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DIREITO EM DEBATE

A polêmica
acerca da
execução
da sentença
criminal

Da redação

N
o fim do mês de fevereiro deste ano, a Segunda Turma do Su-
premo Tribunal Federal concedeu habeas corpus coletivo (HC
143641) às gestantes e às mães de filhos com até 12 anos ou de
pessoas com deficiência que estivessem presas preventivamente, determi-
nando a substituição da prisão preventiva por domiciliar, sem prejuízo da
aplicação das medidas alternativas previstas no artigo 319 do Código de
Processo Penal, cuja redação foi dada pela Lei nº 12.403, de 2011.
A ação foi impetrada pelo Coletivo de Advogados de Direitos Huma-
nos (CADHu), sendo uma das advogadas a professora Eloísa Machado de
Almeida, da Faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas, também
coordenadora do projeto “Supremo em Pauta”, um programa criado com
o objetivo de analisar as principais decisões do STF e o impacto que elas
têm sobre a sociedade, a economia e a política brasileiras.
Em entrevista concedida ao UOL (Julgamentos excepcionais do Su-
premo agravaram a crise, diz pesquisadora – 20 dez. 2017), a professora
Eloísa afirmou que o Supremo “Não está funcionando como deveria. Os

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julgamentos excepcionais em momentos de crise fragilizaram o Supremo e agravaram a


crise de forma geral. Os argumentos de excepcionalidade não podem ser assumidos por
um tribunal constitucional, porque deixa todas as instituições sem nenhum parâmetro”.
Já no início de março, a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça decidiu, por
unanimidade, negar o pedido para que fosse suspensa a determinação do Tribunal Re-
gional Federal da 4ª Região em que o ex-presidente Lula deveria ser preso em função de
terem sido esgotadas as possibilidades de recursos em segunda instância contra a con-
denação por corrupção e lavagem de dinheiro. Na ocasião, o ex-ministro do Supremo
Sepúlveda Pertence declarou que “o tribunal preferiu manter-se na posição punitivista
em grande voga no país e perdeu a oportunidade de evoluir e voltar a dar à garantia
constitucional da presunção da inocência o seu devido valor”.
As críticas a respeito da decisão do Supremo que fez com que a execução da pena
após condenação em segunda instância fosse admitida no Poder Judiciário, em feverei-
ro de 2016, partiram de organizações e juristas, professores de Direito e até mesmo de
boa parte da sociedade civil. Na ocasião, quando do julgamento histórico do Habeas
Corpus 126.292, o Plenário do Supremo mudou a jurisprudência da Corte com o placar
de sete votos contra quatro.
De lá para cá, os ministros do STF continuaram a discutir se a execução da pena só
pode ser decretada depois de o processo ter transitado em julgado ou o condenado em
segunda instância já poder cumprir a pena de prisão.
Após o polêmico julgamento do pedido de habeas corpus preventivo para evitar a
prisão do ex-presidente Lula, em sessão que durou 11 horas, no dia 4 de abril, o minis-
tro Ricardo Lewandowski produziu artigo e o publicou no jornal Folha de São Paulo
(Direito como tópica – 10 abr. 2018), afirmando que “Chegou a hora de colocarmos um
paradeiro nessa indesejável relativização do direito, a qual tem levado a uma crescente
aleatoriedade dos pronunciamentos judiciais, retornando-se a um positivismo jurídico
moderado, a começar pelo estrito respeito às garantias constitucionais, em especial da
presunção de inocência”. O texto parece ter impactado até mesmo o ministro Gilmar
Mendes, que recomendou a leitura em sua conta no Twitter.
Os assuntos da presunção de inocência e a prisão após haver o duplo grau de juris-
dição, medida considerada constitucional pelo STF desde 2016, traz acalorados debates
entre juristas e até mesmo julgadores, como o Brasil todo assistiu no julgamento do HC
152.752. A polêmica é tamanha que o ministro Gilmar Mendes, em 19 de março de
2018, havia negado um outro habeas corpus coletivo (HC 154.322), em favor de “todos
os cidadãos que se encontram presos, e os que estão na iminência de serem, para fins de
execução provisória de pena, decorrente de condenação confirmada em segundo grau”,
o qual foi impetrado por integrantes da Associação dos Advogados do Ceará (AACE),
sob a alegação de que o pedido não pode ser concedido por não especificar a quem se
destina. Para Gilmar Mendes, “somente caso a caso” a liberdade será examinada.
Depois da votação que denegou o direito de recorrer em liberdade ao ex-presi-
dente Lula, o ministro Ricardo Lewandowski disse ter chegado “a hora de acabar com

