Você está na página 1de 4

Questões Éticas sobre a

modificação genética
John Bryant
Existe uma séria preocupação de que algumas dessas moléculas artificiais de DNA recombinante podem se revelar como sendo biologicamente
perigosas. Paul Berg et al., (1974)¹

Resumo
Este artigo examina as origens e aplicações atuais da modificação genética de plantas, animais e seres
humanos. As preocupações éticas levantadas a partir de fontes tanto seculares quanto religiosas são levadas
em consideração. Conclui-se que a humanidade tenha recebido a tarefa da administração responsável de
todos os recursos da terra, incluindo o DNA, e que há fortes motivações teológicas para a utilização da
Modificação Genética com sabedoria e para o benefício de outros.

Histórico
Em 1972, Paul Berg, da Universidade de Stanford, Califórnia, relatou Sobre o autor
a primeira construção em tubo de ensaio de DNA recombinante, ou seja, Prof. John Bryant é Professor Emérito de Biologia
uma molécula de DNA recombinante a partir de pedaços de moléculas² Celular e Molecular da Universidade de Exeter;
Professor Visitante em Biologia Molecular na
de DNA pré-existente. Rapidamente, essa metodologia foi adotada por
Universidade Estadual de West Virginia, EUA;
outro cientista de Stanford, Stanley Cohen, que, junto com Herbert Presidente da Associação Cristãos na Ciência e
Boyer (Universidade da Califórnia, São Francisco) e os seus colegas, foi anteriormente presidente da Sociedade para a
mostraram que as moléculas de DNA recombinante podem ser Biologia Experimental. Prof. Bryant iniciou um
dos primeiros cursos de bioética para estudantes
transferidas de forma muito eficaz para o interior de células bacterianas
de biologia em uma universidade do Reino Unido
no laboratório³. Estes primeiros experimentos de modificação genética e é o coautor de Life in Our Hands (Vida em
(GM) envolveram a transferência de DNA recombinante para as células nossas mãos), (Imprensa Interuniversitária, 2004).
de Escherichia coli, uma espécie bacteriana amplamente utilizada como
modelo na pesquisa bioquímica e genética. As moléculas de DNA recombinante OGM avançou rapidamente. Um passo fundamental
recombinante não só foram mantidas e replicadas dentro das células ocorreu na utilização de OGM para a produção de produtos
bacterianas, mas elas também funcionaram normalmente. farmacêuticos, tais como a insulina humana, uma das aplicações
Pouco tempo após a invenção destas técnicas, houve um comerciais mais rápidas do conhecimento biológico já registrado, com
desenvolvimento surpreendente. Vários dos principais biólogos, um intervalo de apenas alguns anos entre o isolamento do gene e o
incluindo aqueles que tinham desenvolvido a tecnologia de DNA licenciamento do produto para utilização em terapia humana. A insulina
recombinante, escreveram para a prestigiosa revista científica “US é hoje apenas um exemplo, dentre centenas de reagentes terapêuticos
Journal Science” ⁴. Eles levantaram algumas considerações sobre criados por OGM e utilizados na indústria farmacêutica para a cura
possíveis riscos decorrentes de algumas aplicações da tecnologia e tanto de doenças em animais quanto em humanos.
sugeriram que alguns tipos de experiências não deveriam ser tentadas.
Logo após a sua aplicação comprovada nas bactérias, ficou claro
Inicialmente, esta pesquisa foi auto-regulada, mas em 1975 a própria
rapidamente que as técnicas de modificação genética eram aplicáveis a
comunidade científica pediu a suspensão temporária do trabalho do DNA
uma gama muito maior de organismos: A modificação genética dos
recombinante e foi realizada uma conferência em Asilomar, Califórnia⁵.
animais foi relatada pela primeira vez em 1976⁷ e ficou bem estabelecida
Esta reunião foi amplamente reconhecida como um "marco de
no início dos anos 80⁸. A modificação genética de plantas foi alcançada
responsabilidade social e auto governança pelos cientistas”⁶, levando à
em 1983⁹. Agora é evidente que pelo menos alguns membros de cada
produção de orientações para a avaliação dos riscos e da imposição de
grupo principal podem ser geneticamente modificados: bactérias, fungos
regras de prática baseado em cada nível de risco. Estas orientações de
(incluindo leveduras), animais invertebrados e vertebrados, plantas
segurança formaram a base da estrutura reguladora para a realização de
unicelulares e multicelulares.
trabalhos com DNA recombinante, que, embora modificado à luz da
A recente sequenciação dos genomas de mais de 250 espécies
experiência, ainda estão em uso nos dias de hoje.
