organizado e de fim elementar, sem o qual grupo CAPÍTULO VI
algum é orgánizado.i| Fôssemos tomar qualquer costume, ou
rj)seia, forma padronizada de comportamento, êle seria um
ofício especializado, um modo de comportamento organizado
em comer, dormir, transportar ou caçar, ou até podia expres
sar diretamente ou simbòlicamente uma atitude sociológica.
Em qualquer caso, isso se enquadra sempre num sistema
organizado de atividades. Eu desafiaria o leitor a mencionar
qualquer objeto, atividade, símbolo ou tipo de organização A Estrutura de Uma Instituição
que não pudesse ser colocado dentro de uma instituição ou
de outra, embora alguns objetos pertençam a várias institui
ções, desempenhando papeis específicos em cada uma delas.

i ARA ser concreto, devo em primeiro lugar dizer que é pos


sível elaborar uma lista de tipos. Assim, por exemplo, a
família, um grupo ampliado de parentesco, um clã ou uma
metade, constitui um tipo. Estão todos ligados pelos modos
_estatuídos e legalizados da reprodução humana. O estatuto' ,
sempre corresponde a um desejo, a uma série de motivos, a
um fini comum, consubstanciado na tradição ou concedido
pela autoridade tradicional. No casamento o estatuto, ou seja,
o corpo de preceitos constitucionais, consiste na lei de casa
mento e descendência, ambos intrinsecamente relacionados.
Todos os princípios pelos quais se define a legitimidade
da prole, a constituição da família, isto é, o grupo repro
dutivo direto enunciando as normas específicas de coope
ração — tudo isso constitui o estatuto da família. O estatuto
V. 6,
yaria_de_j:omunidade para comunidade, mas é uma peça de
conhecimento que pode ser obtida em pesquisa-de-campo e
que define a"^instituição doméstica em cada cultura. Indepen
dente de tal sistema de preceitos fundamentais ou cons-,
titucionais, devemos ainda conhecer melhor o pessoal, ou seja,
os membros do grupo, a sede da autoridade e a definição das
fimções dentro do lar. As regras específicas, tecnológicas e
legais, a. economia e a rotina de trabalho, são outros fatôres
?. constituintes a serém estudados pelo pesquisador-de-campo.
/A vida de família, contudo, se centra em tômo da lareira
doméstica, é fisicamente determinada pelo tipo de moradia,
os utensílios domésticos, móveis, e também os objetos sagra-
156 157

V--
dos de qualquer culto religioso ou mágico executado pelos que amalgamam o grupo numa unidade crescida de seu solo.
moradores da casa, como um grupo. Temos aqui, por conse Numa forma ligeiramente burlesca, tal estatuto foi refabri-
guinte, elementos com estatutos, pessoal, normas de coopera cadò na doutrina de Blut und Boden do moderno nazismo.
ção e conduta e meio ambiente. Reunidos estes elementos, O grupo local tem também seu pessoal, com uma autori
temos ainda de obter uma definição total concreta da vida dade central mais ou menos desenvolvida, com diferenciações
dentro de uma moradia, com sua variação sazonal, sua rotina . ou reivindicações parciais de posse individual da terra, e dè
de dia e noite, eítambém a plena consideração dos desvios divisões na função comunal, ou seja, serviços prestados e
reais das normas.l privilégios reivindicados. Tôdas as regras detalhadas de posse'
Numa comunidade em que existem, além da família no de terra, as normas costumeiras de empreendimento comunal,
sentido mais estreito, um ou mais tipos de grupo ampliado a definição de movimentos sazonais, especialmente no tocante
de parentesco, a análise no campo e em teoria ao"longo das a reuniões ocasionais da municipahdade como um todo, cons
mesmas linhas mostraria que tal grupo tem também seu esta tituem os preceitos que definem o aspecto normativo desta
tuto no direito consuetudinário de um lar ampliado. Tem suas instituição. O território, os edifícios, as utilidades públicas,
regras de toma-lá-dá-cá entre os membros componentes, tem tais como caminhos, fonte, cursos de água, constituem o subs-
um pessoal ampliado, e o substrato material de um anexo, resi ti-ato material dêste grupo. O princípio territorial podia servir
dência espacialmente contígua, cêrca conjunta, lareira comum como uma base para unidades ainda mais amplas, ou provin
simbólica, moradia principal ou dependências, e também certos ciais, nas quais várias municipahdades são unidas. No caso,
objetos usados em comum, em oposição aos pertencentes às também, eu sugeriria ao pesquisador-de-campo que tivesse
famílias componentes. de investigar a existência de um estatuto tradicional, ou seja,
a faison aêtre e antecedentes históricos de um tal agrupa
O estatuto de um clã é determinado na mitologia de um mento. Teria de descrever o seu pessoal, a lei costumeira que
ancestral comum, na ênfase unilateral sôbre uma filiação de governa as atividades de um tal grupo provincial ou regional,
parentesco ampliada. e a maneira por que êles controlam seu território e riqueza
Em tôdas as partes do mundo encontraremos também e os implementos de sua cooperação, quer êstes sejam armas,
agrupamentos municipais. Quer lidemos com uma horda nô objetos de culto ou símbolos.
made, ou trai grupo local de aborígines australianos, gente de A tribo é, òbviamente, a unidade a que chegamos ao
Andamão, californianos ou homens da Terra do Fogo, veri- estender nosso progresso territorial para modos de organiza
" ficaremos que as pessoas que vivem contiguamente tem pre ção sempre mais dilatados e atividades cooperativas. No
tensões exàusivistas a uma'porção definida de território, e caso, todavia, acredito que êste conceito tem sido usado com
executam conjuntamente uma série de atividades nas quais uma ambigüidade e confusão de princípio de algum modo
a cooperação direta, de homem para homem, é indispensável prejuchcial a uma terminologia etnográfica. Sugiro que deve
e tende a tornar-se organizada. Por mais rudimentar que ser feita uma distinção entre a tribo, no sentido cultural da
seja tal organização, ela imphca uma declaração da reivindica palavra, e a tribo como uma unidade politicamente organí-
ção do grupo a suas terras. A isso muito freqüentemente
se associam reivindicações mitológicas e religiosas bem como ^unuicada
^ tribo como
consiste o mais
de um amplo
grupo portadorquedetêm
de pessoas umaa cultura
mesma
as rigorosamentes legais. No estatuto, por conseguinte, entra tradição, mesmo direito consuetudinário e as mesmas técnicas,
a definição dos direitos individuais à cidadania municipal, à e Igualmente mesma organização de grupos menores, tais como
reivindicação de um grupo como um todo a suas terras e a amilia, a municipalidade, a corporação ocupacional ou a
tôda uma série de tradições históricas, lendárias e mitológicas equipe econômica. O ínc^ice mais caraterístico de unidade tri-

158 159
bal parece-me a comunhão de linguagem, pois uma tradição mais velhos, assim como métodos de policiar e fôrça militar.
commn de habilidades e conhecimento, de costumes e crenças, No caso, também, a questão de economia tribal, tributação,
apenas pode ser levada avante conjuntamente por pessoas que tesouro e o financiamento de empreendimentos tribais entra
usam a mesma língua. As atividades cooperativas, no sentido riam em foco. No tocante ao substrato material, de que
lato da palavra, são novamente possíveis somente entre pessoas a nacionalidade sòmente pode ser definida em têrmos do
que se podem comunicar umas com as outras por meio da caráter diferencial dêste substrato, na medida em que êle
linguagem. separa uma cultura de tôdas as outras. Na tribo-Estado o
Uma tribo-nação, como proponho designar esta institui território politicamente controlado, as armas de defesa e agres
ção, necessàriamente não é organizada politicamente. A orga são, assim como a riqueza tribal acumulada e usada em comum
nização política implica sempre uma autoridade central com para o controle político, militar e administrativo, também
poder para administrar seus súditos, isto é, para coordenar as entrariam no quadro.
atividades dos grupos componentes; e, quando dizemos ^ Seguindo uma linha de investigação divorciada do prin
poder, pressupomos o uso da força, tanto física como espi cipio territorial, poderíamos incluir em nossa lista de institui
ritual. Penso que a tribo, no segundo sentido da palavra, o ções quaisquer agrupamentos organizados e cristalizados por
mais amplo agrupamento político ou a tribo-Estado, não é sexo e idade. No caso, obviamente, não incluiríamos institui
idêntico à tribo-nação. Concordo plenamente com os resul ções como a família, onde os sexos se complementam e coope
tados da análise do Professor Lowie, no seu livro sôbre a ram, mas instituições como os chamados agrupamentos de
origem do Estado, em que os agrupamentos políticos estão sexo totemico, graus diferenciais de idade e campos de
ausentes entre as cultruas mais primitivas conhecidas pela miciaçao organizada para mulheres e homens, respectivLente
observação etnográfica. Os agrupamentos culturais, contudo, Quando temos um sistema de graus de idade referente
estão presentes. apenas aos homens de uma comunidade podemos dizer que
O estatuto de uma tribo-nação pode sempre ser eneon-
tanto o sexo como a idade entram como princípios diferen
ciais e sao unilateralmente institucionahzados. Duvido que
trado nas tradições ligadas às origens de um determinado
povo e que definem suas realizações culturais em termos de
^guém enconü-asse dificuldade em definir o estatuto ou nor
mas e aparelhagem material abrangidos no caso. As associa
ação heróica ancestral. As lendas históricas, as tradições ge-
nealógicas e as explicações históricas utilizadas para justificar ções masculinas, isto é, sociedades secretas, clubes, casJ de
as diferenças entre ,sua própria cultura e a dos vizinhos en
soltemos e semelhantes podem ser incluídas no conceito de
trariam nisso, também. O' estatuto da tribo-Estado, por outro
lado, é o da constituição não-escrita, mas nunca ausente, de
um SS agrupamentos tem e lembrar
também seu estatutoque ead:e
legal
autoridade, poder, hierarquia e chefia. O pessoal de um grupo
cultural se ocupa de problemas de estratificação ou sua au
rSSmLT
LSSaX r,. •'T"'!'"'?*""'"' «
'J" seu pâsoal
™ possii umae
sência, de hierarquia, dos graus de idade através da cultura 1
alguma material, um
aparelhagem lugar de
específica reunião,
ritual alguma riqueza
e instrumental^
e òbviamente, também, de sua subdivisão regional. Quando
a subdivisão regional difere sensivelmente na cultura e na ampla™classe^^r.®^^° instituições pode ser incluído numa
linguagem, podemos deparar com o dilema de tratar com
nma federação, no sentido cultural, de subdivisões cul 3LnS
tínosT
ofv'á ™tular de ocupacional ou
«speetos da cultura, isto é, os vários
turais autônomas. Não há dificuldade em compreender eomo tração de i educação, economia, adminis-
se constitui uma tribo-Estado. Isto encerra, evidentemente,
as questões de uma autoridade eentral, chefia, conselho dos
não ser consúb^^^^ mágica
consubstanciados em einstituições.
adoração religiosa podemevo-
O prindpio ou
n
160 161
V

