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Orelhas

Nascido em 1932 na Província de Buenos Aires, em General Villegas (que


neste livro ele “rebaixa” a Coronel Vallejos) Manuel Puig andou pela Europa
estudando cinema, crente de que tinha nascido para diretor; foi ao escrever seu
quarto roteiro que percebeu tudo: aquilo não era cinema, era uma nuvem contra
o cinema, e sua vocação era a literatura.
Depois de trabalhar como lavador de pratos, telefonista, professor de línguas
em Londres, Paris e Estocolmo, ele arranjou um emprego permanente de
recepcionista poliglota na Air France de Nova Iorque — e ali, entre 1963 e 1965,
achou tempo para escrever seu primeiro romance, La Traición de Rita Hayworth,
que em 1969, em Paris, foi classificado entre os cinco melhores romances
traduzidos na França naquele ano.
Neste segundo livro o autor confessa tentar criar uma nova forma de
literatura popular baseada no velho folhetim, aquele que era distribuído
antigamente de casa em casa. O resultado: uma leitura fascinante, empolgante,
uma collage pop que o leitor devora. Mais de 100 mil exemplares foram
vendidos em espanhol; Puig consegue fazer um best seller que é boa literatura,
da mais nova e ousada.
Ao rever a versão para o português que ora apresentamos, o autor fez questão
de manifestar seu entusiasmo pela tradução, escrevendo: “Esplêndido trabalho.
O importante é que o estilo e os tons estão admiravelmente conservados.
Felicitações a Joel Silveira.”
A capa reproduz um desenho original de J. Carlos, como homenagem que a
Editora Sabiá presta à memória do grande artista brasileiro.
EDITORA SABIÁ
MANUEL PUIG
OBRAS DO AUTOR:
La Traición de Rita Hayworth – Novela – Buenos Aires, 1968 (A Traição de Rita Hayworth)
Boquitas Pintadas – Romance – Buenos Aires, 1969 (Boquinhas Pintadas) – Tradução de Joel Silveira.

BOQUINHAS PINTADAS
Folhetim
Tradução de Joel Silveira
SABIÁ
Capa: Desenho original de J. Carlos
Diagramação: Antônio Hebranz
Revisão: Júlia Bierrenbach

Direitos exclusivos para a língua portuguesa reservados à EDITORA SABIÁ LTDA.


Rua Toneleros, 191 – Casas 4 e 5 – Tels.: 257-0923 e 256-2601 – Rio de Janeiro, GB.
Proibida reprodução integral ou parcial em livro de qualquer espécie ou outra forma de publicação sem
autorização expressa da Editora
Copyright by Manuel Puig, 1969.
Nota do Tradutor
O autor chama seu romance de folhetim, e o divide em “Primeira Entrega”,
“Segunda Entrega”, etc. Cada um desses fascículos (como preferimos traduzir)
tem como dístico um trecho de letra de tango ou bolero, que resolvemos deixar
na língua original. O mesmo fizemos com letras de canções inseridas no texto.
A linguagem de Juan Carlos, em seu diário, é cheia de erros de ortografia e
expressões do lunfardo, a gíria portenha, mas decidimos não procurar
equivalências em português.
I
Boquitas pintadas de rojo carmesí
fascículo
1

Era… para mí la vida entera…

ALFREDO LE PERA

NOTÍCIA APARECIDA NO NÚMERO DE ABRIL DE 1947 DA REVISTA MENSAL


“NOSSOS VIZINHOS”, EDITADA NA LOCALIDADE DE CORONEL VALLEJOS, PROVÍNCIA
DE BUENOS AIRES.

“Falecimento pranteado. O desaparecimento do Senhor Juan Carlos


Etchepare, acontecido a 18 de abril último na prematura idade de 29 anos,
após longa enfermidade, causou nesta cidade, da qual o extinto era filho
querido, um sentimento geral de magoada surpresa, não obstante a grave
moléstia que o vitimou não ser incomum entre nós.
Com essa morte, desaparece do nosso convívio um elemento que, por
suas qualidades de espírito e caráter, distinguiu-se sempre como um valor
ponderável, possuidor de um acúmulo de atributos ou dons — que eram a
marca de sua figura simpática — atributos estes que destacam os
possuidores desse inestimável caudal, para eles granjeando a admiração dos
parentes ou de estranhos.
Os restos de Juan Carlos Etchepare foram inumados na necrópole local,
tendo o seu enterro sido acompanhado por numeroso e sentido cortejo.”

Buenos Aires, 15 de maio de 1947


Estimada Dona Leonor:
Piquei sabendo da triste notícia ao ler a revista Nossos Vizinhos e após
muitas dúvidas me atrevo a lhe enviar os meus mais sentidos pêsames pela morte
do seu filho.
Eu me chamo Nélida Fernández de Massa, me chamam também de Nené,
lembra-se de mim? Moramos em Buenos Aires há já muitos anos, vim para cá
com meu marido logo depois de nos casarmos, mas essa notícia tão triste fez
com que eu me decidisse a escrever-lhe algumas linhas, mesmo sem esquecer
que já antes do meu casamento a senhora e sua filha deixaram de me
cumprimentar. Apesar de tudo, porém, o pobrezinho do Juan Carlos — que
descanse em paz! — continuou a me cumprimentar. Vi-o pela última vez uns
nove anos atrás.
Não sei se a senhora ainda me guarda rancor, mas, de qualquer maneira, faço
votos para que Nosso Senhor a ajude, pois deve ser muito difícil uma pessoa
resignar-se a uma perda como essa de um filho já homem.
Apesar dos quatrocentos e setenta e cinco quilômetros que separam Buenos
Aires de Coronel Vallejos, estou ao seu lado neste momento. E mesmo que não
me estime, peço-lhe que me permita rezar com a senhora.
Nélida Fernández de Massa

Iluminada pela nova luz fluorescente da cozinha, depois de fechar o tinteiro,


olha para as mãos e ao notar que os dedos que seguravam a caneta estão
manchados, dirige-se para a pia de lavar pratos. Tira a tinta com a pedra e
enxuga-se com um guardanapo. Apanha o envelope, molha a cola com saliva e
durante alguns minutos fica a olhar os losangos multicores do oleado que cobre
a mesa.

Buenos Aires, 21 de maio de 1947


Querida Dona Leonor:
Foi um grande consolo para mim receber a sua resposta! A verdade é que não
a esperava, acreditava que a senhora jamais iria me perdoar. Sua filha Celina, ao
contrário, pelo que percebo, continua me desprezando, e atendendo a seu pedido
passarei a enviar minhas cartas para a caixa postal, assim a senhora não terá
discussões com ela. Sabe o que pensei quando olhei para o envelope de sua
carta? Que dentro dele estava a minha carta sem ser aberta.
Senhora… estou tão triste, mas isso é justamente o que não devo lhe dizer, e
sim consolá-la. Mas não sei como lhe explicar, mas o fato é que não posso falar
de Juan Carlos com ninguém, e passo o dia todo pensando como um rapaz tão
jovem e tão bonito teve a desventura de contrair tal enfermidade. Acordo muitas
vezes à noite e, sem querer, fico a pensar em Juan Carlos.
Eu sabia que ele estava doente, que tinha ido novamente para a montanha,
em Córdoba, para se tratar, mas, não sei por que… isso não me afligia, ou talvez
eu pensasse que ele não estava em vésperas de morrer. Agora não faço mais que
pensar numa coisa, no fato de que ele nunca ia à igreja, será que se confessou
antes de morrer?
Espero que sim, pois isso será uma tranquilidade a mais para nós, os que
estamos vivos, não lhe parece? Há muito tempo que eu não rezava, desde três
anos atrás, quando meu filhinho menor esteve doente, mas agora voltei a rezar.
Também tenho medo de que ele tenha cumprido o que prometeu fazer. A senhora
soube alguma vez?
Oxalá não! Veja a senhora, também isso me vem à cabeça quando acordo de
noite: é que Juan Carlos me disse mais de uma vez que quando morresse queria
que o cremassem.
Creio que isso é mal visto pela religião católica, porque o catecismo diz que
depois do juízo final virá a ressurreição do corpo e da alma. Como não me
confesso há anos, já perdi o costume, mas vou perguntar a algum padre sobre
isso. Mas estou certa, senhora, de que Juan Carlos está descansando, de repente
me veio essa certeza de que pelo menos ele está descansando, se é que já não se
encontra na glória do Céu.
Podemos estar seguras disso, pois Juan Carlos nunca fez mal a ninguém.
Fico aqui, esperando ansiosamente a sua carta. Um abraço da
Nélida

Na gaveta do armário, junto ao pequeno rosário infantil, a vela da


comunhão e as imagens impressas do santo, em nome do menino Alberto Luis
Massa, há um livro forrado com um papel imitando o nácar. Folheia-o até
encontrar uma passagem que anuncia o juízo final e a ressurreição da carne.

Buenos Aires, 10 de junho de 1947


Querida Dona Leonor:
Esta tarde, ao voltar de umas compras que fui fazer para os meninos no
centro da cidade, encontrei a sua carta. Senti grande alívio em saber que Juan
Carlos se confessou antes de morrer e que foi sepultado de maneira cristã. É um
grande consolo em meio a tudo o mais. E a senhora, como vai? Está mais
animadazinha? Eu continuo muito abatida.
Agora lhe peço permissão para um atrevimento. Quando ele foi para
Córdoba pela primeira vez me escreveu algumas cartas, cartas de noivo, para
Vallejos, e dizia nelas coisas que nunca esqueci, mas não devia estar falando
nisso, pois hoje sou uma mulher casada e com filhos sadios, dois meninos, um
de oito e outro de seis, que Deus os conserve comigo, e eu não deveria estar
pensando em coisas que aconteceram antes do meu casamento, mas quando
acordo de noite penso sempre que seria um consolo voltar a ler as cartas que
Juan Carlos me escreveu. Quando deixamos de nos falar, e depois do que
aconteceu com Celina, devolvemos as nossas cartas. Jamais discutimos antes
sobre isso, mas um dia, de repente recebi pelo correio todas as minhas cartas, as
que havia mandado para Córdoba, e então eu também devolvi todas as que ele
me havia escrito. Não sei se ele as queimou, espero que não… Eu as guardava
amarradas numa fita azul-celeste, porque eram cartas de um rapaz, e ele, quando
devolveu as minhas, mandou-as soltas dentro de um envelope grande, e fiquei
chocada em ver que elas não estavam amarradas com uma fita cor-de-rosa,
conforme eu havia lhe pedido quando ainda nos falávamos, veja a senhora como
uma pessoa pode dar importância a pequenas coisas assim. Eram, aqueles, outros
momentos da vida.
Agora quem pode saber se essas cartas ainda existem. A senhora as
queimaria se as encontrasse? Que irão fazer com todas essas coisas pessoais de
Juan Carlos? Sei que certa vez ele guardou um lenço manchado de ruge, disse-
me que era para me dar raiva, dizendo que o ruge era de outra moça. Então
pensei que se a senhora não me levar a mal e encontrar as cartas que ele me
escreveu, talvez fosse melhor me mandá-las.
Bem, Dona Leonor, gostaria muito que a senhora continuasse me
escrevendo, e devo lhe dizer que muito me surpreendeu o pulso que a senhora
tem para escrever, sua letra parece de uma pessoa jovem, felicito-a por isso, nem
parece que nos últimos anos a senhora sofreu uma desgraça tão grande. A não
ser que as suas cartas sejam escritas por outra pessoa, o que não acredito.
Lembre-se de que as minhas cartas são as que estão atadas com a fita azul-
celeste, isso é o suficiente para a senhora identificá-las, mesmo porque estão sem
envelopes, pois eu, quando as colecionava, fiz a doidice de tirá-las dos envelopes
porque achava que os mesmos eram manuseados, e não lhe parece que tinha um
pouco de razão? No correio, os envelopes são tocados por muitas pessoas,
enquanto que as folhas de dentro só eram tocadas por Juan Carlos, o pobrezinho,
e depois por mim, somente por nós dois, a folha de dentro, sim, é que é uma
coisa íntima. Assim, pois, já sabe, não tem necessidade de ler as primeiras linhas
para saber quais são as minhas cartas, basta olhar para a fitinha azul.
Bem, Dona Leonor, fico aqui desejando que estas linhas a encontrem mais
recuperada.
Abraça-a e beija-a,
Nené

Fecha o envelope, liga o rádio e começa a trocar a surrada roupa de casa


por um vestido de sair. O programa Tango versus bolero está começando.
Ouvem-se, alternados, um tango e um bolero. O tango narra a desventura de um
homem que sob a chuva hibernal recorda a cálida noite de lua em que conheceu
sua amada, e a subsequente noite de chuva em que a perdeu, expressando seu
medo de que no dia seguinte surja o sol e ela não volte para o seu lado, possível
indício de sua morte. Pede, finalmente, que, caso a volta não se dê, também não
voltem a florescer as malvas do pátio, já que suas pétalas teriam que murchar
pouco depois. Em seguida, o bolero descreve a separação de um casal, apesar
de os dois se amarem muito, separação determinada por razões secretas dele:
não pode confessar a ela o motivo e lhe pede para acreditar que um dia voltará
se as circunstâncias lhe permitirem, da mesma forma que o barco pesqueiro
volta ao seu porto quando as tormentas do mar Caribe não o afundam. Termina
a audição. Diante do espelho no qual continua se olhando, depois de aplicar o
batom e a esponja com talco, levanta o cabelo procurando reconstituir um
penteado em voga alguns anos atrás.

Buenos Aires, 22 de junho de 1947


Querida Dona Leonor:
Estava para lhe escrever, sem esperar resposta, quando por sorte chegou a
sua cartinha. Alegra-me saber que já está mais tranquila, com menos visitas, a
verdade é que as pessoas fazem isso com boa intenção, não se dando conta de
que acabam aborrecendo quando são muitos.
Já estava para lhe escrever porque na última carta esqueci de lhe perguntar se
Juan Carlos está sepultado no chão, num nicho ou no mausoléu da família. Faço
votos para que ele não esteja enterrado no chão… A senhora já entrou num poço
que estão cavando? Então sabe que quando se encosta a mão na terra dura do
poço, vê-se como ela é fria e úmida, com pedaços de cacos afiados e entulho, e
ainda é pior onde a terra é mais fofa, porque ali é que ficam os vermes. Não sei
se são estes os vermes que depois procuram o que para eles é a nutrição, melhor
nem pensar nisso, nem sei mesmo como podem eles entrar no caixão de madeira
tão grossa e dura.
A não ser que, depois de muitos anos, o caixão apodreça e eles possam
entrar, mas então me pergunto por que não fazem os caixões de ferro ou aço.
Mas pensando melhor lembro-me agora de que nós é que levamos os vermes
dentro de nós, pelo menos foi o que li não sei onde, e que os estudantes de
medicina quando praticam no necrotério deparam-se com os vermes ao cortar os
cadáveres. Não sei se li isso ou se ouvi de alguém. Mas é muito melhor que Juan
Carlos esteja num nicho, embora não se possa colocar nele muitas flores de uma
vez, o que é melhor do que estar repousando num bonito mausoléu que não seja
de sua família, pois assim parece que ali ele está de favor. Agora me lembro,
Dona Leonor, que quem me contou aquela história tão feia dos vermes que
levamos conosco foi o próprio Juan Carlos, e era por isso que ele queria que o
cremassem, para que os vermes não o comessem. Perdoe-me se isso lhe causa
impressão, porém com quem posso falar de tais lembranças a não ser a senhora?
Sinceramente, não posso lhe dizer, como me pede, como começavam as
cartas de Juan Carlos. É estranho que não estejam mais atadas com a fitinha
azul-celeste. São muitas as cartas que a senhora encontrou? Também isso é
estranho, pois Juan Carlos me dizia que era a primeira vez que trocava cartas
com uma moça, é claro que depois os anos se passaram e de nada serviu tanta
troca de cartas, já que acabamos rompendo, e até entrou na minha cabeça a
suposição de que Juan Carlos devia haver jurado nunca mais trocar cartas com
uma moça. Um palpite meu, nada mais.
As cartas a mim dirigidas estavam todas escritas em papel do bloco que eu
mesma comprei e que lhe dei de presente, junto com uma caneta-tinteiro, quando
ele foi para as montanhas, e lembro que no mesmo dia comprei outro bloco para
mim. É uma espécie de papel branco com ruguinhas, parecendo seda crua. O
cabeçalho das cartas varia algumas vezes, e ele nunca escrevia meu nome, pois
dizia que podia me comprometer e que no caso de minha mãe ler as cartas eu
podia dizer que elas se destinavam a outra moça. Mas o que importa é que
tragam a data de julho a setembro de 1937 e se por acaso a senhora passar os
olhos nelas não vá pensar que tudo que ali está escrito é verdade, eram coisas de
Juan Carlos, que gostava de me meter raiva.
Rogo-lhe que faça o possível para encontrá-las e agradeceria muito se me as
mandasse.
Beijos e carinhos de
Nené

Antes de subscrever o envelope, põe-se de pé, bruscamente, deixa o tinteiro


aberto e a caneta sobre o mata-borrão, que absorve uma mancha redonda. A
carta dobrada está no fundo do bolsinho do avental. Fecha atrás de si a porta
do quarto de dormir, tira uma penugem que aderiu a uma imagem da Virgem de
Lujan, esculpida em sal gema, que adorna a cômoda, e joga-se de bruços na
cama. Com uma mão aperta as franjas da colcha, enquanto a outra mão
permanece imóvel, com a palma aberta, perto da boneca vestida de odalisca que
ocupa o centro do travesseiro. Exala um suspiro. Acaricia as franjas durante
alguns minutos. Repentinamente, ouve-se vozes infantis subirem pelas escadas
do edifício de apartamentos. Solta as franjas e apalpa a carta que tem no
bolsinho, para certificar-se de que ela não está ao alcance de ninguém.

Buenos Aires, 30 de junho de 1917


Querida Dona Leonor:
Acabo de ter a alegria de receber a sua carta antes do que imaginava, mas
depois que desgosto ao lê-la e saber que a senhora não recebeu a minha anterior.
Escrevi-lhe há mais de uma semana, que aconteceu? Tenho medo de que alguém
a tenha apanhado na caixa postal, como faz a senhora para que Celina nunca vá
apanhar as cartas? Ou ela não sabe que a senhora tem caixa postal? Se Celina
apanha uma dessas cartas o mínimo que ela faz é queimar.
Olha, senhora, se tiver muito trabalho em saber quais são as cartas que deve
me mandar, pode me mandar todas, que devolvo depois as que não me
pertencem. Eu o quis muito, senhora, perdoe-me todo o mal que fiz, foi tudo por
amor.
Rogo-lhe que me responda logo, um forte abraço de
Nené

Levanta-se, muda de roupa, verifica o dinheiro na bolsa, vai para a rua e


caminha seis quarteirões até chegar ao correio.
Buenos Aires, 14 de julho de 1947
Querida Dona Leonor:
Faz mais de dez dias que lhe escrevi e até agora não tive resposta. Nem sei se
devo contar as coisas que me passam pela cabeça. Quem sabe onde estará essa
carta que a senhora não recebeu, e logo depois mandei outra, será que recebeu?
Ou talvez a senhora tenha mudado de ideia e já não me considera mais, será que
alguém lhe contou alguma coisa má a meu respeito? Que lhe disseram? Se a
senhora soubesse o estado em que me encontro, não tenho vontade de fazer
nada. Nem com meu marido nem com meus filhos posso falar desse assunto, de
maneira que hoje, mal acabei de dar o almoço aos meninos, fui logo me deitar,
pois assim não preciso andar dissimulando.
Estou com a fisionomia muito abatida. Aos meninos digo que estou com dor
de cabeça, pois só assim eles me deixam um instante tranquila. Pela manhã vou à
feira, para as compras, e cozinho, enquanto a empregada faz a limpeza da casa,
os meninos chegam da escola e almoçamos. Meu marido não vem ao meio-dia.
A manhã passa para mim mais ou menos distraída mas à tarde como é triste,
Dona Leonor. Felizmente a empregada só vai embora depois de lavar os pratos,
mas ontem e hoje ela faltou, e ontem fiz um esforço e lavei eu mesma os pratos e
depois fui me deitar, mas hoje não, fui diretamente para a cama sem mesmo tirar
a mesa, já não aguentava a vontade de ficar um instante sozinha. Esse é o meu
único alívio, e escureço bem o quarto. Então posso fazer de conta que estou ao
seu lado e que vamos ambas visitar o túmulo do pobrezinho do Juan Carlos e
que juntas choramos até desafogarmos nossas mágoas. Agora são quatro da
tarde, com um sol que parece de primavera e, em vez de sair um pouco, fechei-
me aqui para não ver ninguém. Os pratos sujos se amontoam na pia da cozinha,
mais tarde cuidarei deles. Sabe de uma coisa? Hoje uma vizinha veio me
devolver o ferro de engomar que lhe emprestei ontem e quase lhe volto o rosto,
sem nenhuma razão. Estou tremendo de medo de que o meu marido chegue cedo
do escritório, tomara que se atrase, pois assim posso despachar esta carta. Mas
quanto à senhora, bem que eu gostaria de vê-la e lhe falar de tudo o que tenho
vontade de saber a respeito de todos estes anos que não vi Juan Carlos. Juro,
Dona Leonor, que quando me casei com Massa já não me lembrava mais de Juan
Carlos, continuava estimando-o como um amigo e nada mais. Mas agora não sei
o que se passa comigo, penso se Celina não tivesse falado mal de mim, tão bom
seria que Juan Carlos a estas horas estivesse vivo e casado com alguma boa
moça ou então comigo.
Mando-lhe junto um recorte da revista Nossos Vizinhos, a respeito da festa da
primavera, creio que em 1936, pois eu tinha acabado de completar os vinte anos.
Foi assim que tudo começou. Se não for incômodo, gostaria que me devolvesse
o recorte, que é uma lembrança.

Brilhante Comemoração do Dia da Primavera


Continuando uma prática ditada pela tradição, o Clube Desportivo
Social festejou a entrada da primavera com uma brilhante reunião dançante,
que teve lugar no sábado, dia 22 de setembro, com a participação da
orquestra “Os Harmônicos”, desta localidade. À meia-noite, no intervalo da
festa, foi eleita Rainha da Primavera 1936 a encantadora Nélida Fernández,
cuja esbelta silhueta engalana estas colunas. Na foto, aparece ao lado da
flamante soberana, sua antecessora, a atraente Maria Inés Linuzzi, Rainha
da Primavera 1935. Em prosseguimento, a Comissão de Festas do Clube
apresentou um espetáculo sob o título de “Três épocas da valsa”, dirigido
pela prendada Senhora Laura P. de Banos, que também recitou bonitas
glosas. Encerrou esta cavalgada musical uma valsa vienense de fins do
século passado, executada com notável ímpeto pela Srta. Nélida Fernández
e pelo Sr. Juan Carlos Etchepare, os quais demonstraram, de maneira
bastante convincente, de como “a força do amor supera todos os
obstáculos”, como, num dos versos, declamou a Sra. de Banos.
Particularmente aplaudidos foram os trajes, sem dúvida alguma vistosos,
das Senhoritas Rodríguez, Sáenz e Fernández, muito bem complementados
pela postura dos seus acompanhantes, em seus impecáveis fraques. É de se
ressaltar, por utra parte, a difícil tarefa que significou aprofundar-se nos
episódios histórico-musicais para em seguida, e apenas depois de alguns
poucos e apressados ensaios, realizados em horas roubadas ao sono e ao
descanso, expressá-los com a desenvoltura que foi tão aplaudida. Cabe,
aqui, a reflexão filosófica: quantos, quantos são aqueles que percorrem este
histriônico mundo, chegando diariamente ao final da etapa sem lograrem
saber que papel desempenharam no cenário da vida! Embora o par a que
nos referimos tenha recebido os maiores aplausos, esta redação felicita
igualmente todos os demais participantes da festa. Foi uma simpática e por
vários motivos inolvidável reunião, que teve a virtude de congregar um
numeroso grupo de pessoas, dançando-se animadamente até altas horas da
madrugada do dia 23.
Bem, Dona Leonor, mas agora vejo que não disse o motivo principal desta
carta, que é o de lhe pedir que me escreva o mais depressa possível, pois morro
de medo que meu marido perceba alguma coisa se continuo assim, tão
desorientada.
Abraça-a, a sua
Nené
P.S. — Não vai me escrever mais?

Dobra a carta e o recorte em três partes e os coloca no envelope. Tira-os


depois, num movimento brusco, abre a carta e a relê. Apanha o recorte e beija-o
várias vezes. Volta a dobrar a carta e o recorte, coloca-os no envelope, o qual
fecha e aperta contra o peito. Abre uma gaveta do armário da cozinha e esconde
o envelope entre os guardanapos. Leva a mão à cabeça e mergulha os dedos nos
cabelos e arranha o couro cabeludo com as unhas pintadas de vermelho escuro.
Acende o aquecedor a gás para lavar os pratos com água quente.
fascículo
2

Charlemos, la tarde es triste…

LUIS RUBINSTEIN

Buenos Aires, 23 de julho de 1947


Dona Leonor querida:
Há quanto tempo que a senhora não dá notícias! Quase quatro semanas que
não recebo carta sua, espero que não tenha acontecido nada de mal. Não, na
verdade acredito que a sorte para nós duas vai mudar, não é verdade? Se
acontecer algo mal comigo, não sei como irei aguentar. Por que não me escreve?
Hoje, sábado, à tarde, consegui que meu marido levasse os meninos para a
partida de futebol que se realiza aqui bem perto, no campo do River, e graças a
Deus fiquei sozinha algum tempo, porque se meu marido voltasse a me
recriminar, nem sei mesmo o que lhe iria responder. Diz ele que ando aborrecida.
Que faz a senhora? Era costume, quando eu morava em Coronel Vallejos,
receber sempre aos sábados, em minha casa, amigas que vinham tomar mate
comigo. E pensar que se eu fosse passear aí, nem ao menos poderia ir à sua casa
tomar mate por causa de Celina. Penso como começaram todas as confusões …
apenas bobagens. Tudo começou na época em que fui trabalhar como
empacotadora no “Ao Barato Argentino”. E como era amiga de escola primária
de Celina e Mabel, que já haviam se formado professoras, e como Mabel era
uma moça rica, comecei a frequentar o Clube Social.
Admito, Dona Leonor, que nisso fiz mal, e tudo começou por não ter ouvido
mamãe. Nem que ela fosse uma feiticeira: não queria de forma alguma que eu
frequentasse os bailes do Social. Quais as moças que iam ao Social? Moças que
podiam ir bem vestidas, ou porque os pais tinham boa posição, ou porque eram
professoras, mas como a senhora recordará as moças que trabalhavam nas lojas
frequentavam era o Clube Recreativo. Dizia mamãe que me intrometendo onde
não era meu lugar, só ia colher aborrecimentos, nada mais. Dito e feito. Nesse
mesmo ano, prepararam para a Festa da Primavera aqueles números e eu fui
eleita, e Celina não. Sabia-se que Mabel seria eleita, porque o pai dela fazia e
desfazia no Clube. A terceira colocada também não era sócia, e isso foi outra
confusão à parte, não importa, mas no primeiro ensaio os três pares já estavam
escolhidos pela Senhora Pagliolo, que tocava o piano, e a Senhora de Banos, que
nos ensinava os passos da dança com a ajuda do manual especial, com as
ilustrações todas anotadas. A Senhora de Banos nos mandava daqui para lá, e
quis que primeiro a Senhora Pagliolo tocasse as três valsas seguidas, para que as
ouvíssemos, e foi aí quando apareceu Celina e começou a me falar ao ouvido em
vez de me deixar prestar atenção à música. Disse-me que não queria ser mais
minha amiga porque só me haviam recebido no Clube graças a ela e agora eu
não me unia aos protestos contra o fato de ela não ter sido escolhida, e disse
mais que a haviam sabotado na festa. Antes ela já me havia pedido para que eu
não aceitasse o título, em solidariedade, mas o fato é que à Mabel não pediu a
mesma coisa, de forma que isso me deu raiva — por que ela não se animou a
pedir o mesmo a Mabel? Porque Mabel tinha dinheiro e eu não? Ou porque
Mabel era professora e eu só tinha ido até o sexto ano? O fato é que não sei por
que Celina exigia tal sacrifício de mim e não da outra.
Eu já dissera oitenta vezes a Celina que não a haviam sabotado, apenas ela
era baixinha e os vestidos alugados em Buenos Aires eram todos destinados a
pessoas de estatura mediana. A Senhora de Banos estava furiosa, botando
faíscas, porque nos via conversar em vez de prestar atenção à música, e a partir
daí começou a me olhar enviesada.
A minha raiva é uma só Celina quis de toda maneira que o irmão se
enrabichasse por Mabel, e a senhora sabe que de fato ele andou algum tempo
interessado nela, mas depois se desentenderam. Isto foi antes dele ficar noivo de
mim. Mas parece que Celina nunca perdeu as esperanças de aparentar-se um dia
com a família de Mabel.
Nos dias da semana eu saía da loja às sete da tarde e não me encontrava com
Celina e Mabel, mas aos sábados as duas vinham à minha casa, na hora da sesta,
tomar mate, e então mamãe penteava Mabel para a noite, pois ela era uma moça
que não sabia e não gostava de pentear-se sozinha. O primeiro ensaio para a festa
foi numa segunda-feira, lembro-me perfeitamente, e não cruzei na rua com
Celina durante toda a semana que se seguiu, o que era uma coisa rara, e quando
foi no sábado somente Mabel apareceu lá em minha casa. Se Mabel não tivesse
vindo, eu certamente abandonaria os ensaios. E oxalá não tivesse aparecido, mas
já estava escrito no livro do Destino que devia ser assim. Sei que é terrível
pensar que naquela tarde, quando Mabel feriu as mãos na porta e eu fui a
chamada, tudo já estava escrito. Creio que nesse momento larguei o que tinha na
mão, de tão contente. E agora estou muito mudada, hoje nem me penteei durante
todo o dia, cheia de vontade de morrer.
Mas para pôr um ponto final no assunto Celina devo ser sincera com a
senhora: o que ela me disse ao ouvido foi que, se não fosse por ela, eu jamais
teria pisado no Social, e que todos sabiam o que havia acontecido entre mim e o
Doutor Aschero. Antes de eu me empregar no “Ao Barato Argentino”,
trabalhava com o Doutor Aschero, preparando as injeções para os doentes, de
maneira que as pessoas, quando deixei de repente o consultório, começaram a
sussurrar que havia acontecido algo sujo entre mim e o doutor, ele um homem
casado e com três filhos. Bem, senhora, o melhor é ficar hoje por aqui, porque se
meu esposo chega certamente vai querer ler a carta, já imaginou? Continuarei na
segunda-feira, quando ele estiver ausente.

Segunda-feira, 25
Minha querida amiga:
Estou sozinha no mundo, sozinha. Se eu desaparecer de uma hora para outra,
os meninos serão criados pela minha sogra, ou por qualquer outra pessoa, melhor
do que eu. Ontem me fechei no quarto e meu marido forçou a porta, acreditei
que ia me matar, porém não me fez nada, aproximou-se da cama e deu meia
volta, porque eu tinha a cabeça escondida sob o travesseiro, e até, como uma
louca, lhe cuspi na cara. Me disse que eu lhe pagaria, mas não ousou me tocar.
Acreditei que ia me quebrar a cabeça.
Para cúmulo, hoje de manhã comecei a me lembrar de Aschero, e me
aborreci à toa, como se os anos não tivessem passado. Não gostei dele como
gostei de Juan Carlos, realmente o único a quem quis foi Juan Carlos. Aschero
não foi mais que um aproveitador. A questão é que agora nunca mais vou ver a
meu Juan Carlos, que pelo menos ele não seja cremado! Entre Aschero e Celina,
fizeram com que eu o perdesse, fizeram com que ele morresse, e agora tenho de
aguentar o chato do Massa para toda a vida. Celina é que foi culpada de tudo,
sua filha, que é uma víbora, tenha cuidado com ela. E já que estou em maré de
confidências vou lhe contar como foi que me deixei marcar para toda a vida: eu
tinha 19 anos e me puseram como aprendiz de enfermeira no consultório de
Aschero. Um dia, quando não havia ninguém no consultório, e eu tinha tosse, ele
começou a me auscultar. Em seguida, começou a me acariciar e eu acabei
fugindo morta de vergonha para o banheiro, vesti novamente a blusa e lhe disse
que a culpa era minha, que me desculpasse por ter pretendido economizar não
procurando outro médico. Veja só que estupidez. Tudo ficou só nisso, mas eu
sonhava com essa coisa a noite inteira, cheia de medo que ele me agarrasse
novamente.
Certo dia tivemos que ir de carro fazer uma transfusão, numa chácara, caso
de urgência. Era uma mulher que estava com hemorragia depois do parto, e foi
salva graças aos nossos esforços. Quando nos despedimos, convidaram-nos para
tomar um copo de vinho, todos estavam contentes e eu bebi. Na metade da
viagem, Aschero me disse para encostar a cabeça na janelinha do carro e que
fechasse os olhos, para descansar durante a meia hora que ia durar a viagem.
Obedeci e quando fechei os olhos ele me deu um beijo, muito de leve. Eu não
disse nada e ele parou o carro. E pensar que estou agora gastando tinta para falar
dessa porcaria, e como me saiu caro o fato de por um momento ter ficado
maluca!
Em seguida começamos a nos encontrar em qualquer parte que podíamos, e
até mesmo no consultório, parede e meia com o aposento onde estava a sua
mulher, e depois ela acabou descobrindo tudo e eu tive que ir ser empacotadora
na loja. Nunca mais ele me procurou.
E tudo isso para quê? Veja, vou morrer assim, nesta vida que estou levando,
apenas trabalhar em casa e brigar com os meninos. Pela manhã, todas as santas
manhãs, começa a luta para tirá-los da cama, o mais crescido é o pior de todos,
tem oito anos e está no segundo, e felizmente para mim este ano o menor irá
para o Jardim da Infância; e depois ter que lhes dar o leite, vesti-los e levá-los ao
colégio, tudo à força de sopapos, como cansam os filhos varões, quando não é
um que começa é o outro. De volta, faço as compras, tudo na feira livre porque é
muito mais barato, embora muito mais cansativo, porque tenho de ir de barraca
em barraca e às vezes entrar na fila. Entrementes a mocinha que empreguei faz a
limpeza e me lava a roupa também, mas quem cozinha sou eu e quando tenho
tempo até passo a ferro, pela manhã, e à tarde não consigo que os guris façam a
sesta, Ah, Dona Leonor! que belo quando eles, os filhos, são bebezinhos, como
são diferentes, me dava até vontade de comê-los, que divinos são os bebês, vejo
um bebê na rua ou numa foto e fico como louca, mas quando crescem se tornam
verdadeiros selvagens. Os meus gritam toda a tarde, pois às doze e meia já estão
novamente em casa, é a empregada quem vai buscá-los na escola, distante da
nossa casa algumas quadras, com umas ruas difíceis para atravessar.
Como era diferente em Vallejos! À tarde aparecia sempre uma amiga,
conversávamos, ouvíamos a novela no rádio, bem mas isso quando eu não estava
trabalhando na loja.
Mas aqui, que lucrei em ter vindo pra Buenos Aires? Não conheço ninguém,
os vizinhos são uns italianos recém-chegados, brutos como não sei o quê, e uma
loura que deve ser manteúda, meu marido tem certeza disso. Não sei com quem
poderia falar, acho que com ninguém, e à tarde procuro coser um pouco,
enquanto acompanho os deveres desses animais. A senhora sabe o que são
crianças trancadas num apartamento? Brincam de corrida de automóveis
correndo por entre os móveis. Felizmente que ainda não tenho móveis de boa
qualidade, e por isso é que não quero chamar a gente de Vallejos para que me
visitem, depois saem criticando que não tenho a casa devidamente mobiliada,
com luxo, como já aconteceu certa vez, não digo quem foi, que se dane…
Agora veja: são seis da tarde e já estou com a mesma dor de cabeça que me
ataca todos os dias, e quando chega meu marido a coisa ainda piora, pois ele
quer logo jantar quando o jantar não está pronto, e quando está pronto diz que
primeiro vai tomar banho. Não é má pessoa, mas mal pisa na casa começo a me
descontrolar, tenho raiva quando ele chega, mas que culpa tem ele de vir, se a
casa é sua? A senhora perguntará por que me casei, e lhe digo que quando
recém-casada a paciência nunca me faltou. Não aguento mais esta vida, todos os
dias a mesma coisa.
Hoje pela manhã fui novamente ao Zoológico, não fica muito longe, apenas
dez minutos de ônibus, porque um dia desses um menino disse às crianças que
havia um filhote de leão recém-nascido, e então fomos ver domingo, que
bonitinho! logo que tiver dinheiro vou comprar um cachorrinho ou então um
gatinho de raça, talvez no princípio do próximo mês. Que gracinha o leãozinho,
como se encolhia junto à velha leoa, e como os dois trocavam mimos. Esta
manhã não resisti e fui sozinha vê-lo de novo, não havia ninguém. O leãozinho
se estira no solo, as patas para cima, se rebola e depois se esconde debaixo da
mãe. Como uma criança de meses. Eu teria que sair todos os dias, disse isso não
sei a quem, pois não suporto mais a casa e os meninos, ah sim, agora me
recordo, foi a uma barraqueira da feira que eu disse isso, uma que vende frutas,
já velhinha, foi quando um dia ela me disse que eu estava muito nervosa, que
não queria esperar que me atendessem, e eu lhe disse que podia eu fazer e ela me
respondeu que com o passar dos anos as pessoas se acalmam. Quer dizer que
enquanto for jovem terei que aguentar? e depois de velha, quando tudo estiver
perdido? Então, adeus… Olhe, Dona Leonor, juro que acabo mandando para o
diabo este tipo, se ele descuidar-se… A senhora acredita que ainda encontrarei
um rapaz que possa me proporcionar uma outra vida?
Gostaria muito de encontrar um rapaz como havia antes, agora todos têm a
mesma cara de peru. Aliás não é bem assim, pois outro dia vi uns rapazes tão
bonitos, foi de repente, havia muito tempo que eu não via um rapaz realmente
bonito, e então fui visitar um clube para inscrever meus filhos, e lá havia alguns
deles parecidos com os do Clube Social. Claro que eram todos de menos de 25
anos, e eu já estou chegando aos 30. Mas são uns desgraçados esses diretores do
tal Clube, pois exigem, para que possamos ser sócios, que sejamos apresentados
por outro sócio, e não conhecemos quase ninguém em Buenos Aires. Reclamei
disso ao meu marido e ele nem me respondeu, como querendo dizer você que se
arranje, ah, Dona Leonor pensar que dentro de poucos minutos terei que ver
novamente a sua cara. Se ele não existisse, será que alguém se interessaria por
mim? Porém eu não tenho mais objetivos, e quando chegar o dilúvio universal
ou o juízo final, quero ir encontrar Juan Carlos, que consolo é para nós, Dona
Leonor, a ressurreição da alma e do corpo, é por isso que fiquei desesperada ao
saber que ele poderia ser cremado… Como era bonito Juan Carlos, que filho teve
a senhora, ao contrário dessa sua filha tão cachorra, se eu estivesse perto dela
seria capaz de estrangulá-la. O que ela fez contra mim foi apenas por inveja, eu
sabia o que havia se passado com ela, até que ainda aos dezesseis anos já se
deixava bolinar por um dos Álvares, depois passou de mão em mão e quando
tinha vinte anos ninguém tirava ela para dançar, nos bailes, por ser uma chata,
até que entrou para a turma dos caixeiros-viajantes, e aí então, nunca mais ficou
sem alguém que a acompanhasse à casa depois do baile.
Mas ficou com raiva que eu me tivesse prendido ao irmão, e foi por isso que
disse à senhora que o Aschero havia me usado. O fato, porém, é que, no meu
caso, foi um só, e assim mesmo porque eu era uma menina, ao contrário dela, de
quem sujaram o nome até que se cansaram. E ficou solteira, e essa é a sua raiva
maior, por ter ficado solteira! Não sabe a idiota que ser casada é ainda pior, e
casada com um tipo que não se pode tirar de cima da gente até que se morre.
Quisera eu estar solteira, ela não sabe que no fim foi ela quem ganhou, pois é
dona de si mesma, vai para onde quer, enquanto eu estou condenada à prisão
perpétua!

Joga com força a caneta contra a pia de lavar pratos, pega as folhas
escritas e rasga-as em pedaços. Um menino pega a caneta no chão, examina-a e
diz à mãe que está quebrada.

Buenos Aires, 12 de agosto de 1947


Querida Dona Leonor:
Espero que estas linhas a encontre com saúde, na companhia dos seus.
Depois de muito hesitar, volto a escrever-lhe, mas antes de mais nada devo lhe
fazer uma declaração: tenho, graças a Deus, uma família que muitos gostariam
de ter, meu marido é uma pessoa impecável, muito considerado na sua profissão,
não me deixa faltar nada, e meus dois filhos estão crescendo maravilhosamente,
embora como mãe eu não devesse estar fazendo tais elogios, mas já que estou
em maré de sinceridade tenho de dizer as coisas como elas realmente são.
Assim, pois, não tenho do que me queixar, mas é possível que, pelas minhas
cartas, a senhora talvez haja feito uma ideia errada a meu respeito, devido ao fato
de eu ter confessado minha fraqueza. Pensei no muito que uma mãe sofrerá em
sua situação e por isso pensei que a consolaria saber que eu a acompanhava na
sua dor. Acompanhei-a, sem dúvida, mas agora que a senhora não quer mais
isso, visto que não me escreveu mais, deixe que lhe diga uma verdade: a mim
ninguém trata como um trapo de cozinha.
Não compreendo a razão do seu silêncio, mas suspeito que alguém lhe
envenenou os ouvidos com mentiras, quero que saiba toda a verdade pela minha
própria boca, depois poderá julgar-me. A única coisa que peço é que, se está
decidida a não me escrever mais, pelo menos me faça o favor de devolver esta
carta, aberta, é claro, como prova de que a leu. Ou será pedir muito?
Bem, eu não devia estar falando assim como se a senhora tivesse a culpa, a
culpada é quem a encheu de histórias. E já que não querem mostrar a verdade à
senhora, mostro-a eu. Esta é a minha vida…
Meu pai não teve meios para me fazer estudar, custava muito dinheiro
mandar-me a Lincoln para me formar como professora, ele não passava de um
jardineiro, e com muita honra. Mamãe lavava e passava para fora e tudo o que
ganhava ia para a caderneta de economias, juntando um dinheirinho para que
quando eu me casasse, pudesse ter uma casa com todo o necessário. Tenho-a
agora, mas, pobre mamãe, não graças aos seus sacrifícios, porque o que ela
juntou gastou tudo em médico e remédios quando da doença do meu falecido
pai. Quanto a Celina, esta estudou.
De forma que era mais do que eu.
Bem, fazia pouco tempo que eu começara a falar com Juan Carlos, na época
em que ele teve um resfriado que parecia não sarar nunca. Agora quero que a
Celina saiba disto: quando eu me encontrava no portão com Juan Carlos, à noite,
ele, mal me deixava, ia correndo encontrar-se com a viúva Di Carlo. Era o que
todos me diziam, que Juan Carlos entrava pela grade da passagem de nível, à
direita da casa dessa tal viúva sem-vergonha. Era ela quem chupava seu sangue e
não eu. Até que um dia deixou de ir, porque eu disse que não o queria ver mais
se ele continuasse com tais relações, é claro que eu fazia isso por ciúmes de
noiva egoísta, pois não poderia saber que as radiografias iriam revelar aquelas
manchas nos pulmões. Tome nota, portanto: se Juan Carlos, depois de ter ficado
meu noivo, ia procurar a viúva era porque comigo se portava como um
cavalheiro.
Foi aí que veio a viagem a Córdoba. Em três meses parecia curado. E digo
mais: por mais que a mulher de Aschero lhe tenha gritado, diante da empregada,
que ele a enganava comigo, isso não prova nada. Mas parece que a senhora
acreditou nessas histórias e opôs-se a que Juan Carlos se casasse comigo. Mas
onde estão as provas da minha culpa? A senhora nunca as teve.
Mas Juan Carlos continuava com a viúva? Não. Digo-lhe, para sua
informação: até hoje tenho uma espinha na garganta porque um pouco antes de
nos separarmos para sempre, peguei Juan Carlos numa mentira… Ele tinha um
lencinho de mulher, perfumado, escondido bem no fundo do bolsinho do paletó,
não consegui ler a inicial que estava bordada nele, com muitos enfeites, mas
estou segura de que não era “E”, e a viúva Di Carlo se chamava Elsa. Ele me
disse que o lenço pertencia a uma moça que conheceu em Córdoba, que ele era
homem e tinha de viver, mas quando lhe pedi para ficar com o lenço… ele me
arrancou da mão. Isso quer dizer que o lenço pertencia a alguém de Vallejos não
acha? Eu perdi a cabeça e lhe disse que ia degolar essa porcaria de viúva, e então
ele ficou sério e me assegurou de que a viúva não “dava mais no couro”, assim
mesmo, com essas palavras ferinas que os homens costumam usar quando se
referem a uma mulher, ainda que estivesse se referindo a Elsa Di Carlo. E fiquei
para sempre com a espinha na garganta.
Depois começaram os desentendimentos e nos afastamos, mas é uma lástima
que a senhora não me tenha escrito mais, porque acredito que nós duas juntas
talvez pudéssemos arrancar a máscara da verdadeira assassina de Juan Carlos. E
contra esta é que teria de se voltar sua filha Celina, e não contra mim. Já que
Celina é solteira e tem o tempo livre, sem casa própria nem marido nem filhos
para cuidar, bem que poderia fazer alguma coisa de útil e ajudar para o triunfo da
verdade.
Voltando ao assunto das cartas de Juan Carlos, peço que consulte com
serenidade sua consciência e veja se elas me pertencem ou não. Saúda-a
atenciosamente,
Nélida

P.S. — Se eu não tiver resposta da senhora, esta é a última carta que lhe
escrevo.

Defronte a ela, na mesa, um menino enche prolixamente a lápis, quatro


linhas do seu caderno com a palavra miau e quatro linhas com a palavra grau.
Entre os pés da mesa e das cadeiras um outro menino entretém-se com um
pequeno brinquedo, em forma de carro de corrida.
fascículo
3

Deliciosas criaturas perfumadas,


quiero el beso de sus boquitas pintadas.

