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Estudo das Falácias – Enciclopédia de Termos Lógicos:

Podemos dizer que Falácia é um defeito de raciocínio, um caso de non


sequitur. Em geral, esse defeito passa despercebido, criando assim a ilusão
de se estar na presença de um raciocínio correcto. Essa ilusão pode ser
partilhada, ou não, por quem propõe o raciocínio e por aqueles a quem ele
se destina. As falácias podem afectar quer os raciocínios dedutivos, quer os
indutivos.

O Que é uma Falácia — A noção de falácia é híbrida: tem aspectos


lógicos e aspectos psicológicos (eventualmente, até, sociológicos). As
noções híbridas deste tipo estão longe de ser pérolas conceptuais, mas
revelam-se por vezes úteis para fins pedagógicos e práticos. É, talvez, esse
o caso da noção de falácia. Não existe uma teoria geral das falácias, nem
uma classificação das falácias que seja consensualmente aceite. No
entanto, há bons «indicadores» do que falácia não é uma falácia. Uma
falácia não pode ser identificada simplesmente com um raciocínio a partir
de premissas falsas, visto que raciocínios deste tipo podem ser, se
dedutivos, válidos ou, se indutivos, fortes; e em qualquer dos casos não
serão falaciosos (ver ARGUMENTO). Uma falácia também não pode ser
identificada com um raciocínio a partir de premissas inconsistentes; se
fosse esse o caso todas as demonstrações por reductio ad absurdum seriam
falaciosas, e não é assim. Por fim, uma falácia não pode ser identificada
simplesmente com um raciocínio inválido, se dedutivo, ou com um
raciocínio fraco, se indutivo; se fosse esse o caso, a noção de falácia seria
co-extensiva da reunião das outras duas e nada mais haveria a dizer sobre
ela que não tivesse já sido dito sobre as outras duas, e também não é assim.

Há, de igual modo, «indicadores» razoáveis do que deva ser uma falácia.
Em primeiro lugar é uma noção que pode ser imputada a raciocínios
(dedutivos ou indutivos) num sentido muito mais alargado do que aquele
que têm o que em Lógica chamamos argumentos (dedutivos ou indutivos).
A pergunta «Já deixaste de copiar nos exames?» pode ser considerada
como falaciosa (a chamada «falácia da questão múltipla») tendo em vista
que as respostas «Sim» ou «Não» são ambas comprometedoras para quem
as der; e é óbvio que esta pergunta não é um argumento (seja dedutivo, seja
indutivo). No entanto, a noção de falácia pode também aplicar-se a
argumentos no sentido mais técnico do termo (por exemplo, a chamada
«falácia da afirmação da consequente» que veremos mais abaixo). Depois,
a noção de falácia envolve sempre um caso de non sequitur: aquilo que se
pretende justificar (se for um argumento no sentido mais técnico) ou
promover (por exemplo, a ideia de que alguém copia nos exames, como no
caso da pergunta falaciosa feita acima) não é suficientemente justificado
pelo raciocínio que se apresenta. Por fim, a noção de falácia envolve, de
modo essencial, a noção de argumentação (em sentido lato) em contexto e
de ilusão ou engano (pelo menos possível). São estas noções que dão o
cunho psicológico (e, eventualmente sociológico) às falácias.

Uma falácia pode iludir, ou enganar, umas vezes obscurecendo a forma do


argumento e criando a ilusão de validade; outras vezes, construindo o
raciocínio de um modo tal que se torne (virtualmente) imperceptível a falta
de uma premissa que, se descoberta, seria imediatamente compreendida
como falsa; outras vezes ainda, dando a uma premissa falsa uma
formulação que é susceptível da a fazer passar por verdadeira. A principal
motivação para o raciocínio falacioso reside, talvez, na vontade de
persuadir um auditório sem ter razões (ou provas) suficientes para o
convencer. Por vezes a primeira destas duas componentes pode ser de tal
forma forte que o carácter falacioso do raciocínio pode mesmo iludir o seu
promotor. Os políticos são, desde a antiguidade clássica, os campeões deste
género de raciocínio; hoje, os homens dos media são também sérios
candidatos a este título. O maior consolo contra as falácias parece estar
concentrado no conhecido dictum: «Pode-se enganar algumas pessoas todo
o tempo, e pode-se enganar todas as pessoas durante algum tempo, mas não
se pode enganar toda a gente o tempo todo».