lucionário aqui não pode ser dispensado da teoria funcional. CAPITULO VII
Pois não há dúvida que no curso do desenvolvimento humano
as necessidades de organização econômica, educação, magia
ou serviços legais tem sido cada vez mais satisfeitas por
sistemas especializados de atividades. Cada grupo de espe
cialistas se torna cada vez mais intimamente organizado em
profissão. Não obstante, a questão de descobrir o tipo mais
antigo de grupos ocupacionais é fascinante, não apenas para O Conceito de Função
o estudioso interessado em amplos esquemas de evolução,
mas também para o pesquisador-de-campo e o estudioso de
confrontos. Alguns antropólogos discordariam de que em
magia e religião, ou em certas habilidades técnicas e tipos
de empreendimento econômico, vemos grupos organizados
trabalhando, cada um com o seu estatuto tradicional, isto
Acredito que o conceito pode e deve ser enquadrado em
nossa análise institucional./ A função da família é fornecer
é, a definição de como e por que estão qualificados para çida^o_s^comunidad^{_^A
cooperar; cada um com alguma forma da liderança técnica a família prodiíz~^ole legitima, que deve ser nutrida, receber
ou mística na divisão de funções; cada um com suas normas rudimentos de educação e mais tarde equipada com bens
de comportamento e cada um, naturalmente, manejando a materiais e com uma posição tribal adequada. A combina
aparelhagem específica necessária. ção da coabitação moralmente aprovada - não sòmente no'
que se relaciona ao sexo, mas também à companhia e pater-
nidade - com a lei de descendência, ou seja, o estatuto da
mstitoção, com suas plenas conseqüências sociais e culturais
nos dá aqui a definição integral dessa, instituição.
^ Eu definiria ^a função da família' ampliada em têrmos
e uma exploração mais efetiva dos recursos comunais, do
fortalecmento de contrôle legal dentro de uma unidade de
comunidade estreita e bem disciplinada, e em muitos casos
- uma influencia política aumentada, ou seja, maior segu-
nça e eficiência, de unidades locais bem disciplinadas. A
de"?,^ de parentesco em clã pareceu-me ser estabelecimento
adicionais em corte transversal por'
e fornecendo um nôvo princípio de •
'^®^iP^°cidade econômica e exercício de ati-
aumÍL ® religiosas. Em suma, o sistema de clã
üma tolero
uma tribo-naçao dos vínculos
e possibihta umapessoais que unem
troca muito mais tôda
am-
numa^cuf^ro"^' ^ mercadorias do que seria possível
ampliadas Pe grupos de vizinhança.
cr "''Sanizada A função
simplesmente na basedademunieipa-^
famílias //
162
-163
lidade eu a vejo na organização de serviços públicos e explo Gostaria em primeiro lugar de dizer que, no caso, nao
rações conjuntas de recursos territoriais, na medida em que sou muito dogmático. Parece-me antes que o conceito de
isto tem de ser executado por cooperação, mas dentro do função neste sentido, ou seja, como uma contribuição para
limite de acessibilidade rotineira. uma contextura social mais unida, para uma distribuição de
serviços e mercadorias mais ampla e penetrante como de
As divisões sexuais organizadas dentro da tribo, assim idéias e crenças, podia ser útil como uma reorientação de
,ÍN
como os grupos de idade, favorecem os interesses diferenciais pesquisas ao longo das linhas de vitalidade e utilidade cul
de grupos humanos, definidos fisicamente. Se tentarmos turais de certos fenômenos sociais. Acredito também que
compreender as condições primitivas pelo que está aconte na evolução cultural poderíamos introduzir o conceito de lu
cendo em nossa própria sociedade, vemos que ser um homem ta pela manutenção, não de organismos individuais nem ainda
ou uma mulher, respectivamente, acarreta certas vantagens de grupos humanos, mas antes de formas culturais. IsSo
naturais e também certas desvantagens, e que uma comunidade também seria útil commum princípio de avaliação de opor
em que os sexos combinam podia ser mais capaz de expio- qJ tunidades de difusão, f Assim, sugíro__Q—conceito de função
^7 rar as vantagens e compensar as deficiências entre os dois^ com referência a certos grupos institucionais amplos, sepa-
l^egmentos naturais. O mesmo é válido quanto à idade. Os'^^ rados, fundamentalmente como um artifício heurísticoit
, graus de idade definem o papel, as potencialidades e o tipò-^w ^
gj de serviços melhor prestados em cada grau, e propor- ^ ^
cionam recompensa em têrmos de posição e poder. Há pouco
a se dizer a respeito da função de cada grupo profissional
Define-se em têrmos de serviço específico e recompensa
adequada. No caso, novamente, o antropólogo que inclui a
selvajaria contemporânea no seu interêsse pelos povos pri
mitivos pode ver as mesmas forças globais operando na união
de pessoas que prestam os mesmos serviços, partilham dos
mesmos interêsses e procuram a mesma recompensa costu
meira, quer no espírito conservador dos primitivos ou com
a disposição de ânimo competitiva da nossa sociedade revo
lucionária atual.
Êsse tipo de_análise funcional está fàcilmente suieito_à
acusação de tautologia e vulgaridade assim como à crítica
de que representa uin círculo lógico, pois, óbviainente^e
definimos.Junção como a satisfação 'dènam:a"~necessidade, é
fáçíiTsSpeitar que a neoessidade a ser satisfeita aprèseh-
^â^fim ~de atender_à_neçessidade_ dê"safisfázer unia função.
Axsim7™por"èxen^o, os elãs são um tipo adicional, pode-se
dizer, supererrogatório, ou supérfluo, de diferenciação in
terna. Podemos falar de uma legítima necessidade de tal
diferenciação, especialmente quando esta não está sempre
presente, pois nem tôdas as comunidades têm clãs, e passam
muito bem sem êles.
165
164
CAPÍTULO VIII de abrigo, permanente ou temporário, de fogo, para proteção
ou pai-a aquecer, de vestuário ou cobertas, toma-se depen
dente desses elementos do ambiente, de sua produção espe
cializada e uso, e da cooperação que pode ser necessária na
manipulação do material.
Um nôvo tipo de necessidade, intimamente ligado a uma
necessidade biológica e dependente dela, mas implicando ob
viamente novos tipos de deteiminismo, surge com o início
A Teoria das Necessidades . de qualquer atividade cultural. O animal que passa da nutri
ção obtida diretamente do contato ambiente para o alimento
colhido, conservado e preparado, morrerá de inanição se em
qualquer fase o processo cultural fôr interrompido. Novas
necessidades de caráter econômico têm de ser registradas lado
O (XiNCErrOj contudo, recebe o seu apoio mais forte de a lado com a necessidade puramente biológica de nutrição.
outro tipo de consideração. Se pudermos chegar à ^timativa Tão logo a satisfação, dos impulsos sexuais se transforma em
do que são as várias necessidades, quais as fundamentais coabitação permanente, a criação de filhos resulta num lar
e quais as contingentes, como se relacionam e como surgem permanente, novas condições são impostas, cada uma delas
necessidades culturais contingentes, poderíamos chegar a uma tão necessária à preservação do grupo como ó qualquer fase
definição mais completa e mais prepisa de função e mostrar do processo puramente biológico.
a importância real dêste conceito, i, Gostaria de sugerir que^ Fôssemos nós estudar qualquer comunidade, mais ou me
devemos buscar nossa posição em dbis axiomas: em prrmeiro nos primitiva, ou mesmo completamente civilizada, verifica
luffar, que cada cultura deve satisfazer o sistema_bíol6giC-0-de ríamos que em tôdã parte existe um aprovisionamento tribal
necêíidaHêsrfãirTõmo as ditad^ppr metabolismo,-J.epxo- determinado principalmente pelas necessidades de nutrição do
dimãõTãrõmdições fisiológicas_JeJempqratura,_pr^ç.^ metabolismo humano, mas por si mesmo criando novas neces
umidade, vento e o impacto direto de forças p^judícíaLS_de_ c sidades tecnológicas, econômicas, legais e até mágicas, reli
climã^^iTéní^,"ségüran^ça_cpntra_animais_ou-sêresJiumanos_ (-V-.
giosas ou éticas. E novamente, uma vez que a reprodução na
pp.rignso.s.~rêp5u^ ocasional, o exercício do_,sistema_muscular— espécie humana não ocorre por simples acasalamento, porque
G V está
eHe^õsõIéínrmovimento-e-a-regulação-do-Greseimento. O vinculada à necessidade de prolongada proteção da prole,
"^r> segundo^ axioma na" qiência da cultura é que cada realizaçao ^^sua educação e o primeiro adestramento para cidadania, ela
cultural que implica o uso de artefatos e simbolismo e uma ■=v impõe tôBã uma série de determinantes adicionais, ou seja,
intensificação instrumental da anatomia humaim e se relaciona necessidades, \que são satisfeitas por uma côrte regulada, por
direta ou indiretamente à satisfação de uma necessidade cor tabus de incesto e exogamia, por disposições preferenciais de
casamento; e no tocante a paternidade e parentesco, por um
poral. Se fôssemos começar com uma consideração evolu- sistema de grau de descendência, com tudo o que isto im
cionária, poderíamos mostrar que tão logo a anatomia humana plica relações cooperativas, legais e óticas. As condições
é suplementada por um bordão ou uma pedra, uma chama mínimas de sobrevivência corporal, no que respeita às incle-
ou um agasalho para cobrir, o uso de tais artefatos, ferra mências do tempo, são novamente satisfeitas por vestuário e
mentas e artigos- não somente satisfaz uma necessidade cor habitação. A necessidade de segurança orienta disposições
poral, mas também cria necessidades derivadas. O organismo físicas dentro da casa, assim como dentro dos povoados hu-
animal que cria uma modificação de temperatura pelo uso
167
166
manos como um todo, e também a organização de grupos de
vizinhança. - ^contribuindo para a estabilidade de grupos sociais e para o
sentido de que os esforços humanos não são tão limitados
Se fôssemos enumerar em resumo os imperativos deri quanto mostra a experiência puramente racional. As idéias
vados impostos pela satisfação cultural de necessidades bio que afirmam, por um lado, que o homem pode controlar al
lógicas, veríamos que a constante renovação de aparelhagem guns elementos do caso e que, por outro, subentendem que
é uma necessidade para a qual o sistema econômico de uma na própria natureza há uma resposta benevolente ou vingativa
tribo é uma resposta. E de nôvo, a cooperação humana im às atividades hmnanas, contêm os germes do mais superior
plica normas de conduta sancionadas por autoridade, fôrça mente desenvolvido dos conceitos, tal côiriõ o da Providência,
Ç física, ou contrato social. Aqui temos a resposta de vários um sentido moral na criação, e o objetivo da existêneia hu
\ sistemas de contrôle, primitivos ou adiantados. A renovação mana. A explicação funcional de artep-recreação e cerimo
^ do pessoal humano em cada instituição componente e no grupo niais públicas podia ter de referir-se a reações-diretamente
\ cultural como um todo implica não apenas a reprodução, físicas do organismo ao ritmo, som, côr, linha e formá,- e a
} inas também o sistema de educação. A organização de habilidades manuais e perfeição em tecnologia, e as ligaria
força e compulsão em apoio de autoridade e defesa é .fun- ao misticismo religioso e mágico.
cionahnente relacionada à organização política dentro de tôda l
instituição e também, mais tarde, em agrupamentos específi-
,cos, os quais temos definido como unidades políticas, ou o
protótipo do Estado político.
Além disso, penso que teremos de admitir que a partir do
começo da cultura sua transmissão por meio de princípios
gerais simbolicamente emoldurados era uma necessidade. O
conhecimento, em parte encarnado em habilidades manuais,
mas também formulado e centrado em certos princípios e de
finições referentes a processos tecnológicos materiais, tem tam
bém uma remota causalidade pragmática ou instrumental, um
fator que não podia estar ausente mesmo nas manifestações^
culturais mais antigas. A magia e a religião podem ser, na
minha opinião, inte];pretadas funcionalmente como os comple
mentos indispensáveis aos sistemas de pensamento e tradição
puramente racionais e empríricos. O uso de linguagem com
reflexos sôbre o passado, que é caraterístico de todo pensa
mento sistemático, teria cedo chamado a atenção dos seres
humanos para a incerteza de suas profecias puramente inte
lectuais. A transposição dos hiatos em conhecimento humano
e a cercadura das grandes lacunas na apreciação do destino e
da sorte levaram o homem à afirmação das fôrças sobrenatu
rais. A sobrevivência depois da morte é provàvelmente uma
das mais antigas hipóteses místicas, relacionada talvez a al
gum profundo anseio biológico do organismo, mas certamente
168
169
Tf

CAPITULO IX y

pretende antes de tudo equipar o pesquisador-de-campo com


uma perspectiva clara e instruções completas no tocante ao
I »1 ■ ^ observar e como registrar as observações.
: T" O funcionalismo, eu gostaria de declarar enfàticamente,
^ não é hostil ao estudo de distribuição nem à reconstrução'
Ln,^^db passado em termos de evolução, históriajiu_difusãm
C onclusões apenas insiste em que se não definirmo^'^ fenômênõTTbul-
, turais em função como em forma, poderemos ser ievadós a
Jl^j^esquemas evolucionários tão fantásticos como os de Morgan
i Bachofen ou Engels, ou ao tratamento fragmentário de itens
isolados, tais como os de Frazer, Briffault e até Westermarck.
Alem disso, se o estudioso de distribuições cartografa simi
Q. _ UALQUER pessoa perceberá claramente que considero este
ensaio como um simples esbôço experimental. Ainda precisa- /
laridades fictícias e irreais, seu trabalho terá sido perdido.
O funcionalismo insiste definitivamente em que, como uma
mos uma resposta mais completa e mais concreta à pergunta j>/ análise preliminar de cultura, tem sua validade fundamental e
de se os fenômenos culturais podem ser estudados na medida equipa o antropologo com os únicos critérios válidos de iden
em que se integram em unidades naturais de atividades or tificação cultural. "
ganizadas. Penso que o conceito de instituição, com uma
definida aparelhagem de sua estrutura, com uma lista com
pleta de seus principais tipos, fornece a melhor resposta à
pergunta.
A teoria de necessidades e sua derivação nos dá uma aná
lise mais definitivamente funcional da relação entre deter
minismo biológico, fisiológico e cultural. Não tenho certeza
de que minha resumida indicação do que é a função de cada
tipo de instituição seja definitiva. Creio, porém, que pude
correlacionar funcionalmente vários tipos de reações culturaisj
tais como as econômicas, legais, educacionais, científicas, má
gicas e religiosas, ao sistema de necessidades —'biológicas,
derivadas e integrativas.
A teoria funcional, como apresentada aqui, pretende cons
tituir-se em condição prévia indispensável para pesquisa-de-
campo e para a análise comparativa de fenômenos em várias
culturas. Ela e capaz de produzir mna análise concreta de
cultura em instituições e seus aspectos. Se se imagina um
pesquisador-de-campo equipado com tais mapas orientadores,
verificar-se-á que eles lhe podem ser de ajuda para isolar,
assim como para correlacionar, os fenômenos observados. Ela

