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FILHOS DE ADAO, FILHAS DE EVA

JOAO DE PINA CABRAL

filhos de adão, filhas de eva

OBS1 -deixar claro na tese que quando os sujeitos se referem ao seu lugar de moradia
(laranjeira), eles se referem como interior

OBS2 - Não utilizar a categoria camponês, pois não me refiro aos sujeitos abrangendo e
partindo de suas profissões ou circunscrevendo-o em sua posição geográfica.

quem é foster 1974 que trabalha com santos no mexico?

“ No Minho e na Galiza é possível encontrar um outro género de ex-voto, que foi comum no
resto da Península até meados do século XIX, estando hoje confinado apenas a essa região.
Consiste no uso do luto durante um ano ou no transporte em procissão de uma pessoa no
interior de um caixão, revestida de uma mortalha. Os camponeses argumentam que estas
práticas são compensações feitas ao santo pelo facto de ele ter abdicado dos seus direitos
sobre uma alma. Com a representação de um falso luto ou de um falso enterro, os crentes
oferecem aos santos uma representação metonímica da sua própria morte. Assim, estas
práticas são também formas simbólicas de reciprocidade simétrica” p. 190 - ver sahlins sobre
reciprocidade simétrica

“um ‘milagre’ pode ser qualquer acontecimento que corresponde a desejos expressos
previamente pelo indivíduo, sobretudo através de orações, promessas e votos.” p.191

“Os ex-votos são mais que um sinal de existência de uma relação de reciprocidade; são
também formas de validação do poder do santo. Estão expostos em lugares públicos como
testemunhos da manifestação anterior da influência divina sobre os assuntos humanos”. p. 191

“ O indivíduo que apela aos poderes de um santo, está a ‘apegar-se ao santo’. Todos os
camponeses possuem individualmente um grupo de santos da sua confiança a fim de resolver
os pequenos problemas cotidianos - desde as trovoadas até às doenças do corpo. Trata-se,
normalmente, de santos cujas as imagens são guardadas em casa”. p. 193

G M Foster (1974) acerca das atitudes dos camponeses mexicanos face aos santos: a
familiaridade entre o indivíduo e o santo é tão real que, de facto, varia de acordo com o tipo de
relacionamento mantido no passado. p.193
O indivíduo que apela aos favores de um santo, está a ‘apegar-se ao santo’. Todos os
camponeses possuem individualmente um grupo de santos da sua confiança a fim de resolver
os seus pequenos problemas quotidianos - desde as trovoadas até às doenças do corpo. Trata-
se , normalmente, de santos cujas imagens são guardadas em casa, na igreja da freguesia ou na
capela do lugar. Mas a proximidade gera a falta de interesse p.193

« O tipo de troca a que as pessoas recorrem nas suas relações com os seres sobrenaturais,
reflete as noções de troca que impregnam profundamente o cerne da sua visão do mundo » p.
195

“ quando as pessoas, por exemplo, pedem a Deus a chuva que, com toda probabilidade, está
prestes a cair, não estão a cometer ‘um erro’: estão sim a interpelar a natureza unitária da sua
imagem da vida. Não desejam simplesmente chuva, desejam chuva ‘bendita’ aquela que cai no
momento certo e que dura o tempo certo” p. 199

“ as encruzilhadas, o mar e as ‘horas abertas’ [meio-dia e meia-noite e ao por do sol ] partilham


do facto de serem concebidos como aberturas às forças e influências exteriores” p. 205

“ A capacidade de ‘tolher’ [mal-olhado] pode ser algo que uma pessoa adquire inocentemente
durante o nascimento se a mãe grávida virar a cabeça durante a elevação da hóstia ou se os
seus desejos alimentares não forem satisfeitos” p. 207

« as crianças não baptizadas são particularmente vulneráveis aos ataques do ‘ar ruim’,
sobretudo se estiverem na rua nas ‘horas abertas’ [...] pode-se dizer genericamente que este
‘ar’ é o veículo que transmite o mal.” p. 208

“ a adoção da cruz equilateral não é apenas uma referência à morte de Cristo, porque as
pessoas conjugam o simbolismo cristão ortodoxo com práticas que a igreja qualificaria de
crenças pagãs […] a função da cruz equilateral é repelir ‘as coisas más’”. p. 209

“ a cruz é também utilizada para representar a presença humana. Uma pessoa que não sabe
assinar seu nome, escreve uma cruz no papel. Quando uma pessoa pretende indicar a outra
que esteve num determinado lugar, traça uma cruz no chão ou no muro.” (p. 210)

Pelo facto de pertencerem à sociedade – uma pertença sinalizada pelo baptismo –, os seres
humanos estão protegidos de uma percepção imediata das forças sobrenaturais. Os animais,
que não são protegidos pelo baptismo, possuem presumivelmente uma maior sensibilidade a
estas forças. Assim, reagem com maior prontidão quando se aproxima a morte, o diabo, o olhar
fixo do mau-olhado, a bruxa ou o santo – a presença destas forças é sinalizado pelo
comportamento inquieto ou anormal dos animais p. 246
BLOCH E PARY, 1982-P.3-5 – A morte é uma ruptura na ordem social, quer pela alteração que
provoca nas relações sociais, quer pelo seu forte pendor individualista

