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Luta de classes na era do Uber

Quinta-feira, 14 de dezembro de 2017


Imagem: Diego Rivera, Detroit Industry Murals (1933). Publicado originalmente no site Outras Palavras

No início do século XX, a Ford inovou as relações de trabalho ao implementar salários


melhores e controle ideológico: um modo de produção que combinava a gerência racional e
científica aliada a um sistema de remuneração mais agressivo, oferecendo salários acima da
média e um conjunto de benefícios até então desconhecidos do mundo industrial.

Uma das expectativas do fundador era que os próprios trabalhadores pudessem comprar os
veículos que produziam. Além disso, esses trabalhadores precisavam seguir o perfil desejado
pela empresa, o modelo subjetivo proposto por ela.

Para tanto, os funcionários da Ford Motor Company deveriam comprovar que seguiam um
estilo de vida condizente com a empresa e aprovado por um departamento especializado que
examinaria a vida privada dos trabalhadores, impondo valores como fidelidade conjugal,
estabilidade familiar e emocional, repulsa ao álcool e à vida boêmia, apego à religião e ao
patriotismo.

Décadas depois, sem desprezar as escolas que lhe antecederam, a Toyota do pós-guerra
inovou e recuperou a capacidade flexível da produção artesanal, regulada pela demanda (just
in time), sem perder a capacidade da produção em massa, além de promover um novo projeto
de engajamento.

O paradigma da administração toyotista ou flexível valeu-se do sentimento de pertencimento


a um grupo que parecia ser, no Japão dos anos 1970, ainda mais forte do que a acepção de
individualidade.

Para perpetuar tal harmonia nas relações entre empresa e trabalhador, principalmente nos
países ocidentais, essa prática sabiamente recorreu à escola das Relações Humanas e
disseminou as ideias da gestão participativa, da cooperação, do consenso, da integração e da
participação, além da retórica da valorização dos grupos informais.

Quem fiscaliza o produto e corrobora o seu aperfeiçoamento é o próprio trabalhador,


transformado em colaborador que faz parte de uma equipe e é responsável e responsabilizado
diretamente pelos resultados da empresa.
Nesse contexto, foram de suma importância para o desenvolvimento dos conceitos do
toyotismo as escolas da Administração Estratégica, hegemônica no final dos anos 1970, e o
seu conceito de core business, e também a Administração Empreendedora, dominante no final
da década de 1980, que estimulou e profissionalizou uma vasta rede de micro e pequenos
negócios, preparando-os para servirem às grandes corporações.

Não há nenhuma novidade na busca capitalista pelo resultado — a busca racional pelo lucro,
segundo Weber (2004). O fordismo, sob as condições de racionalização propiciadas pelo
desenvolvimento tecnológico no início do século XX, principalmente nos EUA, tornou-se o
pioneiro na articulação entre coerção capitalista e consentimento da classe trabalhadora.

De certo modo, o modelo flexível deu continuidade ao processo de racionalização capitalista


com os novos avanços tecnológicos do início da década de 1970, principalmente por meio da
tecnologia da informação e da comunicação, que possibilitaram a reestruturação
organizacional.

Os entusiastas desses modelos flexíveis de gestão, como John Naisbitt (1982) e Alvin Toffler
(1980), acreditavam que a superação do fordismo pelos conceitos do toyotismo nos levaria a
uma sociedade mais democrática para além dos muros e das paredes das grandes fábricas.

Hoje, no entanto, a realidade daqueles que vivem do trabalho evidencia que tais previsões
estavam equivocadas e que o que temos é uma sociedade mais desigual do que no período
fordista, seja nos países centrais ou periféricos, com raras exceções.

Em outras palavras, o toyotismo, como uma das frentes fundamentais do avanço do


neoliberalismo, especializou-se em reestruturar e exteriorizar sem perder o foco no objetivo
principal da empresa, a partir da cooptação dos trabalhadores e do gerenciamento de uma
vasta rede de terceirizados.

Logrou-se atribuir ritmos intensos em condições precárias de trabalho sem a total consciência
do trabalhador e de grande parte da rede de terceiros.