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a relativização jurídica”, afirmando ainda que é preciso “respeitar


as garantias constitucionais, especialmente da presunção de ino-
cência, do devido processo legal, do contraditório e da ampla de-
fesa, com os meios e recursos a ela inerentes”. Enquanto isso, o juiz
Sérgio Moro declarou que “a presunção de inocência não pode ser
garantida de impunidade”. Para Moro, “A presunção de inocência
não deve ser interpretada como um véu de ignorância que impe-
de a apreensão da realidade nem como um manto protetor para
criminosos poderosos, quando inexistir dúvida quanto à sua culpa
reconhecida nos julgamentos”.
Moro declarou que “embargos de declaração de embargos de
declaração são uma patologia protelatória que deveria ser eliminada
do mundo jurídico”. Na aula que proferiu na sede da Pontifícia Uni-
versidade Católica do Rio Grande do Sul, no dia 10 de abril deste ano,
o magistrado comentou ser impressionante “a sucessão de recursos
disponibilizados pela nossa legislação processual”, concluindo que
“isso faz, na prática, que os casos se eternizem. Leva à impunidade”.
Também no dia 10 de abril a Defensoria Pública de São Paulo
– que atua na qualidade de amicus curiae nas ações declaratórias de
constitucionalidade nºs 43 e 44, desde 2016 – enviou uma manifes-
tação ao ministro Marco Aurélio Mello fornecendo dados sobre o
impacto de prisões automáticas em segunda instância sobre a super-
população carcerária, especialmente no caso dos pobres. Segundo a
Defensoria paulista, “pelo menos 13.887 mandados de prisão foram
expedidos pelo Tribunal de Justiça daquele estado entre fevereiro
de 2016 e abril de 2018, com fundamento no habeas corpus julgado
pelo STF em 2016.
A Revista Vanguarda Jurídica ouviu alguns importantes juris-
tas a respeito da polêmica que ocorre acerca da execução da sen-
tença criminal. Algumas perguntas foram feitas e os entrevistados
contribuíram com as suas opiniões.

Sistema processual brasileiro

Seria mesmo o sistema processual brasileiro “eternizador” de


casos e, dessa maneira, capaz de propiciar a impunidade? Para cer-
tos pacientes seria realmente necessária a prisão para, depois, discu-
tir em sede de habeas corpus se houve erro do Judiciário?
Juiz de Direito (TJPE) e pro-
Para o juiz de Direito (TJPE) e professor de Processo Penal da fessor de Processo Penal
Pós-graduação do Centro Universitário Tabosa de Almeida (AS- (Pós-graduação da ASCES e
CES) e da Escola Judicial do TJPE, Pierre Souto Maior, “a demora Escola Judicial do TJPE).

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no julgamento dos processos, inclusive dos recursos em instâncias