Morte de ‘anjinhos’ – em geral, não são sentidas tão intensamente. As crianças não são ainda
membros plenamente participantes da sociedade e, sobretudo se são muito novas, a sua
morte é aceite com um certo sentimento de resignação. Por outro lado, a ‘pureza’ das crianças,
o fato de que ‘não tiveram tempo de pecar’, significa também que possuem menos laços com
este mundo; assim, a sua separação cria menos problemas que a morte de um adulto. P 248

Depois de qualquer tipo de morte, todos os portões e portas da casa do falecido são
imediatamente abertos de par em par, permitindo a entrada a quem o desejar. Os parentes
entregam-se ao choro e, geralmente, retiram-se para um quarto interior, até chegar o
momento em que o corpo está pronto para ser exposto. Esse é o primeiro dos três prantos que
irão ocorrer durante o velório e tem o efeito de chamar a atenção de todos os vizinhos
próximos, que logo acodem em auxilio p 248 – o segundo choro é quando o corpo está dentro
do caixão e a sala está preparada para o ritual da sentinela. O terceiro choro é quando o corpo
abandona a casa. É o choro mais estridente. Os familiares mais próximos não acompanham o
caixão para o cemitério porque a “alma do defunto poderia sentir-se entristecida pela sua
mágoa, decidindo-se a permanecer entre os vivos” p. 250

O corpo é, habitualmente, lavado por uma pessoa do mesmo sexo do falecido com aguardente,
o que supostamente permite preservar as feições. É atado um pano para manter os maxilares
cerrados, o seu cabelo é penteado e o corpo é vestido com a melhor roupa que o finado
possui. Coloca-se uma forte ênfase na necessidade dele não parecer ‘decente’, isto é, de evitar
os sinais da decomposição. Deve existir sempre uma lamparina de azeite acesa ao lado do
morto, para resguardar das influências maléficas. Pg 248

Ao oferecer uma missa, os visitantes favorecem o processo de transição do defunto do mundo


dos vivos para o mundo dos mortos. Durante todo o período que antecede a missa do sétimo
dia, ninguém pronuncia o nome da pessoa que morreu, que é antes designada como ‘o
falecido’. Nos próprios dias que precedem o enterro, o morto é referido como ‘o falecido sobre
terra’. (só os parentes próximos cumprem essa regra durante todo o período do luto). Pg. 249

- o medo de que a alma responda : por isso a proibição de pronunciar o nome do falecido. Não
pode levar-se fogo para fora da casa onde se encontra o cadáver , porque a alma poderia segui-
lo, transformando-se assim, numa alma penada que assombraria a comunidade dos vivos. [...]
Quando o caixão é baixado à sepultura, a maioria das pessoas muda incessantemente de lugar,
porque, de contrário, a alma poderia encontrá-las e ficar com elas. Depois do caixão ser
colocado na sepultura, quase todas as pessoas lançam um pedacinho de terra para a cova [...]
deve notar-se que todos os rituais cumprem duas funções simbólicas: ao afastarem a alma, as
pessoas protegem-se contra a contaminação da morte e, ao mesmo tempo, auxiliam a alma no
caminho da sua salvação p. 250

DENTRO DO CEMITERIO TEM VARIOS RITOS DE SEPARAÇÃO DO MUNDO DOS VIVOS E MUNDO
DOS MORTOS. INCLUSIVE, NÃO CHAMAR PRA IR EMBORA, NÃO FECHAR A PORTA DO
CEMITERIO ENQUANTO ESTIVER DENTRO DELE E LAVAR AS ROUPAS DEPOIS DO ENTERRO.

COMENSALIDADE – a ênfase colocada na comida ao longo de todo o velório e do enterro pode


ser interpretada como uma forma de negar a morte e de destacar a vida dos que ficam. Pg.251
Durante e após o velório, os membros da casa do falecido não devem lavar-se, pentear-se,
cortar o cabelo ou barbear-se, não devem nem mudar de camisa e, aliás, de qualquer peça de
vestuário. Estão proibidos de cantar, dançar, ouvir música ou rádio e ver televisão. Durante este
período de liminalidade, os ‘doridos’ não devem frequentar a igreja, relembrando o fato de que
também eles estão marcados pela morte. pg.251

‘alminhas’ – pequenos retábulos, geralmente feito de pedra, localizadas nas bermas das
estradas – lugares de passagem –, que incorporam um painel representando as almas que
ardem no purgatório. Pg. 257

A vida rural no Alto Minho é caracterizada por um conjunto de rituais de comunidade que se
desenvolvem no quadro do tempo repetitivo e se baseiam em símbolos de circularidade, não
mão direita, no sentindo ‘à direita’, na igualdade, na reciprocidade e na ordem. Esses rituais
fazem assentar a sua natureza comunitária na estreita associação que os liga a unidades socio-
geográficas específicas. Todos eles são cruciais na reprodução dos sentimentos de identidade
que cimentam estas unidades. P. 283