(principalmente bactérias, mas incluindo representantes de todos os
Com as estruturas reguladoras em vigor, a tecnologia do DNA principais grupos), envolvendo a determinação da ordem precisa das
1. Berg. P. “Perigos potenciais de moléculas de DNA recombinante", Ciência (1974) 185, 303. bases (as letras “genéticas”) do DNA contido em um organismo
2. Jackson, D.A., Berg, P. & Symons, RH. "Método bioquímico para a inserção de novas individual, só foi possível por causa do uso da tecnologia da
informações genéticas no DNA do vírus símio 40: moléculas circulares de DNA SV40 modificação genética. O Projeto Genoma Humano já foi concluído
contendo genes de fago lambda e operon lac em Escherichia coli", Protocolo da
Academia Nacional de Ciências, EUA (1972) 69, 2904-2908 7. Jaenisch, R. "integração da linha germinal e transmissão mendeliana do vírus exógeno da
3. Cohen, S.N., Chang, A.C.Y., Boyer, H.W. & Helling, R. B. “Construção de plasmídeos leucemia Moloney", Protocolo da Academia Nacional de Ciências, EUA (1976) 73,
bacterianos biologicamente funcionais in vitro”, Protocolo da Academia Nacional de 1260-1264.
Ciências, EUA (1973) 70, 3240-3244 8. por exemplo. Gordon, J. W., Scangos, G. A., Plotkin, D.J., Barbosa, J. A. & Ruddle, F.H.
4. Berg, op. cit., (1) "Transformação genética de embriões de camundongos por micro injeção de DNA
5. Berg, P., Baltimore, D., Brenner, S., Roblin, R.O. & Singer, M. F. “Resumo geral da purificado", Protocolo da Academia Nacional de Ciências, EUA, (1980) 77, 7380-7384.
conferência de Asilomar sobre moléculas de DNA recombinante", Protocolo da 9. Herrera-Estrella, L., Depicker, A., Van Montagu, M. & Schell, J. "Expressão de genes
Academia Nacional de Ciências, EUA (1975) 72, 1981-1984. quiméricos transferidos para células de plantas utilizando um vetor derivado do
6. Barinaga, M. "Asilomar revisitado: lições para hoje?" Ciência (2000) 287, 1584-1585. plasmídeo Ti", Natureza (1983) 303, 209-213.

ARTIGO FARADAY Nº 7
Além disso, Ele deu aos seres humanos um lugar especial nele; temos a
com sucesso¹⁰, assim como a sequenciação do DNA de outros
mamíferos, incluindo os primatas ¹¹. A identificação das mutações do capacidade de usar o mundo natural, a curiosidade de saber mais sobre
DNA que causam as doenças humanas continua a aumentar ele, além da engenhosidade e criatividade para colocar esse
rapidamente. Com base na última contagem, diagnósticos baseados em conhecimento em prática. No entanto, devemos usar esses dons como
DNA já estão disponíveis para 1033 condições diferentes (um aumento mordomos do mundo de Deus. Essa mordomia inclui uma atitude correta
de quase 600 desde 2002) com mais 296 sob pesquisa e para com os nossos semelhantes homens e mulheres, de amar nosso
desenvolvimento ativo¹². próximo como a nós mesmos. Assim, como já mencionamos, a
segurança e o risco serão preocupações importantes tanto para os
Questões éticas gerais cientistas de crenças judaicas ou cristãs como para os cientistas não-
No período inicial da tecnologia de modificação genética, houveram religiosos. Será que um grupo devidamente informado e qualificado de
surpreendentemente poucos debates sobre questões éticas. Assim sendo, Cristãos ou Judeus religiosos conseguiriam chegar a uma conclusão
comentaristas notaram a ausência de profissionais de ética na diferente daquela proveniente de Asilomar? É quase certo que não. No
conferência de Asilomar (alguns advogados estavam presentes). A entanto, podem haver preocupações religiosas específicas sobre algumas
filosofia moral, como tal, não entrou nas discussões e a possibilidade de aplicações da tecnologia de modificação genética e são nessas aplicações
contestação intrínseca à modificação genética mal foi levantada. que iremos focar agora.
