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A EFETIVIDADE DO DIREITO: UM ESTUDO DAS VISÕES DOS OPERADORES E

PARTES SOBRE O SISTEMA DE JUSTIÇA DE PORTO ALEGRE

Letícia Ribas Camargo*1

Sumário: Introdução – 1 Estrutura da Norma – 1.1 Considerações gerais e


preliminares – 1.2 Da validade da norma – 1.3 Da vigência da norma – 1.4 Da eficácia da
norma – 2 O problema da efetividade – 2.1 O Sistema de Justiça – 2.2 O Acesso à Justiça –
2.3 A realidade social – 2.4 Métodos alternativos para solução de conflitos judiciais – 3 O
Sistema de Justiça na Comarca de Porto Alegre – 3.1 Método de pesquisa utilizado na coleta
de dados – 3.2 A visão dos Juízes – 3.3 A visão dos Promotores de Justiça – 3.4 A visão da
Defensoria Pública – 3.5 A visão dos Advogados – 3.6 A visão dos Delegados de Polícia –
3.7 A visão dos Policiais Civis – 3.8 A visão das partes do processo – 4 Conclusão – 5
Referências
Resumo: Este trabalho tem como objetivo avaliar a efetividade do Direito no Sistema
de Justiça na Comarca de Porto Alegre. Primeiramente, serão abordados os elementos
formadores da norma tendo como embasamento teórico a Teoria Tridimensional do Direito
elaborada por Miguel Reale. Após, será feita a descrição da estrutura do Sistema de Justiça
como um todo para verificar se há efetivo acesso à justiça pela sociedade. Por fim, através de
questionários, aplicou-se uma pesquisa empírica junto às partes e os operadores do direito
para conhecer as suas respectivas visões sobre o papel que desempenham dentro do Sistema
de Justiça bem com suas visões acerca dos demais operadores. A temática da insuficiente
eficácia do direito está presente no cotidiano da vida social, exigindo a busca de maiores
estudos que apontem para novas soluções para o efetivo acesso à justiça.
Palavras-chave: Sistema de Justiça. Efetividade do direito. Acesso à justiça.

INTRODUÇÃO

O Sistema de Justiça vem perdendo a sua credibilidade ao longo dos anos perante a
sociedade brasileira. O acesso à justiça é teoricamente igual para todos. No entanto, as
desigualdades econômicas e sociais acentuam a desigualdade de acesso à justiça. Em
conseqüência, vem se propagando uma imagem negativa a respeito da Justiça, percebida
como ultrapassada, distante da população, elitista, não-confiável, inacessível, burocrática e

1
Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
1

ineficiente. Esta opinião é principalmente difundida entre as classes populares as que mais
sofrem barreiras tanto financeiras como sociais na busca de acesso à justiça.

No primeiro capítulo, utilizamos o referencial teórico da Teoria Tridimensional do


Direito formulada por Miguel Reale. Os conceitos de validade, vigência e eficácia são
relevantes para a estrutura da norma, e por isso, serão abordados neste capítulo. O segundo
capítulo versa sobre o problema da efetividade do direito no Sistema de Justiça, analisando-se
primeiramente o que se entende por “sistema de justiça”, para após verificar se a garantia
constitucional fundamental de acesso à justiça é efetiva. No terceiro capítulo, relatamos o
resultado da nossa pesquisa junto aos operadores do direito (advogados, promotores, juízes,
defensores públicos, delegados de polícia, policiais civis e partes) sobre a efetividade do
Sistema de Justiça refletindo a visão desses agentes.

1. ESTRUTURA DA NORMA

1.1 Considerações gerais e preliminares:

A estrutura da norma caracteriza-se por representar a valoração de fatos feita pela


comunidade jurídica, uma vez que o homem traça as regras jurídicas de convivência social
segundo critérios axiológicos, em razão dos quais é medida a importância que possuem para
o relacionamento humano2. A partir dessa estrutura, ocorrerá a incidência da norma jurídica,
ou seja, a transformação de um fato em algo juridicamente relevante. Somente após é que se
verificará a ocorrência ou não dos efeitos jurídicos ou melhor dizendo, da eficácia jurídica.

Há de se distinguir assim três elementos formadores da estrutura da norma: validade,


vigência e eficácia. A norma jurídica enuncia um “dever-ser”, isto porque nenhuma regra
descreve algo que é, mas o que deve ser3. A Teoria Tridimensional do Direito formulada por
Miguel Reale postula que o fenômeno direito apresenta-se através de três aspectos
inseparáveis e distintos entre si: o axiológico (que envolve o valor de justiça), o fático (que
trata da efetividade social e histórica) e o normativo (que compreende o ordenamento, o
dever-ser). O que há de se considerar nessa teoria é em relação à estrutura da norma4.

1.2 Da validade da norma:

2
MELLO, Marcos Bernardes de. Teoria do Fato Jurídico. Plano da Existência. São Paulo: Saraiva, 2003. p. 40
3
REALE, Miguel. Lições preliminares de Direito. São Paulo: Saraiva, 2002. p. 95
4
Idem. Teoria Tridimensional do Direito. São Paulo: Saraiva, 1994. p. 25.
2

O conceito de validade está ligado a algo que é legítimo, característica que é atribuída
aos atos e às coisas feitas conforme as leis, ou segundo suas regras. É a qualidade da norma
jurídica que é legítima, não viciada nem atacada de defeito que a torne nula ou ineficaz e que
foi elaborada conforme as regras legislativas5. Diz-se válido o ato jurídico cujo suporte fático
é perfeito, em que não haja falta de qualquer elemento complementar. Este conceito pode ser
melhor entendido através da leitura do art. 6º, § 1º da Lei de Introdução ao Código Civil,
Decreto-Lei nº 4.657, de 4-9-1942. “A lei em vigor terá efeito imediato e geral, respeitados o
ato jurídico perfeito, o direito adquirido e a coisa julgada”. Conclui-se com isso, que o
pressuposto essencial da validade ou invalidade é a existência do fato jurídico.

Outro plano em que a validade pode ser aplicada é o da Sociologia Jurídica, pelo qual
essa palavra possui o mesmo significado que efetividade, no sentido de eficácia ou validade
do direito. No entanto, o emprego deste sentido pode causar confusão, pois a palavra eficácia
possui aspectos mais específicos, tais como eficácia jurídica (efeitos decorrentes dos fatos
jurídicos) e eficácia normativa (incidência da norma jurídica sobre seu suporte fático, criando
o fato jurídico). E, sobre esse tema que versará o último item deste capítulo.

E, por último, a validade no sentido jurídico é a qualificação que se atribui a atos


jurídicos, inclusive os de natureza legislativa, que são conformes com o direito de uma
determinada sociedade, e que não contenham quaisquer vícios que os tornem defeituosos. Sob
este aspecto, o ato jurídico será válido ou inválido, e assim passível de anulação.

Observados esses aspectos, o estudo do problema da validade da norma jurídica vai


além da análise de seus pressupostos processuais. Deve-se fazer um exame de sua existência
enquanto norma jurídica, independentemente do valor (se é ou não justa), mas sim se há o
cumprimento pelo destinatário de seu objetivo (se há eficácia ou não) 6. De acordo com o
jurista Tércio Sampaio Ferraz Júnior, a problemática que envolve a validade da norma
jurídica é uma questão de saber quando uma norma é reconhecida como válida para o
ordenamento, a partir de que momento e até quando os produz, se os produz mesmo quando
não pode ser tecnicamente reconhecida como válida7.

5
FERREIRA, Megbel Abdala Tanus. Op. cit. p. 3.
6
LEITE, Op. cit. p. 26.
7
FERRAZ JUNIOR, Tércio Sampaio. Introdução ao estudo do direito: técnica, decisão, dominação. São
Paulo: Atlas, 1994. p. 196.
3

Esclarecida essa distinção, a independência dos critérios fica melhor demonstrada


através da enumeração de seis proposições diferentes formuladas por Norberto Bobbio:

a) Norma justa e inválida: As normas de direito natural (sistema de normas extraído de


princípios jurídicos universais) são justas, mas podem não ser válidas, uma vez que a validade
de uma norma exige o seu acolhimento pelo direito positivo.

b) Norma válida e injusta: Nos sistemas jurídicos primitivos, a escravidão era regulada
positivamente, isto é, juridicamente válida, mas ninguém atualmente reconhece que essas
normas consagrando o regime da escravidão eram justas.

c) Norma válida e ineficaz: Há normas que estão positivadas expressamente, ou seja, são
juridicamente válidas, mas não são cumpridas pelos destinatários. E que, assim sendo, entram
no desuso, pois lhes falta a eficácia técnica. É o caso da assistência judiciária gratuita prevista
no art. 203 da Constituição Federal. Apesar de existir nem todos que necessitam conseguem
usufruir desse instituto. Esse será um dos focos do nosso trabalho.

d) Norma eficaz e inválida: É o caso das normas de boa educação que, em geral, são
cumpridas espontaneamente, mas não chegam a pertencer a um sistema jurídico, como uma
placa num jardim particular com os dizeres “não pise na grama”.

e) Norma justa e ineficaz: Na grande maioria das vezes uma norma para ser eficaz deve ser
justa. No entanto, existem normas criadas com o objetivo de fazer justiça, mas que na prática
não têm eficácia. Este é o caso da licença para gestantes. O período de 120 dias que a mulher
possui para retornar ao trabalho é justo, mas os empregadores muitas vezes preferem contratar
homens para não dispender com esses gastos ou até mesmo demitir a funcionária, como no
caso da empregada doméstica que não tem a garantia de que seu cargo estará assegurado.

f) Norma eficaz e injusta: O fato de uma norma ser respeitada, não significa, por si só, que ela
seja justa ou injusta. Assim como foi citado o regime de escravidão em que as normas eram
eficazes e válidas, mas não eram justas. Atualmente no Brasil existem inúmeras normas que
não são necessariamente justas, mas eficazes. É o caso do chamado “toque de recolher” na
periferia do Rio de Janeiro ordenado pelos traficantes.

