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Fichamento do texto de Butler, Judith.

“’Mulheres’ como sujeito do feminismo”, in:


Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Trad. Renato Aguiar. – 5ª Ed. –
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.

“a teoria feminista tem presumido que existe uma identidade definida, compreendida pela
categoria mulheres, que não só deflagra os interesses e objetivos feministas no interior de seu
próprio discurso, mas constitui o sujeito mesmo em nome de quem a representação política é
almejada.” (p. 17-18)

Segundo Butler, a representação ocupa dois lugares, a saber: 1) “serve como termo
operacional no seio de um processo político que busca estender visibilidade e legitimidade às
mulheres como sujeitos políticos” e 2) “é a função normativa de uma linguagem que revelaria
ou distorceria o que é tido como verdadeiro sobre a categoria mulheres”. (p. 18)

Butler reconhece a importância da formulação de uma linguagem que dá visibilidade à


representação política das mulheres, uma vez que a vida das mulheres historicamente é mal
ou não representada. (p. 18)

Entretanto, a estabilidade da categoria mulheres passou a ser questionada do interior do


discurso feminista: “O próprio sujeito das mulheres não é mais compreendido em termos
estáveis ou permanentes. (...) é muito pequena, afinal, a concordância quanto ao que
constitui, ou deveria constituir, a categoria das mulheres.” (p. 18)

Citando Foucault (A História da sexualidade, volume 1), Butler afirma que: “os sistemas
jurídicos de poder produzem os sujeitos que subsequentemente passam a representar.” (p.
18)

Os sujeitos estariam não apenas condicionados às noções jurídicas de poder, mas também
seriam por elas regulados e “formados, definidos e reproduzidos de acordo com as exigências
delas.” (p. 18)

Aplicando a tese de Foucault à teoria feminista, então, “a formação jurídica da linguagem e da


política que representa as mulheres como ‘o sujeito’ do feminismo é em si mesma uma
formação discursiva e efeito de uma dada versão da política representacional. E assim, o
sujeito feminista se revela discursivamente constituído”. (p. 18-19)
Para a autora, “a construção política do sujeito procede vinculada a certos objetivos de
legitimação e de exclusão.” (p. 19)

Sendo o poder jurídico não apenas representacional, mas produtivo do sujeito, “a política
tem de se preocupar com essa função dual do poder: jurídica e produtiva.” (p. 19)

“A crítica feminista também deve compreender como a categoria ‘mulheres’, o sujeito do


feminismo, é produzida e reprimida pelas mesmas estruturas de poder por intermédio das
quais busca-se a emancipação.” (p. 19)

Com as críticas interseccionais, tem-se que o termo “mulheres” não denota uma identidade
comum: “o gênero nem sempre se constituiu de maneira coerente ou consistente nos
diferentes contextos históricos, e porque o gênero estabelece intersecções com modalidades
raciais, classistas, sexuais e regionais de identidades discursivamente constituídas. Resulta
que se tornou impossível separar a noção de ‘gênero’ das interseções políticas e culturais em
que invariavelmente ela é produzida e mantida.” (p. 20)

Crítica ao “patriarcado universal” e ao feminismo como colonização ao apropriar-se de culturas


não-ocidentais para exemplificar tipos de opressão marcadamente ocidentais (p.20-21)

Butler questiona se há uma especificidade da categoria mulheres ou do feminino que conecta


essa parte da população: é somente sua opressão que as liga ou existiriam traços comuns às
mulheres? (p. 21)

“A noção binária de masculino/feminino constitui não só a estrutura exclusiva em que essa


especificidade pode ser reconhecida, mas de todo modo a ‘especificidade’ do feminino é
mais uma vez totalmente descontextualizada, analítica e politicamente separada da
constituição de classe, raça, etnia e outros eixos de relação de poder, os quais tanto
constituem a ‘identidade’ como tornam equívoca a noção singular de identidade.” (p. 21)

Para a autora, a constituição de um sujeito unívoco e universal do (e pelo) feminismo gera


“recusas a aceitar” a categoria de “mulheres”, uma vez que essas recusas são identificadas por
Butler como “domínios de exclusão” que “revelam as consequências coercitivas e reguladoras
dessa construção, mesmo quando a construção é elaborada com propósitos
emancipatórios.” (p. 22)
Butler afirma que “o feminismo pode buscar representação mais ampla para um sujeito que
ele próprio constrói”, sugerindo aí tanto um alargamento das categorias identitárias para a
luta política feminista quanto a consequência de que o propósito feminista corre o risco
fracassar com o questionamento de sua premissa básica: a opressão das mulheres como
sujeito unívoco. Atribui o possível fracasso à “recusa de levar em conta os poderes
constitutivos de suas próprias reivindicações representacionais”. (p. 22) Entretanto, é
imprescindível não pensar essa construção do sujeito do feminismo dissociada da constituição
de “mulheres” produzida pelos sistemas jurídicos forjados pelo patriarcado.

“as estruturas jurídicas da linguagem e da política constituem o campo contemporâneo do


poder; consequentemente, não há posição fora desse campo (...) a tarefa é justamente
formular, no interior dessa estrutura constituída, uma crítica às categorias de identidade que
as estruturas jurídicas contemporâneas engendram, naturalizam e imobilizam”. (p. 22)

Butler questiona “Seria a construção da categoria das mulheres como sujeito coerente e
estável uma regulação e reificação inconsciente das relações de gênero?”, propondo “uma
política feminista que tome a construção variável da identidade como um pré-requisito
metodológico e normativo, senão como um objetivo político”. (p. 23)

“Que relações de dominação e exclusão se afirmam inintencionalmente quando a


representação se torna o único foco da política? (...) Talvez (...) a ideia de ‘representação’ só
venha a fazer sentido para o feminismo quando o sujeito ‘mulheres’ não for presumido em
parte alguma.” (p. 23-24)