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NOTAS DIDÁCTICAS

Introdução as Abordagens Fenomenoló-


gica e Existencial em Psicopatologia (I):
A Psicopatologia Fenomenológica

JOSÉ A . CARVALHO TEIXEIRA (*)

, i . INTRODUÇÃO que vai da Análise Existencial a Daseinanalyse


de Binswanger e Boss passando, por exemplo,
Em Psicopatologia existem várias abordagens pela Logoterapia de V. Frankl e pela Terapia
fenomenológicas e existenciais. Como refere Centrada no Cliente de C. Rogers. Em suma: o
Jonckheere (1989), do encontro entre Fenomeno- pensamento fenomenológico/existencial não
logia, Existencialismo e Psicopatologia resultou aparece com homogeneidade tal como, de resto,
um amplo movimento de ideias e de reflexão, acontece com as correntes JilosóJicas inspira-
intervenção e investigação. Em linhas gerais é doras. Será que, apesar disso, existem pontos de
possível partir da psicopatologia fenomenológica encontro?
- que, retirando as suas categorias da psicopa- Este questionamento é tão pertinente como
tologia descritiva, se centra nas vivências e nos aquele que, ao falar-se de filosofias fenomeno-
dados imediatos da consciência - até às abor- lógicas e existenciais, conduziu ao conceito de
dagens existenciais que, para além de investi- estilo fenomenológico comum (Lyotard, 1964),
I
garem a qualidade existencial dos diversos esta- entendido como uma convergência em pontos
dos psicopatológicos, tentam elucidar as preo- essenciais. Será que no encontro entre Fenome-
cupações básicas do H o m e m na sua confron- nologia/Existencialismo,Psicopatologia e Psico-
tação dialéctica com a realidade (Carvalho Tei- logia também é possível identijkar invariantes?
xeira, 1989, 1991). Mais particularmente, é pos- A resposta a esta interrogação é afirmativa. Não
sível identificar uma trajectória de variantes que só a Fenomenologia e o Existencialismo deter-
, vai da fenomenologia descritiva dos dados minaram uma diferença significativa em Psico-
imediatos da consciência de Karl Jaspers e patologia e Psicologia (Spiegelberg, 1972) como
Mayer-Gross até à fenomenologia categoria1 de também se torna possível delimitar, no seio das
Binswanger e R. Kuhn, passando pela fenome- suas abordagens alguns pontos de convergência
nologia genético-estrutural a maneira de Min- fundamentais (Jonckheere, 1989; Yalom, 1984).
kowski, von Gebsattel e E. Straus, entre outros. A nosso ver, estes pontos de convergência
Da mesma forma, mas j á no plano de preocupa- surgem como invariantes nas aparições das
ções claramente existenciais, há uma diferença diversas orientações. No essencial são: uma
certa concepção do Homem, o método fenome-
(*) Psiquiatra. Assistente, ISPA. Coordenador do nológico, o estilo existencial e a ética de liber-
Grupo de Estudos de Psicologia e Psicopatologia
Fenomenológicas e Existenciais. dade.

