Você está na página 1de 250

ENTRE o CRISTAL E A FUMAÇA

ENSAIO SOBRE A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO


HENRI ATLAN

ENTRE o CRISTAL E A FUMAÇA


ENSAIO SOBRE A ORGANIZAÇÃO no SER Vivo

Tradução:
Vera RibeirQ

Revisão técnica:
Henrique Lins de Barros
Doutor em Física
Vice-Diretor do Museu de Astronomia e
de Ciências Afins (MAS T)

Jorge Zahar Editor


Rio de Ja,neiro
Título original:
Entre le cristal et lafumée. Essai sur l 'organisation du vivant

Tradução autorizada da edição francesa publicada


em 1986 por Éditions du Seuil, de Paris, França

Copyright © 1979, Éditions du Seuil


Copyright © 1992 da edição em língua portuguesa:
Jorge Zahar Editor Ltda.
rua México 31 sobreloja
20031 Rio de Janeiro, RJ
Todos os direitos reservados.
A reprodução não-autorizada desta publicação, no todo
ou em parte, constitui violação do copyright. (Lei 5.988)

[Edição para o Brasil]

Editoração eletrônica: TopTextos Edições Gráficas Ltda.


Impressão: Tavares e Tristão Ltda.

ISBN: 2-02-009362-6 (ed. orig.)


ISBN: 85-7110-227-9 (JZE, RJ)

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Atlan, Henri
A89le Entre o cristal e a fumaça: ensaio sobre a organização do
ser vivo/ Henri Atlan; tradução, Vera Ribeiro; revisão técnica,
Henrique Lins de Barros. - Rio de Janeiro: JorgeZaharEd.,
1992.

Tradução de: Entre le cristal et la fumée. Essai sur l'or-


ganisation du vivant.
Bibliografia.
ISBN 85-7110-227-9

l. Biologia - Filosofia. 2. Genética. 1. Título. II. Série.

CDD-574.01
92-0448 CDU - 574.001
SUMÁRIO

Introdução:
O cristal e a fumaça ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9

PRIMEIRA PARTE:
DESORDEM E ORGANIZAÇÃO. A COMPLEXIDADE PELO Rutoo ..... 15

1. Os dogmas e as descobertas ocultas na nova biologia ..... . 17


2. Ordens e significações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27
3. Do ruído como princípio de auto-organização ............ 36
Máquinas naturais e artificiais. A corifiabilidade dos organismos. O
princípio da ordem a partir do ruído. lembretes sobre a teoria da
informação aplicada à análise de sistemas. Ambigüidade-autonomia
e ambigüidade destrutiva. Auto-organização por diminuição da
redundância. Rumo a uma teoria formal da organização. Princípios
de auto-organização da matéria e de evolução por seleção. O ruído
como evento.
4. A organização do ser vivo e suas representações .......... 54
Biologia e matemática. l. Acaso e organização, representação do
novo: 1. Ruído organizacional e diferenças de pontos de vista. 2.
Diferenças de níveis: sistemas diferenciais e ruído organizacio~
nal. 3. Ruído organizacional e significação da informação. 4.
Sistemas humanos. II. Sistemas dinâmicos, representações deter-
ministas: 1. Os limites das representações probabilísticas. 2.
Complexidade média em biologia: acoplamentos de reações e
transportes. 3. Redes de quimiodifusão, sistemas dinâmicos e
''ordem pelas oscilações·'. 4. A termodinâmica em rede. III.
Rumo a representações semideterministas: redes de armazena-
gem e complexidade pelo ruído.
SEGUNDA PARTE:
A ALMA, o TEMPO E o MUNDO . ................ ·..................... 111

5. Consciência e desejos nos sistemas auto-organizadores ... 113


l. Consciência e vontade nos sistemas abertos auto-organizado-
res: 1. O determinismo e sua base na reversibilidade do tempo. 2.
O absolutismo espiritualista e ~eu desconhecimento dos efeitos
organizadores do acaso. 3. Memória-consciência e faculdade
inconsciente de auto-organização. II. Consciência voluntária e
desejos conscientes. III. Máquinas de fabricar sentido. IV. Lin-
guagens e memórias. V. Passado e futuro: da unidade temporal.
6. Sobre o tempo e a irreversibilidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132
Reversibilidade microscópica e irreversibilidade macroscópica
nafisica. Princípios de equivalencia e princípios de ação. Fina-
lidade aparente na biologia. O acaso e a lógica da auto~organi­
zação. Dois tipos de inversão do tempo. "Nada de novo sob o
sol. ''O Eclesiastes e o tempo criador. Idealismo e materialismo.
7. Variabilidade das culturas e variabilidade genética . .. . ... 151
1. A noção de seleção cultural. 2. Variabilidade cultural e varia-
bilidade genética.

TERCEIRA PARTE:
p A.RENTES E SEMELHANTES 157

8. Hipercomplexidade e ciência do homem ................ 159


O paradigma do ''falar junto''. A revolução biológica e a auto-
organização. A hominizaçâo. Aptidões não realizadas e lógica da
auto-organização. Memória e linguagem, aprendizagem e erro.
O imaginário e o êxtase. A hipercomplexidade. Ciência do polí-
tico ou política da ciência ?
9. A teoria das catástrofes ..... . ..... .. ......... ... . .... 184
10. A Gnose de Princeton ..................... . .... .. .. 194

QUARTA PARTE:
SOBRE PÉS, LEIS, ARBtrRIOS E PERTENÇAS 197

11. Israel em questão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ·199


1. Um povo, sua história, sua cultura. 2. O deserto, a terra e o
incesto. 3. O povo judeu contemporâneo: ''mito originário'',
~·programa" ou fuga para o indizível? 4. O êxodo como liber-
tação-programática e programa de li"bertação. 5. Da abertura
libertária ao conformismo de uma organização social. 6. O
vaivém histórico e ideológico. 7. O critério dµplo.
12. A propósito dos ••psicanalistas judeus'' .... ... ........ 219
13. A vida e a morte: biologia ou ética · .. ...... ........... . 228

Notas ..................................... .. ........ 245


A Aharon Katzir-Katchalsky,
numa homenagem feita de admiração e pesar.
INTRODUÇÃO
0 CRISTAL E A FUMAÇA

As organizações vivas são fluidas e móveis. Qualquer tentativa de fixá-las


- no laboratório ou em nossa representação - faz com que caiam numa
ou noutra de duas formas de morte. Oscilando ··entre o fantasma e o
cadáver" (between the ghost and the corpse): foi assim que a organização
de uma célula viva se afigurou ao biólogo D. Mazia, que descreveu seus
esforços de vários anos para isolar uma estrutura celular que desempenha
um papel particularmente importante' nos mecanismos da reprodução.
Por sua estrutura lábil, ela lhe escapava decompondo-se, e, quando ele
conseguia fixá-la, estava morta. Qualquer organização celular, portanto,
é feita de estruturas fluidas e dinâmicas. O turbilhão líquido - destronan-
do a ordenação do cristal - se transformou ou retransformou em seu
modelo, do mesmo modo que a chama da vela, em algum ponto entre a
rigidez do mineral e a decomposição da fumaça.
Mesmo assim, não é impossível representá-la. Podemos falar dela.
Podemos tentar descrever sua lógica. Um dos méritos dessas tentativas é
ter formulado uma pergunta: que querem dizer os atributos ••organizado''
e .. complexo" quando aplicados a sistemas naturais, não totalmente
dominados pelo homem, por não terem sido construídos por ele? Foi aí
que duas noções opostas, a de repetição, regularidade e redundância, de
um lado, e a de variedade, improbabilidade e complexidade, do outro,
puderam ser destacadas e reconhecidas como ingredientes que coexistem
nessas organizações dinâmicas. Estas, portanto, surgiram como compro-
missos entre dois extremos: uma ordem repetitiva, perfeitamente simétri-
ca, cujos modelos físicos mais clássicos são os cristais, e uma variedade
infinitamente complexa e imprevisível em seus detalhes, como a das
formas evanescentes da fumaça. ,
A primeira parte desta obra inspirou-se em trabalhos formais, ini-
ciados há uns dez anos, sobre a lógica da organização natural, o papel nela
desempenhado pelo aleatório - o .. ruído" e o famoso princípio da.
ordem, ou melhor, da complexidade pelo ruído-, e sobre a lógica das
redes físico-químicas dotadas de propriedades de auto-organização. Evi-

9
10 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

dentemente, tudo isso proviera diretamente de preocupações biológicas.


A organização em questão e as propriedades de auto-organização eram as
encontradas em organismos vivos ou em modelos que tentam sjmulá-los.
Mas quisemos estender algumas dessas considerações a outros sistemas e
outras organizações, em particular os humanos. Uma extensão imediata-
mente tachada de organicismo e vivamente combatida como tal. Entretan-
to, os perigos - lógicos e políticos - do organicismo são hoje suficien-
temente conhecidos para que possamos evitar cair em suas armadilhas,
mas sem rejeitar o que o estudo dos sistemas naturais pode nos ensinar
em matéria das possibilidades lógicas concernentes à organização em
geral.
A rigor, o que nos esforçamos por destacar foram os elementos de
uma lógica das organizações que a natureza oferece a nossas observações
e experimentações. Os sistemas biológicos evidentemente nos fornecem
seus exemplos mais imediatos, porém não são forçosamente os únicos.
P~r isso, no que tange à generalização dessas noções para outros
sistemas, mais do que a prolongamentos intencionais de um eventual
organicismo, de qualquer modo ultrapassado, as seguintes perguntas nos
parecem pertinentes: em que medida eles são sistemas naturais ou artifi-
ciais? Em que medida é passível transpor para eles as leis de transferência,
conservação, degradação ou criação da energia, da massa e da informação,
tal como nos são ensinadas pela físico-química biológica? Em que medi-
da, inversamente, os tipos de finalidade implícita ou explícita que carac-
terizam os sistemas artificiais podem ser transpostos para a análise dos
sistemas naturais?
Em particular, será um sistema humano - social, por exemplo -
natural ou artificial? Pelo fato de ser fabricado por seres humanos, ele
parece ser uma organização artificial, como todas as que resultam de
planos e programas saídos de cérebros humanos. Nessa medida, a lógica
dos sistemas naturais bem poderia afigurar-se inadequada, ou até deslo-
cada e perigosa. Entretanto, pelo fato de uma organização social ser
também o resultado da composição de efeitos de um grande número de
indivíduos, trata-se igualmente, sob certos aspectos, de um sistema auto-
organizador natural. Nele, forçosamente, o papel dos planos e programas
é relativamente limitado pelo papel das finalidades e desejos dos indiví-
duos e dos grupos. Mesmo nas sociedades totalitárias, a questão da origem
da autoridade planificadora remete às motivações individuais que fazem
com que a aceitemos ou nos adaptemos a ela. Essas motivações, conscien-
tes e inconscientes, apesar de humanas, não provêm do cérebro de um
engenheiro superdotado. O que equivale a dizer que, numa grande medida,
também elas se oferecem a nossa observação sob a forma de sistemas
naturais imperfeitamente conhecidos, constituídos por suas interações.
Nessa medida, alguns elementos da lógica das organizações naturais
lNTRODJJÇÁO ll

podem encontrar lugar aí. Nessa medida, e tão somente nessa medida.
Afinal, a posição particular de nosso psiquismo, simultaneamente sede
das lógicas e teorizações e parte integrante, elemento constitutivo dos
sistemas que se trata de teorizar, apresenta, é óbvio, um caráter perfeita-
mente original, talvez irredutível. Por isso, não se pode tratar de estender
às organizações sociais resultados da análise dos sistemas naturais por
uma transposição analógica pura e simples. É nesse ponto, evidentemente,
que ressurgem as armadilhas do organicismo. Tanto quanto as transposi-
ções, a análise das diferenças deve conduzir a modificar nossa represen-
tação dessas organizações em relação aos outros modelos de organizações
naturais eartificiais.
Estas observações devem acentuar o caráter hipotético dos textos da
segunda parte, onde tentamos fazer essas transposições, analógicas e
diferenciadoras, para sistemas humanos. Mais do que da organização
social, trata-se da organização psíquica. Foi aí que reunimos algumas
hipóteses sobre o respectivo lugar dos processos conscientes e inconscien-
tes em nosso sistema cognitivo, visto, pelo menos em parte, como um
sistema auto-organizador; sobre a natureza do tempo desses processos e
suas relações com o tempo físico; e finalmente, sobre as possíveis intera-
ções entre as culturas e a natureza na constituição e na evolução da
variedade dos grupos humanos.
Dessa mesma orientação, reunidos nüma terceira parte, provieram
alguns textos críticos em que, em algumas oportµnidades, pudemos expri-
mir nossas reações a outros encaminhamentos, ao mesmo tempo próximos
e diferentes. Assim, Edgar Morin com sua pesquisa, cujo ponto de partida
foi marcado por Le Paradigme perdu: la nature humaine '[O paradigma
perdido: .a natureza humana], René Thom com sua teoria das catástrbfes,
e Raymond Ruyer com La Gnose de Princeton [A gnose de Princeton],
cada qual num gênero diferente e irredutível, desencadearam novas inter-
rogações, essencialmente Jii.e todológicas, quanto a diversas novas abor-
dagens de um antigo problema: quais são as implicações dos fatos da
experiência pelos quais constatamos ou encontramos (criamos?) uma
.. ordem .. na natureza?
Evidentemente, o ''postulado da objetividade científica•• esteve implí-
cito no contexto em que foram apresentados os textos destas três primeiras
partes. Foi ele que, na maioria das vezes, impôs a •'nosso•• discurso o
desprendimento do "ri~·· acadêmioo! Mas seria tolo desconhecer que esta
investigação foi realizada paralelamente a uma busca em que a questão
da identidade e das pertenças esteve no centro de nossas preocupações.
Por isso é que, diversamente da obra de muitos pesquisadores modernos,
o pano de fundo ideativo, senão ideológico, o interlocutor tradicional no
diálogo implícito constituído por qualquer pesquisa, foi, pelo menos para
nós, tanto a tradição judaica recentemente redescoberta quanto a greco-
romana, cristã ou não, ensinada nos colégios e na universidade.
.---

12 - ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

As~im; reunimos numa quarta parte textos em que a presença dessa


tradiçãÓ aparece explicitamente. É aí, em contrapartida, que a problemá-
tica da organização talvez não apareça com tanta clareza. No entanto,
também está presente. Ela é a fonte longínqua - e talvez recíproca - de
inspiração de um texto em que se propõem alguns elementos de um esboço
de teoria antropológica do fenômeno judaico. Segue-se um estudo em que
a crítica de dois livros que evocam as relações entre esse fenômeno e a .
psicanálise serve de pretexto para dar continuidade ao mesmo exercício.
Ecoando a teoria da organização por redundância e variedade, aí veremos
abordada - de maneira relativamente explícita apenas numa nota de
roda~ - a questão de uma ética das relações entre a teoria e a prática,
vistas, respectivamente, como uma indiferenciação laxista dos possíveis
e uma diferenciação rigorosa da complexidade do real. No espaço infini-
tamente aberto das teorizações nascentes, todas as possibilidades sé
equivalem. Todas podem, a priori, ser deduzidas uma das outras, e assim
constituem um imenso pensamento tautológico - não formulado-, uma
·redundância inicial sobre a qual o trabalho de formulação crítica, inter-
mediário entre a teorização e a prática, poderá produzir seu efeito (auto?)
organizador. Na verdade, os impedimentos dessas deduções indiferencia-
das só poderiam provir dos princípios de identidade e não-contradição,
que são muito mais princípios de corte, delimitação e definição do real do
que fontes de erros fecundos e de enriquecimento das possibilidades. Ao
contrário, é a prática que, em sua tentativa de fazer interagirem o teórico
e o real, não pode prescindir da diferenciação pela lei. Esta - inconscien-
te, pelo ruído, ou consciente e formulada - reduz a redundância tautoló-
gica (que então se afigura ••falsa") e, com isso, a especifica. ·
Neste contexto, examinam-se as respectivas funções do pai e do
mestre na aprendizagem programada por que passa a educação. A princí-
pio, essa aprendizagem se superpõe, no filho do homem - e depois pouco
a pouco cede lugar -, à aprendizagem não-dirigida que é própria dos
sistemas auto-organizadores. Na ordem do pensamento, a aprendizagem
não-dirigida encontra-se em ação na pesquisa intelectual e artística. Ela
permite a integração aparentemente paradoxal do radicalmente novo, e
assim contribui, entre os adultos, para a criação das culturas. Dá segui-
mento, diferenciando-se dela, à educação infantil, que é transmissora de
cultura. Entretanto, evidentemente, a passagem ··normal .. de uma para a
outra - a maturação - implica que a educação (os mestres, depois do
pai) também transmita os meios dessa passagem.
Finalmente, o último texto promove explicitamente um diálogo
entre a nova lógica do acaso organizacional e textos da tradição antiga.
Através desse diálogo coloca-se a questão das relações entre essas consi-
derações, provenientes de uma reflexão da lógica biológica, no contexto
operacional e reducionista da ciência atual, e uma possível ética não-tri-
vial da vida e da morte.
INTRODUÇÃO 13

Como são supreendentes os caminhos do inconsciente, quando nos


apercebemos de que as duas formas de existência entre as quais navega º ~
ser vivo, o cristal e a fumaça, que se impuseram como título desta obra,.
designam também o trágico das mortes que, na geração anterior, se
abateram sobre os indivíduos que veiculavam essa tradição: a Noite de
cristal e a Névoa da fumaça.
&peramos que a diversidade destes textos e sua aparente falta de
unidade sejam compensadas pela possibilidade de uma leitura não dirigida
(desordem criadora?), onde a ordem aqui adotada para sua seqüência
possa ser subvertida ao gosto de cada um.
PRIMEIRA PARTE

DESORDEM E ÜRGANIZAÇÃO.
A COMPLEXIDADE PELO RUÍDO

"Quando virdes mármore puro, não digais:


"água, água· ... •• (Talmude da Babilónia,
Haguiga, p. 14b),
que se deve inverter em:
"Quando virdes água, não a mateis
dizendo: "mármore·.··

"Do indeterminado, a regra não pode


fornecer uma determinação exata··
Aristóteles, Ética a Nicômaco, V, capítulo X,
p. 7.
i

Os DOGMAS E AS DESCOBERTAS
OCULTAS NA NOVA BIOLOGIA 1

Antigas questões são repetidamente retomadas. As novas descobertas·,


muitas vezes, servem apenas para repisar velhas respostas. ··Pode a vida
reduzir-se a fenômenos físico-químicos? Pode alguma ou algumas defi-
nições - que dissipem os mistérios - da vida emergir dessa redução?''
Alguns biólogos, filósofos ou homens de bem se enfrentam reiteradamen-
te em tomo desta velha discussão, que o livro de Jacques Monod, Le
Hasard et la Nécessité [O acaso e a necessidade],2 reatualizou, ao articu-
lá-la com base nas descobertas e no vocabulário da biologia molecular.
Esse livro, entretanto, assim como as descobertas da nova biologia que
ele contribui para divulgar, apresenta um interesse inteiramente diverso.
Novas questões são formuladas a propósito dessas descobertas, cujas
conseqüências são amiúde ocultadas pelo contexto histórico das respostas
que elas deram às antigas questões.
O objetivo do livro de Monod foi duplo. No plano da história das
ciências, tratava-se de recolocar o velho problema do finalismo na biolo--
gia, à luz dos ensinamentos da biologia molecular. No plano da ideologia,
tratava-se essencialmente de acertar contas com a pretensão do materia-
lismo dialético de fundamentar as verdades científicas na linha da dialé-
tica da natureza de Engels. É que, na verdade, J. Monod foi um dos raros
biólogos comunistas a romper com o marxismo por ocasião do caso
Lysenko. Suas próprias descobertas contribuíram, posteriormente, para
fazer triunfar a genética mendeliana e para expor o ridículo das teorias
científicas que extraíam sua autoridade de sua confonnidade a uma
ideologia qualquer - no caso, ao materialismo dialético.
Só nos é possível compartilhar a admiração de seu amigo, o filósofo
Michel Serres, por esse desempenho que o levou a ··acertar contas com o
marxismo, ganhando ao mesmo tempo o Prêmio Nobel .. !
Mas a questão do finalismo foi, evidentemente, o verdadeiro objeto
de seu livro. As relações particulares da biologia com o finalismo foram
bem resumidas numa conhecida formulação: ••A teleologia - raciocínio
através das causas finais - é como uma mulher sem a qual o biólogo não

17
18 ENTRE o CRISTAL E A FUMAÇA

consegue viver, mas com quem tem vergonha de.ser visto em público ... 3
Na verdade, quer o admitamos ou não, há um finalismo implícito na
maioria dos discursos biológicos. Ofa, essa situação é incômoda, do ponto
de vista do método científico, por negar o princípio · de causalidade,
segundo o qual as causas de um fenômeno devem ser descobertas antes,
e não depois de sua ocorrência. Sendo esse princípio um fundamento do
método científico, a impossibilidade de prescindir do finalismo na biolo-
gia era uma deficiência dessa ciência que J. Monod analisou brilhante-
mente na primeira parte de seu livro. A partir daí, ele tentou mostrar como
a elucidação dos mecanismos moleculares da hereditariedade permitia
resolver essa dificuldade; utilizou então o conceito de teleonomia, subs-
tituindo o de teleologia ou finalismo. Resumida em termos muito sucintos,
sua tese é a seguinte: um processo teleonômico não funciona em virtude
das causas finais, apesar de ter essa aparência e embora pareça orientado
para a realização de formas que só se evidenciarão no final do processo.
O que o determina, de fato, não são essas formas como causas finais, e
sim a realização' de um programa, como numa máquina programada cujo
funcionamento parece orientado para a realização de um estado futuro,
quando, na verdade, é cau.s almente determinado pela seqüência de estados
pela qual o programa preestabelecido a faz passar. O programa em si,
contido no genoma característico da espécie, é o resultado da longa
evoluçãô biológica em que, sob o efeito -simultâneo das mutações e da
seleção natural, ele é transformado, adaptando-se às condições do meio.
Digamos desde logo que o problema nem por isso fica resolvido,
mas é deslocado. Veremos que ele se coloca em termos novos e tem como
efeito, entre outras coisas, mostrar o caráter anacrônico das discussões
sobre a possibilidade ou a impossibilidade da redução da vida aos fenô-
menos físico-químicos.
Primeiramente, de fato, de que programa se trata? Trata-se, a rigor,
de uma metáfora, sugerida por um certo número de fatos bem estabeleci-
dos, cuja descoberta elucidou alguns dos mecanismos biológicos que até
então se afiguravam os mais misteriosos (os mais irredutíveis, os mais
específicos da •·vida"): a reprodução dos caracteres hereditários, que se
apóia na replicação dos ADNs e a expressão desses caracteres hereditários
graças à síntese de proteínas enzimáticas. Estas, graças a sua possibilidade
de catalisar esta ou aquela reação do metabolismo, orientam a atividade
celular por um ou outro caminho e, assim, determinam a expressão de
certa característica num modo particular de atividade. A síntese dessas
enzimas, portanto, é a chave - ou uma das chaves - da expressão das
características hereditárias. Os mecanismos dessa síntese, cuja descoberta
muito deveu aos trabalhos do próprio J. Monod,juntamente ~om F. Jac,ob
e seus alunos, evidenciam o que tem sido ocasionalmente chamado de
.. óogma central" da biologia molecular: as cadeias de ADN do genoma
Os DoGMAS E AS DESCOBERTAS ÜCULTAS NA NOVA BIOLOGIA 19

carregam uma informação específica que é codificada sob a forma de


seqüências de ba8es nucleotídicas; a síntese das proteínas consiste na
transmissão dessa informação e em sua tradução sob a forma de seqüên-
cias de ácidos aminados que especificam a estrutura e as propriedades
enzimáticas dessas proteínas. O mais notável nessa descoberta foi o
caráter universal do código: a correspondência entre as seqüências nu-
cleotídicas dos gens e as seqüências de ácidos aminados das proteínas é
a mesma em todos os seres vivos estudados até hoje, .. desde a bactéria
até o elefante··, incluindo-se, evidentemente, o homem.
Essas deS<:obertas é que levaram alguns biólogos, entre eles J.
Monod, a considerar que ··os mistérios da vida .. tinham sido elucidados
em linhas gerais, e, em particular, que a dificuldade do finalismo na
biologia podia fmalmente ser eliminada. Para tanto, eles conceberam a
noção de programação genética, segundo a qual os futuros eventos e
formas para os .quais o organismo parece dirigir-se estão, na verdade,
contidos desde o início, de maneira codificada, nas seqüências nucleotí-
dicas dos ADNs do genoma, à maneira de um programa de computador.
Esse é, muito sucintamente resumido, o contexto factual das discus-
sões teóricas 4 sobre a revolução trazida pela biologia moderna para nossa
maneira de imaginar a vida. É mui to importante, porém, apreender que
essa revolução comporta dois aspectos. De um lado, trata-se, sem dúvida
·alguma, de descobertas que parecem dar razão a uma tendência mecani-
cista na biologia, segundo a qual todos os fenômenos da vida devem ser
passíveis de explicação em termos de reações físico-químicas. Como
corolário, as tentativas de defmição formal da vida são rejeitadas como
problemas escolásticos, ultrapassados por uma biologia experimental que
se pretende exclusivamente operacional ••Já não interrogamos a vida nos
laboratórios; é pelos algoritmos do mundo vivo que hoje se interessa a
biologia .. (F; Jacob). 5 De fato, os mecanismos antes misteriosos da
hereditariedade são agora explicados em termos de interações molecula-
res. Por outro lado, entretanto, essas explicações são forçadas a integrar
na física e na química noções cibernéticas (código, informação, progra-
ma), de tal maneira que passa a se tratar de uma físico-química não-clás-
sica, ou, pelo menos, ampliada em relação à antiga - justamente a
chamada físico-química biológica. Por isso, não surpreende que, confor-
me suas inclinações filosóficas, cada biólogo se sensibilize mais para um
do que para outro desses aspectos. No primeiro caso, ele guarda apenas o
fato de que é possível explicar fenômenos específicos do ser vivo de tal
maneira que eles sejam reduzidos a fenômenos físico-químicos de estru-
turas e interações moleculares. No segundo caso, ele conserva apenas o
fato de que essas mesmas explicações não podem evitar recorrer a noções
de uma físico -química não-clássica, que alguns não hesitam em qualificar
de psicológicas ou até mesmo metafísicas.
20 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

A rigor, esse debate nos parece inútil, por ser superado pelo próprio
conteúdo dessas descobertas. Estas, de fato, têm conseqüências muito
mais importantes no plano do pensamento do que permitir que se tome
partido num debate que só se colocou no contexto da biologia e da
físico-química do começo do século. Na verdade, já Bergson, na primeira
parte de L 'Évolution créatrice [A evolução criadora], tivera a intuição do
caráter de falsa disputa que tinha a oposição entre o mecanismo e o
finalismo. Sua análise crítica dessas duas tendências poderia ser integral-
mente retomada nos dias atuais e se fundamentar ainda melhor nas
descobertas da biologia molecular; quanto ao terceiro caminho que per-
mitiria ultrapassar essa alternativa, infelizmente, ele só pôde apontá-lo
mediante um apelo à intuição: a intuição de um tempo criador, simulta-
neamente mecanicista e finalista, para o qual ele não dispunha da lingua-
gem e de instrumentos conceituais adequados. Essa linguagem e esses
instrumentos, hoje em dia, parecem ser-nos fornecidos pela termodinâmi-
ca dos sistemas abertos, pela teoria da informação e pela cibernética,
permitindo uma das mais surpreendentes e enriquecedoras releituras de
L 'Évolution créatrice. O que surge com essas descobertas é um novo
continente, até então insuspeitado até mesmo por aqueles que foram seus
artífices. De fato, se é verdade que a pesquisa dos mecanismos molecula-
res da hereditariedade visou a solucionar um velho problema - •·Pode-
mos ou não explicar a vida unicamente com a ajuda dos fenômenos
físico-químicos?" -, sua elucidação desvelou todo um conjunto de
novos problemas, concernentes, não à vida, mas à físico-química. Como
disse em termos esplêndidos E. Morin, 6 ··eles acreditaram ter descoberto
a índia, e foi a Améri.:a que descobriram!'' Assim, o velho problema foi
relegado, englobado aos novos: que querem dizer essas noções de infor-
mação, código e programas, aplicadas, não a máquinas artificiais, mas a
sistemas físico-químicos naturais? O fato de qualificá-las de psicológicas
não basta, porque, embora a psicologia as utilize, elas não são apenas
psicológicas. São, na verdade, noções cibernéticas que se situam •·no
ponto de articulaçã0 do pensamento e da matéria" (Costa de Beaure-
gard7), ou ••entre a física e a biologia" (S. Papert8), e que fazem com que
voltemos a nos interrogar sobre a questão da realidade material ou ideal
das noções físicas, até mesmo as mais corriqueiras. 9
Com efeito, se . .nos restringirmos à biologia, essas noções, pelas
respostas que sugerem para as antigas questões sobre a origem da vida e
a evolução das espécies, de fato provocam a emergência de indagações
inteiramente novas e fundamentais sobre a realidade física da organiza-
ção, sobre a lógica da complexidade e sobre a lógica dos sistemas auto-
organizadores. Naturalmente, se assim desejarmos, podem0s .encontrar
essas questões já colocadas em muitos filósofos da natureza, em sua
época, quer se trate de Maupertuis, Schelling, Schopenhauer, Bergson
Os DoGMAS E AS DESCOBERTAS OCULTAS NA NOVA BIOLOGIA 21

etc., ou dos antigos, Heráclito, Aristóteles, Lucrécio e outros, sem falar


no Midrash e nos textos cabalísticos recentemente retomados por A.l.H.
Kook. Mas não podemos abstrair o contexto cultural em que os problemas
são colocados. Se realmente existem questões eternas, e se, provavelmen-
te, já se disse tudo a respeito delas, a maneira de dizer é o mais importante,
e a renovação dos termos de um problema equivale, na verdade, à reno-
vação do próprio problema. O problema da origem da vida, hoje em dia,
é o do aparecimento do primeiro ·programa. De fato, a admitirmos a
metáfora da programação genética contida nos ADNs - e veremos, mais
adiante, que ela não está a salvo de sérias críticas - , o programa do
desenvolvimento de Um indivíduo lhe é fornecido no nascimento, por
ocasião da fecundação do óvulo, a partir da replicação dos ADNs de seus
pais. Assim, coloca-se a questão da origem do primeiro programa, isto é,
do primeiro ADN capaz de se reproduzir e de codificar a síntese das
enzimas.
Ante essa questão, várias linhas de resposta são possíveis. Uma
delas extrapola a reprodução laboratorial de condições físico-químicas
que, supostamente, teriam sido as da atmosfera primitiva e da •·sopa••
primitiva. Ela se baseia nos resultados de experiências que demonstraram
a possibilidade, nessas condições, de sínteses de aminoácidos e de nucleo-
tídios, tijolos iniciais indispensáveis à fabricação do já complicadíssimo
edifício desse primeiro programa. Evidentemente, devemos sublinhar o
caráter hipotético dessas teorias, às quais J. Monod, por sua vez, não
pareceu dar muita importância. Para ele, a questão da origem da vida e do
primeiro programa era uma questão não-científica, pois concernia à ocor-
rência de um evento de baixíssima probabilidade, mas que mesmo assim
ocorreu, e de uma vez só. Para ele, já que nada além de encontros
moleculares ao acaso poderia explicar a constituição do primeiro organis-
mo vivo, e já que esta, em tais circunstâncias, só poderia ser imaginada
com uma probabilidade praticamente nula, a questão de sua ocorrência
não mais podia ser colocada em termos de probabilidade, a posteriori,
agora que sabemos que isso aconteceu. Tratar-se-ia, portanto, tipicamente
de um evçnto único, não-reprodutível, e que escaparia por definição ao
campo de aplicação da pesquisa científica.
Outros, ao contrário, como A. Katzir-Katchalsky, 10 M. Eigen 11 e 1.
Prigogine, 12 não desistiram e partiram em busca de leis de organização -
físico-químicas, é claro - que permitissem compreender, desta vez, não
apenas que o primeiro programa não tivera uma probabilidade quase nula,
mas que, ao contrário, sua ocorrência fora obrigatória e inelutável. Dentro
dessa perspectiva, a origem da vida não teria sido um evento único de
baixíssima probabilidade, mas um evento que se reproduziria todas as ve-
zes que as condições físico-químicas da terra primitiva se materializassem.
A eventual descoberta de formas de vida em outros planetas seria, eviden-
temente, um argumento a favor dessa segunda linha de pensamento.
22 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

A questão da evolução das espécies também foi recolocada em


termos novos: mutações ocorridas ao acaso produzem mudanças nas
características hereditárias de uma espécie; as pressões devidas às restri-
ções físicas e ecológicas do meio ambiente teriam selecionado os orga-
nismos mais adaptados, que, sendo assim os mais fecundos, logo teriam
substittiído as formas anteriores, ou, no mínimo, coexistido com elas. Esse
esquema constitui a trama do neodarwinismo, e J. Monod o expôs acom-
panhado de uma observação importante, destinada a prevenir a crítica. Ele
reconheceu que o bom senso teria dificuldade em aceitar que essa simples
superposição mutações/seleção pudesse ser suficiente para explicar a
~volução adaptativa das espécies rumo a formas cada vez mais complêxas.
É que, · de fato, a maneira ·como esse mecanismo de seleção pela
fecundidade pode acarretar um aumento progressivo da complexidade,
bem como a aparente orientação da evolução, não está muito clara.
Mesmo que a idéia de uma evolução linear das bactérias para os mamífe-
ros, sein desvios pelas ramificações colaterais, tenha sido abandonada há
muito tempo, ainda assim persiste o fato de que os organismos de apare-
cimento mais recente se afiguram, ao mesmo tempo, os mais complexos,
ou os mais ricos de possibilidades de autonomia, ou os mais org~.nizados,
embora as bactérias, mais antigas, estejam perfeitamente adaptadas a seu
meio, do ponto de vista de sua fecundidade. Na origem dessa orientação,
invoca-se uma interação entre o meio e o organismo: ••A adaptação
tomou-se o resultado de uma partida sutil entre os organismos e aquilo
que os cercava[ ... ]. O ·escolhido' tanto era o meio pelo organismo quanto
o organismo pelo meio ... [... ] A evolução, assim, tomou-se o resultado da
retroação exercida pelo meio na reprodução." 13 E mais: •·se os vertebra-
dos tetrápode~ surgiram e puderam produi.ir a maravilhosa expansão
representada pelos anfíbios, pelos répteis, pelas aves e pelos mamíferos,
foi porque, originalmente, um peixe primitivo ·escolheu· explorar a
terra, onde, no entanto, só conseguia deslocar-se sallitando desajeita:-
damente." 14 ·

J. Monod reconheceu o caráter não-convincente da maneira habitual


de imaginar os mecanismos de mutação-seleção para explicar o caráter
orientado da evolução. Mas atribuiu isso às insuficiências de nossa itna-
ginação e de nosso senso comum, acostumados a ser aplicados a sistemas
relativamente simples, quando chega o momento de imaginar sistemas tão
complexos quanto os Qfganismos v~vos. A situação seria análoga à que
existe na física quântica e relativista, onde a representação nas categorias
do senso comum não consegue acompanhar a verdade cien~ífica a que nos
· conduzem o método experimental e a razão matemática; esse estado de
coisas é aceito na física, ao compreendermos que nossa representação
sensorial e nosso •·senso comum ~ . são adaptados apenas à realidade
macroscópica, e não ao mundo submicroscópico das partículas elementa-
Os DoGMAS E AS DESCÓBERTAS OCULTAS NA NOVA BIOLOGIA 23

res ou ao mundo do infinitamente grande das galáxias. Dado que nenhuma


razão nos força a presumir que as mesmas categorias· da representação
sensorial sejam válidas em todos esses universos, concordàmos em renun-
ciar a essa representação concreta em prol de uma representação abstrata,
matemática, mais rigorosa. Para J. ·Monod, a situação seria análoga na
biologia, porque nossas categorias habituais de representação sensorial e
. de bom senso não estão adaptadas à extrema complexidade dos sistemas
biológicos. Mas, na verdade, a situaçao é muito diferente, porque as
categorias do discurso da física são definidas numa linguagem rigorosa,
que é a da matemática. Inversamente, ainda não existe nenhuma teoria da
extrema complexidade que nos permita fazer uma idéia ·dos ·fenômenos
biológicos, de maneira abstrata, certamente, porém rigorosa e compreen-
sível, em relação aos dados da experiência, na falta.de uma representação
concreta imediata.
· Na verdade, essas dificuldades levaram à busca de uma teoria dessa
natureza sobre a complexidade e a organização e, em termos imediatos, a
questiona~ mais a fundo a idéia de teleonomia e de programação genética.
e
Não para remetê-las à psicologia e extrair disso a clássica esterilizante
conclusão da impossibilidade de reduzir a vida a fenômenos.físico-quí-
micos, mas para estender a física e a química a novas dimensões em que
os fenômenos do ser vivo encontrem seu lugar natural. Vimos, anterior-
mente, que Monod e a maioria dos biólogos moleculares utilizam essas
noções para dar conta da finalidade observada na biologia, de um outro
modo que não pela invocação das causas finais. É que, de fato, a antiga
finalidade na biologia era incômoda, porque sempre cheirava a religião:
sempre implicava, mesmo sem dizê-lo, uma Providência que dirigiria o
desenvolvimento do embrião (ou até a evolução das espécies, como em
Theilhard de Chardin) até seu estado final. Ao contrário, a nova finalidade
seria aceitável por provir, não de um idealismo teológico, mas de um
neomecanicismo.
Com efeito, a própria noção de máquina se modificou, e é disso que
freqüe ntemente não nos conscientizamos e cujas conseqüências filosófi-
cas são ignoradas nesse tipo de debates. Anteriormente, havia uma opo-
sição entre máquina e sistema organizado. Apenas os seres vivos eram
organizados. Para Maupertuis (Essai sur les êtres organisés [Ensaio sobre
os seres organizados]) ou para Kant, a organização era a característica
irredutível da vida; a ela se opunha a máquina, cujos modelos foram o
pêndulo, depois o relógio, e depois a máquina a vapor, dos quais estava
ausente toda e qualquer organização: não havia neles, ao .contrário dos
seres vivos, nenhuma finalidade dirigida por processos de controle. Foi a
cibernética, trinta anos atrás, que revolucionou a idéia de máquina e a de
organização. As noções de controle,feedback [retroalimentação] e trata-
mento da informação quantificada, aplicadas a máquinas (servo-mecanis-
24 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

mos, computadores, robôs), fizeram surgir pela primeira vez seres até
então inexistentes: máq_uinas organizadas. A partir daí, a aplicação de
conceitos provenientes do conhecimento dessas máquinas aos seres vivos,
descritos como .. máquinas naturais .. , não foi mais do que uma justa
inversão das coisas; noções ligadas à organização foram aplicadas ao
mundo do ser vivo, de onde tinham sido extraídas para inspirar a tecno-
logia das novas máquinas artificiais. Nesse meio tempo, entretanto, tais
noções haviam mudado completamente de sentido: a organização já não
era o resultado de propriedades misteriosas e impossíveis de dominar,
ligadas à própri~ existência da vida, visto que sua lógica era compreendida
no caso dos novos sistemas que eram as máquinas organizadas.
Daí a mudança de terminologia, da teleologia do antigo finalismo
para a teleonomia de hoje. De fato, essa nova finalidade não aparece,
como a antiga, sob a forma de uma presença misteriosa e providencial,
em ação na matéria viva para formá-la e direcioná-la para suas formas e
realizações futuras. Ela surge sob a forma de seqüência de estados pelos
quais passam as máquinas organizadas ao executar um programa. A
questão da origem do programa foi posta de lado, não por negligência,
mas por sabermos perfeitamente que se trata de uma metáfora que, mais
tarde, será preciso analisar. E aí está, provavelmente, o ponto fraco do
livro de J. Monod, que deu a entender que os problemas estavam defini-
tivamente resolvidos, quando, ila verdade, tinham sido substituídos por
novas questões que não podiam serformuladas até então: o que diferencia
uma .. máquina natural .. , isto é, um sistema vivo, de uma máquina artifi-
cial, entendendo-se que·ambas são sistemas organizados e que, graças às
novas máquinas artificiais, começamos a ter algumas idéias sobre o que
é a organização?
Vê-se que essas novas questões vão muito além da clássica disputa
sobre a possibilidade ou impossibilidade de reduzir a vida à físico-quími-
ca.- Essas questões sobre a lógica da organização buscam respostas simul-
taneamente válidas para os sistemas físico-químicos não-vivos e para·os
sistemas vivos.
As primeiras reflexões críticas sobre a noção de programa genético
já haviam mostrado os limites da metáfora do programa: tratava-se, na
verdade, de um programa que precisava dos produtos de sua leitura e de
sua execução (as proteínas-enzimas que regulam a transcrição e a tradução
dós ADNs) para ser lido e executado. Ou ainda, como dizem às vezes, de
um programa .. de origem interna". Ora, é claro que não conhecemos
programas dessa ordem nas máquinas artificiais. Na verdade, a analogia
de um programa como seqüência de instruções leva à idéia de que a célula
inteira é seu próprio programa, que, portanto, vai-se construindo à medida
que a máquina funcfona, à maneira de um computador que construísse a
si mesmo. 15 Em outras palavras, essas metáforas cibernéticas aplicadas à
Os DooMAS EAS DESCOBERTAS OCULTAS NA NOVA BIOLOGIA 25

biologia, quando há uma tentativa, afora seu inegável valor operacional


na prática biológica atual, de compreender sua significação, conduzem
inevitavelmente à formulação de novas perguntas.
Evidentemente, podemos extrair disso um argumento para nos con-
tentarmos com a antiga postura negativa e dizer: ••como vocês vêem,
trata-se apenas de metáforas, e a biologia moderna realmente não explica,
em termos físico-químicos e mecanicistas, os fenômenos do ser vivo.··
Mas essa atitude, puramente negativa e esterilizante, deixa de se justificar
a partir do momento em que essas novas perguntas são formuladas numa
nova linguagem, e em que as respostas que elas pedem implicam inevita-
velmente, não uma redução do vivo ao físico-químico, mas uma amplia-
ção deste para uma biofísica 16 dos sistemas organizados, simultaneamente
aplicável a máquinas artificiais e naturais.
Em particular, todos os trabalhos sobre a lógica da auto-organização
rumam nesse sentido. O conceito de sistema auto-organizador surgiu
como uma maneira de conceber os organismos vivos sob a forma de
máquinas cibernéticas com propriedades específicas. Entretanto, está
claro que os únicos sistemas auto-organizadores (e os únicos autômatos
auto-reprodutores) conhecidos até o presente são as máquinas naturais,
cuja ••lógica••, justamente, não conhecemos de maneira precisa. Nessas
condições, podemos interrogar-nos sobre a utilidade da terminologia que
consiste em substituir o termo .. organismo" por .. sistema auto-organiza-
dor .. ou .. autômato auto-reprodutor .. , sem que se saiba, no entanto, como
se realizam esses desempenhos.
Na verdade, essa utilidade é certa: quando nos servimos dessa
terminologia, queremos dizer, implicitamente, que os desempenhos mais
extraordinários dos organismos vivos são o resultado de princípios ciber-
néticos particulares que se trata de descobrir e esclarecer. Na qualidade
de princípios particulares, eles têm que explicar o caráter próprio dos
organismos vivos que exibem esses desempenhos. Todavia', na qualidade
de princípios cibernéticos, eles são postulados em continuidade aos outros
campos da cibernética: os mais bem conhecidos, os que se aplicam aos
autômatos artificiais. As conseqüências desse postulado são duplas: (a) a
especificidade dos organismos vivos está mais ligada a princípios de
organização do que a propriedades vitais irredutíveis; (b) uma vez desco-
bertos, nada deve impedir que esses princípios sejam aplicados aos autô-
matos artificiais, cujos desempenhos, nesse caso, tomar-se-iam idênticos
aos dos organismos vivos. É dentro dessa perspectiva que as investigações
formais sobre a lógica dos sistemas auto-organizadores - que são simul-
taneamente hipotéticos, no sentido de que ninguém nunca os concretizou,
mas muito reais, no sentido de que a natureza os fornece em abundância
- podem apresentar interesse.
Nesse contexto, trabalhos como os de M. Eigen 17 são interessantes,
não apenas por fornecerem um modelo de evolução química que permite
26 ENTRÊ O CRISTAL E A FUMAÇA

construirmos uma imagem da origem da vida, mas também, principalmen-


te, por contribuírem com uma análise muito penetrante da lógica daquilo
que podemos conceber como uma auto-organização da matéria aparente-
mente ·finalizada, com um aumento progressivo da complexidade. Da
mesma forma, os trabalhos de 1. Prigogine 18 e sua escola, bem como os de
A. Katzir-Katchalsky 19 e colaboradores, mostraram como se evidenciam,
em sistemas físico-químicos que estão longe do equilíbrio, propriedades
auto-organizadoras, como conseqüência de pareamentos de fluxos e flu-
tuações aleatórias. Essas propriedades, que são características dos siste-
mas termodinamicamente abertos, possibilitaram o descobrimento de
uma nova classe de estruturas naturais mais ricas do que a dos cristais,
embora esta última fosse ·a única a ter sido verdadeiramente estudada até
pouco tempo atrás, a única a que J. Monod se referiu mais uma vez, em
seu livro, como um modelo físico de estruturação da matéria viva. Por
fim, nossos próprios trabalhos 20 sobre uma teoria da organização, inspi-
rada numa ampliação da teoria da informação de Shannon, permitem
solucionar alguns paradoxos lógicos da auto-organização: como e em que
condições pode-se criar informação a partir do ruído; em outras palavras,·
como e em que condições o acaso pode contribuir para criar uma comple-
xidade organizacional, em vez de ser apenas um fator de desorganização.
Isso, como percebeu claramente Piaget,21 equivale a nós f onnularmos a
questão da lógica de uma evolução com aumento de complexidade sob o
efeito de mutações ao acaso, canalizadas pela seleção natural, bem como
a questão da lógica do desenvolvimento epigenético, onde um programa
de desenvolvimento se constitui a partir de um núcleo invariável, através
de interações com estímulos não-programados _ /aleatórios - do meio
ambiente; e por último, a questão dos mecanismos da aprendizagem
não-programada, ou seja, sem professor ( .. assimilação cognitiva .. 22 ),
onde o que é aprendido é realmente novo, e portanto, perturbador, e
aparentemente só poderia ser rejeitado pelo estado anterior de organiza-
ção do sistema cognitivo, caso este não fosse regido, ele também, pela
lógica da complexidade através do ruído. 23
É à luz de todos esses trabalhos ainda em curso, mas já avançados,
que a problemática clássica da possibilidade ou impossibilidade de redu-
ção da biologia à físico-química nos parece ultrapassada. Uma nova
filosofia que os leve em consideração faz-se necessária. Por sua vez,
também ela está em vias de elaboração. 24
2

ÜRDENS E SIGNIFICAÇÕES

É conhecida a história da escrivaninha e das prateleiras entulhadas de


livros e documentos.• Estes, aparentemente, acham-se empilhados de
qualquer maneira. No.entanto, seu dono sabe perfeitamente encontrar, se
for preciso, o documento que procura. Ao contrário, quando, por infelid-
dade, alguém ousa pôr ordem neles .. , é possível que o dono se tome
06

incapaz de encontrar o que quer que seja. É evidente, neste caso, que a
aparente desordem era uma ordem, e vice-versa. Aqui, trata-se de docu-
mentos em sua relação com seu usuário. A desordem aparente oculta uma
ordem determinada pelo conhecimento individual de cada um dos docu-
mentos e de sua possível significação utilitária. Mas, em que aspecto essa
ordem tem a aparência de desordem? É que, para o segundo observador,
aquele que quer ºpôr em ordem .. , os documentos já não têm, individual-
mente, a mesma significação. Em casos extremos, não têm significação
alguma, a não ser a que se liga a sua forma geométrica e ao lugar que eles
podem ocupar na escrivaninha e nas prateleiras, de maneira a que coinci-
dam, em seu conjunto, com uma certa idéia a priori, com um padrão
cons~derado glo!Jalmente ordenado. Vemos, portanto, que a oposição
entre ordem e aparência de ordem provém de os doc-umentos serem
considerados, quer individualmente, com .sua significação, quer global-
mente~ com uma significação individual diferente (determinada, por
exemplo, por seu tamanho ou sua cor, ou por qualquer outro princípio de
alinhamento importado de fora e sem a opinião de seu usuário), quer ainda
sem significação alguma.
Mas, à parte este exemplo, o que se entende por ordem e desordem
na natureza? Quando deparamos com um fenômeno natural, em que ele
nos parece mais ou menos dotado de ordem? Sabemos que esta questão
não é aca_c:lêmica, pois de sua resposta depende nossa compreensão de um
dos grandes princípios físicos - senão do único - que regem a evolução
dos sistemas naturais, a saber, o segundo princípio da termodinâmica.
Esse princípio, em sua formulação estatística (Boltzmann), efetiva-
mente nos diz que um sistema físico (isto é, um pedaço qualquer de

27
28 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

matéria), estando isolado (isto é, entregue a si mesmo, sem trocas com o


meio), evolui inevitavelmente para um estado de maior ••desordem··
molecular. A desordem máxima seria atingida quando o sistema atinge
seu estado de equilíbrio.2 Na verdade, a desordem de que se trata aqui não
passa de uma homogeneidade estatística, e ·concerne ao alinhamento das
partículas submicroscópicas (moléculas, átomos, partículas elementares)
que constituem a matéria, em todos os seus estados energéticos possíveis
(os ..microestados .. do sistema).
Ora, ocorre que esse princípio já fora estabelecido muito antes
(Carnot, 1824; Kelvin, 1853; Clausius, 1865), sob uma forma sensivel-
mente diferente, a partir das noções de energia livre (ou utilizável) e de
entropia (ou calor não-utilizável), estabelecjdas através do estudo das
máquinas térmicas. Sob essa forma, que fundou a termodinâmica macros-
cópica, ele nos diz que um sistema físico isolado evolui inevitavelmente
para um estado de entropia máxima, que ele atinge quando fica em
equilíbrio. Antes de se definir estatisticamente a entropia como uma
medida da homogeneidade microscópica, 3 ela foi e continua a ser definida
como uma grandeza macroscópica ligada ao calor e à energia utilizável
de um sistema físico: trata-se de uma quantidade de calor não-transfor-
mável em trabalho (por unidade de temperatura).
Com efeito, em qualquer máquina em que diferentes formas de
energia sejam transformadas umas nas outras, existe sempre uma quanti-
dade de calor perdida, não recuperável. Ela não pode mais ser utilizada
sob nenhuma outra forma de energia, nem mecânica (isto é, produtora de
movimento da matéria, de trabalho), nem elétrica, nem química. É o calor
produzido pelo atrito indesejável que os melhores rolamentos de esferas
não conseguem evitar, ou pelos escapamentos de vapor ou de corrente
elétrica que os melhores isolantes não conseguem anular, ou pelo petróleo
queimado para fabricar eletricidade, sem que nenhuma usina química que
funcione com essa eletricidade possa ressintetizar uma quantidade de
combustível igual à que foi utilizada: em suma, por todas as imperfeições
das máquinas reais, em comparação com idealizações como os movimen-
tos sem atrito, os isolantes perfeitos, os movimentos perpétuos, os ciclos
reversíveis etc. A significação física dessa grandeza, entropia ou ••calor
não-utilizável .. (Clausius), continuou misteriosa por muito tempo. Por
que não existem, na realidade física, movimentos sem atrito, isolantes sem
escape e ciclos de transformação perfeitamente reversíveis? Por que, em
toda transformação energética, uma certa quantidade de calor é sempre
produzida e perdida, sem que seja possível reutilizá-la como trabalho?
Essa indagação só encontrou resposta várias dezenas de anos depois dos
trabalhos de Camot e Clausius, quando Boltzmann forneceu uma inter-
pretação estatística da grandeza entropia. A matéria só se deixa restringir
e dominar até certo ponto. As transformações impostas pelas máquinas
ORDENS E SIGNIFICAÇÕES 29

implicam uma orientação, uma ordenação da matéria e de seus compo-


nentes (moléculas, átomos). Entregue a si mesma, a matéria ignora essa
ordem imposta pelo construtor de máquinas. Em particular, a principal
fonte de energia natural, o calor (o do fogo e do sol), tem como efeito
agitar as moléculas desordenadamente, isto é, aleatoriamente, em todas
as direções, sem que nenhuma delas seja privilegiada, nem mesmo numa
média estatística. Para que haja movimento, deslocamento de matéria,
trabalho, é preciso que todas as moléculas da amostra se desloquem juntas
na mesma direção. ..
Transformar calor em trabalho implica que se ordene o movimento
desordenado das moléculas num movimento orientado, de tal sorte que,
em média, as moléculas se desloquem numa mesma direção. Essa trans-
formação, imposta de fora, não pode ser total: uma certa parcela de
desordem molecular continuará a existir e se traduzirá por um calor
não-utilizável. Isso é o que diz o segundo princípio da termodinâmica, em
sua interpretação estatística.
Boltzmann mostrou a igualdade entre essa quantidade de calor
não-utilizável e uma medida do estado de ''desordem•• molecular baseada
no estudo das probabilidades de encontrar todas as moléculas de uma
amostra em seus diferentes estados possíveis (em particular, as probabi-
lidades de ver todas se movimentarem numa ou noutra direção4 ).
O clássico exemplo da experiência de difusão permite compreender
de que tipo de desordem se trata. Uma gota de tinta é delicadamente
depositada sobre a superfície de uma cuba d•água. O conjunto cuba-dá-
gua-gota de tinta constitui um sistema físico que isolamos e deixamos
evoluir. Sabe-se que a tinta se difundirá por toda a água que lhe for
oferecida, até que se tenha constituído uma solução homogênea, e isso, é
claro, sem que seja necessário agitar o conjunto. É como se existisse uma
agitação microscópicas que mistura as moléculas de tinta com as de água
e leva à mesma mistura homogênea (ainda que isso tome mais tempo) que
uma agitação conscienciosa produzida de fora. Essa evolução espontânea
para uma dispersão homogênea da tinta na água é um caso particular de
aplicação do segundo princípio da termodinâmica.
Uma evolução na direção oposta, da solução homogênea para~ gota
de tinta na superfície, nunca é espontaneamente observada ... a não ser nos
filmes cinematográficos rodados de trás para frente. Ela implicaria justa-
mente uma reversibilidade do tempo. 6 Somente uma intervenção externa
seria capaz de tomar a separar as moléculas de tinta da água. A primeira
evolução se efetua espontaneamente. A segunda, na direção oposta, só
pode ser produzida sob o efeito de vínculos externos, que para . isso
dissipam energia irreversivelmente. No processo espontâneo, o estado
inicial do sistema é caracterizado por uma concentração muito elevada
no ponto em que a gota é depositada e em concentrações nulas em todos
30 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

os demais pontos; o estado fmal se caracteriza por uma homogeneidade


da8 concentrações, iguais por toda parte. Ora, da concentração de uma
substância como solução depende sua energia (química) interna, passível
de ser transformada em trabalho e em calor por ocasião de eventuais.
reações químicas (ou eletroquímicas, ou mecanoqufmicas). A distribuição
não-homogênea das concentrações na cuba corresponde, portanto, a uma.
distribuição não-homogênea dos estados energéticos das moléculas do
sistema. A homogeneidade das concentrações que caracteriza o estado de
equilíbrio para o qual o sistema evolui corresponde, pois, a uma homoge-
neidade da distribuição das moléculas pelos diferentes estados energéti-
cos.7 O grau de homogeneidade das concentrações também pode se
exprimir por uma distribuição das probabilidades da presença de molécu-
las de tinta em cada ponto da cuba. A homogeneidade perfeita corresponde
a uma distribuição equiprovável; a probabilidade de encontrar uma molé-
cula de tinta em cada ponto da cuba é a mesma por toda parte. É essa
equiprobabilidade, essa homogeneidade, que caracteriza o estado de má-
xima desordem molecular. É a esse estado que chamamos estado de
entropia máxima, para o qual o sistema evolui espontaneamente e que ele
só atinge quando, em equilíbrio, tiver acabado de evoluir. 8
Na física, portanto, desordem corresponde à imagem que fazemos
de uma distribuição totalmente aleatória de objetos, obtida, por exemplo,
sacudindo-os ao acaso e levando-os ase disporem de maneira estatistica-
mente homogênea. Ao contrário, ordem corresponderia a uma heteroge-
neidade medida por probabilidades desiguais: por exemplo, a probabili-
dade de encontrar uma intensa concentração de moléculas9 seria mais
elevada em alguns pontos do espaço do que em outros.
Assim,· a defmição de ordem e de desordem na Natureza apresenta
diferenças evidentes da defmição implícita no exemplo da escrivaninha e
sua arrumação. A primeir~ característica a distingui..,.las é que, aqui, a
definição parece objetiva, medida por uma grandeza física, a entropia. No
exemplo da escrivaninha, ao contrário, ó caráter ordenado depende da.
significação possível da ordem, que é diferente para diferentes observa-
dores-usuários .
. E, no entanto, a própria entropia, grandeza física, só é definida em
relação às possibilidades de observação e medida, como mostra o exemplo
da entropia de' mistura de dois gases diferentes. A formação espontânea
de uma mistura homogênea de dois gases é acompanhada, evidentemente,
por um aumento da entropia, que eventualmente é possível medir. Ora,
esse fenômeno é concebido de maneiras diferentes, conforme seja consi.:.
derado antes ou depois da descoberta da radioatividade. Quando utiliza-
mos moléculas radioativas do mesmo gás, ele já não é o mesmo gás e
ex.iSte uma entropia de mistura. O que significa que, considerando um
mesmo sistema de dois reservatórios de um mesmo gás, um radioativo e
ORDENS E SIGNIFICAÇÕES 31

outro não, que deixamos que se misturem, não existia entropia de mistura
antes da descoberta da radioatividade e es.5a entropia passou a existir
depois dessa descoberta! Na verdade, como começamos a perceber, a
lógica das possibilidades de obsel'Vação e medida desempenhou um papel
nada insignificante na definição de outras grandezas físicas dentre as que
se afiguram as mais .. naturais .. , como energia, força e velocidade ... sem
falar na física quântica e nas dificuldades conceituais que ela desvelou no
tocante à natureza do objeto físico. 10
Uma segunda característica da desordem na física é que sua defini-
ção é estatística e parece excluir qualquer preocupação com a significação
dos objetos constitutivos do sistema considerado. Essa segunda caracte-
rística aparece muito ·claramente quando nos referimos à definição da
entropia como um caso particular da informação, no sentido da teoria da
informação de Shannon. Mas ela também se evidencia, de maneira inde-
pendente - pré-shannoniana, diríamos - , no âmbito de uma reflexão
sobre a.S relações entre a entropia como grandeza macroscópica (Camot,
Clausius, Kelvin) e sua representação microscópica na termodinâmica
estatística (Boltzmann).
Consideraremos essas duas abordagens, pois elas se esclarecem
mutuamente; ademais, como veremos, ambas desembocam num novo
questionamento, ou melhor, num aprofundamento da primeira caracterís-
tica, a objetividade, pela qual a ordem física nos pareceu diferenciar-se
da ordem da arrumação. ·
A teoria da informação de Shannon também utiliza as probabilida-
des e ·resulta, formalmente, numa expressão matemática muito próxima
da de Boltzmann para a entropia.
Nela, em lugar de probabilidade de presença de moléculas em
determinado estado, trata-se, de modo mais geral, de probabilidade de
presença de sinais em determinado lugar de uma mensagem, depois de se
ter deixado bem claro que esses sinais e essa mensagem só são analisados
através dessas mesmas probabilidades, sem que sua significação jamais
seja levada em conta. A probabilidade de presença de um sinal serve para
medir a quantidade de informação - sem significação - trazida por esse
sinal: quanto mais improvável, a priori, é a ocorfência de um sinal
particular numa mensagem, mais informativa, a posteriori, é sua ocorrên-
cia. Inversamente, quando é certo, a priori, que esse sinal deverá estar
presente, sua ocorrência não traz, a posteriori, nenhuma informação
suplementar.
A utilização que Shannon fez das probabilidades ·para medir a
informação sem srgnificação foi a mesma de Boltzµlann para medir o grau
de desordem molecular .de uma amostra de matéria~ -Em ambos os casos,
a medida da incerteza média, que pode exprimir a desordem ou a infor-.
mação; utiliza a mesma expressão matemática, :Epi log Pi (soma das
32 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

probabilidades de presença Pi de signos do índice i, cada uma delas


multiplicada por seu logaritmo log Pi). Mas a fórmula de Shannon (H -
-~Pi log Pi) utiliza essa expressão tal e qual - exceto pelo sinal - e se
reduz, portanto, a uma função de probabilidades. Ao contrário, a fórmula
de entropia (S - -k ~Pi log Pi) utiliza essa mesnia expressão, multiplican-
do-a por uma constante física universal~ k, chamada de constante de
Boltzmann. É esta constante k (igual a 3,3 X 10·24 calorias/grau, mas aqui
pouco importa o número) que, no plano das unidades, constitui a articu-
lação entre uma medida de ordem reduzida a probabilidades (número sem
dimensão) e uma quantidade de ..calor não-utili.záver •, medida em calo-
rias por grau, ou seja, a energia por unidade de temperatura. Sem a
constante k, a medida estatística da entropia física seria rigorosamente
idêntica à da informação ou .. entropia de mensagem .. , como a chamou
Shannon. Mas, nesse caso, ela não teria nenhuma relação com a medida
energética da entropia como calor não-utilizável, que é utilizada nos
balanços termodinâmicos desde que o estudo das máquinas impôs seu
paradigma à totalidade do mundo físico. Muito nos temos interrogado
sobre a significação dessa constante. 11 Para alguns, é possível apagar sua
natureza energética - atribuindo à temperatura o significado e a dimen-
são de uma energia -, o que tem como efeito eliminar a natureza
energética ou calorífica da própria entropia. 12 Assim, as duas funções, H
de Shannon e S de Boltzmann, tomam-se idênticas, sendo ambas reduzi-
das a medidas de incerteza probabilística. Essa tendência corresponde
perfeitamente ao caráter operatório e quase idealista da definição das
grandezas físicas a partir de operações de observação e mensuração em
que as condições de exercício do observador não podem ser ignoradas. O
paradoxo de Gibbs no tocante à entropia de mistura, citado anteriormente,
mostrou-nos isso em ação no que concerne à entropia. Mas hoje sabemos
que o mesmo sempre aconteceu no que concerne a grandezas físicas que,
no entanto, são bem aceitas como fazendo parte da ''realidade .. : veloci-
dade, força e energia. 13 _
Para outros, ao contrário, esta constante k exprime, no nível micros-
cópico, a presença da experiência macroscópica, sensorial, da matéria e
da energia. O calor e a energia são considerados como propriedades da
matéria em si, e os fluxos de calor são percebidos, tal como as correntes
elétricas ou os fluxos de matéria, como deslocamentos de cargas térmicas
sob o efeito de uma força ou de uma diferença de potencial - a saber, no
caso, uma diferença de temperatura. Para Jean Thoma, 14 que retomou e
desenvolveu essa antiga idéia de Carnot com a ajuda de conceitos moder-
nos de termodinâmica em redes, 15 k representa um l1_uantum de carga
térmica, um ••germe•• de entropia, a menor quantidade possível de calor
deslocável por unidade de. temperatura associada, se nos é lícito dizê-lo,
a cada molécula. É a medida da incerteza probabilística acerca dos estados
ORDENS E SIGNIFICAÇÕES 33

energéticos das moléculas que, multiplicando esse quantum, fornece o


calor macroscópico não-utilizável. Este passa então a caracterizar, em
média, não mais uma só molécula, mas o imenso conjunto constituído por
qualquer pedaço de matéria observável. Essa concepção tem a vantagem
de preservar na entropia seu caráter de grandeza física ••objetiva··. Seria,
portanto, mais essencialista, mais materialista, pelo menos no nível mi-
croscópico: o calor encontrado na matéria macroscópica não mais desa-
pareceria num plano imaterial de probabilidades. A rigor, essa concepção
está estreitamente ligada a uma definição operacional e restrita da utili-
dade e do uso possível do calor. Nesse sentido, ela só faz destacar ainda
mais, por outro lado, o caráter operacional das grandezas físicas ligado às
condições de observação e medida que ela parecia haver eliminado. O
mesmo J. Thoma 16 mostrou claramente como, ao deixarmos o campo
restrito da termodinâmica das máquinas para considerar uma termodinâ-
mica de sistemas mais globais (por exemplo, das cidades), a noção de
calor não-utilizável é completamente reformulada. Esse calor, .. não-uti-
lizável .. pelas máquinas que produzem trabalho, eletricidade, química e
outros, pode muito bem ser utilizado ... no aquecimento! Do mesmo modo,
.em menor escala, num automóvel, o calor não-utilizável da termodinâmi-
ca habitual fica limitado ao funcionamento do motor, onde aparece como
uma imperfeição ligada aos atritos inevitáveis. Mas, se considerarmos o
sistema mais global que contém o carro, seu motorista e seus passageiros,
veremos que pelo menos parte desse calor "'não-utilizável .. torna-se útil
para o aquecimento deles e ressurge num equilíbrio mais geral. Assim, é
perfeitamente visível que a noção de calor não-utilizável faz com que o
operacional ressurja na definição, que se estabelece em relação a condi-
ções precisas de utilização pelo observador-usuário.
Na verdade, essa concepção aparentemente essencialista do papel
de k equivale à projeção de uma significação na medida probabilística de
uma ordem inicialmente desprovida de significação. De fato, é como se a
multiplicaçfo por k transformasse a medida de umQ ordem probabilística
sem significação numa medida da ordem com vistas a sua utilização
energética numa máq_uina. Podemos dizer que k, compreendido como um
quantum de entropia aparentemente .. objetiva .. , efetivamente desempe- 1
nha o papel de um . quantum de significação que transforma a ordem
não-significada das probabilidades numa ordem utilitária para o bom
funcionamento das máquinas térmicas.
A primeira concepção de k, mais francamente operacional, funciona
como se pudéssemos prescindir de levar em conta a significação da ordem
e da desordem. A outra, aparentemente, é essencialista, porque funciona
como se uma significação utilitária, limitada às máquinas, estivesse ' ·ob-
jetivamente·· contida na matéria. De fato, essa significação, pelo menos
em parte, é projetada pelo observador em função das condições de utili-
-zação que ele define.
34 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

Numerosas conseqüências físicas e filosóficas foram extraídas des-


sa relação estreita entre as fórmulas de Shannon e Boltzmann. 17 Não
voltaremos a elas aqui. Basta lembrarmos que, na totalidade dos casos, a
significação - da informação, da ordem - fica excluída. Na melhor das
hipóteses, como acabamos de ver, a significação só se faz presente como
sendo sempre idêntica a ela mesma e reduzida à utilização possível da
matéria numa máquina de transformar energia.
Ora, na verdade, é perfeitamente sabido que uma mensagem sem
significação não tem interesse e, em última instância, não existe. E essa
informação shannoniana, reduzida à incerteza probabilística, só tem, por
sua vez, um interesse operacional: em algumas situações muito precisas,
o problema a ser resolvido é o mesmo, .qualquer que seja a significação
da mensagem, daí o interesse de colocar entre parênteses essa significa-
ção.Trata-se, por exemplo, dos problemas de telecomunicações, onde as
mensagens devem ser fielmente transmitidas, sejam elas quais forem e
qualquer que seja sua importância ou sua futilidade, assim como os
serviços postais só têm que se preocupar em encaminhar as cartas, sem
levar em conta seu conteúdo, perfeitamente ignorado. Mesmo que as
situações desse tipo sejam muito mais freqüentes do que supomos e
possam ser generalizadas para um grande número de problemas, 18 não
podemos esquecer que a significação da mensagem está seinpre presente.
Sua colocação entre parênteses só pode ser provisória, simplesmente para
permitir uma descrição .. funcional .. desse fragmento - restrito - da
realidade onde nos é possível ignorá-lo. A descrição e a compreensão de
uma realidade mais ampla já não podem furtar-se a levá-la em conta, ainda
que, para isso, os métodos disponíveis sejam muito menos simples.
É importante compreender que o mesmo acontece no que concerne
à medida da ordem na natureza, tal como nos é sugerida pela física. Tomar
a grandeza entropia como medida da desordem implica uma definição
puramente probabilística da ordem, uma definição da qual, ou a signifi-
cação está ausente, ou em que é reduzida e uniformizada, como vimos.
Trata-se, também nesse caso, de uma definição operacional que funciona
em situações em que é possível abstrair as significações. (Na verdade, não
temos essa opção, porque não as conhecemos, já que não conhecemos
individualmente o estado de cada molécula e já que o efeito de seus
movimentos só pode ser globalmente observado; conhecemos menos
ainda, portanto, o efeito do movimento de cada uma delas, individualmen-
te considerada, sobre o desta ou daquela de suas vizinhas.) Ora, também
aqui, embora a ignóremos, a significação continua presente. Uma ordem
observada na natureza só aparece como tal aos olhos do observador que
nela projeta significações .conhecidas ou supostas. Por isso, medir a
desordem física pela entropia implica que consideremos apenas um as-
pecto muito particular da ordem. Ou seja, que na fórmula que a exprime,
ORDENS E SIGNIFICAÇOES 35

k seja concebido como um número sem dimensão (quantum de absurdo?),


e a entropia seja então a medida de uma desordem em relação a uma ordem
puramente probabilística, da qual toda e qualquer significação esteja
ausente. Ou seja, que k tenha a função de um quantum de significação de
uso, e a entropia seja então a medida da desordem de um sistema físico,
do ponto de vista unicamente dessa significação de uso de uma máquina
térmica anificial, arbitrariamente estendida a toda a natureza. Na totali-
dade dos casos, a riqueza das significações naturais, possíveis ou realiza-
das, encontra-se ausente. 19
Veremos, mais adiante, como a observação mais geral de ordens
naturais em sistemas materiais não construídos pelo homem, sistemas
auto-organizadores, deve fazer-nos levar em conta as significações implí-
citas que continuam presentes, do mesmo modo que a análise das comu-
nicações não pode evitar, a partir de certo grau de generalidade e profun-/
deza, levar em conta a significação das mensagens.
E agora teremos que nos fonnular a questão, permanentemente
reaberta, da realidade e do lugar dessas significações: ou a característica
do próprio sistema observado, ou o resultado das projeções do observador
a quem a realidade se afigura ordenada, ou.ambas as coisas, reunidas na
operação de observação.
3

Do RUÍDO COMO PRINCÍPIO


DE AUTO-ÜRGANIZAÇÃ0 1• 2

" ... porque se conduziram comigo desordenadamen-


te, também eu me conduzirei com eles desordenada-
mente ... "
Levítico, XXVI, 40-41

''Ponho para ferver em meu caldeirão tudo o que é


aleatório. E somente quando o acaso está cozido no
ponto é que lhe dou as boas-vindas parafazer dele meu
alimento. E, na verdade, muito acaso tem-se acercado
de mim como senhor: mas minha vontade lhe fala de
maneira ainda mais imperiosa - e prontamente ele se
põe de joelhos diante de mim, suplicando - suplican-
do-me dar-lhe asilo e acolhida cordial, e falando comi-
go de maneira lisonjeira: 'Mas, veja, Zaratustra, só ·
mesmo um amigo pode chegar assim d casa de um
amigo!'''
F. Nietzsche,
Assim falou Zaratustra. III, 5-3.

MÁQUINAS NATURAIS E ARTIFICIAIS

Desde as origens da cibernética - que em geral se concorda em reconhe-


cer na obra de N. Wiener [1], em 1948 -, uma espécie de neomecanicis-
mo foi-se impondo progressivamente tia biologia, consistindo em consi-
derar os organismos vivos como máquinas de um tipo particular,
chamadas de máquinas naturais numa referência às máquinas artificiais
concebidas e fabricadas pelos homens. Entretanto, seria errôneo conside-
rar essa atitude como uma continuação do mecanismo do século XIX e do
início do século XX. Tanto por suas conseqüências na ordem dos conhe-
cimentos biológicos quanto por suas implicações metodológicas, ela se

36
Do Rufoo COMO PRINCIPIO DE AUTO-ORGANIZAÇÃO 37

distingue fundamentalmente do mecanicismo, em virtude da própria na-


tureza radicalmente nova dessas máquinas artificiais, que são referenciais
em relação aos quais se observam e analisam não apenas as semelhanças,
mas, também e principalmente, as diferenças.
Essas máquinas, apesar de produzidas por seres humanos, já não são
sistemas físicos simples e transparentes, de modo que as diferenças
observadas nos organismos são grosseiras e evidentes demais para ensinar
seja o que for. Como dizia W.R. Ashby [2] em 1962, ••até uma época
recente não tínhamos a experiência de sistemas d~ média complexidade;
tratava-se de sistemas tais que, fossem eles o relógio e o pêndulo, consi-
derávamos suas propriedades limitadas e evidentes; fossem eles o cão e o
ser humano, considerávamos suas propriedades tão ricas e notáveis que
as julgávamos sobrenaturais. Somente nestes últimos anos é que fomos
brindados com os computadores universais, com sistemas suficientemente
ricos para ser interessantes, mas suficientemente simples para ser com-
preensíveis ...• O computador é uma dádiva dos céus ... pois permite lançar
uma ponte sobre o imenso golfo conceituai que separa o simples e
compreensível do complexo e interessante ...
Além disso, a ciência dessas próprias máquinas artificiais está longe
de ser fechada, de modo que esse neomecanicismo não consiste numa
superposição pura e simples de esquemas mecânicos aos organismos
vivos, mas num vaivém dessa ciência à ciência biológica e vice-versa,
com interpenetração e fecundação recíprocas, cujas conseqüências se
fazem sentir na evolução e nos avanços de ambas as ciências. É por serem
os modelos cibernéticos extraídos de uma ciência que está, ela mesma,
em desenvolvimento, de uma ciência em que novos conceitos ainda estão
por ser descobertos, que sua aplicação à biologia pode não resultar na redução
a um mecanicismo elementar, do tipo do que prevaleceu no século passado.

A CONFIABILIDADE DOS ORGANISMOS

Antes mesmo de se contemplarem os problemas da auto-organização e da


auto-reprodução, uma das mais importantes diferenças reconhecidas entre
as máquinas artificiais e as máquinas naturais foi a aptidão destas últimas
para integrar o ruído. Fazia muito tempo que a confiabilidade dos orga-
nismos [3] havia surgido como um desempenho sem medida de compara-
ção com a dos computadores. Uma confiabilidade como a do cérebro,
capaz de funcionar continuamente, embora todos os dias morram células
que não são substituídas, com mudanças inopinadas do fluxo de irrigação
sangüínea, oscilações de volume e pressão, sem falar em amputações de
partes importantes, que só perturbam de maneira muito limitada os de-
sempenhos do conjunto, evidentemente não tem igual em nenhum autô-
mato artificial, seja ele qual for. Esse fato já havia impressionado J. von
38 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

Neumann [4, 5], que procurava melhorar a confiabilidade dos computa-


dores, e que só conseguia conceber tamanha diferença de reação aos
fatores de agressões aleatórias do meio, constitutivos do .. ruído .. , como
conseqüência de uma diferença fundamental na lógica da organização do
sistema. Os organismos, com sua faculdade de .. engolir .. o ruído, não
podiam ser concebidos como máquinas apenas um pouco mais fidedignas
do que as máquinas artificiais conhecidas, mas como sistemas cuja con-
fiabilidade só podia ser explicada por princípios de organização qualita-
tivamente diferentes. Daí todo um campo de pesquisas, inaugurado por
von Neumann [4] e seguido por muitos outros, especialmente Winograd
e Cowan [3, 6], com a finalidade de descobrir princípios de construção de
autômatos cuja confiabilidade fosse maior que a de seus componentes!
Essas pesquisas resultaram na definição de condições necessárias (e
suficientes) para a realização desses autômatos. A maioria dessas condi-
ções (redundância dos componentes, redundância das funções, complexi-
dade dos componentes, deslocalização das funções) [6, 7] resultou numa
espécie de compromisso entre determinismo e indeterminismo na cons-
trução dos autômatos, como se uma certa quantidade de indeterminação
fosse necessária, a partir de certo grau de complexidade, para pennitir ao
sistema adaptar-se a um certo nível de ruído. Isso, evidentemente, não
tleixa de lembrar um resultado análogo obtido na teoria dos jogos pelo
mesmo Neumann [8].

0 PRINCÍPIO DA ORDEM A PARTIR DO RUÍDO

Deu-se um passo a mais nessa direção por ocasião de pesquisas formais


sobre a lógica dos sistemas auto-organizadores, atribuindo-se aos orga-
nismos ·não apenas a propriedade de resistir eficazmente ·a o ruído, mas
também de utilizá-lo a ponto de transformá-lo num fator de organização!
H. von Foerster [9] foi o primeiro a exprimir, ao que saibamos, a neces-
sidade de um ··princípio de ordem a partir do ruído" para explicar as
propriedades mais singulares dos organismos vivos como sistemas auto-
organizadores, em especial sua adaptabilidade. O •·princípio da ordem a
partir ·da ordem••, implícito nas modernas teorias termodinâmicas da
matéria viva inauguradas pelo ensaio de Schrõdinger [10], What is Life ?,
em 1945, não lhe pareciam suficientes. 3 ··os sistemas auto-organizadores
não se alimentam apenas da ordem, mas também encontram o ruído em
seu cardápio ... Não é mau ter ruído no sistema. Quando um sistema se fixa
num estado particular, ele fica inadaptável, e esse estado final pode ser
igualmente ruim. Ele será incapaz de se ajustar a alguma coisa que .
constitua uma situação inadequada" [9].
Uma série de trabalhos de W.R. Ashby [11, 2] conduz para essa
mesma direção, ainda que a ênfase não seja explicitamente colocada na
Do Rutoo COMO PR.INCf PIO DE AUTO-ORGANIZAÇÃO 39

idéia de um papel organizacional do ruído. Esse autor, a princípio,


estabeleceu rigorosamente uma lei dos sistemas de regulação a que
denominou de ··1ei da variedade indispensável .. [11]. Essa lei é impor-·
tante para a compreensão das condições estruturais mínimas necessárias
à sobrevivência de qualquer sistema exposto a um meio ambiente, fonte
de agressões e perturbações aleatórias.
Tomemos um sistema exposto a um certo número de diferentes
perturbações possíveis. Ele . tem a sua disposição um certo número de
respostas. Cada seqüência perturbaÇão-resposta coloca o sistema em
determinado estado. Dentre todos os estados possíveis, apenas alguns são
• ·aceitáveis.. do ponto de vista da finalidade (ao menos aparente) do
sistema, que pode ser sua simples sobrevivência ou a realização de uma
função. A regulação consiste em escolher, dentre as respostas possíveis,
as que coloquem o sistema num estado aceitável. A lei de Ashby estabe-
lece uma relação entre a variedade4 das perturbações, a das respostas e a
dos estados aceitáveis. A variedade das respostas disponíveis deve ser tão
maior quanto maior for a das perturbações e quanto menor for a dos
estados aceitáveis. Em outras palavras, uma grande variedade·nas respos-
tas disponíveis é indispensável para assegurar uma regulação de um
sistema que vise a mantê-lo num número muito limitado de estados,
embora ele seja submetido a uma grande variedade de agressões. Ou
ainda, num ambiente que seja fonte de diversas agressões imprevisíveis,
a variedade na estrutura e nas funções do sistema é um fator indispensável
de autonomia.
Mas sabemos, por outro lado, que um dos métodos eficazes para
lutar contra o ruído, ou seja, para identificar e corrigir eventuais erros na
transmissão das mensagens, consiste, ao contrário, em introduzir uma
certa redundância, isto é, uma repetição dos símbolos na mensagem.
Assim, já percebemos como, nos sistemas complexos, o grau de organi-
zação não pode ser reduzido nem a sua variedade (ou a sua quantidade de
informaçãos), nem a sua redundância, mas deve consistir num compro-
misso ótimo entre essas duas propriedades opostas.
O mesmo autor, por outro lado, estudando a significação lógica do
conceito de auto-organização [2], chegou à conclusão da impossibilidade
lógica de auto-organização num sistema fechado, isto é, sem interação
com seu ambiente. Com efeito, uma máquina pode _ser formalmente
definida, da maneira mais geral possível, por um conjunto E de estados
internos e um conjunto I de entradas (inputs). O funcionamento da
máquina é a maneira como as entradas e os estados internos, num dado
instante, determinam os estados internos no instante seguinte. Na termi-
nologia da teoria dos conjuntos, portanto, ele pode ser descrito por uma
função/, que é a projeção do conjunto produzido por I x E em E; assim,
a organização funcional da máquina pode ser identificada por f. Falamos
40 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

em auto-organização, no sentido estrito, quando a própria máquina é


capaz de modificar a função f sem nenhuma intervenção do ambiente, de
tal maneira que esteja sempre mais bem adaptada para aquilo que faz. Se
fosse possível, isso significaria que f modificaria a si mesma como
conseqüência apenas de E. Mas isso é absurdo, pois, se pudéssemos
definir determinada mudança de f como conseqüência de E, essa própria
mudança não seria nada além de parte de uma outra lei de projeção f ·.
Isso significaria que a organização da máquina seria regida por outra
função f •, a qual, por sua vez, seria constante. Para ter uma projeçãof que
realmente modifique, temos que definir uma função ! (t) do tempo que
determine essas mudanças a partir do exterior de E.
Em outras palavras, as únicas mudanças capazes de implicar a
organização em si - e de não serem simplesmente mudanças de estado
do sistema que façam parte de uma organização constante - têm que ser
produzidas de fora do sistema. Mas isso é possível de duas maneiras
diferentes: ou um programa preciso, injetado no sistema por um progra-
mador, determina as mudanças sucessivas de/, ou então estas continuam
a ser determinadas do exterior, mas por fatores aleatórios nos quais é
impossível estabelecer qualquer lei que prefigure uma organização, qual-
quer pattern que permita discernir um programa. Esse é o momento em
que poderemos falar de auto-organização, mesmo que não seja no sentido
estrito.
Essa, portanto, é outra maneira de sugerir um princípio de ordem a
partir do ruído na lógica dos sistemas auto-organizadores.
Podemos encontrar mais outras, especialmente na análise do papel
do aleatório na organização estrutural (isto é, nas conexões) de redes
neurais complexas, que devemos, em particular, a R.L. Beurle [13], e que
o mesmo W.R. Ashby [12] retomou posteriormente.
No âmbito de trabalhos anteriores [14, 15, 7], tentamos dar ao
princípio de ordem a partir do ruído uma formulação mais exata, 6 com a
ajuda do formalismo da teoria da informação, e agora nos propomos expor
sucintamente suas principais etapas.