Seguidamente, apresenta-se, dando, nalguns casos, exemplos, uma lista das


mais conhecidas falácias (algumas remontam ao tempo da Grécia antiga),
de acordo com a classificação que parece ser a mais consensual ainda hoje.

Algumas Falácias e sua Classificação — Falácias informais: aquelas que só


podem ser detectadas através de uma análise do conteúdo do raciocínio.

1. Falácias de relevância: quando as razões aduzidas são logicamente


irrelevantes para o que se pretende justificar, embora possam ser
psicologicamente relevantes.

1.1. Argumentum ad baculum (apelo à força): quando se ameaça o


ouvinte.
1.2. Argumentum ad misericordiam (apelo à misericórdia): quando se
procura comover o ouvinte. (por exemplo, provocando-lhe pena ou
simpatia pela «causa»).

1.3. Argumentum ad populum (apelo ao povo): quando se procura


persuadir alguém de algo seja despertando o «espírito das massas» (apelo
directo), seja fazendo apelo a sentimentos que se supõem ser comuns à
generalidade das pessoas (apelo indirecto).

1.4. Argumentum ad hominem (argumento contra a pessoa): quando se


pretende argumentar contra um argumento promovido por alguém
argumentando contra a pessoa (por exemplo, apresentando-a com uma
hipócrita, tu quoque) e não contra o argumento.

1.5. A dicto simpliciter ad dictum secundum quid (falácia do acidente):


quando se aplica uma regra geral a um caso particular que não era suposto
ser coberto por essa regra para promover algo que resulta (falaciosamente)
dessa aplicação. Exemplo: «Aquilo que pertence a uma pessoa e que ela
emprestou a outrem deve ser-lhe devolvido se ela assim o quiser. Por isso,
devolve a navalha aquele marinheiro ébrio que ali está envolvido numa
rixa, visto que a navalha é dele e ele ta está a pedir.»

1.6. A dicto secundum quid ad dictum simpliciter (falácia conversa da


do acidente): quanto se aplica uma regra geral a um caso particular que
não era suposto ser coberto por ela com o objectivo de desacreditar a regra.

1.7. Falácia do espantalho: alguém distorce o ponto de vista do seu


oponente e, então, ataca o argumento distorcido.

1.8. Ignoratio elenchi (pseudoconclusão): quando quem argumenta tira


uma conclusão errada (inválida) das premissas dadas mas aparentada com a
conclusão que seria correcto extrair.

1.9. Manobra de diversão: quando quem argumenta procura distrair a


atenção de quem o ouve mudando completamente de assunto e acabando
por ou retirar uma conclusão acerca deste outro assunto como se fosse a
continuação do anterior, ou assumir simplesmente que alguma conclusão
foi tirada.

2. Falácias de indução fraca: São falácias nas quais as premissas,


embora não sendo irrelevantes para a conclusão, não são suficientes para a
justificar (metaforicamente: não são suficientemente fortes para suportar a
conclusão).

2.1. Argumentum ad verecundiam (apelo a uma autoridade não


qualificada): quando para justificar algo se recorre a uma autoridade que
não é digna de confiança ou que não é uma autoridade no assunto para o
qual a sua opinião é convocada.

2.2. Argumentum ad ignorantiam (apelo à ignorância): quando as


premissas de um argumento estabelecem que nada se sabe acerca de um
dado assunto e se procura con-cluir a partir dessas premissas algo acerca
desse assunto. Exemplo: «Há séculos que se tenta sem sucesso provar que
Deus não existe. Logo, Deus existe.»

2.3. Generalização apressada: quando se extrai uma conclusão de uma


amostra atípica.

