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DIREITO COMPARADO

1ºANO (2º Semestre) – LICENCIATURA EM DIREITO


Professor Doutor Pedro Trovão do Rosário

A FAMÍLIA DE DIREITO DA COMMON LAW

Gustavo dos Santos Mendonça Gouveia

Aluno nº 30001402

Maio de 2018
Índice Geral

1 – Introdução

2 – A família de Direito da Common Law

2.1. O Direito dos Estados Unidos da América

2.2. O Direito Inglês


2.2.1. A formação do Direito Inglês
2.2.2. Características e conceitos fundamentais
2.2.3. Fontes de Direito

3 – O ensino do Direito e Profissões Jurídicas


3.1. Estudar Direito
3.2. As profissões jurídicas

4 – Conclusões

5 – Bibliografia

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1 – Introdução

A comparação entre sistemas jurídicos é extremamente enriquecedora e tem


diversas finalidades além do simples conhecimento científico de outras famílias de
Direito, nomeadamente fazer valer num determinado sistema jurídico os efeitos de
outro sistema jurídico que necessitam ser reconhecidos.

Neste sentido, analisaremos a Common Law enquanto família de Direito


diferente da nossa.

A Common Law é um termo que se utiliza para referir um sistema de direito


cuja aplicação de normas e regras não estão escritas mas validadas pelo costume e
pela jurisprudência. Esta forma de direito tem origem na concepção do direito
medieval inglês que, ao ser ministrado pelos tribunais do reino refletia os costumes
comuns dos que nele viviam. Este sistema legal vigora no reino unido e na maior
parte dos países que por este foram colonizados.

A principal característica da Common Law prende-se com o facto de as


questões serem resolvidas tomando como base sentenças judiciais anteriores,
contrariamente ao que ocorre no sistema romano-germânico que é utilizado por vários
outros países, nomeadamente Portugal.

A jurisprudência, ou seja, o conjunto de sentenças judiciais acerca de situações


idênticas vai extrair regras gerais que geram precedentes e que se convertem em
orientações para o julgamento futuro dos juízes em casos análogos.

Além da jurisprudência, outras características importantes são o julgamento


por júri e a doutrina da supremacia da lei. Neste sistema as disputas são resolvidas
através do oferecimento de argumentos, provas e seu contraditório e as partes
apresentam os seus casos perante um juiz e um júri aplicando-se posteriormente a lei
adequada aos factos.

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O presente relatório vai incidir essencialmente sobre o Direito Inglês,
abordando em traços gerais o Direito dos Estados Unidos da América, dando-se
todavia maior destaque ao Direito Inglês.

Seguidamente abordar-se-á a formação do Direito na Common Law,


especificando as suas características e conceitos fundamentais para de seguida indicar
as fontes.

Para terminar, far-se-á uma breve abordagem ao ensino do Direito no âmbito


desta temática bem como às profissões jurídicas inerentes.

2 – A família de Direito da Common Law

2.1. O Direito dos Estados Unidos da América

A Common Law é, como já se disse, o sistema de direito derivado das decisões


judiciais e não diretamente das leis, dos Códigos ou da Constituição.

Assim, neste sistema, a força do Direito concentra-se essencialmente nos


precedentes judiciais enquanto que no sistema romano-germânico, como é o caso de
Portugal, as leis e os códigos precedem os julgamentos.

Todavia, é importante registar que, apesar de originário da Inglaterra, existem


vários modelos de Common Law, com as suas próprias características.,
nomeadamente o sistema dos Estados Unidos da América sobre o qual nos iremos
debruçar.

Nos Estados Unidos da América, o sistema da Common Law inglês foi muito
bem desenvolvido quando eram as colónias norte-americanas que resolviam os
conflitos, o que se deu em primeiro lugar por intermédio dos colonos ingleses.

Na época da Declaração de Independência e, posteriormente, o sistema da


Common Law inglês foi formalmente recebido da Inglaterra pelos novos Estados
independentes.

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Depois de 200 anos de existência em separado, o common law nos Estados
Unidos assumiu vida própria. Embora o método do sistema seja basicamente o
mesmo, existem inúmeras diferenças nas regras de common law substantivas nos
Estados Unidos das regras da Inglaterra sendo na atualidade extremamente raro nos
Estados Unidos existirem decisões dos juízes americanos invocando o direito inglês.

Atualmente, o sistema jurídico dos Estados Unidos é apontado como um dos


sistemas da Common Law, tendo sido os Estados Unidos colonizados pela Inglaterra,
seria natural que adotassem um sistema jurídico com características do país
colonizador.

Na realidade, a Inglaterra nunca absorveu os princípios e a metodologia do


direito romano, desenvolvendo um sistema bem diferente dos sistemas do continente
Europeu originários do direito romano, que são conhecidos como países da civil law.

O sistema dualista inglês (law jurisdiction e equity jurisdiction) também foi


seguido pelos Estados Unidos durante o período colonial, embora com algumas
diferenças, pois alguns Estados americanos escolheram continuar com a dualidade de
sistemas, mas concentraram a competência a um mesmo tribunal, enquanto outros
seguiram essa dualidade.

Após a independência americana em 1776, o sistema dual foi enfraquecendo,


principalmente com a implantação do Sistema Judiciário Federal em 1789, atualmente
ainda quatro Estados americanos que mantém essa divisão.

