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Ao leitor – carta de Bourdieu no início de A Miséria do Mundo. (pp.

9 e 10)

Preceito Spinoza: não deplorar, não rir, não detestar, mas compreender.

Como fornecer os meios de compreender, isto é, de tomar as pessoas como elas são, senão
oferecendo-lhes os instrumentos necessários para os apreender como necessários, por deles
necessitar, relacionando metodicamente às causas e às razões que elas têm de ser como são?
Mas como explicar sem alfinetar? Como evitar, por exemplo, de dar à transcrição da conversa,
com seu preâmbulo analítico, o procedimento de um caso clínico precedido de um diagnóstico
classificatório? A intervenção do analista é tão difícil quanto necessária: ela deve ao mesmo
tempo declarar-se sem a menor dissimulação e trabalhar sem cessar para fazer-se esquecer.

Na transcrição da própria entrevista, que faz o discurso oral passar por uma transformação
decisiva, o título e os subtítulos (sempre tomados das palavras dos entrevistados) e sobretudo
o texto que fazemos preceder o diálogo, estão lá para direcionar o olhar do leitor para os
traços pertinentes que a percepção distraída e desarmada deixa escapar. Eles têm a função de
lembrar as condições sociais e os condicionamentos, dos quais o autor do discurso é o
produto, sua trajetória, sua formação, suas experiências profissionais, tudo o que se dissimula
e se passa ao mesmo tempo no discurso transcrito, mas também na pronúncia e na entonação,
apagadas pela transcrição, como toda a linguagem do corpo, gestos, postura, mímicas, olhares,
e também nos silêncios, nos subentendidos e nos lapsos.

Mas o analista não pode esperar tornar aceitáveis suas intervenções mais inevitáveis senão ao
preço do trabalho da escrita que é indispensável para conciliar objetivos duplamente
contraditórios: fornecer todos os elementos necessários à análise objetiva da posição da
pessoa interrogada e à compreensão de suas tomadas de posição, sem instaurar com ela a
distância objetivante que a reduziria ao estado de curiosidade entomológica; adotar um ponto
de vista tão próximo quanto possível do seu sem projetar-se indevidamente nesse alter ego
que é sempre, queiramos ou não, um objeto, para se tornar abusivamente o sujeito de sua
visão do mundo. E ele nunca terá conseguido tão bem, em seu empreendimento de
objetivação participante, senão quando chega a dar as aparências da evidência e do natural,
até da submissão ingênua ao dado, a construções totalmente habitadas por sua reflexão
crítica.

Em “Os espaços dos pontos de vista”, Bourdieu afirma que as entrevistas do volume A miséria
do mundo foram concebidas e construídas como conjunto auto-suficiente, suscetíveis de
serem lidas isoladamente. Espera-se, segundo o autor, produzir dois efeitos: mostrar que os
lugares ditos “difíceis” (como o conjunto habitacional ou a escola) são, primeiramente, difíceis
de descrever e de pensar e que é preciso substituir as imagens simplistas e unilaterais (aquelas
que a imprensa sobretudo veicula), por uma representação complexa e múltipla, fundada na
expressão das mesmas realidades em discursos diferentes, às vezes inconciliáveis; e, à maneira
de romancistas como Faulkner, Joyce ou Virginia Woolf, abandonar o ponto de vista único,
central, dominante, em suma, quase divino, no qual se situa geralmente o observador e
também seu leitor, em proveito da pluralidade de suas perspectivas correspondendo à
pluralidade dos pontos de vista coexistentes e às vezes diretamente concorrentes.
Menção à peça “O contrabaixo”, de Patrick Süskind (contrabaixista no meio da orquestra em
posição inferior e obscura no interior de um universo prestigioso e privilegiado.

“Estabelecer a grande miséria como medida exclusiva de todas as misérias é proibir-se de


perceber e compreender toda uma parte de sofrimentos característicos de uma ordem social
que tem, sem dúvida, feito recuar a grande miséria mas que, diferenciando-se, tem também
multiplicado os espaços sociais (campos e subcampos especializados), que têm oferecido as
condições favoráveis a um desenvolvimento sem procedentes de todas as formas da pequena
miséria.