ALFREDO LE PERA

Álbum de fotografias
As capas estão forradas com couro de vaca nas cores preta e branca. As
páginas são de papel pergaminho. A primeira página traz uma inscrição feita a
tinta: Juan Carlos Etchepare, 1934; a segunda, está em branco e a terceira está
ocupada por letras rústicas impressas entrelaçadas com lanças, boleadeiras,
esporas e cinturões gaúchos, formando as palavras MINHA PÁTRIA e EU. Em
continuação, as páginas da direita estão encabeçadas por uma inscrição impressa,
mas as da esquerda não. Inscrições: “Aqui nasci, pampa lindo…”, “Meus
venerandos avós”, “Cresce a erva má”, “À escola, como Sarmiento”, “Cristãos
sim, bárbaros não”, “Minhas primeiras calças compridas”, “Namorando as
garotas”, “Não há primeira sem segunda”, “Servindo à minha bandeira”,
“Compromisso entre o gaúcho e sua pequena”, “Os doces do casório” e “Meus
cachorros”.
Estas últimas três inscrições estão cobertas deliberadamente por fotografias
em tamanho grande que ocupam por completo as páginas e, seguindo esse
critério, as demais páginas da direita são todas dedicadas a fotografias de
tamanho maior, enquanto que as da esquerda estão ocupadas por grupos de
fotografias de menor tamanho. Primeiro grupo da esquerda: um velho e uma
velha sentados, busto de uma velha, busto de um velho, rua de uma aldeia das
províncias bascas, criança de meses, família numa charrete puxada por um
cavalo branco.
Primeira fotografia grande da direita: menino de meses, nu, louro. Segundo
grupo da esquerda: um homem e uma mulher, ele vestido num terno de colete e
sobrecasaca e ela com roupa escura, comprida até os pés, o mesmo casal com
dois meninos nos braços, três poses da mulher do vestido longo com dois velhos
e dois meninos. Segunda fotografia grande da direita: entre uma laranjeira e uma
palmeira, uma cisterna com uma grade do tipo comum, sentado na cisterna um
menino de três anos, descalço e vestido apenas com uma calça branca, bebe leite
numa mamadeira, agitando as pernas; a seu lado, uma mulher vestida de branco
segura nos braços uma menina de meses, nua, que brinca com as numerosas
voltas do colar da mulher. Terceiro grupo da esquerda: diferentes poses da
família junto ao mar, com roupas de cidade e sombrinha japonesa. Terceira
fotografia grande da direita: um jardim de pequenos canteiros redondos,
margeados por uma pequena cerca de arame contra a qual se apoiam nardos e
jacintos floridos, com uma palmeira que cresce no centro de cada canteiro, todos
eles semiencobertos pela figura de um menino com paletó de abas arredondadas,
gravata de laço boêmio, calça que chega aos joelhos e polainas claras; e, mais, a
figura de uma menina com cachinhos e grande laço branco transparente na
cabeça, vestido branco de saia curta inflada pela anágua. Os grupos que se
seguem, à esquerda, até terminar o álbum, pertencem a diferentes momentos das
décadas dos vinte e trinta, com a presença frequente de um jovem de cabelo
castanho-claro e comprido, que lhe cobre as orelhas, figura atlética e de
invariável sorriso. As restantes páginas da direita estão ocupadas como já foi
dito, por uma única fotografia grande, na seguinte ordem: um terreno baldio com
redes, trapézio, barras e argolas para atletismo, vendo-se ao fundo uma cerca de
arame e, atrás, algumas casas espalhadas na planura, árvore baixas e um
adolescente de cabelo castanho-claro apoiado numa barra olhando para a
câmara, camisa com o colarinho desabotoado, gravata e braçadeira de luto, calça
até abaixo do joelho, meias pretas e compridas até a coxa e alpercatas; a seu lado
outro adolescente de cabelo preto e encaracolado que sobra da boina basca,
roupa já velha e expressão de alegria selvagem ao sustentar-se no ar segurando a
argola com um só braço, as pernas em ângulo reto com o tronco; o rosto de um
jovem suboficial da Polícia, de cabelo negro ondulado e untado de brilhantina,
olhos negros, nariz reto de fortes narinas, bigode espesso e boca grande, com a
dedicatória “A Juan Carlos, mais que um amigo, um irmão, Pancho”; os dois
jovens já descritos, sorrindo sentados junto a uma mesa coberta de garrafas de
cerveja e quatro copos, em seus joelhos estão sentadas duas mulheres jovens,
com amplos decotes, carnes fatigadas rostos piorados pela pintura excessiva e,
ao fundo do balcão do bar-armazém repleto de garrafões, um barril de vinho,
prateleiras com latas de conservas, pacotes de gêneros, cigarros, garrafas; cena
campestre sob uma alfarrobeira, estendida na grama uma toalha com pratos de
bifes à milanesa, ovos cozidos, tortas e frutas, vendo-se ao fundo moças e
rapazes em atitude expansiva, sentados na grama junto à toalha uma moça de
cabelo preto, curto e ondulado que se adere ao rosto de um oval perfeito, grandes
olhos negros sombreados, expressão ausente, nariz pequeno, boca pequena,
busto comprimido pelo vestido de gaze floreado, e um rapaz de cabelo castanho-
claro, camisa aberta deixando ver os pelos do peito, ameaçando com um garfo,
como se fora uma adaga, o prato de bifes à milanesa; a mesma moça da
fotografia anterior, sentada em pose de estúdio fotográfico, mas com a mesma
expressão indiferente, o vestido formando drapeados em torno do busto, colar de
pérolas, cabelos estirados, mas com frisos permanentes nas pontas, a dedicatória
diz: “Com simpatia, Mabel, dezembro de 1935”; o rosto da mesma moça, o
mesmo penteado ao qual foi acrescentado uma fita atada e com um laço na testa,
a dedicatória é “Uma lembrança de Mabel, junho de 1936”; um grupo de três
casais posando com roupas de época, respectivamente Restauração, Terceiro
Império e Fim do Século, estando a jovem que encarna a última época mais
próxima da objetiva, cabelos louros penteados para cima e descobrindo a nuca,
olhos claros com expressão deslumbrada, própria de quem contempla ou
imagina algo muito formoso, nariz levemente aquilíneo, pescoço comprido,
figura esbelta; contra um fundo de montanhas e álamos, vestido com um poncho,
o pulôver metido nas largas calças brancas de cintura alta que vai até o
diafragma, o jovem de cabelo castanho-claro agora mais magro, mas com a pele
bronzeada pelo sol e seu sorriso característico, e a dedicatória: “Com o carinho
de sempre, à minha velha e à minha irmãzinha, Juan Carlos, Cosquín, 1937”;
brindando com sidra ao lado de um bolo de aniversário, uma jovem de baixa
estatura, apesar de grande topete do penteado, com decote quadrado e um broche
em cada ângulo do mesmo, uma mulher já de idade, sobriamente vestida, e o
jovem de cabelo castanho-claro, mais magro, com os olhos notavelmente
maiores e cavados no rosto, olha para seu copo com um sorriso apenas esboçado;
o jovem de cabelo castanho-claro numa charrete tendo como fundo montanhas e
cactus, não se distinguindo os detalhes devido ao fato de a foto ter sido batida
quase contra a luz.

Dormitório de moça, ano de 1937


Ao entrar vê-se à direita, uma cama de tamanho médio, com a cabeceira
encostada à parede e encimada por um crucifixo com a cruz de madeira e o
Cristo de bronze.
À esquerda da cama, uma pequena biblioteca de quatro estantes repletas de
livros de texto da escola normal e alguns romances. Os livros escolares forrados
com papel marrom e trazendo a etiqueta “Maria Mabel Sáenz — Colégio Nossa
Senhora do Pilar — Buenos Aires”. À direita da cama, a mesa de cabeceira com
um abajur de gaze branca com franjas verdes, igual à fazenda das cortinas das
janelas e à colcha que cobre a cama. Sob o vidro da mesa um cartão-postal da
praia A Pérola de Mar del Plata, cartão-postal da Ponte do Inca, em Mendoza, e a
fotografia de um jovem gordo com bem cuidadas roupas de campo, ao lado de
um cavalo e de um peão que segura as rédeas. Aos pés da cama, uma pele de
coelho com listras brancas, negras e marrons.
Na parede oposta à cama, uma janela, vendo-se num lado da mesma um
aparador com bonecas, todas de cabelo natural e olhos móveis, e do outro lado
uma cômoda com espelho.
Sobre a cômoda, um jogo de espelho de mão e escovas com cabos forrados
de veludo, colocadas em círculo em redor de um porta-retrato com a fotografia
de uma moça sentada, o vestido formando pregas em torno do busto, colar de
pérolas, cabelo corrido e partido ao meio, com frisos permanentes nas pontas.
Outros adornos das paredes: uma pia batismal de nácar, um conjunto de três
flâmulas estudantis, uma imagem de Santa Terezinha talhada em madeira e um
grupo de quatro fotografias com vidro e moldura de um churrasco campestre,
com a presença de um rapaz gordo com elegantes roupas de campo. No centro
do teto, um lustre e na parede oposta à porta de acesso inteiramente ocupada por
um guarda-roupa. Cama, abajur de cabeceira, cômoda, espelho lustre e guarda-
roupa são do estilo chamado provençal ou rústico, de madeira escura e metais
salientes; aparador e as estantes, ao contrário, são de madeira lisa, clara e
envernizada. No guarda-roupa estão dependurados vestidos, abrigos e dois
aventais brancos, pregueados e engomados. No lugar onde estão os cabides
amarraram um saquinho de seda cheio de cheirosas flores secas de alfazema. No
mesmo armário, alinham-se, num lado, gavetas com roupa interior, blusas,
lenços, meias, toalhas e lençóis. Escondido entre lençóis de linho bordado: um
forro para bolsa de água quente de lã floreado e bordas rendadas. Dentro do
forro, dois livros científicos intitulados Educação para o matrimônio e A
verdade sobre o amor. Entre os referidos livros, uma fotografia onde se vê, em
meio a outros jovens, um casal sentado junto a uma toalha de piquenique, ela
com o ar ausente e ele apontando com um garfo para um prato. Nas costas da
fotografia lê-se o seguinte trecho: “Meu amor: este foi o dia mais feliz da minha
vida. Nunca pensei que poderia fazer-te minha! O dia da primavera. Esconda
esta fotografia até que tudo esteja arranjado.
Escrevo-te estas indiscrições de propósito, pois assim não poderás mostrar a
ninguém, porque nessa pose estou parecendo um pouco “alegre”. Já sabes que
por aí já estão querendo me dar a fama de bêbado:
Neste momento te seguraria a mão e te levaria para o céu, ou pelo menos
para alguma parte longe daqui. Lembras-te dos chorões à margem da lagoazinha.
Nunca mais hei de esquecer.
Te quer mais e mais Juan Carlos, 21 de setembro de 1935”
Na mesma gaveta, sob o papel branco seguro com tachas, que forra o fundo,
estão escondidos dois números da revista Mundo Feminino, publicados em 30 de
abril e 22 de junho de 1936. Na seção “Correio do Coração” encontram-se
consultas de uma leitora que se assina “Espírito confuso”, bem como as
respectivas respostas de Maria Luisa Diaz Pardo, redatora da seção. O texto do
primeiro número é o seguinte:
“Querida amiga: há mais de um ano que compro esta revista e leio sempre a
sua seção, geralmente apaixonante. Mas jamais imaginei que um dia teria que
recorrer aos seus conselhos. Tenho dezoito anos, sou professora, recém-formada,
e meus pais gozam de uma posição desafogada. Ama-me um bom rapaz, mas de
futuro incerto. É, no entanto, muito jovem ainda e pode mudar, porém minha
família não o aceita. Trabalha como contador, mas tem tido discussões com seus
superiores por causa de suas faltas frequentes. Passou recentemente por uma fase
na qual foi acometido de um contínuo resfriado e frequentemente se sente muito
cansado. A versão circulante, na qual acredito, é que gosta demasiado de
divertir-se, que é muito mulherengo e que pelo menos uma vez por semana se
embriaga com os seus amigos.
Acompanha-me em passeios e bailes há já três meses, no princípio eu estava
certa de querê-lo com toda a alma, mas cada dia (ele vem até a porta da rua, de
tardezinha, depois do trabalho, e eu o espero ali, de forma que ele não precisa
entrar nem tocar a campainha, e andamos um pouco pelas ruas do bairro ou pela
praça, e quando faz muito frio ficamos refugiados no saguão, pois daí não passa
a nossa intimidade), quando ele vai embora e entro em casa, tenho que suportar
as recriminações de meus pais, recriminações que, qual gota de água, vão
furando a pedra. Sendo assim, é com alegria que espero a vinda dele todos os
dias, mas, mal entrevejo aproximar-se a sua figura viril, fico nervosa, pensando
que de repente mamãe pode aparecer, ou ainda pior, meu pai, e exigir do meu
namorado alguma explicação ou fazer-lhe alguma insinuação ferina, e é isso que
faz com que me encontre frequentemente irritável. Explico meu estado dizendo
que é o nervosismo natural de meu primeiro ano como professora nada menos
que do quinto ano. Mas o fato que me faz assim é a dúvida: gosto dele ou não
gosto? Ultimamente surgiu um novo elemento de discórdia: um jovem
fazendeiro de origem inglesa, de aparência menos vistosa do que a dele, mas de
trato agradável, que se valeu da amizade com papai para introduzir-se em nossa
casa e dirigir-me palavras galantes. E aqui está a alternativa… nos convidou ele,
a mim e uma acompanhante (escolherei para isso uma tia materna), para passar
em sua fazenda os quatro feriados que iremos ter a partir do dia 25 de maio
próximo, e meus pais insistem em que eu vá, mas contra isso ele se opõe
inteiramente. Decidi… ir, porque dessa maneira saberei se realmente o quero ou
não. Mas se ele cumpre a sua palavra e não me procura mais, como efetivamente
me ameaçou?
Amiga, aguardo seu valioso conselho, sua
Espírito confuso (Província de Buenos Aires)”

A resposta da redatora é a seguinte:


“Invejável Espírito Confuso: Não te invejo a confusão do espírito, mas o
muito que tens na vida. Acredito que não gostas tanto do teu namorado a ponto
de teres que enfrentar o rompimento com os teus pais. Teu caso é típico das
jovenzinhas criadas no seio de um lar feliz e próspero. Continuar com o teu
namorico (perdoe-me o termo) significaria romper essa harmonia familiar que já
sentes ameaçada. E, podes acreditar, não se paga tão alto preço por um simples
namorico. És muito jovem e podes esperar a chegada de um príncipe azul que
agrade ao paladar de todos. Que passes dias felizes na fazenda, que estudes
inglês e trata logo, não depois, de aprender a palavra yes, que significa… sim!
Usando pouco esse monossílabo conquistarás o mundo e, o que é ainda mais
importante, assegurar ás tua felicidade e a dos teus pais. Sempre às tuas ordens,
Maria Luisa Dia Pardo”

A consulta do número correspondente a 22 de junho de 1936 é a seguinte:


“Querida amiga: a vida me pregou uma peça. O que você me aconselhou estava
certo, mas surgiram complicações imprevistas. De fato, meu namorado
aborreceu-se por eu ter ido à fazenda, e o tal incidente serviu para que
cortássemos nossas relações. Confesso que a estada na fazenda não foi o que eu
esperava, pois passávamos longos momentos diante desse cavalheiro sem
dizermos uma palavra. No momento de nos despedir ele tentou arrancar de mim
uma promessa, mas eu lhe disse que não me parecia ser o caso, já que eu não lhe
inspirava nem gestos nem palavras. Respondeu-me que o caráter inglês era assim
mesmo, de pouco falar, que invejava os latinos faladores, mas que ele, mesmo
calado, sentia-se muito feliz ao meu lado. Quanto aos gestos, isso foi apenas uma
maneira de eu dizer, significando que não me trazia flores ou que não escolhia
discos ao meu gosto (sempre tocava os de sua predileção), mas ele compreendeu
mal, acreditou que eu o censurava pelo fato de não ter tomado liberdades
comigo. A respeito disso deixou claro que se nossas vidas tivessem de unir-se,
para isso haveria muito tempo. Que pouco romântico, não? Eu, sinceramente,
esperava um beijo apaixonado para saber finalmente se eu gostava dele ou não.
De qualquer maneira, nada lhe prometi, que quer dizer yes! Ignoro o significado
desta palavra! e, como você previu, isso surtiu efeito, pois escreveu a meus pais
convidando-nos todos para as férias de inverno, a partir do dia 9 de julho, por
duas semanas inteiras. É possível que aceitemos. Mas o que tenho a contar agora
é tão triste que me acabrunha e não sei como expressar-me.
Poucos dias depois de voltar do campo meu pai me chamou à parte, em seu
escritório, onde nos aguardava nosso médico de família. Pedindo-me absoluto
sigilo me disse que meu ex-namorado estava algo doente dos pulmões, segundo
revelavam exames recentes — parece que ele sofre de um princípio de certa
enfermidade altamente contagiosa!
Eu não dava crédito aos meus ouvidos e até pensei que se tratava de um
estratagema de papai. O médico disse-me que eu devia evitar a sua companhia e
que, valendo-se do desentendimento havido entre nós apenas duas semanas atrás,
eu devia me aproveitar disso para não vê-lo mais, até que ele ficasse curado. No
dia seguinte, encontrei-me casualmente, numa loja, com a mãe e a irmã do meu
ex-namorado e percebi que, embora se mostrassem muito carinhosas comigo,
estavam terrivelmente tristes. Fiquei convencida de que, desgraçadamente, tudo
era verdade. Além disso, no dia seguinte, sem me consultar, minha mãe me disse
que tínhamos hora marcada com o médico, às cinco da tarde, para eu tirar
algumas radiografias. O resultado já veio: estou sã.
Agora lhe pergunto: Que devo fazer para ajudar ao meu querido amigo?
Envergonho-me agora de tê-lo feito sofrer. É possível que um dia venhamos a
ficar juntos, porque acredito que o amo de verdade, ou será apenas compaixão?
Rogo-lhe, amiga conselheira, que me ajude a esclarecer os meus verdadeiros
sentimentos. Ansiosamente espera,
Espírito confuso (Província de Buenos Aires).”

A resposta da redatora é a seguinte: “Espírito confuso, porém generoso: estou


certa de que irás em frente. Sem dúvida, o que sentes agora por ele é compaixão,
somada à nostalgia de dias mais felizes.
Consultei um médico e ele me disse que poderás vê-lo como amiga, tomando
precauções. Procures não te aproximar muito, se acostumar apenas a
cumprimentá-lo quando encontrar com ele, mas, ao despedir-se, poderás apertar
a sua mão, pois em seguida terás possibilidade de lavar as mãos com sabão e, em
seguida, embebê-las em álcool.
Sim, poderás oferecer tua amizade, mas não de maneira repentina ou que
levante suspeitas, espera, ao contrário, uma ocasião propícia, pois os atingidos
por essa moléstia demonstram uma grande susceptibilidade. Não deixes que ele
perceba a tua compaixão. Dado o seu caráter isso é o que mais o feriria.
Quanto ao teu futuro, não esqueça que o inglês é um estranho, porém belo
idioma. Até sempre,
Maria Luisa Diaz Pardo.”

Neste mesmo número da revista Mundo Feminino faltam duas ilustrações,


recortadas a tesoura, e correspondentes às seguintes legendas: “Elegante
conjunto para coquetel, em seda moirée, com gorro tipo Julieta, segundo a nova
moda inspirada pela superprodução da Metro-Goldwyn-Mayer Romeu e Julieta,
do imortal W. Shakespeare. Foto M-G-M” e “A Nova sensação do cinema,
Deanna Durbin, apresenta às adolescentes este belíssimo conjunto para ciclismo,
em jérsei de fio branco, destacando-se as bordas em tom vivo, em ziguezague,
cor vermelha. Foto Universal Pictures.
Além da janela do aposento já descrito, vê-se um primeiro pátio, cheio de
parreiras que crescem e se enroscam numa armação de arame em forma de teto;
mais adiante, canteiros com roseiras e jasmineiros e, por último, uma grande
figueira que sobe além da altura da cerca que separa a casa de um terreno onde
está sendo construído o edifício de dois andares destinados à Delegacia de
Polícia. Um dos pedreiros da obra protege-se do sol com a boina basca, da qual
escapa o cabelo encaracolado, negro como o espesso bigode sobre a boca grande
e como os olhos que olham dos andaimes, por entre os ramos da figueira, na
direção do pátio de roseiras, jasmineiros, parreiras e janelas com cortinas de gaze
branca e franjas verdes.

AGENDA 1935
Março

Terça-feira, 14 Santa Matilde Rainha. Agenda velha e peluda: Hoje te


começo, e com uma viúva.
Quarta-feira, 15. São César, mártir. Pedi 15 pesos adiantados para presente
ao vizinho da viúva, presente para a viúva e gastos gerais.
Sábado, 18. São Gabriel Arcanjo. Carteado no “La Criolla”, Perico me
pegará com o carro.
Domingo, 19. São José. Dança no Clube, convidei Pepe e os irmãos Barros,
paguei duas rodadas. Da próxima vez eles pagarão.
Quarta-feira, 22. Santa Léa, freira. Encontro às 19 com Clarita.
Quinta-feira, 23. São Vitoriano, mártir. Encontro no “La Criolla” com
Amália, conseguir carro.
Sábado, 25. Anunciação da Virgem Maria. Viúva, 2h da manhã.
Domingo, 26. Páscoa da Ressurreição. Promessa de ir à missa com mamãe e
Celina, 10 horas (de maca?).
Quinta-feira, 30. Beato Amadeu. Encontro no “La Criolla” com Amália,
pedir carro a Perico. Anular devido à gripe, pedir a Pancho que avise a Amália.
Não, Pancho perigoso, que a gorda fique esperando sentada para não cansar.

Abril

Terça-feira, 4 São Isidro, mártir. Recebi ordenado menos os vales, que


bosta!
Quinta-feira, 6. São Celestino, mártir. Faltei trabalho, gripe, cama, recaída.
Sexta-feira, 7. São Alberto, mártir. Faltei trabalho, gripe, cama.
Segunda-feira, 10. São Terêncio, bispo. Faltei trabalho, gripe, de pé mas
dentro de casa. Terça-feira, 11. Leão I, papa. Volta ao batente.
Quinta-feira, 20. Santa Adalgisa, virgem. Ganhei 120 pesos jogo Clube!
Sábado, 22. São Anselmo, bispo. Levar Pancho jogo “La Criolla”, os Barros
prometeram desforrar-se de mim.
Domingo, 23. São Alberto, mártir. Ir à saída da missa, pedir desculpas
Clarita. Clarita safada da vida que vá reclamar à avozinha. Juro pela minha
honra fidelidade à viúva, aliás a tranquila!
Quinta-feira, 27. Santas Ida e Zita. Faltei encontro viúva, culpa vinho branco
La Criolla”, Pancho fez um papelão vomitou mesa. Lembra, pedir desculpas
viúva, aliás, a bondosa.

Julho

Sexta-feira, 7. Santa Rita. Chega 20h15 trem de Buenos Aires com alunas de
férias. Dar espiada.
Sábado, 8. São Adriano, mártir. Dança Clube Social. Emprestei gaita Pancho
para jogo “La Criolla”. Perdeu, fiz uma fezinha no Social.
Domingo, 9. Santa Anatália, a mártir. Faltei encontro missa, imperdoável. A
garota mais linda do mundo esperando por um pobre desgraçado. Dia inteiro
dentro de casa, fechado, desculpa tosse. A verdade mesmo: como é bom dormir
até as doze!
Segunda-feira, 10. São Félix, mártir. Vi-a. Acreditou na história da minha
irmã. Obrigado, Celina! “Vê-se que você é um rapaz sério, preferiu ficar o
domingo em casa para curar o resfriado e poder trabalhar na segunda-feira”. Vê-
se que és um encanto...
Quinta-feira, 13. São Anacleto, papa. Há três dias que não a vejo. Encontro
viúva 23h30 horas.
Sexta-feira, 14. São Boaventura. Obrigado, São Boaventura! Encontrei-a à
saída da igreja. Mabel, Mabel, Mabel, Mabel, Mabel. Às 22 encontro de Celina e
seu irmãozinho (este seu criado) para irmos ao cinema. O filme que menos
entendi em toda minha vida.
Sábado, 15. São Henrique, imperador. Dancinha íntima em casa de Mabel,
despedida no saguão. O mundo é meu.
Domingo, 16. Virgem do Carmo. Voltou para Buenos Aires. Posso me tornar
freira e entrar para o internato. Quem me impede? É minha vocação.

Setembro

Terça-feira, 10. São Casimiro, mártir. Faltam 10 dias.


Quarta-feira, 11. São Germano, rei. Faltam 9 dias. Quinta-feira, 12. São
Serafim, bispo. Faltam 8 dias.
Sexta-feira, 13. São Eduardo, rei. Faltam 7 dias.
Sábado, 14. São Calixto, bispo. Faltam 6 dias. Me tomaram 97 pesos no “La
Criolla”.
Domingo, 15. Santa Tereza, virgem. Cumpri promessa, ir à missa. Faltam 5
dias.
Segunda-feira, 16. São Galo, mártir. Faltam 4 dias. Encontro com Amália no
“La Criolla”, conseguir carro com Perico.
Terça-feira, 17. Santa Edwiges, mártir. Faltam 3 dias.
Quarta-feira, 18. São Lucas, evangelista. Depois de amanhã …
Quinta-feira, 19. São Pedro de Alcântara. Amanhã!
Sexta-feira, 20. Santa Irene, virgem. Trem procedente de Buenos Aires chega
20h15. É mais bonita do que eu me lembrava!!! Nos demos as mãos. Diante da
velha.
Sábado, 21. São Mateus, apóstolo. Dia da Primavera. Dia dos Estudantes,
como demoras a chegar! Excursão e piquenique na fazenda “La Carola”.
Encontro às 7h30 em frente à confeitaria “A Moderna”. Celina leva comida…
sou o ser mais feliz da terra e prometo diante de Deus comportar-me como um
homem de verdade, juro não dizer nada a ninguém e casar-me com ela.
Domingo, 22. São Maurício, mártir. Saída do trem 10h30. Como dezembro
está longe… Me mandou um beijo com a mão, diante da mãe. A estas horas já
deve estar no colégio.
fascículo
4

...sus ojos azules muy grandes se abrieron...

ALFREDO LE PERA

Na quinta-feira, 23 de abril de 1937, o sol saiu às 5h30. Sopravam ventos


leves de norte a sul, o céu estava parcialmente nublado e a temperatura era de 14
graus centígrados. Nélida Enriqueta Fernández dormiu até as 7h45, hora em que
sua mãe a acordou. Nélida tinha o cabelo dividido em cachos atados com
papelotes, mantidos em seu lugar por uma redezinha negra que apertava todo o
crânio. Uma anágua negra fazia as vezes de camisola. Calçou um par de
alpercatas velhas, sem calcanhar. Demorou 37 minutos em ajeitar o penteado
diário e em maquilar-se, interrompida por cinco tragadas de mate que sua mãe
lhe levou. Enquanto se penteava pensou na conversa do dia anterior com a caixa
da loja, sobre a inconveniência de tomar, como primeira refeição, café com leite
e pão com manteiga, no vazio no estômago que iria sentir às onze da manhã, na
conveniência de trazer sempre no bolsinho um pacote de pastilhas de menta, na
caminhada sempre animada e rápida ao meio-dia, de volta à casa, nas carícias
trocadas com Juan Carlos na noite anterior, no portão de sua casa, e na
necessidade de tirar as manchas de barro de seus sapatos brancos com o líquido
apropriado. Ao maquiar-se pensou nas sedutoras possibilidades do seu rosto e
nas diferentes opiniões ouvidas sobre o efeito positivo ou negativo do
sombreado natural das olheiras. Às 8,30 saiu de casa. Vestia um uniforme de
algodão azul, abotoado na frente, com colarinho redondo e mangas largas. Às
8,42, entrou na loja “Ao Barato Argentino”. Às 8h45 já estava em seu posto, por
detrás da mesa de embrulhar, junto à moça da caixa e sua registradora. Os outros
empregados, num total de vinte e sete, também começaram a ocupar seus lugares
de trabalho. Às 9 horas as portas da loja foram abertas ao público. A encarregada
dos embrulhos fez o seu primeiro embrulho às 9,15, uma dúzia e meia de botões
para roupa de homem. Entre as 11 e as 12 teve que se apressar, para evitar que os
fregueses ficassem esperando. As portas foram fechadas às 12h07. Às 12h21
Nélida entrou em casa, lavou as mãos, notou que seu pai — no galpão do fundo
afiando tesouras de podar — a havia visto chegar e que baixara a cabeça sem a
cumprimentar. Sentou-se à mesa, de costas para a cozinha de fogão a lenha. O
pai foi lavar as mãos na pia ocupada por uma caçarola suja e censurou-a pelo
fato de ter ela na noite anterior se despedido de Juan Carlos quase à meia-noite,
apesar do vento frio, tendo ficado conversando no portão desde as 22h. Nélida
tomou a sopa sem responder, sua mãe serviu batatas fritas e fígado refogado.
Cada um bebeu três quartos de garrafa de vinho. Nélida disse que a caixa não a
havia cumprimentado quando ela entrou na loja, tirou algumas uvas de um cacho
e foi descansar em seu quarto. Pensou no gerente da loja, no colarinho duro e
desmontável que ele usava sempre, na balconista apontada como sua amante, na
conveniência de encontrá-los no sótão em atitude comprometedora para assim
poder lhes assegurar sua total discrição e fazer-se credora de um favor, no
Doutor Aschero e seu atraente uniforme de médico de mangas curtas e aberto
nas costas, em como o desfavorecia quando tirava a camisa, na blusa de seda
chinesa importada da Senhora Aschero, no uniforme cinzento da servente
Rabadilla, na fachada da casa do Doutor Aschero com barra de mármore negro
de um metro de altura contrastando com o reboco branco do resto da parede, na
fachada de tijolos da casa de Juan Carlos e no pátio com palmeiras que se divisa
da rua, no colarinho engomado da camisa listrada de Juan Carlos, em sua queixa
de que a goma lhe havia irritado a pele do pescoço, em seu pedido para que ela
lhe beijasse a pele afetada, nas carícias que se seguiram, na possibilidade de que
Juan Carlos a abandonasse no caso de vir a saber que ela havia tido outro
homem em sua vida, na possibilidade de deixar Juan Carlos saber disso somente
algumas semanas antes do casamento, na possibilidade de Juan Carlos vir a
saber na própria noite de núpcias, na possibilidade de Juan Carlos a estrangular
num hotel de Buenos Aires na noite nupcial, no cheiro de desinfetante do
consultório do Doutor Aschero, no automóvel verde-oliva do Doutor Aschero,
na doente que salvaram numa chácara, na luz do sol que entrava pela janela e
não a deixava conciliar o sono, no esforço para levantar-se da cama e fechar as
persianas, no alívio que era para os olhos o quarto em penumbra. Às 13,30 sua
mãe a acordou com um mate com açúcar, às 14 horas já havia recomposto seu
arranjo pessoal, às 14,13 entrava na loja, agitada pela caminhada em passo
apressado. Às 14,15 colocou-se pontualmente atrás do balcão de sua mesa de
fazer embrulhos. Descobriu, com surpresa, a pouca quantidade de papel de rolo,
tamanho médio, procurou o gerente com os olhos, não o viu, ficou imóvel e
pensou na possibilidade de o gerente passar e não a ver em seu lugar, enquanto
ela ia ao sótão apanhar novo rolo para substituir o que estava acabando. A caixa
ainda não estava sentada no seu banquinho quando Nélida foi até o sótão e não
encontrou o papel. Ao voltar, deparou com o gerente, o qual imediatamente
levou a mão à cintura e tirou o relógio do bolsinho, em um gesto severo. Disse a
Nélida que ela estava chegando tarde ao seu posto. Nélida respondeu que tinha
ido buscar algo no sótão e não havia encontrado, e, já em seu lugar, lhe mostrou
o rolo com pouco papel. O gerente respondeu que havia suficiente papel para o
dia e que quando acabasse ela podia usar o rolo grande e calcular a largura do
rolo com o comprimento do embrulho a fazer. Sem olhar para Nélida,
acrescentou que era necessário usar a inteligência e, principalmente estar no seu
posto na hora devida. Disse estas últimas palavras de costas, enquanto se
afastava, para evitar uma resposta. Às 14,30 foram abertas as portas da loja.
Foram fáceis de fazer os embrulhos de cortes de tecidos e de artigos da seção
“Mercearia fina”, mas difíceis os de chapéus. Habitualmente, o artigo que Nélida
embrulhava com maior prazer era a oferta especial de uma dúzia de botões
forrados, de várias cores e cosidos em retângulos de cartolina; ao contrário,
temia os vasos com plantas da nova seção “Viveiro sempre verde”. Trocou
algumas palavras amáveis com a freguesa que observava encantada seu cuidado
para não quebrar, durante o manuseio, a pluma do chapéu. A caixa interveio na
conversação com observações lisonjeiras e, depois de a freguesa ter ido embora,
a caixa olhou para Nélida pela primeira vez no dia e lhe disse que o gerente era
uma porcaria. Às 18h55 começaram a fechar as portas da loja e às 19,10 saiu a
última freguesa com um embrulho contendo um fecho-ecler e a nota fiscal
correspondente. Antes de retirar-se, Nélida disse ao gerente, com uma expressão
impessoal, que no sótão não havia mais rolos de tamanho médio e saiu sem
esperar resposta. O ar lá fora estava agradável e ela calculou que não faria frio
mais tarde, no portão de sua casa. Ao passar pelo bar “A União” olhou com
aparente displicência para o interior. Viu a cabeça despenteada de Juan Carlos,
de costas, numa mesa de quatro lugares onde se jogavam dados. Deteve-se um
instante esperando que Juan Carlos voltasse a cabeça. Não resistiu ao impulso de
olhar para as outras mesas. O Doutor Aschero tomava um aperitivo com um
amigo e estava olhando. Nélida enrubesceu e continuou o seu caminho. Sua mãe
enxugava o piso do banheiro e lhe disse que restava pouca água quente, porque o
seu pai acabara de tomar banho. Nélida perguntou, mal-humorada, se havia
limpado bem a banheira. A mãe por sua vez lhe perguntou se achava que ela era
uma velha suja, da roça, e lhe lembrou que sempre que ela voltava da loja
encontrava a banheira limpa. Nélida pegou com asco no pedaço de sabão de
lavar roupa, do qual teria que se servir para seu asseio. Mergulhou na banheira
cheia pela metade. Com somente a cabeça fora d'água, pensou num novo produto
da seção “Presentes Distintos”: uma caixa ovalada de celofane incolor cheia de
translúcidos tabletes verde-esmeralda para perfumar ‘a água do banho. Alarmou-
se ante a possibilidade de que o sabão barato lhe deixasse a pele cheirando a
desinfetante; a água da torneira já se escoava fria quando acabou de se enxugar.
Cheirou suas mãos. Não tinham o odor temido Pensou que Juan Carlos não
queria ir mais dançar no Clube Social, aos domingos à tarde, preferindo levá-la
ao cinema, pensou que não tinha nenhuma outra amiga no Clube, pensou em
Celina, em seus olhos verdes, pensou nos gatos de olhos verdes, pensou na
possibilidade de tornar-se amiga de um gato, pensou numa gata velha com sarna,
como lhe curar a sarna, dar-lhe de comer, escolher o prato mais bonito do
armário e enchê-lo de leite fresco para uma gata velha e sarnenta, pensou na mãe
de Juan Carlos que ao voltar da igreja os cumprimentara sem entusiasmo, no
último domingo, quando eles saíam do cinema, pensou na morte natural ou por
acidente da esposa de Aschero, na possibilidade de que Aschero lhe pedisse
como esposa em segundas núpcias, na possibilidade de se casar com Aschero e
abandoná-lo depois da lua de mel, no encontro que marcaria com Juan Carlos
num refúgio em meio à neve de Nahuel Huapi, Aschero no trem: vestido num
roupão de seda sai do reservado e se dirige pelo corredor até a cabine, bate
suavemente com os nós dos dedos na porta, espera em vão uma resposta, abre a
porta e encontra uma carta dizendo que ela descera na última estação, que ele
não a procure, enquanto Juan Carlos chega para o encontro, no esconderijo,
surpreende-a de calças pretas e pulôver preto de gola alta, cabeleira solta e de
um louro-platinado, abraçam-se, finalmente Nélida se entrega a seu verdadeiro
amor. Nélida pensou na possibilidade de não enxugar o chão do banheiro. Mas
depois de se vestir, enxugou-o. Sua mãe comeu o resto do fígado refogado e
Nélida um bife à milanesa com salada de alface e ovos cozidos. Seu pai não se
sentou à mesa, como costumava fazer todas as noites. Às 20,30 sintonizaram
uma emissora que transmitia um programa de canções espanholas. Sem deixar
de escutar, a mãe tirou a mesa, Nélida passou um trapo úmido no oleado e se
instalou com a caixa de costura, para cuidar de um vestido ao qual faltavam as
casas dos botões. Às 21h terminou o programa espanhol e começou uma audição
de um recitativo de temas da roça. Às 21h30 Nélida começou a retocar o
penteado e a maquilagem. Às 21,48, foi para a entrada da casa, junto ao portão.
Às 22,05 percebeu Juan Carlos a uma quadra de distância. Às 22h20 Nélida e
Juan Carlos viram que a luz do dormitório dos pais já estava apagada. Deixaram
a calçada defronte e deram alguns passos para dentro. Nélida, como ‘de costume,
apoiou a espádua na coluna metálica, que sustentava o alpendre de flandres.
Fechou os olhos, como de costume, e recebeu na boca o primeiro beijo da noite.
Sem perceber, decidiu que se a velhinha mendiga da porta da igreja lhe pusesse
um punhal na mão, mataria prazerosamente Celina. Juan Carlos voltou a beijá-la,
dessa vez estreitando-a fortemente nos braços. Nélida recebeu carícias, mais
beijos, um elogio galante e abraços da mais variada intensidade. Com os olhos
fechados perguntou a Juan Carlos se estava aproveitando seu dias de licença para
descansar e lhe perguntou também o que havia feito naquela tarde antes de ir ao
bar. Ele não respondeu. Nélida abriu os olhos ao perceber que ele a soltava e
dava um passo na direção da cerca de alfena, cuidadosamente podada pelo seu
pai. Nélida abriu os olhos ainda mais ao ver que Juan Carlos estendia uma mão e
arrancava um ramo e, continuando, disse-lhe que ela lhe contava tudo o que
fazia e não via razão pela qual ele não poderia fazer o mesmo. Juan Carlos
respondeu que os homens eram obrigados a calar sobre certas coisas. Nélida
observou o seu cabelo abundante, com algumas mechas soltas metalizadas pela
luz branca de um poste da iluminação municipal, colocada no meio da rua, e sem
saber por que pensou em terrenos baldios cobertos por matagais e arbustos
curvos, iluminados à noite Pelas lâmpadas dos postes municipais; Nélida olhou-
o nos olhos claros não verdes como os de Celina, mas castanhos-claros e sem
saber por que pensou em luxuosos jarros de mel; Juan Carlos fechou os olhos
quando ela lhe acariciou a cabeça despenteada e Nélida, ao ver suas
sobrancelhas espessas e arqueadas, pensou, sem saber por que, nas asas abertas
do condor; Nélida olhou para o seu nariz reto, o bigode fino, os lábios grossos
pediu-lhe que mostrasse os dentes e, sem saber por que, Pensou em casas antigas
vistas em livros, com balaustradas brancas e colunatas sombreadas, altas e
elegantes; Nélida olhou para o seu pomo-de-adão, entre os fortes músculos do
pescoço, e os ombros largos, e sem saber por que pensou nas frondosas e
imbatíveis árvores do pampa selvagem: o umbuzeiro e a macieira silvestre eram
suas árvores favoritas. Às 23h20 Nélida permitiu que ele passasse a mão por
debaixo de sua blusa. Às 23h30 Juan Carlos despediu-se queixando-se do seu
egoísmo. Às 23h47 Nélida terminou de arranjar seu cabelo em múltiplos
agrupamentos presos com papel. Antes de adormecer, pensou que o rosto de
Juan Carlos não tinha nenhum defeito.
Na já mencionada quinta-feira, 23 de abril de 1937, Juan Carlos Jacinto
Eusébio Etchepare acordou às 9h30, quando sua mãe bateu na porta e entrou no
quarto. Juan Carlos não respondeu às palavras carinhosas da mãe. A xícara de
chá ficou sobre a mesinha de cabeceira. Juan Carlos vestiu um roupão e foi
escovar os dentes. O gosto ruim da boca desapareceu. Voltou ao quarto, o chá
estava morno, chamou a mãe e pediu Que o esquentasse. Às 9h55 tomou, na
cama, uma xícara de chá quase fervendo, com a convicção de que o calor lhe
faria bem ao peito. Pensou na possibilidade de beber constantemente coisas
muito quentes e de embrulhar-se em panos quentes, com os pés junto a uma
bolsa de água quente, a cabeça envolta num cachecol de lã, deixando apenas o
nariz e a boca descobertos, para acabar com a fraqueza do seu aparelho
respiratório. Pensou na possibilidade de aguentar sufocado na cama, dias e
semanas, até que o calor seco pusesse um fim à umidade dos seus pulmões: a
umidade e o frio fariam brotar musgos em seus pulmões. Voltou a dormir,
sonhou com tijolos avermelhados, o lugar onde se misturam os materiais para
fazer os tijolos, o poço ardente da cal, os tijolos crus, moles, os tijolos cozidos,
os tijolos endurecidos, indestrutíveis, os tijolos deixados às intempéries na
construção da Delegacia nova, Pancho lhe mostrava um monte de tijolos
quebrados, imprestáveis, que são devolvidos ao forno para ser triturados e
novamente cozidos, Pancho lhe explicava que numa construção nada se
desperdiçava. A mãe acordou-o às 12h, Juan Carlos estava suando. Ao levantar-
se, sentiu-se muito fraco. Perguntou à mãe se havia água quente para tomar
banho e se estava com a barba muito grande para ir ao consultório do médico. A
mãe lhe respondeu que ele devia barbear-se, que todos os dias devia fazer isso
logo ao levantar-se, e que na noite anterior ele havia se deitado muito tarde, e
que a um rapaz como ele as moças gostariam sempre, mesmo que ele não se
barbeasse logo antes de encontrá-las. Acrescentou que quando voltasse ao
trabalho, na Intendência, teria que acostumar-se a deixar a cama um pouco antes
e barbear-se, porque era em seu trabalho que devia aparecer com melhor
aparência e não por aí, namorando. Nesse momento chegou Celina com um
guarda-pó branco, de professora, e vários cadernos debaixo do braço, sua mãe
trocou um olhar com ela e perguntou a Juan Carlos onde estivera na noite
anterior até as três horas da madrugada e se havia perdido dinheiro no jogo. Juan
Carlos respondeu que não havia jogado. Sua mãe respondeu que então ele devia
ter estado com Nélida. Juan Carlos confirmou. Sua mãe perguntou como era
possível que os pais a deixassem conversar no portão da casa até três da manhã,
e ao não obter resposta pediu a Juan Carlos que, se quisesse barbear-se e tomar
banho antes do almoço, por favor fizesse isso logo. Às 12h55 Juan Carlos saiu
do banho de ducha, mas sem barbear-se. Ao entrar na sala de jantar começou a
sentir os sintomas dos seus habituais calores. Sua mãe e Celina estavam sentadas
na mesa. Juan Carlos segurou a sua cadeira, pensou em voltar ao quarto de
dormir e deitar-se, elas o olharam, Juan Carlos sentou-se. Sopa de talharim fino,
depois carne bem passada e purê. O bife de Juan Carlos era grosso e rugoso, mal
passado, como ele gostava. Ao começar a cortá-lo sentiu a testa banhada de suor.
Sua mãe lhe disse que fosse deitar-se, pois era perigoso transpirar e depois
resfriar-se. Juan Carlos não respondeu e foi para o quarto. Poucos minutos
depois lhe levaram a comida na cama, numa bandeja. Juan Carlos reclamou que
o bife estava frio. Levaram-no novamente para esquentar, na grelha, Celina
deixou que ele ficasse alguns segundos na grelha, evitando que assasse demais.
A mãe e Celina estavam em pé no quarto olhando-o, esperando alguma ordem.
Juan Carlos lhes pediu que fossem terminar o almoço. Sem vontade, terminou o
seu prato. Quando a mãe entrou com a sobremesa, uma maçã assada, Juan Carlos
já se sentia melhor e disse que, antes que fosse acometido pelos resfriados e pela
bronquite, muitas vezes sentia-se muito febril depois de uma ducha e que tanto
ele como o resto da família estavam se preocupando inutilmente. O almoço lhe
caiu bem. Sua mãe e Celina faziam a sesta quando ele saiu à rua com a mesma
roupa do almoço calças de flanela cinzenta, camisa de lã com quadrados azuis,
Pulôver de mangas compridas, azul — mais uma jaqueta de couro marrom-
escuro, com fecho-ecler. Essa jaqueta típica de fazendeiro rico, despertou na rua
reações as mais variadas. Juan Carlos sorriu satisfeito ao notar o olhar de
desprezo de um dono de padaria que conversava na porta com um fornecedor. O
sol amornava o ar, mas fazia frio na sombra. Juan Carlos escolheu a calçada
ensolarada e abriu o fecho da jaqueta. Às 14h48 chegou ao “A União”, o bar de
melhor categoria. Numa mesa, tomava café um homem magro que o saudou com
alegria, agitando a mão ao vê-lo entrar. Juan Carlos aceitou o convite para
acompanhá-lo até o curral de uma fazenda, a poucos quilômetros do povoado,
mas antes pediu um café e telefonou: procurando não ser ouvido por ninguém,
deu uma falsa desculpa à enfermeira para cancelar a consulta. Juan Carlos
pensou na possibilidade de que o médico, depois de examiná-lo, lhe dissesse que
a semana de descanso lhe havia feito bem; na possibilidade de que fosse
necessário prolongar o descanso até a semana seguinte, depois de terminar a sua
licença; na possibilidade de que lhe fosse necessário descansar todo o inverno,
como já insinuara; na possibilidade de que se tivesse descoberto uma grande
confusão de radiografias: aquela placa com uma ligeira sombra no pulmão
direito não era sua, a sua era outra, aquela era de um pobre condenado a morrer
dentro de dois ou três anos, privando-se, por isso, de mulheres e demais alegrias
da vida. Às 15h50 Juan Carlos passeava sob o sol num terreno contíguo ao curral
onde seu amigo falava com os peões. O campo era de cor marrom, claro e
escuro, em redor de um tanque australiano cresciam plantas anãs de maçanilha
com talo verde e flor amarela e branca. Juan Carlos lembrou-se de que quando
era menino alguém sempre lhe dizia para não mastigar a flor da maçanilha,
porque era venenosa. Às 16h15 o sol iluminava menos e Juan Carlos pensou que
se tivesse ido ao consultório a estas horas o médico já teria dito como estava sua
saúde. Às 16h30 seu amigo parou o carro defronte do edifício em construção da
nova Delegacia para que Juan Carlos descesse. Despediram-se até mais tarde, no
bar. Juan Carlos entrou na obra e perguntou a um eletricista onde estava Pancho.
No futuro pátio da Delegacia, três operários rebocavam as paredes do sanitário e
do banheiro para o pessoal subalterno. Pancho lhe gritou que faltavam somente
quinze minutos para terminar o horário de trabalho, Juan Carlos encolheu os
ombros, Pancho lhe deu uma banana e continuou trabalhando, mas poucos
segundos depois correu até ele, como se estivesse a fazer uma travessura, e lhe
deu, para que se distraísse, o brinquedo mais cobiçado por seu amigo: um
cigarro. Juan Carlos fumou na calçada, consciente de cada tragada. Uma menina
quase adolescente passou e olhou-o. Às 16h55 os dois amigos chegaram ao
único lugar no qual Pancho se atrevia a entrar de macacão, um bar de fundo,
defronte à estação ferroviária. Juan Carlos lhe perguntou se ele, para continuar
vivendo, se sujeitaria a evitar as mulheres, a não beber e a não fumar. Pancho lhe
respondeu dizendo para ele não voltar com tal assunto e bebeu um gole da
aguardente. Juan Carlos lhe disse que perguntava sério. Pancho não respondeu.
Juan Carlos ia lhe dizer alguma coisa mas se calou: Que se tivesse que renunciar
a viver como as pessoas sãs preferia morrer, mas mesmo que lhe tirassem as
mulheres e os cigarros ainda assim preferia morrer em troca de trabalhar como
um animal o dia inteiro, por quatro centavos, para depois voltar para o barraco e
lavar-se sob o jato de água fria da bomba. Juan Carlos lhe pediu outro cigarro.
Pancho lhe deu sem protestar. Agradecido, Juan Carlos ordenou mais bagaceira.
Pancho lhe perguntou se havia aproveitado para olhar como era, de dia, o pátio
da construção. Juan Carlos perguntou a Pancho se ele também tivera relações
sexuais na noite anterior. Pancho disse que, por ser fim de mês, não tinha
dinheiro para ir ao “La Criolla”. Juan Carlos prometeu acompanhá-lo no dia 1° e
lhe aconselhou que até lá abordasse a Rabadilla, a empregada do Doutor
Aschero. Pancho lhe perguntou por que a chamavam de Rabadilla e Juan Carlos
respondeu que quando ela era menina tinha o traseiro proeminente, em forma de
ponta, como o das galinhas; e que começaram a chamá-la assim no rancho da tia
que a criou. Às 17h40 encerraram a conversa sobre Rabadilla, tendo Juan Carlos
dito a Pancho que se ele não se apressasse em dar em cima da empregada, outro
o faria antes dele. Às 18h entrou sozinho no bar “A União”, notou que nenhum
dos fregueses tossia. Numa mesa junto à janela estavam o agrônomo Peretti, o
comerciante Juárez e o veterinário Rolla: respectivamente um cornudo, um
infeliz e um trapaceiro, pensou Juan Carlos. Numa mesa vizinha havia três
empregados de banco: três mortos de fome, pensou Juan Carlos. Noutra mesa, o
Doutor Aschero e o joalheiro Roig: um filho da puta com bafo de cão e um
puxa-saco, pensou Juan Carlos. Dirigiu-se a uma mesa do fundo onde o
esperavam para jogar e onde se sentavam à sua volta, três fazendeiros: um
cornudo, outro cornudo e um bêbado sortudo, pensou Juan Carlos. Estava muito
febril, mas ao tirar a jaqueta a sensação passou; pensou na possibilidade de
ganhar, como no dia anterior, para cobrir todas as despesas de bar e cinema das
duas semanas de licença, e concentrou-se no jogo. Uma hora depois sentiu um
ardor na garganta, reprimiu a tosse e procurou o garçom com os olhos: a segunda
xícara de café estava demorando. Tinha os pés frios, mas da cintura para cima se
desprendia como que um vapor quente, desabotoou o botão do colarinho. O
garçom trouxe o café. O ardor da garganta recrudesceu. Rapidamente, Juan
Carlos tirou o invólucro dos cubos de açúcar e, sem esperar que se dissolvessem,
bebeu todo o café. Dissimulando, pôs a mão na testa, quente porém enxuta,
pensou que a culpa de tudo era o portão frio da casa de Nené. Só então se
lembrou de que ela já havia passado pela calçada. Às 20h15, depois de haver
perdido alguns centavos, voltou para casa e foi diretamente para o banheiro. Fez
a barba com um sabão especial, pincel e um jarro de água quente, que sua mãe
lhe levou. Às 20h40 sentaram-se à mesa. Celina contou que a mãe de Mabel
estava desesperada porque a ausência da empregada obrigava-a a trabalhar sem
descanso, justamente na época de leilões de gado, com o noivo de Mabel de
passagem por Vallejos e visitando constantemente a casa. Terminado o jantar,
Celina tocou no piano, do álbum novo que havia chegado de Buenos Aires,
intitulado “Êxitos melodiosos de José Mojica e Alfonso Ortiz Tirado”. Juan
Carlos lhes lembrou que era o momento de fumar o único cigarro diário
permitido pelo médico. Então sua mãe, tratando de não dar importância ao
assunto, lhe perguntou o que o médico havia dito nessa tarde. Juan Carlos
respondeu que, devido a uma emergência, o médico fora obrigado a ausentar-se
do consultório durante toda a tarde. Às 22,00 saiu de casa, caminhou dois
quarteirões por ruas sem calçamento, se encontrou com Nélida. Quando tiveram
a certeza de que os pais dormiam, beijaram-se e se abraçaram no jardim. Juan
Carlos, como de costume, pediu a Nélida que lhe concedesse seus favores. Ela
negou-se, como de costume. Juan Carlos pensou que Nélida era a Rainha da
Primavera de 1936, beijou-a pela segunda vez, cingindo-a com força e pensou
nas manobras que infalivelmente a seduziriam, como já haviam seduzido muitas
outras. Juan Carlos, porém, não deixou que suas mãos descessem além da
cintura de Nené. Esteve para lhe dizer que não era um bobo, que somente fazia o
papel de bobo: “Olhe, menino, você está muito fraco, veja se evita as fêmeas,
trate de reduzir a cota, do contrário vai se dar mal, não vou lhe falar mais, da
próxima vez, como médico da família, falarei com a sua velha”. Dominado por
um impulso Juan Carlos segurou repentinamente uma das mãos dela e
suavemente levou-a até embaixo, no lugar da braguilha, mas sem chegar a
encostá-la. Era a primeira manobra de sua habitual estratégia. A mão de Nené
opunha uma relativa resistência, Juan Carlos titubeou, pensou que no jardim de
Nené não cresciam flores silvestres de maçanilha, as quais segundo alguns eram
venenosas, seria verdade? Esse inverno iria fazer muito frio no portão, será que o
seu plano secreto se cumpriria antes que o frio começasse? Todas as noites de
inverno neste portão? Pensou num beija-flor que deixa uma corola para ir atrás
de outra, e de todas tira o néctar, havia gotas de néctar nas flores de maçanilha?
pareciam secas. Pensou que tinha vinte e dois anos e que devia conduzir-se como
um velho. Soltou bruscamente Nélida e deu um passo na direção da cerca de
alfena. Arrancou um galho com raiva. Às 23h30 achou necessário lhe acariciar
os seios, passando a mão por debaixo da blusa e do sutiã, porque devia mantê-la
interessada nele. Às 23h30 despediram-se. Às 23h46 Juan Carlos passou pelo
edifício em construção da Delegacia. Nas casas do quarteirão não havia
nenhuma janela acesa nem pessoas nas calçadas. A uma quadra de distância via
um casal caminhar em sua direção. Demoraram cinco minutos em passar,
dobraram a esquina e desapareceram. Juan Carlos olhou novamente em todas as
direções, não se divisava nenhum ser vivente. Já era meia-noite, hora do
encontro. O coração começou a bater mais forte, atravessou a rua e entrou na
obra. Andou com mais facilidade do que na noite anterior, lembrando-se dos
detalhes do pátio vistos à luz do dia. Pensou que para subir o tapume de quase
três metros de altura um velho necessitaria de uma escada, pois não poderia
subir, como ele, pelos andaimes. Já no alto do tapume pensou que um velho não
poderia pular para o pátio contínuo. Sem saber por que, lembrou-se da menina
quase adolescente que o havia olhado essa tarde, provocando-o. Decidiu segui-la
qualquer dia, a menina morava numa chácara fora da cidade. Juan Carlos
esfregou as mãos sujas de pó na jaqueta de fazendeiro e preparou-se para dar o
salto.
fascículo
5

… dan envidia a las estrellas,


yo no sé vivir sin ellas.