Em 1789 o Congresso criou o sistema de tribunal federal, adotando o modelo


dos Estados que tinham um o sistema de tribunal para a jurisdição de direito e
jurisdição de equidade separadamente. A partir de 1800, essa divisão, que já tinha os
seus 600 anos, tornou-se obsoleta, tanto na Inglaterra, conforme veremos mais tarde,
quanto em muitas jurisdições americanas, principalmente pelas sobreposições nas
formas de ações e pela integração parcial entre law and equity.

As Federal Rules of Civil Procedure, desde que foram aprovadas em 1938,


também mantiveram essa unificação ao dispor em sua Regra n. 2, expressamente, que

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Existe uma forma de aç ão - a aç ão civil (There is one form of action - the civil
action).

Outro aspecto interessante, que merece destaque, é que atualmente as


diferenças não são tão rígidas, de modo que há uma aproximação entre os sistemas da
civil law e da commom law, já reconhecida por muitos doutrinadores.

Por exemplo, recentemente a própria Inglaterra, adotou um Código de


Processo Civil (Civil Procedure Act 1997) .

Também os Estados Unidos possuem uma Constituição escrita desde 1787 e já
adotam um conjunto de normas de direito processual civil que assume função
semelhante à função de um Código de Processo Civil, tanto que a Federal Rules of
Civil Procedure dispõem sobre as categorias básicas do direito processual civil,
disciplinando, inclusive, procedimentos, com destaque aqui para a disciplina das class
actions pela Rule 23.

Por outro lado, é importante entender que os precedentes judiciais ganham


cada vez mais força nos países de sistema jurídico da civil law.

É ainda importante referir a existência do Ministério Público neste sistema,


todavia não é uma instituição bem definida e estruturada, contrariamente ao que
sucede em Portugal, todavia não se desenvolverá este aspecto em particular por não
ser este o objectivo do presente relatório que abordará mais especificamente o Direito
Inglês.

Neste sentido, podemos concluir que a base estrutural que estabelece unidade
ao sistema jurídico dos Estados Unidos da América está na sua constituição, que é
sintética e que contém os princípios gerais, assim, cada estado norte americano possui
o seu próprio sistema jurídico, até porque com a adoção do sistema da Common Law,
que confere força jurídica vinculativa aos precedentes judiciais, cada estado tem que
lidar ainda e ao mesmo tempo com regras legisladas pelos tribunais, leis criadas pelo
poder legislativo e ainda competências federais e estaduais.

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2.2. O Direito Inglês

2.2.1. A formação do Direito Inglês

Quando abordamos a formação da Common Law devemos considerar cinco


períodos importantes, nomeadamente:
- o período anterior à conquista normanda de 1066 em que se começou a alicerçar o
que viria a ser o sistema jurídico;
- o período entre 1066 até ao advento da dinastia Tudor em 1485 em que se formou a
Common Law;
- o período entre 1485 e 1832 que foi marcado pelo desenvolvimento de um sistema
complementar e por vezes rival da Common Law, baseado em regras de equidade.
- Finalmente o período de 1832 até à actualidade.

No que respeita ao período anterior ao ano de 1066, também chamado de


anglo saxónico, no qual ocorreu a conquista da Inglaterra pelos normandos, o direito
que vigorava era um direito pouco conhecido, sendo a sua originalidade demonstrada
através da redação em língua anglo-saxónica ao invés do latim, língua dos outros
direitos bárbaros da época. Até 1066 o costume local era aplicado de forma a decidir
qual das partes deveria provar a verdade das suas declarações.

No período de formação da Common Law, entre1066 e1485 a conquista


normanda traz para a Inglaterra um forte poder centralizado que acarreta o fim do
poder das tribos e o início do feudalismo inglês. Os normandos fecham-se em torno
de seu soberano como forma de defender as suas propriedades numa terra de hábitos e
língua desconhecida, fazendo com que o feudalismo inglês fosse bastante diferente do
continental. Os feudos eram sempre pequenos, para que nenhum senhor feudal
pudesse rivalizar com o soberano, o que levou a um sentimento e actuação de grande
disciplina por parte dos normandos para com o soberano, que levará posteriormente
ao desenvolvimento da Common Law.

A Common Law começou então a desenvolver-se sendo um direito comum a


toda a Inglaterra em oposição aos costumes locais, anteriormente vigentes. A sua

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elaboração ficou a cargo dos Tribunais Reais de Justiça, chamados de tribunais de
Westminster. Estes tribunais num primeiro momento possuíam competência limitada
às questões relacionadas com as finanças reais, propriedade imobiliária e criminais
que afectassem a paz do reino. Devido ao interesse político e económico na
administração da justiça o rei alarga a competência dos tribunais reais para todos os
particulares. No final da idade média, os tribunais de Westminster são os únicos
competentes para julgar na Inglaterra.

Para submeter uma questão às jurisdições reais era necessário requerer justiça
ao rei por meio de Chanceler, pedindo-lhe a concessão de um writ, por meio do qual
as jurisdições reais poderiam ser postas em funcionamento através do pagamento de
taxas à chancelaria. Os processos nos tribunais variavam consoante os writs, sendo
que para cada um havia um tipo de processo específico, isto fez com que os juristas
concentrassem a sua atenção principalmente nas regras processuais.

Como todos os litígios eram submetidos aos Tribunais reais de Westminster e


considerava-se que inserto neles havia o interesse do rei, todas as questões jurídicas
possuíam cunho público.

No período entre 1485 e 1832 os particulares, não podendo obter justiça pelos
tribunais reais, pediram ao rei que interviesse. Este pedido passava pela figura do
Chanceler, que se julgasse oportuno transmitia ao rei. O chanceler no século XV
torna-se um verdadeiro juiz autónomo, estatuindo em nome do rei, que a ele delegou
autoridade. A sua intervenção é cada vez mais solicitada, em virtude dos obstáculos e
da rotina dos juízes da Common Law.