Portanto, foi meio inevitável que a base para a discussão ética fosse o
Modificação genética de plantas
consequencialismo – “o que acontece se ... "- tendo a segurança como
sendo a preocupação dominante. O foco era sobre como a tecnologia Como mencionado acima, a comunidade científica teve que esperar
deve ser usada ao invés de se ela deve ser usada. dez anos a partir do relatório inicial de modificação genética das bactérias
para obter a primeira experiência de modificação genética bem-sucedida
No que diz respeito ao envolvimento religioso neste assunto, em plantas. Para os cientistas de plantas, o mais interessante dessa técnica
presume-se normalmente que a religião em geral será contrária à foi que assim como as técnicas originalmente desenvolvidas para as
tecnologia de modificação genética. Na verdade, não é bem assim. A bactérias, ela se baseou em um processo natural onde a bactéria leva o
situação é muito mais complexa. As atitudes religiosas para com as DNA para dentro dos cromossomos de uma planta hospedeira. Além
modificações genéticas estão principalmente preocupadas com o que é disso, para os criadores de plantas, essa técnica tinha a capacidade de
feito com a tecnologia ao invés de se deve ser feito. De fato, algumas levar genes específicos para as estirpes elite pré-existentes. Para mais
aplicações específicas da modificação genética tiveram um forte apoio detalhes técnicos, os leitores interessados devem consultar Hughes e
de pessoas religiosas, especialmente daqueles dentro das tradições Bryant (2002)¹⁵. Em 1985 alguns pequenos testes de campo de
judaico-cristãs, como sendo uma utilização positiva de talentos dados por modificações genéticas já estavam em curso em vários países e os
Deus para humanidade e utilizados para o bem-estar dos outros. O tema primeiros sucessos foram alcançados na regulamentação da expressão dos
da modificação genética é um bom exemplo de interação entre ciência, genes "estrangeiros". No entanto, levaram mais dez anos antes que a
tecnologia e religião em uma esfera onde as escrituras relevantes (por primeira colheita geneticamente modificada, como o tomate de
exemplo, o Antigo Testamento da Bíblia na tradição judaico-cristã e o amadurecimento lento (e o extrato de tomate derivado dele) entrasse no
Novo Testamento na religião Cristã) não tem nada específico para dizer. mercado.
Apesar dessa aceitação geral da tecnologia de modificação genética, Hoje, a utilização de colheitas geneticamente modificadas varia muito
existem algumas vozes contrárias. Existem pessoas, muitas vezes do ponto em todo o mundo. Embora na União Europeia apenas seis países tenham
de vista religioso pagão ou neo-pagão, que têm objeções intrínsecas a toda adotado o plantio geneticamente modificado, o uso no resto do mundo
a ideia de genes em movimento. Em discussões baseadas em Aristóteles, cresce anualmente. Em 1996, os plantios geneticamente modificados
existe a visão de que os genes de um organismo são parte de sua natureza foram cultivados em menos de 2 milhões de hectares, quase inteiramente
básica, a sua telos¹³, e que essa modificação genética distorce essa nos EUA, onde 1,7 milhões de hectares foram dedicados ao plantio do
natureza básica. Outros têm uma visão da natureza que considera o principal produto geneticamente modificado e tolerante aos herbicidas, a
conceito de um gene como uma entidade móvel, e esta é demasiadamente soja. Em 2006, os plantios geneticamente modificados foram cultivados
reducionista; sobre este ponto de vista, qualquer gene é parte de uma em 102 milhões de hectares em 22 países diferentes¹⁶. Em ordem
complexa rede de vida e movê-lo para outro organismo irá abalar esta rede decrescente de hectares cultivados, os principais países envolvidos são
e pode dessa maneira perturbar “o equilíbrio da natureza”.¹⁴ Finalmente há EUA, Argentina, Brasil, Canadá, Índia, China, Paraguai e África do Sul,
aqueles que simplesmente consideram tais atividades como sendo sendo os maiores plantios a soja (em 58,6 milhões de hectares), o milho,
"inacessíveis" para a humanidade, uma visão geralmente baseada em algodão e óleo de colza (canola). Cerca de 90% (9,3 milhões) dos
pontos de vista particulares dos relacionamentos entre os seres humanos e produtores de plantios geneticamente modificados são agricultores com
o mundo natural. poucos recursos trabalhando em pequenas fazendas; dos quais 6,8 milhões
estão na China e também com números significativos na Índia e na África
Dentro da religião Cristã, há uma pequena minoria que sugere que
do Sul. A primeira produção comercial de arroz geneticamente modificado
mover os genes de um organismo para outro transgride o conceito que
aconteceu em 2005 no Irã, e testes de campo sistemáticos com este arroz
Deus fez a criação dos "tipos" (Gênesis 1). Na opinião do atual escritor,
geneticamente modificados estão em andamento na China e aguardando
esta sugestão é insustentável. As descobertas de microrganismos e de uma aprovação em breve para o crescimento comercial em larga escala. A
genes ocorreram séculos depois da escrita do Novo Testamento, o que importância do arroz na economia alimentar do mundo é tão grande que é
dirá do Velho; tais temas estão completamente fora do conhecimento provável que haja um rápido crescimento das áreas dedicadas aos produtos
dos autores bíblicos. Embora, sem dúvida, o escritor de Gênesis tenha geneticamente modificados.
