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A Herança
Conto de Vauline Gonçalves

1ª Edição
2017
Copyright © 2017 Vauline Gonçalves
Copyright © 2017 A Herança

Editora Responsável: Saionara Rodrigues


Revisão: Saionara Rodrigues e Sueli Assis
Capa: Vauline Gonçalves
Diagramação: Saionara Rodrigues
Foto Capa: (Adaptada)
Canstock - royalty free

É PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL E PARCIAL DESTA OBRA, DE QUALQUER FORMA OU


POR QUALQUER MEIO ELETRÔNICO, MECÂNICO, INCLUSIVE POR MEIO DE PROCESSOS
XEROGRÁFICOS, INCLUINDO AINDA O USO DA INTERNET, SE PERMISSÃO EXPRESSA DA
EDITORA NA PESSOA DE SEU EDITOR (LEI 9.610 DE 19/02/1998). ESTA É UMA OBRA DE FICÇÃO.
NOMES, PERSONAGENS, LUGARES E ACONTECIMENTOS DESCRITOS SÃO PRODUTOS DA
IMAGINAÇÃO DA AUTORA.
QUALQUER SEMELHANÇA COM ACONTECIMENTOS REAIS É MERA COINCIDÊNCIA.
TODOS OS DIREITOS DESTA EDIÇÃO RESERVADOS PELA: EDITORA SONHO DE LIVRO.
A luz do corredor piscou, o que era normal, por causa das constantes oscilações de
energia na região. Estava saindo de mais um plantão e sentia-se exaurida. Após 24 horas em
um pronto socorro, Karen enxergava apenas uma opção de rumo: sua casa, com sua cama e,
mais tarde, quem sabe, uma maratona da série preferida.
Ela não tinha namorado há cerca de dois anos e sua última relação amorosa não passou
de uma noite estranha, uma transa asséptica com um homem de meias brancas e topete. Isso há
quase um ano. O único ser com quem Karen compartilhava suas alegrias, preocupações e
sonhos, era sua amiga Daniela, uma jovem enfermeira, colega de trabalho no hospital.
Dani não compreendia como uma garota linda, jovem e bem-sucedida não conseguia
companhia. A bela médica alegava falta de tempo, e já havia tentado até mesmo o tinder, mas
essa é uma aventura à parte.

Karen

Ao longe escutei um barulho estridente, parecia vindo do edifício do outro lado da rua,
mas aos poucos foi se tornando mais irritante, insistente e próximo. Era o meu interfone. Dizer
que levantei é uma metáfora. Eu me arrastei até a cozinha e atendi àquele maldito, apenas
porque era a única forma de fazê-lo parar.
— Fala! — disse, ainda com os olhos fechados, pois o sono era muito.
— Senhora Karen, tem um advogado aqui. Ele deseja vê-la. — Anunciou o zelador.
Imediatamente, meu sono evaporou e comecei a buscar na memória em que momento eu
poderia ter feito alguma merda, para justificar a visita de um advogado à minha casa. Pensei
nas multas de trânsito, pensei na ida ao mercado 24h no meio da noite usando pijamas e pensei
na vez em que troquei a etiqueta de preço do queijo brie com a do queijo prato. Aquilo estava
pelo olho da cara! Mas a verdade é que nenhum desses delitos justificava a presença daquele
homem. Liberei sua entrada e corri para escovar os dentes.
O sujeito me encontrou trajando pijamas e com o cabelo embolado em um coque, mas já
estava totalmente desperta. O homem na minha frente me olhou com desdém e forçou um
sorriso simpático.
— Senhorita Karen Arantes? Sou Malaquias Alvarenga, advogado do Senhor Leopoldo
Arantes, seu falecido tio-avô. — O cara não me deixava falar. — Peço desculpas pelo
incômodo, mas como eu disse, o senhor Arantes faleceu esta semana e… Senhora, podemos
conversar sentados, confortavelmente?
Eu apenas assenti e dei passagem ao homem. Sentamo-nos no sofá da sala, um de frente
para o outro.
— Como dizia, o senhor Arantes não deixou herdeiros naturais e, sob investigação,
nosso escritório descobriu a senhorita como sua única herdeira.
Arregalei os olhos, me sentindo em um roteiro de filme.
— Nunca ouvi falar desse tio. Meu pai faleceu quando eu ainda era menina, mas… do
que estamos falando em termos de herança?
— Estamos falando de uma fazenda de vinte mil hectares, incluindo a sede e mais sete
outras unidades. São oitenta mil pés de cacau e mais mil hectares de eucalipto. O que, em uma
soma rápida, resulta no valor estimado de duzentos milhões, trezentos e oitenta e quatro mil
reais, aos quais apenas a senhorita tem direito.
Eu achava que meus olhos estavam arregalados, mas me surpreendi, abrindo-os ainda
mais. Tentei falar algo inteligente para disfarçar meu deslumbramento, mas…
— Meu tio não tinha nada para fazer com essas terras? O que vou fazer com tudo isso?
— Importante salientar que eu havia acabado de acordar.
O homem respirou fundo, com clara impaciência.
— Veja bem… não há herdeiros. A senhorita poderá usufruir dos benefícios da fazenda
ou vendê-la, assim que possível.
Em meros cinco segundos, ponderei sobre que diabos eu poderia querer fazer em uma
fazenda.
— Quero vendê-la.
— Bem, apesar do testamento ainda estar lacrado, como advogado de confiança do vosso
tio-avô posso lhe adiantar que existe uma cláusula bastante peculiar.
Meneei a cabeça, constatando que as coisas nunca são tão fáceis quanto parecem.
— Prossiga — disse, já me sentindo desanimada e certa de que teria que passar por
exames de DNA e sabe-se lá mais o quê, para comprovar o parentesco.
— A senhorita só poderá se desfazer da fazenda ou dispor de qualquer bem pertencente a
ela, depois de residir na propriedade por um prazo mínimo e contínuo de trinta dias. Eu disse,
contínuo. Fui claro, senhorita Karen?
— Como assim?! — Aquilo era muito, muito pior do que eu imaginava! — Acho que
não entendi, senhor.
— Vou explicar-lhe. — E começou a falar devagar, quase silabicamente, como se eu
tivesse alguma deficiência de cognição. Por fim, apertou os lábios, claramente enfadonho. —
Entendeu?
Pisquei algumas vezes. Aquilo só podia ser piada.
— Morar lá? Mas e meu emprego?! E meu… meu… e minha… — Na verdade, não
havia muito o que deixar em Salvador. — E minha amiga?! Meu trabalho?!
— Senhorita Karen... Só existem duas opções: ou fica com a fazenda e trata de
administrá-la, e para isso a senhorita nem precisa conhecê-la… ou, conforme as nossas
investigações, utiliza as suas férias vencidas e vai passar esses trinta dias na fazenda. Só assim,
poderá vendê-la no trigésimo primeiro dia.
Administrar uma fazenda? Impossível! Eu mal conseguia administrar meu apartamento
quarto e sala. Respirei fundo, já começando a pensar nos mosquitos, cobras e cheiro de
estrume. Mas também pensei nos duzentos milhões.
— Tudo bem. Onde fica essa roça?
— No Sul da Bahia, mais precisamente nos arredores de Ilhéus, amanhã cedo a senhorita
precisará me acompanhar à abertura do testamento. Mera formalidade.
Despedi-me daquele homem ainda me sentindo tonta e acuada. Uma fazenda… Sul da
Bahia… Duzentos milhões… Uau! Daniela precisava saber disso, inclusive, porque ela iria
comigo.
Lucas

— Nem fodendo!
— Você não está raciocinando, cara. É muito melhor manter o inimigo perto do que
declarar guerra. A mulher vai chegar e seria muito bom irmos recebê-la, mostrar que somos
amigos. Daí, falamos com ela, explicamos o projeto… Quem sabe não conseguimos mostrar
para ela a importância da agricultura sintrópica e ela nos deixa ficar e cuidar das coisas?
Olhei para meu irmão com a cara amarrada. Nem a pau ia ficar babando o ovo de mulher
nenhuma para não ser despejado.
— O velho Arantes nos deu autorização, Lúcio. Ele conheceu nosso trabalho na fazenda
Araçás e acreditou que poderíamos fazer ainda melhor aqui. Não invadimos nada!
— Mas ela é a porra da herdeira, Lucas! Se ela quiser, pode sim, mandar nosso projeto
para o cacete e vender a fazenda. Bufei de raiva. O futuro comprador certamente iria derrubar
toda a floresta, um trabalho de anos, e para que, para transformar em pasto.
— Nem brinca. Nem brinca! — ameacei.
— Não estou de brincadeira. A sobrinha-neta do velho Arantes chega hoje e nós iremos
recebê-la com muita educação. É mulher, cara… É solteirona, deve estar carente… Joga um
charme, conquista...
Não aguentei e gargalhei. Lúcio parecia esquecer nossa condição.
— Ah tá! Seduzo e na hora do vamos ver, caio fora? Ou você acha que ela é como as
chinas do Cantagalo ou está a fim de apavorar a mulher e colocá-la para correr! Aí é que ela
vende essa porra de uma vez!
Cantagalo é um bordel que fica em uma fazenda à quilômetros daqui. O único lugar onde
conseguimos afogar nosso desejo sem colocar em risco o nosso segredo. As chinas, ou putas
mesmo, conhecem nossa história e, como dizem, “valemos a pena”.
— Eu não disse que é preciso levar a criatura para cama, disse? Só seduzir, com
jeitinho...
Passei um rabo de olho para ele, vendo-o enfiar o chapéu de vaqueiro e sair sorrindo.
Lúcio era um grande sedutor e, mesmo sabendo que não podíamos ir para a cama com outra
mulher que não as chinas, não cansava de brincar com o perigo e vivia se metendo em
aventuras sensuais e, quase sempre, com uma bela fuga antes do fim.

Karen

O taxi sacudia pela estrada de chão, fazendo a poeira subir até cobrir a vista pela janela,
e eu nem me importava. De um lado e de outro havia apenas mato.
Que diabo eu estava fazendo ali? Daniela, aquela ingrata, inventara todas as desculpas
possíveis para não vir comigo. Até mesmo uma hérnia de disco, que nunca a escutei
mencionar. Bufei de raiva e jurei a mim mesma que ficaria trancada no quarto, lendo meus
romances durante os malditos trinta dias.
Aposto que nem televisão tem! E desfilei um sem fim de desgostos com a condição do
meu tio-avô, então, lembrei-me de tudo o que planejava fazer com os duzentos milhões:
apartamento novo, viagem à Nova Iorque, compras, investimentos… Uau! Isso sim iria
preencher e animar meus dias de tédio nesse fim de mundo.
Enquanto eu sonhava acordada com todas as compras que faria em minhas viagens,
avistei algo no mínimo curioso. Um homem alto e aparentemente jovem, de cabelos escuros e
cheios, encontrava-se parado no alto de uma pequena elevação. Estava um tanto longe, mas
deu para perceber que era uma figura atraente. No entanto, o curioso não era a sua aparência,
mas o fato de que ele, simplesmente, ergueu do chão uma tora de madeira inteira! Não foi uma
tábua… Aquilo era uma árvore!
Com os olhos arregalados, chamei o motorista.
— Senhor… senhor! — Quando o homem finalmente me deu atenção, apontei para fora.
— Está vendo aquele...
Quando voltei a olhar na direção da elevação, o homem havia sumido.
— Se acalme, Dona. É longe pra burro, mas já estamos chegando.
Fiquei atônita olhando para o lugar onde, há dois segundos, estava o homem
surpreendentemente forte. Como podia sumir tão de repente?! Talvez tenha se assustado. Não
deve ter muitos carros por essas bandas. Aliás, não deve ter nada por essas bandas!

Meu queixo caiu quando saímos daquele túnel infinito de eucaliptos e despontamos em
um descampado, onde um casarão de dois andares nos recebia com pompa. Havia até uma
escadaria suntuosa e uma fonte na entrada, na qual o táxi fez a volta, parando em frente a um
portão lateral.
— Pronto, Dona. Chegamos! Fazenda Luz do Luar!
Eu estava impressionada com a riqueza daquele casarão. Era conservado, mas tinha ares
seculares.
Estava tão distraída que só algum tempo depois me dei conta das três figuras que aguardavam
na frente do portão: uma senhora rechonchuda e morena, um velho meio decrépito usando um
chapéu horroroso e um homem… É, ele era bonitinho, mas tosco.
Saí do taxi e eles se aproximaram.
— Seja bem-vinda, Dona Karina. Sou Edmeia e esses são Sebastião e Lúcio.
Sorri com simpatia e nem chamei a atenção para o meu nome dito errado. Melhor ser
legal, afinal, ficarei nas mãos deles por longos trinta dias.
— Prazer.
E se fez aquele silêncio constrangedor, até que o taxista pigarreou e eu me toquei de que
precisava pagá-lo. Apanhei minha bolsa e dei-lhe o valor acertado. Rapidamente, o homem
entrou em seu carro e arrancou. Fiquei ali, vendo meu último recurso de fuga se afastar.
— A dona deve estar cansada.
O homem jovem e forte, chamado Lúcio, adiantou-se e pegou minhas malas, enquanto
eu seguia Edmeia para o interior do pátio. O tal Sebastião, não vou mentir, me deixava bem
desconfortável. Senti os olhos do Lúcio sobre mim durante todo caminho desde a entrada,
passando pelo jardim lateral, até entrarmos por um hall e subirmos uma escada interna.
Enquanto caminhava, Edmeia ia me explicando que os quartos ficavam no primeiro
andar e a cozinha no térreo. Espantei-me quando vi uma TV LCD em uma das salas por onde
passamos.
— Aqui pega TV?
Escutei o rapaz atraente, o Lúcio, rir.
— Temos sim, dona, e com uma imagem excelente. Também temos wi-fi. — O jovem
acrescentou, após pigarrear.
Por essa eu não esperava.
— Que maravilha!
Ele se aproximou de mim e percebi que era mais bonito do que eu pensava. Tinha o
cabelo bem cortado e uma barba cerrada, além de um corpo fenomenal.
— Depois eu, ou o meu irmão Lúcio, podemos vir configurar a rede para a senhorita.
— Eu agradeço.
Ele assentiu.
— Vou levar as bagagens para o quarto.
Observei-o subir as escadas. Era realmente um homem atraente, com pernas fortes e
braços lindamente esculpidos.
— A dona gosta de suco de caju?
Levei um susto, pois me distraía com a bela visão de Lúcio carregando duas malas
pesadas como se estivessem vazias, e não havia percebido o velho decrépito ao meu lado.
— Não, obrigada. Mas gostaria de um copo de água e de me deitar um pouco. A viagem
não é longa, mas cansativa.
Foi Edmeia quem me acompanhou até meu quarto: um cômodo simples, mas confortável
e, principalmente, limpo. Uma cama de madeira de lei e bastante alta ficava bem no centro do
quarto e sobre ela um cortinado gigante, que me fez pensar no tamanho dos mosquitos que
haveria ali.
— Pode descansar à vontade, Dona Karen. Farei um jantar gostoso e os meninos virão te
fazer companhia.
— Meninos?!
Edmeia riu de si mesma.
— Bem, para mim, serão sempre meninos. Refiro-me a Lúcio e Lucas. Eles são netos de
um antigo vizinho. Seu avô era muito amigo do senhor Arantes, mas assim como seu tio, já
faleceu. Os meninos têm uma fazendinha aqui ao lado, mas como têm um projeto… — E
pareceu se dar conta de que eu estava realmente cansada e sem muita disposição para conversa.
— Me desculpe. A dona deve estar cansada. Enfim, à noite eles virão e explicarão tudo.
Forcei um sorriso e me senti realmente grata quando ela saiu. O colchão era bem macio e
não demorei a dormir.