Patrick Champagne – A visão mediática (63-79)

Os mal-estares sociais não têm uma existência visível senão quando se fala deles na mídia, isto
é, quando são reconhecidos como tais pelos jornalistas. Eles não se reduzem apenas ao mal-
estares sociais mediaticamente constituídos, nem, sobretudo, à imagem que os meios de
comunicação dão deles, quando os percebem. (...) Os mal-estares não são todos igualmente
“mediáticos”, e os que o são sofrem inevitavelmente um certo número de deformações a
partir do momento em que são tratados pela mídia porque, longe de se limitar a registrá-los, o
tratamento jornalístico fá-los experimentar um verdadeiro trabalho de construção, que
depende muito amplamente dos interesses próprios deste setor de atividade. (...) A maneira
pela qual os meios selecionam e tratam esses mal-estares diz pelo menos tanto sobre o meio
jornalístico e sua maneira de trabalhar quanto sobre os grupos sociais a que dizem respeito. (p.
63)*
N.R.: estes mal estares midiaticamente postos em cena podem dar por vezes uma imagem
bastante fantasista da realidade. (p. 63)

A fabricação do “acontecimento”

Os jornalistas, seja qual for o meio em que trabalham, lêem-se, se ouvem e se olham muito
entre eles. (...) A mídia age sobre o momento e fabrica coletivamente uma representação
social que, mesmo quando está muito afastada da realidade, perdura apesar dos desmentidos
ou das retificações posteriores porque ela nada mais faz, na maior das vezes, que reforçar as
interpretações espontâneas e mobiliza, portanto, os prejulgamentos e tende, por isso, a
redobrá-los. Além disso, é preciso levar em conta o fato de que a televisão exerce um efeito de
dominação muito forte dentro do próprio campo jornalístico porque sua ampla difusão –
sobretudo no que diz respeito aos jornais televisados – confere-lhe um peso particularmente
forte na constituição da representação dominante dos acontecimentos. (...) Enfim, as imagens
exercem um efeito de evidência muito poderoso: mais sem dúvida que o discurso , elas
parecem designar uma realidade indiscutível, se bem que elas sejam igualmente o produto de
um trabalho mais ou menos explícito de seleção e de construção. Embora a televisão se
alimente em grande parte da imprensa escrita ou das mesmas fontes que ela, tem uma lógica
de trabalho e leis específicas que pesam muito na fabricação dos acontecimentos. (p.64)

Um falso objeto

O que chamamos um “acontecimento” não é senão o resultado da mobilização – que pode ser
espontânea ou provocada – dos meios de comunicação em torno de alguma coisa que elas
concordam, por certo tempo, a considerar como tal. Quando são populações marginais ou
desfavorecidas que atraem a atenção jornalística, os efeitos da mediatização estão longe de
ser os que esses grupos sociais poderiam esperar porque os jornalistas dispõem, nesses casos,
de um poder de constituição particularmente importante, e a fabricação do acontecimento
foge quase totalmente a essas populações. (p. 66, 67)

Os dominados são os menos aptos a poderem controlar sua própria representação. O


espetáculo de sua vida quotidiana não pode ser, para os jornalistas, senão ordinário e sem
interesse. Porque eles são desprovidos de cultura, e além disso incapazes de se exprimir nas
formas requeridas pela grande mídia. (p. 68)

A mídia fabrica para o grande público, que não está diretamente ligado a uma apresentação e
uma representação dos problemas que enfatizam o extraordinário. Isto tende a reter somente
as ações violentas, os confrontos com a polícia, os atos de vandalismo, um supermercado em
chamas ou carros queimando, e a dar de modo misturado, como causas dessas desordens, as
explicações colhidas pela imprensa, os abusos policiais, a desocupação dos jovens, a
delinquência, “as más condições de vida” nos subúrbios (periferias no Brasil), as condições de
moradia, o quadro de vida sinistro, a falta de infra-estrutura para esportes e lazer, a
superconcentração de populações estrangeiras etc (no caso brasileiro, migrantes ). P 69