A gestão uberizada

Depois da gestão fordista e toyotista, é a vez de a empresa Uber emprestar o seu nome para
denominarmos o novo paradigma da gestão contemporânea: a empresa uberizada. Nesse
novo processo de reestruturação organizacional, as empresas inovam a partir de conceitos da
economia de plataforma, também conhecida como economia compartilhada e economia do
bico.

Na realidade, um processo de radicalização do projeto toyotista de ajuste à demanda,


exteriorização do trabalho e subjetivação. Se o modelo japonês logrou em transformar o
trabalhador em colaborador, agora, por meio dos conceitos da economia do
compartilhamento, eis que surge o consumidor, colaborador e chefe: uma nova morfologia do
trabalho que borra as fronteiras entre consumo e trabalho, entre o que é trabalho e o que não
é, entre trabalhador e consumidor, entre o trabalho e o bico (Abílio, 2017), entre trabalhador-
empreendedor.

Um modelo que se espalha por todo o mundo são as milhares de iniciativas como
a TaskRabbit, a Zazcar, a Parkingaki, a Holidog e a famosa Airbnb. Essa última, uma empresa
que presta serviço para pernoite e que nunca construiu um hotel nem mesmo contratou um
profissional de turismo, já é a maior rede de prestação desse tipo de serviço no mundo.
Fundada em 2009, a empresa oferece 1,2 milhão de vagas por noite, 500 mil vagas a mais do
que a maior rede de hotéis do mundo, a InterContinental (Slee, 2017).

Já a norte-americana Taskrabbit, conhecida por oferecer serviços rápidos domésticos e para


escritórios, como montagem de móveis, limpeza, pequenas reformas entre outros, não para de
aumentar o seu número de clientes.

No Brasil, a Zazcar tem feito sucesso: mesmo sem nunca ter comprado um automóvel, oferece
carros de aluguel de pessoas que não estão sendo utilizados – veículos on demand, segundo a
própria empresa.

A Parkingaki faz o mesmo, não possui estacionamento e também não contrata nenhum
manobrista, mas oferece, “em um click”, vagas em garagens para locação mensal ou de apenas
algumas horas. Outra conhecida empresa brasileira presente na economia do
compartilhamento é a Holidog. A organização é uma espécie de Airbnb para cachorros, onde
você pode encontrar pessoas dispostas a receber e hospedar o seu “amigão” enquanto você
viaja.

São empresas que se beneficiam de forma criativa dos avanços tecnológicos, promovidos e
guiados pelo capital, “destroem” mercados tradicionais através de estratégias que consideram
apenas a ética dos negócios, sem levar em conta as relações, inclusive legais, que estabelecem
com as comunidades onde estão inseridas, sejam com os seus concorrentes, consumidores,
fornecedores ou trabalhadores.

No âmbito do consumo, os chamarizes das empresas da economia do compartilhamento,


como apontou a pesquisa, já não tão recente, da PWC, realizada em 2015 nos EUA, são: o
preço, a eficiência e sua “pegada” ecológica.

Segundo a PWC, 44% dos americanos já estavam familiarizados com o termo da economia do
compartilhamento. Destes, 86% confirmaram o menor custo dos serviços e produtos
oferecidos pelas empresas uberizadas.

Já 83% respaldaram os benefícios e a eficiência dos serviços prestados, e 76% concordaram


que a economia compartilhada é uma opção “mais ecológica” ante o mercado tradicional.

Afinal, para que uma furadeira se o que precisamos são apenas furos? Para que um carro se o
que precisamos é apenas nos deslocar?

Por outro lado, as empresas uberizadas logram a conquista de corações e mentes amargurados
da classe trabalhadora, os partners – desempregados ou empregados precarizados em busca
de um complemento para a sua renda ou de um ambiente menos despótico. As empresas da
economia do compartilhamento navegam nas oportunidades que a sociedade do trabalho, em
crise, oferece: consumidores em busca de baixo preço e trabalhadores em situação de
desespero.

Economia compartilhada

A economia compartilhada não é apenas um modelo organizacional, é um conceito e uma


ferramenta que pode ser apropriado por qualquer empresa em qualquer setor – indústria ou
serviço, tradicionais ou digitais.
É uma plataforma digital que ultrapassa a esfera da comunicação (sites, blogs, e-mail,
mensagens de texto e redes sociais) e da venda (e-commerce) e se insere na contribuição e na
cooperação da fabricação do produto ou da prestação do serviço.