equiparado “tipos” com as diferentes espécies de animais e plantas, é
difícil conciliar isso com a nossa compreensão moderna de espécie. Histórico do debate ético sobre plantas
Espécies não são fixas e de fato algumas são muito indistintas: na O início da modificação genética de plantas, em 1983, recebeu pouca
verdade, os biólogos têm dificuldades para chegar a uma definição atenção do público na época, uma situação que estava para mudar
irrefutável desta palavra. Isto é verdade especialmente nas bactérias, drasticamente. De fato, a aplicação da modificação genética aos plantios
pois, muitas praticam a troca de genes levando a uma rápida evolução comercialmente cultivados alertou muitas pessoas pela primeira vez, em
genética. meados da década de 1990 para a existência de técnicas de modificação
A ausência de proibições específicas nas escrituras, não significa genética, apesar de terem sido utilizadas em outros contextos desde
necessariamente que tudo é permitido. É nessas situações que a meados de 1970 e continua havendo um intenso debate ético. No Reino
aplicação dos princípios gerais se torna importante. No Antigo e no Unido e outros países da UE muitos desses debates tem sido hostil aos
Novo Testamento, assim como no Corão, existe um tema permanente plantios geneticamente modificados, enquanto a reação em muitas outras
onde Deus é o criador e provedor do universo; o mundo natural é dEle. partes do mundo tem sido mais favorável, como sugerem as estatísticas
acima. Por que a Europa é diferente? As razões são
10. Ver por exemplo http://genome.wellcome.ac.uk/node30075.html (último acesso em 22/11/2006).
11. Dennis, C. “Genoma do chimpanzé: diversificando suas atividades”, Natureza (2005), 437, 17-19.
12. http://www.genetests.org (último acesso em 23/11/2006). 15. Hughes, S. & Bryant, J. "Culturas e alimentos geneticamente modificados: uma
13. Como discutido por Hauskeller, M. Telos: "O renascimento de um conceito perspectiva científica”, em Briant, J. Baggott la Velle, L. & Searle, J. (eds.) Bioética para
Aristotélico na ética dos dias de hoje", Pesquisa (2005) 48, 62-75. Cientistas, Chichester: John Wiley & Sons (2002), pp. 115-140.
14. Ver, por exemplo http://www.i-sis.org.uk/gaia.php (último acesso em 24/11/2006) 16. ISAAA, "Situação Global dos plantios comercializados com biotecnologia de modificação
genética, 2006", Resumos da ISAAA (2006), 35. Disponível em www.isaaa.org (último
2 acesso em 07/03/2007)
complexas¹⁷, mas incluem a ideia de que nós não "precisamos" de parte do pensamento liberal "politicamente correto" para se opor desta
modificações genéticas uma vez que já produzimos muita comida e a maneira
suspeita de uma ciência que tem suas raízes no pós-modernismo. Tais Atitudes religiosas em relação aos plantios geneticamente modificados
preocupações não são tão aparentes nos EUA onde as atitudes são mais Na ausência de instruções específicas das escrituras, o foco dentro das
pragmáticas e positivas em relação à introdução de novas tecnologias. religiões semitas é baseado mais uma vez em princípios gerais. É
Ética, Riscos e Segurança interessante ver que um estado islâmico como o Irã tenha adotado o
Com relação às técnicas de modificação genética em geral, como já arroz transgênico e que o Conselho Muçulmano da Indonésia, a nação
mencionamos, houve pouca manifestação de objeção intrínseca à islâmica mais populosa do mundo, tenha aprovado o consumo de
tecnologia, afirmando que estas técnicas são erradas em si mesmas, plantios transgênicos e seus produtos. Muçulmanos britânicos, no
embora alguns dos que se opõem ao uso da modificação genética na entanto, têm sido de um modo geral mais cautelosos, talvez refletindo as
agricultura tenham expressado esses pontos de vista. As principais opiniões do público britânico em geral. No judaísmo, o ensino rabínico
objeções têm caído geralmente em duas outras categorias. A primeira atual indica que a tecnologia transgênica é um uso aceitável dos dons de
dessas preocupações é o risco e a segurança, e a segunda diz respeito a Deus para a humanidade e que os plantios transgênicos são compatíveis
questões que não surgem a partir da tecnologia em si, mas da forma com as leis de comida kasher.