Sobre o item “c”, no caso em que a norma é válida e ineficaz, dispõe o professor Paulo
Nader:
4

[...] as leis em desuso geram, no espírito de seus destinatários, a incerteza da


obrigatoriedade, quando não conduzem à crença de que deixaram de produzir
efeitos. Todo fator de incerteza é corpo estranho na ordem jurídica, que compromete
o sistema, devendo ser eliminado [...]. 8

1.3 Da vigência da norma:

A vigência é uma propriedade da norma jurídica que está pronta para propagar os
efeitos assim que ocorrerem os fatos previstos em suas hipóteses9. Destaca Ferraz Junior, o
conceito de vigência:

Sancionada a norma legal, para que se inicie o tempo de sua validade, ela deve ser
publicada. Publicada a norma, diz-se então, que a norma é vigente. Vigência é, pois,
um termo como qual se demarca o tempo de validade de uma norma. [...] Vigência
exprime, pois, a exigibilidade de um comportamento, a qual ocorre a partir de um
dado momento e até que a norma seja revogada. Em geral a vigência começa com a
publicação. Mas pode ser postergada. 10

A professora Maria Helena Diniz11 não faz uma distinção entre validade e vigência,
pois considera que vigência tem o mesmo sentido que validade formal. A autora afirma que as
normas nascem com a promulgação, mas só começam a vigorar com sua publicação no Diário
Oficial, que terá efeito erga omnes, ou seja, contra todos, visto que ninguém pode eximir-se
de sua observância, alegando que não a conhece (LICC, art. 3º). O intervalo entre a data da
publicação e o da sua entrada em vigor chamado de vacatio legis, possui dois critérios de
prazos: o progressivo e o único. Pelo prazo progressivo, a lei entra em vigor em diferentes
lapsos de tempo, nos vários Estados do País; já pelo prazo único, a sua obrigatoriedade é
simultânea, porque a norma entra em vigor, a um só tempo, em todo o país, na data prevista
em lei, e se não houver previsão legal, quarenta e cinco dias após sua publicação. E, caso
venha ocorrer correções no texto da lei publicada, durante o período da vacatio legis, e
ocorrendo nova publicação, os prazos mencionados começam a correr da nova publicação.

1.4 Da eficácia da norma jurídica:

O conceito de eficácia tem sido amplamente discutido pela Doutrina já que a palavra
comporta vários significados tais como validade, vigência ou efetividade. No enfoque deste

8
NADER, Paulo. Introdução ao estudo do direito. Rio de Janeiro: Forense, 2002. p. 157.
9
PELÁ, Carlos. A validade e a eficácia das normas jurídicas. Barueri, SP: Manole, 2005. p. 100.
10
FERRAZ JUNIOR, Tércio Sampaio. Op. cit. p. 196.
11
DINIZ, Maria Helena. Compêndio de Introdução à ciência do direito. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 391.
5

trabalho o aspecto principal considerado é o da visão da Sociologia do Direito. Assim, esta é


entendida como “o efeito real, prático, da norma jurídica na sociedade”12.

O professor Tércio Sampaio Ferraz Júnior destaca a existência de duas espécies de


eficácia da norma jurídica, a eficácia social (ou efetividade) e a eficácia técnica:

Uma norma se diz socialmente eficaz quando encontra na realidade condições


adequadas para produzir seus efeitos. Essa adequação entre a prescrição e a
realidade de fato tem relevância semântica (relação signo/ objeto, norma/ realidade
normada). Efetividade ou eficácia social é uma forma de eficácia. Uma norma
também se diz eficaz quando estão presentes certos requisitos técnicos. A dogmática
supõe, neste caso, a necessidade de enlace entre diversas normas, sem os quais a
norma não pode produzir efeitos. A eficácia técnica, no sentido técnico, tem a ver
com a aplicabilidade das normas no sentido de uma aptidão mais ou menos extensa
para produzir efeitos. Como esta aptidão admite graus, pode-se dizer que a norma é
mais ou menos eficaz. Para aferir o grau de eficácia, no sentido técnico, é preciso
verificar quais as funções da eficácia no plano da realização normativa. 13

Para iniciarmos o estudo da eficácia jurídica da norma, no sentido técnico, é


importante destacar-se o pensamento do professor Marcos Bernardes de Mello. Segundo este,
caso a norma exista com vigência e validade, poderá ser eficaz, desde que se concretizem no
mundo os fatos que constituem seu suporte fático14. Isto quer dizer, que, se os fatos previstos
pela norma como seu suporte fático não se materializarem, integralmente, no plano da
realidade, a norma jamais será eficaz, pois o pressuposto essencial para ocorrência da eficácia
é justamente a concreção de todos os elementos descritos como sendo o suporte fático. É
nesse sentido que a eficácia técnica pode ser classificada em relação ao seu modo de
incidência.

Feitos os apontamentos necessários para a qualificação da eficácia chamada no sentido


técnico, resta fazer a sua distinção através do estudo da eficácia social ou a efetividade
jurídica da norma. Na visão de Sérgio Cavalieri Filho uma lei só é eficaz quando tem força o
suficiente para realizar os efeitos sociais para os quais foi elaborada15. E esta mesma lei só
terá força quando for adequada às realidades sociais e às necessidades do grupo. 16

Cada sociedade apresenta uma realidade singular, pois sofreu um processo histórico-
cultural próprio, nacional. A relação desta com o Direito deveria ser recíproca, pois o direito é
um fato social advindo das realidades observáveis da sociedade, que funciona como

12
LEITE, Carlos Henrique Bezerra. Op. cit. p. 35.
13
FERRAZ, Op. cit. p. 197-8.
14
MELLO, Marcos Bernardes de. Teoria do Fato Jurídico. Plano da Eficácia. São Paulo: Saraiva, 2004. p. 17.
15
CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de Sociologia Jurídica. Rio de Janeiro: Forense, 2005. p. 83.
16
NADER, Paulo. Op. cit. p. 27.
6

instrumento institucionalizado para o controle social17. No entanto, a mudança jurídica nem


sempre acompanha a mudança social.

Contudo, não há como se negar a interação existente entre o Direito e a realidade


social. Tanto ela ocorre, que o Direito tornou-se também um fator condicionante dessa mesma
realidade. Ele exerce a sua influência nas mais variadas formas socioculturais, como na
política, na economia, na religião, na arte, entre outras manifestações coletivas. Cabe assinalar
que com a adequada legislação pode-se favorecer ou desfavorecer o desenvolvimento de todas
áreas da sociedade. Isto se dá desde a concessão de vantagens, limitações de poderes e
garantias legais. Tudo pode ser influenciado pela ordem jurídica e vice-versa.

2 O PROBLEMA DA EFETIVIDADE:

2.1 O Sistema de Justiça:

O Sistema Judiciário tem um papel fundamental na sociedade, pois cabe a ele a


aplicação da lei e a garantia dos direitos individuais e coletivos. É ele o principal guardião das
liberdades e da cidadania18. O Judiciário exerce duas funções principais prescritas na atual
Constituição Federal: a de poder de Estado e a de prestador de um serviço. Em ambos os
casos caberá ao Judiciário a distribuição de justiça.

A discussão sobre o conceito de justiça nunca será pacífica, pois contrapõe valores
próprios que cada um escolhe como sendo os legítimos. No contexto de uma sociedade
diversificada, cada indivíduo busca realizar as suas necessidades e ver reconhecida a sua
concepção de justiça. Diante dessas disputas, o Judiciário tem a função de tentar atingir uma
meta – a mais perfeita possível de justiça – adequada à consciência ética e social de sua
época, como meio de resolver os conflitos e pacificar a sociedade. Como o autor citado bem
explicita, o comprometimento do sistema jurídico deve direcionar-se, acima de todas as
questões organizacionais e processuais, para a prestação jurisdicional célere e a solução mais
imediata do conflito social. Isto, no entanto, jamais poderá ser um objetivo em si mesmo que
resulte, ao contrário, em consumação da injustiça, intolerável diante de quaisquer vicissitudes
de recursos materiais ou humanos por que possa passar o Judiciário.