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Uma certa concepção do Homem que emana (ou impossibilidade de possibilidades poste-
no cuidado posto na consideração das suas riores) que significa a inevitabilidade da sua
capacidades e p ot enc ia1idades , d imensõe:j própria morte, acaba por ser aquilo que pode
habitualmente não desenvolvidas suficiente- permitir viver a vida de modo autêntico, porque
mente nem de forma significativa por outras cor- a existência não pode ser adiada. Enfrentando-se
rentes de pensamento. Entre elas contam-se o com a inevitabilidade da sua própria morte, o
amor, a criatividade, a realização de si, o ser e o Homem é capaz de superação pela liberdade, a
vir-a-ser, a espontaneidade e a responsabilidade liberdade que salva a distância entre ser e não-
(no sentido existencial). Enfim, tem-se em conta ser e da qual emana, como consequência, a res-
que o ser do Homem se define num contexto ponsabilidade existencial e o compromisso com
humano, que o cuidado posto por ele na sua exis- os outros, que consubstanciam uma liberdade
tência é uma experiência imediata que resulta d;i situada.
descoberta de si mesmo ao lidar com o mundo
que está já-aí. Isto quer dizer que a experiência O método é o fenomenológico, que permite
interpessoal - em rigor, a experiência inter- aceder directamente aos fenómenos tal como
subjectiva - não pode nunca ser ignorada. aparecem a consciência, tornando inteligível
Por outro lado, o Homem é consciente, capaz tudo o que está marcado pela subjectividade. O
de fazer escolhas e intencional. O Homem 15 seu objectivo último é o de permitir ao Homem-
consciente de si mesmo, de forma contínua e :i perturbado compreender-se, isto é, re-situar-se
diversos níveis. Não é passivo face A existência. em relação aos seus próprios comportamentos e
Pelo contrário, o Homem é essencialmente livre, pôr em evidência, em cada um deles, a intencio-
no sentido de ser capaz de fazer escolhas e de nalidade com que os orienta e subentende,
tomar decisões, das quais resulta o significado da embora tenha sido sucessivamente aplicado a
sua existência. Sendo capaz de escolhas, faz-se a essência e a existência. O conceito de intencio-
si próprio. Descobre-se como fonte ilimitada di: nalidade remete para a procura de significação
possibilidades e é ele quem cria a sua própria perante dada situação, estruturando o compor-
existência. O Homem constrói o mundo onde si: tamento, na base dum processo pessoal de signi-
desenrola a sua existência e fá-lo de forma signi- ficância (Guimarães Lopes, 1993). O desen-
ficativa. Dá um sentido a sua existência, do volvimento da aplicação do método feno-
qual pode resultar um viver de acordo com os menológico ao campo psicopatológico foi sobre-
seus valores mais profundos no seu compro- tudo representado pela compreensão fenome-
metimento familiar, profissional e comunitário. nológica das vivências de K. Jaspers, pela feno-
Sujeito pessoal e intersubjectivo, é ele quem menologia genético-estrutural de E. Minkowski
opera o comprometimento e o realizador di: e von Gebsattel e pela Daseinanalyse de L.
todas as estruturas relacionais. Dirige-se para o Binswanger.
futuro e arrisca-se (Guimarães Lopes, 1982), Como método qualitativo de investigação, o
acredita em valores e procura o sentido da sua método fenomenológico utiliza uma aproxima-
presença no mundo. Implica-se de forma signifi- ção holística que envolve uma análise indutiva
cativa no seu projecto existencial, de tal maneira de carácter naturalista (Ionescu, 1992). A aproxi-
que ser-Homem envolve a espacialidade e ;I mação holística corresponde h tentativa de com-
temporalidade, a corporalidade, o ser-com-os- preensão global dos fenómenos, sem qualquer
-outros num mundo comum, ter uma relação ao limitação quanto ao número de aspectos a avaliar
mundo que é temporal, implicando memória :i e por intermédio de estudo pormenorizado de
historicidade. Mas é, também, ser-para-a-morte casos individuais. O carácter naturalista rela-
que só se pode compreender sobre o fundo da ciona-se com o facto de tentar compreender os
finitude - a temporalidade e a morte -, pelo que fenómenos tal como aparecem. Segundo Bache-
se preocupa a angustia. Mas, ao mesmo tempo, a lor e Joshi (1986), o método fenomenológico
angústia existencial empurra-o a viver pondo exige, em primeiro lugar, uma descrição cuida-
cuidado na sua existência. Esta fragilidade do ser dosa e sistemática daquilo que é percebido na