ordinárias e extraordinárias, que não é problema de gestão apenas
em nosso país (o professor José Carlos Barbosa Moreira, nas suas
famosas “séries”, demonstrou muito bem isso), deve-se a uma ampla
relação de causas, entre elas, especialmente, a falta de investimento
em estrutura de equipamentos, ampliação de varas e contratação
de mais juízes e servidores. Além disso, julgar de forma açodada
não significa produzir com qualidade. Há uma fetichização sobre a
velocidade dos julgamentos, no sentido de que seria sempre melhor
julgar mais rapidamente. Isso leva a aberrações como a que vemos Pós-doutorado pela Uni-
versidade de Coimbra
hoje, em julgamento de recursos, quando os magistrados “julgam” (2012/2013). Doutor e
centenas de processos em alguns minutos, não tendo uma boa ideia Mestre em Direito Proces-
sual Penal pela Universida-
do que estão decidindo de fato. Penso ser equivocada a noção de de de São Paulo. Pesquisa-
que não há a aplicação de sanções penais eficazes em nosso siste- dor convidado do Instituto
ma. Basta ver que o sistema carcerário está lotado. É lá também que Max Planck para Direito
Penal estrangeiro, Direito
constatamos o que há muito tempo já se sabe (e que infelizmente Internacional e Criminolo-
não muda): a clientela do Direito Penal sancionador é composta pela gia (1997 a 2008). Pesqui-
sador convidado do Collè-
base de nossa pirâmide social. Inegavelmente, o sistema seleciona ge de France (2005 a 2011).
quem deseja punir. Temos, pois, uma impunidade seletiva. Apenas Atualmente é o titular do
alguns estão a salvo das prisões e estes, mesmo que ingressem nas curso de Processo Penal do
Método Estude (www.me-
unidades carcerárias, logo recebem benefícios que a institucionali- tododeestudo.com.br).
dade aplica (por vezes, ao arrepio da lei), diferenciando tais sujeitos,
reconhecendo que integram classe superior economicamente”.
O Pós-doutorado pela Universidade de Coimbra Fauzi Hassan
Choukr explicou que “qualquer prisão antes da sentença condena-
tória irrecorrível é possível sob fundamento cautelar. Não existe em
qualquer país de bases políticas democráticas a possibilidade de
executar-se uma pena ainda não definida. Como medida cautelar,
essa prisão não pode durar excessivamente a ponto de se transfor-
mar numa pena antecipada. Por isso, o julgamento desses casos é
prioritário e deve ocorrer em tempo hábil para que a medida caute-
lar não tenha desvirtuada sua função legítima, que é a de assegurar
a integridade do processo de conhecimento”. Advogado criminalista.
Mestre em Ciências Cri-
Já o professor de Pós-graduação em Direito Penal e Política minais pela PUC-RS. Con-
Criminal da UFRGS Carlo Velho Masi, que também é conselhei- selheiro nacional da As-
ro nacional da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas sociação Brasileira dos
Advogados Criminalistas
(ABRACRIM), afirmou que “existem diversas decisões para as quais (ABRACRIM). Professor da
o sistema processual brasileiro sequer prevê recurso, por exemplo, o Escola Superior de Advo-
cacia da OAB-RS. Professor
recebimento da denúncia. Existem recursos para cada situação que convidado da Pós-gradua-
causa gravame à parte e, para aqueles em que não existe previsão ção em Direito Penal e Polí-
expressa, sempre há a possibilidade de algum sucedâneo recursal tica Criminal da UFRGS.

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(habeas corpus, mandado de segurança etc.), conforme o caso. Os


prazos estão previstos em lei. Ocorre que, no Brasil, eles são siste-
maticamente desrespeitados pelos tribunais, sem qualquer sanção.
O grande responsável pelo desrespeito à garantia fundamental da
duração razoável do processo é o Poder Judiciário, não a defesa ou a
acusação. Não é a existência de um recurso legalmente previsto que
fomenta a impunidade, mas sim a inexistência de uma investigação
efetiva e de uma persecução penal célere e com respeito às regras do
jogo, o que poderia levar à rápida resolução dos casos penais, com
decisões condenatórias ou absolutórias fundamentadas em provas
concretas, e não em meros indícios ou até suposições”.
O procurador de Justiça do MP/BA e professor de Processo Pe-
nal Rômulo Moreira diz que “a questão não é o número de recur-
sos – que não é muito –, mas a estrutura do Poder Judiciário que é
Procurador de Justiça na
precária e arcaica”. Bahia. Professor de Direito
A reportagem ainda prosseguiu perguntando se para certos pa- Processual Penal da Univer-
sidade Salvador - UNIFACS e
cientes seria realmente necessária a prisão para, depois, discutir em em diversas faculdades em
sede de habeas corpus se houve erro do Judiciário. Os entrevistados Cursos de Pós-graduação.
expressaram o seu entendimento a esse respeito. Autor de várias obras e pa-
lestrante.
Pierre Souto Maior entende que “para não entrar na polêmi-
ca da execução provisória, o que demandaria uma resposta muito
longa, pode-se dizer, com segurança, que, nos casos mais graves,
facilmente se recolhe o sujeito ao cárcere, mediante prisões provi-
sórias. Não tem sentido aguardar, por exemplo, que o sujeito mate
outra pessoa (imagine a hipótese de um defensor público ou uma
liderança popular defensora dos direitos humanos, que esteja amea-
çado por policiais), podendo-se atenuar essa possibilidade com sua
prisão provisória. Embora deva ser uma exceção, a prisão provisó-
ria é constitucional e necessária em alguns casos. Nosso problema é
que pretendem transformar a exceção em regra. Ou seja, prende-se
provisoriamente, para, somente depois, verificar se tal medida era
realmente necessária”.
Carlo Velho Masi posicionou-se no sentido de que a “prisão an-
tes do trânsito em julgado da condenação só pode ocorrer quan-
do houver risco ao processo, seja porque existe um risco concreto
de o acusado se evadir, seja para preservar provas que possam ter
sua influência, seja para impedir que volte a delinquir ou que atente
novamente contra a vítima (nos casos em que houver esta figura).
Qualquer outro fundamento, mesmo teoricamente com amparo le-
gal (art. 312 do CPP) representa, por linhas tortas, antecipação de
pena. E esta é a modalidade de prisão que mais tem se visto hoje