como ela é comercializada. Dentro destas formas estão o patenteamento Entre os cristãos, os pontos de vista são variados. Vários escritores
de genes, a posse dessa tecnologia e de seus produtos concentrada num cristãos concluíram que a modificação genética dos plantios representa
pequeno grupo de organizações comerciais, a possível exploração dos um conjunto aceitável de tecnologias desde que sejam utilizadas com a
países menos desenvolvidos e a relação entre os economicamente fortes devida cautela²¹; outros têm sido mais neutros²² e alguns têm
e os economicamente fracos. Estes temas são todos muito importantes e manifestado sua clara oposição²³. No entanto, o que todos esses autores
dignos de uma extensa análise do ponto de vista ético, mas o espaço têm em comum, junto com os escritores muçulmanos e judeus são as
limitado aqui impede mais do que uma menção de passagem. suas preocupações sobre as questões relacionadas com a comercialização
Assim sendo, a atenção é reorientada para os riscos e segurança. Entre de plantios transgênicos, lembrando das palavras do profeta judeu,
aqueles que fazem campanha contra a comercialização de plantios Miquéias: " E que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a
geneticamente modificados, esta tem sido uma grande preocupação. Três justiça, e ames a benignidade, e andes humildemente com o teu Deus
temas podem ser distinguidos. Em primeiro lugar, a incorporação de um "(Miquéias 6: 8) Uma questão crítica a se fazer é: ‘Quem se beneficiará
gene estranho é inerentemente perigosa, pois os efeitos a longo prazo são realmente com a nova tecnologia - os pobres e os necessitados.?’ Ou
completamente imprevisíveis. Em segundo lugar, o metabolismo da será que ela vai ser usada para colocar ainda mais poder nas mãos dos
planta pode ser alterado para que haja riscos para os consumidores. Em ricos? "Cada caso tem de ser julgado pelos seus próprios méritos, mas
terceiro lugar, os plantios geneticamente modificados podem representar esta é a pergunta bíblica chave que é tão importante tanto no caso da
riscos ambientais ao se tornarem "super-ervas daninhas" ou ao fazer o modificação genética como é para a aplicação de qualquer outra nova
cruzamento com espécies silvestres para que este último se torne uma tecnologia.
super-erva daninha ou ainda afetando a biodiversidade de alguma outra
forma.