17.0
171

L
SIR JAMES GEORGE FRAZER
UM ESTUDO BIOGRÁFICO
f

Sm JAMES GEORGE FRAZER:


UM ESTUDO BIOGRÁFICO

Introdução

A MORTE de James George Frazer, a 7 de maio de 1941, sim


boliza o fim de uma época. Frazer foi o último sobrevivente
da Antropologia britânica clássica. Representava melhor do
que qualquer dos nossos contemporâneos aquela tendência,
no humanismo, que procurou inspiração no estudo compara
tivo do homem para a compreensão das culturas grega, latina
e oriental da antigüidade. Seu nome será talvez o último na
hsta dos grandes humanistas e eruditos clássicos. Anatole
France o comparou com Montesquieu: uma comparação não
desproporcionada, embora talvez fora de foco. No mesmo
sentido de algum modo obKquo, poderíamos compará-lo a
Jonathan "Swift ou a Francis Bacon, ou até a Sir Thomas
More. Ele, por certo, estava na linha de sucessão direta de
homens tais como Tylor e Lord Avebury, Herder e Lessing
Winckelmann e Renan.
Frazer criou-se, desenvolveu-se e trabalhou numa época
em que a erudição ainda era possível no sentido de um estu
do despreocupado pelo saber e letras não-utilitários. Seu
conhecimento era vasto e universal. Podia discutir Física com
d 101o^a
• e outros Maxwell
ramos deeCiência
J. J. Thompson; conheciaensaios
Natural; escreveu muito
d poesia à maneira de Addison e Lamb. Lia o seu Homero em
grdgo,_ seu Ovídio e Virgílio em latim, e a sua Bíblia em
ramaico. A primeira parte de sua vida passou-a no Trinity
175
College, Cambridge, que amou e onde se formou. O College GAPITULO I
era ainda a cidadela da erudição para um Professor, embora,
para o inglês, sua sede fôsse um castelo. A I Guerra Mundial,
durante a qual Frazer estava ampliando o seu Golden Bough
para a edição definitiva em doze volumes, desferiu um golpe
mortal na erudição, no humanismo e belles lettres. A II Guen-a
Mundial, à qual Frazer não sobreviveria, promete eliminar
o erudito, assim como o gentleman, da nossa civilização.

O PttTüdoxo dü PBTsotiülidüdB & da Ohvci dc Ftuzbt

.Como homem, Frazer não era fácil de compreender: de


algumas maneiras era decepcionante, cheio de contradições
e paradoxais viravoltas de personalidade. A despeito de mas
perspectivas e interesses amplos, êle podia ser lünitado e in
tolerante em opiniões teóricas e preconceitos gerais. Sempre
pronto a rever suas opiniões se estas fossem contraditadas
por provas concretas, nunca pôde tolerar contradita pessoal
ou mesmo participar de um debate. Apaixonadamente devo-
tado a tudo o que'era estranho, incomum e exótico na huma
nidade, fàcilmente se confundia ao encontrar um estranho e
tinha gran^ dificuldade em ajustar-se a contatos pessoais in-
comuns.^ Essencialmente humilde, modesto, recatado êle
ranseguiu as mais elevadas honrarias e distinções formais ao
alcance de um homem em sua posição.
darli""^ grande parte devida às ativi-
sua L
carreira social. Pessoalmente, Frazer ^desprezava
administração de
e detes-
ava a luz das gambiarras e o fulgor da aclamação pública,
que ele suportava de má vontade, mas com resignação. A
palavra de Lady Frazer era a última palavra. Aquêles entre
nos que chegaram a conhecer a capaz, enérgica, embora de
certo modo temível companheira de Frazer pela vida inteira
tornaram-se tão dedicados a ela quanto a êle. Pondo de parte
as condecorações, títulos e graus honoríficos, ela também
cooperava com êle, fêz traduzir os seus livros, e administrava
176 12
177
por êle sua imensa correspondência e suas relações com outros Frazer evitou de modo absoluto a coritrovérsia e discus
gjuciitos. Com tudo isto, Lady Frazex era indubitàvelmente são pública. A análise tipicamente tendenciosa que Andrew
um elemento desorientador para a maioria dos amigos ^ de Lang fêz de The Golden Bough, na qual as teorias de Frazer fo
Frazer assim como para a sua posição no mundo acadêmico. ram ridicularizadas como "vegetais" ou como escola "Covent
Garden" de Antropologia, perturbou e irritou Frazer tão pro
Conheci Frazèr durante os últimos trinta e um anos de fundamente que, conforme êle me disse, teve de interromper
sua vida. Pude acompanhar muitas de suas relações pessoais sua obra sobre a matéria por vários meses. Depois desta
com colegas antropólogos. Tentei compreender seus métodos experiência Frazer jamais leu críticas contrárias ou comen
de abordagem dos problemas, ou de lidar com provas, e de tários de seus livros.
elaborar seus pensamentos e teorias. Sei que através de seus Por conseguinte, Frazer não era um pedagogo no sentido
contatos pessoais assim como de sua obra ele inspirou a rigoroso da palavra; não era capaz, dialèticamente, de desen
muitos, talvez a maioria dos modernos pensadores e escritores volver argumentações claras e defendê-las numa controvérsia.
em matéria antropológica, em ciência social e humanismo. Poucas de suas contribuições puramente teóricas podem ser
Ainda assim êle tinha grande dificuldade em dominar um aceitas como estão. Ainda assim, Frazer foi um dos maiores
problema numa conversação pessoal. O grande humanista era professores e mestres do mundo.
raramente capaz de se adaptar a comunicação humana, na
maneira comum de dar e receber de um verdadeiro professor. Durante o último meio século, mais ou menos, a pesquisa-
Era sempre necessário aguardar os momentos inspirados na de-campo etnográfica tem estado sob o feitiço das sugestões
sua conversação, quando ele podia improvisar belos trechos de Frazer. A obra de Fison e Howitt, assim como as de
de prosa, tão belos quanto os que encontramos em suas Spencer e Gillen, na Austrália; a famosa Expedição Gam-
obras. Seu genuíno interêsse pelos novos fatos descobertos bridge aos Estreitos de Torres, chefiada por A. Haddon
em pesquisa-de-campo, e sua capacidade de estimular o pes- em colaboração com W. H. R. Rivers, G. G. Sehgman e
quisador-de-campo, através da correspondência, são bastante G. S. Myers; a obra africana de Junod, Rosooe, Smith e
conhecidos. As cartas que recebi de Frazer durante minha Dale, Torday e Rattray — para mencionar apenas uns poucos
permanência na Nova Guine 0 na Melanésia ajudaram-me nomes notáveis — foram executadas sob a orientação espi
mais por sugestão, manifestações de dúvida e comentários do ritual de Frazer.
que qualquer outra influência. Já mencionamos Sigmund Freud, que, voltando-se para
Era um orador de poucos recursos e um conferencista frio. as provas antropológicas, tomou-as de Frazer. As primeiras
Tinha acentuado nervosismo diante da assistência e preferia e duradouras contribuições da Escola Francesa, sob a hde-
ler suas conferências a proferi-las eodempore. Em sua obra rança da figura ^dominante e dominadora de Durkheim, e
escrita, moldou opiniões de contornos nítidos e evidenciou for executadas por Hubert e Mauss, Lévy-Bruhl, Bouglé e Van
tes preconceitos. Rejeitou, por exemplo, a Psicanálise e tudo Gennep, são inimagináveis sem â inspiração e as realizações
o que ela significava. Nunca pôde ser convencido a ler coisa de Frazer. Na Alemanha, Wundt, Thurnwald, K. T. Preuss
alguma de Freud ou de sua escola, a despeito de serem as construíram sôbre os ahcerces de Frazer. Na Inglaterra, auto
contribuições antropológicas de Freud baseadas em Frazer. res como Westermarek e Crawley, Gilhert Muiray e Jane
Embora fôsse um admirador e diseipulo de Robertson Smith, Harrison, Sidney Hartland e Andrew Lang, tomaram de
nunca chegou a apreciar completamente a escola sociológica Frazer as suas deixas e orientações — quer concordassem ou
francesa de Durkheim, que aperfeiçoou a abordagem de Ro discordassem delas. A figura luminosa e estimulante de R.
bertson Smith à religião. R. Marett, de Oxford, é a projeção das teorias de Frazer num

178 179
plano mais sutil, mais analítico, porém menos original e De sua qualidade científica lhe veio a percepção em
menos amplo. Recentemente E. O. James ainda continua a pírica. Isto o levou — freqüentemente depois que havia for
tradição de Prazer em suas excelentes contribuições para mulado uma teoria insípida — a polir a literatura etnográfica
a nossa compreensão dos problemas atuais por meio da e a extrair dela provas que muitas vêzes aniquilavam com
análise antropológica. pletamente suas próprias suposições, mas que nos dão os
Prazer influenciou homens còmo Anatole Prance, Berg- fatos e as verdades de magia e religião, de parentesco ou
son, Amold Toynbee e O. Spengler. Prazer, mais do que totemismo na perspectiva real dentro de seu contexto rele
qualquer outro escritor, colocou ao alcance de muitos pen vante, vivo e palpitante de aspirações, crenças e interêsses
sadores pioneiros em História e Psicologia, em Pilosofia e humanos. Daí o dom sobrenatural de Prazer de transformar
Ética, a prova etnográfica, tornando-a inspiradora. Isto pode erudição pura e cumulativa na maravilhosamente construída
ser verificado quando são enumerados os assuntos com os arquitetura de provas, em que muitas das teorias, mais tarde
quais a Antropologia influenciou ou inspúou outros estudos: formuladas em palavras por outros, estão encarnadas. As
tabu e totemismo, magia e exogamia, formas de religião pri longas litanias de elementos etnográficos maçavam-nos mor
mitiva e desenvolvimento de instituições políticas. Todos talmente na maioria dos escritos da escola clássica evolucio-
êstes assuntos foram tratados em primeira mão, e de maneira nista e comparativa. Transfiguradas por Prazer, tornam o
mais adequada, por Prazer. The Golden Bough vivo e fulgurante, o Totemism and Exo-
gamy interessante e instrutivo, e o FoIMore in the Old
Assim, em sua personalidade, em seus ensinamentos e Testament uma saga antropológica.
seus feitos literários há um toque do paradoxal que emoldura
o grande erudito escocês e sua obra. Sua enorme influência Como visionário. Prazer viveu num mundo para êle
criadora surpreende às vêzes mesmo o seu devotado admi muito real e objetivo. Moldava suas teorias no material
rador quando se depara com uma das ingênuas argumenta plástico da prova coletada através do mundo e por êle mo
ções teóricas do The Gólden Bough ou alguma outra de delada em nôvo feitio, de forma que sem nenhum exagêro
suas obras. Sua incapacidade de convencer contradiz o seu seus fatos demonstram suas opiniões verdadeiras, ainda que
poder de convertei- e inspirar. intuitivas. Isto exphca por que Prazer estava sempre inte
A explicação do paradoxo de Prazer parece-me estar na ressado em pesquisa-de-campo e raramente, se é que acon
teceu alguma vez, em teorias. Êle gostava de acréscimos
combinação específica das qualidades e defeitos de seu in ao seu mundo vivo: o drama da existência humana. De
telecto. Êle não era um dialético, e talvez nem mesmo um
testava que se fizesse qualquer cirurgia a êsse mundo por
pensador analítico. Por outro lado, era dotado de duas crítica teórica. A sátira de Andrew Lang foi para Prazer
grandes qualidades: o poder artístico de criar um mundo não um insulto j^essoal, mas um ataque sacrílego a Vír-
visionário de sua propriedade; e a verdadeira discriminação bio, Osíris e Baldur, o Belo. A teoria de incesto de
intuitiva do cientista entre o que é relevante e o que é su Westermarck foi ferreteada por Prazer um tanto rudemente
pérfluo, o que é fundamental e o que é secundário. como "uma bastarda imitação de ciência". Irritou-o não por
De sua primeira virtude lhe veio o encanto do estilo; que ele. Prazer, foi contraditado, mas porque os seus amados
sua capacidade de transformar os frouxos elos de prova etno selvagens, como os conhecia, teriam considerado uma tal con
gráfica numa narrativa dramática; seu poder de criar visões cepção domesticada de incesto insôssa e insensata. Prazer,
de terras distantes e de culturas exóticas — que aquêles de de certo modo pudico em sua reação à Psicanálise, insistia
entre nós que as visitaram depois de ler Prazer são capaz:es de em que seus povos primitivos deviam ser igualmente pro
melhor apreciar. míscuos e incestuosos. Com uma atitude de preocupação
180 181
CAPÍTULO II
quase matemal, êle se deleitava com suas diabruras e prazeres,
lamentando ao mesmo tempo suas traqumagens.
Não havia jamais coisa alguma de mesquinho Taf^suS
inveioso nas reações pessoais de Frazer a ^ntica nas suas
próprias arremetidas e aversões. Jamais f
Lceramente modesto, tão humilde no
dência e tão completamente mdiferente a elogios ou censuras Posição de Frazer no Desenvolvimento
De tôdas as suas qualidades, é talvez esta genmna devoção da Teoria Etnológica
ao assunto de seus interêsses científicos e artisücos, seu coim
nleto descaso por qualquer promoção pessoal, que fizeram
dêle um dos maiores artistas na moldagem plastica da teoria,
no meio vivo da existência humana primitiva.
F EAZER é O representante de uma época, na Antropologia,
que termina com sua morte. Em tôdas as suas contribuições
diretamente teóricas, foi um evolucionista, interessado no "pri
mitivo",' quei- êste se refira à humanidade em geral, ou a
crenças, costumes e práticas dos "selvagens" contemporâneos.
Trabalha pelo método comparativo, coletando e examinando
provas de tôdas as partes do mundo, em todos os níveis de
'desenvolvimento, e em tôdas as culturas. O método compara
tivo, combinado com a abordagem evolucionária, implica
certas suposições gerais. Os homens são consideravelmente
semelhantes. Êles se aperfeiçoam gradualmente, partindo do
nível primitivo e atravessando várias fases de evolução. A
medida comum em suas ações e seus pensamentos pode ser
descoberta por indução baseada numa vasta investigação de
elementos cotejados. Nisto, o conceito de sobrevivência e
essencial para- o evblucionista. Serve como chave para a com
preensão de continuidade dentro da transformação e como
um elo entre várias etapas. O que era uma forte e flores
cente convicção num nível, torna-se uma superstição na etapa
superior. Formas de casamento e parentesco podem tornar-se
ossificadas nas terminologias e sobreviver como- um uso lin
güístico, muito depois das práticas de casamento em grupo
ou promiscuidade terem cessado. A medida que descemos
os vários níveis de desenvolvimento encontramos acessível
a etapa mais primitiva, ou seja, as "origens" das instituições,
costumes e idéias dos sêres humanos.