2.4. Falsa causa: quando a ligação entre as premissas e a conclusão


depende de uma causa não existente. Exemplo: «Sempre que usei camisa
preta este ano ganhei ao poker. Por isso, se amanhã usar camisa preta
ganharei ao poker.»

2.5. Reacção em cadeia: quando a conclusão depende de uma reacção em


cadeia com uma probabilidade mínima de acontecer. (Por exemplo, para
concluir coisas catastróficas causadas por pequenos incidentes.)

2.6. Analogia fraca: quando a conclusão depende de uma analogia


defeituosa.

3. Falácias de pressuposição: São falácias nas quais as justificações


(por exemplo, as premissas de um dado argumento) pressupõem aquilo que
elas são suposto justificar (por exemplo, a conclusão de um dado
argumento).

3.1. Petitio principii (petição de princípio): Quando aquilo que devia ser
provado pelo argumento é já suposto pelas premissas. Conjuga dois
aspectos: 1) o argumento deve ser válido; e 2) as premissas devem ser
expressas de uma forma tal que o seu carácter questionável (o facto de elas
suporem o que pretendem provar) seja susceptível de passar despercebido.
3.2. Questão complexa: quando múltiplas questões estão escondidas numa
só cujas repostas possíveis serão igualmente comprometedoras (deu-se já
um exemplo desta falácia anteriormente).

3.3. Falso dilema: quando se constrói uma alternativa (por exemplo,


usando a expressão «ou ou») como se não houvesse lugar a uma terceira
via, e de facto essa terceira via seria igualmente (ou mais) aceitável.

3.4. Supressão de dados: quando se ignoram dados mais fortes do que


aqueles aos quais as premissas fazem apelo e que a serem considerados
motivaria uma conclusão diferente e incompatível com aquela que se
pretende promover.

4. Falácias de ambiguidade: Quando se tira partido da ambiguidade de


sentido de certas expressões para promover uma conclusão.

4.1 Equívoco: ocorre quando a conclusão de um argumento depende de


uma ou mais palavras serem usadas com dois sentidos diferentes. falácia
conversa do acidente. Estes argumentos falaciosos ou têm uma premissa
falsa ou são inválidos. Exemplo: «Uma formiga é um animal. Logo, uma
formiga grande é um animal grande.»

4.2. Anfibolia: é semelhante à falácia anterior, mas a ambiguidade incide


agora não sobre as palavras mas sobre uma frase como um todo.

5. Falácias por analogia gramatical: Quando se extrai


falaciosamente uma conclusão porque as premissas tem uma «forma
gramatical» semelhante às premissas de um argumento válido.

5.1. Composição: um predicado é erradamente transportado das partes para


o todo. Exemplo: «Um exército de homens fortes é um exército forte».

5.2. Divisão: um predicado é erradamente transportado do todo para as


partes. Exemplo: «Os homens são numerosos. Sócrates é homem. Logo,
Sócrates é numeroso».

Falácias formais: Consistem em inferências inválidas que são cometidas


«sobre» regras de INFERÊNCIA válidas visto que se assemelham de
algum modo a elas; é devido a esta semelhança que estas falácias são
susceptíveis de induzir uma ilusão de validade. No que se segue indica-se a
falácia e entre parêntesis a regra de inferência sobre a qual foi cometida a
falácia. Essas regras são quer da teoria das funções de verdade (ou
LÓGICA PROPOSICIONAL), quer da teoria do SILOGISMO. Assume-se
que ambas são familiares ao leitor e, por isso, apresenta-se apenas o nome
ou a descrição da regra sobre a qual foi cometida a falácia.

1. Falácias a propósito da lógica das funções de verdade (ou lógica


proposicional):

1.1. Afirmação da consequente (modus ponens): Se p, então q; q; logo, p.

1.2. Negação da antecedente (modus tollens): Se p, então q; não p; logo,


não q.