No período moderno, a partir de 1529, a figura do chanceler, deixa de ser uma


espécie de confessor do rei, ou então um eclesiástico para passar a ser quase sempre
um jurista. As suas considerações são inspiradas no Direito Romano e no Direito
Canônico, bem diferente da Common Law. Surge o conceito de equity, que era um
processo escrito, secreto e inquisitório que em muito agradava politicamente ao
soberano, ao contrário dos processos da Common Law que eram orais e públicos.

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Entre 1616 e 1641, com a má organização e morosidade da jurisdição do
chanceler, houve a elaboração de uma teoria de não concorrência entre Common Law
e equity que previa o estabelecimento de dois princípios regentes da relação entre
ambos sendo que a equidade deveria respeitar o direito (equity follows the law) e o
chanceler deveria agir sempre da mesma forma, isto é, por ordem do demandante.

Até ao ano de 1875 as instâncias correram em separado, sendo que, entre 1873
e 1875, estas leis previram a possibilidade de as regras de Common Law e equity
serem invocadas e aplicadas numa acção única e perante uma jurisdição única
(Supreme Court of Justice). Anteriormente era necessário primeiro ir a um tribunal de
Common Law para obter uma solução e recorrer ao Tribunal de Chancelaria para
obter uma solução de equity.

A criação de um Welfare State, as leis e regulamentos tomaram uma


importância nunca antes vista no sistema jurídico inglês com a criação de órgãos
administrativos com poderes de regulamentação geral que acabou por modificar em
parte a visão do direito inglês.

Existem quatro aspectos importantes na formação da Common Law


relativamente ao direito inglês actual, nomeadamente ter levado a que os juristas
ingleses se concentrassem no processo; fixando numerosas categorias geradoras de
numerosos conceitos de direito inglês; rejeição da distinção entre direito público e
direito privado e criação de obstáculos à recepção do direito romano em Inglaterra.

2.2.2. Características e conceitos fundamentais

No que respeita à estrutura do Direito Inglês deve entender-se uma diferença,


que é o facto de os sistemas romano-germânicos serem relativamente racionais e
lógicos por serem ordenados tendo em consideração regras substantivas geradas no
seio das universidades e por obra do legislador, o que difere do Direito inglês que foi
ordenado sem preocupações lógicas nos quadros impostos pelo processo. Mesmo com
as modificações ocorridas no antigo sistema processual, as noções e classificações
clássicas permanecem.

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Outro conceito importante no Direito inglês é a equity, que nos traz uma
distinção fundamental, comparável à distinção entre direito publico e privado no
Direito romano-germânico, a equity surge para equilibrar o formalismo da Common
Law, aproximando-se de um ideal de justiça.

Todavia, a equity apresenta-se com o cuidado de não invadir os domínios da


Common Law, ou seja, introduzindo o chanceler que intervinha e que era a exigência
da consciência que se chocava com uma decisão resultante de um direito imperfeito.

Assim, entre 1873 e 1875, os tribunais aplicam uma e outra, e existindo


conflito seriam aplicadas as soluções de equity. Ainda hoje é legítimo falar em ambos
como dois ramos do direito inglês, pois cada um abrange um certo número de
matérias e caracteriza-se pelo emprego de um certo processo.

Outra noção fundamental do direito inglês é o trust, que é a criação mais


importante da equity e que se caracteriza pelo seguinte: existe um indivíduo, o
formador do trust que estipula sem equívocos que alguns bens serão administrados
por uma ou várias pessoas, o trustee, no interesse de uma ou várias terceiras pessoas,
a que se dá o nome de beneficiary .

O trustee é o proprietário do bem dado em trust e não tem de prestar contas a


ninguém. A sua única limitação é de ordem moral e sua consciência o obriga a agir
em prol do beneficio dos beneficiary.

Se o trustee aliena a título oneroso os bens do trust, a contraparte (outro bem ou


quantia correspondente) substitui o bem inicial do ato constitutivo como objecto do
trust. Se o ato de disposição foi gratuito (ou se aquele que adquire age
manifestamente de má fé), dá-se apenas a modificação do trustee, pois o que adquire
os bens, passa a se comprometer em respeitar os interesses do beneficiary.

São exemplos de utilização prática do trust: Disposições testamentárias;


Gestão de empréstimos; protecção de direitos de ex-assalariados em fundos de
pensão; no funcionamento de fundações;

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No que respeita ao processo, este é cuidadosamente preparado para que os
pontos de desacordo entre as partes surjam claramente e sejam fixados em questões
que podem ser respondidas com um simples sim ou não. O processo conclui-se com
uma audiência pública em que os pontos de desacordo vão ser esclarecidos por provas
orais. Não existe autos de processo, tudo é feito oralmente em audiência.

O direito inglês é jurisprudencial e as suas regras são obtidas nos ratio


decidendi das decisões tomadas pelos tribunais superiores e quando são proferidas
declarações não necessárias para a solução do litígio o juiz inglês usa o obiter dictum,
que são opiniões que podem ser discutidas porque não são regras de direito.

A legal rule é uma regra apta a dar, de forma imediata, a solução de um litígio,
muito menos geral do que a regra jurídica romano-germânica.

Também é importante perceber que o Direito inglês é um sistema aberto, pois


comporta um método que permite resolver todas as questões, sem a presença de
regras essenciais que possam ser aplicadas em todas as circunstâncias.