A modificação genética dos animais
Os defensores da tecnologia argumentam que essas preocupações são A modificação genética de mamíferos é hoje considerada como um
infundadas. Em primeiro lugar, os genomas de plantas não são procedimento de rotina, embora com taxas relativamente baixas de
desestabilizados pela adição de genes exógenos; na verdade, a absorção de sucesso. Existem dois métodos básicos pelos quais esta modificação
material genético estranho tem sido e provavelmente ainda é, parte da genética em mamíferos não-humanos pode ser feita²⁴. O procedimento
evolução da planta. Além disso, nesses plantios onde genes estranhos mais utilizado é a introdução do DNA estranho dentro de óvulos recém-
foram introduzidos por técnicas de reprodução “convencionais”, não fertilizados (a partir da fertilização in vitro, FIV). O embrião, que agora
houveram problemas. Em segundo lugar, a introdução de um gene transporta genes 'estrangeiros’ (exógenos) integrados aleatoriamente em
estranho, a menos que tenha sido especificamente selecionado para ter um seu DNA é introduzido no útero de uma mãe apropriada. Se a gestação
efeito sobre a bioquímica, por si só não leva a alterações no metabolismo. for estabelecida com sucesso (e vale lembrar que a taxa de sucesso para
Na verdade, argumenta-se que o cruzamento de duas estirpes, embora do os embriões transgênicos é significativamente menor do que para os
mesmo plantio, irá provavelmente abalar o metabolismo tanto quanto a embriões não-transgênicos) um mamífero transgênico (geneticamente
modificação genética. Além disso, os defensores apontam que qualquer modificado) irá nascer; além disso, ele irá passar o novo gene para as
empresa de alimentos que comercializa um produto que eles não sabem se gerações subsequentes. A segunda abordagem principal que é usada na
é seguro está caminhando para o desastre comercial. Em terceiro lugar, as maioria das vezes para interromper um gene existente em ratos para
variedades criadas por técnicas de modificação genética não são nem mais efeitos de pesquisa é a inserção de genes nas células-tronco (geradas em
nem menos propensas a se tornarem super-ervas daninhas, a cruzarem um embrião normal) por um processo conhecido como a recombinação
com as espécies silvestres ou a ter outros efeitos sobre o ambiente do que homóloga. As células modificadas são substituídas no embrião, que é
os plantios tradicionais. Isto foi ilustrado pelas extensas avaliações dos então introduzido no útero e depois concebido. O gene estranho é passado
parâmetros agrícolas realizadas no Reino Unido, no intuito de examinar os para a próxima geração através da linha germinal. Embora geralmente
efeitos dos plantios geneticamente modificados sobre a biodiversidade, não seja aplicável aos animais maiores, como ovelhas ou gado, é um
mas na verdade, mostrando como o cultivo de um plantio carregando os processo alternativo útil para animais que tem um período de gestação
traços específicos de tolerância aos herbicidas afeta a biodiversidade¹⁸. curto, como ratos.
Naturalmente, nestes testes, esses traços foram inseridos por técnicas de
modificação genética, mas o método de reprodução não foi realmente Além disso, os genes estranhos introduzidos em mamíferos podem ser
avaliado. Se esse traço estivesse disponível no mesmo plantio através de regulados de modo a limitar a manifestação do gene à células ou tecidos
cultivos convencionais, é muito provável que os mesmos resultados, isto específicos ou para fases específicas do crescimento e desenvolvimento.
é, uma redução da biodiversidade, teria ocorrido. No entanto, ainda existem problemas com o nível de manifestação dos
genes estranhos (ou seja, se os genes funcionam direito) e isso
Conduzindo o debate
provavelmente não será resolvido até que se torne possível a inserção do
É preciso deixar claro que nenhum dos lados neste debate polarizado
gene(s) em locais específicos dos cromossomos dos animais.
aparecem de forma honrosa. Ambos apresentaram informações enganosas
e em alguns casos completamente mentirosas¹⁹ e têm deturpado o outro 21. por exemplo, Perry, I.N. "Plantios geneticamente modificados ', Ciência e Fé Cristã
lado, tornando o verdadeiro debate muito difícil²⁰. No entanto, no Reino (2003) 15, 141-163.and pp. 78-107
Unido, ainda há uma maioria que não deseja ver a introdução de 22. por exemplo. Deane-Drummond, C. E. Biologia e Teologia Hoje, Londres: SCM (2001).
23. por exemplo. Link para Ecologia Cristã: resumo do artigo sobre plantios modificados
plantios geneticamente modificados e isso tem se tornado praticamente geneticamente (2003). Disponível em www.christian-ecology.org.uk/GM-Crops.rtf (último
acesso em 23/11/2006)
17. Veja Barnes, B. “A avaliação pública da ciência e tecnologia ", Em Bryant, J, Baggott la
Velle, L. & Searle, J. (eds.), Bioética para Cientistas, Chichester: John Wiley e Filhos 24. Maclean, N. (ed.) Animais com Genes Novos, Cambridge: Imprensa da Universidade de
(2002), pp. 19-36. Cambridge (1994), pp. 4-7.
18. Discutido em Bryant, J., Baggott la Velle, L. & Searle, J. Introdução à Bioética, 25. Isso é geralmente chamado de Injeção Pronuclear (PNI). Nesta fase inicial, o material
Chichester: John Wiley e Filhos (2005), pp 93-98. genético do esperma e do óvulo ainda não se fundiram, mas ainda estão localizados no
19. Bryant et al., op.cit., (18) interior do óvulo em estruturas individuais chamadas pró-núcleos (singular: pronúcleo). O
20. Bryant, J. & Searle, J. Life in Our Hands (Vida em nossas mãos), Leicester: DNA "estrangeiro" é injetado diretamente em um dos pró-núcleos.