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no Brasil. O sujeito é preso em flagrante e sumariamente condenado pelo julgador de


primeiro grau. Responde a todo o processo segregado e só é colocado em liberdade na
ocasião da progressão de regime. Esta é a regra para a criminalidade clássica hoje no
Brasil, a exemplo dos crimes de tráfico e roubo. Se o paciente é comprovadamente peri-
goso, com dados objetivos disso nos autos, pode ser cautelarmente preso, mediante de-
cisão fundamentada. O habeas corpus não é um recurso; é uma ação constitucional de
impugnação de uma decisão judicial que configure constrangimento ilegal ao paciente.
Desta forma, a jurisprudência admite a postulação pelo impetrante de medida liminar,
na qual o julgador analisará imediatamente a alegação de ilegalidade manifesta na deci-
são combatida. Porém, o HC não atribui efeito suspensivo a uma decisão que decrete a
prisão preventiva; decisão esta que, aliás, é irrecorrível. Então, é evidente que existe uma
lacuna na legislação no tocante a estas decisões, pois o sujeito acaba sendo compelido
a recolher-se preso para impetrar habeas corpus e, posteriormente, discutir a legalidade
do decreto prisional, haja vista que os tribunais tendem a rejeitar HCs impetrados em
favor de foragidos do sistema prisional. Por certo, nem todos os pacientes representam
um risco efetivo ao processo para que suas prisões sejam cumpridas antes da possibi-
lidade de rediscussão por um órgão colegiado, mas o sistema, hoje, acaba impondo tal
situação. Logo, está longe de fomentar impunidade. Muito pelo contrário, a pessoa é
presa antes de poder sequer discutir a legalidade da sua prisão”.

”O trânsito em julgado é um conceito técnico de domínio razoavelmente


comum, e significa o esgotamento das vias recursais. Isso não significa,
em qualquer país que possua uma estrutura de devido processo legal,
que devam existir “embargos de embargos em agravo regimental contra
decisão interlocu­tória”, patologia muito típica do processo brasileiro e
que tem suas raízes no defasado sistema recursal e na inexistência de
uma verdadeira oralidade de julgamento. Lem­brando-se que oralidade
não significa a verbalização de peças escritas”.
(Fauzi Hassan Chouckr)

Rômulo Moreira afirmou que “a prisão antes do trânsito em julgado da sentença


condenatória só se justifica se houver necessidade, nos termos dos arts. 312 e 313 do
CPP. Fora daí é execução antecipada da pena, inadmissível no Brasil em virtude de dis-
positivos expressos, do CPP (art. 283) e da CF”.
Ao serem questionados se o caso correr segundo as normas do sistema processual
brasileiro não seria necessário que o paciente aguardasse o prazo previsto na legisla-
ção, por exemplo, aguardar o prazo do embargo de declaração para, somente depois,
impetrar recurso especial no STJ ou Recurso extraordinário no STF, os entrevistados
apresentaram posicionamentos diversos.