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experiência vivida e, em segundo lugar, procura unificado de personalização quando a história se
identificar e elucidar o' seu significado essencial. converte na sua própria história. Nela cabem a
A finalidade é o estudo dos significados e estru- consciência (de ser intencional), a razão, a au-
turas dos fenómenos na sua dimensão eidética, tonomia, a abertura, a liberdade, a responsabili-
isto é, em função da sua natureza fundamental e dade existencial e o compromisso com os outros.
dos seus constituintes essenciais.
2. PSICOPATOLOGIA FENOMENOLÓGICA
O estilo é o existencial, enquanto modo de
conceptualizar o encontro com o paciente, que é, A aplicação da fenomenologia a Psicopatolo-
antes de mais, um encontro entre dois Homens a gia enraiza-se essencialmente nas obras filosó-
maneira humana, isto é, encontro enquanto tal. ficas de E. Husserl e de M. Heidegger. Estes fun-
Presença comum e sentida que poderá permitir damentos filosóficos foram descritos detaiha-
uma aliança entre dois destinos. Que promove damente em diversos textos de base, entre os
uma escuta acreditante que só se realiza quando quais se destacam os de Lanteri-Laura (1963),
o outro se sente plenamente ouvido e quando Lyotard (1964) e Spiegelberg (1982). A abor-
promove mudança. dagem fenomenológica em Psicopatologia ori-
O significado essencial do encontro é o estar- ginou uma pluralidade de pontos de vista, de que
-com, que implica a presença (de estar-por-si), a são exemplos as contribuições de K. Jaspers, E.
reciprocidade (enquanto troca ou estar-para-o- Minkowski, L. Binswanger e von Gebsattel,
-outro), o cuidado (no acolhimento do outro) e, entre outros (Villegas, 1981).
ainda, um laço emocional entre um Eu e um Tu
que criam um Nós, numa reciprocidade activa. Ellenberger (1 958), ao diferenciar a psicopa-
Tal como refere Not (1 986), «cada um é um Eu e tologia fenomenológica da Daseinanalyse de
o outro um Tu ao qual se dirige, o que faz de Binswanger, propôs a diferenciação entre três
cada um, ao mesmo tempo, um Eu (que se dirige correntes: (1) A fenomenologia descritiva (Jas-
ao outro) e um Tu (ao qual outro se dirige).)) pers, Mayer-Gross, Wyrsch); (2) A fenomenolo-
Emerge um Nós que, não representando qualquer gia genético-estrutural (Minkowski, von Geb-
ameaça a identidade e a autonomia de cada um, sattel, E. Straus); (3) A fenomenologia catego-
alcança precedência. Assim, o fenómeno do en- ria1 (a primeira fase de L. Binswanger, R. Kühn
contro tem como características essenciais e Cargnello).
(Tellenbach, 1992): a coerência, enquanto reci-
procidade ou comportamento mútuo de co- Do ponto de vista histórico, Jonckheere
relação; carácter fortuito, por chegar ao instante (1 989) diferenciou claramente três períodos su-
e de forma imprevisível; a liberdade de deixar o cessivos.
outro ser como é; e, ainda, o face-a-face, porque Em primeiro lugar, a psicopatologia fenome-
o encontro acontece no olhar. nológica descritiva de Jaspers, Birnbaum e
Rümke, período claramente dominado pela «Psi-
Finalmente, a ética é a de uma exigência de copatologia Geral» de Jaspers, publicada em
liberdade, de liberdade de ser o autor do seu pró- 1913, na qual os fenómenos psicopatológicos
prio destino, pondo cuidado na sua existência. são elaborados pelos métodos da fenomenologia
Acentua o predomínio do indivíduo, perturbado e da psicopatologia compreensiva, destacando o
ou não, contra tudo o que totaliza, tematiza ou carácter significativo do vivido. Aparece como
reprime, superando a facticidade (história) para obra inspiradora dos trabalhos de Kretschmer
se transcender, abrindo-se a outras possibilidades (1918), Birnbaum (1920), Kurt Schneider
de ser e de vir-a-ser. (1 923), Mayer-Gross (1 924), Rumke (1 924) e
Em termos genéricos, poder-se-ia afirmar que Wyrsch (1 937, 1949).
o objecto é a Pessoa, entendida como centro da Em segundo lugar, a psicopatologia genético-
sua própria valorização e da sua própria escolha, -estrutural, representada por E. Minkowski e a
que se pode especializar individuando-se, socia- psiquiatria antropológica de von Gebsattel, E.
lizando-se e subjectivando-se, num processo Straus, von Weizsacker e H. Tellenbach.