183

182
Frazer nunca formulou qualquer definição completa.' de urn\ grupo organizado de pessoas, e que não pode ser com
princípios evolucionários. Não podemos eneontrar na sua obra preendida a menos que tratemos um sistema dogmátieo como
qualquer definição preeisa de conceitos tais como "origens", parte\de uma adoração organizada e de uma tradição coletiva.
"fase", "sobrevivência", nem ainda qualquer esquema que nos
permitisse avaliar como êle imaginava que a evolução se pro Frazer se inclina a relacionar tabu com a "ambição e
cessava, ou quais eram as fôrças motoias do "progresso". avareza de chefes e sacerdotes" que usariam "crenças animistas
Que êle trabalhou com todos êsses conceitos e constantemente para escorar seu poder e acumular sua riqueza". O fato de
utilizou o esquema evolucionário assim como o comparativo ser o tabu apenas uma pequena parte da lei ou costume pri
de explicação, é óbvio para o leitor que examinou atentamente mitivos, e que isso por sua vez não possa ser explicado ou
mesmo umas poucas páginas de qualquer de suas obras. como "superstição" ou como "embuste político ou religioso",
nunca é claramente esclarecido em quaisquer das argumen
Frazer era essencialmente partidário das interpretações tações de Frazer. O tratamento da Economia, arte e epistemo-
psicológicas de crenças e costumes humanos. Sua teoria de logia primitivas no quarto volume de Totemism and Exogamy
magia, eomo resultado de associação de idéias; suas três hipó está sujeito a crítica semelhante.
teses consecutivas acêrca das origens do totemismo em têrmos
de crença em "alma externa", "indução mágica de fertilidadte" Um Frazer inteiramente diferente entra em ação tão logo
e em "encarnação animal" são essencialmente concebidas em terminam os seus tênues comentários de introdução. Êle
têrmos de psieologia individual. Aquêles que conhecem seu aparece então como o cicerone guiando nossos passos nos
tratamento do tabu, dos vários aspectos do totemismo, do desertos da Austrália, entre as florestas tropicais do Ama
desenvolvimento da magia, religião e ciência, compreenderão zonas ou do Orinoco, nas estepes da Ásia. ou nos platôs da
que, do princípio ao fim, Frazer estava, em suas teorias ex África. Seu tratamento real dos fatos é supremamente con-
plícitas, pouco cônscio dos problemas de Psicologia Social. textual; os vários aspectos da cultura humana e das preocupa
Êle é frmdamentahnente hostil, como já foi mencionado, à ções humanas se tornam inter-relacionados; os comentários oca
Psicanálise, ao passo que o behaviorismo não entra no seu sionais e a prova colateral são examinados com real percepção
universo de raciocínio. dos motivos humanos. Não seria difíeil mostrar que Frazer
Embora estivesse sob a influência de Robertson, o pri freqüentemente chega próximo de empreender uma incursão
meiro antropólogo a estabeleeer o pónto-de-vista sociológico psicanalítica nos motivos inconscientes e subconscientes do
no tratamento da religião, Frazer nunca enfrentou comple comportamento humano. A prova disto pode ser vista na
tamente as implicações sociológicas em qualquer de suas argu facilidade com que a êvidência de Frazer foi usada por Freud,
mentações teóricas. Vê-se isto na sua aeeitação da teoria de Rank o Róheim. Em sua capaeidade de interpretar motivo
Morgan sôbre a promiscuidade primitiva e o desenvolvimento e idéia através de ação e função, na sua convicção de que
da instituição do easamento. Frazer nunca se tomou cons os atos podem merecer confiança e as palavras postas em
ciente do fator soeial no folclore e na mitologia. Para êle, dúvida, Frazer é essencialmente um behaviorista no sentido
magia e religião são ainda, fundamentalmente, "filosofias de sociológico da palavra. Êle, certamente tem a tendência
vida e destino", posto que estas podiam ter ocorrido na mente behaviorista de documentar tôdas as interpretações psicoló
de um primitivo, de um selvagem, de um bárbaro ou de um gicas por formas de comportamento.
grego Ou romano antigos. DiRcilmente êle acompanha, em A tendência de Frazer para ver os fatos antropológicos
qualquer de seus comentários teóricos, o princípio de Ro como parte integrante da vida humana em geral, dentro do
bertson Smith de que a religião é uma erença pratieada por contexto da cultura global ou mesmo eontra o pano de fundo
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íT'

da paisagem e do meio ambiente natural, ja aparece, com igual mO de esperança levando o homem ao longo de suas aspi
clareza e beleza, no seu comentário do Pausanias Description rações pela convicção de que o fim desejado será atingido.
of Greece (1898). Ela chega à plena realização no The Vemos no caso que sociològicamente o papel do líder primi
Golden Bough, onde o tratamento de algum modo pouco tivo, o chefe e o rei, não é simplesmente definido por sua
satisfatório de magia é acompanhado de uma serie de quadros, capacidade de explorar a superstição do homem comum. A
nos quais vemos o mágico como chefe e rei sacerdotal, o liderança primitiva é para ser considerada a encarnação da
mágico no seu papel de guardião do solo, líder guerreiro e convicção do homem de que o indivíduo que é perito na
arquiteto da fertilidade humana e natural. administração prática de negócios pode também manipular os
elementos sobrenaturais de acaso e destino. É o valor prag
Leia-se um volume após outro na longa série e encon- mático e intrínseco de magia e religião que faz sua vitalidade
trar-se-á uma enciclopédia de fatos ligados aos problemas da e resistência.
relação dos primitivos com a natureza, organiz^ação política O dom artístico de Frazer, assim como sua compreensão
remota, tabu e outros preceitos legais. A paixão de Frazer científica em realizar uma síntese real de provas etnográficas
por explorar não somente a estrada real, mas também todo.s disseminadas e não-relacionadas, aparecem no que têm de
os atalhos e perspectivas abertas a cada passo, subenteiide e melhor nos seus volumes descritivos de Totemism and Exo-
proclama interpretações teóricas mais completas e mais solides gamy. Frazer descreve crença e ritual totêmicos dentro do
do que as dadas explicitamente pelo autor. Sua discussão contexto da organização social e política de cada tribo. En
da influência do sexo na vegetação contém uma série de idéias contramos um esboço de Economia e organização social, de
que mais tarde foram formuladas pela Psicanálise, mas para conceitos legais e crenças gerais, e às vêzes de atividades
o que os fatos foram coletados por Frazer com certeira intui militares e vida cerimonial. Tudo isto é precedido, como
ção. As proibições e regras de conduta que êle enumera como regra e sempre que possível, por uma pintura da paisagem
í "tabus" contêm grande material para o estudo de jurispru e um relato do meio ambiente no qual vivem os nativos e
dência primitiva. No caso, novamente acompanhando Frazer, do qual êles têm de tirar seu sustento. De muitas maneiras,
percebemos o princípio de que a lei primitiva refere-se a atos, Totemism and Exogamy é mais ou menos a melhor leitura
interêsses, que por um lado se relacionam com preocupações de iniciação para o jovem estudioso de Antropologia porque
humanas vitais — alimento, sexo, posição social, riqueza e, dá um quadro mais fácil, mais atraente e melhor integrado
por outro, necessitam restrições e delimitações, urna vez que de tôda uma série de culturas tribais do que qualquer outro
dizem respeito a um assunto no qual o homem é tentado a livro que eu conheça. Apenas recentemente foi êle igualado
transgredir suas leis costumeiras. pelo Our Primitive Òontemporaries de G. P. Murdock, que
Os volumes que lidam com o ritual agrícola, os deuses e se aproxima na qualidade do estilo e apresentação ao padrão
deusas da fertilidade, e a interpretação mágica e religiosa do de Frazer, e é mais inteligível assim como mais preciso no
tocante a informações.
ciclo anual, contêm uma vez mais uma teoria viva encarnada
na apresentação de fatos. A perspicácia dê Frazer ao vincular Os três volumes sôbre FoJk-lore in the Old Testament e
os últimos trabalhos, de Frazer sôbre imortalidade — The
o ritual com as atividades práticas de produção de alimento
nos dizem sem rodeios que a crença religiosa e magica fun Worship of Nature e The Fear of the Dead — são talvez
cionou sempre como um principio de ordem, de integração menos contextualizados do que os eapítulos descritivos de
e de organização, nos níveis primitivos e mais elevados de Totemism and Exogamy. Ainda assim nêles a mestria de
desenvolvimento humano. Vemos no caso a magia não como Frazer e seu amor pelo global e inteligível fazem as duas
um falso conceito fútil, mas antes como o cristalizado otimis- obras tão instrutivas quanto agradáveis de ler.
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Entre os livros de Sír James Frazer, o pequeno volume pondem a necessidades definidas de vida humana organizada.
intitulado PsycJie's Task e republicado mais tarde como The Ele podia então mostrar, e mostrar convincente e adequada
DeviTs Adoocate, merece especial consideração. De certo mente, por que certas formas de magia e rehgião contribuíram
modo, é talvez a mais ambiciosa e mais original contribuição para a permanência e o desenvolvimento de certos as
de Frazer para a teoria da evolução humana. A idéia funda pectos de atividades humanas pactuadas e dos agrupamentos
mental gira sôbre a relação entre crenças mágicas e religiosas humanos.
e algumas instituições fundamentais da humanidade. Abor Cada um dos quatro capítulos de Psyche's Task, suges
dando governo, propriedade privada, casamento e respeito tivos e estimulantes como são, terminam numa interrogação.
pela vida humana, um após o outro, Frazer mostra como a Depois de discutir as contribuições da magia para o govêrno,
"superstição", muito remotamente, contribuiu para seu esta somos informados de que "muitos povos têm considerado seus
belecimento e desenvolvimento. Ele trata antes de conceitos dirigentes, quer chefes ou reis, com terror supersticioso como
morais do que de idéias científicas. As distinções entre hem sêres de uma categoria superior e dotados de podêres mais
e mal, entre superstição e conliecimMo racional ocorrem na fortes do que o povo comum". Aqui a própria prova de
maioria das argumentações. Diz-nos ainda que "estas institui Frazer mostra, como indicamos, que a autoridade, como espi
ções foram algumas vêzes erguidas sôbre alicerces podres". nha dorsal da ordem e da lei, é indispensável no lar, na muni
Ainda assim, no caso, o senso comum de Frazer o conduz cipalidade, na tribo. O terror supersticioso e o respeito pres
a um embargo — e uma contradição. "...Há uma forte pre tado pelos primitivos a seus chefes é o subproduto da convicção
sunção de que elas (as instituições discutidas) se assentam de que o líder conduz em vii-tude de seu poder, seu conheci
principalmente sôbre algo muito mais sólido do que a supers mento especializado, e sua mana ou santidade.
tição. Nenhuma instituição baseada inteiramente na supers Ao discutir propriedade privada, somos uma vez mais
tição, ou seja, na falsidade, pode ser permanente. Se ela informados de que o mêdo supersticioso age "como motivo po
não corresponde a alguma necessidade humana real, se seus deroso para impedir os homens de roubarem". Todavia,
fundamentos não são assentados, ampla e profundamente, na roubar pressupõe a existência de propriedade privada. Nova
natureza das coisas, ela deve percecer, e quanto mais cedo mente, a propriedade privada, como o direito exclusivo, legal
melhor". A contradição é clara. Dizem-nos num lugar que mente definido, de usar e consumir, respectivamente, ferra
essas instituições às vêzes repousam sôbre alicerces podres; mentas e mercadorias, é essencial, e sem tal princípio haveria
e depois, novamente, que seus alicerces devem ser encontra o caos crônico e a desorganização mesmo nas mais simples
dos num lugar qualquer amplo e profundo na natureza das atividades do homem primitivo. Uma vez estabelecida, a
coisas. A solução é indicada pelo próprio Frazer. Instituições propriedade privada é protegida por crença e magia, assim
tais como o casamento, ou lei, ou propriedade, ou govêrno como por sanções seculares.
"respondem a necessidades humanas reais". Tivesse Frazer O casamento e a família correspondem, em suas origens,
investigado mais completamente a natureza dessas necessi à necessidade cultural de transformar a reprodução fisiológica
dades poderia ter-nos dado, em primeiro lugar, uma teoria numa forma organizada, legalmeqte estabelecida, de vida coo
correta das "origens" reais das instituições humanas e os as perativa. Esta é a origem do casamento. A regulamentação
pectos tais da cultura humana como lei, govêrno, economia e da "imoralidade sexual quer na forma de adultério, fomicação
organização social. Ele teria descoberto que as formas de
organização humana que têm resistido desde as épocas mais ou incesto" é então executada por vários artifícios, sendo um
remotas até os nossos tempos, tais como a família, o paren dêles a crença mágica. Neste capítulo Frazer é envolvido
tesco, o grupo local ou municipalidade, e o Estado, corres- numa complexa teia de' contradições. Como discípulo de