ALFREDO LE PERA

Na mencionada quinta-feira, 23 de abril de 1937, Maria Mabel Sáenz,


conhecida por todos como Mabel, abriu os olhos as 7h da manhã, quando seu
despertador de marca suíça começou a tocar. Não conseguiu mantê-los abertos e
voltou a adormecer. Às 7h15 a cozinheira bateu na porta do seu quarto e disse
que o café estava na mesa. Mabel sentia todos os nervos do seu corpo
adormecidos, tíbios, como protegidos por mel ou geleia, os atritos e os sons lhe
chegavam amortecidos, sentia o crânio agradavelmente oco, cheio apenas de ar
morno. O olfato mostrava-se aguçado, junto ao travesseiro de linho branco o
nariz primeiro sentiu o odor de essências de amêndoa, resquício de brilhantina
no travesseiro, o odor passou a lhe estremecer o peito e se propagou até as
extremidades. As 7h25 tomou café com leite quase frio, sentada sozinha na sala
de jantar, não quis que a cozinheira o requentasse, em compensação pediu
torradas recém-feitas, crocantes, untou-as com manteiga. Às 7h46 entrou na
escola Número 1, dependente do Ministério da Educação da Província de
Buenos Aires. As 7h55 o sino tocou para formar filas no pátio. Mabel colocou-se
à frente da fila de alunos do quinto ano Divisão B. A Diretora da escola disse
“Bom-dia, meninos”, os alunos responderam, em coro “Bom-dia, senhora
Diretora”. Às 8h01 o sino tocou novamente e cada fila dirigiu-se para a sua sala.
Na primeira hora Mabel deu aula de História, tema “Os Incas”. O sino do recreio
tocou três vezes, às 9h, 10h e 11h; o sino de encerramento das aulas tocou
exatamente ao meio-dia. Nesse tempo Mabel já havia cumprido todo o seu
programa para a manhã: Explicar novos problemas de Juros, Razão e Capital,
evitar levar para sua casa os cadernos encapados, corrigindo os deveres na
própria sala de aula enquanto os alunos resolviam problemas suplementares de
Aritmética em seus cadernos de rascunho, avisar à Celina num dos recreios, que
talvez fosse depois do almoço à sua casa, e evitar maior intimidade com os
alunos já crescidos que se sentavam no fundo da sala de aula. Às 12h20 chegou
em casa com muito apetite, a mãe lhe perguntou se podia esperar até as 14h para
almoçar junto com o pai e possivelmente com seu noivo Cecil, de volta do leilão
de gado. Mabel já tinha a resposta preparada. A cozinheira lhe fez
separadamente alguns raviólis para servi-los com caldo de galinha. Sua mãe não
pôde lhe fazer companhia, porque tinha de tomar banho e mudar de roupa, pois
ficara toda a manhã cuidando da limpeza da casa, o que não era seu costume.
Mabel provou a galinha assada, depois dos raviólis, mas não quis sobremesa.
Explicou que tinha de preparar as lições de gramática com a ajuda de Celina, e
se ficasse em casa teria que fazer sala a Cecil até pelo menos metade da tarde,
entre o almoço e o conhaque depois da sobremesa. Às 13h45 Mabel entrou na
casa da família Etchepare sem bater. Atendendo ao pedido de Mabel, Celina
levou-a diretamente ao seu quarto. Mabel tinha as pálpebras pesadas e era com
dificuldade que prestava atenção às queixas de Celina: Juan Carlos tratava mal a
sua mãe e à irmã, seguramente instigado por Nené, não se cuidava, na noite
anterior havia ficado com aquela vigarista até as três, ia acabar pegando uma
tuberculose. Mabel lhe disse que na noite anterior havia dormido menos de
quatro horas, por ter ficado fazendo sala a Cecil, que conversava com seu pai,
que se ela permitisse ficaria para fazer a sesta com ela. Celina lhe cedeu a cama e
recostou-se nos travesseiros, no chão. Mabel fechou os olhos às 14h10 e
continuava dormindo quando o relógio de pêndulo marcou 17h. Celina
despertou-a e lhe ofereceu chá. Mabel não quis e saiu correndo para casa, pois
havia prometido à mãe acompanhá-la ao cinema, na sessão da tarde. Ao chegar à
esquina da casa viu que o pai e Cecil falavam no saguão e estavam prestes a
subir no carro. Antes que a vissem, Mabel entrou no armazém da esquina.
Comprou uma caixa grande de biscoitos para justificar sua presença, ficou
indecisa entre duas marcas suas favoritas: a do desenho com damas rococó e a
do desenho mostrando um elegante casal moderno, em trajes de gala. Às 17h15
entrou em casa, depois de ter cumprido o seu plano para a tarde: escapar do pai,
que queria obrigá-la a fazer sala a Cecil, e dormir uma sesta reparadora. Apesar
da pressa, mãe e filha abriram a caixa de biscoitos e às 18,05 entraram no Cine-
Teatro Andaluz, único cinema do povoado e administrado pela Sociedade
Espanhola de Socorros Mútuos. No vestíbulo decorado com mosaicos típicos,
Mabel olhou os cartazes do filme anunciado e notou que os vestidos e roupas dos
artistas datavam de uma moda de pelo menos três anos atrás e comprovou,
decepcionada, que os filmes americanos demoravam a chegar a Vallejos.
Tratava-se de uma comédia de luxo, com cenários que a encantaram: amplos
salões com escadarias de mármore negro e corrimão cromado, cadeiras de tafetá
branco, cortinados de cetim também branco, tapetes espessos e brancos, mesas e
cadeiras com pés cromados, por onde se deslocavam uma formosa loura nova-
iorquina, datilografa, que seduz seu elegante patrão e, mediante armadilhas,
obriga-o a divorciar-se de sua distinta esposa. No fim, ela o perde, mas encontra
um velho banqueiro que a pede em casamento e leva-a para Paris. Na última
cena vê-se a datilografa diante de sua mansão parisiense, descendo de um
luxuoso automóvel branco, com um cão dinamarquês branco e envolta numa
peliça de leves plumas brancas, não sem antes trocar um olhar de cumplicidade
com o chofer, um elegante jovem vestido com botas e uniforme negros. Mabel
pensou na intimidade da rica ex-datilógrafa com o chofer, na possibilidade de
que o chofer estivesse muito resfriado e que tivessem decidido amar-se com
paixão mas sem beijos, o esforço sobre-humano de não se beijarem, poderem
acariciar-se mas não se beijarem, abraçados toda a noite sem poder tirar essa
ideia da cabeça, a vontade de se beijarem, a promessa de não se beijarem para
evitar o contágio, todas as noites o mesmo tormento e todas as noites arrebatados
pela paixão, com suas figuras na sombra resplandecendo cromadas, o coração
cromado aperta-se e brota sangue, transborda e tinge o cetim branco, as plumas
brancas; é quando o metal cromado não contém mais o sangue impetuoso que as
bocas sequiosas se aproximam, todas as noites, e se regalam com o beijo
proibido. Às 19h57 Mabel e sua mãe chegaram de volta à casa. Às 20,30
entraram o pai e Cecil, satisfeitos por haverem deixado tudo organizado para o
leilão da manhã seguinte, o último da feira de outono. Cecil deu um beijo na face
de Mabel. Tomaram vermute como aperitivo. Às 21h sentaram-se à mesa.
Comeram sardinhas com batatas e maionese e depois carne à portuguesa, queijos
e sorvete. Falaram principalmente o pai e Cecil, comentando as vendas da manhã
e as possibilidades do dia seguinte, procurando antecipar um balanço geral da
semana. Ao chegar o momento do café e do conhaque, dirigiram-se para as
cadeiras da sala, quando o pai manifestou sua dúvida a respeito do preço de um
touro Hereford e levou Cecil para o escritório. Mabel levou-lhes as xícaras e os
cálices. Ela e sua mãe sentaram-se e comentaram o filme. Às 22h30 Mabel e
Cecil ficaram sozinhos na sala, sentados no mesmo divã. Cecil beijou-a
ternamente repetidas vezes e lhe acariciou a nuca. Falou de como estava
cansado, do descanso que o esperava na fazenda ao terminar a feira, dos livros
de história recém-recebidos da Inglaterra e que ia ler: sua leitura favorita era
tudo o que se relacionava com a história da Inglaterra. Retirou-se às 23h05
depois de haver tomado três cálices de conhaque sentado ao lado de Mabel, que
se somavam aos dois que havia tomado no escritório, aos dois aperitivos de
vermute e aos três copos de vinho tinto esvaziados durante o jantar. Mabel
exalou um suspiro de alívio e olhou se a porta do quarto de dormir dos pais
estava aberta. Levou a garrafa de conhaque para seu quarto e a escondeu debaixo
do travesseiro. Voltou à sala de jantar, abriu o armário e tirou dois copos para
conhaque, que se juntaram à garrafa escondida. Foi ao banheiro e refez a
maquilagem. Perfumou-se com a loção francesa que mais economizava. Vestiu a
pudica camisola de mangas curtas, procurou duas revistas, entreabriu a janela,
acomodou a garrafa e os copos e recostou-se. Às 23,37 estava comodamente
instalada e em condições de iniciar a leitura das revistas Mundo Feminino e
Paris Elegante. Começou por esta última. Passou rapidamente as páginas
referentes a modelos para esportes e para a rua, continuava pensando em Cecil,
cada vez lhe pareciam mais longos os minutos passados em sua companhia,
estava alarmada. Páginas mais adiante apareciam os modelos para coquetel.
Mabel olhou-os, mas também estes não conseguiram interessá-la. A seguir um
pequeno artigo chamou sua atenção: a linguagem do perfume. A especialista
francesa recomendava para a manhã lavandas suaves que avivariam o interesse
do homem pela mulher; para o começo da tarde — em visita aos museus e
intervalo para o chá — fragrâncias mais doces, criadoras do sortilégio que era
necessário acrescentar à hora do coquetel — seguido de jantar à luz de
candelabros num clube noturno — já então sob o império de outra essência cheia
de almíscar, todo o aroma de um balcão carregado de jasmins e ao qual
assomava a mulher fatal do passado — procurando fugir das luzes e intrigas de
salões mundanos — ou seja, o aroma hoje condensado numa gota de “Empire
Nocturne para a mulher moderna”. A essa página seguiam-se coleções de peles e
atavios de gala. Mabel deteve-se num vestido longo até os pés, negro, com
ampla cauda bordada de raposa prateada. Lembrou-se de que Cecil queria no
futuro dar recepções a rigor em sua fazenda. O ponto alto dessas páginas era
constituído por um artigo sobre a harmonia entre peles e joias. Recomendavam-
se águas-marinhas ou ametistas para o visom claro, para a chinchilla apenas
diamantes e para o visom marrom-escuro anéis e brincos — preferivelmente
cortados em grande retângulo — de esmeraldas. Mabel leu duas vezes o artigo.
Decidiu tratar do tema das joias, algum dia, diante de Cecil. Pensou que Cecil
não tinha irmã mulher e que a mãe morreria algum dia na casa de North
Cumberland, Inglaterra. Olhou o despertador, marcava 23h52. Apagou a luz,
levantou-se, abriu a janela e olhou na direção da figueira. O pátio estava
submerso numa escuridão quase total.
Na já mencionada quinta-feira, 23 de abril de 1937, Francisco Catalino Páez,
também conhecido como Pancho, acordou às 5h30 da manhã, como era seu
costume, embora o dia ainda não tivesse clareado. Não tinha despertador. Havia
lua nova e o céu estava negro, e no fundo do terreno em que se erguia o rancho
estava a bomba hidráulica. Molhou o rosto e o cabelo, lavou a boca. Dormia sem
camiseta, porque esta o incomodava, o ar lá fora estava frio e entrou no quarto
para vestir o macacão. Numa cama grande dormiam suas duas irmãs, encolhido
no catre de lona dormia seu irmão. A cama de Pancho tinha um elástico de molas
e colchão de estopa. O chão era de terra, as paredes de adobe, o teto de zinco. No
outro quarto, que completava a casa, dormiam seus pais com o filho menor, de
sete anos. Pancho era o mais velho dos varões. A cozinha estava em construção.
Pancho a havia começado com materiais para edifícios modernos, de segunda
mão. Acendeu o carvão do braseiro e preparou mate fervido com leite. Procurou
pão, mas não o encontrou. Acordou a mãe; no fundo de uma bolsa cheia de
abóboras havia dois biscoitos escondidos para Pancho. Os biscoitos eram
brancos, de farinha e banha, os dentes de Pancho eram quadrados e grandes, mas
manchados, escurecidos pela água salgada da bomba. Pensou que Juan Carlos a
estas horas estaria no seu primeiro sono e poderia continuar dormindo até meio-
dia, mas não estava são e ele, sim. Pensou na professora que devia levantar-se às
7h, sem ter dormido, Juan Carlos dizia que era a mais bonita de todo o povoado,
sobretudo quando vestia malha. Mas era morena. A outra, no entanto, era loura e
branca. A mãe lhe perguntou se os biscoitos não estavam cheirando a umidade.
Pancho disse que não e olhou para a sua pele escura de índia, o cabelo cor de
terra, desbotado, rebelde, listrado de cãs. Pancho já vira, do alambrado do Clube,
Mabel vestindo um maiô, mas era morena. As pernas da outra eram tão brancas,
ia à loja sem meias. Pancho passou um pente grosso pelo emaranhado do cabelo
negro e crespo, o pente embaraçava-se nele. A mãe lhe disse que ele tinha o
cabelo espesso como o dela, como o dos mulatos, e encaracolado como o do seu
pai valenciano. Os olhos negros, ele não os podia ter herdado dos seus
antepassados índios, mas dos mouros que haviam ocupado Valência séculos
atrás. A mãe lhe pediu que contraísse os músculos do braço e tocou neles, seu
filho não era muito alto, mas forte, a mãe pensou, sem saber por quê, nos filhotes
de urso de um circo que havia passado por Vallejos e lhe estendeu outra xícara
de mate quente, com leite. Pancho pensou que Nené descansava toda a noite, que
seu quarto era pregado ao dos seus pais e que ninguém podia entrar nele sem ser
notado. Pancho pensou nas garotas do bar-armazém “La Criolla”, por detrás da
bomba hidráulica, a cerca de estacas que separava seu terreno do do vizinho
estava caindo, negra de musgo. Sem saber por quê, Pancho procurou outra coisa
para olhar, o sol saía a leste, havia nuvens vermelhas no alto, outras róseas e
outras amarelas mais próximo do sol, e atrás o céu era amarelo, róseo mais
acima, e vermelho ainda mais acima e o rancho cobria todo o horizonte oposto,
que ainda estava negro, depois azul, e quando Pancho saiu para a construção da
Delegacia nova um horizonte mostrava-se tão azul quanto o outro. Algumas
vizinhas já estavam de pé, varriam os pátios, tomavam mate. A outra não tinha o
cabelo duro nascendo-lhe a começar da metade da testa: seu cabelo era suave,
louro e de surpreendentes cachos naturais; não tinha pelos nas faces, nem sobre o
lábios superiores, nem no queixo: sua pele era branca e lustrosa; não tinha o
sobrecenho unido, como as corujas, nem amarelo o branco dos olhos: as
sobrancelhas eram apenas dois fios curvos, os olhos claros, azuis-celestes? e o
nariz um pouco aquilíneo, mas a boca rosada; não era de baixa estatura,
atarracada nem gorda: era alta como ele, a cintura quase que cabia inteira em
suas grandes mãos de pedreiro, a cintura se alargava nas cadeiras — será que o
púbis das mulheres louras não tinham pelos? No “La Criolla” havia uma loura de
cabelos tingidos, mas seu púbis era escuro: sem saber por quê, Pancho imaginou
Nené adormecida, com as pernas entreabertas, sem pelos no púbis, como uma
meninazinha, e no verão ia à loja sem meias; Nené não usava sandálias: seus pés
estavam calçados em sapato de salto alto; não transpirava: não tinha que se
esfregar como as empregadas; Nené não era uma índia bruta falava como uma
artista de rádio e no final das palavras devidas não esquecia de pronunciar os
esses. Às 6,45 Pancho entrou na construção. O capataz mandou-o descarregar,
juntamente com outros operários, um caminhão cheio de tijolos e levá-los para o
pátio, para servirem à construção das dependências do pessoal subalterno. Às
8h07 o capataz lhe ordenou que cavasse um poço em forma de “L” junto ao
tapume dos fundos. Pancho teve que forçar a pá, os companheiros começaram a
rir e disseram que lhe havia tocado um pedaço de terra seca, a terra mais dura do
pampa. As pernas brancas de Nené, as coxas escuras das garotas do “La Criolla”,
o púbis negro de Mabel, o traseiro escuro da Rabadilla, Nené, a Rabadilla, o
púbis sem pelo e branco de Nené, o pó das pedras aderia-lhe as fossas nasais e
descia-lhe pela garganta. Às 11,45 o capataz bateu com um pedaço de pau contra
uma frigideira velha, em sinal de descanso. Pancho lavou o rosto na torneira e
lutou com o pente para domar a sua grenha. Antes de ir para casa, deu uma volta
de duas quadras para passar pela calçada do Doutor Aschero. Não viu Rabadilla
em nenhuma parte. Pancho caminhou onze quarteirões até sua casa. Sua irmã
mais velha lhe serviu, como almoço, batatas, abóbora e pedaços de carne em
caldo de cozido. Pancho lhe perguntou como estava seu reumatismo, disse que
quando ela pudesse voltar a trabalhar lhe avisasse, ele falaria com o construtor,
ao dono da olaria e a Juan Carlos oferecendo-a como empregada: Às 13h25
Pancho voltou à construção. O capataz não olhou o relógio e mandou, antes de
findar a hora do descanso, que ele terminasse o poço. Pancho não tinha relógio e
obedeceu, estava certo de que ainda não era hora de começar, mas apanhou a pá
e a enterrou no chão. Pensou que o capataz havia falado bem dele diante do
construtor e do comissário de polícia. Às 14h35 o capataz o substituiu e o
mandou à delegacia velha apanhar uma das grades para celas, recém-chegadas
de Buenos Aires, e que estavam guardadas na sala do subcomissário. Pancho
tomou coragem e falou a este último de sua aspiração de entrar para a polícia
como suboficial. O comissário lhe respondeu que precisavam de rapazes fortes
como ele, mas que devia dispor de meios para o curso de seis meses na capital
da província. Pancho perguntou se teria que pagar o curso. O funcionário
esclareceu-lhe que o curso era grátis e que ele receberia comida e casa durante os
seis meses em que não recebesse salário, mas a delegacia de Vallejos podia
mandar candidatos se a capital permitisse, tudo dependia da capital. Pancho
carregou a grade fingindo não fazer esforço. Temendo que o subcomissário
chegasse à calçada e o olhasse, cobriu a distância de dois quarteirões sem se
deter ou descansar. Às 16,32 recebeu com alegria a visita do seu amigo Juan
Carlos. Às 16h45 deram outra batida na frigideira. Pancho olhou o rosto de Juan
Carlos, procurando sinais da enfermidade e sinais de recuperação. Sentados no
botequim, Pancho lhe disse que tivesse cuidado para não ser surpreendido em
casa alheia, por que não se contentava com Nené? Juan Carlos lhe disse que
assim que conseguisse o que queria, romperia com Nené, e pediu a Pancho que
jurasse não contar a ninguém: Mabel lhe havia prometido pedir ao inglês que o
contratasse como administrador das duas estâncias. Juan Carlos acrescentou que
um dono só não pode estar ao mesmo tempo nas duas estâncias, e ser
administrador é como se fosse o dono de uma das duas. Pancho lhe perguntou se
continuaria com Nené no caso de conseguir esse emprego. Juan Carlos
respondeu que ele só lhe fazia tal pergunta porque não entendia nada de
mulheres. Pancho queria aprender, mas fingiu desinteresse. Juan Carlos disse
que Nené era igual a todas, se a tratavam bem, ficava toda exigente, mas se a
tratavam mal se comportava direitinho. O importante era que Mabel sentisse
ciúmes e não se esquecesse do favor que lhe devia fazer. Às 18,23 lavou-se no
rancho, sob o jato de água fria da bomba. Às 19,05 sua mãe e sua irmã mais
velha entraram com passos lentos e difíceis. A irmã sentia a cintura muito
dolorida, aquela tarde, e ambos haviam ido ao hospital pedir algum remédio. O
médico lhes havia repetido que se tratava de reumatismo proveniente dos cinco
anos que ela trabalhara como lavadeira, com os braços imersos na água fria, que
poderia voltar a trabalhar, mas não como lavadeira, e que se molhasse o menos
possível. Às 20,05 o cozido do meio-dia já estava pronto e comeram todos
juntos. Pancho quase não falou e às 20,30 saiu caminhando devagar rumo ao
centro do povoado. No botequim estariam seus companheiros da construção.
Pensou na inconveniência de que funcionários da polícia o vissem no botequim.
Pensou na conveniência de que o vissem passeando com Juan Carlos, empregado
da Prefeitura. Da tenda do vendedor italiano de galinhas saía uma garota levando
duas galinhas depenadas. Era Rabadilla. Caminhou mais rápido e a alcançou,
dissimuladamente. Caminhavam quase lado a lado. Pancho disse
respeitosamente boa-noite. Rabadilla lhe respondeu o mesmo. Pancho lhe
perguntou quanto o italiano cobrara pelas galinhas. Rabadilla respondeu em voz
baixa e acrescentou que tinha que caminhar mais depressa, pois sua patroa a
esperava. Pancho perguntou se poderia acompanhá-la até a esquina do Colégio
de Freiras. Rabadilla disse, hesitante, que sim e depois que não. Pancho
acompanhou-a e se inteirou de que no domingo à tarde Rabadilla iria às festas
populares, ao ar livre, que se realizariam no Prado Gallego, comemorando o
encerramento da temporada. Cumprindo a ordem do seu amigo, Pancho
aconselhou-a a trocar de patrões e que fosse trabalhar na casa de Sáenz. Raba
respondeu que não ficava bem abandonar sua patroa. Na esquina do Colégio de
Freiras, Pancho pensou na possibilidade de caminhar os três quilômetros de
grama até o bar-armazém “La Criolla”. Queria ver suas amigas dali, fechar os
olhos e pensar noutra. Mas era muita distância para ir sozinho, com Juan Carlos
talvez se animasse. Não era dinheiro que lhe faltava, como havia mentido a seu
amigo. Apanhou do chão um ramo podado de eucalipto, era flexível, segurando-
o pelas extremidades Pancho arqueou-o levemente, a fibra cedia, Pancho
aumentou a pressão, a fibra cedia, mas começava a estalar. O galho não era
áspero como os tijolos, era suave; além disso, não pesava como a grade do
subcomissário, era leve; o ramo havia perdido a sua casca marrom e sua lisa
superfície luzia num verde-claro, Pancho aumentou a pressão de seus braços, o
galho estalava, Pancho afrouxou levemente o arco e depois voltou a pressionar
com decisão, o galho estalou mais uma vez e partiu-se. Às 2h47 Pancho voltou
para casa. No quarto de sua mãe todos escutavam, agrupados, no rádio, um
cantor de tangos. Pancho tinha sono e não se juntou à família. Deitou-se, pensou
que sua irmã dificilmente conseguiria emprego como servente se não podia botar
as mãos na água para lavar roupa ou pratos e na capital da província seis meses
sem salário seria muito tempo. Olhou para o catre do seu irmão, sem colchão.
Pensou que sua cama, ao contrário, tinha um estrado de molas e colchão de
estopa; havia-lhe custado mais de um mês de ordenado, e que só por capricho
não comprara uma cama de segunda mão. Arrependeu-se de haver gasto tanto,
mas seu irmão dormia num catre e ele não. Poucos minutos depois já estava
dormindo.
Na já mencionada quinta-feira, 23 de abril de 1937, Antonia Josefa Ramírez,
também chamada por alguns de Rabadilla, e por outros de Raba, acordou com o
canto dos pássaros aninhados no alfarrobeira do pátio. A primeira coisa que viu
foi o monte de objetos arrumados em seu quarto: frascos de água sanitária,
garrafões de vinho, latas de azeite, um barril de vinho do porto, réstias de alho
pendentes da parede, sacos de batatas, de cebolas, latas de querosene e barras de
sabão. Seu quarto de dormir também servia de despensa. Em vez de banheiro,
dispunha de uma antiga latrina rural e da pia do tanque, no fundo do pátio. Às
6h35 lavou ali o rosto, o pescoço e as axilas. Depois aplicou o líquido
desodorante avermelhado que a patroa havia comprado para ela. Antes de pôr o
avental cinzento, de manga comprida, sacudiu-se como um pássaro batendo as
asas, para que as gotas vermelhas secassem debaixo dos braços: a patroa lhe
havia dito que se não fizesse isso acabaria queimando a roupa. Acendeu o fogão
a lenha e tomou uma xícara de café com leite, pão e manteiga. Lavou camisetas,
cuecas e camisas do patrão até as 7h45. Acordou a patroa e preparou o café da
manhã para o casal Aschero e filhos. Arrumou a mesa na sala de jantar ao lado
da cozinha. Preparou torradas. Lavou os pratos do café da manhã. Varreu e
sacudiu a poeira do consultório, da sala de espera, do quarto de dormir dos
meninos, do quarto de dormir grande, da sala de estar, da sala de jantar e
finalmente varreu a calçada. Foi interrompida duas vezes pela patroa: teve que ir
ao açougue apanhar o pedido feito por telefone e ao armazém comprar queijo
para ralar. Um dos meninos derramou um copo de leite na sala da frente e a
patroa sugeriu aproveitar a oportunidade para lavar com água o piso de mosaicos
e dar-lhe uma nova mão de cera. Às 11h30 a patroa interrompeu-a novamente
pedindo-lhe que pusesse a mesa para o almoço enquanto ela tomava banho. Às
12h sentaram-se à mesa a patroa e seus dois filhos, um menino e uma menina.
Às 12h30 saíram os três rumo à escola, onde a patroa era professora e os
meninos cursavam as aulas. Nesse tempo, Raba limpou o banheiro, equipado
com todas as comodidades modernas. Às 13h10 o patrão chegou do hospital e
Raba lhe serviu o almoço preparado pela patroa. O patrão olhou para suas pernas
e, como de costume, Raba evitou aproximar-se dele. Às 13h45 Raba sentou-se à
mesa e comeu as abundantes sobras do almoço. Às 15h06 acabou de lavar os
pratos e limpar a cozinha. As tarefas a cumprir quando o patrão estava em casa
eram as mais pesadas, porque não podia entreter-se cantando, ao contrário das
manhãs, quando cantava várias melodias, em geral tangos, milongas e tangos-
canções ouvidos nos filmes de sua artista-cantora favorita. Refrescou-se com a
água da pia dos fundos e deitou-se para descansar. Pensou nos conselhos da
patroa. Segundo estes, as empregadas não deviam deixar-se acompanhar nas ruas
nem dançar mais de uma vez nos festejos populares com rapazes de outra classe
social. Deviam evitar principalmente os estudantes, os bancários, os caixeiros
viajantes, os comerciantes e empregados de lojas. Sabia-se que era costume
deles ficarem noivos de moças de família — “fazendo-se de santinhos, Raba” —
para depois, na sombra, tratar de seduzir as empregadas, que eram as mais
vulneráveis por causa de sua ignorância. A Senhora Aschero esqueceu de incluir
em sua lista os homens casados. Em compensação, recomendava-lhe que se
interessasse por algum rapaz bom e trabalhador, palavras com as quais designava
os operários de toda espécie. Raba pensou no filme argentino que havia visto na
sexta-feira passada, com sua atriz-cantora favorita, a história de uma empregada
de pensão que se apaixona por um pensionista, estudante de Direito. Como havia
conseguido que ele se apaixonasse por ela? A moça havia sofrido muito para
conseguir isso e Raba reparou em uma coisa muito importante: a moça nunca
tivera a intenção de namorá-lo, ele havia começado a gostar dela porque a via
boa e sacrificada, ao ponto de passar por mãe do filho de outra moça solteira,
filha da dona da pensão. Mais tarde o estudante, já advogado, defendia-a perante
a Justiça, pois a moça queria ficar com o filho alheio, já o adorando como se fora
a mãe verdadeira, mas no final tudo se resolvia. Raba decidiu que se algum dia
alguém de outra classe, superior à sua, lhe propusesse casamento, ela não iria
bancar a doida e rechaçá-lo, mas também não seria ela quem o provocasse. Além
disso, havia muitos rapazes bons e trabalhadores que gostavam dela: o padeiro
Minguito, o camponês Aurélio, o pedreiro Pancho, o jardineiro Chiche. No dia
seguinte, porém, talvez não pudesse ir à habitual seção de cinema das Sextas-
Feiras Populares porque os patrões tinham convidados para o jantar. Raba, sem
saber por quê, apanhou uma sandália no chão e a jogou com força contra uma
prateleira. Uma garrafa de água sanitária caiu e se quebrou. Raba recolheu os
pedaços, enxugou o chão e voltou para a cama. Às 16h levantou-se e pôs a mesa
para o lanche da patroa e dos meninos. Chamou a senhora de idade que ajudava
o patrão como enfermeira e lhe ofereceu a habitual xícara de chá. Às 17h28
acabou de lavar os pratos do lanche e foi à loja “Ao Barato Argentino”, para
apanhar panos de prato encomendados pela patroa. Nené lhe perguntou como a
estava tratando a nova enfermeira, já haviam mudado três desde sua partida.
Raba pensou em seu velho banco de escola, sentava-se na quarta fila com a atual
empregada do Prefeito Municipal, na segunda fila sentavam-se Nené e Kela
Rodríguez, na primeira fila Mabel Sáenz e Celina Etchepare. Mabel e Kela já
estavam prestes a se casar. O irmão de Celina se casaria com Nené, apesar do
caso com Aschero? Antigamente, Nené lhe dava os vestidos usados. Quantas
pessoas em Vallejos sabiam do acontecido? Raba pensou em pedir a Nené
alguma outra peça de roupa velha. Nené lhe tinha dado tantas coisas bonitas, e,
como paga, por acaso ela não havia se portado bem? Celina porém, lhe havia
prometido recomendá-la à mãe de Mabel para que a empregasse como
arrumadeira em sua casa, já tinham cozinheira e trabalharia menos, e o Doutor
Aschero não ficaria mais olhando para suas pernas. Tocava o sino do recreio e
corriam Mabel, Celina e Nené para saltar corda, um, dois, três, quatro, cem
saltos até o outro toque de sino: Nené fez o embrulho com as toalhas e olhou-a,
mas não se falaram como antigamente. Sim, Nené a havia recomendado na casa
de Aschero, haviam-na empregado como servente graças à enfermeira, graças a
Nené, graças à sua companheira de escola. E os vários objetos e roupas, usados,
que recebera de presente, quando Nené trabalhava com o Doutor Aschero, um
pulôver, um vestido, um casaco, sapatos… Raba saiu da loja sem pedir a Nené
roupa velha. Às 17h50 começou a passar a ferro as camisas lavadas pela manhã.
Às 19h53 pôs a mesa para o jantar preparado pela manhã. Às 20h21 foi à
chácara do vendedor de galinhas apanhar os dois frangos que o doutor havia
ganho de presente. Às 20h40, Pancho, o pedreiro, aproximou-se dela e lhe falou.
Raba procurou esconder o seu entusiasmo. Pancho usava uma camisa de mangas
curtas de onde saíam os braços musculosos cobertos de espesso pelo, o colarinho
da camisa estava aberto e se entrevia o peito coberto do mesmo pelo. Raba, sem
saber por quê, pensou num temível gorila, com as sobrancelhas espessas mas
bem delineadas, as pestanas arqueadas e o bigode cobrindo em parte a grande
boca. A patroa não ficaria aborrecida se a visse dançar com ele na festa, Raba
caminhava ao lado do pedreiro, de vez em quando retocava o penteado, os
cabelos nasciam na metade da testa de Raba, lisos, excessivos e da cor de terra.
Às 20h52 passou sozinha pelo Cine Teatro “Andaluz”, o cartaz anunciava para o
dia seguinte, nas Sextas-Feiras Populares, uma comédia argentina. Apesar de não
passarem um filme com sua atriz-cantora favorita, iria ao cinema com a servente
do Prefeito Municipal, como todas as sextas-feiras, cinco centavos as damas e
dez os cavalheiros. Mas se os convidados para o jantar se atrasassem e ela não
pudesse ir ao cinema? Isso já não lhe importava quase, e a saída no domingo?
Pancho estaria na festa, havia manifestado o desejo de dançar uma vez com ela.
Raba pensou, sem saber por quê, nos pássaros da alfarrobeira do pátio, já deviam
estar encolhidos em seus ninhos, bem abrigados um contra o outro. Sentiu
desejos de estar em sua cama, bem abrigada: numa noite de frio sua patroa havia
entrado no seu quarto, para apanhar vinho do porto no barril, que serviria a
convidados do marido, e ao ver Raba deitada lhe havia perguntado se precisava
de outro cobertor. Raba sentiu desejos de estar em sua cama bem abrigada, se a
patroa entrasse em seu quarto contaria a ela o encontro com Pancho. Às 21h20
sentou-se para comer as sobras do jantar. Às 22h15 acabou de lavar os pratos e a
cozinha. Raba pensou que o dia havia sido leve, sem cortinas para lavar ou pisos
de madeira para raspar. Às 22h25 o patrão lhe pediu que fosse comprar um maço
de cigarros no bar. Às 23,02 deitou-se e pensou que se casasse com Pancho se
conformaria em morar numa casa de uma só peça com teto de zinco, mas
proibiria que se guardasse no quarto objetos indevidos: exigiria que Pancho
construísse pelo menos um puxado para guardar garrafas de água sanitária,
garrafões, barris, sacos de batatas, réstias de alho e latas de querosene. Lembrou-
se, de repente, de que Pancho era amigo do irmão de Celina, e o irmão de Celina
namorava Nené. Pensou que havia procedido mal com Nené, não havia
cumprido sua promessa. Raba juntou as mãos e pediu perdão a Deus. Recordou
as palavras de Nené: “Se me fizeres uma falseta, Deus te castigará.”
fascículo
6

…una lágrima asomada


yo no pude contener.

ALFREDO LE PERA

Acampamento provisório do circo cigano, Coronel Vallejos, sábado, 25


de abril de 1937
Eu não te conheço, vieste aqui e esta pobre cigana te disse tudo, por apenas
um peso. Mas terás que me mandar todos os amigos, já que vou acertar tudo a
teu respeito. Te digo o passado, o presente e o futuro. Só queres saber do futuro?
te digo então somente o futuro, do presente pelo menos me perguntam sempre
isso quando vêm à tenda: se a pombinha os quer ou não. Ou és tão bonito que
não te importa? porque a tens segura Pelo mesmo preço, mas não sou eu que
posso te dizer, és bonito porém atrapalhado, as cartas é que irão dizer. A vós, no
entanto, não te importa muito que ela te queira ou não, porque sabes que outro
como vós é difícil de encontrar, vós sois como todos aqueles que nascem
bonitos, e pela morte tampouco te interessas porque não sois velho e se vê que
estás são, claro, o que irás querer saber é se irás ter dinheiro, todo o dinheiro que
quereis. Não é verdade que adivinhei antes mesmo de consultar o baralho? Mas
para te ler o futuro primeiro me diga se quereis que te conte tudo ou apenas o
bom. Vós que sois tão bonito e com essa jaqueta de couro tão cara, será que irás
dar a esta pobre cigana cinquenta centavos mais? dessa maneira te conto o bom e
o mau. Corta o maço em dois, com a mão esquerda. Agora corta outra vez, com
a mão esquerda, em três, que são o passado, o presente e o futuro, e agora
embaralhamos e nos ficou… O Rei de Copas, de pés para cima, olhe como tem a
coroa empurrada até os olhos para que não caia, e a capa de veludo lhe pesa, mas
o abriga — um homem moreno já meio velho que não gosta de ti, está te fazendo
mal, o que mais quereis na vida, se não me engano, é… a gaita, mas isto ele não
te dará —, e ao lado nos ficou também de pés para cima a Dama de Espadas,
veja como ela tem a mão solta, vai te dar algo, mas cuidado porque ela está de
pés para cima, envolta nesse manto bordado de ouro, é um manto vermelho,
porém atenção: nas mangas você vê o forro violeta, como que para um velório, e
o cabelo? — nem loura nem morena nem ruiva, conheceis alguma pelada? não
vejo seu cabelo — e por sorte aqui ao lado está o Dois de Espadas, olhe como
são bonitas as duas espadinhas azuis, e o cabo de prata está do teu lado — e te
anuncia uma viagem por terra — conheceis alguma mulher de cabelos pintados
ou com uma peruca que há pouco fez uma viagem? ajuda-me, pois não
compreendo por que tem a cabeça raspada… Sim, já sei que no baralho ela tem o
cabelo negro, mas já a vi de cabelo raspado quando cortaste o maço.
Se não conheces nenhuma de cabelo raspado, quem viaja sois vós, irás fazer
uma viagem para escapar do que contra ti estão preparando o velho e a careca.
Se eu a visse sem olhos te diria que é a Desgraça, que corre atrás de ti e te
alcança, a ela pouco importa que sejam velhos, ou jovens, ou criancinhas,
bonitos ou feios, a Desgraça é cega, mas a Dama de Copas raramente sai assim
pelada. Deixa-me embaralhar e não olhes os naipes enquanto os embaralho,
senão farás chorar os mortos. Sabeis quem é o velho moreno?
Então o pai da garota com quem andas não te quer em sua casa, e a Pelada o
ajuda, a pequena é loura ou morena? Estás certo de que não se pinta de morena
ou não usa uma peruca negra? Agora corta novamente em três, com a mão
esquerda Dois de Paus, os dois pauzinhos, olha que espinhas negras, é uma carta
feia — alguém te vai trair, mas não será nem o velho nem a pelada — mas está
ao lado do Ás de Espadas, que saiu à direita, tens sorte, o punho de prata está
voltado para ti, e olhe as correias, como o rei dos ciganos gostaria delas, sabeis,
meu pombo, que o rei só tem essas tendas sujas, se eu pudesse lhe daria de
presente uma espada como esta — sim, quem menos vós esperais é que irá te
fazer uma sujeira, mas quando estiveres na fossa verás que não há mal que não
venha para o bem — e agora apareceu uma loura que te quer: a Dama de Ouros
mostra as pernas, te faz sinal com a mão direita — oba, te trás sorte, mas é
preciso ter cuidado, não gosto das louras, este conselho vai de graça, nada tem a
ver com os naipes, mas as louras têm a carne branca para que acreditem que têm
o coração branco, ponhas o coração dela na mão, irás olhá-la, espera, o que vejo
é que ela arranca o próprio coração e de dá, nunca deveis soltar o coração podre
da loura, agarra-o com força! um espírito me contou que uma loura teve o
coração partido como um ovo e que de dentro dele saiu um — passarão bicudo
— mas a Daminha, mesmo que seja loura, te vai ajudar, são as cartas que dizem,
mas eu não gosto dela Não, a linha da vida é depois, tens que esperar o último
corte, de treze naipes, agora volta a cortar em três, como antes.
O Sete de Copas — casamento! mande-me doces, meu pombinho, mas se é
você o fisgado, melhor que não sejas, porque as copas estão dando voltas, o
vinho se derrama no chão, que pena, porque gosto muito de vinho, meu pombo,
pois faz bem à saúde, mas quando se derrama no chão deixa um cheiro
asqueroso, sois vós que casais? não, porque aqui do lado está me aparecendo
uma mulher velha, a Dama de Paus traz uma faca na mão direita, mas é para te
defender, e o Seis de Ouros Não, meu pombo, o Seis de Ouros só significa
dinheiro quando sai sozinho, mas ao lado desta Dama quer dizer que os mortos
levam o dinheiro, fica apenas a Sinceridade Como gostas dos seis círculos
dourados acreditas que sejam moedas de ouro, mas quando estão ao lado de uma
dama ou de um valete quer dizer que a dama ou o valete te faz bem, não te dão
dinheiro porque não têm muito, o que te podem dar é a sinceridade, que é o ouro
dos espíritos.
Não, não é a tua mamãe, esta é velha mas não gosta de ti como filho, mas é
boa, e a vós, meu pombo, saem mulheres por todas as partes, será por causa da
tua jaqueta, ou será a vara, meu pombo? olhe que estás feito um churrasco, não
gostarias de ir com o circo, aqui o rei nos casaria logo, e, te digo isso por
brincadeira, apenas, agora corta outra vez. Agora, sim, vai aparecer a linha da
vida, terás que escolher treze destas cartas espalhadas, mas não as vire, que os
mortos não vão gostar, havia uma cigana que virava as cartas e os mortos
puseram veneno em sua comida, porque quando um vivo vira uma carta antes do
tempo… um morto pode cair do céu.
Sim, vai-se para o inferno, porque se viras as cartas antes do tempo um
morto é tentado e olha lá do céu e vê na terra o corpo nu de alguém que está se
banhando e lhe vêm maus pensamentos, pecaminosos, e os santos mandam-no
para o inferno, e lá fica queimado por tua culpa.
Agora, sim, podes começar a virá-las, e forma uma fila, o Cinco de Espadas
é Falatório, as más línguas cortam como o gume do ferro, cortam e ferem — mas
isso não te importa, são as mulheres que o Cinco de Espadas mata, e quanto a
vós, quanto mais falem de ti, mais te convém, não tenho razão? — e o Dois de
Ouros é noivado — pela primeira vez vejo que vais te apaixonar, porque carta de
amor não te saiu ainda nenhuma, porco asqueroso, tanta mulher e não amas
nenhuma — mas não vejo aquela de quem irás gostar, me parece que. não é
nenhuma das que já saíram, pois se for uma dessas pobretonas, meu pombo, está
muito mudada pela vida, não a reconheço Não, o Dois de Ouros, também não é
dinheiro, é noivado, os dois de ouros grandes são os corações, os dois iguais, em
vez das moedas grandes de que vós gostaríeis — não! pombinho, porque
escolheste esta carta tão feia, o Quatro de Paus é enfermidade grave, mas se
junto te sai uma Dama ou um Valete ou um Rei, estarás salvo, espera que vou
espargir um pouco de pó cigano, pega neste pó da bolsinha, e agora vira a outra
carta... meu pombo, o Quatro de Ouros são lágrimas, mas pode ser que ainda te
salves, pode ser que a carta seja para outro, depressa, decida-te e vira a outra…
Te digo que não, as únicas cartas de ouros que anunciam dinheiro são o Ás e o
Seis, e nenhuma delas saiu para vós, se alguma cigana te disse coisa diferente
apenas te enganou, para que ficasses contente, porém vós me pedistes que eu te
dissesse tudo, o bom e o mau. Agora cala-te e vira a carta que se segue.
O Valete de Paus! te salvaste, tiras-me o punhal do coração, meu pombinho,
por vos ter salvo posso segurar, eu, a Desgraça e as Lágrimas, joga-me um pouco
deste pó no pescoço e nos ombros, espera que desabotoo o vestido, rápido… por
quê? tens asco?… não vás ser o demônio que me anunciou a morta Caracola, dê-
me rápido essa cinza, que te importa que seja cinza de ser humano, é cinza de
cadela… obrigada… obrigada… meu pombo, porque a defunta Caracola me
disse que eu tivesse cuidado com os demônios, e sem que te dês conta um deles
pode meter-se dentro de vós para, assim, entrar na minha tenda, isso pode
acontecer com qualquer um.
A doença? qual? sim, deixa que eu olhe, o Quatro de Paus, mas não sei se
agarra um moreno, o Valete de Paus — um homem muito forte e não é mau —
vira a outra carta que se segue… o Seis de Paus, olha esses galhos cheios de
ramos novos, bem tenros, e esses espinhos e estes pés para cima! é a carta dos
beijos, as carícias, o amor meio louco, e estes pés para cima, deve ser aquela que
te trai, mas não entendo nada, vira a outra carta… a coruja! não me mostres a
coruja!, aí, a tua morte não me mostres, que não sois vós… tem cuidado porque
alguém vai morrer de morte violenta, o Seis de Espadas depois dos Paus é morte
com gritos — há alguém que te quer matar? Vira a outra carta… novamente a
Dama de Copas! mas agora sai de cabeça para cima Como que não saiu? Claro
que sim! é a Pelada, já te disse que ela está te perseguindo Tens razão, é a Dama
de Espadas, estou ficando velha, viste, pombinho, é por isso que não me
quereis… então é a Dama de Copas? eu a vejo morena e não é má, mas se tens
sorte é ela quem vai rebentar, rápido, a outra carta? o Ás de Espadas de pés para
cima… olha-me, meu amor, olha-me, que quero te ver no fundo dos olhos para
ver se compreendo alguma coisa, às vezes preciso olhar numa bacia de água ou
num jarro de vinho, ou num vidro, ou em qualquer coisa que me sirva de
espelho, não sei… mas são muitas cartas feias juntas, se o Ás de Espadas tivesse
saído certo já estavas definitivamente salvo, mas ainda não acabou a má sorte,
deixa que eu te olhe nos olhos, gosto de olhos castanhos-claros, mas não vejo
nada, só vejo a mim, meu pombo, se soubesse como eu já fui bonita, quando um
pombo entrava na tenda, um pombo como vós, eu deixava sempre uma cigana
do lado de fora para acudir quando eu começasse a gritar, pois todos se
engraçavam comigo!… tira outra carta e não te esqueças que alguém vai tombar
de morte violenta, tem cuidado, não te metas em perigos, vejo sangue e ouço um
grito de alguém ferido de morte, tira outra carta… por fim aparece algo bom, o
Três de Copas é alegria, vais ter uma grande alegria depois de tantas penas, vira
uma outra carta!… o Dois de Espadas, outra vez a viagem. Não, bobo, não é a
viagem para o outro mundo, é uma viagem por terra e não muito longa, e te fará
bem, outra carta ainda, que só faltam duas!… o Cinco de Copas e saiu certo, é
boa carta, quer dizer que vais conversar muito com alguém, e os dois se porão de
acordo, já é a penúltima carta, lindo louro, quer dizer que serás feliz quando
ficares velho, estarás bem acompanhado, e agora, lourinho, toca nas cinzas, põe
as pontas dos cinco dedos da mão direita na bolsinha… porque a última carta é
importante… escolhe… vira… A Dama de Paus, a velha!… e novamente saiu
certa, ótimo, meu pombo, quer dizer que morrerás velho ao lado de tua mulher
que também estará velha como vós, porque a Dama de Paus é uma velha como
eu…
Ficaste contente? achas muito um peso e cinquenta por te mostrar nas cartas
toda a tua vida, inteirinha? Não, eu é que vos agradeço, e manda-me teus
amigos, que sejam todos como vós, alma que me sais do corpo
A Dama de Espadas pelada, será que alguma cadela morreu queimada? a
cadela queimada tinha pelo, o carvãozinho, a cinzinha, a Pelada ou é uma
Mentira de pomba prenhe que não está prenhe ou é uma Vingança de alguma
pomba má… não, a cabeça pelada está fria, a cuca pelada não tem o pelo
quentinho, e a cuca fria não gosta de ninguém, como o pombo, não quis ficar
comigo porque o pombo não gosta de ninguém, nem de mim nem das outras, a
cuca parece sã mas está perdida, está toda podre por dentro… é isso, a cabeça
estava sã mas o diabo obrigou-a a abrir a boca e cuspiu dentro, pombo estúpido
não sabe que a cusparada do diabo é pus… e lhe caiu todo o cabelo.