17
ROSA, Felippe Augusto de Miranda. Sociologia do Direito. O fenômeno jurídico como fato social. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 2004. p. 44.
18
SADEK, Maria Tereza. Acesso à Justiça. São Paulo: Fundação Konrad Adenauer, 2001. p. 7.
7

O professor Boaventura aponta os principais obstáculos de acesso à justiça enfrentados


pelas classes populares como sendo basicamente três: de cunho econômico, social e cultural19.
No tocante à barreira econômica, o problema pode ser desde logo identificado no início da
demanda judicial. Os custos para se interpor uma ação são dos mais variados. Além destes, a
parte deverá contratar um advogado e pagar seus honorários.

Além da dificuldade financeira, existe uma outra barreira ligada a fatores sociais e
culturais. O problema inicia-se na identificação de um direito. Os cidadãos de menores
recursos tendem a desconhecer os seus direitos, e, portanto, não sabem que a justiça deveria
ser o meio para solucionar os seus problemas20. Outra hipótese é de que a pessoa saiba de seu
direito, mas acabe hesitando em procurar o judiciário, por não possuir recursos financeiros
para ter uma representação digna e eficaz; ou ainda por puro e simples temor de uma possível
represália.

O autor verifica também, que apesar de a pessoa reconhecer o seu direito e estar
disposta a interpor uma ação, isso não é suficiente para que a iniciativa de fato seja tomada.
Isto porque, quanto mais baixo é o status social de uma pessoa, a probabilidade de que
conheça advogados ou se relacione com pessoas do meio jurídico, ou até que saiba onde e
como contatar um advogado é muito pequena. Assim, o conjunto desses fatores acaba por
afastar a população do Sistema de Justiça.

O Sistema de Justiça é mais amplo do que o Poder Judiciário, em que o juiz é apenas
uma peça de um todo maior21. Este “todo” envolve diferentes operadores do direito, tais
como: o advogado, pago ou dativo, o delegado de polícia, os funcionários de cartório, o
promotor público e, por fim, o juiz. No entanto este Sistema de Justiça (que aparentemente é
autônomo), limita-se a aplicar e interpretar a lei, elaborada pelo Poder Legislativo.

O conjunto destes fatores acarreta o maior dos problemas do Sistema de Justiça na


atualidade, a sua morosidade, e assim, por conseqüência, a falta de efetividade. O professor
Jasson Ayres afirma “não ter acesso ao Poder Judiciário ou tê-lo e não conseguir obter com a

19
SANTOS, Boaventura de Souza. Introdução à sociologia da administração da justiça. In FARIA, José
Eduardo (Org.) Direito e Justiça: a Função Social do Judiciário. São Paulo: Ática 1997. p. 46.
20
SANTOS, Op. cit. p. 48.
21
SADEK, Op. cit. p. 12.
8

presteza desejada a reposição do direito no seu devido lugar e no tempo exigido representa a
própria negação da justiça”. 22

Isto seria inadmissível, visto que está consagrado na atual Constituição Federal o
princípio da universalidade da jurisdição ou da inafastabilidade do Poder Judiciário, em seu
art. 5º, inc. XXXV: “A lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a
direito”. Ficou determinado, em nível constitucional, a configuração do direito processual não
só como mero conjunto de regras acessórias de aplicação do direito material, mas sim como
instrumento público de realização da justiça23. Além desta garantia, a Constituição Federal
assegurou a todos os cidadãos as regras do devido processo legal. Entende-se por este, como
sendo o conjunto de garantias constitucionais que asseguram às partes o exercício de suas
faculdades e poderes processuais, que são indispensáveis ao correto exercício de jurisdição24.

2.2 O Acesso à Justiça:

O sistema de assistência jurídica adotado hoje no Brasil é fruto das transformações


histórico-políticas ocorridas ao longo dos anos. É possível traçar-se três momentos distintos
deste processo de assistência jurídica25: primeiro, até a promulgação da lei 1.060/50, que
regulamentou pela primeira vez a assistência judiciária; um segundo momento, que vai da
década de 50 até a Constituição Federal de 1988, quando a assistência judiciária envolvia
apenas os atos do processo; e um terceiro, marcado pelas mudanças trazidas pela Constituição
Federal de 1988.

O marco da assistência judiciária brasileira deu-se com o advento da lei 1.060/50 que
criou e organizou as bases para este instituto. Apesar de não ter caracterizado a assistência
judiciária como sendo dever do Estado, e nem o acesso à justiça como um direito fundamental
para o exercício da cidadania, definiu os princípios que até hoje perduram no funcionamento
da assistência jurídica, como os conceitos de beneficiário e necessitado26.

Contudo, a expressão “acesso à justiça” não significa dizer somente a mera admissão
do processo ou possibilidade de ingresso em juízo, mas sim a realização efetiva da finalidade

22
Ibidem. p. 49.
23
GRINOVER, Ada Pelegrini. Teoria Geral do Processo. São Paulo: Malheiros, 2003. p. 80.
24
Ibidem. p. 82.
25
CUNHA, Luciana Gross Siqueira. Acesso à Justiça e assistência jurídica em São Paulo. In: SADEK, Maria
Tereza, Op. cit. p. 156.
26
A lei 1.060/50 define a prestação de assistência judiciária como concessão do Estado (artigos 1º e 5º), e o
caracteriza enquanto serviço caritativo, do qual irá gozar o necessitado.
9

do processo, a solução do conflito e a busca pela justiça. Para que isto ocorra, faz-se
necessário a observância de quatro aspectos, assim divididos pela professora Ada Pelegrini27:
primeiramente, há de ocorrer a admissão do processo em juízo, sendo oferecido o benefício da
assistência judiciária gratuita aos que possuem dificuldades financeiras. Após o recebimento,
no desenrolar de todo o processo, é preciso que haja observância dos princípios que regem o
devido processo legal, para que as partes tenham as mesmas oportunidades de se defenderem
na busca de seus direitos.

Nesta mesma linha de pensamento, a professora Ana Lúcia Sabadell faz uma distinção
do que seja o acesso à justiça, em duas acepções28. A primeira é o acesso formal – grifo da
autora – à justiça, que consiste na possibilidade legal de se acionar o judiciário em caso de
conflito, devido à existência de leis que tutelam direitos e de órgãos que efetivam esta tutela,
tendo como embasamento legal o dispositivo do art. 5º, incisos XXXV, LIV, LV. A segunda
hipótese é a do acesso efetivo –grifo da autora – à justiça, que consiste na possibilidade real
de pedir proteção judiciária.

O Estado com isso, assumiu para si a responsabilidade de prestação da assistência


judiciária aos necessitados, ficando definida a Defensoria Pública como a instituição própria
para cumprir essa função, à qual foram conferidas as mesmas garantias e prerrogativas das
demais instituições essenciais ao funcionamento da Justiça29.

2.3 A realidade social:

As relações entre o direito e as transformações modernizadoras ocorridas na sociedade


brasileira, tiveram maior destaque a partir do final da década de 50 e início da década de 60.
O professor Boaventura assim ilustra este período:

Foi neste contexto que as desigualdades sociais foram sendo recodificadas no


imaginário social e político e passaram a constituir uma ameaça à legitimidade dos
regimes políticos assentes na igualdade de direitos. A igualdade dos cidadãos
perante a lei passou a ser confrontada com a desigualdade da lei perante os cidadãos,
uma confrontação que em breve se tornou num vasto campo de análise sociológica e
de inovação social centrado na questão do acesso diferencial ao direito e à justiça
por parte das diferentes classes e estratos sociais. 30

Nestas considerações sobre a relação entre o direito e a realidade social cabe


registrar que os indivíduos e grupos sociais têm procurado outros meios de solução de litígios.

27
GRINOVER, Op. cit. p. 34.
28
SABADELL, Ana Lúcia. Manual de Sociologia Jurídica. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005. p. 213.
29
Constituição Federal de 1988, art. 135.
30
Ibidem. p. 46.
10

A falta de credibilidade no judiciário se agrava diante das decisões que demoram a ser
tomadas, à idéia de que a lei é feita somente para a elite, para os ricos, para os que têm
posse31. As desigualdades no acesso à justiça e na utilização da mesma se acentuaram de tal
maneira que somente com a implantação de meios alternativos para a solução de conflitos é
que esta diferença começou a atenuar-se. A seguir, faremos uma análise destes novos meios.

2.4 Métodos alternativos para solução de conflitos judiciais:

Como já foi abordado anteriormente, o Estado detém o dever de proporcionar a todos


a prestação da assistência judiciária. No entanto, a solução dos conflitos na sociedade pode se
dar através de dois caminhos, um pela via judicial e outro pela via extrajudicial. A segunda
via foi criada como forma de se driblar os obstáculos processuais e o excesso de formalismo
jurídico. São os exemplos destas formas de resolução de conflitos a mediação, a conciliação e
a arbitragem. Apesar destes meios estarem tendo cada vez mais relevância na sociedade e
ganhando maior credibilidade, o presente trabalho tem como objetivo a análise das questões
que estão atinentes ao Sistema de Justiça, ou seja, nos importa saber acerca dos métodos
judiciais disponíveis além dos convencionais.