A técnica do direito inglês não parte da interpretação de normas gerais, mas


parte de legal rules já estabelecidas para descobrir uma legal rule, talvez nova, que
deva ser aplicada ao caso concreto.

2.2.3. Fontes de Direito

As fontes do Direito Inglês são as seguintes:


o Organização judiciária
o Jurisprudência
o Tribunais superiores
o Jurisdições inferiores ou organismos quase judiciários
o Costume
o A regra do precedente

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A Organização judiciária
A partir dos Judicature Acts (1873-1875), os tribunais de Westminster foram reunidos
num único tribunal superior (Supreme Court of Judicature), o qual pode,
excepcionalmente, sofrer o controle da Câmara dos Lordes e que se divide em secções
e graus, nomeadamente:

High court of justice – secção do banco, da família e chancelaria da rainha


Existe depois uma repartição entre as diferentes secções que tem apenas um carácter
de conveniência de serviço, sendo cada uma das secções competentes para estatuir
sobre qualquer causa que não seja a alçada da High Court of Justice. Esta secção
comporta no máximo setenta e cinco juízes , e o Lord Chief Justice, que preside a
secção do Banco da Rainha, o vice-chanceler , que preside a secção da chancelaria e o
President, que preside a secção da família.

Crown Court (sediado nos principais centros urbanos de Inglaterra) – Instituida em


1971 com competência matéria criminal. Pode ter como julgadores, segundo a
natureza da infracção considerada, um juiz da High Court of Justice, um juiz de
circuito ou um recorder (advogado investido temporariamente da função de juiz).

Court Appeal – É um segundo grau de jurisdição dentro do Supreme Court of


Judicature. É formado por 16 Lords of Justice, presididos pelo Master of the rolls, e
as decisões são tomadas em colegial de 3 juízes

Câmara dos Lordes – Pode funcionar como instância de recurso em relação às


decisões tomadas pela Court of Appeal, em seu Comité de Apelação da Câmara dos
Lordes. Entre os lordes, os habilitados são somente o Lord Chanceler (que preside a
câmara), os Lordes of Appeal in Ordinary (onze especialmente designados pela lei) e
os Lordes que ocuparam anteriormente funções judiciárias enumeradas legalmente,
sendo o recurso rejeitado se não existir maioria.

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Jurisdições inferiores (matéria civil)
County Courts: todas as questões que versem sobre direito inferior a duas mil libras,
divórcio. Nele agem os juízes de circuito; - as questões de valor menor que 200 libras
podem ser julgadas por um auxiliar do juiz ou por árbitros.

Jurisdições inferiores (matéria penal)


As infracções menores são julgadas por magistrates, que são cidadãos que recebem o
título de justice of the peace, não são juristas e exercem o ofício gratuitamente com o
auxílio de um secretário (clerk), nas cidades maiores os justices of the peace são
substituídos pelos stipendiary magistrates que são juízes em tempo integral e
remunerados. Estes também podem, nas infracções maiores (indictable offences)
decidir se existem indícios suficientes para apresentação do acusado perante o Crown
Court.

As Apelações contra as decisões dos County Courts são interpostas directamente ao


Court of Appeal e o recurso contra as decisões dos Magistrate´s Courts vai para o
Crown Court ou para a secção do Banco da Rainha.

Todos os contenciosos na Inglaterra são passíveis de controle pelo Supreme Court of


Judicature, seja em matéria civil ou criminal; As partes podem directamente dirigir-se
ao High Court of Justice ou ao Crown Court, em todos os casos. Estes tribunais
podem encaminhar o fato para uma jurisdição inferior ou mesmo evocar causa que
esteja em tramitação em qualquer tribunal inferior.

Não existe Ministério Público!

A regra do precedente
Devemos sempre recorrer às decisões judiciarias anteriores, respeitando-as, no
entanto a vinculação a estas só se estabeleceu no Séc. XIX.

As decisões tomadas pela Câmara dos Lordes constituem precedentes


obrigatórios, cuja doutrina deve ser seguida por todas as jurisdições, salvo
excepcionalmente pela própria.

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As decisões do Court of appeal constituem precedentes obrigatórios, cuja
doutrina deve ser seguida por todas as jurisdições, salvo excepcionalmente pela
própria.
As decisões do Court of Appeal constituem precedentes obrigatórios para
todas as jurisdições inferiores hierarquicamente e, salvo em matéria criminal, para o
próprio Court of Appeal.

As decisões tomadas pelo High Court of Justice impõem-se às jurisdições


inferiores, e sem serem rigorosamente obrigatórias, têm um grande valor de persuasão
e são geralmente seguidas pelas diferentes divisões do próprio High Court of Justice e
pelo Crown Court.

Os julgamentos
Os juízes não têm de motivar as suas decisões, simplesmente ordenam e não
tem de fundamentar.

Nos tribunais superiores os juízes geralmente expõem as razões de sua


decisão, e nessa decisão, empregam fórmulas e anunciam regras que pela sua
generalidade ultrapassam o âmbito do processo.

Nas razões dadas pelos juízes é que os juristas ingleses devem distinguir o que
constitui a ratio decidendi do julgamento e aquilo que se constitui obiter dictum, ou
seja, o que o juiz declarou sem necessidade absoluta, é a ratio decidendi que constitui
a regra jurisprudencial a ser seguida no futuro sendo que o juiz não esclarece qual a
ratio decidendi em sua decisão, esta será determinada posteriormente por outro juiz,
aquando da utilização do precedente no litígio que estiver a julgar.