LEMBRETES SOBRE A TEORIA DA INFORMAÇÃO


APLICADA A ANÁLISE DE SISTEMAS

Um dos principais teoremas dessa teoria, devido a C.E. Shannon [16],


estabelece que a quantidade de informação de uma mensagem transmitida
por uma via de comunicação perturbada por ruído só pode decrescer
numa quantidade igual à ambigüidade introduzida por esse ruído entre a
entrada e a saída da via. Os códigos corretores de erros, introduzindo uma
certa redundância na mensagem, podem diminuir essa ambigüidade de tal
modo que, em casos, extremos, a quantidade de informação transmitida
Do Rufoo COMO PRINCIPIO DE AUTO-ORGANIZAÇÃO 41

seja igual à quantidade emitida; em nenhuma eventualidade, porém, ela


poderá ser superior. Quando, como propuseram muitos autores, utiliza-
mos a quantidade de informação de um sistema assimilado a uma mensa-
gem transmitida a um observador como uma medida de sua complexidade,
ou, pelo menos parcialmente, de seu grau de organização, esse teorema,
parece excluir qualquer possibilidade de um papel positivo, organizacio-
nal, do ruído. Tivemos a oportunidade de mostrar que isso não é verdade
[14, 15], precisamente por causa dos postulados implícitos com a ajuda
dos quais a teoria da informação é aplicada à análise de sistemas organi-
zados, embora seu campo de aplicação, em sua forma primitiva, parecesse
limitado aos problemas de transmissão de mensagens nas vias de comu-
nicação.
A quantidade total de informação de uma mensagem é uma grandeza
que mede, num grande número de mensagens escritas na mesma língua e
com o mesmo alfabeto, a probabilidade média de aparecimento das letras
ou símbolos do alfabeto, multiplicada pelo número de letras ou símbolos
da mensagem. A quantidade média de informação por letra é comumente
designada pelo nome de quantidade de informação ou entropia da mensa-
gem, em virtude da analogia entre a fórmula de Shannon, que a exprime
a partir das probabilidades das letras, e a fórmula de Boltzmann, que
exprime a entropia de um sistema físico com a ajuda das probabilidades
dos diferentes .. estados .. em que o sistema pode se encontrar. Essa
analogia, objeto de inúmeros trabalhos e discussões, encontra-se, entre
outras coisas, na origem do rápido transbordamento da teoria da informa-
ção do âmbito dos problemas de comunicação para o campo da análise da
complexidade dos sistemas. A quantidade de informação de um sistema,
composto de partes, passa a ser definida a partir das probabilidades que
podemos atribuir a cada saída de seus componentes, num conjunto de
sistemas supostamente homogêneos uns aos outros em termos estatísticos;
ou ainda, a partir do conjunto de combinações que é possível realizar com
seus componentes, que constitui o conjunto dos estados possíveis do
sistema [17]. Seja qual for o caso, a quantidade de informação de um
sistema mede o grau de improbabilidade de que a reuni.ão dos diferentes
componentes seja resultante do acaso. Quanto mais um sistema se compõe
de um grande número de elementos diferentes, maior é sua quantidade de
informação, pois maior é a improbabilidade de constituí-lo tal como ele
é através da reunião aleatória de seus componentes. Por isso é que foi
possível propor essa grandeza como uma medida da complexidade7 de um
sistema, por ela ser uma medida do grau de variedade dos elementos que
o constituem. Diz um teorema da teoria que a quantidade de informação
em unidades, bits, de uma mensagem escrita num alfabeto qualquer
representa o número mínimo médio de símbolos binários por letra desse
alfabeto, necessários para traduzir a mensagem de seu alfabeto original
42 ENTRE o CRISTAL E A FUMAÇA

para a linguagem binária. Transposto para ·a análise de um sistema, isso


significa que quanto mais elevada é a quantidade de informação, mais
elevado é o número de .símbolos necessários para descrevê-la numa
linguagem binária (ou outra); daí, também, a idéia de que se trata de um
meio de medir a complexidade. Assinalemos desde já as restrições com
que convém acolher essa conclusão, especialmente em razão do caráter
estático e unicamente estrutural da complexidade de que se trata, com a
exclusão de uina complexidade funcional e dinâmica, ligada, não à reu-
nião dos elementos de um sistema, mas às interações funcionais entre
esses elementos [18]. Assim, o problema da definição exata da noção
de complexidade como conceito científico fundamental (análogo aos
de energia, entropia etc.) continua em aberto. Entretanto, tal como
observou von Neumann [19], quando colocou esse problema e subli-
nhou sua importância, .. esse conceito pertence, evidentemente, ao
campo da informação".

AMBIGÜIDADE-AUTONOMIA E AMBIGÜIDADE DESTRUTIVA

Seja como for, a aplicação da teoria da informação à análise dos sistemas


implica um deslizamento da noção de informação transmitida numa via
de comunicação para a de informação contidá num sistema organizado.
·O formalismo da teoria da informação só se aplica à primeira dessas
noções, e esse deslizamento, cuja legitimidade foi contestada, só pode
justificar-s·e ao assemelhar a estrutura do sistema, ao menos implicitamen-
te, a uma mensagem transmitida por uma via que parte do sistema e
desemboca no observador. Isso não implica, necessariamente, a introdu-
ção de características subjetivas nem de valor, que estão excluídas, por
definição, do campo da teoria, se considerarmos esse observador como o
físico ideal habitual, que só intervém através de operações de medida, mas
ainda assim intervém por meio dessas operações.
Nessas circunstâncias, é possível mostrar que a ambigüidade intro-
duzida por fatores de ruído numa via de comunicação situada no interior
de um sistema tem uma significação diferente (seu sinal algébrico é
diferente), conforme consideremos a informação transmitida pela própria
via ou a quantidade de informação contida no sistema (onde a via é uma
dentre um grande número de relações entre numerosos subsistemas).
Somente no .primeiro caso é que a ambigüidade se exprime por uma
quantidade de infomiação marcada pelo sinal menos, de acordo com o
teorema da via com ruído de que já falamos. No segundo caso, ao
contrário, a quantidade de informação que ela mede já não tem, em
absoluto, a significação de uma informação perdida, mas, ao contrário, de
um aumento de .variedade no conjunto do sistema, ou, como se costuma
dizer, de uma diminuição da redundância.
Do Rutoo coMo PRINCfPIO DE Atrro-oRGANIZAçAo 43

De fato, tomemos uma via de comunicação entre dois subsistemas,


A e B, no interior de um sistema S (Fig. 1). Quando a transmissão de A
para B se efetua sem nenhum erro (ambigüidade nula), B é uma cópia
exata de A, e a quantidade de informação do conjunto A e B é igual apenas

Figura 1

à de A. Quando a transmissão se efetua com tal número de erros que a


ambigüidade se toma igual à quantidade de informação de A, esta é
totalmente perdida durante a transmissão; na verdade, já não existe
transmissão alguma de informação de A para B. Isso significa que a
estrutura de B é inteiramente independente da de A, de modo que a
quantidade de informação do conjunto A e B é igual à de A mais B.
Entretanto, na medida em que a própria existência do sistema S depende
da existência de vias de comunicação entre os subsistemas, uma indepen-
dência total entre estes significa, na verdade, a destruição de S como
sistema. Por isso é que, do ponto ·de vista da quantidade de informação
desse sistema, o ótimo se realiza quando existe uma transmissão não-nula
de informações entre A ç B, mas com urilá certa quantidade de erros que ,
produzam uma ambigüidade igualmente não-nula. ·
Nessas condições, enquanto a quantidade de informação transmitida .
de A para B é igual à de B menos a ambigüidade, a quantidade de
informação do conjunto A e B é igual à de B acrescida dessa ambigüiQ,ade.
Com efeito, a grandeza que mede a ambigüidade não é outra coisa senão
a quantiru..de de iuformação de B nrJ ,qlfa,lidad(f 4e B (nç/(?p,ende_nte ç/,t; 4; .
assim, é normal que essa quantidade seja considerada perdida do' ponto ·
de vista da transmissão de A para B e, ao contrário, considerada um
suplemento do ponto de vista da quantidade de informação total (isto é, _
da variedade) do conjunto do sistema.
Vemos, assim, de que modo um papel pósitivo, ··organizacipn~r·., ,
do ruído pode ser concebido dentro do contexto da teoria da irifon.Ila.ç ãó, ..
sem por isso contradizer o teorema da via com ruído: ao diminuírem a
transmissão de informação nas vias de comunicação do interior do siste..,.
ma, os fatores de ruído diminuem a redundância do sisteJD.a em geral e,
por isso mesmo, aumentam sua quantidade de informação. É perfeitamen-
te óbvio, no entanto, que o funcionamento do sistema está ligado à
transmissão de informação pelas vias de um subsistema a outro, e que, ao
44 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

lado desse papel ''positivo'· do ruído, fator de complexificação, o clássico


papel destrutivo não pode ser ignorado.
Assim, estamos diante de dois tipos de efeitos da ambigüidade
produzida pelo ruído na organização geral de um sistema, que chamamos
ambigüidade destrutiva e ambigüidade-autonomia, devendo a primeira
ser computada negativamente, e a segunda, positivamente. Uma condição
necessária para que as duas coexistam parece-nos ser que o sistema
constitua o que von Neumann chamava um "sistema extremamente alta-
mente complicado" 8 [5]. Mesmo que os conceitos de complexidade e
complicação ainda não tenham sido clara e precisamente definidos, 9 a
idéia vaga e intuitiva que temos deles nos faz perceher os autômatos
naturais como sistemas de extrema complexidade, no sentido de que o
número de seus componentes pode ser extremamente elevado ( 1O bilhões
de neurônios do cérebro humano) e de que as relações entre esses compo-
nentes podem ser extremamente entrelaçadas, podendo para cada um
deles, enrprincípio, estar dire ~a ou indiretamente ligado a todos os demais.
Somente em tais sistemas é que um papel positivo do ruído, por intermédio
da ambigüidade-autonomia, pode coexistir com seu papel destrutivo. De
fato, se considerarmo~ um sistema limitado a uma única via de comuni-
cação entre A e B, a autonomia de B em relação a A só poderá significar
um mau funcionamento do sistema e sua destruição: nesse caso, uma
quantidade de informação de B, na qualidade de B independente de A,
não tem nenhuma significação do ponto de vista do sistema, já que fica
reduzida e essa via. Para que haja alguma significação, é preciso imaginar
A e B ligados não apenas entre si por essa via, mas cada qual ligado a um
grande número de .outros subsistemas por um grande número de outras
vias, de tal sorte que a independência de B em relação a A, mesmo total,
não se traduza num desaparecimento do sistema. Este, em decorrência de
suas numerosas interconexões, e desde que sua redundância inicial seja
suficientemente grande, ainda continuará capaz de funcionar e sua quan-
tidade de informação total terá aumentado. Esse autJiento poderá então ser
utilizado para a realização de maiores desempenhos, especialmente no
que concerne às possibilidades de adaptação a situações novas, graças a
uma variedade maior das respostas possíveis a estímulos diversificados e
aleatórios do ambiente. 10
Exprimindo essas idéias de maneira mais quantitativa do que nos
foi possível fazer aqui, pudemos mostrar [14, 15] que, no âmbito de
algumas hipóteses simplificadoras, uma condição suficiente para que a
ambigüidade-autonomia seja capaz de compensar os efeitos da ambigüi-
dade destrutiva é a existência de uma mudança de alfabeto com aumento
do número de letras, quando se passa de um tipo de subsistema para outro,
com uma via de comunicação entre os dois. Esse resultado pode ser
compreendido como uma explicação possível da mudança de alfabeto
Do Rufoo COMO PRJNcfp10 DE AITTO-ORGANIZAÇÃO 45

efetivamente observada em todos os organismos vivos, quando passamos


dos ácidos nucléicos, escritos numa ''linguagem'' de quatro símbolos (as
quatro bases azotadas), para as proteínas, escritas na linguagem de vinte
símbolos dos aminoácidos.

AUTO-ORGANIZAÇÃO POR DIMINUIÇÃO DA REDUNDÂNCIA [7]

De maneira mais geral, podemos conceber a evolução de sistemas orga-


nizados, ou o fenômeno de auto-organização, como um processo de
aumento de complexidade, simultaneamente estrutural e funcional, resul-
tante de uma sucessão de desorganizações resgatadas, acompanhadas, em
todas as ocasiões, pelo restabelecimento num nível de variedade maior e
de .redundância mais baixa. Isso pode ser àpresso, de maneira bastante
simples, com a ajuda da definição exata da redundância no âmbito da
teoria da informação.
Se H representa a quantidade de informação de uma mensagem que
contém um certo grau de redundância R, e se Hmax representa a quantidade
máxima de informação que essa mensagem conteria, se nenhum de seus
símbolos fosse redundante, a redundância R é definida como:
H
R= = 1-

de modo que a quantidade de informação H da mensagem pode ser escrita:


H = Hmax (1 - R)
Definimos um processo de organização não-programada por uma v ariação
de H no tempo, sob efeito de fatores aleatórios do ambiente. Essa variação
é representada pela quantidade ~ = f(t) . Determinando a diferencial da
equação anterior, obtemos a seguinte expressão para/(t):
dH dR dHmax
- - = - Hmax- - +' (1-R) - - [1]
dt dt dt
Assim, a taxa de variação da quantidade de informação ~ é a soma
de dois termos que correspondem, esquematicamente, aos dois efeitos
opostos do ruído ou aos dois tipos de ambigüidade. O primeiro termo
exprime a variação da redundância. Quando esta é muito elevada inicial-
mente, ela diminui sob o efeito da ambigüidade-autonomia, de tal modo
que !fJ!- passa a ser negativo, e o primeiro termo ( -Hmax~ ) é positivo,
assim contribuindo para um aumento da quantidade de informação H do
sistema. O segundo termo exprime a variação de Hmax• isto é, instante a
46 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

instante, o desvio em relação ao ~tado de complexidade máxima que pode


ser atingido pelo sistema sem levar em conta seu grau de redundância.
Pudemos mostrar [7] que o processo de desorganização, em relação a
determinado estado (instantâneo) de organização, sob o efeito da ambi-
güidade destrutiva, se exprime por uma função decrescente de H,,,ax, de
tal sorte que ~max e o segundo termo inteiro são negativos, contribuindo
para uma diminuição da quantidade de informação H do sistema.
Esses dois termos, por sua vez, dependem de duas funções,: .... f.. (t)
e <J/111llJ: - / 2 (t) do tempo, dependendo de parâmetros que exprimem for-
malmente a natureza da organização com que estamos lidando. Assim,
para alguns valores desses parâmetros, a curva de variação da quantidade
de informação H em função do tempo é tal que H começa aumentando,
atinge o máximo num tempo tw sobre cuja significação voltaremos a
falar, e depois diminui. É esse tipo de variação que poderá ser aplicado a
um tipo de organização que é próprio dos organismos, no qual uma fase
de crescimento e amadurecimento, com possibilidade de aprendizagem
adaptativa, antecede uma fase de envelhecimento e morte. O aspecto
interessante, aqui, é que essas duas fases, muito embora se efetuem em
direções opostas, do ponto de vista da variação de H, são resultantes das
respostas do organismo, em difcrentes estágios de sua evolução, aos
fatores de agressões aleatórias do ambiente: esses mesmos fatores, res-
ponsáveis pela desorganização progressiva do sistema que posteriormente
conduz a sua morte, é que ••alimentam••, antes, seu desenvolvimento, com
uma progressiva complexificação. Evidentemente, conforme o valor dos
parâmetros que determinam/1 efi, esse efeito será observado ou não,-e,
em caso afirmativo, de maneiras muito diferentes quantitativamente, de
acordo com a .. organização .. do sistema com que estejamos lidando. Foi
por isso que propusemos utilizar justamente esse formalismo para definir
quantitativamente o próprio conceito de auto-organização, de tal modo
que a propriedade de auto-organização, isto é, de aumento da complexi-
dade aparentemente espontânea (mas efetivamente provocada por fatores
aleatórios do ambiente), seja um de seus casos particulares.

RUMO A UMA TEORIA FORMAL DA ORGANIZAÇÃO [2.0]

Assim, o estado de organização de um sistema é definido não apenas por


sua quantidade de informação H, que exprime apenas um caráter estrutu-
ral, mas também 1>.9r sua organização funcional; esta pode ser descrita pela
taxa de variação ~ da quantidade de informação do sistema no correr do
tempo, sendo ele mesmo a soma de duas funções, / 1 e/2 , uma relacionada
com a taxa de diminuição da redundância, e a outra com a taxa de
Do Rufoo COMO PRlNCfPIO DE AITTO-ORGANIZAÇÃO 47

diminuição da quantidade máxima de informação. Os diferentes tipos de


organizações possíveis são caracteri.zàdos por diferentes valores dos pa-
râmetros característicos dessas funções. Podemos mostrar [7, 20] que dois
deles desempenham um papel particularniente importante: a redundância
estrutural inicial e a confiabilidade. O primeiro ainda é um caráter estru-
tural, ao passo que o segundo exprime a eficácia da organização em sua
resistência às mudanças aleatórias, e é, portanto, uma característica fun-
cional. Certamente existe uma relação entre a confiabilidade e a redun-
dância, dado que a primeira depende da segunda, e é através disso que se
estabelece a relação necessária entre as organizações estrutural e funcio-
nal. Todavia, uma não pode ser reduzida à outra, e a distinção que assim
somos levados a estabelecer pode ser compreendida, entre outras, em
referência à distinção que Winograd e Cowan [6] introduziram entre a
··redundância dos módulos•• e a ·•redundância das funções•·, em seu
estudo sob~e a confiabilidade dos autômatos: a redundância inicial seria
uma redundância de módulos, simples repetição de elementos estruturais,
enquanto a confiabilidade seria uma redundância das funções.
Para que um sistema tenha propriedades auto-organizadoras, é pre-
ciso que sua redundância inicial tenha um valor mínimo, já que e5sas
propriedades consistem num aumento de complexidade através da des-
truição da redundância. Somente nessas condições é que a curva de
variação H(t) pode ter uma parte inicial ascendente. Então, a confiabili-
dade mede também a duração dessa fase ascendente, ou seja, o tempo tM
ao término do qual o máximo é atingido, que é tão mais longo quanto
maior for sua confiabilidade. Assim, quando tM é muito curto, a destruição
da redundância se efetua com demasiada rapidez para que se possa
observá-la, o máximo é atingido quase que instantaneamente, e se observa
um sistema cuja quantidade de informação, aparentemente, só faz decres-
cer. A despeito de uma redundância inicial suficiente, tudo se passa como
se o sistema não fosse auto-organizador. Por outro lado, quando a redun-
dância inicial é insuficiente, mas a confiabilidade é grande, o sistema, que
evidentemente não pode ser auto-organizador, tem, no entanto, uma
grande longevidade: sua confiabilidade, nesse caso, tem apenas a signifi-
cação habitual de resistência aos erros, que pode ser expressa pelo inverso
da velocidade de envelhecimento.
Assim, conforme os valores desses dois parâmetros, podemos dis-
tinguir diferentes tipos de sistemas organizados, ou, se preferirmos, dife-
rentes .. graus de organização .. , que podemos representar através de
curvas de formas diferentes (Fig. 2).
H

Figura 2
Figura 2. Diferentes tipos de organizações, representados por diferentes formas
possíveis da curva H (t) de variações de quantidade de informação em função do
tempo, obtidas a partir da equação [1].
H 0 , quantidade de informação inicial, está ligada à redundância inicial R 0
através da relação H0 = Hmaxo (1 - R).
tM' tempo ao final do qual se atinge um valor máximo HM de H, por esgotamento
da redundância inicial, também é uma medida da confiabilidade do sistema.
Nos casos (não representados aqui) de sistemas não auto-organizadores por
uma redundância inicial baixa demais, a curva H (t) seria uma função decrescente
monótona, na qual a velocidade média de diminuição exprimiria o inverso da
confiabilidade [7]. .,

PRINCÍPIOS DE AUTO-ORGANIZAÇÃO DA MATÉRIA


E DE EVOLUÇÃO POR SELEÇÃO

Numa longa dissertação sobre a possível natureza química de processos


de auto-organização da matéria, M. Eigen [2] chegou, através de um
método e um formalismo diferentes, enraizados na cinética química, a um
resultado logicamente muito semelhante. Inspirando-se nos mecanismos
conhecidos de replicação dos ADNs, de síntese das proteínas e de regu-
Do Ruloo COMO PRINCIPIO DE AITTO-ORGANIZAÇÃO 49

lação enzimática, ele analisou o futuro de .. populações" de macromolé-


culas portadoras de informações, tanto no plano da quantidade de infor-
mação total da população, quanto nos dos diferentes tipos de macromolé-
culas sintetizadas. Um dos problemas assim estudados foi o das condições
em que algumas macromoléculas portadoras de informações podem ser
selecionadas às expensas de outras, num sistema em que a única restrição
é que a síntese dessas moléculas se efetue através da cópia de moléculas
idênticas. Pela primeira vez, o conceito de seleção com orientação~ base
das teorias da evolução, adquiriu um conteúdo exato, passível de ser
expresso em termos de cinética química, e diferente do círculo vicioso
habitual em que caímos ao descrever a seleção natural como sobrevivên-
cia dos mais aptos, enquanto estes últimos só podem ser definidos pelo
fato de sobreviverem!
Assim, um valor de seleção é definido, a partir de grandezas A;, D;,
Q;, por sua vez definidas para cada tipo i de portadores de informação, da
seguinte maneira:
A; é um fator de amplificação que determina a velocidade de
reprodução repetitiva do portador i: multi'plicado por uma constante K 0 ,
exprime a velocidade da reação de replicação em molde através da qual i
é sintetizado.
Q; é um fator de qualidade entre O e 1, que exprime a precisão e a
fidelidade dessas replicações: quando nenhum erro se produz nas cópias,
Q; = 1; de maneira geral Q; é a fração das A;, das cópias reproduzidas sem
erro, enquanto ( 1 - Q;) é a fração das cópias que apresentam erros, ou, em
outras palavras, de .. mutantes" produzidos por replicação errada dei. D;
é um fator de decomposição que, multiplicado pela mesma constante K 0 ,
exprime a velocidade das reações pelas quais a macromolécula i é des-
truída.
Conforme as diferentes condições iniciais consideradas, o valor
Ao7; -
seletivo de uma espécie i define-se, então, ou por A;Q; - D i' ou por 1;
em outras palavras, ele exprime, quer de maneira absoluta, quer de
maneira relativa, um excesso de produção comparado à destruição da
espécie macromolecular considerada.
Seja qual for o caso, o resultado a que leva a análise da evolução de
uma população em que diferentes espécies i se acham presentes é o
mesmo: uma das condições necessárias para que a quantidade de infor-
mação total da população aumente, com seleções sucessivas de determi-
nadas espécies, é que os fatores Q; sejam diferentes de 1, embora conti-
nuem muito mais próximos de 1 do que de O. Isso é apenas uma
conseqüência de que, na ausência de erros de replicação, nenhuma flovi-
dade pode aparecer. E quando, além disso, levamos em conta que as
reações químicas, no nível molecular, são fenômenos estocásticos em que
50 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

o papel das oscilações é tão mais importante quanto mais lidamos com
pequenos números de moléculas interagentes, então, na ausência de Q; <
1, não apenas a quantidade de informação total não aumenta, por falta de
inovação, como não pode nem sequer se manter em estado estacionário,
·e diminui até todas as espécies presentes terem desaparecido, sem no
entanto terem sido substituídas por novas espécies. Isso provém do fato
de continuar existindo uma probabilidade não-nula de que, sob o efeito
das oscilações nas velocidades instantâneas de reações, uma espécie, num
momento qualquer da evolução do sistema, seja destruída mais depressa
do que se reproduz, a ponto de não mais haver uma cópia disponível para
uma reprodução posterior e de, assim, ela desaparecer definitivamente.
Um dos mais espetaculares resultados a que M. Eigen chegou,
aplicando essa teoria a sistemas constituídos por um pareamento de dois
subsistemas de propriedades complementares, que são os conjuntos de
ácidos nucléicos e os conjuntos de proteínas, foi uma possível explicação
da universalidade do código genético: ela seria o resultado inevitável de
uma evolução em nue apenas esse código podia ser selecionado, e M.
Eigen sugeriu, por último, um certo número de. ••experiências evolutivas··
com a finalidade de verificar sua teoria.

0 RUÍDO COMO EVENTO

Assim, ao menos em princípio, vemos como uma produção de informação


sob o efeito de fatores aleatórios nada tem de misterioso: ela não passa da
co.nseqüência de produções de erros num sistema repetitivo, constituído
de maneira a não se: destruído quase que de imediato por um número
relativamente pequeno de erros.
Na verdade, no que concerne à evolução das espécies, nenhum
mecanismo é concebível, à parte os que foram sugeridos por determinadas
teorias, nas quais eventos aleatórios (mutações ao acaso) são responsáveis
por uma evolução orientada para uma complexidade e uma riqueza ma-io-
res da organização. No que concerne ao desenvolvimento e à maturação
dos indivíduos, é muito possível que esses mecanismos também desem-
penhem um papel nada desprezível, especialmente se incluirmos aí os
fenômenos de aprendizagem adaptativa não dirigida, na qual o indivíduo
se adapta a uma situação radicalmente nova, em que é difícil recorrer a
um programa preestabelecido. De qualquer modo, essa noção de programa
preestabelecido, aplicada aos organismos, é muito discutível, na medida
em que se trata de programas de ••origem interna .. , fabricados pelos
próprios organismos e modificados no curso de seu desenvolvimento. Na
medida em que o genoma é fornecido de fora (pelos pais), é freqüente ele
ser assemelhado a um programa de computador, mas essa semelhança nos
parece inteiramente abusiva. Se há uma metáfora cibernética apta a ser
Do Rufoo COMO PRINCfPIO DE AITTO-ORGANIZAÇÃO 5l

utilizada para descrever o papel do genoma, a da memória nos parece


muito mais adequada que a do programa, pois esta última implica todos
os mecanismos de regulação que não se acham presentes no próprio
genoma. Sem isso, não evitamos o paradoxo do programa que precisa dos
produtos de sua execução para ser lido e executado. Ao contrário, as
teorias da auto-organização permitem compreender a natureza lógica de
sistemas onde o que desempenha a função do programa se modifica sem
parar, de maneira não preestabelecida, sob o efeito de fatores .. aleató-
rios" do ambiente, produtores de .. erros" no sistema.
Mas, que são esses erros? Segundo o que acabamos de ver, até por
causa de seus efeitos positivos, eles já não parecem ser erros em absoluto.
O ruído provocado no sistema pelos fatores aleatórios do ambiente já não
seria um verdadeiro ruído, a partir do momento em que fosse utilizado
pelo sistema como fator de organização. Isso significaria que os fatores
do ambiente não são aleatórios. Mas eles são. Ou, mais exatamente,
depende da reação posterior do sistema em relação a eles o fato de, a
posteriori, esses · fatores serem reconhecidos como aleatórios ou como
parte de uma organização. A priori, eles são efetivamente aleatórios, se
definirmos o acaso como a intersecção de duas cadeias de causalidade
independentes: as causas de sua ocorrência nada têm a ver com o enca-
deamento dos fenômenos que constituiu a história anterior do sistema até
então. É nesse sentido que sua ocorrência e seu encontro com essa história
constituem ruído, do ponto de vista das trocas de informação no sistema,
e só são passíveis de produzir erros nele. Mas, a partir do momento em
que o sistema é capaz de reagir a esses erros, de modo não apenas a não
desaparecer, mas também a modificar a si mesmo num sentido que lhe
seja benéfico, ou que, no mínimo, preserve sua sobrevivência posterior;
em outras palavras, a partir do momento em que o sistema é capaz de
integrar esses erros em sua própria organização, .eles então perdem um
pouco, a posteriori, seu caráter de erros. Preservam-no apenas de um
ponto de vista externo ao sistema; no sentido de que., como efeitos do
ambiente sobre este, eles mesmos não correspondem a nenhum programa
preestabelecido, contido no ambiente e destinado a organizar ou desorga-
nizar o sistema. 11 Ao contrário, de um ponto de vista interno, na medida
em que a organização consiste precisamente numa seqüência de desorga-
nizações resgatadas, eles só aparecem como erros no instante exato de sua
ocorrência e em relação a uma manutenção, que seria tão nefasta quanto
imaginária, de um statu quo do sistema organizado, que imaginamos tão
logo uma descrição estática dele nos possa ser dada. Caso contrário, e
depois desse instante, eles são integrados e recuperados como fatores de
organização. Os efeitos do ruído tomam-se, então, eventos da história do
sistema e de seu processo de organização. Contudo, permanecem como
efeitos de um ruído, visto que sua ocorrência era imprevisível.
52 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

Assim, portanto, bastaria considerar a organização como um pro-


cesso ininterrupto de desorganização-reorganização, e não como um
estado, para que a ordem e a desordem, o organizado e o contingente, a
construção e a destruição, a vida e a morte, já não fossem tão distintos.
Mas não é assim. Esses processos onde se realiza a união dos contrários
- esta não se consuma como um novo estado, uma síntese da tese e da
antítese, mas é o próprio movimento do processo, e nada mais, que
constitui a ··síntese .. - esses processos só podem existir desde que os
erros sejam, a priori, erros verdadeiros; desde que a ordem, num dado
momento, seja realmente perturbada pela desordem; desde que a destrui-
ção, embora não total, seja real, e desde que a irrupção do acontecimento
seja uma verdadeira irrupção (uma catástrofe ou um milagre, ou ambos).
Dito de outra maneira, esses processos, que nos parecem uma das bases
da organização dos seres vivos, resultado de uma espécie de colaboração
entre o que estamos àcostumados a chamar vida e morte, só podem existir
na medida em que nunca se trate, justamente, de colaboração, mas sempre
de oposição radical e de negação.
Por isso é que a experiência imediata e o senso comum, no que
concerne a essas realidades, não podem ser eliminados como ilusões, em
prol de uma visão unitária de uma grande corrente de .. vida .. que supere
a ambos, mesmo que essa corrente seja igualmente real. A consciência
simultânea que nos é dada desses dois níveis de realidades é, provavel-
mente, a condição de nossa liberdade ou do sentimento de nossa liberdade:
é-nos permitido aderir, sem contradizer a nós mesmos, a processos que
tanto significam nossa sobrevivência quanto nossa destruição. Uma ver-
dadeira ética, que nos permitisse utilizar ao máximo essa liberdade, seria
a lei que nos permitisse, a cada instante, saber como intervir nesse
incessante combate entre a vida e a morte, a ordem e a desordem, de modo
a continuar evitando um triunfo definitivo de qualquer deles sobre o outro,
que constitui, na verdade, uma das duas maneiras possíveis de morrer
completamente, se assim podemos dizer, pela interrupção do processo,
seja numa ordem definitivamente estabelecida, inamovível, seja numa
desordem total. É notável que, enquanto nossas vidas reúnem em sua
corrente processos de ..vida .. e de ..morte .. , assim realizando duas
maneiras de estarmos vivos, também nossos cadáveres reúnem duas
maneiras de estarem mortos: a rigidez e a decomposição.

REFER~NCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. N. Wiener, Cybernetics, or Control and Communication in the Animal and


the Machine, Nova York, J. Wiley & Sons, 1948.
Do RUIDO COMO PRINCIPIO DE AUTO-ORGANIZAÇÃO 53

2. W.R. Ashby, ''Principh.~s of the Self-Organizing System'', Principies of


Self-Organization, von Foerster e Zopf (orgs.), Pergamon, 1962, p. 255-78 .
3. J.D. Cowan, "The Problem of Organismic Reliability", Progress in Brain
Research, v. 17, Cybernetics and the Nervous System, Wiener e Schade
(orgs.), Amsterdã, Elsevier, 1965, p. 9-63.
4. J. von Neumann, "Pro.babilistic Logics and the Synthesis of Reliable Orga-
nisms from Unreliable Components", in Automata Studies, C.E. Shannon e
J. McCarth (orgs.), Princeton, Princeton University Press, 1956, p. 43-98.
5. J. von Neumann, Theory o/Self-reproducing Automata, A.W. Burks, Urbana,
Illinois, University of Illinois Press, 1966.
6. S. Winograd e J.D. Cowan, Reliable Computation in the Presence of Noise,
Cambridge, Mass., MIT Press, 1963.
7. H. Atlan, L 'Organisation biologique et la Théorie de l'information, Paris,
Hermann, 1972.
8. J. von Neumann e O. Morgenstem, Theory o/Games and Economic Behavior,
Princeton, Princeton University Press, 1944.
9. H. von Foerster, ··on Self-organizing Systems and their Environments", in
Self-organizing Systems, Yovitz e Cameron (orgs.), P~rgamon, 1960, p.
31-50.
10. E. Schrõdinger, What is Life ?, Londres, Cambridge University Press, 1945.
11. W.R. Ashby, "Requisite Variety and its Implications for the Control of
Complex Systems", Cybernetica, v. 1, n2 2, Namur, 1958, p. 83-99.
12. W.R. Ashby, "The Place of the Brain in the Natural World", in Currents in
Modem Biology, 1, Amsterdã, North Holland Publ., 1967, p. 95-104.
13. R.L. Beurle, "Functional Organization in Random Networks'', in Principies
of Self-Organization, von Foerster e Zopf (orgs.), Nova York, Pergamon,
1962, p. 291-314.
14. H. Atlan, "Applicationsoflnformation Theory tolhe Study ofthe Stimulating
Effects of Ionizing Radiation, Thermal Energy, and other Environmental
Factors. Preliminary ldeas for a Theory of Organization' ', Journal of Theo-
retical Biology, 21, 1968, p. 45-70.
15. H. Atlan, "Rôle positif du bruit en Théorie de l'information appliquée à une
définition de l'organisation biologique", Annales de Physique Biologique et
Médica/e, 1, 1970, p. 15-33.
16. C.E. Shannon e W. Weaver, The Mathematical Theory of Communication,
Urbana, University of Illinois Press, 1949.
17. H.J. Morowitz, "Some Order Disorder Considerations in Living Systems'',
Bulletin of Mathematical Biophysics, v. 17, 1955, p. 81-6.
18. S.M. Dancoff e H. Quastler, "The Information Content and Error Rate of
Living Things", in H. Quastler (org.), lnformation Theory in Biology, Urba-
na, University of Illinois Press, 1953, p. 263-73.
19. J. von Neumann, op. cit., 1966, p. 78.
20. H. Atlan, "On a Formal Theory of Organization", Journal of Theoretical
Biology, 45, 1974, p. 195-304.
21. M. Eigen, "Self-organization of Matter and the Evolution of Biological
Macromolecules", Die Naturwissenschaften, 58, 1971, p. 465-523.
22. E. Morin, Le Paradigme perdu: la nature humaine, Paris, Ed. Seuil, 1973.
4

A ÜRGANIZAÇÃO DO SER VIVO


1
E SUAS REPRESENTAÇÕES

BIOLOGIA E MA TEM.ATICA
Sucede à linguagem matemática ser utilizada pelos biólogos de maneira
incorreta e, ape,.sardisso, ''a coisa funciona''. É que, na maioria das vezes,
trata-se de metáforas, e essa utilização corresponde a necessidades - ou
bloqueios --: propriamente biológicos, isto é, a questões levantadas pelo
desenvolviínento da própria biologia. Quando percebemos que a metáfora
é falsa, evidentemente, ficamos aborrecidos, mesmo que el~ funcione por
algum tempo; é que vemos que ela se transforma, na medida em que lhe
foi dado excessivo crédito, num obstáculo a futuros desenvolvimentos.
Tentamos, então, desmascará-la e analisar os deslizamentos de sentido
que acompanharam sua utilização. Isso pode ter como resultado, entre
outras coisas, voltarmos aos métodos matemáticos e nos formularmos
novas perguntas a propósito daquilo que fora metaforizado, de modo a
tentar justificar, a posteriori, os deslizamentos inicialmente involuntários
da metáfora.
É o que acontece no tocante a alguns formalismos provenientes da
matemática, que tentamos utilizar para melhor circunscrever os proble-
mas suscitados pela lógica da organização biológica. 2
Um comentário prévio concerne à própria questão da organização.
Sabemos que essa questão tem uma história. 3 Houve um tempo em que
organizado era sinônimo de vivo, já que a organizàção era a característica
própria e irredutível que diferenciava a matéria viva - a dos seres
' 'organizados'' -'da matéria inanimada. Por isso, nesse contexto vitalis-
ta, a questão da lógica da organização não podia ser colocada. A situação
se reformulou por completo com a fabricação de máquinas organizadas,
por um lado, e por outro, com a descoberta de substratos moleculares, isto
é, físico-químicos, de princípios de organização celular responsáveis por
propriedades que até então pareciam as mais irredutíveis da matéria viva:
a reprodução hereditária e a expressão das características genéticas.

54
A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO E SUAS REPRESENTAÇÕES 55

Nessa reformulação, a teoria da informação e a cibernética desem-


penharam um papel nada insignificante, pelo menos no nível dos concei-
tos, já que delas é que foram extraídos, por empréstimo, os conceitos de
informação genética, código e programa genéticos, erros de biossíntese,
ciclos reguladores etc. Mas esses empréstimos foram exemplos típicos das
metáforas de que havíamos falado no começo, onde os conceitos de
informação e programa foram utilizados num sentido totalmente dife ren-
te, embora vizinho, do que têm na teoria matemática, onde já foram
definidos. Isso não é tão mau, pelo contrário, quando nos damos conta
dessa diferença, pois nos permite voltar à teoria matemática para questio-
ná-la e ver o que, de certo modo, lhe falta para atender à utilização imposta
pelas necessidades dos biólogos.
Por isso é que nossa primeira questão, já .abordada no capítulo
p~ecedente, será a do papel do acaso ou do aleatório - o ruído - na
organização biológica, tal como podemos postulá-la na formalização da
teoria da informação, estendida e ampliada em prol das necessidades da
causa. Veremos como as restrições impostas pelas condições de observa-
ção biológica nos impeliram a levar a sério o caráter probabilístico dessa
teoria e o papel do observador em seu funcionamento. Isso nos permitiu
estendê-la a novos campos, onde seus fundadores decerto vislumbravam
com clareza que deveríamos chegar, mas sem haverem indicado o cami-
nho para conseguirmos fazê-lo. Refiro-me a alguns esclarecimentos que
o princípio de ordem através do ruído, exposto no capítulo precedente (na
verdade, invertido em complexidade pelo ruído), pode trazer à questão da
significação da informação, em particular num sistema natural constituído
de diferentes níveis hierárquicos, isto é, de níveis de integração e genera-
lidade que englobam uns aos outros.
Em seguida, e para diferenciar, veremos como a utilização de um
. formalismo determinista (não-probabilístico), recentemente desenvolvi-
do com o nome de termodinâmica em redes, tem que ser modificado e
ampliado sob o efeito de restrições similares. Talvez emerja daí uma
intersecção fecunda entre os dois tipos de métodos, que a nova problemá-
tica dás redes estocásticas permite vislumbrar.

1. ACASO E ORGANIZAÇÃO, REPRESENTAÇÃO DO Novo


1. Rutoo ORGANIZACIONAL E DIFERENÇAS DE PONTOS DE VISTA

Desde que iniciamos seu estudo sistemático, o papel do acaso na organi-


zação tem excitado a imaginação e estimulado uma porção de exercícios
lógicos. De fato, tradicionalmente, o acaso e o aleatório eram sempre
considerados antinômicos à ordem e ao organizado. Mas, certo número
56 EITTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

de reflexões vindas da biologia molecular, de um lado, e da cibernética,


de outro, levantaram a suspeita de que uma certa classe de organizações,
à qual pertence a dos seres vivos, deveria obedecer a uma lógica particu-
lar, onde o acaso e o aleatório deviam contribuir de alguma maneira para
a organização do sistema.
Além disso, o estudo dos sistemas longe do equilíbrio, em especial
pela escola de Prigogine,4 havia mostrado que era possível selecionar,
ampliar e manter oscilações num sistema aberto, de modo a originar uma
estrutura dinâmica macroscópica, superposta à dissipação da energia
livre necessária à ·manutenção longe do equilíbrio, cujo primeiro exem-
plo foi fornecido pelo célebre fenômeno hidrodinâmico dos turbilhões
de Bénard.
Tudo isso mostrou que a clássica oposição entre organizado e ao
acaso tinha que ser revista. Von Foerster5 imaginou a expressão princípio
de ordem a partir do ruído (order from noise principie), mas sem fornecer
dele uma formulação muito rigorosa. Como veremos adiante, nele se
atribuíram significações contraditórias à noção de ordem.
Foi nesse contexto que, em 1968, o estudo dos efeitos estimulantes
de pequenas doses de radiação ionizante em diversos sistemas vivos, bem
como dos mecanismos do envelhecimento, levou-nos a dar uma formula-
ção mais exata, utilizando o formalismo da teoria da informação de
Shannon. 6• 7
Atualmente, essas idéias se difundiram muito, a ponto de às vezes
serem apresentadas como evidências primordiais, a saber, que a criação
da informação só pode ser feita a partir do ruído, o que é lamentável, pois
nos esquecemos do que constitui o essencial de seu interesse, qual seja,
como em que condições o paradoxo pode ser desfeito. Em outras palavras,
como e em que condições a oposição entre organizado e aleatório pode
ser substituída por uma espécie de cooperação em que, inevitavelmente,
o conceito de organizado e o de aleatório adquirem novos conteúdos. Por
isso, é útil lembrar essas condições, que decorrem, evidentemente, do
próprio formalismo da teoria da informação e de suas significações
explícitas e implícitas.
Muito se tem criticado a teoria de Shannon por ela não ser uma
verdadeira teoria da informação, já que deixa de lado algumas caracterís-
ticas importantíssimas do que é a informação.
·Esquematicamente, podemos dizer que a teoria de Shannon, em sua
agora clássica forma, deixou de lado três tipos de problemas, os quais, no
entanto, é difícil conseguirmos evitar a partir do momento em que falemos
em informação:
1. Os que estão ligados à criação da informação: o segundo teorema
de Shannon, da via com ruído, enuncia explicitamente que a informação
A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO E SUAS REPRESENTAÇÕES 57

transmitida por uma via não pode ser criada, visto que só pode ser
destruída pelos efeitos do ruído e, na melhor das hipóteses, conservar-se.
2. Os que estão ligados à significação da informação: a fórmula d~
Shannon não permite quantificar a informação média por símbolo de uma
dada mensagem, exceto sob a condição de desprezar o eventual sentido
dessa mensagem.
3. Por último, os que estão ligados às formas hierárquicas de
organização: na medida em que a fórmula de Shannon pôde servir de
medida da organização, ela desconheceu por completo os problemas dos
encaixes mútuos de diferentes níveis de organização mais ou menos
integrados.
Entretanto, à parte o que ela deixou de lado, o poder da teoria de
Shannon como instrumento quantitativo é suficiente para que não apenas
não a rejeitemos, mas tentemos estendê-la a esses campos; evidentemente,
é possível contestar esse procedimento, afirmando que, se a metáfora é
falsa, se a informação na biologia não se reduz à da teoria de Shannon,
não há razão para ficarmos agarrados a essa teoria, e mais vale tentarmos
definir a informação a partir de novas bases, de maneira francamente mais
adequada. Talvez. Mas ocorre que a metáfora não é completamente falsa.
De fato, realmente existem casos, na biologia molecular, muitos isolados
mas importantes, de transmissão da informação no sentido rigoroso de
Shannon: é o caso da via que constitui a replicação dos ADNs ou da que
constitui a síntese das proteínas. Ali existem, efetivamente, mensagens de
entrada e saída, escritas em alfabetos cujos símbolos elementares nos são
conhecidos (as bases nucleotídicas dos ADNs-ARNs e os aminoácidos
das proteínas). Num primeiro nível, essas vias podem ser descritas,
quantitativamente, como locais de transmissão de informação probabilís-
tica shannoniana, onde os efeitos do ruído se exercem sob a forma de erros
de emparelhamento e erros de síntese - o que significa que as metáforas
da informação não são completamente falsas nem mesmo com referência
à teoria de Shannon. Por isso, é interessante ver até onde é possível chegar
a partir do formalismo dessa teoria, para fazer uma articulação com o que
ela desprezou.
No capítulo anterior, vimos como uma possível solução para o
primeiro problema (criação de informação) pode ser encontrada na ex-
pressao de-uma lógica da auto-organização por diminuição da redundân-
cia, sob o efeito de fatores de ruído. A possibilidade de aumento da
quantidade de informação transmitida de 9m sistema para o observador,
sob o efeito de ruído criador de ambigüidade, pôde ser utilizada como
meio de exprimir um mecanismo de criação de informação a partir de
perturbações aleatórias. Isso foi realizado no formalismo da teoria de
Shannon, sem, no entanto, contradizer o teorema da via com ruído: a
mudança de sinal da função ambigüidade, 8 que permitiu essa operação,
H(y/x)
ambigüidade

H(x) canal objeto T(x;y


\---~~ (CO)

H(x/y)

metacanal
(MC)

H(x,y)

Figura 1. Gráfico de Bourgeois

Leis de conservação:
1. Em CO e em y = T(x;y) = H(x) - H(x/y) = H(y) - H(y/x)
2. Em MC e em x = H(x,y) = H(y) + H(x/y) = H(x) + H(y/x)
As funções de Shannon, ambigüidade e equivocação, são definidas a partir das
probabilidades condicionais p(jli), probabilidades de encontrar um símbolo ou
elemento j na mensagem de saída e quando o símbolo ou elemento i se encanta no
lugar correspondente da mensagem de entrada x, através das seguintes fórmu-
las:
H(ylx) = - ~ p(i) p(jli) log2 pUli)
para a ambigüidade, e, simetricamente,
H(xly) = - : p(j) p(iLi) log2 p(iLi)
para a equivocação.
A quantidade de informação total H (x,y) é definida a partir das probabilidades
conjuntas p(i,j), probabilidades de ter i na entrada e j na saída, no mesmo lugar da
mensagem, pela fórmula H(x,y)'"' ij p(iJ) lo~ p(i,j), que é uma generalização da
função de informação de Shannon, H (x) = - i p(i) log 2 p{i).
O gráfico permite descobrir as relações clássicas estabelecidas entre todas estás
funções, admitindo-se leis de conservação nos extremos superiores do gráfico.
Em particular, os vértices co e y nos fornecem a quantidade de informação
transmitida de x a y:
T(x;y) = H(x) - H(x/y) = H(y) - H(y/x),
A ORGANIZAÇÃO DO SER Vivo E SUAS REPRESENTAÇÕES 59

proveio de uma mudança de ponto de vista acerca do papel da ambigüi-


dade nas comunicações no interior do sistema.
Essa mudança de ponto de vista pode ser interpretada de duas
maneiras: a mais simples recorre à posição do observador e a seu papel
na definição dos objetos físicos. O papel do observador, ou, mais exata-
mente, da mensuração, é absolutamente central na definição dos objetos
físicos, como mostra, por exemplo, a questão da entropia de mistura de
dois reservatórios de um mesmo gás, que já assinalamos. O papel das
possibilidades de observação e mensuração deve ser levado em conta na
própria definição dos objetos físicos, como já haviam sublinhado Szilard,
Brillouin e outros. Por isso, não constitui apenas um .. truque .. ad lwc
utilizar, como fizemos, os efeitos da posição do observador no sinal da
ambigüidade numa via de comunicação. Uma representação gráfica das
funções de Shannon, recentemente imaginada por M. Bourgeois,9 permite,
entre outras coisas, uma visualização muito simples desse aspecto (ver
Fig. 1). Nesse gráfico, o obsetvador, em relação a quem são avaliadas as
probabilidades dos símbolos das mensagens de entrada e saída, é ele
mesmo representado na saída de uma via, que Bourgeois chama metaca-
nal, e através da qual ele observa a via ou canal (x; y). Mediante isso, é
possível mostrar como as fórmulas de Shannon implicam uma circulação
da incerteza entre o obsetvador e o sistema. Nessa circulação, a incerteza
é conservada, e as equações de conservação nos diferentes vértices do
gráfico permitem descobrir as equações de Shannon. Vemos claramente
como as funções de ambigüidade e equivocação levam sinais diferentes,
conforme seu lugar no gráfico.

2. DIFERENÇAS DE NiVEIS: SISTEMAS DIFERENCIAIS


E Rutoo ORGANIZACIONAL

Mas, podemos tentar ir mais longe. Uma segunda maneira de interpretar


a mudança de ponto de vista permite dar um passo a mais e fazer uma
contribuição para a análise do terceiro tipo de problema (organização em
níveis hierárquicos de integração), constatando que essa diferença de
pontos de vista pode não ser apenas lógica.
De fato, pode tratar-se também de pontos de vista diferentes, cor-
respondentes a níveis diferentes numa organização hierárquica.

(Continuação da legenda da p. 58)

onde a ambigüidade H (y/x) (bem como a equivocação) aparece com sinal


negativo.
Os pontos MC e x nos fornecem a quantidade de informação total:
H(x,y) = H(y) + H(x/y) = H(x) + H(y/x),
onde a anibigüidade (e a equivocação) aparece com sinal positivo.
60 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

Uma das questões mais difíceis a propósito desse problema capital


das organizações hierárquicas, que encontramos por toda parte na ·biolo-
gia, é a seguinte: como passamos de um nível para outro, ou, mais
precisamente, quais são as determinações causais que dirigem a passagem
de um nível de integração para outro?
Num sistema dinâmico, descrito por um sistema de equações dife-
renciais, às funções (soluções do sistema) caracterizam o nível em que
estamos interessados; as condições limites caracterizam o nível superior.
Compreendemos perfeitamente como as condições limites, que impõem
as constantes de integração, determinam as funções de soluções do siste-
ma. Mas, inversamente, como podem as funções influenciar as condições
limites? Em outras palavras, como pode um nível inferior - menos
integrado - , na matemática, influenciar o nível superior? Como repre-
sentar o efeito do nível molecular sobre as células, o das células nos órgãos
e o dos órgãos no organismo, embora esse seja o pão de cada dia da
observação biológica?
Na verdade, todo o procedimento reducionista físico-químico re-
pousa no postulado, tantas vezes comprovado experimentalmente, de que
as propriedades do conjunto do sistema vivo encontram sua origem nas
de seus componentes físico-químicos, em níveis de integração muito mais
elementares. ·
Esse método, resultante da observação experimental, deveria, para
ser matematicamente formulado, implicar uma relação causal de tal or-
dem que as funções soluções de sistemas de equações diferenciais deter-
minassem suas próprias condições limites, e não o contrário.
A experiência matemática habitual das condições limites que deter-
minam as funções corresponderia, de fato, a um método holístico, que
também se impõe por numerosas observações experimentais em que as
propriedades globais de um sistema aparecem como resultado não apenas
das de seus componentes, mas também da organização ou capacidade de
conexão desses componentes, considerada num nível mais integrado, que
determina justamente as condições limites do nível elementar.
Em outras palavras, é como se existisse uma oposição entre o
método empírico reducionista, segundo o qual o detalhe gera o geral, e o
método matemático, pelo menos clássico, que descreve um sistema em
determinado nível por um sistema de equações diferenciais. Comumente
se observa que é evidente que o nível superior deve agir sobre o nível
inferior. Como acabamos de ver, essa evidência se impõe de maneira
muito precisa, todas as vezes que contemplamos um sistema de equações
diferenciais. No entanto, a evidência empírica oposta (do inferior para o
superior) se mi.põe pela observação e pelo bom senso, mas é muito mais
difícil 1o.;1de formalizar. Essa questão da passagem do global para o local e
vice-versa é abordada, na teoria dos modelos, em termos de projeção, onde
A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO E SUAS REPRESENTAÇOES 61

os critérios de validade são critérios de homomorfismo. Aqui, trata-se das


determinações causais durante essas passagens, consideradas em termos
de condições limites e de funções soluções de equações diferenciais. O
matemático A. Douady observa que esse é um problema análogo ao da
esfera vibratória, onde a integração é efetuada apesar de não existirem
extremidades.
Mudando de formalismo e retomando ao da teoria de Shannon,
vemos como os mecanismos de criação de informação a partir do ruído,
dos quais viemos falando, podem constituir um certo progresso.
Vimos anteriormente em que sentido esses mecanismos implicam,
de fato, uma mudança do ponto de vista da observação, com superposição
de dois pontos de vista: o da via elementar (x; y), sobre a qual se exerce
o ruído, e o da via do sistema S para o observador que mede a quantidade
de informação do sistema.
Na verdade, porém, trata-se de mais do que isso: o observador do
sistema que contém a via, em relação a quem o efeito do ruído é positivo,
não é apenas um ser lógico que faz mensurações, mas é também um nível
de integração mais elevado. Com efeito, o fato de haver um interesse pela
saída da via (x; y) ou pela do sistema para o observador equivale, na
verdade, a situar a observação em dois níveis hierárquicos diferentes.
Isso significa que a introdução da posição do observador não cons-
titui apenas uma etapa lógica do raciocínio: esse observador, externo ao
sistema, é, de fato, num sistema hierarquizado, o nível de organização
superior (englobante), comparado aos sistemas-elementos que o consti-_
tuem; é o órgão em relação à célula, o organismo em relação ao órgão etc.
É em relação a ele que os efeitos do ruído sobre uma via no interior do
sistema, em certas condições, podem ser positivos.
Em outras palavras, para a célula que olha as vias de comunicação
que a constituem, o ruído é negativo. Mas, para o órgão que olha a célula,
o ruído nas vias do interior da célula é positivo (desde que não mate a
célula), pelo fato de aumentar o grau de variedade, e portanto, os desem-
penhos reguladores de suas células.

Essas considerações, como vimos, levaram ao esboço de uma teoria da


organização em que esta última é definida por uma dinâmica de variação
da quantidade de informação no tempo, e onde, a cada instante, o grau de
organização é definido, não por um ponto numa reta (um parâmetro único
que permitisse ordená-lo), mas por três parâmetros: dois que exprimem
um compromisso entre a redundância e a variedade, e a ordem repetitiva
e a ordem por improbabilidade, que são as duas maneiras.intuitivas -
mas opostas - de conceber o organizado. O terceiro é um parâmetro de
confiabilidade que exprime uma espécie de inércia.·do sistema em relação
62 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

às perturbações, cujo efeito, aliás, tanto pode ser positivo quanto negativo,
conforme os níveis, como indicamos há pouco. Essa teoria parece ser de
alguma utilidade para explicar, ao menos em alguns aspectos e de um
ponto de vista fenomenológico, o que parece ser a organização nas
diferentes ciências do ser vivo.II De fato, a descoberta da redundância em
diferentes níveis da organização dos sistemas vivos parece fornecer-lhe
algum apoio experimental. No nível do núcleo celular, os ADNs repetiti~
vos (Britten-pavidson, I2 Nagl I3), como redundância inicial, e a degenera-
ção do código genético, como redundância funcional (StrehlerI 4 ), foram
invocados na origem de possíveis mecanismos de diferenciação celular
durante o desenvolvimento embrionário. A teoria da auto-organização
fornece um princípio geral de diferenciação pela destruição, eventualmen-
te aleatória, de uma redundância que caracteriza o estado inicial de
indiferenciação. Assim, a quantidade de informação contida num eventual
programa genético pode ser consideravelmente reduzida em comparação
com a que seria necessária no caso de uma determinação rigorosa dos
detalhes da diferenciação. Isso parece particularmente pertinente no que
concerne ao desenvolvimento do sistema nervoso, onde uma parcela de
aleatoriedade permite uma considerável economia de informação genéti-
ca I5 que, de outra maneira, seria insuficiente, caso tivesse que especificar
em todos os seus detalhes um sistema constituído de mais de dez bilhões
de neurônios interligados. Também aí podemos observar, pelo menos em
alguns casos, conexões inicialmente redundantes, que se especificam no
curso do desenvolvimento, perdendo essa redundância. 16
Além disso, como veremos adiante,I 7 os princípios de auto-organi-
zação por diminuição da redundância permitem compreender a constitui-
ção progressiva de formas a serem reconhecidas juntamente com as que
servem de referência para esse reconhecimento, nos processos de apren-
dizagem adaptativa não-dirigida.
Esses processos são empregados não apenas nos "reconhecimentos
de formas" que caracterizam nosso sistema cognitivo, mas também na
constituição e no funcionamento do sistema imunológico, verdadeira
máquina de aprendizagem e de integração do novo, desta vez no nível de
formas celulares e moleculares. De fato, o sistema imunológico realiza
uma rede celular em que as células - os linfócitos - são ligadas, entre
si e com os antígenos que constituem seus estímulos externos, por meca-
nismos de reconhecimento molecular ao nível de suas membranas. Tam-
bém aí estamos diante de um sistema de aprendizagem não-dirigida cujo
desenvolvimento é condicionado pela história dos contatos com diferen-
tes andgenos, uma história, evidentemente, pelo menos em parte, não-pro-
gramada e aleatória. Ora, o reconhecimento dos antígenos pelos linfócitos
é o resultado, no nível molecular e celular, de uma seleção de linfócitos
preexistentes, com suas estruturas membranosas adequadas, cuja multi-
A ORGANIZAÇÃO DO SER Vivo E SUAS REPRESENTAÇÕES 63

plicação é desencadeada pelo contato com determinado antígeno (seleção


clonai). Por isso, a possibilidade de uma variedade praticamente infinita
e imprevisível de reações imunológicas, a partir de um número finito de
linfócitos determinados, implica a cooperação de diversos níveis diferen-
tes de reconhecimento. Uma combinação de células diferentes, pertencen-
tes a níveis diferentes, multiplica consideravelmente a variedade das
respostas possíveis (Jerne 18) . Por fim, também nesse caso, uma redundân-
cia inicial nessa cooperação - transmissão de informações entre diferen-
tes níveis da rede celular que constitui o sistema imunológico - talvez
permita explicar o desenvolvimento com aumento da diversidade e da
especificidade. 19 Este, no final das contas, leva à constituição da indivi-
dualidade molecular de cada organismo, que, no homem, sabemos ser
praticamente absoluta. Na verdade, ela é condicionada pelos encontros
parcialmente aleatórios com estruturas moleculares e celulares trazidas
por um ambiente sempre renovado, pelo menos em parte.

3. Rutoo ORGANIZACIONAL E SIGNIFICAÇÃO DA INFORMAÇÃO

Mas é possível ir ainda mais longe. O formalismo da teoria da informação


é um formalismo probabilístico, que nos é imposto por estarmos lidando
com sistemas que só podemos conhecer de maneira global e imperfeita.
Como vimos anteriormente a propósito da história da escrivaninha desar-
rumada, a idéia do sentido e da significação está sempre presente na noção
de ordem, bem como na de informação. Contudo, vimos também que a
teoria de Shannon só permitiu quantificar a informação ao preço da
colocação de sua significação entre parênteses. O princípio da ordem a
partir do ruído, em suas sucessivas formulações quantitativas (H. von
Foerster, 1960; H. Atlan, 1968, 1972, 19752º), utilizou igualmente a teoria
de Shannon, da qual estão ausentes as preocupações com a significação.
Na verdade, o problema do sentido e da significação. continua presente,
muito embora o suponhamos eliminado. Está presente, é claro, nas noções
de codificação e decodificação. Mas também está presente, de maneira
implícita-negativa e como uma espécie de sombra, em todas as utilizações
das noções de quantidade de informação ou de entropia para avaliar o
estado de complexidade, de ordem ou desordem de um sistema. Finalmen-
te, veremos que o princípio de ordem a partir do ruído, apesar de expresso
num formalismo puramente probabilístico do qual o sentido se acha
ausente, repousa implicitamente na existência da significação, e até de
diversas significações da informação. Em outras palavras, trata-se de uma
possível via .de abordagem para a solução do último dos problemas que a
teoria de Shannon negligenciou: o da significação da informação. 2 1
Para isso, é conveniente apreendermos, logo de saída, a inversão
que efetuamos em relação à formulação inicial de von Foetster, quando
64 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

exprimimos o princípio da ordem através do ruído como um aumento da


variedade, da informação de Shannon e da complexidade, ligado a uma
diminuição da redundância. Tratava-se, de fato, de um princípio de
organização ou de complexidade pelo ruído, e foi equivocadamente, em
parte, que o inscrevemos na linha de von Foerster e de seu princípio de
ordem pelo ruído; este considerava um aumento da ordem repetitiva e da
redundância, enquanto se trata, aqui, de aumento da informação, que é o
oposto disso e serve para medir a complexidade. Entretanto, é seu famoso
exemplo dos ímãs agitados numa caixa que continua a nos ajudar a
fornecer uma representação figurada do ruído organizacional. É que as
noções de ordem, complexidade e organização não eram desprovidas de
ambigilidade. Em particular, o caráter contraditório da organização, que
ao mesmo tempo implicava redundância e variedade, tinha, antes de ser
claramente reconhecido, que ter alguma coisa a ver com essa confusão.
Agora, é discernindo mais de perto essas noções que extrairemos o
benefício anunciado, concernente ao sentido e à significação. Para tanto,
convém voltarmos às noções de entropia, ordem, complicação e comple-
xidade, para ficarmos em melhores condições de progredir, descobrindo
novas implicações da teoria do ruído organizacional. Como veremos,
parece mais legítimo, atualmente, reservar o termo ordem, como fez von
Foerster, para aquilo que é medido por uma redundância, sendo a varie-
dade e a complexidade medidas pela informação, função H de Shannon.

3.1. COMPLEXIDADE, COMPLICAÇÃO


E OUTRAS NOÇÕES ASSOCIADAS
3.1.1. Complexidade e níveis de organização. Sabe-se, desde Brillouin,
que a quantidade de informação de um sistema (a função H) é a medida
da informação que nosfaltn,22 a incerteza sobre esse sistema. É por isso
que ela mede sua complexidade. Mas há aí um aparente paradoxo: como
é possível medir, e portanto determinar, uma coisa que não conhecemos
- no caso, a informação que não possuímos sobre o sistema (ou ainda, o
déficit de informação, a incerteza quanto ao sistema)? É possível fazê-lo,
se conhecermos os elementos constitutivos do sistema e sua distribuição
de probabilidades, isto é, a freqüência com que cada elemento é observado
na análise de uma classe de sistemas supostamente homogênea em termos
estatísticos.
A partir dessa informação mínima (que possuímos), é possível
calcular a informação que nos falta para sermos capazes de reconstruir o
sistema a partir de seus elementos, isto é, de compreendê-lo. É nesse
sentido que a função H de Shannon, chamada de quantidade de informa-
ção, porém, mais precisamente, de entropia, incerteza, informação que
nos falta, mede a complexidade - para nós, observadores - desse
sistema. Compreende-se, pois, em que essa medida depende crucialmente
A ORGANIZAÇÃO DO SER Vivo E SUAS REPRESENTAÇOES 65

do nível de observação, ou, mais exatamente, da escolha do que se


consideram elementos constitutivos. Essa propriedade, muitas vezes, é
considerada uma falha suplementar do conceito clássico de quantidade de
informação de um sistema. O valor numérico de H pode variar conside-
ravelmente, porque · depende da escolha dos elementos constitutivos:
partículas elementares, átomos, moléculas, macromoléculas, organelas,
células, órgãos, organísmos, unidades de produção e consumo, sociedades
etc. Mas veremos que é justamente aí que se aloja a significação (para o
sistema) da informação (para o observador, isto é, a informação que ele
não tem), embora esta seja medida de maneira probabilística, que desco-
nhece a significação: isso provém do fato de se tratar, mais uma vez, de
uma informação que não possuímos sobre o sistema. A escolha, a princí-
pio, fica entregue à decisão do observador. Quando se trata, por exemplo,
de escrever um sistema a partir dos átomos que o constituem, H mede a
informação suplementar necessária quando só conhecemos o tipo de
átomos encontrados num conjunto estatiscamente homogêneo de sistemas
idênticos e sua freqüência nesse conjunto. Essa informação neces~ária,
evidentemente, é muito grande, comparada àquela de que precisaqamos
se fôssemos descrever o sistema a partir de suas moléculas. É que, nesse
caso, utilizaríamos uma informação adicional que já possuímos sobre a
maneira como os átomos se associam em moléculas. Essa é a proporção
de complexidade que desaparece em comparação ao caso precedente. Em
outras palavras, na prática, em geral conhecemos um pouco mais do que
os átomos encontrados e sua distribuição de probabilidades. Também
sabemos, pelo menos parcialmente, como esses átomos são utiliz/ldos pelo
sistema para construir moléculas, como as moléculas são utilizadas para
construir macromoléculas etc. Quanto mais conhecemos a maneira como
os elementos são reunidos para construir o sistema - quanto mais
possuímos informações verdadeiras, com sua significação, sobre o siste-
ma-, mais diminui a função H.
O melhor exemplo disso é o da quantidade de informação, ou
complexidade, de um organismo, que é consideravelmente reduzida quan-
do admitimos que o organismo é totalmente determinado pela estrutura
de informações de seu genoma. A complexidade do organismo fica então
reduzida à de seu genoma (Dancoff e Quastler23). Podemos observar que
essa redução da função H corresponde, na verdade, a uma consideração
da redundância do sistema, sob a forma de suas restrições organizacio-
nais: a construção das proteínas não é considerada - incerta -, a partir
do momento em que conhecemos o genoma e os mecanismos pelos quais
ele determina a estrutura dessas proteínas. ü conhecimento desses meca-
nismos reduz a informação que não possuímos, e portanto, a aparente
complexidade do sistema celular, evidenciando as restrições entre os
diferentes elementos constitutivos. É isso que se traduz, como seria de se
66 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

esperar, por uma redução da complexidade medida. Em outras palavras,


essa redução é apenas um caso particular da oposição entre H e R, entre
informação e redundância: H mede a complexidade, por designar a infor-
mação que não possuímos, e R mede a simplificação, por exprimir uma
informação que possuímos, ao menos parcialmente, sob a forma de
probabilidades condicionais.
É assim que a complexidade é reconhecida como uma noção nega-
tiva: ela exprime que não conhecemos ou não compreendemos um siste-
ma, apesar de uma base de conhecimento global que nos faz reconhecer
e nomear esse sistema. Um sistema que possamos especificar explicita-
mente, cuja estrutura detalhada conheçamos, não é realmente complexo.
Pode ser, digamos, mais ou menos complicado. A complexidade implica
que temos dela uma percepção global, tendo, ao mesmo tempo, a percep-
ção de que não a dominamos em seus detalhes. Por isso é que a medimos
através da informação que não possuímos, e da qual precisaríamos para
especificar o sistema em seus detalhes.
3.1.2. Complexidade e complicação. Assim, vemos que a complexidade
deve ser distinguida da complicação. Esta última só exprime, no máximo,
um grande número de etapas ou instruções para descrever, especificar ou
construir um sistema a partir de seus componentes. Nesse sentido, a
complicação é um atributo dos sistemas artificiais, construídos, ou pelo
menos passíveis de ser construídos, pelo ser humano, que conhece e
compreende totalmente sua estrutura e seu funcionamento. Ela é mensu-
rável a partir de plantas, planos e programas que especifiquem pormeno-
rizadamente a eventual construção do sistema. Hoje em dia, é muito
freqüente a complicação ser medida pelo tempo de cálculos de computa-
dor necessário para realizar um programa: quanto mais longo é esse tempo
(trabalhando com o mesmo computador), mais complicado é o programa,
e portanto, 6 sistema que ele especifica.
Sabemos que existe um computador universal teórico, denominado
de máquina de Turing,24 capaz de executar (com um mínimo de hardware
e um máximo de instruções de programa) o que qualquer computador real
é capaz de efetuar. Assim, de maneira mais geral, podemos medir a
complicação de um sistema pelo número de etapas necessárias, percorri-
das por uma máquina de Turing, para descrevê-lo a partir de seus compo-
nentes, com a ajuda de um programa de instrução. Isso implica, eviden-
temente, que tal programa possa ser escrito, ou seja, que tenhamos do
sistema um total conhecimento operacional. Nessa eventualidade, pode-
mos comprovar, para estabelecer a coerência de nossas definições, que a
função H (complexidade, informação que não possuímos sobre o sistema)
poderia ser reduzida a zero, ao passo que a redundância, que expressa as
restrições, seria máxima, igual a 1. De fato, nesse caso, o sistema poderia
A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO E SUAS REPRESENTAÇÕES 67

ser descrito, se desejássemos, com o auxílio de um único elemento


constitutivo, o que, como se sabe, reduziria sua quantidade de informa-
ções a zero. Esse elemento único seria seu programa de construção. Na
verdade, nada nos impede de considerar esse programa como um simples
elemento constitutivo, já que o conhecemos perfeitamente em seus deta-
lhes e somos capazes de construí-lo. Esse conhecimento, assim, é supos-
tamente prévio à descrição, do mesmo modo que o conhecimento prévio
das estruturas moleculares permite descrever um sistema material a partir
das moléculas que o compõem. Tocamos, aí, numa diferença de pontos
de vista, conforme utilizemos a teoria da informação para a construção de
sistemas artificiais ou para a compreensão e a manipulação de sistemas
naturais, sempre imperfeitamente conhecidos. Voltaremos a essa questão.
3.1.3. Complexidade e desordem . Observe-se de passagem que a função
H, que mede a complexidade, é uma generalização da entropia de um
sistema físico, considerada como uma medida de sua desordem molecu-
lar (ver supra, pp. 28 e 30). Esta última seria, portanto, uma manifestação
da complexidade. De fato, a ordem só aparece numa estrutura quando a
conhecemos, quando compreendemos suas articulações, o código que
rege a ordenação dos elementos. Uma complexidade ordenada, portanto,
já não é complexa. Só pode ser complicada. Inversamente, porém, nem
toda desordem é necessariamente uma complexidade. Uma desordem só
se afigura complexa em relação a uma ordem que temos razões para
acreditar que exista, e que procuremos decifrar. Em outras palavras, a
complexidade é uma desordem aparente onde temos razões para presu-
mir uma ordem oculta; ou ainda, a complexidade é uma ordem cujo
código não conhecemos.
A relação entre complexidade e desordell)2 ~ aparece claramente
quando compreendemos que uma estrutura estatisticamente homogênea
que desejemos reproduzir tal e qual - com determinadas moléculas e não
outras, se pudéssemos distingui-las - é.a mais complexa possível. Dizer,
como na tetmodinâmica, que "uin sistema físico entregue a si mesmo
evolui para a máxima desordem, isto é, para a máxima homogeneidade••
(entropia máxima), significa que ele ••evolui para a máxima complexida-
de, se tivéssemos que especificá-la explicitamente".
Dito de outra maneira, ele evolui para um estado em que recebemos
sua máxima ausência de informações. E, para que isso não aconteça, é
preciso mantê-lo, através de restrições externas, num estado de desordem
mínima, o que significa que não o deixamos evoluir sozinho, ou então que
_lhe impomos de fora algumas condições que a fonte externa (que as
impõe) evidentemente ...conhece" . Essas condições fazem com que o
sistema - que então chamamos aberto e longe do equilíbrio - , possa
permanecer ordenado, isto é, possa transmitir uma informação a seu
68 ENTRE O CRJSTAL I! A FUMAÇA

ambiente: essa informação, no sentido pleno, com sua significação, é


precisamente o conhecimento das restrições externas ou das condições
que mantêm o sistema longe da desordem máxima. O sistema a ''trans-
mite•• a seu ambiente, simplesmente porque é esse ambiente que a impõe
ao sistema. Este só faz retransmitir tal informação a seu ambiente (obser-
vador, manipulador), que não deixe evoluir por si só.
3.1.4. Complexidade e redundância. A existência de restrições internas
no interior do sistema equivale a uma redundância. Na verdade, em
virtude dessas restrições, o conhecimento de um elemento modifica
aquele que podemos ter sobre outros elementos. Se esse conhecimento é
limitado ao de suas probabilidades de aparecimento como elementos
constitutivos do sistema, as restrições são medidas por probabilidades
condicionais (de encontrar determinado elemento, sob a condição de que
um outro tenha sido inicialmente identificado). Ess_a s probabilidades
condicionais servem para medir a redundância R, que diminui a função
H de acordo com a relação H - Hmax (1 - R). 26 Visto q\le esta é uma
medida da complexidade e da ''desordem· ·, decorre daí que a redundân-
cia é uma medida da simplicidade e da "ordem". Assim, a ordem seria
essencialmente repetitiva ou redundante. Não é necessário que ela.seja
fisicamente repetitiva, como num cristal, no sentido de um único elemen-
to ou motivo repetido um grande número de vezes. Basta que seja
redundante, isto é, dedutivamente repetitiva: o conhecimento de um
elemento nos traz uma certa informação sobre os outros (diminuindo a
incerteza a respeito deles), e é isso que nos faz perceber uma ordem.
3.1.5. Medidas da complexidade. Assim, a complexidade, tal como
tentamos delimitar suas características, pode ser medida pela função H .
Mas esta pode ser definida de três maneiras diferentes, que correspondem
a três tipos de intuição ou percepção da complexidade de um sistema que
só conhecemos imperfeitamente, a partir de seus elementos constitutivos.
Da maneira mais imediata, o sentimento de complexidade provém,
a princípio, do encontro de um grande número de elementos constitutivos
diferentes. Sua medida (que ainda nem sequer precisa ser probabilística)
é dada pela variedade, no sentido de Ashby. Ela é um caso particular de
função H limitada ao.. número N de elementos diferentes (onde H - log
N): a distribuição das freqüências dos diferentes elementos não é levada
em consideração, ou, o que dá no mesmo e exprime nossa ignorância a
seu respeito, as freqüências são supostamente iguais entre si.
Depois, podemos ter um conhecimento (imperfeito) dessa distribui-
ção, por intermédio de sua distribuição de freqüências (que supomos ser
idêntica a uma distribuição de probabilidades). Esta é então utilizada para
exprimir a função H propriamente dita, através da fórmula de Shannon.
Ela leva a um valor menor do que no caso anterior (que corresponde a um
A ORGANIZAÇÃO DO SER Vivo E SUAS REPRESENTAÇÕES 69

máximo de H, realizado quando as probabilidades são iguais). É normal


que isso aconteça, já que a distribuição das probabilidades constitui um
aumento de conhecimento que, portanto, reduz a complexidade. Em
último lugar, o conhecimento das eventuais restrições internas leva a uma
função H ainda mais reduzida pela redundâi:icia que mede essas restrições.
Assim, essas três maneiras de escrever a função H exprimem três tipos de
e
complexidade. A primeira, banal máxima, é a variedade dada por H ~ ·
log N. A segunda exprime a desordem ou a homogeneidade estatística; é
dada pela fórmula de Shannon, H - - r. p log p. A terceira é uma medid:\
da falta de conhecimento das restrições internas (ou da redundância) do
sistema; é dada por H - Hmax (1 - R).
A medida da complexidade decresce da primeira para a terceira, à
medida que se supõem adquiridos alguns conhecimentos suplementares
(embora parciais e incertos): a segunda é um máximo da terceira, corres-
pondendo a uma redundância nula - H - Hmax; a primeira é um máximo
da segunda, correspondendo a uma distribuição supostamente equiprová-
vel, que assim representa um maximum maximorum de ignorância e
complexidade.
3.1.6. Complexidade e codificação. Resta compreender, neste contexto,
em que sentido a função H, quantidade de informação contida num
sistema, efetivamente representa uma quantidade de informação trans-
mitida, no sentido de Shannon, por uma via do sistema ao observador,
quando acabamos de lembrar que se trata de uma informação que o
observador não possui, já que é aquela de que ele precisaria para espe-
cificar o sistema. É que se trata, mais uma vez, de um sistema que não
sabemos especificar totalmente, explicitamente, como em geral acontece
com os sistemas naturais.
A informação recebida, portanto, é uma informação cujo código não
conhecemos: é uma informação transmitida, estritamente no sentido shan-
noniano da transmissão por uma via, onde não nos ocupamos da codifi-
cação e decodificação do sentido das mensagens na entrada e na saída da
via.27
O observador do sistema é a saída da via com as mensagens recebi-
das, sem que o código que permite compreendê-las seja conhecido. Por
isso é que essa informação sem código, que é transmitida por um sistema,
é uma informação que efetivamente teríamos se conhecêssemos o código,
porque, nesse caso, poderíamos utilizá-la para especificar o sistema. Mas
ela continua a ser, de fato, uma informação de que não dispomos, um
déficit de observação, mas que o sistema transmite ao observador na
medida em que este o observa, global e estatisticamente, a partir do
conjunto de seus componentes e de sua distribuição de probabilidades.
Essa observação imperfeita lhe permite, pelo menos, medir a infor-
mação de que ele precisaria para especificar o sistema: é essa medida que
70 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

lhe é transmitida pelo possível observador do sistema. É ela que lhe


permite, ao mesmo tempo, medir a complexidade desse sistema cuja
ordem e cujo código ele não conhece, porque não o compreende.

3.2. RUÍDO ORGANIZACIONAL:


A COMPLEXIDADE PELO RUÍDO E AS SIGNIFICAÇÕES
3. 2.1. Os efeitos ''benéficos'' do ruído. O princípio do ruído organizacio-
nal ou da complexidade pelo ruído significa, neste contexto, que o ruído
que reduz as restrições dentro de um sistema aumenta sua complexidade.
Isso, evidentemente, ainda está ligado à percepção do observador e ao fato
de que o conhecimento que temos desses sistemas (naturais) e de seus
mecanismos de construção é (ainda ou sempre) imperfeito. Aquilo que
nos aparece como perturbações aleatórias em relação a esses mecanismos,
no entanto, é recuperado pelo sistema e utilizado, de um modo ou de outro
(em geral, aliás, imprevisível em seus detalhes), para ele se construir ou
reconstruir de uma nova maneira. Essa nova construção, evidentemente,
escapa aos detalhes de nosso conhecimento, até por definição, uma vez
que é produzida por perturbações aleatórias, ou seja, por aquilo que, para
nós, é um acaso.28 Por isso é que essa nova construção que utiliza o ruído
leva a um aumento da complexidade, isto é, a um aumento da informação
que nos falta. Entretanto, visto que o sistema continua a existir e a
funcionar, isso significa que, para ele, essa complexidade continua fim-
cional e, por conseguinte, lhe proporciona um excedente de informação,
que ele eventualmente utiliza para uma melhor adaptação a novas condi-
ções.29 Isso é o que diz o princípio da complexidade pelo ruído, a respeito
do qual estabelecemos a possibilidade de uma auto-organização por
diminuição da redundância.
Já enfatizamos o papel de uma organização hierarquizada em diver-
sos níveis de generalidade, no funcionamento desse princípio: se o sistema
nos parece mais complexo por causa dos efeitos do ruído, é porque o
observamos num nível de organização mais geral que o das vias de
comunicação perturbadas pelo ruído. É esse nível, mais geral, que recebe
ou ''observa" os efeitos do ruído, nas vias que contém, como efeitos
positivos.
De fato, em sua introdução ao trabalho de Shannon, Weaver30 já
havia observado que os efeitos do ruído nos sinais de uma via aumentam
a quantidade de informação na saída da via, uma vez que sua incerteza
aumenta. Isso lhe pareceu um "efeito benéfico" paradoxal do ruído,
inaceitável no contexto de uma teoria da comunicação, onde o objetivo
é transmitir a informação com um mínimo de erros. Entretanto, vimos
como a situação 'é diferente quando nos interessamos, não pela saída de
uma via, mas por um sistema que contenha essa via como parte integran-
te. Assim, sabemos agora que essa primeira intuição de W eaver estava
A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO E SUAS REPRESENTAÇÕES 71

certa e pode ser a base da solução do problema da criação da informação


no contexto da teoria de Shannon.
Agora, porém, veremos de que modo ela permite, além disso,
esclarecer um pouco a profunda união entre os três níveis da informação
de Weaver, a partir da definição estritamente limitada ao nível A (ver
supra, nota da p. 69). Essa união, aliás, foi postulada pelo próprio Weaver,
logo depois de ele distinguir cuidadosamente esses três níveis.
Mas, antes, é útil voltarmos detalhadamente às diferenças assinala- ·
das acima entre nossa orientação e a formulação original do que voo
Foerster chamou de princípio da ordem através do ruído.
3.2.2. Os ímãs de von Foerster: complexidade (mais do que ordem)
através do ruído. Com efeito, num mesmo artigo, esse autor propôs, por
um lado, um modelo particularmente sugestivo, mas qualitativo: o dos
cubos imantados, agitados ao acaso e se dispondo em formas de comple-
xidade (para ele, de "ordem") crescente (Figs. 2 e 3); e por outro lado,
uma formulação quantitativa, restrita ao caso simplificado em que as
formas produzidas se limitariam a pares de dois cubos acoplados. Foi
essa segunda formulação que evidenciou um aumento da redundância .
Na realidade, essas duas situações são muito diferentes, e uma não passa
de uma simplificação da outra. Apenas a segunda, limitada ao caso dos
pares de cubos, merece o nome de ordem (repetitiva) através do ruído.
A primeira, que nos induzira a adotar entusiasticamente a terminologia
proposta pelo autor, consiste, a rigor, numa informação (complexidade)
através do ruído, e ninguém forneceu sua análise quantitativa. De fato,
no caso dos pares de ímãs, sabemos desde o início que os cubos se .
acoplarão, e é somente com base nesse saber que o cálculo é efetuado.
Ora, isso equivale à mesma coisa que saber que os cubos são imantados,
e até a conhecer seu tipo de imantação. Em outras palavras, supõe-se que
conheçamos em detalhes o mecanismo de construção das formas. Pois
bem, todo o raciocínio é baseado na hipótese de que não conhecemos
esse mecanismo e vemos produzirem-se formas - para nós, imprevisí-
veis em seus detalhes - que nos parecem mais complexas do que o
amontoado informe de cubos de que havíamos partido.
Ao supormos conhecido o mecanismo, é evidente que a complexi-
dade diminui, como no caso anteriormente considerado de um organismo
determinado por seu genoma. O que aumenta, nesse caso, é realmente a
ordem repetitiva, como também no caso da formação de um cristal. O
ruído, desse modo, serve apenas para permitir que as restrições potencial-
mente contidas nas forças de atração efetivamente se realizem, de modo
que o sistema construído corresponde, de fato, ao conhecimento apriorís-
tico que temos de seus mecanismos de construção. Ao contrário; todo o ·
interesse da ~agem dos cubos de voo Foerster reside na hipótese de não
72 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

Figura 2. Os ímãs de von


Foerster antes da agitação.

Figura 3. Os ímãs de von


Foerster após a agitação.