Mauro Cappelletti e Bryan Garth sugerem procedimentos especiais para as


pequenas causas sob a seguinte óptica:

A violação dos direitos recentemente obtidos pelas pessoas comuns, tais como
aqueles referentes às relações de consumo ou de locação, tendem a dar lugar a um
grande número de causas relativamente pequenas contra (entre outros) empresas e
locadores. A preocupação crescente por tornar esses direitos efetivos, no entanto,
leva à criação de procedimentos especiais para solucionar essas “pequenas
injustiças” de grande importância social. 32

No nosso país este instituto foi criado pela Lei 9.099/05, no âmbito estadual e pela Lei
10.259/01, no âmbito federal. A regulamentação que hoje conhecemos, a lei n. 9.099/95,
trouxe inovações como a exclusão da expressão “pequenas causas”, do nome dos Juizados
Especiais, e a ampliação do âmbito de sua competência ao incluir a área criminal, para as
infrações de menor potencial ofensivo, e a área cível para causas com valor máximo de 40
salários mínimos. Esta lei foi criada segundo Luciana Cunha, a partir da “constatação de que o
cidadão comum, envolvido em causas de reduzido valor econômico ou de menor
complexidade, não encontrava no Poder Judiciário a possibilidade de ter respostas rápidas e

31
SADEK, Op. cit. p. 11.
32
CAPELLETTI, Op. cit. p. 47.
11

33
eficientes” . Visando atender a essas necessidades de maior rapidez e informalidade, o
processo34 nos Juizados Especiais orienta-se pelos critérios da oralidade, simplicidade,
informalidade, economia processual e da celeridade, buscando, sempre que possível, a
conciliação ou a transação35.

Atualmente, esta forma de resolução de conflitos vem ganhando espaço, visto que
diversas universidades locais realizam convênios para a instalação de anexos de Juizados
Especiais Cíveis de fóruns regionais nas dependências da própria universidade conveniada. É
o caso da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e de 20 outras unidades
universitárias paulistas36. A instalação de Juizados Especiais Cíveis, afirma Rosângela Batista,
é uma “iniciativa fundamental não somente para expandir essa nova forma de prestação
jurisdicional, mas revela-se, também, de extrema importância para uma formação prática mais
ampla aos estudantes de cursos jurídicos”. Na PUC-RS, existe tanto o JEC como o SAJUG –
Serviço de Assistência Judiciária Gratuita, que atende tanto no campus Central como no
campus Zona Norte e possui ainda uma unidade localizada na Vila Fátima, com atendimento
às comunidades carentes.

Existem outras experiências alternativas que ainda não foram implementadas na


Comarca de Porto Alegre mas que já estão surtindo efeitos em locais como a cidade de São
Paulo37, que possui, desde agosto, de 1988 o Juizado Itinerante. Este sistema consiste em um
trailer38 que percorre os bairros de periferia da capital paulista e as comunidades mais
distantes das comarcas do interior, dando preferência para as regiões pobres e desassistidas. A
competência39 do Juizado Itinerante segue a mesma lógica do Juizado Especial Cível, e por
isso, dá preferência às causas com valor inferior a 20 salários mínimos. O funcionamento do
Juizado dá-se através de dois trailers. Um que realiza o processo de triagem dos casos que
serão atendidos e que, após a análise, agenda a audiência de conciliação, instrução e

33
CUNHA, Op. cit. p. 44.
34
Art. 2º da Lei nº 9.099/95
35
AZEVEDO, Rodrigo G. Informalização da Justiça e controle social. São Paulo: IBCCRIM, 2000. p. 32.
36
CAVALCANTI, Rosângela Batista. Juizados Especiais Cíveis e faculdades de direito. A universidade como
espaço de prestação de Justiça. In: Sadek, Op. cit. p. 124.
37
CUNHA, Op. cit. p. 52.
38
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. Tipo de casa, adaptado à traseira de um automóvel, utilizado em geral em
acampamentos.
39
CUNHA. p. 53.
12

julgamento, além de providenciar a citação do réu. Enquanto isso, em outro trailer há a


realização das audiências40.

Outro projeto criado na cidade de São Paulo é o CIC – Centro de Integração da


Cidadania41, que se constitui num conjunto de órgãos que são mantidos pela Secretaria da
Justiça e da Defesa da Cidadania do Governo de São Paulo. Estes têm por objetivo a
integração de diversos serviços públicos. O projeto visa à inserção de princípios dos direitos
humanos como forma de atuação do Estado, pois fornece aos cidadãos o acesso aos serviços
estatais. Segundo o autor, “existe a necessidade de aproximar fisicamente o Estado da parcela
excluída da população”. E justamente o papel do CIC seria o de “encurtar” esta distância
física dos órgãos estatais da população da periferia da cidade de São Paulo. Composto por
vários órgãos que prestam serviços públicos, estes são subdivididos pelo tipo de órgão e
serviço a ser prestado à população:42

Pode-se concluir que o Centro de Integração da Cidadania busca facilitar o acesso da


população carente aos serviços públicos, especialmente aos órgãos encarregados de distribuir
justiça, servindo como mediador ou meio de resolução de conflitos43. É o que diz Belisário
dos Santos Jr., em entrevista concedida ao Núcleo de Pesquisa IBCCRIM – Instituto
Brasileiro de Ciências Criminais:

A distinção fundamental a ser feita é entre o conflito e o processo do conflito. O


processo escrito do conflito. O processo é um conjunto de folhas que contém todas
as reclamações anotadas do conflito. E quando se mediatiza o conflito por meio de
papel, em realidade reduz-se o conflito, mas não se resolve o conflito. Têm muito
mais aspectos às vezes são igualmente relevantes, porque, se não atendidos, levarão
à agravação da situação, com a necessidade de outra e mais decisiva ação do Estado.
Então, o conflito tem múltiplos aspectos e a gente pega um, resume, filtra e acha que
solucionando aquilo está tudo bem. Ledo engano. O CIC mostrou muito isso. Por
isso, os operadores do CIC são todos parceiros, inclusive os operadores do direito. O
espaço público do CIC, por todos estes motivos, não poderia ser transformado em
mais um Fórum. 44

Observa-se com isso que os Centros de Integração da Cidadania existentes na cidade


de São Paulo primeiramente encaram o conflito na sua natureza social, para depois processá-

40
Em 1999, foram atendidas no Juizado Itinerante 9.252 pessoas, deram entrada 6.846 processos, foram
realizadas 8.491 audiências e registradas 4.206 sentenças.
41
ARAÚJO, José Renato de Campos. O Projeto CIC (Centro de Integração da Cidadania). Justiça e
comunidades carentes na cidade de São Paulo. In: Sadek, Op. cit. p. 205.
42
Fonte: Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, Governo do Estado de São Paulo – Relatório 1999 –
Centro de Integração da Cidadania. In: Sadek, op. cit. p. 207.
43
ARAÚJO, Op. cit. p. 213.
44
HADDAD, Eneida Gonçalves de Macedo (Org) e outros. Justiça e Segurança na periferia de São Paulo: os
centros de integração da cidadania. São Paulo: IBCCRIM, 2003. p. 53.
13

lo através dos trâmites do sistema jurisdicional. Os operadores do CIC examinam se há ou não


a necessidade de se interpor uma ação para se resolver o conflito. Outro dado importante é a
integração que existe entre todos os órgãos que o constituem. Isto ocorre porque a interação
não é somente de “idéias”, mas também física, ou seja, os operados dividem o mesmo espaço
físico, o que pode facilitar a comunicação entre os órgãos para se alcançar a distribuição de
justiça e sua efetividade real.

3 O SISTEMA DE JUSTIÇA NA COMARCA DE PORTO ALEGRE:

3.1 Método de pesquisa utilizado na coleta de dados:

O método escolhido para a pesquisa das visões dos operadores de direito foi a
survey45. Foram elaboradas diferentes tipos de perguntas para os diferentes operadores do
sistema de justiça (conforma modelos em apêndice), de modo a contemplar as especificidades
do papel de cada profissional e das partes. Todos os questionários foram aplicados de forma
anônima, de modo que os destinatários somente precisaram qualificar os seus dados pessoais
quanto a sexo, idade, cor, religião, escolaridade e profissão.

Assegurado o seu anonimato, realizava-se uma prévia explicação sobre o presente


trabalho e seus objetivos. Após fazia-se a solicitação de colaboração com a pesquisa de modo
que entregassem o questionário totalmente preenchido, para se obter respostas mais confiáveis
e sinceras. Optou-se também por aplicar o questionário na presença do entrevistador,
esclarecendo o sentido das perguntas como forma de colher respostas ainda mais precisas e
consistentes.