2. Falácias a propósito da teoria do silogismo:

2.1. Falácia do termo não distribuído (o termo médio deve ocorrer


distribuído pelo menos uma vez): Todos os A são B; Todos os C são B;
logo, Todos os A são C.

2.2. Ilícita maior, ilícita menor (se um termo ocorre distribuído na


conclusão, deve ocorrer distribuído numa premissa): a) Ilícita maior: Todos
os A são B; Alguns C não são A; logo, Alguns C não são B. b) Ilícita
menor: Todos os A são B; Todos os B são C; logo, Todos os C são A.

2.3. Premissas negativas (não são permitidas duas premissas negativas):


Nenhum A é B; alguns C não são A; logo, alguns C não são B.

2.4. Tirar uma conclusão afirmativa de uma premissa negativa (uma


premissa negativa implica uma conclusão negativa): Todos os A são B;
alguns C não são A; logo, alguns C são B.

2.5. Tirar uma conclusão negativa de premissas afirmativas (uma


conclusão negativa implica uma premissa negativa): Todos os A são B;
todos os B são C; logo, alguns C não são A.

Falácia da afirmação da consequente: Nome dado à seguinte forma


argumentativa inválida: «Se p, então q; q; logo, p». Por exemplo: «Se o
João está em Paris, está em França; o João está em França; logo, está em
Paris». A conclusão pode ser falsa ainda que as premissas sejam
verdadeiras, pois o João pode muito vem estar na Côte d’Azur. Por ser
semelhante ao MODUS PONENS, presta-se a ser com este confundido.
Note-se que, como acontece com todas as formas inválidas, há argumentos
que têm a forma desta falácia mas são válidos: «Se p e q, então q e p; q e p;
logo, p e q». Dizer que uma forma argumentativa é inválida é dizer apenas
que nem todos os argumentos com tal forma são válidos, ainda que alguns
o sejam. Ver também ABDUÇÃO, FALÁCIA DA NEGAÇÃO DA
ANTECE-DENTE, LÓGICA INFORMAL. DM

Falácia da causa falsa O mesmo que POST HOC, ERGO PROPTER


HOC.

Falácia da causa única Tem a seguinte forma: Todo o x é tal que existe
um y tal que y tem a relação R com x. Logo, existe um y que é tal que todo
o x é tal y tem a relação R com x. Em símbolos: x y Ryx y x Ryx.
Exemplo: «todas as coisas têm uma causa. Logo, há uma causa de todas as
coisas». Este é o exemplo falácia da permutação dos quantificadores mais
(tristemente) célebre, que baptizou a falácia em questão. Ver FALÁCIA
DA PERMUTAÇÃO DE QUANTIFICADORES.

Falácia da composição: Ocorre quando um predicado é erradamente


transportado das partes para o todo. Exemplo: «Um exército de homens
fortes é um exército forte». JS

Falácia da divisão: Ocorre quando um predicado é erradamente


transportado do todo para as partes. Exemplo: Os homens são numerosos.
Sócrates é homem. Logo, Sócrates é numeroso. JS

Falácia da falsa causa: O mesmo que POST HOC, ERGO PROPTER


HOC.

Falácia da ilícita maior: Falácia que viola a seguinte regra da teoria do


silogismo: se um termo está distribuído na conclusão, tem de estar
distribuído numa premissa. Ocorre quando o termo maior de um silogismo
está distribuído na conclusão, mas não na premissa. Exemplo: todos os
peixes são animais; alguns cavalos não são peixes; logo, alguns cavalos não
são animais. JS