Mesmo empresas tradicionais da era digital como a Microsoft oferecem aos seus
consumidores ajuda de outros clientes experts que trabalham gratuitamente para a empresa.
Rádios, jornais e TVs solicitam informações e notícias dos seus próprios ouvintes, leitores e
telespectadores, como, por exemplo, a revista norte-americana Time. A revista cede espaços
em seu site para que os clientes colaboradores gratuitamente contribuam com conteúdo.

Em 2007, a gigante farmacêutica Novartis utilizou o conceito de open innovation, promovido


por Henry Chesbrough, da Universidade de Berkeley, para avançar em suas pesquisas sobre a
diabetes tipo 2.

O laboratório disponibilizou grande parte da sua pesquisa de três anos para domínio público e
solicitou em contrapartida e gratuitamente o trabalho de cientistas e empresas do mundo
todo (Tapscott, Willians, 2010).

Para que contratar profissionais se temos milhares de pessoas disponíveis para trabalhar
gratuitamente ou quase?

Essa é uma prática conhecida e já amplamente explorada há décadas pelos bancos e pelas
fábricas de móveis, em que tais empresas transferem parte do trabalho para o cliente, seja por
meio do sistema internet banking ou do ‘monte você mesmo’ o seu mobiliário, criado pela
empresa de móveis sueca Ikea.

As tradicionais e conhecidas Natura e Avon, entre tantas outras empresas, nunca contrataram
um profissional de vendas, utilizam-se das suas próprias clientes como “consultoras” (na
prática, simplesmente vendedoras) (Abílio, 2017).

Outra antiga do mundo digital, a Amazon, cada vez mais se insere na economia do
compartilhamento por meio de empresas como a Flex, um serviço de entregas que usa
pessoas comuns, e não funcionários treinados, para entregar caixas e pacotes nos EUA. Ela
também lançou o Home Services, que localiza encanadores, pintores, montadores de móveis,
entre outros serviços.

Outro serviço na linha da economia do compartilhamento é a loja online Handmade at


Amazon, em que produtos artesanais e caseiros são ofertados e distribuídos (Scholz, 2017).

A indústria não fica atrás no processo de reestruturação, exteriorização e comprometimento


dos consumidores.

A impressora 3D promete transformar o setor industrial. Assim, além de montarmos os móveis


em casa, a impressora 3D permitirá a finalização de inúmeros produtos em nossas próprias
residências. Steve Vincent (2011) denominou esse tipo de trabalho de voluntary emotional
labour(trabalho voluntário emocional).

Cooperativismo de plataforma

A terceirização e a produção em rede foram para o toyotismo o que novo consumidor, agora,
como parceiro empreendedor, está sendo para as empresas uberizadas: a possibilidade de se
reduzir ainda mais o custo da mão de obra.
As constantes reestruturações organizacionais transformam a morfologia do trabalho, e dos
seus resultados derivam as principais implicações para a degradação das condições de vida,
dada a precarização crescente das condições de trabalho. São reestruturações que se inserem
na própria dinâmica do capitalismo do século XXI.

Portanto, as novas formas de organizar e de remunerar a força de trabalho fazem com que a
regularidade do assalariamento formal e a garantia dos direitos sociais e trabalhistas sejam
reduzidas drasticamente (Abílio, 2017; Fleming, 2017; Pochmann, 2017) e nos obriguem a
indagar: que tempos são esses em que ser explorado e ter um trabalho formal tornou-se um
privilégio?

Rafael Zanata (2017), Trebor Scholz (2017), Tom Slee (2017), entre outros, entendem que as
plataformas de compartilhamento não são novidades, são apenas grandes classificados
digitais, em que pessoas que precisam de um bem ou serviço encontram os que possam
oferecê-los por intermédio de grandes empresas. Portanto, o intermediário que possibilita
esse encontro de troca deveria ser o menos importante nesse elo.

Para contrapor essa lógica, os autores propõem que os(as) próprios(as) trabalhadores e
trabalhadoras desenvolvam as suas plataformas, com a ajuda de prefeituras, sindicatos e
iniciativas autônomas.