Figuras extraídas de H. von Foerster, "On Self-organizing Systems and their


Environment " , in Self-Organizing Systems, Yovitz e Cameron (orgs.),Pergamon
Press, 1960.
A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO li! SUAS REPRESENTAÇÕES 73

conhecenn.os sua imantação. É nisso que eles constituem um modelo de


sistemas que (nos) parecem auto-organizadores, muito embora dêem a
entender que, em tenn.os absolutos (isto é, se conhecenn.os tudo31 sobre
esses sistemas), não podem existir sistemas auto-organizadores. É nessa
hipótese que uma fonn.a, na medida em que nos pareça mais complexa do
que o amontoado inicial, apresenta-nos um déficit maior de infonn.ação,
e portanto, uma função H maior, tal como havíamos proposto. Mas, em
que sentido uma forma nos parece mais complexa do que um amontoado
informe (além da percepção intuitiva que temos disso), a ponto de reco-
nhecenn.os nela um aumento de H? O amontoado implica que os pedaços
que recortam o espaço que ele ocupa são intercambiáveis, no tocante a
sua probabilidade de serem ou não ocupados pelos cubos, sein que isso
modifique a forma global. Issó significa que o número de elementos
diferentes que seria preciso especificar para reconstruir um amontoado
estatisticamente idêntico é muito reduzido. Ao contrário, uma forma
geométrica dada implica que cada cubo ocupe um lugar bem determinado,
o que equivale a dizer que os pedaços do espaço não são intercambiáveis
quanto a sua probabilidade de estarem ocupados ou vazios de cubos. Isso,
evidentemente, supõe que a forma seja percebida como um membro de
um conjunto de fonn.as estatisticamente homogêneo, em relação ao qual
essas probabilidades possam ser avaliadas, sem que possamos conhecer
em detalhes seu mecanismo de construção. Por isso é que, na prática, o
cálculo baseado no modelo de von Foerster não foi efetuado. Von Foerster
só pôde calcular um exemplo, onde a forma foi reduzida a pares separados
de cubos. Mas isso inverte completamente a problemática, por supormos
conhecidos os detalhes do mecanismo de construção da forma.
3.2.3. Significação da informação num sistema hierarquizado. Num
sistema hierarqúizado em diferentes níveis de generalidade, o princípio
de complexidade pelo ruído exprime que um aumento da informação
(complexidade) é observado quando da passagem de um nível inferior
(mais elementar) para um nível mais geral (englobante). Ora, tambémjá
vimos que, normalmente, essa passagem é acompanhada por uma redu-
ção da complexidade, já que então levamos em conta· uma informação
implícita que supostamente possuímos sobre a construção do ruvel en-
globante a partir do nível elementar (por exemplo, moléculas a partir de
átomos). Decorre daí que, se o que nos parece ser um ruído (em relação ·
a esse conhecimento prévio) não destrói a organização, mas, ao contrá-
rio, penn.ite que ela se desenvolva num estado novo e mais complexo,
isso significa que, na verdade, o conhecimento implícito que suposta-
mente possuíamos era imperfeito. O conhecimento que tínhamos da
passagem de um nível ao outro também comportava um déficit de
informação, que aparecia sob a forma de uma complexidade (para nós),
74 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

produzida no nível global pelo ruído (para nós) no nível elementar. Mas
isso também quer dizer, como anteriormente, que esse aumento de
complexidade, no que concerne ao próprio sistema, já que se trata de uma
complexidade funcional, confere a ele, desde o nível elementar até o
nível mais geral, um excedente de informação. Essa informação, que
evidentemente nos é inacessível (é aquela que não possuímos, a comple-
xidade), seria, de certo modo, a que o sistema possui acerca de si mesmo,
de seus níveis elementares e de sua ordenação no nível mais geral. É a
que aumenta sob o efeito de perturbações que, para nós, se afiguram e
sempre se afigurarão afoatórias.
Podemos agora compreender que essa informação que o sistema
teria a seu próprio respeito, que lhe permitiria funcionar e existir evoluin-
do, é, na verdade, a significação da informação transmitida pelas vias de
comunicação que o constituem.
Com efeito, da maneira operacional mais simples e mais geral,
podemos definir a significação da informação como o efeito do recebi-
mento dessa informação em seu destinatário. Esse efeito pode aparecer,
seja sob a forma de uma mudança de estado, seja sob a de um "output"
do próprio destinatário, encarado como um subsistema. Assim, a signifi-
cação da informação genética, no nível mais simples do sistema de síntese
das proteínas, é efeito da recepção dos códons-sinais na estrutura das
proteínas enzimáticas, e através disso, em seu estado funcional no interior
do metabolismo celular. Da mesma forma, a significação da informação
que chega a nosso sistema cognitivo - aquilo a que chamamos conteúdo
semântico das mensagens e discursos - pode ser percebida como um caso
particular de significação da informação, segundo a definição geral que
propusemos: tratar-se-ia do efeito do recebimento da informação no
estado ou nas produções (outputs) de nosso sistema cognitivo;
A informação que um sistema teria sobre si mesmo, aquela que
vimos ser passível de aumentar sob o efeito do que nos parece ser um ruído
(e que então medimos por uma informação que nos falta), é realmente o
que permite ao sistema funcionar, e até mesmo existir como sistema.
Trata-se, pois, do conjllnto dos efeitos, estruturais e funcionais, da recep-
ção da informação transmitida dentro do sistema nos diferentes subsiste-
mas e nos diferentes níveis de organização do sistema. Trata-se, de fato,
da significação dessa informação para o sistema.
É pelo fato de a informação ser medida (por nós) por uma fórmula
da qual o sentido está ausente, que seu oposto, o ruído, pode ser gerador
de informação. Isso nos permite continuar a exprimi-lo pela mesma
função H, embora sua significação seja diferente, por ser recebida em dois
·níveis diferentes de organização. A informação, num nível elementar, tem
um sentido que desprezamos quando a medimos pelas fórmulas de Shan-
non, mas que se traduz por seus efeitos em seu destinatário, a saber a
A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO E SUAS REPRESENTAÇOES 75

estrutura e as funções desse nível, tal como as percebemos. Inversamente,


os efeitos dessa mesma informação num nível mais geral, mais engloban-
te, na organização do sistema, devem ser diferentes do que podemos
extrapolar levando em conta o que conhecemos. (Caso contrário, o que se
nos afigura como ruído de efeitos positivos - o "ruído organizacional"
- não nos pareceria ruído, mas sinais.) Resulta daí que o sentido que nos
falta dessa informação, mas que o sistema teria a seu próprio respeito, é
diferente conforme o nível em que ela seja recebida no sistema: O sentido
da informação transmitida pelas vias de comunicação intracelulares não
é o mesmo para a célula e para o órgão, para o aparelho ou o organismo
de que essa célula faz parte. Mas como, na totalidade dos casos, a medida
da informação que utilizamos desconhece esses sentidos, é possível, e não
contraditório, que o que aparece como uma destruição da informação num
nível elementar seja visto como uma criação de informação num nível
global. A destruição e a criação - pelo ruído -, na verdade, só dizem
respeito a uma informação de que não dispomos, cujas significações e
códigos não conhecemos, da mesma forma que o ruído - destrutivo e
criador - é aquilo que aparece, para nós, como o aleatório.
Assim, o princípio da complexidade através do ruído, ou seja, a
idéia de um ruído de efeitos positivos, é a maneira deturpada que temos
de introduzir os efeitos do sentido, a significação, numa teoria quantita-
tiva da organização.
Bem entendido, o sentido não está lá exceto de maneira negativa,
como sua sombra, em virtude de só ser teorizado através dos efeitos do
ruído, isto é, de uma negação da informação. Mas, mesmo assim, ele
existe, pois trata-se da negação de uma negação, já que as coisas se
passam como se a informação shannoniana negasse o sentido, o que é
outra maneira de dizer que ela mede aquilo que não compreendemos do
sistema.
É aí que podemos encontrar, ao que · parece, uma resposta para a
objeção que Piaget levantou contra nosso princípio do ruído organizacio-
nal. Em seu livroAdaptation vitale et psychologie de l 'intelligence [Adap-
tação vital e psicologia da inteligência),32 Piaget destacou, justificada-
mente, que os fatores de ruído não podem realmente ser um ruído para o
sistema, já que são forçosamente integrados em sua organização dinâmi -
ca, na medida em que contribuem para ela. Vimos que o princípio da
complexidade pelo ruído corresponde ao que é percebido, no observador,
em relação à informação eficaz, transmitida de um nível hierárquico para
outro no interior do sistema. Essa informação eficaz é portadora de
sentido, por veicular sua significação, no interior do sistema, sob a forma
dos efeitos que produz nele. Portanto, ela é muito diferente da informação
negativa e sem significação recebida pelo observador do sistema, que
mede sua complexidade. Como lembrou esplendidamente J.-P. Dupuy, 33
76 EITTRE O CR!STAL E A FUMAÇA

o uso das funções H e R "só é justificado pelo fato de ser impossível o


conhecim_ento total do sistema. Se ele fosse possível, não existiria para
nós nenhum ruído e, afortiori, nenhum efeito complexificador do ruído:
os eventos singulares se ajustariam ao conjunto como uma peça de
articulação de .uma máquina, de acordo com regras_imutáveis. Na verdade,
nosso conhecimento do modo de construção do sistema não é nem total
(daí H) nem nulo (daí R). E a diminuição de R pelo que nos parece ser um
ruído é o sinal de que surgiu algo novo nas regras de construção, algo novo
em relação à antiga ordem. O detalhe das condições de emergência dessas
novas regras nos escapa permanentemente: um acontecimento singular
vem perturbar a comunicação numa via do sistema e nasce um sentido;
esse novo sentido, mesclado a inúmeros outros nas demais vias, é comu-
nicado no nível englobante; as regras de ordenação dos elementos do nível
inferior que definem esse nível englobante são modificadas, fazendo
surgir um _n ovo sentido a esse nível, o qual repercute, em seguida, no nível
.inferior. Mas todos esses novos sentidos constituem significações para o
sistema, e não para nós, que não as conhecemos".
Depois de analisar os limites de nossa lógica habitual ("conjuntifi-
cadora e identitária"), C. Castoriadis34 quis designar uma nova lógica, à
qual deu o nome de "lógica dos magmas". Tratar-se-ia de "forjar uma
linguagem e 'noções· sob medida para esses objetos que são as partículas
'elementares' e o campo cósmico, a auto-organização do ser vivo, o
inconsciente ou o social histórico: uma lógica capaz de levar em conside-
ração aquilo que não é, em si mesmo, nem caos desordenado ... nem
sistema ... de 'coisas' bem recortadas e bem situadas umas ao lado das
outras" .35 Essa nova lógica manteria com nossa lógica habitual, conjun-
tificadora e identitária, ''uma relação de circularidade'', porquanto, de
qualquer modo, deveria retirar dela sua linguagem. É aí, evidentemente,
nessa articulação das duas lógicas, que reside a principal dificuldade. Uma
-via de abordagem talvez consistisse em levar em conta o fato de que nosso
discurso se aplica, simultaneamente, àquilo que conhecemos e ao que
ignoramos, sabendo que o ignoramos. Nossa análise das transferências de
significações nos sistemas hierarquizados e de suas relações com o prin-
cípio do mído organizacional nos parece proceder um pouco dessa lógica.
Em particular, a teoria dos autômatos e dos sistemas auto-organizadores
esbarra na difícil noção de "fechamento informacional" .36 A auto-orga-
nização ou "autopoiese" implica que as regras de organização sejam
internas ao sistema, que assim se afigura informacionalmente fechado
( ... muito embora seja termodinamicamente aberto!). Isso é o que C.
Castoriadis exprime vigorosamente: " O que, em primeiro lugar, caracte-
riza em termos lógicos, fenomenológicos e reais um autômato - e o ser
vivo em geral - é que ele estabelece, no mundo físico, um sistema de
divisões que só é válido para ele (e, numa série de encaixes decrescentes,
A ORGANIZAÇÃO DO SER VtVO E SUAS REPRESENTAÇÕES n.
para seus 'semelhantes'), e que, sendo apenas um dentre a infinidade
desses sistemas possíveis, é totalmente arbitrário do ponto de vista físico.
O rigor dos raciocínios contidos nos Principia mathematica não interessa
às traças da Biblioteca Nacional. A iluminação ambiental não é pertinente
para o funcionamento de um computador.( ... ) Evidentemente, é apenas
esse sistema de divisões( ... ) que permite definir, em cada caso, o que é,
para o autômato, uma informação, e o que é ruído ou absolutamente nada;
também é ele que permite definir, no interior daquilo que é informação
em geral para o autômato, a informação pertinente, o peso de uma
informação, seu valor, sua 'significação' operacional e, por fim, sua
significação pura e simples. Essas diferentes dimensões da informação
( ... )mostram, finalmente, que, no sentido que importa, o autômato nunca
pode ser pensado a. não ser de dentro, que ele constitui seu contexto de
existência e de sentido, que é seu próprio a priori: em suma, que o ser
vivo é um ser para si, como há muito tempo haviam afirmado alguns
filósofos. " 37
E, no entanto, mesmo assim, os sistemas vivos são pensados de fora!
Onde se encontra a articulação entre essa lógica, na qual eles não ''po-
dem·· ser pensados de fora, e a lógica dos biólogos e físico-químicos, que
efetivamente os pensam de fora? Parece que o princípio do ruído organi-
zacional nos permite trazer algum elemento de resposta, na medida em
que se trata de um ponto de vista explicitamente externo sobre um sistema
que sabemos ser fechado em si mesmo no que concerne a seu sentido e
sua finalidade, embora esse ponto de vista leve em conta esse saber.
Leva-o em conta ao estabelecer a articulação entre as duas lógicas no nível
do sentido suposto, mas ignorado, que é percebido - do ponto de vista
da lógica identitária - como contra-senso, como acaso. Como veremos
mais adiante, uma das conseqüências dessa articulação concerne à per-
cepção que podemos ter de nós mesmos - indivíduos ou grupo social -
como um produto do acaso.

4. SISTEMAS HUMANOS

4.1. AS CRISES E A ORGANIZAÇÃO


Vimos como o princípio da informação (complexidade) através do
ruído pode ser útil para a compreensão da lógica da organização, da
auto-organização e da integração do novo; em outras palavras, ele
constitui um princípio de organização, digamos, normal, em qualquer
sistema natural dotado de faculdades de auto-organização e de adapta-
ção pela aprendizagem não-dirigida. Por isso, a tentação de interpretar
as crises como efeitos do ruído na organização, e o eventual efeito
positivo das crises como um caso particular de aplicação desse princí-
78 EITTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

pio, parece conduzir a uma pista falsa. Os efeitos do ruído são permanen-
tes; negativos e positivos, eles fazem parte da organização do sistema,
mesmo na ausência de qualquer crise.
Na realidade, cremos que a crise corresponde, ao contrário, a um
funcionamento invertido do princípio da complexidade pelo ruído, a uma
produção de ruído pela informação. Assim, é como se os diferentes níveis
de organização não mais se compreendessem no interior de um mesmo
sistema. O que constitui informação num dado nível é percebido como
ruído em outro nível. Entendemos que não se trata simplesmente de
. destruição da informação pelo ruído, como em qualquer via, mas que se
trata, na verdade, de uma criação de ruído (para o sistema) a partir da
infomiação (para um observador, a quem se impõe então a noção de crise).
Quanto mais o nível elementar transmite informação, mais o nível geral
percebe ruído, e vice-versa. Para o observador, a quantidade de informa-
ção do sistema, ou, em outras palavras, sua complexidade, diminui em
proporção idêntica à existência de crise. Eventualmente, essa diminuição
da complexidade pode ser recuperada como aumento da redundância, o
que poderia ser uma maneira de recuperar a crise e tomar a deslanchar o
sistema a partir de um nível de redundância mais elevado, que vimos
constituir um pcitencial de auto-organização mais significativo (ver p. 45).
A redundância implica, de fato, uma multiplicidade de significações
possíveis, cujas diferenças são eliminadas do ponto de vista de uma teoria
que não leva em conta a significação. A crise resgatada .(ou evitada)
desempenharia, nesse caso, o papel de recarga de redundância ou poten-
cial de auto-organização, depois que esta última se houvesse esgotado.
Em outro texto, propusemos nesses termos uma interpretação do papel do
sono e do sonho no funcionamento de nosso aparelho cognitivo (ver
capítulo "Consciência e desejos nos sistemas auto-organizadores",
p.113).
Seja como for, o estado de crise (paroxístico ou prolongado) seria
caracterizado por um distanciamento semântico entre os diferentes níveis
de organização: não apenas as significações da informação deixam de ser
as mesmas nos diferentes níveis, como também já não há possibilidade de
codificação-decodificação de uma significação para outra. Certamente, o
estado normal - que implica, como vimos, significações diferentes -
implica, evidentemente, códigos diferentes, conforme o nível. Mas esses
códigos, forçosamente, devem ter possibilidades de comunicação, para
que o sistema exista e funcione: o código individual tem que poder
traduzir-se no código do grupo, e vice-versa. Obviamente, o princípio da
informação através do ruído se articula com a ignorância parcial desses
códigos, na qual nos encontramos, e sobretudo com a ignorância de sua.
comunicação. Mas a própria existência do sistema e seu desenvolvimento
exprimem que as transmissões de informação de um nível para outro são
A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO E SUAS REPRESENTAÇÕES 79

acompanhadas pela passagem do sentido. Como vimos anteriormente, é


utilizando um formalismo do qual o sentido está ausente que, para con-
tornar nossa ignorância, exprimimos essa passagem, essa compreensão
que o sistema tem de si mesmo, sob a forma do ruído informacional.
Quando essa passagem do sentido é interrompida na crise, exprimimos
isso, portanto, dentro desse mesmo formalismo, por uma inversão do
princípio do ruído informacional: o ruído através da informação. Na
organização social em crise, o código do indivíduo seria incompreensível
e intraduzível para o código social, e vice-versa. A variedade e a ausência
de restrições observadas no nível global seriam fontes de ruído para o
próprio sistema no nível dos indivíduos. Nesse caso, as diferenças entre
os indivíduos, em vez de constituir uma capacidade de regulação e
adaptação para o sistema, não poderiam ser outra coisa senão perturba-
ções, ou, em outras palavras, ruído, nas comunicações entre' os indivíduos
componentes do sistema. Para o observador, seria como se a informação
(complexidade) contida no sistema se transformasse em ruído, impedindo
as comunicações dentro do sistema e, assim, contribuindo apenas para
destruí-lo. 38

4.2. OS SISTEMAS HUMANOS


A crise, portanto, pode ser descrita dentro do formalismo do princípio de
complexidade através do ruído, bem como no da teoria da organização
dele decorrente, como um funcionamento invertido desse princípio. Suas.
causas situam-se no nível da transmissão do sentido da informação (sem-
pre desconhecido, ao menos parcialmente, pelo observador) de um nível
organizacional para outro.
· Mas é chegado o momento, agora, de lembrar algumas evidências
concernentes aos diferentes tipos de sistemas com que lidamos e às
condições de validade desse formalismo.
Uma primeira distinção, clássica, tem que ser feita entre os sistemas
artificiais - cuja estrutUra e funções compreendemos, porquanto nós é
que os fabricamos - e os sistemas naturais que observamos, e dos quais
temos apenas uma compreensão imperfeita, especialmente quando se trata
de sistemas hierarquicamente organizados em diversos níveis de integra-
ção. Nesse caso, além das dificuldades inerentes ao esmiuçamento das
"caixas-pretas" de cada nível de organização, é como se um equilíbrio
entre a compreensão e a ignorância só permitisse ter uma imagem deta-
lhada da organização, em determinado nível, esquecendo as passagens de
um nível para outro; e, inversamente, só permitisse ter uma imagem da
organização global esquecendo esses detalhes. Seja como for, tudo o que
dissemos concerne, evidentemente, aos sistemas naturais, e só pode ser
aplicado aos sistemas artificiais se esquecermos, em prol das necessidades
da causa._ que nós é que os fabricamos, que seus projetos de construção e
80 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

funcionamento saíram de cérebros humanos, e portanto, que sua signifi-


cação operacional é perfeitamente conhecida. (Na verdade, em alguns
casos, como os que encontramos nas técnicas de comunicação, pode ser
vantajoso desprezar esse aspecto e nos contentarmos com uma descrição
global, probabilística, que funciona como se não conhecêssemos o sentido
das mensagens transmitidas e recebidas.) Mas, no que concerne aos
sistemas naturais, não temos escolha, e é por isso que as abordagens da
termodinâmica estatística e da teoria probabilística da informação são
inevitáveis. É importante, nessas condições, extrair as conseqüências da
posição externa do observador, tal como tentamos fazer.
Mas há uma outra distinção, que é importantíssimo fazer aqui, entre
os sistemas naturais observados e os sistemas naturais humanos, onde o
observador é, ao mesmo tempo, parte ou a totalidade do sistema. Vimos
que nossa abordagem pressupõe que não conheçamos a informação que o
sistema possui a seu próprio respeito, com suas diferentes significações
possíveis. Isso equivale a dizer que, transposta para os sistemas humanos,
em particular os sociais, ela implica um ponto de vista especial, em que
. agimos como se não conhecêssemos o sentido, para nós, daquilo que nós
mesmos vivemos, quer como indivíduos organizados, quer como elemen-
tos do sistema social. Esse ponto de vista não é outra coisa senão o
postulado ou a pressuposição da objetividade, conseqüência da extensão
do método científico aos fenômenos de nossa vida. Vemos em que sentido
essa pressuposição despreza uma parcela importante, talvez essencial, da
informação de que podemos dispor. Apenas tocamos, aqui, nos limites
desse método, transposto para a análise dos fenômenos humanos; nela,
voluntariamente, e embora tenhamos uma alternativa e possamos agir de
outra maneira, desprezamos o subjetivo para considerar esses fenômenos
apenas do ponto de vista de um observador externo, que não dispusesse
de nenhuma informação do tipo da que o sistema tem sobre ele mesmo. É
como se o observador não se confundisse com a totalidade do sistema, em
se tratando do mdivíduo, ou com um de seus componentes, em se tratando
do sistema social.
Como exemplo dessas tentativas, podemos mencionar sucintamente
as aplicações das idéias mencionadas acima à organização psíquica.
Nossa teoria da auto-organização serviu, inicialmente, para analisar os
respectivos papéis da memória e dos processos de auto-organização na
constituição do psiquismo através da aprendizagem, e, em termos mais
gerais, através daquilo que Piaget denominou de .. assimilação", no
sentido biológico e psicológico. Algumas conclusões interessantes sobre
a natureza do tempo biológico e psicológico puderam ser extraídas disso
(ver, adiante, o capítulo "Sobre o tempo e a irreversibilidade", p. 132).
Em sua forma mais geral, o princípio da complexidade através do
ruído pôde fornecer uma compreensão "cibernética" da idéia freudiana,
aparentemente paradoxal, da pulsão de morte39 (Canguilhem). P9r último,
A ORGANIZAÇÃO DO SER Vivo E SUAS REPRESENTAÇÕES 81

em suas aplicações ao problema da significação numa organização hie-


rárquica, esse princípio pôde sugerir um mecanismo através do qual
aquilo que se afigura como contra-senso e ruído ao observador do nível
consciente é, na verdade, mensagens repletas de sentido a partir do nível
inconsciente (Serres40). Entretanto, é nesse ponto da abordagem psicana-
lítica que tem lugar nossa observação sobre os limites dessas tentativas; ·
de fato, o observador (dos dois níveis) é, na verdade, o resultado de uma
interação entre o psicanalista e o próprio paciente. Este é chamado sujeito
(Lacan41 ), justamente, por estar na posição gramatical daquele que fala,
isto é, que envia mensagens de seu sistema psíquico inteiro, embora esteja
aparentemente submetido à observação objetiva do psicanalista. Por isso
é que a psicanálise viu ser-lhe atribuído um estatuto absolutamente espe-
cial no tocante a sua científicidade. Embora sempre tenha almejado
diferenciar-se da magia e da religião, por seu caráter científico, ela se
diferenciou também da ciência pelo estatuto partiçular de seu objeto, que
revelou ser o sujeito! M. Foucault4 2 chamou-a, por essa razão, de anticiên-
cia (tal como a etnologia). Quanto a J. Lacan, ele tentou solucionar essa
dificuldade atribuindo um estatuto primordial às regras lingüísticas na
criação da organização psíquica. Seu primeiro exemplo, mostrando come
essas regras podem ser a base de uma realidade simbólica ''autogerada'',
parece-nos a posteriori mais uma aplicação do princípio da complexidade
através do ruído: uma série aleatória de + e de - pode dar origem a um
conjunto de símbolos que obedece a regras muito precisas, quando é
observado num nível de integração diferente, onde as unidades são feitas
de grupos de sinais (Seminário sobre a carta roubada4 1).
Como bem demonstrou C. Castoriadis, 43 o estatuto singular da
psicanálise provavelmente provém de ela partilhar com as religiões e as
ideologias o caráter de ''meta de transformação·', mais do que de ''meta
de saber", ao mesmo tempo que se diferencia delas pela tentativa de
utilização do - e de emaizamento no - método cientifico ... Por esse
ponto de vista, ela não escapa à dificuldade inerente à análise científica
de qualquer sistema hierarquizado, já assinalada por nós: a passagem do
local para o global. É essa mesma dificuldade 44 que encontramos na
impossibilidade de a teoria psicanalítica explicar o conteúdo da sublima-
ção e, de modo mais geral, o do ·princípio da realidade. A realidade é
situada como a presença do social "em torno" do indivíduo, exatamente
como o nível global é situado como as condições delimitadoras que
determinam o local. Trata-se de um "dado definido em outro lugar" . ··A
psicanálise não pode dar conta da proibição do incesto, tem ·que pressu-
pô-la como socialmente instituída ... Ela mostra como o indivíduo pode
aceder à sublimação da pulsão, mas não como pode surgir essa condição
essencial da sublimação, objeto de conversão da pulsão: nos casos essen-
ciais, esse objeto é apenas como um objeto social instituído. " 43 Por isso,
82 ENTRE O CRISTAL E A F UMAÇA

Castoriadis, autor dessas linhas, pôde retomar proveitosamente o reconhe-


cimento freudiano das insuficiências da teoria psicanalítica no que con-
cerne à sublimação.
Entretanto, a psicanálise compartilha o estatuto particular de seu
objeto com todas as disciplinas ou métodos que se pretendem mais ou
menos científicos, embora aplicados a um sistema humano. De fato,
apesar de todas as tentativas de divisão do indivíduo num corpo que seja
objeto da biologia, num psiquismo que seja objeto de uma psicologia -
experimental, analítica, comportamental ou qualquer outra - , numa
glote, num cérebro e numa língua que sejam objetos da lingüística, ou
num envoltório que o defina como elemento de uma sociedade, objeto das
ciências sociais, econômicas e etnológicas, conforme o campo de com-
portamento considerado, nem por isso o objeto deixa de continuar a ser o
sujeito.
Em outras palavras, nos sistemas humanos, o observador é não
apenas um elemento do sistema (eventualmente estendido ao sistema
inteiro), mas é também um meta-sistema que o contém, na medida em que
ele o observa. Nos sistemas sociais, portanto, as relações entre o nível
elementar e o nível global são invertidas: o conteúdo é, ao mesmo tempo,
o continente. O indivíduo está contido no sistema, do ponto de vista de
uma observação .. objetiva", isto é, se esquecermos que é ele o observa-
dor. Na verdade, sua situação de observador faz com que o código
individual seja, ao mesmo tempo, mais geral do que o código social, na
~edida em que a observação engloba o observado. Existe nisso uma fonte
de dificuldades e, ao mesmo tempo, de uma riqueza organizacional
suplementar, própria <los sistemas sociais: os indivíduos que constituem
o sistema dispõem de significações que se situam, simultaneamente, no
nível elementar (dos componentes do sistema) e no nível mais geral
possível de um meta-sistéma que engloba a sociedade (e até o universo!),
que é o do observador.

4.3. A EVITAÇÃO DA CRISE


Vimos que é possível considerar as crises da organização, a ••crise" dos
sistemas sociais ou psíquicos, como resultantes de uma interrupção da
passagem do sentido de um nível para outro, de uma divisão psicótica num
sistema cognitivo. Num sistema social, tratar-se-ia de o código indivi.dual
já não poder ser decodificado no nível da coletividade, e vice-versa. Por
esse ponto de vista, é possível imaginar um mecanismo interessante pelo
qual a ocorrência de uma crise capaz de destruir o sistema poderia ser
evitada, sem que se tratasse, no entanto, de uma verdadeira solução, isto
é, sem o restabelecimento de uma passagem do sentido entre código,
individual e coletivo, que permanecessem diferentes. Essa evitação teria
A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO E SUAS REPRESENTAÇÕES 83

como efeito, assim, manter um estado de crise latente, prolongado à custa


de uma modificação crônica da organização social, do qual as sociedades
desenvolvidas talvez nos forneçam dois tipos de exemplos extremos.
A crise pode ser evitada graças à projeção de um sentido proveniente
do código individual nos objetos da realidade social, sem que esse sentido
corresponda ao da organização social. A rigor, esse sentido nega essa
organização e a põe em perigo, na medida em que provém de significações
internas, próprias do desejo dos indivíduos. Numa terminologia freudiana,
é como se o principio do prazer (desejo individual) fosse projetado nos
objetos da realidade social, como se não se opusesse ao princípio da
realidade, imposto, entre outras coisas, pela organização da sociedade.
Tal projeção se acha na base da ilusão da chamada sociedade de consumo
- onde todos querem se convencer de que nada é tão valorizado pela
organização social quanto a satisfação do desejo individual. É essa situa-
ção de conteúdo e continente simultâneo que permite a projeção pela qual
o individuo tenta dominar uma organização social que ele já não com-
preende: ele institucionaliza seu próprio desejo, apenas até .certo ponto,
porque a organização social real se mantém e resiste, nem que seja em
virtude das oposições e contradições entre os desejos individuais.
Mas a crise também pode ser evitada por um mecanismo simétrico,
onde um código social é que se projeta no código individual. Na verdade,
o sentido continua a não passar, porque o código social só faz se impor
aos indivíduos, envolvendo-os num sistema totalitário que nega e tenta
destruir os códigos individuais. E, mais uma vez, isso só é possível, até
certo ponto, pela situação de conteúdo-continente que permite ao código
social ser mais ou menos internalizado sob a forma de uma ideologia, da
qual os indivíduos acabam por ser .. convencidos", por bem ou por mal.
Em ambos os casos, a eliminação de um código pelo outro permite
evitar a crise em sua forma aguda e manter o sistema instalado, num estado
de crise prolongada. Vimos anteriormente que esse estado implica, do
ponto de vista aqui desenvolvido, uma diminuição de complexidade à qual
pode corresponder, eventualmente, um aumento da redundância. É inte-
ressante constatar que, rios dois casos, extremos e simétricos, por nós
considerados - as chamadas sociedades de .consumo e as sociedades
totalitárias -·,observa-se um aumento da redundância sob a forma de uma
tendência à uniformização dos indivíduos naquilo a que hoje chamamos
massas. Essa uniformização é habitualmente atribuída à esmagadora
influência dos meios de comunicação de massa como meios de .. comuni-
cação" social. Mas, não será, talvez, que o desenvolvimento desses
meios, às expensas de outros modos de comunicação - internamente
mais expressivos -, foi necessário para evitar a explosão dessas socie-
dades em crise?
86 Ermu! O CluSTAL E A FUMAÇA

eia de interações moleculares específicas, mas também da maneira como


essas diferentes mterações são funcionalmente acopladas. É como se,
colocados diante de um aparelho de televisão cujo princípio de funciona-
mento não conhecêssemos, fôssemos conhecendo cada vez melhor as
propriedades dos diferentes componentes (transistores, tubos catódicos,
resistências elétricas, capacidades, auto-induções etc.). O conhecimento
e a ''compreensão'' do sistema só viriam com o conhecimento dos modos
de conexão e de acoplamento desses componentes que condicionam e
exprimem a lógica de sua organização.
Por isso, muitas vezes, a descrição lineannente causal - como na
biologia clássica, onde se procura isolar um parâmetro que é variado
enquanto os outros ficam supostamente constantes - é inadequada. Por
exemplo, a causa de uma mudança do estado da célula num dado momento
deve ser buscada no estado da célula no instante anterior, e não na
modificação de um único componente, isolado do resto do sistema.
Trata-se, pois, como na análise dos sistemas artificiais, de escrever as
equações de estado que representem as variações simultâneas das grande-
zas características, e em seguida resolvê-las, a fim de predizer a evolução
do conjunto do sistema no tempo.

2. COMPLEXIDADE MÉDIA EM BIOLOGIA:


ACOPLAMENTOS DE REAÇÕES E TRANSPORTES

Existe, em particular, toda uma classe de fenômenos em que realmente


sentimos necessidade desses métodos, porque nãó se trata de fenômenos
elementares que possamos isolar e estudar separadamente; as condições
são as melhores possíveis para começar a utilizar e a testar esses métodos,
pois ainda se trata apenas de subsistemas cuja complexidade pode ser
reduzida, com relativa facilidade, a uma complicação passível de ser
dominada (cf. supra). É o caso dos fenômenos de acoplamento entre
reações bioquímicas e processos de transporte (de matéria e de cargas
elétricas) nas membranas vivas. Alguns desses fenômenos aparecem
como sistemas de complexidade média. Assim, podem servir de etapa
intermediária entre o estudo de interações moleculares isoladas e estuda-
das in vitro e os estudos de células inteiras, por exemplo, onde a comple-
xidade já é muito elevada.
Um exemplo desses acoplamentos, dentre os mais espetaculares, é
o da respiração celular, acoplada à síntese de moléculas onde é estocada
a energia metabólica, tal como podemos observá-la nas mitocôndrias.
Estas são pequenas organelas presentes em todas as células vivas, e
cujo espaço é quase inteiramente preenchido por uma membrana redobra-
da sobre si mesma. Essa membrana, como todas as membranas vivas,
apresenta propriedades de transporte ativo, ou seja, funciona como uma
A ORGANIZAÇÃO DO SER Vivo E SUAS REPRESENTAÇÕES 87

bomba capaz de fazer com que os íons (moléculas ou átomos eletricamen-


te carregados) passem de um lado para outro, e assim, acumula energia
sob a forma de uma diferença de potencial elétrico. Além disso, as
mitocôndrias são conhecidas, há muito tempo, como a sede das reações
de oxidação que caracterizam a respiração celular. Essas oxidações, por
sua vez, são acopladas a outras reações, chamadas fosforilações, através
das quais se efetua a síntese de um composto ubíquo, o ATP (adenosina
tri-fosfórica), que constitui a forma mais adequada em que a energia
química pode ser armazenada, pronta para ser utilizada na maioria das
reações do metabolismo celular. Esse pareamento, que é designado pelo
nome de fosforilação oxidativa, leva, portanto, a que as oxidações produ-
zam a energia necessária para a síntese das moléculas de A TP. A degra-
dação posterior dessas moléculas produz, conforme as necessidades, a
energia cuja utilização é necessária à realização das diversas funções que
caracterizam uma célula viva.
O mais notável nessa história é a ligação, que só foi estabelecida
nestes últimos anos, entre a estrutura membranosa das mitocôndrias e as
reações de fosforilação oxidativa. De fato, quando se quis estabelecer o
mecanismo dessas reações acopladas, logo se evidenciou que era impos-
sível reproduzi-las experimentalmente na ausência de estruturas membra-
nosas, mesmo que todos os elementos moleculares constitutivos das
mitocôndrias estivessem presentes. No mínimo, eram necessários frag-
mentos de membranas. Sabemos, hoje em dia, que o acoplamento das
fosforilações com as oxidações precisa de uma etapa intermediária, cons-
tituída, justamente, pela acumulação de energia elétrica que resulta do
transporte ativo da membrana. o autor dessa descoberta52 teve muita
dificuldade em fazer com que ela fosse aceita, pois ela não correspondia
à idéia comumente aceita de que só é possível produzir reações específicas
por intermédio das enzimas, moléculas protéicas que se é capaz de isolar
e cuja estrutura espacial explica as propriedades enzimáticas. Aqui, todas
as tentativas de isolar a molécula responsável fracassaram, enquanto aos
poucos foi despontando a noção de acoplamento de fluxos, onde a velo-
cidade de algumas reações é regulada pela velocidade de transporte de
matéria e de cargas através das membranas, dependente, por sua vez, da
velocidade de outras reações. O responsável, aí, não é uma única molécu-
la, mas um conjunto molecular, tal como encontrado na maioria das
membranas vivas. As funções de síntese e de transporte são estreitamente
dependentes da estrutura global da membrana... cuja construção e reno-
vação, por sua vez, são reguladas, numa certa medida e numa escala de
tempo diferente, por essas funções. ·
Esse gênero de fenômenos foi encontrado, desde então, no nível dos
cloroplastos, organelas onde se efetua, nas plantas, a assimilação da
clorofila, bem como em algumas bactérias onde a membrana desempenha
88 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

um papel similar. Por fim, parece que esses acoplamentos entre transpor-
tes de íons e reações biossintéticas também existem no nível das membra-
nas citoplasmáticas que circundam as células animais. 53

3. REDES DE QUIMIODIFUSÃO, SISTEMAS DINÂMICOS


E "ORDEM PELAS OSCILAÇÕES"

Na maioria destes exemplos, trata-se de redes quimiodifusoras54 ainda


relativamente simples, porque o número de processos acoplados não
ultrapassa algumas unidades. Mas elas anunciam redes muito mais com-
plexas, como as constituídas, por exemplo, por uma célula completa, com
seu metabolismo, seus microcompartimentos e as trocas que aí se efetuam.
É dos problemas específicos levantados pela análise quantitativa
dessas redes que nos ocuparemos agora.
Veremos que alguns desses problemas podem servir de ponto de
partida para tentativas de generalização para a análise.de qualquer sistema
assemelhável a uma rede em que coisas (ou seres) circulem e sejam
transformadas.
Para abordar esse tipo de questões, existem, evidentemente, diver-
sos métodos matemáticos, dentre os quais alguns, clássicos, são utilizados
há muito tempo. 55
Em particular, nestes últimos anos, multiplicaram-se as pesquisas
sobre as condições de estabilidade dos sistemas diferenciais sob o efeito
de pequenas perturbações al~atórias. Esses trabalhos levaram a colocar
eni evidência a existência dos chamados mecanismos de ·'ordem através
das oscilações" ,56 mediante os quais alguns sistemas instáveis evoluem
para estados oscilantes no tempo, no espaço ou em ambos. Assim, foi
possível descrever quantitativamente o modo como sistemas homogêneos
(por exemplo, quimiodifusores) podem-se transformar, "espontaneamen-
te", em sistemas heterogêneos. Estes podem ser caracterizados, por
exemplo, por verdadeiras ondas de concentração em que a matéria se
distribui de acordo com funções oscilantes - e, portanto, de maneira
heterogênea - no espaço e no tempo. Esses mecanismos de "quebra da
simetria'', como os chamou Prigogine, constituem uma forma de auto-or-
ganização em sistemas determinados, nos quais, no entanto, as perturba-
ções aleatórias desempenham um papel decisivo. Esses sistemas são
determinados no sentido de que se conhece tudo a seu respeito. Entren-
tanto, a estrutura exata a que eles dão origem não pode ser prevista em
detalhes, porque consiste, a rigor, numa flutuação particular, imprevisível
- dentre um grande número de possibilidades - , amplificada e estabili-
zada pelas propriedades do sistema. Até o momento, a maioria dessas
pesquisas tem sido conduzida passo a passo, examinando as propriedades
de instabilidade de alguns sistemas de equações e investigando seu com-
A ORGANIZAÇÃO DO SER Vivo E SUAS REPRESENTAÇÕES 89

portamento graças a soluções numéricas através de computadores. As


tentativas analíticas sistemáticas, que permitem obter uma compreensão
mais geral desses processos, são objeto de pesquisas matemáticas muito
mais complicadas, tais como a teoria das bifurcações e a teoria das
catástrofes, de R. Thom (ver adiante, p. 184 ).
Seja como for, a "ordem pelas oscilações" de Prigogine deve ser
distinguida do ruído organizacional, ou da ordem pelo ruído, convertida
em complexidade pelo ruído, da qual vimos falando nas páginas prece-
dentes; precisamente, pelo fato de ela aparecer em representações deter-
ministas de sistemas dinâmicos, ao passo que o ruído organizacional é um
princípio de representação probabilística de sistemas mal conhecidos. A
indeterminação surge como conseqüência de os sistemas - deterministas
- de equações que representam o comportamento dinâmico terem, por
vezes, diversas soluções. Estas, representando evoluções para estados
diferentes, são igualmente realizáveis. A realização de uma, e não de
outra, que é decisiva por orientar todo o futuro do sistema, é indetermi-
nada e atribuída à existência de oscilações termodinâmicas. É assim, em
particular, que diferentes características de estabilidade ou instabilidade
("assintótica", quando concerne apenas ao comportamento do sistema, e
estrutural, quando se trata de sua própria estrutura) são estudadas como
respostas do sistema determinado a perturbações, supostamente pequenas
e aleatórias, nas variáveis ou nos parâmetros (respectivamente). Em
outras palavras, esses tratamentos implicam, de qualquer modo, o conhe-
cimento do sistema de equações que define de maneira determinista a
organização estrutural e dinâmica do sistema.
Um passo adiante na análise desses sistemas consiste ~m levar em
conta, estatisticamente, o tipo de oscilações com que estamos lidando.
Com efeito, existem diversos tipos de ruído,~ 7 caracterizados por diferen-
tes distribuições das probabilidades de ocorrência de diferentes oscila-
ç<>es. Conforme o tipo de ruído a que um sistema fica exposto, quando a
probabilidade de grandes ou pequenas oscilações é diferente, a probabi-
lidade de evolução para um estado, e não outro, numa bifurcação, pode
ser diferente. Assim, podemos conceber que, pelo conhecimento do tipo
de ruído com que lidamos, a evolução de um sistema dinâmico para um
de seus estados possíveis a partir de uma instabilidade possa ser ainda um
pouco menos indeterminada (H. Haken~ 8 ).
Além disso, a expressão "ordem através das oscilações" contém a
mesma ambigüidade da "ordem através do ruído" de von Foerster, que
analisamos anteriormente (ver p. 71). Por exprimir um mecanismo de
transformação de um sistema macroscopicamente homogêneo num siste-
ma macroscopicamente heterogêneo, ela constitui um processo de criação
de variedade, diversidade, entropia, ou seja, aquilo a que chamamos
complexidade, e que é medido pela função H de Shannon. Entretanto, a
90 EITTREO CRISTAL E A FUMAÇA

maioria dos processos efetivamente estudados até hoje não passa, na


verdade, de processos oscilantes (no tempo ou no espaço, ou em ambos),
que realizam a repetição regular de um mesmo motivo, dentre os quais as
células de Bénard foram o primeiro exemplo, já agora clássico. Ou seja,
trata-se de uma ordem repetitiva, muito semelhante à dos cristais, exceto,
é claro, por se tratar, nesse caso, d<! um sistema aberto, dinâmico, longe
do equilíbrio .
. Talvez ainda mais interessantes, por esse ponto de vista, e mais
próximos da · realidade dos sistemas biológicos, sejam os sistemas de
turbulências aperiódicas, que alguns denominaram - erroneamente -
de .. caos", pelo fato de evocarem esse tipo de organização extremamente
diversificada, mistura de desordem e organização, no qual pensamos,
inevitavelmente, ao observar no microscópio o fervilhamento citoplasmá-
tico de uma célula viva, ou a agitação desordenada e aperiódica, mas
organizada, de umformigueiro. 59 Essas noções foram retomadas e desen-
volvidas, recentemente, por H. Haken, na segunda edição de um livro
dedicado à auto-organização na física, na química e na biologia. 60 Nele,
este autor propõe ainda uma maneira concisa de abordar o estudo dos
sistemas hierarquizados, baseada em ordens de grandeza diferentes dos
tempos de relaxamento nos diferentes níveis de integração. Essa é uma
observação já antiga de B.C. Goodwin 61 sobre a organização temporal
das células, que Haken generalizou e sistematizou de maneira interes-
sante.
Um método de tratamento muito semelhante, no fundo, a esses
métodos clássicos de análise de sistemas dinâmicos, porém de abordagem
diferente, denominado de .. termodinâmica eni rede", foi recentemente
inventado por A. Katchalsky 62 e seus colaboradores, a quem tivemos o
privilégio de estar associado. Esse método, menos conhecido, apresenta
um certo número de vantagens, tanto no plano didático quanto no plano
conceituai, e por isso discutiremos aqui suas linhas gerais.

4. A TERMODINÂMICA EM REDE

4.1. QUESTÕES DE LINGUAGEM


Esse método utiliza a linguagem da temodinâmica dos fenômenos irrever-
síveis, e essa é sua primeira vantagem, pois essa é uma linguagem
unificada que abrange todos os domínios da física e da química, tratando-
os em termos de correntes de energia e de entropia.
Além disso, ele utiliza uma técnica de gráficos particularmente
poderosa, que lhe confere as vantagens simultâneas de. uma representação
esquemática figurada e de uma representação abstrata quantitativa.
Com efeito, um dos defeitos das representações habituais da orga-
nizaçã9 celular é que elas oscilam entre imagens muito sugestivas, mas
A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO E SUAS REPRESENTAÇÕES 9l

puramente qualitativas, e sistemas de equações que permitem uma aná\ise


quantitativa numérica, mas cuja lógica, em geral, é muito pouco evidente.
As representações qualitativas mais freqüentes são feitas de justaposi-
ções, nos manuais, de mapas metabólicos (ou de redes de setas que
representam os diferentes caminhos ou ciclos metabólicos pelos quais as
moléculas orgânicas se transformam umas nas outras) e de imagens
microscópicas, onde aparece mais ou menos claramente a estrutura espa-
cial dos microvolumes e compartimentos onde se efetuam essas reações.
Mas essas representações qualitativas não permitem, entre outras coisas,
prever como perturbações desta ou daquela reação num canto do mapa
metabólico, sobrevindas num dado lugar da célula, serão sentidas por
outras reações, indiretamente acopladas, num outro ponto do sistema
celular.
No extremo oposto, aigumas representações quantitativas que per-
mitem essas previsões, pelo menos em subsistemas menos complicados,
começam a ser utilizadas. Elas se reduzem, em geral, a sistemas de
equações diferenciais que representam a cinética de reações bioquímicas
e de transportes de reagentes e produtos dessas reações. Esses sistemas de
equações logo vão se tomando extremamente complicados, por causa do
grande número de reagentes presentes. Por isso, em geral levam apenas a
soluções numéricas computadorizadas, ou seja, a soluções passo a passo
que permitem poucas generalizações analíticas, e onde a lógica da orga-
nização e as relações entre a estrutura e o comportamento só muito
dificilmente aparecem.
Ao contrário, uma das vantagens da termodinâmica em rede pren-
de-se a sua utilização de uma representação gráfica particular, a dos
gráficos de ligação.
Como veremos, estes apresentam as vantagens de uma linguagem
intermediária, ao mesmo tempo representação qualitativa e lógica, que
nos fala através de .suas setas, e de uma linguagem numérica, já que
podemos ler neles, automaticamente, as equações que representam a
dinâmica do sistema.
Por fim, a termodinâmica em rede constitui uma síntese, extrema-
mente satisfatória no plano conceituai, de técnicas de análise de redes
atualmente utilizadas nas ciências da engenharia e de modos de análise
termodinâmica muito mais familiares aos físico-químicos. Daí seu nome,
que lhe foi atribuído por seu inventor, Aharon Katzir-Katchalsky, 63 na-
quela que foi slia última obra cfontífica: termodinâmica em rede (network
thermodynamics), porque, sob muitos aspectos, ela engloba os resultados
da termOclinâmica do desequilíbrio. De fato, ela pÜde estender a análise
termodinâmica aos fenômenos não-lineares e que ocorrem na fase não-
homogênea, e constitui, desse modo, uma generalização dos instrumentos
92 ENTRE O CRJSTALEA FUMAÇA

termoóinâmicos, mais ou menos à maneira como a termodinâmica do


não-equilíbrio foi uma generalização da termodinâmica do equilíbrio.
As técnicas de cálculo e análise de redes levaram, nas ciências da
engenharia, entre outras coisas, à realização de unidades particulares
como os retificadores elétricos, os amplificadores, os osciladores, as
unidades de cálculo e unidades lógicas, e, finalmente, os próprios compu-
tadores.
Podemos imaginar que, num futuro talvez não muito distante, o
desenvolvimento dessas técnicas na físico-química possa introduzir não
apenas retificadores químicos - que já existem - , mas também oscila-
dores químicos, amplificadores químicos etc., e, finalmente, computado-
res químicos. A idéia deles ainda está muito distante, mas podemos vê-la
desenhar-se e, independentemente de seu interesse tecnológico, que se
prende essencialmente à miniaturização, deverá tratar-se de modelos
físico-químicos de sistemas biológicos muito mais próximos do que os
modelos analógicos utilizados atualmente.

4.2. FLUXOS E ESFORÇOS


Para começar, enquanto, na termodinâmica do equilíbrio, as variáveis de
estado que caracterizam os sistemas são grandezas estáticas, tais como
concentração de matéria ou de carga, volume, calor etc., na termodinâmi-
ca do não-equilíbrio~ e também na análise das redes, as grandezas esco-
lhidas como variáveis de estado são grandezas dinâmicas, isto é, correntes
e forças. Assim, cada elemento de um sistema é caracterizado por uma
corrente ou um.fluxo que o atravessa e pela/orça conjugada responsável
por essa corrente, mais corretamente chamada esforço.
Assim, em vez de nos ocuparmos de quantidades estáticas e, secun-
dariamente, vermos como estas se modificam no tempo, ocupamo-nos
diretamente com fluxos, isto é, com taxas de variação no tempo, tais como
fluxos de matéria ou de carga, ou também de volume ou calor etc., e dos
esforços conjugados responsáveis, como as diferenças de potencial quí-
mico, ou as diferenças de potencial elétrico, ou as diferenças de pressão
ou temperatura etc.
Como podemos ver na tabela 1, cada processo energético pode ser
decomposto num fluxo de algo e no esforço responsável por ele; o produto
dos dois tem o valor de uma potência, isto é, de uma energia instantânea
que pode ser estocada, ou dissipada, ou transportada sem perda, como, na
eletricidade, o produto de uma corrente e de uma diferença de potencial.
Nesta tabela acham-se representados os diferentes tipos de fluxos e de
esforços encontrados nos diferentes campos de energia. Acrescentamos,
quanto à energia térmica (Thoma64 ), um fluxo de entropia, considerada
como uma carga térmica, conjugada a um gradiente de temperatura.
A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO E SUAS REPRESENTAÇÕES 93

TABELA 1

Campo de Corrente Força Deslocamento Impulso


energia generalizada generalizada generalizado generalizado
Elétrica Corrente l Voltagem V Carga q Fluxo ct>
Mecânica Corrente de Pressão P Volume V Impulso de
dos fluidos volume Q pressão r
Difusão Corrente de Potencial quí- Massa mi
massa ou de mico µi Número
matériaJi de moles ni
Reação Velocidade Afinidade Avanço Ç
química de. reação J, A= - I:v;µ;
Mecânica Velocidade v Força F Deslocamen- Impulsop
(translação) tox
Mecânica Velocidade Binária T Deslocamento Momento an-
(rotação) angular co angular 6 guiar
Térmica Fluxo de en- Temperatura T
tropia S

Segundo G.F. Oster, A.S. Perelson e A. Katchalsky (1973), "Netwok Thermodynamics'',


Quarterly ReviewofBiophysics, 6, 1, 1-134; eJ.U. Thoma, "BondGraphs forThermal Energy
Transpor! and En.tropy Flow" ( 1971 ), Jour. ofFra11kli11 l11stitute, 292, p. 109-20; l11troductio11
to Bond Graphs and their Applications, Nova Yorlc, Permanon, 1975.

Veremos que também se utilizam quantidades que são integrais no


tempo desses fluxos e forças, chamadas, respectivamente, deslocamentos
e impulsos, por uma generalização do deslocamento e do impulso na
mecânica.
Em cada um desses campos de energia, cada elemento de uma rede,
portanto, é sempre caracterizado por um fluxo f que o atravessa, pelo
esforço e conjugado a esse fluxo e, principalmente, por uma relação
quantitativa entre o fluxo e o esforço, que aliás, por isso mesmo, chama-
mos relação constitutiva, característica do elemento.
Existem diversos tipos de relações constitutivas possíveis e,
conforme aquele com que estamos lidando, distinguimos diferentes
classes de elementos, que são generalizações dos elementos habituais
encontrados nos circuitos elétricos RLC (de resístores, auto-indutores
e capacitares).
a) Se chamamos f a um fluxo e e ao esforço responsável por esse
fluxo, a relação constitutiva do elemento de rede pode ser, diretamente,
uma relação explícita entre e ef, da forma IJ'R (e,f) = O.
94 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

Nesse caso, o elemento é um resistor generalizado, definido, a partir


dessa relação, por R = tr ,
tal como, na eletricidade, R = ~V, que se reduz
a yda lei de Ohm, no caso de um elemento de resistência linear.
O produto e/representa a potência dissipada no resistor. Por exem-
plo, numa reação química, a potência dissipada é conhecida como sendo
igual a 'I' = AJ,, onde A é a afinidade da reação (isto é, a diferença de
energia livre entre os reagentes e os produtos da reação) e J, é a velocidade
de reação, isto é, o fluxo químico ou corrente de reação (que se produz,
não no espaço euclidiano, mas no espaço de reação).
b) Outra possibilidade é que a relação constitutiva do elemento de
rede não ligue diretamente um esforço e um fluxo, mas o esforço e a
integral do fluxo no tempo - que chamamos deslocamento.
A relação tem então a forma 'I'e ~e,q) = O, onde o deslocamento é
definido pela integral do fluxo: q :J ~ fdt + q 0 •
Nesse caso, o elemento definido por essa relação é um conden-
sador generalizado cuja capacitância é definida a partir dessa relação, por
e= ~~·como generalização de uma capacitância elétrica e=:~. que se
reduz a ~nos casos lineares.
c) Por fim, a outra possibilidade é que a relação constitutiva do
elemento não seja explícita entre o esforço e o fluxo, mas entre o fluxo e
a integral do esforço - que chamamos quantidade de movimento ou
impulso. Nesse caso, a relação tem a forma 'l'L (p,f) - O, onde o impulso
p ,;,J~ edt + p 0 •
Nesse caso, o elemento definido por essa relação é um elemento
indutivo cujo coeficiente de auto-indução é definido por L - ~·como uma
generalização do coeficiente de auto-indução na eletricidade, L = ~·que
se reduz a i nos casos lineares (<I> representa o fluxo magnético, que é
realmente a integral da força eletromotriz induzida).
De maneira muito geral, podemos mostrar que, assim como as
resistências generalizadas são elementos dissipadores (isto é, elementos
em que a energia livre é dissipada), os condensadores generalizados
definidos por esse tipo de relação são elementos de armazenagem de
energia potencial, e os auto-indutores generalizados são elementos de
armazenagem de energia cinética.
Assim, esses três tipos de elementos correspondem a três possibili-
dades de tratamento da energia (seja qual for a forma dessa energia), quer
estocada sob a forma de energia potencial ou cinética, quer dissipada.
Por fim, as fontes de esforço (SE) e de fluxo (SF) permitem repre-
sentar, nos sistemas abertos, a aplicação de forças ou correntes constantes
num ponto da rede.
A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO E SUAS REPRESENTAÇÕES 95

4.3. GRÁFICOS DE LIGAÇÃO


Por outro lado, numa rede, os elementos são interligados e a utilização de
gráficos é o método mais comumente utilizado para representar essas
interconexões, que constituem a topologia da rede. O interesse de um
gráfico prende-se não apenas ao fato de ele fornecer uma representação
pictórica, mas, principalmente, às propriedades lógicas de que ele é
dotado, que permitem uma escrita algorítmica - e portanto, automática
- das equações de estado do sistema.
Na termodinâmica em rede, o método dos bond graphs (Paynter6$),
ou gráficos de ligação, foi preferencialmente incorporado a outros tipos
de gráficos, em virtude de suas vantagens, que são, essencialmente:
- uma representação mais concisa e,
- em especial, um meio adequado de representar quantitativamente
os acoplamentos entre fenômenos que se desenrolam em espaços diferen-
tes (por exemplo, o espaço geométrico euclidiano e espaços de reações
químicas), e também em campos de energia diferentes, como de energia
elétrica, mecânica, química etc.
A figura 4(a) mostra a representação habitual de uma rede elétrica,
assim como a representação da mesma rede por um gráfico de ligação.
O gráfico da figura 4(b) é uma representação correta de uma rede
química muito simples, constituída pelas duas reações acopladas escritas
na figura.
Os v são os coeficientes estequiométricos das reações e são repre-
sentados pelos chamados elementos transdutores (ID), cujas proprieda-
des veremos um pouco mais adiante. O acoplamento consiste no fato de
a substância B participar das duas reações.
No gráfico, vemos elementos - representados simplesmente por
suas letras, C, R etc. - ligados por setas que representam ligações. Essas
setas representam, na verdade, o trajeto da energia na rede, e é por isso
que, por analogia com as ligações químicas, foram chamadas .. ligações"
(porém a analogia não vai mais longe). A principal diferença entre os
gráficos habituais e os gráficos de ligação prende-se a que, nos primeiros,
as linhas representam o trajeto daquilo que circula - quer a matéria, quer
as cargas -, tal como na rede elétrica aqui figurada, onde as linhas
representam o trajeto do fluxo, ao passo que, nos gráficos de ligação, as
linhas representam o trajeto da energia - ou, mais exatamente, da
potência-, isto é, do produto de um fluxo por um esforço.
Tud.o se passa como se cada linha do gráfico de ligação fosse a
reunião de duas linhas no gráfico linear habitual, e os elementos fossem
conectados- uns aos outros por suas trocas ·de energia, e não pelas
correntes que os atravessam.
96 ENTRE O CRJST AL E A FUMAÇA

Assim, cada ligação i é caracterizada por um fluxo ,h e por um


esforço e; - que são o fluxo através do elemento conectado por essa
ligação e o esforço que age sobre ele-, de tal modo que o produto ef; é
a potência circulante nessa ligação.

(a) R1

Rs

(b)

Cs

R,
(VA) ~ (Vs)
CA ....- TD ....___ 1 ---lo. TD.L-. O ~ Cs
y
TD(v's)
~TD("c)
~
~~R2
Cc
TD(vc)
VAA= VsB ~
VsB =vcC Cc

Figura 4

Uma vez que cada ligação representa a fusão de duas linhas na


representação habitual, resta representar o caráter em série ou em paralelo
das· conexões. Isso é feito, simplesmente, por uma notação convencional
A ORGANIZAÇÃO DO SER Vivo E SUAS REPRESENTAÇÕES 97

que diz "junção em série" ou "junção paralela" . Elas são denominadas


por O e 1 (ou p e s): uma junção O quer dizer que o elemento conectado
ao restai:ite da rede por seu intermédio é conectado em paralelo, como o
capacitor CB (Fig. 4). e uma junção 1 significa que o elemento conectado
por seu intermédio é em série, como os resistores R 1 e~·
Por último, um elemento específico, chamado transdutor, figurado
pelas letras ID, representa uma última maneirn de tratar a energia, como
generalização do transformador na eletricidade. A energia pode ser trans-
portada sem modificação quantitativa global, isto é, sem mudar de valor,
mas com uma modificação qualitativa, e é isso que se representa por um
transdutor: como a potência transportada é igual ao produto ef de um
esforço por um fluxo, quando, através de um elemento, o esforço é
multiplicado por um certo fator e o fluxo é dividido pelo mesmo fator, o
produto - logo, a potência -'- não se altera. (Isso é o que acontece num
transformador, onde a relação do número das espiras das duas bobinas
multiplica a tensão e divide a corrente.) Quando essa operação é feita,
além disso, com uma mudança de campo energético, estamos lidando
com um transdutor, de modo que não apenas o esforço e o fluxo na saída
são quantitativamente diferentes dos da entrada, como também o são
qualitativamente: pode-se tratar, por exemplo, na saída, de esforço e fluxo
mecânicos, e, na entrada, de esforço e fluxo elétricos. Mas, mesmo que
se trate de dois campos de energia diferentes e de valores dift<rentes dos
esforços e dos fluxos, os produtos na entrada e na saída são iguais: o
transdutor, portanto, transporta a potência sem perda, transforinando uma
energia numa outra.
Nesses gráficos de ligação, damos aos elementos conectados por
uma única ligação o nome de uniportos, sendo o porto a parte simbólica
do elemento por onde a energia entra ou sai. Os que são conectados por
diversas ligações, como, por exemplo, as junções O e 1 e os transdutores,
são chamados multiportos. 1
Na Fig. 5, esquematizamos como funcionam esses multiportos, ou
seja, que relações eles representam, e portanto, como são algoritmicamen-
te utilizados na escrita das equações da rede.
No que concerne aos transdutores, como acabamos de ver, sendo
cada ligação caracterizada por um esforço e um fluxo, o vetor esforço e
fluxo na saída (e2 , /2) é igual ao vetor e fluxo na entrada, multiplicado por
uma matriz de transferência, de modo que o esforço na entrada é multi-
plicado por um fator r (v, no caso das reações quimicas) e o fluxo na
entrada é multiplicado por 1/r, de sorte que os produtos e 1/ 1 permanecem
iguais.
No que concerne às junções Oe 1, estamos diante de algo muito mais
fundamental, que é uma das inovações dÕS gráficos de ligação.
Foi possível mostrar que essas junções são, na verdade, maneiras
(r)~
TD f2

E e, .•
f, =f2 =...=Í;. .. = f.

Figura 5

cômodas de escrever as duas leis de Kirchhoff, muito conhecidas na


eletricidade. Trata-se, por um lado, da lei dos nós ou lei das correntes, que
reza que num nó da rede, a cada instante, as cargas se conservam de tal
maneira que a soma algébrica das correntes é nula: a soma das correntes
que entram num nó é igual à soma das correntes que saem dele; por outro
lado, trata-se da lei das malhas ou lei das voltagens, que diz que numa
malha, a cada instante, a soma das diferenças de potencial é nula. A rigor,
essas leis são muito gerais e sua validade não se restringe, de maneira
alguma, aos fenômenos elétricos. Com efeito, a lei das correntes exprime
simplesmente a conservação daquilo que circula. A matéria, as cargas que
circulam, não desaparecem nem são criadas. E, todas as vezes que pode-
mos admitir tal conservação, a lei das correntes é válida. Quanto à lei das
voltagens, ela exprime algo um pouco mais sutil, que é a unidade de
potencial. Isso significa que podemos atribuir a cada ponto do espaço, a
cada instante, um valor único do potencial, de modo que uma diferença
entre dois potenciais será um esforço responsável por uma corrente
durante esse instante.
Na medida em que admitimos que os esforços e fluxos variam no
tempo, os potenciais evidentemente variam, mas admite-se que é sempre
possível definir intervalos de tempo tão pequenos que o potencial em cada
ponto pode ser considerado constante.
De fato, essa hipótese é apenas mais uma maneira de exprimir o que
se conhece em termodinânúca como a hipótese do equilíbrio local: embo-
A ORGANIZAÇÃO DO SER Vivo E SUAS REPRESENTAÇÕES 99

ra tratemos de sistemas que não estão em equilíbrio, e que nem sequer se


encontram num estado estacionário de não-equilíbrio, isto é, embora o
valor dos esforços e fluxos possa mudar o tempo todo e de um lugar para
outro, cada volume elementar, durante um pequeno intetvalo de tempo -
e é isso que designamos por ..um ponto num instante" - está suposta-
mente em equilíbrio. Essa é uma hipótese geralmente feita na termodinâ-
mica dos fenômenos irreversíveis. Sua significação física consiste em que
é possível reticular uma rede de tal maneira que possamos considerar
elementos de volume suficientemente pequeno para que seus tempos
de relaxamento internos sejam muito mais curtos que os do sistema
inteiro, de tal sorte que eles possam atingir repetidamente seu equilí-
brio local muito mais depressa do que a totalidade do sistema. (Por
outro lado, esses elementos de volume devem ser suficientemente
grandes para que as oscilações microscópicas sejam consideradas des-
prezíveis.)
É evidente que isso nem sempre acontece e, em processos muito
rápidos, como as explosões, por exemplo, não podemos, ein princípio,
admitir essa hipótese, do mesmo modo que, na eletricidade, as altíssµnas
freqüências introduzem problemas particulares no nível dos condutores,
desprezados nas baixas freqüências. Também aí, pela mesma raião, o
tempo necessário para que a corrente seja conduzida por um cabo é longo
demais para que a rede possa seguir ..instantaneamente .. as mudanças de
alta freqüência; em outras palavras, os tempos de relaxamento nos con-
dutores são da mesma ordem de grandeza dos da totalidade da rede. Não
há equilíbrio local. Mas sabemos que, nesses casos, pode-se utilizar a
teoria das linhas, onde os próprios cabos condutores são considerados
como redes reticuladas em elementos infinitamente pequenos, e, em
princípio, a mesma abordagem poderia ser igualmente utilizada nas redes
não-elétricas.
Mas não entraremos agora na discussão desse ponto, que poderia
dar margem a desenvolvimentos por certo muito interessantes. Voltando
às leis de Kirchhoff, vemos que sua generalidade é bastante grande, já que
se trata de uma lei de conservação, por um lado, e de uma lei da unidade
de potencial equivalente à hipótese do equilíbrio local, por outro. Dito de
outra maneira, essas leis de modo algum se restringem aos fenômenos
elétricos e, evidentemente, tampouco se restringem ao caráter linear ou
não-linear, a coeficientes constantes ou variáveis no tempo, dos elementos
da rede: essas leis são válidas, sejam quais forem as relações constitutivas
dos elementos da rede.
Uma das propriedades mais notáveis dos gráficos de ligação é que
as duas leis de Kirchhoff podem ser automaticamente escritas a partir da
representação das junções O e 1 (ver Fig. 5).
100 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

A junção O, ou junção em paralelo, permite escrever a lei das


correntes como um nó nos gráficos habituais: a soma algébrica dos fluxos
nas ligações que entram ou saem de uma junção O é nula, o que se escreve
J:.f; =o.
Mas a \lnidade de potencial (ou seja, a outra lei) também se exprime,
numa junção em paralelo, pelo fato de que os esforços nas ligações
conectadas por uma junção O são iguais, assim como a diferença de
potencial nas extremidades de diversos elementos conectados em paralelo
éa mesma.
No tocante à junção 1, ou junção em série, ocorre o inverso: como
na lei das malhas, a soma dos esforços é igual a zero e a corrente que
atravessa diversos elementos em série é-a mesma. ·
Assim, essa representação das conexões pelos elementos multipor-
to s particulares que são as junções permite escrever as duas leis de
Kirchhoff como na figura 5: em torno de uma junção O, todos os esforços
são iguais e a soma dos fluxos é nula; em torno de uma junção 1, todos os
fluxos são iguais e a soma dos esforços é nula.
Utilizando esse formalismo, podemos representar não apenas siste-
m as mecânicos ou eletromecânicos, mas também reações químicas e
fenômenos de transporte. Assim, podemos generalizá-lo para qualquer
fenômeno complicado descrito por transformações (que generalizam as
reações químicas) e transportes.
Existe um programa de computador66 que permite ler um gráfico de
ligação e escrever algorítmicamente as equações de estado do sistema.
Esse programa já está completo e operacional no que concerne a sistemas
lineares de coeficientes constantes. Sua extensão a sistemâs não-lineares
acaba de ser realizada.67

4.4. TERMODINÂMICA E SIMULAÇÃO ANALÓGICA


É importante sublinhar que esse método não equivale a construir modelos
analógicos, como mostra o exemplo dos condensadores químicos.
De fato, numa mistura de substâncias, cada tipo de molécula se
caracteriza por um potencial químico µ - que exprime a energia livre
química por mole - , e esse potencial químico é ligado à concentração
e = " (sendo no número de moles e v o volume) pela relação.68
V
µ = µ 0 + RT Lnc
É fácil perceber que essa relação é uma relação capacitiva do tipo
'!' c (e, q) = O. ·
Na verdade, nessa mistura químiéa, uma variação~; da quantidade
dessa substância representa um fluxo (pode tratar-se de uma corrente de
difusão, se essa variação se dever a um transporte de matéria, ou de uma
A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO E SUAS REPRESENTi.ÇOES 101

corrente química, se ela se dever a uma transformação por uma reação


química).
O esforço responsável por esse fluxo é sempre uma diferença de
potencial químico: ou uma diferença de potencial de uma mesma substãn-
cia, responsável pela difusão dessa substância, ou uma diferença de
potencial de substâncias diferentes, passíveis de reagir quimkamente, que
representa a afinidade da reação e é responsável pela própria reação.
Sempre podemos dar um jeito de escolher um potencial de referên-
cia em relação ao qual os outros sejam medidos, e, se ele for colocado em
zero, os demais potenciais se tomarão diferenças, de modo queµ , nessa
relação, representará um esforço e. Se :J; representa um fluxo, n é a inte-
gral desse fluxo, ou seja, um deslocamento q.
Essa relação, portanto, é realmente da forma capacitiva, já que liga
um esforço µ a um deslocamento n.
E a capacidade de um condensador químico, portanto, pode grafar-se:
ôc c
C= - = -
ôµ RT
Percebe-se, de passagem, como essa capacidade depende da con-
centração: ao contrário do que acontece num capacitor linear (elétrico por
exemplo, ou outro), a capacidade não é constante.
De qualquer modo, o condensador químico assim representado não
é um circuito elétrico que represente propriedades químicas analogica-
mente: é uma maneira de escrever uma relação da termodinâmica química,
diretamente, num formalismo generalizado para a totalidade dos fenôme-
nos físico-químicos.

4.5. GENERALIZAÇÃO PARA OUTROS CAMPOS


Uma questão importante, evidentemente, é saber em que medida esse
formalismo pode ser estendido a outros campos - por exemplo, sociais,
econômicos ou psíquicos - onde seja possível definir correntes e forças.
A única limitação séria reside na necessidade de leis de conserva-
ção, do tipo conservação da massa e da energia, que permitam escrever
as leis de Kirchiloff. Entretanto, talvez seja possível dar um passo à frente,
graças à definição da quase-potência como grandeza conservadora em
sistemas nos quais a noção de energia física não é diretamente aplicável.
Voltaremos a isso a propósito do teorema de Tellegen.

4 .6. APLICAÇÕES À ANÁLISE DE SISTEMAS BIOLÓGICOS


Entrementes, é possível nos interrogarmos sobre as condições de validade
do método, aplicado aos sistemas biológicos.
102 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

Dois tipos de situações muito diferentes podem ser encontrados:


- sistemas parciais, artificialmente recortados no tempo e no espa-
ço pelas condições experimentais: o método se aplica sem problemas
especiais;
- sistemas globalmente observados (tais como um organismo,
mesmo unicelular, durante a diferenciação), em condições de evolução
não controladas pela experimentação.
4.6.1. Exemplos de sistemas parciais. Um primeiro exemplo de aplicação
a um sistema muito conhecido experimentalmente é o das oscilações de
relaxamento, que podemos observar através de uma membrana carregada
que separa dois compartimentos contendo uma solução salina em dife-
rentes concentrações, quando fazemos com que ela seja atravessada por
uma corrente contínua constante. A corrente de difusão do sal é pareada
com a eletro-osmose, e é possível observar oscilações de pressão nos
compartimentos e de resistência elétrica na membrana. Um gráfico de
ligação desse sistema permitiu calcular essas oscilações, e a concordân-
cia com as oscilações observadas foi inteiramente satisfatória. 69
Um segundo exemplo é o da conversão de energia química em calor
por um certo tipo de células dos tecidos adiposos de mamíferos jovens,
especializadas na regulação térmica. Trata-se de um grande número de
reações pareadas entre si e com transportes de íons e uma produção de
calor. A fonte de energia é o ATP, cuja hidrólise produz o calor. A
termogênese depende, portanto, da síntese do ATP. Mas a hidrólise do
A TP também serve de fonte de energia para o transporte ativo de íons Na..
e K• através da membrana celular. Tal transporte compensa as fugas
passivas desses fons através da membrana e, assim, mantém em estado
estacionário as diferenças de concentração iônicas entre o interior e o
exterior da célula. Por isso, uma modificação da permeabilidade da
membrana a esses íons acarreta uma modificação das fugas e do trabalho
da bomba, conseqüentemente. Assim, as variações de resistências da
membrana e das correntes iônicas através da membrana podem acarretar
modificações da termogênese. Estamos, pois, diante de uma rede de
reações pareadas com numerosos circuitos de retroação, que se produzem,
além disso, em três campos energéticos: químico, elétrico e térmico. A
termodiiiâmica em rede e os gráficos de ligação foram utilizados por J.
Horowitz e R. Plant70 para dar conta deles quantitativamente. Estes
mesmos autores, mais recentemente, aplicaram o mesmo formalismo à
representação do funcionamento das mitocôndrias, que descrevemos su-
cintamente num trecho anterior,71 bem como ao da famosa "bomba" de
sódio e potássio, pela qual explicamos um bom número de propriedades
de transporte ativo nas membranas celulares.
Nós mesmos trabalhamos num fenômeno de pareamento muito
A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO E SUAS REPRESENTAÇÕES 103

próximo, entre o transporte de potássio através de uma membrana celular ·


e reações de síntese protéica no interior da célula. Também nesse caso, o
pareamento parece fazer íntervir, com grande sensibilidade, variações nas
taxas de produção e degradação do ATP. 72
Esses são exemplos de regulação de funções celulares através das
variações de correntes de transporte ou de reações, eventualmente amplia-
das por seu pareamento com outras reações na rede celular. Suas proprie-
dades são novas, comparadas àquelas a que a biologia molecular nos havia
acostumado, onde a regulação é efetuada, antes, segundo a modalidade
do tudo ou nada, através da existência ou ausência de receptores molecu-
lares específicos, e onde o sinal se constitui, portanto, pela presença de
uma molécula de estrutura espacial bem determinada. Aqui, ao contrário,
o sinal é constituído pela modulação de uma corrente na entrada de uma
rede.
Mais recentemente, J. Schnakenberg73 propôs estender essa forma-
lização à totalidade da cinética enzimática. Por último, essa técnica
começa a ser aplicada à modelagem de fluxos pareados através das
membranas fisiológicas.74 Parece-me, pois, que podemos prever uma
multiplicação relativamente rápida das aplicações da termodinâmica em
rede a problemas biológicos de média complexidade, onde se faz sentir
uma necessidade de modelagem. 75
4.6.2. Sistemas observados em sua totalidade: novos problemas de
controle e regulação. Dois exemplos nos servirão para assinalar novos
problemas levantados para a análise de sistemas pela observação de
sistemas naturais complexos, como organismos vivos em sua totalidade.
Um deles está ligado aos mecanismos de controle e regulação, e o outro,
às redes de estrutura variável. Habitualmente, o controle e a regulação
são garantidos por sinais que modulam parâmetros da rede; por exemplo,
uma válvula num circuito hidráulico ou um interruptor regulado por um
termostato num circuito elétrico. A característica desses mecanismos é
que, em geral, eles consomem apenas uma energia mínima, comparada
à que é empregada na rede em conseqüência de sua ação. Daí o hábito
de separar, na representação das redes, os circuitos de informação, por
onde passam os sinais, dos circuitos de energia. Na formalização dos
gráficos de ligação, os circuitos de informação também são separados e
representados, por exemplo, por setas pontilhadas, que denominamos .de
ligações ativadas. Sua significação é a transmissão de um sinal, quer sob
a forma de um esforço, quer sob a de um fluxo, mas não dos dois, de
modo que nenhum transporte energético seja implicado. Esse sinal age
sobre um elemento como um resistor, um transdutor etc., para modular
um parâmetro característico, que se toma uma função do esforço ou do
fluxo em questão.
Assim é que, numa reação química elementar, a transformação de
reagentes em produtos no nível intermediário do complexo ativado pode
104 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

ser representada pela transmissão de um sinal por uma ligação ativacUi. 76


O valor da corrente de reação é transmitido do campo dos reagentes para
o dos produtos, sem que essa transmissão seja acompanhada por conver-
são ou transporte de energia. Da mesma forma, uma reação enzimática
ou de catálise pode ser representada pela modulação da resistência quí-
mica pela qual a corrente (ou velocidade) de reação pode ser modificada
em afinidade química constante. Também nesse caso, a atividade da
enzima nada tem a ver com a energia da reação. Essa atividade depende
da concentração de enzimas, mas principalmente do estado de conforma-
ção da proteína que constitui a enzima. Vez por outra, podemos agir sobre
esse estado, e portanto, sobre a atividade, fazendo variar a concentração
em certos íons, por exemplo, que então aparece como um variável de
controle da reação que age, de fora da rede, sobre a rede constituída pela
própria reação. 77 Também representamos o efeito dessa concentração de
fons por uma seta pontilhada, que indica como a resistência deverá ser
modificada em função dessa concentração. A separação entre corrente de
energia e corrente de informação é evidente: o sinal age modificando o
estado de configuração de uma macromolécula - a enzima-, e trata-se,
ev identemente, de uma modificação da entropia de configuração, que
nada tem a ver com as variações da energia química que ocorrem durante
a reação.
Até aí, a situação é bastante clara e as redes químicas e físico-quí-
tnica faz.em surgir mecanismos de controle e regulação que nada têm de
fundainentalmente diferente dos que observamos nas outras redes artificiais.
Mas a situação já fica um pouco mais complicada quando compreen-
demos que as resistências e as capacidades químicas quase nunca são
lineares - a não ser em situações absolutamente particulares-, uma vez
que, como vimos, elas são sempre uma função das concentrações das
substãncias que participam da reação, e que mudam, evidentemente, em
conseqüência da reação.
Essas não-linearidades e essa dependência das concentrações obvia-
mente complicam a análise, mas sem que as dificuldades sejani insuperá-
veis, se recorrermos aos métodos de resolução numérica por computador.
Inversamente, porém, as não-linearidades são ricas de possibilidades
imediatas de auto-regulação, já que as retroações são prontamente reali-
zadas. Por outro lado, nesse tipo de controle e regulação de reações por
intermédio de mudanças de concentração, estas, por sua vez, são resulta-
dos de reações - ou da mesma, ou de outras reações pareadas. Não se
afirma, portanto, que a separação entre correntes de informação e corren-
tes de energia continue tão nítida assim, quando consideramos, não uma
única reação enzimática isolada, mas um sistema biológico global onde a
própria atividade enzimática é resultado dos produtos das reações. Bssa
seria outra maneira de resgatar uma previsão de Brillouin, segundo a qual,
A ORGANIZAÇÃO DO SER Vivo E SUAS REPRESENTAÇÕES 105

a partir do momento em que enormes quantidades de informação são


transmitidas, o fator 10- 16 já não é suficiente para tomá-las desprezíveis
como unidades de energia, sendo sua hipótese, assim, a de que essa
situação poderia perfeitamente ser encontrada na biologia.78
4.6.3. Redes de estrutura variável. O segundo exemplo de problemas
suscitados por sistemas observados em sua totalidade é o das redes de
estrutura variável. 79 Até então, as técnicas de análise das redes artificiais
tinham evoluído das redes lineares para as redes de coeficientes variá-
veis, e fmalmente, para as redes não-lineares.
Mas realmente parece que, se quisermos explicar as propriedades
de desenvolvimento, evolução e adaptação dos organismos, leremos que
transpor mais uma etapa, considerando redes de estrutura variável. Em
outras palavras, a topologia, ou seja, as conexões da rede, tem que ser
levada a se modificar como resultado do funcionamento dessa mesma
rede, e a análise deve permitir prever essas mudanças. Assim, na evolução
de um estado para outro, a própria topologia deixa de ser fixa e faz parte
das variáveis de estado. Essa é uma observação banal no que concerne a
uma célula em processo de modificação ou a um organismo em processo
de constituição, mas, em geral, não é percebida nas redes artificiais, cujo
hardware é fixo - ou modificado de fora pelos homens, tratando-se então
de uma nova rede-, e não modificado como conseqüência do funciona-
mento da própria rede.
Por isso é que as técnicas habituais de análise das redes não se têm
ocupado dessa questão até o momento. Mas o problema está colocado, e
existem alguns elementos bastante díspares, por enquanto, que talvez
possam permitir abordá-lo.
4.6.4. Quase-potência e teorema de Tellegen. Uma primeira providência
consiste em buscar teoremas de invariância. Um curioso teorema, dev.i do
a Tellegen, surgiu recentemente como um primeiro teorema de invariân-
cia no que seria uma teoria das redes de estrutura variável.
Trata-se de um teorema bastante conhecido, muito empregado na
análise das redes,80 que afirma, grosso modo, que quando a rede é fechada,
a soma dos produtos dos fluxos f em cada ramo pelas diferenças de
potencial e entre as duas extremidades do ramo correspondente é nula a
cada instante:
r. ef =O
O interesse desse teorema está em que, sob essa forma de conserva-
ção da potência, ele representa apenas um caso particular. Sua forma geral
é a de um teorema de conservação de uma quantidade abstrata, chamada
..quase-potência", onde e em cada ramo não é necessariamente uma
diferença de potencial conjugada com o fluxo, mas pode ser substituída
ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

pda diferença entre dois valores numéricos quaisquer, atribuídos, a cada


instante, aos nós, extremidades do ramo.
Sob essa forma, pode-se demonstrar isso facilmente, considerando
um ramo AB de uma rede, percorrido por um fluxo/* (não forçosamente
elétrico) qualquer (Fig. 6).
Basta que o que circula na rede obedeça a uma lei de conservação
para que a lei de Kirchhoff sobre as correntes possa ser aplicada a cada
nó, ou seja:
Ef(A) =o,
soma das correntes em torno do nó A, e
E/(B) = O,
em torno do nó B.

f*

Pa B

Figura 6

Se atribuirmos a A e B, respectivamente, num instante qualquer, um


valor numérico qualquer PA e P8 , nada impede que escrevamos:
P AEJ(A> =O e P8 Ef(8 >=O,
ou então:
PAEJ(Al + P 8 E/(BJ = O.
Esta última adição pode ser reescrita de outra maneira, constando-se
que f* está presente duas vezes, uma vez com sinal menos, como fluxo
que sai de A, e uma vez com sinal mais, como fluxo que entra em B. Visto
que a rede é supostamente fechada, isso se aplica a todas as correntes de
ramo/*. Assim, podemos rearrumar a última soma, agrupando dois a dois
os termos que contêm a mesma corrente com sinais opostos, e temos:
E (PA - P 8 )/* = O = L.ef,
onde e, como diferença de potencial conjugada a um fluxo/, representa
apenas o caso particular trivial de conservação da potência.
A ORGANIZAÇÃO DO SER VIVO E SUAS REPRESENTAÇÕES 107

Esse teorema tem grande generalidade e é muito utilizado no estudo


das redes não-lineares, pois depende apenas das leis de Kirchhoff instan-
tâneas, e não depende em absoluto das características dos componentes.
Sob essa forma de quase-potência, podemos aplicá-lo às redes de
reações químicas e de difusão, dividindo o espaço em caixas onde se
efetuam as reações e considerando a difusão de uma caixa para outra. O
teorema é então escrito considerando como fluxo/as correntes de difusão
J 0 de uma caixa para outra. Escolhem-se então como "potenciais" os
valores das correntes de reações químicas JR a cada instante e em cada
caixa, de modo que as diferenças de velocidades de reação Li JR desem-
penham o papel das diferenças de potencial e conjugadas com as correntes
de difusão. 81 O teorema, sob essa forma de quase-potência, escreve-se
então:
EJD Li JR K o
Entretanto, julgava-se que, como as leis de Kirchhoff, o teorema de
Tellegen dependia da estrutura da rede. Na verdade, foi possível mostrar
que sua validade também se estende a redes de topologia variável, e isso
é um resultado direto dos gráficos de ligação. Com efeito, quando expri-
mimos esse teorema num gráfico de ligação, podemos demonstrar que ele
continua válido quando as junções O e 1 são modificadas. Em outras
palavras, essa quantidade ef, chamada quase-potência, conserva-se não
apenas quando os elementos são variáveis e não-lineares, mas até mesmo
quando as próprias conexões entre esses elementos são variáveis. 82
Trata-se realmente, portanto, de um teorema de invariância em redes
de topologia variável, e que representa algo além da simples conservação
da energia.