Lei (statutes)
São supletivas da jurisprudência que a corrigem e devem ser aplicadas restrita
e literalmente. Não é considerada modo de expressão normal do direito inglês e só
será definitivamente incorporada no direito inglês quando tiver sido aplicada e
interpretada pelos tribunais.

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Não existe equivalente ao diário da república em Inglaterra.

Costume
Existe uma regra que exige que o costume seja obrigatório que é ter carácter
de costume imemorial, ou seja, tem que se provar que já poderia existir em 1189.

3 – O ensino do Direito e Profissões Jurídicas no Direito Inglês

3.1. Estudar Direito


O ensino inglês apresenta um carácter particular. Além das Universidades de
Oxford, Cambridge e Manchester, existe a Universidade de Londres, mais
moderna, mas todas conferindo diplomas correspondentes ao grau de bacharel e de
doutor em Direito.

Os estudantes que se destinam às carreiras jurídicas passam pelo “Inns of


Court”, onde estudam, sobretudo, a common law e a prática do foro, para que
possam tornar-se barristers.

A organização do Inns Of Court (albergues da Corte) eram assim


chamados porque tratavam-se de seminários dos Tribunais ou Cortes de Justiça,
encontrando-se descritas em Blackstone e em Franqueville-Sistema Judiciário da
Grã-Bretanha, e compreendem
a)Ao Inner Temple;
b)Ao Middle Temple;
c)Ao Lincoln ́s Inn;
d)Além de alguns Inns Of Chancer, onde os estudantes podem começar seus
estudos para completar sua educação profissional nos Inns of Court.

Segundo os Regulamentos de 1875 e 1892, o plano de cursos compreende; 1º)


Direito Romano e Direito Internacional Público e Privado; 2º) Direito Constitucional
da Inglaterra e das Colônias; 3º) Direito Inglês, isto é, a common law e a
statutelaw, compreendendo o direito das pessoas, o direito da propriedade móvel

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e imóvel, o direito das obrigações, o processo civil, o direito penal e o processo
criminal.
Os advogados são necessariamente membros de um desses quatro
clubes de advogados existentes em Londres, explica R. David. O mesmo ocorre
se residem e atuam em alguma cidade do interior. Essa circunstância merece ser
observada. De fato, daí resulta que os advogados constituem um meio muito
homogêneo, um círculo restrito em que todos se conhecem e onde uma infração
disciplinar, ou mesmo ética, é severamente julgada

3.2. As profissões jurídicas

Passamos agora considerar as principais profissões jurídicas existentes:

Juízes a tempo inteiro


O Lord Chief Justice ocupa o topo da hierarquia do sistema judicial da Inglaterra e
do País de Gales, presidindo aos seus tribunais. As primeiras funções referidas
são desempenhadas desde 3 de abril de 2006, quando as competências
anteriormente desempenhadas pelo Lorde Chanceler foram transferidas para o
Lord Chief Justice por força da reforma constitucional de 2005. O Lord Chief
Justice é também a autoridade superior em matéria de justiça penal.

Chefes de secção – quatro juízes superiores que chefiam as outras jurisdições: o


Master of the Roles (secção cível); o presidente da secção Queen’s Bench; o
presidente da secção de família e o Chanceler do Tribunal Superior (secção
Chancery). Para mais informações, consulte o sítio Web já referido:
Magistratura em Inglaterra e no País de Gales.

Juízes de recurso (Lords Justices of Appeal) – exercem funções no Tribunal de


Recurso, que trata tanto de processos penais como cíveis.

Juízes do Tribunal Superior – exercem funções no Tribunal Superior, que aprecia


os processos cíveis mais complexos. Estes juízes apreciam também os
processos penais de maior gravidade ou complexidade do Tribunal da Coroa,
nomeadamente os homicídios.

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Juízes de círculo – geralmente apreciam apenas processos penais, cíveis e de
família.

Juízes de comarca – julgam processos cíveis. A maior parte do seu trabalho


decorre em gabinete (e não em audiências públicas). Têm igualmente
competência para julgar qualquer processo num tribunal de comarca, desde
que as sanções aplicáveis sejam inferiores a um limite monetário específico
(revisto regularmente); os processos em que as sanções aplicáveis forem
superiores a esse limite são geralmente julgados por um juiz de círculo. Os
juízes de comarca apreciam mais de 80 % de todos os processos cíveis em
Inglaterra e no País de Gales.

Juízes de comarca (dos tribunais de magistrados) exercem funções nos tribunais


de magistrados e apreciam os mesmos processos que os magistrados (ver
infra). Prestam apoio, sobretudo, nos processos relativos a matérias mais
complexas e morosas.

High Court masters e registrars – são juízes que tratam dos aspetos processuais,
julgando a maioria dos processos civis das secções Chancery e Queen’s Bench
do Tribunal Superior.

Juízes a tempo parcial


Os juízes a tempo parcial são geralmente nomeados por um período não inferior a
cinco anos, sem prejuízo do limite de idade aplicável. Os principais juízes a tempo
parcial são:
• Juízes-adjuntos do Tribunal Superior – exercem funções numa ou em várias
secções do Tribunal Superior.
• Recorders – têm uma competência semelhante à dos juízes de círculo, embora
geralmente tratem dos processos menos complexos ou graves.
• Juízes-adjuntos dos juízes de comarca – exercem funções nos tribunais de
comarca e nas secções de comarca do Tribunal Superior. Tratam dos
processos menos complexos da competência dos juízes de comarca.
• Juízes-adjuntos dos juízes de comarca dos tribunais de magistrados - têm

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competências semelhantes às dos seus congéneres a tempo inteiro.
• High Court masters e registrars adjuntos – desempenham funções semelhantes às
dos seus congéneres a tempo inteiro no Tribunal Superior.