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Morgan, McLennan e Bachofen, êle presume a existência dé CAPITULO III
promiscuidade primitiva. Êle não nos mostra como o casa
mento se desenvolve de seu estado original. Õbviamente,
contudo, e isto nós presumimos, a existência do casamento e
da família formam o começo da cultura humana — uma
suposição agora universalmente aceita pela moderna Antro
pologia — e não podemos sequer investigar as sanções
da antiga moral sexual. Pois sob condições de promiscuidade
ou casamento de grupo essa moral não existiria. Análise Crítica de Algumas Teorias Especiais
No tratamento da lei criminal, outrossim, Frazer tenta mos
trar que "o mêdo de fantasmas, especialmente os fantasmas
dos assassinados" desempenhou um papel importante. Aqui,
novamente, o antropólogo moderno insistiria em que a lei
criminal antiga era uma condição prévia indispensável de A mais conhecida contribuição de Frazer é sua teoria de
sobrevivência dos grupos primitivos. O mêdo de fantasmas magia, na sua relação com a religião e a ciência. A magia,
dos assassinados era o resultado do sentimento de pecado para Frazer, é devida a uma concepção essencial do homem
associado com o assassínio. Como tal, êle provàvelmente se primitivo. Ê a aplicação, ou antes a má aplicação, dos prin
adaptava ao quadro, mas o problema real para um evolucio- cípios de associação de idéias, e sua transposição numa teoria
nista é descobrir como a lei criminal veio a nascer. Então, de processo natural. Os .dois princípios de magia são que o
e somente então, podemos compreender tòdas as crenças que semelhante produz o semelhante, e que as coisas que uma
se agrupam em tômo da transgressão e colocá-las em sua vez tiveram contato entre si continuam a agir uma sobre a
adequada perspectiva. outra à distancia. Frazer designa êstes dois princípios como
Com tudo isto, o verdadeiro problema colocado por Fra os das leis de perspectiva mágica primitiva. "Embora estas
zer nesse volume — a relação entre crença e a organização leis não estejam literalmente formuladas, nem mesmo con
de instituições humanas — é um dêsses que desempenham um cebidas em teoria, pelo selvagem, elas são, não obstante,
grande papel na Antropologia moderna. criadas implicitamente por êle, a fim de regular o curso da
natureza independentementd da vontade humana." O selvagem
também aplica essas leis da natureza depois de as ter des
coberto e assim acredita que é capaz de "manipular à von
tade certas fôrças naturais".
A luz do nosso moderno conhecimento antropológico,
essa teoria de magia, que também é uma teoria de perspectiva
primitiva do mundo, é insustentável. Sabemos agora que a
humanidade primitiva estava cônscia das leis científicas do
processo natural. O fato mais notável a respeito disto, con
tudo, é que Frazer, uma vez mais contradizendo a si mesmo,
formula no fim de The Golden Bough o princípio certo:
...Se sob o nome de ciência pudermos incluir estas simples
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verdades, derivadas da observação da natureza, de que os Mesmo as mais simples técnicas do homem primitivo, sua
homens em todas as eras têm possuído um repertório", então produção de fogo, implementos e moradias, implicam o co
ela deve ter existido desde os começos do tempo. nhecimento do material e o processo de lhe dar forma e
A contradição é real porque tôda a parte da inti-odução uso. São conhecimentos fundamentalmente racionais, porque
ao The Gólden Bough é baseada no caráter essencialmente são adequados. O australiano primitivo conhece o seu meio
mágico da perspectiva primitiva e do comportamento primi ambiente, os hábitos dos animais que caça, as plantas que
tivo. Todavia, do princípio ao fim da apresentação dos fatos, colhe, uma vez que, sem tal conhecimento, êle morreria de
Frazer confirma não a sua insustentável teoria de magia como inanição. Na coleta de alimentos, na caça, na pesca, na pro
o princípio mal aplicado de associação, nem ainda sua teoria dução de armas e utensílios êle é guiado por seu conheci
evolucionista das três etapas, mas a opinião lógica e correta mento, que o faz coordenar raciondmente os esforços con
de que a ciência, a magia e a religião sempre controlaram fases jugados da equipe. O conhecimento, na verdade o conheci
diferentes do comportamento humano. A própria prova de mento cientifico, e sempre o guia original na sua relação com
Frazer demonstra que elas são coexistentes e que diferem em o meio ambiente. Ê o seu esteio firme em todos os negócios
vitais. Sem conhecimento e sem uma rigorosa aderência ao
substância, forma e função. O problema real é definir o que conhecimento, nenhuma cultura poderia sobreviver. Êste é,
elas fazem para o homem e em que se assentam seus funda por conseguinte, a espinha dorsal da cultura, de seu comêço
mentos psicológicos, sociais e pragmáticos. Mergulhe-se em em diante. Socialmente, o conhecimento especializado e
qualquer parte do The Golden Bough e acompanhem-se os es o domínio da técnica estão também na base da liderança e
forços para a produção de alimentos dos primitivos ou cam da proeminencia. O homem que sabe como organizar um
poneses, quer caçando, pescando ou cultivando, e verificar-se-á grupo e dirigi-lo numa caçada, numa viagem, numa mudança
que êles se comportam racionalmente na base de seu conheci de acampamento e numa remota expedição de comércio, é o
mento científico. Estude-se a organização dos australianos, líder natural. Em conseqüência, como já sabemos, o pro
índios ou polinésios, e verificar-se-á que seus costumes e blema do mais antigo govêmo não pode ser resolvido simples
princípios de parentesco e chefia são eficientes, ou seja, ra mente por referencia à magia, religião ou qualquer outra
cionais. Encontrar-se-ão magia e religião ocorrendo apenas superstição . Tem de levar em conta o conhecimento do
com referência a acontecimentos como a chuva e o bom homem, os interêsses pragmáticos do homem e a organização
tempo, a sorte do caçador e do pescador, ou além disso no dêstes numa ação coletiva.
tocmite às questões vitais da vida humana, em que o homem A magia, como a crença- de que por feitiço e ritos podem
pode rezar ou pedir as boas graças de seus deuses, mas fazer ser obtidos resultados, entra como um fator complementar.
muito pouco por seu conhecimento e esforço. Sempre aparece nestas fases da ação humana em que falece
Poderíamos tomar as próprias provas de Frazer e os prin ao homem conhecimento. O homem primitivo não pode ma
cipais esboços de princípio nelas contidos para formular uma nipular o tempo. A experiência lhe ensina que a chuva e o
teoria de conhecimento, magia e religião, fundamentalmente bom tempo, o vento, o calor e o frio não podem ser pro
de acôrdo com o manuseio intuitivo que Frazer faz de seu duzidos por suas próprias mãos, por mais que êle possa pen
material, antes de que com suas opiniões explicitamente sar^ a respeito disto e observar tais fenômenos. Em conse
declaradas. qüência, lida com êles màgicamente.
Concluiríamos com Frazer que o homem, em tôdas as O homem primitivo não tem senão o mais elementar
fases e em todos os climas, está de posse de conhecimento, conhecimento das condições da saúde humana e da doença.
fundamentado emplricamente e manipulado lògioamente. Emocionalmente e pragmàticamente êle ressente fortemente
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a ocorrência de moléstia. Uma teoria mística de que a malícia pelo crente. A diferença entre as duas, contudo, é encon
de outros homens pode produzir doença é fortemente sugerida . trada primeiro no assunto: a religião se refere às questões
pela psicologia do homem e por suas relações sociais. De fundamentais de existência humana, enquanto a magia gira
muitas maneiras, a explicação dada pela teoria de bruxedo sempre em torno de problemas específicos, concretos e deta
e feitiçaria são corretas, no que traduzem os inexoráveis de lhados. A religião está preocupada com a morte e a imortali
cretos do destino em manipulações de malícia humana. Ele dade, com a adoração de forças naturais numa maneira geral
ardentemente deseja milagres, e a convicção do que foi pro global, com a sintonização do homem aos desígnios da Pro
duzido por um feiticeiro malicioso pode ser contra-atacada vidência. A Providência pode parecer, no nível primitivo,
por um bruxo mais poderoso e amigo, pode ainda ajudar o como o sistema de espécies totêmicas, isto é, os animais, plan
organismo a resistir à doença através da convicção de que tas e forças naturais que afetam a existência do homein mais
algo de eficiente está sendo feito. profundamente. Ou mais: que a Providência pode ser posta
A magia, incluindo" a feitiçaria, tem assim as suas carac em santuário no panteão dos deuses e deusas da natureza.
terísticas práticas assim como sociais, que nos permitem Ou ainda que pode ser reconhecida como um princípio cria
explicar sua persistência. Psicologicamente, a magia em tôdas dor, o primitivo Pai de Tudo ou o Deus Supremo das reli
as suas formas subentende a atitude otimista de que através giões monoteístas. 1
de rito e encantamento algo está sendo feito para dominar o Em sua estrutura dogmática, a religião sempre se apre
acaso e restaurar a sorte. A forma de rito e encantamento senta como um sistema de fé definindo o lugar do homem
corresponde intimamente a esta função positiva, pragmática. no universo, a proveniência do homem e seu objetivo. Prag-
É sempre a representação do fim desejado em palavra e ato. màticamente, a religião é necessária a fim de o indivíduo
Podemos aqui reformular a teoria de Frazer; não é a associa médio superar a demolidora, estraçalhante antecipação da
ção de idéias, de que o semelhante produz o semelhante ou morte, do desastre e do destino. Ela resolve êstes problemas
que o contato persiste, mas a afirmação e representação de por meio da fé na imortalidade ou de uma pacífica dissolução
fins e resultados desejados que formam a base psicológica ao homem no universo ou sua reunião com a divindade.
da magia. Socialmente, a magia como contraparte espiritual Spcialmente, uma vez que a religião é sempre o âmago da
da liderança ajuda a integrar o grupo atuante por meio de civnização e a mola-mestra de valores morais, ela se toma
disciplina e introdução de ordem. Em agricultura, o mágico intirnamente associada com cada forma de organização, nos
se toma o líder,..não tanto por causa da supersticiosa reve níveis mais baixos e nos jnais elevados. Dentro da família
rência que êle inspira, mas porque êle dá aos trabalhadores racontramos crenças relacionadas com o culto de ancestrais.
a garantia de que, se obedecerem seus tabus e suas injun- O clã com sua adoração de antepassados totêmicos, animais
ções, sua magia acrescentará uma quota de benefícios sobre ou humanos, funciona como uma congregação religiosa. E
naturais aos resultados práticos de seus esforços. A magia encontramos cultos locais de aldeias, cidades e municipali
da guerra, novamente, inspirando os guerreiros com a con dades. A religião se torna também, freqüentemente, o centro
vicção na vitória, torna sua coragem mais eficiente e permite de Estados e impérios políticos.
a liderança ser seguida com mais completo entusiasmo. Assim, a ciência, a magia e a religião são diferenciadas pelo
A distinção entre religião e magia não é talvez tão funda assunto, pelo tipo de processos mentais, pela organização
mentada quanto Frazer gostaria presumíssemos, numa atitude
essencialmente diferente do homem para com o universo in
teiro. Para Frazer, magia é a compulsão direta de forças
naturais pelo homem; religião é a propiciação de divindades da revista
riiiLo fmal pelodêste ponto,Malinowski.
Professor até o fim,(N.
o livro não Lit.).
do Ed. se beneficiou
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f