III. RUMO A REPRESENTAÇÕES SEMIDETERMINISTAS:


REDES DE ARMAZENAGEM E COMPLEXIDADE PELO RUÍDO

Paralelamente à busca de teoremas de invariância, e de maneira mais


geral, outra providência consiste em nos indagarmos em que condição as
duas abordagens de que falamos, uma probabilística, utilizando a teoria
da informação, e outra determinista, utilizando a teoria dos sistemas
dinâmicos, poderiam se completar. É possível que encontremos uma fonte
de inspiração nesse campo nos recentes trabalhos sobre os autômatos
estocásticos83 e sobre a estabilidade de sistemas cuja estrutura é parcial-
mente indeterminada e aleatória. 84
O sistema é definido por suas equações de estado, escritas em sua
forma vetorial habitual,
[X] - A [X],
108 ENTRE O CR.ISTAL E A fUMAÇA

onde a matriz A representa a estrutura dinâmica e as conexões. Em vez


de seus elementos aij serem éonstantes (sistemas lineares) ou funções
(sistemas não-lineares), eles são considerados como variáveis aleatórias
que só se definem globalmente por distribuições de probabilidades. Em
particular, a conectividade é definida pela probabilidade de que aij O *
(para i * /). isto é, pela freqüência dos coeficientes de pareamento
diferentes de zero entre duas variáveis de estado X; e xt Nessas condições,
esses autores estudaram a estabilidade do sistema, assmtótica e estrutural.
Evidentemente, ela mesma só pode ser defmida com uma probabilidade:
um sistema tem uma probabilidade maior ou menor de ser estável confor-
me a distribuição de probabilidades de seus coeficientes aij' Já foram
obtidos interessantes resultados acerca das relações entre a estabilidade e
a conectividade ou complicação.
Uma transposição dessa abordagem para a termodinâmica em rede
consistiria em sortear os valores dos elementos constitutivos, e também a
conectividade, isto é, a topologia da rede.
Entrementes, os resultados do princípio de complexidade através do
ruído, anteriormente expostos, podem ser utilizados da seguinte maneira:
Gardner e Ashby, e posteriormente, May, puderam mostrar que o aumento
da conectividade de u:n sistema (definido de maneira probabilística)
diminui sua probabilidade de estabilidade assintótica. Embora um sistema
assintoticamente instável possa manter-se num estado estacionário osci-
lante (ciclo limite), J.-P. Dupuy deduziu disso que sua probabilidade de
estabilidade estrutural também deve diminuir, por sua vez, com a conec-
tividade. Trata-se de um resultado aparentemente paradoxal, que ganha
sentido quando nos damos conta de que uma grande conectividade - que
representa uma espécie de redundância - implica uma grande rigidez, e
portanto, uma probabilidade menor de encontrar condições favoráveis
para a estabilidade. Ao contrário, um sistema mais flexível poderá, graças
a essa flexibilidade, conservar sua estrutura, a despeito das deformações
provocadas por condições aleatórias. (Dois exemplos extremos dessas
situações talvez possam ser encontrados nos cristais, por um lado, e nas
macromoléculas, por outro. Os primeiros só conservam sua estabilidade
em condições muito precisas de temperatura e solubilidade. Estas últimas,
ao contrário, reagem ·a múltiplas mudanças de condições através de
mudanças de conformação em que sua estrutura macromolecular global é
conservada.) .
Suponhamos, portanto, um sistema em que a coneetividade seja
grande, e portanto, com uma .baixa probabilidade a priori de estabilidade,
mas cuja estrutura particular o torne, ainda assim, estável em si. Os fatores
de ruído (se não o destruírem de imediato, como faz a temperatura com o
cristal) aumentarão sua complexidade, diminuindo sua redundância. O
resultado disso deverá ser um aumento de sua probabilidade a priori de
A ORGANIZAÇÃO DO SER Vivo E SUAS REPRESENTAÇÕES 109

estabilidade. Assim, sob o efeito conjunto da relação redundância-estabi-


lidade improvável e do princípio de complexidade pelo ruído, alguns
sistemas redundantes e estáveis podem ter uma evolução notável. Sendo
estáveis, apesar de redundantes, sua estabilidade é resultado de condições
excepcionais. Graças a sua redundância, como potencial de auto-organi-
zação, eles passam a poder reagir ao ruído aumentando sua complexidade.
Ao mesmo tempo, sua estabilidade torna-se cada vez menos excepcional,
já que sua redundância diminui. Eles se aproximam, assim, do estado de
probabilidade máxima, e portanto, da entropia máxima. Esse processo, a
rigor, não é diferente da evolução de um sistema vivo para a morte, por
intermédio de uma crescente co111plexificação.
Existe nisso, afinal, apenas algo muito coerente, já que a entropia
máxima equivale à complexidade máxima, como indica a identidade de
sinal das fórmulas de Boltzmann e Shannon.8s A diferença entre a com-
plexidade viva e a entropia morta de um punhado de moléculas provém
apenas do caráter funcional da primeira, aos olhos do observador de um
indivíduo vivo. Este é imediatamente tido como organizado, quando é
percebido em funcionamento. Por isso é que sua entropia, como falta de
informação a respeito dessa suposta organização, é percebida como uma
complexidade funcional. Ao contrário, no punhado de moléculas prove-
nientes do cadáver em decomposição, não percebemos de imediato ne-
nhuma organização. Por isso é que sua entropia não nos parece uma falta
de informação sobre uma organização que não supomos nele.- Se, por
alguma razão, ·quiséssemos reproduzir esse punhado desordenado tal
como é, em todos os seus detalhes moleculares, aí sim, ele novamente nos
pareceria ser de máxima complexidade.
De qualquer modo, embora essa abordagem esteja apenas em seus
primórdios, ela parece promissora, por estar particularmente adaptada a
nossa situação real de observadores de sistemas naturais. Sabemos que
não os conhecemos o suficiente para que descrições estritamente deter-
ministas os expliquem em todos os seus aspectos, em especial os que estão
ligados a sua organização em níveis hierarquizados e, mais genericamen-
te, a seu "fechamento informaciona1"; 86 mas, ao mesmo tempo, sabemos
o bastante sobre alguns processos que eles sediam para tentar, ao menos
em termos locais, descrições deterministas. Por isso é que uma eventual
síntese de uma teoria determinista, do gênero da termodinâmica em rede,
com uma teoria probabilística da organização, do tipo da que expusemos
anteriormente, deveria ser frutífera na análise desses sistemas auto-orga-
nizadores, onde algo - mas não tudo - nos é conhecido de suas
estruturas e funções.
SEGUNDA PARTE

A ALMA, 0 TEMPO, 0 MUNDO

"Evidência da coisa, fumaça (de sinalização?),


testemunhas fiéis (da ordem ubíqua): o mundo,
o ano, a alma do corpo.( ...)"

"O dragão reina no mundo como um rei em seu


trono. A roda reina sobre o ano como um rei
sobre o Estado. O coração reina sobre o corpo
como um rei em guerra." Sefer Yetsira, cap. 6.

" ... Não existe rei sem povo." Rabeinou


Be 'hayié sobre o Gênesis, XXXVill, 30.
5

CONSCIÊNCIA E DESEJOS
NOS SISTEMAS AUTO-ÜRGANIZADORES 1
Já se vão muitos anos, a morte do homem foi anunciada. As tentativas
lúcidas e brilhantes que analisam seu processo desencadeiam, muitas
vezes, um horror santo, na medida em que exprimem, ao mesmo tempo
que fundam, o fim dos humanismos. Talvez seja interessante, nesse
contexto, tentar esclarecer o que resta depois que o homem desaparece,
utilizando, para isso, alguns conceitos provenientes da lógica dos sistemas
auto-organizadores.
Na verdade, foi o Homem, como sistema fechado, que desapareceu;
sistemas cibernéticos abenos, auto-organizadores, são candidatos a sua
sucessão.
O homem, cujo desaparecimento Michel Foucault anunciou, é de
fato a imagem de um sistema fechado, que dominou o século XIX e a
primeira parte do século XX, detentor único da razão onipotente para
explicar o resto do mundo. O fato de a existência desse homem e o
funcionamento de sua razão serem partes integrantes desse mundo certa-
mente era reconhecido, mas como um subfenômeno do qual se esperava
que apenas os biólogos e os neurofisiologistas se ocupassem; entenden-
do-se, naturalmente, que ao fazê-lo, eles não tocavam na essência do
homem, resíduo por definição inacessível e irredutível, responsável, em
contrapartida, por todas as manifestações, fosse de espontaneidade impre-
visível e criadora, fosse de racionalidade ou de ordem. O serviço e a
realização do homem, entidade abstrata postulada na origem e no fim de
todas as coisas, eram apresentados como o programa evidente, dado que
a religião já não podia sobreviver à morte de Deus, morte esta anunciada
e viviilll por um número cada vez maior de indivíduos no Ocidente cristão:
Hoje em dia, esse "humanismo" já não é sustentável, porque a imagem
do homem vai-se despedaçando por completo.
De um lado, suas mais prestigiosas realizações - a ciência e a
técnica - parecem escapar-lhe e se voltar contra ele. De fato, se as .
ciências e téctiicas são criadas por certos indivíduos, são outros que as
aplicam; e essas próprias aplicações são utilizadas e manipuladas por

113
114 Ermu!O CllJSTALl!A FuMAÇA

outros mais, às vezes à custa de todos. De qualquer modo, não existe um


homem que utilize sua raz.ão para criar e gerir, de maneira consciente e
coerente, instrumentos de dominação da natureza, mas sim uma multidão
de indivíduos, mais ou menos dotados de razões e apetites, mais ou menos
semelhantes e mais ou menos antagônicos, que se associam e se combatem
no correr de seus encontros.
Por outro lado, esses mesmos indivíduos, analisados no que lhes
parece comum, já não podem ser vistos como hipóstases desse homem em
princípio onipotente, de modo que suas imperfeiÇões fossem apenas a
expressão de uma parcela animal - não humana - que existiria neles.
As descobertas - ou redescobertas - da vida do inconsciente e das
motivações inconscientes dos discursos e ações dos seres humanos, mer-
gulhando profundamente suas raízes no chamado mundo animal, estive-
ram na origem dos primeiros golpes desferidos, em nome da ciência,
contra a imagem do homem criador de seus discursos e suas ações, e
dominando através deles um mundo da natureza que ele teria transcendido
por essência. Atualmente, muitos outros argumentos, vindos de novas
descobertas da etnologia, da sociologia comparada, da lingüística, da
estética, da biologia e da antropologia, acabaram de destruir essa imagem.
O resultado disso é que, enquanto alguns tentam analisar e dissecar os
aspectos mais ocultos do fenômeno no plano da epistemologia, outros,
periodicamente enlouquecidos por este ou aquele sinal espetacular desse
desaparecimento - por exemplos, os enxertos de órgãos vitais extrapo-
lados para futuros enxertos cerebrais, ou manipulações da genética huma-
na no estilo de Aldous Huxley etc.-, lamentam-se pelo fim dos huma-
nismos, ·sem conseguir imaginar que algo de benéfico possa sair do
término de uma ilusão.
Dentre as idéias que contribuíram e continuam a contribuir para
destruir a ilusão do homem criador de seu discurso e de seus atos e
portanto, por isso mesmo, para "solapar o moral" de muitos de nossos
contemporâneos-, as descobertas sucessivas da importância do acaso na
organização dos seres vivos têm um lugar privilegiado. Na verdade, elas
desfrutam agora de uma grande repercussão junto ao público, pois se
beneficiam do apriorismo de confiança conferido à biologia, que é consi-
derada, com ou sem raz.ão, uma ciência mais exata do que as ciências
humanas. · ·
Por isso, é interessante nos indagarmos de que modo a lógica dos
sistemas abertos auto-organizadores, onde um acaso organizacional, ex-
presso num princípio de complexidade através do ruído [von Foerster,
MacKay, Ashby, Atlan],2 desempenha um papel cada vez mais evidente,
pode ser estendida ao campo em que os princípios de organização da
matéria viva parecem ter-se aplicado com um máximo de complexidade,
requinte e eficácia, a saber, nosso funcionamento psíquico. Muito esque-
CONSC!eNCIA E DESEJOS NOS SISTEMAS AUTO-ORGANIZADORES 115

maticamente, esse princípio implica que a redundância e a confiabilidade


de um sistema complexo lhe permitem, a partir de um certo valor desses
parâmetros, reagir a agressões aleatórias - habitualmente destrutivas
para os sistemas mais simples - através de uma desorganização resgata-
da, seguida de uma reorganização num nível de complexidade mais
elevado, sendo este medido por uma maior riqueza de possibilidades de
regulação, com adaptação a novas agressões do ambiente. Isso, evidente-
mente, até certo ponto, onde os efeitos destrutivos dessas agressões
aleatórias produtoras de erros, acumulados no tempo, não podem mais ser
compensados pelos efeitos autonomizadores e complexificadores de auto-
organização. Então, a acumulação de erros que até esse ponto havia
alimentado o período da invenção e da novidade se transforma naquilo
que precipita o sistema em seu período de envelhecimento e destruição .
Esses mecanismos de criação e organização a partir do ruído são
empregados, evidentemente, nos processos de evolução das espécies por
mutação-seleção, se levarmos em conta o caráter orientado da evolução.
De fato, algumas mutações ao acaso levaram não apenas a novas raças,
passíveis de ser favorecidas pelas pressões de seleção de um novo meio,
como também a novas espécies em que somos forçados a admitir que
mutações, ou mesmo acidentes cromossômicos, foram anteriormente re-
cuperados num novo nível de integração, mais complexo do que o prece-
dente, antes de poderem exprimir-se em características favoráveis do
ponto de vista das pressões de seleção, seja de um novo meio, seja,
igualmente, do mesmo meio. Mas esses mecanismos também são empre-
gados nos processos de aprendizagem, naquilo que Pfaget denominou de
assimilação - usando, voluntariamente, um termo de ressonância simul-
taneamente psicológica e biológica. Eles aparecem na mistura de deter-
minismo e estocástica que caracteriza tanto a organização cerebral quanto
a das máquinas de aprendizagem, cujos desempenhos mais se aproximam
dos do cérebro [Perceptron, de Rosenblatt; Informon, de Uttley]. Por
fim, não está excluída a hipótese de que eles também estejam em ação
no nível celular e organísmico dos mecanismos do desenvolvimento e
da adaptação. ·

1. CONSCl~NCIA E VONTADE NOS SISTEMAS ABERTOS


AUTO-ÜRGANIZADORES

Portanto, se tentarmos estender essas idéias à lógica de nosso funciona-


mento psíquico, seremos levados a nos indagar, em especial, a que
correspondem nossa consciência e nossa vontade, tal como sentidas, não
apenas como consciência do mundo externo e vontade de ação, mas como
consciência de si e vontade de ser. Em outras palavras, a que corresponde
116 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

o que é sentido por cada um de nós como a fonte de nossa determinação


- de nosso programa?-, se somos sistemas auto-organizadores em que
a invenção e a novidade trazidas pelo tempo que passa provêm, na
verdade, de uma acumulação de abalos contingentes?

1. 0 DETERMINISMO E SUA BASE NA REVERSIBILIDADE DO TEMPO

Em nome dessa própria lógica da auto-organização, que confere um lugar


central à irrupção do radicalmente novo e da criação - a partir não do
nada, mas do caos - , não é mais possível subscrevermos a concepção
puramente determinista, já antiga, de que essas sensações de autonomia
seriam apenas pura ilusão, na medida em que tudo seria apenas a realiza-
ção de um programa antecipadamente determinado quando da constitui-
ção de nosso aparelho genético: a idéia de que esse programa conteria
todas as respostas, antecipadamente previstas, a tal ou qual estimulação
do ambiente, sendo o todo um produto de cadeias de causas e efeitos, cuja
causa primordial poderia ser encontrada, teoricamente, nos movimentos
das partículas elementares constitutivas da matéria, é uma seqüela do
determinismo mecanicista de Laplace. Essa concepção ainda continua
viva em muitos biólogos, embora já tenhà desaparecido da física dos
sistemas complexos, onde o papel das flutuações aleatórias sempre deve
ser levado em consideração. Mesmo que, no curso do desenvolvimento
dos organismos, algumas determinações rigorosas possam ser encontra-
das num certo nível de generalidade e de aproximação, o lugar do aleató-
rio, e portanto, da possibilidade do novo e do imprevisível, continua a ser
grande no nível do detalhe, e seu papel efetivo aumenta cada vez mais
com a complexidade e a riqueza de interações do sistema considerado.
Assim, o estabelecimento das conexões nervosas, rigorosamente determi-
nado nos gânglios nervosos ultra-simples dos moluscos, dá lugar, ao
contrário, ao aleatório do detalhe, suporte provável das possibilidades de
aprendizagem no cérebro dos mamíferos. Como Bergson percebeu clara-
mente, a concepção determinista-mecanicista, tendo como corolário a
rejeição pura e simples da consciência autônoma e da vontade livre como
ilusões espiritualistas, equivale, a rigor, a só conceber o tempo sob seu
aspecto reversível - que é o da mecânica-, e não consegue imaginar a
possibilidade física de um tempo-invenção.
Atualmente, podemos compreender •como, por intermédio da acu-
mulação de erros resgatados; as coisas se dão como se o tempo trouxesse
consigo um capital de novidade e criação, o que, entre parênteses, deveria
permitir-nos uma releitura crítica, mas certamente fecunda, de A e.volução
criadora. É normal que essa visão das coisas não tenha podido impor-se
de outra maneira a não ser pelo recurso à intuição, numa época em que a
noção do tempo físico era dominada pela mecânica e, em termos mais
CONSCillNCIA E DESEJOS NOS SISTEMAS AIITO-ORGANIZADORES l !7

gerais, pela física dos fenômenos reversíveis. Com efeito, sabemos que,
durante muito tempo, por razões de facilidade, a física e a química
empenharam muito mais esforços na descrição e na explicação dos fenô-
menos reversíveis do que na dos fenômenos irreversíveis; e, na medida
em que quase todos os fenômenos naturais são irreversíveis, sua descrição
físico-química só foi possível, na maioria das vezes, recortando neles -
no espaço e no tempo - diversas partes, consideradas, numa primeira
aproximação, como semelhantes a fenômenos reversíveis. Ora, por defi-
nição, num fenômeno reversível, o tempo é reversível. E é por isso que o
tempo da física, que serve na maioria das vezes à descrição de fenômenos
reversíveis, perdeu há muito sua direção. 3 Isso aparece flagrantemente na
teoria da relatividade, onde a dimensão temporal do espaço-tempo é tão
reversível quanto as dimensões espaciais.4 O tempo físico só reencontrou
sua direção na parte da física, muito mais recente, que é a dos fenômenos
irreversíveis, onde a lei de variação irreversível da entropia no tempo
desempenha um papel absolutamente central, a ponto de ter sido possível
dizer que ela constitui "a ponta da seta do tempo" (Eddington). Nesse
ponto, porém, o papel das flutuações já não pode ser desprezado, e todo
o problema da evolução irreversível desses sistemas físicos é dominado
pelo problema dos efeitos das flutuações aleatórias nos sucessivos estados
estruturais e funcionais de sistemas abertos, mantidos longe de seu estado
de equilíbrio. Por conseguinte, a novidade é realmente nova, e a consciên-
cia de si como lugar de criação e inovação, e portanto, de individualidade
e originalidade, pode não ser apenas pura ilusão.

2. 0 ABSOLUTISMO ESPIRITUALISTA E SEU DESCONHECIMENTO


DOS EFEITOS ORGANIZADORES DO ACASO

Mas essa mesma visão das coisas, que nos impede de aceitarmos a velha
idéia determinista-mecanicista, impede-nos também de considerar a cons-
ciência e a vontade como espécies de forças extrafísicas, manifestaçõe:s
extremas de um princípio vital ou "humano" misterioso, atuante na
matéria e em combate com ela. Precisamente, em virtude de ela nos dar a
esperança de uma compreensão cibernética dos organismos, que não é,
entretanto, sua redução a máquinas programadas, e que deixa espaço, pela
descoberta de forças organizadoras nos próprios fenômenos aleatórios,
para um tempo-invenção nos próprios fenômenos físicos, desde que estes
atinjam um grau de complexidade da mesma ordem que o dos organismos
vivos. Essa esperança não é alheia ã que nos é dada, pelos avanços da
física dos fenômenos irreversíveis, de uma compreensão no âmbito das
leis físicas ...,.... ainda por serem descobertas, mas já pressentidass - dos
organismos vivos, considerados como um lugar de criação relativamente
estável de entropia negativa.
118 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

3. MEMÓRIA-CONSCI~NCIA E FACULDADE INCONSCIENTE


DE AUTO-ORGANIZAÇÃO

Assim, se é verdade que os dados imediatos de que dispomos sobre nossa


autonomia de seres conscientes e dotados de vontade não podem ser
considerados nem como puras ilusões nem como um absoluto, isso signi-
fica que eles correspondem a uma realidade que precisa ser explicitada,
sendo ligada a outras realidades. ·
Já no nível celular, como analisou M. Eigen [8], os processos
enzimáticos de auto-organização protéica precisam, para serem eficazes,
ser pareados com mecanismos de replicação em molde (cujo suporte, aqui,
são os ácidos nucléicos). Estes desempenham o papel de uma memória
estabilizadora que permite que estruturas funcionais surgidas no curso de
flutuações se reproduzam e, desse modo, sejam mantidas a um custo
mínimo, a despeito dos efeitos destrutivos sempre presentes dessas mes-
mas flutuações. Basta estender essas idéias ao campo de nossas memórias
corticais, atuantes nos sistemas auto-organizadores que também somos,
para explicar aquilo que nos aparece como no~sa consciência e nossa
vontade.
Para isso, é preciso, ao contrário da intuição imediata de nossa
consciência voluntária (ou vontade consciente?), dissociar radicalmente,
num primeiro momento, aquilo que se nos pode afigurar como vontade,
daquilo que pode nos parecer a consciência. A auto-organização incons-
ciente, com criação de complexidade a partir do ruído, deve ser conside-
rada como o fenômeno primordial nos mecanismos do querer, voltados
para o futuro, ao passo que a memória deve ser situada no centro dos
fenômenos da consciência. É a associação imediata e quase automática
de nossa consciência e nossa vontade numa consciência voluntária (ou
vontade consciente), considerada como fonte de nossa determinação, que
tem, a nosso ver, um caráter ilusório.
Na verdade, as coisas que acontecem raramente são as que quere-
mos. Parece que não somos nós que as fazemos, muito embora saibamos
que nós é que as fizemos. E isso não deve nos surpreender, ja que só nos
sentimos querendo com uma parte de nós mesmos - a consciência
voluntária - , ao passo que fazemos com a totalidade de nós. Ora, essa
totalidade de nós parece nos escapar, e mergulha cada vez mais no abismo
do desconhecido à medida que o inconsciente se .desvela - quando se
desvela. É que essa totalidade, de fato, não pode ser conhecida - cons-
cientizada - como força atuante orientada para o futuro, pela simples
razão de que ela vai se constituindo à medida que age, de maneira
imprevisível, determinada, entre outras coisas, pelas agressões contingen-
tes - mas indispensáveis - do meio ambiente. Em outras palavras, o
CONSCUlNCIA E DESEJOS NOS SISTEMAS AUTO-OROANIZADORES 119

verdadeiro querer, aquele que é eficaz, por ser o que se realiza - o


pseudo-.. programa", tal como se afigura a posteriori-, o verdadeiro
querer é inconsciente. As coisas se fazem através de nós. O querer se situa
em todas as nossas células, no nível, muito precisamente, de suas intera-
ções com todos os fatores aleatórios do ambiente. É aí que o futuro se
constrói.
Inversamente, a consciência diz respeito, antes de mais nada, ao
passado. Não pode haver em nós fenômeno de consciência sem conheci-
mento, de uma forma ou de outra. Quer se trate de um conhecido de
maneira perceptiva, intelectual, intuitiva, direta oiJ indireta, clara e nítida
ou vaga e pouco diferenciada, formulada ou não-formulada, um fenômeno
de consciência é uma presença do conhecido. Ora, só pode haver conhe-
cido em relação ao passado. Ao contrário, podemos dizer, aquilo a que
chamamos passado é o conhecido que não é - ou não é mais - percebido
(sendo o percebido identificado com o presente), e aquilo a que chamamos
futuro é, muito simplesmente, o desconhecido. Portanto, a consciência,
presença do conhecido, é a presença do passado em nós. Não equivalerá
isso a dizer que a consciência é nossa memória se manifestando, no
sentido da memória de um computador, no momento em que é utilizada
numa seqüência de operações? E sabemos perfeitamente, hoje em dia, que
não é necessário recorrer a nenhum princípio metafísico para estar diante
de um fenômeno de memória. Basta que um fenômeno físico apresente
uma propriedade de histerese - e são numerosos esses fenômenos, sendo
o magnetismo, dentre eles, apenas o mais conhecido e o mais utilizado na
tecnologia-, para que tenhamos uma possibilidade de memória. Basta,
além disso, que tal fenômeno seja estruturado de tal maneira que seja
portador de informação, para que tenhamos uma memória realizada; e
basta que esse fenômeno seja então integrado, numa forma qualquer, a
uma máquina organizada, para que tenhamos uma memória em funciona-
mento.
Eis-nos, portanto, "sistemas auto-organizadores", dotados de uma
memória que, quando se manifesta - ou, na linguagem da informação,
quando é "exibida"-, constitui nossa consciência, presença do passado;
e dotados dessa faculdade de auto-organização que é nosso verdadeiro
querer, isto é, aquilo que, sem que dele tenhamos consciência, em última
instância, o que somos nós e nosso ambiente, determina o futuro. 6
Mas acontece que essa memória, que presentifica o passado, e essa
faculdade de auto-organização, que constrói o futuro, evidentemente não
podem se contentar em coexistir num mesmo sistema, sem interagir uma
com a outra. São essas interações que produzem os fenômenos híbridos
e secundários, não fundamentais, que são a consciência voluntária, de um
lado, e os fenômenos de desvelamento do inconsciente, de outro.
120 Ermtl! O CluSTAL E A FUMAÇA

II. CONSCieNCIA VOLUNTÁRIA E DESEJOS CONSCIENTES

Em outras palavras, a consciência voluntária e o querer que emerge na


consciência sob a forma de desejos e pulsões devem ser compreendidos
como os resultados simétricos de interações entre a consciência-memória
do passado e o querer inconsciente auto-organizador do futuro; a cons-
ciência voluntária seria o resultado de elementos anteriormente memori-
zados, que intervêm secundariamente nos processos de resposta organi-
zadora às estimulações do meio ambiente, à maneira de programas
parciais ou subprogramas; já o querer consciente seria o resultado da
emergência na consciência, isto é, da exibição como memória, de alguns
processos auto-organizadores; estes funcionam pela criação do organiza-
do a partir do ruído, e habitualmente se desenrolam e determinam o futuro
de maneira totalmente "inconsciente", isto é, como uma sucessão de
operações estruturantes e funcionais que não necessariamente fazem
intervir mecanismos de estocagem na memória. Mais exatamente, a utili-
zação de memórias adicionais, que permite as reproduções em moldes,
continua a aumentar a eficácia dos processos de criação de organização,
estabilizando estruturas sucessivas que, de outra maneira, apareceriam e
desapareceriam com igual rapidez. Por conseguinte, é também possível,
e até muito provável, que os processos auto-0rganizadores utilizem siste-
maticamente mecanismos de armazenagem da informação - e portanto,
de memória -, porém situados num nível anatômico diferente daquele
do córtex cerebral; em última instância, o tipo de memória empregado nos
processos de respostas imunológicas às agressões antigênicas seria, as-
sim, um exemplo de memória, inconsciente, por situar-se num nível de
integração absolutamente diferente do nível do córtex cerebral. Seja como
for, a exibição, como memória cortical, de processos reguladores ou
auto-organizadores, normalmente inconscientes, que constituem o verda-
deiro querer, produz o que chamamos desvelamentos do inconsciente, ao
passo que, simetricamente, como dissemos, a irrupção de subprogramas
exibidos como memória em meio a esses processos define o que chama-
mos consciência voluntária. Assim, o querer inconsciente surge, portanto,
como uma característica absolutamente geral de todos os organismos
vivos - e até dos autômatos auto-0rganizadores, se chegarmos a realizá-
los. O aparecimento progressivo do que parece ser - por analogia com
aquilo que aparece em nossa experiência introspectiva - Uma vontade
consciente, nos chamados seres superiores, não seria, portanto, mais do
que uma conseqüência da existência de memórias cada vez mais podero-
. sas, à medida que lidamos com organismos mais complexos. Quanto mais
a memória cortical ocupa um lugar importante no sistema, mais aumentam
suas possibilidades .de interação com os processos auto-organizadores, e
portanto, mais evidentes parecem as manifestações de uma consciência
CoNSCl2NCIA E DESEJOS NOS SISTEMAS AtrrO-OROANIZADORES 121

voluntária. Do mesmo modo, aliás, que os fenômenos .de desvelamento


do inconsciente. Não que exista menos inconsciente nos organismos
elementares com baixa capacidade de memória, mas é que, simplesmente,
as possibilidades de memorização desse inconsciente são, forçosamente,
muito mais limitadas.
Assim, a vida do inconsciente não pode ser reduzida a UDl fenômeno
secundário, resultante do recalcamento e da censura de desejos e ilusões
j l\ meio conscientes, que seriam, por sua vez, os fenômenos primários. Ao
contrário, o querer inconsciente, conjunto dos mecanismos pelos quais
nosso organismo inteiro reage às agressões aleatórias e à novidade - bem
como a sua eventual repetição, além disso - , é o fenômeno primário que
caracteriza tanto nossa organização estrutural quanto funcional. Esse
querer inconsciente não precisa, na maioria das vezes, para se realizar,
desvelar-se, tomar-se consciente e se transformar em desejo. Ao contrá-
rio, como veremos, uma visualização demasiadamente grande como me-
mória dos processos auto-organizadores pode bloqueá-los. As vezes, para
a sobrevivência do sistema, mais vale que ele continue a se manter
inconsciente. O próprio desejo não é da ordem do querer inconsciente
.. puro" , mas já da ordem de sua emergência na consciência, de sua
inscrição como memória e de sua representação. As situações de conflito
entre a consciência voluntária e os desejos não são conflitos entre o
consciente e o inconsciente, mas, antes, entre dois modos simétricos de
interação entre memória e auto-organização, que são a memória organi-
zadora e a auto-organização memorizada. Na medida em que os processos
de auto-organização repÜusam, como vimos, na contradição de uma
digestão organizadora de vicissitudes desorganizadoras, é sua emergência
excessivamente grande na consciência, sua exibição demasiadamente
sistemática como memória cortical, que pode levar à consciência esqui-
zofrênica bloqueada, segundo Bateson, como sugeriu Morin [1 5]. Mas
existe também uma outra maneira de bloquear o movimento, que se
exprime, como veremos, nos delírios.
De qualquer modo, a seguirmos Morin, esses desarranjos por trans-
bordamentos intempestivos dos mecanismos do querer inconsciente não
passariam de um exagero do processo de hominização pelo qual o Homo
sapiens ter-se-ia realmente distinguido de seus ancestrais imediatos.

III. MÁQUINAS DE FABRICAR SENTIDO7

A digestão do aleatório e sua exibição como memória levam às atividades


mais elaboradas da consciência, não apenas sob sua forma de consciência
voluntária, que decide sobre a resposta a um estímulo, mas também de
consciência cognitiva que estabelece relações entre estímulos, verdadei-
122 ENTRE o CRISTAL E A FUMAÇA

ros mapas espacial-temporais do ambiente (mapping [mapeamento] do


meio ambiente, segundo Fischer [9]). É assim que se alimenta a organi-
zação psíquica, criando e desfazendo patterns [padrões] de referência que,
a cada instante, determinam o novo pattern que se trata de reconhecer e
ao qual se trata de reagir.
Aplicando o princípio da complexidade pelo ruído a uma teoria da
aprendizagem,8 chegamos a um certo número de propriedades daquilo que
podemos considerar como um sistema auto-organizador empregadó num
processo de aprendizagem não-dirigida. De fato, convém distinguir entre
a aprendizagem dirigida e a aprendizagem não-dirigida. A primeira é a
aprendizagem com um professor que diz o que é preciso aprender. Na
aprendizagem não-dirigida, um sistema, colocado num ambiente que é
novo para ele, cria, de certa forma, nesse ambiente desconhecido, os
padrões que em seguida ele mesmo se condicionará a reconhecer. Esses
mecanismos também são interessantes por não serem puras descrições
fenomenológicas, mas serem reproduzidos nas máquinas. Em particular,
existe uma diferença de princípio de funcionamento entre uma máquina
do tipo "Perceptron (19]", que sabe reconhecer formas, porém com um
professor (é necessário um experimentador que regule os parâmetros de
funcionamento da máquina ao longo do próprio processo de aprendiza-
gem), e a máquina do tipo "lnformon", aperfeiçoada por Uttley (20] .
Trata-se, nesse caso, de um Perceptron modificado de tal maneira que é
a própria máquina que, calculando as probabilidades condicionais nos
diferentes estímulos que chegam até ela, como que fabrica padrões de
freqüência segundo esses cálculos, e depois reconhece mais ou menos
esses padrões no meio ambiente. Quando se trata da aprendizagem não-
dirigida, duas propriedades, conseqüências do princípio da complexidade
através do ruído, podem ser reconhecidas. A primeira é que o processo de
aprendizagem pode ser compreendido como uma criação de padrões por
diminuição de redundância, onde algumas especificações de padrões
muito particulares excluem outras. Assim, ante a pergunta: "que é que
aumenta, e que é que diminui na aprendizagem?", podemos responder,
de acordo com esse princípio, que o que aumenta é a diferenciação, a
especificidade dos padrões aprendidos, e isso implica, portanto, um au-
mento da variedade, da heterogeneidade; ao contrário, o que diminui é a
redundância da totalidade do sistema, é o caráter indiferenciado. Em
particular, poderíamos encontrar nisso uma explicação para os mecanis-
mos da finalidade do sonho e do sono. Ao que parece (22], o sono
paradoxal é acompanhado por uma sincronização da totalidade das células
cerebrais ativadas por um mesmo pacemaker [marcapasso] localizado no
tronco cerebral. Talvez pudéssemos interpretar isso como um retorno a
um estado de redundância inicial extremamente grande, isto é, de indife-
renciação. É como se houvesse um potencial de aprendizagem que pudes-
se ser medido por uma redundância: esse potencial diminui à medida que
CONSClt.NClA E DESEJOS NOS SISTEMAS AlrfO-ORGANIZADORES 123

a aprendizagem se produz; depois, é preciso recarregar de redundância,


para que seja possível retomar e continuar o processo de aprendizagem.
Um segundo aspecto do prillcípio de complexidade através do ruído nos
mecanismos da aprendizagem não-dirigida consiste em que os padrões,
uma vez criados, são comparados com os novos estímulos, ou, mais
exatamente, são projetados e aplicados neles. Na medida em que os
padrões e os novos estímulos possam coincidir, dizemos "reconhecer"
novos padrões no ambiente. Mas, na medida em que eles sejam realmente
novos, essa coincidência só pode ser aproximativa. Há uma ambigüidade
nessa aplicação, nessa projeção desses padrões nos estímulos novos, e
essa própria ambigüidade tem, então, um papel positivo, na medida em
que acarreta uma ação inversa sobre os próprios padrões, isto é, uma
modificação dos padrões iniciais. Estes, modificados, passam a ser nova-
mente projetados nos estímulos novos, e assim sucessivamente. Portanto,
podemos conceber esses mecanismos de aprendizagem não-dirigida atra-
vés de uma espécie de vaivém entre padrões que são criados e depois
projetados em estímulos aleatórios, e estes últimos, que, na medida em
que não podem coincidir exatamente com os primeiros, modificam a
classe de padrões que passa a servir de referência, e assim por diante. Em
outras palavras, é como se nosso aparelho cognitivo fosse uma espécie de
aparelho criador, mais uma vez, de uma ordem cada vez mais diferencia-
da, ou seja, de complexidade a partir do ruído. ·
Mais uma vez, esses processos normalmente se desenrolam de
maneira inconsciente, no estilo do que acontece, por exemplo, numa
máquina de tipo lnformon, que seleciona, ela mesma, os padrões que tem
que aprender a reconhecer; mas sua exibição como memória, isto é, sua
emergência na consciência, leva à atividade de interpretação, que consis-
te em integrar os novos acontecimentos do presente e do futuro com o
conteúdo de nosso conhecimento do passado memorizado.. Essa integra-
ção se efetua pelo reconhecimento de formas (pattern recognition), ou
seja, os novos estímulos são classificados e associados com as formas
preexistentes, graças ao que são reconhecidos. Em geral, como dissemos,
esse reconhecimento não é perfeito: os novos estímulos não podem
coincidir exatamente - na medida mesma em que são novos. Portanto,
são reconhecidos em termos aproximativos, com uma certa dose de
ambigüidade. E essa ambigüidade pode desempenhar, também aí, um
papel positivo, enriquecendo, modificando e fazendo derivar a forma de
referência, ou, mais exatamente, a classe de formas que constitui a
referência das novas formas a serem reconhecidas. E assim sucessivamen-
te. É dessa maneira, portanto, que o princípio de complexidade através do
ruído também pode funcionar no nível da organização de nosso sistema
cognitivo. Também aí, o novo e o aleatório são integrados na organização
evolutiva, servindo-lhe até mesmo de alimento. Também aí, é como se
fabricássemos ininterruptamente a organização a partir do caos. Assim, a
124 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

interpretação é apenas a exibição como memória de mecanismos de


fabricação de sentido a partir do contra-senso, os quais, sem isso, se
desenrolaria de maneira quase automática e, evidentemente, inconsciente.
Mas será que esses mecanismos de fabricação de sentido onde este
não existia não são aquilo através do qual estamos habituados a caracte-
rizar as consciências delirantes? E não será isso que se encontra, ademais,
na significação ambígua da idéia de interpretação e na reserva que temos,
a priori, diante da verdade de qualquer sistema interpretativo?
Ora, acabamos de ver que esses mecanismos obedecem a uma lógica
da aprendizagem adaptativa que parece enraizar-se nos próprios princí-
pios da organização biológica, uma vez que se trata de auto-organização,
e por isso, eles parecem estar ligados a nosso funcionamento normal como
sistemas auto-organizadores.
Portanto, situamos mal o delírio ao vermos nele um distúrbio da
relação real-irreal, uma projeção ilegítima do imaginário no real. Na
verdade, só existe efeito de conhecimento evolutivo graças a essas proje-
ções. Mas, nesse caso, onde se situa a passagem entre a consciência
delirante e a consciência que não o seria, entre interpretação delirante e
interpretação .. correta", se o critério não é mais o grau do .. colar-se à
realidade' ' , ou, em outras palavras, a precisão e a falta de ambigüidade
no reconhecimento das formas? Provavelmente, não no conteúdo das
interpretações, mas em seu modo de funcionamento. O delírio seria a
fixação, num determinado estágio, do processo de interpretação, que
ficaria bloqueado em padrões imutáveis, através dos quais os novos
acontecimentos seriam reconhecidos sem umfeedback modificador, de
tal modo que, pouco a pouco, a distância - a ambigüidade - entre os
padrões de referência que servem para o reconhecimento e os novos
acontecimentos a serem reconhecidos se tomaria cada vez maior, até um
ponto em que o próprio pr~esso de reconhecimento e interpretação se
deteria, e só nos seria possível sobreviver fechando-nos em nós mesmos.
Isso poderia explicar o fato de um mesmo conteúdo interpretativo
poder ter uma função delirante num indivíduo, mas organizadora e cria-
tiva num outro. Quando o conteúdo é uma etapa de um processo aberto,
não bloqueado, de interpretação, ele contribui para enriquecer a organi-
zação do sistema, ao passo que, quando se cristaliza, sob a influência de
mecanismos de memória ativos demais, em padrões imutáveis que já não
são passíveis de se modificar no curso do próprio processo de interpreta-
ção, então esse processo se transforma no do delírio, aparentemente
organizado - superorganizado - em tomo desse conteúdo interpretativo
exato - exato demais-, fixado de uma vez por todas.
Qualquer hipótese científica realmente nova é, de fato, da ordem do
delírio, do ponto de vista de seu conteúdo, por se tratar de uma projéção
do imaginário no real. É tão-somente por aceitar, a priori, a possibilidade
~! .
Cü '' SCl~NClA l: Í)ESEJ(' S NU > SISTEMAS AlITO-Oé~GANIZADORE ~ 125

de ser transformada ou mesmo abandonada, sob o efeito de confrontações


com novas observações e experiências, qu~ ela fmalmente se separa disso.
Em particular, poqemos compreender como a própria interpretação psica-
nalítica pode desempenhar o papel de um delírio organizado, ou, ao
contrário, o de uma criação libertária, conforme seja vivida de maneira
fechada, como o modelo central - o padrão imutável-, o pólo organi-
zador, ou de maneira aberta, como uma etapa fugaz no processo auto-or-
ganizador. Entretanto, seja qual for o caso, o conteúdo da interpretação
consiste sempre no que costumamos chamar "uma projeção do imaginá-
rio no real". Assim, a "marca do delírio" não seria a presença do
imaginário na apreensão do real, mas seria, ao contrário, a conservação
demasiadamente sistemática e demasiadamente rígida de estados de auto-
organização que, normalmente, deveriam se suceder, modificando-se. A
memorização excessiva, isto é, uma emergência precisa demais na cons-
ciência, dos estados de auto-organização que lucrariam em permanecer
inconscientes pode ser responsável por fixações que conduzem ao fecha-
mento do sistema. O funcionamento delirante do imaginário não é deli-
rante por se projetar no real, mas por parar de funcionar como um sistema
aberto, deixando de se alimentar das interações inversas com esse real que
é fonte de eventualidades, e portanto, de novidade. Em vez de permanecer
oculto e subterrâneo, condição de seu movimento de auto-organização,
ele aparece na consciência cedo demais, ou com precisão demais, e então
se fixa numa projeção particular, conservada na memória como um molde
inalterável, no qual vêm chapar-se os acontecimentos posteriores ... cada
vez menos numerosos, aliás, na medida em que a coincidência se dá com
dificuldade cada vez maior. Até que a tensãO seja grande demais e esses
padrões, que uma memória como que abusiva conservou com excessiva
fidelidade, sejam substituídos por outros, como deveriam ter sido há muito
tempo, mas, desta vez, de maneira abrupta e numa crise imensa, quando
deveriam tê-lo sido progressivamente e em crises menores, reiteradamen-
te resgatadas. É sua inscrição intempestiva na memória que, ao fixá-
los, detém e depois faz explodirem os processos de auto-organização
cognitiva.
Se aceitarmos a idéia de Morin de que o aparecimento do Homo
sapiens foi caracterizado tanto por seus delírios quanto por sua sabedoria,
e se reconhecermos a parcela de responsabilidade, nos mecanismos do
delírio, das memorizações excessivas, isto é, das emergências excessivas,
na consciência, dos vaivéns normalmente inconscientes das projeções do
imaginário no real, poderemos compreender que esse transbordamento do
imaginário inconsciente no consciente só pôde se dar a partir do momentu
em que ficaram disponíveis capacidades de memória suficientes. O traço
característico da mutação do cérebro, volumoso consistiria, assim, numa
ampliação das capacidades de memória, obtida pela simples repetição de
126 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

estruturas já existentes, pela simples criação de redundância (cujo papel


já vimos, por outro lado, na detenninação do que poderíamos chamar
potencial de auto-organização [Atlan, 1972, 1974]). Dentro dessa pers-
pectiva, podemos compreender que esse desvelamento do delírio no
Homo sapiens, latente, por ser inconsciente em seus predecessores, tenha
sido concomitante a'o desenvolvimento da linguagem simbólica, na medi-
da em que este implicou e permitiu, justamente, um considerável aumento
das capacidades de memória, em comparação com as que lhe eram
preexistentes.

IV. LINGUAGENS E MEMÓRIAS

Podemos, assim, tentar compreender em que e porque, quando o incons-


ciente se revela, ele fala uma certa linguagem. Evidentemente, pode
tratar-se de uma linguagem não apenas ininteligível, mas também com
significações múltiplas e ambíguas, passíveis de ser reiteradamente for-
madas e deformadas por aquele ou aqueles que a escutam e, principalmen-
te, que tentam traduzi-la numa linguagem falada. Mas, mesmo assim, é
uma linguagem feita de sinais passíveis de ser recebidos, que se manifesta
na consciência, ou do próprio sujeito, ou de um outro, desde que ele a
acolha como linguagem, analisando-a e interpretando-a. Trata-se, na
perspectiva do modelo que propomos, de processos inconscientes do
querer e das coisas que são feitas, os quais, secundariamente, emergem
na consciência, isto é, são acumulados na memória e exibidos, visualiza-
dos de uma forma ou de outra. ''Falar'', nesse caso, é sinônimo de
"emergir na consciência", porque esse querer, normalmente inconscien-
te, e essas coisas, que habitualmente se fazem às escondidas, anonima-
mente, ao interferirem nos processos de memória manifesta, só podem
utilizar os materiais dessa memória; ora, entre estes e a linguagem existe
um vínculo muito estreito, porque a utilização de uma linguagem falada,
e depois escrita, é, na verdade, uma extraordinária ampliação das possi-
bilidades de armazenamento de nossa memória, que pode, graças a isso,
sair dos limites físicos de nosso corpo, para ser entreposta, seja nos dos
outros, seja nas bibliotecas. Isso significa que, antes de ser falada ou
escrita, existe uma certa linguagem como forma de armazenamento da
informação em nossa memória. E é por isso que qualquer manifestação
de consciência só pode utilizar esses materiais, e portanto, aparecer como
a utilização de uma linguagem. Conforme a origem e a natureza dessa
manifestação de consciência, a origem dessa linguagem se impõe com
maior ou menor evidência. Quando se trata de uma manifestação de
consciência de modo habitual, ou seja, presença "pura.. de nossa memó-
ria, sem interferência do querer inconsciente, parece a todos que é o
CONSClflNCIA E DESEJOS NOS SISTEMAS AIITO.OROANIZADORES 127

sujeito quem fala. Mas, quando se trata da emergência, na consciência,


dos processos habitualmente inconscientes do querer,·a pergunta, angus-
tiante e sem resposta, sobre "quem fala?" passa a se impor. Dado que,
na prática, todos os intermediários podem ser encontrados entre esses dois
limites - a tal ponto que, para alguns, depois da análise, e mesmo que
isso não seja imediatamente evidente, a pergunta "quem fala?" continua
a se colocar -, realmente parece que não existem manifestações de
consciência "pura"; é como se os processos do querer, esses processos
anônimos de auto-organização, procurassem incessantemente inscrever-
se na memória; como se, não podendo contentar-se em construir o futuro,
eles se constituíssem também como passado. É por isso que, como vimos
antes, a linguagem do inconsciente parece ser também a do desejo.
Exatamente simétricos, como vimos, são os fenômenos de consciên-
cia voluntária: aqui, é o passado que não consegue renunciar a determinar
o futuro. É a consciência, memória normalmente voltada para o passado,
que intervém nos processos que constroem o futuro, não conseguindo
renunciar a ter algo a ver com sua determinação.

V. PASSADO E FUTURO: DA UNIDADE TEMPORAL .

Em outras palavras, os desvelamentos do querer inconsciente e a cons-


ciência voluntária são apenas as duas maneiras simétricas de unir nosso
passado e nosso futuro. Eis porque esses dois fenômenos, mesmo não
sendo primários, nem por isso deixam de desempenhar um papel funda-
mental: é a eles que se agarra a realidade da união e da autonomia do
sistema auto-organizador que somos. O segundo afirma essa união com
espalhafato; o primeiro representa uma sombra dela, a ponto de parecer
negá-la; mas, evidentemente, só pode negá-la ao sugeri-la ... Essa afirma-
ção e essa negação, aliás, são igualmente fundamentadas, já que, por um
lado, o sistema está realmente isolado num sistema único e uno, nem. que
seja pelo envoltório cutâneo que o delimita no espaço, mas, por outro, ele
é permeável a todos os fatores anônimos do ambiente que nele se impri-
mem, que agem nele e através dele, e sem os quais ele deixaria imediata-
mente de existir.
O fato de não querermos ou não podermos contemplar serenamente
o desaparecimento do homem provém, portanto, cremos nós, de os huma-
nismos nos terem preparado muito mal para ver em nós mesmos esses
sistemas auto-organizadores em que a vontade consciente e os desvela-
mentos do inconsciente apontam e afirmam mna unidade temporal -
relativa - do sistema, assim como nossa pele aponta e afirma uma
unidade espacial - igualmente relativa. Não é por não ser totalmente
impermeável e, além disso, por ser vazada por diversos orifícios, que
128 ENTRE O CluSTAL E A FUMAÇA

nossa pele é inútil. O mesmo acontece com nossa vontade consciente: ela
pode (e ·até deve) se exercer ininterruptamente, sempre, sem a ilusão de
determinar as coisas, pois somente sua atividade, duplicada pela de sua
sombra, a linguagem inconsciente, mantém, como vimos, a unidade no
tempo dos sistemas que somos.
Num artigo publicado há alguns anos, A. David constatou que cada
um dos progressos da cibernética fazia o homem desaparecer um pouco
mais [6]. Mas um último sobressalto de humanismo o fez localizar em nós
o derradeiro recôndito de onde seria impossível desalojar o homem: seria
o desejo (nosso programa, em outras palavras?). Mediante isso, ele nos
sugeriu uma descrição futurista de homens telegrafados no espaço sob a
forma de "programas puros ... Mas, que acontece com isso quando se
constata que, nos sistemas cibernéticos auto-organizadores dotados da
complexidade dos organismos vivos, o programa não pode ser localizado,
porque se reconstitui sem parar? Pois bem, isso significa que o homem é
finalmente desalojado até mesmo daí, e que para nós é melhor que seja
assim, porque, dessa maneira, a unidade e a autonomia de nossa pessoa,
na medida em que se produzirem, não mais poderão ser telegrafadas no
espaço, separadas do resto, que a superfície que limita um volume e define
sua unidade não pode ser separada desse volume. Alguns programas de
organizações talvez possam ser telegrafados: os sistemas assim realizados
talvez possam assemelhar-se a nós e dialogar conosco. Não há nada de
inquietante nisso, 9 muito pelo contrário, porque eles não serão nós; como
tampouco o são as máquinas, inclusive as mais poderosas, que nos
prolongam.
Somente numa cultura abusivamente humanista é que essa visão das
coisas pode parecer pessimista. Somente se tivermos erigido o homem
como um absoluto é que a c0nstatação do caráter parcialmente ilusório -
por não ser primário - da vontade consciet;1.te será desesperadora. E, no
entanto, acaso essa constatação não coincide com a experiência do dia-a-
dia? Não é a vontade consciente repetidamente desmentida pela realidade,
na medida em que as coisas nunca acontecem como queríamos? Será que
não aprendemos, com a experiência cotidiana, que a vontade consciente
não domina as coisas, que estas só fazem chegar ou se produzir'! O
Eclesiastes e os antigos sábios não nos alertaram para isso desde sempre?
É a ilusão do contrário que leva ao desespero, quando se desfaz, porque
então imaginamos que a vontade consciente não tem objeto, que ela foi
negada, e por isso mesmo, também o foi nossa existência como seres
autônomos. Depois de termos feito do homem um absoluto, acreditamos
reconhecer nele um joguete de forças cegas. Não é pelo fato de o homem
desaparecer e se apagar, "como um rosto de areia na fímbria do mar",
que devemos chorar sobre nós mesmos. O homem que se apaga não somos
nós, mas é apenas, como mostrou Foucault, um absoluto imaginário, que
CoNSCl~NCIA E DESEJOS NOS SIS11!MAS AlJTO-ORGANIZAOORE.S 129

desempenhou um papel cômodo no desenvolvimento dos conhecimentos


do Ocidente, numa época, aliás, em que o sistema físico por excelência era
o sistema fechado - ou até isolado -, em equilíbrio termodinâmico [ 10).
Esse homem está em vias de ser substituído por coisas, é certo, mas
nas quais podemos reconhecer-nos, porque elas podem falar conosco. Em
vez de um homem que se toma pela origem absoluta do discurso e da ação
sobre as coisas, mas que está, na realidade, separado delas e que conduz
inevitavelmente a um universo esquizofrênico, são coisas que falam e
agem em nós, através de nós, como através de outros sistemas, só que de
maneira diferente, e talvez mais aperfeiçoada. Graças a isso, se não nos
deixarmos sufocar por elas, ou seja, se nosso querer - faculdade incons-
ciente de auto-organização sob o efeito das coisas do ambiente - conse-
guir se inscrever suficientemente como memória, de tal modo que tenha-
mos um grau suficiente de consciência dele, e se esta, em contrapartida,
puder interagir com os processos auto-organizadores, mas sem que haja
conflito entre essas duas formas de interação, então, quando olharmos a
nosso redor, poderemos nos sentir em casa, porque as coisas também nos
falarão. 10 Afinal, se podemos desmontar-nos como máquinas e substituir
órgãos como peças, será que isso também não significa que podemos ver
nas máquinas, isto é, no mundo que nos cerca, algo em que podemos nos
reencontrar, e com o qual, em última instância, podemos dialogar? Quan-
do descobrimos uma estrutura nas coisas, não equivale isso a encontrar,
de maneira renovada e purificada, uma linguagem em que as coisas podem
falar conosco? E será pagar caro demais por essas descobertas constatar,
de passagem, que nossa própria linguagem não é, no fundo, radicalmente
diferente dessa linguagem das coisas? A única conseqüência dessas des-
cobertas não deveria ser nem o enlouquecimento pueril diante da idéia de
sermos um joguete de forças cegas, nem essa forma de cegueira que
consiste em querer a qualquer preço encontrar o homem em algum lugar,
Dias uma determinação de alcançar o domínio de nós mesmos, além do
domínio das coisas - de dialogar com nós mesmos, assim como com as
coisas - , já que nossa própria existência como seres dotados de unidade,
como sistemas autônomos, não é fenômeno primário, mas ainda assim
pode ser afirmada, porque se cria nessa própria afirmação, e em nenhum
outro lugar. Essa determinação se apóia na visão clara de que essa
existência unificada, apesar de não ser garantida, é possível, pois se
articula num universo que não pára de nos ser hostil e de nos destrµir,
tão logo nos deixamos atravessar por ele. A unidade temporal dos siste-
mas auto-organizadores e memorizadores que somos não é absoluta -
mas é não menos real do que sua unidade espacial, delimitada por uma
pele e por mucosas. A fronteira que protege a autonomia de um ser vivo
do universo que o cerca só tem sentido quando, ao mesmo tempo que
barreira, ela é também um lugar de trocas e se deixa atravessar.
130 ENTRE O CRISTAL E A F UMAÇA

Não estará isso contido na conclusão do Eclesiastes, sintetizada


numa frase curta: "Fim de discurso, estando tudo entendido, teme os
deuses e guarda seus mandamentos, pois isso é a totalidade do homem"?
Em outras palavras, depois de haver constatado a futilidade das coisas, o
caráter ilusório da vontade consciente quando ela imagina determinar as
coisas, saibamos que o que está realmente em jogo é o isso, 11 que é a
totalidade do homem; há que traçar seu limite e estabelecer sua união.
Através da ação voluntária sobre as coisas, o que está em jogo, na
realidade, é a ação unificadora sobre nós mesmos, e portanto, é em função
de seu efeito sobre o isso que nos constitui por inteiro que ela deve ser
orientada. Nessa empreitada, a decifração e a interpretação do mundo e
de sua lei, e depois, o fato de nos deixarmos penetrar por ela, são os fatores
insubstituíveis da lucidez e da eficácia.

memória auto-organização
= presença do passado (complexidade pelo ruído)
= consciência = construção do futuro
= querer inconsciente

auto-organização memorizada memória organizadora

= desvelamento do inconsciente (programas parciais)


=desejos = consciência voluntária
= querer conscientizado = memória orientada para o futuro

construção do fu~lizado I . /
na memória ------._: /

unidade do sistema
no tempo
Excesso (= "pele" temporal) Excesso

.• da auto-orgamzaçao
bl oque10 . -
por fechamento : delírio confuso

REFERf:NCIAS BIBLIOGRÁFICAS
'
bloqueio da auto-organização por
fechamento: delírio organizado

1. W.R. Ashby, "Principies of the Self-organizing System", in V . Foerster e


Zopf (orgs .), Principies of Self-organization, Nova York, Pergamon Press,
1952, p. 255-78.
2. H. Atlan, '' Du bruit comme príncipe d' auto-organisation' ', Communications,
18, 1972, p. 21-35.
CONSCIBNCIA E D ESEJOS NOS SISTEMAS AUTO-ORGANIZADORES 131

3. H . Atlan, l/orga11isatio11 bioLogique et La théorie de /'i11formatio11, Paris,


Hennann, 1972.
4. H. Atlan, "On a Formal Definition ofOrganization'',JoumaL of TheoreticaL
Biology, 45, 1974. ·
5. O . Costa .de Beauregard, "Two Principies of th e Science of Time", A1111a/s
of New York Academy of Scie11ce, v. 138, art. 2, 1967, p. 407-21.
6. A. David, "Nouvelles définitions de l'humanisme", in Wiener e Schadc,
(orgs.), Progress i11 Biocybernetics, Nova York, Elsevier Publications Co.,
1966.
7. A.S. Eddington, The Nature ofthe PhysicaL World, Nova York, Mac- Millan,
1929.
8. M. Eigen, "Self-organization of Matter and the Evolution of Biological
Macromolecules", Die Naturvisse11schafte11 , out., 1971 .
9. R. Fischer, "The Biological Fabric of Time", Annals of New York Academy
of Scie11ce, v . 138, art. 2, 1967., p. 440-88.
1O. M . Foucault, Les mots et les choses, Paris, Gallimard, 1966.
11 . P. Glansdorff e 1. Prigogine, Structure, stabilité et fluctuatio11s, Paris, Mas-
son, 1971.
12. A. Katchalsky, "Biological Flow-structures and their Relation to Chemico-
diffusional Coupling", Neurosciences Research Prog'ram Bulletin, v. 9, n 2 3,
1971, p. 397-413.
13. A. Katchalsky e P.F. Curran, Non Equilibrium Thermody11a111ics in Biophy-
sics, Cambridge (Mass.), Harvard University Press, 1965 .
14. D.M. McKay, "Generators of lnformation", Commu11icatio11 Th eory, W.
Jackson (org.), Nova York,,Academic Press, 1953, p. 475-85.
15 . E. Morin, "Le retour de l'événement", Commu11icatio11s, 18, 1972, p. 6-20.
16. E. Morin, Le Paradigme perdu: La nature humai11e, Paris, Éditions dll Seuil,
1973.
17. H.J. Morowitz, E11ergy Flow i11 Biology, Nova York, Academic PreS.s, 1968 .
18. J. Piaget, La Naissance de L'i11tellige11ce chez L'e11fant, Delachaux et Niestlé,
Neuchâtel, 1968, 6! ed.
19. F. Rosenblatt, "Perception Simulation Experiments", Proceedings of the
IRE, 48, n 2 3, 1960; e Arkadev e Braverman, Teachi11g Computers to Recog-
nize Patterns, Nova York, Academic Press, 1967 .
20. A.M. Uttlcy, "The Informon: a Network for Adaptive Pattem Repognition",
JournaL of Theoretical BioLogy, n 2 27, p. 31-67, 1970.
21. H. von Foerster, "On Self-organizing Systems and their Environment", in
Yovitz e Cameron (orgs.), Self-organizing Systems, Nova York, Pergamon
Press, 1960, p. 31-50.
22. M. Jouvet, "Neurobiologie du rêve", in E. Morin e M, Piatelli-Palmarini
(orgs.), L'Unité de L'Homme, Paris, Seuil, 1975, p. 364-92.
6

SOBRE O TEMPO E A IRREVERSIBILIDADE 1

REVERSIBILIDADE MICROSCÓPICA E
l KREVERSIBILIDADE MACROSCÓPICA NA FíSICA

A percepção do tempo apresenta numerosas particularidades que mere-


cem ser expíoradas, porquanto nós mesmos, como seres vivos, temos a
experiência dele de duas maneiras: do interior, pela experiência do tempo
vivido, e do exterior, por observações de ordem biológica e psicológica.
Um de seus aspectos mais importantes parece ser evidente: a irreversibi-
lidade do tempo biológico. Tanto · da experiência interna e subjetiva
quanto da observação externa e objetiva dos organismos decorre que o
tempo dos sistemas biológicos aparece como uma dimensão orientada de
maneira assimétrica. Ele escoa numa direção única, desde o nascimento
até o desenvolvimento, a maturidade, a reprodução, o envelhecimento e
a morte. Essa unidirecionalidade é válida não apenas para os indivíduos,
mas, globalmente, para a totalidade dos organismos vivos, tal como têm
evoluído há milhões de anos: é que, ao que parece, estes também seguiram
uma espécie de caminho orientado, indo dos mais simples organismos
unicelulares para formas orgânicas cada vez mais complexas, até chegar
à espécie humana atual. Esta parece, ao mesnio tempo, a última e a mais
complexa (seja qual for a definição quantitativa exata da referida comple·-
xidade, já que, na verdade, ós próprios conceitos de complicação e
complexidade são questionados em todas as reflexões sobre a evolução).
Tudo isso parece perfeitamente evidente e banal: o fato de o tempo só
escoar do passado para o futuro, e não do futuro para o passado, parece
uma característica inerente ao próprio tempo, seja qual for a natureza. Em
outras palavras, parece que essa irreversibiliilli,de não é, de modo algum,
específica dos seres vivos, e que não tem relação com a biologia. Ora,
ocorre que, do ponto de vista de um físico desligado do sentimento
subjetivo do escoar do tempo, as coisas não são assim. Além disso, e no
extremo oposto, do ponto de vista de nossa percepção subjetiva, há
situações em que temos a experiência de uma espécie de inversão do
SOBRE O TEMPO EA IRREVERSIBILIDADE 133

tempo: quando nos empenhamos num ato voluntário, uma série de gestos
resulta de nossa vontade consciente e se orienta para o objetivo que
desejamos alcançar, de modo que, de certa maneira, a seqüência de
acontecimentos parece determinada pelas causas finais. Segundo uma
célebre formulação em hebraico, ..o_ fim de uma realização é começo no
pensamento2 . ' '
Na física clássica, não haveria nenhuma razão para considerar
irreversível o escoamento do tempo; não fosse pelo segundo princípio da
termodinâmica; na verdade, as leis da mecânica, às quais obedecem os
movimentos dos corpos celestiais e das partículas submicroscópicas iso-
ladas, são invariantes temporais; as leis do movimento permanecem as
mesmas se a direção do tempo for invertida, do mesmo modo que a lei,
arbitrariamente escolhida, das coordenadas espaciais. Isso provém de que,
nessas leis (das quais a da queda dos corpos em 1/2gt2 é um exemplo
particular), a coordenada temporal t está presente por seu quadrado. A
mudança de t em (-t) não modifica nada. Por isso, do ponto de vista da
física, a irreversibilidade do tempo dos fenômenos macroscópicos só pode
ter uma origem: a lei de aumento da entropia. Como disse Eddington, essa
lei dá à seta do tempo sua orientação. 3 Foi preciso uma considerável soma
de trabalho, nos fundamentos da termodinâmica estatística, para se chegar
a conciliar essa reversibilidade do tempo da mecânica com a irreversibi-
lidade observada no nível dos fenômenos macroscópicos onde se produ-
zem transformações da energia.

PRINCÍPIOS DE EQUIVAL1;:NCIA E PRINCÍPIOS DE AÇÃO

Antes de examinarmos como o problema se apresenta na biologia, ou seja,


no nível dos organismos vivos, vejamos primeiro, sucintamente, como foi
que essa questão da irreversibilidade do tempo na física se tornou ainda
mais complexa à luz da teoria da relatividade. Nesse campo, algumas
idéias desenvolvidas por O. Costa de Beauregard fornecem uma interes-
sante transição para a questão do tempo biológico.
Na teoria da relatividade, o tempo é tratado como uma quarta
dimensão de um espaço abstrato, ou seja, como uma coordenada que vem
somar-se às três coordenadas habituais do espaço. Isso implica que o
tempo pode ser convencionalniente determinado em função do estado em
que se encontra o objeto que nos interessa. Essa é. uma propriedade geral
das coordenadas espaciais, mas pode ser estendida à quarta dimensão do
espaço-tempo. Sabe-se que, quando queremos representar um objeto
estático no espaço, podemos escolher as coordenadas que quisermos,
~ituar sua origem onde bem nos aprouver, e também sua orientaÇão
segundo nossa conveniência. Nenhum absoluto é requerido. Na teoria da
relatividade, a mesma coisa acontece quando queremos descrever um
134 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

objeto móvel: a coordenada do tempo também pode ser escolhida como


bem nos parecer, conforme a velocidade relativa do objeto em relação a
um outro objeto arbitrário tomado como referência. Em princípio, nada
deve nos impedir de escolher, também como quisermos, sua direção.
Desse ponto de vista, portanto, o tempo é, em princípio, perfeitamente
equivalente ao espaço, em especial no que concerne a sua reversibilidade:
sendo uma coordenada convencional, ele é tão reversível quanto as
coordenadas espaciais. Na realidade, porém, sabemos perfeitamente que
isso não acontece. Por isso, precisamos de um postulado suplementar,
injetado na teoria, para nos permitir explicar a irreversibilidade do tempo
tal como a observamos. Esse postulado está ligado à velocidade da luz,
como o maior valor de velocidade possível para qualquer elemento da
matéria ou da energia. Ele implica que, para um dado corpo, haverá
regiões do espaço-tempo cujo acesso lhe será proibido, justamente em
razão dos limites de sua velocidade possível. Essas regiões correspondem
aos lugares para onde esse objeto iria se lhe fosse possível remontar na
coordenada do tempo. Dizer que a velocidade não pode ultrapassar a
velocidade da luz ou que o tempo não pode ser reversível equivale a dizer
mais ou menos a mesma coisa. Decorre daí que, por um lado sendo uma
coordenada convencional no espaço de quatro dimensões, o tempo é, em
princípio, reversível, mas por outro lado (na prática), nós o consideramos
diferente das outras três coordenadas espaciais, justamente em razão do
fato de ele não ser reversível.
Diante desse estado de coisas, Costa de Beauregard sugeriu que,
para descrever a realidade, sempre temos necessidade de dois tipos de
princípios. A ciência repousaria, de um lado, em princípios de equivalên-
cia, e de outro, em princípios de distinção e limitação. Na termodinâmica,
o primeiro e o segundo princípios correspondem a esses dois tipos. O
primeiro é um princípio de equivalência segundo o qual todas as formas
de energia se equivalem, no sentido de que podem se transformar umas
nas outras. Isso é estendido, atualmente, à matéria, considerada como
equivalente à energia, no sentido de que podemos transformar uma na
outra e de que conhecemos a lei (quantitativa) que rege sua transformação.
Mas, ao lado desse princípio de equivalência, o segundo - de distinção
e orientação - nos diz que existem formas de energia mais ou menos
degradadas, e portanto, que nem todas as formas de energia são totalmente
equivalentes, sendo o calor a mais degradada de todas, porque nunca pode
ser completamente retransformado numa outra forma utilizável de ener-
gia. 4 Esse princípio de distinção é o que orienta a realidade. Para Costa
de Beauregard, a mesma situação é encontrada no espaço-tempo. Um
princípio de equivalência estipula que as coordenadas temporais são
transformáveis em coordenadas espaciais e vice-versa. Mas um princípio
de distinção e orientação estipula que o tempo é diferente, a partir do
SOBRE O TEMPO E A IRREVERSIBILIDADE 135

momento em que só pode escoar numa única direção. Daí a pergunta:


como é, então, que esses dois princípios fundamentais, aparentemente
contraditórios, podem dar conta da realidade física? E a solução sugerida:
os princípios de equivalência regem a realidade na medida em que esta
seja uma potencialidade pura, independente das mudanças reais que nela
se produzem e que podemos observar, medir e provocar. Então, ao
levarmos em consideração as mudanças que efetivamente intervêm, intro-
duzimos a nós mesmos na realidade, na qualidade de observadores e
mensuradores, pois somos nós que produzimos as mudanças, ou as medi-
mos, ou fazemos as duas coisas simultaneamente. Os princípios de irre-
versibilidade - as leis de degradação da energia e de aumento da entro-
pia, na termodinâmica, e o postulado da irreversibilidade do tempo na
teoria da relatividade - são uma conseqüência dessa interação entre a
realidade e a natureza lógica da mente do observador, ou seja, do homem.
Em outras palavras, a irreversibilidade do tempo resulta da estrutura da
mente humana, que é concebida de tal maneira que a causa tem que
preceder a conseqüência, e não o inverso.
Além disso, essa própria particularidade de nossa mente é uma
conseqüência de nossa adaptação biológica à necessidade de agir. Se a
espécie humana se sai tão bem, é por sermos capazes de nos adaptar a um
meio ambiente mutável. Para isso, é preciso agirmos (e reagirmos) no
ambiente de maneira projetiva e acabada: temos necessidade de saber
prever as conseqüências de nossos atos. Perceber um tempo orientado, em
que o futuro sucede o passado e o presente, é, por conseguinte, uma
condição necessária à finalização de nossos atos. É por isso, segundo
Costa de Beauregard, que o princípio da irreversibilidade do tempo é, na
verdade, um princípio da ação. O que equivale a dizer que, do ponto de
vista da física, o tempo poderia ser reversível, mas, na medida em que
precisamos agir para sobreviver, o tempo se afigura orientado.

FINALIDADE APARENTE NA BIOLOGIA

Mas, que acontece com os sistemas vivos? Sabemos que a principal tarefa
da biologia, no correr destes últimos séculos, foi encontrar explicações
físico-químicas para as observações da vida, e que ela se saiu muito bem
nisso, ainda que de maneira incompleta e desigual conforme os níveis de
organização dos sistemas vivos.
Vimos que, na física, foi ao preço de esforços consideráveis que se
tomou possível explicar a irreversibilidade observada, sendo seu resulta-
do finalmente resumido pelo segundo princípio da termodinâmica. Mas
este, que estipula que a entropia, isto é, a desordem, saumenta, só consegue
dar conta dos processos de desorganização, ou seja, do envelhecimento e
da morte, quando é aplicado aos sistemas vivos. Ora, a essa evolução para
136 ENTRE O CRiSTAL E A FUMAÇA

uma desordem maior, ou, como se diz atualmente, para mais erros na
estrutura e na função - uma evolução que caracteriza o envelhecimento
e a morte -, vem somar-se, como sabemos, uma outra espécie de
evolução, que se desenrola desde o instante em que o ovo é fecundado até
a idade madura do indivíduo adulto. Durante essas fases do desenvolvi-
mento embrionário e da maturação, observa-se uma evolução no sentido
contrário, para uma complexidade cada vez maior da organização, para
uma ordem cada vez mais diferenciada, isto é, para menor entropia.6 Isso
é verdadeiro no nível do desenvolvimento do indivíduo, mas é igualmente
verdadeiro no nível da evolução da espécie, como o testemunham a
geologia e a paleontologia: as espécies que parecem mais complexas, mais
organizadas - o que, aliás, lhes permitiu se adaptarem melhor e serem
as mais autônomas em relação a seu ambiente-, são justamente as que
surgiram mais tarde no tempo. Por isso é que a evolução das espécies
também parece ter-se desenrolado no sentido contrário ao que diz o
segundo princípio da termodinâmica: não rumo a uma desordem cada vez
maior, à homogeneidade e à entropia, mas, ao contrário, em direção a uma
. diversidade maior, a uma diminuição da entropia.
Assim, podemos v.er como esse tipo de evolução, tanto no nível do
indivíduo quanto no da espécie, pôde se afigurar em contradição com o
segundo princípio da termodinâmica e constituir um escândalo aos olhos
dos físicos. De fato, ao admitirmos que a irreversibilidade do tempo físico
é apenas a conseqüência de um aumento irreversível da entropia, resulta
daí que, se encontramos sistemas como os organismos vivos, nos quais se
observa uma diminuição contínua da entropia, é como se, nesses sistemas,
a direção do tempo tivesse sido invertida. Uma razão a mais para consi-
derar a coisa escandalosa. Além disso, comparar essa dedução puramente
lógica a nosso sentimento subjetivo e a nossa experiência psicológica nos
conduz a um resultado similar: a infância e a juventude parecem desen-
rolar-se numa direção temporal oposta à da velhice. Parece que as causas
dos fenômenos não se encontram no passado, mas no futuro, ou seja, que
o que dirige o presente parece ser mais uma tensão em direção a um futuro
imaginário e desconhecido do que um simples determinismo decorrente
dos acontecimentos do passado. Sabemos que, no curso do desenvolvi-
mento embrionário, as coisas parecem ocorrer da mesma maneira: cor.no
se o desenvolvimento que começa com a célula-ovo indiferenciada fosse
dirigido para a forma última do adulto, isto é, para algo que ainda não
existe, mas que existirá mais tarde.
Esse tipo de observação é antagônico ao modo de pensar científico
habitual, baseado num causalismo puro e na convicção de que as causas
dos fenômenos devem precedê-los, e não seguir-se a eles. Hoje em dia,
seguindo Monod, Crick e outros pesquisadores, os biólogos resolveram o
problema utilizando a metáfora cibernética do " programa genético" : a
SOBRE O TEMPO E A IRREVERSIBILIDADE 137

teleologia, isto é, o tipo de raciocínio finalista que recorre a causas finais,


foi substituída por uma .. teleonomia .. em que a orientação para o futuro
é percebida como a execução de um programa, à maneira como um
computador realiza, por exemplo, um programa de construção de máqui-
nas que lhe indica progressivamente o que ele deve fazer e como acres-
centar novos elementos aos já existentes. Durante a execução do progra-
ma, é também um objetivo, ou seja, aquilo que intervirá no fim, que parece
determinar a seqüência dos acontecimentos. Também aqui encontramos
uma espécie de "fim de uma realização que é começo no pensamento" ,7
embora o funcionamento do computador repouse, de fato, unicamente na
causalidade. Pode-se objetar que os programas conhecidos sempre foram
escritos por alguém, e é realmente preciso admitir que o simples conceito
de programa genético, como fonte única de determinação biológica, não
é totalmente claro. 8 Acontece que a célula não é um computador e, por
enquanto, é impossível isolar o programa como elemento distinto da
célula, mesmo que o ADN pareça constituir uma parte importante dele.
Por isso é que falamos em desenvolvimento epigenético, ou num progra-
ma que precisa dos resultados de sua execução para ser lido e executado.
Entretanto, por mais imperfeito que seja, esse conceito de programa tem
pelo menos um valor operacional. Ele abriu caminho para pesquisas muito
frutíferas (bem como para uma nova forma de dogmatismo) na biologia.
Por isso, há que se fazer uma distinção muito clara entre esse conceito e
o que se dizia antes, quando os dois tipos de observação de que falamos,
a saber, a diminuição da entropia, observada tanto no nível do fodividuo
quanto no da espécie, vinham dar apoio às teorias vitalistas.
O vitalismo do século XIX se apoiou no aparente escândalo por nós
evocado, e as teorias vitalistas afirmaram, de um modo puramente nega-
tivo, que era impossível explicar os sistemas vivos através da física e da
química, e que a vida, portanto, era algo externo ao âmbito das leis físicas.
Uma vez que essas teorias eram unicamente negativas (continuou a ser
impossível isolar os fluidos ou espíritos vitais que supostamente explica-
riam as chamadas propriedades não-físicas da vida), as tentativas visando
a conciliar as observações biológicas com a física e a química tiveram
prosseguimento. Os avanços mais importantes foram realizados nesse
sentido no curso dos últimos decênios - graças, essencialmente, à biolo-
gia molecular. Essas descobertas praticamente eliminaram as teorias
vitalistas e levaram aos conceitos muito difundidos de programa genético
e de desenvolvimento epigenético, concernentes ao desenvolvimento do
indivíduo, bem como às teorias neodarwinistas da evolução das espécies
por mutações aleatórias seguidas da seleção natural pelo ambiente.
De resto, essa conciliação entre a física e a biologia foi obtida graças
a uma extensão da física e da química a novos campos, implicando novos
métodos e novos modos de pensar, em especial os da bioquímica e da
138 ENTRE O CRISTAL E A F UMAÇA

biofísica. Essas extensões - mesmo que se trate de conceitos que ainda


não estão totalmente esclarecidos - nos fornecem, hoje, algumas conclu-
sões, que nos permitem compreender como uma espécie de inversão do
tempo durante o desenvolvimento do indivíduo e a evolução das espécies
não contradiz, necessariamente, os leis da termodinâmica.