Festejos populares realizados no domingo, 26 de abril de 1937, no Prado


Gallego, sua apresentação e derivações
Hora de abertura: 18h30 horas.
Preço das entradas: cavalheiros, um peso; damas, vinte centavos.
Primeiro número dançante executado pelo conjunto “Os Harmônicos”:
tango “Don Juan”.
Dama mais admirada no curso da noitada: Raquel Rodríguez.
Perfume predominante: o que exalavam as folhas dos eucaliptos que rodeiam
o Prado Gallego.
Adorno usado pela maioria das senhoras: fita de seda colocada de modo a
realçar a ondulação permanente da cabeleira.
Flor escolhida com mais frequência pelos cavalheiros para colocar na
lapela: o cravo.
Número dançante mais aplaudido: a valsa “Da Alma”.
Número dançante de ritmo mais ligeiro: passodoble “O Relicário”.
Número dançante de ritmo mais lento: a habanera “Tu”.
Momento culminante da noite: durante a execução da valsa “Da Alma” a
presença de oitenta e dois pares na pista descoberta.
Susto maior sofrido pelos presentes: golpe de vento, às 21h04, anunciando
falsamente um possível aguaceiro.
Sinal para indicar o fim da noite: dois breves piscares das luzes, às 23h30.
Hora de fechar as portas: 23h45.
Dama mais esperançosa entre os presentes: Antônia Josefa Ramírez,
também conhecida como Rabadilla ou Raba.
Acompanhante de Raba: sua melhor amiga, a servente do Prefeito Municipal.
Primeiro número dançado por Raba: a ranchera “Mi Rancherita”, tendo
como par o cavalheiro Domingo Gilano, também conhecido como Minguito.
Cavalheiro que participou dos festejos com o propósito de irromper na
existência de Raba: Francisco Catalino Páez, conhecido também como Pancho.
Primeiro número dançado por Raba e Pancho: o tango “El Entrerriano”.
Primeiro número dançado por Raba e Pancho com os rostos encostados: a
habanera “Tu”.
Bebidas consumidas por Raba e pagas por Pancho: duas laranjadas.
Condição imposta por Pancho para lhe falar de um assunto muito
importante para ambos: acompanhá-la até a casa sem a presença da amiga.
Condição imposta por Raba: primeiro acompanhar sua amiga até a casa do
Prefeito, de onde seguiriam até a casa do Doutor Aschero, ela e Pancho
sozinhos.
Lubar designado por Raba para a conversa: a porta da rua da residência do
Doutor Aschero.
Circunstância que desagradou a Pancho: o fato de a casa do Prefeito
encontrar-se no trecho asfaltado e bem iluminado do povoado, a apenas duas
quadras da residência do Doutor Aschero, afastada da zona das ruas de terra,
arborizada, e escura, na qual se encontra o Prado Gallego.
Dama que ficou preocupada em ver Raba afastar-se na companhia de
Pancho na direção da residência do Doutor Aschero: a servente do Prefeito
Municipal.
Circunstâncias atmosféricas que facilitaram a execução dos propósitos de
Pancho: a temperatura agradável, apenas fresca, de 18 graus centígrados, e a
ausência de lua.
Circunstância casual que facilitou os ditos propósitos: a aproximação de um
cachorro vira-lata, de aspecto temível, que assustou Raba e deu lugar a uma
inequívoca demonstração de coragem por parte de Pancho, o que despertou em
Raba uma cálida sensação de amparo.
Outra circunstância casual: a existência de um edifício em construção nas
proximidades, para chegar ao qual só era necessário desviar-se uma quadra do
caminho direto.
Assunto importante do qual Pancho falou a Raba, como prometera: o desejo
de estar junto dela, desejo que, segundo ele, lhe era uma obsessão durante os
dias e as noites.
Razão de que se valeu Pancho para fazer com que Raba passasse pela
construção da nova Delegacia: a necessidade de lhe falar um pouco mais, e não
na porta da rua da residência do Doutor Aschero, para evitar possíveis
maledicências.
Pensamentos predominantes de Pancho diante de Raba, na escuridão:
capinzal, o mato que precisa ser cortado, vai chegar o capataz, segure a pá
Pancho, corte a grama com a foice, está escuro e nem os gatos podem nos
enxergar, Juan Carlos salta a cerca dos fundos, não passa entre as moitas,
“quando estiveres com uma garota num lugar onde ninguém te vê, não gastes
tempo falando, para que isso? só para dares um fora”, as raízes das árvores na
terra rajada durante a seca, a terra está cheia de pó, no meio da testa nascem
estes teus cabelos duros, cor de terra, e esse mato eu o arranco de uma só vez,
pela raiz, uma raiz peluda com torrões, o mato não cresce na terra seca, o cabelo
de Raba é mais bonito que a raiz do capim, a gente pode acariciá-lo sem
encontrar qualquer torrão, como Raba é limpinha, tem os braços morenos, as
pernas ainda mais morenas, será que suas pernas são peludas? não, um
pouquinho de penugem, vai à loja sem meias e a carne de Nené deve ser bem
macia, você não se deixa beijar? não sabe nem dar um beijo, tem um pouco de
bigode, pés negros, cara negra, será que devo lhe fazer uma carícia? maciazinha
pobre negra, passou os tijolos para o outro operário, tiramo-los do caminhão, de
dois em dois e de três em três, entrego-os e eles me raspam, são duros e secos
como a argamassa, “precisamos de sua impressão digital” e o dedo lambuzado
não deixava nenhum sinal no cartão, “você não tem mais impressões digitais, os
tijolos comeram-nas todas”, somente o mindinho, o dedo mais preguiçoso, te
acaricio e és lisinha, “se você não atropelar, ela vai pensar que você é um
bobalhão”, vou lhe dizer que a amo muito, talvez ela acredite, e que é linda, me
disseram que és muito trabalhadora, que mantém sempre limpa a casa da patroa,
que mais posso dizer a uma negra como esta? como a negra é mansinha, não
sabe de nada, me dá pena aproveitar-me dela, “se você não entrar de sola…”,
acredita que eu gosto dela, uma penugem suave, carreguei a grade por mais de
duas quadras, se quiser posso te apertar e te quebrar, veja só a força que tenho, é
para te defender dos cachorros, como é mansinha a minha negra, mas se
reclamas dá no mesmo, olha só a força que tenho…
Pensamentos predominantes de Raba diante de Pancho, na escuridão: a
patroa não me vê, não vou contar a minha amiga, não dancei com os rapazes do
Banco, não dancei com estudantes, não dancei com os que a senhora me disse
para nunca dançar, Pancho não é desses que depois de noivar com as outras se
aproveitam das empregadas, é um rapaz bom e trabalhador, se a patroa me
mandar não me faço de rogada, agarro logo a vassoura com as duas mãos
começo a varrer, com o espanador tiro a poeira dos móveis, com o trapo
molhado e sabão vou limpando o chão, o sabão e a bacia no tanque de lavar
roupa, ele comprou uma entrada de um peso cavalheiros, como estava geladinha
a laranjada, e eu entrei como dama, e paguei vinte centavos, as garotas que vão
ao baile, mesmo que não sejam mais que empregadas domésticas, compram
entradas de dama, igual às caixeiras, ou às garotas ajudantes de modista, ou às
senhoritas que trabalham como professoras, ele tem calos nas mãos, me faz
cócegas com estes calos tão duros, como deu um chute tão forte no cachorro! se
um dia o patrão tentar se aproveitar de mim corro e chamo Pancho, esqueceu-se
de colocar barbatanas no colarinho, as pontas estão levantadas, quando eu o vir
outra vez vou lhe dar algumas barbatanas do patrão, ai que cocegazinha gostosa,
que beijos demorados que ele dá, será verdade que gosta de mim? me agrada
depois que me beija assim tão fortemente e me acaricia bem devagarinho…
Novos sentimentos experimentados por Raba na noite de 26 de abril de 1937
ao despedir-se de Pancho na porta da rua da residência do Doutor Aschero: o
desejo de ver Pancho aparecer na noite seguinte numa calçada escura, sem
barbatanas no colarinho da camisa, para assim poder colocar as subtraídas ao
Doutor Aschero.
Itinerário das lágrimas de Raba: suas faces, seu pescoço, as faces de
Pancho, o lenço de Pancho, o colarinho da camisa de Pancho, a grama, a terra
seca do pasto, as mangas do vestido de Raba, o travesseiro de Raba.
Flores prematuramente murchas na noite de domingo, 26 de abril de 1937,
devido à brusca queda da temperatura: os lírios brancos e as rosas brancas do
jardim do Doutor Aschero e algumas flores silvestres brotadas nos pequenos
vales nos arredores de Coronel Vallejos.
Insetos noturnos não afetados: as baratas do edifício em construção, as
aranhas das teias tecidas entre tijolos sem reboco e os besouros cascudos voando
em torno da lâmpada do meio da rua e pertencente à iluminação municipal.
Do Dr. Juan José Malbrán
Coronel Vallejos, Província de Buenos Aires
23 de agosto de 1937

Ao Dr. Mário Eugênio Bonifaci


Sanatório “São Roque”,
Cosquín, Província de Córdoba

Respeitável colega;
Antes de mais nada, peço-lhe desculpas pela minha demora em lhe
responder, mas acredite que tal se deu devido ao meu desejo de informar-me
melhor sobre o caso de Etchepare. Devo confessar-lhe que não compreendo a
reação do rapaz, eu o conheço desde que nasceu e o considerava de caráter forte,
teimoso sem dúvida, mas sempre em seu proveito. Não sei por que não segue o
tratamento. E a pressa em voltar também não sei a que atribuir. Negócio de saias,
com certeza. A respeito, só me lembro de um detalhe curioso: tomei
conhecimento da gravidade do estado de Etchepare graças a uma carta anônima,
evidentemente enviada por uma mulher, a qual, em letras de forma que traíam o
pulso feminino, me dizia que Juan Carlos não queria vir ao meu consultório para
que eu não soubesse que ele estava mal, que havia cuspido sangue em sua
presença e que eu devia afastar Juan Carlos do contato dos seres queridos, coisa
que estes não tinham a coragem de dizer. O mais interessante na carta anônima é
que ela revelava um dado curioso, quando dizia que Etchepare se sentia
realmente mal entre uma e três da manhã.
De todos os modos, acredito que os senhores já não terão muito o que fazer,
porque, segundo a conversa que tive com sua mãe, ontem, eles não poderão
pagar os gastos do sanatório além da primeira quinzena de setembro. Deixo a seu
critério, agora ou mais tarde, dar tal notícia a Etchepare. Para sua informação,
devo dizer que a mãe é viúva e não tem quase meios, vivendo bem, mas
modestamente. Por sua parte, ele não tem seguro nem pensão, e a licença do
emprego é sem direito a salário. Além disso, a mãe me disse que o rapaz nunca
contribuiu com um centavo do seu ordenado para a manutenção da casa, de
maneira que não acredito que ele queira deixar imediatamente Cosquín para
poupar dinheiro da sua mãe. Isso lhe parece ser indiferente. Realmente não
compreendo por que não aproveita o tratamento.
Sempre ao seu dispor, cordialmente
Juan José Malbrán
Médico Clínico
fascículo
7

… todo, todo se ilumina…

ALFREDO LE PERA

Cosquín, sábado, 2 de julho de 1937


Minha querida:
Como vês, cumpro a minha promessa, claro que um pouco mais e se vencia o
prazo, pois amanhã a semana já termina. E você, como vai passando? Tenho
certeza de que não se lembra mais deste que lhe escreve, embora parecesse que
ias precisar de um lençol para enxugar as lágrimas, para não falar do fungar da
despedida, mas estou certo de que esta noite mesmo se me descuido acabarás
indo dançar. Afinal de contas, nem chegaste a chorar tanto assim, apenas umas
lagrimazinhas de crocodilo, o que para uma mulher afinal não custa muito.
Minha riqueza, que estás fazendo a esta hora, neste sábado? Gostaria de
saber, será que estás fazendo a sesta? Bem enroladinha? Quem me dera ser
travesseiro para estar perto de ti. Bolsa d'água para esquentar os pés, melhor não,
pois eles podem estar sujos, prefiro ser travesseiro. Pois assim poderás me
consultar e quem sabe aquilo de que tomarei conhecimento, uma cigana velha
me disse que desconfiasse das louras, que vais perguntar ao travesseiro? Se
perguntares quem gosta de ti ele naturalmente responderá que sou eu, como
mentem os travesseiros… Bem, garota, te deixo por um momento porque estão
chamando para o chá, e um descanso não me fará mal, porque estou escrevendo
desde que acabei de almoçar.
Bem, aqui estou de volta, veja como me tratam bem, tomei duas xícaras de
chá com três tortas diferentes, você que é tão gulosa aqui estaria em seu
elemento. Amanhã, domingo, vais ao cinema? Quem vai te comprar os
caramelos?
Loura, agora vou cumprir a promessa de te contar como é este lugar. E veja,
dou-te de presente se o quiseres. Tudo muito bonito mas me aborreço como um
cão. O Sanatório é todo branco, com teto de telhas avermelhadas, como quase
todas as casas de Cosquín. O povoado é pequeno, e durante a noite, quando um
desses magrelos tosse, ouve-se a dois quilômetros de distância, tal o silêncio que
faz aqui. Também tem um rio, que vem das nascentes da serra, terias que ver
outro dia quando aluguei uma charrete e fui até La Falda, ali a água é fria e o
lugar está todo arborizado, mas quando o rio chega a Cosquín fica morno,
porque aqui tudo é seco e não cresce nada, nem capim, nem árvores que
protejam do sol. Escrevi este parágrafo igualmente em todas as cartas, porque
senão me dá câimbras no cérebro de tanto pensar.
Que devo dizer mais? Na semana que vem, quando começam as férias de
julho, dizem que aparecem por aqui muitos turistas, mas parece que aqui no
povoado ninguém fica para dormir, com medo do contágio, mas mais podres do
que eles não existe ninguém, desculpe-me a expressão. Veja, essa temporada no
Sanatório acaba logo, porque na verdade é muito dinheiro que se gasta apenas
por precaução, nada mais que precaução, e lhe digo: se todos fizessem
radiografia, Vallejos se esvaziava de repente, e todos estariam aqui comigo.
Bem, que tudo seja como a velha deseja, que o seu neném fique definitivamente
curado. E você, loura, é melhor que te cuides bem porque deixei aí meus espiões
a postos, nada de maus passos, porque vou me inteirar de tudo, não acreditas? Se
fizeres um embrulho muito caprichado com algum desgraçado aí, vou saber mais
depressa do que imaginas. E lhe digo que não sei perdoar uma sujeira, nunca te
esqueças disso.
Boneca, o papel está acabando, e nada mais te conto a respeito daqui porque
já podes imaginar em que se resume minha vida: descansar e comer.
Quanto às enfermeiras, são todas a prova de bala, basta dizer que a mais
jovem foi companheira de escola de San Martin.
Te beija até que digas basta,
Juan Carlos
P.S. — Responda pela volta do correio, como prometeu, me aborreço mais
do que podes acreditar. Pelo menos três páginas, como eu estou te mandando.

Sob o sol do balcão, junta seus rascunhos, põe a manta de lado, deixa a
espreguiçadeira e pergunta a uma jovem enfermeira qual é o número do quarto
do velho com quem tomara chá numa das mesas do refeitório de inverno. A
porta do quarto número quatorze abre-se e o velho professor de latim e grego
convida seu visitante a entrar. Mostra-lhe as fotografias de sua esposa, filhos e
netos. Depois, faz uma referência aos seus oito anos de permanência no
Sanatório, ao caráter estacionário de sua moléstia e ao fato de não conhecer
nenhum dos seus três netos, por diversos motivos, principalmente econômico.
Por último, apanha os rascunhos das cartas do seu visitante e, como havia
prometido, corrige a ortografia das três cartas: a primeira — de sete folhas —
dirigida a uma senhorita, a segunda — de três folhas — dirigida à família, e a
terceira — também de três folhas — dirigida a outra senhorita.

Cosquín, sábado, 27 de julho de 19S7


Minha querida:
Tenho diante de mim a tua carta, como a esperei, está datada de sexta-feira
última, 8, mas o selo do correio de Vallejos é do dia 10, por que demoraste tanto
em despachá-la? Como verás, estou por conta.
Primeiro chegou carta de minha irmã, terias que ver que carta apressada, uma
folha e meia escrita na sala de aulas enquanto os alunos faziam um desenho, será
que lhe desenharam as pernas curtas? Estou fulo com ela. A velha me havia dito
que me escreveria sem falta, mas agora voltou atrás, porque tem a mão muito
trêmula e diz que fica com vergonha de me mandar garatujas. Mas se é carta da
minha velha, que me importam as garatujas? Minha irmã é que caçoa dela e a
atrapalha.
A questão é que em quase vinte dias que estou aqui só recebi essa carta de
minha irmã e agora esta sua. E agora deixe que fale mais baixo, porque neste
momento estou passando os dedos pelo seu cangote, e se me deixares desabotoo
o botãozinho de detrás de tua blusa, e desço a mão até embaixo das costas e
esfrego essa pelezinha mimosa que tens. Que linda carta me escreveste… é
verdade tudo o que me dizes?
Aqui, continuo na mesma, não te dou os detalhes do que fazemos todo dia
porque não gosto de falar disso. Precisavas ver as coisas que acontecem neste
hospital, pois esse negócio de Sanatório é apelido. Há até gente que está
morrendo, eu não queria acreditar, mas outro dia uma garota de dezessete anos,
que não aparecia mais no refeitório, morreu no quarto. E tenho que aguentar
tudo, e por causa disso vou acabar ficando doente de verdade, da raiva que tudo
isso me dá. Se deixo que me controlem tudo estou perdido, porque não te dão
corda para nada e porque, são tantos os médicos, que se atrapalham e acabam
confundindo os doentes e nos tratam como se amanhã mesmo fôssemos esticar a
canela. Por isso é que os tapeio, e não digo tudo o que faço, o que, no final, é
muito pouco. Acontece que a água do rio Cosquín é morninha e a sesta está
melhor do que nunca, mas o regulamento obriga todo mundo a fazer a sesta ou,
como grande farra, estirar-se ao sol na espreguiçadeira, no balcão de inverno,
com um cobertor de Córdoba três vezes mais pesado do que o nosso. Mas este
corpinho escapa e vai banhar-se no rio. Tomo banho como Adão, porque não
trouxe calção, e como não posso levar uma toalha, tenho que me secar ao sol,
simplesmente. Se saísse com uma toalha do Sanatório o porteiro me barraria
imediatamente. Mas é formidável o sol das montanhas, e, se não há vento, você
consegue secar-se sem tiritar, sacudo a água do corpo como os cachorros e
pronto. Que mal isso me pode fazer? Se faço a sesta, é pior, porque de noite
começo a me virar na cama, sem sono, e acaba me vindo à cabeça cada
pensamento que é melhor não falar.
Estas coisas digo somente a você, à velha não conto nada, mas não aguento
mais ficar aqui, porque aqui ninguém se cura. Se você fala com alguém daqui,
ninguém te vai dizer que pensa em voltar para casa, só se pensa nos gastos,
porque o Sanatório é o mais caro de Cosquín. Estão sempre falando em se mudar
para uma pensão particular e em ser tratados por um médico de fora, ou alugar
uma casinha e trazer a família. Existe também um hospital em Cosquín, e um
dia, não sei o que me deu, fui lá vê-lo, que sei eu, são coisas que acontecem com
os que vivem aqui chateados, minha vida. Gosto, com todo coração, de chamar-
te minha vida, pois é, e quando voltar a te ver me farás com que esqueça tudo o
que vi, porque és outra coisa tão diferente.
Agora vou te contar a respeito do hospital para os pobres, conto para que
saibas o que é aquilo, mas depois me prometerás nunca mais falar no assunto,
você que está sã não pode imaginar o barulho que fazem quando tossem. Neste
Sanatório ouve-se um pouco de tosse, no refeitório, mas felizmente existe alto-
falante com discos ou o rádio, que toca enquanto comemos.
No primeiro dia que fui ao hospital tinha saído para tomar um banho no rio.
Mas soprava um vento frio, e então comecei a dar voltas para não ter de dormir a
sesta e, quando percebi, estava no alto da serra, defronte ao hospital. O doente da
cama que fica ao lado da porta, na sala maior, não tinha visita e ficamos a
conversar.
Contou-me a seu respeito, e como andam pelo hospital, de pijama e um
roupão que lhes dão, em seguida mais dois entraram na conversa. Me tomaram
por estagiário e eu não disse que não.
Não quero ir lá, mas vou de pena, para falar um pouco com o pobre diabo, o
da primeira cama, e você talvez não acredite porém cada vez que chego lá
encontro um novo doente, percebe o que te estou dizendo? Mas curar, ali,
ninguém se cura, minha vida, quando uma cama é desocupada é porque morreu
alguém, sim, não te assustes, pois para lá só vão os doentes muito graves e por
isso é que morrem.
Agora, por favor, esqueça de tudo isso, que não lhe diz respeito, você está sã,
em seu corpo nem as balas penetram, você é dura, é como o diamante que se usa
nas vidraçarias para cortar o vidro, embora os diamantes sejam sem cor como
um copo sem vinho, melhor dizer de você que é cheiinha de vinho, vermelhinha
como um rubi, minha vida. Escreva-me logo, seja boazinha, e não demore, como
da última vez, em pôr a carta no correio.
Te espera, impaciente, e te beija muito
Teu Juan Carlos
Em tempo: esqueci de lhe dizer que tenho aqui no Sanatório um bom amigo,
da próxima vez te falarei dele.

Sob o sol da varanda, arruma seus rascunhos, empurra o cobertor para um


lado e deixa a espreguiçadeira. Dirige-se ao quarto número quatorze. No
corredor, troca um quase imperceptível olhar com uma jovem enfermeira. O
doente do quarto quatorze recebe-o com alegria. Em seguida, dispõe-se a
corrigir a ortografia das três cartas: a primeira — apenas meia folha —
dirigida a uma senhorita, a segunda — de duas folhas — dirigida à irmã, e a
terceira — de seis folhas — dirigida a outra senhorita. Em seguida há uma
longa conversa, durante a qual o visitante narra quase toda a história de sua
vida.

Cosquín, 10 de agosto de 1937


Minha vida
Outro dia chegaram juntinhas a tua segunda carta e a segunda de minha irmã.
Claro que havia uma diferença… e por isso é que li tua carta umas oitenta vezes
e a da minha irmã duas vezes e pronto, já nem me lembro. Uma pessoa sabe
quando lhe escrevem por obrigação. Mas, minha vida, pelo menos que lhe
escrevam, você não vai acreditar que estas quatro cartas foram as únicas que
recebi desde que estou aqui, que está acontecendo com as pessoas? Têm medo
de contagiar-se pelo correio?
Te garanto que vão me pagar. Meu velho é quem tinha razão, quando
estamos por baixo todo mundo nos torce a cara. Já te falei alguma vez sobre meu
velho?
Veja, o velho tinha com outro irmão um sítio grande, a quarenta quilômetros
de Vallejos, que já havia sido do meu avô. Meu velho era contador público,
formado em Buenos Aires, com título universitário, está me compreendendo?
Não era um simples perito mercantil como eu. Bem, o velho foi estudar na
capital porque meu avô o mandou, porque via que o velho tinha vocação para os
números, e o outro irmão era como um animal, de forma que ficou no sítio
pastando com as vacas. Bem, meu avô morreu e meu velho continuou estudando,
e o outro lhe passou a perna, vendeu o sítio, ficou com quase tudo e desapareceu
da superfície terrestre, até que soubemos que agora está em Tandil, com uma
fazenda da melhor qualidade. Mas sua hora chegará.
Meu pobre velho teve que aguentar tudo calado e instalou-se em Vallejos,
não digo que tenha vivido mal, porque tinha sempre trabalho aos montes, e eu
não me lembro de ter ouvido ele queixar-se uma só vez, mas a velha, quando ele
morreu de uma síncope, começou a chorar como uma louca. Me lembro que
tocou a campainha lá de casa, foi na manhã seguinte ao velório, que durou toda a
noite, eram umas oito da manhã, e a velha havia escutado o apito do trem de
Buenos Aires, que nessa época chegava às sete e meia. Todos estávamos
sentados sem dizer nada, e ouviu-se o barulho da locomotiva, os apitos do trem
que chegava da capital e seguia para o Pampa. Vê-se logo que a velha pensou
que era o irmão do velho que podia estar chegando pelo trem, mas como? Se
ninguém o havia avisado… Bem, então aconteceu que logo depois soou a
campainha e a velha correu para o galpão e agarrou a espingarda: estava segura
de que era aquele desgraçado e queria matá-lo.
Mas não era, eram os empregados da funerária que vinham para fechar o
caixão. Foi aí que a velha começou a gritar e a contorcer-se, pobre velha, e a
dizer que a síncope do velho fora consequência da infelicidade em que a sua vida
havia se transformado por culpa do irmão ladrão, e que agora os dois filhos
ficavam sem o sítio a que tinham direito, que o velho havia sido demasiado
nobre e não havia protestado nem entrado na Justiça contra essa roubalheira, e
que agora não sabia como iam viver ela e os filhos. Bem, mas para que te contar
essas coisas? Toda noite, quando não consigo dormir, tudo isso me vem à mente.
Mas como tudo está longe, não é?
E também você está distante, meu rubi. E agora tenho de explicar-te por que
não te escrevi pela volta do correio, porque deixei passar tantos dias… Estive
pensando tanto em você e em outras coisas, e pensar que agora que estou longe é
que percebo uma coisa… Quero te dizer o que é, mas é como se tivesse a mão
presa, que é que está acontecendo comigo, loura? Será que tenho vergonha de
dizer mentiras? Não sei se antes sentia a mesma coisa, talvez sentisse e não
percebesse, porque agora sinto realmente que te quero muito.
Se eu pudesse ter você perto de mim, se pudesse ver chegar no ônibus que
vem de Córdoba, creio que minha tosse ficaria curada de repente, apenas de
alegria, nada mais. E por que não poderia ser? Tudo por culpa do maldito
dinheiro, porque se eu tivesse dinheiro te mandava logo algum para que viesses
com tua mãe passar uns dias aqui. Minha vida, estou te estranhando, antes de
receber tua carta andava acabrunhado, com medo de ficar doente de verdade,
mas agora toda vez que releio a tua carta me volta a confiança. Como vamos ser
felizes, rubi, vou beber todo o vinhozinho que você tem dentro de você, e vou
tomar um pilequinho dos bons, um pilequinho alegre, total, depois me deixarás
dormir a sesta ao teu lado, você vestida com o uniforme da loja, à vista da tua
velha, é claro, não te assustes, ela que nos vigie apenas, e o velho? Ninguém pisa
agora os seus canteiros, agora que não estou lá?
Bem, meu amor, escreva-me logo uma dessas tuas cartas tão bonitas, envie-
me logo, não fique caprichando nelas como eu.
Te quero de verdade,
Juan Carlos
Em tempo: esqueci outra vez de te contar que te manda lembranças um
senhor muito bom, internado aqui como eu. Tomei a liberdade de lhe mostrar
tuas cartas, e ele gostou muito delas, e veja que se trata de pessoa de muito boa
educação, ex-professor da Universidade. Quanto a mim, diz ele que sou um
animal para escrever.

Sob o sol da varanda, junta seus rascunhos, empurra a manta para um lado,
deixa a espreguiçadeira e dirige-se ao quarto número quatorze. É amavelmente
recebido e depois de assistir à corrigenda da única carta existente, o visitante
deve retirar-se para seu quarto, por causa de um súbito suor seguido de forte
tosse. O ocupante do quarto quatorze pensa na situação do seu jovem amigo e
nas possíveis derivações do caso.

Perguntas que fez a si mesmo o ocupante do quarto quatorze ao


considerar o caso de seu amigo
Juan Carlos se atreveria, se conhecesse a gravidade de seu mal, a ligar sua
vida a uma mulher pelos laços do matrimônio?
Tinha Juan Carlos consciência da gravidade de seu mal?
Nené aceitaria, no caso de ser virgem, casar-se com um tuberculoso?
Nené aceitaria, no caso de não ser virgem, casar-se com um tuberculoso?
Se bem que Juan Carlos sentisse por Nené algo novo e ser essa a razão pela
qual havia decidido pedi-la em casamento, quando voltasse para Vallejos, porque
constantemente lembrava a falta de jeito de Nené naquele longínguo dia em que
lhe ofereceu um copo cheio de licor caseiro, trazido num pires?
Por que repetia inúmeras vezes que Mabel era egoísta e má, mas que sabia
vestir-se e servir o chá de maneira impecável?
fascículo
8

Yo adivino el parpadeo
de las luces que a lo lejos
van marcando mi retorno,
Son las mismas que alumbraron
con sus pálidos reflejos
hondas horas de dolor.

ALFREDO LE PERA

Cosquín, 19 de agosto de 1937


Minha vida:
Recebi tua carta ao meio-dia, justamente antes de entrar no refeitório, e já te
estou respondendo. Hoje não tenho vergonha de nada, vou te contar tudo o que
sinto, estou tão alegre que me dá vontade de pular daqui da varanda até o jardim
lá embaixo, tenho vontade de fazer isso há muito tempo, pois estou convencido
de que cairia de pé e sairia correndo como um gato, com todos os ossos intactos.
Dirás que sou mau, mas uma coisa que gostei em suas cartas foi o que você
me contou, que o gerente a repreendeu por ires tantas vezes ao banheiro, e me
disseste que assim fazias quando lhe dava vontade de chorar por mim. Bobinha,
não tens nada por que chorar, mas é verdade que gostas tanto assim de mim?
Hoje faço uma promessa, a de seguir todas as recomendações dos médicos,
pois outro dia eles se queimaram comigo, porque se estamos separados que seja
por um motivo, assim quando me vires aparecer novamente em Vallejos,
estaremos seguros de que me curei por completo e não precisarei voltar mais
aqui, na verdade o lugar não é feio, mas está longe de você, e isso é que é feio.
Então terás que me prometer uma coisa: que irás suportando tudo sem chorar às
escondidas, mesmo que eu tenha de ficar aqui até o fim do ano, pois fique certa
de que quando eu deixar este lugar estarei completamente são. Sai um pouco
caro, mas a saúde não tem preço. Quando eu retornar a Vallejos começaremos
uma vida nova, e ficaremos unidos para sempre, você me aceita? Ando fazendo
planos.
A verdade é que eu estava fazendo maluquices com o tratamento, mas a
partir de hoje tudo vai mudar, o que vai me custar mais é não poder ir ao rio,
tomar banho, porque o médico soube disso e por pouco não me bota para fora do
consultório a pontapés. Mas agora estou tão feliz, lembro-me do dia em que o
velho me deu permissão para ir de bicicleta até o sítio que havia sido do meu
avô, cinco léguas distante. Ouvia tanto falar nele que queria ver como era, eu
tinha nove ou dez anos, mais ou menos, e quando cheguei havia outro menino
perto da sede da fazenda, que haviam construído não fazia muito. O menino
montava um potrinho, sozinho, porque não o deixavam brincar com os peões,
era o filho do dono e começou a brincar comigo, e pediu metade dos bifes à
milanesa que a velha havia preparado para mim. E quando o chamaram para
almoçar, a babá viu que o outro já estava comendo e me fez entrar na casa, para
que eu acabasse de comer. Haviam percebido que eu não era nenhum bugre e me
sentaram na mesa, primeiro me levaram para lavar as mãos, e a mãe

Sob o sol da varanda, interrompe a carta que está escrevendo, empurra a


manta para um lado, deixa a espreguiçadeira e dirige-se ao quarto número
quatorze. É cordialmente recebido. Como de hábito, entrega os rascunhos, mas
com uma variante: mais que a correção da ortografia, solicita ajuda para
redigir a carta em questão. Sua intenção é enviar uma carta de amor muito bem
escrita, e tal pedido é acolhido com entusiasmo. Imediatamente o professor lhe
sugere escrever uma carta comparando a moça ao Láteo, e lhe explica
detalhadamente que se trata de um rio mitológico situado na saída do
Purgatório, onde as almas purificadas se banham para apagar as más
lembranças antes de empreenderem o voo para o Paraíso. O jovem ri,
brincalhão, e rechaça a sugestão por considerá-la “muito fantasista”. Seu
interlocutor ofende-se e acrescenta que um doente deve desconfiar das
promessas das mulheres, pois quando elas oferecem muito é possível que o
façam movidas pela piedade e não por amor. O jovem baixa os olhos e pede
licença para retirar-se e descansar no quarto enquanto é feita uma nova
redação da carta. Ao chegar à porta, levanta a vista e olha o velho nos olhos.
Este aproveita a oportunidade e acrescenta que é injusto submeter uma moça a
tal destino. Já em sua cama, o jovem procura dormir a sesta, prescrita pelos
médicos. Consegue um descanso relativo, pois o seu estado nervoso só lhe
permite um sono agitado por frequentes pesadelos.
Imagens e palavras que passaram pela mente de Juan Carlos enquanto
dormia: um forno para tijolos, ossos humanos com crostas e manchas de
gordura, uma churrasqueira no meio do campo, uma costela sendo assada em
fogo lento, camponeses procurando carvão e ramos secos para alimentar o fogo,
um camponês encarregado de vigiar o assado toma uma garrafa de vinho inteira
e adormece, deixando que o assado queime, a carne fica seca, o vento aviva as
brasas e as chamas se alastram, um morto exposto ao fogo fincado no espeto, um
ferro vertical lhe atravessa o coração e finca-se no chão, outro ferro lhe atravessa
as costelas e mantém seus braços abertos, o morto se mexe e geme, está reduzido
a ossos cobertos em parte pelos cabelos secos e chamuscados, ossos humanos
manchados de gordura negra, um corredor comprido e escuro, uma prisão sem
janelas, mãos de mulher que seguram um trapo molhado e um sabão, uma bacia
cheia de água morna, uma mulher, de costas, vai ao rio apanhar mais água na
bacia, Nené esfrega o trapo entre as mãos e aparece espuma muito branca, lava
com cuidado os ossos que caíram nas cinzas da churrasqueira, “pense só, Juan
Carlos, como é bonita a ideia deste rio Láteo onde se deixam as más lembranças,
as almas avançando com passo inseguro, tudo lhes lembra tormentos passados,
veem a dor onde não existe, porque a levam dentro de si, e à proporção que
caminham vão derrubando, manchando tudo”, uma seringa de agulha grossa
penetra entre as costelas de um tórax viril e largo, o doente não sofre devido à
anestesia e agradece à enfermeira Nené, de repente o jovem grita de dor porque
outra mão lhe está aplicando uma injeção no pescoço, Nené arranca crostas dos
ossos e alguém lhe agradece, o Doutor Aschero empurra Nené por um corredor
do hospital e lhe levanta as saias à força, outro corredor mais comprido está
escuro e há ossos espalhados pelo chão, Nené apanha uma vassoura e varre-os
com cuidado para que os ossos não sofram dano, Nené é a única que está viva,
“as almas saem dessas negras cavernas expiatórias e anjos luminosos lhes
indicam um rio de águas cristalinas. As almas se aproximam, temerosas”, os
ossos estão ocos e não pesam, vem o vento e os sacode para cima, voam ossos
pelos ares, o vento os empurra com terra e folhas e outras imundícies, “as almas
finalmente se ungem nas águas, cegas por um véu de penas que tudo lhes
escondia, mas agora erguem os olhos e veem pela primeira vez a face do céu.
Arranque, Juan Carlos, o véu de penas, pois ele pode lhe estar ocultando os céus
mais claros”, chega fumaça procedente de uma queima de lixo, o vento forte
levanta o lixo em redemoinhos e o joga longe, o vento arranca o telhado das
casas e sacode as árvores, voam folhas de zinco pelos ares, há ossos caídos por
entre os arbustos, uma lagoa estagnada, a água está podre, alguém pede um copo
de água a Nené, não escuta porque está longe, alguém pede a Nené que por favor
traga um copo d'água porque a sede é insuportável, Nené não ouve, alguém pede
a Nené que mude a fronha do travesseiro, Nené olha as manchas de sangue no
travesseiro, alguém pergunta a Nené se isso lhe dá nojo, um doente assegura a
Nené que não esteve tossindo e que a fronha está salpicada de tinta vermelha,
Nené não quer acreditar, alguém diz a Nené que se trata de tinta vermelha ou de
molho de tomate, mas não sangue, uma mulher abafa o riso mas não é Nené,
essa mulher oculta está rindo do avental de enfermeira de Nené, com grandes
manchas de sangue, alguém pergunta a Nené se quando ela trabalhava como
enfermeira costumava sujar o avental de sangue ou de tinta vermelha ou de
molho de tomate, Nené leva um copo d'água para o enfermo sedento, o doente
lhe promete não tomar mais banho no rio, o doente promete à sua mãe fazer a
barba antes de ir para o trabalho e comer todos os pratos que lhe sirvam, o trem
procedente de Buenos Aires chega numa manhã fria à estação de Coronel
Vallejos, o trem chega mas já é noite, Juan Carlos está morto no ataúde, a mãe de
Juan Carlos ouve os apitos da locomotiva e troca um olhar com Celina, Juan
Carlos conta à sua mãe que, tossindo, afogou-se no próprio sangue e que é por
isso que o travesseiro do ataúde em que jaz está manchado de sangue, a mãe e a
irmã vão ao galpão, Juan Carlos, afogado no sangue, tenta gritar que não matem
seu tio, que não vão buscar a espingarda, o tio bate na porta, Juan Carlos tenta
adverti-lo do perigo que corre, o tio entra e Juan Carlos nota que é muito
parecido com o ocupante do quarto quatorze, Juan Carlos garante a seu tio que
está muito mudado e que agora se barbeia pela manhã, e que é muito trabalhador,
o tio tem alguns documentos na mão e Juan Carlos alimenta a esperança de que
sejam os papéis que o farão dono da fazenda, Juan Carlos esconde do tio o que
pensa e em vez disso oferece-se como administrador, o tio não responde mas
sorri bondoso e retira-se para ir descansar no quarto número quatorze, Juan
Carlos pensa que quando o tio acordar irá lhe contar que sua mãe e sua irmã
sempre falaram mal dele, o tio volta intempestivamente e Juan Carlos o
recrimina por ter ido alojar-se no quarto quatorze em vez de permanecer em sua
fazenda, Juan Carlos ouve passos sua mãe e sua irmã se aproximam com a
espingarda, em vão Juan Carlos tenta prevenir seu tio do perigo que corre, Juan
Carlos está morto no caixão e não pode fazer nada, o cano da espingarda é
grosso e a cabeça do ocupante do quarto quatorze é feita em pedaços como uma
casca de ovo, as manchas são de sangue, Juan Carlos pensa que não terá
necessidade de mentir a ninguém e dirá a todos que são manchas de sangue e
não de tinta vermelha ou de molho de tomate.

Cosquín, 31 de agosto de 1937


Minha vida:
Hoje esperava carta tua mas não chegou. Mas vou escrever da mesma
maneira porque recebi carta de casa e estou um pouco atrapalhado. Parece que
vou ter que retornar a Vallejos e depois voltarei para cá, o quanto antes, para
completar a cura. Além disso, a velha quer que eu me encarregue pessoalmente
de tratar com os inquilinos das duas casas, para tentar aumentar os aluguéis.
Sabes de uma coisa? O médico disse que estou melhor, e agora eu o obedeço
em tudo.
Te beija com força,
Juan Carlos

Apanha a folha escrita sem prévio rascunho, coloca-a num envelope e


apressa-se em entregá-la ao porteiro antes que retirem a mala diária, às 16 h. A
temperatura é elevada para a época do ano, não sopra vento. Pensa na água
morna do rio. Dirige-se ao quarto número quatorze para propor uma partida de
carta como passatempo até que chegue a hora do chá.

Cosquín, 9 de setembro de 1937


Minha vida:
é possível que eu chegue antes destas linhas, mas de qualquer maneira
preciso falar com você. Não estou bem, de ânimo, quero dizer.
Agora te peço uma coisa, é sério, que por favor não digas a ninguém, nem
mesmo em tua casa, que volto sem completar a cura. Até o último momento eu
tinha a esperança de que minha irmã e a velha arranjariam as coisas sem eu ter
necessidade de ir até aí, mas não foi o caso. O pessoal da Prefeitura não quer
prorrogar a licença, ora bolas, afinal de contas essa licença é sem vencimentos.
Penso que se resolvo tudo voltarei para aqui o mais depressa possível. Olhe,
loura, só em falar um pouco com você já me sinto melhor, calcule como será
quando eu a vir! Hoje foi um dos piores dias de minha vida.
Até loguinho, te beija e abraça
Juan Carlos

Sob o sol da varanda, junta seus rascunhos, empurra a manta para um lado,
deixa a espreguiçadeira e olha em volta, procurando algo novo para distrair a
vista. Não encontra nada. Pensa que nessa noite a jovem enfermeira Matilde
estará de plantão, pronta para atender os chamados dos pacientes. Deseja
intensamente um cigarro. Olha o céu. Não há nuvens, nem sopra vento. Apesar
de estar próxima a hora do chá resolve ir tomar banho no rio, mesmo porque
será uma das últimas oportunidades que terá para nadar, pois sua partida já
está marcada para daí a três dias.

Ministério da Saúde Pública


Província de Buenos Aires
Hospital Regional do Município de Coronel Vallejos

Data: 11 de junho de 1937


Sala: Clínica Geral
Médico: Dr. Juan José Malbrán
Paciente: Antônia Josefa Ramírez
Diagnóstico: Gravidez normal
Sintomas: Última menstruação segunda semana de abril, vômitos, enjoos,
quadro clínico geral confirmatório.
Notas: Internação prevista na Sala de Maternidade última semana de janeiro.
Paciente domiciliada à Rua Alberti, 468, como empregada doméstica do Sr.
Antônio Sáenz, solteira, não revelou nome suposto pai.

Enviar cópia ficha à Sala de Maternidade

Polícia da Província de Buenos Aires

Delegacia: Coronel Vallejos


Destino de expediente: Arquivo local
Data: 29 de junho de 1937

Texto: Pela presente determina-se o embarque num trem de passageiros com


destino à Capital Federal, no dia acima referido, às 19h15 horas, dos seguintes
aspirantes a suboficial: Narciso Ángel Bermudez, Francisco Catalino Páez e
Federico Cuello. Acompanha-os o Primeiro-Cabo Romualdo Castanos, portador
da documentação requerida tal como caderneta de engajamento e ficha de
inscrição de cada um dos aspirantes. O Primeiro-Cabo Castanos os acompanhará
na baldeação da estação Onze da Estrada de Ferro Oeste para a estação
Constituição da Estrada de Ferro Sul, onde embarcarão no primeiro trem
disponível rumo à cidade de La Plata, onde, imediatamente, se apresentarão à
Divisão n° 2 da Polícia da Província. Prevê-se o início do curso para o dia 1° de
agosto, com uma duração de seis meses.

