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O déficit orçamentário e a dívida pública que o próximo governo (2019-2022) vai herdar

“A consciência da ignorância é muito melhor do que a ilusão do conhecimento”


Martin Wolf

A situação fiscal do Brasil é dramática, pois o governo está tomando dinheiro emprestado para
cobrir as despesas correntes e se endividando para cobrir o enorme déficit nominal. O gráfico
acima mostra as contas públicas brasileiras conforme dados do Fundo Monetário Internacional
(FMI), WEO de abril de 2018. O superávit/déficit primário é o resultado do balanço da
arrecadação, menos os gastos do governo, mas sem contabilizar os juros da dívida. Corresponde
à geração de caixa do governo. O superávit ajuda a reduzir o endividamento. O déficit nominal
acelera o crescimento da dívida pública. O conceito de déficit nominal inclui o déficit/superávit
primário mais os gastos com o pagamento de juros. Quanto maior o déficit nominal mais rápido
cresce a dívida pública.

Os dados são claros. Entre 2003 e 2013, o Brasil conseguiu gerar superávit primário durante uma
década, o que possibilitou crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e uma certa estabilidade
macroeconômica. Em 2003, o superávit primário foi de R$ 56 bilhões (3,2% do PIB) e passou
para R$ 118 bilhões (3,8% do PIB) em 2008. Na recessão de 2009, o governo promoveu políticas
fiscais anticíclicas e o superávit primário caiu para R$ 65 bilhões (1,9% do PIB). O superávit voltou
a subir até 2011, com R$ 129 bilhões (2,9% do PIB), mas começou a cair nos anos seguintes até
se tornar déficit a partir de 2014.

Enquanto o superávit primário se manteve relativamente alto entre 2003 e 2008, o déficit
nominal ficou moderadamente controlado abaixo de R$ 100 bilhões, o que representava menos
de 3% do PIB. Mas com a recessão, o déficit nominal ultrapassou R$ 100 bilhões em 2009 e
chegou a R$ 159 bilhões (-4,2% do PIB), em 2010. Mas o que estava ruim piorou e o déficit
nominal chegou a R$ 363 bilhões (-6,5% do PIB) em 2014 e a impressionantes R$ 588 bilhões (-
9,8% do PIB) em 2015.

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Enquanto houve superávit primário houve também redução da dívida pública bruta (como % do
PIB), com redução forte entre 2003 e 2008 e redução moderada até 2013, conforme mostra o
gráfico abaixo. Porém, quando o superávit primário se transformou em déficit, elevando o
déficit nominal, a dívida pública bruta disparou, chegando a 87% do PIB em 2018 e devendo
alcançar 96% do PIB em 2023.

Artigo de Antonio Nucifora, economista-chefe do Banco Mundial no Brasil (FSP, 08/05/2018),


mostra que se nenhuma reforma for feita, a dívida pública brasileira ultrapassará 130% do PIB
na próxima década. Ele diz: “Com uma elevação tão rápida, é alto o risco de que os credores
deixem de acreditar que o governo brasileiro poderá pagar a sua dívida e, portanto, parem de
emprestar dinheiro novo ao Brasil. Caso isso aconteça, o Brasil enfrentará taxas de juros mais
altas e o Real se depreciará. Como consequência, a inflação irá subir e o poder aquisitivo dos
brasileiros será reduzido, especialmente para os pobres, forçando o ajuste que os políticos não
terão tido a coragem de fazer. Foi isso o que aconteceu durante as crises financeiras da década
de 1980 e início da de 1990”.

Contudo, existe uma forte resistência ao ajuste fiscal e às reformas para sanear as contas
públicas. Por um lado, esta resistência é normal numa democracia, pois os diferentes setores da
população possuem expectativas diferentes quanto ao gasto público. Por outro lado, se nada
for feito a economia brasileira não vai sair da estagnação e não será capaz de gerar emprego
para os mais de 26 milhões de brasileiros que estão desempregados ou desalentados.

