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Conclusão

O VALOR DE UMA BOA HISTÓRIA

istórias não garantem a felici- para crescer, um nome e uma missão na vida. Porém,
dade nem o sucesso na vida. independentemente do quanto nossa tamília tenha nos
mas ajudam. Idas sao c o m o providenciado um bom acervo emocional, os
exemplos, metáforas que problemas, as dúvidas e as exigências surgirão, como
ilustram diferentes modos de uma eslinge devoradora que se interpõe no caminho.
p e n s a r e ver a realidade e. Bem. essa é a hora em que uma boa caixa cie histórias
cjuanto mais variadas e extraor- é de grande valia.
' . . . . . . dinárias forem a s situações que Por acreditar no poder da fantasia, nos lançamos
elas contam, mais se ampliará a gama de abordagens na tarefa de refletir sobre o que as histórias antigas,
possneis paia os pioblemas que nos afligem. I m grande q u e ainda são narradas, e as novas, que surgiram
a c e r v o de n a r r a t h a s e c o m o uma boa caixa de modeladas por valores contemporâneos, têm a dizer
ferramentas, na qual sempre temos o instrumento certo às pessoas que recorrem a elas. Supusemos que há
para a o p e r a ç ã o n e c e s s á r i a , p o i s d e t e r m i n a d o s uma relação pragmática com a ficcào. usamos o que
consertos ou instalações só poderão ser realizados se nos é útil. Porém, essa utilidade não d e p e n d e de
tivermos a broca. o alicate ou a chave de tenda ade- mensagens diretas, pois. se esse tosse o caso, apenas
quados. Além disso, com essas ferramentas p o d e m o s se c o n s u m i r i a m livros de auto-ajuda e manuais
também criar, construir e transformar os objetos e os variados, o q u e felizmente não e verdade. Muitos
lugares. adultos caem nessa cilada, lato que somente os torna
Uma mente mais rica possibilita q u e sejamos mais pobres de espírito, na medida em que esse tipo
flexíveis e m o c i o n a l m e n t e . c a p a z e s de reagir a d e - de leitura não os alivia das obsessões, nem os livra de
q u a d a m e n t e a situações difíceis, assim c o m o criar suas ruminações labirínticas.
soluções para nossos impasses. Certamente, essas Por sorte, as crianças são muito mais espertas,
qualidades d e p e n d e m de q u e tenhamos recebido um elas são adeptas irrestritas cia ficcào e quanto mais
suporte a d e q u a d o na infância, ou seja. uma família mágica, onírica, radical e absurda, melhor. Pode-se
que nos ofereceu a proteção e o estímulo necessários também traçar um paralelo interessante com a poesia,
Fadas no Diva — Psicanálise n a s Histórias Infantis

através da qual as palavras se tornam ferramentas Muitas vezes, certos adultos querem ciar aula até
poli\ a l e n t e s . Crianças a d o r a m t r o c a d i l h o s , rimas no recreio, e isso as crianças sentem q u a n d o lhes
divertidas, sentidos surpreendentes e humor, e é nisso oferecem histórias marcaclamente educativas, repletas
q u e as julgamos sabias, pois o domínio da língua cie bons princípios morais, mesmo que sejam pautadas
flexibiliza o entendimento tia realidade e faz nosso por ideais modernos, como a tolerância e o respeito â
pensamento mais versátil e ágil. F.nfim. e uma sorte natureza. Se esses princípios fizerem parte da vida do
que na mesma época em que estamos em formação, autor, provavelmente encontrarão eco em suas histórias
arrumando as malas que contento os fundamentos que e. por essa via. serão construídas as personagens boas
\ amos levar na \ iagem pela vida a tora. sejamos consu- e clicas com os quais elas gostam de se identificar,
midores \orazes de liccao. mas se elas farejarem que estão diante de um Cavalo
d r a c a s a essas mentes onívoras. foi possível cie Tróia repleto de pedagogia, nao terão dúvidas em
constatar q u e ainda há lugar para novas e velhas incendiai' o engodo.