Falácia da ilícita menor: Falácia que viola a seguinte regra da teoria do


silogismo: se um termo está distribuído na conclusão, tem de estar
distribuído numa premissa. Ocorre quando o termo menor de um silogismo
está distribuído na conclusão, mas não na premissa. Exemplo: todos os
tigres são mamíferos; todos os mamíferos são animais; logo, todos os
animais são tigres. JS
Falácia da negação da antecedente: Nome dado à seguinte forma
argumentativa inválida: «Se p, então q; não p; logo, não q». Por exemplo:
«Se o João está em Paris, está em França; o João não está em Paris; logo,
não está em França». A conclusão pode ser falsa ainda que as premissas
sejam verdadeiras, pois o João pode muito vem estar na Côte d’Azur. Por
ser semelhante ao MODUS TOLLENS, presta-se a ser com este
confundido. Note-se que, como acontece com todas as formas inválidas, há
argumentos que têm a forma desta falácia mas são válidos: «Se p e q, então
q e p; não (q e p); logo, não (p e q)». Dizer que uma forma argumentativa é
inválida é dizer apenas que nem todos os argumentos com tal forma são
válidos, ainda que alguns o sejam. Ver também FALÁCIA DA
AFIRMAÇÃO DA CONSEQUENTE, LÓGICA INFORMAL. DM

Falácia da permutação dos quantificadores: Uma FALÁCIA formal,


identificável pelos meios da teoria da quantificação, que consiste numa
transição ilegítima de uma frase da forma x y xy (em que xy é qualquer
frase que contenha ocorrências livres das variáveis x e y) para uma frase da
forma y x xy. A falácia reside assim na permutação de um QUANTIFI-
CADOR universal com um quantificador existencial numa frase em cujo
prefixo aquele precede, ou tem ÂMBITO longo em relação a, este. Uma
ilustração clássica é dada na transição da frase 1) «Todos os
acontecimentos têm uma causa», cuja simbolização é x y Cyx (em que Cab
se lê a é causa de b e x, y tomam valores num domínio de acontecimentos),
para a frase 2) «Algo é causa de todos os acontecimentos», cuja
simbolização é y x Cyx. A transição de 1 para 2 é por vezes designada
como FALÁCIA DA CAUSA ÚNICA. Outro exemplo, igualmente
clássico, é dado na transição da frase 3) «Qualquer rapaz gosta de uma
rapariga» (a qual é, suponhamos, verdadeira) para a frase 4)

«Há uma rapariga da qual qualquer rapaz gosta» (a qual é, muito


provavelmente, falsa).

Para verificarmos de um modo simples que se pode ter a frase 1 verdadeira


e a frase 2 falsa, suponhamos que estamos a lidar com um domínio de
apenas quatro acontecimentos, a1, a2, a3, e a4, e que as conexões causais
entre eles são as representadas no seguinte diagrama (em que a seta indica a
direcção da relação causal):
Este género de situação tornaria 1 verdadeira: cada um dos quatro
acontecimentos no falácia do acidente domínio é causado por um certo
acontecimento no domínio (obviamente, não é de forma alguma necessário
que este seja o mesmo para todos aqueles). Por outro lado, 2 seria falsa
relativamente à situação descrita: nenhum dos quatro acontecimentos no
domínio tem a propriedade de causar cada acontecimento no domínio; o
seguinte diagrama, por exemplo, representaria um estado de coisas
relativamente ao qual 2 seria verdadeira:

Note-se que não existe qualquer falácia quando se permutam, no prefixo de


uma frase, quantificadores do mesmo tipo (isto é, ambos universais ou
ambos existenciais) ou ainda um quantificador existencial com um
universal quando aquele precede, ou tem âmbito longo em relação a, este.
Por outras palavras, as seguintes formas de inferência estão inteiramente
em ordem: y x xy x y xy; x y xy y x xy; x y xy y x xy.

A falácia da permutação de quantificadores parece ter sido cometida mais


do que uma vez por Tomás de Aquino, na sua Suma Teológica, no decurso
das chamadas «cinco vias» (ou seja, as cinco tentativas de inferir a
existência de Deus a partir de factos gerais acerca da natureza e do
universo). Por exemplo, da premissa segundo a qual segundos motores só
podem mover algo se forem por sua vez movidos por um primeiro motor,
Tomás de Aquino extrai aparentemente a conclusão falaciosa de que há
necessariamente um primeiro motor (viz., Deus) que os move a todos. JB
Falácia do acidente: O mesmo que A DICTO SIM-PLICITER AD
DICTUM SECUNDUM QUID.