social e sua função pragmática. Cada uma tem sua forma que satisfaz esta necessidade de otimismo padronizado, ser
própria claramente distinta. A ciência é encarnada na tec essencial à eficiência do comportamento humano. Finalmente,
nologia, baseada na observação e contida em preceitos teóricos, uma vez que o homem cria a necessidade de construir sistemas
e, mais tarde, em sistemas de conhecimento. A magia aparece de conhecimento e antecipação, está obrigado a investigar as
como uma combinação de encantamento ritual, representado origens da humanidade, seus destinos, os problemas da vida,
e falado. É revelado ao homem não por meio de observação da morte e do universo. Daí, como resultado direto da neces
e experiência, mas em milagres fundamentados mitològica- sidade do homem de construir sistemas e de organizar co
mente. A religião toma a forma de cerimonial público ou nhecimento, emergir tamhém a necessidade da religião.
privado, oração, sacrifício e sacramento. Em tudo isto podemos ver como uma penetração mais
Em tudo isto verificamos que a evolução, como uma completa na natureza dos fenômenos, processos e instrumen
metamorfose de um tipo de crença ou atividade em outra talidades culturais, nos levam a reformular os problemas evo
inteiramente diferente, não é aceitável. Temos de presumir, lucionários, embora sem rejeitar o princípio da evolução e
no caso, como em inúmeros problemas evolucionários, a exis os conceitos de etapas, sobrevivencias e origens. Começamos
tência de todos os problemas fundamentais de pensamento também a ver como tais conceitos podem ser definidos. Em
humano — crença, costume e organização desde os primórdios conseqüência, as origens da ciência, religião e magia não são
da cultura. A magia, a religião e a ciência devem ser para serem encontradas numa idéia única, numa crença in
examinadas como fôrças ativas na sociedade humana, no culto corporada ou numa superstição particular; nem ainda num
e no comportamento organizados e na psicologia humana. ato específico de um indivíduo ou de um grupo. Por origens
Nisto acompanhamos Frazer quando êle afirma que as simples queremos significar as condições, primevas e duradouras, que
verdades derivadas da observação da natureza sempre foram determinam a ocorrência de uma resposta culturalmente esta
conhecidas pelo homem. Também o acompanhamos quando belecida, cujas condições, limitadas por determinismo cientí
êle nos diz que "para viver e para causar a vida, para ali fico,^ definem a natureza de um ato, artifício, costume, insti
mentar-se e procriar filhos, estas são as necessidades básicas tuição. Queremos referir-nos ao estabelecimento da necessida
do homem no passado e elas serão as necessidades básicas de biológica básica de atividades organizadas tais como a busca
do homem no futuro enquanto o mundo existir". Frazer nos ou a produção de alimento, a organização de conjugação e
diz aqui sem rodeios que a cultura humana é baseada antes casamento, a construção de casas, a fabricação de vestuário,
de tudo nas necessidades biológicas do homem. ferramentas e armas de^caça. Quando se chega a tais aspectos'
Aceitando esta sugestão, podemos acrescentar que ao de cultura como educação, economia, lei e govêrno, devemos
satisfazer suas necessidades biológicás básicas por meio ser capazes de mostrar como estas formas de organização e
das instrumentalidades da cultura o homem impõe novos tipos de atividades são impostas à humanidade primitiva por
determinantes no seu comportamento, ou seja, cria novas serem indispensáveis à ação coletiva e combinada.
necessidades. Em primeiro lugar êle deve organizar seus A procura das origens toma-se, assim, mna análise dos fe
instrumentos, seus artefatos, suas atividades de produção de nômenos culturais em relação, por um lado, aos dotes biológicos
alimentos por meio da orientação do conhecimento. Daí a do homem e, por outro, à sua relação com o meio ambiente.
necessidade de uma ciência primitiva, que são princípios de Uma vez que êste tipo de problema geral é resolvido pela
conhecimento padronizados, organizados e formulados, dever humanidade no desenvolvimento de uma instrumentalidade
aparecer desde os verdadeiros começos de cultura. Quanto vasta e cada vez mais complexa que chamamos cultura, depa
mais forte esta convicção, tanto mais eficientes a organização e ramos com outro problema agora mais freqüentemente re
a execução de esforços. Daí a magia, como o tipo de atividade conhecido: a questão de se, no estudo da cultura, podemos
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também descobrir leis científicas gerais de processo, produto mítivos". As fritos de pigmeus espalhadas pela África, sudeste
e inter-relação. Se a cultura, ou seja, o comportamento orga da Ásia e arquipélago indonésio têm sido especialmente favo
nizado, implementado e intencional do homem, contem o recidas por caiisa de sua. pequena estatura e diferença bem
definida de outras tribos.
seu próprio determinismo, então podemos ter uma ciência de
cultura, podemos estabelecer leis gerais de cultura, e sem. É claro, todavia, que tôdas estas sugestões exprimem
rejeitar de qualquer maneira os estudos evolucionános ou antes a fertilidade de imaginação de um antropólogo do qiie
comparativos, temos de vinculá-los ao esfôrço cientifico de qualquer prova ou argumento'sólido. Tôdas as tribos sobrevi
compreender a cultura em geral. ventes cujas artes e ofícios correspondem mais ou menos à
Ficará bem ilustrar esta modificação em nossa abordagem etapa paleolítica da pré-história estão igualmente habilitadas
científica do conceito de origens por mais um ou dois exem a ser candidatas a primitividade. Aquêles aspectos de sua
cultura que podem ser relacionados a sua fundamental sim
plos tirados da teoria de Frazer e de sua manipulaçao e plicidade qualificam-se como legítimos atributos de primiti
apresentação do material. Isso é do maior interêsse porque vidade. Tomar um aspecto diferencial específico, contudo,
o conceito de origens foi raramente definido por estudiosos desta ou daquela cultura, e afirmar que êle nos dá a
evolucionistas tais como Tylor, Morgan, McLennan ou Wes- chave final para todos os enigmas e origens, vai contra os
termarck. Examinando uma teoria de origens após outra e primeiros princípios de raciocínio indutivo.
comparando-as encontraríamos uma enorme diversidade de
implicações teóricas, assim como de métodos de estabeleci Voltemos a Frazer e a suas opiniões sôbre as origens do
mento." O conceito de origens geralmente tem em mira o que casamento, da família e do parentesco. Em Totemism and
ocorreu quando o macaco estava lutando para se ^ tornar Exogamy êste problema está plenamente analisado, e o autor
homem. Para nós as origens do casamento significam simples aceita sem reservas a suposição clássica de que as origens
mente que o mais remoto homem-macaco não tinha preceitos do casamento são encontradas na completa promiscuidade
a propósito de sua conduta sexual, e que uma completa anar sexual, paterna e materna. Esta opinião não é sustentada
quia reinava em tôdas as relações procriativas. Quando agora por nenhum antropólogo de reputação. A atitude de
Westermarck afirma que o casamento teve origem numa forma Frazer, no caso, é uma genuína "sobrevivência". A perplexi
primeva de monogamia, êle tenta provar o seu caso mostrando dade real com a suposição de promiscuidade primitiva está
que os macacos antropóides superiores, assim como os sel na análise falha da instituição do casamento que esta hipótese
vagens mais inferiores, vivem em casais. As origens da pro implica. Enquanto pensamos sòmente no aspecto sexual de
priedade no comunismo, as origens da religião no animismo domesticidade, não há razões por que não possamos presumir
ou totemismo, geralmente montam a uma prova mais ou que nos õomeços da cultura não havia restrições ou havia
convincente de que, sob condições primitivas, o homem yma apenas restrições limitadas ao "comunismo sexual". O casamen
em sistemas sociais em que reinava supremo o comunismo, to, todavia, não é apenas conjugação sexual, ocasional ou per
ou o animismo, ou o tabu. Um dos artifícios favoritos p^a manente. É um contrato entre duas pessoas que implica a
estabelecer origens consiste na suposição mais ou menos arbi comunidade de vida sob o mesmo teto ou abrigo, cooperação
trária qne esta ou aquela tribo ou tipo de humanidade e a no lar e na administração de propriedade, mas acima de tudo
sobrevivência primitiva padrão da humanidade mais remota. a produção de filhos legítimos, cujo cuidado, educação e
O que quer que seja verificado numa tal tribo ou grupo e preparação para a vida são coisas obrigatórias para os pais.
presumido como primitivíssimo. Os habitantes da^Austrália Nenhum entre os partidários da hipótese de promiscuidade
Central, da Terra do Fogo, os vedas, os boximanes tem estado jamais tentou desenhar mesmo um quadro imaginário de "co-
sujeitos a esta definição como "os mais inferiores dos pri-
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Ihunísmo em -filhos". Tal tentativa teria falhado. Nenhuma complexas pode ser estudada com referência a problemas,
"sobrevivência" pode jamais ser encontrada. Rivers uma ou tais como o parentesco surgido de laços de família, como
duas vezes tentou sugerir que podíamos talvez ser capazes se desenvolveu o sistema de clã, e como os lares individuais
de imaginar o comunismo em crianças de peito. Tais suges foram integrados no grupo local.
tões, contudo, são tão irreais como são simplesmente imagi Isto nos conduz a mais um ponto interessante no trata
nárias e não documentadas. mento teórico de Frazer. Presiunindo, como êle faz, que o
Um escrutínio cuidadoso e pormenorizado da substância sexo não era regulamentado nâs etapas mais remotas do de
da relação matrimonial, numa base comparativa, mostra que senvolvimento humano, êle tem de levar em conta o advento
a essência do casamento consiste no privilégio de produzir da exogamia, isto é, dos preceitos rigorosos e draconianos
filhos legítimos, outorgados ao noivo e à noiva, pela sociedade, proibindo o acasalamento de parentes. Frazer, incidental-
no contrato de casamento. Sob condições primitivas, e em mente, não faz uma distinção bem definida entre a proibição
tôda parte onde um lar constitui uma unidade econômica de incesto e as regras de exogamia. Nisto êle acompanha a
independente, êste privilégio tem um grande valor. O dever teoria de Morgan, que colocaria a exogamia antes do incesto
de cuidado fisiológico, de treinamento, educação e dotação como êle coloca o clã antes da família.
dos filhos é parte dêste privilégio. Podemos assim declarar, Seja lá como fôr, Frazer desenvolve, no caso, uma das
em primeiro lugar, que o casamento como um contrato legal menos aceitáveis de suas teorias. Acreditando como acredita
é apenas uma parte e parcela dessa intituição mais ampla e que por um longo tempo os sêres humanos se uniam em pares
mais fundamental: a família. E podemos definir casamento e acasalavam de qualquer maneira, e exatamente como que
como a união pública, legal e tradicionalmente definida por riam, êle tem de presumir uma fase evolucionária, ou mo
contrato que dá o estado de legitimidade aos filhos e um mento em que algo ocorreu que os fêz compreender que era
estado adicional aos cônjuges. melhor impedir certas uniões. Para levar isto em conta êle
Podemos , aqui fazer a ligação com o princípio de Frazer, faz duas suposições. A primeira é que de uma maneira ou
citado acima. O homem, tanto primitivo como o civilizado, ne de outra os magos de uma tribo primitiva chegaram à con
cessita a companhia de unia mulher; êle também precisa re clusão de que incesto e a promiscuidade eram maus. Frazer
produzir. Tôdas estas necessidades são integradas e imple despreza a possibilidade de que quaisquer feitos realmente
mentadas através da instituição do casamento. Esta é uma prejudiciais do incesto podiam ter sido presumidos pelos pri
definição de casameiito e família; esta também é a resposta mitivos. Êle tem plena consciência de que biològicamente é
do que foram as origens do casamento e da família. A partir
difícil provar-se que h incesto é prejudicial. . Em conse
do início mesmo da cultura a família foi a instituição na qual
qüência, algo nôvo tinha de ser enconti-ado. Presume, por
a maioria das necessidades fundamentais dos sêres humanos
conseguinte, que existia uma crença supersticiosa de que o
foram satisfeitas. É a instituição fundamentalmente baseada
incesto era prejudicial à fertilidade natural. Esta crença foi
então transformada em lei tribal. "O esquema, sem dúvida,
na necessidade de reprodução, mas também diretamente asso tomou forma nas mentes de uns poucos homens de uma saga
ciada com a produção, distribuição e consumo de alimento. cidade e capacidade prática acima do comum, que por sua
É a instituição na qual a continuidade de cultura, a transmis influência e autoridade persuadiram seus companheiros a pô-lo
são de tradição pela geração mais velha à mais nova, é fun em prática". Temos aqui, por conseguinte, de presumir que
damentalmente efetuada. O costume, a ordem e a autoridade primeiro existia um estado de promiscuidade primitiva; se
estão encarnados na família. A evolução da humanidade, de gundo, que uma aversão ao incesto surgiu com fundamentos
suas artes e ofícios, dos vários aspectos de instituições mais supersticiosos; terceiro, que um sistema extremamente com-
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plicado de organização social em metades, clãs e classes de cooperativas íntimas como entre pais e filhos, irmãos e irmãs,
casamento foi imaginado de forma a satisfazer o temor supers e mesmo parentes próximos e membros de elã.
ticioso; quarto, que êste foi implementado por uma lei de Continuaríamos nossa análise dos vários pormenores no
legisladores primitivos. Mal é necessário refutar esta teoria tratamento evolucionário de Frazer, que é talvez mais proe
à luz de nossos modernos princípios antropológicos. Sabemos minente no quarto volume de seu Totemism and Exogamy.
que atos de legislação, violentos e revolueionários, são cara- Frazer propõe teorias das origens de descendência inconstante
terísticos de nossa atual eivilização, mas não ocorrem na da mulher para o homem. Êle sugere que as origens da agri
humanidade primitiva. Ainda teríamos de perguntar se um cultura são as cerimônias mágicas com o objetivo de fazer as
ato legislativo tão revolucionário ocorreu alguma vez e então sementes crescerem. E torna plausível que as origens da arte
se disseminou por difusão, ou se ocorreu em muitos casos e são encontradas em certas práticas de magia.
sempre no momento exato.
Em todas essas teorias encontramos uma estranha diver
No caso, também, a análise sociológica completa do casa gência do tratamento do material contido nos volumes cons
mento, paternidade e parentesco nos conduz a uma solução . trutivos,- nos quais Frazer nos apresenta o quadro bem in
muito mais espetacular, porém muito mais simples, baseada tegrado, bem institucionalizado de sistemas totêmicos, atra
na nossa compreensão da psicologia humana e da função do vessados ocasionalmente por fulgurante perspicácia intuitiva.
casamento e paternidade. O incesto — e no caso acompa O antropólogo conhece perfeitamente, também, as três teorias
nhamos Freud sem reservas — é uma tentação definitiva dentro de Frazer sôbre as origens do totemismo. Êste material e a
da famíila. Todavia, o incesto, se fôsse permitido ser prati maneira pela qual êle o manipula provam clara e conclusi-
cado aberta e legalmente, deveria tornar-se tanto psicológica vamente que as origens do totemismo devem encontrar-se na
como socialmente uma fôrça desagregadora no tocante aos natureza e função desta crença, prática e instituição. O
laços de família e casamento. Do lado psieológico o ineesto totemismo é uma maneira muito concreta, simples e prag
impliearia, na maturidade do jovem, uma completa inversão mática de estabelecer a relação entre o homem e a natureza.
de sentimentos entre pai e filho, assim como entre irmãos Mas"suas formas mais desenvolvidas, tais como na Austrália
e irmãs. Centi-al e em uma ou duas partes da África, é na realidade
A vida sexual, com seu acompanhamento de corte, ciúmes, uma especialização mágica no contrôle, pelo homem, das
e eompetições, não é compatível com a atitude de reverência espécies animais e vegetais bàsieamente importantes. O tote
e submissão caraterística das relações do filho para com o mismo nas suas formas pragmàticamente significativas, ou
pai. Não é compatível com as relações de proteção, pru seja, na administração ritual da fertilidade natxual, está provà-
dência e cooperação entre irmãos e irmãs. Do lado social, velmente ligado de modo íntimo à magia. A segunda teoria de
o sexo, com suas rivalidades intrínsecas e ciúme também in Frazer, procurando as origens do totemismo nos ritos de fer
duziria ao caos. Em conseqüência, a eliminação do motivo tilidade e multiplicação do totem, está indubitàvelmente mais
sexual do seio da família, e sua contraparte ampliada, o grupo próxima da nossa presente avaliação dos fatos, porque nesta
por pai'entesco ou o clã, é uma necessidade fundamental de teoria Frazer procura as origens do totemismo na sua função
estrutura soeial, tanto primitiva como civilizada. No caso, mais importante.
uma vez mais, encontramos as origens de um preceito legal
e de um aspecto fundamental da instituição do casamento
e família na necessidade que existe. A proibição legal de
incesto e de acasalamento entre parentes é indispensável por
que as relações sexuais não são compatíveis com as relações
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202
CAPÍTUL.O IV sobrevivência são às vêzes inaceitáveis. Todavia, nas poucas
passagens aqui citadas — e elas podiam ser indefinidamente
multiplicadas — Frazer estabelece as principais regras da mo
derna abordagem científica em Antropologia. Êle acredita na
similaridade essencial da mente humana e da natureza hu
mana. Êle vê claramente que a "natureza humana" tem de
ser estimada basicamente em termos de necessidades humanas;
dessas necessidades que têm permanentemente de ser aten
Para Onde Vai a Antropologia? didas para que o homem sobreviva, reproduza, exista em
ordem e com segurança, e progrida. No seu tratamento con-
textual do material ele nos prova também que as necessidades
básicas da humanidade são satisfeitas por meio de invenções,
ferramentas, armas e outros engenhos materiais que, de novo,
N.ESTA apreciação crítica da obra de Prazer verificamos tem que ser administrados por grupos que cooperam, traba
que de muitas maneiras êle encarna uma época passada em lhos e vivem em comum, e em que a tradição é transmitidá
Antropologia e humanismo, com muitos de seus defeitos e de uma geração para outra. Isto implica que caracterís
todas as suas qualidades. O material que êle nos legou, com ticas tais de grupos hiunanos como lei, educação, govêmo e
tal mestria de estilo e construção, permanecerá por muito economia são tão necessárias ao homem como seu alimento,
tempo como o marco do antropólogo e será até de grande utili acasalamento e segurança. Seu tratamento do material etno
dade para aquêles que procuram inspiração e provas colaterais lógico, por conseguinte, implica a teoria das necessiddes
nos materiais etnográficos. Sua devoção sincera à verdade cien derivadas.
tífica e à compreensão da humanidade, tanto primitiva como Temos apenas de traduzir alguns dos seus conceitos evo-
civilizada, torna sua obra essencialmente bem fundada e ver
dadeira. Fá-la também transcender muito freqüentemente, lucionistas um tanto simples em têrmos da moderna análise
e transcender nos pontos mais fundamentais, muitas de suas
científica de cultura a fim de torná-los vivos e ■ reais. Poir
reflexões explicitamente teóricas.
conseguinte, Frazer é tanto o pioneiro na Antropologia cien
tifica moderna como o porta-voz de sua geração. O funda
A longa estrada que começa nas florestas de Nemi e nos mento de sua abordagem não pode ser rejeitado. O método
leva através da selva primeva, deserto, pântano, iUia dos comparativo é ainda o principal instrumento teórico para a
mares do Sul, estepes da Asia e pradarias da América, denti-o formulação de princípios gerais da Ciência Antropológica. A
de uma gradual compreensão do coração humano e da mente suposição das necessidades básicas do homem deve perma
humana, é talvez a maior Odisséia científica no moderno hu necer como o ponto de partida na nossa investigação dos fenô
manismo. Aprendemos aí, em primeira mão, a apreciar o menos culturais. O principio evolucionista e seu aparelhamento
comportamento dos magos primitivos, dos chefes e dos reis. capital nunca serão completamente rejeitados pela Antropologia
Ficamos impregnados dos costumes dos selvagens na guerra e ou pelo humanismo. O interêsse psicológico de Frazer nos
no trabalho, dos seus sistemas de casamento, dos temores e parece mais forte do que parecia ser há um quarto de século.
esperanças relativos a seus tabus, de suas danças tribais e seus A Antropologia está, mesmo agora, dividida em muitas
empreendimentos militares. escolas, tendências e abordagens sectárias. Está ainda na fase
A posição teórica de Frazer, seu evolucionismo, seu tra combatente, empenhada no bellum omnium contra omnes tão
tamento comparativo das culturas e suas explicações por carateristico dos níveis acadêmicos de outrora, se não da hu-
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manidade primitiva. Êste é talvez o momento em que as relhagem de tôda teoria antropológica. Ê necessário, rio caso,
contendas, escaramuças e lutas fratricidas entre antropó mencionar também o acréscimo feito à teoria anti-opológica
logos podiam ser superadas por um armistício e por um reino pelos ecologistas e ambientalistas. O mais convincente e
de paz construtiva. Estamos começando agora a ver clara enérgico porta-voz deste ponto-de-vista, o Professor Ellsworth
mente que o evolucionismo e o método histórico, o principio Huntington, de Yale, provou, sem sombra de dúvida e sofisma,
de desenvolvimento è o fato de difusão, as explicações em que o clima e os recursos naturais do meio ambiente deter
termos de processos mentais e teorias sociológicas, não são minam profundamente a história e o desenvolvimento de uma
nem mútuamente exclusivos nem intrinsecamente hostis, mas cultura que foi colocada dentro desse ambiente.
completamentares e inevitàvelmente correlacionados. Esta sín Como pode esta abordagem concreta, histórica, geográfica
tese não pode ser feita num pequeno ensaio, mas alguns e ecológica ser conciliada com o evolucionismo? A resposta
pontos gerais podem ser focalizados aqui. é simples. O eontato entre as culturas, e a resultante trans
O mais amplo e mais importante movimento, que também missão de artes e ofícios, formas sociais e idéias de uma cul
se tornou uma campanha militar contra o evolucionismo, tura para outra, são fatos inegáveis que têm de ser integrados
começou com a obra do geográfo e etnográfo alemão F. em qualquer abordagem teórica e que têm de ser incorpora
Ratzel. Sua contribuição positiva está na apresentação de dos à pesquisa-de-campo e a todas as nossas hipóteses e prin
duas dimensões concretas no domínio do estudo comparativo cípios. Frazer certamente sustentava êste ponto-de-vista e
de raças, tribos e culturas. Lutando para superar o medo freqüentemente empregou explicitamente o conceito de difu
do tempo e o mêdo do espaço" que ele atribui ao evolucio- são. Alguns evolucionistas, contudo, passaram por alto ou
nista, Ratzel tomou conhecidos o mapa do mundo e o postu negligenciaram êste fator, e até o ponto em que isto ocorreu
lado de uma mais pormenorizada cronologia em todas as seus trabalhos têm de ser emendados. Por outro lado, o
nossas especulações a respeito de origens e desenvolvimentos. processo de difusão foi freqüentemente definido muito gros
Ratzel, com seu agudo senso geográfico e histórico, foi capaz seiramente e de algum modo superficialmente pelos difusio-
de ver e de demonstrar que muitas semelhanças em artefatos, nistas. A difusão, ou seja, a transmissão de uma realidade
apetrechos, costumes e idéias devem ser explicadas não pelo cultural de uma cultura para outra, não é um ato mas um
princípio de que em determinada etapa de evolução certas processo intimamente aparentado no seu funcionamento a qual
similaridades aparecem, mas pela demonstração de contato quer processo evolucionista. Porque a evolução lida acima
direto entre culturas e disseminação de invenções por teans- de tudo com a influência de quaisquer tipos de "origens";
missão. Assim, a difusão, como foi chamada a aquisição de e as origens não diferem fundamentalmente, quer ocorram por
traços culturais, tomou-se o princípio capital da explicação invenção ou por difusão. O próprio Frazer presume explicita
etnográfica. mente que a inovação que apresentou o fundamento social para
A escola, aperfeiçoada acima de tudo na Alemanha, teve a exogamia, e a regra de exogamia em si, originaram-se dentro
patrocinadores decididos na Grã-Bretanha, e ali desenvolveu, de uma tribo e em seguida difundiram-se para outras. A nova
sob a influência de Franz Boas, um ponto-de-vista histórico instituição, claramente, quer inventada ou copiada, produziu
entre os antropólogos dos Estados Unidos. Tudo o que esse os mesmos efeitos históricos,' que são evolucionáríbs.
trabalho tinha em comum — os princípios de um tratamento Por conseguinte, o problema de se ocorre um nôvo traço
concreto de cada aspecto da cultura, a necessidade de fazer por invenção ou difusão responde ao enigma histórico con
o mapa das similaridades ou identidades, o postulado de que creto, no universo espaço-tempo de raciocínio, com referência
mapas e relações de tempo devem sempre estar gravados na a uma determinada tribo, num momento determinado. A
mente — era essencialmente correto e deve ser aceito na apa- teoria de como êste nôvo traço se incorporou à cultura,