As perguntas foram agrupadas em três diferentes tipos46: perguntas abertas – o


respondente escreve uma resposta pessoal, pois o tema pode gerar variadas opiniões;
perguntas fechadas – a pessoa consultada apenas escolhe uma resposta entre “sim” ou “não”;
perguntas escaladas – trata-se de perguntas de múltipla escolha, onde o respondente indica
aquela que melhor corresponde à sua opinião. Em nosso questionário, a questão de caráter
“escalado” pediu para que os entrevistados assinalassem o item que em sua visão melhor

45
A pesquisa survey pode ser descrita como a obtenção de dados ou informações sobre características, ações ou
opiniões de determinado grupo de pessoas, indicado como representante de uma população alvo, por meio de um
instrumento de pesquisa normalmente um questionário.
46
Ibidem. p. 177.
14

qualificasse a atuação dos demais operadores do direito nas opções seguindo a graduação:
“péssimo”, “razoável”, “bom”, “muito bom” e “ótimo”.

Foram entrevistados três profissionais para cada área de pesquisa, ou seja, três juizes,
três promotores, três defensores públicos, três advogados, três delegados de polícia, três
policiais civis e três partes, totalizando 21 entrevistados.

3.2 A visão dos juízes:

O papel desempenhado pelos magistrados tem muita relevância na sociedade, visto


que sua principal função é a de equilibrar47 os poderes, assegurar as garantias individuais ou
as liberdades essenciais da pessoa contra o arbítrio. Esta função é essencial para a existência
da ordem pública e por isso são assegurados aos juizes direitos e poderes, que lhes conferem a
posição diferenciada dentro do aparato estatal.

O perfil traçado dos entrevistados foi o seguinte: um juiz de direito com idade acima
de 50 anos, branco, espírita, com ensino superior completo, atuante na Comarca de Porto
Alegre há 17 anos na Vara Cível. Uma juíza de direito, com idade superior a 50 anos, católica,
branca, com ensino superior completo, atuante na Comarca de Porto Alegre na Vara de
Família há 15 ano. E por fim, um juiz de direito com idade acima de 50 anos, branco, católico,
com ensino superior completo, atuante na Comarca de Porto Alegre há 18 anos na Vara
Criminal.

A questão de procurar saber se a resolução das lides e dos problemas sociais, pelo
judiciário, é satisfatória, buscou uma resposta consistente, já que os juizes são a forma visível
de representação do judiciário e do que seja a justiça para uma grande parcela da população.
Vejamos então as respostas recolhidas. Primeiro, o do juiz que atua na Comarca de Porto
Alegre há 17 anos no cargo:

Não acredito que o judiciário tem atuado de forma satisfatória na solução das lides e
tampouco na solução de problemas sociais. Existe muita demora na prestação
jurisdicional e os juizes não têm condições humanas de despachar 150 processos por
dia, que é a demanda. É um trabalho sobre-humano o que a sociedade exige dos
juizes e dos funcionários cartorários. E quanto aos problemas sociais, só tenho uma
coisa a dizer. Se não tivéssemos tantos problemas sociais, não teríamos tantos
problemas jurídicos. Muitas questões poderiam ser resolvidas fora do âmbito
judicial, o que evitaria o desgaste do sistema judicial.

47
ROSA, Op. cit. p. 134.
15

Seguindo a mesma linha de percepção, a juíza que atua em Porto Alegre há 15 anos,
sobre a mesma pergunta, respondeu: “Muitas são as causas que retardam a prestação
jurisdicional e não se pode atribuir aos juizes toda a culpa e responsabilidade por esta
morosidade. O juiz sempre procura superar os obstáculos e fornecer à sociedade a resolução
de seu conflito”.

A próxima questão foi a respeito da audiência de conciliação, se esta é de fato um


momento propício para a resolução de conflitos ou se haveria um outro momento. Com
relação a esta pergunta todos os entrevistados demonstraram estar a favor da audiência de
conciliação, afirmando ser “muito importante, pois aproxima as partes com a intermediação
do juiz, o que pode levar a uma conclusão pacífica, sem demora”. Já outros, afirmaram
inclusive ser possível traçar os perfis dos advogados, se têm interesse na solução desde logo,
ou se utilizam métodos meramente protelatórios para o seu próprio benefício e não do seu
cliente. Um dos juizes chegou a afirmar que caso perceba tal atitude costuma esclarecer as
partes que, se seguirem por determinado caminho o seu problema não será resolvido com
brevidade.

Outra questão de extrema importância foi a visão dos juizes sobre a diferença na
defesa das partes que possuem advogados públicos em comparação com as que possuem
advogados particulares. Apesar de uma certa hesitação, a maioria confirmou essa diferença.
Isto porque, nas palavras de um dos juizes “os defensores públicos, apesar de seus esforços,
estão sobrecarregados e isso compromete a qualidade de seu trabalho”. Verificou-se também
que para casos de direitos indisponíveis os juizes demonstram mais apreensão e dispensam
maiores cuidadosos. Nas palavras de um dos juizes “o princípio da igualdade nada mais é do
que tratar os desiguais com desigualdade”.

A seguinte problemática que procuramos investigar tratou de saber sobre a atuação do


sistema de justiça como um todo (Ministério Público, Poder Judiciário, Delegacias, Policiais),
na efetiva e real solução dos conflitos. A resposta foi unânime, visto que nenhum dos juizes
acredita que haja efetividade na solução dos conflitos, devido a inúmeros fatores, desde
“impunidade”, “demora nos julgamentos” e “má atuação dos demais profissionais no
desfecho do conflito”.

Por fim, a pergunta realizada de caráter “escalado” pediu para que os entrevistados
assinalassem o item que, em sua visão, melhor qualificasse a atuação do papel dos demais
16

operadores do direito. A maioria dos juizes respondeu que a atuação dos demais magistrados
situa-se em mais “razoável” do que “bom”, a dos promotores também em mais “razoável” do
que “bom”, a dos defensores públicos em mais “razoável” do que “péssimo”, a dos advogados
em mais “péssimo” do que “razoável” , a dos delegados de polícia mais “razoável” do que
“bom” e por final, a dos policiais civis como inteiramente “razoável”.

Podemos observar que os juizes não estão satisfeitos com a atuação dos demais
operadores do direito. A sua opinião com relação aos próprios magistrados é negativa, mais
da metade qualificou-a como sendo “razoável”. Bem como as dos promotores, defensores e
delegados de polícia, foi classificado, na sua maioria, em “razoável”, enquanto que os
policiais foram inteiramente classificados como “razoável”. Os advogados tiveram a mais
baixa qualificação, visto que a maioria os classificou como “péssimo”.

3.3 A visão dos Promotores de Justiça:

O Ministério Público é o órgão representante da sociedade48, cabe a ele acusar em


nome da justiça pública, promover a ação penal pública, requisitar da polícia o inquérito
policial e diligências investigatórias, zelar para que o poder público respeite os direitos
assegurados pela atual Constituição Federal, conduzindo inquéritos civis e propondo ações
civis públicas para a defesa dos interesses individuais indisponíveis e dos interesses sociais.

O perfil traçado dos entrevistados foi o seguinte: um promotor de justiça com idade
acima de 50 anos, branco, católico, com ensino superior completo, atuante na Comarca de
Porto Alegre há 18 anos na área Criminal. Uma promotora de justiça, com idade entre 40 a 50
anos, católica, branca, com ensino superior completo, atuante na Comarca de Porto Alegre há
12 anos área do Direito de Família. E por fim, um juiz de direito com idade acima de 50 anos,
branco, católico, com ensino superior completo, atuante na Comarca de Porto Alegre há 17
anos na área Criminal.

Inicialmente perguntou-se qual seria o papel desempenhado pelo Ministério Público na


sociedade e se existe efetividade na sua atuação. Um promotor atuante na Comarca de Porto
Alegre, há 18 anos, afirmou que “são muitos os papéis, todos sendo importantes e que não
raro se confundem com o de outros agentes públicos e que a sociedade tem dificuldade em
distingui-los”. Conclui que por isso “nem sempre se alcança efetividade, mas na maior parte

48
SADEK, Op. cit. p. 16.
17

das vezes, sim”. Sobre esta mesma questão outro promotor respondeu que seu papel “é
imprescindível na sociedade, atua como guardião dos direitos e da lei, e em questões
familiares sua presença é fundamental. É ele que vai equilibrar a relação judicial”.

Outra questão que consideramos importante destacar é a opinião dos promotores sobre
a atuação do Ministério Público no sistema de justiça criminal e a sua visão sobre a política
criminal adotada. Em resposta a essas questões o promotor que atua há 17 anos na Comarca
de Porto Alegre respondeu-nos da seguinte maneira:

Burocrática, na dependência de outros órgãos do poder executivo sem efetividade, e


com o Judiciário alheio à realidade do crime, esta além de mero problema social.
Quanto à política criminal adotada, há ações dos membros, mas diluídas na ausência
de efetiva política criminal do Estado brasileiro. O MP estadual não tem forças o
bastante. O combate à criminalidade não significa “endurecimento da lei penal”,
como tem ocorrido. Assim, não há efetividade investigatória e impera a impunidade.