Falácia do equívoco: Ocorre quando a conclusão de um argumento


depende de uma ou mais palavras serem usadas com dois sentidos
diferentes. Exemplo: uma formiga é um animal. Logo, uma formiga grande
é um animal grande. JS

Falácia do termo não distribuído: Falácia que viola a seguinte regra da


teoria do SILOGISMO: o termo médio deve estar DISTRIBUÍDO pelo
menos uma vez. Ocorre quando o termo médio não se encontra distribuído.
Exemplo: todos os cavalos são mamíferos; todas as baleias são mamíferos;
logo, todas os cavalos são baleias. JS

Falácia dos quatro termos: Ver FALÁCIA DO EQUÍVOCO.

Falácia ignoratio elenchi (pseudoconclusão): Quando quem argumenta


tira uma conclusão inválida das premissas dadas, mas aparentada com a
conclusão que seria correcto extrair. Exemplo: há muitos casos de
atribuições fraudulentas de subsídios de desemprego. Logo, a solução é
acabar com este tipo de subsídios. JS

Falácia naturalista: Para alguns autores, comete-se uma falácia naturalista


quando a partir de premissas sobre factos se retiram conclusões sobre
valores. Foi G. E. Moore (1873-1958) (Principia Ethica, 1903) quem
identificou uma falácia naturalista na forma como frequentemente, no
âmbito da filosofia moral, alguns conceitos são validados. Em ética os
naturalistas definem alguns conceitos básicos fundamentais como «bem»,
«mau», «justo», «injusto», a partir de conceitos como «aquilo que produz
mais prazer», «aquilo que se revela mais útil» ou «aquilo que melhor se
adequa aos objectivos das classes ou grupos maioritários». Assim na falácia
naturalista é possível encontrar explicações de tipo fisicalista ou de teor
funcionalista: aqueles conceitos fundamentais são afinal qualificações de
processos ou de situações totalmente explicáveis através de conceitos com
que as ciências físicas e biológicas operam. Entre todas as situações
possíveis existe uma que maximiza p. Se eu sustentar que p é algo de bom,
então definirei o bem como «a situação que maximiza p». Se por exemplo
este significar prazer, definir-se-á o bem como o prazer maximizado (numa
determinada situação). A objecção de sobre a falácia naturalista consiste
em mostrar que existe uma falácia nesse raciocínio, já que o bem é algo de
não natural e o argumento propõe uma compreensão analítica de p definido
como um bem (no naturalismo utilitarista este seria a maximização de algo
que se considera bom). Mas para Moore o bem é indefinível e não
analisável, pelo que em sua opinião a falácia naturalista converte-se em
grande parte numa falácia de definição e numa avaliação crítica sobre o
modo como se usam certos termos em filosofia moral. Mas a principal lição
de Moore contra a falácia naturalista é a de que não é possível validar
conceitos morais na base da descrição ou enumeração de factos, já que se
está a falar de conceitos de diferentes genera. Analogamente é o que
acontece com inferências indutivas a partir de observações repetidas dos
factos, quando se passa da observação recorrente de x para a afirmação da
sua necessidade.