A defasagem entre a representação da realidade e a realidade como pesquisa mais minuciosas


podem fornecer é ainda mais importante no tratamento televisivo dos incidentes. A atenção
dos jornalistas está mais voltada para os confrontos que para a situação objetiva que os
provoca. Eles se tornam sintomas de uma crise mais geral da sociedade que tende a ser
tratada independentemente das situações concretas. *(p. 72)
N.R.:* Em tal contexto, todo acontecimento diferente tende a ser lido pelos jornalistas, que
nele descobrem um fio a puxar ou um bom filão a explorar, a partir de esquemas do racismo e
das más condições de vida dos subúrbios. (p.72)
Paradoxalmente, os jornalistas, em suas pesquisas locais, dão pouca importância aos dados
locais. É porque o acontecimento mediático que eles fabricam pode funcionar como uma
espécie de teste projetivo junto aos diferentes atores sociais que eles interrogam, cada um
podendo ver nisso a confirmação do que ele pensa há longo tempo. (PP. 72, 73)

A estigmatização

Embora a maioria dos jornalistas rejeitem e condenem as práticas mais duvidosas da profissão
e reconheçam a existência inevitável de vieses, mesmo em um tratamento da informação que
se pretende honesto, eles pensam que, apesar de todas essas dificuldades e de todas essas
deformações, nada é pior que o silêncio. Mesmo se, dizem eles, a mídia não abordou como
teria sido necessário o problema dos subúrbios, mesmo se eles admitem ter privilegiado certos
aspectos marginais ou menores porque sensacionalistas, em detrimento da realidade ordinária
e cotidiana, resta que eles julgam ter sido úteis pelo simples fato de terem, pelo menos,
contribuído para tornar públicos esses problemas. Um tal otimismo parece pelo menos
excessivo porque não leva em conta especialmente os efeitos de ordem simbólica que são
particularmente poderosos quando se exercem sobre populações sem cultura. (p. 73)
Os jornalistas são repelidos pelos jovens delinqüentes que não querem ser reconhecidos nem
fichados pela polícia. Mas são rejeitados também pela população desses conjuntos que se vê
fabricada, nas reportagens televisivas e nos artigos dos jornais, uma imagem particularmente
negativa do subúrbio. Longe de ajudar os habitantes desses subúrbios, a mídia contribui,
paradoxalmente, para a sua estigmatização. (p. 73)

Esta estigmatização, que é, sem dúvida, involuntária e resulta do próprio funcionamento do


campo jornalístico, se estende muito além dos acontecimentos que a provocam e marca
dessas pessoas mesmo quando elas estão fora de seus bairros. (p. 73)

Remédios “mediático-políticos”

Portanto a mídia doravante faz parte integrante da realidade ou, se se preferir, produz efeitos
de realidade criando uma visão mediática da realidade que contribui para criar a realidade que
ela pretende descrever. Sobretudo as desgraças e as reivindicações devem exprimir-se
mediaticamente para vir a ter uma existência publicamente reconhecida e ser, de uma
maneira ou de outra, levada em conta pelo poder político. A lógica das relações que se
instauraram entre os atores políticos, os jornalistas e os especialistas em “opinião pública”
chegou a ser tal que, politicamente, é muito difícil agir fora da mídia, ou, a fortiori, contra ela.
É porque a imprensa jamais deixou indiferente o poder político, o qual procura controlar o que
se chama “atualidade” quando ele não contribui, com a ajuda de seus adidos de imprensa para
ele mesmo fabricá-la. Os responsáveis políticos não gostam de ser surpreendidos,
ultrapassados, pelos acontecimentos e ficam em vigília para não serem pegos de surpresa e
obrigados, na urgência e sob pressão, à definição e ao tratamento dos problemas sociais na
ordem do dia. Em suma, eles querem ficar senhores de sua agenda e temem, de modo
particular, os acontecimentos que surgem de maneira imprevisível (um incidente local que
degenera) e se encontram no primeiro plano da atualidade política porque a imprensa escrita
e os jornais televisivos dele se apoderarem. (p. 75)

O poder teme particularmente a produção (ou co-produção) pela mídia desse tipo de
acontecimentos, às vezes sustentados pelos jornalistas quando entregues às únicas leis que
regem o funcionamento do campo jornalístico (entusiasmo mediático, importunação dos
jornalistas, dramatizacão etc.) porque, mesmo muito momentaneamente, eles podem tomar
uma dimensão política considerável que corre o risco de confundir os responsáveis. (p. 75)

(...) a luta está localizada principalmente no terreno mediático e tende a permanecer aí,
enquanto o poder cria, com a ajuda de especialistas em comunicação, estratégias que visem a
por fim à agitação mediática e, em consequência, à agitação mediática e, em conseqüência, à
agitação em si. (p. 76)

As aparências sempre dão razão às aparências. (p. 77)