Benito Jaime Garcia


Subcomissário encarregado

Ministério da Agricultura e Pecuária da Província de Buenos Aires

La Plata, 12 de setembro de 1937

Portaria Administrativa
Interposição de demanda — Cópia para arquivo

Na data de hoje foram apresentadas à mesa 3 o Certificado de Venda e a Ata


levada ante o Delegado de Coronel Vallejos por denúncia do Sr. Cecil Brough-
Croydon, residente na Fazenda Percival” do Município de Coronel Vallejos,
contra o Sr. Antônio Sáenz, Leiloeiro, residente à Rua Alberti n° 468, Coronel
Vallejos, acusado este de haver vendido ao primeiro, gado com vícios
redibitórios, tais como carrapatos e carbúnculo, que justificam a anulação da
referida venda.

...o ônibus, as sacudidelas, a poeira, a janelinha, o campo, a cerca, as vacas; o


pasto, o chofer, o gorro, a janelinha, o cavalo, um rancho, o poste telegráfico, o
poste da União Telefônica, o encosto da cadeira da frente, as pernas, o risco das
calças, as sacudidelas, as poltronas, proibido fumar neste veículo, o chiclete, a
janelinha, o campo, as vacas, o pasto o milho-verde, a alfafa, uma charrete, uma
chácara, um armazém, uma casa, Bar-Armazém “La Criolla”, a plantação de
girassóis, “Clube Social — Sede Esportiva”, os ranchos, as casas, a janelinha, os
postes, a terra, o asfalto, Leiloeiro Público Antônio P. Sáenz, Consultório do Dr.
Aschero a calçada de ladrilhos, as lâmpadas, loja “Ao Barato Argentino”, Banco
da Província, Empresa de Transportes “A Flecha do Oeste”, os freios, as pernas,
as câimbras, o chapéu, o poncho, a valise, minha irmã, o abraço, as faces, o
vento, o poncho, o frio, a tosse, três quarteirões, a valise, loja “Ao Barato
Argentino”, Consultório do Dr. Aschero, Bar “A União”, o suor, os sovacos, os
pés, a virilha, o ardor, os vizinhos, a calçada, a porta aberta da rua, minha mãe, o
xale preto, o abraço, as lágrimas, o saguão, o vestíbulo, a valise, a terra, o
poncho, a tosse, a pele bronzeada, cinco quilos mais de peso, Cosquín, a
Prefeitura, os aumentos do aluguel, a licença, o Sanatório, o orçamento, o
médico, o diagnóstico, o tratamento, a radiografia, o quarto, a cama, a mesinha
de cabeceira com abajur, o aquecedor a querosene, o armário, o banheiro, a água
quente, a banheira, o lavatório, o desodorante, o cabide, a toalha, a lareira, o
espelho, o tuberculoso, o atleta, o órgão sexual, a pele bronzeada, o suor, a
ardência, as câimbras, a torneira, o jato, a água quente, o sabão, a espuma, o
perfume, Nené, a enfermeira Matilde, Nené, Mabel, Nené, Nené, aliança de
noivo, a água morna, a gradezinha de madeira, os chinelos, as gotas d'água, a
toalha, a lareira, as chamas, os calafrios, a roupa interior, a navalha, o sabão, a
barba, a água-de-colônia, o pente, o topete, a mesa, minha mãe, minha irmã, os
pratos, o guardanapo, as notícias de Vallejos, o carbúnculo, o carbúnculo, o
escândalo, Mabel, o inglês, a acusação, a bancarrota, Mabel, a sopa, a semolina,
a colher, o carbúnculo, a fraude, o pão, uma colher de caldo de carne na sopa, o
compromisso desfeito, a estância, as estâncias, o vinho, a soda, a água, o bife
com purê, o pão, o vinho, minha mãe, a licença, o ordenado, o orçamento o
piquenique, Mabel, os gemidos, as lágrimas, a face, o garfo, o bife, o purê, o
vinho, a falência, a profissão de professora, a fraude, a vergonha, minha
femeazinha, o piquenique, o abraço, o beijo, a dor, o sangue, o campo, os rogos,
os lábios, as lágrimas na boca, o inglês, a denúncia, a fraude, a bancarrota, a
desonra, a pobreza, o purê, a maçã assada, o caldo de cana, minha mãe, minha
irmã, o café, às nove e quinze da noite, o frio, o poncho, a calçada, o vento, as
ruas de terra, a esquina, o portão, a alfena, a loura, Nené, minha noiva, a mãe, o
pai, a cozinha, a mesa, o bule, Cosquín, o tratamento, a cura, a Prefeitura, meu
emprego, os planos, as intenções, o pai jardineiro, a calçada, o portão, Nené, o
pai, o viveiro de plantas, a alfena, a calçada de terra, a casa sem reboco, o
emprego como empacotadora, a pele branca, os lábios, o frio, o vento, o portão,
a luz na cozinha, a mãe na cozinha, as promessas das mulheres, “ainda não estás
completamente curado? mas faltará pouco, estou certa de que lá para o fim do
ano estarás completamente curado, foi muito cansativa a viagem de ônibus?”, o
quarto número quatorze, o velho, tens coragem de casar com um doente? “a mim
pouco importa, mas seria melhor não… tira essa mão, Juan Carlos”, o Doutor
Aschero, minha irmã, os mexericos, “deixe para a noite de núpcias, será bem
melhor, assim nos comportamos bem mais uns meses e você ficará curado, mas
tenho medo de que nos vejam aqui no portão, e depois, você continuará me
querendo bem? esperemos um pouquinho mais até que durmam, Juan Carlos,
mas se lembre de que é apenas porque você me pediu”, me demitirão da
Prefeitura? botarão ela pra fora da escola? sozinhos num ranchinho, pão e cebola
frita, não, se você não me pedir não toco nem em suas mãos, peça-me, Nené,
mostre que me quer para sempre, que não se importa com coisa alguma, “não,
querido, se eu pedir você vai dizer que sou uma qualquer, isso nunca, e além
disso papai e mamãe podem aparecer, e eu tenho medo, Juan Carlos, por que os
homens são assim? você não se conforma em me abraçar?”, o portão, a alfena o
vento, o frio, Juan Carlos, não vá embora aborrecido!”, a esquina, as ruas
asfaltadas, os postes, as calçadas, as casas, as janelas fechadas, as portas
fechadas, as esquinas, a escuridão, o edifício em construção, a Delegacia nova, a
entrada já terminada, o cadeado, a corrente, Mabel, Mabel, Mabel! tenho muita
vontade de te ver, amanhã, quando amanhecer, vou te dizer que voltei… porque
estou curado! e não importa que estejas arruinada, pois não há mal que não
venha para o bem! que sorte eu ter voltado, o lampião, a calçada, o asfalto, o
vento, o frio, a escuridão, o edifício em construção, a entrada já terminada, o
cadeado, a corrente, não há mal que não venha para bem.
II
Boquitas azules, violáceas, negras
fascículo
9

… Si fui loco, si fui ciego


solo quiero que comprendas
el valor que representa
el coraje de querer.

ALFREDO LE PERA

RECAPITULAÇÃO: Ao retornar de Cosquín, Juan Carlos tentou em vão ver


Maria Mabel Sáenz, porque a jovem se ausentou, não sem antes pedir licença ao
Conselho Escolar. A licença lhe foi imediatamente dada, sem perda de
vencimentos. Seus pais despediram-se dela na estação ferroviária e ficaram na
plataforma até que o trem se perdeu de vista, rumo a Buenos Aires.
Conversações entre o Dr. Malbrán e o Prefeito Municipal decidiram pouco
depois a sorte de Juan Carlos: o jovem não estava em condições de voltar ao
trabalho e também não poderia ser prorrogada a sua licença. Pelo que foi posto
em disponibilidade, fato que teve uma imediata repercussão no lar de Nélida
Enriqueta Fernández, onde, entre outras, se ouviram as seguintes acusações: “—
Como pai de Nené tenho o direito de lhe fazer essas perguntas!” “— Se você não
pode retornar ao trabalho é porque não está bem!” — Como tem a coragem de se
aproximar da minha filha se ainda não está curado!” “— Será que você não tem
consciência? E se contagiá-la?” Juan Carlos ofendeu-se, convencido de que não
seria um jardineiro que teria direito a interpelá-lo assim. Mas os dias passados no
bar se faziam cada vez mais longos e não tendo coragem de confiar seus pesares
a ninguém sentia falta de Pancho. Juan Carlos queria que seu amigo abandonasse
o curso que estava fazendo na capital da província, para que voltasse a lhe fazer
companhia, e falando com o delegado durante uma partida de pôquer,
involuntariamente, fez alusão à gravidez da empregada dos Sáenz.

Dia 27 de janeiro de 1938


Fazendo uma pausa nos afazeres do dia, às 12h48 Nélida Enriqueta
Fernández enxugou os lábios com o guardanapo, dobrou-o e deixou a mesa com
o propósito de fazer a sesta durante uma hora. Em seu quarto, tirou os sapatos e
o uniforme azul de algodão. Retirou a colcha e estirou-se no lençol. A
temperatura era de 39 graus à sombra. Procurou uma posição mais cômoda, de
costas. O travesseiro incomodou-a, por isso ela o empurrou para um lado.
Deitou-se de bruços. Apesar de ter tirado os sapatos, os pés continuavam
doloridos, com os entrededos irritados e em parte feridos pelo suor ácido: sob o
polegar do pé direito, o ardor de um princípio de bolha começava a ceder. Com
uma mão, reajustou os grampos para libertar o pescoço do calor preso em sua
abundante cabeleira, levantando os cabelos. O pescoço estava umedecido por
uma capa de suor quase imperceptível, do couro cabeludo caiu uma gota redonda
de suor e logo depois outra. As ligas do sutiã e da anágua, igualmente
umedecidas, também se fundiam na pele, ela os desceu até debaixo do ombro.
Teve que juntar os braços contra o corpo para não forçar as costuras. As gotas
que brotaram sob os ombros se expandiram, brotaram outras. Voltou a colocar as
ligas no seu lugar e ficou deitada de costas, os braços separados do corpo. Havia
raspado o pelo das axilas e a pele estava avermelhada pela aplicação de líquidos
desodorantes. As costas, em contacto com a cama, esquentavam os lençóis e o
colchão. Escorregou até a beira da cama procurando um pedaço mais fresco de
lençol e colchão. Uma coceira incômoda, de pele suada, começou a tomar conta
do seu corpo. A respiração era pesada, o ar lhe empurrava o diafragma devagar e
com força para baixo. A garganta tensa registrava sopros nervosos e deixava
passar a saliva com dificuldade. A pressão do crânio nas têmporas se acentuava,
possivelmente por causa dos dois copos de vinho com limão e gelo que havia
bebido no almoço. Em redor dos olhos uma vibração interna lhe inflamava as
pálpebras, pensou que toda uma carga de lágrimas estava pronta para derramar-
se pelas faces. Alguma coisa lhe pesava cada vez mais, como se fosse uma
pedra, no centro do peito.
Qual era, naquele momento, o seu maior desejo?
Naquele momento seu maior desejo era que Juan Carlos recuperasse o
emprego na Prefeitura.
Qual era, naquele momento, o seu maior medo?
Naquele momento o seu maior medo era que alguém se encarregasse de
contar ao jovem leiloeiro público chegado pouco antes a Vallejos — com quem
havia dançado tanto na quermesse natalina — suas passadas e equívocas
relações com o Dr. Aschero.
No já mencionado 27 de janeiro de 1938, fazendo uma pausa nos afazeres do
dia, às 21,30, Juan Carlos Etchepare resolveu fumar o seu único cigarro diário,
sentado no jardim de sua casa. Antes do pôr-do-sol sua mãe havia regado os
canteiros e os caminhos de pedregulho, um ar fresco desprendia-se, com um
vivificante olor de terra molhada. O isqueiro forneceu uma pequena chama, o
fumo queimou e desprendeu fumaça branca e quente. A fumaça mais escura que
Juan Carlos exalou formou uma montanha transparente, detrás estavam os
canteiros com círculos de jacintos rodeando uma palmeira, quatro canteiros,
quatro palmeiras, ao fundo o galinheiro e a parede de taipa, depois da parede os
eucaliptos de um depósito de ferro-velho e mais além não existiam montanhas.
O pampa chato, vento e areia, mal conseguira vê-la de longe, por trás da poeira,
subia para o carro com o pai e a mãe, o carro arrancou levantando por sua vez
um outro redemoinho de areia. O cigarro estava reduzido a um toco, jogou-o no
canteiro. Mecanicamente, a mão direita apalpou o maço no bolsinho da camisa.
Fumaria outro? Os ordenados de professora variavam entre 125 e 200 pesos,
uma licença com vencimento era difícil de conseguir se o Prefeito Municipal,
amigo do Dr. Sáenz, não interferisse em seu favor. 250 pesos mensais bastavam
para pagar a Casa de Saúde e cobrir pequenas despesas pessoais, nem ao menos
uma licença sem vencimentos? O documento que punha em disponibilidade o
funcionário Etchepare estava assinado pelo Prefeito, o Pro-Secretário e o
Tesoureiro da Municipalidade; a fumaça quente do segundo cigarro lhe enchia o
peito de uma agradável sensação.
Qual era naquele momento o seu maior desejo?
Naquele momento, seu maior desejo era conseguir de algum modo o dinheiro
para deixar o povoado e continuar o tratamento no sanatório mais caro de
Cosquín.
Qual era naquele momento o seu medo maior?
Naquele momento, seu medo maior era morrer.

No já mencionado 27 de janeiro de 1938, fazendo uma pausa nos afazeres do


dia, às 17,30, de volta do cabeleireiro onde havia se submetido a uma fatigante
ondulação permanente, Maria Mabel Sáenz pediu à tia o jornal da manhã e
retirou-se para seu quarto, para descansar. Tirou o vestido de sair e pôs uma leve
camisola de casa.
Colocou o ventilador na mesinha de cabeceira e puxou as persianas,
deixando penetrar apenas a luz necessária para ler os anúncios dos filmes
publicados no jornal.
Nada melhor que escolher um cinema refrigerado para fugir com sua tia,
também amante do cinema do sufocante calor da cidade de Buenos Aires. O
maior sacrifício consistia em tomar o metrô, muito quente, que em dez minutos
as deixaria no próprio centro da cidade, onde se encontravam os principais
cinemas refrigerados. Procurou a seção especializada, começando a abrir o jornal
pela primeira página. Na segunda página não estavam os anúncios dos cinemas,
também não na terceira, nem na quarta, quinta, sexta, sétima, oitava, sentiu uma
crescente irritação nervosa, resolveu começar a folhear o diário de trás para
diante, mas na última e na penúltima página só havia anúncios imobiliários, bem
como na precedente, e na outra, e na outra. Teve um ataque de irritação, fez uma
bola com o jornal e a jogou com força contra o ventilador. Atribuiu seu alto grau
de nervosismo às longas horas passadas no cabeleireiro, sob o secador.
Choramingou sem lágrimas, afundou o rosto no travesseiro e refletiu. Por que
estava tão nervosa, fora ou não ao cabeleireiro? Pôs a culpa nos longos dias de
ócio e nas noites de insônia, inerte em sua cama. Quando recobrou a serenidade,
alisou as folhas do jornal e recomeçou a busca da página que procurava. Havia
ar refrigerado no Cinema Ópera: “O Lanceiro Espião”, com George Sanders e
Dolores del Rio; o Gran Rex também era refrigerado: “Por Detrás dos
Bastidores”, com duas atrizes suas preferidas, Katherine Hepburn e Ginger
Rogers, mas será que, sendo estreia, ainda haveria entradas?; no Monumental,
“Três Argentinos em Paris”, mas filmes nacionais só via em Vallejos, quando
não havia outra coisa para fazer, com Florêncio Parravicini, Irmã Córdoba e
Hugo del Carril; no Grande Cine Flórida, programa europeu, “O Segredo da
Pompadour”, com Kathe von Nagy e Willy Eicherberg, filme alemão, e “A Casta
Susana”, com Henri Garat e Meg Lemonnier; outro programa duplo no Rose
Marie: “Saratoga”, com Jean Harlow “a loura platinada em seu grande sucesso
póstumo” e “Não se pode ter tudo”, com Alice Faye, Don Ameche e os Irmãos
Ritz. Qual era mesmo o cinema que, segundo sua tia, o público mais distinto
frequentava? O Ambassador: “refrigerado, Metro-Goldwyn-Mayer apresenta
uma comédia diferente de enredo romântico com Luise Rainer, William Powell e
Maureen O’Sullivan, “Os Candelabros do Imperador”. Não havia nenhuma
estreia com Robert Taylor? Não.
Qual era naquele momento o seu maior desejo?
Naquele momento seu maior desejo era ver entrar sigilosamente, pela porta
do seu quarto, Robert Taylor, ou, em seu lugar, Tyrone Power, com um buquê de
rosas vermelhas na mão e nos olhos um voluptuoso desígnio.
Qual era naquele momento o seu medo maior?
Naquele momento seu maior medo era que seu pai perdesse o processo
iniciado pelo seu detestado ex-noivo Cecil, o que acarretaria grandes prejuízos
para a situação econômica e social da família Sáenz.
No já mencionado 27 de janeiro de 1938, fazendo uma pausa nos afazeres do
dia, às 17h45 horas, Francisco Catalino Páez deixou-se cair no catre do quartel.
Os exercícios de instrução de Tiro ao Alvo estavam terminados por esse dia e ele
havia novamente se destacado, assim como nas aulas teóricas que eram dadas
pela manhã. O grosso tecido sanforizado da camisa de trabalho estava grudado
no corpo molhado de suor. Decidiu satisfazer uma vontade e dirigiu-se para o
banheiro do pavilhão. A água da ducha saía fria, mas não tanto como a água da
bomba, nos fundos do rancho. E não tinha que bombear, a água saía sozinha, era
só abrir uma torneira, abundante, podia gastar quanto quisesse. Era permitido
sair, essa tarde, mas não podia perder o jantar do quartel, nem gastar dinheiro em
bonde, e o centro da cidade de La Plata ficava muito longe dali. De qualquer
maneira, tirou do armário o flamante uniforme de Suboficial da Polícia e passou
a junta dos dedos na gabardina do dólmã e das calças, no couro brilhante das
botas, nos fios dourados das dragonas, nos botões de metal, lustrados, costurados
à gabardina com duplo fio. Vestiu-se lentamente, temendo desfazer alguma
costura, ou arranhar a superfície das botas. Estava sozinho no quartel, todos
haviam saído. Foi ao banheiro e olhou detidamente o suboficial do espelho. O
desaparecimento do bigode e o corte militar do cabelo, raspado dos lados,
mudavam sua fisionomia, descobrindo traços quase adolescentes. Ao colocar o
quepe, em troca acentuava-se a força do olhar, olhos de homem, já com algumas
rugas: ele costumava crispar as pálpebras ao receber o jorro gelado da água da
bomba, ou ao receber o par de tijolos que os pedreiros passavam de mão em
mão, descarregando um caminhão, e ao enterrar, com toda a força, a picareta ou
a pá na terra seca, e ao notar num ocasional espelho da rua que as calças que
recebera, além de estarem gastas, eram grandes ou pequenas para ele. Tirou o
quepe de viseira refulgente voltou a colocá-lo, provando-o de maneira mais ou
menos requintada.
Qual era naquele momento seu maior desejo?
Naquele momento seu maior desejo era dar uma volta pelas ruas principais
de Vallejos com seu flamante uniforme.
Qual era naquele momento seu medo maior?
Naquele momento seu maior medo era que Raba o denunciasse à Delegacia
de Coronel Vallejos como sendo o pai da criança que ia nascer.

No já mencionado 27 de janeiro de 1938, fazendo uma pausa nos afazeres do


dia, Antônia Josefa Ramírez, às 23h30, descansava numa cama de encosto da
Sala de Partos do Hospital Regional do Município de Coronel Vallejos. Havia
sido trasladada com urgência uma hora antes, depois de caminhar, tomada de
intensas dores, quatro quadras desde seu rancho até a primeira casa com
telefone. Como de hábito, sua tia estava trabalhando como doméstica numa casa
do centro e só voltaria muito tarde. A enfermeira pensava que se tratava de um
falso alarme, mas esperava que o médico voltasse de uma inspeção na sala de
primeiros socorros e ficara a observá-la, antes de se decidir a interná-la ou
mandá-la de volta para casa. Raba levantou-se e viu o pátio iluminado por uma
lâmpada tênue, alguns homens, sem dúvida maridos das jovens internadas e
velhas de cabelo branco, certamente as mães ou sogras, esperando as novidades
que poderiam acontecer de um momento para outro. Pancho estava longe, mas
era para o bem de todos: estava prestando exames para Suboficial, ao voltar iria
ganhar bem, tinha viajado no dia 29 de julho, há já quase seis meses que não o
via, e ela havia cumprido sua promessa de não dizer nada a ninguém. Quando ele
estivesse seguro em seu posto poderiam arranjar as coisas, mas por que não
havia respondido as suas cartas? será que se haviam extraviado? ou sua letra era
tão horrível que os carteiros não a haviam compreendido? Um dos rapazes do
pátio parecia-se com Pancho, talvez somente por causa dos bigodes espessos e
pelo cabelo comprido e encaracolado, estava nervoso, andava de um lado para
outro, fumando. Raba desejou intensamente segurar com força a mão de Pancho,
então ele a beijaria com suavidade, Raba sentiria o roçar do bigode espesso e lhe
acariciaria a cabeça, o cabelo comprido e encaracolado. A lâmpada do pátio era
pequena e, devido ao calor, voavam em redor dela mais insetos do que o
costume, moscardos, mariposas e besouros cascudos.
Qual era naquele momento o seu maior desejo?
Naquele momento o seu maior desejo era que a criança nascesse sadia.
Qual era naquele momento o seu medo maior?
Naquele momento seu medo maior era que Pancho voltasse e repudiasse a
ela e à criança.

Buenos Aires, 10 de novembro de 1938


Querida Mabel
Cumpro a promessa de te escrever a carta que tanto me pediste, marota.
Antes de tudo desejo que estas linhas te encontrem bem, e também a sua família.
Creio que foi no sexto ano que fizemos esta promessa, quando tínhamos apenas
doze anos, e só pensávamos em noivos. Bem, me coube ser a primeira em viajar
em lua de mel, pelo que sou eu que vou começar.
Antes de mais nada muito obrigada pelo presente tão bonito, que lindo
abajur, o tule branco da armação é uma beleza, era dessa fazenda que eu queria
fazer meu vestido de noiva, mas não consegui encontrá-la, deve ser importada. O
presente, desnecessário dizer, também significou para mim muitas coisas mais,
inclusive que, no fundo, nunca deixamos de ser amigas. Não é que eu seja
materialista, quem sou eu, mas você já havia parado na rua para felicitar-me, de
todo coração, e eu percebi então que voltamos à velha amizade de antes, mas na
véspera do meu casamento, quando chegou o abajur, eu o estava olhando e
chamei minha mãe para mostrar-lhe que minha colega de escola havia se
lembrado de mim. E como escolheste bem! Mais uma vez, muito obrigada. Por
onde começo? Da igreja voltamos para a casa de mamãe, brindamos com os
poucos parentes e meus sogros que haviam vindo de Trenque Lauquen, e quando
foi nove e meia mudei o vestido, estreei o tailleur de que te havia falado, e
saímos no carro, uma velharia, mas que ainda anda. Até aí eu não me havia
emocionado, tão nervosa estava com o vestido de noiva, que tinha defeitos, e
com as malas para fechar, e além disso fiquei até o último momento brigando
com minha mãe porque ela insistia que eu trouxesse para Buenos Aires o vestido
de noiva para tirar as fotos aqui. Bem, finalmente concordei com ela, mas ainda
não tiramos as fotografias, amanhã pela manhã vou pedir preço nos
estabelecimentos fotográficos da Rua Callao, perdão, Avenida Callao, Massa
fica muito aborrecido quando eu faço essas confusões de nomes, porque lá vi
casas muito boas. Como te dizia, toda a cerimônia na igreja e pela manhã no
civil, e eu tão nervosa com o vestido e o penteado, e o véu de tule que me ficava
tão mal, e a boca seca, morta de sede, mas quando pus o tailleur já comecei a me
sentir diferente, e ao subir para o automóvel e despedir-me de mamãe me
emocionei tanto, tanto, Mabel, que chorava como uma louca. As lágrimas me
vinham do peito, do coração mesmo. Quando o carro deu a partida, meu marido
me olhou o rosto e começou a rir, porém ele também estava emocionado, porque
vira que a mãe dele também chorava, pobre senhora, parece que se trata de
pessoa muito boa. Desci o véu do chapéu para enganá-lo, pois não queria que ele
me visse sem pintura. Felizmente o caminho de terra estava bastante calcado
pela chuva e mais ou menos às doze chegamos a Lincoln. Aí passamos a noite, e
depois de almoçar, no dia seguinte, seguimos viagem para Buenos Aires. E lá
pelas sete da tarde entramos em Buenos Aires diretamente pela Avenida
Rivadavia, como é iluminada! meu marido me ia dizendo os nomes dos bairros
que íamos atravessando, Liniers, Flores, Caballito, bonitos nomes, não é
verdade? Às onze chegamos a este hotel, uma beleza, de quatro andares, enorme,
velho porém conservado, que fica na Avenida Callao, bem próximo nada menos
que do Congresso.
Eu só havia vindo duas vezes a Buenos Aires, uma vez quando era menina e
a outra vez quando internaram minha avozinha no hospital, já em estado grave.
Estávamos de luto e não fomos a parte alguma. A primeira coisa que fiz quando
cheguei aqui foi levar-lhe flores, embora isso tenha me custado uma discussão
com Massa, ele quer fazer tudo a seu modo, mas é muito bom e não estou me
queixando. Bem, o que te quero dizer é que eu não conhecia quase nada. O hotel
é muito caro, mas vale a pena, ao meu marido é muito conveniente ficar aqui
porque ele tem que receber uns homens de negócios com os quais está tratando.
Por isso é que viemos a Buenos Aires em nossa lua de mel, porque assim ele
resolve umas coisas, mas agora vejo que traz má sorte contar coisas antes que
elas aconteçam, mas não aguento mais. Acontece que Massa não suporta
Vallejos. Diz que nunca viu um povoado tão fuxiqueiro e cheio de inveja como
Vallejos, e segundo ele Trenque Lauquen progride menos, mas a sua gente é
melhor. Agora onde ele quer mesmo vir morar é… aqui! Nada menos! Veja só
que ambicioso me saiu o gordinho. Aqui ele tem alguns conhecidos e amigos,
gente da sua cidade, que estão se saindo muito bem, e por aí podemos também ir
nós. Em princípio, planejamos ficar uma semana mais, em vez de gastar o
dinheiro fazendo compras, conforme era nosso intento, mas com os presentes
que recebemos já temos muita coisa, a questão é saber arrumar tudo direito.
Você dirá que estou contando muitas coisas mas nada a respeito da lua de
mel. É verdade. Antes de tudo, Mabel, ele é um rapaz muito, mas muito bom.
Com isso não quero dizer-te que não tenha seus maus dias, mas não pensa noutra
coisa senão no futuro, e em que iremos ter todo o conforto, e pensa sempre no
que eu mais gosto para comprar-me, assim não preciso trabalhar muito em casa,
e quando ele tem uma tarde livre, porque sai sempre pela manhã para tratar de
seus negócios, saímos para ver geladeiras, já escolhemos uma vitrola, e se eu
conseguir convencê-lo uma das primeiras coisas que compramos é um ventilador
que eu vi, desses pequeninos que são a última novidade, todos cor creme. E
quando penso que não tenho de ir mais à loja, não posso acreditar, belisque-me
Mabel, assim me convenço de que não estou sonhando.
Claro, quando voltar a Vallejos me espera muito trabalho, porque com o
casamento tão apressado, já imagino o que dirão em Vallejos e que lhes caia a
língua em pedaços, mas, como te dizia, com a pressa, nem cortinas novas
coloquei no meu quarto. Ah, que porcos, as coisas que dirão, que Massa não tem
onde cair morto, que vamos viver na casa de mamãe. Mas verão, pois se esperam
que haja novidades antes dos nove meses, claro que vamos lhes dar novidades, e
uma delas é a nossa mudança para a capital, e se isso falhar, bem, já temos em
vista um chalezinho para alugar no povoado, numa rua asfaltada. Te conto essas
intimidades porque como você e sua família sofreram na própria carne por causa
da maldade dessa gente, nestes meses que tiveram esse desgosto, por isto te digo,
porque você pode me compreender.
Meu marido me pergunta o que prefiro em Buenos Aires, se um apartamento
no centro ou uma casinha com quintal nos arredores. Ai, Mabel, estou tão
encantada que quero ficar no centro. Agora te conto o que faço pela manhã.
Massa quer sempre o desjejum no quarto e esse é o momento com o qual mais
custo a me acostumar: tenho medo de que ele me surpreenda com a fisionomia
de recém-acordada, que raiva que me dá! Mas logo que ele sai, fico costurando
as cortinas, e não importa que fiquemos um pouco na casa de mamãe, para ela é
bom, pois lhe faz falta alguém que a alegre um pouco, pois sabes que papai não
está nada bom de saúde. Mas não falemos de coisas tristes. Como te dizia, estou
fazendo as cortinas para aquele que foi meu quarto de solteira, encontrei uma
fazenda muito bonita e nada cara, de forma que comprei e as estou fazendo.
Apronto-me com cuidado para o almoço e se consigo que Massa desista de
dormir a sesta, quando ele tem a tarde livre saímos, já te disse, mas se fico
sozinha, percorro todos os lugares da capital que quero conhecer. É facílimo
caminhar aqui, já estou aprendendo o nome das ruas, fui sozinha até o Cabido, a
Torre dos Ingleses, o arranha-céu que se encontra defronte, a Estação Retiro, o
porto, e subi num navio de guerra que se podia visitar. Amanhã vou conhecer a
estação de Constituição, e meu marido (e lhe digo que ainda não me acostumei a
chamá-lo de meu marido), como ia dizendo, meu marido me prometeu levar à
Boca, não vou sozinha porque lá tem muito desordeiro. Às sete estou sempre
esperando-o no hotel, porque às vezes ele chega com algum homem de negócios
e vamos tomar um vermute por aí.
Esta semana, felizmente, resolvi perguntar no hotel se nos permitiam pagar
as diárias excluindo o preço do jantar, por que assim poderemos jantar por aí.
Pois bem, foi a melhor ideia que tive, porque tendo-se o jantar pago no hotel,
jantar que servem tanta e tão boa comida, enchíamo-nos como animais, e você
pode imaginar como são os homens em lua de mel, não querem saber nada de
sair depois do jantar.
Bem, Mabel, o fato é que desde segunda-feira que começamos a comer fora
do hotel, a coisa mudou, porque se você é obrigada a pagar não come só de
gulosa, como se come no hotel, e fica-se satisfeito com alguma coisa mais leve.
E assim vou levando-o sempre para perto do obelisco, vamos como quem não
quer caminhando bem devagar, e quando se dá conta o Senhor Massa já está no
obelisco. Ali, há restaurantes em quantidade, e você sabe por que vou sempre
ali? Porque acabamos de jantar, isso lá pras nove e meia, justamente em pleno
bairro dos teatros e cinemas, e assim ele não me pode negar. Na segunda-feira
foi descanso das companhias e fomos ao cinema, uma beleza o filme “Argélia”,
com Charles Boyer e uma garota nova de cujo nome não me lembro, a mulher
mais divina que já vi em minha vida, e de passagem conheci o Cinema ópera, de
que você me havia tanto falado. Ah, tens razão, um luxo de não se acreditar, ao
entrar vi logo esses balcões de palácios, luxuosíssimos, com plantas tão
cuidadas, e os vitrais coloridos, e lá em cima da tela aquele arco-íris, fiquei
muda, e quando meu marido me cutucou e me apontou o teto… ah, por pouco
não solto um grito, as estrelas brilhando e as nuvens movendo-se, parecendo um
céu de verdade! O filme era bom, mas apesar disso de vez em quando eu olhava
para cima, e os movimentos das nuvens continuaram durante toda a sessão. Não
é sem razão que cobram tão caro.
Na terça-feira insisti até que convenci Massa a me levar a um teatro de
revista, fomos ao Maipo, estavam levando “Good-bye Obelisco”, guardei o
programa, com Pepe Árias, sua esposa Aída Olivier, que não conhecia porque
não trabalha no cinema, é uma bailarina muito boa, e mais Sofia Bozán, que é
maravilhosa, Alicia Barrié e essa morena tão bonita que está sempre fazendo
papel de má, Vitoria Cuenca. Como me pareceu estranho vê-las em pessoa! Mas
me arrependi muito de ter ido, porque a peça está cheia de piadas as mais
grossas, e eu não sabia onde meter a cabeça.
Para cúmulo, havia também anedotas a respeito de recém-casados, suei como
uma louca. Depois, na quarta-feira, vimos no Teatro Nacional a companhia de
Muino-Alippi em “A Estância de Papai”, muito boa, com uma festa campestre
no fim, o programa dizia 80 pessoas em cena, parece que era verdade. À noite
haviam falado tanto a meu marido das marionetes de Podreca que fomos ver,
mas estavam num teatro de bairro, o Fênix, no bairro de Flores, que fica no
caminho que vai para Vallejos. Não te conto, Mabel, a tristeza que me deu em
pensar que dentro de alguns dias teremos de tomar esse caminho… até o fim.
Que ingrata, dirá você, viveu toda a vida em Vallejos e agora não quer voltar.
Mas Mabel, que me deu Vallejos? Apenas desilusões. Guardei o programa dos
bonecos para você, foi algo divino, te contarei tudo quando voltar. E esta, se te
digo não acreditarás, sabes quem estreia no Teatro Smart, numa peça que se
chama “Mulheres”? A Mecha Ortiz, nem mais nem menos. Me lembrei logo de
você, pois sei que ela é a única artista argentina que você suporta. Se
conseguirmos entrada, iremos vê-la esta noite mesmo, pediram daqui do hotel as
entradas pelo telefone e o teatro não quer reservar, mas se eu perder essa peça eu
morro. Diz o porteiro que irão também artistas de cinema, pois se trata de uma
estreia muito importante.
Bem, Mabel, oxalá pudéssemos ir juntas, desejo que estejas bem e que teu
papai não esteja muito preocupado com o que se passa, negócios são negócios,
como diz Massa.
Ele diz que por isso é que à noite temos de nos divertir, e esquecer tudo, mas
é claro que se fosse por ele ficaria no hotel, para jantar, e depois, dormir, mas eu
me faço de amuada e consigo sempre aproveitar as noites para ver as tantas
coisas que há nesta Buenos Aires tão louca. Amanhã Massa quer ver Camila
Quiroga em “Com as Asas Partidas”, ele gosta muito dos dramas fortes. Eu nem
tanto, para isso basta a vida, não é verdade?
Como vês, cumpri com o compromisso. Te dou um grande beijo e até breve.
Nené

Consulta o relógio de pulso — presente dos pais no dia do casamento — e vê


que faltam ainda várias horas para que o marido volte. Pensa, com alegria, em
todas as coisas que poderá fazer, numa liberdade total, sem que ninguém a
espie, numa cidade como Buenos Aires. Apanha o jornal para ver o endereço do
Teatro Smart. Lê sem interesse as manchetes da primeira página, “ITÁLIA E
GRÃ-BRETANHA AINDA NÃO CONCORDAM NA RETIRADA DOS
VOLUNTÁRIOS DA ESPANHA — Em Londres considera-se insuficiente o
número de 10 mil combatentes proposto por Mussolini. Londres (Reuter).
Durante a tarde de ontem…” Pensa que seu pai seguramente lerá essa notícia,
quando o jornal chegar a Vallejos, no dia seguinte. Ele está doente e lê todas as
notícias vindas da Espanha. Talvez a alegria de sabê-la bem casada o ajudará a
suportar a enfermidade. Escuta um ruído na fechadura, pensa com agrado que
deve ser a camareira — de tão amável companhia — que vem, como é seu
costume a essa hora, mudar as toalhas. É ela a única mulher com quem pode
conversar em Buenos Aires, já que está sempre rodeada de homens. Mas no
lugar disso vê aparecer seu marido, sorridente e desfazendo o nó da gravata.
Olha-o e ao perceber que ele se dispõe a tirar a roupa para dormir uma possível
sesta, sem perder tempo ela lhe pede duas aspirinas para acalmar uma forte dor
de cabeça. Ele tira do bolso a carteira, onde, por precaução, guarda sempre um
envelope com aspirinas.
fascículo
10

… vos tenés el alma inquieta de un gorrión sentimental.

ALFREDO LE PERA

— Alô!
— É a Raba!
— Alô! Quem fala?
— É a Raba! D. Nené está?
— Está, mas quem fala?
— É a Raba! A Rabadilla! É D. Nené quem está falando?
— Sim, sou eu. Como estás, Raba? Já são dez e meia da noite, me assustaste.
— Vim aqui para Buenos Aires, para trabalhar, a senhora se lembra de mim?
— Claro que me lembro. Você está com seu filhinho?
— Não, deixei com minha tia, em Vallejos, porque ela não está trabalhando
mais como servente, lava roupa para fora como eu fazia, fica o dia inteiro em
casa, e por isso ficou com o bebê.
— Quantos anos tem seu filhinho?
— Faz pouco tempo, uma semana que não o vejo, mas não posso ficar sem
ver o negrinho, D. Nené.
— Não, te pergunto que idade ele já tem, se já fez um ano.
— Ah, sim, quando eu completar um ano aqui vou vê-lo…
— Você não está me ouvindo? De onde está falando?
— Do bar da esquina, e estão todos conversando perto.
— Tapa um ouvido com a mão, assim ouvirás melhor, experimente.
— Sim, vou fazer o que a senhora manda, D. Nené.
— Deixe de ser boba, Raba, não me chame de dona.
— Mas agora a senhora está casada.
— Ouça-me, que idade tem o seu filho?
— Quase um ano e três meses.
— Como é que ele se chama?
— Panchito! Acha que fiz mal em pôr esse nome? Sabe por que…
— Que sei eu, Raba?… E ao pai, não voltaste a ver?
— Está construindo a casa lá mesmo onde tem o rancho, ele mesmo é quem
a está construindo, você sabe, Nené, que Pancho é muito trabalhador, e o que ele
mais quer antes de se casar é fazer a casa, e trabalha todo dia como um burro,
quando deixa o trabalho de suboficial vai para o rancho fazer a casa.
— E quando tiver terminado, lhe prometeu alguma coisa?
— Não, nada, ele não quer mais falar comigo porque disse que eu andei
contando por aí que ele era o pai da criança. Porque eu lhe havia jurado que não
diria a ninguém até que ele tivesse emprego fixo na Polícia.
— E é verdade que você andou contando?
— Nem eu nem minha tia contamos nada. E você, não está esperando?
— Há sintomas… mas fala-me de Vallejos, você viu minha mãe?
— Sim, vi-a na rua, ia com seu papai, que continua muito magro, que é que
ele tem que caminha agora tão devagar?
— Está muito doente, Raba, parece que vai morrer. Tem câncer pobrezinho
do meu pai. Está muito magro, Raba?
— Sim, coitado, só pele e ossos.
— Aonde iam, você sabe?
— Iam ao médico… Foi tua mãe quem me deu teu telefone.
— Ah, foi ela?
— E me pediu que se visse você para lhe perguntar se você ia mandar o
dinheiro ou não. Tua mãe me disse que compraste o grupo para o living e que
por isso não queria mandar o dinheiro.
— E Celina, você a viu? Com quem ela está andando?
— Não sei se anda com alguém, dizem que à noite ela está sempre na porta
da casa e passa alguém e fica conversando com ela.
— Mas não se sabe de nada certo?
— Todos dizem que Celina é mulher fácil, mas o fato é que ninguém lhe fez
ainda um filho. Se lhe fazem um filho, não vão mais cumprimentá-la, como
aconteceu comigo.
— E Juan Carlos, você viu ele?
— Sim, sempre rodando por lá. Não trabalha em lugar nenhum. E dizem que
agora anda novamente com a viúva Di Carlo. Você não sabia?
— Quem te disse?
— Bem… é o que todos dizem. Posso ir um dia à sua casa, fazer uma visita?
— Raba, claro, terás que visitar-me, mas não venhas sem antes me telefonar.
— Sim, vou te telefonar, mas será que não vão me dar o contra? Me passou
isso agora pela cabeça.
— Que está dizendo?
— É que não me casei e já tenho um filho.
— Não sejas boba, Raba, você me aborrece dizendo essas coisas. O que sei é
que quando vieres vou te dizer umas quantas sobre esse sem-vergonha.
— Quem? Juan Carlos ou o Doutor Aschero?
— Não, o sem-vergonha que te fez um filho.
— E você acha que ele fez por mal? Não será que ele tem medo que o
expulsem da polícia se se casar com uma como eu?
— Vou te abrir os olhos, Raba. Telefone-me na semana que vem e
conversaremos. Até um dia desses, Raba, não deixe de me telefonar.
— Sim, senhora, eu telefono. — Tchau, Raba. — Obrigada, senhora.

Sentada na cama, Nené fica um momento em silêncio esperando ouvir os


passos do esposo, do outro lado da porta fechada. O silêncio é quase total, o
bonde, na rua, corre sobre os trilhos. Abre ‘a porta e chama-o. Não tem
resposta. Vai até a cozinha e encontra-o ali, lendo o jornal. Recrimina-o por não
lhe haver respondido. Por sua vez, ele se queixa de que ela sempre o perturba
quando ele está lendo o jornal.

— Alô… — É a Baba…
— Alô, quais são as novidades?
— Quem fala? É a Nené?
— É. Como vai passando? De onde está falando?
— Do mesmo telefone do bar. E seu marido?
— Está bem. Outro dia falamos de tantas coisas e você acabou não me
dizendo onde está trabalhando.
— Numa fábrica, Nené. Mas não gosto, quero voltar para Vallejos.
— Onde você mora?
— Num quarto, com uma amiga de minha tia, que foi quem me trouxe para
aqui. Desde o ano passado que ela já trabalha na fábrica de sabão. A senhora não
quer ser a minha patroa?
— Aqui em casa, queres dizer? Não, quando eu tiver um filho vou precisar
de ajuda, mas agora não. Meu marido nem sequer almoça em casa nos dias de
trabalho.
— Quer que vá visitá-la?
— Hoje não, Raba, pois tenho de sair. Mas quero que venhas um dia, assim
conhecerás a casa. É uma pena que minha mãe não possa ver a casa, com os
novos móveis da sala de jantar e do living, poucos em Vallejos têm uma casa
como a minha, mamãe nem pode imaginar.
— Hoje Tereza aproveitou o domingo e foi passear por aí, com uma outra
velha como ela, que não gosta de mim, me convidaram, mas a outra diz sempre
rindo que não sei atravessar a rua, por isso é melhor eu ficar sozinha em meu
canto.
— Meu marido foi ao futebol, mas depois vou ver se ele quer me levar a
alguma parte, senão pediria que viesses.
— E se eu fosse agora só por uns minutos? A que horas ele volta?
— Não, Raba, hoje não, porque se ele te encontra aqui vai pensar que eu já
me diverti no domingo com alguma coisa e então não vai querer sair mais.
— Aonde ele vai te levar?
— Ao cinema ou ao teatro, o principal é que eu não tenha que fazer o jantar,
me aborreço em cozinhar todas as noites e dormir logo em seguida.
— Onde fica a sua casa? Fica longe de onde estou? Se você quiser vir aqui, é
o quarto que tem defronte um vaso de coroa-de-cristo, há uma porção de plantas
grandes no pátio… e eu faço um mate. E lhe dou um galho de coroa-de-cristo.
— Não, Raba, te agradeço, mas meu marido não quer que eu saia sozinha.
— E te conto tudo a respeito de Mabel…
— Que é que ela fez?
— Nada, apenas que antes de eu vir para cá o noivo dela apareceu para
visitá-la, foi daqui de Buenos Aires para vê-la. É pequeno, da altura de Mabel,
por isso é que ela agora tem de andar de salto baixo.
— Estão comprometidos?
— Não, embora ela diga o contrário, mas o fato é que depois do infortúnio
que aconteceu ao Sr. Sáenz, já não existe mais muito rapaz para lhe fazer a corte.
Queres que eu te conte alguma coisa a respeito do Doutor Aschero?
— Raba, nem me lembro mais desse sem-vergonha!
— E teu marido não te falou nada?
— Sobre o quê?
— Bem… nada.
— Conte-me mais sobre Mabel, quem é o noivo dela?
— Quando a menina Mabel estava aqui em Buenos Aires a mãe dela me
contava que ela havia conhecido um rapaz que queria se casar com ela, mas que
a menina Mabel não gostava dele, pois dizia que ele não tinha caráter.
— Você se lembra se esse rapaz era um professor?
— Sim, me parece que sim, pois Mabel dizia que ele tinha um emprego de
mulher… E eu, enquanto pude continuar dando de mamar ao bebê, fiquei em
Vallejos, e por mais que minha tia pedisse eu não me decidia a vir. Será que ele
estará bem agasalhado, agora que começa o frio?
— Claro, como é que não vai estar?…
— Nené, quero ver Panchito. Quando foi que você o viu?
— Quando tinha um mês.
— E nunca mais vocês voltaram ao rancho, nem você nem a menina Mabel
vieram mais, eu sempre esperei por você e você nunca mais voltou. E teu
marido, aonde te vai levar?
— Não sei, Raba. Além disso, nem sequer estou certa de que vamos sair. Me
telefone logo, Raba, outro dia, tá?
— Você mandou ou não o dinheiro para sua mãe? Porque eu não te disse
nada, mas sua mãe me contou tudo.
— Tudo o quê?
— Que primeiro você havia dito que ia mandar dinheiro para o tratamento do
seu pai, num sanatório pago, e que agora têm de ir ao hospital público.
— Mas foi a própria mamãe quem me disse que ele tinha sido muito bem
tratado no hospital, e além disso por mais que eu queira, não posso, pois gastei
muito com os móveis do living. E só por capricho é que ela resolveu novamente
querer o sanatório, isso você não sabe, e por que ela não tira o dinheiro da
caderneta, as economias não são para isso, para um caso de necessidade?
— Ela me disse que você era muito má com seu pai, e que não lhe escreveria
mais. Te escreveu?
— Claro que me escreveu.
— E quando vou te ver?
— Telefone-me logo, tchau, Raba.
— Tchau.

Apesar da dor de cabeça e crescente mau humor, dispõe-se a fazer a cama,


pela segunda vez no dia, como acontece todos os domingos. Seu marido desfaz a
cama depois do almoço, todos os domingos e feriados, para deitar-se um pouco,
antes de ir ao jogo de futebol, fato que provoca discussões não apenas
relacionadas com o transtorno de ter de fazer novamente a cama. Nené reflete e
procura conformar-se pensando que, por sorte, só aos domingos e feriados é que
ele vem almoçar em casa.
— Alô…
— É Raba. É você?
— Sim. Como está?… ah, Raba, como agradeço o que trouxeste, senti tanto
não haver estado em casa essa tarde, só por acaso é que saí e olhe que saio muito
pouco. Mas eu lhe disse que você deveria me avisar pelo telefone antes de vir.
— Queria te fazer uma surpresa. Gostou do ramo?
— Sim, vi-o logo que entrei. Depois a porteira me disse que lhe havia aberto
a porta.
— Ela não queria me abrir a porta, não queria de forma alguma, mas eu disse
que se tratava de um galho delicado e se não se plantar direito ele logo morre.
Gostou do lugar onde botei?
— Sim, e me parece que pegou bem.
— Vou voltar para Vallejos. Vou amanhã.
— Por quê? O que aconteceu? Não vá contar a mamãe que viu minha casa!
— Já juntei o dinheiro para a passagem e hoje foi o último dia que trabalhei
na fábrica.
— E lá, que vai fazer? Lavar roupa novamente?
— Não. A menina Mabel falou com minha tia que se eu quisesse voltar, eu
seria novamente sua empregada, que agora já não podem mais ter arrumadeira e
cozinheira, eu e a mãe dela é que vamos fazer tudo. E me dão permissão para ver
Panchito todas as tardes.
— E por aqui você não conseguiu nenhum noivo?
— Não, tenho medo de me meter com homens que não conheço.
— Você vai contar a minha mãe que veio à minha casa?
— Se você não quiser, não lhe conto nada.
— A que horas sai o trem amanhã? Porque se quiseres posso te levar alguma
roupa minha, usada.
— Sai às dez da manhã. Mas seria melhor se a senhora tivesse alguma coisa
nova para Panchito. Ele precisa mais do que eu.
— Bem, tão cedo não vou ter, mas se encontro alguma coisa, eu compro. De
qualquer maneira te vejo amanhã sem falta na estação. Às nove e meia já estarei
lá. Vá cedo, para pegar um bom lugar.
— Não deixe de ir, e se tiver alguma coisa usada para mim, não se esqueça
de levar.
— Raba, prometa-me que também não contarás a Mabel que viste minha
casa.
— Te prometo. E por acaso, você não terá um cobertorzinho para Panchito,
pois agora já está fazendo frio?
— Vou ver. Tchau, Raba, tenho o que fazer.
— Bem, então até amanhã.
— Tchau, e chegue cedo.
— Tchau.