Em artigo recente, Nelson Barbosa, que foi ministro da Fazenda e do Planejamento no governo
Dilma, questiona o bordão “quem votar não volta”, já que se não reformar não haverá
governabilidade. A recuperação da estabilidade fiscal demandará mudanças de regras fiscais, no
gasto público e na tributação pelo próximo governo. Ele diz: A solução é uma reforma fiscal
focada somente em metas de gasto, que podem ser crescentes, constantes ou cadentes em
proporção do PIB, de acordo com a escolha política dos eleitores, de quatro em quatro anos. Do
lado do gasto, o desafio é controlar despesas obrigatórias, e isso não envolve somente a
Previdência. Também é preciso reavaliar o outro grande gasto federal —a remuneração de

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servidores—, bem como diminuir o engessamento de algumas despesas por regras e vinculações
que não deveriam ser matéria constitucional. Uma saída do atual impasse político entre
esquerda e direita seria combinar as duas iniciativas em uma só medida: uma PEC (proposta de
emenda à Constituição) que reveja o teto de gasto e aperfeiçoe a regra de ouro, de um lado, e
que reforme a Previdência e outros gastos obrigatórios, do outro. A ideia dessa “PEC do
compromisso” é combinar flexibilidade com responsabilidade fiscal. Evitar a rigidez crescente
do Orçamento público por excesso de metas e, ao mesmo tempo, reduzir o crescimento do gasto
obrigatório da União”.

As duas opiniões acima, de economistas de diferentes escolas de pensamento, mostram que a


situação fiscal do Brasil vai requerer um entendimento entre a direita e a esquerda e entre toda
a sociedade brasileira que já não aguenta a falta de perspectivas para o país e está pagando um
alto preço com a baixa percentagem de pessoas ocupadas, a péssima qualidade da saúde e da
educação e a falta de segurança pública, dentre outros problemas sociais.

A economia brasileira está presa à armadilha do baixo crescimento, com 27,7 milhões de
pessoas desocupadas ou desalentadas e com aumento da extrema pobreza e até aumento da
mortalidade infantil, além, do aumento das mortes por causas violentas. Nem a meta de reduzir
o analfabetismo foi atingida.

O Brasil está criando uma geração perdida e sem esperança, pois além de o desemprego aberto
atingir 30% dos jovens, também cresceu o número de jovens Nem-Nem. O Brasil tinha 48,5
milhões de pessoas com idade entre 15 e 29 anos e 11,1 milhões não trabalhavam e não estavam
matriculadas em uma escola, faculdade, curso técnico de nível médio ou de qualificação
profissional. Não se pode esperar muito de uma geração do futuro que está sendo excluída no
presente!

Sem fundamentos econômicos sólidos será impossível atingir o “Pleno emprego e o trabalho
decente”, saúde e educação de qualidade para todos. Portanto, não será ignorando a crise fiscal
que os problemas sociais serão resolvidos. O Estado é importante, mas não se pode desprezar a
força da sociedade civil.

Os dados sobre os períodos de recessão e de recuperação do CODACE - o comitê que data os


ciclos econômicos formado pela FGV – confirmam que o Brasil vive a pior retomada da história.
A economia de 2019 será menor do que a economia de 2013. O segundo mandato da dupla
Dilma-Temer (2015-2018) foi um colapso completo. No ritmo atual, a renda per capita brasileira
só retomará o nível de 2013 em 2023. O próximo governo (que ainda ninguém sabe quem
poderá ser) terá que ter muita criatividade para tirar o Brasil do beco sem saída em que se
encontra.

Referências:
Antonio Nucifora. Quem vai pagar a conta? FSP, 08/05/2018
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antonionucifora/2018/05/quem-vai-pagar-a-
conta.shtml
Nelson Barbosa. Reformar o Orçamento público é inevitável, e isso tem de ser debatido na
eleição, FSP, 11/05/2018
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/nelson-barbosa/2018/05/reformar-o-orcamento-
publico-e-inevitavel-e-isso-tem-de-ser-debatido-na-eleicao.shtml