personagens, cada uma com uma missão a cumprir. Isso nao quer dizer que tenhamos de mantê-las
< )s c o n t o s de fadas não e n v e l h e c e r a m , um b o m num m u n d o cie lantasia e alienação. Pelo contrário:
número deles segue sendo bastante útil as crianças, crianças modernas adoram opinar, são filhas de um
apenas tiveram de se adaptar um pouco as exigências ideal democrático e nao aceitam nada que nao tenham
dos no\ os tempos, alem disso, eles não dao conta de compreendido ou elaborado. Questionam leis, regras,
todas as pautas de que elas hoje necessitam tratar. e o tema dos limites é m o l h o de constante polêmica,
Podemos nos dizer satisfeitos com as produções da qual elas participam ativamente. Isso e fruto de uma
dos séculos XIX e XX paia as crianças, ate porque foi educação familiar e escolar que incentiva a curiosidade,
nessa época que se inventou a ficção propriamente a criatividade e a capacidade cie questionar, na qual
infantil. Constatamos que as historias para crianças desse também acreditamos. Prova disso é que não faltam
período nao parecem ser estruturalmente muito dife- personagens genuinamente irreverentes para ilustrar
rentes dos contos cie fadas, no que tange ã capacidade essas qualidades que hoje consideramos desejáveis.
de fornecei" elementos que as ajudem a elaborar suas Porem, quando se trata de fiecao. os propósitos racionais
questões. Mudam os temas, mas a operação e a mesma, têm de ficar em segundo plano, pois se fala desde outro
("orno os contos de Ia das. a liccao de hoje traz elementos lugar e. na melhor das hipóteses, estaremos no territé)rio
para cena. se a criança vai usá-los para um fim regressivo da arte. literatura, cinema e teatro podem até questionar
ou como auxílio num momento cio crescimento, isso ou defender ideais, mas isso será um efeito colateral
benéfico de sua função mais importante, a de nos
vai dependei'cia vida que está ie\anclo. Não nos parece
fornecer boas histórias.
que ás produções recentes, pelo menos as que
examinamos, por si mesmas possam ser responsa- A fiecao. infantil ou adulta, supre os indivíduos
bilizadas por e \ e n t u a i s problemas q u e as crianças de algo q u e não se encontra facilmente em outros
\ e n h a m a apresentar. Sozinhas, histórias nao induzem lugares: todos precisamos cie fantasia, não é possível
à violência, nao fazem apelos regressivos q u e as viver sem escape. Para suportar o fardo da vida comum,
retenham na infância, nao produzem isolamento social, é preciso sonhar. Mas não elevemos confundir a oferta
nem as desligam da realidade. Se certas crianças cie fantasia através da fiecao. que fornece tramas capazes
apresentam alguns desses comportamentos, é melhor de alimentar d e v a n e i o s e brincadeiras, com uma
procurar culpados em outro lugar. educação alienante. que confunde infância com pueri-
F, tácil dizer q u e a liccao infantil poderia ser lidade. desmerece a curiosidade das crianças e pinta o
melhor, q u e de\ críamos e l a b o r a r narrativas mais m u n d o em tons pastéis. Os assuntos complicados
educativas, que transmitissem \alores positivos para eostumeiramente evocados pelos contos de fadas, assim
nossas crianças. Mas. como Pinocchio já demonstrou como algumas tramas que demonstramos serem subja-
muito bem. elas nao se engatam em posturas franca- centes às histeirias infantis contemporâneas, provam cinc-
mente didáticas e preterem historias que não tenham as crianças não se esquivam de assuntos cabeludos,
embutida a intenção de educa-las. Atenção, não se inclusive às vezes os enfrentam de forma bem ousada.
trata cie abrir mão de educar as crianças, mas sim de K bem por isso que tantas dessas narrativas permane-
evitar contrabandear intenções pedagógicas sublimi- ceram conosco pelo resto da vida, graças à riqueza que
emprestaram e seguem oferecendo como auxílio diante
nares dentro de seu suprimento de fantasia: aqui elas
cie encruzilhadas e dificuldades q u e continuam se
parecem preferir um território livre de influências
interpondo no caminho.
pedagógicas.