0 ACAS0 9 E A LÓGICA DA AUTO-ÜRGANIZAÇÁO

A solução dessa dificuldade está ·ligada ao problema do que chamamos


organização e, mais precisamente, à lógica dos chamados sistemas auto-
organizadores. A questão pode ser formulada da seguinte maneira: como
pode uma amostra de matéria se auto-organizar no sentido de uma com-
plexidade e uma diversidade cada vez maiores?
Há muito tempo havíamos entendido que a lei do aumento da
entropia só se aplica de maneira absoluta aos sistemas isolados, isto é, a
sistemas que não trocam nada - nem matéria nem energia - com seu
ambiente. Por conseguinte, se tínhamos a menor probabilidade de desco-
brir um mecanismo físico que permitisse à entropia diminuir, em vez de
aumentar, só podia ser estudando o que pode se produzir nos sistemas
abertos, ou seja, em sistemas que efetivamente trocam matéria e energia
com o ambiente. Está claro que os sistemas vivos correspondem a essa
situação. Na verdade, todas as suas funções dependem dessas trocas. Já
se admitia, em 1948 - seguindo Schrõdinger -, que era possível haver,
em teoria, uma diminuição ~ entropia no interior de um sistema aberto,
compensada por um aumento da entropia no ambiente, graças às trocas
entre o sistema e seu meio; daí decorria que, em termos globais, o conjunto
constituído pelo sistema e seu meio ambiente era o local de um aumento
geral da entropia, em conformidade com o segundo princípio. Mas, uma
vez aceita essa possibilidade teórica, restava saber como isso podia
funcionar.
Que tipos de sistemas abertos são capazes de apresentar tais proprie-·
dades de auto-organização? Quais devem ser as leis que regem as trocas
e a estrutura interna do sistema, de modo que, a partir de um estado
homogêneo, não-organizado, ele possa evoluir, de maneira automática e
necessária, para maior diversidade e complexidade? O caso corriqueiro é
aquele em que um agente externo fabrica o sistema e lhe confere sua forma
e sua complexidade. Nesse caso, o ambiente age por intermédio de um
conjunto de instruções ou de uma série orientada de interações. Mas,
sendo assim, dado que o sistema é organizado de fora por algum outro,
obviamente ele não é auto-organizado. Por outro lado, como a diminuição
da entropia só pode produzir-se num sistema aberto, isto é, pela articula-
ção das interações entre o sistema e o meio, é impossível uma auto-orga-
SOBRE O TEMPO E A IRREVERSIBIUDADE 139

nização no sentido estrito. Se a origem da diminuição da entropia tem que


vir de fora, não pode haver, estritamente falando, uma verdadeira auto-
organização.
Todavia, existem duas possibilidades quanto à natureza lógica da-
quilo que um sistema pode receber do exterior. A primeira é o que
acabamos de considerar: o sistema recebe uma série de impulsos organi-
zados, sua organização futura já se encontra na série de efeitos organiza-
dos que atuam sobre ele e não há razão alguma para falar em auto-orga-
nização.
A outra possibilidade é a de a série de acontecimentos que atuam
sobre o sistema não ser organizada; trata-se de perturbações aleatórias,
sem nenhuma relação causal com o tipo de organizaÇão que aparecerá no
sistema. Quando, sob o efeito dessas perturbações aleatórias, 10 o sistema,
em vez de ser destruído ou desorganizado, reage por um aumento da
complexidade e continua a funcionar, dizemos que ele é auto-organizador.
Naturalmente, é verdade que também não se trata, estritamente, de auto-
organização, já que o sistema recebe impulsos do exterior; mas, sendo
esses impulsos aleatórios, sem relação causal com a organização passada
ou futura do sistema, podemos dizer que este se auto-organiza, porque
reage a isso, não obstante, sem ser desorganizado, mas, ao contrário,
aumentando sua complexidade e sua eficácia. Em outras palavras, a
propriedade de auto-organização parece estar ligada à possibilidade de ele
se servir de perturbações aleatórias, do ..ruído" , para produzir organiza-
ção. Mas, como é possível isso, quando, à primeira vista, as perturbações
aleatórias só parecem dever produzir desordem, desorganização?
Sem entrarmos em detalhes, assinalemos que a termodinâmica do
desequilíbrio traz uma solução para esse paradoxo: trata-se da ordem por
oscilações, 1 1 cujo princípio explica o aparecimento e a manutenção de
estruturas macroscópicas como remoinhos estáveis na água corrente ou
formas estáveis numa chama de vela. O aparecimento de uma estrutura
implica uma certa " ordem", às vezes uma diminuição da entropia, mas,
no caso de estruturas dinâmicas em estado de desequilíbrio, esse apareci-
mento depende de oscilações locais, microscópicas e aleatórias. Por
conseguinte, em razão das restrições impostas ao sistema, em especial as
que intervêm quando diferentes fluxos de matéria e energia são pareados,
pode suceder, sob certas condições, que essas oscilações microscópicas
sejam ampliadas, mas não demasiadamente, e então se estabilizem no
interior da estrutura macroscópica. Prigogine deu a esse tipo de estruturas
a denominação de "estruturas dissipativas". Mais recentemente, por
analogia com o vocabulário da teoria da informação, conservou-se a
expressão ''ordem através das oscilações''.
A partir de uma formalização diferente, mas que não deixa de ter
relação com isso - a da teoria da informação-, a lógica desse tipo de
140 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

fenômenos foi descrita sob o nome de princípio de ordem através do ruído,


ou melhor, de complexidade através do ruído. 12 Tratava-se de compreen-
der como, sob o efeito do ruído, ou seja, de perturbações aleatórias nos
circuitos que transmitem a .informação, é possível obter um aumento da
informação, no sentido de Shannon (medição da complexidade). Isso, é
claro, sem ir contra o teorema fundamental da teoria da informação, que
estipula que, numa via com ruído, a informação transmitida só pode ser
destruída ou, na melhor das hipóteses, conservada, mas nunca aumentada.
Começamos a compreender que existe aí apenas um aparente para-
doxo, devido à ingerência do observador nas operações de mensuração,
todas as vezes que queremos definir a complexidade, a organização, o
aleatório, a ordem e a desordem. Consideramos, de fato, dois níveis
diferentes de observação: o primeiro, ao observarmos a informação trans-
mitida por uma via de comunicação, e o outro, quando observamos o
conteúdo global da informação de um sistema do qual essa via particular
é apenas um elemento. A intuição por trás dessa abordagem é que, ao
diminuir a informação transmitida pelas diversas vias no interior de um
sistema, diminuímos as restrições do conjunto do sistema. Por conseguin-
te, este se torna menos rígido, mais diversificado, mais capaz de se adaptar
a novas situações. Evidentemente, isso só é verdade até certo ponto,
porque, além dele, o sistema se torna tão solto que fica completamente
desorganizado. Mas, dentro de certos limites e sob certas condições, isso
pode funcionar.
Uma abordagem inteiramente diversa, a de uma teoria da evolução
química que conduz a uma crescente complexidade, com aumento da
quantidade de informação no nível molecular, 13 leva a conclusões simila-
res. Num conjunto molecular composto de macromoléculas capazes de
catálise e de auto-reprodução (como, respectivamente, as proteínas e o
ADN), a quantidade de informação, ou, se preferirmos, a diversidade e a
·complexidade, só pode aumentar quando uma certa quantidade de erros,
pequena mas não inexistente, intervém na síntese das moléculas. Esses
erros moleculares desempenham, nesse nível, o papel desempenhado
pelas mutações no nível da evolução das espécies. Também nesse caso,
eles podem estar na origem de modificações que comportam um aumento
da complexidade.
Alguns exemplos da vida cotidiana podem mostrar que tudo isso não
é tão estranho quanto parece. Para começar, podemos pensar nos cachor-
ritlhos artificiais que muitas vezes são colocados na traseira dos automó-
veis. O balanço do carro faz com qQe sua cabeça se mexa de um modo
que imita o de um cão de verdade. Os movimentos da cabeça, aparente-
mente, são orientados: têm um sentido e não são nada aleatórios, embora,
na verdade, o cão só se mova em decorrência das perturbações aleatórias
do veículo. Aqui, estamos na presença de uma utilização do aleatório que
SOBRE O TEMPO E A IRREVERSIBILIDADE 141

é produtora de uina função ordenada. O mesmo acontece com os relógios


automáticos: os movimentos do braço, ao acaso, acionam o mecanismo
do relógio. Poderíamos fornecer exemplos de sistemas em que o aleatório
é utilizado não apenas para produzir uma função, mas também uma
estrutura ordenada. Um desses exemplos foi fornecido por Heínz von
Foerster.'4 Trata-se de um punhado de cubinhos imantados, sendo cada
um deles magnetizado de duas maneiras diferentes, em três faces numa
direção, e em três outras faces na outra. Partimos desse punhado de cubos,
que são colocados numa caixa que fechamos e sacudimos ao acaso. De
tempos em tempos, abrimos a caixa e descobrimos que os cubos se
organizam segundo configurações geométricas mutáveis, que têm a apa-
rência de ir-se construindo gradativamente. Para alguém que desconheça
a imantação dos cubos; realmente parece tratar-se de auto-organização. f:
difícil dizer qual é a causa de uma forma específica no momento em que
a olhamos. Ela é, a princípio, a forma imediatamente precedente, ou seja,
a que existia antes da última sacudidela. Evidentemente, é também esta
última sacudidela, mas esta é totalmente aleatória: é imprevisível e nada
tem a ver com a forma já existente ou com a que passará a existir.
Obviamente, a magnetização está em jogo, mas esta foi regulada de uma
vez por todas no começo. A causa real é uma combinação das três. É nisso
que esse tipo de exemplo pode nos ajudar, numa certa medida, a com-
preender o que poderia ser a auto-organização.
Assim é que, por mais paradoxais e estranhos que possam parecer,
esses princípios de "acaso organizacional" - de "ordem através das
oscilações" - são princípios da lógica e da física que nos facilitam a
compreensão das chamadas propriedades de auto-organização. Estas são
empregadas não apenas no desenvolvimento e no crescimento dos orga-
nismos individuais, não apenas na evolução das espécies, mas também
nos processos de aprendizagem e, mais particularmente, de aprendizagem
não-dirigida. Trata-se, nesse caso, de aprender coisas localmente novas
sem a ajuda de um professor, ou seja, essencialmente a partir da experiên-
cia. Também nesse ponto esbarramos no mesmo tipo de paradoxo: como
aprender pela experiência coisas totalmente novas? Também aqui, a
aquisição de conhecimentos é um processo de aumento da quantidade de
informação. Mas a novidade absoluta nos é estranha e, portanto, não pode
ser integrada em nosso sistema cognitivo. É preciso que já se encontre
nele algo que possa integrá-la; mas, então, não se trata, nesse sentido, de
uma novidade total. Esse paradoxo pode ser resolvido se admitirmos que
um certo grau de aleatório é necessário para que haja aumento real, de tal
modo que o que é aprendido e adquirido seja realmente novo, e não uma
simples repetição do que já é conhecido . 1 ~ Por esse ponto de vista, a
novidade absoluta provém do caráter indeterminado de estímulos que,
desse modo, desempenham o papel de perturbações al.õatc'das d· ; ~íst c:ma
142 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

que afetam. A aquisição de novos conhecimentos através da experiência


é, portanto, um caso particular de aumento da informação sob o efeito do
ruído.

DOIS TIPOS DE INVERSÃO DO TEMPO

Com a ajuda dessas noções sobre o papel do acaso nos processos de


auto-organização, podemos agora voltar à questão da irreversibilidade do
tempo. Mais precisamente, tentaremos, certamente de um modo especu-
lativo, mas que não é desprovido de interesse, analisar as conseqüências
dessas idéias quando elas são extrapoladas e aplicadas, não apenas à
psicologia da aprendizagem, mas também a alguns aspectos da experiên-
cia psicológica do tempo.
Vimos que a direção habitual e irreversível do tempo foi interpreta-
da por Costa de Beauregard como resultado de nossa adaptação ao
ambiente, por intermédio de ações preventivas modificadoras dele. Essas
ações requerem um conhecimento baseado na causalidade, de tal modo
que o futuro possa parecer determinado pelo passado. Mas ocorre que,
justamente, quando utilizamos esse princípio de causalidade, não para o
conhecimento, mas para a ação, quando projetamos o conhecimento do
passado no futuro e prevemos toda uma seqüência de providências para
atingir determinado objetivo, temos a experiência, como vimos anterior-
mente, de uma certa inversão da direção do tempo. Percebemos, portanto,
a existência de causas finais, embora utilizemos um conhecimento que
repousa unicamente no determinismo causal habitual, que exclui, justa-
mente, as causas finais. Isso não constitui um paradoxo. Indica-nos,
apenas, que é oportuno fazer uma distinção clara entre dois tipos de
situação, quando falamos de finalidade, de causas finais e de inversão da
direção do tempo.
O primeiro tipo de situação é o de uma finalidade que aparece
quando alguém tem um projeto, um objetivo a atingir, e realiza ações, uma
após outra, com vistas a alcançar esse objetivo. Em outras palavras, uma
vontade, ou um desejo, rege a seqüência de acontecimentos. Certamente
podemos dizer que nada disso existe, nem vontade, nem intenção, nem
desejo, e assim fundar um determinismo causal estendido à totalidade do
universo: o que se produz resulta apenas de efeitos determinados por
causas anteriores, e o mesmo acontece quando produzimos os aconteci-
mentos. A idéia de que esses acontecimentos resultam de nossa vontade
será definida, nesse caso, como uma ilusão, já que nossa própria vontade
é determinada pelo que ocorreu antes etc. Entretanto, admitir essa postura
não basta para eliminar o problema. Temos o sentimento de · ter uma
vontade ou um desejo que determina as coisas seqüencialmente, e portan-
to, devemos levá-lo em conta de maneira positiva: não basta dizer, simples
SOBRE O TEMro E A IRREVERSIBILIDADE 143

e negativamente, que se trata de uma ilusão; é preciso, também, compreen-


der como funciona esse sentimento e como num certo nível de realidade,
ele aparece tal como é. Esse, pois, é o primeiro tipo de situação em que
observamos causas finais: quando alguém - isto é, um locutor que
podemos ser nós mesmos - nos diz que fez isto ou aquilo com vistas a
isto ou aquilo, quando alguém nos fala - ou quando falo comigo mesmo -
de suas intenções, sua vontade, seu desejo, qualquer que seja o 'nome que
se dê ao sentimento em questão.
Mas existe um outro tipo de situação, muito diferente, que aparece
ao observarmos fenômenos naturais - não artificialmente criados por
outro seres humanos -, e quando estes nos parecem orientados de tal
maneira que as coisas acontecem como se fossem determinadas por um
projeto, ou seja, também por uma vontade, um desejo ou uma intenção.
Naturalmente, esse tipo de situação é encontrado, em especial, quando
observamos os sistemas biológicos em todos os seus níveis de organiza-
ção, exceto, talvez, ;io nível molecular. Isso explica que a biologia tenha
freqüentemente dado margem a toda sorte de especulações místicas ou
religiosas, e nem sempre no melhor sentido: se observamos fenômenos
em que as coisas se produzem de maneira aparentemente finalista, como
se resultassem de uma vontade (mesmo que não haja ninguém para nos
dar informações sobre essa vontade), torna-se tentador, é claro, assimilar
a existência dessa suposta vontade à vontade de Deus ou do Criador. O
que vimos até o momento nos mostra em que sentido essa hipótese não é
necessária, pois começamos a compreender como a matéria pode ser um
locus de fenômenos de àuto-organização: em razão de diversos tipos de
interações entre a ordem e o acaso, amostras de matéria podem evoluir de
tal maneira que, aos olhos do observador externo, parecem determinadas
por seu futuro, embora, na verdade, isso não aconteça.
A verdade é que, nessas situações - e embora não sejamos obriga-
dos a presumir a existência de uma vontade consciente -, estamos
lidando com uma inversão local do tempo, na medida em que se produz
uma diminuição local da entropia. Essa inversão não resulta, é claro, de
uma vontade humana que dite sua orientação, e as vontades humanas são
as únicas que conhecemos, porque a vontade de Deus é apenas uma
abstração da vontade humana.
Assim, lidamos com dois tipos de inversão do tempo: uma se produz
nas ações conscientes e voluntárias do homem, quando existe uma vonta-
de; a outra intervém nos processos físico-químicos - inconscientes - de
auto-organização, quando funciona o princípio da .. complexidade pelo
ruído''. A primeira, que aparece na ação voluntária como expressão de
uma vontade consciente, é a menos poderosa. Na verdade, não se trata de
uma inversão real do tempo, pelo menos por duas razões. Primeiro, essa
inversão só se produz no pensamento, e continua lícito dizermos que ela
144 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

é mais ou menos ilusória: a realização do projeto é efetuada pelos habi-


tuais processos causalistas e produtores de entropia. Segundo, o projeto e
sua realização se apóiam no conhecimento do passado; o próprio projeto
e seu planejamento se baseiam na percepção determinista e causal de
e
ft:nômenos em que as causas precedem as conseqüências, não o inverso.
Isso significa que, mesmo no pensamento, não existe uma inversão real
do tempo, já que, no processo de previsão da ação, o tempo escoa no
sentido causal habitual. E, aliás, foi precisamente isso que permitiu a
Costa de Beauregard afirmar que é o princípio da ação que cria nossa
percepção causal do tempo, de modo a podermos viver num mundo onde
nossa sobrevivência depende da própria adaptação de nossos atos volun-
tários.

"NADA DE Novo SORO SOL"

. Na verdade, apoiando-se nessa percepção determinista, esses processos


de vontade consciente excluem qualquer adaptação a uma verdadeira
novidade. Uma vez que repousam num conhecimento causal, eles se
adaptam a situações em que a ação necessária pode ser deduzida do que
aconteceu anteriormente. Em outras palavras, nesse tipo de processo, o
futuro, de certa maneira, está incluído no passado e não pode ser algo
totalmente novo, imprevisível. 16 Trata-se, se assim podemos dizer; do
mundo do "não há nada de novo sob o sol", do Eclesiastes: se imaginar-·
mos que, por termos o sentimento de uma vontade livre, vamos produzir
uma novidade real, ou que vamos nos adaptar à novidade quando ela
surgir, aí está o livro inteiro do Eclesiastes para nos ensinar que não é bem
assim, a exemplo, aliás, de todas as filosofias do eterno retomo, baseadas
na experiência de que aquilo que prevemos e preparamos para o longo
prazo nunca se concretiza. Em outros termos, essa adaptação por meio de
uma vontade consciente, baseada num conhecimento inteligente e causal,
só é válida a curto prazo. Não é ilusória, funciona. Mas o que é ilusório é
acreditar que ela possa realmente determinar o futuro, num mundo em que
a novidade, em que acontecimentos imprevistos, efetivamente surgem.
Ao contrário, as propriedades dos sistemas auto-organizadores -
baseadas, não no determinismo causal tal como enraizado no conhecimen-
to consciente do passado, mas nos. processos de utilização da desordem e
do acaso - são perfeitamente adaptadas à verdadeira novidade, já que o
aleatório é, por definição, a novidade; é, inclusive, o mais novo que se
pode imaginar. E a auto-organização é apenas um processo de criação e
estabilização da novidade. Por isso, por funcionar utilizando o aleatólio,
ela não pode ser totalmente objeto de previsão e, portanto, não pode
resultar da consciência.
SOBRE O TEMPO E A IRREVERSIBILIDADE 145

Para o Gaon R. Eliahou de Wilna, a alma humana e o tempo estão


pareados pelas diferentes partes que os compõem. 17 Ao intelecto cons-
ciente (nechama) associa-se o passado, à afetividade (ruah), o presente,
e à parcela inconsciente mais próxima do corpo (nefech), o futuro. Fato
interessante, é justamente essa parte inconsciente, sede dos processos
fisiológicos, que está associada ao futuro, e não o intelecto, como se
poderia supor, ''porque o futuro, como o nefech, é da ordem do desco-
nhecido... ·
Da mesma forma, a nechama está associada ao passado, porque
somente o passado pode ser conhecido. Isso ilustra.perfeitamente nossa
colocação: o futuro não é construído por uma vontade consciente, mas por
um processo em que o descon,hecido, o acaso desorganizado, pode se
transformar numa ordem conhecida e organizada.

0 ECLESIASTES E O TEMPO CRIADOR.


IDEALISMO E MATERIALISMO

Por isso, ao "não há nada de .novo sob o sol .. , o comentarista acrescenta:


"mas, acima do sol, existe o novo". Esse acima do sol, por mais estranho
que isso possa parecer, é indicado pela lua. De fato, o tempo ritmado pela
sucessão dos meses lunares exprime, para a consciência hebraica, o
advento do novo. .
Ao contrário, o dos anos solares é mais percebido como o tempo da
repetição. 18 O mundo do sol (que, em hebraico, se diz chemech, de
chamach, servo) é o do determinismo visível, do desenvolvimento do que
já existia (assim como o do servo é apenas a execução daquilo que existia,
ao menos como projeto, no senhor). E também o da consciência, onde tudo
acontece em plena luz. Ao contrário, . o novo, tal como o mês, só pode
surgir, como sugerem as fases da lua, de um processo de destruição e
morte seguido de um renascimento, e só se produz à noite. O lugar e o
tempo da repetição, bem como os da consciência ou do conhecimento do
passado, são a luz do dia. A verdadeira novidade surge à noite, com o
renascimento da lua. É por isso que, apesar de igualmente submetida ao
determinismo do sol (e portanto, por esse ponto de vista, também ela' 'sob
o sol"), a lua é vista como a indicação desse "acima do sol" em que pode
surgir o novo.
Tudo isso pode parecer muito próximo de filosofias idealistas como
as de Bergson, Schelling ou Schopenhauer, para quem as forças ativas são
as de uma vontade inconsciente que age sobre a natureza, enquanto a
consciência e a inteligência são instrumentos particulares por meio dos
quais a espécie humana se adapta a suas necessidades de ação sobre o
meio ambiente. ·
146 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

Na verdade, o que aprendemos da biologia físico-química é muito


diferente. A distinção entre o princípio da ação, baseado na percepção
causal do tempo, e o princípio da auto-organização, mais orgânico e
essencialmente inconsciente, capaz de descobrir e assimilar a novidade,
não deve ser identificada com um idealismo desse tipo, opondo a vida e
a matéria, como testemunham, por exemplo, as seguintes linhas de Berg-
son: ••A inteligência se caracteriza por uma compreensão errônea da vida;
o instinto, ao contrário, toma a própria forma da vida. Enquanto a inteli-
gência trata todas aS coisas mecanicamente, o instinto procede - se assim
podemos expressá-lo - organicamente ... porque só faz dar continuidade
ao trabalho pelo qual a vida organiza a matéria." O que vimos anterior-
mente é muito diferente. O que está na origem do conceito de ••comple-
xidade pelo ruído" ou ··acaso organizacional" bem poderia, de certa
maneira, ser tomado por idealismo, mas podemos igualmente identificar
nele um puro materialismo. Na realidade, não se trata de uma coisa nem
de outra. O que vemos aqui não é ··a vida organizando a matéria", mas
a matéria organizando a si mesma, e o que buscamos são as leis que regem
esses processos de auto-organização. Essas leis, que governam a auto-or-
ganização da matéria, podem servir, aliás, para compreender a aprendiza-
gem e a aquisição do conhecimento, isto é, fenômenos que implicam a
utilização da inteligência e que não são apenas inconscientes (pensamos,
por exemplo, nos trabalhos de Piaget). Por este último ponto de vista,
portanto, tudo isso pode parecer muito materialista. Mas, por outro lado,
essas leis utilizam conceitos muito abstratos, como os de informação,
aleatório, organização etc., e a significação desses conceitos certamente
não deve ser buscada numa matéria pura, totalmente isolada das catego-
rias de nossa mente. Eis-nos portanto, ao que parece, de novo muito
idealistas. De fato, esse modo de pensar não pertence nem a um campo
nem ao outro; não decorre nem uillcamente do espírito, nem unicamente
da matéria, mas da interação entre ambos, tal como se produz, necessa-
riamente, todas as vezes que uma observação e uma mensuração são
efetuadas, observações e mensurações estas que se acham na base de todas
as ciências experimentais. Não surpreende, por conseguinte, que a teoria
da informação, que desempenha um papel fundamental nesse modo de
pensar, também forneça à física uma teoria da mensuração (Brillouin,
1956). Isso mostra, entre outras coisas, que convém sermos muito pruden-
tes quando tentamos basear uma metafísica no conhecimento científico,
porque esse conhecimento evolui e porque, além disso, em cada momento
da história das ciências, as metafísicas inspiradas num mestno corpo de
teorias científicas são múltiplas e contraditórias. Na realidade, como
sempre aconteceu, os velhos problemas filosóficos e metafísicos são hoje
.abordados sob um novo ângulo e com novos conc'eitos, graças aos avanços
das ciências da natureza, e isso é tudo o que podemos fazer: renovar a
SOBRE O TEMPO E A IRREVERSIBIUDADE 147

abordagem dos velhos problemas, utilizando novos conceitos. Isso é


verdade em relação aos problemas de nossa filosofia greco-ocidental, mas
também o é quando examinamos os mesmos problemas através da lingua-
gem da tradição judaica. Aliás, evocaremos muito rapidamente a maneira
como os atuais discursos científicos nos permitem ler e reagir a alguns
ensinamentos tradicionais, mesmo sabendo perfeitamente que essas só _
poderão ser projeções de uma linguagem em outra. Mas não há nada akm
de projeções dessa natureza. Comumente, nos inúmeros círculos tradicio-
nais - mesmo fechados-, essas projeções também existem, mas per-
manecem inconscientes; porque o que se projeta na linguagem da tradição
não são outra coisa senão antigos conceitos filosóficos, aceitos e caídos
no domínio público, sem que ninguém mais conheça sua origem. Inver-
samente, a linguagem da tradição também pode ser projetada como
contexto teórico possível, em alguns problemas científicos atuais. Tente-
mos, pois, no que nos concerne, fazê-lo conscientemente, sabendo que o
estamos fazendo e como o estamos fazendo, isto é, utilizando pelo menos
os conceitos da ciência contemporânea, e não os do passado; assim,
mesmo utilizando duas linguagens diferentes, nossa investigação será
mais unificada, com a própria unidade de nossa vida de hoje, com um pé
(ou um hemisfério cerebral?) em cada cultura.
Para Newton e, depois dele, a mecânica clássica, o tempo era uma
espécie de Deus transcendental: o contexto imutável que permitia que os
movimentos e as mudanças se produzissem, o unificador inalterável de
todos os movimentos e todas as mudanças. Dentro desse mundo, os seres
vivos não podiam aparecer de outra maneira que não fadados à destruição
e à morte; o tempo era uma versão moderna do deus grego Cronos,
devorador de seus filhos. Nesse mundo, o aparecimento da vida, o nasci-
mento e o desenvolvimento dos organismos vivos só podiam ser um
escândalo aos olhos dos físicos, porque, parecendo desenrolar-se num
sentido contrário à ordem normal das coisas, eram incompreensíveis.
Atualmente, é possível desfazer o escândalo e começar a com-
preender leis físicas de diminuição da entropia e de aumento da informa-
ção e da organização, mesmo que, de um ponto de vista formal, essas leis
possam implicar uma inversão da direção do tempo. Nos dias atuais,
quando a física e a química penetraram totalmente na biologia, poder-
se-ia crer que nos encontraríamos de novo sob a lei do Deus mecânico
newtoniano. E, de repente, não foi assim. A física tomou-se uma nova
física, onde a desordem, as oscilações, o ruído e o aleatório são levados
em conta: não constituem o pano de fundo puramente negativo onde
surgem a ordem, a organização e a vida. Doravante, o acaso, o ruído e
os próprios processos da morte desempenham um papel positivo nos
processos de vida, isto é, na organização, na aprendizagem e na matura-
ção. A direção das mudanças - o próprio tempo - já não é um contexto
148 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

-único que se impõe a tudo. O tempo e sua direção são, por assim dizer,
..escoados.. no interior de cada sistema em movimento. 19 Em outras
palavras, as coordenadas do espaço e do tempo não são dados primários;
não são o contexto universal onde se produzem os acontecimentos e as
mudanças... E, da mesma maneira, a vontade consciente não é nosso
primeiríssimo componente.
Como componente primário e fundamental, determinante de nossa
realidade, a vontade consciente é uma ilusão, ainda que, como realidade
derivada, ela exista e funcione. Nossos componentes primários são, de um
lado, um conhecimento ou memória consciente voltada para o passado e,
de outro, uma orientação inconsciente dos processos, à qual podemos
chamar vontade, se o desejarmos, mas que é uma vontade totalmente
inconsciente e que determina, como tal, um futuro em que a novidade pode
ocorrer. Os eventos, as mudanças, os movimentos, o acaso: são estes os
dados primordiais, pareados com uma memória, mecanismo estabilizador.
Todo sistema individual é regido e orientado de acordo com seu próprio
quadro de referências. Esse quadro resulta da estrutura do próprio sistema,
mas também de suas relações mútuas com outros sistemas; e, nesse
sentido, esse quadro de referências tampouco é inteiramente arbitrário,
porque não está isolado do restante do universo. ·
Num mundo assim conceituado, onde a complexidade da organiza~
ção é levada em conta, bem como sua natureza hierárquica (isto é, as
interações entre sistemas que conduzem a sistemas integrados mais im-
portantes), depende da estrutura do próprio sistema que o acaso seja fonte
de destruição ou de criação. Num mundo assim - ao contrário do de
Newton-, o tempo r.parece mais como uma espécie de deus imanente,
um pouco à maneira como R. Haim de Volozhin e alguns comentadores
hassidim nos pedem para ler uma célebre passagem do. Tratado dos
Patriarcas, invertendo sua habitual significação moralizadora e transcen-
dentalista-, "Sabe o que acima de ti" 2 º -, compreendida nos catecis-
mos como " Sabe o que está acima de ti'', numa leitura igualmente correta
do ponto de vista da gramática hebraica: "Sabe que o que está acima (e
determina as coisas) vem de ti." Essa idéia se acha na raiz da confiança
ilimitada em que tudo nos é dado para sermos transformados e reordena-
dos, em que, em última ínstância, a própria morte possa ser vencida. (Na
medida em que os processos de organização dos sistemas vivos contêm
a morte como parte integrante responsável por sua incessante transfor-
mação - através da desorganização-reorganização - , a idéia da
vitória sobre a morte pode ser compreendida como uma espécie de
passagem extrema, postulando que essa transformação possa um dia ser
"completa.. !) ·
De um modo diferente, essa mesma idéia é expressa na literatura
hassidim de uma forma semelhante a uma espécie de princípio da ordem
a partir da desordem. Trata-se do tikkun haolam . correção ou arranjo,
SOBRE O TEMPO E A IRREVERSIBILIDADE 149

pelos seres humanos, de um mundo que teria sido falseado ou desarruma-


do. Nesse aspecto, segundo R. Nahman de Brazlav, ..toda a questão
consiste em incluir a categoria do não-ordenado na do ordenado". Em
outras palavras, não se trata de perseguir, de destruir a desordem, ou de
agir como se ela não existisse, mas de incluí-la na própria ordem. Ora,
evidentemente, isso só é possível se essa ordem for tal que possa se prestar
a tanto: a desordem e o acaso devem, necessariamente, fazer parte dela.
De fato, eles constituem, como vimos, o elemento criador, aquele que gera
a novidade. Vimos como a biologia moderna, armada com a cibernética,
nos ensina sua possibilidade efetiva no mundo físico; e ela nós dá, ao.
mesmo tempo, o meio de fundamentar mais solidamente a intuição -
bergsoniana, entre outras - de um poder criador do tempo, sem no
entanto nos fazer enveredar pelo caminho de um ideaiismo de difícil
sustentação.
Esse poder criador pressupõe uma inversão do tempo (por oposição
ao escoar determinista e causalista dos acontecimentos): em outras pala-
vras, o que advém - o processo contínuo do ser que se renova - parece
determinado pelo que irá acontecer (e que não é conhecido hoje), mais do
que pelo que já aconteceu: mais pelo futuro do que pelo passado. Como
vimos, estamos começando a compreender como isso é possível no
desenvolvimento epigenético, onde a individualidade resulta, não de uma
vontade consciente, e portanto, não - nesse sentido - da ''vontade de
Deus'', mas das interações não determinadas de um pseudoprograma com
o meio ambiente. Esse poder criador do tempo é também o que, de maneir:i
mais subjetiva, sentimos durante a infância e a juventude, enquanto, parn
um homem idoso, o presente parece cada vez mais ser uma repetição do
passado. (Um desejo de modificar esse estado de coisas e vencer o enve-
lhecimento e a morte pode ser visto como estando na origem das doutrinãs
sobre o "mundo futuro", que permitem aos homens, apesar do envelb'°-
cimento e da morte, continuar a imaginar um futuro desconhecido.)
A biologia físico-química nos indica - sem por isso nos dar
nenhuma receita, é claro - como tudo isso é teoricamente possível, pek·
menos em princípio, e como funciona nos sistemas biológicos em desen -
volvimento. Exatamente, embora de maneira abstrata, isso pode se resu-
mir assim: a habitual direção irreversível do tempo se inverte nos proces-
sos em que a entropia de um sistema aberto decresce e em que a
informação e a organização são criadas através da utilização de interações
aleatórias do sistema com seu ambiente. Isso é apenas uma conseqüência
direta do fato de que o habitual caráter irreversível do tempo, na física, é
- determinado pela lei do aumento da entropia. De fato, daí decorre que,
quando se pode produzir uma diminuição da entropia em algum lugar, é
como se a direção do tempo, localmente, fosse invertida nesse ponto; o
que equivale a dizer que a passagem do tempo, de destrutiva, toma-se
criadora.
150 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

REFER~NCIAS BIBLIOGRÁFICAS

l. O. Costa de Beauregard, "Two Principies ofthe Science ofTime", Ann. N. Y.


Acad. Sei., 138, art. 2, 1967, p. 407-21.
2. O. Costa de Beauregard, Le second príncipe de la science du temps, Paris,
Seuil, 1963.
3. O. Costa de-Beauregard, "Récents progrés dans l'analyse de l 'irréversibilité
physique", in Sadi Carnot e l'essor de la thermo-dynamique, Paris, CNRS,
1976, p. 413-22.
4. O. Costa de Beauregard, "Réflexions sur l'irréversibilité physique'', in A .
Lichnérowicz, F. Perroux e G. Gadoffre (orgs.), L'Idée de régulation dans
les sciences, Paris, Maloine-Doin, 1977, p. 193-203. .
5. H. Atlan, L'Organisation biologique et la théorie de l'information , Paris,
Hermann, 1972.
6. H. Atlan, "Conscience et désirs dans des systemes auto-organisateurs", in
E. Morin e M . Piattelli-Palmarini (orgs.), L 'Unité de l'homme, Paris, Seuil,
1974, p. 449-75, 487-90, e também supra, p. 113.
7. H. Atlan, ''On a Formal Definition of Organisation' ', Journ. Theoret. Biol.,
45, 1974, p. 295-304.
8. K.R. Popper, "The Arrow of Time'', Nature, 17 de março de 1956, v. 177,
p. 538.
9. E.L. Hill e A. Grunbaum, "lrreversible Processes in Physical Theory",
Nature, 22 de junho de 1957, v. 179, p. l.296-7. ·
10. K.R. Popper, "Irreversible Processes in Physical Theory' ', Nature, 22 de
junho de 1957, V. 179, p. l.297.
11. K.R. Popper, "Time'sArrow and Entropy",Nature, 17 de julho de 1965, v.
207, n2 4.994, p. 233-4.
12. R.G. Sachs, "Can the Direction of Flow of Time be Determined?", Science,
1963, V. 140, p. l.284-90.
13. E.T. Jaynes, "lnformation Theory and Statistical Mechanics", Physical
Review, 106, 1957, p. 620-30.
14. A. Katz, Principies of Statistical Mechanics: The Jnformation Theory Ap-
proach, San Francisco, W.H. Freeman Publ., 1965.
15. P. Glansdorff e 1. Prigogine, Structure, stabilité etjluctuations, Paris, Mas-
son, 1971.
16. Glansdorff, P. e Prigogine, 1., "Entropie, structure et dynamique'', in Sadi
Carnot et l'essor de la thermodynamique, Paris, CNRS, 1976, p . 299-315.
17. 1. Prigogine, "Order through Fluctuations: Self-organization and Social
System", in E. Jantsch e C.H. Waddington (orgs.), Evolution and Conscious-
ness, Reading, Mass., Addison Wesley, 1976, p. 93-131.
18. 1. Prigogine, C. George, F. Henine L. Rosenfeld, "A Unified Formulation of
Dynamics and Thermodynamics'', Chemical Scripta, 4, 1973, p. 5-32.
19. J. Ullmo, "Le principe de carnot et la philosophie", in Sadi Carnot et l'essor
de la thermodynamique, Paris, CNRS, 1976, p. 399-408.
20. L. Brillouin, La science et la théorie de l'information, Paris, Masson, 1956.
21. A. Pacault e C. Vida!, A chacun son temps, Paris, Flammarion, 1975.
7

VARIABILIDADE DAS CULTURAS


E VARIABILIDADE GENÉTICA 1

1. A NOÇÃO DE SELEÇÃO CULTURAL

Hoje se aceita comumente a idéia de que a evolução biológica da espécie


humana lentificou-se consideravelmente e foi substituída pot'"uma evolu-
ção cultural. As curvas do aumento do volume do crânio, superpostas por
A. Leroi-Gourhan [3]* às da evolução das técnicas, são uma espetacular
ilustração disso. Mas então se coloca a questão da possibilidade de um
feedback de fatores culturais sobre os mecanismos da evolução biológica.
Essa idéia, aliás, não é nova. A idéia de que a cultura modifica o
patrimônio genético remonta, pelo menos, a Lamarck, tendo sido mais
recentemente retomada por Lysenko, com o sucesso que conhecemos. Em
outras palavras, ela sofreu, na biologia moderna, o destino do lamarckis-
mo, definitivamente condenado a partir do momento em que a heredita-
riedade dos caracteres adquiridos foi definitivamente rejeitada como a
heresia genética por excelência. De fato, como poderiam fatores culturais,
e portanto, necessariamente adquiridos, inscrever-se no patrimônio gené-
tico a ponto de se tomarem hereditários? Entretanto, no que concerne às
primeiras etapas da hominização, o papel dinâmico de semelhante feed-
back foi extensamente analisado por investigadores como A. Leroi-Gour-
han [3], S. Moscovici [6] e E. Morin [5]. Nesse caso, fenômenos sócio-
culturais como a invenção da caça coletiva podem ter estado na origem
de mudanças do ambiente simultaneamente naturais, como a saída das
florestas para as savanas, e sociais, que podem ter provocado alterações
qualitativas nas pressões de seleção na origem de uma nova orientação da
evolução biológica, que teriam finalmente conduzido ao Homo sapiens
Neanderthalis, adaptado a esse novo ambiente.

* As referências bibliográficas, indicadas entre colchetes, estão reunidas no final do


capftulo.

15 1
154 ENTRE o CRISTAL E A FUMAÇA

2. VARIABILIDADE CULTURAL E VARIABILIDADE GENÉTICA

Se admitirmos que a variabilidade genética global é um fator favorável à


sobrevivência da espécie humana, por condicionar a adaptabilidade, a
questão que aqui formulamos se reduzirá à da importância da variabilida-
de cultural como fator de sobrevivência da espécie humana. De fato, se a
seleção cultural é eficaz na modificação dos patrimônios genéticos das
populações, a variabilidade das culturas deve ser, inevitavelmente, res-
ponsável por uma parcela importante da variabilidade genética global da
espécie humana.
Em outras palavras, considerada essa hipótese, se uma tendência à
homogeneização das culturas, do tipo daquela a que assistimos atualmen-
te, facilita, pelo menos em termos superficiais, as comunicações, ela
poderia não ter apenas vantagens do ponto de vista das capacidades
adaptativas da espécie humana, na medida em que uma certa heterogenei-
dade das culturas poderia reforçar a diversidade dos patrimônios genéti-
cos. Salientemos em que aspecto essa hipótese deve ser cuidadosamente
distinguida das teorias racistas, cujos malefícios conhecemos bem de-
mais: a variabilidade cultural pode ser um fator de variabilidade genética
e aumentar, nesse sentido, as aptidões adaptativas da espécie inteira, sem
que isso implique minimamente um determinismo racial genético, no
nível do indivíduo, com as noções de superioridade ou inferioridade
ligadas a isso, uma vez que se trata apenas de efeitos estatísticos nas
distribuições de freqüência de genes que, de qualquer maneira, existem
em todas as populações. Além disso, sabemos que, quando uma população
é totalmente isolada, as probabilidades de homogeneização genética ao
acaso (a "deriva" genética em genes seletivamente "neutros") são muito
mais elevadas do que quando, a cada geração, uma fração não-insignifi-
cante dos indivíduos é composta de imigrantes. Dito de outra maneira, a
divisão da espécie humana em pseudo-isolamentos revela um caráter
favorável, em princípio, por seu aspecto duplo: não apenas o isolamento,
que permitiria à variabilidade cultural acrescentar sua parcela à manuten-
ção de uma variabilidade genética intergrupal, mas também o caráter
relativo desse isolamento, que eleva, por outro lado, a variabilidade
interindividual no interior dos grupos.
Esse caráter de pseudo-isolamentos - nem isolamento total, nem
panmiscigenação - seria, assim, um optimum do ponto de vista do valor
seletivo da espécie. Segundo os esquemas explicativos habituais, não
desprovidos de circularidade, assim explicaríamos, a posteriori, sua exis-
tência e sua manutenção ao longo de toda a história da humanidade: se a
divisão em isolamentos tivesse tido um valor seletivo mais elevado, ela é
que teria sido selecionada; da mesma forma, se a panmiscigenação total
tivesse tido um valor seletivo mais elevado, ela é que teria sido selecio-
VARIABILIDADE DAS CULTURAS E VARJABILIDADE GENETICA 155

nada ... A menos que, por razões históricas e geográficas, esta última ainda
não tenha tido tempo de ocorrer, e que a civilização mundial para a qual
parecemos tender seja, de fato, a primeira oportunidade que' lhe será dada
de testar seu valor. Uma maneira de decidir entre essas alternativas (antes
de esperar pelo veredicto do futuro, com o risco de fracasso, e portanto,
de desaparecimento que ele comporta) consistiria em poder medir, como
indicamos anteriormente, a eficácia do mecanismo da seleção cultural na
manutenção da variabilidade genética global da espécie humana.

Agradecimentos

O autor agradece aos Srs. J. Ruffié, A. Jacquard e L. Poliakov, que tiveram a


gentileza de debater as idéias aqui expostas, antes e depois da leitura do manus-
crito.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. H. Atlan, L 'Organisation biologique et la Théorie de l'information, Paris,


Hcrmann, 1972.
2. A. Jacquard, "L'Évolutionnisme évolue", La Recherche, 1975, 54, p. 176-7 .
3. A. Leroi-Gourhan, Le geste et la parole, Paris, Albin Michel, 1972.
4. Lewontin, The Genetic Basis of Evolutionary Change, Columbia University
Press, 197 4.
5. E. Morin, Le paradigme perdu : la nature humaine, Paris, Seuil, 1973.
6. S. Moscovici, La société contre nature, Paris, UGE, col. "l 0-18", 1972.
7. J. Ruffié e J. Bernard, "Peuplement du Sud-Ouest européen. Les relations
entre la biologie et laculture ", Cah. Anthropol. Écol. Hum., II (2), 3-18, 1974.
8. A. E. Mourant, A. C. Kopec e K. Domaniewska-Sobzac, The Genetics of
Jews, Clarendon Press, Oxford, 1978.
TERCEIRA PARTE

PARENTES E SEMELHANTES

·'Pela rivalidade dos escribas aumenta a sabedoria.''


Talmude da Babilónia, Baba Batra, p. 2l(a).
"O sábio é superior ao profeta."
Talmude da Babilónia, Baba Batra, p. 12(a).

Que a pesquisa científica e o método experimental não impeçam que se ouçam


outras maneiras de pensar, provenientes da filosofia e das mais antigas tradições.
Mesmo com o risco de·serem chamados de místicos, enquanto que, para outros,
ao contrário, mais em busca de profecia que de teoria, tratar-se-ia, principalmente,
de não ficarem prisioneiros de uma golilha obsoleta e mortífera, fadada a se
romper neste fim de século, que é ao mesmo tempo fim de milênio e de civilização!
É verdade que, não nos querendo encerrados, às vezes beiramos os dois abismos
da facilidade e do repouso que são a ciência universitária, douta, conformista e
institucionalizada, e os delírios-delícias da contracultura, da anticiência e da arte
profética. Daí, talvez, a importância desses contatos - desses distanciamentos
entre parentes que assim se reconhecem como semelhantes. Esses debates, cujo
desafio consiste em não cair em nenhum desses abismos - cristal e fumaça-,
só hão de parecer supérfluos àqueles que tiverem definitivamente escolhido uma
das bordas.
"Então se difundirá o ódio aos sábios, 'que irão de cidade em cidade e serão
rejeitados' (Talmude da Babilónia, Sota, p. 49b) . A fonte disso será uma inextin-
guível sede de profetas, após todos estes séculos em que a sabedoria, querendo
cumprir a profecia, quase tiver logrado sufocá-la. Então se levantarão novos
profetas, discípulos de Moisés, profeta do vitral transparente, unindo sabedoria e
profecia, inclinando-se e confessando: ' o sábio é superior ao profeta. "' (Segundo
Orot, A. I. H. Kook, p. 121.)
8

HIPERCOMPLEXIDADE E CIÊNCIA DO HüMEM 1

0 PARADIGMA DO "FALAR JUNTO"

"Todos sabemos ser animais da classe dos mamíferos, da ordem dqs


primatas, da família dos homínidas, do gênero Homo e da espécie sapiens;
que nosso corpo é uma máquina de trinta bilhões de células, controlada e
procriada por um sistema genético, que se constituiu no curso de uma
evolução natural com duração de 2 a 4 bilhões de anos; que o cérebro com
que pensamos, a boca pela qual falamos e a mão com que escrevemos são
órgãos biológicos; mas esse saber é tão inoperante quanto o que nos
informou que nosso organismo é constituído de combinações de carbono,
hidrogênio, oxigênio e azoto" (p. 19). "É preciso ligarmos o homem
razoável (sapiens) ao homem louco (demens), ao homem produtor, ao
homem técnico, ao homem construtor, ao homem ansioso, ao homem
gozador, ao homem arrebatado, ao homem cantor e dançarino, ao homem
instável, ao homem subjetivo, ao homem imaginário, ao homem mitoló-
gico, ao homeni crítico, ao homem neurótico, ao homem erótico, ao
homem lascivo, ao homem destruidor, ao homem consciente, ao homem
inconsciente, ao homem mágico e ao homem racional, num rosto de
múltiplas faces em que o homínida se transforme definitivamente em
homem" (p. 164).
Enquanto o método científico tem consistido, até o momento, em
isolar os fatos naturais para transformá-los em objetos de laboratório,
submetidos a experiências repetitivas às quais o método experimental
pôde ser aplicado, somos aqui solicitados a "pensar juntos" (p. 105)
alguns termos que, até o presente, só o foram em separado, no interior de
pelo menos três campos distintos do pensamento e da experiência, quais
sejam, a análise do psiquismo, a sociologia e a biologia. O que se propõe
neste livro, para esse pensar em conjunto e assim fundar o novo paradig-
ma, é uma lógica da hipercomplexidade e da auto-organização, decerto
ainda balbuciante, mas já esboçada em outro lugar,2 e que Edgar Mórin
anuncia sob a forma de uma futura obra sobre úz Méthode [0 _~étodo]. 3

159
160 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

Em Le paradigme perdu: la nature humaine [O paradigma perdido:


a natureza humana}, ele tenta, a partir de um saber atual disperso e estéril,
estéril porque disperso, juntar os pedaços. Trata-se dos pedaços do que se
pode afigurar como um vaso repetidamente quebrado, essa natureza
humana que se despedaçou e se esvaneceu todas as vezes que acreditaram
delimitá-la. Mas esses pedaços dispersos, Morin os transforma, diante de
nossos olhos, em elementos de um quebra-cabeça apaixonante, embora
de um gênero único, visto tratar-se de um quebra-cabeça que se constrói
e se desmancha ininterruptamente, cujos elementos mudam de estrutura,
e portanto, de função, à medida que a construção vai sendo feita e através
dos sucessivos nascimentos. Um super quebra-cabeça, portanto, onde não
basta atribuir um lugar a cada elemento para ganhar, porque há vários
lugares possíveis, várias soluções possíveis, ao mesmo tempo e sucessi-
vamente: porque se trata, enfim, de um quebra-cabeça do acaso e da
organização.
Alguns livros 4 exprimem mais do que outros, ao mesmo tempo que
precipitam, as mudanças de ponto de vista e as viradas de perspectiva que
ocorrem na história do pensamento - aquilo a que Foucault chamou
mutações do saber, e que Kuhn chama de mudanças dos paradigmas.
Uma reflexão crítica sobre a história das ciências e das descobertas
leva, efetivamente, a reconhecer que os discursos científicos, longe de
serem "absolutamente" objetivos e racionais, são, na verdade, condicio-
nados e inconscientes em formas de pensamento difusas, e em última
instância anônimas, que caracterizam épocas, sociedades e linguagens.
Determinada descoberta não pôde ocorrer numa dada época, muito em-
bora todos os elementos de conhecimento, experimentais e teóricos,
estivessem presentes, porque o paradigma dominante, "modelo concei-
tuai que comanda todos os discursos" (p. 22), não lhe deu nenhuma
margem. Passados alguns anos ou décadas, embora os conhecimentos não
tenham aumentado tanto, objetiva e quantitativamente, elas são revistas
sob um prisma inteiramente novo, à luz de que8tões que nem sequer eram
suspeitadas, e então se juntam com toda naturalidade num novo discurso
onde a novidade, ao mesmo tempo, é a do universo conceituai da época,
que passa a invadir todos os discursos, de um modo tão ' 'natural•• e
coercitivo que a própria possibilidade de que ele fosse diferente é esque-
cida ou relegada ao âmbito das divagações ultrapassadas, pueris, ingênuas
ou ignorantes do século de obscurantismo que sempre precede aquele em
que nos encontramos. Em The Structure of Scientijic RevolutiollS [A
estrutura das revoluções científicas], Kuhn descreve como "incomensu-
ráveis" os sucessivos paradigmas que permitiram - e depois bloquea-
ram, antes de serem substituídos - as evoluções científicas: os elementos
de conhecimento, que podem ser os mesmos, são reunidos em discursos
que, no sentido próprio e figurado, não falam a mesma linguagem. Cedo,
HIPERCOMPLEXIDADE E ClflNCIA DO HOMEM 161

de uma só vez, triaro-se e se modificam os elementos de conhecimento


que são percebidos como significativos, importantes, e que relegam os
demais à categoria de epifenômenos, o que tem como efeito tomar essas
linguagens ainda mais herméticas umas para as outras. Foi o que comen-
tou Chargaff (Science, 14 de maio de 1971, p. 637): .. É quase impossível
retraçar o curso da história das ciências até uma etapa anterior, porque
teríamos que esquecer muito daquilo que aprendemos, e, além disso,
grande parte do que uma época anterior conheceu ou julgou conhecer
simplesmente nunca foi aprendido por nós: Devemos lembrar que as
ciências da natureza são tanto uma luta contra quanto a favor dos fatos .··
É possível sustentar que esse conceito de paradigma ainda está longe
de ser evidente, e que, de qualquer modo, ele mesmo é uma construção
(resultante ... de um paradigma?) "no interior das ciências sociais, a
propósito das ciências da natureza" (W. J. Fraser, Science, 3 de setembro
de 1971, p. 868). Seja como for, ele relativiza, como convém, os sucessi-
vos discursos da ciência ocidental, situando-os em relação aos discursos
não-científicos, bem como uns em relação aos outros. Ao mesmo tempo,
ele permite compreender o como e o porquê das revoluções científicas,
conseqüências e causas, ao mesmo tempo, je crises mais gerais do
pensamento, da representação, do discurso e até da percepção: as muta-
ções do saber que Foucault descreveu e nomeou em As palavras e as
coisas.
A microfísica, desde o começo do século, e· a biologia molecular,
há cerca de vinte anos, ensinam-nos coisas ''bizarras'', onde o bom senso
comum se reencontra dificilmente, e que forçam a questionamentos de /
pares conceituais como realidade e representação, ordem e desordem, ·
acaso e determinismo, pedras angulares do antigo paradigma dentro do
qual a ciência vinha progredindo majestosamente, no caminho da verdade
objetiva que se revelava, sem ambigüidade, ao homem munido da razão
e do método experimental. Ao mesmo tempo, essa própria imagem do
homem racional, desligado de sua animalidade e dominando o mundo,
desmoronou sob os golpes da psicanálise, da etnologia e da "crise" da
civilização ocidental, cujas ideologias todas, supostas continuadoras ou
substitutas das pregações cristãs, revelaram-se, uma após outra, fontes de
perversão. Por isso, não surpreende que, há uns dez anos, os discursos
sobre o homem tenham começado a se tomar cada vez mais inaudíveis.
E eis que Morin ousa apostar num discurso renovado sobre o
homem, que fora convocado por M. Foucault no final de As palavras e as
coisas, mas que ninguém, aparentemente, queria iniciar. É que, ao mesmo
tempo, deveria tratar-se - e é exatamente o que acontece nesse livro de
Morin - de um discurso sobre as condições da renovação do discurso
sobre o Homo sapiens e seu ambiente, condições epistemológicas ligadas
ao estado atual das ciências biológicas, sociais e antropológica5 em que
162 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

se descobrem e se moldam múltiplas imagens humanas. Entrementes,


deveria tratar-se também, em contrapartida, de uma reavaliação do que
nos é ensinado por essas ciências, às vezes até sem o conhecimento
daqueles que as ensinam - o que não chega a surpreender, vista a
especialização necessária e a compartimentalização concomitante, deplo-
rada mas raramente evitada, entre essas disciplinas. Daí o título, " para-
digma", decerto perdido, até hoje, nos discursos humanistas que impli-
cam uma cultura extratiatural, separada da animalidade e superposta a
uma natureza biológica - animal -, humanizando-a; mas também um
novo paradigma, recriado, que emerge aqui e ali e já se deixa entrever
quando, como declara o autor, nos recusamos a nos deixar encerrar nas
disciplinas fechadas e a recalcar as indagações impertinentes, "não-cien-
tíficas" - ou seja, rejeitadas pelo paradigma antigo-, mas que nos são
sugeridas pela simples justaposição e pela articulação instável dos ensi-
namentos dessas diferentes disciplinas.

A REVOLUÇÃO BIOLÓGICA E A AUTO-ORGANIZAÇÃO

São conhecidas as teses principais do livro, expostas já na primeira parte.


Um lembrete das conseqüências implícitas, e no mais das vezes mascara-
das, da revolução biológica, ao qual Morin já nos havia habituado em
artigos anteriores. Uma revolução "por baixo'', que desmonta os meca-
nismos físico-químicos da replicação dos genes e de sua expressão, numa
demonstração fragorosa da justeza das concepções antivitalistas, através
do isolamento de moléculas cujas simples características físico-químicas
podem explicar propriedades até então misteriosas da matéria viva: a
transmissão e a expressão dos .caracteres hereditários. Mas também, ao
mesmo tempo, uma revolução ''por cima'', pela introdução, na biologia,
de conceitos como comunicação, informação, código, mensagem, progra-
ma etc., ''extraídos da experiência de relações humanas que até então
pareciam indissociáveis da complexidade psicossocial" (p. 27).
· Esses conceitos, tal como se apresentam e a despeito de suas
ambigüidades, desempenham um papel explicativo fundamental e, por
ora, indispensável, na passagem do nível molecular para o do organismo
funcional, até mesmo o mais simples. Daí as novas questões que inevita-
velmente se colocam, desde que não nos deixemos atormentar pelo peso
das antigas disputas. De fato, já nesse nível, o antigo paradigma é fonte
de bloqueios: preocupadíssima com o combate antivitalista, a biologia
moderna só preserva de suas aquisições aquilo que lhe permite triunfar
sobre seu velho inimigo. Mesmo já estando ele morto há muito tempo,
continuamos ocupados em matá-lo reiteradamente, desprezando o prodi-
gioso ponto de partida que essas mesmas aquisições constituem, através
das novas questões que elas fazem surgir e que nada têm a ver com o velho
HIPERCOMPLEXIDAi>E E Cl~NCIA DO HOMEM 163

combate. A biologia moderna desempenha um papel absolutamente pri-


vilegiado para nos fazer apanhar em flagrante os mecanismos da passa-
gem de um paradigma para outro. A maioria de seus discursos explícitos
ainda se inscreve no antigo paradigma. Mas as questões a que esses
próprios discursos dão origem contribuem para a eclosão do novo. Por
isso os discursos de alguns biólogos que se pretendem ortodoxos tendem,
muitas vezes, a recalcar essas questões como ''não-científicas' ' , enquanto
outros, ao contrário, evocam a impressão de fechamento, término ou
"sufocamento" 5 da biologia molecular, já encerrada em seus dogmas,
mal decorridos trinta anos desde sua estréia.
Para Morin, evidentemente, não há porque deixar-se encerrar e,
muito pelo contrário, a nova biologia pode - ou poderia! - fornecer um
quadro de referência e meios de ligação bio-antropológicos. Graças a ela,
que já não está "fechada a todas as qualidades ou faculdades que ultra-
passam estritamente a fisiologia, isto é, a tudo o que, nos seres vivos, é
comunicação, conhecimento ou inteligência" (p. 23), a antropologia
poderá finalmente tentar superar sua impotência diante do problema da
relação homem/natureza. Não podemos impedir-nos de ver nesse projeto
- ou nessa esperança - uma relação com a iniciativa de Piaget, que se
situa principalmente no nível do desenvolvimento do indivíduo, enquanto
Morin enfatiza o das sociedades. Mas logo desponta o que virá a ser o
leitmotiv de todo o livro, a saber, o papel epistemológico central de uma
reflexão sobre a complexidade e a complexificação. Verificamos, de fato,
que a revolução "por cima" não é apenas superposta à revolução "por
baixo'', porque "a abertura físico-química" da biologia é, ao mesmo
tempo e em si mesma, uma abertura psicossocial, em função do papel
central, simultaneamente diferenciador e unificador, nela desempenhado
pela complexidade. É a complexidade que diferencia a físico-química
biológica da outra físico-química. E é a co_m plexidade que aproxima a
biologia físico-química da lógica das relações psicossociais. Entretanto,
complexidade e complexificação - sem falar em organização - ainda
são conceitos vagos e intuitivos. Pois bem, a ciência da complexidade, da
organização, e sobretudo da auto-organização, é o que, para Morin, na
trilha de von Neumann e outros, irá constituir o núcleo do novo paradig-
ma. Sabemos que a elucidação e a exatidão dos novos conceitos muitas
vezes caminham de mãos dadas com a emergência dos novos paradigmas. 6
O conceito newtoniano de força destacou-se, pouco a pouco, de represen-
tações e até de "visões" vagas e místicas, presentes em Kepler e no
próprio Newton, e fundou o paradigma mecanicista do século XVIII.
Multiplicado pelo deslocamento, ele permitiu a cristalização do supercon-
ceito de energia, também este oriundo da imprecisão das representações
intuitivas. Em tomo desse conceito, a ciência das trocas termodinâmicas
e do equilíbrio se desenvolveu no século XIX, quando muito corrigida
164 ENTRE O CRISTAL.E A FUMAÇA

pelos princípios de evolução a ela anexados, mal integrados, constituídos


pelo segundo princípio da termodinâmica e pelas teorias da evolução
biológica, onde hoje já podemos ver, a posteriori, anunciar-se a intuição
da complexidade, através das idéias de ordem e desordem e da noção de
entropia.
No que concerne à ciência da segunda metade do século XX, e por
uma série de razões, particularmente ligadas ao desenvolvimento das
teorias dos autômatas, foi para o conceito de complexidade funcional e
adaptativa que voo Neumann previu um destino análogo. Mas, por en-
quanto, "ainda excessivamente formal em comparação com a pesquisa
empírica, ainda prematura para as aplicações práticas, a teoria da auto-or-
ganização continua embrionária, desconhecida e marginalizada; não en-
calhou, mas continua encalhada à espera da nova maré" (p. 30). Esta é
uma alusão aos trabalhos formais sugeridos pela biologia e desenvolvidos
nestes últimos anos por alguns autores (voo Neumann, McKay, voo
Foerster, Ashby, Atlan), nos quais foi possível reconhecer um papel do
aleatório - do "ruído" - nos processos de auto-organização; paralela-
mente, alguns físico-químicos (1. Prigogine, A. Katchalsky, M. Eigen
etc.), em seguida aos hidrodinamicistas, descobriram mecanismos de
estruturação por pareamento de fluxos, nos quais as oscilações aleatórias,
amplificadas e estabilizadas em sistemas dinâmicos, desempenham o
papel de fatores desencadeadores. Quanto a Morin, sem esperar pela
' 'nova maré' ', ele foi buscar, nas teorias formais da auto-organização, em
particular no ' ' princípio de ordem a partir do ruído'' (voo Foerster, Atlan),
os p:imeiros elementos de uma teoria da hipercomplexidade, que se
reencontra nas articulações centrais dos capítulos subseqüentes e que se
amplia a ponto de eclodir em "visões" dentre as quais, evidentemente,
algumas poderão ser contestadas. Por isso, se é bem verdade que essa
teoria da auto-organização continua "desconhecida, marginalizada, en-
calhada'', o livro inteiro de Morin destaca sua necessidade conceituai. Se
é verdade que q caráter marginal dessa teoria é conseqüência do ' 'velho
paradigma'', então é evidente que Morin, ao contrário da maioria dos
pesquisadores atuais, já quer se situar num futuro paradigma - porque
"o velho paradigma está em frangalhos, e o novo não se constituiú" -
em que uma teoria da hipercomplexidade e da auto-organização já não se
afigure marginal, mas se mostre central e necessária.
''A abertura da noção de homem para a vida não é necessária apenas
à ciência do homem, mas é necessária ao desenvolvimento da ciência da
vida; a abertura da noção de vida, em si mesma, é condição da abertura e
do desenvolvimento da ciência do homem. A insuficiência de ambas deve
recorrer, inevitavelmente, a um ponto de vista teórico que possa ao mesmo
tempo vê-las e distingui-las, isto é, permitir e estimular o desenvolvimen-
to de uma teoria da auto-organização e de uma lógica da complexidade.
HIPERCOMPLEXIDAOE E Cl~NCIA 00 HOMEM 165

Assim, a questão da origem do homem e da cultura não diz respeito apenas


a uma ignorância a ser reduzida ou a uma curiosidade a ser satisfeita. É
uma questão de alcance teórico imenso, múltiplo e geral. É o nó górdio
que garante a solda epistemológica entre natureza e cultura, animal e
homem. É o lugar exato em que devemos buscar o fundamento da antro-
pologia" (p. 58).

A HOMINIZAÇÃO

Isto posto, são recordadas as principais etapas da hominização, tal como


aparecem, em especial, nos trabalhos de Leroi-Gourhan, depois Lee e De
Vore e, finalmente, Moscovici. Ma5, à luz das considerações anteriores,
é comprensível que a ênfase seja colocada, não tanto nas próprias etapas,
mas no processo de uma evolução cuja característica principal é a com-
plexificação.
A cerebralização aparece aí como o fenômeno que assinalou e se
sucedeu a essa evolução, e não como sua causa. Como bons neodarwinis-
tas, vemos a evolução como o resultado de pressões de seleção exercidas
pelos sucessivos meios ecológicos (flores ta, savana etc.) em mutantes
bípedes de mandíbula pequena, e depois, de crânio cada vez maior. Mas
a crescente complexificação orientou essa evolução e apareceu no desen-
volvimento do cérebro volumoso ao mesmo tempo que no das paleosso-
ciedades.
Cérebros volumosos e paleossociedades, sistemas hipercomplexos
de desenvolvimento concomitante, são vistos como as expressões, interna
e externa, do mesmo processo de complexificação. A sociogênese dos
homínidas de cérebro cada vez maior foi o suporte do desenvolvimento
da cultura que criou o nível favorável para desenvolvimento do cérebro
volumoso e da linguagem articulada e combinatória; esta, por sua vez,
permitiu a divergência e, mais tarde, a explosão da cultura. Esse papel
ambíguo da cerebralização, simultaneamente meio e resultado das com- .
plexificações sociais e culturais, é uma outra maneira de sublinhar a
visível circularidade dessa ''lógica do ser vivo·•, que produziu o aparelho
com que a pensamos. Foi essa circularidade que impeliu Piaget a buscar,
nos processos de cerebralização do indivíduo (da criança) e na lógica do
desenvolvimento da inteligência, um vestígio da lógica da evolução
adaptativa biológica. Para Morin, a circularidade é apenas aparente, pois
se inscreve num processo que engloba justamente o da complexificação
e da auto-organização. Esse processo é apreendido através de conceitos
cibernéticos que Morin nos convida a considerar, não "como instrumen-
tos que servem para apreender a realidade físico-química última da vida'',
mas "como tradutores de uma realidade organizacional primária" (p. 28).
Em outras palavras, a auto-organização, com sua lógica, é primária e
166 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

atravessa toda a evolução. Essa proposição, que opusemos à do primado


da reprodução invariante como motor da evolução (cf. primeira parte), é
retomada e estendida por Morin à hominização: os traços específicos da
hominização - sociedade, cultura, cerebralização - são aspectos diver-
sificados de um mesmo processo de auto-organização complexificador.
O último-deles, a cerebralização, é aquele em que o processo aparece tanto
em suas dimensões biológicas pré-homínidas, "naturais", quanto em suas
dimensões homínidas, "culturais" e sociais. É por isso que, quando
vislwnbramos o quanto a cerebralização, por suas interações recíprocas
com a sociogênese e a culturogênese, é o "nó górdio da hominização" ,
em que o cérebro não é considerado como um "órgão", mas como "o
epicentro de um processo de complexificação multidimensional em fun-
ção de um princípio de auto-organização ou autoprodução", podemos
compreender, finalmente, em que e como, "quando surge o Homo sapiens
Neanderthalensis, a integração é efetiva: o homem é um ser cultural por
natureza, porque é natural pela cultura" (p. 109).
De fato, o que se conquistou no correr do período de hominização
não foi tanto este órgão ou aquela função, porém uma riqueza maior do
que convém chamarmos organização, e que se traduz, justamente, por uma
aptidão cada vez maior... para adquirir.
"É perfeitamente evidente que o cérebro volumoso do sapiens só
pôde advir, lograr êxito, triunfar, depois da formação de uma cultura já
complexa, e é surpreendente que tenhamos podido acreditar por tanto
tempo exatamente no contrário.
'' Asslm, não são apenas os primórdios da hominização, mas tam-
bém seu acabimento, que se mostram incompreensíveis, quando dissocia-
mos a evolução biológica e a evolução cultural como dois cursos distintos.
''De fato, sua associação nos mostra, de um lado, que o papel da
evolução biológica foi muito maior do que se pensava no processo social
e na elaboração cultural, mas, por outro lado, vemos também que o papel
da cultura, que teria sido insuspeitado ainda muito recentemente, foi
capital para a continuidade da evolução biológica até o sapiens" (p.
100-101).
Se essa intricação da natureza cultural e da cultura natural da espécie
humana - "aptidão natural para a cultura e aptidão cultural para desen-
volver a natureza humana" (p. 100) - não é inteiramente nova (Lévi-
Strauss), é sua fundamentação numa lógica da auto-organização comple-
xificadora que a esclarece sob uma nova luz, colocando-a em movimento,
e que permite, acima de tudo, vislumbrar a seqüência da evolução... e do
livro.
Os capítulos seguintes, a respeito do inacabamento final e suas
conseqüências, são anunciados pelos estudos - ainda conjecturais -
sobre (1) o nascimento da linguagem articulada, reconstruído a partir de
HIPERCOMPLEXIDADE E CffiNCIA DO HOMEM 167

aptidões não utilizadas cuja presença no cérebro dos chimpanzés foi


deduzida dos trabalhos de Premack e Gardner; e (2) a sociogênese,
reconstrução "paleossociológica" das arqui-sociedades homínidas, in-
termediárias necessárias entre as sociedades dos macacos e as sociedades
humanas. Essas reconstituições certamente comportam uma parcela de
arbítrio - mas será que isso não é típico de todas as reconstruções
paleontológicas? Podemos lamentar - e essa é a censura que eu lhe faria,
por minha parte - que a análise das condições de atualização das aptidões
para a linguagem desconheça o papel do aumento da capacidade de
memória que acompanhou o desenvolvimento do cérebro. O que falta aos
chimpanzés para que eles falem como seres humanos não são apenas as
aptidões glóticas e as oportunidades sócio-culturais de serem forçados a
se servir de suas aptidões e a desenvolvê-las, mas são também maiores
possibilidades de memorização. (Assim, podemos supor que o aumento
do número de neurônios não seja estranho ao aparecimento dessas possi-
bilidades no Homo sapiens.) Como veremos mais adiante, esse "esque-
cimento'' - se assim podemos dizer - da memória em Morin é conse-
qüência de ele favorecer os mecanismos da ordem a partir do ruído na
lógica da complexificação, excluindo os mecanismos de estabilização por
replicação - recarga da redundância - , dos quais, no entanto, não
podemos prescindir. Isso é uma pena no que concerne à linguagem, porque
sua relação com a memória é dupla: de um lado, a linguagem articulada
combinatória precisou, para se desenvolver, de cérebros com capacidades
de memória aumentadas; de outro, expressa nas sociedades e nas culturas
através de produções que atravessam as gerações, ela constituiu um
suporte preferencial para um fantástico aumento das capacidades de
memória da espécie, que se superpõem às capacidades mais antigas das
memórias genéticas.
Naturalmente, a linguagem é também um campo privilegiado em
que as derivações, as metáforas eoutros progressos gerativos evidenciam
claramente esses mecanismos de orgariização através da desorganiza-
ção/reorganização e através da integração da ambigüidade. Esses aspectos
da linguagem concernem, mais particularmente, a seu papel estruturador
na organização cognitiva, isto é, a sua relação com o pensamento, com os
mecanismos do pattern recognitition (reconhecimento de formas) por
derivação criadora de formas,' ou ainda com a "função metafórica", com
suas propriedades de "invenção-reorganização" 8 (J. E. Schlanger). Mas
a importância das memórias - no sentido das memórias dos computado-
res, mecanismos de reprodução invariante - , na estabilização dos pro-
cessos de auto-organização pela ordem a partir do ruído, realmente não
deve ser subestimada. Esses processos, para serem eficazes, precisam ser
pareados com essas memórias, graças às quais pode surgir um mínimo de
estabilidade nas sucessões de desorganizações/reorganizações que os
168 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

caracterizam. Sem memória, os patterns surgidos logo desapareceriam.


Ao lado do ruído do ambiente, fonte de complexificação e novidade, as
memórias permitem aos sistemas auto-organizadores que utilizam esse
ruído não serem destruídos por ele, não desaparecerem por ocasião de
cada transformação.
Também podemos lamentar que algumas reconstruções da sociogê-
nese sejam marcadas pela visão que o autor tem das sociedades contem-
porâneas, e até pelos juízos de valor implícitos sobre essas sociedades.
Trata-se, aqui, quase que de uma censura pelo ideologismo, à qual volta-
remos. Mas não importa. Essa sociogênese, ainda que não tomemos toda
a sua ''história'' por moeda sonante, nem por isso deixa de ter o mérito
de ser proposta como uma possibilidade verossímil. E, acima de tudo, ela
é apenas um aperitivo em que são reunidos e reorientados os elementos
de um saber existente e disperso, antes dos grandes vôos sobre o inacaba-
mento final e o sapiens-demens, que incontestavelmente constituem a
parte mais original e mais atraente dessa obra.

APTIDÕES NÃO-REALIZADAS
E LóGICA DA AUTO-ORGANIZAÇÃO

Uma vez constatado que aquilo que julgávamos característico do Homo


sapiens (bipedismo, linguagem articulada combinatória, sociedades) já
existia antes do cérebro volumoso, uma indagação se coloca: para que
serve o cérebro volumoso? E, já que o Homo sapiens é definido por seu
grande cérebro de 1.500cm3 , quais são as características próprias do Homo
sapiens, que não existiam antes dele, nem nos antropóides (500cm3 ), nem
nos primeiros homínidas (600 a 800cm3 ), nem no Homo erectus
(l.100cm3)? E vem a resposta: o imaginário, a desrazão, o delírio. E o
mais interessante talvez não seja tanto essa afirmação, mas ocaminho pelo
qual ela aparece, como uma espécie de conseqüência inelutável de uma
lógica da hipercomplexidade já atuante na evolução biológica, e depois,
na evolução bio-sócio-cultural que conduziu ao Homo sapiens.
Desde que surgiram os primeiros sistemas vivos - resultantes, eles
próprios, de uma evolução química que permitiu a associação de capaci-
dades. enzimáticas (isto é, catalíticas) cuja variedade (isto é, cuja hetero-
geneidade, quantidade de informação no sentido de Shannon) era sufi-
cientemente grande para permitir eventuais regulações, com capacidades
de replicação invariante (ou seja, de repetição, memorização) - , a evo-
lução biológica se produziu pelo vaivém ininterrupto das interações entre
esses sistemas e seu meio ambiente. Este, pela variedade de suas solicita-
ções e pelas agressões aleatórias de que era a origem, serviu, ao mesmo
tempo, como meio de expressão das aptidões do sistema e fonte de causas
desencadeantes no aparecimento de novas aptidões. Uma vez surgidas
HlPERCOMPLEXIDADE E Cn~NCIA DO HOMEM 169

essas novas aptidões (mutações), elas encontraram um novo ambiente em


que puderam se exprimir, o que, por sua vez, permitiria o aparecimento
de novas aptidões, e assim sucessivamente. Essa visão das coisas, sugeri-
da pelas atuais teorias da evolução, tem diversas implicações que nem
sempre são sublinhadas. Uma é a noção de aptidão não-realizada, com a
distância que implica entre a existência de uma nova aptidão (mutação) e
sua eventual expressão, que pode ser reprimida ou favorecida por deter-
minado ambiente. A outra é que esse processo só é possível quando todas
as etapas da evolução são caracterizadas por um estado de adaptação
aproximativo e solto entre o organismo e o ambiente, que permite que o
processo não seja bloqueado.
No que concerne à hominização, essas aptidões aparecem principal-
mente como as aptidões cerebrais, e o processo, como um vaivém dessas
aptidões em direção a um ambiente (natural-cultural) que permita seu
desenvolvimento, e depois, em direção ao cérebro, onde o desenvolvimen-
to dessas aptidões gera a emergência de novas aptidões etc. Algumas
modificações das pressões ambientais, que Morin vê, seguindo Moscovi-
ci, na necessidade da caça, vieram atualizar e exaltar aptidões até então
muito pouco utilizadas, e, ao mesmo tempo, despertar novas aptidões,
ainda inúteis etn relação às pressões presentes. Mas, por sua vez, essas
novas aptidões, escassamente utilizadas nessas condições presentes, en-
contraram novas condições em que puderam ser atualizadas e enaltecidas,
ao mesmo tempo que surgiram mais outras novas aptidões, precariamente
utilizadas, até que novas condições ambientais ... e assim sucessivamente.
Podemos ver como a noção de aptidão ainda não-atualizada pode
desempenhar um papel diretivo nessa visão. Um dos melhores exemplos
disso é o das aptidões para a linguagem descobertas nos chimpanzés, em
condições experimentais artificiais; obviamente, mas que é lícito pensar-
mos que, submetidas as pressões ambientais diferentes, onde os macacos
fossem forçados a utilizá-las, poderiam mostrar-se claramente como pro-
priedades da espécie, não mais potenciais, porém atualizadas.
Essa introdução do "potencial", do "não-atualizado", no processo
de hominização, é capital, mas precisa de sustentação lógica. Morin a
encontra, ''naturalmente'', naquilo que está implícito mas sempre presen-
te na utilização da teoria probabilística da informação. De fato, a teoria
da informação, em suas relaçõçs com a teoria da mensuração (Brillouin,
Rothstein, Atlan), introduz o universo do possível na ciência: a quantidade
de informação obtida durante uma mensuração depende do número de
resultados possíveis dessa medição; de modo geral, a quantidade de
informação de um sistema observado - e, na física, só podemos falar de
sistemas observados - depende do número de possibilidades diferentes
de observação. Toda a termodinâmica estatística pôde ser reconstruída a
partir de considerações desse tipo (Jaynes, A. Katz). Além disso, porém, .
170 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

a complexificação, percebida como um aumento de variedade, de hetero-


geneidade, e medida - ao menos parcialmente - por um aumento da
quantidade de illformação, no sentido probabilístico de Shannon, ou de
neguent:ropia, só pode se produzir, como indicamos, 9 à custa de uma
redundância inicial. Esta aparece então como uma outra espécie de pos-
sibilidade, uma possibilidade em segundo grau, não a de um estado entre
outros possíveis, mas uma possibilidade de complexificação. E é por isso
que a lógica da hipercomplexidade só pode ser concebida como, simulta-
neamente, diversificação e variabilidade, por uma atualização de possibi-
lidades que diminui a redundância e que, superposta - enquanto as
possibilidades atualizadas são memorizadas e, desse modo, estabilizadas
e conservadas - , recarrega de uma nova redundância, por uma adição
repetitiva que, em si e no momento em que se dá, é inútil, mas que constitui
· uma reserva de novas possibilidades.
Na lógica da auto-organização pela ordem a partir do ruído, as
perturbações aleatórias pode,n não destruir a organização, com a simples
condição de que a confiabilidade do sistema - assegurada por uma
redundância estrutural e funcional - não seja ultrapassada, e de que a
desorganização assim produzida possa ser resgatada e recuperada num
outro estado de organização/adaptação. Isso implica que nenhum desses
estados seja de uma adaptação perfeita, mas ainda tenha reservas de
adaptação, aquilo a que chamamos "potencial de auto-organização".
Além disso, as grandes mutações, com aumento das capacidades de
auto-organização, consistiriam em verdadeiras recargas de redundância
(genes ou até cromossomos supranumerários, cópias inicialmente idênti-
cas às preexistentes), seguidas de uma diversificação na e a partir dessa
redundância. É que, se a novidade desorganizadora consiste não apenas
num aumento de variedade (novo gene, nova enzima, nova via metabóli-
ca), obtido à custa do estoque já existente de redundância, mas também
num aumento desse próprio estoque (adição de material genético ''inútil''
·no estado atual de adaptação suficientemente repetitivo em relação ao que .
já existe para poder ser lido e executado, mas já tão diferente a ponto de
constituir novas "aptidões"), então a mutação constitui um verdadeiro
salto de organização, e não apenas uma mudança do estado de adaptação
como as que podemos observar nos fenômenos de deriva genética. E nesse
pvnto que podemos considerar que surgem aptidões realmente novas -
por adição, e não por substituição-, as quais, para se exprimir, esperam
que se concretizem condições ambientais ·em que elas sejam como que
exigidas.
É isso que permite compreender o "jogo oscilatório" de que fala
Morin, "entre, de um lado, as demandas de complexidade que o desen-
volvimento sócio-cultural pode fazer ao cérebro e, de outro, uma fonte
cerebral de complexidade, dispondo de reservas não-esgotadas, ou mesmo
HIPERCOMPLEXIDADE E CIBNCIA DO HOMEM 171

não utilizadas sócio-culturalmente, e que possa se enriquecer ininterrup-


tamente, como que de antemão, a partir de mutações favoráveis" (p. 94).
É essa a lógica subjacente dessa hominização em que ''o cérebro parece
ter estado, simultaneamente, sempre adiantado (pelas aptidões inexplora-
das) e sempre atrasado (pela ausência de dispositivos que se tomam cada
vez mais úteis ou necessários), sempre fonte/reserva de complexidade
potencial, sempre limitado/sobrecarregado em algum lugar. E é nesse jogo
que surgem as mutações genéticas que desenvolvem o cérebro, que, ao
mesmo tempo, aumentam a fonte muito além das necessidades da etapa
evolutiva, mas estabelecem dispositivos convenientes a essas necessida-
des" (p. 94). A sobrecarga e a limitação em cada etapa provêm de que a
redundância, fonte de complexidade potencial, é realmente uma condição
necessária para uma possível complexificação, mas não é suficiente. É
necessário que ela apareça, por exemplo, por mutação aditiva - o cérebro
volumoso-, mas, ao aparecer, ela não basta para tomar funcionais todas
as possibilidades passíveis de ser diferenciadas. Algumas dessas possibi-
lidades, apesar de solicitadas pelo meio ambiente, só poderão tomar-se
funcionais se outras possibilidades tiverem sido previamente atualizadas.
Nesse ponto, tocamos nos limites de uma teoria da hipercomplexidade
que ainda se fundamentaria apenas na teoria probabilística da informação
de Shannon, da qual, como sabemos, a significação está excluída. Ora, no
nível de uma via de comunicação interna a um organismo, a significação
da informação é sua funcionalidade. Portanto, não surpreende que a teoria
de Shannon, mesmo ampliada pelo princípio da ordem a partir do ruído,
não possa conduzir a outra coisa senão o estabelecimento de condições
necessárias; as condições suficientes só poderiam ser ditadas pelo caráter
funcional ou não, isto é, significativo ou não, das combinações possíveis
concretizadas. Mas, tal como se apresenta, ela tem ao menos a vantagem
de fundamentar a intuição do "inacabamento final" e do "sapiens-de-
mens", permitindo a Morin afirmar: "Isso já acontecera com o chimpan-
zé, cujas possibilidades cerebrais ultrapassavam em muito suas necessi-
dades sociais. E acontece igualmente com o Homo sapiens, cujas mais
altas aptidões estão longe de ter sido não apenas esgotadas, mas talvez até
atualizadas" (p. 94).
Essa afirmação, que leva à idéia de que o Homo sapiens é, ao mesmo
tempo que o resultado final da hominização, um ~ovo ponto de partida,
decorre, assim, não de um desejo ou do otimismo incorrigível de Morin,
como se disse, mas de uma análise de um processo ininterrupto, em
cascata, de hipercomplexificação, que não temos nenhuma razão para
supor que deva interromper-se. Assim, o Homo sapiens é considerado
tanto do ponto de vista de seu estado atual de hipercomplexidade, como
de suas "reservas de complexidade", de suas "aptidões ainda não-atua-
lizadas".
172 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

Seu estado atual é ajuvenilização e o cérebro volumoso, na ordem


que nos aprouver.
Suas reservas de complexidade são o imaginário, osapiens-demens.

MEMÓRIA E LINGUAGEM, APRENDIZAGEM E ERRO.