Lucas

Minha barriga roncou pela quarta vez e tentei roubar um pedacinho do assado, mas
Edmeia bateu em minha mão com a colher de pau, me fazendo recuar.
— Droga! Estamos todos com fome! — retruquei
— Tá maluco Lucas?! Temos que esperar a moça. Eu já fui chamá-la. Logo ela desce. —
Edmeia pegou uma maçã e me deu. — Tome, come isso aí para enganar.
Eu não queria maçã, queria jantar. Larguei a fruta sobre a mesa e tamborilei os dedos
sobre a tábua crua.
Nem mesmo a conhecia e já sentia antipatia pela tal Karen. Lúcio disse que ela parecia
assustada, não era acostumada com os percalços da fazenda. Isso me fez “erguer as orelhas” e
ficar alerta. Se não gostava de fazenda, era certo que iria vendê-la. O que faríamos se ela
realmente a vendesse? Anos e anos de investimento e paciência para recuperar a mata, para
fazer os cultivos orgânicos de forma sustentável, respeitando a natureza, recuperando o solo…
E agora, vem essa sujeita e pronto, tudo acabado!
— Boa noite.
Até que enfim! Virei-me para a voz feminina atrás de mim e senti um baque no peito. A
figura à minha frente era baixinha, com um nariz empinado e cabelos dourados como o sol. Era
bonita como jamais vi igual. Seus olhos azuis brilhavam e o sorriso mostrava que estava
lindamente constrangida. Ainda assim, aquela era a criatura que vinha destruir todos os meus
sonhos.
— Boa noite. — Respondi, e ela ficou me olhando estranho, então, levantei e me aproximei,
estendendo a mão. — Sou Lucas. A dona já conheceu o meu irmão, Lúcio. Ele já deve estar
chegando.
Ela ergueu as sobrancelhas e assentiu.
— Sim, eu o conheci. Muito prazer. — E apertou a minha mão. Um aperto suave, macio.
— Sou Karen.
Estranho, mas ficamos meio sem jeito e soltamos as mãos, como se sentíssemos
choques.
— Dona Karen... Lucas, podem ir se sentar que eu já vou levar a comida para a mesa.
Fiz sinal para que ela passasse à minha frente e a segui com os olhos grudados no
balançar daquelas ancas cheias, perfeitamente redondas, que afunilavam em uma cintura bem
marcada. A diaba era bonita mesmo.
Sentamo-nos de frente um para o outro e ficamos um tempo calados. Ela observava tudo
ao redor: o lustre, as janelas, os pratos sobre a mesa… então, me encarou. Caraca! Os olhos
dela eram de um azul surreal!
— Então, Lucas… Edmeia me falou que vocês são nossos vizinhos...
Sorri e abaixei os olhos. Seu olhar me deixava sem jeito.
— Somos sim, mas fico muito aqui, na Luz do Luar. Temos… tínhamos um projeto com
seu tio-avô. Iniciamos há cerca de dez anos e tem sido…
— Boa noite.
Viramo-nos para ver meu irmão entrando. Karen levantou para cumprimentá-lo e logo
percebi que ele também havia reparado no quanto ela era linda. Claro que isso não passaria
imune aos olhos dele.
— Eu estava começando a falar do nosso trabalho Lúcio. — Adiantei o assunto.
— Mas já? — Ele riu. Acho que percebeu a minha tensão. — Vamos comer primeiro.
Edmeia nos serviu e passamos a falar sobre a região, o calor, a viagem de Karen… Ela
nos contou que é médica, sem família… Eu a escutava, mas estava meio que hipnotizado pelos
seus olhos e sorriso, que escondia algo de malicioso, peralta.
Quando já estávamos saboreando o doce de abóbora da Edmeia, voltamos ao assunto.
Deixei que Lúcio explanasse sobre o nosso projeto, enquanto eu a observava. Os seios médios
estavam sensuais em um sutiã preto, sob a camiseta branca. Ela prestava atenção à explicação
de Lúcio, mas ora ou outra me dirigia o olhar e nos perdíamos nos segundos. A boca de Karen
se mexia em sorrisos educados e eu não conseguia tirar os olhos dos seus lábios carnudos. Em
dado momento, senti o olhar duro de Edmeia sobre mim. Eu sabia o que ela queria. Estava me
dizendo para ter juízo, para deixar de ideias. Mas eu nada podia fazer, as ideias estavam lá,
inseridas sob minha pele, no prenúncio de ereção a cada respiração que fazia seus seios
subirem e descerem; estava lá, nos lábios entreabertos, no olhar malicioso que me lançava.
Ainda achava que Karen seria problema, que seríamos inimigos, mas não podia negar… Ela
me dava um tesão danado.

Karen

Não podia acreditar que não eram nem vinte e três horas e eu estava deitada para dormir.
A casa enorme ficava meio assustadora depois que todos se recolhiam. Levei água para o meu
quarto e agradeci ser uma suíte. Havia tentado ligar para Daniela, mas o celular estava fora de
área. Deixei recado no e-mail dela, mesmo duvidando que ela o acessasse. Estava louca para
contar as novidades.
Coloquei o marcador e fechei o livro que estava lendo. Os olhos de Lucas vieram à
minha mente. Que homem era aquele?! Quase tive uma síncope, quando entrei na cozinha e vi
aquele moreno enorme, de cabelos castanhos e cheios… E quando ele se virou, achei que fosse
me derreter. Uma beleza selvagem, quase perigosa. Fiquei parada naqueles olhos verdes,
estreitos, e quando ele sorriu, juro que molhei a calcinha.
Apertei minhas coxas, sentindo a vagina contrair só de imaginar aquela boca em mim.
Enfim, havia achado uma deliciosa distração naquele fim de mundo.
Será que tinha namorada? Não havia aliança em seu dedo, o que já era algo bom. Será
que o veria amanhã? Tenho certeza de que havia sentido algo também, pois não tirava os olhos
de mim, me fazendo arfar a cada vez que o flagrava com o olhar grudado em meus seios, em
minhas pernas… Edmeia havia notado o clima entre a gente, eu a vi repreendê-lo com o olhar,
ao qual ele respondeu com o erguer de sobrancelha mais sexy do mundo.
O Lúcio também era lindo, mas não mexeu comigo como o tal Lucas. Uau! Seriam trinta
dias interessantes, afinal.

Lucas

Como sempre, eu estava consciente de tudo, preso, mas consciente. Senti o ar frio da
noite, a folhagem por onde pisava, os sons noturnos que se calavam quando eu passava. Todos
os animais assustados, receosos por suas vidas. Eu jamais os machuquei. Diferente de Lúcio,
jamais machuquei alguém, mas não sei até quando esta seria a minha realidade.
Há algumas semanas não acontecia e eu me sentia quase normal. Mas agora, com a
chegada de Karen, eu tinha certeza de que aconteceria. Aconteceu hoje e iria acontecer
amanhã.
Corri entre as árvores, sentindo o vento criando resistência. Corri e saltei até alcançar o
fundo da casa. Vi um gato fugir desesperado e escutei os cachorros uivarem no canil. Edmeia
também sabia que iria acontecer, ela percebeu meus olhares e sabia que era inevitável, por isso,
deixou os cachorros presos. Esses sim, eu seria capaz de matar.
Parei em meio ao jardim e inspirei profundamente. Havia sentido os seus cheiros durante
todo o jantar, por cima do assado, sobre as batatas carameladas e o suco de umbu, eu a senti e
gravei seus odores, eram bem diferentes e eu sabia separá-los com distinção: a fragrância do
perfume e o aroma de fêmea. Minha nuca arrepiou, quando identifiquei seu cheiro mais uma
vez. Sabia exatamente onde ela estava e, inclusive, sabia que estava excitada.
Escalei a parede com a maior facilidade, enfiando as garras no cimento caiado e
alcançando a sacada da varanda rapidamente. A porta que dava para o quarto estava trancada e
a cortina escondia Karen de mim, mas eu estava perto e isso intensificou o meu estado.
Senti os olhos arderem e sabia que estariam amarelos. Então, antes que eu realmente
desistisse e fosse embora, o vento atravessou a fresta da porta, empurrando a cortina e eu a vi.
Linda, deitada por trás do cortinado. Sua camisola branca emaranhada nas pernas, deixando à
mostra a pele alva e brilhante. No mesmo instante, senti os pelos crescerem ainda mais em
minhas costas. Salivei com a vontade de tocar aquela pele. Escutei a minha própria respiração
como se fosse uma fera ao pé do meu ouvido.
Os cachorros não paravam de latir e eu estava ficando com receio de que ela acordasse.
Então, a vi sentar-se repentinamente, assustada, olhando para os lados em meio à penumbra.
Saltei da varanda e caí de pé sobre o chão batido. Os cães, enfurecidos, uivavam e ladravam.
Saí em disparada rumo à floresta, morto de medo de que ela resolvesse abrir a porta da varanda
e visse a fera correndo em meio à escuridão

Bati a porta sem me preocupar se ela iria desabar com o estrondo. No segundo seguinte,
dei de frente para o cano da espingarda.
— Quer me matar ou morrer, Lucas?
Lúcio abaixou a arma e seu rosto pálido surgiu.
— Desculpe. — Eu estava nu, então, procurei vestir umas calças. — Não pensei que
estivesse em casa.
— Eu realmente estava com as chinas, mas hoje foi bem rápido. — Lúcio ia quase todos
os dias às chinas. Elas faziam sexo com a gente, mesmo sabendo da nossa condição. Algumas
até gostavam que fôssemos mais brutos, o que era a nossa sorte. — E você, por onde andou?
Não respondi. Estava com muita raiva. Raiva do meu desejo, raiva de Karen, raiva da
maldição desgraçada que aqueles índios filhos da puta haviam jogado sobre nós.
— Por aí.
— Foi atrás dela não foi?
Ergui o olhar e o fitei. Conhecíamo-nos demais. Éramos só nós dois, desde sempre, e
tudo o que teríamos seria um ao outro, até o fim.
— Eu não consegui evitar. Sentiu o cheiro dela?
Lúcio sorriu e eu vi que ele tinha sentido. Era impossível que não tivesse sido tomado
por aquele cheiro de fêmea.
— Para falar a verdade, até salivei. É o quê aquilo? Tesão? Período fértil, talvez?
Resmunguei e fui até a geladeira pegar uma água, balançando a cabeça em negativa às
hipóteses de Lúcio.
— Só sei que me deixou doido. As chinas não têm aquele cheiro, Lúcio. Mal fui embora
do jantar e vi minhas garras crescerem!
Lúcio arregalou os olhos.
— Foi pego de surpresa, certamente. Precisa se controlar, cara. — Finalmente ele
pendurou a espingarda no prego na parede. — Ou o melhor é sumir por uns tempos. A
distância é o melhor jeito de se manter fora da tentação. Se acontecer de você se descuidar e…
— Não vai acontecer, tá?! Eu sei me controlar.
Meu sangue corria rápido e tive vontade de voltar a correr e me perder em meio à mata.
A verdade é que eu já estava perdido de desejo por ela.
Lúcio apenas me observava, deixando claro que não acreditava em uma só palavra das
que eu acabara de dizer.

Karen

— Kari?
— Ah! Graças a Deus! — Soltei o ar com força. — O que foi? Tá de folga? São quase
oito horas e você ainda dorme?
— Ei, calma lá… Que eletricidade toda é essa? Estou acamada. Eu te disse que era a
hérnia, não disse?
Revirei os olhos e tentei medicá-la, como sempre, mas Dani me cortou, dizendo que
estava tudo bem e que eu apenas lhe contasse a novidade, para distraí-la da dor. Eu estava
louca para isso.
Contei-lhe tudo com riqueza de detalhes.
— E é isso, Dani. Ao menos, terei o que fazer durante essas férias forçadas — arrematei,
após contar-lhe sobre os irmãos deliciosos, a empregada atenciosa e o velho bizarro.
— Cuidado, Kari… Não vai se meter com dois irmãos de um lugar que você nem conhece.
— Que dois irmãos, Dani?! Tá louca? Eu tô de olho no cabeludo, no Lucas. O outro é
um gato, mas me pareceu meio safado demais. O Lucas tem o tal olhar feroz, faminto, mas me
parece ser um homem gentil e educado… E é ainda mais gostoso que o irmão, acredite.
— Mesmo assim, se cuida. E aproveita, porque você está mesmo precisando, mas se
cuida.
Despedimo-nos após mais algumas fofocas e queixumes sobre o tamanho dos
pernilongos que encontrei, mas tratei de desligar após escutar os gemidos disfarçados de dor da
minha amiga.