Diana Lichtenstein C o r s o e Mário Corso

Fantasia versus alienação esse tipo de produto, mesmo q u e parcialmente. No


contexto da socialização dos pequenos, as histórias
Ç?S~yl rovavelmente, o maior tabu que temos hoje são uma espécie de linguagem c o m u m entre eles.
,„!'* *. ? na e d u c a ç ã o d a s c r i a n ç a s seja e v i t a r portanto também inclui os itens populares e por vezes
>t }<*'" transparecer nosso pessimismo. Na medida indigestos do cardápio. Se formos muito rígidos na
cio possível, não lhes dizemos claramente o tentativa de preservar nossos filhos, d e i x a n d o - o s
quanto a \ ida é pesada para todos. Mesmo q u e cias distantes das p r o d u ç õ e s q u e s u p o m o s ruins - e
saibam que não vivemos no melhor cios mundos, lhes convenhamos, não e pequena a oferta de programas
infundimos a esperança de que os bons p o d e m salvar de cultura trasb à disposição -. podemos constituir
a situação. Ocultamos, sempre q u e possível, o fato de uma criança alienada daquilo q u e seus semelhantes
que nós mesmos temos certa apreensão de que talvez estão usando para brincar e conversar. Acreditamos
o futuro possa ser ainda pior. Sempre que possível q u e é melhor conhecer um produto de qualidade
douramos a pílula, postergamos a revelação de nossas duvidosa e sofrer seus eleitos, do que se sentir excluído
dúvidas ate que elas descubram sozinhas, e muitas de um grupo por não poder falar sobre um assunto.
v e z e s essa é a causa cie certas d e p r e s s õ e s q u e Corre-se o risco, p o r esse d e s c o n h e c i m e n t o , cie
normalmente ocorrem na adolescência: trata-se de um valorizar algo que não tem valor algum. Ema simples
desencanto abrupto com o mundo. proibição sei irá sublinhar a importância, podendo fazer
Como contrapeso ã sonegação da realidade a que a criança pensar que lá existe algum segredo da vida
tende a educação que fornecemos, a ficção acaba sendo adulta q u e estamos q u e r e n d o lhe sonegar.
uma saída para que certas verdades se imponham. Essa linguagem comum aos pequenos (e muitas
Mesmo que fragmentariamente. ela traz ã tona alguns vezes aos grandes também) tem na televisão sua maior
desses elementos recalcados, por exemplo, através da fonte. A melhor saída parece-nos ser a mais trabalhosa:
violência apocalíptica de certos filmes, quadrinhos e não deixar uma criança cie fora do que o seu tempo
games. Esses produtos não chegaram do espaço sideral, oferece, mas tanto selecionar e oferecer alternativas a
eles são congruentes com o estado da política atual em isso, como também elaborar com ela uma crítica aos
quase todo o mundo, vivemos numa época em que a produtos mais fracos. Tanto a 'IA" quanto os produtos
desigualdade e a violência são epidêmicas e se perpe- de baixa qualidade só podem fazer mal a uma criança
tuam. Infelizmente, não temos a receita de quando, q u e esteja subjetivamente abandonada, e. nesse caso.
quanto e como uma confrontação com as dificuldades tampouco se estivesse exposta somente a programas
do m u n d o deva ser administrada às crianças. De corretos, ela estaria muito melhor. Ou seja. o drama
q u a l q u e r forma, é importante a p o n t a r q u e o q u e aparece q u a n d o uma criança recebe esses produtos
expulsamos pela porta acaba voltando pela janela. culturais, bons ou ruins, adequados ou inadequados,
Q u e fique b e m claro, então, q u e defender a como única fonte de contato com o mundo, quando
importância do recurso à fantasia e à ficção não implica os adultos q u e zelam por ela nao são capazes de fazer
supor que as crianças devam crescer em um ambiente diálogos interessantes e ajudá-las na sua apreensão
de histórias pobres, de um maniqueísmo barato e finais do mundo. Não há produto bom o suficiente que salve
felizes a q u a l q u e r preço. Certamente n ã o estamos uma criança do isolamento e nao ha um produto ruim
fazendo n e n h u m tipo de libelo às v a n t a g e n s da o bastante que possa prejudicar aquela que estiver
alienação e do bovarismo. Defendemos a importância conectada com um ambiente estimulaclor.