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Pierre Souto Maior defende a ideia de que “os recursos somente são processados
após o julgamento dos embargos. A prisão provisória, porém, pode ser questionada por
habeas corpus ou por recursos ordinários em HC”.
Fauzi Hassan Choukr declarou que o “trânsito em julgado é um conceito técnico
de domínio razoavelmente comum, e significa o esgotamento das vias recursais. Isso
não significa, em qualquer país que possua uma estrutura de devido processo legal, que
devam existir “embargos de embargos em agravo regimental contra decisão interlocu-
tória”, patologia muito típica do processo brasileiro e que tem suas raízes no defasado
sistema recursal e na inexistência de uma verdadeira oralidade de julgamento. Lem-
brando-se que oralidade não significa a verbalização de peças escritas”.
Para Rômulo Moreira, “é o que consta das nossas leis e da CF. Excepciona-se, por
óbvio, a possibilidade da decretação de uma prisão preventiva, hipótese em que o réu
aguardará o julgamento dos recursos na prisão”, explicou.
Carlo Velho Masi esclareceu que “os recursos de feição excepcional, especial e extra-
ordinário, possuem diversos requisitos legais e seus cabimentos são bastante restritos.
Toda legislação e jurisprudência acerca da admissibilidade desses recursos é direciona-
da a restringi-los ao máximo. Daí porque muitas ilegalidades gritantes só chegam aos
tribunais superiores em sede de habeas corpus. É necessário esgotar todas as instâncias
ordinárias para que um caso seja levado à apreciação do Superior Tribunal de Justiça
ou ao Supremo Tribunal Federal. A grande maioria dos processos nunca chegará a ser
apreciada por esses tribunais”, concluiu.
A partir destas últimas respostas as perguntas da Redação foram as seguintes:
Vanguarda Jurídica: Pode-se dizer que o próprio STF realizou julgamentos
excepcionais e, com isso, agravou a crise do sistema penitenciário, ocasionando as rebe-
liões e outras mazelas às quais a sociedade brasileira assiste?
Pierre Souto Maior: Não penso que a influência das decisões do STF chegue
a tanto. As dinâmicas internas do sistema carcerário têm pouca relação com as decisões
de juízes, mesmo dos que compõem os tribunais superiores. A não separação dos presos
provisórios dos condenados, o domínio político do cárcere por organizações criminosas
e o completo descumprimento da Lei de Execuções Penais por parte do Poder Executivo,
entre outros fatores, são bem mais relevantes para o funcionamento do sistema carcerá-
rio do que as decisões dos juízes. Edmundo Campos Coelho, na coletânea intitulada “A
Oficina do Diabo”, fornece um panorama histórico do descontrole do sistema prisional,
desde as décadas de 1960 e 1970, o que só vem se agravando mais recentemente”.
Carlo Velho Masi: O STF é uma corte política que julga casos jurídicos es-
pecíficos, com repercussão geral. Os reais responsáveis pela superlotação carcerária e
pelo aumento progressivo do número de presos no sistema carcerário são os juízes de
primeira instância, que decretam as prisões preventivas e mantêm os acusados presos
ao longo de toda a instrução processual. Afora isso, muitos dos presos em cumprimento
de pena, hoje, no país, estão em regime mais gravoso do que o necessário para os crimes
que cometeram. Não é apenas um problema legal, é muito mais um problema cultural.

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Existe uma forte cultura de encarceramento no Brasil e esta vem progredindo nos úl-
timos anos, impulsionada que é pelos meios de comunicação, que afetam a sociedade.
Os juízes da atualidade enfrentam uma intensa pressão social por decisões que atendam
aos anseios coletivos. Aqueles que se rebelam contra essa situação e insistem em seguir
uma linha constitucional (por vezes rotulada como “alternativa” ou “garantista”) mui-
tas vezes acabam isolados e têm suas carreiras obstaculizadas. O STF agravou a crise
penitenciária (por ele próprio reconhecida no julgamento liminar da ADPF 347) ao
permitir a execução provisória da pena.
Fauzi Hassan Chouckr: Não creio que seja possível chegar a essa conclusão
nem atribuir ao STF problemas estruturais da execução penal que são de responsabili-
dade das esferas estaduais e de órgãos do Poder Executivo em muitos casos.
Rômulo Moreira: O STF em alguns casos não levou em consideração o prin-
cípio constitucional da presunção de inocência.
Vanguarda Jurídica: Seria o próprio Supremo o grande problema? Um tri-
bunal dividido ao julgar casos muito polêmicos, com maioria apertada e inconsistente,
não gera o descrédito na Justiça? Operadores do Direito têm postado em seus perfis
das redes sociais terem visto tantos absurdos que acabam se entristecendo, concluindo
que o Judiciário já não mais sequer segue o senso comum. Não seria uma situação de-
primente o condenado ter que primeiramente ser encarcerado para, somente depois,
discutir se a condenação estava realmente correta?
Pierre Souto Maior: Sem dúvida que as divergências, assim expostas de
forma tão contundente como ultimamente, fragilizam o tribunal. Em alguns países,
prefere-se apenas divulgar o resultado do julgamento, sem exposição do número de
votos que compuseram a maioria. No Brasil, temos visto votos nos quais ministros
passam longas horas lendo suas razões. Isso consome o tempo do tribunal, já asso-
berbado de processos. Claro que se poderia resolver facilmente, por exemplo, esti-
pulando um tempo limite para cada ministro votar. Por várias razões, não se trata
disso com a urgência devida. Hoje, me parece que o STF está numa encruzilhada:
sofre uma demanda extrema da sociedade e não consegue priorizar os assuntos mais
relevantes, até porque a judicialização leva praticamente todo assunto (relevantes ou
irrelevantes) para o tribunal.
Carlo Velho Masi: O Supremo tornou-se uma corte politizada. Os debates
jurídicos ficaram em segundo plano. O Brasil precisa novamente de uma Corte Cons-
titucional, e não de um sodalício que discuta a significância do furto de uma galinha
(HC 12.190), tipo de caso que só chega até a mais alta corte do país em razão de os
juízes e tribunais inferiores simplesmente não respeitarem a Constituição, decidindo
como bem entendem cada caso. Logo, o Supremo é apenas a ponta do problema. A
grande dificuldade hoje é que os magistrados cumpram a Constituição e interpretem
as leis sob a ótica constitucional. Ao Supremo só deveria competir o julgamento de
teses, não de casos concretos. É da natureza das decisões colegiadas que haja diver-
gências. Por outro lado, atualmente, o STF parece estar dividido em dois polos ver-