Uma mais recente versão do debate sobre este mesmo tópico, agora
desenvolvido com base numa argumentação de tipo pragmático e
linguístico, é a realizada por John Searle, que de algum modo retoma
posições naturalistas (ou um certo tipo de naturalismo) e por R.M. Hare, o
qual, por seu lado, renova os argumentos contra uma eventual falácia
naturalista. No ensaio daquele primeiro filósofo, intitulado
significativamente «How to Derive “Ought” from “Is”» (1964), é atacada a
tese filosófica segundo a qual não é possível derivar um «deve» de um «é».
Numa terminologia mais técnica, aqueles que atacam o naturalismo em
ética contestam que se possa passar de afirmações descritivas para um tipo
de afirmações valorativas, sem que se introduza algures nas premissas da
argumentação uma afirmação ou juízo desse último tipo. Da afirmação que
um contrato firmado entre duas pessoas livres e conscientes do seu acto
(sem se encontrarem sob o efeito de drogas, hipnotizados, agindo de boa fé,
etc.) não é violável, não deve retirar-se que esse contrato não deve ser
violado por qualquer das partes, a não ser que o «não deve» esteja
subentendido como premissa. Os naturalistas não acham necessário esse
subentendido, enquanto os não naturalistas (aprioristas) acham. A nova
versão do debate sobre a falácia naturalista é apresentada por Searle nos
seguintes termos: «Diz-se muitas vezes que não podemos derivar um
«deve» de um «é». Esta tese, a qual provém de uma famosa passagem do
Tratado de Hume, embora não tão clara como seria desejável, é ao menos
clara em termos gerais: existe uma classe de afirmações de facto que é
logicamente distinta de uma classe de afirmações de valor. Numa
terminologia mais actual, não há afirmações descritivas que possam conter
afirmações valorativas sem a adição ao menos de uma premissa valorativa.
Acreditar que as coisas se passam de outro modo é cometer aquilo a que se
tem chamado a falácia naturalista.» (Searle 1967: 101)

Ora, um defensor de uma continuidade entre o dever e o ser (como é o caso


de Searle) contesta que se tenha que admitir uma premissa valorativa para
além dos actos comunicacionais da linguagem. A razão é que a própria
linguagem, nos seus actos promissivos, por exemplo, cria a noção de dever.
A ideia é que a linguagem tem o poder de instituir, por exemplo, a
promessa e a obrigação dela decorrente, assim como o jogo de xadrez tem
o poder de constituir um determinado jogo de tabuleiro que pura e
simplesmente não existiria sem as regras desse jogo. Estas são regras
constitutivas e por isso diferentes das meramente reguladoras, as quais não
criam propriamente os seus objectos (regras de etiqueta ou de trânsito, por
exemplo).

Se atentarmos nos argumentos de Searle contra os que não admitem que se


possa derivar o «dever» do «ser» (e que por isso existe uma
descontinuidade lógica entre «dever» e «ser»), verifica-se que ele considera
a transição de frases como 1) João prometeu ao António pagar mil escudos,
2) João colocou-se na obrigação de pagar ao António mil escudos e 3) João
deve pagar ao António mil escudos, como passos sucessivos que se
implicitam sem que para isso seja preciso introduzir uma premissa
adicional de tipo valorativo. Tudo o que é necessário para a implicitação
em causa é o preenchimento de condições empíricas determinadas e a
assunção de expressões analíticas ou de tautologias (cf. Searle 1967: 106).
Por falácia naturalista exemplo, a transição de 1 para 2 é feita desde que
empiricamente algumas condições se verifiquem (João e António não
pretendam à partida enganar-se, que estejam conscientes, que não se
encontrem sob coacção, etc.) e que se assuma como verdade analítica que
uma promessa envolve uma obrigação. Ora a maior parte dos filósofos que
combatem a falácia naturalista falham ao não identificarem nas transições
de 1 para 2 e 3, tanto o uso da tautologia como de actos de linguagem
específicos com a respectiva qualidade performativa. «Muitos filósofos
ainda não conseguem compreender plenamente a força de dizer que «por
isto eu prometo» é uma expressão performativa. Ao proferi-la executa-se
mas não se descreve o acto de prometer. Uma vez que prometer é visto
como um acto de fala de uma espécie diferente de descrever, então é mais
fácil ver que uma das características do acto é o assumir de uma
obrigação.» (Searle 1967: 108).

Mas o que é mais importante notar é que é porque os sujeitos se encontram


no framework de uma instituição social e linguística que é possível a
transição mencionada e a verdade é que ao proferir, por exemplo, a
expressão «Declaro a sessão encerrada», crio por essas palavras uma nova
situação em que inevitavelmente eu e o meu auditório se passam a
comportar de certo modo. Assim também a expressão «Prometo que p» cria
uma situação diferente em que inevitavelmente eu e os meus interlocutores
nos passamos a comportar desta e somente desta maneira. Mas a obrigação
e o consequente dever de fazer assim e não daquele outro modo nasce da
instituição da linguagem in concreto, isto é da especificação de um certo
acto de fala e não da forma de um entimema, em que se escondeu uma
premissa valorativa, para validar a derivação de um ser para um dever.