Volta a arrepender-se de ter pedido o telefone de cor branca, pois está


sempre marcado pelas manchas de dedos sujos. Além disso, precisa de uma
cadeira nesse quarto, para não ter de sentar-se na cama cada vez que atende o
telefone. Resolve lustrar o ferro dos móveis do quarto de dormir naquele dia
mesmo. Indo para a cozinha, atravessa um quarto destinado a sala de jantar e
onde só existe uma caixa de papelão com um abajur de tule branca. No pequeno
vestíbulo de entrada, destinado ao living, também não há móveis: olha o espaço
vazio perguntando-se se jamais conseguirá juntar dinheiro para comprar tudo à
vista, quer evitar o pagamento de juros de uma compra a prestações.

— Já que você está aí, será que não me cortaria uns figos? casca aveludada,
verde, dentro a polpa de carocinhos vermelhos doces parto-os com os dentes
— Boa-tarde, não a havia visto o pé, as unhas pintadas assomam nas
chinelas, pernas magras, ancas largas.
— Boa-tarde.
— Perdoe-me se ando aqui pela sua cerca, mas se não colocarmos uma
antena não poderemos ouvir rádio, e os presos irão se queixar os presos nunca
veem uma mulher
— E você também vai querer ouvir, não diga que não… negro barato, seu
pescoço e as orelhas estão brilhando, lave-se para ver se fica branco
— Como não… Tiro só os mais maduros, ou também os meios verdes?
minha farda de gabardine e botas que brilham —
— Só os que estivessem bem madurinhos. Outro dia venho com uma vara e
tiro os outros como-os, um por um, e me estiro no jardim, pouco importa que me
piquem os bichinhos da grama
— Pode me chamar, ponho a escada do outro lado e num instante subo na
cerca trepo, salto, subo, desço, pego nela.
— Nunca faz nada? a única coisa que faz é escutar rádio? uma empregada
teve um filho natural
— A culpa não é minha de não haver nenhum roubo por aí. Um balaço, para
me. fazer saltar a tampa dos miolos
— Então vou dar queixa que me estão roubando as galinhas penas grandes
brancas, penas negras e amarelas e marrons arqueadas brilham as penas da
cauda, outras enchem o colchão, tão suave, afunda
— Ninguém vai acreditar.
— Por quê?
— Porque vive parede-meia com a Delegacia, de forma que o galinheiro está
sempre vigiadinho. Uma galinha branca para o galo, não existe um galo no
quintal, de noite uma raposa vai se meter no galinheiro
— Menos mal, sem dúvida… É pena que não se possam pôr no xadrez as
formigas, veja como elas me estragam as roseiras… suavidade de veludo,
pétalas frescas e róseas, abrem-se, um homem as acaricia, aspira o perfume,
corta a rosa
— Que está fazendo?
— Botando veneno para as formigas negras, pequeninas, ruins, negro
grandalhão, com os braços de pedreiro, terá forçado Raba? Não tem notícias de
Juan Carlos, você que era amigo dele?
— Sim, escreveu-me uma carta… Juan Carlos pergunta por uma vagabunda
— Mas ele nunca se cuidou direito e vocês sempre andavam juntos, lhe fazia
companhia se não me engano… qual dos dois é mais homem? qual dos dois é
mais forçudo?
— Juan Carlos era o meu melhor amigo, e continuará sendo o mesmo para
mim. o pedreiro tem casa de tijolo, e fêmea professora?
— Onde está ele? Na mesmo casa de saúde de luxo de antes? os olhos
castanhos-claros se entornavam quando ele me beijava
— Não, acho que está numa pensão, e se trata com um médico particular.
— O outro sanatório era caríssimo.
— Sim, parece que sim… Tiro estes aqui?
— Estes… sim, já estão bem madurinhos para se comer, e sirva-se você
também os dentes marrons e amarelos
— São difíceis de descascar te pelo, casca verde, polpa doce avermelhada
— Tenho medo que caia.
— Não caio não. Vou jogar uma de cada vez, pegue lá… Lá vai… muito
bem… esborrachou-se? as galinhas se espantam, cacarejam, jogam-se contra a
tela de arame e se machucam, as raposas fogem por qualquer buraco da cerca
— Espere que eu coma um… Conte-me como ficou amigo de Juan Carlos
um crioulo negro, ele era branco, os braços não tão musculosos, os ombros não
tão largos
— Um dia, quando éramos meninos, desafiei-o para uma briga as raposas se
escondem numa cova que ninguém sabe onde fica, a cova da raposa
— Está na polícia há muito tempo?
— Entre minha ida para a escola em La Plata e o dia em que cheguei aqui,
mais ou menos um ano e meio.
— As garotas devem gostar da farda, não? a Raba vai voltar de Buenos
Aires, será que o negro pulará a cerca para forçá-la novamente?
— Que nada, é conversa. De quem a senhora ouviu isso? as brancas sim, que
as crioulas são negras e peludas
— Sei que algumas moças não podem ver uma farda. Quando eu estudava no
colégio de freiras, em Buenos Aires, minhas colegas se enamoravam sempre dos
cadetes um cadete, não um negro suboficial qualquer
— E a senhora, não? sim, sim, sim
— sim, eu também. Não, eu me portava bem, era uma santa. Não fique
preocupado, porque tenho noivo e é coisa séria bom rapaz, mas um pigmeu
comparado com o negro grandalhão
— Qual? Aquele que no verão chega da capital? um baixote daquele jogo no
chão com um sopapo
— Claro, quem mais poderia ser?…
— É um homem um tanto baixinho… raposa, onde é teu esconderijo?
— Sou eu que tenho de gostar dele, não você.
— Quer que eu tire mais figos?
— Bem, aqueles que estão mais em cima, não vás embora ainda…
— e a mãe? onde está? Não consigo alcançá-los. Só se eu for no seu quintal
e subir pela árvore, quer?
— Não, porque se minha mãe vê, vai zangar-se, mas se quiser outra vez,
quando estiver na Delegacia sem fazer nada, pode descer até aqui e subir na
árvore, mas é melhor que mamãe não o veja. mamãe não diz nada, nada, nada, e
a Raba chega dentro de poucos dias
— Mas sua mãe está sempre em casa ou não? seguro a raposa pela cauda
— Sim, mamãe está sempre em casa, não sai quase.
— Então… quando é que vou poder chegar até aí? de noite, de noite…
— de noite, de noite… Não sei, mamãe está sempre em casa.
— Ela não faz a sesta?
— Não, não faz.
— Mas de noite deve dormir… quando pular a cerca não faço barulho, as
galinhas não vão acordar
— Claro, mas de noite você não enxerga bem para subir na árvore um tipo
forte trepa de qualquer jeito numa figueira
— Enxergo, sim…
— Mas não pode ver qual é o figo que está maduro e qual é o que está verde
vem, vem
— Posso, sim, porque apalpo e os que estão mais macios são os maduros e
deixam uma gotinha de mel, parece-me que vou comer todos sozinho, se vier
esta noite. A que horas sua mãe dorme? agarrei-a e não a solto mais
— Mais ou menos às doze já está dormindo na certa… terá forçado Raba?
terá tanta força para isso? e se Raba chega e me encontra com um negro?
— Então, às doze venho sem falta a noiva do baixinho
— E a antena? Já colocou? morro de vontade de dar um beijo num homem
de verdade, como teu amigo — Tem tempo, primeiro vou comer um figo. Vou
caminhando pela rua diante das pessoas, tendo ao lado uma professora.
fascículo
11

Se fue en silencio, sin un reproche


había en su alma tanta ansiedad…

ALFREDO LE PERA

Junho de 1939
Os lenços brancos, todas as cuecas e as camisas brancas, deste lado. Esta
camisa branca não, porque é de seda, mas todas as outras deste lado, uma
ensaboadela e jogo na bacia, só um pouco de água sanitária. Os lençóis brancos,
não tenho nenhum, a anágua branca, cuidado que é de seda: faz-se em pedaços
se a ponho na água sanitária. Uma camisa azul, os lenços de cor, os guardanapos
xadrezados nesta gaveta, antes de tudo as cuecas e as camisetas porque não são
de cor, os lenços brancos e este sutiã, como vou aguentar sem ver hoje meu
nenê? mas é para o bem dele, como a água está fria. Uma ensaboadela na bacia,
minha tia lavando para fora no meu neném? mas é para o bem dele, como a água
está fria. mas neste tanque da menina Mabel, se se fecha a porta, a ventania não
entra, se amanhã quando eu chegar ele estiver dormindo eu acordo o Panchito da
mamãe!… amanhã à tarde faço o que resta e depois o trem, a noite toda, de
Buenos Aires a Vallejos, como Buenos Aires estava longe do meu filhinho!
amanhã faço o que resta e as quinze quadras vou caminhando, vou olhar ele
brincar com a bola e ao voltar lavo os pratos do jantar da patroa, do senhor e da
menina Mabel: Panchito é igualzinho ao pai, atrás da cerca Francisco Catalino
Páez está fardado, que está fazendo? bate com o rebenque num preso e todos se
agacham de medo, até que acaba de trabalhar, põe o capote e ao dobrar a esquina
a surpresa o espera. Com um alfinete ligo esta ponta da anágua à outra com a
camisa branca de seda, para que os guardanapos de xadrez não molhem, amanhã
já estarão enxutos, será que fará frio na esquina com o vestido novo? mas a
roupa estendida do lado de dentro não ficará suja de terra. Qual é o teu nome?
perguntarão a Panchito, “eu me chamo Francisco Ramírez, vou estudar para ser
suboficial”, quando o pai ficar velho vai deixar para o filho seu emprego de
suboficial. Mas um dia vou com Panchito pela rua, que já está caminhando
sozinho, vai ficar de pernas tortas para sempre? levo-o pela mão, mas será que
todos os nenéns são assim, de pernas tortas, e depois crescem e ficam com as
pernas direitas? encontro com o pai dele por acaso, ele vai passando pela calçada
defronte, cruzo com ele e lhe mostro, claro que ele vai gostar! como é igualzinho
a ele e assim qualquer dia nos casaremos, sem festa, para que gastar tanto? assim
Pancho vê que já voltei de Buenos Aires e de manhã, depois da missa das seis,
ninguém vai à igreja, pela porta tão bonitinha dos fundos entram Pancho, eu, a
madrinha e o padrinho, peço ao patrão e à patroa para serem os padrinhos, a
menina Mabel durante a manhã trabalha na escola, “… Y el gaúcho extranado le
dijo no llores mi pingo, que la patroncita ya no volverá…” é um tango triste,
porque quando a gaúcha morre o gaúcho fica sozinho com o cavalo e não pode
acostumar-se “… talvez por buena e por pura Dios del mundo la llevó…” mas o
tango não diz se o gaúcho ficou com um filhinho, Pancho ficaria com o Panchito
se eu morresse, em que rancho? no dele ou no de minha tia? estamos no quarto
sozinhos e com este pregador penduro a camisa azul pela manga e os lenços de
cor já estão pendurados, assim só falta a outra camisa branca de seda, e se eu
morro e ele fica sozinho com Panchito pelo menos já não ficará tão triste, pelo
menos lhe deixo um filho sadio e bem bonito “… entro ai rancho en silencio y
dos velas encendió, ai pie de la virgencita que sus ruegos escuchó, decile que no
me olvide, virgencita dei perdón, decile que su gaúcho se quedo sin corazón,
talvez por buena y por pura Dios dei mundo la llevó…” e vejo que ele chora e
reza por mim, perdoo-lhe tudo! não é verdade, virgenzinha, que tenho de perdoá-
lo? tiro a roupa da água sanitária quando chegar da rua e com uma última
enxaguadura fica pronto. Se eu morrer ele se casará com outra? mas pelo menos
ele já terá cumprido o que me prometeu, casando-se comigo, e se eu. morrer a
culpa não é dele, é a vontade de Deus, como é triste o gaúcho, só lhe resta o
cavalo “...y dos velas encendió, ai piede la virgencita que sus ruegos escuchó…”
e um dia vou rezar para que Nené seja feliz e tenha muitos filhos, ela foi
despedir-se de mim no trem com um corte de fazenda, de uma seda tão bonitinha
para o verão, na esquina com o decote quadrado como a menina Mabel, será que
Panchito vai chorar porque hoje não vou ver ele? é para o teu bem, negrinho de
mamãe, veja mamãe neste espelho, você gosta do seu vestido novo? que “… en
un taller feliz yo trabajaba, nunca senti deseos de bailar…” as operárias de
Buenos Aires ganham mais nas fábricas e gostam de zombar da gente, podem rir
de mim “… hasta que un joven que a mi me enamoraba llevóme un dia com él
para tanguear…” seria moreno, quando Pancho me aperta tanto é para não me
soltar mais… porque o noivo abandonou aquela moça da fábrica? com esta
travessa nos cabelos o vento não me despenteia na esquina, com esse frio visto o
casaco velho? “… fue mi obsesión el tango de aquel dia en que mi alma con
ânsias se rindió, pues ai bailar senti en el corazón que una dulce ilusión,
nació…” cada passo, uma parada, ele adianta a perna e empurra a minha perna,
não sei dançar o tango muito bem, sempre indo para trás, ele ia para frente e
cabia a mim ir para trás, e quando fica um pouquinho quieto esperando
novamente pelo compasso era uma sorte que não me soltasse, porque de repente
ele parava de dançar e eu podia cair, mas me mantinha agarrada, o noivo
abandonou aquela moça da fábrica porque ela não tinha vestido novo! “… era
tan dulce la armonía, de aquella extrana melodia, y llena de gozo yo sentia mi
corazón sonar… mi corazón sangrar …” o coração sangrando, a moça da fábrica
podia morrer e deixar o filho sozinho, será que ela chora todas as noites como
eu? mas não morre nem deixa o bebê sozinho, chorar não mata ninguém “…
como esa música domina, con su cadência que fascina, adónde va mi pobre vida,
rodando sin césar…” vão despedi-la da fábrica e ela terá de trabalhar como
criada “… la culpa fue de aquel maldito tango, que mi galán ensenome a bailar,
y que después hundiéndome en el fango, me dio a entender que me iba a
abandonar…” as mangas desfiadas e a lapela, se visto o casaco não se vê que o
vestido é novo “… y adónde irá mi pobre vida, rodando sin césar…” que se
dane, vagabunda! as das fábricas de Buenos Aires não sabem o que é trabalhar,
por que são de Buenos Aires pensam que são melhores do que as criadas, nunca
mais deixarei a casa da menina Mabel! ela me dá licença toda tarde para eu ver o
meu neném, e quando voltar da rua a roupa do balde já estará limpa, será que
saem todas as manchas de café? se não saírem esfrego de novo com sabão, foi
uma sorte eu ter me lembrado dessa travessa, vento imundo asqueroso! e às sete
Pancho dobra a esquina, como faz todos os dias, e fica contente de ver-me
depois de tanto tempo, não digas que fui má, que não te vim esperar antes, é que
queria estrear o vestido, já tem duas semanas que voltei de Buenos Aires!
alguém te disse ou não sabias de nada? o corte foi Nené quem me deu de
presente, lembras-te dela? e Pancho pede que eu lhe mostre o bebê e eu lhe digo
que não posso ir agora até o barraco da minha tia porque não acabei de enxaguar
a roupa, mas se ele quiser pode ir, pois encontrará lá minha tia com Panchito,
gosta do nome? gostou muito que eu tivesse posto o nome dele e queira Deus
que eu não pegue uma pneumonia nesta esquina, e se eu tivesse trazido
Panchito? eu enrolava ele na manta que Nené Fernández me deu e assim ele não
sentiria frio e o pai o veria e iríamos à igreja, porque eu lhe diria que ele ainda
não foi batizado, então Pancho acredita nessa mentira e vamos à igreja batizá-lo
e lá ele se decide e nos casamos. A farda, as botas e o quepe tão gordo? é o
comissário! Já serão sete horas? virá me prender porque tive um filho sem me
casar, o corte de fazenda ganhei de presente, será que vão pensar que roubei? o
comissário entra na confeitaria! e se um dia ele me prender digo-lhe todas as
casas em que trabalhei e que pode falar com a minha patroa, a menina Mabel,
por que será que Pancho está demorando tanto em sair? “… desde el dia que de
paseo vi en un banco a una cieguita, y a su lado a una viejita que era su guia y su
amor…” será que a anágua está aparecendo? a menina Mabel não me disse que o
vestido estava curto! “… y observe que la chiquita de ojos grandes y vacios
escuchaba el griterío de otras nenas al jugar…” Celina brincava, Mabel, Nené,
todas continuaram até o sexto ano, pulando a corda no recreio “… y le oi que
amargamente en un son que era de queja preguntábale a la vieja, porquê yo no he
de jugar?…” minha tia tem cabelos nas pernas e bigodes e quanto mais raspa
mais crescem, e as mãos pretas, e varizes verdes, mas tem uma empregada, a do
Prefeito Municipal, que é muito clara, mas Pancho também é escuro como todos
os que moram nos barracos “… ay cieguita dije yo con gran pesar, ven conmigo,
pobrecita, le di un beso y la cieguita tuvo ya con quien jugar…” e o pai da
ceguinha? um dia passa pela praça e finge que não a vê, com desprezo, e a
velhinha não tem força, porque é muito velha, para cravar um punhal nesse
homem tão mau, mas a mulher de bom coração veio em socorro da velha “… y
así fue que diariamente al llegar con la viejita me buscaba la cieguita con
tantisimo interés. … que feliz era la pobre cuando junto a mi llegava y con sus
mimos lograba que jugásemos los três…” e somos recém-casados e o bebê está
no seu bercinho branco quando o pai chega, cansado, e vai deitar-se, estava
dando plantão como suboficial, e depois fez um poço, para começar a construir a
parede, a parede do banheiro da casinha, ele toma banho com água fria, da
bomba, terá um chuveiro depois, e Pancho se estira na cama cansado mas bem
limpo, e Panchito sozinho no berço fica olhando, agarrado à grade da sua
caminha, e pouco importa que o barraco não tenha cozinha! primeiro Pancho
terá de construir o banheiro de alvenaria, e quando puder fará a cozinha e eu lavo
os pratos ao ar livre, as panelas, e quando houver sobras de comida atiro às
galinhas, e quando vou para o quarto como estou cansada, e ali estão os dois
brincando, “… pero un dia bien me acuerdo no fue más que la viejita, que me
dijo la cieguita está a punto de expirar, fui corriendo hasta su cuna, e ai morirse
me decía, con quién vas ahora a jugar?…” e essa mulher tão boa que brincava
com a ceguinha um dia vê passar o pai da ceguinha e lhe pergunta por que ele
não a quer, o homem é bom ou mau? “… ay cieguita! yo no te podre olvidar,
pues me acuerdo de mi hijita que también era cieguita… y no podia jugar…”
negrinho, não fiques doente… come toda a batata que a tia velha te dá, come a
papa, negrinho, assim não ficarás doente agora que faz tanto frio… e eu fico
cega, eu e não o meu neném, banho os olhos na água sanitária pura e fico cega e
Pancho tem pena e acaba se casando comigo, minha tia faz a comida “… y eran
mis pupilas como dos espejos, donde se miraba la felicidad…” a água sanitária
arde quando salpica os olhos “… castigo la noche, se quedaron ciegos y quedo
en las sombras quebrado *l cristal…” as janelas se partirão? arrepiada como pele
de galinha por ter vindo sem casaco “… me cubrió los ojos un borrón de niebla,
me perdi en las sombras oyendo tu voz… y en la soledad de mis tinieblas hoy
solo te puedo llorar…” e os cegos choram? vertem lágrimas aqueles que não têm
olhos? e os que têm um olho de vidro?… “como cien estrellas que jamás se
apagan, brillan tus recuerdos en mi corazón…” não te vou deixar, Raba, prometo
que jamais te deixarei, sou pedreiro e sou bom “… ellas me regalan la ilusión dei
alba…” amo-te, Raba, amo-te para sempre “… en la noche triste de mi
ceguedad…” e ele se aproveita de eu ser cega e traz para casa outra mais branca,
a empregada do Prefeito Municipal, e me diz que é uma velha “… eran mis
pupilas como dos espejos donde se miraba la felicidad… castigo la noche, se
quedaron ciegos y quedo en las sombras quebrado el cristal…” saltam os vidros
quebrados, um estilhaço afiado, e sai sangue da moça da fábrica: um pedaço
grande de vidro lhe cortou a carne como uma faca, passou por entre as costelas,
lhe partiu em dois o coração! e com uma facada cortei a asa de um frango
depenado, a cabeça, as patas, e tirei o fígado e o coração, é bonitinho o coração
do frango, depenei uma galinha, dei-lhe outra facada e dentro dela havia uma
porção de ovinhos, a mãe da menina Mabel gosta deles fervidos com azeite e sal,
o coração da galinha é maior do que o de um frango? e não importa que não me
peças perdão, sei que tens direito de querer mais, uma moça que não seja criada,
e se ele passa e não me olha e se se zanga e cospe em mim? as botas e o quepe…
aí vem ele, com capote novo! e meu vestido está curto! Pancho, só me olhe na
parte de cima, apenas, o decote quadrado e as mangas curtas, não me olhes a
barra do vestido que está curta e deixando aparecer a anágua, porque ele vai para
a outra calçada? não me viu? claro que me viu, Pancho! entrou na confeitaria!
será amigo do comissário? nosso filho vai ficar ceguinho! e eu pego a água
sanitária e jogo em cima de mim e me queimo toda, por ter sido má não cuidei
do meu bebê, sem pai e ceguinho, um dia ele caiu do berço, pois não sabe onde
botar suas patinhas tortas, e quebrou a cabeça, a cabecinha abriu-se em duas e
ele morreu, será esse o castigo! e o pai vai arrepender-se muito tarde, fica
sozinho e volta para o barraco, e lá encontra uma vela acesa, ele reza à virgem,
morreu a sua mulher e morreu também seu filho, será que a roupa já está branca
o suficiente para ser tirada do balde? não, mais algum tempo, vou ver o bebê? e
depois volto correndo as quinze quadras para tirar a roupa da água sanitária! e
hoje não vamos ter tempo para brincar porque me atrasei, peque, nino, mas
amanhã à tarde mamãe vai te abrigar com o xale novo e te levará à praça, para
veres passar os carros, pois gostas de olhá-los, um dia vou te trazer para ver os
canários da gaiola de Mabel, e outro dia, quando receber o ordenado, te compro
sapatinhos, é às sete e meia que a sapataria fecha? e teu pai não me
cumprimentou porque estava apressado, ou será que ia à sapataria para nos fazer
uma surpresa? de tanto andares sem sapato tenho medo que fiques de pernas
tortas para sempre, embora todos os pequenotes como você tenham as pernas
tortas assim, até que fazem dois anos, Panchito, quantas quadras ainda faltam
para eu poder lhe dar um beijinho? prometo que quando receber te compro
sapatinhos e se teu pai nos ver, afinal ele passa por aí e diante das pessoas te dá o
desprezo?… será que ele teve medo de que eu lhe desse uma facada e por isso
entrou na confeitaria?… com o facão cortei a asa de um frango depenado, o
pescoço, as pernas, e tirei o fígado e o coração para cozinhá-los na caçarola, é
preciso botar na caçarola todos os pedaços já cortados, o frango assado não,
corro atrás dele no galinheiro, agarro-o, estico o pescoço e com uma facada lhe
corto a cabeça, bate as asas ainda por uns instantes depois de eu lhe ter cortado a
cabeça, e bate os olhos, tiro-lhe todas as penas e com toda força lhe dou outro
golpe com a faca para lhe abrir o peito, arranco-lhe as porcarias que ele tem
dentro e lavo-o na torneira com o jorro de água fria…

Junho de 1939
… O figo maduro, a pelezinha verde não tem gosto, embaixo a polpa
vermelha com as gotas de mel, comi todos os que quis, enchi o bucho, aparador
com todas as bonecas, o cabelo natural, os olhos que se movem, se eu quiser
posso lhe torcer os braços, as pernas, a cabeça, até fazê-los doer pois à noite as
bonecas não podem gritar, as três flâmulas, a cruz de madeira e o cristo de
bronze, o porta-retrato, a cômoda, o armário, é perfumado o forro do travesseiro,
minha cabeça negra no travesseiro branco, o lençol está bordado com florzinhas
que não são de verdade e um laço as vai unindo de uma ponta à outra da cama, o
cobertor de lã tirada de alguma ovelhinha mansa, deixa que o carneiro se
aproxime de você: bem abrigada está a boneca de tamanho natural, acordo-a
quando quero, o cabelo e a boca negra na sombra, as bonecas sentadas no
aparador, não se movem, torço-as e lhes dou volta à cabeça, aos braços e às
pernas, vem o pai e me vê: torço-lhe um braço, depois o outro e não aguentam
mais de dor, mas não podem gritar porque se gritarem serão descobertas, a carne
negra do crioulo sujou teus lençóis bordados? te suja a boca e as orelhas e todo o
corpo das doze horas da noite até as três, quatro da madrugada, te sujou a
consciência? não tens remorsos? estas meias já suadas, onde está a camiseta?
passo trapo na graxa e quando for dia engraxo todo o couro da bota, quando
secar, passo a escova, as botas muito bem lustradas e lustro também o cinturão,
ela tinha é que lustrá-las, preguiçosa, pausa, a boneca dorme, o cabelo natural e
os olhos que se movem, desperta, já vou embora, terás que fechar a janela depois
que eu saltar, faz frio, a lua e as estrelas, o quintal, minhas botas vão brilhar, a
tua boquinha com gosto de caramelos sortidos, de limão, de mel, de eucalipto,
amanhã me darás mais caramelos, esta noite os sapos vão se congelar nos
charcos, gelará a água dos encanamentos e eles rebentarão. A lua me faz brilhar
as botas! sapos, o charco, a parreira, a empregada está dormindo, os canteiros, as
roseiras, as formigas, o orvalho, a geada, a figueira, a terra, o pasto, a cerca, esta
lua que me faz brilhar as esporas, os botões de metal, um gato, estou tremendo
de frio, há um gato. não, não há nada… quem está pisando nas folhas secas?… é
de frio que estou tremendo, não tenho medo de ninguém… um gato está
caminhando… não se aproximes de mim!… pensei que eras um gato, alguma
coisa brilha em tua mão, unhas pontudas de gato? a faca de cozinha.

Cosquín, 28 de junho de 1939


Querida:
Vai achar estranho que eu te responda tão depressa. Hoje recebi tua carta
com essa má notícia e não pude acreditar, pobre rapaz. Fomos muito amigos,
embora a certa altura ele não passasse de um negro esfarrapado. Mas não me dás
nenhum detalhe, te peço por favor que na volta do correio me contes como se
passou tudo. Que rebuliço não estará havendo aí no povoado.
Que bom que foi ter aparecido esse interessado na casa, não o deixes escapar,
vende logo e assim poderás vir aqui para junto de mim. Mas ainda não comecei a
perguntar os preços dos imóveis aqui, sou assim meio vago, que se há de fazer,
mas estou certo de que farás uma boa compra e que ficaremos juntos. Já estou
cansado da maldita desta pensão.
Veja o que é a vida, esse rapaz que tinha tanta saúde agora está morto. Te
asseguro que estou muito melhor, hoje dormi cerca de quatro horas de sesta e
quando acordei os lençóis estavam completamente secos, em vez de ter dormido
mal, com sonhos maus devido à notícia que você me deu, pois quanto mais
nervoso estou mais me vêm os suores, mas hoje não. Vê-se que estou me
curando.
Gorda, te beijo e te abraço.
Juan Carlos
Larga a caneta, fica de pé e abre a janela para renovar o ar viciado do
quarto. Seu rosto reflete-se no vidro, sorrindo sem motivo. Consulta o relógio de
pulso, são cinco da tarde e o céu está negro, não se distinguem as montanhas na
escuridão. Pensa nos mortos e na possibilidade de que observem tudo o que
fazem os vivos. Pensa no amigo morto que talvez o esteja olhando de algum
lugar desconhecido. Pensa na possibilidade de que o amigo perceba que a
notícia do assassinato, em vez de entristecê-lo, o alegrou.
fascículo
12

… fue el centinela de mi promesa de amor...

ALFREDO LE PERA

Polícia da Província de Buenos Aires


Delegacia: Coronel Vallejos.
Destino do expediente: Julgado em Primeira Instância do Ministério da
Justiça da Província de Buenos Aires e Arquivo local.
Data: 17 de junho de 1939.

Ata Inicial (Extratos)

No dia dezoito do mês de junho do ano de mil novecentos e trinta e nove, o


funcionário que subscreve a presente ata, Subcomissário Celedonio Gorostiaga,
com participação do Subcomissário Benito Jaime Garcia, que referenda para os
efeitos legais, faz constar que com a presente ata se constitui sumário
correspondente à ocorrência na qual perdeu a vida o Suboficial de Polícia
Francisco Catalino Páez, ex-funcionário desta Delegacia.
O fato deu-se na madrugada do dia dezessete do presente mês de junho,
como foi testemunhado pelo Cabo de Guarda Domingo Lonati, o qual ouviu
gritos quando se encontrava na cozinha da Delegacia, situada no pátio traseiro
do edifício. Os referidos gritos vinham de um edifício vizinho, o que não pôde
ser precisado naquele momento, porque ao sair o Cabo para o pátio, já que
mantinha as janelas fechadas devido à baixa temperatura reinante em todo o
município de Coronel Vallejos nos últimos dias, mas quando chegou ao pátio os
gritos já haviam cessado e ouvia-se apenas um gemido que também logo cessou.
O cabo subiu na cerca, aproveitando-se de uma escada que fora ali deixada junto
à parede, e olhou para o quintal da casa ocupada pela residência do Senhor
Antônio Sáenz. No referido quintal existe uma grande figueira que lhe ocultava
toda a visão, mas acreditou ele ter percebido vultos em movimento junto à porta
que dá para o tanque de lavar roupa da referida vivenda. O Cabo Lonati pensou
que talvez se tratasse de uma briga de animais tais como cães e gatos e apesar da
baixa temperatura permaneceu na cerca, de vigia. Decorridos poucos minutos,
viu acenderem-se lâmpadas no referido lavadouro. Viu movimento de várias
pessoas e então o Cabo, gritando, ofereceu socorro, mas ninguém lhe respondeu,
já que a porta do lavadouro estava fechada. O Cabo Lonati pensou que o melhor
era voltar à sala de guarda, visto que o telefone podia tocar e, com efeito, antes
de chegar à sala, já estava soando a campainha. Tratava-se do Senhor Sáenz,
pedindo ajuda policial, já que o Suboficial Páez jazia na residência do Senhor
Sáenz, já sem vida, como depois foi constatado pelo médico da Perícia, Dr. Juan
José Malbrán.
Em continuação, o que subscreve esta, Comissário Celedonio Gorostiaga,
morador no andar superior do edifício da Delegacia, foi convocado pelo Cabo
Donati e juntos se dirigiram ao domicílio do Sr. Sáenz. Este esperava de pijama e
robe de chambre, da mesma forma que sua mulher, Dona Agustina Barraza de
Sáenz e sua filha, Senhorita Maria Mabel Sáenz. Contaram que durante o sono
haviam sido despertados pelos gritos do Suboficial Páez, ferido no jardim pela
empregada da casa, Antonia Josefa Ramírez, à qual passaremos agora a chamar
de a “acusada”.
(… constatou que o corpo já estava sem vida, e declarou morto para efeitos
da Lei. O enfermeiro, com a ajuda do Cabo, levou a padiola da ambulância para
o referido jardim. Antes de remover o cadáver, este que subscreve a presente Ata
teve que impor a sua autoridade, já que o médico da Perícia insistia em erguer o
cadáver antes que o que subscreve esta pudesse tomar todas as precauções que o
caso exigia, tais como estabelecer em sucintas anotações a posição do cadáver
no lugar exato em que tombou e também tomar nota do estado em que se
encontravam as plantas circundantes, que, no caso, eram roseiras. O enfermeiro
Launero numa atitude de quase desacato à autoridade, deixou cair a padiola
sobre o canteiro, danificando as plantas, mas como já havia sido observado pelo
que esta subscreve, os canteiros que bordejam o caminho, à esquerda, estavam
intactos antes daquela intervenção do enfermeiro, enquanto que os da direita
estavam danificados pela queda do morto. Disso deduz-se que não houve
propriamente luta, ou seja, que o Suboficial foi atacado de frente, mas de
surpresa, porque de outro modo não se explica que não tenha conseguido sacar o
revólver de sua cartucheira, embora sua mão direita estivesse segurando a
coronha do revólver que por motivos fortuitos não conseguiu sacar.) (… e a isto
o Subcomissário que referenda o presente sumário deseja acrescentar que tudo
comprova que a primeira ferida foi a do abdômen, enquanto que a do coração foi
feita quando a vítima já se achava caída…)
(… um corte de faca de cozinha, de lâmina afiada de vinte e oito centímetros
de comprimento, que lhe penetrou por entre as costelas e foi direto ao coração,
golpe este que mulher não poderia ter dado estando a vítima em posição vertical,
mas sim em posição horizontal, o que permitia à referida mulher meter a faca de
cima para baixo num corpo que já se achava indefeso.)
(… e ali estava estendida na cama, sem sentidos. Ao seu lado encontrava-se
a Senhorita Sáenz. A acusada vestia apenas uma anágua e sua roupa íntima, a
anágua apresentava restos de manchas de sangue lavadas com água, mas,
segundo explicou a Senhorita Sáenz, quando ouviram os gritos foram encontrar a
acusada junto ao morto, de pé, brandindo a arma e balbuciando. Em seguida
desmaiou e foi conduzida ao seu leito pela Senhorita Sáenz, a qual já contava
então com o auxílio dos senhores seus pais. Colocaram a acusada na cama e
lavaram suas manchas de sangue com uma esponja. Como estava com frio,
cobriram-na com cobertores e foram imediatamente chamar o médico e logo a
polícia, depois do qual…)
(Segundo declaração da Senhorita Sáenz, a acusada queixou-se dias atrás de
que o morto (a quem não dirigira mais a palavra desde que soube encontrar-se
esperando filho) a havia interpelado na rua, ordenando-lhe que deixasse aberta a
porta do quintal, para que pudesse entrar e visitá-la, ao que a acusada respondeu
com desprezo, pois, devido ao desinteresse do morto pelo seu filho, lhe tomara
grande rancor. O que aconteceu nessa noite no entanto não se podia detalhar,
porque a acusada foi encontrada no jardim em estado de grande nervosismo, e
não pôde explicar nada.
Em seguida, pedida a sua intervenção, o Dr. Malbrán revistou a acusada e
nela não encontrou quaisquer vestígios de violência sexual, mas recomendou que
não a despertassem, para que voltasse a si normalmente. Decidiu-se, então, que
ela ficaria no quarto com o Cabo Lonati, enquanto a Senhorita Sáenz a ficaria
velando, sentada ao lado da cama.
Em continuação, foi necessário inspecionar a disposição dos aposentos da
casa, do que ficou concluído que se tem acesso ao quintal por uma única porta,
que é ladeada por duas janelas: à direita, a janela do quarto da Srta. Sáenz e à
esquerda a janela que dá para o tanque de lavar da casa, ambas janelas com
vistas para o jardim, que depois termina na cerca que separa a casa da Delegacia.
Segundo o Sr. Sáenz, era seu costume deixar sempre fechada com tranca a dita
porta de acesso ao quintal, mas em mais de uma ocasião ficara aberta, sobretudo
desde que fora inaugurado o edifício da Delegacia nova, o qual dava sensação de
segurança aos ocupantes da residência.)
(Cerca das oito e trinta da manhã de ontem, ou seja, do dia dezesseis, a
acusada acordou e foi atendida pela Srta. Sáenz. Às nove e quarenta e cinco o
Dr. Malbrán atestou que a acusada podia responder ao questionário policial. Do
mesmo, são as seguintes declarações.
Antônia Josefa Ramírez, de vinte e quatro anos de idade, confessou ter
assassinado o Suboficial de Polícia Francisco Catalino Páez com uma faca de
cozinha. A confissão foi interrompida diversas vezes por crises de pranto e a
cada momento a Srta. Sáenz teve de impedir que a acusada levasse a efeito a sua
intenção de bater com a cabeça na parede. A Srta. Sáenz. a quem a acusada, logo
que acordara, já havia contado o que se havia passado, ajudou-a a preencher as
lacunas que sua memória apresentava a cada instante. Os fatos se precipitaram
na madrugada do dia dezesseis, ao ver a acusada entrar o morto em seu quarto,
vestindo sua farda de suboficial. Este a ameaçou com um revólver e disse-lhe
que ela devia entregar-se a ele ali mesmo, apesar da proximidade dos patrões. A
acusada, cheia de rancor por haver sido abandonada com um filho natural,
depois de haver sido seduzida à força de vãs promessas, resistiu dizendo ter
medo de acordar os patrões, e como oportunamente aparteou a Srta. Sáenz, era
costume da Sra. Sáenz levantar-se no meio da noite, atacada de acidez, e dirigir-
se à cozinha. Um detalhe: a referida cozinha se comunica com o quarto da
empregada sem porta, apenas uma cortina de pano negro as separa, pois
originariamente o referido quarto era uma despensa. Com esse argumento a
acusada convenceu o morto a ir para o pátio, onde faria o que ele lhe estava
ordenando. A princípio ele não concordou, só o fazendo quando a acusada
ameaçou gritar. Então o morto, apesar do seu estado de embriaguez — detalhe
este revelado na autópsia — acedeu e juntos se dirigiram para o pátio. Mas antes
tiveram que passar pela cozinha e foi ali que a acusada, sub-repticiamente,
apanhou a faca de cozinha e a escondeu. O morto queria levá-la até o fundo da
casa, com o propósito de vexá-la mais uma vez. Quando a acusada acreditou ter
chegado o momento oportuno, já no pátio, mostrou-lhe a faca para afugentá-lo,
mas Páez, embriagado, não deu importância à ameaça, pelo contrário… )
(… procedeu-se à investigação do atestado de nascimento do menino
Francisco Ramírez, nascido a 28 de janeiro de 1938 no Hospital Regional de
Coronel Vallejos, e no dito atestado ele figura como sendo de pai desconhecido.
Em seguida, foi convocada a tia da acusada, Senhorita Augusta Ramírez, de
quarenta e um anos, lavadeira de profissão. Sob juramento, esta declarou haver
recebido dinheiro de Páez para a manutenção do menino, em mais de uma
oportunidade, e acrescentou que em mais de uma ocasião, isto é, sempre que via
o morto, levava a criança para que ele a visse, sob a condição, imposta pelo
morto, de que não dissesse à mãe do menino que ele o via. Segundo a referida
lavadeira, o mesmo era muito carinhoso para com o filho, pois este se parece
muito com ele, e encontravam-se, manhã cedo, nas zonas distantes da cidade, já
que o morto temia ser visto com o menino. O referido morto ameaçava a
lavadeira em não lhe dar mais dinheiro se ela contasse à acusada que ele via o
menino. Numa oportunidade o morto apareceu com uma bola de borracha que
disse ser um presente para o menino, com a condição de que a lavadeira dissesse
que a havia comprado com o dinheiro dado por ele, mas a lavadeira preferiu
dizer à acusada que havia encontrado a bola na rua, num esgoto, pois a acusada
certamente não teria visto com bons olhos uma tal despesa.)
(… em casa de vizinhos da lavadeira e foi conduzido, juntamente com a bola
de borracha, ao edifício da Delegacia para ser observado pelo Oficial que
referenda e pelo que subscreve.
Constatou-se ser o mesmo muito parecido com o morto. Quanto à bola,
depois de uma rápida pesquisa, comprovou-se que foi adquirida no Bar-
Armazém “La Criolla” pelo morto, em data não determinada, entre os meses de
dezembro e janeiro próximos passados, talvez no Dia dos Reis Magos, segundo,
sob juramento, declarou o dono do armazém, Sr. Camilo Pons.
Em continuação, solicitaram-se dados a certos vizinhos sobre a moral da
acusada, e seus antigos patrões, a Professora da Escola Normal, senhora…)
(Em compensação, uma curiosa observação do Cabo Lonati lança dúvidas
sobre a não premeditação do fato sangrento: recorda-se ele de ter visto o ex-
suboficial Páez pular a cerca em direção ao solar de propriedade do Sr. Sáenz,
certa noite, poucos dias atrás, bem como se lembra de certas brincadeiras e
chistes do ex-suboficial sobre presumíveis diversões secretas em horas de
guarda, insinuações as quais nunca aclarava suficientemente. Deduz-se disso que
o morto poderia já ter visitado outras vezes a acusada, o que destruiria o que fora
dito pela mesma, embora também se possa deduzir que o morto sempre que
pulou a cerca encontrou fechada a porta de acesso aos quartos, até que, para seu
brutal castigo, encontrou-a aberta na madrugada de ontem.
Tampouco foi possível encontrar nas dependências da delegacia o recipiente
da bebida alcoólica ingerida pelo morto, o qual…)
(Com estes dados, consideramos completa a informação recolhida referente
ao caso de que nos ocupamos. A acusada acha-se presentemente sob cuidados
médicos na Cela nº 8 desta Delegacia, em caráter de incomunicabilidade a não
ser no que diz respeito às entradas e saídas do médico-legista.
Assinam, sob juramento, a presente declaração para efeitos de lei,
Celedonio Gorostiaga
Comissário
Benito Jaime Garcia
Subcomissário

Polícia da Província de Buenos Aires


Delegacia: Coronel Vallejos
Destino do Expediente: Arquivo Local
Data: 19 de junho de 1939

Foram detidos os menores de idade Celestino Páez, de dezessete anos e


Romualdo Antônio Páez, de quatorze, ambos irmãos do defunto ex-suboficial
desta Delegacia, Francisco Catalino Páez, por atirar pedras contra a acusada de
homicídio Antônia Josefa Ramírez no momento em que esta subia ao trem com
destino à cidade de Mercedes, onde espera julgamento por homicídio,
acompanhada pelo agente Arsenio Linares. A acusada foi atingida por uma pedra
e ferida na base do crânio, e embora o ferimento não tenha sido grave foi
atendida imediatamente pelo serviço de primeiros socorros do próprio trem, o
qual saiu com atraso devido a terem os referidos menores se escondido atrás de
um dos vagões. Logo que foram detidos, o trem seguiu viagem. Ambos os
menores se encontram à disposição do Juiz de Paz do Município de Coronel
Vallejos.