Já são centenas de trabalhadores e trabalhadoras que desenvolvem o que chamam de


cooperativismo de plataforma, valendo-se da autogestão e do cooperativismo.

O cooperativismo de plataforma pretende ressignificar os conceitos de inovação, tecnologia e


eficiência tendo em vista o benefício de todos, e não de poucos proprietários e acionistas. Tal
proposta assemelha-se à Economia Solidária, desenvolvida no Brasil pelo economista Paul
Singer.

São plataformas como a de serviço de transporte realizado pela Transunion Car Service de
Newark, a Bliive, em São Paulo, e a Coopify, de Nova York, na conexão entre pessoas da
mesma comunidade com o objetivo de trocar competências e conhecimentos, a Cooperative
Cleaning, de Nova York, onde as trabalhadoras da limpeza residencial e comercial criaram a
sua própria plataforma, ou mesmo, a La’Zooz, de Tel Aviv, que atua na oferta de caronas
dentro da cidade. São diversos exemplos de iniciativas similares pelo mundo como contrapeso
aos modelos de negócios da Uber, Airbnb e tantas outras.

Um contrapeso importante, mas não nos iludamos. As cooperativas e as empresas


autogestionárias, no sistema capitalista, sofrem inúmeras desvantagens que não caberia
levantá- las neste momento.

Não é difícil perceber que também na economia compartilhada a alternativa pelo


cooperativismo será, assim como no mercado tradicional, importante, mas de pequena
expressão. São alternativas à heterogestão que podem também se beneficiar das plataformas
de compartilhamento. São importantes à resistência ao capital, mas não são suficientes para
que sejam consideradas constitutivas de mudanças na estrutura de
reprodução sociometabólicas do capital (Mészáros, 2002).

Destarte, o modelo que se alastra mundo afora é o da Uber, pois dá sequência à lógica da
reestruturação contínua do sistema capitalista que permite a momentânea superação das suas
crises, propiciando novamente o excedente de capital.
No entanto, as relações de trabalho nas organizações fordistas, e mesmo nas toyotistas,
valorizam, no limite, o trabalhador e a garantia de uma dose de direitos, com destaque para a
previdência social.

O uberismo marca o retorno das condições de trabalho semelhantes àquelas praticadas antes
das conquistas da classe trabalhadora. Ou seja, estamos diante da recapitulação da economia
de bico – um “negócio da China” para os “neopatrões”.

Marco Antonio Gonsales de Oliveira, Rodrigo Bombonati de Souza Moraes e Rogério de


Souza.

Referências

Abílio, L. C. (2017) Uberização traz ao debate a relação entre precarização do trabalho e


tecnologia. IHU-Online 503.

Mészáros, I. (2002) Para além do capital: rumo a uma teoria da transição. São Paulo:
Boitempo.

Morozov, E. (2015) Resistir à uberização do mundo. Disponível em:


http://diplomatique.org.br/resistir-a-uberizacao-do-mundo/.

Naisbitt, J. (1980) Megatendências. As dez grandes transformações ocorrendo na sociedade


moderna. Tradução: José E. Mendonça. Amana.

PWC (2015). The sharing economy. Consume Intelligence Series.

Scholz, T. (2017) Cooperativismo de plataforma. Tradução: Rafael A. F. Zanatta. Editora


Elefante, Autonomia Literária & Fundação Rosa Luxemburgo.

Slee, T. (2017) Uberização: a nova onda do trabalho precarizado. Tradução João Peres. Editora
Elefante.

Tapscott, D. Willians, A. D. (2010). Macrowikinomics: new solutions for a connected planet.

Toffler, A. (1980) A terceira onda. A morte do industrialismo e o nascimento de uma nova


civilização. Tradução: João Távora. Record.

Vincent, S. (2011) The emotional labour process: An essay on the economy of feelings. Human
Relations 64(10): 1369–1392.

Weber, M. (2004) A ética protestante e o espírito do capitalismo. Tradução: José Marcos


Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras

Disponível em: http://justificando.com/2017/12/14/luta-de-classes-na-era-do-uber/

Acesso em: 14.01.2018.