Para esta pergunta houve opinião semelhante, a da promotora que exerce esta função
há 12 anos e que afirma estar satisfeita com a atuação que exerce no sistema justiça criminal,
mas acredita que poderia ter uma atuação muito mais abrangente. E quanto ao sistema de
política criminal, ela acredita que deva ser repensado, “levando-se em conta que a edição de
novas leis não pode ocorrer por força do clamor público, mas após a análise do impacto que
ela deixará na sociedade”.

Em relação à última pergunta, sobre a atuação do sistema de justiça, se existe


efetividade na solução dos conflitos, respondeu que, no modelo atual, não. Isto porque “a
segurança pública fica à mercê dos agentes políticos, do jogo de poder, sem continuidade. O
baixo índice de punição esbarra no sistema prisional falido que não recupera para a
cidadania”, e por isso não possui efetividade. Da mesma forma, os demais promotores
manifestaram-se negativamente, pois os “problemas jurídicos vão muito além dos problemas
sociais, envolvem também questões políticas”, e concluem que a “própria estrutura judicial
está falida, e se não houver reforma, a tendência é piorar”.

Quanto à questão de como percebem o papel dos operadores do direito a maioria dos
promotores respondeu que considera a atuação dos juizes mais “bom” do que “razoável”,
enquanto que sobre os demais promotores, mais “bom” do que “muito bom”, a dos defensores
públicos em mais “bom” do que “muito bom”, a dos advogados em mais “razoável” do que
“péssimo”, a dos delegados de polícia em mais “péssimo” do que “bom” e, por fim, a dos
policiais civis mais “péssimo” do que “bom”.
18

Podemos observar que os promotores estão satisfeitos com a atuação de alguns dos
operadores do direito. A sua opinião com relação aos magistrados, aos demais promotores e
defensores, é positiva, mais da metade qualificou-a como sendo “bom”. Já a atuação dos
advogados foi classificada pela maioria como sendo “razoável”. Quanto aos delegados de
polícia e policiais civis classificou-se, na sua maioria, em “péssimo”.

3.4 A visão da Defensoria Pública:

A Defensoria Pública já teve seu papel bem analisado pelo presente trabalho, mas vale
lembrar que cabe a ela a “orientação, postulação, e defesa dos direitos e interesses dos
necessitados, em todos os graus de jurisdição e instâncias administrativas, [...] buscando a
conciliação das partes, antes de promover a ação cabível49” e ainda “prestar assistência
jurídica, judicial e extrajudicial, integral e gratuita50”. Os defensores públicos são assim, um
meio de acesso à justiça para as pessoas sem capacidade financeira de arcar com um
advogado particular e menos ainda com as custas judiciais.

O perfil traçado dos entrevistados foi o seguinte: um defensor público com idade entre
30 e 40 anos, branco, católico, com ensino superior completo, atuante na Comarca de Porto
Alegre há três anos na área Cível. Uma defensora pública, com idade superior entre 30 e 40
anos, católica, branca, com ensino superior completo, atuante na Comarca de Porto Alegre há
seis anos, na área do Direito de Família. E por fim, um juiz de direito com idade entre 30 e 40
anos, branco, católico, com ensino superior completo, atuante na Comarca de Porto Alegre há
cinco anos na área cível.

A primeira questão a destacar é sobre as maiores dificuldades encontradas por parte


dos defensores no exercício de seu papel. O primeiro fator elencado pelo defensor, atuante na
Comarca de Porto Alegre há cinco anos, foi o “próprio acesso à justiça, a execução dos
julgados, a lentidão, o sentimento de dissociação em relação ao contexto social, a ausência de
maior comprometimento com a inserção dos menos favorecidos”, entre outros. Já a defensora
que exerce sua profissão há seis anos respondeu que as maiores dificuldades encontradas são
estruturais, “o que leva a muitos dos outros personagens do triângulo da justiça, muitas vezes,
a não entender ou mesmo não aceitar o verdadeiro papel do defensor público no processo”,
pois segundo ela, o defensor “é um agente de transformação social que pela sua proximidade

49
Lei Complementar 80/1994, art. 64.
50
Lei Complementar 80/1994. art. 1º.
19

com o jurisdicionado traz uma visão mais realista e muito menos idealizada para a relação
processual”.

Quando perguntados a respeito da assistência judiciária para as pessoas de baixa


renda, um defensor acredita que “não há defensores públicos em número suficiente” e que o
ideal é que houvesse uma destinação maior de recursos e também uma melhoria no padrão
remuneratório para que não ocorresse evasão de profissionais para outras carreiras. Outro, que
atua neste cargo desde 2004, afirma ser esta uma garantia fundamental do cidadão, sendo a
Defensoria Pública, segundo suas palavras, “único órgão, pelos moldes constitucionais, que
deverá patrociná-la, devendo, portanto, ser objeto de preocupação dos governantes e
legisladores, no sentido de aparelhá-la adequadamente”.

Também nos interessa saber sobre a opinião dos defensores a respeito do sistema de
justiça. Sobre este, respondeu um defensor: “o sistema de justiça está longe de ser o ideal que
preconizo. É preciso fortalecer, sobretudo, as Defensorias Públicas, e também dar mais
informações”. Sugere ainda que seja criado, assim como na saúde, um “sistema preventivo de
justiça”, baseado numa cartilha ampla de educação e cidadania. E outro afirma ainda “que o
sistema de justiça segue a lógica do sistema dominante e que por isso, o acesso dos bens da
vida restam dificultados à maioria da população, estando distante da sociedade, em especial,
dos necessitados, justamente os que a defensoria visa proteger”.

Quanto à questão de como percebem o papel dos operadores do direito a unanimidade


dos defensores públicos respondeu que considera a atuação dos juizes “bom”, enquanto que
sobre os demais defensores, houve opiniões divergentes entre “razoável”, “bom” e “muito
bom”, a dos promotores em mais “razoável” do que “bom”, a dos advogados em mais
“péssimo” do que “razoável”, a dos delegados de polícia em mais “razoável” do que
“péssimo” e, por fim, a dos policiais civis mais “péssimo” do que “razoável”.

Podemos observar que os defensores não estão satisfeitos com a maioria das atuações
dos demais operadores do direito. A sua opinião com relação aos magistrados é mais positiva,
mais da metade qualificou-a como sendo “bom”. Com relação a atuação do demais defensores
observa-se uma crítica, justamente por haver divergência nas opiniões. Quanto a dos
promotores e delegados de polícia, foi classificado, na sua maioria, em “razoável”, enquanto
que os policiais e advogados foram, em maioria, classificados como “péssimo”.
20

3.5 A visão dos Advogados:

Os advogados desenvolvem uma importante função no processo e na aplicação do


direito. Atuam como “porta-vozes51 de todos os que necessitam do Judiciário. Embora seja
uma profissão muito criticada, são insubstituíveis, pois exercem função de interesse público e
não52 somente procuram auxiliar os seus clientes de modo a resolver os conflitos pela via
judicial, como também de forma preventiva e direta evitando a abertura de processos. No
exercício de sua profissão o advogado se defronta com muitos conflitos53 entre pessoas e
grupos para defender os interesses de seus clientes e convencer da licitude de seus atos.

O perfil traçado dos entrevistados foi o seguinte: um advogado com idade entre 40 e
50 anos, branco, católico, com ensino superior completo, atuante na Comarca de Porto Alegre
há 19 anos na área do Direito Cível e Tributário. Uma advogada, com idade entre 40 e 50
anos, católica, branca, com ensino superior completo, atuante na Comarca de Porto Alegre há
16 anos na área de Família. E por fim, uma advogada, com idade entre 40 e 50 anos, branca,
espírita, com ensino superior completo, atuante na Comarca de Porto Alegre há 18 anos na
área do Direito Empresarial.

Formulamos um questionamento sobre o papel do advogado na sociedade. A advogada


formada há 18 anos nos respondeu que considera o advogado um “profissional com
diferencial acentuado, positivo. Ser advogado é ter a obrigação de agir corretamente, não
cometer deslizes de conduta, saber que é publicamente respeitado, por ter o direito de ser
chamado de Doutor sem ter feito doutorado”. A advogada, que exerce a advocacia há 16 anos
afirma ser imprescindível a função do advogado, mas que com o crescente surgimento de
faculdades de direito, muitas vezes não aprovadas pelo padrão da OAB, formam-se bacharéis
desqualificados que desabonam a imagem do advogado, muitos deles recebendo o
depreciativo rótulo de “advogados de porta de cadeia”.

A lentidão processual foi questionada como fator que atrapalha os seus clientes, sendo
que a maioria afirmou que esta atrapalha. Afirma uma advogada que atua na área empresarial
que, por trabalhar, na maioria das vezes, para “autores” da ação, a lentidão é algo
extremamente negativo. No entanto, o advogado que trabalha para uma instituição financeira
disse que muitas vezes, o seu cliente, indiretamente, devido à natureza da ação, acaba sendo
51
SADEK. Op. cit. p. 17.
52
SABADELL, Op. cit. p. 205.
53
Ibidem. p. 204.
21

privilegiado, mas que o contrário também ocorre, ou seja, as vantagens e as desvantagens,


advindas da lentidão, acabam compensando-se.