Por mais que espiasse pela janela, desse indiretas à Edmeia e rondasse os jardins, não vi
sinal de Lucas naquela manhã. Almocei sozinha na mesa de doze lugares e fiquei
bisbilhotando as estantes, sem encontrar nada que me distraísse.
O olhar, a boca e os ombros de Lucas ocupavam a minha mente. Eu estava em fogo por
aquele homem, o que era provável resultado de tanto tempo sem sexo. Ter alguém sem
cobrança e sem precisar me preocupar com as opiniões alheias seria muito bom. Uma boa
aventura me deixava excitada.
— Dona Karen, gostaria de um café?
— Sim — respondi de pronto. Aceitaria qualquer coisa que me levasse a uma interação
— Seria ótimo.
Acompanhei Edmeia até a cozinha e me sentei à mesa, aguardando que ela colocasse
água na chaleira e pó no coador.
— E então… O que os irmãos fazem o dia inteiro?
Ela virou-se para mim e parecia não entender sobre o que eu estava perguntando. Levou
alguns segundos para captar.
— Bem… Eles coordenam a tal da reordenação florestal ou algo assim. Só sei que estão
conseguindo tirar dinheiro e trazer a mata de volta. Trabalham duro esses meninos.
— E eles fazem isso em todas as fazendas por aqui? Viajam muito? E suas famílias?
— Não viajam muito não, as fazendas são próximas. E são só eles dois… — Ela me
olhou de soslaio e eu me ajeitei na cadeira, incomodada. — Dona… Qual que é o seu interesse
nesses dois?
Fiquei ainda mais desconcertada pela direta de Edmeia.
— Me interesso pelo trabalho deles. Quero saber se têm como se sustentar, caso eu
venda a fazenda.
Edmeia estreitou os olhos enquanto despejava a água fervente no coador de pano.
— Isso vai ter que perguntar a eles. Mas eu percebi os olhos cumpridos ontem à noite,
tanto da dona, quanto do Lucas e se me permite… — Ela deixou o café coando e encostou o
quadril na bancada, cruzando os braços sobre o peito e me olhando diretamente. — Não se
mete com ele não, Dona Karen. É moço direito, mas não é uma boa ideia a dona se engraçar
com ele.
Ergui as sobrancelhas, surpresa. Ela me pareceu gostar muito nos rapazes na noite
passada, e agora, me alertava contra o Lucas?
— Por quê? Por acaso acha que sou uma virgenzinha ingênua, Edmeia? Acha que o
Lucas pode partir meu coração?
Ela franziu o cenho e meio segundo depois rompeu em uma risada curta, mas
espontânea.
— Ele pode partir mais que isso, Dona… — E bateu na cabeça com a ponta do
indicador. — Ele pode dá um nó na tua cabeça. Ninguém aqui se engraça com eles, acho bom
seguir o exemplo.
Então, a mulher virou-se e se concentrou em servir nosso café, falando sobre a safra de
cacau e dando por encerrado o assunto. Fiquei pensativa, intrigada, mas ainda mais atiçada em
conhecer melhor aquele homem.
Eu nunca havia montado em um cavalo, então, quase me grudei à sela, quando Sebastião
me ajudou a montar, e saímos em “marcha lenta” pela fazenda. Chegamos a uma área repleta
de eucaliptos e o perfume invadiu minhas narinas. Ao longe, escutei vozes, mas antes que
pudesse avançar, Lucas surgiu à minha frente.
— Bom dia, Karen. — Me saudou com intimidade, mas eu não me importei. Então,
cumprimentou Sebastião com um aceno silencioso. — Conhecendo a fazenda?
Não pude deixar de reparar no peito exposto, através dos botões abertos da camisa, e me
arrepiei com o olhar faminto que me lançou.
— Ela é muito bonita e produtiva também. — Olhei na direção de onde vinham as vozes,
querendo captar a do Lucas, dentre elas. — Seu irmão está à frente da produção também ou
apenas você?
Lúcio abaixou o rosto e sorriu, disfarçadamente.
— Fazemos tudo junto, Karen. — E ergueu seu olhar lascivo. — Cuidamos da fazenda,
do projeto Sintropia e do nosso próprio sítio.
Apenas concordei, sentindo que aqueles eram três pontos importantes demais para Lúcio.
Certamente, estavam na expectativa de saber sobre o destino da Luz do Luar.
— O que estão fazendo ali? — E empinei o queixo na direção de onde vinham as vozes e
uma a fumaça de terra, que pairava no ar, vez ou outra.
— Preparando um novo terreno. — Lúcio se aproximou e acariciou minha montaria.
Seus olhos subiram maliciosos por minhas pernas e, apesar de não ficar indiferente a isso, não
eram bem os olhos dele que eu queria sobre mim. — Lucas está orientando o pessoal.
Tornei a cumprimentá-lo e pus o cavalo para andar. Precisava ver o projeto e também o
Lucas. Não necessariamente nesta ordem.
Subi o pequeno monte ainda montada e cheguei até um descampado, onde muitas
pessoas aravam e plantavam diferentes tipos de mudas. Vasculhei a área e não o vi, mas
quando puxava as rédeas para retornar, conformada de que fora sido enganada por Lúcio,
deparei diretamente com os olhos vorazes de Lucas.
Ele me observava sob a sombra de uma árvore. Usava os cabelos em um coque, uma
calça jeans surrada… e mais nada. Fui atraída pelo peito musculoso e moreno dele.
Rapidamente busquei os mais deliciosos “crushs” hollywoodianos da minha vida e não
encontrei um com quem pudesse compará-lo. Ainda havia aqueles olhos felinos, astutos. Sorri,
porque a meu entusiasmo em vê-lo era impossível de ser contido.
Desci do cavalo e caminhei até ele, me esforçando para erguer os olhos do seu peito e
não parecer grosseira.
— Olá, Lucas.
— Olá, Dona Karen.
Seu olhar me atravessava.
— E eu gostaria de pedir que me tratassem apenas por Karen. — Ele ergueu apenas o
olhar, contra a luz do sol. — Pensei que fosse aparecer hoje… Queria que me mostrasse os
projetos, as terras...
Ele sorriu lindamente e eu soube que estava sendo atirada demais. Nunca fui o tipo de
mulher desinibida, mas havia uma necessidade em mim, uma urgência em colocar as mãos
sobre esse homem que me faziam burlar velhos conceitos.
— O sol ainda está alto. Posso levá-la para conhecer as estufas de cacau, só preciso
tomar um banho.
Ele abriu os braços, me mostrando que estava suado. E de fato o estava. Sua pele
brilhava e me surpreendi desejando colar-me a ele mesmo assim, beijar seus ombros e lamber
cada gomo daquele abdômen.
— Tudo bem.
Lucas montou em seu cavalo e eu o segui, dispensando a desagradável companhia do
velho Sebastião

A casa dos irmãos era espaçosa e bonita, mas sem o menor luxo. Ficava entre árvores
frondosas e não muito longe da sede de Luz do Luar. Lucas indicou a cadeira da varanda para
que eu me sentasse e assim o fiz, enquanto ele tomava banho. Claro que me passou pela cabeça
entrar naquele banho com ele, mas já estava me sentindo oferecida demais para meu segundo
dia na fazenda. Relaxei e me permiti admirar as folhas balançando ao vento, os pássaros
descendo ao chão para alimentar-se… contagiei-me com aquela paz e acabei adormecendo.
Despertei assustada, com a mão dele acariciando meu rosto.
— Me perdoe, não quis assustá-la, mas precisamos ir enquanto há sol.
Ele cheirava muito bem, foi a primeira coisa que meu cérebro captou. Usava uma calça
jeans limpa e uma camisa de algodão simples e branca. Os cabelos molhados estavam soltos
em cachos que refletiam o sol em algumas mechas.
Não assustou. — Levantei e acabei trombando nele.
Senti a eletricidade correr pelo meu corpo e não consegui me afastar. Quando dei por
mim, estava deslizando a mão pelo seu peito, sentindo suas formas e seu calor. Ergui o rosto
me oferecendo inteira, abrindo os lábios para recebê-lo, sem a menor vergonha. Lucas me
segurou pela cintura e, enfim, me beijou.
Seus lábios macios sugaram os meus e a língua quente invadiu-me de forma violenta,
exigente. Colei-me inteira a ele, tendo seus braços a me apertar e conter. As mãos, grandes e
másculas, seguraram minha bunda, me puxando contra seu sexo e eu pude senti-lo em toda a
sua imponência. A minha imensa fome se fez presente e eu quis devorá-lo. Quis que ele me
comesse ali, naquela varanda, sobre o chão duro e frio. Quis que ele fizesse forte comigo, que
abusasse de mim até que eu não tivesse mais energia. Contudo, em meio ao fogo daquelas
carícias, ele deu um passo para trás e me soltou, assim, repentinamente.
— Isso é loucura!
Foi tudo o que disse ao abaixar a vista. Eu estava perdida, sem entender e ainda arfando
de desejo.
— Por quê? Você quer, eu também quero… Você tem alguém? É isso? — Ele não me
respondeu. Ficou ali, parado, mirando a lajota vermelha do chão e mexendo os dedos das
mãos, nervosamente. — Ei! O que está acontecendo? — Dei um passo à frente.
Queria tocá-lo novamente, sentir sua pele, sua força. Mas ele segurou meus punhos e me
encarou com olhos injetados e brilhantes. Um brilho estranho, perigoso.
— Melhor não, Karen. Eu não posso. — Desceu minhas mãos e só as deixou depois que
estavam largadas ao longo do meu corpo. — Para o seu próprio bem, vá embora. Sebastião
pode levá-la para ver a secagem do cacau.
A sua frieza me atingiu com mais significado do que eu poderia supor. Doeu. Mas
apenas assenti, mesmo sem entender o que estava acontecendo. Virei as costas e me dirigi ao
cavalo, sentindo-me pequena, vulgar e ridícula.

Lucas

A noite estava quente, talvez muito mais para mim do que para qualquer outro ser. Meu
sangue corria sempre mais rápido, era mais espesso também. A última vez que senti frio na
vida, tinha apenas cinco anos. Lembro-me de sentir frio na noite em que o meu destino e o do
meu irmão mudaram para sempre.
Encostei-me na árvore e apenas esperei. A luz do seu quarto ainda estava acesa e a vi
caminhar por ali algumas vezes. Senti-la em meus braços foi a melhor sensação que pode
existir. Nem de longe parecida com ter qualquer uma das chinas em meus braços.
Ela cheirava diferente, sua pele era diferente, seus lábios… mal podia lembrar como era
tê-la para mim e já começava a sentir todo meu corpo dar os primeiros indícios da fera. Era
sempre assim… Quanto mais eu me aproximava do clímax, quanto mais excitado eu ficava,
mais a transmutação se completava.
Com as chinas foi bastante assustador, no início, principalmente para elas, mas
pagávamos bem e algumas se voluntariaram para tentar deixar completar a mutação.
Lembro que ainda éramos muito jovens, eu e o Lúcio, quando prometemos nunca fazer
mal a nenhuma delas, mas acho que quando nos viam completamente transformados, quando
éramos apenas a consciência revestida em uma espécie de híbrido de humano e lobo, nenhuma
promessa era suficiente. Então, mediante bons pagamentos, permitiram que as usássemos com
os olhos vendados. Com o passar do tempo, já não precisávamos pagar tão caro. Além de
habituadas, as chinas passaram a apreciar as feras. Quem pode entendê-las?
A luz do quarto finalmente se apagou e eu fiquei mais atento. Apurei meu faro e minha
audição, utilizando os poucos benefícios que aquela maldição havia me dado.
Senti seu cheiro, mesmo àquela distância. Ao longe escutava seus batimentos e os ouvi
diminuir, gradativamente. O ressonar de sua respiração tornou-se pesada e eu tive a
confirmação de que ela dormia. Livrei-me das calças e permiti que o lobo chegasse.
Novamente corria em direção a ela, absorvendo as sensações com todos os meus
sentidos. Os cachorros começaram a latir e precisei intimidar um deles, que logo se encolheu à
minha passagem. Os demais fugiram uivando e latindo. Sabiam reconhecer um oponente
imensamente superior.
Escalei a parede e logo estava na varanda. A porta estava fechada, mas não seria
problema para mim. Eu precisava estar perto dela, sentir seu aroma na fonte.
Usei a garra para abrir a fechadura e empurrei a porta devagar. Deitada no centro da
cama, por trás do cortinado, estava Karen. Usava uma camisola curta e a mera visão da popa
da sua bunda me deixou duro. Além da mulher mais linda que conhecia, sem dúvida era
também a mais gostosa, sem falar no cheiro, é claro.
Agachei-me, pois não queria assustá-la com meu tamanho, caso ela despertasse. De um
canto escuro, fiquei a observá-la. Estava de bruços com os cabelos espalhados pelo travesseiro,
as alças finas da camisola descendo por suas costas e a elevação sensual de sua bunda
desenhava um corpo lindo. O lençol estava jogado displicentemente sobre o quadril, mas
deixava descoberta parte de sua bunda, por onde eu pude ver o fundo da calcinha.
Tentei respirar devagar, controlando os arquejos, enquanto a minha ereção pulsava cada
vez mais cheia de sangue e dolorida. Toquei-me, apenas para acalmar-me um pouco, mas
continuei quieto, sentindo o cheiro dela em minha língua. Esperei que a lua subisse mais e o
quarto entrasse em penumbra total, e aproximei-me, ainda agachado, sorrateiro como a minha
natureza ditava.
Cheguei aos pés da cama e suspendi o cortinado, passando-o por cima de mim. Sem
querer, minha garra acabou rasgando o tecido fino e eu praguejei. Não sei se ela me escutou,
mas virou-se na cama, ficando de barriga para cima e a minha danação foi completa.
Sem respirar, aguardei que ela parasse de se mexer. Ela jogou o lençol para o lado e
flexionou uma das pernas, deixando a outra esticada, com o pé a poucos centímetros de mim.
A minha visão turvou. Ela estava com a perna aberta bem na minha frente. A visão do
triângulo escuro, coberto pela renda branca, o cheiro excitante que ela exalava me deixaram
perdido. Os pelos na minha nuca eriçaram e eu precisei me conter para não rosnar. Como um
instinto, cheirei seu pé, apenas porque era tudo o que eu poderia cheirar. Queria subir mais,
porém, precisava me contentar com o pé.
A sua pele tinha um perfume adocicado, suave, diferente do cheiro do seu sexo, que me
entorpecia e atraía como uma deliciosa armadilha. Sem pensar muito no que eu estava fazendo,
deixando que o instinto primitivo me dominasse, comecei a lamber-lhe os dedos. Ela puxou o
pé a princípio, mas depois relaxou.
Suavemente, escorreguei a língua áspera entre seus dedos e precisei ser cuidadoso, para
não arranhá-la com meus caninos cres, e fiquei quieto, observando-a. Ela manteve-se imóvel,
até que, segundos depois, surpreendentemente, Karen esticou o pé em minha direção, como se
me pedisse mais carícias.
Fiquei desconfiado, espreitando, mas lentamente voltei a lamber-lhe os dedos porque
aquilo era só o que eu teria.
Minha virilha latejava e me toquei novamente, enquanto deslizava a língua entre seus
dedos, sentindo-me duro como pedra e quente, muito quente.
Ela gemeu mais uma vez e, com um movimento lento, cadenciado, moveu o quadril. A
nova posição acabou deixando seu sexo completamente exposto, coberto apenas pela ínfima
calcinha de renda. Em meu próprio sexo, sentia os fluidos minarem. Eu estava pronto para
enfiar-me nela, mas dolorosamente, sabia que isso seria um erro irremediável.
Continuei as minhas carícias, aspirando seu cheiro que me excitava cada vez mais. Como
Karen pouco se mexia, apenas gemendo baixinho, vez ou outra, fiz algo que jamais deveria ter
feito: com todo cuidado, apoiei as duas mãos na cama e pairei sobre suas pernas. Precisava
sentir aquele cheiro na fonte. E quando estava pronto para beijar-lhe sobre a calcinha, Karen
começou a abrir as pernas, lentamente. Ergui a cabeça, alarmado, e grudei os olhos nela. Meu
coração disparou, temendo que ela acordasse e desse de cara comigo naquela forma animal e
assustadora. Apurei a audição e verifiquei que, apesar do seu coração estar um tanto acelerado,
a respiração seguia suave. Ela ainda dormia.
Sem desviar meus olhos do seu rosto tão lindo, enfiei uma garra sob a alça de sua
calcinha e a cortei. Desci meus olhos para seu sexo e até meneei a cabeça, quase gemendo de
satisfação. Tinha pelos aparados e finos, que guardavam uma joia rara.
Sustentando meu peso nos braços, desci a cabeça aos poucos e inspirei profundamente.
A fome veio forte junto com o desejo e a ânsia de possuí-la.
Quase com uma reverência, deitei o tronco entre as suas pernas muito abertas e me
aproximei, deslizando a língua áspera por fora, explorando suas dobras e, por fim, acariciei seu
ponto mais sensível.
Embora estivesse tonto de desejo, me mantive atento, pois não poderia ser surpreendido
e, desta forma, vi quando suas mãos agarraram o lençol e ela gemeu. Esta visão foi
combustível para mim. Aprofundei minhas lambidas, penetrando-a com vigor, arrancando
gemidos de Karen, que seguia de olhos fechados e eu já não saberia dizer se ainda dormia e
pensava estar sonhando, ou se estava em tal estado de torpor, que não se dava conta da
realidade.
Perdi-me naquele paraíso de sabor e perfume sem igual. Eu comi Karen com a minha
língua, meti duro e impiedoso, deslizei pelo clitóris, acelerando os movimentos, depois
penetrando de uma vez e, em uma dessas vezes que me enfiei dentro dela, senti seu gosto
agridoce em minha língua. Karen se contorceu e gemeu alto, me assustando e me fazendo
recuar. Saí de dentro de suas pernas e me ajoelhei ante os pés da cama. Ela ainda gemia e
apertava as pernas em gozo. Não pensei, não ponderei, simplesmente me ergui e parti o mais
depressa que pude. Eu ainda ardia de desejo e se ela acordasse só haveria dois caminhos: matá-
la de susto ou fodê-la insanamente, mesmo sem a sua vontade.