Benito Jaime García


Subcomissário em função

— Posso entrar? tenho o estômago embrulhado


— Claro, entre, por favor. Estava esperando-a. como veio toda arrumada, a
baixinha
— Que plantas tão bonitas a senhora tem… mas a casa dá nojo
— É a única coisa que me daria pena deixar, quando eu for embora de
Vallejos… por que olhas tanto para os ladrilhos quebrados do chão? ela veio
impecável, a lã do capote é cara, o chapéu é de feltro
— Que frio está fazendo, não? a pobretona não tem lareira
— Sim, desculpe-me, esta casa é muito fria. Venha por aqui, vamos para a
sala. só se fores feiticeira encontrarás sujeira… veja que limpeza
— Escute, não me importo de ir para a cozinha, lá está mais quentinho… não
tem lareira, a papada já lhe caiu, deve ter quarenta e cinco, e os olhos têm
bolsas
— Bem, se não se importa, vamos, por sorte lá está tudo limpinho. pensavas
que ias me surpreender com tudo sujo, anã. és uma anã, mesmo que uses chapéu
para ficar maior
— Este fogão consome muita lenha? a pobretona deve limpá-lo todo dia
— Bastante, mas como fico aqui quase o dia inteiro, não me incomodo se eu
sou assim simples o que é que você tem com isto?
— Recebeu carta de sua filha? a gorda
— Sim, ela está muito bem, obrigada pescou um marido o que não lhe
aconteceu
— Onde é que está morando, em Charlone? quatro ranchos perdidos no
deserto
— Sim, o rapaz tem negócio em Charlone. Charlone é pequenina, não? mas
está casada, casada, não solteirinha como certa pessoa…
— A senhora faz muito bem em ir embora de Vallejos. Que iria fazer aqui
sozinha? e manjada
— É verdade. A minha filha já foi e que vou ficar fazendo aqui sozinha?
quando se tem um amor não se perde tempo sozinha…
— Há quantos anos a senhora está viúva? que é que meu irmão viu nela? é
vulgar, veste-se mal
— Vai fazer doze anos. A menina tinha oito anos quando ele morreu. Já sofri
muito na vida, Senhorita Celina. chegou a hora de eu tirar a forra, que é que
estás pensando?
— Que idade tinha a senhora quando morreu seu marido? confesse
— que idade digo? A menina tinha oito… não, não, não, não vou lhe dar
esse gosto
— Olhe, minha senhora, como lhe mandei dizer, tenho um assunto muito
importante para lhe falar tens um corte de cabelo à la garçonne que me dá nojo e
só gentinha usa brincos assim
— Pois não, pode falar com toda confiança. Deus que me ajude, pois essa é
capaz de qualquer coisa
— Antes de tudo quero que a senhora não conte a ninguém mulherzinha
vulgar, vais sofrer muito se não puderes contar à vizinha
— Juro pelo que me é mais sagrado será que Deus não me castigará por eu
estar jurando?
— Por quem? se juras por meu irmão, te cuspo
— jurar por Juan Carlos não me animo. Pela felicidade de minha filha.
— Bem. Veja, recebi hoje carta de meu irmão contando-me o que a senhora
pretende fazer.
— Que disse ele? que pretende esta fulana? vai ameaçar contar tudo à
minha filha?
— Para que repetir? te enganei
— Porque se ele escreveu alguma coisa que não é toda a verdade, não quero
dizer que ele seja mentiroso, mas é preciso deixar tudo claro para que não haja
mal entendidos. pelas dúvidas
— Disse que a senhora soube que nós, mamãe e eu, não você, vagabunda,
não podemos mandar mais dinheiro para Córdoba para o novo tratamento, e que
a pensão onde está não é boa, e que a melhor custa os olhos da cara, bem, que a
senhora escreveu dizendo-lhe que queria vender esta casa e mudar-se para
Cosquín, e ali comprar uma casinha e tomá-lo como pensionista, como é que
meu irmão te pode tolerar, coroa sempre de sapatos de salto alto e meias
soquete
— Sim, é verdade, e se puder vou mesmo tomar alguns pensionistas, para
que me ajudem nas despesas.
— Minha mãe está muito aborrecida com tudo isso. aborrecida de ter de
tratar com vagabundas
— Por quê? Por acaso não é para o bem do seu filho? todas essas cretinas
têm o coração de gelo!
— Sim, mas ela sofre por não poder ajudá-lo como desejaria.
— seria melhor que lhe mandasse alguns pesos, em vez de gastar tanto com
casaco e chapéu Compreendo, mas também ela não precisava ser tão orgulhosa,
isso é mau.
— Minha mãe não é orgulhosa, a senhora não deve dizer isso. O que
acontece é que minha mãe foi educada para que nada lhe faltasse, e agora sofre,
é natural, não? ouça esta, ouça esta, ouça esta!
— como tens coragem de ofender-me, cadela… É, as mães são assim.
— Bem, então minha mãe e eu também lhe queremos pedir uma coisa.
— Pode pedir querem me arruinar? ficarei sem meu amor?
— Vai vender os móveis, vai pôr em leilão?
— me salvei? Não, porque não dão nada, se tivesse de comprar móveis
novos em Cosquín isso custaria muito caro. E se ainda por cúmulo lá não houver
uma casa de móveis e eu tiver de comprar tudo em Córdoba, então ainda será
pior…
— Minha mãe e eu pensamos que mandaria os móveis daqui.
— É, vou mandar daqui. E já tenho uma oferta para a casa, sabe? ninguém
me freará
— Bem, minha mamãe, e eu também, lhe pedimos uma coisa: não encontrará
nenhuma oposição de nossa parte, mas lhe pedimos que não diga a ninguém que
vai para Cosquín. cara de pau, para ir juntar-se com um rapaz mais jovem
— Não se preocupe, eu não pensava em contar a ninguém, nem mesmo à
minha filha. Você sabe como é a língua desse povo daqui. Lembre-se do que
dizem de Mabel… aguenta essa, linguaruda, que ela é tua amiga
— que pretendes insinuar, tu e a tua papada? Não creio no que dizem. Uma
moça de família como Mabel não iria se meter com esse negro.
— são todas umas vagabundas e você é a pior de todas Pode ser que sejam
invenções. Mas parece que ela se contradisse na declaração.
— Devia estar nervosa… Mas, voltando ao nosso assunto, mesmo que não
fale a respeito de Cosquín, a gente acabará sabendo, se não tomar cuidado. Por
exemplo, os móveis: seria conveniente que não os despachasse daqui.
— E como vou fazer?
— Se despachar pela empresa de mudanças daqui, todo mundo vai logo
saber. Mande os móveis daqui para sua filha em Charlone e de lá para Cosquín.
E tome as mesmas precauções para o resto.
— não me tirarás Juan Carlos. Que outras precauções?
— Todas. Assim ninguém fica sabendo de que está lá com meu irmão. Tem
que compreender que isso é uma vergonha para nossa família disse-te o que
queria
— não, vergonha é roubar Se Deus mandou essa enfermidade a seu irmão é
porque foi Sua vontade, e não há por que ter vergonha.
— Mas me promete fazer o que eu pedi com os móveis e com a escritura da
casa? Para todos os efeitos é necessário que dê o endereço de sua filha, em
Charlone. Promete?
— Prometo e você, que anda subindo no carro dos caixeiros-viajantes, sua
anã, que direito tem de me falar nesse tom?
fascículo
13

… las horas que pasan ya no vuelven más

ALFREDO LE PERA

Era uma tarde de outubro. Naquela rua de Buenos Aires as árvores cresciam
inclinadas. Por quê? Altos edifícios de apartamentos de ambos os lados do
passeio ocultavam os raios de sol, e os galhos se inclinavam oblíquos, como
suplicando, para o meio da calçada… à procura da luz. Mabel ia tomar chá em
casa de uma amiga; ergueu o olhar até as copas rugosas e viu como os troncos
fortes se inclinavam, se humilhavam.
Foi talvez um vago presságio que apertou sua garganta com uma luva de
seda. Mabel estreitou nos braços um ramalhete de rosas e aspirou o doce
perfume — por que, de repente, pensou que o outono havia chegado à cidade
para nunca mais deixá-la? A fachada do edifício de apartamentos lhe pareceu
luxuosa, mas a ausência de um tapete na entrada tranquilizou-a: o edifício onde
ela dentro em pouco iria morar contava, ao contrário, com esse elemento
decisivo para definir a categoria de uma casa. Embora o elevador dispusesse de
espelho, sim, e examinou nele a sua maquilagem através do fino véu do chapéu
de feltro negro com guarnições de cachos de cerejas, confeccionados em papel
celofane. Em seguida, ajustou, igualando-as, as caudas da pele de raposa que
trazia em torno do pescoço.
Terceiro andar, apartamento B, de penteado alto e excessiva sombra nos
olhos, sua amiga Nené lhe pareceu, ao abrir a porta, algo envelhecida.
— Mabel, que prazer em te ver! — e trocaram beijos nas faces.
— Nené! Ah, que anjinho de Deus, já está caminhando, o tesouro! — e
beijava o menino, e depois descobriu mais adiante, no seu gradeado, o filho
menor da amiga — e o menorzinho, que graça!
— Não… Mabel… não são nada bonitos, não lhe parecem feiinhos? — disse
com franqueza a mãe.
— Não, são lindos, tão gordinhos, tão engraçadinhos! Que idade tem o
menor?
— O bichinho tem oito meses e o grandão já fez um ano e meio, ainda bem
que são homens, não é? Por isso é que não tem importância que não sejam
bonitos. — Nené sentiu-se pobre, só tinha para mostrar dois meninos sem graça.
— E começam a formar uma escadinha… não perdeste tempo, hein?
— Ah, você sabe que eu estava com medo de que os dias passassem e você
não pudesse vir me visitar. Como vão os preparativos?
— Ando numa roda-viva, embora não vá fazer nenhuma festa, nem me casar
de grinalda. Mas que lindo é o teu apartamento — a voz de Mabel ouvia-se
encrespada pela hipocrisia.
— Acha mesmo?
— Como não acho? Logo que eu voltar da lua de mel você terá que ir ao
meu ninhozinho, esse sim é muito pequenino, o meu apartamento.
— Deve ser uma beleza — respondeu Nené, colocando num jarro as
fragrantes rosas, as quais admirou. — Então se esqueceu de trazer a foto do seu
noivo?
Ambas pensaram no rosto perfeito de Juan Carlos e evitaram durante alguns
segundos olhar-se nos olhos.
— Não, para quê? É um baixote feioso…
— Estou doida para conhecê-lo, você deve ter motivo para se casar com ele,
sua vivaldina. Deve ser um homem muito interessante. Vamos, mostre-me a foto
do baixote…
— antes de terminar a última frase Nené já estava arrependida de havê-la
pronunciado.
— São bastantes cômodas estas cadeiras. Não, queridinho, não me toques
nas meias!
— Luizinho, vê se fica quieto senão te dou umas palmadas. Venha, venha
tomar sua papinha — e Nené dirigiu-se à cozinha para esquentar a água do chá.
— Você é o Luizinho. E seu irmãozinho, como se chama? — sorriu Mabel
para o menino, procurando em sua fisionomia alguma semelhança decisiva com
o marido de Nené.
— Mabel, venha cá, que eu te mostro o apartamento.
Ao entrarem as duas na cozinha não puderam evitar a irrupção das
lembranças. Tantas tardes passadas naquela cutra cozinha de Nené, enquanto lá
fora soprava o ar poeirento dos pampas.
— Sabes de uma coisa, Nené? Gostaria de um mate, como nos velhos
tempos… quanto tempo já tem que não tomamos um mate juntas?
— Anos e anos, Mabel. Mais ou menos desde a época em que fui escolhida
Rainha da Primavera… e estamos em abril de 41…
Ambas calaram-se.
— Nené, costuma-se dizer que todo tempo passado foi melhor. E não é
verdade?
Calaram-se novamente. As duas encontraram uma resposta para tal pergunta.
A mesma: sim, o passado havia sido melhor porque, então, ambas acreditavam
no amor. Ao silêncio seguiu-se o silêncio. A luz mortiça do entardecer entrava
pela claraboia e tingia as paredes de violeta. Mabel não era a dona da casa, mas
não podendo suportar mais a melancolia, acendeu, sem pedir licença, a lâmpada
que pendia do teto. E perguntou: — Você é feliz?
Nené sentiu que um contendor mais astuto a havia atacado de surpresa. Não
sabia o que responder, ia dizer “não posso me queixar”, “há sempre um porém”,
ou “sim, sou feliz, tenho meus dois filhinhos”, mas preferiu encolher os ombros
e sorrir enigmaticamente.
— Vê-se logo que você é feliz, tem uma família, não é uma qualquer…
— Sim, não posso me queixar. O que eu queria era um apartamento maior,
para botar uma empregada que dormisse em casa, não no living, o que dá muita
trapalhada. Mas você pode calcular o trabalho que me dão estes dois meninos?
Agora, que o inverno está chegando, eles começam logo com os resfriados … —
Nené preferiu calar suas outras queixas: que não conhecia nenhuma boate, que
jamais subira num avião, que para ela as carícias do seu marido não eram…
carícias.
— Mas me parecem tão saudáveis… Você sai muito?
— Não, aonde poderei ir com estes dois que estão sempre chorando? Quando
não estão fazendo pipi ou cocô. Quando você tiver filhos, vai ver o que é isso.
— Se você não tivesse, estaria louca para ter, não te queixes — acrescentou
Mabel, enganosa, pois para ela também não era desejável aquela vida rotineira
de mãe e de esposa, mas por acaso era preferível ficar solteira num povoado e
continuar sendo o alvo da maledicência?
— E você, conte-me sobre você… Vai querer ter muitos filhos?
— Fizemos, eu e Gustavo, o trato de não ter filhos até que ele se forme.
Faltam poucas matérias, mas o fato é que sempre leva algum tempo…
— Que é que estava estudando?
— Para bacharel em Ciências Econômicas.
Nené pensou quão mais importante que um leiloeiro público seria um
bacharel em Ciências Econômicas.
— Conte-me alguma coisa de Vallejos, Mabel.
— Bem, notícias frescas não tenho nenhuma, pois há mais de um mês que
estou em Buenos Aires, com todos esses preparativos.
— Juan Carlos continua em Córdoba? — Nené sentiu que o rubor lhe tingia
as faces.
— Sim, parece que está melhor — Mabel olhou a chama azul do fogão a gás.
— E Celina?
— Mais ou menos. Mas para que falar disso, você não acha? Tomou um mau
caminho, você sabe que é fatal meter-se com caixeiros-viajantes. À tarde você
não ouve nenhuma novela?
— Não, tem alguma boa?
— Tem uma divina! Às cinco. Você não escuta?
— Não, nunca. — Nené recordou que sua amiga era sempre quem descobria,
antes dela, quais eram o melhor filme, a melhor atriz, o melhor galã, a melhor
rádio-novela. Por que sempre deixava a outra ganhar?
— Perdi vários capítulos, mas sempre que posso escuto.
— Que pena, hoje você vai perder mais um. — Nené desejava falar
longamente com Mabel, rememorar as coisas, será que teria coragem de falar
novamente em Juan Carlos?
— Você não tem rádio?
— Tenho, mas já passa das cinco.
— Não, faltam dez para as cinco.
— Então poderemos escutar, se você quiser. — Nené lembrou-se de que,
como dona da casa, teria que agradar a visita.
— Sim, ótimo! Você não fica aborrecida? Enquanto ouço podemos continuar
falando.
— Claro. Como se chama a novela?
— O Capitão Ferido, só faltam quatro dias para terminar, e já estão
anunciando para o próximo mês A Promessa Esquecida. Quer que lhe conte
desde o começo?
— Sim, mas depois não se esqueça de me falar da Raba. Como vai ela?
— Muito bem. Mas vou te contar como a novela começa, porque senão logo
serão cinco horas e você não vai entender nada. Garanto que a partir de hoje
você vai continuar ouvindo.
— Então conta logo.
— Olhe, a história se passa durante a guerra de quatorze, um capitão do
exército francês, um jovem de família muito aristocrática, que cai ferido ali pela
fronteira com a Alemanha, e quando recobra os sentidos está na trincheira ao
lado de um soldado alemão morto, e percebe que o lugar caiu em mãos dos
alemães, então tira a farda do morto e se faz passar por alemão. Acontece que
toda essa região da França caiu em mãos dos alemães, e os soldados passam por
uma aldeia qualquer, e passam por uma granja e pedem comida. O dono da
granja é um camponês rude e fechado, mas a mulher é uma mulher muito bonita,
que dá tudo aos alemães contanto que eles sigam caminho, mas aí, veja você, ela
vê o capitão e o reconhece. É que ela havia sido antes uma moça que morava na
aldeia próxima ao castelo em que vivia o rapaz, e quando ele começava a sua
carreira militar costumava encontrar-se com ela nos bosques, ele fora o seu
verdadeiro amor da juventude.
— Mas que espécie de moça era? Era séria ou dada a programas?
— Bem, ela havia se enamorado dele desde pequena, quando fugia do
castelo para ir tomar banho no riacho, e ambos colhiam flores, e é quase certo
que ela então entregou-se a ele.
— Então, se se entregou, que sofra as consequências.
— Não, no fundo ele gosta dela de verdade, mas como se trata de uma aldeã,
ele se deixou levar pela família que queria fazer um casamento de conveniência
com outra nobre. Mas Nené, não íamos tomar mate?
— Ah, com a conversa me esqueci, mas o chá já deve estar pronto. Ou
prefere mate? E ele gosta ou não da nobre?
— Bem… é uma jovenzinha que também está apaixonadíssima por ele, de
tipo muito fino, ele só pode gostar. Vamos tomar chá mesmo.
— Mas, de verdade, só pode gostar de uma.
Mabel preferiu não responder. Nené ligou o rádio, Mabel a observou agora
não mais através do véu do chapéu, mas através do véu das aparências, e
conseguiu ver o coração de Nené. Não havia dúvidas: se ela acreditava ser
impossível amar a mais de um homem era porque jamais tinha amado c marido,
pois a Juan Carlos, sim, havia amado.
— E ele fica com ela por conveniência.
— Não, ele gosta dela a seu modo, mas gosta de verdade, Nené.
— Como a seu modo?
— Sim, mas antes de tudo está a pátria, ele é um capitão muito condecorado.
E depois vem uma parte em que o cunhado dela, um traidor — compreendes? —
o irmão do marido rude, que é um espião dos alemães, chega à granja e descobre
o rapaz escondido no celeiro, e este vê-se obrigado matar o espião e durante a
noite vai enterrá-lo na horta, e o cão não ladra porque a moça o ensinou a gostar
do prisioneiro.
“LR7 de Buenos Aires, sua emissora amiga… apresenta … o Rádio-Teatro
da Tarde…”
— Enquanto isso eu sirvo o chá… que os meninos estão com fome.
— Sim, mas você tem que ouvir, deixe que eu boto mais alto.
Uma melodia executada ao violino desfiou suas primeiras notas. Em seguida,
o volume da melodia decresceu e deu lugar a uma modulada voz de narrador:
“Naquela fria madrugada de inverno Pierre divisou, do seu
esconderijo no alto do celeiro, o fogo cruzado dos primeiros disparos.
Os dois exércitos enfrentavam-se a poucos quilômetros da granja. Se
ele pudesse ao menos sair em ajuda dos seus, pensou.
Inesperadamente ouviram-se ruídos no celeiro, mas Pierre continuou
imóvel no seu covil de feno”.
“— Pierre, sou eu, não tenha medo…
— Marie… tão cedo…
— Pierre, não tenha medo…
— Meu único medo é de que esteja sonhando e, ao acordar, não a
veja mais… aí… no vão dessa porta e, atrás de você, o ar róseo do
amanhecer…”

— Mabel, não me diga que pode haver coisa mais bonita do que se estar
apaixonada.
— Psssiu!

“— Pierre… está com frio? A campina está coberta de um orvalho


glacial, mas podemos falar com calma, ele foi ao povoado.
— Por que tão cedo? Não vai sempre ao meio-dia?
— É que teme não poder ir mais tarde se a batalha continuar. Foi
por isso que vim trocar seu curativo agora.
— Marie, deixe-me olhá-la… Os seus olhos estão estranhos, por
acaso não está chorando?
— Que é que está dizendo, Pierre? Não tenho tempo para chorar.
— E se tivesse?
— Se tivesse… choraria em silêncio.
— Como acaba de fazer agora.
— Pierre, deixe-me mudar a atadura, assim, deixe que eu tire o
lenço embebido em ervas, veremos se essa rude medicina do campo
lhe fez bem.”
“Marie começou a tirar as ataduras que envolviam o peito de seu
amado. Assim como nos campos da França se travava uma batalha,
também no coração de Marie pugnavam duas forças contrárias: antes
de mais nada ela queria encontrar a ferida cicatrizada, como feliz
remate dos seus cuidados, embora desconfiasse do poder de cura
daquelas pobres ervas campestres; mas se a ferida estivesse curada…
Pierre abandonaria o lugar, iria embora quem sabe para sempre.”
— Quantas voltas esta atadura dá em teu peito. Sentes dor
enquanto a tiro?
— Não, Marie, não poderás me causar dor, és por demais doce
para isso.
— Que loucuras dizes Mas ainda me lembro dos teus gemidos no
dia em que te limpei a ferida.
— Marie… em compensação nunca ouvi uma queixa dos teus
lábios. Dize-me, que sentirias se eu morresse na batalha?
— Pierre… não fales assim, minhas mãos tremem e posso te
causar dor… Só me resta tirar o pano embebido em ervas. Não te
movas.”
“E diante dos olhos de Marie estava, sem vendas, a decisão do
Destino.”

Tendo como fundo uma cadenciada e moderna cortina musical, ouviu-se um


anúncio comercial referente a dentifrícios de higiênica e duradoura ação.
— Está gostando, Nené?
— Sim, a novela é muito bonita, mas a atriz não trabalha de todo bem. —
Nené teve receio de elogiar o trabalho da intérprete, sabendo que Mabel não
gostava das atrizes argentinas.
— Não, é muito boa, gosto muito — replicou Mabel, lembrando-se de que
Nené nunca soubera dar uma opinião certa sobre cinema, teatro e rádio.
— Ela se entregou pela primeira vez no celeiro ou antes, quando era solteira?
— Antes, Nené! Não vês que é um amor de muitos anos?
— Claro, ela não pode ter ilusões a respeito dele porque já se havia entregue
a ele, porque eu pensei que se não havia se entregado antes, quando ambos eram
jovenzinhos, e como no celeiro não podia acontecer nada, ele estava ferido,
então ele voltaria para ela com mais desejo.
— Isso nada tem a ver, se ele a quer é porque a quer…
— Você está certa disso? Como teria ela de fazer para que ele voltasse para
buscá-la, depois da guerra?
— Isso depende do homem, se é um cavalheiro de palavra ou não… Mas
fique calada que já vai recomeçar…

“Ante seus olhos estava, sem vendas, escrito seu destino. Marie
viu com alegria, com estupor, com pena… que a ferida havia
cicatrizado. O unguento havia surtido efeito, e a natureza robusta de
Pierre fizera o resto. Mas se Marie decidisse… essa cicatriz podia
reabrir-se, bastar-lhe-ia somente fincar levemente suas unhas na pele
nova e tenra, ainda transparente, que unia as margens da profunda
ferida.”
“— Marie, diga-me, estou curado?… Por que não respondes?
— Pierre… podes partir, a ferida está fechada!
— Partirei! Hei de lutar ao lado dos meus, depois regressarei e se
for preciso lutarei corpo a corpo com ele… para te libertar.
— Não, isso nunca, ele é brutal, uma fera vil, capaz de atacar
pelas costas.”

— Mabel, por que ela se casou com esse marido tão mau?
— Não sei, perdi muitos capítulos, talvez porque não quisesse ficar solteira e
sozinha.
— Era uma órfã?
— Mesmo que não fosse, que tivesse seus pais, queria ter a sua casa, não? E
agora deixe-me escutar.

“— Como podes estar tão seguro de que voltarás?”

Tendo como fundo uma cadenciada e moderna cortina melódica, ouviu-se o


anúncio comercial, referente a um sabonete fabricado pela mesma firma que
antes anunciara a já elogiada pasta de dente.
— Eu te mato, Nené, não me deixaste ouvir direito, não… estou brincando.
Vou comer essa bombinha de creme! Acabo ficando como um barril.
— E a Raba? Como vai ela?
— O melhor possível. Não quis voltar a trabalhar em nossa casa, nunca mais
olhou para mim, depois de tudo o que fiz por ela…
— E de que vive?
— Lava para fora, no seu barraco, com a tia. Além disso morreu a mulher do
vizinho, dono de uma chácara, de maneira que elas cozinham para ele e cuidam
dos seus filhos, enfim, se defendem. Mas a Raba é uma mal-agradecida, essa
gente quanto mais fizeres por eles é pior…
O locutor, prosseguindo, descreveu a situação das tropas francesas. Estavam
sitiadas e debilitando-se pouco a pouco. Se Pierre conseguisse chegar até elas,
não faria mais que aumentar o número dos mortos. O astuto capitão, porém,
concebeu uma manobra extremamente ousada: vestiria o uniforme do inimigo e
semearia a confusão entre as linhas alemãs. Marie, nesse tempo, enfrentava seu
marido.
— Você seria capaz de um sacrifício assim, Mabel?
— Não sei, acredito que lhe teria aberto a ferida, assim ele não poderia mais
lutar.
— Mas é claro que se ele percebesse isso, iria odiá-la para sempre. Muitas
vezes uma pessoa se vê entre a espada e a parede, não é?
— Escute, Nené, acredito que tudo está escrito, sou fatalista, você pode
passar o tempo quebrando a cabeça pensando e planejando coisas e depois tudo
sai ao contrário.
— Você acha? Creio que a gente, ao menos uma vez na vida, tem de arriscar
tudo. Eu sempre me arrependerei de não ter sabido fazer isso.
— O que, Nené, o de não teres casado com um doente?
— Por que dizes isso? Por que vens com esse assunto, se eu estava falando
de outra coisa?
— Não te aborreças, Nené, mas quem poderia pensar que Juan Carlos iria
terminar assim?
— E agora, ele se cuida mais?
— Está louca. Passa a vida atrás das mulheres. O que não entendo é como
elas não têm medo de se contagiar…
— É… talvez algumas não saibam. Como Juan Carlos é tão bonito…
— Porque são todas umas viciadas.
— Que queres dizer?
— Você deveria saber.
— Saber o quê? — Nené pressentiu que não tardaria a abrir-se um abismo a
poucos passos dali, a vertigem a fez cambalear.
— Nada, vê-se que você…
— Ah! Mabel, que queres dizer?
— Você não teve com Juan Carlos… bem, o que você sabe.
— Você é terrível, Mabel, estás me deixando vermelha de vergonha, claro
que não tive nada com ele. Mas não posso negar que gostava dele, como noivo,
quero dizer.
— Calma, não fique assim, como você é nervosa.
— Mas você queria me dizer alguma coisa. — A vertigem a dominava,
queria saber o que havia no fundo daquelas profundezas abissais.
— Bem, mas o que se diz é que as mulheres, depois que têm alguma coisa
com Juan Carlos, não querem mais deixá-lo.
— É porque ele é muito bonito, Mabel. E muito camarada.
— Ah, você não quer compreender.

“— É conveniente, mulher, sairmos daqui se as tropas francesas


avançarem. E ande mais depressa com esse feno e essas formas de
queijo. Cada dia você está mais amedrontada e até treme de medo,
maluca!
— Aonde iremos?
— Para a casa do meu irmão, não compreendo por que ele não
voltou mais aqui.
— Não, para a casa dele, não.
— Não me contraries ou te mando a mão na cara. Você já sabe
como ela é pesada.”
— Mas a boba permite que ele lhe bata? Que estúpida!

— Quem sabe, Mabel… Talvez faça isso pelos filhos. Têm filhos?
— Acho que sim. Quanto a mim, mato quem me botar a mão em cima.
— Que porcaria que são os homens, Mabel…
— Não todos, querida.
— Os homens que batem, quero dizer.
O locutor despediu-se dos ouvintes até o dia seguinte, depois de interromper
a cena cheia de violentas ameaças entre Marie e seu esposo. Continuou a cortina
musical e, por último, outro elogio conjunto ao dentifrício e ao sabonete já
aludidos.
— Mas, Mabel, eu não entendi bem o que você falou a respeito de Juan
Carlos… — Nené continuava a brincar com a sua própria destruição.
— Que as mulheres não o querem mais deixar… por causa das coisas que se
passam na cama.
— Mas, Mabel, não estou de acordo. As mulheres se apaixonam por ele
porque é muito bonito. Isso da cama, como você diz, não. Porque falando a
verdade, uma vez que se apaga a luz não se vê mais se o marido é bonito ou não,
são todos iguais.
— Todos iguais? Pois bem, Nené, é bom que você saiba que não há dois
iguais.
Nené pensou no Dr. Aschero e em seu marido, não pôde estabelecer
comparações, os momentos de luxúria com o odiado médico haviam sido
fugazes e minados pela falta de comodidade.
— Mabel, mas que pode saber você, uma moça solteira…
— Ah! Nené, todas as minhas companheiras de colégio já estão casadas, e
entre eu e elas há uma confiança total, elas me contam tudo.
— Mas que é que você sabe de Juan Carlos? Não sabe nada.
— Nené, será que você ignora a fama que Juan Carlos tem?
— Que fama?
Mabel fez um movimento soez com as mãos, indicando uma distância
horizontal de aproximadamente trinta centímetros.
— Mabel, você está me deixando envergonhada e — Nené sentiu todos os
seus temores violentamente confirmados. Temores que abrigava desde a noite de
núpcias; daria tudo para esquecer o gesto grosseiro que acabara de ver!
— E isso, Nené, parece que tem muita importância para que uma mulher seja
feliz.
— Pois meu marido me disse que não.
— Deve ter lhe mentido… Boba, estou brincando não foi isso o que me
contaram de Juan Carlos, disse isso para chateá-la, apenas. O que me contaram
foi outra coisa.
— Que coisa?
— Perdoe-me, Nené, mas quando me contaram jurei que nunca, nunca
mesmo, contaria a ninguém. Por isso é que não te posso contar, me desculpe.
— Mabel, isso não é direito. Já que começaste, termina.
Mabel olhava noutra direção. — Perdoe-me, mas quando faço um juramento,
cumpro.
Com um garfo, Mabel dividia em dois uma tortilha. Mabel percebeu que o
garfo era um tridente, cresciam na fronte de Mabel os dois chifres do diabo e,
sob a mesa, a cauda sinuosa se enroscava num pé da cadeira. Nené fez um
esforço e sorveu um gole de chá: a visão literalmente diabólica desvaneceu-se e
a dona da casa concebeu repentinamente uma forma de devolver à sua amiga,
pelo menos em parte, os golpes assestados durante a reunião. Olhando-a fixo nos
olhos, perguntou, inesperadamente: — Mabel, você está realmente apaixonada
pelo seu noivo?
Mabel titubeou, e os breves segundos que demorou em responder traíram seu
jogo, a comédia da felicidade chegava ao fim. Com profunda satisfação, Nené
comprovou que se falavam de farsante para farsante.
— Nené… que pergunta boba…
— Pode ser, mas às vezes as bobas perguntam coisas.
— Claro que estou — mas não era assim. Mabel pensou que com o tempo
talvez aprenderia a gostar dele, mas se as carícias do noivo não lhe fizessem
esquecer as carícias de outros homens? Como seriam as carícias do seu noivo?
para saber disso teria que esperar até a noite de núpcias, porque conhecê-las
antes implicaria muitos riscos. Os homens…
— E você, Nené, gosta agora mais do seu marido do que quando eram
noivos?
O chá, sem açúcar. As tortilhas com creme. Nené disse que gostava de
boleros e dos cantores centro-americanos que começavam a aparecer. Mabel
concordou. Nené acrescentou que eles a entusiasmavam, pareciam letras escritas
para todas as mulheres e ao mesmo tempo para cada uma delas em particular.
Mabel afirmou que isso acontecia porque os boleros diziam muitas verdades.
Às sete da tarde, Mabel teve que ir embora. Sentiu muito ter de ir sem ver o
marido de sua amiga — retido no escritório, por negócios — e, por conseguinte,
sem ter podido apreciar quanto o haviam desfigurado os muitos quilos
adquiridos. Nené examinou a toalha da mesa, tão difícil de lavar e passar, e
achou-a limpa, sem mancha alguma. Depois examinou as cadeiras de forro de
tecido, também não se haviam manchado, e imediatamente colocou as
respectivas capas.
Quando Mabel chegou à rua a noite já havia caído. Como havia planejado,
aproveitaria o tempo livre, antes do jantar, para ver as vitrines de uma grande
loja situada no bairro de Nené, e comparar preços. Mabel refletiu: sempre fora
muito organizada, nunca perdia tempo, mas que lucrara com tanto cálculo e tanta
precisão? Talvez houvesse sido melhor se deixar levar por um impulso, quem
sabe se algum homem, desses com os quais cruzava na rua; não lhe poderia
proporcionar mais felicidade do que o seu duvidoso noivo? E se tomasse um
trem rumo a Córdoba? Lá, na montanha, estava quem a havia amado certa vez,
fazendo-a vibrar como ninguém já o fizera. Nessa rua de Buenos Aires, as
árvores cresciam inclinadas, tanto de dia como de noite. Que inútil humilhação
— era noite, não havia sol, por que inclinar-se? Será que essas árvores haviam
esquecido toda dignidade e amor próprio?
Por sua vez, Nené acabou de colocar as capas das cadeiras e tirou a mesa. Ao
dobrar a toalha, descobriu que uma fagulha do cigarro de Mabel, que foi o único
que fumou, havia furado o tecido.
— Como é descuidada a egoísta! — disse Nené a si mesma, e pensou em
desabafar, proferir um grito devastador, mas diante dos seus dois filhos só
conseguiu levar as mãos aos ouvidos para fazer calar a voz de Mabel Sáenz: “…
e isso, Nené, parece que tem muita importância, Nené, será que você
desconhecia a fama que tinha Juan Carlos?… boba, estou brincando. O que me
contaram foi outra coisa… mas quando me contaram jurei… jurei… jurei que
nunca, nunca mesmo, contaria a ninguém. E só lhe disse isso para chateá-la,
Nené. o que me contaram foi outra coisa”.
Árvores que se inclinam de dia e de noite, bonitos linhos bordados que uma
pequena fagulha de cigarro consegue destruir, camponesas que um dia se
apaixonam nos bosques da França e se apaixonam por quem não devem.
Destinos…
fascículo
14

… la golondrina un dia su vitelo detendrá...

ALFREDO LE PERA

Padre, tenho muitos pecados que confessar Sim, há mais de dois anos que
não tinha coragem de vir E só o que me animou a vir foi o fato de que vou
receber o sacramento do matrimônio. Sim, ajude-me, Padre, porque
envergonhada não consigo nada, Padre, ajude-me a confessar-lhe tudo o que fiz
Menti, menti a meu futuro marido Que tive relações com um único homem, com
um rapaz que ia se casar comigo e depois ficou doente, e não é verdade, estou
enganando-o, que devo fazer, Padre? Mas se lhe digo que vou fazê-lo sofrer, sem
nenhum proveito para ninguém E quando a verdade só serve para fazer sofrer,
devemos dizê-la mesmo assim? Pois farei, Padre, porém tenho outra mentira
muito grande a confessar, uma mentira tão grande Não, Padre, já confessei o
pecado de luxúria, desse pecado já estou limpa, outro Padre já me absolveu
Menti ante a Justiça Ante o Juiz de Primeira Instância da Província de Buenos
Aires Não, Padre, isso não posso fazer Não, a verdade só serviria para me fazer
sofrer ainda mais a mim e a todos Padre, conto tudo, sim, ao senhor conto tudo
Sim, Padre Por que, Padre Eu vivia com minha família num povoado da
província, e à noite um homem, que trabalhava na Delegacia, entrava no meu
quarto Não, Padre, eu não estava apaixonada por ele Ajude-me, Padre, não sei
por que fazia aquilo Sim, Padre, era para esquecer o outro Sim, Padre, ao outro
eu queria muito, mas estava doente e por isso o abandonei, porque tinha medo de
me contagiar Ele escondia que cuspia sangue. Fiz-lhe um bem, Padre, o senhor
não acha? Ao seu lado? Não sei, Padre. Sim, gostava muito dele, mas quando vi
que estava doente, não quis mais vê-lo. Padre, tenho que ser sincera, não é para
isso que estou aqui? O senhor não acha? Bem, eu queria ter uma casa e uma
família, ser feliz, Padre, não tenho culpa se deixei de amá-lo! Sim, Padre, sou
fraca, e peço perdão Esse homem de quem falei. vinha ao meu quarto Não, não o
doente, o outro, o polícia Não, o doente não era da polícia. E numa noite de
calor, quando deixei a janela aberta, vi que ele olhava do jardim: havia entrado
em minha casa. … Não tive forças para expulsá-lo, e começou a vir sempre que
tinha vontade, que devo fazer para ser perdoada, Padre? Não, menti à Justiça por
outra razão. Acontece que o rapaz era pai de um filho natural de minha
empregada voltou de Buenos Aires quando eu já havia caído em tentação com
ele. Não, voltou porque eu a chamei, ou melhor, mamãe. Não, ela havia
trabalhado em nossa casa antes, quando ficou grávida. Não, eu não podia dizer
nada a ele porque nesse tempo eu ainda não o conhecia, só o conheci depois,
quando ele começou a trabalhar na polícia Não, durante o processo não, conheci-
o antes, porque quando teve início o processo ele já estava morto, era o processo
pelo assassinato dele Sim, começo de novo. Quando a empregada voltou De
Buenos Aires, a chamado de mamãe, senti que corríamos perigo de que ela nos
visse Não, minha mãe não, o quarto dela era afastado, a empregada! Porque
odiava o rapaz. Então eu disse a ele que tinha medo, mas ele continuou vindo me
ver. Uma noite a empregada ouviu ruídos, mas não desconfiou de nada, mas
noutra noite ouviu os mesmos ruídos e foi até o quintal. Então o surpreendeu
quando saltava a cerca, já de volta à Delegacia, e ouviu o barulho da minha
janela quando eu a fechava. Sim, já era inverno. Ela viu tudo e na noite seguinte
ficou no quintal, num frio terrível, esperando que ele saísse do meu quarto. Ele
ia embora sempre antes que o dia clareasse. Naquela noite fatal, eu estava
dormindo quando ele me acordou, já pronto para pular da janela para o jardim,
dizendo-me que eu fechasse a janela. Foi naquele famoso inverno de 39, quando
fez tanto frio. Eu estava me deitando de novo, para continuar dormindo, quando
ouvi uns espantosos gritos de dor. Levantei-me de um salto e abri a janela. Já
não se ouvia mais nada, a empregada tivera o atrevimento de esperá-lo e lhe
tinha dado duas punhaladas Sim, chamei papai e mamãe, eu logicamente estava
com medo de que a empregada viesse me matar Mas vi que papai ia ao encontro
dela e se aproximava de onde ela estava, ajoelhada perto dele, com a faca de
cozinha cravada no seu coração. Ela estava quieta, meu pai aproximou-se e lhe
pediu que tirasse a faca e lhe entregasse. Ela obedeceu, e meu pai, sem se sujar,
agarrou a faca pela lâmina e levou a empregada por um braço, para casa. Minha
mãe perguntou o que ela havia feito mas a empregada estava como idiota, não
raciocinava. Minha mãe pediu que trouxessem perfume e álcool para que ela
cheirasse. Eu estava morta de medo de que papai e mamãe se inteirassem do que
havia acontecido. Vi no banheiro o frasquinho de pílulas para dormir, um
frasquinho de Luminal. Tirei duas pílulas e escondias no punho fechado. Disse a
minha mãe que não havia encontrado nada, porque na verdade minha mãe tem o
costume de esconder tudo e às vezes não encontro as coisas, então ela foi buscar
o perfume e o álcool. Botei as pílulas na boca da empregada e fiz com que ela
engolisse. Ela, porém, engasgou-se, minha mãe chegou e lhe deu um copo
d'água, sem perceber o que estava acontecendo, e olhe que mamãe nada tem de
boba. Dentro em pouco a empregada estava dormindo. Quando a Polícia me
perguntou o que havia se passado, não sei de onde tirei a coragem… e menti
para eles. Disse-lhes que o rapaz tinha tentado abusar da empregada e que ela
havia se defendido com a faca. Ah, Padre, eu já havia pensado em tudo, porque
eu já havia imaginado que tudo isso podia acontecer, e ele não me fazia caso
Não, a empregada acordou na manhã seguinte, bem cedo, e eu passei a noite
toda ao seu lado, sem mover-me, porque o médico, de tanto eu lhe pedir, não
permitiu que a levassem para a Polícia de forma que ficou um Cabo vigiando o
qual de vez em quando ia comer na cozinha. Porque o senhor já deve ter visto
que os policiais e os médicos estão habituados com as desgraças alheias e não se
incomodam mais. E os curas, perdão, os sacerdotes também se controlam muito.
Quando a pobre acordou eu lhe disse que se ela contasse a verdade iriam
condená-la à prisão perpétua e ela não veria mais o filho. Disse e repeti isso até
que ela compreendeu que não deveria dizer que o rapaz havia estado em meu
quarto, mas sim que havia pulado a cerca para vê-la, para abusar dela mais uma
vez, que não valia mais a pena vingar-se de mim, o que ela tinha a fazer era
livrar-se para poder satisfazer todos os gostos — um modo de dizer — do seu
filhinho, e lhe expliquei muito claramente o que ela devia dizer na declaração.
Olhava-me sem pronunciar uma palavra. E tudo saiu bem. Compreendeu que
tinha de mentir para que a soltassem. E todos acreditaram que fora em legítima
defesa. Só quem sabia da verdade era ela, o advogado e eu, e, claro, o rapaz
morto O que morreu Qual doente? Não, o que eu deixei não morreu, ainda vive,
pobre rapaz, eu falo do outro o que a empregada matou! Não, padre, de que
serviria? Mas para que, se a pobre só fez aquilo por ignorância? Acha que Deus
não a perdoou? E Deus não terá outro modo de castigá-la? a Justiça é que
necessariamente terá de castigá-la? Sim, Padre, tem razão, é preciso que se saiba
a verdade, mas quem devo procurar? Não me lembro do nome do Juiz Acho que
não morreu da primeira facada, mas da segunda É possível que ainda tenha
vivido alguns segundos E Deus perdoa apenas por um minuto de
arrependimento? Então o farei, Padre, assim serão menores seus sofrimentos no
Purgatório Padre, o senhor acredita que ele teve esse segundo de
arrependimento? porque se não teve, terá ido para o inferno e lá ninguém pode
ajudá-lo, por mais que rezemos todos os que estamos vivos Que coisa? E que
posso fazer por ele Sim, são muito pobres. Deve ter três ou quatro anos Sim,
nesses barracos pobres as crianças acabam se transformando em ladrões,
malandros. Mas isso só quando ele estiver em idade escolar Sim, prometo
Enquanto puder? Sim, Padre, prometo as duas coisas: dizer toda a verdade e me
encarregar da educação desse pobrezinho Sim, Padre, estou arrependida De tudo
Dez Padres Nossos e dez Ave-Marias, e dois Rosários, todas as noites Sim,
Padre, sei que sou uma fraca. Mas que culpa tenho se deixei de gostar dele?
Tinha que me casar com um rapaz doente, mesmo não gostando mais dele? Não
é pecado casar com um homem sem gostar? não é enganá-lo? e enganá-lo não é
pecar? Sim, estou convencida Obrigada, Padre, prometo Em nome do Pai, do
Filho e do Espírito Santo, Amém.

No sábado, 18 de abril de 1947, às 15 horas, Juan Carlos Jacinto Eusébio


Etchepare deixou de existir. Ao seu lado estavam sua mãe e sua irmã, que ele
viera visitar durante a Semana Santa, como fazia todos os anos, porque o
começo do outono era a época aconselhada pelos médicos para suas breves
temporadas em Coronel Vallejos. Não havia deixado o quarto durante os últimos
quatro dias devido a um profundo esgotamento físico. Havia almoçado, ao meio-
dia, com mais apetite que de costume, mas uma dor aguda no peito acordou-o de
sua sesta. Chamou a mãe, gritando, e dentro de poucos instantes deixava de
respirar, asfixiado por uma hemorragia pulmonar. O Dr. Malbrán chegou dez
minutos depois e o declarou morto.

No já mencionado sábado, 18 de abril de 1947, às 15 horas, Nélida Enriqueta


de Massa passou um pano ensaboado no chão da cozinha do seu apartamento, na
Capital Federal. Havia acabado de lavar os pratos e os utensílios de cozinha
usados no almoço e estava satisfeita por haver feito sua vontade, apesar da
oposição do marido. Este queixara-se uma vez. mais pelo fato de a empregada
não trabalhar aos sábados e havia pedido à mulher que deixasse para lavar os
pratos depois da sesta. Nené havia respondido que a gordura fria e endurecida
era muito mais difícil de tirar e ele, de mau humor, havia continuado a discussão,
dizendo que a entrada dela mais tarde, no quarto de dormir, acabaria por acordá-
lo e ele não poderia voltar a conciliar o sono de que tanto necessitava para
acalmar os nervos. Finalmente, Nené respondera que, para evitar
aborrecimentos, depois de acabar a limpeza da cozinha iria deitar-se na cama de
um dos meninos.

No já mencionado sábado, 18 de abril de 1947, às 15 horas, Maria Mabel


Sáenz de Catalano, aproveitando a presença de sua mãe na Capital Federal, para
celebrarem juntas a Semana Santa, deixou-lhe a tarefa de lavar a cozinha e levou
sua filha de dois anos para tomar sol na praça. Como já temia, não estava aberta
a loja de artigos para homem, situada na esquina, onde trabalhava o jovem
caixeiro com quem tanto simpatizava.

No já mencionado sábado, 18 de abril de 1947, às 15 horas, os restos mortais


de Francisco Catalino Páez jaziam na fossa comum do cemitério de Coronel
Vallejos. Dele só restava o esqueleto, que se achava coberto por outros cadáveres
em diferentes graus de decomposição, o mais recente dos quais conservava ainda
a mortalha em que fora envolvido antes de ser jogado na fossa. Esta encontrava-
se coberta por uma tampa de madeira que os visitantes do cemitério,
especialmente os meninos, costumavam levantar para olhar o interior. A
mortalha se esgarçava pouco a pouco em contato com a matéria putrefacta e ao
cabo de algum tempo os ossos descarnados ficariam descobertos. A fossa
comum situava-se no fundo do cemitério, ao lado das sepulturas mais pobres,
cavadas no chão. Uma placa de metal indicava Ossário” e diferentes espécies de
arbustos cresciam à sua volta. O cemitério, muito distante do povoado, tinha um
traçado em forma de retângulo, sendo margeado, em todo seu contorno, por
ciprestes. A figueira mais próxima erguia-se numa chácara situada a pouco mais
de um quilômetro, devido à época do ano estava carregada de frutos maduros.
No já mencionado sábado, 18 de abril de 1947, às 15 horas, Antônia Josefa
Ramírez resolveu matar a galinha vermelha do galinheiro porque a galinha
pedrez que já havia escolhido, e que estava num canto do curral com as pernas
amarradas, se achava um pouco magra, e a freguesa lhe pedira uma galinha bem
gorda. Pediu a uma menina de sete anos, descalça, que corresse e fosse pegá-la.
Era a filha menor do viúvo com que vivia em concubinato há cerca de dois anos,
vizinho do barraco de sua tia. Raba não queria distrair o filho maior, de doze
anos, que estava tratando da terra na horta, e os outros dois meninos
intermediários, de onze e nove anos, se encontravam no povoado trabalhando
respectivamente como entregador do armazém e ajudante numa hospedaria. Seu
filho próprio, Francisco Ramírez, contava nove anos e era vendedor de jornais.
Por isso é que Raba tinha de se utilizar da menina menor, já que a gravidez
avançada a impedia de correr atrás dos animais do quintal.
O caixão que continha os restos de Juan Carlos Jacinto Eusébio Etchepare foi
colocado num dos nichos do muro branco, levantado para esse uso, meses antes,
no cemitério de Coronel Vallejos, a poucos passos da entrada principal. O
paredão contava com quatro filas horizontais de nichos e o caixão foi colocado
na terceira fila, mais cara por estarem as inscrições à altura da vista de quem
visitasse o lugar. Poucos nichos estavam ocupados.
A lápide de mármore branco estava adornada com dois jarros para flores,
sustentados por grandes braços de bronze presos ao mármore. A inscrição
correspondente ao nome e às datas de nascimento e morte do defunto estava
gravada em baixo-relevo e brilhavam um tanto apertadas, devido ao pouco
espaço disponível, quatro placas evocativas, em bronze de diferente desenho.
A placa colocada no ângulo superior esquerdo tinha a forma de um livro
aberto colocado sobre ramos de agárico e das páginas surgiam, em alto-relevo,
as letras onduladas: “JUAN CARLOS! AMIZADE foi o lema de tua vida. À tua
última morada vá esta homenagem de acendrado carinho. Pelo teu grande
companheirismo jamais te apagarás da memória dos teus companheiros do
Colégio n° 1 e esperamos que a imensa desdita de haver-te perdido não nos faça
esquecer a felicidade de haver-te conhecido… Tua lembrança é um rosário cujas
contas começam e terminam no infinito”.
A placa colocada no ângulo superior direito tinha forma retangular. Junto a
uma tocha em relevo via-se a inscrição disposta em linhas paralelas: JUAN
CARLOS J. E. ETCHEPARE Q.E.P.D. Falecido em 18-4-1947. Esta vida é um
sonho, o verdadeiro despertar é a morte que a todos iguala. Seus superiores,
camaradas e amigos da Prefeitura Municipal, em sua memória”.
A placa colocada no ângulo inferior esquerdo era quadrada e tinha como
único adorno uma cruz: JUANCA! com tua partida não só perdi meu irmão
querido, mas também o melhor amigo desta, desde agora, minha pobre
existência. Tua lembrança inolvidável tem em meu coração um templo que
receberá perenemente o incenso de minhas lágrimas. … Eternamente, tua boa
alma seja, do além, o guia da tua irmãzinha DEUS O QUIS CELINA.”
A última placa, colocada no ângulo inferior direito, consistia numa figura de
anjo com os olhos fechados e os braços cruzados sobre o peito, suspenso numa
nuvem à qual chegavam raios vindos do alto. A inscrição dizia: “Silêncio! meu
filhinho dorme, Mamãe.”