Sobre a questão principal, se o sistema judiciário alcança justiça, as opiniões foram


divergentes. Um advogado afirmou que para o autor da ação o sistema não alcança justiça, em
razão da morosidade processual, e que somente o réu é que a alcança a, pois é amplamente
beneficiado por um excesso de recursos processuais. Advertiu ainda, que a grande maioria dos
processos só é resolvido graças à atuação profissional e correta dos demais colegas
advogados, quando tentam entrar em acordos, conciliando os interesses de seus clientes. Uma
outra advogada reconhece que o judiciário alcança sim, a justiça para todos,
independentemente de que lado defendam. Entretanto, também vê na conciliação entre os
advogados um ótimo meio para se terminar o conflito e tentar se chegar a um “meio termo”,
que agrade a ambos. Já a terceira advogada observa que a justiça só é alcançada quando o 5º
poder se manifesta, ou seja, quando a mídia se envolve em casos judiciais, pressionando por
uma solução rápida e justa.

Quanto à questão sobre a visão do papel desempenhado pelos operadores do


direito a unanimidade dos advogados respondeu que considera a atuação dos juizes
“razoável”, enquanto que sobre os demais advogados em mais “razoável” do que “bom”, a
dos promotores em unanimidade “razoável”, a dos defensores públicos em mais “razoável” do
que “péssimo”, a dos delegados de polícia em unanimidade “péssimo” e, por fim, a dos
policiais civis mais “péssimo” do que “razoável”.

Podemos observar que os advogados não estão satisfeitos com a atuação dos demais
operadores do direito. A sua opinião com relação aos juizes, aos demais advogados e dos
defensores é negativa, mais da metade qualificou-a como sendo “razoável”. Respondeu-se em
unanimidade como sendo “péssima” a atuação dos delegados de polícia, enquanto que os
policiais foram, na maioria, classificados como “péssimo”. Observa-se assim, que houve
predominância dos aspectos negativos com relação à atuação dos profissionais junto ao
sistema de justiça.

3.6 A visão dos Delegados de Polícia:

A figura do delegado de polícia, apesar de não ser notoriamente conhecido como


integrante do sistema de justiça é a mais conhecida da população, e como diz Sadek, isto
22

ocorre mais pela sua proximidade no cotidiano do homem comum do que por suas
competências formais. Sua função é vista com respeito pelos mais humildes que lhe conferem
autoridade. Nesse sentido, a autora destaca a posição que muitos delegados acabam tomando,
como conselheiros e árbitros para solucionar muitos conflitos que chegam até ele e com isto,
muitas questões acabam não sendo apreciadas pelo judiciário, pois são resolvidas assim, de
modo informal. Em contrapartida, esta capacidade arbitrária pode constituir-se num obstáculo
à realização da justiça, pois a sua decisão pode impedir que um demandante busque a
reparação judicial de seus direitos.

O perfil traçado dos entrevistados foi o seguinte: um delegado de polícia com idade
acima de 50 anos, branco, católico, com ensino superior completo, atuante na Comarca de
Porto Alegre há oito anos. Um delegado de polícia, com idade superior a 50 anos, católico,
branco, com ensino superior completo, atuante na Comarca de Porto Alegre há 15 anos. E por
fim, um delegado com idade entre 40 e 50 anos, branco, católico, com ensino superior
completo, atuante na Comarca de Porto Alegre há oito anos.

Iniciamos a discussão do nosso questionário pela pergunta sobre a visão a respeito da


atuação da Polícia Civil no sistema de justiça criminal. O primeiro entrevistado, o delegado
que atua há 15 anos nesta função, afirma que a Polícia Civil é uma instituição importante
dentre as carreiras jurídicas, pois é através dela que o cidadão comum tenta restabelecer as
suas garantias constitucionais. Quanto a sua atuação afirma que “a Polícia Civil deve
continuar sendo Polícia Judiciária e que as Polícias Militares devem atuar na prevenção e na
fiscalização para garantia da ordem pública”. Em resposta à mesma pergunta, o delegado que
trabalha neste cargo há oito anos na Comarca de Porto Alegre considera muito relevante a
função de repressão à criminalidade que a polícia civil exerce, “colhendo provas, investigando
casos em locais muitas vezes hostis, montando quebra-cabeças para solucionar crimes”.
Conclui ainda que a atuação só não é mais eficaz por falta de investimentos, aparelhamentos,
salários e descasos de governos.

Perguntamos aos delegados sobre o que achavam do papel investigativo do Ministério


Público, e um deles o resumiu em três itens: “ilegal, inconstitucional e prejudicial à justiça”.
Sobre a mesma questão, outro delegado também manifestou-se completamente contrário
sobre essa atuação do Ministério Público. Nas suas palavras:

Acho preocupante e perigoso, pois é muito poder a um lado (parte), temo por
injustiças, além de ele não ter formação, curso sobre investigação de crimes, como a
23

Polícia possui. Além disso, escolheriam crimes a investigar? Qual critério? Mídia?
Relevância social? Ou somariam-se às Polícias nos milhares de delitos sem
conclusão? Dêem às polícias a verba e estrutura do MP, salários, e vejam os
resultados. Investigar um ou outro delito, com equipamentos e funcionários muito
bem pagos, é muito fácil. A Polícia faz mais do que poderia ou deveria, com os
poucos recursos e o tratamento ruim que recebe.

Quanto à questão sobre a visão do papel desempenhado pelos operadores do


direito os delegados de polícia responderam que consideram a atuação dos juizes mais “bom”,
do que “muito bom”, a dos promotores mais “muito bom” do que “bom”, a dos defensores
públicos foi divergente entre “péssimo”, “razoável” e “bom”, a dos advogados em mais
“razoável” do que “bom”, a dos demais delegados de polícia mais “bom” do que “muito bom”
e, por fim, a dos policiais civis mais “muito bom” do que “bom”.

Podemos observar que os delegados de polícia estão parcialmente satisfeitos com a


atuação dos demais operadores do direito. A sua opinião com relação aos juizes e a dos
demais delegados de polícia é positiva, mais da metade qualificou-a como sendo “bom”. Bem
como a dos promotores e a dos policiais civis foi classificada, na sua maioria, em “muito
bom”. Já em relação aos advogados e os defensores públicos as visões foram negativas, visto
que as qualificações ficaram entre as mais baixas, como “péssimo” e “razoável”.

3.7 A visão dos Policiais Civis:

A polícia civil tem participação decisiva na aplicação do direito54 enquanto órgão


organizado encarregado de realizar o controle social nos seus aspectos repressivos. Os
policiais civis sofrem preconceitos por não apresentarem semelhanças com os outros grupos
de operadores jurídicos, pois não possuem formação jurídica. Segundo Sabadell “a maioria
dos policiais provém da classe trabalhadora e média-baixa. O nível educacional e a
remuneração equiparam os policiais aos funcionários públicos do escalão médio-baixo”.

O conjunto destes fatores nos remete a uma variação do perfil dos policiais, o que
pôde ser observado nas respostas do questionário. Os policiais civis, diferentemente das
demais carreiras consideradas de “elite”, como a magistratura, a advocacia, entre outras, não
desfrutam de uma imagem de prestígio e poder. Muito pelo contrário, a população em geral,
nas palavras de Sabadell, “tem mais medo do que confiança na polícia”. Devido a esta
rejeição, muitos policiais acabam reagindo de forma a se “fechar” no ambiente policial,

54
SABADELL, Op. cit. p. 207.
24

limitando-se a contatos sociais dentro do círculo policial e se distanciando ainda mais da


sociedade e dos demais operadores do direito.

O perfil traçado dos entrevistados foi o seguinte: um policial com idade entre 40 e 50
anos, branco, católico, com ensino superior incompleto, atuante na Comarca de Porto Alegre
há 12 anos. Uma policial, com idade superior entre 30 e 40 anos, católica, branca, com ensino
superior incompleto, atuante na Comarca de Porto Alegre há 13 anos. E por fim, uma policial
com idade acima de 50 anos, branca, católica, com ensino superior incompleto, atuante na
Comarca de Porto Alegre há 12.

Os questionários aplicados aos Policiais Civis diferenciaram-se dos aplicados aos


demais operadores do direito, visto que procuramos facilitar a compreensão das perguntas e
oferecer um número maior de respostas, para recolher conteúdos mais ricos. Assim sendo, as
respostas que melhor contribuíram para o trabalho estão entre as “fechadas”, visto que as
“abertas” foram muito sucintas e pouco explicativas. Iremos expor apenas as respostas que
foram assinaladas pelos policiais no questionário “fechado”.

Foram elencadas como sendo dificuldades encontradas no exercício da profissão:


“salários baixos”, “treinamento/ formação insuficiente”, “má condição das armas, coletes à
prova de bala, carros”, “falta de informatização”, “índices altos de criminalidade” e na opção
“outros”, em todos os questionários todos policiais apontaram a falta de “servidores”, ou de
“pessoal” e ainda de “efetivo”, como sendo causadores de dificuldades. O policial que
trabalha há 12 anos indicou ainda o fator “legislação que impede um trabalho mais eficiente
da polícia, limitando em excesso seu poder de ação”.