0 IMAGINÁRIO E O txTASE

O estado atual do Homo sapiens é a associação cérebro volumoso-juve-


nilizaçãó, que já constitui o fim do fim na evolução rumo a uma adaptação
maior. Com efeito, essa associação constitui, no início, no bebê humano,
um es.tado que se caracteriza, não tanto pela aquisição de novas faculda-
des, mais adaptadas em relação às etapas anteriores da hominização, mas
pela aquisição de ... faculdades de adquirir, utilizáveis durante uma longa
parcela da duração da vida. Como indicamos antes, constitui-se uma
espécie de optimum de organização através de um compromisso em que
uma redundância inicial mm.to grande é associada a uma complexidade
(=variedade, heterogeneidade) também muito grande. Essas característi-
cas possibilitam um longo período de auto-organização (juvenilização)
através da aprendizagem não-dirigida (e também dirigida, é claro), duran-
te o qual a redundância inicial é utilizada por ocasião das sucessões de
desorganização/reorganização criadoras de uma variedade cada vez
maior. Ao término desse período, chega-se a uma diferenciação ainda
maior dos indivíduos. À individualidade herdada sob a forma de com-
binatória genética vem somar-se a adquirida durante a aprendizagem,
por uma diferenciação parcialmente aleatória a partir da redundância
( = indiferenciação) inicial.
Mas também é compreensível que a carga de redundância inicial,
que caracteriza a aquisição das faculdades de adquirir, seja forçosamente
acompanhada de "aptidões ainda não-atualizadas", que situam o Homo
sapiens como um novo ponto de partida. Na verdade, essa redundância
inicial funciona como uma reserva de diversificações com associações
possíveis, criadoras de novos padrões, que ultrapassam largamente o
conjunto dos padrões estruturais e funcionais estritamente necessários à
satisfação das necessidades imediatas, que implica a sobrevivência no
ambiente atual do Homo sapiens. Es8as reservas "inúteis" de complexi-
ficação, não-adapwdas, são aquilo que experimentamos no mundo do
imaginário, do sapiens-demens, do sonho, sobre o qual já dissemos que
ele desempenha, todas as noites, uma função de recarga da redundância,
necessária à retomada cotidiana do processo de aprendizagem adaptativa
por diversificação, processo que sem isso se esgotaria. 10
Assim, se "o término da hominização é ao mesmo teinpo um
começo", e se "aquilo em que se conclui a hominização é no inacaba-
mento definitivo, radical e criador do homem''. é porque a hominização
HIPERCOMPLEXIDADE E CIBNCIA DO HOMEM 173

é um processo de hipercomplexificação que dá continuidade à evolução


biológica, onde cada etapa é simultaneamente término e começo. A
adaptação a um determinado estado implica mais do que o necessário;
esse excedente será utilizado como fonte de novas adaptações, que sempre
implicarão novos excedentes, e assim por diante. Vemos, portanto, como
Morin se baseia na intuição de uma lógica da organização, graças ao que
não se trata (ou não apenas) de uma projeção otimista no futuro. Trata-se
do que ele chama, de maneira ainda balbuciante, "não de uma lógica
fmalista, teilhardiana, mas da lógica da neguentropia, isto é, da disposi-
ção, própria do sistema auto-organizado complexo - na vida em seu
sentido mais amplo, englobando tanto o homem quanto o espírito-, para
utilizar as forças de desorganização a fim de manter e desenvolver sua
própria organização, para utilizar as variações aleatórias, os acontecimen-
tos perturbadores, a fim de aumentar a diversidade e a complexidade" (p.
105).
As manifestações externas de sonhos e de um possível imaginário
nos animais forçam-nos a reconhecer que não é tanto a simples existência
dos sonhos e das associações imaginárias que caracteriza ''as aptidões
ainda não-atualizadas" - as reservas "de complexidade", o excedente
- do homem, mas a irrupção deles em sua cultura e a maneira como eles
são vividos nos contextos bio-sócio-culturais onde o homem se defme. O
vestígio dessa irrupção no comportamento dos primeiros homens é encon-
trado, hoje em dia, nas primeiras pinturas e sepulturas.
É essa intuição fundamental de Morin que nos proporciona os vôos
mais ricos e mais originais nesse livro, onde a demência do sapiens, o
delírio e o exagero que se cristalizam em tomo das não-realidades que são
a morte e a imagem, longe de serem máculas na emergência de uma
racionalidade adaptada, realista e sábia, são suas condições necessárias.
Mas é também a propósito dessas páginas, de imensa riqueza, que pode-
mos tecer algumas críticas à maneira como Morin utiliza a noção - ainda
imperfeitamente dominada - de hipercomplexidade. Uma utilização
talvez demasiadamente unívoca do princípio da ordem a partir do ruído o
leva, com excessiva rapidez, a identificar a baixa complexidade, pura e
simplesmente, com a presença de cerceamentos; e, como corolário, a
identificar o estado de alta compleX.idade que caracteriza o Homo sapiens
com "a irrupção do erro" que, rompendo os cerceamentos, é empregado
na inventividade.
·Nas sepulturas e nas pinturas pré-históricas aparecem, com "o
acabamento e a realização num nível superior, aptidõés estas desenvolvi-
das pela hominização ... os elementos de um novo universo antropológico,
com as emergências mágicas, míticas, rituais e estéticas" (p. 120). Na
lógica da auto-organização, essas emergências foram as manifestações de
novas aptidões, ainda não necessárias à adaptação imediata, mas que
174 ENTRE o CRISTAL E A FUMAÇA

impeliam para uma nova evolução, através da projeção no meio e da


complexificação desse meio, o qual, em contrapartida, iria favorecer,
tomando-o necessário, o desenvolvimento dessas aptidões. Em outras
palavras, essa ''natureza imaginária e imaginante do Homo sapiens' ', que
aparece aqui, constituiu a expressão da ''relação ambígua e conturbada
que se constituiu entre o cérebro humano e o ambiente" (p. 120), e é nesse
sentido que ela é uma condição da continuidade da auto-organização. Mas
é aí que Morin faz um deslizamento contestável, do próprio ponto de vista
da lógica da hipercomplexidade. Se essa lógica já era empregada muito
antes do sapiellS, é difícil compreender porque "a incerteza e a ambigüi-
dade na relação cérebro-ambiente" só apareceram com o sapiens, assim
como o papel organizador dos erros. De fato, há nisso um deslizamento
das noções de erro e ambigüidade, definidas de fora como perturbações
nas transmissões da informação, para a experiência do imaginário e do
irracional, internamente percebidos em relação a uma certa consciência
da realidade. No entanto, o sapiens, imaginando e delirando, não inventou
os erros, nem tampouco seu papel organizador. Eles simplesmente assu-
miram nele uma nova fonna, ligada a seu estado atual de organização e
adaptação. Ao atingir essa etapa, o aumento das capacidades de memória
em comparação às etapas anteriores desempenhou um papel fundamental,
que Morin desprezou um pouco, como vimos a propósito da linguagem.
Se o levarmos em conta, ao contrário, torna-se possível situar a novidade
do papel do imaginário em relação às formas precedentes de erros fecun-
dos e de ruído organizacional. Contudo, Morin viu claramente como a
nova relação com a morte, expressa nas sepulturas, implicou ''um pensar
que não estava totalmente investido no ato presente, isto é, ... uma
presença do tempo no cerne da consciência" (p. 110). Mas, não se trata
apenas de uma simultaneidade no aparecimento dessa consciência e na
irrupção do imaginário. É essa nova qualidade, a consciência - que
podemos realmente assimilar a uma ampliação das capacidades de memó-
ria, no sentido cibernético (cf. capítulo 5) -, que permite ao imaginário
"irromper na visão do mundo". Mais exatamente, é em relação a essa
consciência-memória e a seu conteúdo que o imaginário e a ilusão podem
aparecer como erros e ambigüidades. Mas o imaginário não é menos real,
nem tampouco mais erro, do que é a consciência do real. A consciência-
memória permite superposições de eventos separados no tempo, e portan-
to, uma combinação mais rica dessas superposições. E é a experiência da
adequação ou inadequação dessas superposições (mappings [mapeamen-
tos]) que se exprime no diagnóstico de real ou imaginário dos aconteci-
mentos. Em outras palavras, junto com a experiência das adeqwtções
surge no sapiellS a das ambigüidades. O que é novo no sapiens não é o
papel organizacional dó erro, mas a experiência do erro, porque é também
nova nele a experiência da adequação ou "verdade". Daí, em particular,
HIPERCOMPLEXIDADE E Cll?.NCIA DO HOMEM 175

o caráter extraordinário do êxtase, seja ele místico, estético, erótico ou


psicodélico, onde essa contradição se resolve: a presença do imaginário
é tão forte que seu caráter de ilusão, ou de erro, ou de "outra coisa",
desaparece. Pelo menos temporariamente, a função fabricadora do imagi-
nário não fica mais em dissonância com o estado atual da percepção do
mundo reaL Faz-se entre o homem adaptado e o homem imaginador a
união graças à qual prossegue o movimento de adaptação. É este, pois,
que "sobrevive" à "Morte" do homem adaptado. O "deus" do homem,
isto é, seu motor oculto e contraditório, é então alcançado e se revela.
Mas, afora esses ·estados-limites, e sem ter, de qualquer modo,
inventado a ilusão, nem o erro, nem seu papel organizador, o sapiens lhes
dá uma consistência de ilusão e de erro, ao mesmo tempo que os projeta
ainda mais em seu ambiente. Assim, ele lhes confere uma realidade maior,
muito embora eles sejam percebidos como ilusões e erros, ou, pelo menos,
como "forças diferentes, ou ocultas, ou do além". É isso que explica que
"a irrupção d~'\ morte, no sapiens, seja a um só tempo a irrupção de uma
verdade e de uma ilusão, a irrupção de uma elucidação e do mito, a
irrupção de uma ansiedade e de uma certeza, a irrupção de um conheci-
mento objetivo e de uma nova subjetividade, e sobretudo a ligação
ambígua entre eles" (p. 113). Essa ligação ambígua, "união perturbada
numa consciência dupla" (p. 112), é a verdadeira novidade, que só
podemos compreender em referênda à própria consciência - mais uma
vez compreendida como memória, possibilitada pelo cérebro volumoso
- , e não "à irrupção do erro" (p. 120) ou "da desordem" (p. 124) e de
sua função organizacional, já presentes nas etapas anteriores. O mesmo
se pode dizer a respeito da pintura, das imagens ou dos símbolos, de sua
função de "duplos" imaginários, de seres representados, e de sua expres-
são na •'palavra, no sinal, na inscrição nas paredes, no desenho ' ' , graças
aos quais todo objeto "adquire uma existência mental mesmo fora de sua
presença" (p. 115). Também aí, o novo é a grande memória do cérebro
volumoso, graças à qual as aptidões lógicas para a linguagem e para a
simbolização puderam efetivamente se realizar - do mesmo modo que
as aptidões lógicas necessárias à solução de um dado problema podem
existir na unidade de cálculo de um computador, mas precisam, para se
realizar concretamente, que lhes acrescentemos capacidades suplementa-
res de memória. Vemos, portanto, que o surgimento do homem imaginário
não está ligado ao do erro. O erro e seu papel organizador sempre
existiram, desde o começo da evolução. O homem imaginário surgiu ao
mesmo tempo que o homem de memória volumosa.
A ilusão do imaginário não é o erro em relação a uma verdade
"real" estabelecida, mas em relação a uma projeção igualmente imagi-
nária a que, em virtude de certas adequações e regularidades, chamam
realidade. Mas esta continua a fazer parte da mesma ''ligação ambígua'', ...
176 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

•'união perturbada'' entre o cérebro e seu ambiente. Não existem mais -


nem menos - erros nas combinações do imaginário do que nas do que é
percebido como realidade. As produções típicas da mente (imagens,
símbolos, idéias) não são diretamente úteis, não são diretamente ramifi-
cadas no estado de adaptação atual, mas, tal como a consciência temporal
da vida e da morte, são a expressão do excesso de complexidade. Novas
combinações, novos padrões se formam sem necessidade, para se formar,
assim como o bebê que, segundo Piaget, "suga para sugar". Morin viu
claramente que a •'linguagem abriu a porta para a magia; a palavra que
nomeia uma coisa invoca imediatamente a imagem mental da coisa que
ela evoca" (p. 115). Mas esse processo não é típico da magia como erro
ou ilusão. É encontrado em todas as projeções do imaginário no real, isto
é, em todas as apreensões do real pelo pensamento, pois o imaginário
impregna inevitavelmente todas as percepções de uma máquina cujas
capacidades de memória presentificam um longo passado. Padrões de
imagens formam-se ininterruptamente, "para se formar", e "a ação
imediatamente transformadora sobre as coisas é substituída por uma ação
transformadora das imagens", acumuladas na memória e projetadas num
futuro por definição imaginado, e não real. Observe-se que esse movimen-
to propriamente delirante parece ter encontrado um certo equilíbrio de
sucesso nas ciências, onde é possível uma ação sobre as coisas graças a
combinações de idéias e fórmulas que só existem na mente. 11 Também na
emergência do pensamento científico, a "metáfora é primordial"~ Colo-
ca-se, pois, a questão do critério entre a má e a boa metáforas, razões do
''progresso da ciência'' . 12
Assim, se é bem verdade "que o desatrelamento do imaginário, que
as derivações mitológicas e míticas, que as confusões da subjetividade,
que a multiplicação dos erros e da proliferação da desordem, longe de
haverem prejudicado o Homo sapiens, estão; ao contrário, ligados a seus
prodigiosos avanços'' (p. 126), não é porque uma complexidade mais alta
implique uma desordem maior, e porque a existência de restrições seja
própria da baixa complexidade. A hipercomplexidade implica a aptidão
para absorver e utilizar uma desordem maior; mas essa aptidão só pode
existir graças a restrições múltiplas e multiformes. O imaginário, as
derivações mitológicas, as confusões da subjetividade são não apenas
desordem, mas principalmente memória e associações que, por serem
"livres", nem por isso deixam de representar restrições, no sentido
probabilístico e informacional do termo, uma vez que reduzem os graus
de liberdade na exata medida em que associam. Até o presente, na lógica
da evolução, havia-se enfatizado sobretudo a reprodução invariante. E,
como é difícil fundamentar uma lógica da auto-organização unicamente
na reprodução, a memória genética foi transformada, muito ilegitimamen-
te, em "programa" genético. Morin, que cedo se conscientizou das
HIPl!RCOMPLEXIDADE E C~NCIA DO HOMEM 177

insuficiências dessa lógica, tenderia agora a cair no excesso inverso,


favorecendo o princípio da ordem a partir do ruído como princípio de
auto-organização e desprezando os mecanismos de repetição e reprodução
- as memórias-, sem os quais esse princípio não pode ser funcional.
Trata-se ainda, talvez, da mesma censura que fiz antes ao ideologis-
mo. Podemos surpreender Morin projetando uma certa visão das realida-
des humanas atuais que é marcada por suas afinidades de opiniões, de
ética e de compromissos sócio-políticos. Sendo as restrições, a repetiÇãO
e a hierarquia ideologicamente depreciadas, é muito natural que se efetue
esse deslizamento. O reconhecimento do ruído como fator indispensável
de auto-organização e hipercomplexidade leva, muito depressa, a associar
baixa complexidade, ou seja, anti-evolução, não-humanização e arcaís-
mo, com as restrições e a hierarquia, porque o "característico da hiper-
complexidade ... é a diminuição das restrições".

A HIPERCOMPLEXIDADE*

Essa projeção ideológica pode ser tida como responsável por uma omissão
espantosa e uma análise contestável. A omissão é a do papel do apareci-
mento do pai e das relações privilegiadas pai-filho, pai-filha, no processo
de bipercomplexificação. Esse papel é apenas sugerido, sem ser analisado,
pois o aumento de hierarquia e restrições que isso implica é difícil de
harmonizar com a equação afmal postulada: restrições - baixa complexi-
dade . Voltaremos a isso.
A análise contestável é a do "instinto feito em frangalhos pelo
ruído" (p. 135), que reforça a convicção do valor dessa equação(... embora
sendo, ela mesma, pouco hipercomplexa). Na verdade, esse instinto feito
em frangalhos não é o instinto estereotipado. É o instinto já duplicado,
triplicado, multiplicado n vezes em suas imagens mentais e suas denomi-
nações memorizadas. Seu "esfrangalhamento" leva, pois, não a recalcá-
lo, mas a diversificá-lo: vários comportamentos diferentes se tornam
possíveis portadores do que, a princípio, era a mesma informação. Os
instintos sexuais, de defesa e de agressividade são inicialmente vividos
de maneira redundante, em suas múltiplas representações, e é isso que
lhes permite, posteriormente, sob o efeito do ruído, uma diversificação e
uma riqueza de expressão antes desconhecidas. Na verdade, as mensagens
instintivas são associadas a outras mensagens (entre elas e com seus
significantes e suas imagens mentais), de maneira inevitável e não forço-

Em francês: hyperecomplexité (hipaicomplexidade). Perde-se em português a homofonia


com hypercomplexité (hipercomplexidade). (NT)
178 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

sarnente funcional, quando de seu armazenamento na memona e do


funcionamento incessante dos mecanismos de reconhecimento através de
associações. A aprendizagem consiste, em seguida, numa diversificação
através das inibições, delimitações e diferenciações de algumas dessas
associações em relação a outras. Assim, o que se esfrangalha é um instinto
que, inicialmente, fora multiplicado. O sonho e o sono são reconstituições
de associações, isto é, de restrições, de redundâncias que depois serão
utilizadas na vigília como um novo material a ser "esfrangalhado".
Dir-se-ia então que, chegando ao fim do livro, arrebatado pela
fascinação diante do errare humanum est, Morin colocou pouco a pouco
a equação simplificadora (desaparecimento de restrições= hipercomple-
xidade) no lugar das relações complexas e aparentemente contraditórias
entre autonomia e dependência (isto é, restrições), que ele havia percebido
e expressado em formulações deslumbrantes, no começo do livro, como,
por exemplo: "A autonomia pressupõe a complexidade, que pressupõe
uma enorme riqueza de relações de toda sorte com o ambiente, isto é, ela
depende de inter-relações, que constituem exatamente as dependências
que são as condições da relativa independência ... A própria individuali-
dade humana, flor derradeira dessa complexidade, é o que há de mais
emancipado e mais dependente em relação à sociedade. O desenvolvimen-
to e manutenção de sua autonomia estão ligados a um imenso número de
dependências educacionais (escolaridade prolongada, longa socializa-
ção), culturais e técnicas. O que equivale a dizer que a dependência/inde-
pendência ecológica do homem se encontra em dois graus superpostos, e
eles mesmos interdependentes: o do ecossistema social e do ecossistema
natural... O homem Pão é uma entidade fechada ... ; é um sistema aberto,
em relação de autonomia/dependência organizadora no seio de um ecos-
sistema" (p. 32).
Entretanto, já a propósito da passagem de ''nossos irmãos inferio-
res'' à sociedade homínida, a análise das relações entre ''a complexidade
e as contradições (p. 48-9) havia escotomizado, como indicamos, e
apesar de sua estranheza, o problema do pai. De fato, a partir das
sociedades de primatas avançados, onde a competição/hierarquia, dentro
e através das classes biossociais (machos adultos, jovens, fêmeas), só
podia "acarretar uma hierarquia rígida ou a dispersão fatal" (p. 49), o
"progresso da complexidade da sociedade homínida" só foi concebido
pelo "desenvolvimento da cooperação e da amizade entre os machos".
Assim, poder-se-ia supor que o aparecimento do pai, mais tarde, nas
sociedades humanas, fosse classificado como um caso particular desses
"estabelecimentos de pontes afetivas interindividuais entre adultos e
jovens". Mas isso equivaleria a reduzir consideravelmente a riqueza
dessa nova figura, cujo valor evolutivo seria muito conveniente descobrir
no ''progresso da complexidade''. Morin mal chegou a abordar essa
HIPERCOMPLEXIDADE E Clf.NCIA DO HOMEM 179

questão, e podemos nos indagar se ela já não o incomodaria por implicar


a valorização do que hoje aparece, em nossas sociedades, como restri-
ções que bloqueiam o "Progresso" (não da complexidade ... mas puro e
simples!). Entretanto, na ausência de bloqueios devidos a essa ideologia,
poderíamos interpretar esse aparecimento como uma mutação social que
conduziu a um salto fantástico da hipercomplexidade, graças à projeção
da contradição no próprio lugar onde se articulam as relações ambíguas
entre o indivíduo e a sociedade. Até então, esse lugar era constituído,
para a criança, apenas pela relação com a mãe. Enquanto a competi-
ção/hierarquia fundamentava o restante das relações sociais, a ligação
com a mãe era suficiente, de início, para fundamentar a pertença ao
grupo. Mas, quando a competição se atenuou para dar lugar à cooperação
e à amizade, a relação de dependência alimentar/autonomizadora com a
sociedade não mais se pôde estabelecer unicamente através da relação
materna. A totalidade das relações do indivíduo com a sociedade ficou
em desequilíbrio, pendendo para seu aspecto alimentar: já não havia a
competição/hierarquia para fundamentar seu aspecto autonomizador. O
processo corria o risco de se deter numa rigidez, certamente não-hierár-
quica, mas cristalina: a da repetição sem flexibilidade, da redundância
sem confiabilidade, onde o indivíduo já não poderia ser outra coisa senão
totalmente dependente, imobilizado nos vínculos poderosos e unívocos
que o uniam aos demais, ou totalmente autônomo e, portanto, cindido da
sociedade. Com o pai, eis que a relação da criança com a sociedade mais
fraterna deixou de ser unívoca, não mais sendo a mãe a única a represen-
tá-la, e sim um casal bizarro de dois indivíduos mui to diferentes e
antagônicos. Foi então que a dualidade, a oposição e a contradição
voltaram a se instalar na relação do indivíduo com a sociedade, a partir
do momento em que ele se percebeu em relação com ela através da
família, e não mais apenas da mãe. A família introduziu uma nova
combinação possível das relações sociais, tanto da ordem dos aconteci -
mentos quanto da representação, e introduziu, com isso, um fator consi-
derável de hipercomplexidade. O conhecimento e a consciência do pai
trouxeram com eles a intemalização, na hlstória individual do jovem, do
movimento de dependência/autonomia que fundamenta a sociedade
como um sistema de alta complexidade. Enquanto, em época anterior,
esse movimento e essa contradição só se manifestavam mais tarde e
secundariamente, nas brincadeiras e, depois, nas relações sociais da vida
adulta (competição/hierarquia), eles passaram então a ser iqtroduzidos
na própria constituição do indivíduo. Assim, o aparecimento do pai e das
estruturas familiares pode ser interpretado como um caso típico de
aumento de restrições passíveis, em seu afrouxamento, de dar margem a
uma complexidade maior. Mais uma vez, não é o estado de baixas
restrições que caracteriza a hipercomplexidade, mas sim o processo de
180 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

diminuição das restrições; este implica, ao contrário, um estado de


restrições relativamente acentuadas. (O que convém não esquecer é,
evidentemente, que deve tratar-se de restrições de tal natureza que
possam ser afrouxadas. Podemos conceber de que modo algumas formas
de estruturas familiares, por sua vez, puderam bloquear-se num estado
de restrições não-evolutivas.)

CIENCIA DO PoLíTico ou PoLtricA DA CitNcIA?

É no último capítulo, a propósito do homem histórico, que a ética e a


ideologia eclodem quase que a cada página. Morin é levado a falar em
"erro fecundo e erro fatal" (p. 232), o que o leva a reconhecer no ruído
organizacional uma tendência a desembocar no ruído e na fúria da histó-
ria, que, ao que parece, deveríamos classificar entre os "erros fatais".
Obviamente, há nisso uma vontade de fazer com que a ciência do homem
desemboque de imediato numa ciência do político. Mas não é certo que
essa seja a melhor maneira, pois ainda é muito grande o risco de assim
psicologiZa.r e ideologizar a ciência do homem, sem desembocar de modo
algum numa ciência do político. "A história não passa de uma·sucessão
de desastres irremediáveis" (p. 205): isso só é verdade numa visão muito
relativa do bom e do ruim, do bem e do mal, onde um.a regressão ou um
''mal'' só são percebidos em relação ao estado imediatamente precedente,
em relação a uma aspiração à conservação e ao repouso, que é também
uma aspiração à morte. Essas diferenças entre "erros fecundos e erros
fatais" (p. 232) provêm apenas do momento e do sistema no qual atuam.
São os mesmos "erros" que produzem a morte biológica e produzem o
desenvolvimento e a aprendizagem não-programada: só que eles ocorrem
num organismo envelhecido, isto é, já orientado por um caminho de
diversificação, ao passo que, no segundo caso, sobrevém num organismo
virgem de diversificação, ainda repleto de redundância, de ''potencial de
auto-organização". Uma ciência do político deveria conseguir, se possí-
vel, descobrir os compromissos entre essa aspiração aô repouso_ e à
eonservação e o próprio movimento que impede esse repouso, que só pode
contrariar esse repouso.
Uma possibilidade de realizar esses compromissos talvez se encon-
trasse numa nova articulação entre diferentes níveis hierárquicos de
organização, entre o particular e o geral, o indivíduo e a sociedade
histórica, cujas relações contraditoriamente constitutivas e autonomiza-
doras Morin mostrou com clareza (ver supra). Novas relações desse tipo
poderiam se estabelecer no Homo sapiens, através, desta feita, das articu-
lações de sua consciência, que pode ao mesmo tempo ser individual,
histórica, social, cósmica etc. Nesse aspecto, podemos imaginar essas
relações se estabelecendo através de uma consciência antropológica da
HIPERCOMPLEXIDADE E CIBNCIA DO HOMEM 18 l

história, por um duplo movimento: de extemalização, projeção no movi-


mento da vida social, do peso de ser, da aspiração ao repouso e à
conservação que norteia a vida do indivíduo, de tal modo que a morte do
indivíduo se dissolvesse na estabilidade e na permanência (relativas) da
sociedade; .e de intemalização consciente do movimento da história, no
indivíduo, de modo a superpor e a fazer entrarem em ressonância os
movimentos individuais e os da sociedade e da história. E, inversamente,
intemalização da estabilidade e da permanência do contexto social, esta- ·
bilidade e permanência estas, evidentemente, relativas em relação à escala
temporal dos movimentos de agitação dos indivíduos; e extemali~ção
dessa agitação na sociedade, da agitação que afinal a põe em movimento.
Em outras palavras, a questão seria, nesse tipo de articulações,
. registrar as relações hierárquicas/autonomizadoras entre nossas socieda-
des históricas e nós mesmos, e utilizar as possibilidades de nossa cons-
ciência (e também de nossa inconsciência) de se mover no interior dos
diferentes níveis hierárquicos. Com efeito, a organização hierarquizada
implica que mudemos de escalas de tempo e espaço ao passarmos de um
nível (mais geral, mais englobante) para outro (mais particular, mais
individualizado). A evolução do primeiro se mede em escalas de espaço
e tempo diferentes das do segundo, e é por isso que um sempre pode se
afigurar imóvel e estável em comparação com as escalas do outro.
Como nosso aparelho cognitivo, consciência-inconsciência, desem-
penha um papel de auto-organização na memória, 13 simultaneamente no
indivíduo (em nosso psiquismo) e na sociedade (pela cultura, pelo conhe-
cimento e pelo saber), há uma. possibilidade inteiramente específica de
vaivém de um nível hierárquico para outro, com as percepções simultâ-
neas de movimento e imobilidade que isso implica.
Assim, aliás, é muito natural que Morin chegue, no final das contas,
à visão de uma scienz.a nuova, que seria a do novo homem em vias de
emergir, "o homem peninsular" que integraria "a ciência da ciência na
própria ciência" (p. 230), "a descrição da descrição", depois de se haver
compreendido como, "cada vez mais, na microfísica, na teoria da infor-
mação, na história, na etnografia ... o objeto é construído pelo observador,
passa sempre por uma ,descrição cerebral". Essa nova ciência deveria,
portanto, "estabelecer o meta-sistema do sistema científico ... , a nova
metafísica que permitirá, não superar, é claro, mas compreender melhor
o impressionante hiato que se amplia entre a ciência e os valores (ética),
a ciência e a finalidade (antropolítica)".
Assim, a ciência do homem, visando a uma ciência do político,
desembocaria inevitavelmente numa ciência do homem conhecedor e
sábio, e portanto, numa ciência sobre a ciência, numa nova epistemologia,
e portanto, num novo paradigma, numa nova prática científica. A reforma
da ciência aqui conclamada implica uma superação da atitude operacional
182 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

que se impôs e continua a se impor cada vez mais na prática científica: o


objetivo da ciência já não é compreender - pois, afinal, que é compreen-
der, se só nos colocamos problemas que podemos resolver e eliminamos
todas as questões consideradas .. não-científicas"? - , e sitn resolver
problemas de laboratório graças aos quais se molda um novo universo
técnico e lógico, que tendemos a considerar -- em virtude de sua eficácia
operacional - coincidente com a realidade física inteira. O fato de isso
não acontecer, de esse universo ser cada vez mais artificial - para ser
repetitivo e reproduzível, para que a antiga ciência possa aplicar-se a ele
eficazmente-, constitui, evidentemente, a razão do abismo que reconhe-
cemos, sempre com um certo espanto ingênuo, entre as ciências laborato-
riais e a ciência do real vivido . Há nisso uma maquinação da epistemolo-
gia ocidental, que H. Marcuse, ao que saibamos, foi o primeiro a
denunciar. Julgou-se que, para escapar aos engodos da metafísica, a
ciência deveria ser apenas operacional, e eis que nos encerramos no
universo alienante e unidimensional do operacional sem negatividade,
onde o estrangeiro e o estranho são simplesmente rechaçados, afastados,
quando não podem ser recuperac:los.

E assim, esse livro termina onde havia começado, no que resta do projeto
central de Morin de unificar os elementos dispersos do saber sobre o
homem e, para fazê-lo, de orientá-los num contexto epistemológico dife-
rente, num novo paradigma. Com respeito a esse projeto, é claro que as
críticas e comentários em que nos detivemos ao longo do caminho ainda
concernem apenas a nuanças de orientação. Desde já, o livro traça os
contornos dessa ciência do homem que integraria simultaneamente a
biologia e a antropologia, más ficando isenta dos pecados do biologismo
e do antropologismo, à qual Morin conclama ardentemente e que, a seu
ver, como ele indica na primeira página, ainda não nasceu. É de se esperar
que, por suas utilizações e prolongamentos judiciosos - e é aí que as
críticas anteriormente expressas podem ter sua razão de ser-, o livro de
Morin venha a assinalar sua data de nascimento. O perigo, evidentemente,
estaria em reificar os novos conceitos - hipercomplexidade, ruído,
auto-organização etc. -, a ponto de reduzi-los a um fenômeno de modis-
mo intelectual.
Entrementes, e de qualquer.maneira, o livro contribui grandemente
para desbloquear a imagem que temos de nós mesmos. Literalmente, ele
a coloca em movimento, graças à substituição da ·'imagem do homem··
pela imagem sempre aberta da hominização. Reencontramos nisso a
primazia heraclitiana do movimento - à qual corresponde, na ordem do
conhecimento, a primazia da função metafórica sobre o conceito, "metá-
fora imobilizada" (J. E. Schlanger).
HIPERCOMPLEXIDADE E C!IONCIA DO HOMEM · 183

Como não aproximar a auto-organização hominizadora da organi-


zação cognitiva, tal como aparece nas novas concepções de uma história
das ciências não-triunfalista, impura, metafórica e analógica? 14 Não existe
o homem, e sim a hominização, que encontra sua origem na evolução. Seu
motor certamente não é a consciência - fator de conservação e estabili-
zação-, mas as correntes de matéria, energia e informação que atraves-
sam a matéria e lhe permitem se auto-organizar. Mas ocorre que essas
correntes e forças assumem, justamente em virtude da presença da cons-
ciência, uma nova dimensão. Em vez de parecerem apenas submetidas a
um princípio de ordem a partir do ruído, elas se transformam no incons-
ciente; transformam-se em desrazão e delírio, em decorrência da e em
relação à presença da razão.
A função cognitiva talvez seja - segundo a intuição de Piaget - o
derradeiro lugar onde a lógica da evolução se manifesta e se revela da
maneira mais rica. Não apenas máquinas desejantes, mas máquinas de
absorver, máquinas de projetar, máquinas de assimilar, máquinas de
fabricar sentidn: em suma, máquinas de conhecer( ... intelectual e "bibli-
camente").
Afinal, não podemos encerrar esse livro sem saborear a riqueza de
expressão que é típica de Morin, desde os trocadilhos e as piscadelas -
há quem os aprecie ou fique irritado; quanto a mim, aprecio - até os
neologismos mais ou menos felizes, mais ou menos justificados, mas
sempre evocadores e portadores de uma "ambigüidade criadora'', verda-
deiro jogo de palavras, projeção evidente do funcionamento " ramifican-
te", "neguentrópico", "neguentropológico", "associativo/dissociati-
vo", "ordenado/desordenado", "programado/aleatório", em suma,
"hipercomplexo" do cérebro de Edgar Morin.
9

A TEORIA DAS CATÁSTROFES

Entre as representações matemáticas do ser vivo propostas nos últimos


anos, a de René Thom ocupa um lugar absolutamente especial.
René Thom, matemático dos mais destacados, laureado em 1958
com a medalha Field, tomou-se conhecido, mais recentemente, de um
público cada vez maior de não-matemáticos, inteiramente incapazes, em
sua maioria, de compreender os trabalhos que lhe valeram essa coroação.
Thom deve isso a uma parte de sua obra que surgiu mais tarde, ainda muito
contestada, designada pelo provocador título de teoria das catástrofes.
Esse trabalho, exposto num livro chamado Stabilité structurelle et
morphogénese [Estabilidade estrutural e morfogênese], 1 é também de
extremo tecnicismo matemático. No entanto, começa a adquirir uma
espécie de popularidade em meio a um grande número de pensadores,
filósofos e cientistas, matemáticos ou não, a grande maioria dos quais não
tem acesso à linguagem técnica que permite compreender em profundi-
dade a teoria das catástrofes. Esses investigadores sentem, intuitivamente,
que essa teoria pode lhes prestar serviços, atender a suas necessidades, ou
até mesmo ser a teoria revolucionária que eles estavam esperando ... muito
embora não a dominem.
Naturalmente, poderíamos liquidar esse fenômeno, considerando-o
como um desses modismos intelectuais parisienses, como a eclosão de um
dos novos ••gurus .. cujas listas - não-exaustivas - são estabelecidas e
reatualizadas de tempos em tempos. Alguns não se furtam a isso, ainda
que, nesse caso, se trate mais de um guru ••indireto", referência e fonte
de inspiração dos anteriores. Mas outros sabem que, por trás desse fenô-
meno, há um pensamento profundo e original. Ainda não vemos clara-
mente para onde ele levará - nem tampouco seu autor, aliás - , mas
vemos que talvez seja passível de ajudar a colocar bem alguns problemas
científicos e filosóficos que ainda não sabemos como abordar. É possível
que os frutos da teoria das catástrofes sejam, no futuro, inteiramente
diferentes dos que podemos imaginar, sobretudo em se tratando de seus
defensores entusiásticos mas mal informados. Contudo, há ali mais do que

184
A TEORIA DAS CATÁSTROFES 185

um manancial de idéias, mesmo que às vezes contestáveis, que afetam a


biologia, a lingüística, a économia e4:. É que se trata de uma abordagem
que reatualiza a relação da matemática com o mundo físico e, com isso,
é passível de reformular, juntamente com outros modos de pensar, o que
se tem chamado de paradigma de nossa época. 2 ·
A linguagem da teoria das catástrofes é a da topologia, ramo da
matemática de extrema abstração, para cujo desenvolvimento R. Thom
contribuiu na primeira parte de sua obra: a parte não-contestada que ele
realizou quando era, como afirma com o humor frio e tranqüilo que o
caracteriza, um matemático ortodoxo.
Na verdade, sendo o objetivo uma descrição geométrica das formas
e de sua gênese, tal como aparecem na natureza, a geometria dos liceus é
realmente insuficiente. Assim é que, por exemplo, as formas complicadas
e mutáveis observadas na estrutura e na evolução dos seres vivos não
evocam imediatamente, em nós, formas geométricas. Não é o que acon-
tece com R. Thom e outros matemáticos arrastados para a topologia
diferencial. O exercício dessa disciplina lhes ensinou a descrever mate-
. maticamente e a ''ver'• no espaço um grande número de dimensões das
formas geométricas, muito mais complicadas do que as figuras com que
nos habituou a geometria de nossa infância. Essa formação permite
reconhecer formas muito abstratas com toda "naturalidade", como qual-
quer um pode reconhecer hexágonos nas casas de abelhas. Essa faculdade
é utilizada para a observação e explicação de fenômenos naturais, seja na
geologia, seja na biologia, ou mesmo na lingüística e na psicossociologia,
onde se trata, então, de formas ainda mais abstratas, definidas num espaço
que não é forçosamente o da percepção de nossos sentidos.
A busca de explicações geométricas para a realização de todas as
formas, inclusive as mais complicadas, observadas durante o desenvolvi-
mento dos seres vivos, era uma tarefa que parecia impor-se naturalmente
às ciências da natureza e, em particular, à biologia, levando-se em conta
a evolução das outras ciências (físicas e químicas) em direção a uma
matematização cada vez mais forçosa . Essa exigência foi expressa com
vigor e talento num livro de D' Arcy Thompson, 3 autor a quem R. Thom
freqüentemente se refere como um de seus predecessores. Mas essa
exigência havia permanecido no estado de um projeto de pesquisa, porque ·
o instrumental matemático não era adequado. Esse instrumental, Thom
foi encontrá-lo na dinâmica qualitativa e na topologia diferencial, ramos
ainda muito pouco utilizados da matemática, a cujo estudo realmente
conviria nos dedicarmos! Digamos, em termos muito grosseiros, que a
topologia é o estudo lógico das formas no sentido mais amplo do termo~
Pode tratar-se de uma forma geométrica habitual. Mas, acima de tudo,
trata-se de estruturas cujas propriedades lógicas de conectividade perma-
necem as mesmas, muito embora seu aspecto concreto, no sentido habi-
186 EIITKE o CRISTAL.E A FUMAÇA

tual, possa se deformar. Mais precisamente, a topologia estuda, numa


figura, as propriedades que não se alteram quando ela sofre transforma-
ções pouco a pouco, sem descontinuidade. Assim, um círculo, uma elipse,
um quadrado ou um triângulo inscritos no círculo têm as mesmas proprie-
dades topológicas - as de uma curva fechada - que compartilham, aliás,
com o círculo deformado pelos achatamentos e repuxamentos.
A topologia habituou R. Thom a reconhecer, nas formas complica-
das dos seres vivos e na natureza em geral, realizações de superfícies mais
ou menos atormentadas, das quais é impossível fornecer definições mate-
máticas suficientemente rigorosas. Comparadas às formas diversificadas
que elas constituem, as figuras geométricas habituais afiguram-se apenas
como casos particularmente simples e cristalizados. De fato, essas super-
fícies não são figuras estáticas: são geradas por uma dinâmica (ou por
várias em conflito), e é isso que se acha na origem do termo catástrofes,
que Thom escolheu para nomear sua teoria, "dramatizando-a", como ele
diz.
Sua hipótese fundamental é que uma forma ou "uma aparência
qualitativa" é o resultado de uma descontinuidade em algum lugar: se não
ocorre nenhuma descontinuidade no espaço onde alguma coisa pode
aparecer, nenhuma forma aparece nele. A questão é, evidentemente:
descontinuidade de quê? As figuras dinâmicas, do tipo turbilhões de
líquido, gotas em movimento e outras cristas de onda, também ocorrem
como resultado de descontinuidades nos movimentos que são a própria
condição de sua existência: jatos de líquido, formação das gotas, desliza-
mento de camadas d'água constituindo ondas etc. A forma particular do
remoinho de espuma sobre as ondas é resultante de uma descontinuidade
geralmente devida a forças antagônicas no movimento do líquido. Forças
que tendem a romper a simetria do movimento encontram a oposição de
outras que tendem, ao contrário, a estabilizá-lo. Daí resulta uma eclosão,
uma descontinuidade, uma "catástrofe" no movimento, cuja forma, no
entanto, se mantém, desde que a estrutura assim realizada se mantenha
estável. Daí a idéia de que toda forma deve poder ser ligada a um
movimento, a um dinamismo particular, uma descontinuidade da qual
gera uma possibilidade de estrutura. Essa possibilidade é realizada quan-
do, apesar de descontínua e resultante de uma instabilidade do regime
homogêneo anterior, ela mesma produz uma estrutura dinâmica relativa-
mente estável.
É essa hipótese fundamental que Thom resume ao dizer que seu
método "dá um certo fundamento à abordagem estrutural. Ele permite
explicar a estrutura por um dinamismo subjacente ... Não se deve conside-
rar que a estrutura esteja dada a priori, que ela como que se mantenha por
sair, como estrutura, de um empíreo platônico, mas, ao contrário, que o
A TEORIA DAS CATÁSTROFES 187

que produz a estabilidade de uma estrutura é a existência de um dinamis-


mo subjacente que a gera e do qual ela é a manifestação" .4
A partir daí, o trabalho de Thom consistiu em estudar as condições
formais de aparecimento de estruturas dinâmicas estáveis, da maneira
mais geral possível, independentemente da natureza física ou outra (lin-
güística, por exemplo) das foi;ças e elementos-substratos que constituem
essas estruturas, consistindo o objetivo em estabelecer uma espécie de
catálogo de formas dinâmicas relativamente simples, de modo a que
qualquer forma encontrada na natureza pudesse ser reduzida a uma super-
posição dessas formas simples, chamadas "catástrofes elementares".
Seguindo esse caminho, Thom imagina aquilo a que chama teoria
do "desdobramento universal de uma singularidade" . Em termos muito
esquemáticos, trata-se de estudar o que acontece num ponto onde ocorre
uma descontinuidade numa função matemática que representa um certo
dinamismo atuante naquele ponto. (Esse ponto é chamado singular, em
oposição aos outros, chamados regulares, em que a função é continua.)
Num ponto assim, ao contrário do que acontece em outros lugares, não
apenas a função é descontínua, como também essa descontinuidade pode,
confomie ~s valores de certos parâmetros que lhe são acrescentados,
assumir· diversas formas diferentes. Esses parâmetros exprimem, a rigor,
a ação do exterior do sistema dinâmico em questão (variáveis externas),
enquanto as variáveis propriamente ditas da função (variáveis internas)
exprimem o dinamismo característico do sistema. As variáveis externas, no
caso mais estudado, são simplesmente as três coordenadas do espaço e do
tempo. As variáveis internas podem ser, por exemplo, as concentrações dos
diferentes componentes químicos de um organismo, cujo dinamismo é
dirigido pelas leis que regem as reações químicas e a difusão da matéria.
Essa busca das condições de aparecimento de descontinuidades
estruturalmente estáveis e de um catálogo de catástrofes elementares, a
partir de singularidades de funções, esbarra em dificuldades que a Dinâ-
mica Qualitativa (ramo da matemática inaugurado por Poincaré) ainda
não conseguiu superar nos casos mais gerais em que nenhuma hipótese é
formulada sobre a natureza dessas funções.
Essa tarefa está reservada ao futuro trabalho dos matemáticos no
âmbito de uma teoria ainda iniciante, chamada teoria das bifurcações. O
mérito de Thom está em chamar a atenção - dos matemáticos e dos outros
- para o que talvez seja possível esperar dos avanços dessa teoria.
Inversamente, com a ajuda de duas hipóteses suplementares, que
decerto restringem a generalidade dos fenômenos, mas que com muita
freqüência se justificam na prática, Thom consegue demonstrar o caráter
finito do número possível de catástrofes elementares e estabelecer seu
catálogo, que se limita a sete. Essas hipóteses são, de um lado, que o
dinamismo subjacente é exercido em nosso espaço-tempo de quatro
188 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

dimensões (isto é, que o número de variáveis externas não ultrapassa


quatro), e ·d e outro, que esse dinamismo pode ser descrito com a ajuda de
uma função que admite um potencial. As singularidades da função cor-
respondem, assim, a mínimos ou máximos desse potencial. Nessas condi-
ções, Thom mostra que o número de singularidades possíveis (com seu
desdobramento universal) se limita a sete, fornecidas por sete expressões
relativamente simples do potencial. Os desdobramentos universais dessas
sete singularidades levam a sete figuras dinâmica5 possíveis, representa-
das por superfícies mais ou menos complicadas, exibidas no espaço. As
secções dessas superfícies por diferentes planos, correspondendo a dife-
rentes tempos, representam formas elementares passíveis de gerar umas
às outras de maneira estável.
As sete catástrofes elementares levam os nomes figurados de dobra,
ruga, cauda de andorinha, borboleta, umbigo hiperbólico, umbigo elíptico
e umbigo parabólico.
Esse é, muito grosseiramente resumido, o aspecto técnico da teoria
das catástrofes. A questão que se coloca a partir daí é aquela pela qual
começamos: o que explica a curiosidade, ou mesmo o entusiasmo e o
fascínio, ou ainda as restrições irônicas e as críticas exasperadas por parte
de pesquisadores de diversas disciplinas, dentre os quais poucos fizeram
o esforço de adquirir um mínimo da linguagem técnica necessária para
penetrar em profundidade no proceder - ficaríamos tentados a dizer: no
"desdobramento" em todas as direções - do pensamento de Thom?
É que, mesmo sem compreender as sutilezas e a estética matemática
que ele veicula, percebe-se muito depressa o que está em jogo, no plano
de uma certa filosofia da ciência. Ainda mais que Thom, em suas tentati-
vas de explicação e vulgarização, não se priva de insistir, provocadora-
mente, nos pressupostos metodológicos de sua abordagem. É uma certa
maneira de abordar os problemas, uma atitude geral diante das questões
não-resolvidas, em suma, uma certa concepção do procedimento científi-
co, que se exprime através do tecnicismo de sua exposição. É ela que
desencadeia essas reações amiúde passionais, por entrar em ressonância
ou, ao contrário, chocar-se de frente com os pressupostos metodológicos
de uns e de outros, empregados nas mais diversas disciplinas.
O que todo mundo pressente aí é uma nova maneira - atraente ou
irritante, conforme as pessoas - de abordar as questões do determinismo
e da finalidade nas gêneses naturais das formas: as das relações entre o
todo e as partes nos sistemas organizados. O que está em jogo é a
abordagem global e formalizadora, em comparação com a análise deta-
lhada da seqüência de causas e efeitos; é a primazia do abstrato e do formal
sobre o concreto, que seria uma realização dele, numa certa medida,
independente do material que o constitui. Aplicada ao estudo dos seres
A TEORIA DAS CATÁSTROFES 189

vivos, essa abordagem, evidentemente, corre em sentido oposto ao da


biologia moderna, analítica, reducionista e molecular, enraizada na bio-
química.
O que está em jogo é também a validade do raciocínio por analogias,
que sabemos servir de suporte a todos os delírios. E Thom sabe perfeita-
mente o risco que está correndo ao tocar nesses domínios quase tabus do
pensamento científico: •'Quanto a isso, uma boa doutrina da utilização
das analogias na ciência ainda está por ser estabelecida ... Entre constatar
a presença de acidentes morfológicos isomórficos em diferentes substra-
tos e estabelecer entre esses substratos um pareamento fundamental, para
explicar essas analogias, há um passo imenso: precisamente o que se
consuma no pensamento delirante. Se algumas de minhas considerações,
especialmente na biologia, tiverem parecido ao leitor beirar o delírio, de
poderá, através de uma releitura, convencer-se de que em nenhum ponto,
espero eu, cheguei a dar esse passo" (p. 317).
Na verdade, esse encaminhamento é uma conseqüência lógica da
formação anterior de Thom nos exercícios da topologia. (A ·menos que
seu interesse anterior pela topologia já fosse cons~qüência dessa orienta-
ção.) A rigor, ele só faz levar ao extremo, e principalmente fazer sair do
campo esotérico da matemática, uma tradição representada por uma certa
corrente matemática moderna. Desse ponto de vista, a leitura de uma
recente reedição de um filósofo da matemática, Albert Lautman,s falecido
em 1942, é muito esclarecedora. Já se vai muito tempo - desde o início
do século-, que a matemática descobriu a razão por que "procuramos
estabelecer uma ligação entre a estrutura do todo e as propriedades das
partes, pela qual se manifesta, nas partes, a influência organizadora do
todo a que pertencem". 6
Essas considerações, que são julgadas próprias da biologia e da
sociologia, a matemáticà as descobriu ao refletir sobre as relações entre
o local e o global, o intrínseco e o extrínseco, quando não se trata de
organismos vivos, mas de seres matemáticos rigorosamente definidos. Por
isso, os problemas lógicos que a filosofia da biologia acredita ter resolvido
através dos conceitos de teleonomia e programa (Mayer, Monod) já
tinham sido encontrados e resolvidos pelos filósofos da matemática, no
próprio curso do desenvolvimento da matemática. É que, na verdade, "a
idéia da ação organizadora de uma estrutura nos elementos de um conjun-
to é plenamente inteligível em matemática, mesmo que, transposta para
outros campos, perca sua limpidez racional. A prevenção que o·filósofo
às vezes experimenta diante de arranjos harmoniosos demais não provém
tanto de eles subordinarem as partes à idéia de um todo que as organiza,
mas de a maneira como se efetua essa organização do conjunto ser, ora
de um antropomorfismo ingênuo, ora de uma misteriosa obscuridade.
Com efeito, muitas vezes faltam tanto à biologia quanto à sociologia os
190 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

instrumentos lógicos necessários para constituir uma teoria da solidarie-


dade do todo e de suas partes: ( ... )a matemática pode prestar à filosofia
o eminente serviço de lhe oferecer o exemplo de harmonias internas cujo
mecanismo satisfaz às mais rigorosas exigências lógicas" .7 ·
Da mesma forma, o modo de pensar finalista, tão chocante para os
espíritos científicos quando se exprime de maneira antropomórfica ou
teológica a propósito de sistemas vivos, há muito tempo foi integrado ao
discurso matemático e físico, sob a forma abstrata, porém rigorosa, dos
princípios do máximo e do mínimo: todas as vezes que uma lei física
expressa que, em determinadas condições, uma grandeza característica de
um sistema deve atingir um máximo ou um minimo, trata-se da expressão
rigorosa e determinista de um visível finalismo: isso significa, de fato,
que a evolução do sistema se dirige para seu estado final de máximo ou
mínimo, pelo menos enquanto a partir de seu estado inicial, sem que por
isso lhe devamos atribuir uma vontade ou uma intenção. 8 O que era
verdade em 1938 parece continuar a sê-lo, ainda hoje, para R. Thom, no
que concerne ao instrumental lógico de que se serve a biologia. Enquanto
a biologia moderna triunfa e afirma ter resolvido seus seculares problemas
da "finalidade aparente" e da "organização do todo a partir de seus
componentes moleculares", Thom rejeita desdenhosamente o que consi-
dera como falsas explicações e como o resultado de uma " quinquilharia
irrelevante"! Ao mesmo tempo, ele sabe perfeitamente que suas próprias
explicações só podem aturdir os biólogos experimentais, em virtude de
sua abstração generalizadora e de seu flerte exagerado com o analogismo.
Mas ele vai seguindo em seu passinho, porque também sabe que, no
contexto da matemática, onde a topologia faz as vezes da análise clássica,
sua orientação nada tem de surpreendente nem de heterodoxa. E ele toma
o cuidado de não dar o passo entre a analogia fecunda e a analogia
delirante.
A única questão que persiste é, pois: será que essas teorias que hoje
assustam por sua abstração, como o fizeram outrora as de Galois e
Riemann, têm alguma probabilidade de ajudar a conhecer e ·c ompreender
melhor a realidade? Aí estão, evidentemente, as teorias precedentes de
Galois e Riemann, cujas aplicações na física são hoje insubstituíveis, para
levar à reflexão aqueles que se sintam apressadamente tentados a rechaçar
a teoria das catástrofes para o limbo do delírio. Mas o próprio Thom
responde a essa pergunta, distinguindo dois tipos de aplicação de sua
teoria, que ele chama científicos e metafísicos. Nos primeiros, trata-se de
contribuir para a resolução de problemas em que o elevado número de
variáveis e a forma complicada das equações impedem que os métodos
da análise clássica sejam eficazes. Mas os problemas por solucionar são
problemas científicos clássicos, onde as variáveis e as forças estão bem
definidas e equacionadas. A teoria das catástrofes proporciona, nesse
A TEORIA DAS CATÁSTROFES 191

caso, um instrumento matemático a mais para permitjf a solução - ao


menos qualitativa - de sistemas de equações com derivadas parciais.
Mas, ao lado dessas chamadas aplicações científicas, as chamadas
aplicações "metafísicas" são, visivelmente, as que mais interessam a
René Thom. Trata-se, aí, de uma orientação inversa: estamos diante de
uma morfologia, isto é, de um sistema fornecido pela natureza (vivo,
social, lingüístico etc.), e a questão é explicar sua ocorrência, sua estabi-
lidade e sua evolução, considerando-o como a solução de uma dinâmica
subjacente. A teoria das catástrofes permite propor essas dinâmicas - ou
seja, equações. Os critérios de explicação, nesse caso, são amiúde critérios
de simplicidade e concisão, mais do que de verificação experimental.
Além disso, as variáveis, as forças e os potenciais não precisam forçosa-
mente ser definidos de maneira concreta. Daí o caráter abstrato dessas
aplicações a que Thom chama metafísicas. Mas são visivelmente essas
que ele prefere, pois são as que lhe parecem mais promissoras. Ele
reconhece de bom grado seu caráter chocante para a orientação científica
habitual, mas é a esta que critica, conclamando ardentemente a um novo
espírito científico: ''Serão nossos modelos passíveis de controle experi-
mental? Acaso podemos, graças a eles.fazer previsões experimentalmen-
te controláveis? Com o risco de decepcionar o leitor, cabe-me responder
a essa pergunta pela negativa. Essa é a falha característica de todo
modelo qualitativo, comparado aos modelos quantitativos clássicos[ ... ].
Diante dessa constatação de impotência, as mentes estritamente
empiristas ficam tentadas a rejeitar nossos modelos como uma constru-
ção especulativa desprovida de interesse. No plano da edificação da
ciência atual, elas provavelmente têm razão. A mais longo praza, porém,
há duas razões que devem incitar qualquer estudioso a lhes dar algum
crédito. A primeira é que todo modelo quantitativo pressupõe um corte
qualitativo da realidade, o isolamento num sistema estável, experimental-
mente reprodutível. Admitimos como dados a priori essas grandes divi-
sões, essa taxonomia da experiência em grandes disciplinas: física,
química, biologia etc. fua decomposição, quase inconscie ntemente le-
gada a nós por nosso aparelho perceptivo, qualque r estudioso a utiliza,
apesar de suas hesitações, assim como M. Jourdanfazia prosa sem saber.
Não haveria mais interesse, nessas condições, em questionar essa decom-
posição e integrá-la no quadro de uma teoria geral e abstrata, do que em
aceitá-la c,egamente como um dado irredutível da realidade?
A segunda razão é que não conhecemos os limites de aplicabilidade
dos modelos quantitativos. Os grandes sucessos da física do século XIX,
baseados na utilização e na exploração das leis físicas, levaram a crer
que todos os fenômenos seriam justificáveis por esquemas análogos; que
colocaríamos a vida e o próprio pensamento em equações! Ora, pensando
bem, muito poucos fenômenos dependem de leis 11Íatematicamente ex-
192 El'ITRI! O CRISTAL 1! A FUMAÇA

pressas de maneira simples; feitas todas as corísiderações, mal chega a


haver três, pqr essa razão batizados, de fundamentais: a grlivitação (lei
de Newton), a luz e a eletricidade (leis de Maxwell). Mas essa simplici-
dade é apenas aparente; ela exprime tão-somente que o caráter estreita-
mente ligado, na geometria do espaço, da gravitação e do eletromagne-
tismo, resulta de um efeito estat(stico referente a um grande número de
pequenos fenômenos isolados e independentes. Tão logo descemos à
escala quântica, de fato, a situação se modifica; não mais compreende-
mos os fatos fundamentais que asseguram a estabilidade da matéria, não
nos explicamos a estabilidade do pr6ton! A mecânica quântica, com seu
salto para a estatfstica, foi apenas um ténue paliativo para nossa igno-
rância. Além disso, mesmo que um sistema seja regido por leis evolutivas
expUcitas, falta muito para que seu comportamento qualitativo seja
calculável e previs(vel. Tão logo se eleva o número de parâmetros que
intervém no sistema, diminuem as possibilidades e cálculo aproximado
[. .. ].Os vendedores de quinquilharias eletrónicas gostariam de nos levar
a crer que, com a difusão dos computadores, uma nova era se inaugurará
para o pensamento científico e para a humanidade. Elas poderão, no
máximo, levar-nos a perceber onde está o problema essencial; ele está
na construção de modelos[... ]. Não é imposs(vel, afinal, que a ciência já
se esteja aproximando de suas últimas possibilidades de descrição finita;
o indescrit(vel e o informatizável estão agora em nossa porta, e é preciso
aceitarmos o desafio. Teremos que descobrir as melhores maneiras de
abordar o acaso, de descrever as catástrofes generalizadas que rompem
as simetrias, de formalizar o informatizável. Nessa tarefa, o cérebro
humano, com seu velho passado biológico, suas aproximações hábeis e
sua sutil sensibilidade estética, é e continuará a ser insubstitu(vel ainda
por muito tempo.
Assim, vê-se que o que trazemos aqui não é uma teoria científica,
mas antes um método; descrever os modelos dinâmicos compat(veis com
uma morfologia empiricamente dada, esse é o primeiro passo na constru-
ção de um modelo; é também o primeiro passo na compreensão dos
fenômenos estudados. Desse ponto de vista, nossos métodos, em si muito
indeterminados, levarão a uma arte dos modelos, e não a uma técnica
padronizada, explicitada de uma vez por todas. No contexto de um dado
substrato, podemos esperar que os teorizadores sejam capazes de desen-
volver um modelo quantitativo, tal como fez a mecânica quântica em
relação às interações elementares; mas isso é apenas uma esperança[... ].
Não é sem um certo pesG na consciência que um matemático toma
a decisão de abordar assuntos aparentemente tão distantes de suas
preocupações habituais. Grande parte de minhas afirmações decorre de
pura especulação; certamente poderão ser chamadas de devaneios...
Aceito o qualificativo; não é o devaneio a catástrofe virtual em que se
A TEORIA DAS CATÁSTROFES 193

inicia o conhecimento? No momento em que tantos estudiosos fazem


cálculos pelo mundo afora, não será desejável que alguns, capazes de
fazê-lo, sonhem?'' (p. 322-6).

Para Kuhn, a passagem de um paradigma (espírito da época) para o


seguinte é feita graças a homens que têm um pé no antigo, enquanto
avançam o outro para o novo. Imperceptivelmente, seu discurso se desloca·
de um discurso integrado no anterior para um discurso criador do novo.
Em relação ao futuro novo paradigma, René Thom realmente parece ser
um desses homens.
10

A GNOSE DE PRINCETON 1

Já no subtítulo somos prevenidos: estudiosos em busca de uma religião.


Reportagem do filósofo R. Ruyer2 sobre um "movimento" aristocrático
e discreto de cientistas norte-americanos que, como dizem, estão tentando
"endireitar a ciência". Mais precisamente, trata-se do reencontro das
ciências de hoje - a physis da natureza, da energia e da informação -
com a metafísica, onde se levam a sério os problemas do "eu", da origem
do pensamento ("isso pensa" no universo assim como "chove" [it
thinks], e é por isso que "eu" penso), da consciência (in) formadora e do
sentido. Para os neognósticos, a astronomia, a microfísica e a biologia
mostram visivelmente a presença de tal "consciência", atuante tanto na
evolução das galáxias e das partículas elementares quanto na diferencia-
ção embrionária: em. termos mais gerais, atuante todas as vezes que
lidamos com uma entidade organizada, caracterizada por um comporta-
mento global, com um todo ("holon"), e não apenas com um "amontoa-
do" . Para eles, a abordagem científica habitual, que faz a ordem sair da
desordem, o antiacaso do acaso, é resultante de um postulado, chamado
Cego Absoluto, que eles consideram como um mito da mesma categoria
de seu contrário, o mito da consciência clarividente. Mas, "mito por
mito", a Gnose pelo menos opta pelo que não é absurdo .. . a filosofia do
esclarecimento consciente num universo semelhante à área visual de um
cérebro vivo, que tem um "local, uma unidade verdadeira, e não a falsa
unidade do cérebro de um cadáver, cujas moléculas retornam todas à
multidão empoeirada das moléculas terrestres" (p. 77). Em outras pala-
vras, a existência de uma causalidade descendente (isto é, do todo orga-
nizado para suas partes), superposta à causalidade ascendente (das partes
para o todo), habitualmente aceita, parece-lhes menos absurda do que sua
ausência. Por isso, é muito natural que eles sejam levados à Causa única,
à Unitas do Universo, à Alma, ou à Consciência do Mundo, que, com
algumas reticências, mesmo assim eles chamam de Deus. Naturalmente,
esse Deus que tudo penetra, para "endireitar" a compreensão dos fenô-
menos que nos são sugeridos pelas ciências de hoje, não é o Deus das

194
A GNOSE DE PRINCETON 195

religiões, já que mais abre a pesquisa do que a fecha. Não é colocado como
a explicação mágica e verbal, nem como o "ponto ômega", mas convida
a compreender cada vez mais, cada vez mais profundamente. No entanto,
o deslizamento é fácil, é impossível nos desfazermos de um certo mal-es-
tar, ao lado dos momentos de entusiasmo (no sentido etimológico, forço-
samente, quando o deus nos penetra!) que nos são proporcionados por esse
livro. A linguagem, amiúde irritante, é evidentemente importantíssima, e
toda a empreitada parece ser feita de uma sucessão de deslizamentos. Os
velhos problemas metafísicos do "eu", da consciência e do espírito na
matéria não são realmente questionados. São retomados e reformulados
com a ajuda de uma nova linguagem, fornecida pelas ciências da natureza.
Mas, para que isso seja feito, os conceitos de causalidade descendente, de
sentido e de consciência são situados sem ser realmente questionados. Ou, .
quando o são, é com a ajuda de deslizamentos de conceitos como - mais
uma vez - o de informação: a partir do conceito claro e dominado, mas
limitado, de informação probabilística, do qual a significação é excluída,
passa-se abusivamente ao conceito - justamente o que constitui o pro-
blema - de informação significante, de _sentido. A habitual abordagem
reducionista das ciências da natureza nos faz ver como que uma "tapeça-
ria" pelo avesso; a Nova Gnose seria uma inversão que nos permite ver
o que a possibilita. Mas essa inversão é inevitavelmente acompanhada por
descontinuidades lógicas em que, se ouso dizê-lo, o fio se perde. Sem
defender minimamente a abordagem cientificista, reducionista e opera-
cional, eu prderiria tentar atravessar a tapeçaria para ver seu lado direito,
em vez de virá-la. 3
Numa segunda parte, prática, <t:onforme à teoria, mas não oriunda
dela, surge ao máximo o caráter aristocrático - anarquista? - desse
movimento de intelectuais exasperados com os modismos intelectuais:
um "desvio dos desvios", que logo seria taxado de reacionário por
alguns. E, no entanto, é aí que se desenvolvem noções como as de
montagens psíquicas, de atitudes~comportamentos que são suportes de
idéias, e de psicossíntese (e não-análise), que encontram suas justificati-
vas não na teoria, mas na busca de uma "boa técnica" de construção do
organismo psíquico. Dialética sutil entre pensamento e ação, ideologia e
comportamento, consciência pensada e consciência orgânica, essa é uma
abertura de grande riqueza, comparada às ideologias humanistas habi-
tuais. De fato, de um lado, "as normas reinam em todos os campos, ao
contrário das crenças ingênuas dos idealistas da liberdade, da fé e da
criatividade arbitrária, e essas normas são técnicas, não morais".
Mas, por outro lado, "o emprego das boas técnicas nem sempre se
deve a uma vontade consciente prévia da técnica, mas com freqüência, ao
contrário, a crenças mitológicas que não visam, em absoluto, ao sucesso
técnico" (p. 244). Por isso é que "a Nova Gnose reduz o mito ao mínimo
196 El'ITRE O CRlSTAL E A FUMAÇA

indispensável", depois de reconhecer que "reduzi-lo mais seria iluiório


e até contraditório" (p. 293). É nisso que reside a abertura dessa aborda-
gem, onde a ciência não mais serve de tela encobridora aos problemas que
até hoje negligenciou, e onde a sabedoria e a metafísica voltam a se tomar
possíveis a partir das ciências da natureza, e não contia elas ou fora delas.
É isso que pode criar - além de todas as reticências, de todas as objeções
- uma grande simpatia pelo começo constituído por esse movimento, que
é um sopro de ar fresco em nossa cultura, que oscila de um neodogmatismo
a outro, no cientificismo mecanicista, na antropologia, na psicanálise de
segunda e no budismo zen, alvos preferidos dos neognóstic<_>s.
QUARTA PARTE

SOBRE FÉS, LEIS,


ARBÍTRIOS E PERTENÇAS

''Fui gerado, cada qual por sua vez, e desde então


há a pertença. Tentei tudo para me subtrair, mas
ninguém conseguiu isso, somos todos somados.''
Émile Ajar, Pseudo, Mercure de France, 1976.
11

ISRAEL EM QUESTÃ0 1

1. UM Povo, SUA HISTÓRIA, SUA CULTURA

A história do povo judeu começa - assim como a de suas relações com


a Torah - por ocasião da saída do Egito, três ou quatro milênios atrás.
O fato de o ou os primeiros milênios dessa história só nos serem
conhecidos através da própria Torah não altera grande coisa nessa reali-
dade histórica. Mesmo que consideremos o relato bíblico mais mítico do
que histórico, trata-se do mito de origem do povo judeu, que desempenha,
na determinação da identidade desse povo, no mínimo o mesmo papel do
mito de origem de qualquer povo, tribo ou família.
Mais do que isso, as relações entre esses mitos - o conjunto da
Torah escrita e oral, se os considerarmos como tais - e o povo judeu
histórico têm uma natureza genérica muito particular.
Não se trata apenas de velhos relatos, piamente transmitidos dos
anciãos aos .inidados, e dos quais os feiticeiros - sacerdotes, depois
rabinos - se serviram para estabelecer seu poder e organizar sua socie-
dade. Trata-se, além disso, da matéria de todo um ensino - Torah
significa ensino - que, já se vão séculos, tem sido objeto de estudo e de
uma pesquisa a um tempo popular e intelectualmente refinadíssima, ao
mesmo tempo que moldou, produziu e gerou o próprio povo judeu.
Popular, porque esse foi um dos primeiros sistemas de instrução obriga-
tória e escolarização generalizada a serem estabelecidos, há aproximada-
mente dois mil anos, e que se manteve, com altos e baixos, até os dias
atuais. Intelectualmente refinada quase pelas mesmas razões: a partir do
momento em que o estudo da Torah, de modo não apenas recitativo, mas
analítico e crítico, foi constituído como o pilar institucional fundamental
em tomo do qual se organizavam as comunidades judaicas dispersas, essas
comunidades se transformaram, ipso facto, em fábricas e reservatórios de
inteligências. .
Estas, aliás, efetivamente emergiram aqui e ali, graças às condições
favoráveis à expansão intelectual que reinavam nessas comunidades, cuja

199
200 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

infra-estrutura era colocada a serviço da escola, do ensino e da pesquisa


- o Talmud-Torah sob todas as suas formas, com todos os seus níveis de
alunos e mestres, do menos dotado ao gênio, ao ''gaon'' reconhecido pelo
povo inteiro, cujas produções e renome se estendiam através de toda a
rede dessas comunidades-escola espalhadas pelo mundo.
A história do povo judeu após a destruição do templo de Jerusalém,
símbolo do enraizamento nacional territorial há dois mil anos, é a história
de suas escolas, dividida em grandes períodos que marcaram a evolução
do ensino, tanto em seu conteúdo quanto em suas instituições. Houve o
período dos "Tanaim'', os "Docentes" da Mishna, seguido pelo dos
"Amoraim'', os "Falantes" dos Talmudes de Jerusalém e da Babilônia,
seguido pelo dos "Gaonim", os "Gênios" dispersos, depois pelo dos
''Poskim, reshonim e aharonim", os legisladores encarregados das deci-
sões, antigos e recentes.
Essa organização, instaurada desde o retomo do primeiro exílio da
Babilônia, antes do segundo templo, substituiu a organização nacional
monárquica e sacerdotal desde o fim do segundo templo, tanto nos grupos
judeus dispersos quanto nas comunidades que continuaram, bem ou mal,
a viver na terra de Israel, primeiro sob a dominação romana, depois
bizantina, depois árabe e depois turca.
Em contrapartida, os mestres - rabbi ou rav quer dizer mestre
- eram encarregados da organização, não apenas da Escola, mas
também do direito, da organização, da vida social e individual dessas
comunidades.
De fato, suas produções intelectuais tinham por objetivo, no final
das contas, mesmo após os mais abstratos desvios, desembocar no enun-
ciado do direito, da lei prática das comunidades, direito e lei que sempre
se trata de descobrir e revelar, mesmo que, numa forma prototípica,
tenham sido dados de uma vez por todas a "Moisés do Sinai".
Essa lei abarcava e continua a abarcar todos os aspectos da vida dos
indivíduos, sociais e pessoais. Um lugar particularmente importante foi e
continua a ser reservado à busca de uma forma de expansão da vida sexual
e familiar, responsável principal pela geração dos futuros alunos e por sua
integração no sistema de ensino.
Em outras palavras, essas relações genéricas recíprocas entre a
natureza (isto é, o tipo de homens e organizações que constituem o
povo em seu ambiente) e a cultura desse povo, relações hoje reconhe-
cidas em qualquer povo e qualquer cultura, eram vividos ali, além
disso, de modo consciente, através do papel constitutivo e gerativo da
sociedade judaica, desempenhado pela Torah aos olhos dos que, ao
mesmo tempo, a estudavam, renovavam, enunciavam e a aplicavam a sua
comunidade.
ISRAEL F.M QUESTÃO 201

2. 0 DESERTO, A TERRA EO INCESTO

Para esse povo privado de uma terra de enraizamento, a Torah, sua cultura,
mais do que em qualquer outro povo, adquiriu uma caráter de fonte de
identidade, de referendai coletivo.
Esse caráter, evidentemente, é o de qualquer cultura para qualquer
povo; mas, em geral, é compartilhado pela geografia, ou seja, pela terra
natal, mãe pátria de todos os Estados modernos, na qual e a partir da qual
o grupo se constitui como povo enquanto ali desenvolve sua cultura, que,
por sua vez, conclui o desenvolvimento do povo como nação ou como
Estado.
Para o povo judeu, sem terra durante dois mil anos, a Torah acumu-
lou o papel gerativo da cultura e da terra. Mais ainda, e esse é um ponto
capital, as relações privilegiadas que o povo judeu estabeleceu em sua
história com uma terra particular, a terra de Israel, por mais fundamentais
e constitutivas que sejam, nem por isso estão menos excluídas do mito
originário, e portanto, da identidade inicial. ·
O povo judeu, na consciência que tem de si mesmo, não nasceu na
terra de Israel. Nasceu no Egito, mais precisamente, por ocasião da saída
do próprio Egito, comparada pela tradição com a expulsão e a libertação
do parto. 2
A terra de Israel não é, para o povo judeu, a mãe pátria (mãe-pai)
geradora e nutriz do povo. Esse papel foi desempenhado, no que concerne
à genitora, pelo antigo Egito, comparado pela tradição a um útero e visto
como o berço da civilização mediterrânea inteira; e, no que concerne ao
papel da mãe nutriz, foi a própria Torah que o desempenhou, tendo o
deserto por lugar de sua revelação inicial.
A terra de Israel é, antes, a mulher, a noiva, a futura esposa que se
trata de fecundar, o objeto do desejo, o meio de realização e superação,
uma vez que a mãe, como mulher, foi proibida.
A proibição do retomo ao Egito feita pela Torah ao povo judeu é
significativa, por esse ponto de vista, tal como o são os relatos bíblicos
sobre o fascínio apavorante que a terra de Israel exercia sobre os hebreus
do deserto, submetidos, ao mesmo tempo, à nostalgia reiteradamente
reprimida do .. retomo ao Egito". Este assumiu, assim, a imagem de um
incesto que não podia ser cometido. Havia, na verdade, um outro incesto,
este a ser cometido, consumado pelo povo judeu ao longo de todos esses
séculos, com a Torah, simultaneamente mãe nutriz e mulher. É como se
a relação de tipo incestuoso que todos os povos têm com sua terra, de onde
nascem, que desejam e à qual retomam, tivesse sido violentamente rom-
pida pelo afastamento entre essas duas terra.s: a genitora, o Egito, de um
lado, e a desejada, a terra de Canaã, de outro. No deserto, não-terra entre
as duas, foi descoberta a Torah, que ocupou o lugar de ambas; Israel, no
202 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

exílio, teria forças para sobreviver sem terra, pois aquela a que aspirava
não era sua mãe, mas sua mulher. Tendo superado o corte da proibição da
mãe, ele poderia viver, órfão de terra (pois sempre o/ora, mesmo durante
sua existência nacional), casado com a terra de Israel. Sem terra alguma,
ele seria como um homem sem mulher, condenado a oscilar entre a
sublimação e o perecimento; mas poderia manter-se no exílio, ao contrário
da maioria dos outros povos, para os quais o exílio é, de uma vez e ao
mesmo tempo, a extirpação da mãe e da mulher, como uma obrigação não
apenas de viver sem mulher, mas também de existir sem ter nascido.

3. O Povo JUDEU CONTEMPORÂNEO: "Mrro ORIGINÁRIO",


"PROGRAMA" OU FUGA PARA O INDIZÍVEL?

Podemos ver como a relação genérica recíproca entre a Torah e seu povo,
caso particular das relações recíprocas entre a cultura e a natureza,
assumiu entre os judeus hlstóricos uma intensidade especial, em virtude
de seu tipo de relações com o mundo natural - as terras. A menos que
tenha sido o inverso: que essa divisão, essa separação entre a terra genitora
e a terra desejada tenha sido o resultado - e não apenas a causa - da
relação especial do povo judeu com o mundo de sua cultura.
Seja como for, quer consideremos essa cultura como uma hlstória,
um mito, um direito, uma filosofia, uma ciência ou uma religião - o que
ela é ao mesmo tempo, como todas as culturas-, seu efeito constitutivo
do povo judeu é tão enraizado que se toma indispensável usar de recursos
além (e aquém) das considerações da ordem da ciência hlstórica ocidental.
Em outras palavras, pouco importa que o nascimento do povo judeu
nos eventos da saída do Egito e do f:.Aodo, contado, ensinado e renovado
pela Torah durante séculos e milênios, seja um fato histórico ou mítico,
desde o momento em que ele assumiu o lugar em que o conhecemos na
Torah, cultura geradora do povo judaico histórico, ao mesmo tempo que
veiculada por ele.
Por isso é que a identidade judaica inicial, a auto-imagem que o povo
judeu veiculou em sua consciência desde suas origens, e na qual ele
reconhece sua verdadeira legitimidade a seus próprios olhos, lhe foi
fornecida pela saída do Egito, tal como esta foi e continua a ser vivenciada
nos rdatos, nas metáforas e nos incontáveis ensinamentos da tradição,
reiteradamente ampliados e ramificados no correr dos séculos.
É notável, deste ponto de vista, que um judeu israelense não religio-
so, sionista da primeira hora, tenha reagido ao mal-estar causado em
Israel, em 1973, por uma festa da independência excessivamente vivida à .
maneira militar e estatal - isto é, excessivamente ocidental, excessiva-
mente ''não-judaica'' - declarando que, para ele que participara de todas
ISRAEL EM QUESTÃO 203

as lutas de libertação nacional e da conquista da independência em 1948,


a verdadeira festa nacional não se situava no dia da criação do Estado de
Israel, mas no dia da Páscoa, aniversário da saída do Egito.
De fato, este é, mais do que um aniversário de festa nacional, um
ato de nascimento e, ao mesmo tempo, um projeto. É refletindo sobre a
significação do lugar central da saída do Egito no nascimento do povo
judeu e na orientação de sua história que poderemos descobrir o fio
condutor das respostas a uma série de indagações sobre a identidade
desse povo.
Essas indagações se colocam inicialmente para os não-judeus, na
medida em que o povo judeu é difícil de classificar entre os outros povos
por uma simples comparação taxonômica, e ele lhes parece, ou um
escândalo histórico, ou um dejeto que não quer se decidir a desaparecer,
ou ainda o misterioso depositário em que podem ser enxertadas todas as
fantasias, tanto filo-semitas quanto anti-semitas. Mas elas se colocam
também, e talvez até principalmente, para milhões de judeus, na diáspora
e em Israel, para quem a ligação consciente com sua cultura foi cortada
há uma, duas ou até três gerações. Essa aculturação em prol da cultura
dominante ocidental cristã é a mesma dos países colonizados e tem
produzido o mesmo tipo de alienação, com as mesmas buscas errantes de
identidade, os mesmos tipos de pseudo-soluções prontas, também elas
sugeridas pelo ambiente - nacionalismo, territorialista ou não, encrespa-
mento religioso "ortodoxo", ou ainda fuga apaixonada para adiante, nos
messianismos internacionalistas que supostamente resolverão, apagando-
as, todas as contradições nascidas das diferenças históricas e culturais-,
e, finalmente, com as mesmas neuroses. Ao mesmo tempo, obstinadamen-
te, o passado, recente e mais remoto, continua presente, encarnado nos
restos ideológicos do sionismo, na realidade da existência de Israel, qQe
impede que se esqueça o enigma, e nas comunidades ortodoxas tradicio-
nais, testemunhas externamente impertubáveis de uma existência judaica
que foi autêntica e não aculturada há até aproximadamente duzentos anos.
Além disso, essa presença é reforçada e renovada sob o efeito das
diversas metamorfoses do anti-semitismo de direita e de esquerda, cujos
mecanismos 3 (Sartre) e discursos 4 (Faye), por outro lado, já foram sufi.-
cientemente estudados.
As realidades judaicas - Israel, as comunidades tradicionais mais
ou menos ortodoxas, ou as comunidades leigas de tipo nacionalista -
impedem o desaparecimento das questões acerca da identidade, mantendo
mais ou menos viva a pessoa (não identificada) desse povo. Mas, ao
mesmo tempo, as respostas que elas fornecem - nacionalismos, religião,
assimilação - não eliminam a neurose da alienação, e sim o contrário,
por serem inspiradas em sistemas de pensamento estrangeiros, sugeridas
por transposições imitativas da cultura ocidental unidimensional domi-
206 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

aí encontramos todas as divagações possíveis, culminando nas manipula-


ções mágicas de números que utilizam previsões proféticas e a antiga
técnica da "gematria", retirada de seu contexto tradicional, para "fun-
damentar" especulações messiânicas de cálculos do fim dos tempos, que
aliás se revelam particularmente falsas, salvo por algumas exceções -
ruidosas - que bastam para fazer com que as outras sejam esquecidas e
para autorizar todos os retoques a posteriori. 8
É um paradoxo, de fato, porque realmente não precisamos de uma
Torah, que se apresenta como sabedoria, ensinamento e esclarecimento,
quando ela não esclarece minimamente os mecanismos e processos res-
ponsáveis pelas situações e pelas constantes de nossa história. É evidente
que, dentro da perspectiva da Torah como saber esclarecedor e pesquisa
ensinada, qualquer análise, por mais parcial que seja, qualquer hipótese,
por mais contestável que seja, a respeito desses mecanismos, têm mais
valor do que o recurso "aos caminhos impenetráveis do Senhor" . E, se
não quisermos realmente optar pelas análises parciais e provisórias e pelas
hipóteses de pesquisa, então, que as critiquemos e destruamos em nome
de uma exigência e de um rigor maiores, deixando em aberto as questões
assim recolocadas num nível maior de profundidade.
De nossa parte, a análise do mito judaico e de seu episódio central,
a saída do Egito, nos servirá de fio condutor na compreensão desses
mecanismos. Em particular, o fundo comum a todos esses antijudaísmos
- cujos discursos, simultaneamente idênticos e renovados, foram anali-
sados por J.-P. Faye 9 desde a Antigüidade romana até o anti-semitismo
cristão da Idade Média, o humanista do século do iluminismo e dos
primeiros socialistas, e por fim, os anti-semitismos nacionais e nazistas
dos séculos XIX e XX-, esse fundo comum, que só podemos encontrar
no interior daqueles que são permanentemente objeto desses discursos,
mesmo que os temas e as circunstâncias mudem, também nos parecerá,
claramente, uma das conseqüências do ato de nascimento e da constitui-
ção do povo judeu a partir de um movimento de libertação vivido até seus
limites mais extremos: a .saída do Egito, onde um povo e uma nação
nasceram e se constituíram no movimento de uma libertação de escravos
que se pretendia total, definitiva e absoluta.

4. o f:xooo COMO LIBERTAÇÃO-PROGRAMÁTICA


E PROGRAMA DE LIBERTAÇÃO

Não são a saída do Egito e a libertação que remetem ao mistério de


Deus, mas, inversamente, são o Deus de Israel, seu motor interno, sua
pessoa ativa e seu sistema de "auto-organização" que se definem pela
saída do Egito. ''Sou o ser do tempo, teu Deus, que te fez sair do Egito,
da casa. da escravidão": é esse o leitmotiv pelo qual o Deus de Israel
ls.RAEL EM QUESTÃO 207

se apresenta, se nomeia e se define. E não pode se tratar de uma libertação


relativa entre outras, entre duas alienações, porque o povo que assim
nasce não tem nenhum outro projeto a não ser esse.
Todas as libertações da opressão trazem em si a esperança de uma
libertação total, universal e definitiva, como os movimentos messiânicos
entre os povos colonizados ou até o próprio marxismo. Mas, na totalidade
dos casos, a libertação, uma vez obtida, desemboca imediatamente na
instalação de uma nova sociedade on!le a questão já não é de libertação
universal, visto que, como que por definição, esta já teria ocorrido.
O mito judaico contém os relatos de erros e quedas dos próprios
judeus em relação a seu projeto de libertação. Graças a isso, a libertação
da saída do Egito e a existência nacional podem não esgotar, antes pelo
contrário, a esperança e a exigência da libertação universal.
A terra prometida além do deserto não é um fim em si, mas um meio
para realizar esse projeto, que se exprime na aliança entre Israel e seu
Deus, isto é, na adequação entre a sociedade concreta dos homens de Israel
e sua imagem, ao mesmo tempo a imagem que eles têm deles mesmos e
a consciência do tempo, do projeto que trazem em si.
Como veremos, um dos termos dessa aliança é a relação com a terra,
enquanto o outro é precisamente a relação com a Torah, que deverá
garantir a execução do programa, e que é preciso compreender, mais uma
vez, no contexto antigo e mítico. Ainda mais que, ao mesmo tempo, essa
aliança volta a se exprimir: "Serei para vós por deuses e sereis para mim
por povo", 10 como se os conceitos habituais de deuses e povo, por si só,
não fossem convenientes, e a questão fosse apenas um "como se"
utilizado para descrever uma situação com a ajuda das únicas imagens
disponíveis, as quais, por outro lado, sabemos serem falsas.
A questão de que se trata é moldar esse povo de ex-escravos no
movimento de uma libertação que se pretende total. As tensões entre
Moisés e os anciões do povo referem-se precisamente a isso: aquilo que,
para os anciões, poderia ser apenas a libertação da escravidão do Egito é,
para Moisés, o começo de uma libertação que deve continuar, uma
libertação de todas as alienações, de todas as limitações, de todos os
particularismos, desembocando no infinito e seu deserto, lugares indis-
pensáveis da descoberta da Sabedoria e da Lei, também elas prontamente
postuladas como infinitas - mas inteligíveis -, ou seja, renovando-se
incessantemente, interminavelmente, como acompanhamento do movi-
mento igualmente incessante da própria vida, dos indivíduos, do povo,
das sociedades, do mundo.
Nos conflitos que opuseram Moisés às autoridades tradicionais do
povo, aos chefes das tribos, a uma aristocracia descendente dos ances-
trais hebreus, para quem, naturalmente, essa libertação assumia uma
forma nacional, Moisés se apoiou numa massa de escravos não-hebreus
210 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

desaparecerá efetivamente com o fim do próprio movimento. Na verdade,


a libertação universal de todas as alienações significa também a subversão
das alienações existentes; portanto, não apenas a rejeição de, mas também
a rejeição por todas as formas de sociedade organizada. Mas, o que é
muito mais grave, essa rejeição implicou, no princípio, e efetivamente
provocou, nesses arautos da liberdade, um voltar-se para eles mesmos, ou
seja, afinal... uma nova sociedade, também ela organizada. Um grupo de
marginais, _inicialmente marginalizados pela existência da mudança radi-
cal, viu-se muito depressa confrontado com o problema de perdurar: quer
não interviesse nenhuma mudança, quer algumas mudanças-álibis cana-
lizassem as esperanças da maioria, sufocando-as, os marginais só podiam,
diante da perspectiva de uma longa espera, reintegrar o meio social dos
grupos centrais "por onde passa a .história!", ou organizar sua duração à
espera da grande noite ou do messias ... , o que, evidentemente, contradizia
em muitos pontos sua marginalidade inicial, criando uma nova conformi-
dade e novas alienações.
A vitalidade do novo grupo social assim constituído iria depender
da profundidade do vestígio das exigências sociais em sua organização
social, que de qualquer modo as contradizia: essas exigências provinham
da negatividade imaginária e da utopia - da mudança messiânica-, ao
passo que a organização estava relacionada com as restrições internas e
externas, com respeito às quais ela seria adaptativa, como função de
organização, e adaptada, como estado de organização. No entanto, as
primeiras justificavam a segunda, pelo menos aos olhos dos indivíduos
do grupo. Delas é que proviria o mínimo de entusiasmo individual neces-
sário à constituição e à coesão do novo grupo social. A organização estaria
mais ou menos garantida, em termos de duração, conforme lograsse mais
ou menos integrar, sem descaracterizá-los, esses fatores de negatividade
e utopia que ao mesmo tempo a contradiziam e lhe serviam de caução.
No caso dos hebreus, a nova sociedade organizada, "nem como os
residentes da terra de onde vindes, nem como os da terra para onde estais
indo' ' , conservaria, portanto, o vestígio da inspiração e do projeto inicial;
mas, na qualidade de organização social, ela também teria sei.Is escravos.
Melhor - ou pior - , era na condição particular que nela tivessem os
escravos que se exprimiria - ou se encobriria - o projeto inicial de
libertação da escravatura. .
Após a libertação da escravidão do Egito, o grande êxtase de todo
o povo no Sinai (onde esse povo descobriu seu Deus-motor interno,
habitualmente oculto, com quem foi selada a aliança-programa) desem-
bocou imediatamente em leis de uma organização social específica,24 a
primeira das quais, arquetípica, concerniu ao estatuto de dois tipos de
escravos. 2 j De um lado, os escravos hebreus, testemunho da subsistência
de restrições e alienações internas no grupo. De nada serviria restringir-se
ISRAEL EM QUESTÃO 211

a uma declaração formal de abolição da escravatura, enquanto existissem


condições que permitissem a membros do grupo ficar num estado de
dependência econômica total, eliminando sua autonomia como pessoas e
em evidente contradição com o inscrito no nascimento do grupo: ''Tu te
lembrarás de que foste escravo no Egito." A lei organizadora, ao instituir
a libertação obrigatória dos escravos hebreus, veio então se esforçar por
tornar transitório e reversível esse estado de alienação, e por convertê-lo
numa fonte de nova libertação; mas ao mesmo tempo, ela não podia fazer
outra coisa senão institucionalizar a escravatura, mesmo que fosse sob a
forma de um mal necessário do qual era preciso livrar-se. Por outro lado,
paralelamente aos escravos hebreus, os escravos estrangeiros eram teste-
munho, por sua vez, da sobrevivência de restrições externas que às vezes .
eclodiam em guerras, 26 produtoras de vencidos reduzidos à escravidão,
situação esta que também ficava em contradição com o projeto inicial -
"Tu te lembrarás de que foste estrangeiro nas terras do Egito" - e que
a lei organizadora não podia fazer outra coisa, mais uma vez, senão
institucionalizar.
Enquanto a própria pretensão à universalidade não fosse univer-
sal, ela esbarraria na realidade das diferenças e das rejeições particu-
laristas, e se viu inevitavelmente rejeitada, ela mesma, para seu próprio
particularismo.
Neste àspecto, a pretensão à universalidade seria tão mais facilmen -
te escarnecida e vomitada quanto mais fosse forçada a se encerrar nas
vestes particulares de um povo, uma nação, uma terra ou um Estado.
Assim, a vida desse povo dependeria de uma espécie de contrato entre as
vestes e o corpo, o porta-voz e a voz. Enquanto o particularismo judaico
permanecesse como um meio a serviço de diversas expressões do projeto
inicial, mesmo que, provisoriamente, em última instância, elas só fossem
compreendidas como tal pelos próprios judeus, ele conservaria força
suficiente para resistir ao escárnio e ao ódio que - apesar disso e por
causa disso - desencadeava e exacerbava. Ao mesmo tempo, conservaria
força objetiva suficiente para impor sua existência em meio aos outros
particularismos, aos outros povos, nações e Estados.
Entretanto, quando o particularismo judaico é vivido como um fim
em si, a justificação de que "ele tem tanto direito de existir quanto os
outros" deixa de ser suficiente para animar uma força interna que lhe
permita resistir à zombaria e aos ataques dos outros.