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Por último, a psicopatologiafenomenológico- estado mental é vivido e dá lugar a outro. Ex-
-existencial introduzida por L. Binswanger, pri- plicar, ligar-se-ia a causalidade científico-
meiramente como fenomenologia categoria1 e , natural, isto é, a ligação objectiva de diversos
mais tarde, como Daseinanalyse, apoiada na psi- factos ou em leis regulares, investigando as
canálise de Freud, no método fenomenológico de correlações entre os fenómenos psíquicos e a sua
Husserl e na concepção do Homem de Heidegger base estrutural. Trata-se aqui de vincular o psí-
e influenciando trabalhos ulteriores de M. Boss e quico ao físico, desligando-se do pessoal-biográ-
R. Kuhn. fico.
Ou seja: compreendem-se as conexões de sen-
tido e explicam-se as conexões causais.
3. A FENOMENOLOGIA DE K. JASPERS Diferenciando entre descrever e compreender,
Jaspers conceptualizou que descrever se refere a
O ponto de vista de Karl Jaspers (1883- fazer uma descrição do que é apreendido intui-
-1969), qualificável de descritivo e próximo da tivamente sob a forma de realidades subjectivas
psicologia empírica descritiva (Beauchesne, da vida psíquica efectivamente vivenciadas (a
1986) foi detalhadamente apresentado no livro fenomenologia) e, também, o que é possível
((Psicopatologia Geral» de 1913, no qual a psico- apreender objectivamente sob a forma de rendi-
patologia se ocupa das modalidades como os pa.- mentos (apreensão, memória, trabalho e inteli-
cientes experimentam os fenómenos psicopato- gência). Por outro lado, compreender é repre-
lógicos, uma fenomenologia dos seus estados de sentar interiormente a vivência autodescrita pelo
consciência. Na sua abordagem quase exaustiva, paciente, que poderá ser compreensão estática
Jaspers sistematizou: as manifestações subjec- ou fenomenologia das diversas qualidades e es-
tivas da vida psíquica patológica (fenomeno- tados psíquicos individuais tal como aconteceu e
logia), as manifestações objectivas da vida psi- são dados, e compreensão dinâmica ou genética,
quica patológica (psicopatologia objectiva), as a das emergências dos acontecimentos psíquicos.
relações compreensíveis (psicopatologia COFI- Em síntese: a compreensão estática permitiria a
preensiva) e as relações causais (psicopatologia descrição fenomenológica ou descrição da expe-
explicativa). Para Jaspers, a fenomenologia é o riência vivida em determinado momento, sem ter
domínio das vivências psíquicas individuais, em conta as suas causas e consequências e, por
uma psicopatologia descritiva das manifestações seu turno, a compreensão genética permitiria a
da consciência. O importante seria «exercer a v' - descrição dinâmica ou apreensão dos fenómenos
são pregnante do que é vivido directamente pelo vividos nas suas relações internas no tempo e
doente ... delimitar e distinguir da forma mais estabelecendo a relação de sentido entre as
precisa possível e designar em termos fixos a s diversas vivências.
estados psíquicos que os doentes vivenciam.» A abordagem que Jaspers fez da Psicopato-
(Jaspers, 1928). Na impossibilidade de abordar logia envolveu o estudo diferenciado dos fenó-
todos os aspectos significativos da obra de menos vividos (as vivências), dos rendimentos,
Jaspers, referimos apenas alguns pontos nodais: dos fenómenos somaticos concomitantes e das
compreender e explicar; descrever e compreeri- objectividades psíquicas do sentido (expressão
der; processo, desenvolvimento e reacção. corporal, actividade no mundo e produções artís-
Jaspers diferenciou entre conexões signijka- ticas). Em particular, nos fenómenos vividos
tivas intrapsíquicas (que seria necessário corri- abordou a consciência do objecto (com destaque
preender como conexões de sentido) e conexões para as alucinações e pseudo-alucinações), as
causais entre os acontecimentos intra e extrapsi- alterações das vivências do espaço e do tempo,
quicos (que é necessário explicar). Assim: Com- da consciência da realidade (com destaque para
preender ligar-se-ia a causalidade psicológica, o delírio e vivências delirantes primárias) e,
isto é, ao saber como é que o psíquico dá lugar ainda, dos sentimentos e estados de ânimo, im-
ao psíquico. Trata-se de compreender por co- pulsos, vontade, fenómenos reflexivos e cons-
penetração afectiva na psique do outro, de ciência do Eu.
entender através dos movimentos expressivo:;, Finalmente, Jaspers introduziu três conceitos-
das produções verbais e dos actos como um -chave, que emergiram do método compreen-