Karen

Era uma sensação maravilhosa. Parecia que alguém me chupava, mas era algo mais
bruto, mais selvagem do que um simples sexo oral. Uma sensação boa de abandono, de
desorientação, como se estivesse drogada e injetada de prazer. E quando um tantinho de
consciência chegou e me dei conta de que estava na fazenda, sozinha e que seria impossível
estar fazendo sexo com alguém, acordei assustada.
Arregalei meus olhos para conseguir enxergar algo em meio à escuridão. Não havia
ninguém, mas a porta da varanda estava aberta. Então, vi minha calcinha arrebentada em uma
das laterais e mais... eu havia gozado. Ainda estava molhada, bem molhada.
O que havia acontecido?!
Levantei e fui até a varanda. A lua iluminava parcamente, mas pude perceber um vulto
ao longe. Não consegui precisar se era gente ou animal, mas havia algo ali. Fechei a porta
assustada e voltei para a cama. A mente funcionava rápido, mas sem chegar a ponto algum.
Olhei a cama buscando respostas, então, percebi fios de cabelos castanhos. Segurei-os
em meus dedos e notei que eram grossos, como pelos. Cheirei o lençol e havia um odor
familiar, mas que não fui capaz de identificar.
Meu Deus, o que havia acontecido ali?!
Vesti uma calcinha nova e me deitei, mas não consegui dormir. Ainda sentia a
eletricidade do gozo correr meu corpo. Ainda sentia a língua dura a me penetrar e tudo era
apenas uma grande, uma enorme confusão.

Como não consegui pregar os olhos, estava sentada à mesa logo cedo, aguardando que
Edmeia servisse o café. Ainda estava intrigada com o que julguei ser um sonho muito estranho,
quando Lúcio e seu irmão entraram na sala. Percebi que Lúcio abaixou o olhar assim que me
viu.
— Bom dia, Karen. — Lucas me cumprimentou com um sorriso largo e sem vergonha,
como lhe era característico.
— Bom dia. — Meus olhos estavam em Lucas. A cada vez que nos víamos, ele me
parecia mais lindo e sedutor. — Tomem café comigo, por favor.
Ambos se sentaram e eu vi o Lucas fugir do meu olhar todas as vezes que o busquei.
— Conseguiu conhecer toda a fazenda? — Lúcio servia-se enquanto, ao contrário do
irmão, me fitava diretamente.
— Não. Lucas irá me levar hoje, não é Lucas?
Só então ele me encarou. Havia um vinco entre suas sobrancelhas.
— Desculpe, mas precisarei ir até o centro fazer umas compras.
Droga! Por que está fugindo de mim?!
— Que ótimo! Irei com você, então. — O encurralei. — Preciso comprar umas coisinhas
pessoais. — Ele não iria fugir de mim!
Lucas não me respondeu, mas notei quando Lúcio olhou para o irmão com uma
expressão incrédula. Lucas também o fitou e então, balançou a cabeça, evitando manter seu
olhar em mim.
— Tudo bem. Irei mais para o final da manhã. Passo aqui e pego você.
— Obrigada.
Ambos sorriram, não com a mesma intensidade, mas com a mesma beleza.

Depois que os irmãos nos deixaram, ficamos apenas eu e Edmeia. Comecei a ajudá-la
com a louça — apenas um pretexto para puxar assuntos tolos, até que consegui deixá-la
bastante relaxada.
— Edmeia, escutou algo estranho ontem à noite?
— Não… De que tipo?
Como poderia dizer àquela mulher que alguém, ou algo, entrou em casa e me chupou até
me fazer gozar alucinadamente?
— Não sei… costumam entrar bichos ou pessoas à noite?
A bandeja de inox escorregou das mãos da mulher e se espatifou no chão, espalhando
restos de café e bolo. Eu a olhei, ambas assustadas.
— Tudo bem? — perguntei, genuinamente preocupada.
— T-tudo bem… — nos abaixamos juntas, para juntar os cacos de xícara espalhados —
Acho que coloquei muita coisa na bandeja.
— Edmeia... — segurei em sua mão, quando ela apanhava o último caco. — O que há de
errado com o Lucas? Por que ele é tão arredio?

Edmeia se desvencilhou de mim e levantou-se, evitando meu olhar.

— É o jeito dele mesmo, Dona Karien. Ele sempre foi tímido.

— Edmeia, acho que ele entrou em meu quarto esta noite. Ou ele ou Lúcio, mas algo me
diz que foi ele e eu preciso saber.

O pavor estava estampado no rosto da mulher.

— Misericórdia, menina! Como pode ter entrado?! Eles sabem que não podem! Sabem
que é peri...

A mulher estava apavorada e falava de forma estranha, como se falássemos de algo


aterrorizante e não apenas indevido, com seria um deles entrar sorrateiro durante a noite. Além
do mais, havia sinais sutis e alarmantes, como seus olhos arregalados e a face pálida, que
denotavam tal diferença.

— Por que perigoso? Perigoso para mim ou para ele? Acha que foi o Lúcio ou o Lucas?
Por que o Lucas mal me olhou hoje no café da manhã? Por que ele me recusa, quando está
claramente me desejando?

Edmeia deu um passo para trás, ainda mais estupefata, se é que isso era possível.

— Ele não seria tão louco… se afaste, menina. Se ele te recusa, o melhor é deixá-lo em
paz.

A mulher não esperou, tomou o caminho da cozinha e quando decidi segui-la, já não a
encontrei.

Algo estranho havia ali e eu precisa entender.

— Você teve um orgasmo sonhando?! Amiga, já escutei isso sobre garotos, mas sobre
uma mulher adulta como você?!

— Não sacaneia, Dani. Foi tão real que estou quase certa de que não foi um sonho.

— Então, você acha que o tal gostosão, o Lucas, pode ter entrado e feito sexo oral em
você? E por que não completou o serviço?

— Também queria saber. Além do mais, tem o pelo, Dani… O que fazia um pelo em
minha cama?

— Bem, se foi ele, pode ter sido pelo do cavalo que ele monta, que veio grudado na
roupa.

É... fazia sentido. Além do mais, havia o cheiro que não me saía da memória.

— Vou ter que buscar respostas e bem rápido. Hoje cedo quase pulei em cima dele,
Dani. Acho que quero tanto que tenha sido ele, que estou começando a fantasiar.

— Está caidinha, né Kari?

— Não sei, Dani. Só sei que entro em combustão a cada vez que o vejo. Sonho com ele,
quero tocá-lo a todo instante... Estou obcecada.

— Então, vá à luta. Questione, pergunte! Agarra esse homem, menina!

Rimos juntas e nos despedimos minutos depois. Precisava me arrumar e apostar todas as
fichas nessa ida ao centro. Lucas não teria escolha.

Desci as escadas da frente da casa me sentindo a mulher mais sexy, poderosa e gostosa
do universo. Havia caprichado no banho, na depilação, no hidratante. Usava um vestido curto e
soltinho, com sandálias, e usava os cabelos soltos. Por baixo, uma micro calcinha e nada mais.
Subi em seu jipe e o encontrei de boca aberta. Bingo!

— O que foi?

Ele me olhou de cima a baixo e sorriu apertando os lábios e balançando a cabeça, como
se dissesse “você não tem jeito!”. Sorri de volta.

— O que precisa comprar? Terei que ir à casa de ferragens, de ração e também ao


cartório.

— Camisinhas. — Pela visão periférica vi que ele me olhou, mas logo voltou a atenção à
estrada. — Também preciso de lubrificante e uma lingerie nova. Sabe onde posso encontrar?
Quando o olhei, ele estava rindo.

— O que pretende com isso, Karen?

— Não é óbvio, Lucas?

Ele não respondeu. Apenas manteve seu olhar fixo na estrada. Também não retruquei. O
que eu poderia dizer? Olhei as plantações ao longo da rodovia. O sol estava alto ainda, então,
ergui meu vestido até quase aparecer a minha calcinha. Ele até tentou, mas não conseguiu
disfarçar as olhadas gulosas.
— Aproveitando o sol. Importa-se? — provoquei.
Ele negou com a cabeça, mantendo o sorriso debochado nos lábios.
— Qual o caso, Lucas? Me conta... Você tem alguém? Tem alguma doença? É um
psicopata? É gay ou ainda não se decidiu?
Ele começou a rir, mas depois ficou sério.
— Sou solteiro, não sou psicopata e muito menos gay”. Sim, tenho uma espécie de
doença, mas não é contagiosa. É apenas algo que me impede de seguir com essa loucura que
começamos.
Doença?! Deus do céu…
— Vai me dizer que é impotente?! Eu bem senti toda a sua vontade, quando nos
beijamos na sua casa.
Desta vez ele gargalhou.
— Desse mal não sofro, Karen.
— Então, por que diabos está me evitando? — Estávamos chegando à cidade e ele
diminuiu a velocidade do carro. — Sinto que me deseja, então, por que não faz sexo comigo?
Lucas parou o carro e me olhou por trás das mechas de cabelos castanhos que o vento
bagunçava.
— Nunca desejei tanto uma mulher, Karen. Mas não sou como qualquer outro homem.
Já lhe disse que não posso.
Sem perceber, desci os olhos para o seu sexo. O que havia de errado como ele?! Mais
uma vez sua gargalhada rouca rompeu meus pensamentos.
— Está louca, mulher? Está tudo em perfeita ordem aqui embaixo.
Deus do céu… A beleza e a masculinidade daquele homem me deixavam tonta. Então,
avancei sobre ele, apoiando-me em seu peito musculoso e quase colando minha boca à sua.
— Então, vem para a minha cama hoje!
Imediatamente senti Lucas enrijecer, mas não foi na parte do seu corpo que eu gostaria.
Ele se afastou e seu humor desapareceu.
— Por que não vamos às compras primeiro?
E antes que eu pudesse protestar, ele escapuliu do jipe e de mim.

Antes de ir às compras, passei na lanchonete próxima de onde paramos o carro. Estava


calor e eu realmente precisava me refrescar. Aproximei-me do balcão, pedi um refrigerante e
virei de costas, observando o movimento da rua. Lucas conversava com uma senhora na
calçada oposta e eu fiquei admirando aquele espetáculo de homem. Era alto, muito alto e forte.
Seus cabelos lindos iam até acima dos ombros e o sorriso iluminava tudo à sua volta. Lúcio era
inteligente, um tesão da cabeça aos pés, não era rico, mas tinha sua casa e seus projetos…
Como um homem desse pode ser solteiro ou, ao menos, não ter uma multidão de mulheres se
matando por ele?
— Quem o vê sorrindo assim, nem imagina, né não? — A mulher me assustou, quando
colocou o refrigerante sobre o balcão e interrompeu meus devaneios.
— Está falando daquele rapaz do outro lado…
— Lucas. Não é ele que a moça tá aí besta, olhando?
Oi?!
— É… Acho que sim.
— Ele é um rapaz muito bonito, assim como o irmão. É realmente uma pena, se é que a
história é verdade.
Virei de frente para a mulher, me debruçando sobre o balcão e sugando o refrigerante
pelo canudo. Fiquei curiosa.
— Que história?
— Não sabe? Ah… Deve ser de fora, não é? — Ela fez uma cara de desdém, mas
prosseguiu. — Contam as “matildes” que esses dois são amaldiçoados. Uma história mal
contada, envolvendo índios. Dizem que viram vampiros, chupa-cabra, algo assim, nas noites
de lua nova. Ou seria lua cheia? Não... lua cheia é o lobisomem, não é? Enfim! Tem essa
maldição e vou te dizer uma coisa... eu nunca vi esses dois com mulher alguma e nem com
amigos.
Os pelos da minha nuca arrepiaram, pois logo me lembrei do “sonho” estranho que tive e
do pelo que encontrei em minha cama.
— Você acha que são gays?
A mulher gargalhou exageradamente.
— Olha para aquilo ali, filha! — E apontou o belíssimo exemplar de macho, do outro
lado da rua. Lucas fazia a minha boca encher d’água. — Vê se aquele homem tem algo de gay!
É, eu precisava concordar com a mulher. Nem Lucas e nem Lúcio eram gays,
definitivamente.
— E por que acha que essa maldição os faz virarem essas coisas aí?
— Eu não acho nada. É o povo quem diz.
Paguei pelo refrigerante, me despedi e saí. Aquilo não passava de balela de gente
ignorante. Coisa de gente invejosa e que, por não entender como dois homens como aqueles
viviam como eremitas, inventam crendices. E eu começava a me achar tão ignorante quanto.

Lucas

Tomava uma cerveja, sentado no carro, enquanto esperava Karen voltar das compras. Ela
despontou na esquina e eu a segui com os olhos. Ela vinha segurando o vestido que o vento
tentava levantar. Seus cabelos se emaranhavam e eu comecei a rir, vendo-a toda atrapalhada
com sacolas, lutando contra o vento. Que pernas! As mulheres olhavam para ela horrorizadas e
os homens, babando. E Karen? Alheia a tudo, completamente desligada e perdida, olhando
para todos os lados, em busca de onde eu havia estacionado o carro. Dei um sinal de luz e ela
sorriu para mim.
Sim, sou seu salvador.
— Aqui não tem multa por beber e dirigir? — Lançou as sacolas no banco de trás e
entrou. O vento subiu seu vestido, me dando a visão de uma bunda espetacular.
— Até tem. O que não tem é guarda para fiscalizar.
Karen riu e balançou a cabeça em negativa, enquanto eu manobrava o carro e pegava a
estrada secundária para fugir de uma possível multa.
— Comprou tudo o que precisava? — Era apenas uma forma de puxar conversa.
— Sim. Por que o interesse? Pensa em usá-los comigo?
Ela não perdia tempo. Se soubesse o quanto me perturbava com essas insinuações... O
quanto me tirava do eixo… Talvez devesse ter um pouco mais de juízo.
— Já te disse que não posso, Karen. Adoraria, mas não posso.
Deus! Já me sentia endurecer com a simples ideia de comer essa mulher.
— Já sei… você tem uma doença, né? — Seu tom era de chacota. — Tem a ver com a
tal maldição?
Meu coração deu um baque e quase parou. Olhei para ela, para saber se estava
brincando, mas ela continuava séria. Voltei a mirar a estrada.
— Que porra é essa de maldição?
— Foi o que disse a mulher da lanchonete. Que você e seu irmão têm uma maldição.
— E você acreditou nessa merda?!
Karen desviou o olhar.
— Claro que não, mas queria entender. Queria entender o porquê. Não sou feia, sei que
você me deseja, estou aqui, me oferecendo inteira e você, um cara aparentemente saudável,
solteiro e lindo, fica aí me dizendo que não pode, sem explicar merda alguma! Você não é gay,
então... Será que me enganei? Você não sente tesão por mim?
Que loucura! Onde aquilo iria chegar?
— Claro que sinto, droga! Fico de pau duro toda vez que você me olha, toda vez que me
sorri… — olhei para ela — ...assim, como agora.
Vi Karen olhar para a minha ereção e isso deveria me constranger, mas me excitei ainda
mais.
— Para com isso, tá? Eu não posso e pronto!
— Mas quer, não quer? Porque eu quero e muito! — Sua expressão sapeca me deu
vontade de rir.
Aquilo não estava sendo saudável. Eu estava tão duro, que meu sexo doía contra a calça
jeans. O desejo crescia e ela estava ali, doida para me dar. Que espécie de louco eu era?!
— Com uma condição. — Ok, o tipo de louco que diz algo assim.
Ela deu um pulinho e sentou sobre as pernas, excitada, de frente para mim.
— Qualquer coisa!
Que merda eu estava fazendo?!
— Sem ver e sem tocar.
— Como assim?!
Eu não olhei para ela. Não queria ver sua decepção.
— Eu vou te comer bem gostoso, mas você estará de olhos vendados e, se não se
comportar, também amarrarei suas mãos. Mas prometo que não vai se arrepender. — Só então
tive coragem de encará-la. Karen estava parada, olhos arregalados e boca entreaberta. — É isso
ou nada, gatinha.
— Você não vai nem me explicar o motivo?
Droga! Era uma droga bem grande o que eu estava pedindo a ela, mas rezava para que
aceitasse.
— Não agora. Talvez depois, não sei. Mas você vai precisar confiar em mim.
Ela não me respondeu. Voltou a sentar direito no banco do carro e ficou olhando para
fora, quieta, absorta. Isso me assustou. Meu coração pulava dentro do peito.
— Aceito. — Sua voz foi fraca, mas audível.
— Tem certeza? Não quer pensar mais um…
— Eu quero você e sei que não me fará mal. — E me olhou direto nos olhos,
profundamente. — Eu aceito.
Karen