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tiginosamente opostos, o que, de certa forma, reflete um pouco o próprio retrato da


situação social, hoje, no Brasil. De fato, com esta postura não há como impedir que a
instituição caia no descrédito. Rever a forma de escolha dos ministros e impor uma li-
mitação temporal para que permaneçam no exercício de suas atividades são fatores a
serem urgentemente considerados. A execução provisória da pena possibilita que um
erro judiciário se torne irreparável, pois o tempo que o indivíduo ficou preso jamais
poderá ser-lhe restituído. Não há impunidade alguma em assegurar a um indivíduo
que responde a uma ação penal – que tem o risco de sofrer a mais intensa sanção es-
tatal, que é a pena – o direito de só cumprir sua condenação quando forem esgotados
todos os recursos a que ele legalmente tem direito. Afinal, o que se busca é “apenas” o
fiel cumprimento da lei, ou o respeito às regras do jogo.
Fauzi Hassan Chouckr: Em nenhum país a corte constitucional e suas di-
vergências de opinião são um “problema”. O que existe, e não de hoje, é que a Constitui-
ção brasileira (numa perspectiva histórica) nunca definiu o STF como uma verdadeira
corte constitucional, dotando-a de competências extravagantes, inclusive a de natureza
criminal, ligada ao foro por prerrogativa de função, uma das mais desvirtuadas. Volto
a minha primeira resposta. Qualquer prisão antes da condenação somente é legítima a
título cautelar. A execução antecipada não existe em países de estrutura democrática.
Quando, entre nós, criou-se essa anomalia, isso se deveu ao fato de que muitos presos
cautelares, diante da demora no julgamento do mérito de sua situação processual, já ad-
quiriam direitos previstos na LEP, donde a inovação do estabelecimento de uma “guia
de recolhimento provisória” (GRP) para que esses presos cautelares fossem tratados, no
que toca a benefícios, como presos subordinados ao regime de execução penal. Trata-se
de uma sucessão de anomalias que existe há anos e que agora começa a ser evidenciada
para a sociedade de uma forma mais ampla.
Rômulo Moreira: Não, não é. É apenas um deles. Certamente. Isso não é
desejável em uma Corte Constitucional, mas deriva da própria natureza do órgão, que
é um colegiado. Mais do que deprimente, trata-se de uma questão constitucional. Viola-
se um princípio constitucional e inafastável, posto cláusula pétrea.
Vanguarda Jurídica: E o que dizer a respeito da prisão preventiva? O réu
perde o direito à liberdade por tempo indeterminado e, algumas vezes, quando o defen-
sor consegue impetrar o habeas corpus ainda recebe a informação de que já não se trata
mais de prisão preventiva, mas de prisão decorrente da sentença?
Pierre Souto Maior: Como disse antes, a questão de a pena ser executada
após a condenação transitar em julgado não tem relação com a necessidade de uma pri-
são provisória. O ideal seria recolher à prisão apenas depois da sentença condenatória
transitar em julgado, porém, em alguns casos, quando é necessária a prisão preventiva,
por exemplo, deve-se executar provisoriamente a pena, até para que o réu não seja im-
pedido de progredir de regime ou obter livramento condicional.
Carlo Velho Masi: A demora nos julgamentos de habeas corpus pode, even-
tualmente, ocasionar a mudança do título da prisão em primeiro grau, já que o processo