Imprensa Interuniversitária (2004) pp. 82-86.
3
No entanto, roedores transgênicos portadores de genes humanos Além disso, o especialista em ética cristã Robin Gill²⁷ não está sozinho
mutantes que causam doenças como a fibrose cística ou genes que ao sugerir que a modificação genética humana seria aceitável se fosse
quando ativados causam câncer (oncogenes) estão em uso rotineiro em voltada para a correção de uma doença genética, um processo conhecido
pesquisas médicas. De acordo com dados do Ministério do Interior (que como terapia gênica germinal. No entanto, existem alguns que iriam
regulamenta a pesquisa em animais no Reino Unido), em 2005, haviam mais longe ainda. O filósofo ateu John Harris equipara o melhoramento
957,000 procedimentos regulamentados envolvendo animais genético com o pagamento de aulas de música ou ballet²⁸, enquanto
transgênicos, 96% dos quais eram ratos. Apenas um terço dos Gregory Stock, diretor do Programa de Medicina, Tecnologia e
procedimentos envolveu testes experimentais diretos, a maioria sendo Sociedade da Universidade da Califórnia (UCLA), que se auto confessou
associado com a procriação dos animais. Entre outras aplicações podemos como “relativamente permissivo à essas tecnologias”, sugere que isto é
incluir a modificação de ovelhas para que elas produzam proteínas apenas uma questão de tempo e dinheiro e deve ser deixada por conta do
farmacêuticas em seu leite. Ao mesmo tempo, há uma pesquisa ativa mercado²⁹. Dados tais pontos de vista junto com o desenvolvimento
sobre a modificação genética de suínos que se destina a alterar suas técnico contínuo, não é de se admirar que o médico Cristão Gareth Jones
propriedades imunológicas para que seus órgãos possam ser utilizados acredite que a modificação genética humana é inevitável³⁰.
para transplante em humanos. Por outro lado, as tentativas para aumentar Ao avaliar estas questões, os seguintes pontos devem ser
o rendimento em grandes animais de criação não têm sido bem-sucedidas considerados:
devido às anomalias no crescimento e no esqueleto que são efeitos Em primeiro lugar, o poder dos genes não deve ser supervalorizado.
colaterais dessa modificação genética específica. Os seres humanos são muito mais do que genes, embora se reconheça
Modificação Genética e o bem-estar dos animais que os genes tenham alguma influência sobre alguns dos nossos
Não há dúvida de que a criação e posterior utilização de animais comportamentos³¹. Em segundo lugar, mesmo que a terapia genética seja
transgênicos, seja na pesquisa médica ou na produção de produtos aprovada, fazer distinção entre terapia e melhoramento é difícil. Em
farmacêuticos, é baseada em uma visão instrumental dos animais: eles terceiro lugar, a experiência com FIV indica que a modificação genética
estão sendo usados para servir as necessidades da humanidade. A esse humana não deverá se tornar uma tecnologia em massa num futuro
respeito, a modificação genética dos animais não levanta questões que já próximo ou mesmo a médio prazo. A fertilização in vitro não é um
não foram levantadas pelo nosso uso dos animais em outros contextos. procedimento fácil e nem agradável para a mulher. Casais que optarem
Em geral, as respostas éticas à modificação genética dos animais variam pela modificação genética de embriões terão de ser altamente motivados
muito entre as pessoas de fé religiosa e de nenhuma fé, variando de total por qualquer razão. Em quarto lugar, o surgimento do diagnóstico pré-
oposição, como foi expresso pelo teólogo britânico, Andrew Linzey²⁶, até implantacional, que envolve a fertilização in vitro e a análise de
uma resposta muitas vezes qualificada como aceitação geral. Para os embriões para doenças genéticas já na fase inicial de 8 células seguido
cristãos, judeus e muçulmanos não há proibição bíblica do uso de da implantação de apenas embriões "saudáveis" na mãe, torna a
animais. O próprio Jesus usou um burro como animal de carga e também modificação da linha germinal para correção de distúrbios genéticos
comeu carne. No entanto, isso deve se contrapor com o respeito pelos desnecessária. Em quinto lugar, embora seja possível considerar que a
animais domésticos consagrados na lei judaica e o tema bíblico geral de terapia genética da linha germinal possa se tornar disponível através de
que Deus cuida da criação, incluindo os animais selvagens e pássaros. serviços de saúde pública ou privada (como já é para a terapia genética
Temas similares também são encontrados no Corão. Isto implica que, de células somáticas), qualquer manipulação que envolva o
mesmo que os animais sejam usados como instrumentos, este uso deve melhoramento genético provavelmente se tornará uma atividade
ser moderado na medida do possível, considerando o seu bem-estar. No comercial. Isso aumenta a possibilidade que um pequeno número de
Reino Unido, este bem-estar está sagrado nos regulamentos rígidos do pessoas ricas compre aprimoramento para os seus filhos, mas é preciso
Ministério do Interior que rege o uso de todos os animais em pesquisas, haver realismo sobre o que é e não é possível. As complexidades de
incluindo as pesquisas envolvendo a modificação genética. atributos como talento musical ou aptidão desportiva os torna alvos
inadequados para a modificação genética, pelo menos num futuro
A modificação genética em humanos próximo.