Terminei de espalhar o hidratante no corpo e vesti a camisola nova que havia comprado.
Minha cabeça rodava, pensando nas condições do Lucas. Eu sei, eu estava sendo
completamente louca, irresponsável e indo contra meu histórico de boa moça. Mas era só
lembrar aquela boca, aqueles olhos e o corpo magnífico para o juízo escorrer pelo ralo, como a
água do meu banho.
Disse a ele que deixaria a porta aberta, mas ele me disse que deixasse apenas a porta da
varanda aberta e o esperasse deitada e vendada. Honestamente vendada.
Lutei com este dilema a tarde inteira, digladiando sobre ser honesta ou não, ao vendar os
olhos. Por um lado, eu estava me colocando nas mãos de um estranho e seria prudente deixar a
venda folgada. Por outro lado, se ele percebesse que eu estava sendo desonesta… bom, tudo
estaria acabado.
Escovei os cabelos e, com mãos trêmulas, amarrei a venda bem forte em meus olhos.
Engatinhei sobre a cama e fiquei sentada, aguardando. Meu corpo sofria espasmos de nervoso
e o mínimo barulho me assustava. Então, senti o vento soprar mais forte e sabia que ele havia
chegado.

Lucas

Ela estava ainda mais linda do que na noite anterior. Como combinado, estava vendada e
eu fazia um esforço absurdo para conter a transformação. Estava muito excitado, mas não ao
ponto de ser tomado pela fera que habita em mim. Eu conseguia controlá-la, até certo ponto.
Às vezes, simplesmente dava-lhe lugar quando sentia a mínima excitação. Hoje, não seria o
caso. Hoje, seguraria o máximo que pudesse. E respirei fundo, buscando essa confiança em
mim. A confiança de que conseguiria conter o lobo.

Karen

— Lucas?
— Olá, docinho. — A sua voz me confortou, embora meu coração pulsasse em meus
ouvidos. — Você está uma delícia, sabia?
Senti que subiu na cama e tremi, nem sei bem se de excitação ou de medo, ou ambos.
— Vendei direito, como me pediu.
— Eu sei. — Ele se aproximou e segurou a minha cabeça entre suas mãos. — Eu confio
em você e quero que confie em mim. Agora, vou beijar e amar cada parte desse corpinho lindo
e então, vou te fazer gemer, tremer e me pedir para te comer com força.
Minha calcinha, que já estava molhada, tornou-se imprestável.
Gemi contra a sua boa e me dissolvi inteira quando ele me invadiu com a língua mais
grossa do que eu conseguia lembrar. Suas mãos deslizaram dos meus ombros para os pulsos e
tornaram a subir, puxando a camisola junto.
Eu sentia a excitação crescer, vertiginosamente, a cada frase sussurrada, a cada contato
entre nossas peles. Sabia que estava me admirando e eu também queria admirá-lo, mas
combinado era combinado e eu não iria traí-lo.
Quando as mãos quentes de Lucas me tocaram, foi um choque. Ele segurou a minha
cintura e me forçou a deslizar pela cama, até deitar. Fechei os olhos por trás da venda, para não
ceder à tentação de olhá-lo, e meus sentidos foram apurados. Ele me cheirava, esfregando seu
rosto contra a minha pele; suas mãos tinham um toque diferente, ásperas em algumas partes e
macias em outras. Fiquei intrigada com aquilo. Não havia percebido seu toque assim.
Queria tomá-lo, arranhar suas costas, agarrar-me a ele, mas me contentei com seus
dentes arranhando a minha pele sensível, com seu corpo forte esfregando-se ao meu.
Instintivamente, ergui o quadril em busca de mais contato, em busca do seu sexo em minha
intimidade. Ansiava por isso, necessitava tê-lo dentro de mim.
— Lucas… eu quero você...
Ele avançou sobre mim e colocou a boca em meu ouvido. Sua respiração era ruidosa,
forte, profunda e violentamente excitante. Podia sentir seus lábios úmidos contra meu lóbulo,
enquanto as unhas arranhavam minhas costas. Então, por fim, ele deitou-se sobre mim e eu
senti seu membro entre minhas coxas. Meu coração disparou e, mesmo sabendo que deveria
me preocupar com o tamanho que senti ali, tudo o que eu consegui pensar era que o queria
inteiro em mim.
Eu me ofereci, me esfreguei e arfei, arqueando as costas quase em desespero. Lucas
escorregou pelo meu corpo e senti algo que pareciam pelos macios. Não me lembrava dele ter
tantos pelos em seu corpo e, nessa hora, senti um foco de pavor na boca do estômago.
Lembrei-me da mulher da lanchonete e de suas histórias mirabolantes, lembrei-me do pelo
sobre a minha cama, lembrei-me de Edmeia me dizendo para evitá-lo… E quando estava
prestes a mandá-lo sair de cima de mim, ele atacou minha intimidade de forma voraz e eu
gritei de tesão.
Sua língua áspera era exatamente igual ao meu sonho, seus dentes arranhando a carne
delicada, a língua me penetrando e sugando, fiel àquele sonho que, agora eu sabia, havia sido
real. Com urgência me abri e esfreguei meu sexo contra o rosto dele, gemendo alucinadamente
diante do crescente prazer que ele me dava. Lucas agarrou minha bunda e mergulhou ainda
mais fundo, como se quisesse me devorar e eu afundei em um gozo tão intenso quanto longo.
Ainda me encontrava no nirvana, quando ele me virou bruscamente e eu gritei de susto.
Lucas não falava e eu não fazia a menor ideia do que pretendia fazer comigo, então, me
agarrou pelo quadril, erguendo-o. Como uma cachorrinha no cio, ergui o traseiro para ele, me
oferecendo, esperando que ele destruísse o resto das minhas forças, ansiosa em ter todo aquele
homem dentro de mim.
— Lucas… — Eu balbuciava seu nome e, em resposta, escutava apenas a respiração
exasperada e, por vezes, um grunhido estranho, porém sexy. — Tem camisinha no criado-
mudo. — Ele cessou as carícias e então, escutei-o pegar os pacotes dos preservativos, mas não
escutei abri-los. — Não vai usar?
— Vou sim, mas as minhas. Estas são pequenas. — Sua voz estava mais grossa, rouca.
Arfei.
— Vá devagar, ok? Tem um bom tempo que…
— Sss… — Voltou a debruçar-se sobre mim e sussurrou rouco ao meu ouvido. — Vou
cuidar de você, confie.
Então, voltou a erguer-se, deslizou a mão grossa e grande desde a minha bunda até a
minha nuca, empurrando a minha cabeça contra a cama e me fazendo empinar ainda mais.
Mordeu minhas costas e eu arqueei, tremendo de tesão, flutuando de excitação, de uma forma
que jamais imaginei ser possível. E quando Lucas esfregou a ponta do seu membro em meu
sexo, deslizando em nossos fluidos, forçando sua entrada, respirei fundo. Senti-me virgem
outra vez, sendo invadida, deflorada. Agarrei os detalhes entalhados da cabeceira da cama,
temerosa pela dor que sentiria, ao mesmo tempo em que me empurrava contra a sua ereção.
Lucas debruçou-se sobre mim e colou a boca em meu ouvido.
— Queria ser mais delicado... — Sua voz era gutural e, embora naquele momento não
me desse conta, muito pouco se parecia com sua voz verdadeira. — Mas não vou conseguir.
Perdão.
Não tive tempo de processar aquela informação, ele me invadiu, não de uma vez, mas
lenta e continuamente. Eu precisava de um tempo, pois ele era bem grande, mas ele nem me
deixou respirar. Senti Lucas me abrir, escorregar pelo meu canal, alastrando-o e me levando a
outro patamar de perversão, em um misto de prazer e dor alucinante.
Quando senti que estava totalmente preenchida e sim, havia conseguido comportá-lo,
estremeci de luxúria e rebolei. Ele pareceu enlouquecer com aquilo, pois, enquanto me
penetrava, arranhava minhas costas e meu quadril, mordia meus ombros e fazia sons estranhos.
Eu apenas percebia as dores das pequenas agressões se perderem em ondas de prazer
demasiadas. Aquele misto de dor e tesão era algo novo para mim e me vi surpresa comigo
mesma, ao constatar que quanto mais ele me dava aquela sensação, mais eu queria.
Foi em meio a delírios cegos e beirando o desespero, que rompi em um orgasmo
homérico! Agarrei-me aos lençóis, embolando-os em minhas mãos, apertando os olhos por trás
da venda e gemendo alto, quase chorando. Lucas acelerou suas investidas, forte, violento, me
sacudindo inteira e fazendo gritar de prazer, mas então… Ele simplesmente parou. E então,
livre da agonia da excitação aguda e dentre o silêncio do quarto, me dei conta de que ele
rosnava de forma assombrosa, de que suas unhas furavam de verdade a minha pele, e sua
respiração arranhada me causou arrepios temerosos.
Sem qualquer aviso, ele saiu bruscamente de dentro de mim. Doeu. E senti que havia
levantado da cama.
— Lucas? — Virei a cabeça para trás, em busca de resposta, mas diante do silêncio,
arranquei a venda dos olhos e encarei o vazio. Ele tinha simplesmente partido.
Fiquei alguns segundos tentando entender, ainda sentindo minhas carnes trêmulas de
prazer, mas completamente perdida.
O que havia acontecido?

Lucas

Quando a dor alcançou meu ombro e minha mão já estava coberta de sangue, parei.
Havia feito um buraco no tronco da árvore de tanto esmurrá-la. Sentia o sangue correr rápido e
aos poucos o lobo deixava meu corpo, dando lugar à frustração e ao ódio. Eu estava
conseguindo, estava quase lá, mantendo o lobo sob controle. A transformação havia iniciado,
mas eu estava conseguindo retardá-la. Pelos haviam crescido, é verdade, as garras, os caninos,
meu pau estava mais grosso e maior, mas eu estava conseguindo contê-lo. Estava caminhando
pelo prazer de maneira cuidadosa, avançando um passo de cada vez, rumo ao gozo humano,
mas daí ela rebolou e todo o meu controle ruiu. Senti a fera se apoderar e meus
instintos eram o de mordê-la, de enfiar-me com ainda mais força dentro dela, sem cuidado,
sem pena, como fazia com as chinas, liberando a fera e o meu prazer.
Aquilo não poderia acontecer, não com Karen. As chinas sabiam de tudo, aceitavam e
até gostavam, mas eu não tinha o direito de usar Karen assim, enganando-a. Eu a estava
enganando.
Escorreguei até o chão, ainda nu e chorei de agonia. Meu peito doía por tê-la deixado
daquele jeito, por ter fugido, quando tudo o que queria era fazer amor com ela por toda a noite
e depois vê-la adormecer em meus braços. Queria cuidar dela, protegê-la e nem mesmo me
importava mais que ela vendesse a maldita fazenda, desde que me deixasse ser seu e estar ao
seu lado.
Karen

O sol despontou e seus raios invadiram o quarto. Eu ainda estava na mesma posição,
encolhida na cama. A cabeça doía de tanto pensar e os olhos ardiam pela noite em claro.
O que havia causado aquela fuga? Porque desapareceu daquela forma?
Roía as unhas de ansiedade, esperando o dia raiar e assim, eu poder procurá-lo. Para
tentar entender.
Embora meu subconsciente ficasse me alertando de que naquele quarto não havia apenas
eu e Lúcio, de que algo sinistro me dividiu com ele, eu buscava um tanto de sanidade,
querendo crer que era apenas o Lucas. Mas eu precisava saber, precisava perguntar.
Saltei da cama, tomei um banho rápido e desci, passando por Edmeia feito uma flecha,
enquanto ela colocava a mesa do café da manhã. Não dei tempo para que questionasse nada.
Fui até o curral e pedi ao Sebastião que selasse um cavalo para mim, ignorando por completo o
fato de eu não ser exatamente uma amazona.
Galopei pela mata, contendo o medo de tudo à minha volta. Sim, eu estava com medo de
cair do cavalo, estava com medo de esbarrar em uma árvore, medo dos animais selvagens da
mata, medo do que me dividiu com Lucas, medo do que sentia em meu peito, mas nada se
comparava ao medo de nunca mais voltar a tê-lo.
Entrei na pequena fazenda e, ao me aproximar da sede, avistei Lucas e Lúcio sentados na
varanda. Lucas tinha a cabeça baixa, metida entre as mãos e Lúcio estava ao seu lado, com a
mão pousada em suas costas. A conversa cessou assim que me viram.
Lúcio se aproximou de mim e me ajudou a descer do cavalo.
— Bom dia, Karen
— Bom dia, Lúcio.
Ele me olhava com intensidade e, em qualquer outro momento, aquele olhar iria me
deixar desconcertada e até excitada, mas eu só conseguia pensar em Lucas.
— Preciso conversar com o Lucas.
— Ele não está bem, Karen. — Encarei Lúcio. — Por que não volta mais tarde?
Apesar de direto e firme, Lúcio era gentil em suas palavras, até mesmo carinhoso.
— Eu também não estou bem Lúcio, e preciso de explicações. Preciso que...
— Deixe-a, Lúcio. — Lucas me fitava de onde estava. — Eu e ela precisamos mesmo
conversar.
Vi a troca de olhares entre os irmãos e compreendi o imenso amor que havia entre eles.
A cumplicidade, a proteção. Senti certa inveja daquela relação. Eu, que era sozinha no mundo,
sonhei com isso a vida inteira, com esta simbiose, com alguém que cuidasse de mim como eles
se cuidavam.
Lúcio voltou a me fitar e acariciou meu rosto com doçura.
— Ele é a melhor pessoa que há neste mundo, Karen. Escute-o, por favor.
Eu apenas assenti e esperei que Lúcio se afastasse, antes de caminhar até Lucas.