Juízes dos tribunais especializados


Os tribunais especializados apreciam cerca de 800 000 processos por ano,
numa grande variedade de matérias, nomeadamente litígios em matéria fiscal, de
pensões ou de imigração.

Os tribunais especializados funcionam geralmente através de um coletivo que


inclui um presidente, com formação jurídica, ou um juiz, apoiado por um coletivo de
especialistas de várias áreas. Não existe júri e o juiz de um tribunal especializado não
tem poderes para aplicar penas de prisão. A sua função principal consiste em resolver
satisfatoriamente os litígios e, em alguns casos, decidir a indemnização ou
compensação a atribuir à parte vencedora.

Magistrados (magistrates)
Os magistrados, também conhecidos como juízes de paz ou JP, tratam de
cerca de 95 % dos processos penais de Inglaterra e do País de Gales. Mais de 30 000
magistrados exercem as suas funções localmente, trabalhando normalmente um
mínimo de 26 meios-dias por ano. Não são obrigados a ter formação jurídica e não
são remunerados.

Exercem geralmente em coletivos de três, dos quais um tem formação como


presidente, ajudando a orientar o coletivo e funcionando igualmente como seu porta-
voz. O coletivo conta sempre com a assistência de um funcionário com formação
jurídica, que presta aconselhamento tanto em questões materiais como processuais.
Os magistrados apreciam os processos penais menos graves, tais como pequenos
furtos, danos, desordens públicas e infrações de trânsito. Apreciam igualmente uma
variedade de questões relacionadas com famílias e com menores, bem como com a
atribuição de licenças.

Procuradores
Organização

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A Procuradoria da Coroa é a autoridade independente responsável por levar a
tribunal os casos investigados pela polícia em Inglaterra e no País de Gales. É
supervisionada pelo Procurador-Geral, que responde pela Procuradoria perante o
Parlamento. A Inglaterra e o País de Gales estão divididos em 42 zonas, sendo cada
uma chefiada por um procurador-chefe da Coroa. Além disso, existem ainda quatro
divisões nacionais especializadas: crime organizado, crimes especiais, luta contra o
terrorismo e luta contra a fraude. Através de um serviço telefónico, intitulado CPS
Direct, os agentes policiais de toda a Inglaterra e País de Gales podem receber
aconselhamento fora do horário normal de funcionamento da Procuradoria.

A Procuradoria da Coroa é chefiada pelo Diretor dos Procuradores Públicos,


que toma decisões acerca dos casos mais complexos e delicados, aconselhando a
polícia relativamente a questões penais. O Diretor dos Procuradores Públicos é o
responsável último pelas acusações deduzidas pela Procuradoria, respondendo perante
o Procurador-Geral.

A Procuradoria emprega procuradores e procuradores-adjuntos, assim como


investigadores e administradores. Os procuradores da Coroa são advogados
experientes, responsáveis pelo exercício da ação penal em representação da Coroa. Os
procuradores-adjuntos procedem à revisão e apresentação de um leque reduzido de
processos nos tribunais de magistrados.

Organização das profissões jurídicas: Advogados


Advogados (Barristers e Advocates)
A Ordem dos Advogados de Inglaterra e do País de Gales é o órgão de
regulação de todos os barristers de Inglaterra e do País de Gales. Foi criada para zelar
pelos interesses da profissão, para formular e aplicar iniciativas estratégicas
importantes e para promover os padrões, a honra e a independência da Ordem. Em
conformidade com a Lei dos Serviços Jurídicos de 2007, a função de regulação da
profissão foi delegada no Conselho da Ordem dos Advogados, um organismo
independente e autónomo. Os barristers são consultores jurídicos individuais
especializados que exercem atividade nos tribunais. De um modo geral, são
profissionais liberais e trabalham em grupo, em escritórios conhecidos como
chambers, sendo designados por tenants. Os barristers são formados especificamente

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para o exercício da advocacia, ou seja, para representar os seus clientes nos tribunais
superiores. Os barristers dedicam igualmente muito do seu tempo a aconselhar
clientes e a estudar os processos, bem como a fazer pesquisas na sua área de
especialização. Cerca de 10 % dos barristers em exercício são Conselheiros da
Rainha (Queen’s Counsel) e lidam com os processos mais importantes e complexos.

Advogados (Solicitors – consultores jurídicos)


O trabalho dos solicitors consiste em proporcionar aos clientes (particulares,
empresas, organizações voluntárias, instituições de caridade, etc.) assistência jurídica
profissional, representação jurídica e patrocínio judiciário. O seu trabalho é muito
variado. A maioria destes advogados é independente, fazendo parte de sociedades de
solicitors que prestam serviços aos clientes. Podem ter um escritório de prática geral
em diversas áreas do direito ou especializar-se num domínio específico. Outros
trabalham por conta de outrem, na administração central e local, na Procuradoria da
Coroa, nos tribunais de magistrados, numa organização comercial ou industrial ou
ainda noutros organismos. Estes profissionais podem escolher o ambiente laboral que
mais lhes agradar.