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sivo: (I) O processo, como interrupção da conti- Numa primeira fase, antes de 1927 e sob a
nuidade histórico-vital, «algo totalmente novo influência da obra filosófica de Husserl,
que se apresenta por efeito duma transformação desenvolveu umafenornenologia categoria1 com
profunda da actividade anímica)) (Jaspers, 1972), o objectivo de revelar as alterações das ca-
que seria totalmente incompreensível genetica- tegorias existenciais do Dasein como eixo de
mente: o processo psicótico torna a personali- uma análise estrutural do que denominou os da-
dade delirante; (2) O desenvolvimento, uma con- seins psiquiátricos. Ou seja, centrando-se nas
tinuidade compreensível que prolonga de forma determinações constitutivas da existência (os
clara a personalidade e que «tem crescimento e existenciais corporalidade, temporalidade, espa-
desenvolvimento em conformidade ... destino cialidade e outros), procurou investigar como o
compreensível face 21 biografia e configuração de Dasein se projecta no mundo. A grande finali-
sintomas em conformidade com a maneira de dade destas análises fenomenológicas seria a da
ser» (Jaspers, 1972): a personalidade desenvolve- reconstrução do mundo interior da experiência
-se de forma delirante como na paranóia; ( 3 ) A do paciente, para elucidar a estrutura pessoal do
reacção, enquanto resposta comnpreensível a mundo individual que, todavia, ainda não per-
acontecimentos vitais ou vivências anteriores. mitiria compreender o significado da sua exis-
Influenciado por Husserl, em 1912 já Jaspers tência.
tinha publicado «A Orientação da Investigação Mais tarde, particularmente influenciado pela
Fenomenológica em Psicologia)), mas é a sua obra filosófica de Heidegger, L. Binswanger de-
((Psicopatologia Geral)), publicada em 1913 e senvolveu um método analítico-existencial ou
sucessivamente reeditada, que consubstancia a Daseinanalyse, que questiona a existência e pro-
I totalidade do pensamento psicopatológico. cura fazer a reconstrução do seu desenvolvi-

: Também filósofo, Jaspers trabalhou a dimensão


da razão e da existência e evidenciou que esta
última só poderia ser iluminada e nunca apre-
endida conceptualmente, j á que não poderia ser
reduzida por completo a um objecto do pensa-
mento.
mento, através da investigação biográfica.
Síntese da Psicanálise, da Fenomenologia e do
Existencialismo, a Daseinanalyse apareceu como
uma análise fenomenológica das formas de exis-
tência, pré-definidas a partir das diversas cate-
gorias psicopatológicas: dasein melancólico,
dasein esquizofrénico, etc. Evidenciou a doença
3. A DASEINANALYSE DE L. BINSWANGER mental como um modo de existência, que teria
que revelar a intervenção do próprio Homem,
Ludwig Binswanger (1 881-1 966), mais mas que realizaria uma redução da sua capaci-
I
impregnado de referências filosóficas, particular- dade de viver e de conhecer. Considerou a exis-
mente de Heidegger, tornou-se especialmente tência como estrutura total que abarca a conti-
conhecido pelos seus trabalhos sobre a esquizo- nuidade do sujeito e as suas relações com o ou-
frenia, a mania e a melancolia. Introduziu a Da- tro, as estruturas sociais e as coisas. A elabora-
seinanalyse, «uma atitude que parte da compre- ção do Eu far-se-ia pela coordenação da expe-
ensão do Homem em situação))... ((trabalho de riência vivida actual com o encadeamento das
actualização do ser do Homem em todas as suas experiências vividas anteriores (ou biografia in-
formas e todos os seus mundos)) (Binswanger, terna). Quis realçar a análise da existência total
1971). do paciente no seu estar-no-mundo e tentou ca-
A análise psicopatológica que propôs foi uma ptar as estruturas básicas e significados essen-
análise empírico-fenomenológica dos modos e ciais, por intermédio de uma atitude intuitivo-
formas da existênciaperturbada, centrada na es- -reflexiva que visava o Homem em si-mesmo.
trutura do Dasein, com a finalidade de explicar e Com a Daseinanalyse de Binswanger, a psico-
descrever a totalidade do ser psíquico do Ho- patologia apareceu como inflexão da estrutura
mem perturbado. Trata-se, essencialmente, de do Dasein, um desvio ou alteração em relação A
uma abordagem dos estados psicopatológicos norma ontológica do Dasein, um extravio da rea-
enquanto modos de existência frustrada, toman- lização ontológica que o tornaria opaco para si
do como pontos de partida as categorias da Psi- mesmo. Através da análise dos casos Ilse, Ellen-
copatologia. west e Lola Voss, evidenciou o carácter de res-