Lucas não me olhou, mas pude notar que tinha os olhos vermelhos e o rosto inchado. Ele
havia chorado, e muito. Agachei-me à sua frente, forçando-o a me olhar, mas ainda assim, ele
abaixou os olhos. Cortou-me o coração ver um homem tão forte, auto suficiente como era,
sofrer daquele jeito, e me doeu ainda mais pensar que eu poderia ser a causadora de tamanho
sofrimento.
— O que eu posso fazer?
Lucas franziu a testa e, finalmente, me encarou, mas não respondeu. Apenas tornou a
abaixar a cabeça.
— Lucas… O que houve? Você me pediu para confiar e eu fui para a cama de olhos
vendados, sem ao menos questionar. Acho que você me deve esse voto de confiança.
Ele ergueu a cabeça e me olhou tão profundamente que me senti desnudada.
— Karen, eu não posso ter você.
— Por que não? — Meu estômago revirou e senti o prenúncio do desespero. — O que te
impede?
O vi respirar fundo, lutando contra si mesmo.
— Tenho um segredo terrível e você não pode fazer parte disso.
Eu sentia tanto medo de perdê-lo que me agarrei em seus braços e busquei seus olhos.
— Eu quero fazer parte disso! Eu preciso entender!
Ele sustentou seu olhar no meu. Em seu semblante eu lia claramente todo medo e toda
dúvida que o assolavam.
— Eu sou amaldiçoado. Meus pais destruíram uma aldeia, há mais de vinte e cinco anos.
Por interesses materiais, meus pais queimaram as plantações, as ocas… tudo. Os índios,
desesperados, amaldiçoaram a mim e ao Lucas.
Minha mente trabalhava a todo vapor querendo encontrar ali qualquer coisa que o
distanciasse da insanidade que a mulher da lanchonete havia contado.
— O que essa maldição tem a ver com você ter partido como partiu? O que essa
maldição faz, para impedi-lo de ser meu?
— Em meio à maldição, uma alcateia faminta encontrou os índios e interrompeu a
maldição. Meu avô nos contou, antes de morrer, que os lobos tinham uma espécie de magia e
alteraram a maldição. — Eu estava morta de medo do que iria escutar, mas não o interrompi.
— A maldição dizia que eu e meu irmão jamais teríamos prazer como homens, que seríamos
incapazes de dar continuidade à nossa família, porque jamais poderíamos chegar ao gozo como
homens e assim, fertilizar uma mulher, já que meus pais haviam tornado o solo deles infértil.
Tudo bem… Aquilo era uma loucura, mas fosse como fosse, se tratava apenas de
fertilidade. Contudo, algo me dizia que havia mais.
— E como os lobos alteraram a maldição?
— Mais tarde, após alguns anos, entendemos como se deu esta alteração. — Eu estava
ansiosa e tive consciência de que meus olhos estavam arregalados. Lúcio abaixou a cabeça e eu
entendi que se envergonhava. — Eu… eu… quando estou muito excitado, começo a…
Algo dentro de mim já sabia o que viria depois, mas também achava aquilo insano
demais. Eu precisava escutá-lo, então, segurei em seu queixo e o ergui, forçando-o a me olhar.
— Ei! Confie em mim e apenas fale. Quero te ajudar e quero você. Confie.
Ele assentiu e umedeceu os lábios, antes de jogar a bomba entre nós dois:
— Eu me transformo em uma fera, uma espécie de híbrido, meio humano e meio logo,
sempre que fico muito excitado e a transformação se completa no momento do gozo. Quando
gozo, sou quase que totalmente o lobo.
Minha boca estava aberta e, mesmo assim, o ar parecia não entrar.
— Ontem… foi por isso que fugiu? Por isso…
— Eu jamais te machucaria, Karen, jamais. Eu não ia te machucar. Fugi porque não
achei certo te possuir daquele jeito leviano. — Pisquei, segurando as lágrimas. Logo tudo fez
sentido para mim. Eu estava agachada, mas escorreguei até sentar no chão, pois minhas pernas
tremiam. — Eu nunca machuquei ninguém e você não merecia fazer sexo com uma fera, sem
nem ao menos saber disso.
Eu tentava coordenar os pensamentos e as dezenas de perguntas que queria fazer.
— Lucas, você já esteve com outra mulher?
— Claro, diversas vezes. — E Lucas me contou sobre as chinas e como elas foram, aos
poucos, aceitando ele e seu irmão. Eu estava fascinada. — Karen, eu jamais quis tanto alguém
como quero você e isso está me matando.
Apoiei-me sobre os joelhos e o abracei. Lucas me envolveu em seus braços e pude sentir
que ele estava tão apavorado quanto eu, com a possibilidade de perdermos um ao outro.
Quando saí de seus braços, ambos chorávamos.
— Olha... Eu preciso digerir isso tudo, ok? — disse, enxugando as lágrimas.
Ele abriu os olhos, temeroso, mas apenas assentiu e abaixou a cabeça.
— Preciso pensar, mas isso não quer dizer que estou desistindo de você. Apenas que
preciso de um tempo.
Por mais que eu tentasse tranquilizá-lo, era bastante evidente sua decepção. Segurei seu
rosto entre minhas mãos e o beijei com doçura, saboreando seus lábios, brincando suavemente
com sua língua, então, levantei e parti.
Lucas

Três longos dias e nenhum sinal de Karen. Eu trocava o dia pela noite, não conseguia me
concentrar e ainda tinha Lúcio ao meu ouvido, dizendo que deveríamos esquecer o projeto da
sintropia, porque, segundo ele, Karen iria vender a fazenda e desaparecer. Lúcio era alguém
completamente descrente do amor e para ele, ela estava perdida para mim. Eu não queria
aceitar essa conclusão, embora compreendesse meu irmão. Ele se preocupava comigo, assim
como eu me preocupava com ele. Éramos só nós dois e aprendemos a nos unir cada vez mais
ao longo dos anos, presos na maldição.

Karen

Embora não falasse uma palavra de alemão, me vi em sites alemães fazendo pesquisas
sobre licantropia, além dos sites em português, inglês e francês, que já havia visitado, mas tudo
que via era fantasia e folclore. Ou se fazia passar por isso. De nada adiantou toda a pesquisa e
me conformei com o fato de que a minha única fonte eram Lucas e Lúcio. Por isso, mandei
chamar o mais velho.
— Achei que só precisasse de Lucas.
Ele estava de pé na porta e sua figura me impressionou. Ele também era um lobo e agora
que estava ciente, podia ver claramente a sedução selvagem em seus movimentos e olhares.
— Desta vez, preciso falar com você.
Ele se aproximou e sentou na cadeira à minha frente.
— Não parece assustada. Sei que Lucas te contou tudo e, mesmo sabendo o que somos,
ainda me chamou aqui? Não tem medo?
— Não. — Eu o encarava com firmeza. — Vocês jamais me fariam mal.
Lúcio inclinou-se para frente, mantendo meu olhar.
— Lucas está apaixonado, Karen. Eu, não.
Também me aproximei, enfrentando-o.
— Não é a paixão que o torna dócil, Lúcio… é o caráter que sei, ambos têm. Você não
me assusta.
Ele sorriu e voltou a se recostar na cadeira.
— Você tem fibra. Fico feliz por Lucas.
— Fica mesmo? — Nossos olhos estavam fixos nos do outro. — Porque sei que também
me deseja.
— Claro que te desejo, Karen, mas amo o meu irmão.
— Se o ama tanto assim, nos ajude. Ele me contou que você tem… — Eu procurava as
palavras. — Que você tem mais experiência com as mulheres. Alguma vez viu a possibilidade
de não haver transformação no ato?
— Nunca. O lobo sempre vem.
Abaixei o olhar, criando coragem.
— O que elas dizem? As mulheres com quem esteve… o que elas dizem?
Lúcio sorriu maliciosamente.
— Pedem mais. — Arregalei os olhos. — Eu nunca gozei como homem, mas elas dizem
que com o lobo é muito melhor.
Senti minha face queimar de vergonha e, não vou mentir, de excitação. Eu não precisava
escutar mais nada, estava claro que ele tentava me seduzir e constranger.
— Ok, Lúcio. Obrigada por ter vindo. — Ainda sorrindo ele me cumprimentou com a
cabeça e se levantou, mas antes que saísse, o chamei: — Por favor, poderia dizer ao Lucas que
venha jantar comigo hoje à noite?
Eu mexia em coisas aleatórias sobre a mesa, apenas para evitar olhá-lo. Sentia-me
envergonhada. Ele acabara de me dizer que as mulheres gostavam de fazer sexo com o lobo e
eu estava lhe dizendo que queria saber como era. Simples assim.
— Você vai gostar.
Quando ergui o rosto, sobressaltada com sua ousadia, vi apenas Lúcio saindo porta a
fora.
Apesar de não entender nada sobre o que estava acontecendo, Dani me ajudou. Enviou a
sua melhor receita de espaguete à carbonara e aceitou a desculpa de que se tratava apenas de
um jantar para seduzir o vizinho bonito. Eu não saberia — e nem teria coragem — explicar o
real motivo para todo o meu capricho.
Eu mesma fiz o jantar, embora sofrendo todo tipo de gozação velada e piadinhas de
Edmeia e Sebastião, por ser evidente a minha inexperiência culinária. Arrumei a mesa e
dispensei Edmeia. Não sabia o que iria acontecer nesta noite e não queria testemunhas. E
quando estava tudo pronto e sentia-me segura e divina em um vestido longo de alças finas, ele
chegou.
Bateu na porta já aberta e ficou parado no umbral. Estava perfeito com os cabelos presos
em um coque, calça jeans preta e uma camisa de malha azul marinho com mangas compridas.
Seus músculos se destacavam sob o tecido fino.
Meu coração disparou e senti as mãos suadas.
— Olá, Lucas.
O sorriso surgiu em seus lábios e, naquele instante, eu soube que tudo ficaria bem.
— Soube que tem comida por aqui. Estou faminto.
Sorri também e o convidei a entrar. Servi-lhe um cálice de vinho e me senti aquecida
pelo seu olhar cheio de paixão. Sentamos nas poltronas da sala de estar, sob a luz do abajur.
— Preciso confessar… — sussurrou — eu adoro o seu cheiro.
— Dá para sentir daí?
Ele meneou a cabeça e umedeceu os lábios, cheio de malícia.
— Eu o senti da porteira da fazenda.
Meu queixo desceu meio centímetro.
— É um perfume doce com notas…
— Estou falando do seu cheiro, não do seu perfume.
Perdi-me em seus olhos naquele momento. Meu ventre se contorcia de tesão e tudo o que
ansiava era estar em seus braços. Ele era um homem admirável. Doce, mas também forte em
seu olhar, suas palavras… Era inteligente, perspicaz e eu conseguia visualizar um futuro para
nós dois, mas não sabia o que fazer com o lobo.
Levantei e fui até ele, sentei no braço da sua poltrona e fiz o que estava louca para fazer
desde que o vi chegar: beijei-o com paixão.
Lucas tomou o cálice da minha mãe ao mesmo tempo em que me puxava para seu colo.
Sentia-me tão protegida em seus braços. Sabia que com ele jamais voltaria a ser só, que com
ele, tudo seria sempre assim: um colo, um vinho e um beijo.
Beijamo-nos por um longo tempo, como um casal de adolescentes apaixonados. Suas
mãos percorriam meu corpo e eu já me sentia completamente excitada, o que me lembrava a
todo instante que logo ele começaria a dar os primeiros sinais do lobo.
— Ei… vamos comer. Fiz uma comidinha leve, mas deliciosa.
Ele seguia me beijando e sussurrou contra meus lábios.
— Estou sem comer desde cedo, esperando esse jantar feito por você. Edmeia não
conseguiu guardar segredo.
Sorri feliz. Sentia-me leve, como não lembrava ter me sentido antes.
— Você deve estar morto de fome! Por que foi fazer isso? Para quê esse jejum?
Ele ainda roçava seus lábios nos meus, mas falou com a voz impostada.
— Para comer melhor.
Empertiguei e nos encaramos, sérios.
Ele havia mesmo feito uma piada sobre o lobo mau?!
No segundo seguinte, caíamos na gargalhada e isso foi um grande alívio. Se ele, que
carregava esse fardo há anos, conseguia achar graça, eu também conseguiria lidar com a
situação.
Fomos jantar e enquanto lambíamos os dedos com a massa, contei-lhe sobre meu
trabalho, sobre Daniela e como aquela história de fazenda me torturou. Lucas também parecia
bem à vontade e repetiu o prato três vezes, enquanto me falava sobre seus projetos, sobre seu
avô e como seus pais desapareceram no mundo, após a maldição.
Também rimos juntos, enquanto ele contava as suas travessuras, tanto como criança,
quanto como lobo. E quando simplesmente nos flagramos perdidos de paixão, feito dois bobos,
ele levantou e me carregou em seu colo. Levou-me escada acima, como se carregasse uma
criança. A força era um dos atributos do lobo e eu estava prestes a conhecer tantos outros.

Lucas

Eu estava nervoso pra cacete!


Tinha medo de que ela estivesse romantizando a situação e que, quando me visse
transformado, fosse tomada de horror. Aquela noite estava sendo a mais perfeita de toda a
minha vida e eu odiaria que terminasse de forma desastrosa.
Meu coração apertava toda vez que via Karen, mas hoje, enquanto conversávamos como
se nos conhecêssemos há anos, senti o ar faltar e me dei conta de que não poderia mais viver
sem ela. Seu sorriso, seu jeito de se mexer, de sentar… suas mãos pequenas e macias… tudo
era perfeito e eu não conseguia imaginar a minha vida sem ela, daqui para frente. Estava sendo
precipitado? Muito. Havia o que se fazer quanto a isso? Dolorosamente sabia que não.
Abri a porta sem muita dificuldade. Ela era leve, apesar de não ser magricela.
Delicadamente, coloquei-a sentada sobre a cama e me sentei ao seu lado.
— Temos a noite inteira. Não precisamos ter pressa. — Eu queria tranquilizá-la. Queria
que ela se sentisse segura. — Como homem ou lobo, eu jamais seria capaz de machucá-la.
Precisa acreditar nisso.
Karen estava quieta, apenas me olhando daquele jeito tão seu... cheia de ternura.
— Não tenho medo, Lucas. Sei que não irá me machucar. — Respirei aliviado. — Mas
quero que me conte. Quero me diga como acontece, como se transforma.
Eu sabia que, em algum momento, ela iria querer saber, mas não me preparei para isso.
— Bem… não é repentino. Começa junto com a excitação.
— Você está excitado agora?
Eu ri. Não era óbvio?
— Sempre que estou ao seu lado, pequena.
Karen meneou a cabeça e sorriu, dengosa.
— E você já está em transmutação?
— Já. Já sinto o meu sangue correr mais rápido, sinto meus músculos incharem e meus
sentidos estão mais apurados. — Ela apenas assentiu e eu continuei — E na medida em que
vou ficando mais excitado, mudanças mais visíveis começam a ocorrer: minhas orelhas
crescem um pouco, meus caninos também e aparecem pelos em diferentes partes do corpo.
— E seu pênis. Senti que ele...
— Sim. Ele fica maior e mais grosso também, mas não te machuquei naquela noite,
machuquei?
Eu a vi enrubescer e me apaixonei por essa reação.
— Não. Eu aguento.
Deslizei a mão por sua nuca e comecei a beijá-la ali e no pescoço. Mordisquei o lóbulo
da orelha e absorvi seu cheiro. Ela se dissolvia para mim, gemendo baixinho e passeando suas
mãos pequenas em meu peito.
Comecei a sentir meus caninos crescerem e me retesei.
— Deixe acontecer, Lucas… — murmurou — Não se prenda, não se preocupe comigo.
Apenas me ame.
E ela me deu o start que eu precisava.