6. 0 VAIVÉM HISTÓRICO E IDEOLÓGICO

A existência desse particularismo "como os outros" era não apenas


contraditória em seus termos, mas sobretudo. desprovida de qualquer
interesse em relação ao grupo inicialmente marginal, e acabou conduziu-
212 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

do à explosão do próprio grupo. Por isso, o exílio e a dispersão em meio


às nações foram aceitos, s·imultaneamente, como uma conseqüência des-
ses ataques dos outros e como uma oportunidade de reencontro com o
projeto inicial de universalidade. Aliás, foram esses reencontras que
permitiram ao exílio não ser um exílio "como os outros" e, finalmente,
duraL
Mas esse exílio, por sua vez, que não era como os outros e prolongou
mais do que o ''normal' ' uma existência dispersa, gerou o ódio das nações
organizadas contra esses·focos de subversão. Estes passaram então a ser
percebidos com os estigmas das maldições da história, quer sob a forma
do povo pecador e reprovado por Deus de alguns cristãos; quer sob a do
veneno-doença da história de toda uma corrente do islamismo, 27 quer
ainda sob a forma do povo-classe, parasita sem legitimidade, de Marx e
Léon.
Esse ódio e essa rejeição, pelas sociedades organizadas - e pelas
ideologias organizadoras e classificatórias, mesmo que sejam revolucio-
nárias - , a qualquer portador da esperança de libertação universal não
poderá cessar enquanto as próprias sociedades, bem como essas ideolo-
gias, não se houverem libertado das alienações específicas sobre as quais
se fundaram. Quanto mais um sistema social ou uma ideologia suposta-
mente se aproxima dessa libertação, mais seu fracasso gera ódio pela
esperança de libertação em relação à qual o fracasso é denunciado.
Dentre os diversos antijudaísmos, os anti-semitismos de inspiração
cristã e muçulmana e, mais recentemente, o anti-semitismo marxista, com
suas variações soviéticas e esquerdistas diversificadas, se afiguram muito
claramente como exemplos desse mecanismo.
Quanto ao anti-semitismo nazista, suas teorizações pelo próprio
Hitler são suficientemente explícitas para que vejamos, também nelas,
uma outra variedade de competição na pretensão à universalidade; o
"verdadeiro inimigo do povo alemão" era o judeu, que fora o primeiro a
ter tido uma .vocação, pelo menos aos olhos de Hitler e dos nazistas, para
"dominar" o universo ..
Assim, é muito natural que se feche o círculo, ou melhor, a volta da
espiral: os dispersos dessa esperança tendem novamente a se fechar neles
mesmos, para escapar justamente a esse ódio, para de novo permitir que
sua esperança de libertação radical e universal se desenvolva e se encarne
- mesmo paradoxalmente-, protegida por seu particularismo recupe-
rado de povo, de nação, de terra, de Estado. E assim sucessivamente, até
o exílio, conforme ele revele, mais uma vez, que os limites do manto
particularista são decidldamente estreitos demais para o projeto inicial.
É que essa existência particular e específica continua a ser paradoxal
t: antinômica cm relação ao projeto inicial de universalidade, do qual
verificamos que o própri-0 sionismo, com sua esperança socialista reden-
tora, foi uma das metamorfoses.
ISRA EL EM QUESTÃO 213

Na verdade, a · iniciativa sionista não escapou a esse paradoxo


constitutivo da história do povo judeu: o desejo de um Estado judaico só
pôde nascer da conjunção das rejeições anti-semitas com a retomada do
projeto universalista inicial. -
Entrementes, este último, em suas fonnulações judaicas tradicio-
nais, se havia reduzido - pelo menos em sua expressão pública - às
dimensões de uma religião exangue, à imagem das comunidades dispersas
que se organizaram na perseguição, no ódio, no desprezo e, depois, na
aculturação.
Ao contrário, enquanto isso ele penetrou, embora se desfigurando
consideravelmente, nos ideais dominantes da moral e do messianismo
cristãos que estão na origem das visões proféticas, à maneira de Tolstói,
e das exigências de justiça universal empregadas nas diversas ideologias
socialistas, inclusive o marxismo.
Por isso, foi nessas linguagens, profética e socialista, que os primei-
ros sionistas descobriram a nova metamorfose do projeto judaico inicial
em torno do qual era necessário se reagruparem, se não quiséssemos nos
resignar a seu desaparecimento puro e simples, através de urna assimila-
ção aos povos e nações circundantes, o que significaria o ponto final da
dispersão persecutói-ia e acul turadora. _
Todavia, essas linguagens eram, ao mesmo tempo, portadoras de
um anti-semitismo, conforme o mecanismo indicado supra, na própria
medida em que enunciavam ideologias organizadoras de libertação uni-
versal em relação às qu~is a existência de judeus específicos dispersos,
pretendendo encarnar essa universalidade, era um escândalo risível. E
foi provavelmente essa a razão da recusa da assimilação a ideologias
verbalmente universalistas, nas quais, no entanto, era grande a tentação
dos judeus de verem enfim universalizada sua própria pretensão à uni-
versalidade.
Essa tentação esteve na origem dos grandes debates entre socialistas
de origem judaica, de uin lado, que viam no socialismo, primeiro interna-
cionalista e depois soviético, a "solução para o problema judaico" que
acompanharia a libertação universal, e, de outro, os judeus socialistas,
sionistas ou não, por quem a exigência do desaparecimento do particula-
rismo judaico, em nome de um internacionalismo que mantinha instaura-
das as especificidades e os poderes das outras nações, foi recebida com a
desconfiança adquirida ao longo de séculos de libertação forçada, de
salvação e amor cristãos impostos a fogo.
Esse é o mesmo debate com que deparamos hoje, e que divide os
jovens judeus ocidentais em sua relação com o esquerdismo e com as
diversas ideologias revolucionárias internacionalistas, "maoístas" e
trotskistas.
214 EITTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

Uns vêem nessas ideologias a promessa de libertação em que a


vivência judaica poderá expandir-se, desaparecendo como um particula-
rismo nacional, enquanto outros não conseguem se impedir de considerar
suspeito o desejo de que o nacionalismo judaico seja o primeiro a desa-
parecer.
Assim, só podemos ficar em suspenso, mais uma vez, entre os dois
pólos dessa contradição vivificadora, sempre com o risco do exílio próxi-
mo se, mais uma vez, a aspiração à parada, ao repouso, à residência, a
"ter um ·rei como os outros povos", triunfar sobre o projeto inicial:
"Sereis para mim por [por tomar-se] povo, e serei para vós por [por
tornar-me] deuses."
Porque é isso mesmo, esse vaivém, a aliança de Israel com seu deus,
que garante a estranha perenidade desse povo: a identificação coletiva dos
judeus, como família e grupo humanos particulares, com esse projeto
universal que forçosamente os ultrapassa, e portanto, em certos aspectos,
os nega, mas sem o qual eles não têm nenhuma razão para ser singulares.
É essa a aliança, essa identificação com esse deus certamente
ciumento, uma vez que lhes pede que eles se superem reiteradamente a
seu serviço, e sobretudo que nunca se detenham diante de qualquer
aproximação que seja, de qualquer aparência de libertação e generalidade,
ídolo ainda mais detestável na medida em que se aproximaria, na verdade,
do objetivo sempre repelido. É essa identificação que implica, ao mesmo
tempo - como que mecânica e automaticamente, e é nesse aspecto que
se trata de uma aliança inteligível, e não de um "mistério" -, levando-se
em conta o que são as socíedades humanas organizadas, inclusive as
judaicas, a perenidade desse povo e sua rejeição pelos outros.
A perenidade é assegurada por esse movimento de vaivém do
universal para o particular, do nacionalismo estreito para o internaciona-
lismo dissolvente.
Ao mesmo tempo, ela alimenta, por isso mesmo, as reações de
rejeição por parte das outras sociedades, cujas existências particulares e
alienantes são repetidamente denunciadas e se sentem ameaçadas pela
simples existência oscilante e multiforme da sociedade judaica.
Essa superposição contraditória da perenidade e da rejeição, é isso
que constitui tradicionalmente a aliança, pois uma aliança, em hebraico,
se "corta" para se "selar". Só existe aliança entre "cortados", opostos.
A aliança em si é a contradição existente na união daqtúlo que é funda-
mentalmente dissociado. A aliança entre Israel e seu deus é a contradição
entre a finitude e a pequenez humanas, aceitas e reivindicadas nas insti-
tuições familiares, tribais e sociais, e a infinitude do imaginário, do
pensamento e do discurso, vislumbrada em suas experiências de liberta-
ção e do deserto, e reencontrada e buscada nas do rito, do discurso e do
pensamento.
ISRAEL EM QUESTÃO 215

A aliança é a contradição que garante a perenidade da existência


amesquinhada que não acaba de morrer, englobando-a num movi-
mento de vaivém que a nega e a mata, mas ao mesmo tempo a impede de
morrer, reservando-lhe a abertura e o impulso mínimo que lhe permitem
recomeçar.
Assim, é importante compreender os termos e os mecanismos da
aliança que nos atravessa, sempre essencialmente contraditórios, porque,
em diferentes momentos de nossa história, implicam metas e atitudes
diferentes.
É importante compreender que qualquer redução a um dos termos
da contradição só pode ser, para nós, afinal sempre desarraigados, a morte,
seja na ilusão de um universalismo sempre falso e imperialista, ~eja nos
estreitamentos da vida nacional.
Ao mesmo tempo, a reflexão a respeito de nós mesmos, bem como
a compreensão do que acontece conosco em termos de interações recípro-
cas de nosso projeto com nosso ambiente - já que são essas as categorias
com que pensamos atualmente-, podem salvar-nos de uma paranóia que
nos é proposta por um certo misticismo, no qual nosso ser só se funda-
mentaria numa transcendência .que seria expulsa de toda parte, exceto do
''destino judaico'', e cujo caráter misterioso e ininteligível só é capaz, na
verdade, de fundamentar nosso não-ser.

7. 0 CRITÉRIO DUPLO

Essa situação suspensa, mas em movimento, esse vaivém que é a verda-


deira vida do povo em seu conjunto, mais além de seus pólos nacional,
nacionalista, religioso, político, humanista etc., devem traduzir-se, no
nível dos juízos que formamos a nosso próprio respeito, pela existência
de um critério duplo. Um critério externo, definido pela comparação com
os outros povos, e um critério interno, definido em relação ao projeto, ao
motor oculto, única fonte verdadeiramente eficaz de força interior e
vitalidade. Se podemos ter a consciência tranqüila e estar "seguros de
nós" em relação ao exterior, somente uma consciência pesada e uma
exigência constantemente renovada em relação a nossos próprios critérios
podem realmente garantir, de dentro, nosso futuro.
Na qualidade de povo "como os outros povos", engajado em sua
existência particular de sociedade implantada na terra, de nação, de
Estado, os direitos e deveres do povo judeu devem ser apreciados de
acordo com os mesmos critérios dos de todos os povos, nações e Estado.
Em particular, o direito à autodeterminação, inclusive à autodetermina-
ção nacional e política, reconhecido em todos os grupos humanos, não
pode ser negado às sociedades judaicas seja a que pretexto for, ligado à
visão mais ou menos fantasmática que os outros povos possam ter do fato
216 EITTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

judaico. Em particular, o comportamento de um Estado judaico, que


logrou se constituir através de métodos nem mais nem menos legítimos
que os de outros Estados, não importa de que ponto de vista nos colo-
quemos - histórico, do direito dos povos a dispor deles mesmos, do
direito brechtiano, segundo o qual a terra pertence a quem a cultiva,
defesa vitoriosa contra outra nação de interesses contraditórios que lhe
contesta seus direitos-, não pode ser julgado segundo critérios diferen-
tes dos de outros Estados, a saber: respeito à vida humana, justiça da
sociedade nele edificada, respeito aos direitos e à soberania dos outros
povos, em suma, contribuição para o desenvolvimento de condições que
permitam a expansão das potencialidades humanas no que elas têm em
comum com toda a espécie humana, levando em conta a existência de
diferenças históricas, geográficas, lingüísticas, culturais e tradicionais
que caracterizam cada povo, cada sociedade. Desse ponto de vista, é
perfeitamente claro que nem o movimento sionista, nem o Estado de
Israel, proveniente dele, tiveram uma conduta "demeritória" ou pode-
riam ver sua legitimidade contestada, nem do ponto de vista do tipo de
sociedade e de relações inter-humanas que ali se desenvolveram, nem do
ponto de vista de suas contribuições e!specíficas para a busca comum de
novos caminhos de desenvolvimento, a despeito das dificuldades e das
contradições criadas pela oposição da nação árabe em geral e de seu ramo
palestino em particular.
Mesmo em relação a essa guerra, ao destino dos árabes palestinos e
à aspiração nacional que resultou daí, cavalo de batalha para todos os que
contestam a legitimidade do Estado judaico, o comportamento da nação
judaica só pode ser julgado "inocente", e até de uma inocência quase
angelical, se o compararmos ao de outras nações colocadas em situações
análogas de conflitos de interesses e luta pela sobrevivência.

Mas ocorre que isso não basta para nos manter vivos! Por motivos que se
prendem a nossa história, a nosso projeto, não basta termos razão em
relação aos critérios de outrem - e portanto, que os outros não estejam
de modo algum "justificados" numa iniciativa de destruição contra o
Estado judaico - para encontrarmos em nós mesmos forças para lutar. É
como se isso não fosse suficientemente interessante, como se não valesse
a pena. Serão tão numerosos assim os judeus dispostos a se bater, arris-
cando sua vida, unicamente por uma existência nacional, provinciana e
limitada, em que o único projeto consista em ser "como os outros"?
Estranha problemática, aliás, a que consiste em definir a própria identi-
dade p<>r um projeto de ser ou não ser "como os outros"! A que povo se
coloca dessa maneira a questão de ser ou não ser ''como os outros'', e que
existência nacional poderia basear-se, e principalmente se manter, nessa
ISRAEL EM QUESTÃO 217

aspiração puramence negativa ao anonimato do "como os outros", resul-


tado de séculos de exceção trágica e de perseguições?
Nossa verdadeira legitimidade é aquela que nos fundamenta, não
apenas de direito, mas de fato, se' quisermos não apenas ter razão, mas
também continuar a existir.
E essa legitimidade, só podemos julgá-la em relação, não somente
ao direito internacional, mas também ao critério interno que nos é forne-
cido por nosso condicionamento histórico e cultural, nosso mito de ori-
gem, nosso motor interno. E nesse aspecto, com relação a esse critério, é
evidente que as realizações atuais do movimento sionista e do Estado de
Israel são tragicamente insuficientes: uma sociedade que mal chega a ser
mais justa do que outras, mesmo que resolva seus problemas de desigual-
dades de comunidades, mas toda ela fechada em si mesma, alicerçada na
noção de pátria e na experiência de uma vida provinciana e terna, salvo
pelo heroísmo 28 do arado e do fu zil, onde as qualidades intelectuais
próprias das sociedades judaicas tradicionais são desdenhosamente cha-
madas de espírito de diáspora, enquanto o espírito cada vez mais acolhido
e favorecido - à parte a pesquisa científica - não passa de uma pálida
imitação do music-hall e da "distração" das sociedades ocidentais medi-
terrâneas, o famoso "bidur"* israelense.
Naturalmente, mais uma vez, tudo isso é perfeitamente compreen-
sível e justificável do ponto de vista das condições de vida da sociedade
israelense, e de modo algum pode justificar, ao contrário, qualquer recusa
da legitimidade, por parte de seja lá qual for o censor. Só que é preciso
ver que, internamente, em relação às exigências e aspirações, mesmo
não-formuladas, que os judeus têm para si, essa situação não pode conti-
nuar por muito tempo.
É notável, aliás, que essas exigências e aspirações a uma sociedade
mais voltada para o universal, tanto estrutural quanto funcionalmente,
sejam encontradas, não apenas na parcela mais ativa dos jovens judeus do
mundo inteiro, como também nos próprios jovens judeus israelenses.
Todas as pesquisas e todos os levantamentos de opinião feitos na juven-
tude israelense, desde pouco antes e pouco depois da guerra do Yom
Kippur, mostram uma profunda insatisfação com os ideais oficiais do
sionismo dos pioneiros, do patriotismo e do culto do Estado. É como se
esse espírito judaico de abertura para o univ ersal, qualificado de cosmo-
polita e desorganizador por alguns anti-semitas, se exercesse também no
interior, à custa do próprio particularismo judaico. É normal que seja

* Bidur: todo tipo de div ersão e entrete nimento (c inema, teatro, concertos, boate
etc.). (N .R.)
218 ENTRE O CR!STAL E A FUMAÇA

assim, e é a sobrevivência do povo, com seus dois componentes, particular


e universal, que sairá disso, se cada um desses dois componentes for capaz
de reconhecer o outro.
Para concluir, nestes tempos em que, mais uma vez, a legitimidade
de uma soberania naeional judaica em Israel é contestada, em que são
muitos, amigos e inimigos, os que contemplam a eventualidade do desa-
parecimento do Estado de Israel, sacrificado à política dos imperialismos
que dividem o mundo entre si, talvez não seja supérfluo esclarecer que
este texto não visa, de maneira alguma, a preparar ou justificar a priori
essa eventualidade. Muito pelo contrário, no atual estado das relações
entre os r ovos, o desaparecimento do Estado de Israel - que, de qualquer
modo, não se daria sem um certo ruído - seria um golpe mortal para todo
o povo judeu, e é impensável do ponto de vista dos outros povos, como
uma amputação intolerável da imagem que os homens têm deles mesmos.
Assim como a criação desse Estado conferiu uma nova dignidade, uma
nova dimensão e um novo impulso à consciência que os judeus -
sionistas ou não - têm deles mesmos e de sua relação com outrem,
tamanha catástrofe, sobrevindo menos de duas gerações após a do geno-
cídio hitlerista, transformaria os judeus de toda parte, a seus olhos e aos
olhos dos outros {><)VOS, em eternos bodes expiatórios, errando de catás-
trofe em catástrofe e só podendo esperar, no máximo, uma sobrevivência
miserável - ou dourada! - ao preço de uma despersonalização e de uma
alienação que nenhum povo do mundo, nos dias atuais, está disposto a
aceitar.
Mas este estudo pretendeu tentar analisar as correntes contraditórias
que "animam" - no sentido próprio de dar vida - de dentro o povo
judeu, em suas relações consigo mesmo e com as nações. O conhecimento
dessas correntes e dessas forças, além dos slogans e da política cotidiana,
deve permitir-nos, entre outras coisas, dominar melhor nossa história, a
fim de evitar, talvez, esse tipo de catástrofes.
12

A PROPÓSITO DE "PSICANALISTAS JUDEUS" 1

Wladimir Granoff nos agraciou com uma história (analít!r:a) do movimen-


to psicanalítico francês, discurso a posteriori sobre "agires" em que o
autor lembra e reivindica sua responsabilidade na origem da atual exis-
tência de pelo menos duas sociedades de psicanálise. É uma história de
cisões, desligamentos e religamentos, que evidentemente é preciso ler,
reler e des-ler no interior de uma linguagem psicanalítica, e não como uma
sucessão qualquer de conflitos de escolas e de excomunhões de clérigos.
Nesse aspecto, a história do movimento analítico adquire as dimensões de
uma história santa ou mítica, a do acionamento do complexo de Édipo,
como aliás anuncia o subtítulo do livro. De quebra, é um livro crepitante
de inteligência e atividade, que lemos sem cansaço a despeito de suas
quinhentas e cinqüenta páginas, como uma epopéia que culmina num
magnífico último capítulo-conferência.
Embora se trate de uma série de conferências proferidas diante de
um público de analistas, sua publicação implica, evidentemente, um
público maior. É nesse ponto de vista que quero me situar para assinalar,
de imediato, a cilada em que é preciso não cair. Apesar de tudo o que ali
podemos aprender sobre certos fatos e atos, é realmente preciso nos
precavermos contra acreditar em uma só palavra do que é dito. Acima de
tudo, há que não imaginar que tudo aquilo possa ser verdade em qualquer
outro lugar que não a subjetividade do autor e de seus condiscípulos.
Aliás, bem sabe disso quem se apresenta diante dos que não fazem parte
de sua casa como "estrangeiro". E que, é claro, justifica isso através do
episódio das relações Freud-Ferenczi, protótipo da situação do analista no
momento singular da análise em que ele se torna "o estranho de quem
não se deve acreditar numa só palavra" (p. 225-6). Com efeito, trata-se,
ao mesmo tempo, como em todo discurso analítico, de um desvelamento
do oculto que aspira a uma verdade maior depois do desvelamento do que
antes. Ora, nada nesse discurso leva a crer que as coisas sejam bem assim,
a não ser para aqueles cuja adesão já foi conquistada fora desse próprio
discurso, graças a uma convicção que é ainda mais sólida na medida em

219
220 ENTRE O CRJSTAL E A F UMAÇA

que só se transmite pela experiência interna e indizível do serralho das


"casas" psicanalíticas e de suas diversas repartições. Ali, o dogmatismo
é total e sem disfarces: também nesse aspecto, como em todos os campos,
Freud mostrou o ''caminho''. Tendo Freud dito tudo, quem se refere a um
caminho fora de Freud, ou não existe, ou é um traidor através de quem,
sacrilégio, chegou-se a poder "ver analistas profissionais pedirem a
não-analistas para dar-lhes esclarecimentos sobre o que acontecia com
eles" (p. 28). Tão duros são de digerir, para um verdadeiro defensor da
ortodoxia (?), os malefícios desorganizadores da abertura para as disci-
plinas antropológicas! Ficamos atônitos diante de tamanha ingenuidade
- ainda que ela seja brilhante - e, ao mesmo tempo, indagamo-nos:
"Mas, de onde vem tanta altivez, tanta segurança?" - mais ou menos
como diante dos zeladores desta ou daquela seita, para quem a própria
idéia de que as coisas possam não ser assim parece perfeitamente incon-
gruente.
Surpreendemo-nos ainda mais na medida em que esse brio é nova~
mente saboreado a cada página, especialmente na crítica e na desmonta-
gem dos mecanismos sutis das àmbigüidades do oculto-revelado, do
silêncio que fala, da fala que silencia etc. Podemos apreciar, desse ponto
de vista, o notável resultado do efeito da prática analítica no aguçamento
de um espírito expressivo. Mas isso fica colocado a serviço do dogma,
jamais questionado em si mesmo, ferozmente defendido contra, entre
outras coisas, uma interdisciplinaridade onde a disciplina analítica corra
o risco de se desmanchar e ser substituída, a ponto de um dos objetivos
enunciados da iniciativa ser o de permitir reconhecer, não tanto o · ' bom''
e o mau analistas, mas quem é freudiano e quem não o é. Como sempre
ocorre nesses casos, a crítica brilhante serve para mascarar o dogmatismo
das afirmações que estão por trás da abertura e a liberdade da negação.
Todavia, o autor também procura sair de sua casa, ou, pelo menos,
falar para fora. Para tanto, é levado a discutir muito sucintamente a
situação da verificação. Trata-se de uma preocupação epistemológica que
valeria a pena aprofundar. Infelizmente, porém, W. Granoff se detém
muito depressa nesse caminho,2 depois de se contentar em reconhecer seu
estatuto singular e ambíguo no discurso psicanalítico: este pretende dizer-
se numa fala em que a noção de verificação é simplesmente incongruente
e, ao mesmo tempo, num des-velamento de descobertas em que o caráter
de verdades ocultas Se apóia em formas verbais que, apesar de tudo, fazem
nele as vezes de verificações. Mas isso só é reconhecido e até reivindicado
- "a prova só existe para si mesmo" - a fim de servir para rejeitar de
antemão qualquer acusação de dogmatismo e obscurantismo: seria pró-
prio do estatuto do discurso psicanalítico sg encontrar justificativa em sua
simples existência, muito embora ele se dê ares de discurso "científico"
ou de "verdade".
A PROPÓSITO DE ''PSICANALISTAS JUDEUS" 221

Mas - ou principalmente? - , entre analistas, as verificações


seriam apenas acompanhamentos que permitiriam aos membros da casa
(=da mesma sociedade) reforçar-se mutuamente, mas que de modo algum
permitiriam diálogos com um estabelecimento de consensos, mesmo
imperfeitos, entre casas diferentes. Não será essa uma maneira de justifi-
car a existência e a prática de sociedades fechadas dentro de si e comba-
tendo umas às outras a golpes de excomunhões (quem é "realmente"
analista, quem é "realmente" freudiano? etc., um combate cujo pivô nos
indagamos qual é -'- não será também o conjunto dos pacientes em
potencial?), à maneira de bandos rivais, ou de clãs cuja única justificativa
- que não o é, porque nem sequer tem de sê-lo teoricamente - é a prática
pela filiação divergente a partir do grande ancestral, única e exclusiva
fonte de todas as verdades? Se realmente for esse o caso, é difícil ver o
que distingue essas sociedades de quadrilhas de extorsão e assassinato que
tivessem escolhido como campo de ação o mundo do "grande público
liberal e culto", ao qual este livro também se dirige: vocês, pacientes em
potencial, e vocês, candidatos à iniciação, fiquem sabendo que não têm
outra alternativa senão submeter-se à lei do meio, com todos os seus riscos
de extorsões forçadas, punições ou até mesmo execuções, mas também
com todos os benefícios secundários ligados ao privilégio de saber(?) que
andamos por um caminho não "barrado" nem "proibido'', com o corpo
finalmente aberto a todas as "metamorfoses". Se a prática das sociedades
é realmente a qUe nos é sugerida, temos ainda mais razão de nos inquie-
tarmos ao nos informarem, também, a que ponto as motivações do desejo
de ser analista decorrem de pulsões sádicas ainda mais refinadas que as
de ser médico ou cirurgião ... e isso não é dizer pouco.
Mas, enfim, somos tranqüilizados ao nos ser rapidamente sugerido
que o que está em jogo na relação com o corpo dos( as) pacientes não é,
em suma, realmente ruim, e que, mesmo quando se faz uma atuação em
que "todas as loucuras são permitidas" (p. 36), essas loucuras na verdade
não o são, a tal ponto a paciente consente; e, de qualquer modo, que idéia
chamar isso de loucuras, quando se trata de banalidades do cotidiano da
vida parisiense!3
Ao contrário, no nível da relação com a teoria, não mais com o corpo
do paciente, mas com o "corpus teórico'', aí sim, a regra se inverte por
completo. Trata-se de uma inversão realmente notável, na qual vale a pena
nos determos, porque ela visivelmente constitui um dos fundamentos da
ideologia analítica que nos é proposta aqui, e onde encontramos, entre
outras coisas, alguns toques paulinianos, o que não deixa de ter um caráter
picante quando conhecemos a seqüência. O que nos é dito,.de fato, é, como
no passado, S. Paulo suspendendo a lei: tudo é permitido na obra (mesmo
que nem tudo lhes seja conveniente), ao passo que sua salvação só
depende de sua comunhão - com o coração e a mente - com o pai-filho.
222 ENTRE O CR!STAL E A FUMAÇA

Aqui, isso nos é dito de maneira um pouco mais moderna, porém formal-
mente idêntica: o importante não é tanto a conduta, "na qual podemos
praticar loucuras", mas a adesão ao dogma, "onde nenhuma loucura é
permitida".
Podemos nos indagar, mais uma vez, o que motiva esse apego tão
ferrenho à letra de Freud como fundamento de uma prática, em 1975. O
exercício da exegese talmúdica do texto bíblico nos ensinou que só nos
apegamos tanto assim à letra do texto de referência para melhor poder
fazê-lo dizer algo que vem de outro lugar. É assim que ficamos sabendo
que o segredo de Polichinelo do complexo de Édipo, realmente difundido
demais desde Freud, está em ''vias''(?)* de ser substituído, em sua função
tecnicamente indispensável (de segredo de Polichinelo), pelo "segredo
do amor": "Nosso segredo, cada vez mais público, tornou-se o segredo
a proteger da análise, porque o Édipo, por sua vez, tomou-se há muito
tempo um segredo de Polichinelo. Há tempo demais para poder continuar
a exercer por muito mais tempo todas as prerrogativas próprias do segredo
de Polichinelo. Como tal, está em vias de extinção. Tentaremos saber que
destino se desenha para ele. O novo segredo de Polichinelo é nosso
segredo na análise, no sentido do segredo amoroso. No sentido de que,
em todo analista, seu segredo amoroso se articula no nível em que ele
utiliza. sua relação com o complexo de Édipo, com seus genitores, com
seu e seus casais mal casados, na relação com seus analisandos e seu
inconsciente. É a isso, e eu o digo com toda clareza, que chamam política
das sociedades de análise, cujos favorecimentos conheço bem, e é a
maneira como concordo em falar dela agora, considerada toda a minha
atividade, e principalmente de alguns de seus aspectos, que somente a
surdez tomou possível. É o que me autoriza também a dizer que a principal
atividade das instâncias administrativas das sociedades analíticas é cons-
tituída pela demanda e pela descoberta de falsas explicações plausíveis"
(p. 108-09). Registre-se.
Mas isso nos leva a uma outra ordem de motivações, talvez menos
política e mais analítica, sugerida nas entrelinhas ao longo de todas essas
conferências até eclodir na última. Trata-se do que se baseia na teoria da
filiação analítica por "casais mal casados", onde o papel do pai que foi
filho (o analista que foi analisando) é sublinhado em comparação com o
de seu próprio pai (avô, analista do analista). Como as relações desse par
são evidentemente marcadas pelo complexo de Édipo e, em particular,
pelo assassinato do pai-mestre analista, a história dessas filiações pari-

* O autor usa a expressão "en passe de", fazendo um trocadilho com o passe
lacaniano, que se perde na tradução. (NT)
A PROPÓSITO DE ··PSICANALISTAS JUDEUS" 223

sienses se aproxima da história mítica das origens do cristianismo, segun-


do o Freud de Moisés e o Monoteísmo. O assassinato do pai é renovado
quando das filiações de mestre a discípulo, e as diferentes escolas psica-
. nalíticas corresponderiam a diferentes atitudes possíveis diante deste fato:
a confissão do filho e seu perdão, que lhe permitem por sua vez ser
divinizado e se corfundir com o pai (Lacan), ou a reivindicação pelos
filhos e seu obstinado arraigamento à relação com o avô, graças à qual o
assassinato do pai é, não perdoado, mas como que legalizado (os "psica-
nalistas judeus", pós-lacanianos).
É fácil ver nisso uma das possíveis chaves desse apego obstinado a
uma ortodoxia freudiana, o qual, de outra maneira e num outro contexto
epistemológico, não deixa de surpreender. Freud seria o avô a quem
Granoff se apegaria acima de Lacan, assim como Moisés teria sido o avô
a quem Freud se apegou acima de seu pai (ou de Fliess, ou de Breuer,
conforme se favoreça um ou outro como "parceiro" da "auto" -análise
de Freud). Assim, no final das contas, vemos como esse discurso analítico
sobre as filiações freudianas acaba por conferir um lugar privilegiado à
problemática das origens judaicas ou não-judaicas de Freud e de alguns
de seus discípulos . Evidentemente, como se trata da história do movimen-
to na França, a articulação dessa problemática é feita em tomo do freu-
diano não-judeu (cristão?) Lacan, bem como de seus discípulos dissiden-
tes, os ''psicanalistas judeus'' (como se não existissem na França outros
psicanalistas não-judeus além de Lacan ... mas, provavelmente, para o
autor do infalível critério do freudismo, eles caem na categoria dos
"não-freudianos", que ipso facto saem do campo de sua análise).
Assim, eis que essa problemática ultrapassa os divãs e os círculos
mais ou menos privados dos analistas para se expor à plena luz da
revelação voltada para um "público liberal e culto" (?). Mas, se vamos
falar de psicanalistas judeus, então falemos. E, para isso, que me permitam
uma associação, ou uma "loucura teórica" Gá que não reivindico o selo
de freudiano, tenho a priori esse direito, parece-me), que me é irresisti-
velmente sugerida por esse tipo de exercícios.
Trata-se da aproximação entre a Cabala e a psicanálise, já feita e
desfeita muitas vezes, e depois retomada e depreciada. Granoff, aliás,
menciona essas tentativas (p. 74), e eu estaria de pleno acordo com à
crítica que faz a elas. É que, na verdade, o que pode ser interessante nessa
aproximação não é tanto a questão de uma filiação da Cabala à psicanálise,
mas a de uma comparação. A aproximação e a comparação podem se
impor num jogo de associações "livres" - não por Freud ter sido judeu,
mas pelo fato de se tratar de duas abordagens diferentes da mesma questão
do oculto e de suas revelações. É sempre valioso comparar duas aborda-
gens da escuta do inconsciente, tanto para os que vivem da tradição
psicanalítica quanto para os que vivem da tradição judaica. Uma ciência
224 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

dos sonhos expressa numa linguagem cultural ocidental não pode deixar
de ser aproximada, mesmo e principalmente para diferenciar-se delas, das
ciências do sonho oriundas de outras culturas, de outras experiências, de
outras linguagens. Se existisse um corpus teórico escrito sobre a ciência
do sonho dos incas, por exemplo, a aproximação e as comparações com
a psicanálise evidentemente se imporiam, mais ainda e com maior inte-
resse se os incas tivessem tido uma civilização do texto e do livro que lhes
tivesse permitido sobreviver, dispersos, à destruição de seu império, de
modo que suas teorias tivessem sido escritas pelos próprios incas no correr
dos séculos, e não por modernos etnólogos ocidentais mais ou menos já
analistas-analisandos.
As aproximações e comparações da Cabala com a psicanálise só
podem ser feitas nesse nível. O fato de Freud ter sido judeu pode perfei-
tamente ser posto de lado nesse contexto, não como uma denegação, mas
como conseqüência de ele ter sido judeu num nível inteiramente diferente
desse, completamente isolado desses ensinamentos, muito pouco conhe-
cidos e muito pouco difundidos no meio desjudaizado que lhe era próprio.
É provável que ele nunca tenha tido acesso .a eles e, de qualquer modo,
teria sido incapaz de penetrá-los em profundidade, por causa da barreira
da língua hebraica, que ele não dominava. Sei que é possível construir
interpretações acerca de uma filiação inconsciente, mas também é possí-
vel não fazê-lo: visivelmente, o importante é apenas o desejo que tenha-
mos ou não de fazê-lo, e uma análise crítica desse desejo - como a de
Granoff, por que não? - é perfeitamente justificada.
Mas o grande mérito de Marthe Robert consistiu em colocar o
problema de Freud e da consciência judaica em termos tais que, pela
primeira vez, as relações ambíguas entre o judaísmo e a psicanálise
puderam ser compreendidas sem cair nem na esquisitice das filiações
inconsdentes, nem na negação de qualquer relação. Marthe Robert enxer-
gou com clareza a situação de Freud, judeu desjudaizado - "entre duas
culturas'', como Kafka - da segunda geração depois da emancipação . .
Foi essa situação, por sua negatividade, que lhe permitiu descobrir a
psicanálise. O judaísmo de .Freud não é tanto um conteúdo teórico ou
ideológico - na verdade, muito reduzido4 - , mas uma situação de
minoritário numa sociedade ocidental da qual, ao mesmo tempo, ele se
alimentava; uma situação de meteco que dominava a cultura da sociedade
que simultaneamente o atraía e o rejeitava. A descoberta da psicanálise
foi menos um processo judaico do que anti-ocidental. A situação judaica
só se fez presente para permitir, pela distância que implicava do próprio
meio da cultura ocidental, descobrir tudo o que essa cultura quisera
recalcar. Por isso mesmo, essa situação, em sua singularidade, permitiu
uma descoberta de alcance universal, cujo impacto mais importante mos-
trou estar justamente nessa mesma cultura. Entretanto, a trajetória de fong
A PROPÓSITO DE "PSICANALISTAS JUDEUS" 225

e seu fascínio pelas culturas do Extremo Oriente bem mostram como a


análise do inconsciente pode se ligar não apenas ao mito judaico, mas
também aos mitos chineses e indianos. Isso mostra como o judaísmo de
Freud lhe proporcionou, não um conteúdo positivo que o levasse a
redescobrir o inconsciente, mas a possibilidade de um distanciamento e
de uma subversão em relação ao Ocidente do século XIX, única civiliza-
ção da qual, em dado momento, o inconsciente parecia ler sido expulso.
Sua descoberta do inconsciente foi algo que ele deveu a sua negatividade
judaica, e não a sua relação consciente com o mito judaico. Por isso é que
ele a exprimiria na linguagem do mito grego e da ciência. E mais,
procuraria, depois disso, segundo a interpretação dada a Moisés e o
Monoteísmo por Marthe Robert, desjudaizar Moisés, como se precisasse
justificar seu próprio encaminhamento para fora da família judaica, até
Atenas.
De maneira bem menos convincente, Granoff reconsidera o judaís-
mo, ou a pertença judaica de Freud, em sua relação com Moisés, depois
na trajetória de Lacan, que daria continuidade ao caminho da confissão e
do perdão que Freud atribuiu ao cristianismo (lamentando vagamente que '
o povo judeu histórico não o tenha seguido), e por último, no apego ao
aquém do que ele chama de "psicanalistas judeus" (p. 548) - dentre os
quais, aparentemente, ele próprio.
Para esses três momentos da filiação - Freud-Lacan-psicanalistas
ditos judeus -, eu gostaria de propor uma interpretação "louca", inspi-
rada na aproximação entre o discurso cabalístico e o discurso psicanalíti-
co, que indiquei anteriormente. Como se trata, em ambos os casos/ de
discursos-revelação do oculto e, por definição, irrevelável, as experiên-
cias consideradas privilegiadas para essas revelações, os porta-vozes do
inconsciente, são obviamente da mais alta importância, já que são elas que
revestem o oculto ao revelá-lo, isto é, que lhe dão sua forma visível, da
qual podemos falar e que podemos apontar. É a comparação desses
porta-vozes, tal como aparecem nos discursos da Cabala e da psicanálise,
respectivamente, que proponho utilizar como fio condutor nesta "loucu-
ra" interpretativa.
Nos discursos cabalísticos sobre os sephirot, os nomes e as imagens,
os locais privilegiados da revelação do oculto devem ser encontrados: por
um lado, no corpo humano e nas relações parentais com as figuras
principais do avô, do pai e da mãe, do filho e da mulher do filho (cabala
da estatura .e das figuras); por outro, na estrutura da língua hebraica (caba-
la dos nomes, das letras e de outros sinais da esérita); e, por último, nos
personagens-eventos da história mítica (da Bíblia) e pós-mítica do povo
de Israel, familia depositária dessas revelações na história.
Sabemos que, dessas três modalidades, as duas primeiras (corpo e
relações parentais, estrutura da linguagem) também têm, no discurso
226 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

psicanalítico, essa condição de porta-vozes, de lugares privilegiados da


revelação do inconsciente. Entretanto, se de fato as encontramos reunidas
na obra de Freud, parece que a primeira modalidade, a das relações
parentais, desempenha nela, sob a forma dos esquemas do Édipo, um
papel muito mais central e originário do que a segunda, a das estruturas
da linguagem. Desse ponto de vista, Lacan, ao acentuar, ao contrário, a
importância dessa segunda modalidade, de fato se afigura um continuador
que consumou, transforinando-a, a obra de seu predecessor. É desse ponto
de vista que o lacanismo poderia ser percebido como sendo, para o
freudismo, o que o cristianismo pretende ser para o judaísmo. Lacan-S.
Paulo de Freud-rabino Gamliel! É então que o descobridor da terceira
modalidade, a da história mítica, finalmente aparece .. . em Granoff, em
quem a história (sacra) do movimento serviria para fundamentar a recusa
dessa pseudoconsumação mutiladora e a obstinação no aquém judaico!
Mas é aí que a história se torna cômica. Ironia última, Granoff, ''analista
judeu", é de fato levado a se aferrar a uma doutrina que não poderia ser
mais pauliniana: a da salvação pela ~é que se transforma em dogma, à
custa da prática rigorosa, remetida ao ''tudo vos é permitido' ' de S. Paulo.
Assim, pretendendo-se um "analista judeu'', Granoff defende uma
doutrina cristã que, até mesmo em sua formulação, é exatamente o inverso
do que seria uma doutrina judaica das relações cabeça-pernas-sexo, do
corpus teórico à vivência corporal. "Em suma, e para fixar as idéias,
poderíamos dizer que, nessa relação (com o corpo do paciente), estamos
dispostos a praticar loucuras ... Dizemos em eco: Com a teoria não se
praticam loucuras" (p. 37). "O absurdo enlouquece, quando sobe à
cabeça. A ausência do absurdo nem por isso deixa de enlouquecer, quando
desce ao sexo" (p. 549). A atitude resumida nessas formulações é exata-
mente o inverso da atitude, muito conhecida, em que o apego a uma práxis
rigorosa permite uma grande liberdade de elaboração teórica.~ De um
"psicanalista judeu" (se é que isso quer dizer alguma coisa) esi}eraría-
mos, antes, uma formulação do tipo: ''nenhuma loucura nas pernas, todas
as loucuras na cabeça: ... algumas, cuidadosamente filtradas no sexo, por
onde passa todo o conhecimento (e não apenas a que o falso pudor
ocidental qualifica de bíblica)."
É próprio dos judeus desjudaizados que somos ou fomos, judeus
cristianizados, ocidentalizados, des-hebraizados (dos quais Freud foi um
dos três galardões agora clássicos), formular a questão do mestre em
termos de pai. "Faze-te wn mestre'', 6 diz o Tratado dos pais. O que
significa: escolhe, uma vez constituída tua personalidade adulta e exer-
cendo teu senso crítico, um mestre para te ensinar nas categorias lógicas
e para substituir, renovando-os, os alimentos morais das mamadeiras de
teu pai. Depois, renova tua escolha, que pode ser aproximativa, todas as
vezes que tua trajetória o pedir. Falar de filiação a propósito dos mestres
A PROPÓSITO DE "PSICANALISTAS JUDEUS" 227

seria uma regressão, justamente contra a qual o Tratado dos pais adverte
a aprendizagem. Os pais eficazes, que se preocupam com o desenvolvi-
mento de seus filhos como adultos, condicionam-nos a separar-se deles e
a se desenvolverem em relação com um saber crítico, aberto para o
exterior, mais do que com seus próprios alimentos, restritos ao meio
familiar.
O povo judeu de cultura efetivamente se resguardou dessa regres-
são, dissociando a origem do ensino, ''Moisés, nosso mestre'', das origens
das filiações, ''Abraão, Isaque e J acó, nossos pais'' . Moisés, na percepção
judaica mítica e histórica (que Freud não podia compartilhar7), nunca foi
pai. Como protótipo dos rabbis talmidei-hahamim, mestres-aprendizes-
sábios que o seguiriam e se criariam, não se presume que ele sustentasse
a problemática do assassinato e do perdão. Esta, realmente a encontramos,
mas projetada em outros personagens, nas relações entre os pais-filhos
Abraão, !saque e Jacó. Aliás, ela é invertida no assassinato do filho
(Isaque por Abraão) e na tapeação do pai (o mesmo filho !saque transfor-
mado em pai por seu filho Jacó). Para Moisés e seus discípulos, é de uma
outra linhagem, muito diferente da dos Patriarcas de uma Igreja, que se
trata: é a dos mestres-alunos dos sábios, que sempre mantêm relações
agitadas com a descendência dos pais. Poderíamos criar uma teoria da
religião como reunião dessa dissociação, como retomo ao mestre-pai, do
qual a religião judaica também não escapa, evidentemente, quando é
religião.
Quanto aos "psicanalistas judeus" de que nos falam aqui, podemos
perguntar-nos se eles são freudianos judeus, como o foi e poderia ser
Freud hoje em dia, ou se se tomam por judeus freudianos, à maneira como
nos dizem que Moisés e seus discípulos teriam sido. Há três quartos de
século, em sua situação de oriundo da primeira geração de judeus assimi-
lados, Freud foi induzido a descobrir a psicanálise. Atualmente, em nossa
situação de judeus descolonizados pós-assimilação, depois da experiência
dos universos concentracionistas e dos desmoronamentos que se seguiram
a eles, certamente podemos utilizar a psicanálise, mas não descobri-la,
com certeza. Antes, ficaríamos tentados a descobrir, renovando-o, o mito
judaico, tanto em sua universalidade quanto em suas dimensões históricas
particulares.
Seja como for, felizmente para os pacientes, com a ajuda da mãe
natureza, algumas análises têm êxito sem que seja indispensável que o
terapeuta domine os fundamentos teóricos de seu sucesso. Outras, infe-
lizmente, fracassam, sem que isso confirme ou invalide minimamente a
teoria desta ou daquela escola. Os discursos conscientes, as teorizações
de alguns psicanalistas, levam-nos a crer que, no que lhes diz respeito,
afinal, "eles não sabem o que fazem". Perdoai-os, Senhor?
13

A VIDA E A MORTE:
BIOLOGIA OU ÉTICA 1

Existe um velho sonho da humanidade: o da união da lei moral com a lei


natural, o de um mundo em que o bem se confundisse com a verdade -
e depois, na mesma oportunidade, também com o belo, por que não? Esse
sonho está bastante desfeito em nossos dias e nossas latitudes, mas, como
uma fênix, renasce repetidamente de suas cinzas.
Já Moisés, antes de morrer, falara dele ao povo de Israel; falou-lhe
em nome do Nome, se assim podemos dizer, e lhe disse: "Vê, coloquei
diante de ti, neste dia, a vida, e o bem, e a morte, e o mal... Tomei hoje
por testemunhas, acima de vós, os céus e a terra, a vida e a morte; coloquei
diante de ti a bênção e a maldição. Tu escolherás a vida, para que vivas,
tu e tua semente." (Deuteronômio, XXX, 15-19.)
Foi nesses termos que falou Moisés, dirigindo-se ao povo de Israel
na encruzilhada dos caniinhos, no momento de deixá-lo; foi também esse
o momento em que esse povo, que até então estava condenado à errância
pelo deserto e às revelações do infinito, empenhou-se numa empreitada
de realização nacional e territorial, empreitada necessária a sua estabili-
zação, mas repleta de perigos, dentre os quais o do retraimento e da rigidez
social não era o menor.
Pois bem, esse texto aparentemente exprime, de maneira muito
tocante, naquele contexto particular, esse velho sonho da humanidade,
essa união da lei moral e da iei natural, que, como todos sabem, perma-
neceu como um dos fundamentos da atitude judaica diante da lei. Além
disso, aqui, a lei natural se exprime em termos de vida e morte. Bem e mal
seriam apenas aspectos particulares, transpostos para o domínio da vida
social e da vida subjetiva, da vida e da morte; e a escolha do bem seria
aconselhada, como diz Rachi, a quem houvesse aceitado o conselho
prévio de optar pela vida em vez da morte.
De fato, como veremos, o texto bíblico não é tão ingênuo assim, e
é apenas numa leitura moralizadora e catequizadora que se afigura tão
simples. Alguns comentadores tradicionais perceberam isso há muito

228
A VIDA E A MORTE 229

tempo; podemos citar, por exemplo, o autor do Or Ha'Haym; mas, como


em muitos outros casos, cegados pela suposta evidência religiosa de hoje,
temos de aprender a relê-los.
Por um lado, sabemos que existe um outro discurso sobre a vida e
a morte que, aparentemente, nada tem a ver com esse: o da biologia. Como
qualquer discurso científico, ele se baseia numa atitude inteiramente
oposta, que se resume no postulado da objetividade. O discurso científico
é completamente dissociado das considerações de natureza social ou
individual. Nesse aspecto, aliás, constitui um fenômeno específico de
nossa civilização ocidental em seu presente estado, onde esse antigo
sonho da humanidade, ao que parece, foi definitivamente abandonado; e
onde a lei moral e a lei natural já não têm nenhum campo em comum.
Tentarei comparar esses dois discursos, ou, mais exatamente, inves-
tigar que pontos de referência permitem um vaivém entre um e outro. Na
medida em que eles dizem explicitamente o contrário um do outro (um se
apóia nessa unidade, enquanto o outro, ao contrário, a ignora), esse vaivém
- concernente não ao que está explícito neles, mas ao que lhes é implícito
e os fundamenta - talvez permita compreender melhor a ambos.
O texto bíblico, pois, não é tão ingênuo quanto parece: as relações
entre os pares bem/mal, vida/morte, são muito mais complexas e ambíguas
do que se supõe. Isso se evidencia tão logo levamos a sério a própria
formulação do texto: dela se destaca toda uma série de questões cujos
elementos de resposta podem ser encontrados nos comentários talmúdi-
cos, cabalistas ou mais recentes, e também, talvez, numa reflexão sobre
algumas correntes da biologia de hoje.
A correspondência entre os dois pares, bem/mal, vida/morte, é
formulada de duas maneiras diferentes. A primeira formulação contém
tudo isso misturado, sem que se trate claramente de uma verdadeira
alternativa: "Coloco diante de ti a vida e o bem e a morte e o mal"; mais
exatamente, os termos da alternativa são ambíguos. Pode se tratar, como
se costuma supor, da alternativa entre a vida e o bem, de um lado, e a
morte e o mal, do outro; mas também pode tratar-se da alternativa oposta,
entre a vida e o bem, ou seja, a vida de um lado e o bem do outro,
alternativa esta que se repete, a seguir, entre a morte de um lado e o mal
do outro. Nesse caso, a vida e o mal é que estariam no mesmo campo,
enquanto o bem e a morte estariam no outro. Na verdade, a forma dessa
primeira formulação, ao que parece, é voluntariamente ambígua, a fim de
preservar essas duas eventualidades.
Somente numa segunda formulação, alguns versículos adiante, é
que a alternativa é apresentada de maneira mais clara, tal como estamos
habituados a compreendê-la: "A vida e a morte coloquei diante de ti, a
maldição e a bênção." Nesse ponto, de fato, a formulação é clara: de um
lado, a vida, do outro, a morte; de um lado, a bênção, do outro, a maldição.
230 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

Mas essa segunda formulação se encerra numa injunção que


repercute a ambigüidade do começo: ''Escolherás a vida para que
vivas, tu e tua semente." Seria de esperar: "escolherás o bem para que
vivas", ou "escolherás a bênção para que vivas", ou ainda, simples-
mente, "escolherás a vida". Que significa "escolherás a vida para que
vivas", o que daria a entender que "poderias escolher a vida para não
viveres''?
É justamente dessa eventualidade que se trata aqui, assim como na
primeira formulação, onde tudo aparece misturado: a vida e o bem e a
morte e o mal; trata-se, efetivamente, da ambigüidade entre essas duas
alternativas opostas: aquela em que o bem estaria do lado da vida - tendo
por corolário o mal do lado da morte-, mas também, ao contrário, aquela
em que o bem é que estaria do lado da morte, tendo como corolário o mal
do lado da vida. Na primeira formulação, as duas alternativas são igual-
mente possíveis, igualmente verdadeiras, igualmente presentes. Se acei-
tarmos a ambas em conjunto, decorre daí que uma certa vida será, ao
mesmo tempo, uma morte, e que uma certa morte será, ao mesmo tempo,
uma vida: a vida pelo bem, da primeira alternativa, levará à morte da
segunda alternativa, e a morte pelo mal, da primeira alternativa, levará à
vida pelo mal, da segunda alternativa.
A injunção final, que de outro modo seria incompreensível, adquire
então todo o seu peso e toda a sua riqueza: o conselho que te é dado
consiste em descobrires um caminho em meio a essa mixórdia de vida e
morte, de bem e mal, um caminho que te permita escolher uma vida que
não seja uma morte, ainda que a realidade seja tal que qualquer escolha
de vida deva conduzir-te inelutavelmente a uma escolha de morte: "Es-
colhe a vida para que vivas'' , pois sabes que, se escolheres a vida, correrás
o risco de seres levado a seu contrário.
E isso, evidentemente, não é compensado pelo fato de que, se
escolheres a morte, correrás também o risco de seres levado a escolher a
vida ...,... o que seria evocado por uma formulação do tipo: ''Escolhe a morte
para que vivas." Tal formulação é impossível, como é impossível o
clássico brado do "Viva la muerte!", "viva a morte", pois não podemos
esquecer que, apesar de tudo, a escolha da morte também comporta,
evidentemente, o risco de morrer. Em outras palavras, as escolhas da vida
ou da morte não são simétricas.
Será possível sairmos dessas contradições e desses paradoxos, pa-
radoxos e contradições que no entanto não podemos evitar, se levarmos a
sério a dupla formulação dos textos bíblicos? Se nos sensibilizarmos para
uma certa maneira de ver as coisas, encontraremos em certos textos
rabínicos algumas indicações sobre a maneira de sair dessas contradições
ou, mais exatamente, de viver com essas contradições.
A VIDA E A MORTE 231

Mas podemos tentar, antes disso, mostrar em que aspecto essas conside-
rações, provenientes de reflexões sobre a vida e a morte como as que nos
podem ser sugeridas pela biologia atual, contribuem para esclarecer um
pouco essas questões, mesmo que, é importante sublinhar, o propósito
explícito do discurso científico se pretenda completamente desligado
desse tipo de questões. Tentando ser tão pouco técnico quanto possível,
não é inútil nos determos um pouco na particularidade do discurso cien-
tífico que é o postulado da objetividade, postulado este que distingue o
discurso científico de um bom número de outros discursos. Na medida em
que a ciência é uma das produções mais características da civilização
ocidental, essa particularidade é uma marca dessa civilização, para o
melhor e para o pior.
Esse postulado implica, entre outras coisas, que os fenômenos sejam
observados pelos chamados métodos objetivos, isto é, em linhas gerais,
reprodutíveis e independentes, não da existência de observadores, mas da
subjetividade desses observadores.
Esse postulado implica também que a interpretação dessas observa-
ções não recorra, de modo algum, a essa subjetividade, mesmo comparti-
lhada, sob a forma de juízos de valor a priori sobre o caráter desejável ou
ansiado deste ou daquele resultado - o que exclui, de imediato, a hipótese
de nos preocuparmos com o caráter moral, bom ou ruim, deste ou daquele
resultado, desta ou daquela teoria.
A busca da verdade - ou melhor, do tipo de verdade buscada pelo
exercício do método experimental - ultrapassa qualquer outra preocupa-
ção, com a enorme vantagem da abertura, isto é, da possibilidade de ser
repetidamente questionada e revista; mas também, é óbvio, com o incon-
veniente de sua possível dissociação do mundo das verdades subjetivas,
da estética e da ética.
Essa dissociação, que hoje em dia constatamos não apenas como
uma possibilidade, mas também como um estado de fato, provavelmente
responsável, aliás, pelo que se costuma chamar a crise da ciência, e até a
crise do Ocidente, tem uma história. Ela nem sempre existiu como tal,
mesmo no Ocidente.
A ciência, nascida na antiga Grécia, só assumiu a face com que hoje
a conhecemos ao longo dos últimos dois séculos de sua história. Antes
disso, digamos, até Newton, para fixar as idéias, a lei moral era confundida
com a lei natural, ou, mais exatamente, as duas leis tinham uma origem
comum, a saber, Deus criador, que era a garantia de sua união. Essa união
nunca fora diretamente percebida como um dado da experiência; aliás,
continua não o sendo, ou só raramente. Muito pelo contrário, a experiência
freqüentemente levava - e continua a levar - a duvidar de que as leis
da natureza funcionassem em harmonia com as leis morais. Mas, como as
)P,i.s da natureza eram percebidas como a expressão da vontade de Deus,
232 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

exatamente como as próprias leis morais, essa origem divina servia de


garantia para a unidade dessas leis, ao menos em princípio, ainda que a
experiência às vezes contradissesse essa união; essa contradição pela
experiência, assim, podia ser imputada, como se diz, à ignorância dos
impenetráveis desígnios de Deus, em quem, por definição, a contradição
deveria desaparecer.
O advento da mecânica racional e sua aplicação à mecânica celes-
tial, com a cosmologia de Kepler e Galileu, modificaram um pouco as
coisas, mostrando fenômenos naturais regidos, não por uma vontade
impenetrável de Deus, mas por leis acessíveis à razão humana; melhor,
por leis matemáticas que pareciam produzidas pela razão.

Quer pensemos, como Galileu, que o universo é um livro cuja língua é a


matemática, ou, como Poincaré, que a matemática é a língua do homem
quando ele estuda a natureza, Deus mudou de estatuto. Começou por se
tornar matemático, e depois foi desaparecendo progressivamente, substi-
tuído pelos físicos - também eles matemáticos - , tão logo estes pude-
ram prescindir dele. De qualquer modo, a garantia da unidade da lei moral
e da lei natural deixou de ser o Deus criador-legislador, passando a ser a
razão humana. Daí o período das grandes ideologias do século XIX, nas
quais a razão deveria descobrir as regras de conduta e de organização da
sociedade, em harmonia com as leis da natureza.
Atualmente, tudo isso acabou. Essas ideologias fracassaram, e o
livre exercício da razão crítica levou ao fracasso da própria razão para
fundamentar uma ética individual e social. Por isso, chegamos a um estado
particularíssimo, específico da civilização ocidental neste ponto de sua
história. Nesse estado, enquanto as leis da natureza são cada vez mais bem
decifradas e dominadas pela forma singular de exercício da razão que é o
método científico, resignamo-nos ao fato de esse exercício não ter prati-
camente nenhuma serventia para a vivência individual e social, para a
elaboração ou a descoberta de uma ética.
Por isso, no que concerne às ciências da vida, chegamos a uma
espécie de paradoxo: a biologia se ocupa da vida e da morte, mas não, ou
muito pouco, da vida e da morte dos homens reais na sociedade. Algumas
aplicações médicas que utilizam conceitos e técnicas biológicas não
devem criar nenhuma ilusão; elas só dizem respeito a uma fração peque-
níssima da população; depais, e principalmente, afinal, trata-se apenas de
problemas de saúde, e não de problemas de vida, o que, no contexto em
que estamos, não é a mesma coisa.
Essa situação é muito claramente sentida pela maioria dos biólogos
atuais, que reagem a ela em função de suas inclinações individuais,
porque, de qualquer modo, não podem ignorá-la. Sabemos que Jacques
A VIDA E A MORTE 233

Monod escreveu seu famoso livro, com o sucesso de que temos notícia,
precisamente para tentar resolver esse paradoxo. A solução que ele propõe
é basear uma ética, não na própria ciência, já que isso é impossível, mas
no postulado extracientífico ou metafísico que fundamenta a ciência, a
saber, o postulado da objetividade.
Esta é uma atitude que muitos cientistas, especialmente biólogos,
tenderiam a compartilhar. Outros, como o grupo de cientistas norte-ame-
ricanos apresentados por Ruyer em seu livro A Gnose de Princeton,
tentam, com essa mesma finalidade, fundar um novo espiritualismo a
partir de conceitos da ciência atual, que eles afirmam "endireitar" ao
complementá-los, muitas vezes inchando-os e os deformando, com signi-
ficações metafísicas. 2
François Jacob resumiu muito bem a situação, dizendo: "Já não se
interroga a vida nos laboratórios; é pelos algoritmos do mundo vivo que
hoje nos interessamos''; ou seja, pela lógica dos organismos considerados
como máquinas programadas, como sistemas cibernéticos dos quais é
preciso descobrir os programas e a lógica da organização.
Essa atitude se alia à corrente majoritária do pensamento tecnológi-
co contemporâneo, qual seja, a corrente operacional. Não há uma preocu-
pação de descobrir verdades, mesmo parciais, mas de saber se "isso
funciona". As teorias científicas, em última análise, só têm valor na
medida em que possam servir para fazer experiências, em que estejam na
origem de operações que sabemos que acabarão por levar a comprovar a
falsidade dessas teorias, e portanto, a fazer com que sejam rejeitadas. A
realidade descrita não é a realidade em si dos objetos observados, mas a
das próprias operações de observação, mensuração e fabricação.
Essa conscientização do papel da observação, do observador e de
suas operações, no discurso científico, é algo importantíssimo: ela pôde
se afigurar libertária, realmente, na medida em que permitiu eliminar
muitos falsos problemas essencialistas, com suas implicações totalitárias.
De fato, mesmo que critiquemos essa atitude operacional, por não perce-
bermos seus limites, mesmo assim não devemos esquecer que ela protege,
numa certa medida, das ciladas que consistem em identificar a ciência
com esta ou aquela ideologia, que às vezes pode assumir formas totalitá-
rias extremamente perigosas. E a atitude oposta conduz, com freqüência,
a extrapolar um ponto específico do discurso científico e a estendê-lo à
realidade inteira. Foi essa atitude que esteve na origem de duas aplicações
pervertidas da genética, onde as falsas relações entre verdade científica e
ideologia atingiram o auge do horror em sua utilização por um poder
totalitário. Trata-se, é claro, da genética nazista que fundamentou as leis
raciais, e da genética soviética stalinista de Lysenko.
Nesse aspecto, a questão da verdade ou do erro científico nada mais
tem a ver com a da ideologia que a utiliza; percebemos, curiosamente, que
234 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

os horrores stalinistas foram cometidos em nome de uma genética que


hoje é qualificada de delirante, mas que, em contrapartida, os horrores
hitleristas foram cometidos, por sua vez, em nome de uma genética hoje
reconhecida como verdadeira, ainda que, evidentemente, seu campo de
aplicação deva ser cuidadosamente delimitado.
No tocante a essas perversões, a atitude operacional se afigura
sempre singularmente lúcida e libertária, na própria medida em que
protege de confusões desse tipo entre a pesquisa científica e a ideologia.
Mas também é preciso ver que essa aittude operacional, mesmo assim, é
uma constatação de falência: a falência das relações possíveis entre nosso
método de pesquisa e nossa vivência individual e social.
Além disso, a atitude operacional, ainda que proteja contra aliena-
ções nas ideologias totalitárias, não protege de uma outra forma de
alienação, às vezes mais brutal e mais insidiosa, como mostraram Marcu-
se, em particular, e outros depois dele: trata-se, não de uma dada ideologia
explícita, mas da ideologia implícita, oculta, das sociedades liberais, ou,
como se diz hoje em dia, das sociedades de consumo. Nesse caso, a
alienação se abriga por trás da ausência de uma lei explícita, que é
substituída pelo convencional e pelo funcional. Esse é o extremo oposto,
o do "tudo se equivale'', um "tudo se equivale" teórico, que aliás é
apenas teórico, porque é vivido ou expresso numa prática unidimensional
que engloba tudo; metaboliza tudo, na indiferenciação do valor; e é sob a
proteção dessa indiferenciação que se efetua a uniformização das aspira-
ções e dos desejos.
Nesse ponto, não há dúvida de que a ciência operacional desempe-
nha um papel recuperador, que Marcuse, ao que parece, foi o primeiro a
assinalar, e que muitos jovens cientistas começam hoje a perceber; daí o
que começa a ser chamado de crise da ciência, que é · uma crise de
recrutamento - talvez menos quantitativo do que qualitativo.
Seja como for, essa atitude operacional leva a limites extremos a
constatação da impossibilidade de utilizar a verdade científica para fun-
damentar, digamos, ontologicamente, uma ética qualquer. E nisso, mais
uma vez, ela tem pelo menos a vantagem de preservar o futuro, permitindo
que as questões sejam sempre recolocadas, já que estão apenas recalcadas;
e, ao mesmo tempo, ela impede - ao menos é o que esperamos - a
utilização da verdade técnica, como se fez no passado, para fundamentar
ideologias cujo poder homicida pode atingir dimensões catastróficas.

Depois dessa digressão, teremos possibilidade de mostrar como, nessa


monotonia da indiferenciação, nesse contexto de pesquisas puramente
operacionais, reencontramos, curiosamente, uma problemática da vida e
da morte que os antigos talvez tenham tido, mas que havia desaparecido
A VIDA E A MORTE 235

e fora esquecida pela consciência moderna; através dela, talvez possamos


redescobrir, evidentemente em novos termos, os antigos problemas que
agora percebemos não apenas ter esquecido, mas também já nem sequer
compreender em seus termos.
Isso nos pennitirá redescobrir as implicações éticas que supúnha-
mos esquecidas, e também redescobri-las num nível mais profundo, mais
multívoco, num contexto muito mais rico que o dos dogmas e das ideolo-
gias. Evidentemente, a questão será, não basear uma ética em novas
teorias biológicas, mas utilizar essas·teorias no que elas têm de ambíguo
e contraditório para colocar o problema da ética em termos de vida e de
morte, que, por sua vez, também são ambíguos e contraditórios; em outras
palavras, não se trata de utilizar a teoria científica como um novo dogma
de onde extraímos receitas morais, mas como uma fonte de novas inter-
rogações que talvez permitam colocar melhor a questão da ética e, com
isso, reencontrar interrogações que talvez atormentassem os antigos.
Mas, como falar em novas concepções sobre a vida e a morte,
quando havíamos lembrado que já não se interroga a vida nos laboratórios,
que só nos interessamos pela lógica da organização dos sistemas vivos?
Ocorre que a lógica que descobrimos aí é uma lógica da contradição, onde
desaparecem as antigas idéias muito nítidas sobre a vida e a morte, e onde
aparece uma espécie de cooperação, aparentemente paradoxal, entre o que
supúnhamos serem processos de vida, desenvolvimento e crescimento, de
um lado, e o que julgávamos serem processos de morte, envelhecimento
e desorganização, de outro. Bichat disse, certa vez: "A vida é o conjunto
das funções que resistem à morte.·• Atualmente, tenderíamos mais a dizer
que "a vida é o conjunto das funções capazes de utilizar a morte".
A primeira intuição dessa cooperação antagônica e paradoxal foi,
provavelmente, a de Freud sobre a pulsão de morte. Mas Freud teve essa
intuição num contexto científico que lhe era característico e onde ri.ão
existiam instrumentos para fundamentá-la realmente. Daí a dificuldade
do próprio Freud, e mais ainda de outros, em compreender verdadeira-
mente como era possível que processos de morte fossem parte integrante
dos processos de vida. Assim, buscou-se refúgio, por algum tempo, na
idéia de que haveria uma oposição entre o interesse individual e o
interesse da espécie; em outras palavras, na famosa idéia que aparece
claramente na vida dos insetos, e cujo exemplo clássico é o da fêmea do
louva-a-deus, obrigada a matar o macho no momento de sua união, porque
esse é o único meio que ambos têm de desencadear o reflexo de fecunda-
ção; ou ainda, o das borboletas, que morrem assim que se reproduzem, e
cuja vida conseguimos prolongar artificialmente, impedindo-as de se
reproduzirem. Em outras palavras, era perfeitamente sabido que havia ali
uma oposição entre a vida do indivíduo e a da espécie , devendo o
indivíduo como que sacrificar sua vida, morrer, para pennitir o prolonga-
236 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

mento e a perpetuação da espécie. Foi somente dessa forma que se


conseguiu integrar a idéia tão paradoxal de uma pulsão de morte como
parte integrante dos próprios mecanismos da vida: essa pulsão de morte
seria, de certo modo, a presença da espécie, responsável pela morte do
indivíduo, no próprio interior da vida do indivíduo.
Mas hoje sabemos que esse antagonismo é mais profundo. Agora
ele é descoberto no próprio interior do indivíduo, no próprio interior de
qualquer sistema vivo, inclusive o sistema mais elementar, o de uma
célula. Encontramo-lo em ação tanto na lógica da evolução quanto na
Íógica do desenvolvimento, da maturação e do envelhecimento; e também
o encontramos em ação em processos aparentemente mais elaborados: os
de nosso aparelho cognitivo, do que Piaget chama assimilação, com seu
duplo sentido biológico e cognitivo.
Deixando de lado os detalhes técnicos, digamos que duas correntes
convergentes levaram a imaglnannos a organização de um sistema vivo,
hoje em dia, como o resultado de processos antagônicos, um de construção
e outro de desconstrução; um de ordenação e regularidade, outro de .
perturbações aleatórias e de diversidade; um de repetição invariável, outro
de novidade imprevisível.
Dessas duas correntes, uma é a que util!za, para descrever a lógica
do ser vivo, a teoria da informação, com suas noções de informação
genética, de código e de programa; a outra é a que utiliza, para descrever
o estado da matéria organizada, um ramo da física que chamamos termo-
dinâmica dos sistemas abertos. ·
Uma das primeiras brechas na concepção clássica da organização
vital à qual se opôs a desorganização da morte produziu-se quando
reconhecemos o papel do acaso e do aleatório na organização dos sistemas
vivos, e também - como que para grifar bem o lado não-misterioso,
não-vitalista da coisa - na organização de qualquer sistema que fosse
dotado de virtudes de "auto-organização".
Sabemos que esse papel do acaso foi posto em evidência, nos
mecanismos da evolução das espécies tal como são hoje concebidos, pela
teoria neodarwinista das mutações · ao acaso, seguidas de seleção. A
evolução é acompanhada por um aumento de complexidade e autonomia
da organização biológica. O motor da evolução é uma curiosa cooperação
entre as mutações aleatórias que perturbam a estabilidade do equipamento
genético de uma espécie e uma seleção, pelo ambiente, dos equipamentos
genéticos modificados que mais se adaptam a um novo ambiente. São as
mutações ao acaso que constituem a fonte de diversidade, ou de novidade
e complexificação. Ora, até então, o acaso era considerado antagônico ao
organizado. E eis que a organização biológica revelou-se capaz de integrar
e utilizar o acaso como fonte de novidade, como meio de adaptabilidade.
E mais, isso parece verdadeiro não apenas quanto à evolução das
espécies, mas também quanto ao desenvolvimento do indivíduo. Foi assim
A VIDA E A MORTE 237

que se chegou à idéia de que os mecanismos de produção de erros


metabólicos e de desorganização que se acham na origem do envelheci-
mento e da morte talvez também estejam na origem do desenvolvimento
e da maturação.
Da mesma forma, a constituição do aparelho imunológico num:.
rede que aprende progressivamente a distinguir o si do não-si no nível
celular e molecular evidenciou a utilização de encontros de diversas
moléculas ou células ao acaso; s'.io esses encontros que modificam a
estrutura da rede e determinam sua orientação posterior mais por uma via
do que por outra, e é essa orientação que acaba levando a formar a
individualidade celular do sujeito.
Tudo isso conduziu à idéia de que a organização dos sistemas vivos
não é uma organização estática, nem tampouco um processo que se
oponha a forças de desorganização, mas, antes, um processo de desorga-
nização permanente seguida de reoganização, com o aparecimento de
propriedades novas, quando a desorganização pode ser suportada e não
mata o sistema. Em outras palavras, a morte do sistema faz parte da vida,
não apenas sob a forma de uma potencialidade dialética, mas como uma
parte intrínseca de seu funcionamento e sua evolução: sem perturbações
ao acaso, sem desorganização, não há reorganização adaptativa ao novo;
sem um processo de morte controlada, não há processo de vida.
Foi a uma visão do mesmo tipo que levaram os trabalhos que
visavam a elucidar o estado físico da matéria viva. Quem tem a oportuni-
dade de assistir a um filme que apresente células observadas ao micros-
cópio, enquanto elas ainda estão vivas, e não fixadas numa imagem
estática como as vemos nos livros, não pode deixar de se impressionar
com o aspecto desordenado, com o fervilhar de todos os grãos que
constituem o protoplasma celular; os componentes celulares se fazem e
desfazem ininterruptamente, aparentemente ao acaso e, ao mesmo tempo,
de maneira organizada. Podemos fazer uma idéia dessa associação entre
o acaso e o organizado observando um formigueiro: quando o formigueiro
ataca uma presa, um pedaço de alimento, vemos as formigas correrem em
todos os sentidos, de maneira desordenada; uma agarra a presa, arrasta-a
numa direção e depois a solta; chega uma segunda formiga, aparentemente
por acaso, retoma a presa, arrasta-a em outra direção, depois também a
solta, e assim sucessivamente; tudo isso tem o aspecto de uma imensa
barafunda, mas, ao cabo de um certo tempo, percebemos que, através de
toda uma série de desvios e perambulações, a presa acaba chegando ao
interior do formigueiro. Isso, evidentemente, é apenas uma imagem; mas,
no que concerne à célula, sabemos agora que os componentes celulares
acham-se em estado de renovação permanente, e que é através des:;e fluxo
desordenado, alimentado pela agitação browniana das moléculas, que se
cria uma certa estabilidade relativa, uma persistência do conjunto organi-
zado da célula.
Z38 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

Por isso, a imagem física que servia de modelo de representação da


organização viva se alterou muito. No passado, e ainda recentemente,
quando se buscava no mundo físico uma imagem do organizado, pensa-
va-se sempre e de imediato no cristal, com sua ordenação muito regular
e muito estável; hoje, já não é no cristal que pensamos, mas no turbilhão
de líquido que se faz e se desfaz, e cuja forma permanece praticamente
estável, ao mesmo tempo contra e graças a perturbações aleatórias, im-
previsíveis, que mantêm esse turbilhão enquanto o destroem e que o
destroem enquanto o mantêm. É também na velha imagem da chama da
vela que continuamos a pensar.
Assim, a organização viva se afigura como um estado intermediário
entre a estabilidade, a persistência imutável do mineral e, de outro lado,
a fugacidade, a imprevisibilidade e a renovação da fumaça. De um lado,
o sólido, do outro, o gás; e no meio se encontra o plano fugaz do turbilhão
líquido.
Esses dois extremos constituem, na verdade, duas espécies de morte,
ambas as quais estão presentes e se opõem uma à outra para assegurar a
existência e o funcionamento do ser vivo. A morte por rigidez, a do cristal,
do mineral, e a morte por decomposição, a da fumaça. São elas, ao mesmo
tempo, que asseguram, uma, a estabilidade da vida, e a outra, a renovação
da vida.

Tendo em mente essa visão fluida e móvel, podemos voltar à questão de


uma ética da vida e da morte, tal como foi colocada no texto do Deutero-
nômio citado no início. Em particular, podemos reencontrar, se formos
sensíveis a essa maneira de ver, essa mesma visão contraditória num certo
número de comentários posteriores.
Um deles se acha numa história, uma Aggada, relatada no fólio 21
do tratado Sota do Talmude da Babilônia, que R. Na'hman de Bratzlav3
comentou no século passado. A história é a seguinte: um homem vai
andando à noite e tem medo dos buracos, dos espinhos, dos animais
selvagens e dos bandidos. Chega a uma encruzilhada; encontra o aluno-
sábio e pensa no dia de sua morte. - R. Na'hman de Bratzlav viu nesse
relato o homem que, a princípio, procura evitar as categorias mortíferas
da noite, de sua própria noite interior, é claro. Essas categorias são
extraídas do que é nele mineral, vegetal, animal e humano, e que o texto
exprime, respectivamenk, pelos buracos (o mineral), os espinhos (o
vegetal), os animais selvagens (o animal) e os bandidos (o humano); e elas
assumem a forma do que R. Na'hman chamou, respectivamente, á melan-
colia (os buracos), as pulsões dispersivas (o!> espinhos), a agitação desor-
denada e a perda de tempo (os animais selvagens), e o orgulho (os
bandidos).
A VIDA E A MORTE 239

Mas, ao chegar à encruzilhada dos caminhos, depois de ter evitado


essas armadilhas, resta a p«(rgunta: para onde ir? Para isso, o homem tem
que procurar descobrir o que R. Na'hman chama de origem de sua alma,
a única que lhe permitirá conhecer o caminho que lhe convém, levando
em conta o que ele é, ele mesmo, em sua originalidade. E, para atingir a
origem de sua alma, ele não pode evitar a presença do dia de sua morte.
É essa presença que R. Na'hman interpreta como o que se exprimirá na
fala do homem diante do aluno-sábio, no Vidui devarim, no ''derrama-
mento de palavras'' diante do aluno-sábio que só faz escutá-lo. Em outras
palavras, após as ciladas da noite em que ele tem que evitar ser morto, ele
descobrirá o caminho de sua vida, simplesmente, deixando sua fala escoar
diante do aluno-mestre. Não se diz, evidentemente, se ele deve fazê-lo
deitando-se num divã ou de outro modo; mas, seja como for, essa fala
implica, aqui também, uma presentificação do dia de sua morte.
Um outro comentário, talvez mais explícito, é o que foi fornecido
há cerca de três quartos de século pelo Rav Kook, pai .(infelizmente,
menos conhecido atualmente em Israel do que seu filho), a propósito de
uma expressão muito corrr~nte na literatura tradicional, a expressão 'hay
vekayam, "vivo e persistente" .4 Ele sublinhou que "vivo" e " persisten-
te" não devem ser comprendidos como dois sinônimos. Muito pelo
contrário, ''vivo'' e ' ' persistente'' designam categorias exatamente opos-
tas: "vivo" é a renovação, a mudança, e portanto, a não-persistência;
" persistente" é a ausência de renovação, a não-vida. É a aspiração
contraditória a ser simultaneamente vivo e persistente que atravessa essa
invocação tradicional, pela qual pretendemos, paradoxalmente, unir duas
categorias, a da mudança e a da estabilidade, porque é justamente em seu
paradoxo que ela constitui a própria trama da vida.
É tudo isso que podemos encontrar, como uma chave, no texto do
Deuteronômio pelo qual começamos, o do discurso de Moisés. Ali vamos
encontrar não apenas a aspiração à união entre a mudança e a estabilidade,
mas também a visão de uma outra garantia de união entre a lei moral e a
lei natural, que não seria nem Deus nem a razão humana. Essa garantia é
assinalada entre as duas formulações que analisamos há pouco. A primeira
jogou confusamente "a vida e o bem e a morte e o mal", enquanto a
segunda se afigurou mais "clássica": o bem, ou melhor, a bênção,
juntando-se à vida, e o mal, ou melhor, a maldição, juntando-se à morte.
Entre as duas, após a primeira formulação, ambígua, em que a vida e a
morte são imbricadas com o bem e o mal, sem que saibamos exatamente
como, o texto bíblico prossegue assim: o amor pelo inominável que te
serve de deus e a observância de sua lei te farão viver e multiplicar, e farão
cair a bênção sobre ti; ao contrário, teu afastamento e tua sujeição aos
deuses estrangeiros te conduzirão à perda e ao encurtamento de teus dias
(isto é, à não-persistência). Aí reencontramos os dois aspectos: vida
multiplicadora e alongamento dos dias ou persistência, 'hay vekayam.
240 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

E é somente então que a exposição misturada pode se transformar


na alternativa vida ou morte, bênção ou maldição, com a injunção final:
"sabe escolher uma vida que te faça viver, tu e tua semente", isto é, que
seja ao mesmo tempo a persistência de teu ser, de tua identidade individual
- tu-, e a renovação - por tua semente.
Para isso, ainda entre as duas formulações, invoca-se uma garantia,
ou melhor, um testemunho, o dos céus e da terra: "Tomei por testemunhas
acima de vós (em vós) os céus e a terra." Isso nos indica, talvez, que a
garantia da união moral-natureza aqui proposta não deve ser buscada nem
em Deus nem na razão humana, mas nos céus e na terra, isto é, na natureza,
que é ela mesma persistência e vida, cujas leis não se modificam -e onde,
no entanto, o novo é possível. É observando e aprendendo com tudo o que
existe, deixando-nos penetrar pelas correntes celestiais e telúricas, que
encontraríamos essa garantia, na própria continuidade e na renovação da
existência.
Convém perceber com clareza que essa atitude, evidentemente, é
diferente da atitude anterior, onde a razão humana criadora é que servia
de garantia. Na verdade, não se trata aí da razão sozinha, mas da percepção
mais geral possível da realidade, e até das realidades - os céus e a terra
- , de que a razão, obviamente, é apenas um elemento.
Mais uma vez, é somente depois desse ajustamento - no sentido
de ajustamento de um aparelho ótico que focaliza a atenção - que o texto
pode nos dizer: sabe o que está em jogo quando escolheres a vida; nãô é
apenas o distanciamento da morte por rigidez, a do bem sufocante, pois
isso te conduzirá ao mal desorganizador, à morte por excesso de vida, por
consumação imediata. Mas também não é o distanciamento dessa morte,
a do mal e de suas flores, pois isso te remeterá à primeira morte, a morte
por sufocamento esterilizante. O que escolherás é o distanciamento das
duas, o que implica, de certa maneira, também a busca, a aceitação e a
utilização de ambas: escolherás a vida - dupla morte - para que vivas
- dupla vida-, tu e tua semente.
Talvez um exemplo dessa união entre vida e morte, garantia única
de uma vida individual renovada e mantida, deva ser encontrado numa
instituição muito pouco ocidental, que podemos designar por uma expres-
são bárbara: um código sublimatório não-dessexualizado. Que quer dizer
isso?
A integração do sexual no código social é a condição dessa unidade
entre vida-renovação e persistência. De fato, o sexual é a vida, mas uma
vida que se mata por arder demais. (A sexualidade reprodutora das
bactérias é um espetacular exemplo disso, mas o mesmo se aplica também
à sexualidade não reprodutora: a bactéria que se divide desaparece em
suas duas bactérias filhas, de modo que a reprodução da vida bacteriana
é acompanhada pelo desaparecimento do indivíduo.)
A VIDA E A MORTE 241

O código social que limita essa vida e a refreia constitui, nesse


aspecto, o "bem" de que falamos, que mantém a estabilidade da orga-
nização viva e social ao preço de uma limitação do próprio funcionamen-
to do ser vivo. Mas é perfeitamente evidente que isso só pode funcionar
se essa limitação não ultrapassar seu objeto, levando pura e simplesmen-
te a matar - uma morte por rigidez, dessa vez (sem nenhum trocadilho
maldoso) - para evitar a rriorte por explosão, consumação e decompo-
sição.
Para isso, é preciso que o código social conserve um caráter vivo, e
portanto, sexual. É preciso que o próprio código social seja tal que leve à
realidade, talvez paradoxal, do código sublimatório não-dessexualizado.
Observamos tais códigos todas as vezes que o código social é conscien-
temente construído com base em modelos sexuais. Trata-se efetivamente
de uma sublimação, já que existem o código e relações sociais idealizadas
e espiritualizadas, mas essa sublimação não é dessexualizada, posto que
o próprio código é percebido segundo um modelo sexual.
É disso que se trata na maioria das chamadas organizações sociais
primitivas, isto é, não-ocidentais. No que concerne à sociedade hebraica,
isso talvez não apareça com muita clareza à leitura imediata do texto
bíblico. Ao contrário, mostra-se muito claro em sua leitura cabalista, onde
o simbolismo utilizado é muito amplamente sexual, como o expressa a
frase que retorna freqüentemente como fundamento desse simbolismo:
Mibessari a 'hazé Eloha, "é a partir de minha carne que observarei a
divindade''. Podemos contestar o caráter central ou periférico das leituras
cabalísticas, mas elas são as únicas a se preocupar em fornecer uma
significação aos preceitos e proibições do código bíblico e talmúdico.
É notável que um dos eixos fundadores do Ocidente (aquele de que
Michel Serres5 não quis falar, por dizê-lo conhecido demais, a saber, o
eixo cristão sustentado por Roma) tenha sido caracterizado pela reje_ição
do sexual e da lei, simultaneamente, para fora da legitimidade de sua
salvação. Talvez não constitua um acaso ter sido nesse contexto que os
únicos tipos de sublimação que puderam ser concebidos tenham sido,
justamente, as sublimações dessexualizadas.