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não fica suspenso. Sobrevindo uma condenação é possível que o HC perca seu objeto.
No STJ e STF isso não raro ocorre, uma vez que a demora é tanta que acabam ocorren-
do inclusive os julgamentos colegiados em segundo grau e, assim, o paciente iniciar o
cumprimento provisório de pena.
Fauzi Hassan Chouckr: Volto a minha primeira resposta uma vez mais.
Toda prisão cautelar que se torna “indeterminada” perde sua natureza própria e se
transforma numa pena antecipada, o que é contrário ao processo no Estado de Direito.
Rômulo Moreira: É, às vezes, necessária, especialmente para garantir a apli-
cação da lei penal e por conveniência da instrução criminal. É uma prisão de natureza
cautelar, excepcional, provisória e provisional. Isso é muito comum. Nestes casos, os
tribunais vêm decidindo, inclusive o STF no caso do Palocci, por exemplo, que não deve
ser sequer conhecido o habeas corpus.

Proposta de novo Código de Processo Penal

Com o debate entre os juristas oferecendo respostas a muitas das indagações


que operadores do Direito de todo o país andam fazendo, a Redação aproveitou
para colher as opiniões a respeito da proposta de um novo Código de Processo
Penal. Cabe destacar que o relator, deputado João Campos (PRB-GO), declarou
que “O atual Código de Processo Penal prevê recursos infindos. Por isso, mui-
ta gente, principalmente quem tem dinheiro para contratar advogado e esgotar
todos os recursos, dificilmente vai para a cadeia”. Ao mesmo tempo, o deputado
goiano disse que “incorporou ao texto a jurisprudência em vigor no Supremo Tri-
bunal Federal (STF)”, além de afirmar ser a favor da prisão após condenação em
segunda instância, a fim de atingir os detentores de foro privilegiado. Portanto,
incluiu no projeto a possibilidade de ser decretada prisão automática após a con-
firmação da culpa em instância colegiada.
Outra inovação, segundo o site Câmara Notícias (Deputados pedem um novo
Código de Processo Penal para reduzir impunidade no País – 31 jan. 2018), é a cria-
ção do “julgamento antecipado” para os crimes de menor potencial ofensivo.
O deputado João Campos diz que “Para os crimes com pena de até oito anos, se
o acusado desejar – depois da conclusão da investigação –, ele poderá sentar com o
Ministério Público, reafirmar a sua confissão espontânea e voluntária e, a partir dis-
so, o Ministério Público indica a pena razoável e leva isso para o juiz. O juiz poderá
homologar ou não. Homologando, o cidadão já cumpre a pena de plano e não terá
direito a propor nenhum recurso – afinal de contas, ele concordou com aquela pena
– e o processo já se encerrará. Isso vai significar um ganho extraordinário em termos
de agilidade da Justiça”.
Vanguarda Jurídica: Uma comissão especial da Câmara começar a ana-
lisar o projeto de lei do novo Código de Processo Penal (PL 8045/10). As propostas
de imposição de limite ao número de recursos judiciais – dentre eles os embargos de