Karen

Levantei e me coloquei de frente para Lucas, entre suas pernas. Se ele tinha os instintos
apurados, eu queria que aquilo fosse intenso para ele. Puxei as alças do vestido e deixei que o
tecido caísse aos meus pés. Usava apenas uma calcinha pequena e senti o olhar de Lúcio
queimar meu corpo inteiro. Ele tomou meus seios em suas mãos e os acariciou, arrastando os
polegares em meus mamilos já eriçados. Fechei os olhos e assimilei as carícias.
— Você é tão linda, pequena! Tão delicada e gostosa.
Sorri, sentindo sua voz ficar um pouco mais grossa e gutural.
— Como é depois?
Lucas seguia me estimulando, mas também me puxou para ele e lambeu meus mamilos
com a língua áspera. De fato, a transmutação já começara.
— Depois... tudo potencializa. — Ele murmurava em meio à degustação dos meus seios.
— Seus cheiros, a textura da sua pele, sua respiração… tudo me invade de forma bem mais
intensa. — Ele arranhou a base dos meus seios e constatei que seus caninos já estavam mais
crescidos e afiados. — E é quando o lobo chega de verdade.
Abri meus olhos e o encarei. Seus olhos estavam com uma tonalidade de verde surreal,
quase amarelo e uma barba rala começava a crescer em volta do seu maxilar. As feições lindas
de Lucas ganhavam certa agressividade, deixando-o ainda mais másculo e as orelhas estavam
pontudas, mas nada que me assustasse de verdade.
— E o que o lobo faz?
Ele arrebentou as laterais da minha calcinha e puxou o diminuto tecido para trás,
desprezando-a.
— Ele toma sem pedir licença. Ele luta comigo pela consciência plena, mas nunca
conseguiu me dominar.
Suas mãos apertavam a minha bunda e um dos dedos acariciava meu ânus, me deixando
torpe, tonta.
— E como se sente?
A língua áspera deslizou dura desde meu plexo solar, até o bico do meu seio esquerdo e
ali circulou, antes que ele me abocanhasse. Gemi, sentindo as pernas fraquejarem e o dedo
grosso enterrar-se em meu traseiro. Ergui uma das pernas e apoiei o joelho sobre a coxa dele,
me abrindo, me entregando.
— Sabe quando se está bêbado, muito bêbado, mas tem consciência parcial das coisas à
sua volta? Quando seus movimentos parecem ter dimensões bem maiores, mas você sabe o que
está fazendo? É mais ou menos assim. — Lucas falava contra a minha pele arrepiada. — Eu
sempre estarei lá, pequena, dentro do lobo ainda serei eu.
Assenti, balançando a cabeça e já ansiosa para conhecer o tal lobo, encará-lo de frente.
— Tem algo que eu não deva fazer, quando o lobo chegar?
Ele parou suas carícias e me encarou com seus olhos amarelos, selvagens.
— Não lhe negue nada.
Ergui uma sobrancelha e senti os fluidos brotarem em minha vagina. Tomei a mão dele e
coloquei-a lá.
— Olha como você me deixa.
Com um sorriso sinistro no rosto, ele fechou os olhos e rosnou. Um som rouco, profundo
e excitante. Aproximei meus lábios de sua orelha crescida e sussurrei:
— Vem me pegar, Seu Lobo.
As garras de Lucas arranharam as minhas costas e ele rosnou mais uma vez. Com um
movimento brusco, me atirou sobre a cama e arrancou as próprias roupas. Puxei o ar com
força. Seu corpo era escultural, com um abdômen esculpido e músculos dilatados. Mas meus
olhos foram atraídos para o membro — não havia como não notá-lo — e me perguntei como
havia conseguido, na última noite. Mas se consegui antes, também conseguiria agora.
Lucas engatinhou sobre o colchão, enquanto eu me arrastava mais para cima. Seus
cabelos estavam soltos e lhe empregaram ares mais de um leão, do que de um lobo. Ele me
olhava de um jeito que fazia minha nuca arrepiar e foi sustentando esse olhar que ele abaixou a
boca sobre a minha barriga e lambeu meu umbigo.
Foi subindo devagar, enquanto rosnava contra a minha carne trêmula, arranhava seus
dentes e me levava à loucura. Atacou novamente meus seios e eu revirei os olhos de prazer.
Subiu mais um pouco e mordiscou meu pescoço, até que chegou aos meus lábios e me beijou
com sofreguidão, deslizando a língua grossa pelo céu da minha boca. Nossos dentes se
chocavam, no afã do beijo, mas eu pouco me importava.
Em meio ao beijo mais alucinante que eu já tive, me abri ao toque de Lucas em minha
intimidade, deslizando a ponta da garra em meu clitóris e estimulando-o, dedicando-se a irritá-
lo, a fazê-lo inchar e inchar, até que rompi no meu primeiro orgasmo da noite. Agarrei suas
costas já peludas e o puxei contra mim. Seu cheiro também estava intenso, alguma mistura de
seu perfume com um acentuado odor de couro, estupidamente sexy.
— Continua gozando pra mim, pequena… — Sua voz assustadora invadia meus
ouvidos, soando todos os meus sinais de alerta. Eu simplesmente os ignorei.
— Me faz gozar de novo, Seu Lobo.
Ele sorriu novamente, de forma estranha, ameaçadora e mergulhou dois de seus dedos
em mim. Senti a garra deslizar em mim, mas sem machucar, ele parecia saber o que estava
fazendo e, enquanto me penetrava, segurava meus cabelos com força e mergulhava sua língua
em minha boca, me beijando de forma intensa e alucinante. Ele penetrava e acariciava meu
clitóris, simultaneamente, alternando a intensidade, rosnando em minha boca... E depois de
gozar pela segunda vez, eu não sabia de onde mais tiraria forças, mas precisava dar conta
daquele lobo.
Lucas parecia não cansar nunca! Segundos depois de quase me matar de prazer, já estava
de volta ao ataque, chupando os dedos do meu pé, tal qual o sonho que, agora eu sabia, não
havia sido sonho porcaria alguma.
Puxei o pé, tentando me livrar daquela tortura, ao menos para conseguir respirar, mas ele
me encarou com seus olhos amarelos, zangados e ferozes. Estava mais selvagem, eu notei.
Seus olhos me causavam arrepios e ao mesmo tempo me excitavam. Conseguia imaginá-lo
devorando meu sexo com sua fome voraz e só de pensar, comecei a lubrificar novamente.
Como se lesse meus pensamentos, ele rosnou e estreitou seus olhos, transformando-os
em duas fendas da cor do topázio. Mexeu seu nariz dilatado e farejou toda a minha perna, até
chegar à virilha. Eu já estava agarrada à cabeceira da cama e todo meu corpo tremia em
antecipação. Então, ele me deu uma longa e vigorosa lambida, desde o períneo, até o clitóris.
Não suportei e gemi alto. Ainda bem que havia dispensado Edmeia.
— Lucas, por Deus… Você vai me matar!
Mas, quanto mais eu suplicava, quanto mais eu me contorcia, tentando me livrar da
abundância de estímulos, mais ele investia duro, arranhando a pele sensível, deslizando sua
língua áspera com ritmo e até certa crueldade, e lá fui eu para mais um gozo, quase
convulsionando de prazer.
Sentia-me como morta, sem ação, sem forças, mas vê-lo ajoelhar-se entre as minhas
pernas e vestir a camisinha naquele membro imponente, me fizeram despertar. Eu já não tinha
tanta energia assim, mas a força de vontade estava lá.
— Ele já chegou?
Lucas ergueu o olhar e me encarou.
— Quase. — A sua voz parecia sair diretamente da profundeza do seu peito e ele
respirava fundo, exasperado, enquanto se concentrava em deslizar a peça de látex ao longo do
seu pênis.
Arqueei a sobrancelha, surpresa porque eu estava certa de que ele já havia chegado.
Lucas me olhou e disse:
— Você vai saber quando ele chegar.
Estremeci. Estava quase desesperada de ansiedade e isso me molhava de tal forma, que
eu já não sabia explicar de onde vinha tanta lubrificação.
— E enquanto Seu Lobo não vem, o que vai fazer comigo, Lucas?
Seu sorriso exibiu caninos realmente grandes e a minha reação foi automática: abri a
pernas e acariciei meus seios, provocando-o e completamente pronta para recebê-lo.
Lucas entrou em mim lenta e vigorosamente. Tive ímpetos de fugir, mas lembrei-me que
já havia passado por isso e, na verdade, tinha gostado muito. Relaxei e deixei fluir. Ele mexia-
se com cadência, ajeitando-se enquanto lambia meu ouvido e rosnava, me deixando alucinada.
Enlacei sua cintura com minhas pernas e o incentivei a penetrar até o fim. Seus pelos macios
roçavam em meu clitóris enquanto a extremidade do seu membro massageava lugares que eu
nem sabia que tinha. Delirei e gemi alto, suando e arfando feito uma louca, desesperada de
prazer. Então, sem mudar o ritmo, Lucas ergueu o tronco, sustentando-se nos cotovelos, com
uma postura dura, mirando a cabeceira da cama como se estivesse vendo algo à sua frente.
Algo que estava pronto para atacá-lo. A sua postura era de combate, embora ainda estivesse
metendo-se em mim vigorosamente. De baixo, eu o observava. Seu semblante tornara-se duro,
compenetrado e deveras ameaçador. Continuava olhando fixo, aspirando com força, como
animal raivoso e nesse instante eu soube: o lobo estava ali.
O medo percorreu meu corpo como rastilho de pólvora, acendendo, queimando. Ele me
penetrava fundo e mexia o quadril em uma velocidade anormal. Os meus gritos de prazer
subiam pela garganta e eu os engolia, com medo do lobo. Eu tremia, me perdendo em prazer.
Quanto mais ele me penetrava, mais o lobo arfava, como se corresse para alcançar sua presa.
Então, fiz algo que não deveria ter feito.
— Lucas?
Ele parou seus movimentos e, lentamente, abaixou o seu olhar até encontrar o meu. O
lobo me olhou diretamente e percebi que, de alguma forma, Lucas ainda estava ali, mas não
estava só. Seus olhos amarelos, impassíveis, me invadiram e ele retomou o ritmo de suas
investidas. Não pude me segurar e comecei a arquejar, com pequenos gritos de prazer fugindo
dos meus lábios.
Lucas, ou o lobo, tornou a encarar a parede à sua frente, mas mudou seus movimentos,
que se tornaram lentos e profundos, quase me levando à loucura. E depois de alguns segundos,
ele simplesmente levantou o tronco e, sem sair de dentro de mim, sentou entre minhas pernas e
continuou me penetrando. Seu olhar agora estava dentro do meu e eu o sustentei. Busquei
Lucas ali dentro e o encontrei, preso em uma nuvem de prazer, deixando-se levar, entregando-
se para o lobo e para mim.
Vez ou outra, ele erguia os lábios superiores, me mo strando os caninos ameaçadores e
eu deveria ser mesmo uma doente, pois cada vez que ele fazia isso, eu me arrepiada de tesão.
Ainda encarando o amarelo de seus olhos, mordi meu lábio, provocando-o. Desejando deixá-lo
ainda mais feroz. O lobo respondeu segurando a minha perna e levando meu tornozelo à boca.
Ele arrastou o canino sobre a minha pele e um filete de sangue escorreu. A visão do fino rastro
de sangue descendo pela pele branca, a lambida severa que ele deu ao longo do filete e, mais
ainda, a expressão lasciva e minaz com que me olhava, me empurraram ao êxtase mais uma
vez e eu já havia perdido a conta de quantas vezes havia gozado. Eu quase desmaiei. Minhas
pernas e braços já não me obedeciam, mas ainda assim, me vi sendo carregada com tanta
facilidade, que mais parecia feita de papel.
O lobo me ergueu e depois me jogou de bruços sobre o colchão, com as pernas pendendo
para fora. A cama era alta e com o tronco sobre a cama, eu nem mesmo conseguia tocar os pés
no chão. Tentei protestar porque senti medo do que viria, mas lembrei de Lucas me dizendo
para não negar-lhe nada.
O lobo afastou minhas pernas e, com uma das mãos, agarrou meus cabelos, me
imobilizando com seu peso, deitado sobre minhas costas. Ele rosnava pesado em meu ouvido,
enquanto eu tremia de pavor. Senti sua extremidade roçar meu ânus e me desesperei. Ele era
grande eu não iria suportar.
— Não, por favor! — Protestei e ele rosnou mais feroz, me ameaçando. Sem que
pudesse controlar, lágrimas surgiram e rolaram. — Por favor, não… — Eu choramingava e ele
continuava forçando. Eu estava certa de que ele não conseguiria, mas iria me dilacerar
tentando. Então, rompi em choro.
Quanto mais eu chorava, mais ele rosnava, babando em meu ouvido e tentando forçar a
penetração em meu ânus. Eu jamais conseguiria demovê-lo e me conformei, apenas deixando o
pranto rolar e pedindo a Deus que ele gozasse logo e meu Lucas voltasse.
Não saberia dizer o momento exato, mas senti que ele havia soltado o meu cabelo e
parado de forçar a penetração, embora seguisse duro contra a minha bunda. Senti seu peso
sobre minhas costas, me cobrindo, e suas mãos grandes e ásperas cobriram as minhas. Ele já
não rosnava, apenas respirava fundo e eu o senti me penetrar, devagar, escorregando em minha
vagina. Ele mexia ritmado, escorregando em nossos fluidos de maneira suave e eu pude escutar
seu coração em minhas costas.
Ele estava calmo e eu relaxei, me entregando novamente. O lobo estava todo dentro de
mim e suas investidas eram curtas. Foi então que algo me pegou de surpresa… ele me beijou
no pescoço. Senti seus caninos, mas também sua língua e seus lábios gentis. Entrelaçou seus
dedos aos meus e imprimimos um ritmo moderado, embora intenso. O lobo não estava me
fodendo, estava fazendo amor comigo! Seu coração acelerou, batendo contra as minhas costas
e eu o acompanhei, rebolando para ele. Seus gemidos soaram roucos e altos pelo quarto, mas já
não eram roncos. Assustada, vi os pelos de seus braços sumirem aos poucos, vi suas garras
recuarem e quando ele mergulhou na curva do meu pescoço e se contraiu sobre mim, eu sabia
que estava gozando. Eu o senti pulsar contra minhas paredes. Eu senti Lucas pulsar dentro de
mim!
— Meu amor… amor… — E Lucas desabou em um choro comovente.
Eu não sabia o que estava acontecendo ali, mas desconfiava. Ele simplesmente abraçou
minhas costas, me prendendo em seus braços e chorou. E eu chorei com ele.

Lucas

Esperei Lúcio digerir a informação, mas ele parecia me ignorar.