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como êle se desenvolve e por meio de seu desenvolvimento tada alçada de necessidades, confinadas a uma etapa de evo
afeta a cultura como um todo, permanece o mesmo em ambos lução. A Antropologia pode também revelar, por meio de seu
os sistemas. A análise em traços e complexos de traços, com estudo comparativo das instituições humanas — políticas, tais
a qual as escolas difusionistas operaram e ainda estão como Estado ou a tribo-Estado; econômicas, como a escravatura
operando, terá de ser emendada e relacionada à nossa e a servidão; legais, tais como o sistema de castas e a tribu
teoria geral do que é cultura, mesmo mais radicalmente do tação — que as funções mais construtivas e positivas da
que é o caso dos conceitos evolucionistas. Mas o princípio guerra foram superadas por outras influências em nosso mun
capital de que a modificação da cultura deve incluir o fato do moderno, e que dela somente persiste o seu papel cala
de contato e difusão permanece válido e é a grande con mitoso e destrutivo. Êste rápido sumário de minhas próprias
tribuição de Ratzel e seus discípulos. opiniões, mais completamente documentado 1 em outra parte,
A necessidade de uma síntese de métodos antropológicos, podia ser tomado como um exemplo do papel que a Antro
para uma mais completa compreensão entre as várias escolas pologia podia desempenhar em clarificar algumas questões
sectárias e as heresias mütuamente exclusivas, aparece talvez fundamentais com as quais agora deparamos.
mais diretamente hoje quando a Antropologia, como toda outra Tomem-se os problemas de govêrno e o uso de força po
disciplina de Ciência Social, é chamada a desempenhar sua lítica dentro de uma comunidade em oposição à organização
parte nos problemas reais da atualidade. Tome-se a questão cultural. Êste é o problema do Estado versus Nação. Uma
da guerra. Ela mais uma vez explodiu sôbre nós, e nos defron completa compreensão do que queremos dizer por naciona
tamos com a questão vital de se a guerra como um tipo de lidade em oposição a cidadania, que é a essência do nacio
atividade humana faz parte do destino do homem, é uma nalismo como êle apareceu durante o último século e meio
herança de seus antepassados primitivos, ou uma maneira na história humana, pode também ser fornecida por um fundo
indispensável de solucionar certas disputas. No caso, a An de cena de análise antropológica. Isto revelaria que nacio
tropologia tem um papel a desempenhar. Como a ciência nalidade é um princípio muito mais velho e mais fundamen
dos primórdios do homem e da evolução humana, ela pode tal do que a organização política de um sistema de polícia,
e deve responder à pergunta de se a guerra é primitiva. Não uma tribo-Estado ou um império. Isto mostraria que a auto
é uma matéria de "origens", no sentido um tanto ingênuo do nomia cultural de nossas nações modernas seria enriquecida
que ocorreu ao homem-macaco no início da cultura. Ê antes e revitalizada pela limitação de soberania política, especial
a questão de se a guerra, como a família, o casamento, a lei mente no tocante à autodeterminação militar do Estado. Eu
e a educação, pode sêr encontrada em todas as culturas em sugiro que para certos problemas do planejamento de após-
cada etapa de desenvolvimento, e mais especificamente se guerra uma plena compreensão de integração cultural em
ela desempenhou um papel indispensável nos mais remotos oposição a controle político é essencial e que isso pode ser
comeÇos da humanidade. Porque se puder ser demonstrado fornecido por contribuições da Antropologia comparada, evo-
que a guerra, ou seja, a solução coletiva de problemas in- lucionista e também histórica.
tertribais pela força armada, não é encontrada nos começos Conceitos tais como democracia e liberdade, comunismo
da cultura, isso é uma prova de que a guerra não é indispen e capitalismo, e o papel da competição e planejamento, podem
sável à condução dos negócios humanos. e devem ser submetidos a uma completa análise antropológica.
A maioria dos antropólogos modernos concordaria em
que a guerra não é nem primitiva nem biològicamente funda
mentada —e na verdade que ela faz sua aparição muito tarde (1) Estas opiniões são desenvolvidas em Freedom and Civiliza-
na evolução humana e que ela serve apenas uma muito limi- tion, de Bronislaw Malinowski (Nova York, 1944).