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triçãoAimitação na psicopatologia, que emergiria Psicopatologia tem por finalidade a compre-
no que denominou tematização da existência, ou ensão dos fenómenos psicopatológicos tal como
seja, quando uma só categoria do Dasein serve são dados e vividos, e elucidar qual é a forma
de «fio condutor)) ao projecto de mundo. Para mesma do funcionamento mental do paciente,
Binswanger, a tematização da existência impl i- que dá conta da alteração da realização da expe-
caria uma tarefa terapêutica de reconstrução da riência vivida e da qual emergem os sintomas.
experiência, que envolveria a investigação meto- Especificamente, a contribuição da Dasein-
dica da biografia interna (onde apareceria uma analyse deu lugar a uma conceptualização psico-
nova forma de comunicação/reconstituição meri- patológica dos modos de estar-doente (Boss &
tal das vivências) e uma penetração na estrutura Condrau, 1975):
da existência do paciente, para reconduzir a - Estar-doente caracterizado por afectação

totalidade ou pluridimensionalidade do Dasein . evidente do corporal do existir, de que podem


Para Binswanger, o método de análise psico- ser exemplos uma fractura da perna, uma para-
patológica foi a Daseinanalyse, mas a técnica lisia histérica e uma demência pós-traumática
terapêutica que propunha era ainda a psicana- que, em comum, têm uma afectação da possibi-
lítica. lidade de corporalizar uma certa relação com o
mundo
A difusão e a compreensão da psicopatologi a - Estar-doente caracterizado por uma afecta-

fenomenológica foram dificultadas pela liri- ção pronunciada da espacialidade


guagem filosófica dos seus autores, particular- - Estar-doente constituido por obstáculos im-
mente fora dos países de língua alemã. N o portantes a realização da disposição do humor
entanto, pela sua importância, é de destacar a própria a essência da pessoa, onde se destacam
fenomenologia de E. Minkowski que, por exeni- as psicoses afectivas e outros distúrbios afecti-
plo, conceptualizou o transtorno fundamental vos, nomeadamente depressivos
da esquizofrenia como perda de contacto vitd - Estar-doente constituidos por obstáculos
com a realidade, desenvolveu a noção de tempo importantes ci realização do ser-aberto e da li-
vivido e da sua importância em vários estados berdade, envolvendo sobretudo as psicoses es-
psicopatológicos, com destaque para a me- quizofrénicas. Assim, o modo de estar-doente es-
lancolia, conceptualizada como doença d o quizofrénico aparece como uma manifestação da
tempo. Mais tarde apareceram outras obras privação extrema que consiste em não-poder ser
importantes em língua francesa, nomeadamene de forma livre e autónoma. No entanto, também
a ((Fenomenologia das Psicoses)) de Tatossian nos neuróticos obsessivos há afectação da liber-
(1979) e ((Fenomenologia, Psiquiatria e Psica- dade e da abertura do existir, de forma menos
nálise)) de P. Fedida (1986). Juntamente com J. intensa, particularmente porque são constrangi-
Schotte, este último autor editou em 1981 uin dos a manterem-se rigorosamente a distância das
conjunto vasto de textos intitulado ((Psiquiatria e coisas e a protegerem-se: a existência é aqui uma
Existência», correspondentes a um importante luta constante contra as ameaças de um universo
colóquio realizado em Cerisy (França), em 198'3, impuro e corrompido.
que constituiu uma reflexão profunda sobre as
investigações mais actuais no campo da psico- Finalmente, para uma melhor compreensão
patologia fenomenológica e que inclui trabalhos dos modos de estar-doente, convém referir que a
de A. Tatossian, R. Kuhn, H. Tellenbach, FV. abordagem fenomenológica da psicopatologia é
Blankenburg e Y. Pelicier, entre outros. indiferente a distinção entre normal e patológico,
Finalmente, nos Estados Unidos da América, uma vez que o método fenomenológico suspende
a Universidade de Duquesne tornou-se o priii- qualquer tese de valor e, portanto, de normativi-
cipal centro de investigação em psicologia feno- dade (Tatossian, 1990): esta indiferença é com-
menológica (Giorgi, 1966, 1971, 1983; von preensível na medida em que a fenomenologia
Eckartsberg, 1971), editando ((Joumal of Pheno- encara os modos de estar-doente como possibi-
menological Psychology)) desde 1971. lidades humanas universais. O acento tónico no
interior do sujeito, na existência ou ausência do
Em síntese, a abordagem fenomenológica da poder de aplicar ou não a norma que é a sua. Ou

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Esquisses des rapports historiques entre phénome- ABSTRACT
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Phénomenologie et Analyse Existentielle (P. The main goal of this paper is to review the
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Universitaires de France. Daseinanalyse.

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