No Reino Unido, existe uma experiência de quase trinta anos de Conclusões
trabalho com embriões humanos in vitro, graças à FIV. A seleção Deus deu a humanidade um mandato para cuidar da Terra e seus
genética de embriões para casais correm risco de ter um filho com recursos, utilizando-os sempre que possível para o bem dos outros. Este
uma doença genética grave está disponível há vários anos. Então, mandato vale para o uso do DNA tanto quanto para qualquer outro
se as dificuldades técnicas já foram superadas, será que existe recurso. Portanto, há fortes motivações teológicas para a utilização da
alguma razão para não irmos em frente com a modificação genética modificação genética de forma positiva e com sabedoria. Ao mesmo
humana, ou seja, alterar a composição genética de um futuro ser tempo, a teologia fornece recursos éticos para definir os limites do que é
humano de tal forma que a mudança seja hereditária? A Lei da aceitável e traz um pouco de realismo para amenizar as visões
Fertilização Humana e Embriologia de 1990, embora permita a exageradas sobre os possíveis benefícios da modificação genética para a
experimentação genética em embriões, proíbe o uso de embriões humanidade.
transgênicos para a concepção de uma gravidez. No entanto, como
a experiência tem demonstrado a partir das pesquisas com células- 27. Gill, R. Moral Communities: The 1992 Bishop John Prideaux Lectures, Exeter: Exeter
tronco, os termos da Lei podem ser alterados se o Parlamento o Jornal Universitário (1992)
28. Harris, J. Clones, Genes and Immortality, Oxford: Jornal Universitário de Oxford
considerar adequado.
(1998), esp. p. 194.
29. Stock, G. Redesigning Humans: Choosing our Children’s Genes, Londres: Profile
Books (2002) e ‘Unnatural birth’, RSA Journal (2003) April, 34-37.
26. Linzey, A. Teologia Animal, Londres: SCM (1994), esp. p. 143; ver também Compaixão 30. Jones, D.G. Designers of the Future, Oxford: Monarch Books (2005).
na Pecuária Mundial: www.ciwf.org.uk/campaigns/other_campaigns/genetic.html (último 31. Nuffield Council on Bioethics, Genetics and Human Behaviour, Londres: Nuffield
acesso em 23/11/2006) Conselho de Bioética (2002).

Os Artigos Faraday
Os Artigos Faraday são publicados pelo Instituto Faraday para Ciência e Religião, a Faculdade de St Edmund, Cambridge, CB3
0BN, Reino Unido, uma organização de caridade para educação e pesquisa (www.faraday-institute.org). As opiniões expressas
são as dos autores e não representam necessariamente as opiniões do Instituto. Os artigos Faraday abordam uma ampla gama
de temas relacionados com as interações entre ciência e religião. A lista completa dos artigos Faraday atuais pode ser
encontrada em www.faraday-institute.org de onde cópias gratuitas podem ser baixadas em formato pdf. Cópias impressas como
esta também podem ser adquiridas em quantidades de dez ou mais por £ 1,50 por 10 cópias mais postagem. Você pode
encontrar os detalhes sobre os pedidos online de maneira segura em www.faraday-institute.org.

Data de publicação: Abril de 2007. © Instituto Faraday para Ciência e Religião