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declaração –, a prisão após condenação por órgão colegiado e o limite para o prazo
para prisões preventivas seriam um avanço ou retrocesso?
Pierre Souto Maior: Penso ser positiva a limitação da prisão preventiva a
um determinado número de dias. Claro que as situações mais complexas, por exem-
plo, processos com muitos réus e imputação de muitos crimes, necessitam de prazos
mais elásticos. Vejo como positiva tal limitação, mas desde que haja uma consequência
processual para o não cumprimento de tais prazos. Ou seja, extrapolado o prazo da
preventiva, a prisão deve ser relaxada ou até admitir cumprimento domiciliar. Se não
houver uma consequência obrigatória, os tribunais decidirão que os prazos poderão ser
excedidos, mantendo-se os réus presos preventivamente. Sou contra a chamada “jus-
tiça negocial”, seja na esfera civil, trabalhista ou penal. Esse tipo de sistema parte da
premissa equivocada de que as partes estão em posição de igualdade material e que,
por isso, podem dispor livremente de seus direitos. Evidentemente, as pessoas estão
em condições de absoluta desigualdade social, o que produz desigualdade jurídica, seja
entre si ou em relação ao Estado. Além disso, há direitos indisponíveis em jogo, entre
eles a liberdade individual e o devido processo legal, de modo que esse sistema só vem
agravar a seletividade penal. Veja-se, por exemplo, o descalabro que temos assistido
com as chamadas “colaborações premiadas”, cujo resultado prático, no geral, é premiar
os grandes corruptos (empresários, especialmente) com penas ínfimas, cumpridas em
suas próprias mansões, depois de devolverem ridículas somas de dinheiro (perto do
montante que desviaram), incentivando, ademais, acusações para lá de duvidosas entre
antigos parceiros. Um completo caos.
Carlo Velho Masi: A reforma global do CPP é imprescindível para atualizar
a legislação processual penal brasileira e adequá-la ao regime constitucional vigente.
Nosso CPP é o mais antigo das Américas e, embora já tenha sido parcialmente reforma-
do nos últimos anos, ainda necessita de muitas atualizações para compatibilizá-lo com
a Constituição e com o sistema processual penal por ela eleito, qual seja, o acusatório.
É preciso limitar recursos meramente protelatórios. Isso foi resolvido com adequação
pela reforma do CPC. O que não se pode é limitar a possibilidade de o recorrente ter
suas teses efetivamente apreciadas pelos órgãos revisores, que é o que vem ocorrendo
hoje no Brasil. Não há uma real reapreciação da decisão combatida. Existe, em muitos
casos, mera remissão aos argumentos já utilizados anteriormente, fazendo com que os
julgamentos colegiados se tornem, na prática, julgamentos decididos, na grande maio-
ria dos casos, exclusivamente pelo relator. Prisão-pena, segundo o atual texto constitu-
cional e segundo o CPP, só pode ocorrer após o trânsito em julgado da decisão penal
condenatória. Não importa se houve ou não julgamento por órgão colegiado. Trata-se
de cláusula pétrea, que sequer pode ser alterada na Constituição vigente. O STF deu a
esta norma uma interpretação que destoa da sua literalidade. Em outras palavras, leu
o que não estava escrito. Ampliou a norma em prejuízo dos acusados. Isso tudo com o
fundamento metajurídico de que esperar o trânsito em julgado gera impunidade. Li-
mite para a prisão preventiva entra dentro da lógica de que todo prazo sem sanção não

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tem efetividade, e isso sim gera impunidade. Todas as prisões, independente da espécie,
deveriam ter prazo, pois o indivíduo precisa ter uma segurança jurídica mínima e saber
ao que estará passível de ser submetido. Hoje, uma pessoa que tem sua prisão preven-
tiva decretada não tem qualquer parâmetro de expectativa quanto ao tempo que tal
prisão durará, tendo em vista que os prazos legais são sistematicamente descumpridos
pelo Estado.
Fauzi Hassan Chouckr: As principais proposições mencionadas já forma
discutidas acima, com os destaques para a prisão cautelar e a duração razoável do pro-
cesso, assim como os limites legítimos do duplo grau de jurisdição. Os procedimentos
abreviados existem em quase todos os países e, em si, não constituem qualquer novida-
de no cenário brasileiro. Aliás, no contexto comparado é crescente a preocupação com
mecanismos alternativos ao processo e no processo para solução das causas penais,
assim como o estabelecimento de ritos adequados à complexidade do caso.
Rômulo Moreira: O anteprojeto que foi apresentado por uma comissão de
juristas, entre eles o professor Jacinto Miranda Coutinho, um dos mais capacitados e
preparados processualistas penais da América Latina, era muito bom. Privilegiava o
sistema acusatório e o princípio dispositivo. Espero que não sabotem o trabalho feito e
que não desnaturem a essência do que foi feito. A limitação de recursos e a prisão antes
do trânsito em julgado são retrocessos, obviamente. O limite para a prisão preventiva,
ao contrário, um avanço. A prisão provisória não pode se eternizar e se transformar em
verdadeira antecipação da pena, como vem acontecendo no Brasil.

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