Os oponentes da falácia naturalista insistem numa diferença de género


entre facto e valor, entre ser e dever, sendo certas noções fundamentais da
moral como compromisso, obrigação, responsabilidade e outras mais
consideradas não deriváveis de quaisquer condições empíricas, formas de
vida ou funções linguísticas. R. M. Hare argumenta contra Searle que uma
frase como «alguém que em certas condições C diz que promete a outro
pagar uma determinada quantia, coloca-se a si próprio na obrigação de
pagar essa quantia», não é uma tautologia, nem a obrigação mencionada
decorre da promessa, mas contém, sim, uma relação sintética. A posição de
Hare consiste em negar que da instituição linguística (como lhe chama
Searle) da promessa derive o dever, o que equivaleria praticamente a retirar
o valor do facto. Ora, uma coisa é descrever um comportamento decorrente
de uma regra, como se estivéssemos a descrever regras e comportamentos
de um jogo, outra coisa é actuar de uma maneira e não doutra em virtude
do acto de fala da promessa. Em relação a um jogador que sai do campo de
jogo porque as regras assim o obrigaram (porque a instituição desse jogo
em particular assim o obrigou) não se pode dizer que se «tenha colocado
sob a obrigação» de sair do campo. Mesmo que o jogador profira as
palavras: «ao actuar deste modo, e tendo em consideração tais regras do
jogo, tive que sair do campo», não se pode fazer equivaler essa expressão
àquelas em que aparece a promessa. Esta é algo que se acrescenta à
instituição da linguagem, ao mero uso de palavras. Alguém que actua de
determinada maneira porque a instituição que regula os seus
comportamentos assim o obriga ou que assim actua porque, ainda que
continue regulado por essa instituição deve cumprir uma promessa, produz
actos diferentes quanto ao seu valor. Pode dizer-se que no primeiro caso
estamos perante uma tautologia: o acto decorre do significado das regras ou
das instituições; no segundo caso, o acto decorre de uma proposição
sintética. Afirma Hare que «é uma característica de palavras como
«prometer», as quais possuem sentido apenas em instituições, que elas
podem ser introduzidas na língua apenas quando assentimos relativamente
a certas proposições sintéticas acerca de como nós devemos actuar». (R. M.
Hare, 1967, p. 119)

A proposta de Searle continua a ser naturalista, pois que deriva o valor


neste caso do facto que é a instituição linguística. Um antropólogo
descreverá as situações em que essas operações linguísticas são realizadas e
de que for-fechoma os sujeitos actuam dentro das instituições. O facto de
Searle considerar tais regras como constitutivas não as retira de um
naturalismo que afinal consiste em negar qualquer descontinuidade entre
facto e valor. Essa descontinuidade é pelo contrário reafirmada por aqueles
que, como Hare, vêem na forma sintética das expressões em que entra a
promessa a sua marca mais notável.

Falsa causa: O mesmo que POST HOC, ERGO PROPTER HOC.

Falsidade lógica: A negação de uma VERDADE LÓGICA, como ¬(p →


p). Uma falsidade lógica é uma CONTRADIÇÃO ou INCONSISTÊNCIA.
As falsidades lógicas são frases falsas em todos os MODELOS. As
falsidades lógicas são falsidades necessárias. Na linguagem natural
encontram-se exemplos aparentes de falsidades lógicas em frases como
«Beethoven era e não era um bom músico». Mas é claro que se esta frase
for efectivamente proferida num certo contexto quererá dizer qualquer
coisa como «Sob certos aspectos Beethoven era um bom músico; mas, sob
outros aspectos, não» — o que constituirá mais um indício da VAGUEZA
associada ao conceito de «bom músico» do que uma limitação da lógica
clássica. DM