… Ele sempre me olhava quando eu passava diante do bar, ao voltar para


casa depois de ter ido buscar as compras… Deus te salve, Maria, cheia de graça,
o Senhor é contigo, bendita sejas entre as mulheres e bendito seja o fruto de teu
ventre, Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, roga por nós, pecadores, agora e na
hora de nossa morte, amém… Para que chova e o pasto não seque, para que
minha avó fique curada, para que não voltem os gafanhotos e comam tudo, para
que não haja mais praga de insetos, aos treze anos, Santa Maria Mãe de Deus,
que podia eu saber como eram os homens! e desde então todos os dias eu pedia
para ele morrer, e peço perdão de todo o coração pois estou arrependida de ter
desejado a morte para esse pobre rapaz que morreu ontem, é que eu o odiava
tanto, faz tantos anos! foi no dia 14 de setembro de 1937, já fez nove anos,
mamãe, e ainda há uma coisa que eu nunca lhe contei, mas prometa-me que
continuará sendo boa comigo se eu lhe contar, nunca pude contar a ninguém! ele
me olhava sempre que eu passava defronte ao bar, e hoje, antes de mais nada,
peço saúde para minha família, que a chuva molhe as fruteiras, que brotem as
sementes, que a colheita nos dê este ano um pouco mais do que o ano passado,
depois de apanhar as compras, sabe, mamãe, ao passar pelo bar eu o olhava
quando ele não me via, mas um dia não o vi mais e se passaram não sei quantos
meses e a vizinha viu ele descer do ônibus, tostado de sol! onde esteve durante
tanto tempo?… no inverno, às cinco da tarde já é noite, numa rua escura a uma
quadra do bar será que está me seguindo? “você não mora na chácara que fica
atrás da rua? já é uma mocinha” e começou a me falar… que havia estado numa
fazenda, passeando, você sabe, mamãe ele havia chegado na véspera pelo
expresso e me disse que estava muito amargurado porque havia tido uma grande
desilusão… na esquina de casa e em todas as quadras e até pelo descampado me
falava sobre o Baile da Primavera, e dizia que estava seguro de que eu iria ser
escolhida Rainha da Primavera quando tivesse quinze anos, nessa noite estava
muito amargurado, havia brigado com Nené, você se lembra dela, mamãe? era
uma empacotadora do “Ao Barato Argentino”, há muitos anos que não vive mais
aqui. “Que grande amargura eu tenho”, me dizia esse rapaz, e não me lembro de
mais nada, devorada pelo fogo, bêbada, adormecida? ele tinha cara de bom,
mamãe, você não se lembra? eu tinha treze anos, quando entrei você se
aborreceu porque eu havia me demorado tanto, descasquei as batatas o mais
rápido que pude, e cortei a cebola e piquei o alho, cortei-o em pedacinhos, você
me olhava, mamãe, não se lembra de como eu entrei em casa tremendo? menti
dizendo que era porque estava ficando tarde e eu havia corrido um pouco, e se
mamãe ficar triste quando eu lhe contar tudo? esse rapaz que morreu ontem
aproveitou-se de mim, compreendes, mamãe? me fez o pior que se pode fazer a
uma moça, me tirou a honra para sempre, não acreditas? peço aos céus, antes de
tudo, saúde para toda minha família, e se consigo aguentar sem dizer nada a
mamãe seria muito melhor, será que eu devia passar novamente, no dia seguinte,
às cinco da tarde, para lhe perguntar muitas coisas?… se ele já estava farto de
Nené… mas não me cumprimentou, não me acompanhou e nunca mais voltou a
falar comigo, mamãe, nem uma só vez caminhou ao meu lado! porque o
desgraçado já tivera o que queria, que morra!… Ave Maria puríssima, desejei-
lhe a morte e alguém me escutou?… quero me livrar do pecado, a culpa não foi
dele, fui eu que me deixei tentar, não foi por minha causa que esse rapaz morreu,
não vou te contar nada, para quê? vais ficar amargurada como eu, e se Deus me
ajudar continuarei calada. Que é que aquele rapaz tinha naquele dia? “Que
grande amargura eu tenho”, me dizia, caminhando ao meu lado, mas depois
desse dia nunca mais voltou a falar comigo…
Deus das almas, ajuda-me neste momento em que meu filhinho morreu, e
não aguento mais de tristeza, vou morrer também e te peço que o tenhas em teu
reino, porque não chegou a confessar e deve estar cheio de pecados, mas escuta-
me, Deus meu querido, que rezarei a ti até que morra e a Santíssima Mãe de
Deus. Virgem Maria adorada, que conhece a tristeza de se perder um filho
jovem, e meu filho não era um santo como o teu, Mãe de Jesus, mas não era
mau, eu sempre lhe disse para ir mais à missa, que comungasse, mas o mau era
que ele era tão... criança, só gostava de se divertir, andar com as garotas, elas
têm mais culpa do que ele, Virgem Santa, nós duas somos mulheres e não
podemos condenar um rapaz só porque é assim, todos os homens são assim, não
é verdade? As mulheres más é que têm a culpa… e eu não posso saber, mas
Deus que está nas alturas e vê tudo saberá a verdade a respeito desse dinheiro,
Virgenzinha do Carmo, vós que sois Padroeira desta igreja, ajuda-me neste
momento, porque tenho medo de que meu filho não esteja descansando, que
esteja sofrendo por causa desse dinheiro que tirou da porcaria da Prefeitura, e
nunca se confessou depois disso, oxalá tenha se confessado alguma vez em
Córdoba, mas eu perguntei a ele… e porque é uma criança… me disse que não.
Terá sido para não dar o braço a torcer? Há em Córdoba igrejinhas tão bonitas,
foi meu filho que me disse, deverá ter entrado numa para rezar e pedir perdão,
mas para não me dar o gosto foi que mentiu, dizendo que nunca fora à igreja,
nunca mais, e eu tenho medo de que Deus não o receba por ser um ladrão,
quando a verdade é que foi uma mulher que o tentou para que ele fizesse isso,
mas a irmã foi aos poucos devolvendo tudo, o que se rouba e depois se devolve
continua sendo pecado? Virgenzinha do Carmo falai vós a Nosso Senhor e
explicai que meu pobre filhinho estava cego de raiva porque não lhe haviam
dado a licença e aproveitou um descuido para levar esse dinheiro, malditos
pesos, estou certo de que alguma mulher lhe estava pedindo… Virgenzinha do
Carmo, não sei se também fostes mãe, como a Virgem Maria, pois então saberás
quanto sofro em pensar que neste momento está acontecendo com ele algo muito
mau, já sofreu tanto neste mundo com a tosse e a falta de ar, Virgenzinha, será
que continuará sofrendo também no outro mundo?
Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra, rezo pelo descanso do
meu defunto marido, há tanto tempo que ele me deixou sozinha neste mundo, e a
quem tanto quis e para sofrer depois, sozinha, tantos desenganos, Senhor, como
diferente teria sido minha vida se não tivesse ficado só. Mas essa foi tua vontade,
talvez para que, sofrendo, eu visse tudo o que havia perdido, e agora sim, eu sei,
um homem bom não tem preço. Ele deverá estar na tua santa glória, rogo-te que
te lembres também de fazer de minha filha uma boa esposa e mãe, ela é muito
boa e que nunca deixe de sê-lo, saiu boa como o pai, e também a meus dois
netinhos, que cresçam sadios e bons, conforme te peço todos os dias. Para mim
não peço nada, se a pensão for vendida que seja assim, pouco me importa, se for
a leilão que vá, já estou definitivamente cansada de viver na montanha, a única
coisa que peço é saúde, para poder trabalhar e não ser uma carga para minha
filha, a quem não quero nunca que saiba que estou na rua… Peço saúde e que, se
venderem a pensão, que me sobre alguma coisa depois de pagar a hipoteca, e
devo ainda dar alguma coisa à minha filha, que ela tem direito a alguma coisa do
pouco que deixou o pai… Sinto vergonha de pedir outra coisa para esse pobre
rapaz, com o qual vivi em pecado, e que não vive mais. E eu o perdoo, meu
Deus, era uma cabeça oca, não lhe quero ter rancor pois já morreu e não pode
fazer mais mal a ninguém, e eu não me queixo de nada, porque vou suportar, se
fiz uma tolice tenho de pagar, porque é o castigo que mereço. Porque uma coisa
é tirar o que é meu, tirar o que pertence à minha filha, nem eu posso perdoar
isso. Se eu sabia que a cabeça dele não era boa para assunto de dinheiro, por que
permiti que hipotecasse o que era também da menina? Não peço nada para mim,
apenas saúde, e que não venha a ser uma carga para meu genro, e que possa
trabalhar no que quer que seja. Para minha filha só peço que continue bem, e
para as crianças também, e paz para esse pobre rapaz que está descansando,
porque na verdade não lhe tenho nenhum rancor.
Padre Nosso que estás no céu, santificado seja o Teu nome, venha a nós Teu
reino, que a tua vontade seja feita assim na terra como no céu. O pão nosso de
cada dia dai-nos hoje e perdoa nossas dívidas assim como perdoamos a nossos
devedores, e não nos deixes cair em tentação, livra-nos do mal, amém. Mas não
posso me conformar, não posso, Jesus, porque ele não teve culpa de nada, foi
tudo por culpa alheia, meu irmão era bom, e agora estamos sozinhas mamãe e
eu, e quando uma doença chega pela vontade do destino é diferente, mas quando
vem porque alguém a provoca então eu não posso me conformar: se aquela
maldita não o tivesse tentado e tentado… isto não teria acontecido. Jesus Cristo,
peço que faças justiça, que essa mulher receba o castigo que merece, um rapaz
fraco, resfriado e ela o obrigava a ficar horas e horas nesse portão, até de
madrugada, fazia-o ficar usando de suas artimanhas! Peço que essa mulher não
demore em receber o castigo que merece, porque é tanto o ódio que lhe tenho
que não vou conseguir continuar vivendo, e também estou certa de que foi por
ela que ele roubou a Prefeitura, foi ela quem pediu isso para poder fugir com ele,
por isso fingiram que haviam brigado; e que nunca mais ela cruze o meu
caminho porque se tal acontecer não respondo por meus atos, que o céu não o
permita! Não quero saber onde está, se viva ou morta! Mas que não cruze o meu
caminho porque eu a estraçalho…
fascículo
15

azul, como una ojera de mujer,


como un girón azul, azul de atardecer.

AGUSTÍN LARA

Coronel Vallejos, 21 de agosto de 1947


Querida Nené:
Espero que estas linhas te encontrem com saúde. Antes de mais nada te peço
perdão por haver demorado tanto em responder tuas cartas, bem podes imaginar
a razão, quando se trata de alguém com a minha idade. Achaques, minha
filhinha, que cada vez mais não me deixam fazer o que quero.
Acontece que estive um pouco resfriada e não podia ir ao correio, e não
quero confiar em ninguém, e assim é que só há poucos dias fui buscar suas cartas
na caixa postal, tenho de ter cuidado com Celina para ela não suspeitar de nada.
Estou muito triste em saber que você está tão mortificada pelo fato de que o
inocente morreu e que a culpada continua viva, mas acho que devemos deixar
que o destino se encarregue de dar o merecido castigo a essa mulher viciada,
mas não devemos pensar mais em quem tenha sido ela, para que desmascará-la
Se o mal já foi feito?
Acho, para o bem de nós duas, que devemos continuar nos escrevendo,
contando nossas coisas aproximando-nos cada vez mais. Mas não sei, querida, o
que te posso dizer, minha vida acabou, só o que me ajuda são amigas como tu,
que são tão boas em se lembrar de mim e também de Juan Carlos, que Deus o
tenha em sua glória.
Em tua última carta notei que estás um pouco ofendida, mas agora já sabes
que não te escrevi antes por motivos de saúde. Desejo muito que a tua vida
matrimonial vá melhor, afinal o que se está passando entre vocês dois? Talvez
com minha experiência eu te possa aconselhar. Creio que até é possível ser feliz
ao lado de um homem que não se ama, basta saber-se compreender e perdoar.
Ele tem algum defeito muito feio? Refiro-me, é claro, a defeitos de caráter.
Também a tristeza toma conta de mim todas as tardes, são horas que custam
tanto a passar! entre as quatro e as oito da noite, desde que começa a escurecer
até a hora do jantar fico procurando qualquer bobagem para fazer, um tricô, uma
costurinha leve. E teus filhos não te ajudam a viver mais alegre? Te
decepcionaram em alguma coisa?
Perdoa-me por ser tão intrometida, mas como estou começando a ter por
você um tão grande carinho queria saber de tua vida e poder ajudar-te, nem que
seja com minhas preces.
Peço-te também perdão por haver-te feito esperar pela minha resposta. Por
favor escreva-me logo e receba todo o carinho de Leonor Saldívar de Etchepare
P.S. — Esqueci de agradecer-te por me lembrares o desejo de Juan Carlos de
ser cremado. Devemos esquecer todo o egoísmo e fazer a sua vontade, mesmo
que esta não esteja de acordo com as nossas crenças, não é assim?

Antes de escrever o endereço no envelope olha para sua mãe, que está
fazendo tricô, sentada numa cadeira a vários metros de distância. O ritmo
regular do trabalho não denota cansaço, o que faz pensar que a anciã
continuará sentada alguns minutos mais, apressa-se em escrever no envelope
antes de ser descoberta e sai em direção ao correio depois de dizer à sua mãe
que vai à farmácia.

Coronel Vallejos, 10 de setembro de 1947


Queridinha Nené:
Que alegria receber tua cartinha tão carinhosa! Alegro-me em saber que
perdoaste a minha demora em escrever-te e te agradeço o fato de teres tanta
confiança em mim para contar-me teus problemas. Eu também preciso de
alguém a quem possa desabafar, Nené, porque minha filha me preocupa muito. É
que chegou o Dr. Marengo, um médico jovem de Buenos Aires, e está agora
trabalhando aqui no novo sanatório, um rapaz muito simpático e de muito futuro,
e tão bonito que todas as pequenas o perseguem.
Pois bem, dias atrás ele veio me pedir a mão de Celina Mas é um
desconhecido, e estou tão preocupada que lhe pedi uns meses, pelo menos os
meses de luto, para decidir-me a dar meu consentimento. Celina é muito
obediente e aceitou minhas condições. Você acha que fiz bem? Oxalá seja
realmente um bom rapaz, pois assim Celina se casará com um dos melhores
partidos do povoado.
Te peço que não sofras por causa da cremação de Juan Carlos, pois se ela se
realizar nós lhe comunicaremos no devido momento. Foi sua vontade e teremos
que respeitá-la, doa a quem doer. Sei que estás passando momentos difíceis, é
duro ser mãe de dois meninos! Mas não me contas nada do teu marido, não te
referes a ele sequer uma vez. Aconteceu alguma coisa desagradável? Sabes que
podes confiar em mim.
Na carta anterior esqueci de te dizer que estou procurando e classificando
todas as cartas de Juan Carlos, de modo que podes ficar tranquila: logo as
mandarei.
Agora vou te pedir um favor, que me dês o endereço do escritório do teu
marido, me faça essa gentileza, pois a Senhora Piaggio, que mora aqui, breve irá
à Capital e quer comprar um terreno, e eu lhe disse que teu marido era leiloeiro.
Para ela será uma tranquilidade tratar com um conhecido. Desde já te agradeço.
Sem mais ter o que te contar despeço-me de ti até a próxima. Preciso muito
de tuas notícias, sobretudo agora que minha filha irá embora de casa, será que
encontrei em ti uma outra filha? Diga-me também o que pensas do possível
casamento (não querem saber nada de noivado) com esse rapaz, apesar de não te
dares com Celina, mas sei que és boa e te alegrarás, não é verdade? Casada com
um médico! É com isso que todas as pequenas sonham.
Te abraça e beija,
Leonor Saldívar de Etchepare

Escrevendo apenas de camisola, seu corpo tirita de frio. Pensa na doença do


irmão que começou com um resfriado. Sua mãe dorme na cama ao lado.
Esconde o envelope dentro de uma das pastas de deveres pertencentes a seus
alunos. Deita-se e procura com os pés a bolsa d'água quente. No dia seguinte,
ao voltar da escola, passará pelo correio para botar a carta.

Coronel Vallejos, 26 de setembro de 1947


Senhor
Mando-lhe junto estas cartas para que saiba quem é sua esposa. Ela me fez
um grande mal e não vou deixar que faça a mesma coisa com o senhor ou com
quer que seja sem receber o castigo que merece.
Não interessa saber quem eu sou, embora lhe seja fácil descobrir isso. Ela
acredita que se sairá sempre bem, alguém tem que lhe cortar as asas.
Cumprimenta-o respeitosamente,
Uma amiga de verdade
A porta está fechada a chave, o jorro da torneira de água fria abafa todos os
ruídos. Sentada na borda da banheira começa a escrever o endereço no envelope
de tamanho ofício: “Sr. Donato José Massa, Imobiliária B.A.S.I. Sarmiento, 873,
4° andar, Capital Federal”. Apanha duas cartas que começam com as palavras
“Querida Dona Leonor” e que trazem a assinatura de “Nené”. Da primeira carta
sublinha o seguinte parágrafo:

“Às vezes, ouvindo as bobagens que dizem meus filhos, me dou


conta de coisas nas quais nunca havia pensado antes. Meu filho mais
novo está sempre fazendo perguntas, a mim e ao irmão, pergunta qual
é o animal do qual gostamos mais, qual a casa de que mais gostamos,
qual o automóvel, a metralhadora ou o revólver ou o fuzil, e outro dia,
de repente, me disse (estávamos sozinhos, grassa gripe no colégio, e
não o deixei ir, porque está resfriado) “mamãe, de todas as coisas do
mundo qual é a que você gosta mais?” E eu logo pensei numa coisa,
mas claro que não lhe pude dizer: o rosto de Juan Carlos. Porque
para mim a coisa mais bonita que vi na vida foi o rosto de Juan
Carlos, que descanse em paz. Meus meninos são muito feinhos,
quando eram bebês eram bonitinhos, mas agora têm os olhos
apertados e o nariz carnudo, cada vez se parecem mais com o pai, até
me parece que eu não gosto deles por serem tão feios. Quando vejo na
rua uma mãe passar com filho bonito me dá raiva… Quando saio,
acho até melhor mandar os meninos um pouco à frente, às vezes tenho
vergonha de que eles tenham saído assim”.

Da segunda carta, assinala o seguinte:

“… e nem bem ouço os passos no corredor e tenho vontade de


morrer. Tudo o que faço ele acha ruim, e ele, que é que tem de tão
perfeito? Não sei o que está acontecendo, parece que percebe que não
gosto dele e por isso me trata assim tão mal… Mas Dona Leonor, juro
que faço o possível para ocultar o nojo que sinto dele, mas é claro que
quando me trata mal e aos meninos aí então eu lhe desejo a morte.
Não sei como faz Deus para decidir quem deve morrer e quem deve
continuar vivendo. E imagino quanto deve sofrer a senhora, que
perdeu seu filho.
Será verdade o que dizem que quando uma pessoa pede algo não o
consegue se disser a outro? De qualquer maneira vou contar a
senhora, porque afinal a senhora é como se fosse eu própria. O caso é
que os meninos, sempre que veem passar um cavalo branco dizem
“cavalinho branco, sorte para mim” e fazem dois pedidos em voz
baixa, e ontem eu voltava da feira e vi um cavalo branco e pedi duas
coisas. Será que Deus não me atenderá se eu contar? Bem, primeiro
que Deus me perdoasse no outro mundo, depois do Juízo Final, porque
estou certa de que perdoou Juan Carlos, e que fizesse com que eu me
juntasse a ele na outra vida. A segunda coisa que pedi foi que meus
filhos, à medida que fossem crescendo, ficassem mais bonitos, não
digo lindos como Juan Carlos, mas não tão feios como o pai. Logo
que nos casamos ele não era tão feio, mas foi engordando com os anos
e agora está irreconhecível. Mas nunca se sabe como serão os
meninos quando ficarem grandes, não é? Não se pode ter certeza.
Gostaria muito que a senhora estivesse aqui, perto de mim, para
desabafarmos juntas. A única coisa que me consola é que um dia tudo
terminará porque morrerei, disso posso estar segura, não é? Um belo
dia tudo terminará porque morrerei.”

Volta a dobrar as duas cartas, e juntamente com a escrita por ela mesma,
coloca-as no envelope tamanho ofício já com o endereço. Apanha outro
envelope do mesmo tamanho e escreve o endereço: Sra. Nélia Fernández de
Massa, Olleros 4328 Apartamento B Capital Federal. Apanha seis cartas que
começam com “Minha querida”, etc, e assinadas “Juan Carlos”. Coloca-as no
segundo envelope e dá por terminada a sua tarefa. Sai do banheiro com os dois
envelopes escondidos entre o peito e o roupão.

— Por que demoraste tanto?


— Estava depilando as sobrancelhas. Só faltam as mangas?
— Sim, ligue o aquecedor, minha filha. Estou com frio.
— Já é primavera, mamãe.
— Que me importa o almanaque! Estou com frio.
— Mamãe, me contaram uma coisa… que me deixou muito contente.
— Que foi?
— Me disseram que aquela nojenta da Nené está brigando com o marido.
— Quem te disse?
— Conta-se o pecado mas não se diz o pecador.
— Nena, não sejas assim, conte-me.
— Não, me fizeram jurar que não contaria nada. Conforme-se com o que eu
disse.
— E que será da vida dela? Será que sabe que Juan Carlos morreu?
— Sim, mamãe, deve saber.
— Poderia nos ter escrito dando os pêsames, Mabel escreveu. Ou será que
tem muito trabalho com os meninos, quantos tem? Dois?
— Sim, mamãe, dois meninos.
— Então, não ficará sozinha. Sempre terá um homem em casa… O que não
compreendo é por que a mãe de Nené ficou aqui em Vallejos, tendo dois netos
em Buenos Aires. Se você tivesse se casado, seria diferente…
— Mamãe, não comeces de novo. Vou te contar uma coisa mas não te
aborreças.
— Pode contar, não me aborreço.
— Nené escreveu dando pêsames, não te mostrei para que não recordasses
todas essas coisas passadas.
— De maneira que ela se lembrou, pobrezinha?
— Sim, mamãe, lembrou-se.
— Ah… se eu tivesse netos não estaria como estou.. Deus me levou o filho e
rezo para que minha filha não fique sozinha, se eu morrer. Você bem sabe qual é
a minha preocupação…
— Mamãe…
— Sim, mamãe, mamãe, você tem de ser mais esperta com os rapazes,
conhece tantos deles e todos não são mais que amigos. É preciso saber coqueteá-
los um pouco.
— Se não gostam de mim que é que vou fazer?…
— E esse Doutor Marengo? Você não me disse que ele te tirava muito para
dançar?
— Sim, mas como amigo.
— Nena, vieram me contar que te viram no carro dele. Por que não me
contaste?
— Não foi nada demais, aconteceu uns dias antes da morte de Juan Carlos.
Creio que chovia e na saída da igreja ele me acompanhou.
— Tinha muita vontade de conhecê-lo, dizem que é muito simpático.
— Sim, é, mamãe, mas está comprometido, vai se casar, a noiva é de Buenos
Aires…
— Nena, que é que você tem?
— É que a senhora me aborrece com essa conversa, mamãe.
— Estás muito nervosa, uma moça tão jovem e tão nervosa.
— Não sou tão jovem, e, por favor, pare com essa conversa!
— Vamos, Nena, não te aborreças comigo… Não te tranques no quarto outra
vez…

— Boa-tarde, vim a mando do Sanatório San Roque, aqui é que morava o


Senhor Juan Carlos Etchepare?
— Sim, que deseja?
— Será que não a conheço de alguma parte?
— Não sei… Quem é a senhora?
— Você é Nené. Não se lembra de mim?
— Não pode ser… Elsa Di Carlo…
— Sim, sou a dona da pensão. Vão ficar alguns dias em Cosquín?
— Não sabemos ainda… mas parece que não… deixamos as malas na
estação de ônibus.
— Tenho um quarto com duas camas, mas sente-se. Como acharam a casa?
— Me deram o endereço lá no Hospital, fui lá e perguntei onde era que Juan
Carlos havia morado nestes últimos anos.
— Escute, se quiser coloco outra caminha neste quarto de que falei e os três
poderão se acomodar, seu marido não veio com a senhora?
— Não, ficou em Buenos Aires. Mas parece que hoje mesmo seguimos para
La Falda, tem ônibus para lá?
— Sim, mas terão que se apressar. Sai dentro de meia hora.
— Sim, temos que tomá-lo.
— Que meninos tão bonitinhos, vejo que nada lhes falta na vida. Mas não
estão no colégio? Vão ficar passeando muitos dias?
— Meninos, vão um pouquinho lá para fora, que preciso falar com esta
senhora.
— Já deve saber que Juan Carlos morreu em Vallejos. Ele foi embora daqui
em fins de março, passar uns dias com a família, e não voltou mais…
— Sim, já sei, morreu há seis meses. E a senhora, faz muito tempo que está
aqui?
— Sim, montei esta pensão há alguns anos e ele veio para cá. A família lhe
mandava muito pouco dinheiro e se ele fosse pagar uma boa pensão não sobrava
nada para o tratamento. Por isso montei a pensão, mas não sabia então no que ia
me meter. O trabalho que se tem com uma pensão não acaba nunca … Mas que
estranho tirar férias em outubro, mas fez bem, pois agora tem pouca gente e não
faz frio nem calor.
— Juan Carlos se lembrava de mim?
— Sim, às vezes falava de você.
— … E gostava de você?
— Não me faça essas perguntas, Nené.
— Você sabe que eu o quis com toda alma, não sabe?
— Sei, mas ninguém tem o direito de me perguntar nada, sou uma mulher
que trabalha para ganhar seu pão e não pede nada a ninguém. Enquanto você é
uma mulher casada que tem tudo, essa a diferença. Não quero falar de Juan
Carlos, que descanse em paz.
— Não sou mais uma mulher casada. Separei-me do meu marido, por isso é
que vim para cá.
— Não sabia… e por que veio para cá?
— Nas suas cartas, Juan Carlos sempre me falava de Cosquín, de forma que
sempre tive desejo de conhecer o lugar e falar com alguém que pudesse me
contar coisas dele.
— Estava muito magro, Nené. E era sempre o mesmo, ia sempre ao bar, e no
final acabou me dando muitas dores de cabeça, embora eu não deva dizer mais
isso… Jogava muito, de resto era a única coisa que o distraía, mas você nem
pode calcular o que é minha vida aqui na pensão, tenho que cuidar de tudo,
Nené, porque senão a cozinheira começa a desperdiçar, sou eu que faço a
limpeza, as compras, em suma, faço tudo. É a única maneira de se conseguir
algum lucro nesse negócio de pensão: a dona deve fazer de tudo e estar sempre
perto. Você está me achando muito envelhecida, não é verdade?
— Bem, passaram-se muitos anos…
— Sinto muito pelo caso do seu marido… Que aconteceu? Não pode me
contar?
— São coisas que acontecem… Foi duas semanas atrás, há bem pouco
tempo, por isso vim para cá. Mas ele é que deixou o lar, de forma que não tenho
por que me preocupar.
— Há alguma mulher no meio?
— Não, mas percebeu que entre nós dois tudo já havia terminado. Agora ele
está arrependido e veio se despedir de nós no trem, mas creio que é melhor
assim. Mesmo que os meninos percam alguns dias de escola, era melhor que eu
viesse para cá, porque senão acabaria por sentir pena dele e ia ceder.
— E os meninos? Não vão sofrer com a ausência do pai?
— Pior é nos verem brigando todos os dias como gato e cachorro.
— Você deve saber o que faz.
— O único homem de quem gostei em minha vida foi Juan Carlos.
— Sobretudo no último ano ele sofreu muito, pobre rapaz… Eu tinha que me
levantar à noite para lhe mudar os lençóis empapados de suor, e lhe dar um
pijama limpo, e comida quase todo o tempo, pois ele tinha fome a qualquer hora,
mas sempre deixava o prato pela metade. Mas aqui a luta maior é com as
empregadas, porque eu lhe digo, essa gente de Córdoba é muito preguiçosa, mas
do que mais precisava era de lavadeira, porque com tanta roupa e lençóis que ele
mudava uma só não era suficiente, Nené, e eu não podia deixar ele com os
mesmos lençóis. Eu mudava seus lençóis todos os dias, por mais que isso me
custasse. Seu quarto à parte, com sua caminha turca, quer ver?
— Bem…
— Ele falava muito de você, Nené.
— E falava de outras?
— De Mabel. Também falava muito dela.
— Sim?
— Mas não queria nada com ela, dizia que era uma egoísta. Enquanto que de
você falava sempre bem, que foi você a única com quem pensou em se casar, e
isso lhe digo sem ciúmes, Nené, a vida dá tantas voltas, não é verdade?
— E que mais ele dizia de mim?
— Que você era uma boa moça e que numa certa ocasião ia se casar com
você.
— E você sabe se, nos últimos momentos, ele mostrou desejos de me ver?
Como amiga, é claro…
— Olhe… a verdade é que eu ficava aborrecida quando ele falava de garotas,
de forma que muitas ele não me dizia… Mas venha ver o quarto, pois ainda tem
de ir à estação e o tempo está passando, senão acaba perdendo o ônibus.
— Não sei se vou ou se fico.
— Não, o melhor é voltar, Nené, veja que lindo quartinho branco, não é?
Esta é a cama dele. Você não acha que o melhor é deixar tudo como está? Não
me leve a mal…
— Ele ficava muito tempo no quarto?
— Só quando estava mal… Sr. Teodoro pare um pouquinho!… Olhe, Nené,
o carro de aluguel está justamente passando, não quer tomar?
— Sim…
— Como você me achou envelhecida, não é verdade?
— Não, os anos passam para todos.
— Um momentinho, Sr. Teodoro!
— Meninos, vamos que já é tarde.
— Foi uma sorte, porque aqui tem pouquíssimos carros de praça.
— Senhora, estou com tanta vontade de ficar…
— Não, é melhor não. Nené, não quero mais falar das coisas do passado,
quero esquecer tudo o que passou.
— Gostaria que me contasse mais coisas…
— Não. Veja, estou muito amargurada, e para que iria amargurar também
você?… Um minuto, Sr. Teodoro, a senhora já vai… o senhor tem de levá-la
depressa à rodoviária …

… “— Enquanto que de você ele só falava bem, que foi a única com quem
pensou em se casar”… Senhor que estás no céu, isso terás de ouvir, é verdade
que Tu não o esqueces? “Para La Falda — 40 quilômetros” sem destino vou, até
onde? sem destino… “- E que mais ele dizia de mim?…… — Bem, que você era
uma boa moça e que houve uma ocasião em que ia se casar com você”…
comigo? pois é, comigo, que somente a ele amei em toda a minha vida, “DIRIJA
DEVAGAR — CURVA A 50 METROS” e o coração, quem dirige? porque sem
que nada nos faça pressentir ouvir-se-á um clarim distante, e aparecerão os anjos
bons no céu azul, de cabelos dourados e todos vestidos de organdi. “O QUE
CÓRDOBA TEM DE MELHOR? ÁGUA MINERAL LA SERRITA” e o melhor
do céu? logo os anjos me mostrarão, para onde me levam? a terra ficou lá
embaixo, eclipse da vida na terra, as almas já voam para o sol, de repente eclipse
do sol e fica negro o céu de Deus. Ouve-se um clarim distante, será que anuncia
que quem muito amou, pelo ser mais querido nada terá a temer? trevas sem fim
do espaço, e os anjos ainda não estão perto de mim… “GRAPA MARZOTO, A
PREFERIDA EM TODA ARGENTINA” e eu, de quem sou a preferida? serei na
morte, já que não fui na vida? as pessoas morreram, os corpos tesos dos meus
parentes ficaram lá embaixo, aquele que se beliscar quisera para de um possível
sonho despertar em vão tentaria com seus dedos de algodão ou de nuvem a pele
tocar, pois toda a carne se volatizou! e em nome desse amor e pelo seu bem
proponho uma troca a Deus, “DIRIJA devagar — CURVA A 70 METROS” se
terei de me salvar antes que ele se salve, já está perto ou longe? essas nuvens de
azeviche entrever deixam um cemitério branco, acho que o reconheço… é chão
do pampa… com florzinhas silvestres que outrora colhi, por que desígnio
estranho aqui cheguei? será este um cemitério perto do de Vallejos? junto a uma
humilde cova, no chão, está meu pai, aproxima-se de mim e me diz que em
nome de Juan Carlos e para meu próprio bem me diz adeus, com o beijo na
fronte já se afastou de mim, de braço dado com minha mãe, afastam-se ambos
passo a passo, é verdade que os vejo? seus passos poeira levantam, os mortos
recuperam seu invólucro carnal? onde estou? quem sou? quem fui? Deus
absolveu minha alma de toda culpa e carga? eu vivi entre espinhas ferida sem
conhecer um momento de amor, se Juan Carlos aproximar-se me disser
“querida” ainda sangrando me arrancará qual flor. Juan Carlos, se podes tu com
Deus falar, que esquecer-te não pude Ele te responderá… a vida, com seus pratos
sujos e fraldas e beijos de outro que tive de evitar, pretendeu a vida desse modo
teu amor apagar? mas tu, quem sabe até onde irás, quem sabe a qual de tuas ex-
noivas escolherás, preferes aquela tipa velha a mim? ou é melhor que seja ela e
não outra mais bonita do que eu? silêncio! empalidece o mundo porque ele
caminhando com passo seguro finalmente reaparece… e seu rosto não reflete a
ânsia de procurar… e não achar, vai caminhando pelas ruas desertas, a quem
procurará? eu me escondo, cheia de medo, para onde se dirigem seus passos?
aproximam-se mulheres muito bem vestidas, ele as olha e deixa-as passar, onde
estamos? por que se encontrar comigo na loja? o uniforme me fica tão mal, e eu
devia esperá-lo: … a viúva de negro lhe interrompe os passos entre duas
vitrines… ele a olha… lhe diz muito obrigado pelos teus sacrifícios… ela não o
deixa passar mas com doçura e firmeza, éle a afasta para um lado… e detrás da
vitrine aparece Celina e atrás dela Mabel muito enfeitada!… Por que Mabel está
junto dessa víbora? Celina escondida e por isso os demônios não a encontravam
mas onde ela pisa a terra treme, abre-se e envolve as duas negra labareda,
desapareceram! não me atrevo a olhar… tremem minhas mãos, sim, toda eu
tremo… por que escolheste para usar hoje essa jaqueta? meu pai ria de ti… “o
fazendeiro…” viste como fizemos mal em nos preocupar tanto? viste como no
fim acabamos juntos? essa doença em que acreditaste… uma barreira, foi apenas
um desvio que hoje nos une… tua irmã que me odiava… hoje ela já não conta,
tua mãe, que não gostava de mim, está longe… e esse imundo de Aschero, que
importância tem? tudo ficou para trás… na outra vida, meu marido? não era
mau… jamais gostei dele, meus filhos? são de Deus… com outros anjos formam
doce coro, minha mãe? já morreu e também meu pai: deixaram para nós essa
casinha… Dá-me tuas mãos, vem, toma as minhas, logo vai ficar fresco, o dia
morre… cortinas novas trouxe eu de Buenos Aires… e tu tens razão pois o
portão lembranças traz, mas sejamos prudentes e vamos para dentro, que tudo
começou com um resfriado, já não tens mais nenhum defluxo? Olha, neste
quartinho eu vivia, quando ainda era solteira… podemos passar aqui a vida que
nos resta, uma vida de amor? o que Deus quiser! Juan Carlos, estamos diante de
Deus, era isso o que o Catecismo nos ensinava, chama-se Ressurreição e a
consequência de tudo é o Juízo Final, não estás contente? Então a Ressurreição
da Carne era isto, ou será que estou sonhando? como fazer para do sonho
despertar sem sofrimento? belisco-me? meus dedos já não são de algodão
branco, não, basta de tanto medo, pois meus dedos tocam minha carne e não
estou sonhando, já que o beliscão me acordaria. Deus nos devolve a vida em
corpo e alma! é a vontade de Deus, sentes vergonha? e há fogo nas fornalhas,
minha mãe cozinhando estaria quando escutou os anjos chamarem-na com seus
clarins… Juan Carlos, surpresas tenho!… em todos estes anos em que separados
vivemos… aprendi a cozinhar’ sim, posso te preparar o que mais gostares, Juan
Carlos, me pedes que eu me deite contigo? para dormir a mais reparadora das
sestas, lembras-te que me pediste numa carta que me deitasse vestida com meu
uniforme? e esse beijo que é que significa? será permitido que me beijes? Juan
Carlos, vejo-o tão claramente nesse momento! finalmente reflito numa coisa! se
Deus te fez tão bonito é porque Ele viu tua alma tão boa e te premiou, e agora de
mãos dadas olhemos para o alto, por entre as cortinas novas, junto a esta humilde
caminha de solteiro, nosso ninho? e perguntemos a Deus Nosso Senhor se ele
nos declara, para a eternidade, eu tua mulher e tu meu marido…

— Mamãe, quero fazer pipi!


— Falta pouco para chegar, aguente mais um pouco, queridinho.
— Mamãe, não posso mais!
— Mais um pouquinho e chegaremos a La Falda, e logo que descermos do
ônibus você vai ao banheiro da estação… Aguente um pouco.
— Mamãe, eu me aborreço.
— Olhem pela janela, vejam como a serra é bonita, está vendo quantas
coisas bonitas Deus criou?
fascículo
16

Sentir,
que es un soplo la vida,
que veinte anos no es nada,
que febril la mirada
errante en la sombra
te busca y te nombra.

ALFREDO LE PERA

Aviso fúnebre

NÉLIDA ENRIQUETA FERNÁNDEZ DE MASSA faleceu no dia 15 de setembro de


1968. Seu esposo, Donato José Massa, seus filhos Luiz Alberto e Enrique Rubén
sua nora Mónica Suzana Schultz de Massa; sua neta Maria Mónica; sua futura
nora Alicia Caracciolo; seu sogro Luiz Massa (ausente), seus cunhados Esteban
Francisco Massa e Clara Massa de Iriarte (ausentes); sobrinhos e demais
parentes convidam a acompanhar seus restos ao cemitério de La Chacarita hoje,
às 16 horas.
NÉLIDA ENRIQUETA FERNÁNDEZ DE MASSA faleceu no dia 15 de setembro de
1968. A empresa Imobiliária Massa & Cia. convida a acompanhar seus restos ao
cemitério de La Chacarita, hoje, às 16 horas.

Na quinta-feira, 15 de setembro de 1968, às 17 horas, Nélida Enriqueta


Fernández de Massa deixou de existir, depois de prolongados padecimentos
oriundos de uma grave enfermidade. Contava cinquenta e dois anos de idade. Já
não deixava o leito há alguns meses, mas somente nos últimos dias vislumbrou
seu próximo fim. No dia anterior à sua morte recebeu a extrema-unção, depois
do que pediu para ficar sozinha com seu esposo.
Deixaram o quarto seu filho maior, o médico Luiz Alberto Massa, e sua nora,
a qual assistia a enferma desde que os exames revelaram um tumor canceroso na
coluna vertebral; filho e nora acompanharam o padre e seu acólito até a porta e
em seguida dirigiram-se para a cozinha, onde a neta de dois anos bebia um copo
de leite com baunilha, sob a vigilância da babá: esta lhes ofereceu café, que
aceitaram.
Quando Nené ficou só com o marido, aliviada pela morfina, mas um pouco
sonolenta, explicou-lhe com dificuldade que, na ocasião em que comprou o
apartamento onde moravam há doze anos, ao encontrar-se com o escrivão para a
assinatura de certos papéis, havia confiado a ele, secretamente, um envelope.
Este continha indicações a respeito de suas últimas vontades e algumas cartas de
trinta anos atrás. O documento estabelecia, em primeiro lugar, que ela se negava
a ser cremada e depois exigia que em seu ataúde, entre a mortalha e seu peito,
fosse colocado o maço de cartas já referido.
O dito pedido, porém, devia ser modificado no que dizia respeito às cartas.
Agora era seu desejo que no ataúde fossem colocados, na palma de uma de suas
mãos, outros objetos: uma mecha de cabelo de sua única neta, o reloginho
pulseira que ela dera de presente a seu segundo filho quando este fez a primeira
comunhão, e a aliança de casamento de seu esposo. Este lhe perguntou porque
ela lhe tirava o anel, a única coisa dela que ficaria com ele. Nené respondeu que
desejava levar alguma coisa dele, e não sabia dizer por que lhe pedia o anel em
particular, mas lhe pedia, por favor. Além disso, queria que as cartas guardadas
pelo escrivão fossem destruídas pelo seu próprio marido, pois ela temia que
pudessem algum dia ser lidas por alguém jovem e insolente, que zombasse delas.
Seu marido prometeu satisfazer todos os pedidos.
Logo em seguida entrou no quarto o segundo filho, engenheiro civil Enrique
Rubén Massa, com sua noiva, Alicia Caracciolo. Nené repetiu diante deles seu
pedido a respeito do relógio de pulso, por medo de que seu esposo o esquecesse.
Depois foi paulatinamente perdendo consciência e finalmente pediu que
chamassem sua mãe, morta anos atrás. Não voltou a recuperar o conhecimento.

Na já mencionada quinta-feira, 15 de setembro de 1968, às 17 horas, o nicho


do cemitério de Coronel Vallejos onde repousavam os restos mortais de Juan
Carlos Etchepare apresentava seus dois porta-flores habituais vazios. O zelador
acabava de tirar dos mesmos dois raminhos murchos. Uma nova inscrição fora
acrescentada às antigas, retangular, com um desenho em relevo representando o
sol nascente ou poente no horizonte do mar e tendo ao lado os seguintes dizeres:
Juan Carlos todo bondade Hoje faz vinte anos que te foste do nosso convívio tua
irmã não te esquece Celina 18-4-1967”. Os demais nichos da parede estavam
ocupados e num dos lados haviam sido erguidas mais duas paredes; entre outros,
liam-se os seguintes nomes: Antônio Sáenz, Juan José Malbrán, Leonor Saldívar
de Etchepare, Benito Jaime Garcia, Laura Pozzi de Bahos, Celedonio Gorostiaga
etc.

Na já mencionada quinta-feira, 15 de setembro de 1968,. às 17 horas, Maria


Mabel Sáenz de Catalano preparava-se para receber em sua casa o último aluno
do dia. Todas as tardes, depois de lecionar como professora do turno da manhã
num colégio particular do bairro de Caballito, dava, a domicílio, aulas
particulares a alunos das classes primárias. A campainha tocou e sua filha, Maria
Laura Catalano de Garcia Fernández, de vinte e quatro anos de idade, abriu a
porta. Entrou uma menina, estudante, que divisou num canto da sala o neto de
sua professora e pedindo licença para erguê-lo nos braços. Mabel olhou para seu
neto Marcelo Juan, de dois anos de idade, com as extremidades dos membros
esquerdos dentro de aparelhos ortopédicos, sorrindo nos braços da aluna. Havia
sido atacado de paralisia infantil e Mabel, apesar de contar com a pensão
correspondente aos seus trinta anos como professora pública, trabalhava todas as
horas disponíveis para ajudar a pagar as despesas médicas. Seu neto estava
sendo tratado pelos melhores especialistas.

Na já mencionada quinta-feira, 15 de setembro de 1968, às 17 horas, os


restos de Francisco Catalino Páez jaziam na fossa comum do cemitério de
Coronel Vallejos. Só restava o esqueleto e achava-se encoberto por outros
cadáveres em diferentes graus de decomposição, o mais recente dos quais ainda
conservava a mortalha em que eram envolvidos antes de serem jogados na fossa.
Esta encontrava-se coberta por uma tampa de madeira que os visitantes do
cemitério, especialmente as crianças, costumavam levantar para olhar o interior.
A mortalha desfazia-se pouco a pouco em contato com a matéria putrefata e
dentro em pouco se veriam os ossos nus. A fossa comum estava localizada no
fundo do cemitério, ao lado das mais pobres sepulturas cavadas no chão; uma
tabuleta de metal indicava “Ossário” e diferentes espécies de arbustos cresciam
em seu redor. O cemitério, muito afastado do povoado, tinha a forma de um
retângulo e era todo cercado por ciprestes. A figueira mais próxima erguia-se
numa chácara situada a pouco mais de um quilômetro, e, devido à época do ano,
encontrava-se carregada de brotos de um verde-claro.

Na já mencionada quinta-feira, 15 de setembro de 1968, às 17 horas, Antonia


Josefa Ramírez, viúva de Lodiego, trasladava-se em charrete da sua chácara para
o centro comercial de Coronel Vallejos, distante quatorze quilômetros.
Acompanhava-a sua filha Ana Maria Lodiego, de vinte e um anos de idade.
Dirigiam-se às lojas para continuar as compras para o enxoval da moça, que em
breve iria se casar com um boiadeiro vizinho. Raba estava muito alegre por ir ao
povoado, onde viviam seus quatro enteados, já pais de onze crianças que a
chamavam de avó. Sua maior satisfação, porém consistia em visitar seu filho
Pancho, instalado num chalé de construção recente. Raba perguntou a Ana Maria
se seria mais conveniente comprar os lençóis e as toalhas na “Casa Palomero” ou
no “Ao Barato Argentino”. Sua filha respondeu que não compraria o que era
mais barato, mas o de que mais gostasse, em lençóis e toalhas não queria
economizar. Raba pensou em Nené, a antiga encarregada dos embrulhos, a quem
não via desde que fora despedir-se dela no trem, em Buenos Aires, trinta anos
atrás? Pensou que se Nené estivesse em Vallejos a convidaria para o casamento
de sua filha Depois pensou em Panchito e na bolsa de legumes e na caixa de
ovos que iria lhe levar de presente. Panchito tinha uma casa nova e Ana Maria
estava prestes a se casar, pensou com satisfação Raba. Essa noite jantaria em
casa de Panchito e ela não seria considerada uma carga, porque levava bons
presentes. A charrete deu um solavanco, devido a uma poça d'água na estrada.
Raba olhou a caixa de ovos, sua filha recriminou-a por ter trazido tão grande
quantidade. Raba pensou que Ana Maria tinha inveja da casa de Panchito: tudo
andava bem desde a entrada do rapaz para a oficina mecânica. O dono lhe tinha
grande apreço e sua filha apaixonara-se por ele. Claro que Panchito, considerado
entre as pequenas do povoado como um bonitão, pelo seu físico atlético e seus
grandes olhos negros poderia ter escolhido para esposa uma moça mais bonita,
mas a filha do proprietário mostrara ser uma ótima dona de casa. Não era muito
bonita, tinha um pequeno defeito na vista, mas nenhum dos três belos meninos
havia nascido vesgo como a mãe. A casa de Panchito fora construída por seu
sogro nos fundos da construção onde se erguia, junto à calçada, a oficina
mecânica. Como presente de casamento, a escritura havia sido passada em nome
do casal.

De volta ao seu apartamento, após sua entrevista com o escrivão, Donato


José Massa sentia-se muito cansado. A casa estava as escuras. A empregada
havia se retirado às três horas da tarde, como de costume, e seu filho menor só
voltaria mais tarde. Apesar de ter insistido muito com ele, seu filho maior não
aceitara permanecer com a esposa e a filha na casa, como durante os últimos
meses da enfermidade de Nené. Esse primeiro ano era o mais difícil de enfrentar
— pensou o senhor Massa e depois seu filho solteiro se casaria e traria a esposa
para morar nesse apartamento grande demais para apenas dois homens sozinhos.
Acendeu a lâmpada de um velho abajur com tela de tule e sentou-se no sofá da
sala. O grupo em tecido francês não estava protegido pelas capas de fazenda lisa,
de cor marrom. Para evitar que se sujassem, Nené só tirava as capas em ocasiões
especiais. Sua nora as havia tirado na noite do velório e não voltara a colocá-las.
O senhor Massa tinha um envelope na mão. Abriu-o, dentro havia dois maços de
cartas: um atado com fita azul e outro com fita cor-de-rosa. Notou que o de fita
cor-de-rosa tinha a letra de Nené… Desatou o maço de fita azul e abriu uma das
cartas, mas só leu umas poucas palavras. Pensou que Nené sem dúvida
desaprovaria essa intromissão. Olhou para os sofás, pareciam novos e quase não
se viam as manchas de café e licor feitas na noite do velório. A casa estava em
silêncio. Que Nené havia deixado na casa um vazio que ninguém encheria.
Recordou os dois meses em que estiveram separados, por causa de um penoso
incidente, muitos anos atrás. Não se arrependia de ter superado todo o orgulho e
ter ido buscá-la em Córdoba, onde ela havia se refugiado com os dois filhos.
Diante do incinerador de lixo do andar, instalado ao lado do elevador, colocou as
cartas no envelope e jogou-as pelo tubo negro.
As cartas atadas com a fita cor-de-rosa caíram no fogo e se queimaram sem
se espalhar. Ao contrário, o outro maço de cartas, sem a fita azul que as unia,
encrespava-se, ao pegar fogo, e espalhava-se pelo incinerador. As folhas se
soltavam e a chama que havia de enegrecê-las e destruí-las antes disso as
iluminava fugazmente “… amanhã a semana já termina…” “… que desconfiasse
das louras, que conselhos vais pedir ao travesseiro?… “uma lágrimas de
crocodilo…” “… quem vai, no cinema te comprar os caramelos?… “… nada de
maus passos, pois vou saber logo…” “… te beija até que digas basta, Juan
Carlos” “… e acabo ficando doente de verdade, de tanta raiva que tenho…”
“quando uma cama se desocupa é porque alguém morreu…” “… Te juro, loura,
que me conformarei em te dar apenas um beijo…” “não digas nada a ninguém,
nem mesmo em tua casa, que vou voltar sem completar o tratamento…” “…
hoje vou fazer uma promessa, de que me portarei bem de verdade…” “…
Boneca, o papel está acabando…” “…porque agora sei que te quero muito…”
“… veja só, loura, só de falar um pouco com você me sinto melhor, calcule
quando eu te vir…” “… te amo como jamais amei alguém…” “… existe também
um hospital em Cosquín…” “… logo que tenha notícias tuas voltarei a te
escrever …” “… você também está longe…” “… mas cada vez que leio tua carta
a confiança me volta…”