da ficção p o r crer q u e a c a p a c i d a d e de criar e Justamente, uma das questões mais equivocadas
questionar se nutre da mesma fonte que a de devanear. em relação às questões que estamos desenvolvendo é
Parcos recursos imaginários redundam somente em o exagero (juanto ao alcance do poder da ficção na
pobreza de espírito e numa civilidade bovina. subjetividade em geral e particularmente na infância,
Infelizmente, nem só de boas histórias vive a q u a n d o a pretensa influência seria ainda maior. A
infância. Seguidamente, obras de ostensiva estética tendência de hoje é localizar a origem dos problemas
kilscb, envolvendo personagens populares da mídia das crianças não na forma em q u e elas estão vivendo
ou simplesmente lançando mão de roteiros simplórios, realmente sua infância, seus possíveis mal-estares em
tornam-se moeda corrente entre as crianças. Como relação aos amigos, à escola e à família, mas em
nenhuma criança vive sem relação com as outras, sejam influências parciais sobre sua vida, e uma delas seria
vizinhos, colegas de escola ou parentes da mesma proveniente do m u n d o da fantasia. Como cada geração
idade, é impossível evitar q u e tenham contato com tem recebido novos produtos, a geração dos pais
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raramente c o m p r e e n d e o q u e de fato seus filhos estão boa capacidade de simbolização. Uma pesquisa em
consumindo, isso já gera uma primeira desconfiança. extensão sobre a ampla gama da oferta de ficção para
Parece-nos que esse mal-entendido entre os adultos as crianças não era nosso objetivo e sim um estudo
e os produtos culturais consumidos por jovens e crianças focando certas tramas a partir das quais pudéssemos
provém do fato de os pais de hoje não se sentirem falar de crianças, de psicanálise e das boas histórias
legitimados como influência dominante no resultado da de ficção com seus possíveis benefícios.
educação do seu filho. Por isso, projetam sua insuficiência, A história real dos h o m e n s nunca foi fácil de
seus medos, sua insegurança quanto aos valores no aceitar. A violência, a ignorância e a injustiça triunfam
primeiro alvo que passar, se sentindo isentos de culpas e com maior freqüência do que gostaríamos de admitir.
vendo abrandadas suas obrigações. Não se deve esquecer Pelo m e n o s , nossa capacidade de criar, de contar
de que as histórias somente mobilizam algo que as histórias, parece ter encontrado formas de sobreviver
crianças já têm em seu interior, e a constituição de sua e questionar. Afinal, certa dose de otimismo é possível,
personalidade se dá a partir do que sua família lhe pois. embora a ficção não tenha o poder de salvar o
transmite, consciente e inconscientemente. m u n d o , c o m o tantos heróis c o n t e m p o r â n e o s têm
1. necessário fazer uma advertência antes de tentado, ela pelo menos o enriquece. Esperamos com
encerrar. Xosso estudo p o d e passar um certo otimismo este livro ter contribuído um p o u c o para a legitimação
quanto á qualidade dos produtos da indústria cultural da fantasia c o m o parte imprescindível na vida das
para a infância, afinal analisamos e encontramos bons crianças, assim como ter oferecido aos adultos algumas
indicadores em alguns deles, mas é bom frisar que pistas para c o m p r e e n d e r por q u e alguns contos e
aqui não houve uma análise ampla da cultura oferecida histórias infantis disputam espaço em suas memórias
hoje às crianças. Estamos na verdade longe disso, temos com fatos, ditos e imagens do seu passado.
poucos exemplos e trabalhamos justamente com lassas histórias atiraram por uma poria, saíram
histórias que sabíamos serem capazes de propiciar uma pela outra... e quem quiser que conte outras'