Em geral, prestam aconselhamento jurídico aos clientes. Se se revelar


necessária a representação dos clientes nos tribunais superiores de Inglaterra e do País
de Gales, os solicitors contratam um barrister, que defenderá o caso em tribunal.
Porém, nem sempre é exigido um barrister, dado que os solicitors devidamente
qualificados têm direitos de audiência (ou seja, estão habilitados para representar os
seus clientes em julgamento) junto dos tribunais superiores.

Notários
Os notários formam o terceiro e mais antigo ramo das profissões jurídicas em
Inglaterra e no País de Gales. Os notários eram admitidos à profissão e autorizados a
exercer pelo Faculty Office (o Arcebispo de Cantuária fê-lo pela primeira vez em
1279). O órgão regulamentar é o Court of Faculties. Os notários funcionam como uma
ponte entre o direito civil e o direito comum.

Todos os notários têm formação jurídica e embora muitos possam também ser
advogados (solicitors), a certificação como notário é obtida através de exames

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separados e independentes. Para se profissionalizarem, todos os notários têm de obter
a mesma formação inicial: o curso de práticas notariais ministrado pelo University
College London. Depois de admitidos à profissão, os notários podem exercer em
qualquer local da Inglaterra e do País de Gales e todos têm os mesmos poderes. Para
além da elaboração e emissão de instrumentos e atos notariais, os notários podem
igualmente prestar aconselhamento relativamente à preparação de testamentos, a
questões em matéria de sucessões, à administração de heranças e à transferência da
propriedade de imóveis.

As atividades notariais são reconhecidas em todo o mundo há séculos, o que


permite a livre circulação dos cidadãos e das empresas. Os notários facilitam o
comércio e a vida dos cidadãos comuns, permitindo-lhes desempenhar as suas
atividades livremente, com custos razoáveis e sem atrasos desnecessários.

Os notários possuem um selo oficial próprio, tendo os atos notariais força


vinculativa em Inglaterra e no País de Gales. Os atos notariais podem revestir a forma
privada ou pública, caso em que são conhecidos como «atos notariais autênticos». Os
atos notariais que ostentem a assinatura e o selo oficial do notário são reconhecidos
em todos os países do mundo como documentos jurídicos oficiais emitidos por um
funcionário público competente.

Os notários estão sujeitos a normas profissionais semelhantes às dos


advogados (solicitors), sendo obrigados a renovar anualmente a licença para o
exercício da profissão e a fazer um seguro de responsabilidade profissional e contra
fraudes. A renovação da licença depende do cumprimento das regras. A nomeação
notarial é feita a título individual para cada notário. A Ordem dos Notários é o
organismo associativo que representa cerca de 800 notários públicos. A Associação
dos Notários de Profissão (Society of Scrivener Notaries) representa cerca de 30
notários de profissão que exercem principalmente no centro de Londres, nomeados
pela Scriveners Company, uma associação antiga.

Advogados especializados em marcas e patentes


Os advogados especializados em marcas e patentes são consultores especializados em
matéria de propriedade intelectual e prestam aconselhamento jurídico aos seus

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clientes sobre esta matéria, especialmente no que diz respeito a patentes, marcas,
desenhos e modelos e direitos de autor. Representam os seus clientes nos tribunais
especializados em propriedade intelectual e por vezes adquirem poderes de
representação adicionais mediante a qualificação como mandatários forenses. A maior
parte dos advogados especializados em patentes e marcas trabalha de forma
independente. Muitos trabalham em escritórios especializados, outros trabalham em
associação com solicitors. Além disso, um número considerável destes profissionais
trabalha em empresas. Os advogados especializados em patentes e marcas com
legitimidade para exercer o mandato forense podem representar os seus clientes nos
processos relativos a propriedade intelectual em igualdade de circunstâncias com os
solicitors, designadamente contratando um barrister para conduzir o processo. O
Instituto dos Advogados de Patentes (CIPA) representa os advogados de patentes do
Reino Unido. As suas funções incluem a cooperação com o Governo relativamente à
legislação sobre a propriedade intelectual, a formação e o treino dos advogados de
patentes e dos advogados estagiários de patentes e a cooperação com as autoridades
reguladoras da profissão. O CIPA visa a promoção da lei da propriedade industrial e
das profissões conexas. O Instituto dos Advogados de Marcas (ITMA) representa os
advogados de marcas do Reino Unido. As suas funções incluem negociar e fazer lóbi
junto do Governo, da entidade reguladora independente (IPReg) e de outras
organizações pertinentes. Proporciona formação, treino e aconselhamento aos
advogados de marcas e é responsável pela promoção da profissão e da propriedade
intelectual. O Conselho de Regulação da Propriedade Intelectual (IPReg) trata das
matérias disciplinares e de regulação, e estabelece, fiscaliza e impõe normas para os
advogados de patentes e marcas em todo o Reino Unido. Atua na defesa do interesse
público e é responsável pela manutenção do registo obrigatório dos advogados
especializados em patentes e marcas, quer sejam pessoas singulares ou pessoas
coletivas.

Outras profissões jurídicas


Com exceção dos funcionários dos tribunais de magistrados, aos escrivães e
outros trabalhadores da maior parte dos tribunais da Inglaterra e do País de Gales não
é exigida formação jurídica. São funcionários públicos que tratam de questões
administrativas e prestam assistência aos juízes. Não podem prestar aconselhamento
jurídico. Todos os trabalhadores dos tribunais são funcionários públicos do Serviço

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dos Tribunais de Sua Majestade.