Entregamo-nos a um vaivém entre textos antigos e reflexões novas, a


despeito dos contextos diferentes ou até opostos a que eles pertencem.
Isso pede pelo menos um comentário.
É como se, ao refletir sobre os últimos avanços do pensamento
ocidental, às vezes reencontrássemos uma velba sabedoria que teríamos
perdidQ e que hoje reformularíamos de maneira diferente. Em outras
palavràs, poder-se-ia supor que bastaria aprendermos com os grupos
sociais que se especializaram na conservação dessa sabedoria, a saber,
242 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

com os restos de vida primitiva e, em particular, c0'1l os judeus do mundo


das escolas tradicionais, as yechivot. Pois bem, nã0! Estaríamos cometen-
do aí um erro trágico, porque esterilizante, já que, na verdade, trata-se de
um fenômeno muito mais radical.
Essa antiga sabedoria, se é que existiu, realmente foi esquecida, até
mesmo pelos que supostamente são seus guardiães. Naturalmente, a
vivência dessa sabedoria foi preservada nos ritos, o que evidentemente é
muito importante, sob a forma de "montagens comportamentais" que
constituem a prática social e religiosa das sociedades ortodoxas. Mas seu
conteúdo conceituai, as idéias que podem exprimi-la e veiculá-la, foi
esquecido e deve ser descoberto. Não redescoberto, mas descoberto a
partir de textos e ritos que certamente existem, mas precisam ser lidos.
Nessa leitura, o pensamento ocidental oferece um instrumento in-
substituível. Sua grande vantagem é sua abertura, ou seja, sua capacidade
interminável de se questionar. Talvez seja na matemática, como sugeriu
Michel Serres, talvez em outro lugar, que é preciso buscar a origem dessa
linguagem interminável, que jamais conseguiremos encerrar.
Por isso é que temos necessidade do pensamento ocidental, mesmo
que o critiquemos, precisamente por podermos criticá-lo. E sempre foi
assim. A história dos discípulos do Gaon de Vilna, que chegaram à
Palestina no século XVIII para criar uma yechiva científica denominada
Bat Shéva, onde as "sete ciências" deveriam ser ensinadas, está aí para
atestar isso. Hoje em dia, apesar de todas as barreiras, o pensamento
ensinado na maioria das yeclzivot não é um pensamento original, puro em
sua autenticidade, como muitos gostariam de crer. É um pensamento
filosófico-religioso ocidental, característico do final do século XIX e
início do século XX: o comprimento das barbas, e até mesmo a fidelidade
à kashrut, ao shabbat ou aos t 'fillin, *não são uma garantia de acesso direto
a essa antiga sabedoria.
Uma certa forma de estudo permanente tradicional, fechada e ob-
sessiva, tampouco é tal garantia. Como dizia um de nossos velhos mesti"es,
•'Eles estudam o dia inteiro, não têm tempo de cotnpreender" .
O caminho necessário para descobrir essa sabedoria passa, mais
uma vez, pela prática das abordagens científicas, filosóficas e artísticas
desenvolvidas no Ocidente.

* A kashrut designa o conjunto dos alimentos que podem ser consumidos pelos
judeus praticantes; o shabbat é o dia de descanso religioso consagrado a Deus, e
os t'jillin ou filactérios são caixas ajustadas a tiras de couro e usadas na prece
matutina nos dias úteis, nelas ficando contidos versículos bíblicos do txodo e do
Deuteronômio. (NT)
A VIDA E A MORTE 243

Novamente, a história da yechiva de Bat Shéva, dos discípulos do


Gaoti de Vilna, está aí para dar um .testemunho disso, tragicamente aliás,
quando sabemos que foi sabotada pelos grupos obscurantistas da época.
É com a ajuda de instrumentos ocidentais que podemos descobrir
um conteúdo não-ocidental, um conteúdo que aliás seja assimilado, me-
tabolizado pelo próprio Ocidente, seja qual for seu futuro. Por isso é que,
através dessa orientação, participamos simultaneamente da mais avança-
da pesquisa no Ocidente e da pesquisa de nossa identidade no que ela tem
de particular.
NOTAS

INTRODUÇÃO:
O CRISTAL E A FUMAÇA (pp. 9-13)
l. Tratava-se do fuso acromático, formação que aparece nas células em todo
início de sua divisão por mitose, quando o núcleo desaparece e surgem os
cromossomos.
Seminário Internacional sobre a Biologia das Membranas, 1968, Insti-
tuto Weizmann, Rehovo te! Eilat, Israel.

Primeira Parte
DESORDEM E ORGANIZAÇÃO. A COMPLEXIDADE PELO Ru1oo

1. Os dogmas e as descobertas ocultas na nova biologia (pp. 17-26)


1. Inicialmente publicado em /yyun, a Hebrew Philosophical Quarterly (texto
hebraico resumido em inglês), v. 26, n2 4, 197 5, p. 207-17.
2. Paris, Seuil, 1970.
3. 1. Brücke, fisiologista alemão, 1864, citado por Yechalahou Leibowitz, "Sur
la vie, les mécanismes du vivant et leur apparition", Mahaclravot ·(IBM, Te!
Aviv), n2 35, jul. 1975, p. 14-8.
4. Como, por exemplo, a discussão entre Michel Revel, "Sur l'apparition de la
vie e ce qu •il y a ou n 'y a pas derriêre ses mecanismes" [Sobre o aparecimento
da vida e o que existe ou não existe por trás de seus mecanismos], Mahachavot
(IBM, Te! Aviv), n 2 33, 1972, p. 41 -59, e Yechalahou Leibowitz, ''Surla vie,
les mécanismes du vivant et leur apparition" [Sobre a vida, os mecanismos
do ser vivo e seu aparecimento], op. cit. Ver também as duas posições
clássicas, espiritualista-teísta e materialista-mecanicista, respectivamente de-
fendidas por P.-P. Grassé, L 'Évolution du vivant, Paris, Albin Michel, 1973,
e J. Tonnelat, Thermodynamique et biologie, vs. 1 e II, Paris, Maloine,
1977-1978.
5. François Jacob, La Logique du vivam, Paris, Gallimard, 1970.
6. Edgar Morin, Le Paradigme perdu: la nature humaine, Paris, Seuil, 1973; La
Métlwde, I, Seuil, 1977.
7. O. Costa de Beauregard, "Two Principlesofthe Science ofTime", New York
Academy of Science, 138, 2 de outubro de 1967, p. 407-2 1; Le Second
principe de la science du temps, Paris, Seuil, 1963.

245
ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

8. S. Papert, "Épistemologie de la Cybernétique", in Logique et Connaissance


Scientifique, 1. Piaget (org.), Paris, Gallimard, ''Encyclopédie de la Pléiade' ',
1967.
9 . A história da física· mostra, aliás, que noções que são hoje as mais evidentes,
como as de energia, força e velocidade, foram resultantes, na verdade, da
integração progressiva, em nosso modo de pensar, de conceitos a princípio
muito abstratos, dos quais a lógica do observador físico-matemático nunca
e_stava ausente. Um dos exemplos mais impressionantes disso é o do paradoxo
de Gibbs sobre a entropia da mistura (de dois gases, por exemplo), cuja
existência depende das capacidades de discernimento entre as moléculas
desses dois gases. Essas capacidades, por sua vez, são um fenômeno parcial-
mente contingente, ligado ao progresso técnico, tal como foi demonstrado
pela descoberta da radioatividade: a mistura de dois isótopos diferentes (um
estável, outro radioativo) só acarretou a produção de uma entropia de mistura
depois da descoberta da radioatividade, o que ilustra claramente o papel da
observação e da mensuração na definição da entropia. Isto é geral: como já
percebera Kant, os conceitos físicos não definem nem uma realidade física
intrínseca, em si, nem uma realidade puramente ideal, ligada à subjetividade
do sujeito pensante, mas uma realidade intennediária: a das categorias da
percepção e da mensuração, isto é, interações entre nosso pensamento e o
mundo que nos cerca.
Essa propriedade, muitas vezes esquecida na física clássica e reencon-
trada na física quãntica, é ainda mais evidente no que concerne aos conceitos
cibernéticos que se vêm impondo à biologia moderna.
10. A. Katzir-Katchalsky, "Biological Flow Structures and their Relation to
Chemico-diffusional Coupling", Neuro-Sciences Research Program Bulle-
tin, v. IX, n2 3, 1971, p. 397-413.
11. M. Eigen, "Self-Organization of Matter and the Evolution of Biological
Macromolecules'', Die Naturwissenschaften, 58, 1971, p. 465-523.
12. P. Glansdorff e I. Prigogine, Structure, stabilité et fluctuatio11s, Paris, Mas-
son, 1971.
13. F. Jacob, La Logique du vivant, op. cit.
14. J. Monod, Le Hasard et la nécessité, op. cit., p. 142.
15. A ambigüidade dessa utilização da noção de programa se evidenciou clara-
mente com o desenvolvimento das manipulações genéticas. Disse que os
microorganismos são "reprogramados" para fabricarem esta ou aquela pro-
teína animal ou humana cuja produção nos interessa particularmente. A ação
finalizada, imposta do exterior, aí aparece claramente, e é nisso que parece
tratar-se de uma programação. Na verdade, 'u tiliza-se uma máquina (a bacté-
ria) com seu próprio ''programa de origem interna'', graças ao qual os ADNs
são lidos e traduzidos em proteínas. O que é introduzido sob a forma de
fragmento de ADN de origem externa mais se assemelha a dados que são
preciso tratar do que a um verdadeiro programa de computador. O suporte físico
indispensável a essa operação (plasmídio, vírus etc.) permite a esses dados
serem apresentados de tal maneira que o programa interno possa agir sobre eles.
A rigor, estamos tocando, aqui, numa reviravolta decisiva na evolução
da biologia, que agora se une à física e à química como ciência de artifícios.
NOTAS 247

Faz muito tempo que, para essas duas c1encias, o objeto deixou de ser
diretamente fornecido pela natureza e se tornou um sistema artificialmente
constru ído, mais fácil de dominar - intelectual e tecnicamente- , desde o
plano inclinado sem atrito até os aceleradores de partículas. Com as manipu-
lações genéticas, um campo inteiro da biologia pôde desprezar um procedi-
mento voltado para a compreensão dos sistemas vivos naturais, concentran-
do-se num domín io - intelectual e técnico - de sistemas vivos artificiais.
É uma evolução normal num contexto em que, para as ciências, trata-se de
elas se tornarem cada vez mais operacionais, extirpando toda e qualquer
preocupação "metafísica": depois de haver investigado o "com~ " , em vez
do "porquê " , trata-se agora de nos restringirmos ao "que" . Fazer essa
substituição da atividade científica na obra do homo faber, mais do que
sapiens, evidentemente apresenta a considerável vantagem de preservar uma
aparente neutraiidade ideológica da ciência, impedindo sua utilização teórica
para fundamentar as mais evidentes ideologias totalitárias. Mas ela não tem
apenas vantagens, na medida em que permite sua utilização por uma ideologia
implícita do operacional un idiniensional, que aliás ela mesma contribui para
instituir, na maioria das vezes sem saber disso (ver p. 234).
16. A bioquímica já constitui uma ampliação dessa ordem em relação à química
mineral e orgânica.
17. M. Eigen, op. cit.
18. P. Glansdorff e 1. Prigogine, Structure, stabilité etfluctuations, op. cit.
19. A. Katzir- Katchalsky, op. cit.
20. H. Atlan, L 'Orga11isatio11 biologique et la Théorie de l 'information , Paris,
Hermann, 1972; "On a Formal Definition of Organization", Journal of
Theoretical Biology, 45 , 197 4, p. 295-304.
21. J. Piaget, "Les deux problemes principaux de l'épistemologie biologique" ,
in J. Piaget (org.), Logique et con11aissa11ce scientifique, op. cit.; Adaptation
vitale et psychologie de l'intelligence, Paris, Hermann, 1975.
22. J. Piaget, La Naissance de l'intelligence chez l'enfant, Paris, Delachaux et
Niestlé, 1968 [O nascimemo da inteligência na criança, Rio, Zahar, 2! ed.,
1975].
23. H. Atlan, " Auto-organisation et connaissance' ', in E. Morin e M. Piattelli-
Palmerini (orgs.), L 'Unité de l'Homme, Paris, Seuil, 1975. Ver p. 121 e p. 141.
24. Autores como C. Castoriadis, E. Morin, J. Piaget, J. Schlanger, M. Serres e
1. Stengers, para nos restringirmos aos autores de língua francesa, parecem-
nos participar desse moviniento.

2. Ordens e significações (p. 27-35)


1. Ver, por exemplo, G. Bateson, "Why do Things Get in a Muddle?", in Steps
to an Ecology of Mind, Ballantine Books, Nova York, 1972.
1. O equilíbrio é caracterizado por uma perfeita homogeneidade macroscópica,
de tal sorte que nenhum fluxo nítido de matéria ou de energia pode escoar de
uma parte do sistema para outra.
3. Sua interpretação clássica como uma desordem se afigura totalmente injusti-
ficada a J. Tonnelat, numa obra recente (Thermodynamique et biologie, 1 e

-------~

NOTAS 249

caráter espontâneo das cristalizações se explica, assim, pela diminuição de


energia livre devida às interações energéticas, que compensa a diniinuição da
entropia. Em outras palavras, é importante, a rigor, distinguir entre a homo-
geneidade espacial e a homogeneidade energética e, além disso, entre o
aumento da entropia e a evolução espontânea: a entropia, num sentido mais
geral, representa uma homogeneidade energética, e a evolução espontânea
mais geral é a de uma diminuição da energia livre. Esta, na maioria das vezes,
mas nem sempre, se deve a um aumento da entropia; esta última representa,
na maioria das vezes, mas nem sempre, uma homogeneização espacial. Seja
como for, um aumento da entropia, classicamente interpretado como um
aumento da desordem, é sempre uma homogeneização estatística.
9. Tendo como corolário a probabilidade de essas moléculas se encontrarem
num estado energético mais elevado.
10. Ver, em particular, C. Castoriadis, Les Carrefours du labyrinthe, Paris, Seuil,
.1978, p. 158, e as intervenções de G. Hirsch, "Langage et pensée mathéma-
tiques: ce que nous montre l'histoire des mathématiques" , p. 35-7 , e de J.-M.
Lévy-Leblond, "Us et abus de langage: mathématique, didactique, physi-
que ... ", p. 199-217, in Langage et pensée mathématique, atas .do colóquio
internacional, jun. 1976, Centre Universitaire de Luxembourg.
11. Ver H. Atlan, L 'Orga11isation biologique et la théorie de l 'information, op. cit.
12. D.A. Bell, " Physical Entropy and Information", Journal ofApplied Physics,
23, nQ 3, 1952, p. 372.
13. Ver p. 20.
14. J.U. Thoma, "Bond Graphs for Thermal Energy Transport and Entropy.
Flow",Journal ofthe Frankli11 lnstitute, 1971, 292, p. 109-20; lntroduction
to Bond Graphs and their Applications, Nova York, Pergamon, 1975.
15. Ver p. 90.
16. J.U. Thoma, Energy, Entropy and Jnformation, International Institute for
Applied Systenis Analysis, Luxemburgo, Áustria, Memorando de Pesquisa,
1977, R M 77-32.
17. Ver, entre outros, L. Brillouin, La Science et la Théorie de l'information,
Paris, 1959; J. Monod, Le Hasard et la nécessité, op. cit.; H. Atlan, L 'Orga-
nisation biologique ... , op. cit., p. 171 e nota da p. 185 .
18. H. Atlan, op. cit.
19. Aliamo-nos, por um caminho diferente, a uma proposição de J. Tonnelat
(Thermodynamique et biologie, op. cit.) segundo a qual a entropia física (que
este autor pretende definir, de maneira essencialista, como uma propriedade
da própria matéria) não deve ser comoreendida como uma medida da desor-
248 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

II, Maloine, 1977-1978). Ela nos parece provir de algumas concepções a


priori (não-formuladas) da ordem, ligadas a significações particulares implí-
citas, como tentaremos mostrar aqui (ver p. 30, n. 7, e p. 67, n. 25). Assim, ela
nos parece justificadá ou não, cónforme fiquemos ou não restritos ao contexto
dessas significações, determinado, por sua vez, pelas condições de observação.
4. Cada "estado" de uma molécula é simultaneamente caracterizado por sua
posição e sua velocidade. Por isso é que essa estatística concerne, em
particular, a vê-las se movimentarem em todas as direções possíveis, já que
a velocidade é uma grandeza orientada. .
5. Essa agitação, para a termodinâmica estatística, é efeito da temperatura.
Somente a temperatura do zero absoluto (-273 ' centígrados), nunca atingida
na realidade, corresponderia à imobilidade total das moléculas.
6. Ver p. 132.
7. Outra maneira, equivalente, de fazer uma imagem das coisas consiste em
definir os microestados do sistema a partir das posições e velocidades possí-
veis de cada uma das moléculas constitutivas do sistema. Cadá microestado
é definido por uma certa distribuição das moléculas pelas posições disponí-
veis e por suas velocidades possíveis. Tal distribuição constitui o que Planck
chamou de compleição do sistema. Assim, o estado de ordem ou desordem
(a entropia) é definido a partir do número de compleições possíveis num dado
sistema e das possibilidades de encontrá-lo em cada uma dessas compleições.
A desordem máxima corresponde ao maior número de compleições possíveis
com a mesma probabilidade para todas, ou seja, à maior homogeneidade
estatística.
8. Como indicamos anteriormente, e como recentemente lembrou J. Tonnelat
com especial insistência (Thermodynamique et biologie, op. cit.), a entropia
designa uma homogeneidade mais geral que a da distribuição das moléculas
no espaço, já que se trata de uma distribuição em níveis de energia. Na maioria
das vezes, como no exemplo considerado, as duas coisas vêm juntas. Ocasio-
nalmente, porém, isso não acontece, em particular quando lidamos com
"misturas" de corpos não-miscíveis (como água e azeite). Nesse caso, as
interações energéticas entre as moléculas (atração entre moléculas da mesma
espécie, repulsa entre moléculas de espécies diferentes) levam a que estados
espacialmente não-homogêneos sejam realizados por distribuições mais ho-
mogêneas em estados energéticos que, desse modo, correspondem, apesar de
tudo, a um aumento da entropia. Isso quer dizer que esses estados se afigura-
riam os mais homogêneos a um observador que "olhasse" para os níveis
energéticos, ao passo que se afigurariam heterogêneos - e até estruturados
- . a quem olhasse para as posições e para as formas geométricas. É assim
que podemos explicar o aparecimento espontâneo de estruturas de equilíbrio
como as realizadas pelos mecanismos de automontagem de organelas celula-
res e de vírus (cf. H . Atlan, L 'Organisation biologique et la Théorie de
l'information, Hermann, 1972, p. 219). Essas estruturas de equilíbrio fazem
lembrar,-evidentemente, as estruturas cristalinas, cujo aparecimento espontâ-
neo não contradiz - também não - o segundo princípio. Entretanto, diferem
destas por serem ocasionalmente acompanhadas por um aumento da entropia;
enquanto a cristalização é acompanhada pela diminuição dessa grandeza. O

250 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

2. O ruído é tomado, aqui, em seu sentido derivado do estudo das comunicações:


trata-se de todos os fenômenos aleatórios parasitas que perturbam a transmis-
são correta das mensagens, e que geralmente procuramos eliminar ao máxi-
mo. Como veremos, existem casos em que, a despeito de um paradoxo que é
apenas aparente, pode-se reconhecer nele um papel "benéfico" . .
3. Desde então, a termodinâmica do desequihbrio foi emiquecida pelo princípio
de "ordem pelas oscilações" , muito próxima da ordem pelo ruído, pelo
menos em suas implicações lógicas, ainda que o formalismo utilizado seja
muito diferente (ver p. 88).
4. A variedade é definida como o número de elementos diferentes de um
conjunto. A quantidade de informação está ligada a ela, já que ela considera
o logaritmo desse número e pondera cada elemento diferente, e, além disso,
por sua probabilidade de aparecimento num conjunto de conjuntos estatisti-
camente homogêneos ao que é considerado. A quantidade de informação
definida por Shannon é uma maneira, mais elaborada e mais rica de aplica-
ções, de exprimir a variedade de uma mensagem ou de um sistema, tal como
definido por Ashby.
5. Ver nota 4, p . 39 .
6 . Mais adiante, veremos que essa formu lação constituiu, de fato, uma verda-
deira inversão da noção de ordem, comparada à definição dela fornecida por
von Foerster (ver p. 71).
De uma produção de ordem repetitiva, nesse autor, passamos para uma
produção de ordem diversificada, de variedade, medida justamente pela
função H de Shannon.
7. Ver p . 68.
8. Foi a isso que Edgar Morin [22] chamou, de maneira provavelmente mais
correta (ver p. 159), "sistema hipercomplexo".
9 . Ver p . 64.
10. Ver supra , a lei da variedade indispensável de Ashby.
11 . Os mecanismos termodinâmicos da ordem por oscilações parecem enfatizar
o caráter interno do ru ído organizacional. Essa distinção não é real, pois essas
oscilações " internas" também são resultantes do efeito do ambiente (tempe-
ratura) em sistemas que só podem ser " abertos", e portanto, atravessados por
flu xos provenientes de fora (ver p. 88 e p. 139, n. 10).

4. A o rganização do ser v ivo e suas rep resentações (pp. 5 4-109)


NOTAS 251

metamorfose, organizando o real através da descoberta de sua organização,


onde o ''eu' ' , embora existente e atuante, é supostamente neutro e sem efeito:
objetividade científica. Aí, e provavelmente · por essa razão, essa atividade
funciona com base em paradigmas lógicos, onde a matemática sempre desem-
penhou um papel privilegiado, apesar de ambíguo.
Este texto retoma e amplia o conteúdo de diversos artigos e comunica-
ções: "Source and Transmission oflnformation in Biological Networks", in
I.R. Miller (org.), Stability a11d Origi11 of Biological/11formatio11 (Conferência
de A. Katzir-Katchalsky, 1973), Nova York, Wiley & Sons, 1975, p. 95-118 .
"Les modeles dynamiques en réseaux et les sources d'information en biolo-
gie", in A. Lichnerowicz, F. Perroux e G. Gadoffre (orgs.), Structure et
Dy11amique des Systemes (Seminários do Colégio de França, 1973), Paris,
Maloine-Douin, 1975, p. 95-131. Crises de Bruit, colóquio IRIS-ENST,
Universidade de Paris-Dauphine, 1976. "Sources oflnformation in Biologi-
cal Systems", in B. Dubuisson (org.), /11formatio11 a11d Systems (Proceed.
IFAC Workshop, Compiégne, 1977), Pergamon, 1978, p. 177-84. "L'Orga-
nisation du Vivant et ses Représentations'', in Atas do Congresso AFCET,
1977, Modélisatio11 et maitrise des systemes, Hommes et Techniques, 1977,
p. 118-50. "The Order from Noise Principie in Hierarchical Self-organiza-
tion' ' , Conferência Internacional sobre a Aplicação da Pesquisa de Sistemas,
1977, SUNY, Binghampton, reproduzido in M. Zeleny (org .),Autopoiesis: A .
111eory of Livi11g Orga11izatio11, North Holland (no prelo) .
2. Ver também nossa análise das teorias matemáticas e termodinâmicas do
envelhecimento: "Organisation du vivant et mathématiques", in La11gage et
Pe11sée Mathématique, Colóquio Intema.cional, Centro Universitário de Lu-
xemburgo, 1976, p. 366-89, e "Thermodynamics of Ageing in Drosophila
Melanogaster' ', Mechanisms ofAgei11g a11d Developmetlt, 5, 1976, p. 371-87.
3. F. Jacob, La Logique du vivallt, Paris, Gallimard, 1970; J. Schiller, La Notio11
d'orga11isatio11 da11s l'histoire de la biologie, Paris, Maloine-Doin, 1978.
4. P. Glansdorff e I. Prigogine, Structure, stabilité et fluctuatio11s, Paris, Mas-
son, 1971. Ver adiante, p. 104.
5. H. von Foerster, "On Self-organizing Systems and their Environments'', in
Self-orga11izi11g Systems, Yovitz e Cameron (orgs.), Nova York, Pergamon
Press, 1960, p. 31-50.
6. C .E. Shannon e N. Weaver, 111e M athematical 111eory of Commu11icatio11,
Urbana, University of Illinois Press, Ili., 1949 .
7. H. Atlan, " Applications of Information Theory to the Study of the Stimula-
ting Effects oflonizing Radiation, Thermal Energy and Other Environmental
Factors. Preliminary Ide as for a Theory of Organization", Joumal of Theo-
retical Biology, 1968, 21, p. 45-70.
8. Ver no capítulo anterior, " Do ruído como princípio de auto-organização", a
ambigüidade-autonomia e a ambigüidade destrutiva, e, para detalhes adicio-
nais, H. Atlan, L 'Orga11isatio11 biologique et la 111éorie de l'i11formatio11,
Paris, Hermann, 1972.
9. M. Bourgeois, comunicação pessoal.
· 1O. Nos sistemas humanos, essa dificuldade se reveste de uma forma particular,
bem como, além disso, a da passagem do sentido e das determinações do
252 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

indivíduo para o social: este surge como sendo, ao mesmo tempo, o resultado
da composição dos efeitos dos indivíduos e o contexto abrangente que os
condiciona. Alguns autores, como H. von Foerster e J.-P. Dupuy, tentaram
analisar condições de tal ordem em que os indivíduos componentes de uma
sociedade pudessem "se reconhecer" ou não no que essa sociedade lhes
devolve. Foi essa passagem que constit1,1iu, pelo menos em parte, o que C.
Castoriadis estudou sob a denominação de imaginário social, onde se articula,
entre outras coisas, a sublimação das pulsões, da qual uma psicanálise
demasiadamente purista (excessivamente fechada no indivíduo) não conse-
gue dar conta. (Ver adiante, p. 95; H. von Foerster (org.), Interpersonal
Relational Networks, CIDOC, cuardemo nQ 1.014, Cuemavaca; J.-P. Dupuy,
L'Économie de la morale, ou la morale de l'économie", Revue d'Économie
Politique, nQ 3, maio-jun. 1978; C. Castoriadis, L 'lnstitution imaginaire de
la société, Paris, Seuil, 1975, e Les Carrefours du labyrinthe, Paris, Seuil,
1978.)
11. G. Canguilhem, artigo sobre a "Vida", Encyclopaedia Universalis, v. 16,
Paris, 1975, p. 769.
12. R.J. Britten e E .H. Davidson, "Gene Regulation for Higher Cells: a TI1eory",
Science, 165, 1969, p. 349-57.
13. W . Nagl, "Nuclear Organization", A1111ual Review of Plant Physiology, 27,
1976, p. 39-69.
14. 8.L. Streehler, Time, Cells and Ageing, Academic Press, 1978 (2~ ed.).
15. M. Milgram, "Model ofthe Synaptogenesis: Stochastic Graph Grammars",
in R. Dubuisson (org.), Information and Systems, Proceedings of IFAC
Workshop, 1977, Pergamon, 1978, p. 171-6.
16. J. Paillard, "Systéme nerveux et fonction d'organisation", in J. Piaget, J .-P.
Bronckart e P. Mounoud (orgs.), La Psychologie, Paris, Gallimard, "Ency-
clopédie de la Pléiade' ', no prelo. E também G. Moroz, De la neurocybemé-
tique à la psyc/10logie: l'idée de sélection et le psychisme humain, tese de
doutorado em medicina, Université-Paris V, 1979.
17. Ver o capítulo "Consciência e desejos nos sistemas auto-organiZadores", p.
113.
18. N.K. Jerne, ''Towards a Network Theory of the Immune System'', A1111ales
d'/mmu11ologie (Instituto Pasteur), 1974, l 25C, p. 373-89.
19. N.M. Vaz e F.J. Varela, "Self and Nonscnse: an Organism-centered Ap-
proach to Immunology", Medical Hypothesis, 1978, v. 4, nQ 3, p. 231-67 .
20. H. von Foerster, 1960, op. cit.; H. Atlan, 1968, 1972, op. cit., e 1975,
"Organisation en Niveaux hiérarchiques et information dans les systêmes
vivants", Réjlexions surde Nouvelles Approches dans l'Étude des Sysremes,
colóquio ENSTA, Paris, p. 218-38.
21. Ver supra, p. 65.
22. H. Atlan, 1972, op. cit.
23. Ver H. Atlan, 1972, op. cit.
24. Ver H. Atlan, 1972, op. cit.
25. Num livro recente sobre "a entropia, a desordem e a complexidade" (Ther-
modynamique et biologie, Paris, Maloine-Doin, 1977), J . Tonnelat viu clara-
mente o caráter relativo e parcialmente arbitrário das noções de ordem e
NOTAS 253

desordem aplicadas à realidade física, e foi por isso que preferiu eliminá-las
da linguagem termodinâmica. Para ele, a entropia não mede a desordem, mas
a complexidade. Chegamos a um resultado vizinho desse, mas sem eliminar
a problemática da ordem e da desordem, e sim incluindo nela essa própria
relatividade devida ao papel do observador. Isso foi possibilitado pela dialé-
tica de Brillouin (que Tonnelat rejeita) entre a informação (que não possuí-
mos) e a neguentropia-ordem molecular (que não podemos observar direta-
mente). Além disso, naturalmente, essa consideração do papel fundador de
ordem que tem a observação nos permitiu distinguir a complicação (conhe-
cida e compreendida) da complexidade (imperfeitamente conhecida, embora
observaria e manipulada).
26. Ver p. 45.
27. Em sua introdução à teoria de Shannon, Weaver distinguiu três níveis na
formalização da informação transmitida. fv'ostrou claramente em que aspecto
a teoria de Shannon se limitava ao.nível A (transmissão fiel de sinais por uma
via), excluídos os níveis B e C, que implicam as operações de codificação e
decodificação no emissor e no destinatário, e que estão ligadas à significação
e à eficácia das mensagens, respectivamente. Entretanto, esses níveis B e C
estão sempre presentes. A teoria de Shannon pressupõe sua existência implí-
cita, mesmo que não se ocupe deles. Por isso é que Weaver não perdeu a
esperança de que, um dia, o desenvolvimento dessa teoria permita explicá-los
(W. Weaver e C.E. Shannon, 1949, op. cit.).
28. Quer se trate de um acaso "absoluto", quer de um acaso devido a nossa
ignorância das séries causais, não tem importância aqui. O acaso tem sido
definido de múltiplas maneiras. Vamos ater-nos à definição clássica de
Cournot, como "encontro de duas séries causais independentes". (Uma série
de causas e efeitos me faz passar, no instante t, para o lugar x . Uma outra série
de causas e efeitos, independente, faz uma telha cair de uma casa no mesmo
instante e no mesmo lugar.) É essa definição que nos faz considerar os efeitos
de perturbações "aleatórias", de origem interna ou externa, num sistema
organizado, como efeitos do acaso. Na verdade, essas perturbações são tidas
- e percebidas - como não tendo ligação coerente, previsível, como o
estado atual do sistema. São incluídas em séries causais independentes
daquelas pelas quais o sistema se afigura ordenado. Quando se trata de
sistemas complexos, imperfeitamente conhecidos em todos os seus detalhes,
isso implica que tal percepção do acaso pode perfeitamente ser um resultado
de nossa ignorância das restrições organizacionais do sistema em todos os
seus detalhes. Isso equivale a qualificar esse acaso de não-absoluto, relativo
ao estado de nosso conheciménto das séries causais. Segundo Laplace, o
conhecimento exato das posições e velocidades de todas as moléculas do
universo levaria a um determinismo absoluto, do qual estaria excluído qual-
quer acaso. Que seja. Mas tal conhecimento é impossível, e nada nos pode
ser conhecido fora das possibilidades de nosso conhecimento! Só podemos
falar em acaso ou determinismo através dessas possibilidades. A questão de
saber se se trata de um verdadeiro acaso ou de um acaso aparente nos parece,
portanto, sem importância, tal como a que concerne à possibilidade de um
novo realmente novo. Se tudo é determinado, nenhuma novidade é possível.
254 ENTRE O CR.ISTAL E A FUMAÇA

Estará a novidade de um acontecimento ligada a uma ignorância - irredutível


- dos determinismos? Também este, e pela mesma razão, parece-nos um
falso problema (ver a nota seguinte).
29. A novidade, evidentemente, também é avaliada em relação a nós, observado-
res, tal como o acaso. Será que se trata de uma novidade relativa a nossa
ignorância das séries causais? Esta pergunta nos parece, em última instância,
teológica: o que nela fica implícito é um conhecimento divino, a priori, de ·
tcxlas as séries causais (à maneira de Laplace ou Maimônides), que sabemos
que mais faz ocultar os problemas do que formulá-los.
30. W. Weaver e C.E. Shannon, 1949, op. cit.
31. Ver n. 28, p. 70.
32. Jean Piaget, Adaptation vitale et psychologie de l'intelligence, Paris, Her-
mann, 1974.
33. Jean-Pierre Dupuy, "Autonomie de l'homme et stabilité de la société",
Économie Apliquée, n 2 1, 1977.
34. C. Castoriadis, L '/nstitution imaginaire de lú société, op. cit.
35. C. Castoriadis, Les Carrefours du labyrinthe, op. cit., p. 210.
36. F. Varela, Principies of Biological Autonomy, Nova York, Elsevier-North
Holland, 1979; H. Maturana e F. Varela, "Autopoietic Systems: A Charac-
terization of the Living Organization", Biological Computer Lab. Report,
9.4, 1975, Universidade de Illinois, Urbana, Ili.
37. C. Castoriadis, Les Carrefours du labyrinthe, op. cit., p. 181.
38. Esta observação deve ser aproximada de uma conjectura de H. von Foerster
(lnterpersonal Relational Networks, CIDOC, Curdemo n 2 1.014, Cuemava-
ca, México), retomada por J.-P. Dupuy e J. Robert (La Trahison de l'opule11-
ce, PUF, 1976), sobre as conseqüências de uma representação dos indivíduos
por máquinas banais, isto é, máquinas de comportamento perfeitamente
previsível, de tal modo que a um estímulo x só possa corresponder uma
resposta y . O comportamento dos indivíduos pode, nesse caso, ser perfei-
tamente previsto por um observador externo. Entretanto, os indivíduos
não se reconhecem na imagem que recebem da sociedade. Ao contrário,
quando estes são máquinas não-triviais, sua parcela de indeterminação
lhes permite "adaptar-se" ao comportamento do conjunto e nele se
reconhecer, enquanto este se toma imprevisível para um observador ex-
terno.
Quando o sentido não passa e o indivíduo não se reconhece na imagem
dele mesmo que a sociedade lhe devolve, chegamos à conclusão de que a
complexidade da sociedade foi destruída. Um recurso consiste, então, em
trivializar os indivíduos, de tal maneira que a estrutura social possa se afigurar
controlável e previsível, pelo menos aos olhos de alguns que nela desempe-
nham o papel de observadores-atores mais ou menos externos.
39. G. Canguilhem, verbete "Vie'', Paris, Encyclopaedia Universalis , 1975 .
40. M. Serres, " Le point de vue de la biophysique" , in La Psychanalyse vue du
dehors, critique, 1976, p. 265-77, e Hermes I V. La Distribution, Paris, Minuit,
1978.
4 1. J. Lacan, Écrits, Paris, Seuil, 1966.
42. M. Foucault, Les mots et les choses, Paris, Gallimard, 1966.
NOTAS 255

43. C. Castoriadis, L 'Jnstitution imaginaire de. la société, op. cit., p. 371, e Lt:s
Carrefours du labyrinthe, op. cit., p. 29.
44. Ver p. 251, n. 10.
45. Les Carrefours du labyrinthe, op. cit., p. 60- l.
46. Ver p. 77.
47. Maimônides assim definia o conhecimento divino. O conhecimento que
qualquer sistema auto-organizador tem de si mesmo seria, portanto, por esse
ponto de vista, por definição, um conhecimento divino!
48. Lançados por quem, senão por mim, que os observaria como tais ao me
situar no exterior de mim mesmo? No plano da relação com o outro -
indivíduo ou grupo social - , isso equivale a integrar e vivenciar o
paradoxo, articulação do senso e do contra-senso, do qual falávamos há
pouco (p. 76), segundo o qual cada um - individual e socialmente - é
realmente o centro do mundo. Trata-se do reencontro, por novos desvios,
com um ego-sociocentrismo universal, paradoxo cuja necessidade de
anaiisar em profundidade foi compreendida por alguns pensadores (ver C.
Castoriadis, L 'Jnstitution imaginaire de la société, op. cit., p . 47; e
também A.I. Hacohen Kook, Orot, Jerusalém, Mossad Harav Kook, 3! ed.,
1963, p. 102-18; e Olat Reiya, v. 1, Jerusalém, Mossad Harav Kook, 3!
ed., 1969, p. 314-9).
49. G.A . Sacher, .. The Complementarity of Entropy Terms for the Temperature
Dependance of Development and Ageing" , Annals ofthe New York Academy
of Sciences, 138, 1967, p. 580-712; B. Rosenberg et ai., .. The Kinetics and
Thermodynamics of Death in Multicellular Organisms'', Mechanisms of
Ageing and Development, 2, 1973, p. 275-93; H. Atlan et ai., "Thermodyna-
mics of Ageing in Drosophila Melanogaster", Mechanisms of Ageing and
Development, 5, 1976, p. 371-87.
50. J. Dufour e G. Gilles, "Applications of some Concepts of the lnformatión
Theory to Structural Ana!ysis and Partition of Macroeconomic Large Scale
Systems", in J11formation and Systems, B. Dubuisson (org.) (Proceed. IFAC
Workshop, Compiegne, 1977), Pergamon, 1978, p. 19-28.
51. H. Atlan,"Modeles d' organisation cérébrale" , Revue d'EEG et de Neuro-
physiologie, 5, 2, 1975, p. 182-93; Modélisation et maítrise des systemes,
congresso AFCET 1977, op. cit.; e L'Élaboration et la Justlfication des
Modeles en Biologie, colóquio do CNRS, 1978 .
52. P. Mitchell, "Chemiosmotic Coupling in Oxydative and Photosensitive Phos-
phorylation", Biol. Rev. Cambridge PhiL Soe., 1966, 41, p. 445-502; "A
Chemiosmotic Molecular Mechanism for Proton-translocating Adenosine
Triphosphatases", FEBS Letters, 1974, 43, 189 149.
53. C.W. Orr, M. Yoshikawa-Fukuda e S.D. Ebert, Proc. NatL Acad. Sei. USA,
1972, 69, p. 243-7 . T.F. McDonald, H.G. Sachs, C.W. Orr e S.D. Ebert,
Develop. Biol., 1972, 28, p. 290-303. H.K. Kimbelberg e E. Maynew,J. Biol.
Chem., 1975, 250, p. 100-4. H.K. Kimbelberg e E. Maynew, Biochim. Bioplry.
Acta., 1976, 455, p. 865-75 . - S. Toyoshima, M. Ywata e T. Osawa, Nature,
264, 1976, p. 447-9. B.A. Horwitz e J.M. Horowitz,Amer. J. Physiol., 1973,
224, p. 352-5. M. Herzberg, H. Breitbart e H. Atlan, Eur. J. Biachem., 1974,
45, p. 161-70.
.256 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

54. As redes quimiodifusoras associam reações químicas entre si e com processos


de transporte em que a difusão das moléculas continua a desempenhar um
papel fundamental, associada ou não a outros mecanismos.
55. Ver os trabalhos precursores de A.M. Turing, "The Chemical Basis of
Morphogenesis", Phil. Transactions ofthe Royal Society, Londres, B 237,
1952, p. 37-72.
56. P. Glansdorff e 1. Prigogine, Structure, stabilité et fluctuations, Paris,
Masson, 1971; P. Glansdorff e 1. Prigogine, "Entropie, structure et dyna-
mique", in Sad.i Carnot et l'Essor de la thermodynamique, 1976, Paris,
CNRS, p. 299-325; 1. Prigogine, "Order through Fluctuations, Self-orga-
nization and Social Systems", in E. Jantsch e C.H. Waddington (orgs.),
Evolution and Consciousness, Reading, Mass., Addison Wesley, 1976, p .
93- 131.
57. Analisamos os espectros das oscilações pós-transformação de Fourier e assim
distinguimos, na maioria das vezes, três tipos de ruído: o ruído "branco",
onde as oscilações de todas as freqüências têm probabilidades iguais; o ruído
"em 1/f", onde sua probabilidade é inversamente proporcional ao quadrado
da freqüência, assim realizando uma distribuição de Gauss; e o ruído "em
. l/r ', onde a probabilidade é inversamente proporcional à freqüência.
58. H. Haken, Synergetics. An lntroduction, Berlim-Nova York, Springer-Ver-
lag, 2! ed., 1978.
59. Este, aliás, deu margem a um estudo notável de J. Meyer ("Essai d'applica-
tion de certains modeles cybemétiques à la coordination chez les insectes
sociaux", lnsectes sociaux, v. xm, n 2 2, 1966, p. 127-38), que mostrou a
necessidade de um certo ruído de fundo nessa organização,• 'a fim de realizar
a independência dos diferentes subsistemas", outro exemplo particularmente
evocador do ruído organizacional.
60. H. Haken, ibib.
61. B.C. Goodwin, Temporal Organization in Cells, Nova York, Academic Press,
1963.
62. G.F. Oster, A.S. Perelson e A. Katchalsky, "Network Themiodynamics,
Dynamic Modelling of Biophysical Systems' ', Quarterly Review of Biophy-
sics, 6, 1, 1973, p. 1-134.
63. G.F. Oster, A. Perelson e A. Katchalsky, "Network Thermodynamics",
Nature, 234, 1971, p. 393-9; e Quarterly Review o/ Biophysics, 1973, op. cit.
Sua obra foi lamentavelmente interrompida por um assassinato coletivo,
absurdo e aleatório (Lod, Israel, maio de 1972). Seus principais trabalhos
nesse campo só puderam ser publicados após sua morte.
64. J. U. Thoma, lntroductio11 to Bond Graphs and ti1eir Applications, Nova York,
pergamon, 1975.
65. H. Paynter, Analysis and Design of Engineering Systems, Cambridge, Mass.,
MIT Press, 1961.
66. D.O. Kamopp e R.C. Rosenberg, System Dynamics: a Unified Approach, East
Lansing, Mich., University of Michigan Press, 1971.
67. J.J. Van Dixhoom, "Simulation of Bond Graphs on Minicomputers", Jour-
nal of Dynamic Systems, Measurement and Contrai, 99, p. 9- 14.
68. R ~ oonstante dos gases perfeitos, T = temperatura, Ln= logaritmo neperiano.
NOTAS 257

69. G.F. Oster e O. Auslander, "Topological Representations ofTbermodynamic


Systems, II: Some Elementar Subunits for Irreversible Tbermodynamics",
Journal ofthe J. Franklin Institute, 1971, 292, 77.
70. J.M. Hotowitz e R.E. Plant, "eontrolled eellular Energy eonversion in
Brown Adipose Tissue T!iermogenesis", American Journal of Physiology,
235 (3), 1978, p. R191-R129.
71. Ver p. 86 e J.M. Horowitz e R.E. Plant, "Simulation of Coupling between
Chemical Reactions and Ion Transport in Brown Adipose Tissue Using
Network Tbermodynamics", Computer Programs in Biomedicine, 8, 1978,
p. 171-9.
72. H. Atlan, "Source and Transmission of Information in Biological Net-
works", op. cit.; M. Herzberg, H. Breibart e H. Atlan.', "Interactions between
Membrane Functions and Protein Synthesis in Reticulocytes'', European
Journal of Biochemistry, 1974, p. 161-70; H. Atlan, R. Panet, S. Sidoroff, J.
Salomon e G. Weisbuch, "Couling of Ionic Transport and Metabolic Reac-
tions in Rabbit Reticulocytes. Bond Graph Reprqsentation'', Journal ofthe
Franklin lnstitute, 34, 1979; R. Panet e H. Atlan; "eoupling between Potas-
sium Efflux, ATP Metabolism and Protein Synthesis in Reticulocytes",
Biochem. Biophys. Res. Com., 88, 1979, p. 619-26.
73. J. Schnakenberg, Thermodynamic Network Analysis of Biological Systems,
Berlim, Springer-Verlag, 1977.
74. O.e. Mikulecky, "A Simple Network Tbermodynamic Method for Series-
parallel eoupled Flows. II. The Non-linear Tbeory with Applications to
eoupled Solute and Volume Flow in a Seri~ Membrane'',Journal ofTheo-
retical Biology, 69, 1977, p. 51F41; O.C. Mikulecky e S.R. Thomas, "A
Simple Network Thermodynamic Method for Series-parallel eoupled Flows.
ill. Application to eoupled Solute and Volume Flows through Epithelial
Membranes'', Journal of Theoretical Biology; 1978, 73, p. 697-710; O.e.
Mikulecky e S.R. Thomas, ''A Network Thermodynamic Model of Salt and
Water Flow across the Kidney Proximal Tubule'', American Journal of
Physiology, 1978, 235 (6), p. F638-F648; O.e. Mikulecky, E.G. Huf e S. R.
Thomas, "A Network Themiodynamic Approach to eompartmental Analy-
sis' ', Biophysical Journal, 1979, v. 25, n2.1, p. 87-105.
75. Ver "Bond.Graphs in Biology", número especial de Computer Programs in
Biomedicine, 8, 1978, p. 145-79. .
76. J.U. Thoma e H. Atlan, 1977, "Network Thermodynamics with Entropy
Stripping'', Journal ofthe Franklin lnstitute, 303, 4, p. 319-28.
77. H. Atlan, 1973, "Source and Transmission of Infcirmation in Biological
Networks'', op. cit.; 1976, "Les modeles dynamiques en réseaux et les
sources d'infonnation en biologie", op. cit.
78. Ver H. Atlan, L'Organisation biologique, op. cit.
79. H. Atlan e A. Katzir-Katchalsky, "Telegen's Theorem for Bondgraphs. Its
Relevance to ehemical Networks", Currents in Modern Biology, 1973, 5, 2,
p. 55-65.
80. B.O.H. Tellegen, "A General Network Theorem with Applications", Philips
Research Report, 1952, p. 259-69. P. Penfield, R. Spence e S. Ouinker, Telle-
gen 's Theorem and Electrical Networks, Cambridge, Mass., MIT Press, 1970.
258 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

81. H. Atlan, 1973, 1975, op. cit.


82. H. Atlan e A. Katzir-Katchalsky, op. cit.
83. M. Milgram, ''Models of the Synaptogenesis: Stochastic Graph Grammars'',
in B. Dubuisson (org.) lnformation and Systems, (Proceed. IFAC Workshop,
Compiegne, 1977), Nova York, Pergamon, 1978, p. 171-6. ·
84. M.R. Gardner e W.R. Ashby, "Connectance of Large Dynamic (Cybemetic)
Systems: Criticai Values for Stability",Nature, 1970, 228,p. 784. R.M. May,
Stability and complexity in Model Ecosystems, Princeton University Press,
1973, Princeton. J.-P. Dupuy, "Autonomie de l'homme et stabilité de la
société", Économie Appliquée, 1977, n2 1.
85. Ver . 67.
86. F. Varela, Principies of Biological Autonomy, op. cit.

Segunda Parte
A ALMA, o TEMPo E o MUNDO

5. Consciência e desejos nos sistemas auto-organizadores (pp. 113-131)


1. Este texto foi publicado em várias partes nas atas do colóquio sobre L 'Unité
de l'homme, Royaumont, 1973, E. Morin e M .. Piattelli-Palmarini (org.),
Paris, Éditions du Seuil, 1975. É reproduzido aqui em sua composição
original.
2. As referências bibliográficas, indicadas entre colchetes, acham-se agrupadas
no final do capítulo.
3. Katchalsky e Curran assinalaram com muita razão que, nas leis que regem os
fenômenos reversíveis, o tempo só intervém por seu quadrado (por exemplo,
na equação da propagação das ondas), ao passo que intervém por sua primeira
potência na descrição dos fenômenos irreversíveis (por exemplo, na lei da
difusão do calor ou da matéria) . No primeiro caso, uma mud.a nça de (+t) para
(-t) não altera nada; no segundo, ela inverte adireção.do fenômeno [13].
4. O. Costa de Beauregard estabeleceu um paralelo muito interessante entre os
dois princípios da termodinâmica, de um lado, e a teoria da relatividade e da
irreversibilidade do tempo, de outro. Atendo-nos unicamente ao primeiro
princípio de equivalência daS diferentes formas de energia, não explicamos
a especificidade do calor, tal como ele aparece no segundo princípio do
aumento da entropia; da mesma forma, ao·nos atermos apenas à teoria da
relatividade (equivalência das dimensões espacial e temporal), não explica-
mos a especificidade do tempo constituída por sua irreversibilidade. A des-
crição do real implica que acrescentemos aos princípios de equivalência
(primeiro princípio, relatividade) princípios de especificidade (segundo prin-
cípio, irreversibilidade do tempo), que têm ainda em comum a propriedade
de orientar o real [5].
5. Ver os trabalhos de Prigogine, Morowitz [17], Glansdorff e Prigogine [11],
e de A. Katchalsky [12). Quando essa esperança se houver concretizado, o
tempo físico - que será muito diferente do tempo da fís ica de hoje e de ontem
- se aproximará do tempo biológico. Vimos que o tempo da física dos
fenômenos reversíveis está muito distante do tempo biológico, por ter perdido
NOTAS 259

sua direção. Já nos aproximamos disso com o estudo dos fenômenos irrever-
síveis, porquanto a orientação do tempo dos processos vitais de envelheci-
mento e morte - com as características novas e relativamente imprevisíveis
que eles comportam - é indicada pela lei de aumento da entropia. A última
etapa talvez seja transpa>ta quando a orientação dos processos de desenvolvi-
mento e evolução for indicada por uma ou mais leis de diminuição da entropia.
6. Um mestre judeu do fim do século XVID, o Gaon Rabbi Eliahou de Wilna,
analisou um tipo de relação entre o homem e o tempo que seria como a de um
casal, onde o homem seria o macho, o tempo, a fêmea, e o mundo, com a lci,
o lugar de seu encontro. Estabeleceu então correspondências entre três partes
da "alma" humana e os três aspectos do tempo, passado, presente e futuro,
que a princípio são surpreendentes, mas que, após uma reflexão, ilustram
perfeitamente nossas colocações. A alma sensível (rouah) experimenta e
inspira sensações e movimentos no presente. A alma inteligente (nechama)
aprende, extraindo ensinamentos do passado. Quanto ao futuro, ele é o que
. está oculto de nós e é vivido no inconsciente da ch3Illada alma viva (nefech),
a que anima mais de perto a matéria de nosso corpo (Likoutei Hagra in Sifra
ditseniouta, p. 78).
7. Essa, evidentemente, é uma questão tão imensa quanto a da origem e legiti-
midade do sentido e das significações. Aqui, só fizemos abordar um de seus
aspectos, enquanto outro foi abordado na "Significação da informação ... "
(p. 73) e outro, talvez, no '"Eu' do acaso" (p. 84).
8. H. Atlan, "Le príncipe d'ordre à partir du bruit. L'apprentissage non dirigé
et le rêve", in L'Unité de l'homme, op. cit., p. 469-75. ·
9. Exceto, é claro, quanto ao que faremos com esse poder. Como sempre, não é
no plano filosófico e teórico que os avanços científicos podem ser perigosos;
é no plano político.
10. Em Les mots et les choses [As palavras e as coisas], de M. Foucault, pelo
menos tão importante quanto o anúncio final do desaparecimento do homem
e do retomo da linguagem nos parece ser, no primeiro capítulo, a recordação
de uma época em que as palavras falavam a linguagem das coisas. Mesmo
que essa época tenha desaparecido para sempre, sua existência passada nem
por isso deixa de sugerir a possibilidade, no futuro, de novos reencontras das
palavras e das coisas, através, é claro, das formas e das linguagens·novas, que
veiculem os saberes de hoje e de amanhã:·
11. Dir-se-ia que tomamos Groddeék ou Freud pelei autor do Eclesiastes! Não Se
trata disso, mesmo que a leitura deles, evidentemente, não deixe de ter algo
a ver com essa interpretação. Esta nos foi sugerida por numerosos textos da
exegese tradicional judaica, onde a expressão hebraica zé (isso), aqui utiliza-
da, veicula um sentido que alude a uma estrutura de elementos que representa
a afetividade mais.ou menos consciente do indivíduo, excluído seu intelecto.
Da .mesma forma, a tradução "teme os deuses ... " provém de que o nome
. (Elohim) aqui utilizac;lo para designar a divindade ·"organizadora das forças
do mundo" (R. Haim de Volozhin, Nefesh Hahaim) é plural. Diversos nomes
hebrhicos, de significações muito diferentes, são .banal e uniformemente
traduzidos por Deus, .o Senhor, o Eterno etc. A função significativa de cada
um desses nomeS, bem como do plural de Elohim, só é ignorada nas leituras
260 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

catequizadoras e moralizadoras. Ao contrário, o ensino tradicional a conhece


perfeitamente, quer se trate da exegese bíblica judaica comumente aceita (por
exemplo, Rashi sobre o Gênesis, 20, 13), ou da tradição exegética da Cabala.
Esta, apesar de menos conhecida, nem por isso deixa de ser a única fonte de
significações sistematizadas dos mandamentos da lei que efetivamente rege
a organização e a prática de sociedades que vivem há mais de trinta séculos.
É um erro, portanto, que seu lugar no universo sócio-cultural judaico seja às
vezes contestado.

6. Sobre o tempo e a irreversibilidade (pp. 132-150)


1. Alguns excertos de uma versão inglesa deste texto, que constituiu uma
comunicação num seminário sobre "A Percepção Judaica do Tempo'', Ins-
tituto Van Leer, Jerusalém, 1975, foram publicados nas revistas Shefa, n 2 1,
Jerusalém, 1977, p. 40-54, e Centerpoint, City University of New York, n 2 3,
v. 2, 1977, p. 19-25. As referências bibliográficas acham-se reunidas no final
do capítulo.
2. S. Alkabetz, Lekha dodi (poema popular).
3. Essa idéia - geralmente aceita - foi questionada por K.R. Popper (1956,
1957, 1965) a partir da impossibilidade de inverter o sentido das ondas físicas,
na superfície de um líquido, por exemplo, da periferia para o centro: imagem
clássica da física tradicional, que não exige nenhum recurso direto ao conceito
de entropia. Popper foi apoiado em seu questionamento por E.L. Hill e A.
Grunbaum (1957), que destacaram um caso similar, ressaltado por Einstein,
concernente à impossibilidade de inverter as ondas eletromagnéticas da luz.
O debate entre Popper, Hill e Grunbaum mostra claramente que a
irreversibilidade proveio da impossibilidade de criar a coerência necessária
em todos os osciladores periféricos que permitiriam que as ondas coerentes
fossem empurradas da periferia para o centro. Popper ligou isso a uma teoria
das causas centrais, segundo a qual apenas as causas centralmente unidas
podem existir e funcionar. Da mesma maneira, podemos dizer que a irrever-
sibilidade clássica resulta das condições iniciais impostas pelo princípio de
causal.idade, como no caso dos potenciais mais atrasados do que adiantados
da teoria eletromagnética de Maxwell. Toda essa discussão, no entanto,
parece girar em círculos, pois (a) o princípio de causalidade só é válido num
mundo em que a seta do tempo já está orientada; (b) o conceito de coerência
improvável é visivelmente de natureza estatística, ·e está diretamente ligado
ao segundo princípio da termodinâmica.
Em outras palavras, a irreversibilidade dos fenômenos físicos macros-
cópicos ainda parece decorrer da reversibilidade microscópica por intermédio
do teorema H, como acontece na termodinâmica estatística - a despeito de
todas as questões levantadas quanto à validade desse teorema. As relações
entre a irreversibilidade macroscópica e os fenômenos estocásticos são ainda
mais evidentes na abordagem da termodinâmica estatística a partir da teoria
da informação (Jaynes, A. Katz).
Hill e Grunbaum admitiram que o conceito de entropia "possa se aplicar
a uma caracterização parcial das bases empíricas e psicológicas da seta do
NOTAS 261

tempo em nosso meio físico comum ... ·• Mas o que eles estavam buscando era
uma base para a irreversibilidade física como tal, "em sistemas abertos em
que os processos pudessem se produzir a partir do centro ad infinitum, e não
o inverso, já. que isso pressuporia um deus ex machina".
Embora mostrando que esse argumento de abertura deveria ser rejeitado
e substituído pelo da coerência e das causas centrais, Popper reconheceu que
era impossível propor uma caracterização geral de processos irreversíveis
clássicos não-entrópicos. Posteriormente, ele apoiou sua argumentação na
hipótese de que "a seta do tempo ou o escoamento do tempo não parecem ter
um caráter e.s tocástico • · : Isso parece estar em contradição com o recurso ao
conceito de •'probabilidade de coerência·· - de natureza nitidamente esto-
cástica - como fundamento da impossibilidade da reversibilidade das ondas.
A partir de algumas propriedades das partículas estranhas, tal como
reveladas por descobertas mais recentes, diversos autores exploraram a pos-
sibilidade de ligar a direção do tempo à irreversibilidade microscópica (Sachs,
1963). Mas isso ainda não deu resultado, e continuará futuramente a ocup·ar
os investigadores num campo de extrema complexidade.
Do mesmo modo, não é evidente que a tentativa de Glansdorff, Prigo-
gine e seu grupo (1973, 1976), no sentido de introduzir a irreversibilidade no
nível elementar da dinâmica das partículas, modifique fundamentalmente os
dados desse problema; sempre é possível argumentar, de fato, que ainda se
trata de uma projeção de nossa experiência do tempo macroscópico irrever-
sível por intermédio de um formalismo que o permita (Ullmo, 1976).
A questão da irreversibilidade do tempo físico em suas relações com a
teoria da informação foi discutida, de um ponto de vista muito próximo,
embora diferente do aqui apresentado, em recentes trabalhos de O. Costa de
Beauregard (1976, 1977). A associação ondas retardadas-crescimento da
entropia foi amplamente documentada ali. Em particular, foi analisada a
possibilidade de uma inversão do tempo, acompanhando a experiência das
vontades conscientes atuantes. Essa análise deu seguimento aos trabalhos
anteriores desse autor, que evocaremos longamente um pouco adiante, sobre
a dualidade dos princípios de conhecimento e de ação. Como veremos, no
final das contas, a inversão do tempo psicológico que acompanha a ação
voluntária é menos radical do que a que aparece quando dos mecanismos -
aos menos parcialmente inconscientes - de criação do novo nos sistemas
auto-organizadores.
4. Verp. 28.
5. · Ver (p. 67) nossa discussão sobre a relação entropia-desordem, que continua
operacionalmente válida considerando-se o papel - inevitável - do obser-
vador na definição da desordem. Mesmo que alguns fenômenos de estrutura-
ção possam ser acompanhados por um aumento da entropia, basta que haja
outros, com diminuição (local) da entropia, para que nossa argumentação,
nesse ponto, continue válida.
6. Ver nota 5, p. 135.
7. Ver p. 133.
8. Verp. 24.
262 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

9. Ver p. 70, n. 28.


10. Essas perturbações podem igualmente provir de oscilações termodinâmicas,
do ruído térmico no interior do sistema. Embora no interior, elas desempe-
nham o mesmo papel das perturbações de origem externa, pois, por seu caráter
aleatório, são externas à organização aparente. Além disso, só desempenham
um papel organizador - na "ordem através das oscilações" - em sistemas
abertos mantidos longe do equilíbrio por restrições impostas de fora (ver p.
88). Ver também o efeito similar de ruídos de origens interna e externa num
sistema aberto, em P. De Kepper e W. Horsthemke, "Étude d'une réaction
chimique périodique. Influence de la lumiere. Transitions induites par un
bruit externe", Comptes rendus de l'Académie des Sciences, Paris, 1978,
T2j;!7C, p. 251-3.
11. Ver p. 88.
12. Ver primeira parte, sobre o "acaso organizacional".
13. Ver p. 48.
14. Ver p. 72, figuras 2 e 3.
15. Ver "Máquinas de fabricar sentido", p. 121, e, a propósito do realmente
novo, p. 70, notas 28 e 29.
16. Podemos endossar a distinção de C. Castoriadis (L '/nstitution imaginaire de
la société, Seuil, 197 5), retomada por J .-P. Dupuy ("L 'Économie de la morale
ou la morale de l'économie", comunicação feita no colóquio da Casa de
Ciências Humanas sobre "Raisonnement économique et analyse sociologi-
que" [Raciocínio econômico e análise sociológica"), 1977, Revue d 'Écono-
mie Politique, n 2 3, 1978), entre a fabricação e a ação. A fabricação evidencia
uma finalidade na concepção, à maneira de "o fim de uma realização é
começo no pensamento". Ela aparece mais claramente nos computadores e
outros autômatos artificiais, muito diferente da ação dos homens e outros
"autômatos naturais".
''Quando construímos um computador, nós é que fixamos tanto o output
desejado quanto as condições de func ionamento: o universo do discurso do
computador, o fato de ele reagir a cartões perfurados ou a fitas magnéticas,
mas não chorar ao ouvir o Vase brisé, foram fixados por nós com vistas a um
resultado ou a um estado bem definido por atingir. Na causalidade da
produção de um computador por seres humanos, a finalidade do computador
(mais exatamente, sua representação) é a causa, e seu universo de discurso
(incorporado em sua construção) é a conseqüência; no funcionamento do
computador, a ordem é invertida, mas os dois momentos são muito distintos
e a situação lógica é clara. O mesmo não acontece com os autômatos naturais,
por uma multiplicidade de razões dentre as quais basta mencionar a principal:
nada podemos dizer sobre sua finalidade." (C. Castoriadis, Les Carrefours
du labyrinthe, Seuil, 1978, p. 182.) A ação, aqui, como criadora do novo,
colocaria em jogo uma lógica diferente da fabricação. Sugerimos que a lógica
da auto-organização e do acaso organizacional talvez seja uma primeira
aproximação dela. Desse ponto de vista, o princípio de ação de Costa de
Beauregard, principalmente ligado aos mecanismos conscientes das ações
voluntárias, seria um princípio de fabricação programada (em que o tempo
da realização continua a ser o da causalidade irreversível), e não um princípio
NOTAS 263

de ação criadora (onde o tempo poderia encontrar "localmente" sua reversi- ·


bilidade).
17. Likoutei Hagra in Sifra ditseniouta, p. 78; ver p. 119.
18·. Mês (lunar) se diz, em hebraico, hodech, de hadach (novo). Ao contrário; ano
(solar) se diz chana, de cl1inoui (mudança repetitiva), tal como o segundo
(cl1eni) é uma repetição do primeiro.
19. Ver uma exposição detalhada dessas noções no livro de A. Pacault e C. Vida!,
A chacun selon son temps. Ali encontramos formulada a questão do tempo
de cada sistema físico-químico, que se trata de definir a partir de sua lei de
evolução, simultaneamente em unidades que lhe são próprias e em relação a
um tempo físico comum, habitualmente tomado como quadro de referências.
20. "Da ma lemaala mimekha'', Pirkei Avot (Tratado dos Princípios), cap. II, 1.

7. Variabilidade das culturas e variabilidade genética (pp. 151-155)


1. Inicialmente publicado in Annales de Génétique, 1975, 18, n 2 3, p. 149-52
(editorial).
* As referências bibliográficas, indicadas entre colchetes, estão reuni-
das no final do capítulo.
2. A variabilidade é geralmente medida pela freqüência de heterozigotos de
determinado gene numa população. Lewontin utilizou aqui um valor próxi-
mo, embora diferente, fornecido pela função H (quantidade de informação)
de Shannon (ver referências [1] e [4] sobre as relações entre a variabilidade
e a informação) .
.3. Alguns trabalhos recentes - A.E. Mourant et ai. [8] - parecem indicar que
um mecanismo deste tipo teria funcionado na· constituição dos patrimônios
genéticos de comunidades judaicas dispersas e mantidas em estado de pseu-
do-isolamentos. Uma comunidade da Polônia, por exemplo, é geneticamente
mais distante de uma comunidade do Marrocos do que da população polonesa
circundante, e do que é a comunidade do Marrocos em relação à população
marroquina não-judaica. Entretanto, as duas comunidades judaicas têm em
comum alguns marcadores genéticos, presentes com freqüência maior do que
nas populações circundantes. Isso se deveria, simultaneamente, a uma antiga
origem comum e às condições históricas - e portanto, sócio-culturais - de
sua manutenção em estado de pseudo-isolamentos.

Terceira Parte
PARENTES E SEMELHANTES

8. Hipercomplexidade e ciência do homem (pp. 159-183)


1. Inicialmente publicado em Critique, ago.-set. 1974, n25 327-28, p. 829-55, a
propósito de Edgar Morin, Le Paradigme perdu: la nature humaine, Paris,
Seuil, 1973. Os números de páginas entre parênteses remetem a essa publi-
cação.
2. Ver supra, primeira parte.
3. Primeiro volume já publicado pela editora Seuil, 1977.
264 ENTRE O CRISTAL E A FUMAÇA

4. Num contexto totalmente diferente, um livro como De la souillure, de Mary


Douglas (trad. francesa de Anne Guerrin, Paris, Maspero, 1971) e, no univer-
so romanesco, Vendredi, de Michel Tournier (Gallimard, 1977), desempe-
nham, a meu ver, um papel similar; neles, a organização - a função de
organizar - parece desempenhar um papel orgânico, por ser estruturadora
de sociedades e psiquismos que, por outro lado, têm a aparência de ser
produtores de organização em seu meio ambiente.
5. F. Gros, aula inaugural, cadeira de Bioquímica Celular, Colégio de França,
janeiro de 1973.
6. Ver "Reflexions on Art and Science", de A. Katzir-Katchalsky, in Leonardo,
v. 5, p. 249-53, Nova York, Pergamon, 1972.
7. H. Atlan, in L 'Unité de l'homme, Paris, Seuil, 1974, e p.121.
8. J.E. Schlanger, "Sur le probleme épistémologique du nouveau'', Revue de
Métaphysique et de Morale, n 2 1, 1974, p. 27-49.
9. Ver supra, primeira parte.
10. H. Atlan, in L 'Unité de l'homme, op. cit., e p. 122.
11. H. Atlan, in L 'Unité de l'homme, op. cit., e p. 124.
12. Ver a esse respeito a excelente obra de Judith E. Schlanger, Les Métaphores
de l'organisme, Paris, Vrin, 1971, e seu artigo "Sur le probleme épistémolo-
gique du nouveau", op. cit.
13. Ver H. Atlan, "Consciência e desejos nos sistemas auto-organizadores", in
L 'Unité de l'homme, op. cit., e p. 79-84 e p. 113.
14. Ver, em especial, J.E. Schlanger, "Sur le probleme épistémologique du
nouveau'', op. cit.

9. A teoria das catástrofes (pp. 184-193)


1. W.A. Benjamin, Inc., Reading, Massachusetts, 1972.
2. Desde Kuhn, Foucault, Morin e outros, sabemos que o espírito da época
também condiciona o pensamento científico. Numa dada época, esse espírito,
que Kuhn denomina de seu paradigma, dita os critérios não-ditos, mas
absolutos, da cientificidade. Depois, sob o efeito daquilo a que Foucault
chamou - na falta de uma compreensão de seus mecanismos - mutações
do saber, um novo paradigma vem legitimar novas abordagens. Novas ques-
tões entram no âmbito da interrogação científica, enquanto antigas questões
são esquecidas como "irrelevantes". Um episódio da história das ciências
desses últimos trinta anos apresentou, em seus primórdios, mais do que uma
semelhança com o fenômeno René Thom-teoria das catástrofes. Refiro-me
ao destino da teoria da informação de Shannon (1949). Também nesse caso,
uma teoria matemática complicada, expressa numa linguagem muito técnica,
que apenas os especialistas conseguiam dominar, e designada por um nome
provocante, informação, atraiu imediatamente o interesse entusiástico de
pesquisadores de todas as disciplinas. Em seu trabalho, eles deparavam com
questões cruciais que giravam em tomo da noção - para eles, vaga, mas
determinante - de informação. Sem sequer compreendê-la em profundidade,
eles pressentiram que a teoria de Shannon deveria trazer respostas para essas
perguntas, ajudando-os a esclarecer e a dominar essa noção. Pois bem, a
NarAs 265

história das aplicações dessa teoria em diversos campos do saber (ver, entre
outros, H. Atlan, L'Organisation biologique et la Théorie de l'information,
op. cit.) é a de uma sucessão de mal-entendidos, de entusiasmos seguidos de
decepções, mas também de repercussões de grande riqueza, embora muito
diferentes daquilo que fora previsto; e, finalmente, de uma brilhante contri-
buição para o novo paradigma (seja qual for, por outro lado, a maneira de
apreciar esse novo espírito da época, o do sinal e da simulação). Em outras
palavras, o entusiasmo a priori de defensores inicialmente mal informados
revelou-se, a posteriori, justificado, ainda que não pelas razões que eles
haviam imaginado-. Não é impossível que um destino análogo esteja reservado
à teoria das catástrofes.
3. D' Arcy Thompson, On Growth and Forms, Cambridge University Press,
1917, enésima edição, 1972.
4. R. Thom, "Stabilité structurelle et catastrophes", in A. Lichnerowicz, F.
Perroux e G. Gadoffre (orgs.) Structure et Dynamique des Systemes, seminá-
rios interdisciplinares do Colégio de França, Paris, Maloine, 1976, p. 51-88.
5. A. Lautman, Essai sur l'unité des mathématiques et divers écrits, Paris, UGE,
col. "10/18", 1977.
6. A. Lautman, op. cit., p. 39.
7. A. Lautman, op. cit., p. 40.
8. Ver os exemplos apresentados e discutidos por A. Lautman, op. cit., p. 122-6.

10. A gnose de Princeton (pp. 194-196)


1. A propósito de R. Ruyer, La Gnose de Princeton, Fayard, Paris, 1975. Já
publicado em Le Gai Savoir, n 2 2, 1975.
2. Autor de diversas obras, dentre elas um livro que encontrou seu lugar no
universo intelectual do ''movimento'': Paradoxes de la conscience et limites.
de l'automatisme, Paris, Albin Michel, 1966.
3. Ver, por exemplo, supra, "Consciência e desejos nos sistemas auto-organi-
zadores", p. 113,

Quarta Parte
SOBRE FÉS, LEIS, ARBtnuos E PERTENÇAS

11. Israel em questão (p. 199-218)


1. Inicialmente publicado em Les Nouveaux Cahiers, n 2 40, 1975, p. 3-15. Desde
então, duas modificações essenciais ocorreram no contexto político: o início
do processo de paz, é claro, e, no plano interno, o reforço da ideologia
religiosa nacionalista. Esta, em parte reagindo à crise do sionismo socialista
e normalizador descrito um pouco mais adiante, já fora denunciada neste
artigo, embora estivesse apenas começando a ganhar corpo, e levou agora aos
excessos do Bloco dá Fé. A hipótese explicativa aqui apresentada sobre a
perenidade de um povo, através de milênios de uma história de desequilíbrios
e crises superadas, nos foi sugerida pelos modelos dos sistemas abertos
oscilantes e estáveis, ou pelos da organização através da desorganização
· resgatada e da_reorganização, analisados na primeira parte deste livro. Trata-
266 ENTRE O CRJSTAL E A FUMAÇA

se, na verdade, de uma sociedade simultaneamente estilhaçada, dispersa e


unificada no espaço e no tempo, numa experiência exemplar de renovação
permanente e de estabilidades renovadas. Por isso, não é impossível imaginar
que, num movimento inverso, alguns desses modelos nos tenham sido suge-
ridos pelo impacto da experiência histórica em nossa percepção da realidade .
física e biológica!
2. Ver Maharal, Gvurot Rachem, cap. 3, Midrash, sobre Deuteronômio, IV, 34.
3. J .-P. Sartre, Réflexions sur la question juive, Paris, Gallimard, 1954.
4. J.-P. Faye, Migrations du récit sur le peuple juif, Paris, Belfond, 1974.
5. Ver, por exemplo, Pierre Smith, "La nature des mythes", in L'Unité de
l'homme, Paris, Seuil, 1974, p. 714-30.
6. Le Nouvel Observateur, out. 1973.
7. Novembro de 1978: A simetria foi rompida pela chegada de Seguin ao poder
e por sua iniciativa de negociações de paz com Sadat, que, sob a orientação
de J. Carter, fez surgir um outro aspecto do religioso, muito diferente e
interessantíssimo (Le Nouvel Observateur, n2 667, ago. 1977).
8. Nouveaux Cahiers, n 2 39, 1974-1975.
9. J.-P. Faye, Migrations du récit sur le peuple juif, op. cit.
10. Levítico, X.XVI, 12; ~xodo, VI, 7.
11. ~xodo, XII, 38, e Rachi sobre exodo, XX.XII, 7.
12. lbid.
13. exodo, XIX, 6.
14. exodo, Xill, 8; Deuteronômio, VI, 20.
15. exodo, VI, 6; VI, 7; XX, 2; Levítico, X.XVI, 13.
16. exodo, XXII, 20; XX:ill, 9; Levítico, XIX, 34; Deuteronômio, X, 19.
17. Deuteronômio, V, 15; XV, 15.
18. "[ ...] segredo da existência de Israel, [ ...] avanço obscuro [ ...] em que os
caminhos da perambulação são os degraus de uma ascensão[ ... ], o obscure-
cimento, uma propriedade da inspiração[ ...] Enquanto (ao alcançar algum
conhecimento) pensamos executar algum programa, nosso pensamento e
nosso espírito em movimento logo nos advertem de que só fai:emos
desejar um ideal de conhecimento ... (é esse desejo, chékika) que, em si,
constitui a característica do conhecimento do Ser e de seu serviço, onde ·
situamos a base de nossa visão do mundo[ ...], incomensurável com seja
que conhecimento for, intelectual ou moral·[ ...], avanços mecânicos que,
no final das contas, apoderam-se de encaminhamentos estrangeiros ... "
(Abraham Itzhak Hacohen Kook, "La connaissance désirante .. , fu Orot
Hakodech, v. II, 5 2 discurso, cap. 28, p. 557-8, Jerusalém, Mossad Harav
Kook, 2! ed., 1964).
19. exodo, XXill, 19; XXXIV, 26; Deuteronômio, XIX, 21.
20. Deuteronômio, XXII, 6.
21. Levítico, xvm, 3.
22. Talmud Babli Sanhédrin, 106 (a), e Midrash Raba, Noah, cap. 38.
23. Ver Números, XIV.
24. Rachi sobre exodo, XXI, 1.
25. exodo, XXI, 1a6 e XXI, 31; Levítico, XXV, 42 e 44.
26. Deuteronômio, XXI, 10 XXill, 16.
p
NOTAS 267

27. Les Juifs et Israel . Vus par les Théologiens Arabes, relatório da quarta
conferência da Academia de Pesquisas Islâmicas, 1968, Genebra, Éditions de
l'Avenir, 1972.
28. A valentia ou o heroísmo (gvoura) judeu, aquele que, nas bênçãos matinais,
diz-se que "cerca Israel", é, segundo o Rabino Kook, não a valentia que
conquista e domina os .outros, mas a da conquista de si mesmo e da vida
espiritual (A.I. Hacohen Kook, Olat Reiya, v. I, Jerusalém, Mossad Harav
Kook, 3! ed., 1969, p. 75).
Uma autora israelense contemporânea, Rachel Rosensweig, projetou
essas idéias na análise da situação atual, desenvolvendo temas tradicionais
como: "Quem é o herói? É aquele que faz do inimigo um amigo" (Avot de
Rabbi Nathan, p. 75 da edição Cherter), ou ainda: "Se dominaste teu mau
instinto a ponto de fazeres de teu inimigo teu amigo, prometo-te que, quanto
a mim, farei de teu inimigo teu amigo" (Mehilta do Rabbi Shimon Bar Yohai,
p. 215).
Seu estudo, que impressiona por sua profundidade e erudição, foi
recentemente publicado em Chdemot, revista de um. movimento kibbútzico.
Ela salienta os perigos mortais contidos no heroísmo à maneira de Bar
Kochba, que se impôs até o momento nos modelos israelenses, em lugar do
heroísmo da mente e do autodomínio em que o povo judeu sempre foi buscar
sua verdadeira força.
O título desse artigo, visando a mobilizar Israel para uma verdadeira
"conquista" da· amizade árabe, é "Mission du sionisme aujourd'hui: con-
quérir des associés" [Missão do sionismo hoje: conquistar associados].

12. A propósito de "psicanalistas judeus'' (pp. 219-227)


1. Inicialmente publicado em Critique, n 2 XX, 1977, p. 245-55, a propósito de
Wladimir Granoff, Filiations. L 'Avenir du complexe d'Oedipe, Paris, Minuit,
1975, 551 pp., e Marthe Robert, D'Oedipe d Moise: Freud et la conscience
juive, Paris, Calmann-Lévy, 1974, 278 pp.
2. Estamos longe, o que é uma pena, das interrogações sobre o estatuto episte-
mológico da interpretação, que um outro analista, Serge Viderman, mostrou
que podem ser, no campo da psicanálise, tão rigorosas quanto em outras áreas
(La Construction de /'espace analytique, Denoel, 1970).
3. Que acharia disso PhyllisChester(Les Femmeset la Folie, Paris, Payot, 1975,
capítulo sobre os "terapeutas sedutores")? Mas nesse caso, naturalmente,
trata-se de práticas dos "anglo-saxões", cujo contexto não pode ser compa-
rado ao dos divãs tipicamente franceses!
4. Mesmo que Freud tenha conhecido o hebraico, o que é bem pouco provável,
esta só poderia ser, para .ele, uma língua do catecismo infantil, e não uma
língua de cultura. Isso justifica, de qualquer modo, sua declaração explícita
de ignorância dessa língua num contexto "adulto". Como Marthe Robert,
. depois de Kafka, compreendeu perfeitamente, sua percepção do mundo
judaico era apenas familiar, excluindo uma participação vivenciada no pen-
samento judaico, cujo lugar foi inteiramente ocupado por sua cultura greco-
alemã.
268 ENTRE o CRJSTAL E A FUMAÇA

5. Poderíamos encontrar uma formulação exata e figurada disso, entre outras,


nas páginas 59 e seguintes do tratado Hulin do Talmude da Babilônia, lidas
numa interpretação cabalista sugerida, em especial, pelo comentário de Re-
canati. Trata-se dos sinais de reconhecimento das espécies animais autoriza-
das para a alimentação, por veicularem um simbolismo da "vida" e, desse
modo, convirem ao povo que a aliança também destina a essa .. vida".
Descobrimos a identidade de Israel através das características do animal
permitido, em oposição aos de aproximações falhas, que são o camelo-Ismael
e o porco-Esaú. Segundo essa leitura, o animal portador de "vida" - por
exprimir o simbolismo de uma verdade em que se unem o finito e o infinito,
o delimitado e o amorfo, o diferente e o confuso - é definido por dois traços:
os pés (fendidos-cortados), por onde se expressa a prática da conduta, traçam
o caminho ao delimitá-lo, diferenciá-lo e separá-lo de outros caminhos; ao
contrário, a cabeça - por sua ausência de dentes cortantes na mandíbula
superior - exprimiria o lugar das efusões irrestritas e do grande fluxo
unificador; culminando, eventualmente, no ui.cesto (hesed), lugar, portanto,
de todas as · "loucuras" possíveis ... que; aliás, só são percebidas como
loucuras ao extravasarem para o campo dos pés. A verdade unificadora da
cabeça e das pernas - do teórico e do prático, do pensado e do vivido -
aparece a meio caminho, no coração e no sexo, "fundamento do mundo". É
dessa verdade, aliás multiforme - na medida em que existem espécies
permitidas - , que a família portadora de suas revelações supostamente se
alimenta.
Assim, vemos que a máxima granoffiana - todas as loucuras nos pés
e ·n o sexo, nenhum desvio na cabeça - é exatamente o inverso disso.
Naturalmente, poderiam objetar que, nesse caso, trata-se de animais a serem
consumidos ... e não dos(as) pacientes de que se trata aqui. Mas, será que
realmente não se trata, aqui também, de consumo? E será que o consumo não
aponta para a identidade do consumidor?
6. Em hebraico, o mestre que ensina (rav) e o senhor do escravo (adon, baal)
são palavras muito diferentes. Somente o segundo evoca a autoridade e a
propriedade, enquanto o primeiro evoca a abundância ("muito").
7 . Ver nota 4, p . 224.

13. Avida e a morte: biologia ou ética (pp. 228-243)


1. Comunicação ao XVII Colóquio de Intelectuais Judeus de Língua Francesa,
Paris, 1976, publicada em Le Modele de l'Occident, Paris, PUF, 1977, p .
33-46.
2. Cf. supra, capítulo intitulado "A Gnose de Princeton", p. 194.
3. Rabbi Na'hman, Li/coutei Mahara11 , 4.
4. Rabbi Abraham ltzhak Hacohen Kook, Olat Reiya, v. I, Jerusalém, Mossad
Harav Kook, 3! ed., 1969, p. 2.
5. M. Serres, ln Le Modele de l'Occident, op. cit., p. 9-16.