Já sobre os aspectos positivos de trabalhar na instituição policial, as opções


assinaladas pelos policiais foram: “proteção da sociedade”, “profissão respeitada”, entre
outros. Nas formulações espontâneas, os policiais destacaram fatores positivos como: “é
digno ser policial”, “conhecer o certo e o errado” e pelo “trabalho não ser rotineiro”. Em
todos as suas respostas o que se observa é que os policiais civis possuem um sentimento de
respeito pela instituição a que pertencem e pensam que a sociedade possui postura similar, o
que foi um fator determinante para o seu ingresso na carreira.

Quanto à questão sobre a visão do papel desempenhado pelos operadores do direito os


policiais responderam de forma divergente quanto a atuação dos juizes entre “razoável”,
25

“bom” e “muito bom”, a dos promotores entre “péssimo”, “razoável” e “muito bom”, a dos
defensores públicos em mais “bom” do que “razoável” e “bom”, a dos advogados em mais
“bom” do que “razoável”, a dos demais policiais em mais “bom” do que “muito bom” e, por
fim, a dos delegados de polícia em mais “muito bom” do que “bom”.

Podemos observar que os policiais civis estão parcialmente satisfeitos com a atuação
dos demais operadores do direito. A sua opinião com relação aos juizes e dos promotores é
negativa, pois oscila em qualificações como “razoável” e “péssimo”. Já a dos defensores,
advogados, delegados de polícia e demais policiais civis é positiva, visto que oscila entre
“bom” e “muito bom”.

3.8 A visão das partes do processo:

Após a análise das opiniões dos operadores do direito, temos por fim, a opinião de
integrantes do sistema de justiça, as pessoas que efetivamente dão início a todo o litígio, ou
que têm conflitos e procuram no judiciário um meio de resolvê-los. Contudo, como essas
pessoas não possuem formação acadêmica jurídica, suas opiniões são um tanto diferenciadas.
Conforme explica Sérgio Cavalieri Filho:

Opinião pública não é a soma nem a síntese de todos, é um novo produto, uma nova
realidade, um modo de ser decorrente de opinião de cada indivíduo e das influências
que cada um, consciente ou inconscientemente, exerceu e recebeu dos demais.
Representa a tendência geral, mas não é necessariamente a opinião de todos os
membros nem a opinião de quaisquer pessoas em particular. 55

Segundo ensina Celso Castro, não podemos pensar em unanimidade, nem mesmo em
maioria, mas em comportamento coletivo favorável ou não a uma pessoa, a um produto, a
uma idéia56. Isto porque assim como a sociedade vive em constantes transformações, a
opinião pública também. Formam-se diversas correntes de opinião – convergentes,
concorrentes ou divergentes, contraditórias ou contrárias – acerca de um tema, ainda mais
quando, neste caso, é um que desperta sentimentos dos mais variados.

O perfil traçado dos entrevistados foi o seguinte: uma mulher com idade acima de 50
anos, branca, católica, com ensino médio completo, aposentada, autora de ação de Inventário.
Uma mulher, com idade entre 30 e 40 anos, branca, espírita, com ensino médio incompleto,

55
CAVALIERI, Op. cit. p. 181.
56
CASTRO, Celso Antônio Pinheiro de. Programa de Sociologia Jurídica. Rio de Janeiro: Forense, 1998. p.
166.
26

empregada doméstica, autora de ação de Alimentos. E por fim, um mulher com idade entre 30
e 40 anos, branca, católica, alfabetizada, comerciante, autora de ação de Investigação de
Paternidade.

Os questionamentos para as partes do processo foram divididos em duas partes. A


primeira trata das informações sobre o processo da pessoa e a segunda sobre a sua respectiva
visão sobre o sistema de justiça. Uma mulher, identificada como sendo autora do processo,
afirmou ter ingressado com ação de Inventário no ano de 2001, sobre os bens de seu cônjuge
falecido, e somente ter obtido no ano de 2005 o seu desfecho. Teve como auxiliar, um
advogado público, pois procurou a Defensoria Pública para resolver seu problema. Sua ação
foi julgada procedente, mas, no entanto, afirma que “mesmo sendo idosa não tive nenhum
privilégio em meu processo, pois demorou muito para se chegar em um resultado, e até pelo
contrário, o fato de eu ser velha quase me fez desistir da ação”.

O mesmo ocorreu com uma pessoa, autora de uma ação de Investigação de


Paternidade cumulada com pedido de alimentos, que disse ter perdido as esperanças na
justiça, para a busca de “seus direitos e de suas filhas”, já que o suposto pai das crianças
nunca era encontrado pelo oficial de justiça para ser citado, ou nas palavras da parte, “se
escondia do juiz para não pagar o dinheiro que me deve”. Esta pessoa recorreu-se de ajuda da
Defensoria Pública e ainda não obteve resolução de seu problema desde o ingresso da ação
em 2005. A autora disse estar consciente de que ainda levará muito tempo a obter um
resultado, pois como trata-se de ação com o benefício da assistência judiciária gratuita, os
testes de DNA são realizados pelo SUS, e irão demorar tanto quanto a questão processual,
pois dependem de recursos do Estado.

Quanto à questão sobre a visão do papel desempenhado pelos operadores do direito as


partes responderam quanto a atuação dos juizes, em unanimidade ser “bom”, a dos
promotores em mais “razoável” do que “bom”, a dos defensores públicos em mais “bom” do
que “muito bom”, a dos advogados em mais “razoável” do que “bom”, a dos policiais em
mais “péssimo” do que “razoável” e, por fim, a dos delegados de polícia em mais “péssimo”
do que “bom”.

Podemos observar que as partes não estão satisfeitas com a atuação dos operadores do
direito. A sua opinião com relação aos juizes e defensores é positiva, mais da metade
qualificou-a como sendo “bom”, talvez por justamente ter mais contato com tais profissionais.
27

Já a dos promotores, advogados, delegados de polícia e policiais civis tiveram qualificações


negativas, atribuindo-se como “péssimo” e “razoável” fatores dominantes em sua atuação.

Realizando-se um apanhado de todas as respostas obtidas, podemos constatar muitas


informações. Depreende-se do conjunto das respostas, que a maioria dos profissionais do
sistema de justiça não considera as atuações como satisfatórias, tendo em vista que não houve
nenhuma indicação de “ótimo” e muito poucos de “muito bom”. A média optou por
“razoável” e “bom”, o que indica a necessidade de aprimoramento, maior racionalização,
celeridade e eficácia. Esta pequena amostra qualitativa nos proporciona uma visão de que o
sistema de justiça passa por uma crise de eficácia, agravada pela inexistência de interligação
entre os profissionais na busca de soluções para os conflitos. Muito embora haja uma
consciência do problema, explicitada nas respostas, o sistema de justiça em si não demonstra
visíveis preocupações em superá-los.
4 Conclusões

Observamos no decorrer do trabalho, que o Direito apresenta situações que as normas


embora vigentes e válidas, não produzem eficácia. Desta forma, ao contrário de exercer e
produzir os efeitos para os quais foi criada, perde a sua função real e prática para a sociedade.
O Direito, para ser eficaz, precisa adequar-se às transformações sociais, e acompanhar a
dinâmica histórica da sociedade onde se insere. Somente assim poderá cumprir o seu papel de
previsão de condutas, mediação de conflitos e realização do justo.

Na ausência de um Sistema de Justiça eficaz, o cidadão comum vê muitos dos seus


direitos e garantias, previstos na Constituição Federal, quase que totalmente denegados.
Assim, devido às suas deficiências estruturais, este falha no atendimento das demandas
sociais. A justiça fica mais preocupada em cumprir formalismos do processo jurídico (prazos,
recursos, despachos, atividades cartoriais, atos meramente protelatórios, pagamento de custas
judiciais), que muitas vezes transformam a peça processual em algo distante da sua verdadeira
finalidade. A expressão “acesso à justiça” não significa somente a mera admissão do processo
ou possibilidade de ingresso em juízo, mas sim, a realização efetiva da finalidade do processo,
que é a solução do conflito e a busca pela justiça.

Diante deste quadro, faz-se necessário a ampliação de métodos já existentes e testados


na sua eficácia para a prevenção, mediação e solução de conflitos, cada vez maiores e mais
complexos numa sociedade pressionada por desequilíbrios urbanos. É assim que o Direito
28

deverá se readaptar a essa nova realidade social, buscando elaborar alternativas processuais
que contemplem estes conflitos.

Os Centros de Integração da Cidadania, os trailers, os Juizados Especiais Cíveis e


Criminais, os serviços de atendimento gratuito nas universidades, entre outros citados, mesmo
não se constituindo como formas tradicionais de solução de litígios, possuem caráter auxiliar
e complementar importante na busca da efetivação dos direitos e de acesso à justiça.

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