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inspirada pelas abordagens evolucionistas assim como histó rativas nas quais os mecanismos políticos, legais e educacionais
ricas, psicológicas c sociológicas. Os problemas de lei c terão de sofrer uma profunda alteração. O antropólogo acre
ordem primitivas, de formas antigas de educação e também dita, por um lado, no direito de tôdas as raças, brancas, mo
de tipos de ciência, magia e religião primitivos, deviam ser renas e pretas, e no direito de tôdas as minorias a tratamento
tomados com referência direta às questões vitais de hoje, e igual. Êle também tem um preconceito conservador que o
iluminados pela procura de um denominador comum entre as faz reconhecer o valor da tradição, o valor da diversidade
formas estudadas, mais remotas e mais recentes, ou procuran de culturas, na sua independência assim como na sua fecun
do chegar às questões de origens em têrmos do papel funda dação cruzada. Seu conselho seria que nossa cultura não
mental desempenhado por um tipo de atividade ou por uma deve ser imposta sobre outras pela força das armas, pelo poder
instituição no desenvolvimento humano. da riqueza e pela severidade da lei. O espírito missionário
A Antropologia pode assumir êste papel sério de magis- na sua forma mais grosseira terá de ser modificado, peío
tra vUae lado a lado com a história, no sentido clássico desta menos. O nacionalismo, no sentido de uma reação conser
palavra, e com outros ramos do humanismo. A fecundação vadora e o reconhecimento do valor global de sua própria cul
cruzada das Ciências Sociais é um conceito que não precisa tura por parte de cada nação, está-se disseminando comó
ser defendido ou desenvolvido aqui; foi universalmente aceito. fogo-fatuo em todo o mundo. Nós, os membros da raça
Contudo, o que parece extremamente importante é o aperfei branca, somos fundamentalmente responsáveis por isto e te
çoamento de uma base mais científica para a Antropologia. mos estado dando nossa religião, nossa educação e muitas
Isto de maneira alguma iria de encontro ou solaparia qual Outras dadivas espirituais a outros povos, com uma promessa
quer das "escolas" ou qualquer dos métodos componentes no implícita de que uma vez aceitem nossa civilização se tornarão
estudo do homem. Isto daria a tòdas elas uma base mais
nossos iguais. Esta promessa não foi resgatada.
firme. Acima de tudo, a difusão, ou seja, a modificação da' Se o antropólogo não chegar muito tarde à cena, e se
cultura por contato, é um fato que a Antropologia até agora o seu conselho ainda fôr de muita valia, mesmo se lhe per
projetou nas fases mais remotas da história humana, os estudos mitissem tomar parte em qualquer mesa de conferência com
dos quais são inevitàvelmente reconstrutivos. os poderosos, é uma questão. Que o antropólogo não pode
Mas, no presente momento histórieo, a etapa e o desenvol ficar silencioso é outra. Seu conselho seria dar o máximo
vimento que estamos agora atravessando acham-se dominados de autodeterminação a cada grupo cultural, ou mesmo mi
pela difusão. A civilização ocidental, como um rôlo compressor, noria. Êle sempre acreditou no Govêrno Indireto, como foi
está-se movimentando pela face da terra. O estudo desta recentemente introduzido nas colônias britânicas. O .govêrno
modificação cultural, que se está processando na Ásia, na indireto significa autogovêmo por qualquer tribo ou nação
África, na Oceania e no Nôvo Mundo, é a principal contri em assuntos culturais, sob o contrôle consultivo de potência
buição histórica do etnógrafo. A Antropologia moderna já dominante. Aqui surge outro ponto importante. Na fu
reconheceu isto, e está-se tomando cada vez mais cônscia de tura reconstrução do mundo, os princípios mais importantes
sua importância. devem ser determinados por nossa gritante necessidade de
A modificação cultural também é um problema prático segurança coletiva. Isto significa, concretamente, que as gran
que a reconstrução do após-guerra terá de enfrentar, e não des unidades políticas não devem ter permissão para manter
há dúvida que, depois que passar a atual catástrofe, as relações seus armamentos, aparelhagem militar e autarquia econômica,
entre as raças terão de ser baseadas em certos princípios especialmente se não houver qualquer contrôle sôbre suas
novos de direitos comuns, uma partilha dos privilégios ■ assim tendências militares agressivas. O de que precisamos no fu
como dos deveres, uma colaboração e prosperidade coqpe- turo é de menos independência política, para os Estados pode-

m 211
ÍOSOS, e de nenhuma autodeterminação política aumentada — agudo da necessidade de progresso, razão e eqüidade. Era
que é, em última análise, militar - para grupos ou unidades capaz de apreciar as qualidades mais estranhas, mais exóticas
que não têm ainda soberania militar em suas mãos. Em con e mais selvagens, e apreender nelas a sua significação essen
seqüência, o antropólogo não pregaria a criação de numerosos cialmente humana. Era capaz de extrair delas, como em Psy-
pequenos Estados tribais na África, cada um completamente che's Tmk, os germes de influências criadoras e de desenvol
independente politicamente, ou seja, estimulado a deflagrar a vimento futuro. Sua filosofia humanística era viver e deixai
guerra contra seus vizinhos. O antropólogo não pregaria a viver. Suas obras monumentais, que nos dão um quadro da
organização de grandes exércitos na China ou na índia sem humanidade primitiva e suas contrapartes contemporâneas,
alguma forma de controle internacional; porque sem êle todos fornecem um fundo de cena contra o qual podemos reformu
os perigos das atuais condições de equilíbrio de poder au lar um nôvo tipo científico de Antropologia, e aprender a
mentariam. Isto não contribuiria de maneira alguma para apreciar o estudo do pensamento, da fé e da ação humanos,
a independência cultural dessas grandes ou pequenas nações. deve ser inspirado não apenas pelo toque artístico do gênio
Como um moralista científico completamente simpatizante das literário, mas acima de tudo pela completa simpatia humana
raças até agora oprimidas ou pelo menos não-privilegiadas, abrangendo até as manifestações mais humildes, mais simples
e mais indefesas da humanidade.
o antropólogo exigiria tratamento igual para todas, plena in
dependência cultural para cada grupo ou nação diferencial,
nenhuma soberania política para qualquer tribo. Estado, reino,
república ou império.
Tudo isto pode ser utópico e visionário. Todavia, é fun
damentalmente correto do ponto-de-vista da análise científica
da cultura como um todo. Acima de tudo, quanto melhor
chegamos a compreender, e quanto mais completamente es
tudamos e refletimos sôbre a relação entre cultura e poder po
lítico, tanto mais claramente chegamos à conclusão de que a
fôrça deve ser dissociada dos grupos sectários e diferenciais e
colocada nas mãos de uma entidade controladora desinteres
sada. A cultura como um modo de vida, como um tipo de aspi
ração, preferência e interêsses nacionais, não pode ser ditada,
controlada ou legislada. Devem-lhe ser dadas as melhores
condições de desenvolvimento e fecundação cruzada com in
fluências externas, mas deve-se deixar que mantenha seu
próprio equilíbrio e seu próprio desenvolvimento sob con- ^
dição de plena autonomia.
Em tudo isso pode parecer têrmos peregrinado para
muito longe do nosso herói-de-cultura, Frazer, e sua obra.
Não é assim. Frazer foi um grande humanista. Em sua obra
e sua abordagem havia a mistura harmoniosa de amor conser
vador pela tradição, pelos elementos diferenciais em tôda
cultura e em cada etapa de desenvolvimento, com um sentido
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1=004446^

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lheiro Furtado, 516 - São Paulo.