O papel dos funcionários judiciais é diferente nos tribunais de magistrados. Os


magistrados não togados ou juízes de paz não têm formação jurídica, pelo que
dependem dos conselhos de funcionários formados em Direito, que podem ser de dois
tipos: funcionários judiciais ou conselheiros jurídicos (ou secretários judiciais).

• Os funcionários judiciais são os principais conselheiros jurídicos dos juízes de paz.


São advogados (barristers ou solicitors) com cinco anos de experiência
mínima. Aconselham os juízes de paz em matéria substantiva e processual,
tanto dentro como fora do tribunal. São também responsáveis pela gestão e
formação dos conselheiros jurídicos, pela qualidade dos serviços jurídicos
prestados e pela coerência do aconselhamento jurídico prestado em todas as
suas áreas administrativas.
• Os conselheiros jurídicos têm assento no tribunal e aconselham os magistrados em
matéria de direito e de práticas jurídicas e processuais. Também têm formação
jurídica (normalmente são advogados, barristers ou solicitors).

Atualmente, as decisões do Tribunal Superior são executadas por agentes de


execução do tribunal superior, nomeados e colocados nas diversas circunscrições
pelo Ministro da Justiça ou pelo seu delegado. São responsáveis pela execução das
sentenças do tribunal, cobrando as quantias devidas em resultado de sentenças
proferidas pelo tribunal superior ou pelo tribunal de comarca que tenham sido
remetidas para o tribunal superior. Podem apreender e vender bens para cobrir o
montante da dívida. Também supervisionam e intervêm na posse e na devolução dos
bens.

Os oficiais de justiça dos tribunais de comarca são funcionários públicos


recrutados pelo Serviço dos Tribunais de Sua Majestade para tratar da execução de
sentenças e/ou de despachos elaborados e registados nos tribunais de comarca. Levam
a cabo mandados de execução, retomam a posse de imóveis através de mandados de
posse e recuperam bens com base em mandados de restituição. As normas aplicáveis
aos oficiais de justiça que executam mandatos constam dos artigos 85.º a 111.º da Lei
dos Tribunais de Comarca, de 1984. Os procedimentos de execução são fixados por

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normas de processo civil. Os oficiais de justiça dos tribunais de comarca
desempenham ainda outras funções, nomeadamente a citação de documentos e a
execução de mandados de detenção. As normas aplicáveis à detenção constam dos
artigos 118.º a 122.º da Lei dos Tribunais de Comarca.

Os agentes de execução certificados são agentes privados, certificados ao


abrigo das normas de execução das rendas em mora e autorizados por juízes de
círculo com assento em tribunais de comarca. A execução de rendas em mora prevê a
apreensão dos bens do inquilino pelo senhorio a fim de assegurar o pagamento das
rendas em atraso sem a intervenção do tribunal. Ao abrigo de outra legislação, os
agentes de execução certificados também têm poderes para executar outras dívidas
específicas, nomeadamente impostos locais, taxas especiais, etc.

4 – Conclusões

Abordou-se neste relatório a temática da família de Direito da Common Law,


começando por fazer uma sucinta resenha, abordando os traços gerais do Direito dos
Estados Unidos da América passando de seguida ao Direito Inglês, que se optou por
destacar na feitura do presente trabalho.

Seguidamente abordou-se com alguma profundidade o Direito Inglês,


nomeadamente a sua formação, desde a fase anterior à conquista normanda até à
actualidade, o que permite que se possa alcançar o modo como este sistema de Direito
evoluiu ao longo dos anos até se transformar no que se pratica actualmente.

Passamos de seguida às características deste Direito bem como a alguns


conceitos que se consideraram essenciais, nomeadamente, equity e trust, entre outros,
que auxiliam na conceptualização do Direito Inglês.

As Fontes do Direito foram também enunciadas e explicitadas, o que sempre


ajudará na tarefa de percepção dos conteúdos da Common Law.

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Para finalizar explicitou-se a forma de ensino do Direito no Reino Unido, que
em muito difere do praticado nas Universidades Portuguesas, passando ao tópico das
profissões jurídicas ali existentes.

Este relatório pode considerar-se não só um tema de estudo de elevado


interesse e que nos deixa a grande curiosidade de aprofundar o tema da Common Law,
tanto no Direito Inglês como no Direito dos Estados Unidos da América, como
também um conjunto de tópicos que nos permitem entender que existem diferentes
famílias de Direito que merecem ser estudadas e comparadas, suscitando enorme
curiosidade no seu conhecimento, estudo e quem sabe, prática.

5 – Bibliografia

Vicente, Dário Moura, - “Direito Comparado, Volume I, Introdução e parte geral”


Coimbra, Editora: Almedina, 2018,
ISBN: 9789724074375

Carlos Ferreira de Almeida e Jorge Morais Carvalho, “Introdução ao Direito


Comparado”, Editora: Almedina, 2018, ISBN: 9789724050669

Alexandrino, José de Melo ,” II Jornadas de Direito Municipal Comparado


Lusófono”, Editora AAFDL,2016

Vários Autores, Scientia Ivridica - Revista de Direito Comparado Português e


Brasileiro | Outubro-Dezembro 2008 Tomo LVII - Número 316, Editora:
Universidade do Minho, 2009, ISBN: 9780000064950

David, René – “Os Grandes Sistemas do Direito Contemporâneo”, (4ª Edição),


Editora: Martins Fontes, 2002, ISBN 9788533615632

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Outras fontes

www.cps.gov.uk
www.facultyoffice.org.uk
www.ipreg.org.uk

www.direitolegal.wordpress.com
www.thefreedictionary.com
www.e-justice.europa.eu
www.infoplease.com

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