— Tô falando sério, Lúcio! O lobo sumiu segundos antes!
Ele largou a caneca na pia e cruzou os braços sobre o peito.
— Tem certeza disso, Lucas? Será que não se empolgou tanto, que mesmo com o lobo
lá, conseguiu…
— Sumiu, Lúcio! — gritei, na tentativa de fazê-lo me escutar. — Os pelos sumiram, as
garras sumiram… tudo! E eu gozei… gozei como homem!
Então, ele deu um chute na porta do armário, me fazendo sobressaltar.
— E por que porra nunca aconteceu comigo?! Já transei com meio mundo de mulheres,
de todo tipo e qualidade, e nunca consegui como homem! O que a Karen tem de diferente?
Aquela frase me fez empertigar. Não havia pensado que seria a Karen, mas sim o que
tínhamos ali. Foi isso o que ela me disse, depois que fizemos amor pela segunda vez naquela
manhã e, pela segunda vez, tive um orgasmo humano. Era a nossa paixão, o nosso amor.
— Não foi ela. Foi nosso amor.
Ele me olhou sério, por baixo das sobrancelhas.
— Será?
— Claro que sim. Você precisa acreditar no amor, Lúcio. Precisa saber que quando
encontrá-lo, estará tudo acabado.
Eu sabia que aquela era uma crença difícil para o meu irmão. Ele usava as mulheres,
assim como elas também o usavam e tudo para Lúcio se resumia ao prazer momentâneo.
— E você acha que foi definitivo?
— Acho. Já fizemos alguns testes e… nada do lobo.
Meu irmão passou a mão pela boca, alisando o cavanhaque que começava a crescer.
Imaginei a luta que travava contra suas convicções.
— Como foi na hora?
— Foi como te disse. Eu estava ensandecido, quase que dominado pelo lobo. Estava
tomado de tesão e fúria ao mesmo tempo e concentrei minhas forças apenas em não machucá-
la. Mas o lobo queria comê-la por trás, Lúcio, eu também queria aquilo mais que tudo, nós
queríamos, mesmo sabendo que iria machucá-la feio. Então, Karen começou a chorar e eu me
senti vencido. Senti que não conseguiria protegê-la. Foi aí que tudo aconteceu. Senti-me
derrotado, fraco diante do choro de Karen e foi quando senti como se a fera também a olhasse
diferente. Eu… eu acho que o lobo se apiedou da Karen e de mim.
— Eu acredito.
Ergui uma sobrancelha, surpreso. Lúcio prosseguiu:
— Acredito que o seu lobo tenha se apiedado da Karen, mas isso jamais aconteceria
comigo. O meu não é como o seu, Lucas. O meu não tem piedade e eu mal posso controlá-lo.
Aquilo era verdade, eu sabia. O lobo de Lúcio já havia matado uma pessoa e machucado
mais que uma dezena. Abaixei o olhar e senti pena do meu irmão.
— Eu preciso sair daqui. — Disse, olhando em volta, procurando algo.
— Como?! — O que ele estava dizendo?! — Sair para onde?
— Preciso sair dessa fazenda, sair desse estado e até do país. Não estou mais suportando
ficar aqui e agora que você tem a Karen e tudo está bem… Acho que chegou a minha hora.
Eu o olhava incrédulo. Nunca havíamos nos afastado, sempre fomos nós dois a nos
cuidarmos, mas no fundo, eu conseguia compreendê-lo. Além de tudo que pode sufocar um
homem como Lúcio, havia a minha libertação, lembrando-lhe que ele jamais a teria.
— Você vai voltar?
Meu irmão me olhou diretamente.
— Um dia.
Assenti, conformado e ao mesmo tempo triste pela má sorte dele.

Karen

Lucas deitou sobre meu peito e eu o enlacei com minhas pernas. Ele pesava sobre mim,
mas eu não achava ruim. Gostava de sua presença masculina de todas as maneiras. Estávamos
vivendo juntos há quase um ano e eu me sentia feliz como jamais imaginei que seria. Éramos
“a tampa e a panela”, como Edmeia costuma dizer.
Demos um bom impulso no projeto de sintropia e pedi transferência para o hospital
local. Dani esteve conosco no mês passado e se convertera na maior fã de Lucas, depois de
mim, embora ela nada soubesse sobre a maldição.
Lucas se mexeu, saindo de cima de mim. Ele dormia pesadamente e meu coração se
aqueceu, quando mesmo se afastando de mim, manteve seu braço sobre minha barriga,
possessivo, amoroso.
Rolei para o lado e me levantei. Estava inquieta e vinha tendo insônia noite após noite.
Nada disse ao Lucas, para não preocupá-lo, mas passava as noites em claro, com o olhar
perdido na mata ao redor da fazenda. A noite em que quebramos a maldição não esmaecia em
minha memória. Ao contrário: estava cada vez mais viva. Ainda via os olhos do lobo, ainda
sentia seu toque pouco gentil e minhas entranhas lembravam com fidelidade de como ele me
invadira. E, ao contrário do que se possa pensar, eu sentia sua falta. Lucas era tudo para mim e
a cada dia nos completávamos mais, mas algo faltava…
Os braços fortes envolveram minha cintura por trás e eu pendi a cabeça, recostando-a no
peito do meu amado.
— Perdeu o sono?
Sorri, quando ele beijou minha orelha.
— Um pouco.
Ficamos em silêncio, observando a noite.
— Notei que tem passado muito tempo aqui, olhando a mata… Sente falta dele?
Empertiguei, ficando alerta. Lucas era muito mais perspicaz do que eu imaginava.
— Lembro-me dele às vezes. — Confessei meia verdade. De nada adiantava mentir. O
lobo havia partido definitivamente e eu precisava me conformar. — E, às vezes, queria que
estivesse aqui.
— Eu achei que ele voltaria para o Natal. — Fiquei ainda mais alerta e meu coração
disparou. — Mas a última notícia que tive dele, estava no Peru, buscando uma cura.
Soltei o ar, liberando a tensão. Ele falava de Lúcio, não do lobo, como eu havia
imaginado. Comecei a rir da minha tolice.
— O que foi? — perguntou, divertido. — Achou que eu falava de quem?
— Do lobo — disse, displicentemente, ainda rindo.
— Sente falta dele?
A sua voz tornou-se séria, mas eu já havia aberto a caixa de Pandora. Não adiantava
voltar atrás.
— Sinto, alguma vezes.
Lucas manteve-se quieto, pensativo, tão quieto que chegou a me incomodar. Então,
respirou fundo, resoluto.
— Vou mandar um e-mail. Lúcio estará aqui no Natal, meu amor. É o meu presente para
você.
E simplesmente beijou o alto da minha cabeça e voltou para cama, deixando a minha
mente rodando, completamente confusa, e meu corpo trêmula de excitação.

FIM...
A Autora

Escritora brasileira, jornalista, natural de Salvador (Ba), começou a escrever romances


porque não se conformava com a omissão das cenas de sexo em suas novelas prediletas, além
da imensa necessidade de deixar fluir os dramas e personagens que lhe tiravam o sono. Casada
e mãe de dois filhos, Vauline é uma divertida geminiana com ascendente em escorpião. É
adepta do “ter um milhão de amigos”, mas para vê-la feliz, basta trancá-la em casa com muitos
livros, filmes e, claro, internet. Sua magia? Ela consegue transportar o leitor para o lugar do
personagem em um simples virar de página.
Outros livros da Editora Sonho de Livro

Depois de três anos de casamento, o rico e bem sucedido empresário Daniel Cross decide
se separar de Melanie Dwitt, uma mulher teimosa, mandona e respondona.
Vendo que o casamento ia por água abaixo Daniel quer pôr um fim nele, mas Melanie é
contra a separação e, para convencer o marido ela usará as mais belas armas para seduzi-lo,
começando por usar fantasias chegando a saltar um muro para pedir desculpas por seus atos.
Será que este casamento realmente chegará ao fim?
Quem acabará indo atrás de quem nessa história?

Depois de perder o marido de forma repentina, Mariana, uma jovem bancária se torna uma
pessoa sem vontade de viver.
Fábio morava em Londres e, mesmo sem experiência no mundo dos negócios se viu
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De uma forma inusitada o destino fará com que o caminho dos dois se cruze, mas se
apaixonar de novo não faz parte dos planos de Mariana, pois ela acha que se envolver com
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Será que Fábio conseguirá mostrar para Mariana que se pode amar outra pessoa depois
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Acompanhe a história de Fábio e Mariana e veja como em apenas UM MINUTO nossa
vida pode mudar.

Mia Black perdeu tudo que tinha, agora morando na rua ela faz de tudo para sobreviver,
seus sonhos foram despedaçados, sua vida foi se desmoronando até que nada lhe sobrasse,
apenas a dignidade. Ela sabe quais são os seus limites e até onde pode ir para viver. Perdida em
um mundo onde só sobrevive quem for mais forte, Mia aprende que a confiança é a única coisa
que pode ter e que quando você realmente confia em alguém, esse alguém pode ser seu porto
seguro. Mas o que é preciso passar para poder confiar?
Connor Willians é um homem frio que não mede esforços para conseguir o que quer e
também não tem pena de nada, nem de ninguém, e para ele é: se você quer algo corra atrás,
senão morra de fome, até que tudo o que ele acreditava se perder em uma simples e bela
moradora de rua.
Beleza? Sempre me ensinaram que devo pensar primeiro em ser inteligente para depois
pensar na estética.
Quem eu sou?
Sou Anne Thomas, inteligente até demais, mas em questão de beleza sou um desastre,
não que eu seja feia, apenas não sei me arrumar. A verdade é que nunca me importei com isso,
até que consegui o emprego dos sonhos, com o chefe dos sonhos.
O problema?
Meu chefe é um galinha, ele só sai com mulheres super sexy, com o corpo de Barbie.
Aonde me encaixo nisso? Não me encaixo, eu fico apenas de fora o olhando e guardando
minha paixão secreta por ele. Pois se ele um dia passar a gostar de mim, vai ter que ser do jeito
que eu sou. DESAJEITADA.
Mulheres? Merda, eu as amo. Amo sentir seus corpos debaixo do meu, gosto de ver seus
rostos de prazer quando elas se contorcem e pedem por mais.
Se eu me preocupo com beleza? Bem, quem não se preocupa? Não sou exigente, mas
querer ter uma bela mulher ao meu lado não é pecado. Até que minha nova e desajeitada
assistente chega e vira o meu mundo de cabeça para baixo. Seu jeito ''não ligo para o que
pensam de mim'' me conquistou totalmente, seus olhos azuis escuros são os olhos mais lindos
que já vi.
Se ela é feia? Não. Ela é linda, só não sabe disso.
Agora eu, Henry White estou apaixonado pela minha linda e desajeitada assistente. E o
que eu faço sobre isso? Nada, eu não faço nada, apenas a observo de longe e escondo minha
pequena paixão.
Quatro anos, quatro longos anos foram o suficiente para Henry saber que o que ele sentia
por Anne não vai passar. Então, ele resolve fazer algo sobre isso.
Bonito, rico e agradável. Thom nunca ficava sozinho, mas o que ele mais desejava estava
fora de seu alcance: Lara. Sua prima adotada que o tratava como um irmão. Para ele não tinha
coisa pior do que amar e não ser amado.
Lara. Inteligente, meiga e querida por toda a família, tinha um segredo que escondia de
tudo e de todos. Inclusive de seu primo.
Quando a verdade vier à tona será que Thom continuará amando-a? Pode um amor ser
tão forte a ponto de sobreviver a barreiras e crenças?
São perguntas que serão respondidas por si mesmo em meio a tantos conflitos e verdades
não ditas, emocionando-nos a cada passo dado em busca da felicidade.
Um império onde riqueza e poder não podem comprar o que há de mais importante no
mundo: o amor.

Uma família destruída por um pai sem coração. Abandono, sofrimento e muitas
adversidades completam a trajetória de vida de Bryan, um lutador famoso que venceu sua pior
luta quando aprendeu a se defender ainda criança.
Abandonado por sua mãe em um orfanato, apenas descobriu o que era o amor através
das irmãs freiras e de seu amigo, Pablo. Uma forte amizade nasceu entre os dois tornando-os
além de amigos, irmãos. Bryan encontrou em seu amigo o que nunca recebeu de seu pai, o
afeto, o companheirismo, a lealdade.
Com o coração fechado para o amor ele conhecerá Angel, a pessoa que mais vai tentar
se manter longe por medo de se apaixonar, mas será ela quem trará boas novas sobre sua mãe.
Diante deste fato, Bryan conhecerá o amor e se verá confuso, sem saber o que fazer com este
sentimento que ele não quer sentir.
Será que depois disso Bryan abrirá seu coração para o amor e se deixará ser amado? Será
que ele conseguirá superar o medo de ser abandonado novamente?

Nesta história do final do Século XIX, conheceremos Antônio, um homem de beleza


viril que, apesar das qualidades e importância socioeconômica que tem enfrenta dificuldades
para conseguir casamento na província onde vive, no interior de São Paulo. Considerado
excêntrico e petulante o bastante para conviver harmoniosamente com índios e pagar salários
aos negros por ele alforriados, o jovem sabe bem que no momento em que casar com uma
senhorita local, não verá a luz do dia seguinte e sua herança terá destino certo.
Mais ao Sul do país, temos a jovem e singela Triana. A mais nova de uma família de três
filhos, aprende cedo que ser mulher significa dar despesa e aborrecimento. Assim, sobrevive
no frio interior do Paraná, tornando-se “invisível”, sem vontades ou sonhos, e alimentando
apenas dois sentimentos: o medo e a enorme culpa de existir.
A conveniente união entre Triana e Antônio é um choque entre a geada e o sol a pino. A
paixão encontra obstáculos nas dores e receios que cada um carrega na alma. O desafio da
convivência e o medo de se entregar levam os personagens a avaliar os riscos de um
sentimento absolutamente novo para ambos.
O livro versa sobre a beleza que é o nascer do amor em meio a uma difícil adaptação.
Seres absolutamente diferentes precisam aprender a lidar com suas "tempestades pessoais" e
reconhecer o estio, quando este chega em suas vidas.
Escrito com grande sensibilidade, Estio leva o leitor através dos sentimentos e sutilezas
que há entre o "muito prazer" e o "amor eterno". Nesse entremeio, há uma série de camadas,
doces e amargas, mas igualmente belas.

Kristanna Barton é a garota que todos os caras tentam ter. O grande problema com isso?
Ela é fria com qualquer um que tem coragem de se aproximar, motivo pelo qual ganhou o
apelido de “Rainha de Gelo”. Kris trabalha em um clube para homens e mantém sua profissão
guardada a sete chaves para que possa ter uma vida acadêmica longe de escândalos. O
problema é que... ela não esperava ser descoberta.
Quando Aiden Blackwell descobre que a frígida e controlada Rainha de Gelo, na
verdade, é uma stripper, ele fica perplexo. Aiden é um cobiçado bad boy camuflado sobre suas
próprias máscaras, com um passado turbulento que o levou a se afastar da família. No entanto,
ele precisa de um grande favor. E agora que sabe que a Rainha de Gelo é uma farsa, ele não
perderá a oportunidade de chantageá-la até conseguir o que quer.
Uma vez que está nas mãos de Aiden, Kristanna terá de aceitar seus termos se não quiser
ser desmascarada na frente de todos na universidade. Mesmo que isso signifique que ela tenha
que ser a namorada temporária do forasteiro tatuado canadens Angie Jones e suas duas
melhores amigas acabaram de se formar. Angie se formou em Administração e, apesar não
saber como iniciar carreira na sua área e por ser uma mulher de mente aberta quando encontra
um velho amigo de faculdade e os dois têm uma noite pra lá de quente usando todos os
brinquedos eróticos que esse amigo tem, uma brilhante ideia surge no meio de um orgasmo e
ela sabe o que quer fazer dali pra frente com sua carreira.
Antoni Agliardi é esse amigo que ajuda Angie. Ele sempre teve uma deliciosa obsessão
pela amiga e sempre quis mais do que apenas uma transa com ela. O único problema é que
Angie é uma cabeça dura para reconhecer que entre eles rolava mais que sexo. O destino deu
uma segunda chance a Antoni e ele não vai desperdiça-la, dando assim tudo de si para provar
que além de ser bom de cama pode ser um parceiro para os negócios e para passar a vida toda
ao lado de Angie
Você está preparada para a deliciosa obsessão de Antoni por Angie?
Está disposta a descobrir que ideias e planos Angie têm para sua carreira?
Embarque nesse delicioso conto erótico e divirta-se com os personagens